Issuu on Google+


LISTENABLE.NET | SHOP.LISTENABLE.NET JOIN US facebook.com/listenablerecs

ACHERON ‘KULT DES HASSES’ OUT ON CD, LTD EDITION LP & DIGITAL MERCH BUNDLES VIA LISTENABLE.NET

Fantastic comeback from the true Lords of Evil Death! “A truly fantastic return. Highly memorable songs with a classic Heavy Metal flavour to the Satanic Death/black riffing. Utterly awesome!” Dan Swanö ACHERON have delivered a serious contender for the genres best album of 2014!

Popular for their incendiary shows, KAYSER enforces the pillars of metal with absolute authority. Hammering blistering and catchy riffs one after another through muscular songwriting! 1000% METAL! OUT on CD and DIGITAL DOWNLOAD

Mos Generator ‘Electric Mountain Majesty’ Available on CD and LP. “If there’s such a thing as fusing some soul into a doom palette, MOS GENERATOR has achieved that. Seldom will you hear an unambiguous merge between the two outside of BLACK SABBATH’s “Sabotage” BLABBERMOUTH

‘Hovering Satellites’ Ltd Ed 7” Coming in April! New album coming soon

LTD EDITION DIGIPACK LTD EDITION COLOURED VINYL

UK TOUR MARCH 2014

MAR 11 FLEECE, BRISTOL MAR 12 SOUND CONTROL, MANCHESTER MAR 13 ISLINGTON ACADEMY, LONDON MAR 14 HAMMERFEST, WALES MAR 15 LIBRARY, BIRMINGHAM

‘BURIAL GROUND’

IMMOLATION ‘Harnessing Ruin’ LTD DIGI CD & LP

IMMOLATION ‘Shadows In The Light’ LTD DIGI CD & LP

BRAND NEW ALBUM FROM THE LEGENDARY DEATH METAL BAND COMING SOON

SOILWORK ‘The Chainheart Machine’ and ‘Steelbath Suicide’

LIMITED EDITION 180 GRAM VINYL 250 X WHITE/ 250 X TRANSPARENT FOR EACH ALBUM

LOW PRICES AND RARE METAL HERE! SHOP.LISTENABLE.NET


VERSUS MAGAZINE VERSUS Magazine c/o Ernesto Martins Av. Dr. Lourenço Peixinho, 312 6ºEsq. 3800-163 AVEIRO Portugal Telem.: 918 481 127 E-Mail: versusmagazinept@gmail.com Facebook: Versus Magazine - Official Facebook Group: Versus Magazine PUBLICAÇÃO BiMESTRAL Download Gratuito DIRECÇÃO Ernesto Martins André Monteiro GRAFISMO A.Monteiro - Design & Multimédia www.amonteiro.net ILUSTRAÇÃO Eyeless Illustrator facebook.com/eyeless.illustrator EQUIPA André Monteiro Adriano Godinho Carlos Filipe Cristina Sá Daniel Guerreiro Dico Eduardo Ramalhadeiro Emanuel R. Marques Ernesto Martins Jorge Castro Joey Luís Jesus Patricia Marques Paulo Eiras Paulo Martins Sérgio Pires Sérgio Teixeira Victor Hugo FOTOGRAFIA Créditos nas Páginas PUBLICIDADE geral@versus-magazine.com

Todos os direitos reservados. A VERSUS MAGAZINE está sob uma licença Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Não a Obras Derivadas 2.5 Portugal. O utilizador pode: copiar, distribuir, exibir a obra Sob as seguintes condições: Atribuição - O utilizador deve dar crédito ao autor original, da forma especificada pelo autor ou licenciante. Uso Não-Comercial. O utilizador não pode utilizar esta obra para fins comerciais. Não a Obras Derivadas. O utilizador não pode alterar, transformar ou criar outra obra com base nesta.

Depois da remoção da página de Facebook pertencente aos franceses Benighted, alegadamente por terem exibido a capa do seu último álbum («Carnivore Sublime») que mostra, despudoradamente (!), um seio feminino desnudado, foi com algum receio que optamos pela foto de capa da presente edição da VERSUS Magazine. É que, se um simples seio dá lugar a expulsão permanente da rede social maior do mundo, mostrar dois seios deve ser infracção duplamente gravosa, portanto merecedora de punição bem mais severa. Mas se por acaso estão a ler estas linhas é talvez porque a pudica administração do Facebook não recebeu ainda a devida denúncia de tão chocante atentado à decência, o que permitiu (até ver!) que a notícia da publicação da nossa edição #29 fosse disseminada. Ainda bem. Isto de viver num mundo que se indigna por causa de protuberâncias mamárias mas que, por outro lado, fica impávido e sereno perante a exibição de coisas como armas de fogo, símbolos nazis, atrocidades perpetradas em animais e outras irracionalidades da mente humana, tem muito que se lhe diga. E depois deste desabafo deixo-vos com mais uma grande edição da nossa e vossa VERSUS Magazine, esperando pelo vosso feedback na nossa página do Facebook. Isto se a página ainda existir!... Ernesto Martins


Depois de ouvir um álbum tão belo, senti realmente vontade de vos fazer algumas perguntas sobre ele. E, apesar do seu tema central ser a futilidade da vida, duvido que alguém veja a vossa banda como algo… fútil! Como se reuniram? Matthias Jell – Já nos conhecíamos das outras bandas de que fazemos ou fizemos parte, porque nos encontrámos em vários concertos. Durante bastante tempo, fomos congeminando planos vagos para fazermos música juntos e, quando abandonei Dark Fortress, em 2007, senti que tinha chegado a hora de dar corpo a esse projeto. Portanto, contactei o Marcus [E. Norman, que acumula as funções de guitarrista, baixista, teclista e programador da banda] e, em setembro desse ano, encontrámo-nos em Umea (Suécia), para escrever as primeiras três canções de Eudaimony: “Ways to Indifference”, “Cold” e “A window in the attic”. O Jörg [Heemann, baterista] e o Peter [Honsalek, responsável pelo piano e pela viola de arco] ouviram-nas, gostaram do que ouviram e decidiram juntar-se a nós. Por que é tão frequente agora que membros de diversas bandas se juntem para formar outras bandas? Penso que é um processo natural. É mais fácil as4

Carregando o far

Matthias Jell, vocalista e mentor d nalidade do tratamento que a sua futilidade da vida, que lhe aprouve De forma ponderada, mas ta membro de Dark Forest disco varam a mudar de rumo e os da, que partilha com outros “ sim. Como já disse, encontramo-nos em concertos, conhecemo-nos uns aos outros, estamos cientes das nossas competências em termos musicais e dos nossos gostos. Portanto, é mais fácil lidar com essas pessoas que conhecemos por dentro e por fora do que com outras que não conhecemos e que não nos conhecem, nem sabem o que realmente queremos exprimir com a nossa música. As bandas de que fazem ou fizeram parte são todas excelentes. O que podem exprimir com Eudaimony que não podiam fazer com essas outras


rdo da futilidade

de Eudaimony, fala-nos da originova banda soube dar ao tema da e abordar no seu álbum de estreia. ambém desassombrada, o exorre sobre as razões que o les planos que tem para a ban“ilustres” do mundo do metal. bandas? Era muito importante para nós criarmos algo completamente diferente das nossas bandas principais ou daquelas em que tínhamos estado. Quero dizer com isto que um novo projeto musical não faria sentido para nós, se fosse uma mera cópia dessas outras bandas. Era claro para nós que queríamos criar música lenta, desolada e triste com Eudaimony. Cremos que este nosso projeto musical está bem longe do Black Metal. Eudaimony não respeita regras nenhumas. É apenas um meio de expressão para nós, um instrumento com o qual podemos fazer tudo o

que quisermos. Por que é que a vida tem de ser fútil? Muito simplesmente por que o é efetivamente. Assim que nascemos e vamos ocupar o nosso lugar neste mundo e nesta sociedade podres, o relógio começa a trabalhar contra nós. Todos desempenhamos os nossos papéis no dia-a-dia tão bem quanto possível. Mas este teatro só nos leva a um grande fim: a morte. Não será a ideia de que a vida é fútil uma consequência direta do facto de que os humanos têm tendência para esquecer que a morte faz parte da vida, que uma não pode existir sem a outra? A morte pertence à vida. Está sempre presente, em cada respiração, em cada passo. Mas a maioria dos humanos tem medo do desconhecido e procede como se a morte não existisse. De certo modo, essa omissão torna as suas vidas insignificantes mais fáceis. Quem compôs a vossa música, tão bela e deprimente? Que características do vosso som geram a sua atmosfera especial, simultaneamente sonhadora e desencantada? É o Marcus que compõe toda a nossa música. Eu 5


“[…] Era claro para nós que queríamos criar música lenta, desolada e triste com Eudaimony. […]” escrevo as letras. Esse conceito negativo baseia-se em ideias minhas. Expliquei ao Marcus o que queria exprimir com as minhas letras e ele fez um trabalho magnífico, transpondo para música essas minhas ideias. Que lugar cabe à viola de arco (um instrumento aparentemente tão afastado do metal) no vosso universo musical? Dá à nossa música uma atmosfera ainda mais triste e desesperada. Bandas como Empyrium ou My Dying Bride mostraram já, de forma inequívoca, que a viola de arco se adapta perfeitamente a este tipo de música. Será que os teus vocais não são um pouco ásperos demais para algo que trata da futilidade da vida? De modo nenhum! Os meus gritos exprimem todo o negativismo dos meus sentimentos e penso que é algo que todos gostaríamos de poder fazer, quando nos sentimos abatidos e deprimidos – apenas gritar para afastar tudo o que é negativo do abismo da nossa alma. 6

Quem fez a filosófica capa do vosso álbum? Calculo que trata da morte, que normalmente nos faz pensar na futilidade da vida. Toda a arte do álbum foi feita por Ben Borucki (www. irrleuchten.de). É um velho amigo meu, que toca na banda alemã de Black Metal chamada Sonic Reign. Eu expliquei-lhe o conceito e as visões que tinha em mente e ele adorou a ideia. Na minha opinião, criou algo notável. Não penso que encontres frequentemente arte desta qualidade no universo do metal. Não te parece que o público em geral, que normalmente considera a arte como algo fútil (ainda por cima em tempos de crise como os que vivemos atualmente), vai ver o título do vosso álbum como uma redundância? Não, de certeza. No entanto, tenho de admitir que não me preocupa mesmo nada o que as pessoas em geral possam pensar da nossa arte. A coisa mais importante para qualquer artista é sentir-se realizado com as suas criações. E foi com essa finalidade que criámos este álbum.


“Eudaimony […] representa a completa felicidade da alma humana, que nós vemos como algo impossível de atingir.” Tencionam fazer concertos? Terão disponibilidade para o fazer, em simultâneo com o trabalho nas vossas outras bandas? Não temos nenhuns planos dessa natureza. E não penso que isso venha a acontecer. Não tem nada a ver com o trabalho que possamos ter nas nossas outras bandas. Muito simplesmente, não conseguimos imaginar-nos a tocar as frágeis e glaciais composições de Eudaimony num palco, diante de uma horda embriagada de metaleiros aos gritos, que só querem fazer headbanging. Não estamos a ver Eudaimony em festivais com bandas de Thrash, Death ou puro Black Metal. Não seria adequado. Além do mais, seria extremamente dispendioso, porque vivemos todos em lugares afastados uns dos outros, desde o Sul da Alemanha até ao Norte da Suécia. Teríamos de ensaiar previamente e, tendo em conta os custos das viagens, não me parece que algum promotor de concertos estivesse disposto a pagar tudo isso a uma banda que, até agora, apenas lançou um álbum.

O que significa o nome da banda? Somos todos muito cínicos. Por isso, pareceu-nos que precisávamos de um nome cínico para a banda, que contrastasse com todo o seu negativismo. Eudaimony é uma palavra que vem do Grego clássico e que representa a completa felicidade da alma humana, que nós vemos como algo impossível de atingir. Entrevista: CSA FACEBOOK www.facebook.com/eudaimony VIDEO www.youtu.be/pjPheu8OO58

7


Tão perto do sol Fazer um álbum “normal” e interessante de Stoner Psicadélico é difícil. Fazer um álbum totalmente instrumental do mesmo género é estupidamente complicado. Os Monkey3 conseguem-no! «The 5th Sun» é um muito interessante e cativa-nos desde o primeiro ao último instante. Monotonia não faz parte do dicionário destes Suíços. Para já, Icarus não queimou as asas…! Boris conversou um pouco com a VERSUS Magazine… Antes de mais, parabéns pelo novo álbum. Já faz algum tempo que saiu «The 5th Sun» - Outubro de 2013 e após estes 3/4 meses como foi a receção ao álbum pelos fãs e impressa? Boris: O álbum foi muito bem recebido pela imprensa e fãs. Já demos muitos concertos de suporte a «The 5th Sun» e os novos temas parecem resultar muito bem ao vivo. O que é mais importante! Tenho que ser honesto: não ouço muitas vezes bandas Suíças, com exceção, talvez…. Gotthard. Quão difícil foi para vocês singrarem no vosso país? Tenho de admitir que no início foi muito difícil. Que eu tenha conhecimento não havia muita escolha no que diz respeito ao Stoner Psicadélico. Desde o princípio que encontrámos uma editora na Bélgica e começamos a viajar pelo resto da Europa. Basicamente, para crescermos e obtermos o reconhecimento tivemos que sair primeiro da Suíça e depois voltar. É estranho mas foi assim que resultou connosco. Que bandas Suiças mais aprecias e recomendas? 8

Os Young Gods e os Samael são duas grandes bandas Suíças e recomendo, também, uma banda de Lausane chamada Kruger “Icarus”tem 14m35s! São dois ou três temas combinados de um modo tão perfeito que não nos sentimos aborrecidos ao ouvi-la. (Acho este um dos grande problemas das bandas instrumentais: muitas vezes aborrecemonos). Como é que conseguem manter a vossa música interessante? Pode-nos contar mais um pouco do tema que considero ser o melhor do álbum? Se bem me lembro, “Icarus” foi um dos últimos temas a ser escrito. É uma mistura de duas jams que fizemos. Fizemolo um porque tinham um ambiente e melodias muito parecidas. Acabou por sair um tema longo que atravessa diferentes atmosferas e é isso que procurámos. Decidimos que seria o tema de abertura porque sentimos que seria um bom ponto de partida para definir o ambiente do álbum Como uma banda instrumental como é que o vosso processo de criação? Os Monkye3 têm um compositor principal ou a música resulta das vossas jams?


Basicamente, para crescermos e obtermos o reconhecimento tivemos que sair primeiro da Suíça… Nós fazemos bastantes jams e quando já temos bastantes ouvimos tudo outra vez. Quando algo começa a soar interessante e inspirador começamos a trabalhar nesses riffs ou ideias de forma a criarmos algo que faça sentido para nós. Um tema está finalizado quando toda a banda ficar satisfeita. O trabalho de composição é, na realidade, um esforço colectivo. Todos nós trabalhamos no duro… como um só.

12 anos, Picasso deixou a banda. O que é que precipitou tal decisão? Não houve qualquer disputa ou desentendimento. Ele simplesmente decidiu deixar de tocar música e mudar o seu modo de vida.

No dia 5 de Março vocês vão atuar no Porto. O que podemos esperar desse concerto e como está a correr a vossa tournée? Vocês combinam alguns estilos e influências num ex- A torunée está a correr muito bem, grande público e celente ambiente sónico. Quais são as vossas principais grandes ambiente! No dia 5 podem esperar um grande e influências e como é que defines a vossa música? potente concerto. Vejo-vos por lá! Nós somos influenciados não só por artistas ligados ao Rock, tais como Pink Floyd, Led Zeppelin, Black Sabbath ou J. Hendrix mas também por compositores ligados ao Entrevista: Eduardo Ramalhadeiro cinema como Ennio Morricone. Diria que tocamos música Rock com variações Psicadélicas e Stoner. - We are mostly influenced by classic-rock acts such as Pink SITE OFICIAL Floyd, Led Zeppelin, Black Sabbath, Hendrix…but also by www.monkeythree.com movie composers such as Ennio Morricone. I would say that we play rock music with a psychedelic and stoner twist VIDEO to it. www.youtu.be/sbFqdgRk_oE Enquanto preparava a entrevista, apercebi-me que, após


10


Sammath - Godless Arrogance cd/lp/digital

Rauhnåcht - Urzeitgeist cd/lp/digital

SAmmATH PLAyS ExTREmE INTENSE bLACk mETAL THAT SHREDS! ALL PUSSIES RUN & HIDE!

ExCELLENT ALPINE bLACk mETAL FULL OF PAGAN mELODIES, FOR FANS OF FALkENbACH!

Serpent Eater - Hyena cd

Emperor - As The Shadows rise lp & cd

mAkES FANS OF bLACk bREATH, NAILS, PIG DESTROyER, mISERy INDEx ExTREmELy HAPPy!

THE MONOLITH DEATHCULT - DELUXE LIMITED VINYL BAG LP BAG TRIvmvIRATE 2-LP & TETRAGRAmmATON 2-LP & ObLITERATION OF THE DESPISED LP vINyL bAG & LOGO SHIRT! EACH ALbUm IS AvAILAbLE ON vINyL SEPERATE TOO!

ON 12” mINI-LP PLUS CD-SINGLE, CLASSIC 1992 NORwEGIAN bLACkNESS!

Iron Angel - The Vinyl Bag LP Bag

HELLISH CROSSFIRE LP & wINDS OF wAR LP & ExCLUSIvE bONUS: LIvE IN bOCHUm LP! HELLISH CROSSFIRE & wINDS OF wAR ARE AvAILAbLE ON CD AND LP SEPERATE TOO!

FREE SHIPPING FOR ALL CD’S IN OUR STORE!

www.HAmmERHEARTRECORDS.bIGCARTEL.COm (CHECk OUT OUR ExCLUSIvE vINyLS AND PACkAGE DEALS!) www.HAmmERHEART.COm /HAmmERHEARTRECORDS /HAmmERHEART666


Satanás é quem domina? Acheron são uma banda já com mais de 20 anos de existência e contam já com mais de uma dezena de trabalhos entre originais, EPs, compilações o que espelha o calo que estes senhores têm nos meandros do metal. Há no entanto uma característica particular sobre a qual não pude deixar de questionar o mentor do projeto e que se prende com a sua passagem pela Igreja de Satanás. Só isso já é motivo mais que suficiente para captar a atenção mas é claro a componente musical não ficou esquecida. Convido os leitores a lerem as repostas de Vincent Crowley a algumas questões para a Versus Magazine. 14


Tanto quanto me foi facultado, esta é a primeira vez que entrevisto alguém que foi efetivamente sacerdote na Igreja de Satanás. Claro que tenho de perguntar, qual foi a tua experiência nessa altura? Como é estar numa cerimónia Satânica? Vincent Crowley: Foi uma época muito interessante quando eu era ainda membro. Tive a oportunidade de conhecer gente única e de fazer parte de alguns encontros “bazar”. A Igreja de Satanás não é na realidade uma “igreja”. Nessa altura era um “think-tank” catalisado por membros que partilhavam o mesmo interesse pelo Satanismo de LaVeyian. Todos os rituais ou reuniões de grupo eram realizadas em ambiente privado por aqueles que queriam fazer parte. Se trabalhares com as pessoas certas, as cerimónias podem ser realmente poderosas e mágicas. O que é que surgiu primeiro na tua vida, o Satanismo, a música negra ou ambos ao mesmo tempo? VC: Eu era uma criança muito rebelde criado num lar Cristão, portanto a ideia de Satanismo sempre me interessou desde cedo. Mas também a música obscura. Ambas atraíram a minha atenção desde cedo. Achas que o Mundo estaria melhor nas mãos de Satanás em vez de estar nas mãos de Deus? Se atualmente está nas mãos de Deus, muitas pessoas questionam-se o que é que Deus andará a fazer, certo? Presumo que na tua opinião “Satan holds dominion”. VC: Não acredito nem em Deus nem em Satanás. Pelo menos segundo uma perspetiva bíblica. Não embarco nas histórias de divindades. Satanás para mim é uma representação do eu e dos elementos negros da natureza com os quais se identificam os do Caminho da Mão Esquerda. A Terra está nas mãos da humanidade e nós não estamos a fazer um bom trabalho. Neste mundo apenas a ideologia Satânica nos pode salvar. Na história recente da banda houve um hiato de cerca de 7 meses. É relativamente curto para uma separação seguida de reunião. Queres deixar umas palavras sobre esse período? VC: Foram apenas um conjunto de causas distintas que originaram as tensões dentro da banda. Exagerei um pouco quando saí da banda. Foi sobretudo a falta de apoio da nossa editora na altura. O meu baterista Kyle e eu conversamos sobre toas estas questões e decidimos continuar com a banda mas apenas para fazer alguns concertos e não para andar à procura de uma editora. Portanto durante cerca de 2 anos apenas fizemos apenas atuações. Mais tarde gravamos 2 temas para uma demo. Foi quando en-

viamos esse trabalho para a Listenable Records e assinamos com eles. O vosso mais recente (e excelente) álbum «Kult des Hasses» saiu no início de 2014, 5 anos após anterior de originais. Em que é que os elementos da banda andaram neste período envolvidos? VC: Esta banda vai sempre manter o espírito de Acheron na sua música. Mas cada álbum é único nas suas especificidades. Este álbum é uma sequência natural do nosso trabalho anterior. Julgo que é um álbum que tanto os fãs mais antigos como os mais recentes irão apreciar. E o nosso som presta homenagem aos finais dos anos 80, inícios dos anos 90. O Jacob Shively acabou de entrar para a banda para as atuações ao vivo; foi uma adaptação fácil para todos? VC: Sim. O Jacob está a trabalhar muito bem. Ele encaixa na banda na perfeição. Há um tema chamado “Concubina do diabo” que é um título escrito em Português; porque é que usaram Português neste caso particular quando o restante do álbum está escrito em Inglês? VC: Foi apenas para prestar homenagem aos nossos fãs Brasileiros. Temos tido um enorme apoio dos metaleiros maníacos no Brasil! Normalmente toda a gente diz que o último álbum é sempre o melhor. Também achas que «Kult des Hasses» é o vosso melhor trabalho? Como é que foi todo o trabalho de composição, gravação e produção? VC: Claro! (Ha, Ha!) Acho que tem temas verdadeiramente memoráveis que os nossos fãs vão gostar. Foi muito trabalhoso mas o resultado final foi o que queríamos. E ter o Dan Swanö a misturar e masterizar o álbum foi um final perfeito. Estás a planear atuações na Europa? VC: Sim, estamos a preparar algumas atuações para Maio de 2014 se tudo correr bem. Algumas palavras adicionais para os nossos leitores? VC: Hails para todos os apoiantes dos Acheron! Esperamos que todos agarrem o nosso álbum «Kult des Hasses» da Listenable Records e que compareçam nos nossos espetáculos quando passarmos pela vossa localidade. Mantenham o fogo infernal a arder! Ad Maiorem Satanae Gloriam! Entrevista: Sérgio Teixeira 15


O génio das montanhas Bem podemos apelidar assim Stefan Traunmüller, o único homem por trás de Rauhnåcht. Numa interessante conversa – em que se discutiu, entre outros tópicos, vários períodos da história do Black Metal, de uma possível relação com a música clássica e com o folclorismo típico do Romantismo como corrente estética – o músico austríaco elucidou-nos sobre o que pretende para a sua banda e a forma como a vê atualmente. Como sou uma grande fã de Black Metal, sinto-me perpetuamente surpreendida pela faceta camaleónica deste género e pela forma como os seus cultores tiram proveito da vasta herança neste domínio. A tua música fazme pensar em Bathory, Falkenbach, Imperium Dekadenz, entre outros, mas, ao mesmo tempo, é completamente distinta da deles. Quem te influenciou? 16

Stefan Traunmüller – Quando eu tinha 14 anos, descobri a segunda vaga do Black Metal com bandas como Emperor ou Burzum e, mais tarde, Satyricon e Dimmu Borgir. Também era um grande fã de Bathory e ouvia música das primeiras bandas que incorporaram o som dos teclados no Metal extremo como Tiamat ou My Dying Bride. Ainda hoje me sinto emocionado, quando ouço a

música de que gostava há 20 anos, pelo que penso que estas bandas “patrocinaram” os meus primeiros passos na composição musical. Já me ia esquecendo de dizer que gosto muito de música clássica e que ouvir compositores como Prokofiev ou Gustav Holst pode ser muito inspirador para que escreve música na área do Metal. Apesar destas influências, penso que bem cedo consegui encontrar


o meu próprio estilo, que já está patente nos primeiros trabalhos da minha primeira banda: Golden Dawn. Na verdade, não me sinto ligado de modo nenhum ao Metal extremo moderno. Portanto, posso dizer que, atualmente, toda a música que escrevo resulta exclusivamente das minhas emoções e é influenciada pela natureza e pela própria vida. Pensas que há alguma relação entre Rauhnåcht e Summoning (como a Hammerheart sugere na informação sobre a tua banda)? Estou consciente do facto de que é importante para as editoras compararem as suas bandas a outras que são populares (que vendem muito), mas nunca pensei sequer em Summoning, quando estou a compor a minha música. Com Rauhnåcht pretendo criar uma atmosfera majestosa e digna, semelhante ao que sentes quando passeias por florestas ou nas montanhas durante horas a fio. Por conseguinte, talvez a minha música se pareça com a de outros artistas que querem exprimir emoções do mesmo quilate. O que te ficou da tua passagem por Wallachia, uma outra grande banda que já entrevistei? Conheço o Lars [Stavdal] desde os anos 90. Vivemos o mesmo processo de desenvolvimento musical e sinto-me profundamente ligado à música que ele faz. É como se falássemos a mesma língua. Veio à Áustria, para produzir os dois últimos álbuns de Wallachia comigo. Entendemo-nos às mil maravilhas e ambos nos damos muito bem com o baterista de sessão. Juntos sentimo-nos muito criativos, pelo que está previsto que eu colabore também na produção do próximo álbum da banda dele. O Lars escreve toda a música, mas eu posso dar largas à minha criatividade nas partes orquestrais e nos teclados e também ajudo a fazer os arranjos.

Portanto, também sinto que faço parte da banda. Por que chamas à tua música “Alpine Black Metal”? Desde os anos 90 que todas as bandas escandinavas rendem homenagem à poderosa natureza dos seus países na sua música. Assim, eu lembrei-me de exprimir musicalmente o espírito da região em que vivo: os Alpes. Na minha zona, temos tradições e mitos muito especiais, intimamente ligados à rudeza das nossas montanhas. Às vezes, subo a uma montanha com

o meu gravador portátil e alguns instrumentos exóticos, tais como sansula, refugio-me numa gruta e vou gravando o que me vem à cabeça. Assim, sinto mais intensamente o espírito da montanha. Depois vou para casa e produzo Alpine Black Metal. É tão simples como isto. Foi Christophe Szpajdel que criou o logo da tua banda, que é realmente muito alpino? Não, foi criado por Moga Alexandru, um artista romeno muito talentoso. O seu gabinete de design


“[…] Com Rauhnåcht pretendo criar uma atmosfera majestosa e digna […] [exprimindo] o espírito da região em que vivo […]” chama-se Kogaion Art. Posso dizer que a tua banda nasceu de uma estética romântica, já que o tipo de Metal que fazes visa exprimir as idiossincrasias da cultura em que te integras? Sim, parece-me que o termo romântico está adequado à minha arte. Aliás, até já usei partes de poema da era romântica. Nessa época, a natureza, a tradição, a mitologia, as emoções, a eterna demanda das razões subjacentes à criação eram as pedras de toque de todas as artes. Também se prezava o individualismo, que surgia como uma antítese da sociedade, algo que eu também prezo muito. Não ponho em prática nenhumas tradições dos meus antepassados ou algo desse género, apenas me sirvo dessas tradições para expressar, através da minha música, o laço que une o Homem à Natureza. É isto que eu sinto, quando leio os antigos mitos da região alpina, e este espiritualismo associado à natureza é a base da criação em Rauhnåcht. Como crias a tua música? Fazes tudo sozinho na banda? De facto, Rauhnåcht nasceu, quando eu ouvi pela primeira vez a música de Sturmpercht, uma banda folk alpina arcaica. Fiquei impressionado com a atmosfera que criavam e escrevi os primeiros temas de Rauhnåcht com base em samples de Sturmpercht. Para fazer o primeiro álbum, também gravei sons ambientais numa gruta, com a ajuda de uns amigos. Para «Urzeitgeist», fiz tudo sozinho, o que foi um grande desafio, já que não podes contar com ninguém, nem com nenhuma opinião (para além da tua) que evite que te percas durante o processo de produção. Por outro lado, trabalhar sozinho tem 18

a vantagem de te permitir criar um álbum verdadeiramente pessoal. Estou habituado a trabalhar com muitas bandas, porque sou produtor e tenho o meu próprio estúdio de gravação. Nessas circunstâncias, tenho de fazer o que os outros me pedem. Mesmo assim, muitas vezes ponho algumas das minhas melhores ideias e arranjos ao serviço de outros, que tiram proveito desse material intelectual e o integram na sua própria música. Este processo é um tanto frustrante para o ego. Também por esta razão sinto a necessidade de ter os meus projetos pessoais, em que só a minha vontade e a minha criatividade se manifestam.

que qualquer idiota é capaz de fazer.

Parece-te que este novo álbum é muito diferente do primeiro? Se assim for, onde vês a diferença? O meu álbum de estreia tem um som mais rude, mais primitivo. Este está mais polido e apresenta mais riffs melódicos característicos do Black Metal. Pessoalmente, considero o álbum de estreia mais “especial”, enquanto «Urzeitgeist» apresenta um som mais melódico e variado. O meu EP de 2012 – «Waldeinsamkeit» – funcionou como uma espécie de ponte entre os dois álbuns.

Que lugar queres conquistar para ti na cena metal austríaca? Nunca penso nisso. Não quero fazer parte de nenhuma cena, nem como músico, nem pessoalmente. Não vale a pena seguir tendências, modas. É bem melhor criar as nossas próprias tendências. Além disso, também não me sinto nada atraído pelo estilo de vida que muitos jovens músicos de Metal levam. O que realmente conta para mim é poder fazer a música de que gosto e assim sentir-me realizado. Fico muito feliz, quando encontro almas gémeas da minha.

A capa do teu álbum é muito “old school” no estilo do Black Metal style. Foste tu que a criaste? Não, também é um trabalho da Kogaion Art, que também fez o artwork para «Vorweltschweigen» [o primeiro álbum da banda, que data de 2010]. Adoro o estilo deles, que me parece simultaneamente original e perfeitamente adequado ao Black Metal. Atualmente, é difícil encontrar designers que saibam mesmo desenhar, que não se limitem a usar o Photoshop, algo

Vais dar concertos para promover este álbum? Quem tocará contigo? Já dei dois concertos com músicos de sessão, um deles a abrir para Agalloch. Não alinho em qualquer concerto e os meus músicos de sessão são muito requisitados. Muitos jovens músicos só se interessam por se embebedar e engatar miúdas depois dos concertos, é difícil encontrar músicos de confiança para te acompanhar. Mas, quando os convites me parecerem interessantes, subirei ao palco novamente.

Entrevista: CSA FACEBOOK w w w. f a c e b o o k . c o m / p a g e s / Rauhnacht/174849439232330 VÍDEO www.youtu.be/h5bD96eDefU


s i a c i s u m s e õ x e l f re espera que lhe impus, embora não deliberadamente. Não decidi que iria estar 45 sem dias sem ouvir música. Simplesmente aconteceu. Foi dessa forma que me senti bem. Em silêncio, em harmonia comigo próprio. Esse período temporal - chamemos-lhe interregno – foi importante para mim.

dico Uma crónica sobre música que não versa sobre música É possível que aquilo que mais nos apaixona deixe temporariamente de se revelar apelativo? Que, embora por um curto período temporal, deixe de nos seduzir? Conseguiremos nós sentir-nos bem afastados da nossa paixão de sempre? E, pior do que isso, que não sintamos falta dela? É exequível viver uma experiência como esta sem experimentar um incómodo sentimento de culpa? Um perentório e chocante “sim” é a resposta a todas estas questões. Durante o último mês e meio não ouvi música. Não consegui. Não tinha vontade de o fazer. A música não me seduzia. Não forcei o ato. Pura e simplesmente, durante esse período de tempo, não senti o seu apelo. Respeitei a minha vontade e estado de espírito. O ímpeto para fazer algo, mesmo de que gostemos muito, tem que ser genuíno. Tem que vir do nosso mais recôndito interior. Nada podemos foçar. Nesse mês e meio também não li nem escrevi sobre música. Mesmo que o tempo mo tivesse permitido, não me senti com vontade de o fazer. Nem capaz de tal. Apenas nos últimos dias regressou, de forma progressiva mas segura, o ensejo de ouvir música. Voltei a precisar dela, a desejá-la. Procurei-a de novo. Sabia que, independentemente da altura em que tal se verificasse, ela estaria, ainda e sempre, à minha espera. Que voltaria a receber-me de braços abertos, sem ressentimentos. A música respeitou o meu ritmo e o compasso de

É possível afirmar que esta minha ausência emocional da música foi um ato de puro egoísmo. Afastei-me da música quando bem entendi e a ela regressei na altura em que me senti novamente preparado. Quando senti novamente o seu apelo, o seu chamamento. A ela retornei de forma natural, espontânea. Por vezes, a necessidade de estarmos connosco próprios, mergulhados no nosso interior, impõe limitações externas. Por vezes, os exercícios introspetivos, tão importantes para a evolução humana, a isso obrigam. Porquê esta bizarra experiência? Resultará da retrospetiva de vida que me encontro a realizar desde há meses, bem como a prospetiva do que há de vir? Da conjuntura fascizóide que a nossa classe governativa e a troika nos impuseram? Ter-se-á instalado a crise da meia-idade? No fundo, terá sido a conjugação de todos estes fatores que determinou esta experiência. Durante um mês e meio, a música, que sempre me ajudara nos piores momentos, foi incapaz de o fazer. Ou eu não precisei da sua ajuda. Prescindi dela. Mas aqui estou novamente para retirar da música o melhor que ela tem para oferecer. Voltámos a fundir-nos num só. Estou apaziguado. Por fim, voltei a casa. Dico www.dicobrevehistoriadometalportugue.weebly.com livrobhmp@yahoo.com


O cúmulo do… TERROR O terror, algo que nos atormenta no dia-a-dia, neste mundo em crise, é o tema do último álbum de Otargos. Ulrich Wegrich (aka Dagoth, mentor, vocalista e guitarrista) discorre sobre este e outros assuntos de interesse relativamente a este novo lançamento da banda francesa, que já leva uma carreira de mais de dez anos. Nas suas palavras, “estagnar” é um termo que não faz parte do vocabulário de Otargos, pelo que haverá novidades a cada lançamento. A VERSUS Magazine convida os leitores a ler esta entrevista e a irem descobrir o que há de novo em «Apex Terror». «Apex Terror» é um álbum realmente pesado. Este facto tem algo a ver com o momento presente, nomeadamente a crise que a sociedade europeia está a atravessar? Vejo a quinta faixa do vosso álbum como uma espécie de resumo de todas as iniquidades que a raça humana cometeu neste planeta. 20

Dagoth – «Apex Terror» baseiase numa panorâmica geral, não se foca em nenhuma sociedade em particular. Todas as letras do álbum falam do futuro previsível: o futuro da nossa espécie, do nosso planeta, do nosso cosmos. Há quem veja nele influências da ficção científica. Temos de admitir que a raça humana é uma espécie de vírus destruidor

que ameaça o planeta. Não nos ocorre que não somos nada face às forças cósmicas, que somos impotentes face a estas. Será que essa visão da realidade decorre do facto de terem posto fim a todas as divindades em «No God, No Satan» (2010)? Não há qualquer relação entre


«Apex Terror» e «No God, No Satan», a não ser o facto de ambos exprimirem a forma como eu vejo a humanidade. Os nossos últimos álbuns apresentavam as religiões como fantasias perigosas. Agora que esse tema está encerrado para mim, já não tenho nada a dizer sobre esse assunto. As minhas letras atuais estão centradas na raça humana e são inspiradas pela ficção científica, pelo W40K e pela cosmologia. Vês 2014 com melhores olhos do que 2013? De modo nenhum! Vai ser a mesma merda, se não for ainda pior… De qualquer forma, as únicas coisas verdadeiramente importantes para mim são eu mesmo e a minha banda. Portanto, se conseguirmos fazer muitos concertos em 2014, será certamente um ano melhor que 2013! Consideram-se satanistas? Se assim for, o que é que isso significa para vocês? DE MODO NENHUM! Não significa absolutamente nada para mim. Sou 100% antiteísta. Tenho a certeza de que não há nenhum deus (logo, também não há nenhum diabo). Não acredito em nenhuma força su-

perior ou divindade, criador ou algo do género. Acho que tudo isso são fantasias, contos de fadas. Só vejo matéria e acaso. Não somos nada e não sabemos nada. Criámos deuses apenas para dar sentido à nossa vida, mas eles não existem. Se quiseres uma definição de “satanista”, diria que é uma pessoa que só acredita em si própria e mais nada… Mas é melhor usares outra palavra para designar esse tipo de pessoas, porque “satanista” é um termo demasiado relacionado com o conceito de “religião”. Portanto, é completamente paradoxal. Como se situam na cena metal francesa em geral e, particularmente, na cena Black Metal? Quem são os vossos “irmãos de armas” entre as bandas extremas francesas? Acho que somos uma espécie de OVNI… Já não nos vemos como uma banda de Black Metal (embora tenha sido essa a nossa tendência no passado). Estou um tanto farto dessa cena, das bandas, das ambiências, do folclore… De facto, nada nos desperta interesse no Black Metal francês atual e o mesmo se aplica às bandas que fazem parte dessa cena. Os nossos amigos fazem

parte das cenas Death, Thrash e Hardcore. Quem influencia a vossa música? Muita gente. Eu ouço sobretudo material da velha guarda como Scorpions, GN’R, Iron Maiden, Slayer, Bolt Thrower, Morbid Angel... música das décadas de 80 e 90 do século passado. No entanto, não me parece que possas encontrar na música de Otargos traços dessas bandas. Tento não ouvir música, quando ando a compor, principalmente para evitar ser muito influenciado. Também ouço bandas sonoras de filmes e música fora da área do metal. No fundo, pretendo que a minha música seja o mais pessoal possível, verdadeiramente original, embora não renegue as influências de outros géneros: Death, Thrash, Industrial, Heavy, mais além e ainda um pouco de Black Metal. Como funciona a banda, no que se refere à composição da música e à escrita das letras? Eu componho 90% da música sozinho em casa. Quando me sinto satisfeito com uma nova faixa que compus, apresento-a aos outros elementos da banda. Ouvimo-la todos e discutimola, o que permite a cada um dar


a sua opinião e apresentar as suas ideias. Depois, eu procedo à reformulação de algumas partes (ou não). Muitas vezes, o Thomas [Fringant aka Void, o outro guitarrista da banda] acrescenta leads e solos. Para uma banda de Black Metal, as vossas músicas são muito curtas. Trata-se de uma opção estética ou de uma mera coincidência? É evidente que essa característica também torna as vossas composições extremamente incisivas. No passado, fizemos algumas faixas longas, mas isso nunca me aliciou muito. Prefiro fazer músicas curtas, apesar de ser bem mais difícil compô-las. Quero mesmo que a minha música seja intensa, poderosa, mas, ao mesmo tempo, apelativa. É esse o segredo da minha forma de compor. Tudo é brutal em «Apex Terror» - tanto a música, como os teus vocais –, mas, ao mesmo tempo, cheio de ritmo e melodia. O que pretendes expressar através destas características? Acabas de definir a essência do nosso álbum. Era mesmo assim que eu pretendia que o vissem: algo verdadeiramente intenso, com ritmos imponentes e leads melódicos. Penso que há demasiadas bandas a focarem-se exclusivamente na brutalidade ou na velocidade, criando música sem verdadeira inspiração. Para fazer a minha música desta maneira, tive de me alhear da for-

ma habitual de compor no campo do Black Metal, que usava há mais de dez anos. Não foi fácil, mas consegui fazê-lo! Quando estou a compor, penso em como vai a minha música soar ao vivo, ou seja, ponho-me na pele de um espetador que está a ouvir a minha música e, se me parece que há nela algo de aborrecido, ou demasiado longo, ou incompreensível, elimino-o logo. Não guardo “lixo”, deito-o fora ou modifico-o até soar bem aos meus ouvidos. Também gasto muito tempo a escrever as letras e a estruturar a arquitetura vocal das canções, porque são dois outros elementos importantes da música. A voz não é um adereço, é antes a “pele” da canção! Portanto, cada palavra é cuidadosamente escolhida, assim como o ponto da letra em que a vou usar. E agora vem uma pergunta inevitável (já que sou responsável pelas entrevistas a artistas gráficos que saem em todos os números da Versus): quem fez a requintada capa do vosso álbum? E que relação existe entre essa obra de arte gráfica e o conceito subjacente a «Apex Terror»? É um trabalho de Dehn Sora. Passámos-lhe as letras do álbum e apresentámos-lhe algumas ideias e palavras-chave e deixámo-lo exprimir-se. Estamos muito satisfeitos com o resultado final, porque corresponde exatamente ao que pretendíamos: algo frio, moderno e xeno

simbiótico. Esta capa representa tudo o que nós – humanos – não conseguimos imaginar fisicamente, daí que esse objeto gráfico esteja diretamente ligado ao universo criado pela música e letras de «Apex Terror». Têm concertos previstos para este ano? Vão promover este álbum? Já temos vários concertos marcados para 2014. Estaremos em digressão no Reino Unido, em fevereiro, e em França, em abril, Também planeamos fazer alguns concertos na Europa no verão e em outubro. Em abril, contamos lançar um videoclip. Podem seguir a banda em WWW.OTARGOS-TERROR. COM, onde encontrarão links para todas as páginas oficiais e novidades! Espero que nos encontremos em algum concerto… e tratem de espalhar o TERROR!!! Obrigado pelas perguntas e pela divulgação feita pela Versus Magazine! Entrevista: CSA FACEBOOK w w w. f a c e b o o k . c o m / c r e w. otargos VÍDEO www.youtu.be/bjgZ3_fZWKY


Um alegre bando de foliões! Eis uma das expressões que Jan Kruitwagen, vocalista e mentor de Sammath, utiliza para caracterizar a sua banda. De uma forma contrastante, combinando um lado tenebroso e uma faceta alegre, falanos da sua paixão pelo metal, da vida atribulada da banda que fundou em 1994 (e foi uma one man band) durante uns anos, da sólida relação que construiu com os outros elementos e das grandes expetativas que têm relativamente a este quinto álbum.

Sammath já não é uma banda jovem e fizeram carreira à custa da vossa brutalidade (na música, claro). Pode-se dizer que o vosso estilo inclui Black Metal, mas também uma boa dose de Death Metal e até algum Thrash? Tendo em conta o que se pode ouvir neste vosso «Godless Arrogance», trata-se de uma combinação verdadeiramente explosiva. Jan Kruitwagen – Obrigado. Cresci na Austrália, portanto cresci ao som de música rápida e violenta. Amo o metal desde os meus 12 anos. Lembro-me da excitação que senti, quando «Master of Puppets» foi lançado. E quando pus o LP a tocar em minha casa, vivi uma experiência arrebatante. O meu gosto pelo metal manifestou-se pouco depois. Vicieime em material como Kreator, Autopsy, Coroner e Sadistik Exekution. [Neste álbum] Pela primeira vez, pus de parte os riffs e a estrutura de canções típicos do Black Metal e apostei numa combinação de influências musicais provenientes da minha juventude. E, tal como disseste, esta mistura é mesmo explosiva. Qual era o lugar de Sammath na Austrália? E que 23


lugar reclamas para a tua banda na cena metal holandesa? Na Austrália, não havia lugar para Sammath , porque a banda ainda não existia, na altura em que lá vivi. Vim para a Holanda em 1991 e fundei Sammath em 1994. Não me preocupo absolutamente nada com o lugar que cabe à banda na cena holandesa. Agora vivo na Alemanha e o baterista vai mudar para a Bélgica. Só o coitado do nosso baixista é que vai continuar a viver na Holanda. Não reclamamos nenhum lugar para nós, seja qual for. Só queremos fazer o que fazemos melhor, à nossa maneira. Por conseguinte, a “cena” é algo que não ocupa nenhum lugar nos nossos pensamentos, muito menos quando estamos a criar música. Até diria que nos situamos “fora da cena”. Têm um logo fantástico, com um ar clássico. Quem o fez? Foi feito por Christophe Zspajdel, em 1996. É um logo muito fixe, completamente adaptado à atmosfera criada por Sammath. Por que decidiram assinar pela Hammerheart Records, depois de passarem 16 anos com a alemã Folter Records? O que esperam da vossa nova editora? Não tivemos escolha. O Guido da Hammerheart apresentou-se em minha casa com uma espingarda e obrigou-me a assinar um contrato com o meu próprio sangue! Estou a gozar! Na realidade, foi um golpe de sorte. A Folter é uma boa editora e estou-lhes grato pelo apoio que sempre nos deram. Mas a Hammerheart telefonou-me e eu fiquei agradavelmente surpreendido com esse contacto. É uma grande editora e muito respeitada. Na Holanda, deve ser a editora de metal mais conhecida e a

comigo sempre que tento armar confusão. Mas passa a maior parte do tempo a beber cerveja e a mimosear os outros com insultos. Koos, o nosso baterista, não risca nada na banda. Tem de massacrar a bateria e calar-se. Ainda recordo com receio o dia em que o encontrei, em 1997. Os três juntos somos uma banda dos diabos e não é só do ponto de vista musical. Somos um alegre bando de foliões. Estamos juntos desde 2000, embora eu tenha começado em 1994. Mas tenho de reconhecer que a banda ficou bem melhor desde que nos juntámos. Eu não mudaria uma vírgula do texto da Hammerheart relativo ao vosso quinto álbum a ser lançado em fevereiro de 2014. Concordas comigo? Haha, sem dúvida! O Guido é capaz de descrever uma banda em cinco segundos. É uma investida das mais tenebrosas. Nada de detalhes alegres! O álbum parece insano, porque é absolutamente autêntico. Não consegues fazer este tipo de música, se fores uma pessoa normal. Não me interpretes mal: todos nós trabalhamos e temos filhos. Trata-se da paixão que nutrimos por esta música e que não se pode comprar em lado nenhum. Hoje em dia, muitas bandas parecem imaculadas, porque só estão a participar num jogo. Acreditas em algum deus ou algo que possa salvar a humanidade de um destino trágico? Até os títulos das faixas do vosso «Godless Arrogance» falam de atrocidades. Parto do princípio de que creem que é o que os humanos merecem que lhes aconteça. Não acredito em nada senão em mim próprio. Quando me olho ao espelho, vejo deus. As letras deste álbum referem-se ao nosso total desprezo

“Não me preocupo absolutamente nada com o lugar que cabe à banda […] Até diria que nos situamos ‘fora da cena’. “

melhor. Esperava deles exatamente o que está a acontecer agora. O nosso álbum está a ser distribuído no mundo inteiro, todo o material tem um aspeto fantástico, a comunicação entre a banda e a editora é aberta e honesta. Penso que não podíamos pedir mais, pelo menos quando se é uma suja banda de Black Metal como nós. Tu pareces ser a alma de Sammath. Que tarefas deixas aos outros elementos da banda? Até há alguns anos atrás, não ouvia opiniões de ninguém no que dizia respeito a Sammath. Contudo, Ruud, o nosso baixista, apoderou-se de uma boa fatia do trabalho. Faz imensos arranjos e corre 24

pela religião e pela estupidez humana. Tens uma opinião a expressar sobre algo? Não interessa a ninguém, põe-te a andar. É disso que as nossas letras falam: arrogância e destruição. Dois dos meus hobbies. São estas ideias que procuro transmitir através da atmosfera que a música cria. Começo sempre por escrever a música. Eu – e isto vale para o resto da banda – não tenho nada a ver com satanismo, bodes ou qualquer coisa dessa natureza. A vida real é muito mais assustadora do que esses “contos de fadas”. A imagem que aparece na capa de «Godless Arrogance» faz-me pensar na II Guerra Mundial,


“.[…] não tenho nada a ver com satanismo, […]. A vida real é muito mais assustadora do que esses ‘contos de fadas’.” mas precisamente no desembarque da Normandia. Acertei? Sim, acertaste mesmo. Representa uma das praias em que os Aliados desembarcaram, mas não sei qual era… e também não interessa. Apenas me pareceu que se adequava maravilhosamente ao espírito do álbum. Guerra total, morte a todos. Não há sangue, nem guerra na foto, mas tu sentes que algo terrível vai acontecer. Não vai haver salvação, nem deus, nem sequer uma sepultura. Quem a encontrou? Estava na primeira página que apareceu, quando escrevi “Fuck you” no Google. Quem quer saber disso? Já nem deve haver ninguém a quem pedir autorização para a usar. Já tiveram conhecimento de reações ao vosso álbum que combina Black Metal old school com outras influências? Sim, até ao momento já recebemos dez críticas e as classificações são de 8/10 ou mais altas ainda. Portanto, estamos encantados com os resultados. Estamos a ser entrevistados pelas maiores revistas

da cena metal. Para uma banda underground de Black Metal é estranho sair da escuridão ao fim de 20 anos. Mas estou a gostar da sensação. Sentimonos no alto de uma montanha e estamos a apreciar muito a paisagem. Onde vão aterrorizar humanos com a vossa raiva e loucura? Esperamos fazer uma digressão na Europa lá para novembro. Como só somos três, vou ter de me dedicar simultaneamente à voz e à guitarra. Está a levar mais tempo do que o que seria necessário para ensinar um macaco a conduzir, merda! Entrevista: CSA FACEBOOk www.facebook.com/sammath666 VÍDEO www.youtu.be/-VY4C1tFg1o

anuncia aqui

25


81db «A Blind Man’s Dream» (Bakerteam Records) Impressionado! Este terceiro lançamento dos Italianos 81db já estava há algum tempo na lista de espera para vos dar a conhecer. Uma mistura de riffs bem pesadões e progressivos influenciados desde o Rock Clássico ao Folk. Os 81db têm o seu quê de original na forma como interligam todos estes elementos. Isto levou-os a partilhar o palco com os Deep Purple, pois, este Italianos têm muito talento. O conceito das letras é baseado no filme “Voando sobre um ninho de cucos”. Ouçam porque vale muito a pena! [8.5/10] Eduardo Ramalhadeiro

ACTIVE HEED «Visions From Reality» (Edição de autor) Este projeto chegou-nos às mãos via Facebook da VERSUS e é uma edição de autor do Italiano Umberto Pagnini. Conceito, letras e música são da sua responsabilidade. Devo dizer que muitas vezes projetos destes deixam muito a desejar, no entanto, «Visions From Reality» é um álbum bem “fresco” de Rock Progressivo incrivelmente maduro, alegre e muito coerente. Há ali muito trabalho e planeamento. Portanto, foi algo que me agradou ouvir. Isto é a prova viva de que nem só de grandes bandas e editoras vive a música. Acho que o devem ouvir - www.activeheed.com [8.5/10] Eduardo Ramalhadeiro

AUTUMNBLAZE «Every Sun Is Fragile» (Pulverised Records) Os Autumnblaze não nos trazem nada de novo, são quase irmãos dos Anathema – melancólicos e atmosféricos (Acho que já dá para ficarem com uma ideia). A exceção é a voz gutural que é como uma “pedrada no charco” do Rock alternativo. Provavelmente é por isso que “volta e meia” os coloco na minha playlist. Estes Alemães não são originais mas «Every Sun Is Fragile» ainda “roda” regularmente desde Julho… [8.5/10] Eduardo Ramalhadeiro

BLACKFINGER «Blackfinger» (Shureshot Worx) Qual Deus qual queda! Nada disto é tão verdade como os momentos encontrados nestes submundos organizados por emoções, incapazes de esconder o verdadeiro sentido deste álbum: manter-nos vivos! Desde a terça matinal até à morte, onde nos possamos repousar na queda ou na chuva, este regresso de Wagner saído do seu templo é o reencontro com a realidade que choca o espaço-tempo e encontramos-mos outra vez, como naquele banco da escola atrás do bloco B a planear uma banda e a falhar às aulas de português B. Divino! [8/10] Adriano Godinho

26


BLUES PILLS «Devil Man» (Nuclear Blast) Apontem este nome, sff: Elin Larsson! E já agora, não se esqueçam: BLUES PILLS! Que vozeirão!!! Imaginem Robert Plant mas numa versão feminina: a emoção e a dinâmica que consegue imprimir à voz. Agora, juntem-lhe Janis Joplin! Raios é das melhores vozes que já ouvi! Para compor esta imensa expressividade só um Rock dos anos 70, muito ao jeito de Zeppelin, Hendrix ou Joplin. Só não leva nota máxima por ser um EP com 4 temas! Onde está o resto!?!? [8.5/10] Eduardo Ramalhadeiro

DÄNG «Tartarus: The Darkest Realm» (No Remorse Records) Álbum de estreia para estes 4 senhores originários dos E.U.A. acabam por criar um disco que tem como grande característica uma maturidade estética inabalável (ganharam em 2013 um prémio para melhor banda sem editora). Conceptualmente um álbum dedicado à mitologia grega e do ponto de vista de sonoridades trespassa por entre segmentos melódicos contemplativos e atmosféricos, Hard Rock rendido às memórias do analógico mas também explosivo e incrustado de sensações negras e por vezes demoníacas. [8/10] Sérgio Teixeira

JOLLY «The Audio Guide To Happiness (Part II)» (InsideOut Music) Os Jolly levam a progressividade ao extremo. Numa anterior edição da VERSUS fiz a review à primeira parte de «The Audio…» e nela ficámos a perceber um pouco o conceito por detrás da música. Tudo isto faz parte de uma experiência científica que é suposto levar o ouvinte a um estado de felicidade. Um Professor e diversos alunos conduziram uma experiência com 5000 indivíduos e esta última parte é o culminar da experiência. Se ainda não descobriram os Jolly, façam um favor e descubram-nos! [9/10] Eduardo Ramalhadeiro

LURK “Kaldera” (Doomentia Records) Há momentos em que a melodia ultraja qualquer descanso e favorece as odiosas sombras com uma rispidez tão horrivelmente satisfatória que nada mais nos agarra. Com “Kaldera”, os finlandeses Lurk inquietam a alma, fustigam qualquer brilho nos olhos e deixam-nos uma envenenada melancolia que nos arrasta quase como escravos. A robustez rítmica, tão sombria quanto excruciante, é apetitosamente guarnecida com uns vocais tão arranhados que lembram a arame farpado cortando carne e, se vocês ainda não se afastaram, é porque o “doom” e o “sludge” muito vos diz. [8.5/10] Jorge Ribeiro de Castro

27


MAGNUS KARLSSON’S «Free Fall» (Frontiers) Ora aqui está um álbum do mesmo género de Timmo Tolkki Avalon mas estupidamente bem mais interessante! Tal como no anterior, Magnus fez-se acompanhar de uma série de convidados, no entanto, «Free Fall» é mais coeso, coerente, melhor interpretado e muito superior a nível musical. Por isso, se estão a pensar em dar uma oportunidade ao Finlandês… não percam tempo. Ouçam Karlsson e ficam mais satisfeitos! Garantido. [8.5/10] Eduardo Ramalhadeiro

MERCENARY «Through Our Darkest Days» (Prosthetic Records) Após o que muitos consideram um desapontamento - «Metamorphosis», álbum anterior - os Mercenary, quarteto Dinamarquês, lança o seu sétimo álbum de originais e voltam a entrar no caminho certo. Nada de novo nos trazem mas não será por isso que «Through Our Darkest Days» não é uma proposta interessante, mesmo sendo catalogados de Modern Melodic Death Metal (?) – o que quer que isto seja. De Death Metal terão só a voz mais agressiva… mas adiante. Podemos ficar pelo Heavy Metal (ponto). De qualquer das formas, não deixa de ser uma proposta interessante. [7/10] Eduardo Ramalhadeiro

OTARGOS «Apex Terror» (Listenable Records) «Apex Terror» é já o 5º de originais dos Franceses Otargos. Embora não esteja submerso em oceanos de originalidade, é um registo apurado no que diz respeito ao encadeamento pertinente de riffs pesados mas que ao mesmo tempo cativam. Um trabalho de produção apuradíssimo, transporta a banda para o nosso espaço psicológico sem grande esforço e com grande realismo. Apesar da conotação com Black Metal, os Otargos não deixam de lado influências de Death Metal. Provavelmente o melhor trabalho da banda até agora. [9/10] Sérgio Teixeira

REVAMP «Wild Card» (Nuclear Blast) …que desapontamento! Este foi daqueles álbuns que pensei que ia gostar, visto ser Floor Jansen a vocalista. Após a sua estrondosa entrada nos Nightwish este seria mais um excelente trabalho. Bem… enganeime redondamente! Isto é uma seca e nem a magnífica voz me faz gostar de ouvir «Wild Card», por mais que tente. Haverá, se tanto, um ou outro riff um pouco mais interessante, mas nada de diferente, que prenda ou se destaque. Tudo o resto soa a monotonia! Enfim… [6/10] Eduardo Ramalhadeiro

28


THE POODLES «Tour de Force» (Frontiers) Para quem gosta de um bom Hard Rock Melódico, daqueles bem “durinhos” e pesados tem em «Tour de Force» uma boa escolha. O que o torna um pouco mais interessante é a sua sonoridade muito 80’s (com um toque atual…), algo que muita gente na casa dos 40 aprendeu a ouvir. Riffs com bastante groove e como é óbvio, um álbum de Rock Melódico só está completo com a habitual balada – “Leaving The Past To Pass”. Interessante para reviver alguns velhos tempos… [7/10] Eduardo Ramalhadeiro WALKING PAPERS «Walking Papers» (Loud & Proud Records) Mais um projeto de alguém bem conhecido… trata-se de Duff McKagan, ex-baixista dos (agora) não muito famosos Guns N’ Roses. Os Walking Papers estreiam-se num registo que é uma mescla de Rock Alternativo, “salpicado” com uns laivos de blues e Rock mais comercial. Gostei de ouvir este “Walking Papers”, calmo e muito agradável. A voz de … em alguns temas, por sinal os mais calmos, parece-se com Bono Vox dos U2. [7.5/10] Eduardo Ramalhadeiro

TIMO TOLKKI’S AVALON «The Land Of New Hope» (Nuclear Blast) Epá… não! Que seca. O Ex-Stratovarius Timo Tolkki criou mais um projeto e convidou uma série de personalidades para “apimentar” esta nova viagem. No entanto, «The Land Of New Hope» parece-me um pouco vazio, muito simplório e espartano. Ouve-se uma vez e… acabou. Salvam-se alguns solos, riffs bem rasgados e as vocalizações dos convidados. Mas é só. Sendo um dos guitarristas mais influentes no seu género, podia nos ter dado algo bem mais interessante [5.5/10] Eduardo Ramalhadeiro


Caminhando pela escuridão da luz Com um som agressivo, bastante característico e elaborado, saiu em Novembro passado o já esperado novo álbum dos italianos Ephel Duath, com o título «Hemmed by Light, Shaped by Darkness» e a assinatura da Agonia Records. A VERSUS Magazine aproveitou a data para conversar com o simpático Davide Tiso, que nos falou um pouco sobre a banda no geral, e em particular da nova formação e do regresso aos estúdios quatro anos depois. Olá! Antes de mais, podes contar-nos a história do inicio da banda até ao vosso álbum anterior «Through My Dog’s Eyes»? Davide Tiso: Os Ephel Duath começaram como um duo em Fevereiro de 1998. Era o Giuliano Mogicato, que foi quem me ensinou a tocar guitarra e eu. Nós éramos muito novos, inicialmente íamos tocar com duas guitarras, um teclado e um caixa de ritmos. As 30

nossas grandes influências eram os Limbonic Art e os Emperor. Desde a nossa origem que eu encarei o projecto com bastante seriedade e sobre o que iríamos fazer, por isso, decidi dedicar todo o meu tempo aos Ephel Duath (ED). Devido à natureza experimental da banda, a carreira dos ED é marcada por dificuldades ao nível económico e de estabilidade do line-up mas o meu caminho foi sempre ser o forte o


suficiente para não mudar os objectivos do caminho que eu tinha traçado. Cada álbum que eu compus para os ED tem uma sonoridade e uma direcção própria. “Through my dog’s eyes” é provavelmente o mais experimental. Em 2009 começamos a a fazer inúmeras tours como um trio apenas com guitarra, bateria e voz e decidimos num álbum de estúdio com apenas estes três instrumentos que era uma direcção bastante mais simples que os pressupostos anteriores. Para mim foi muito difícil compor o álbum, forçando-me a desafiantes estruturas de versos/refrões/quebras. Tenho inclinação natural para tocar música preenchida e complexa indo numa direcção contrária tornou-se contra-natura para mim. O conceito do Through my dog’s eyes” é baseado numa colecção de pequenas histórias que escrevi em tempos onde falo sobre diferentes acontecimentos comuns vistos pela perspectiva de um “cão imaginário” para provar que nós, como humanos, nos falta muitas vezes a alegria das pequenas coisas da vida. Agora, podes falar-nos sobre o vosso mais recente álbum que dá pelo nome de «Hemmed by Light, Shaped by Darkness». Como surgiram as ideias sobre como o criar? Ephel Duath são uma banda que se alimenta de opostos: leveza e peso, vazio e espaços cheios, cores e escuridão. Este novo álbum expõe esta dicotomia ainda mais e tentei criar um título que a demonstrase. Há uma procura constante de sons escuros nas minhas músicas, mas não há uma real escuridão sem luz. E a luminosidade tem um papel importante nos ED porque há uma simbiótica co-relação com o peso. Todas as músicas estão conectadas por temas metafísicos mesmo que não seja o conceito seguido. Fora do corpo anda, a auto-responsabilização através da abertura de mente, consciência e espírito de comunicação, limpeza mental e enterro da mesma são alguns dos temas que se ouvem nas letras, tudo expresso através de uma abordagem muito visual e por vezes sangrenta. As minhas letras tentam imitar esse processo, combinando elemento da matriz com brutalidade. Tripas, vómito, sangue, ossos partidos estão incluídos. Passou-se algum tempo entre o novo álbum e o anterior? O que passou durante este período de tempo que justifiquem este silencio da vossa parte? Quais são as maiores diferenças que os vossos faz podem encontrar? Depois de lançarmos o “Through my dog’s eyes” fui convidade para compor a guitarra do álbum a solo para a Karin Crisis. Nessa época a Karyn planeava

gravar o álbum com um produtor italiano chamado Eraldo Bernocchi com quem eu já tinha colaborado em diferentes projectos. Eventualmente Karyn e Eraldo não concordavam plenamente sobre o que pretendiam para as músicas e depois de alguns meses de trabalho e dezassete musicas, a gravação parou. Nessa altura os Ephel Duarth passavam por dificuldades financeiras para devido a uma tournée. Todos os músicos que tocavam ao vivo nos ED saíram da banda. Quando a Karyn me convidou para ir até à Califórnia com ela para terminar o álbum e para procurar novos músicos eu aceitei imediatamente porque “nada me prendia”. Na altura eu vivia em França, Fiz a minha mala, peguei nas minhas guitarras e deixei a Europa com ela. Uma vez nos EUA, encontrei trabalhos e continuei a produção das músicas para o álbum a solo dela, para a minha banda a solo “Manuscript Don’t Burn” e eventualmente os ED. Em termos sonoros, os ED são uma banda em constante movimento. Em cada álbum eu tento mostrar diferentes aspectos e as vastas influencias que eu tenho enquanto músico. No inicio da nossa carreira éramos um duo e tínhamos uma afinidade com o black metal experimental. Quando passamos a ser 5 elementos a tocar ao vivo decidimos adicionar as influências de blues e de jazz. Os ED tornaram-se um quarteto e decidindo então, começar a trabalhar em músicas de composição de estrutura mais aberta, assimétrica. Tornamo-nos um trio de um rock mais simples e uma atitude post-rock. Agora somos novamente um quarteto, explorando musicas mais longas e pesadas de sempre como banda com uma forte melodia death metal. Actualmente como caracterizas o som dos Ephel Duath? No «Hemmed by light, shaped by darkness» eu queria focar a minha atenção principalmente nos aspectos estruturais das musicas. Queria partes de guitarra como uma espécie de camadas e camadas de teia de aranha. Eu imaginava as minhas partes quase lutando umas contra as outras mas com picos de drama e catarse. Eu queria secções rítmicas sólidas e dinâmicas, uma voz dilacerando entre o limpo e o grunhido. O resultado é uma obliquo experiencia musical que acredito que contem todos os elementos que tornaram a banda conhecida. Não vejo limites no que concerne à evolução musical dos Ephel Duath e este novo trabalho prova a minha constatação de procurar novos caminhos com uma obsessão e ambição cega. Houve profundas alterações na vossa formação. Qual a principal razão para isso? Esta “super” for31


“Não vejo limites no que concerne à evolução musical dos Ephel Duath e este novo trabalho prova a minha constatação.” mação é para continuar a tocar junta? Como é trabalhar juntos até agora? Os ED são a minha própria criação e em todas as gravações eu junto um conjunto de músicos talentosos que estão dispostos a oferecer-me as ferramentas para atingir os objectivos para o plano traçado. Para gravar o «Hemmed by light, shaped by darkness» tive a sorte de ter Karyn Crisis na voz, Marco Minnemann na bacteria e Bryan Beller no baixo. Eu compus todas as letras e músicas e os restantes músicos compuseram as respectivas partes respeitando a direcção e a estruturas que eu lhes tinha apresentado. Trabalhar com estes profissionais é recompensador para mim e permitiu-me expandir o meu limite como compositor e e levar mais além a minha imaginação. Este é já o terceiro álbum com o Marco Minnemann na bateria: e é de facto uma honra tocar com esta estrela musical. A suas partes de bateria encaixam em todos os riffs de guitarra com uma elegância e um poder quase alquímico. Marco sugeriu convidar Bryan Beller para o baixo (ele já tocou com The Aristocrats e Joe Satriani), trabalho dele era olhar para a guitarra e bateria e encaixar o seu maravilhoso som de baixo cheio e de tonalidades rock na música. Karin Crisis juntou-se a nós em 2010. Os nossos estilos são estranhamente diferentes, mas juntos combinam na perfeição criando algo que eu acho único. A abordagem vocal dramática da Karyn é capaz de trazer intensidade, tensão, mas também a fragilidade de minha música. Em geral, todos os vossos albuns foram muito bem recebidos pela crítica. Quais as expectativas para este novo lançamento? «Hemmed by light, shaped by darkness» é uma gravação bastante introvertida e não é fácil de ser compreendido à primeira. Gostaria de dizer que resposta que o álbum tem tido é algo mista. Algumas pessoas adoram-nos e outras nem por isso. A justaposição entre vocais crus e música meticuloso está a ser um desafio para muitos. A estrutura aberta e a duração das musicas não ajudam muito. A nossa música não é para todos, tenho consciência disso. Esta banda pede atenção máxima ou pode facilmente tornar-se irritante, principalmente se está “em música de fundo”. A minha música não é necessariamente divertida, é mais, uma viagem escura que se revela ela própria volta após volta e nem toda a gente tem o tempo para lidar com tudo isto depois de um dia de trabalho ocupado. Por outro lado, eu acredito cega32

mente que os ED são edificantes e gratificantes para a sua natureza, esta banda traz-me um bom humor quando eu não sinto o meu próprio controlo e segurança. A minha presunção é que os ED podem oferecer a mesma experiência a outras pessoas também. Já tendes datas de concertos? Alguma tournée planeada? Estamos a programar uma tournée de 5 semanas na Europa com os Nero di Marte como banda de suporte. O período será entre Abril/Maio de 2014 e podemos desde já anunciar nossa presença em Portugal no SWR 2014. Com que bandas portuguesas gostarias de partilhar o palco? Não conheço muitas bandas portuguesas, lembrome que nos fins dos anos 90 quando os Ephel Duath começaram eu costumava ouvir os Heavenwood e os Moonspell, seria realmente agradável partilhar o palco com eles. Seria como fechar um circulo. Obrigado por esta agradável conversa, antes de acabarmos queres deixar uma palavra aos teus fãs em Portugal? Eu adoro tocar em Portugal e Espanha. Quando nos propõem para fazermos uma turnée pela Europa os únicos pedidos que faço é tocar o máximo de vezes possíveis nestes dois países. Tournées é mais que viajar e a passagem entre o sul de França e o norte de Espanha é lindíssima e continuar a conduzir e ter a sorte de entrar finalmente em Portugal é realmente um problema para mim porque a comida é deliciosa e as pessoas são das mais simpáticas e porreiras com quem já me cruzei. Talvez os concertos não sejam tão bem pagos como no resto da Europa mas isso não importa. Eu sinto-me um sortudo quando me convidam para tocar num lugar tão maravilhoso onde de facto o dinheiro torna-se na última coisa em que penso. Entrevista: Sérgio Pires FACEBOOK www.facebook.com/EphelDuathOfficial VÍDEO www.youtu.be/uUXPmMdrShQ


O que significa para ti “Antithetical”? Carlos Cariano: A designação Antithetical encerra na sua génese a manifestação do conceito de dualidade sobre toda a matéria do Universo. Matéria volátil e não absoluta em contínua manifestação e transformação. Como foi compôr para este álbum, em termos de inspiração e cooperação entre membros? A maior diferença em relação à composição dos álbuns anteriores reside fundamentalmente na questão de eu ter assumido a realização de toda a produção e do Paulo ter assumido todos os aspetos da gravação. Factores que nos permitiram controlar integralmente todos os processos adjacentes ao álbum de uma forma natural entre todos os seus intervenientes, alcançando desta forma uma obra que era para nós radicalmente inconcebível anteriormente. O resultado final é o que esperavam antes de começar a reunir ideias para os temas? O conceito inicial assim como a própria temática associada ao trabalho inspiraram o resultado final de Antithetical conseguindo desta forma o coletivo edificar um trabalho elementar explorando fielmente diversos elementos e texturas fora do vulgar. Elementos que só por si superaram em larga escala a projeção de todos

34

A forte personalidade dos um elevado grau de origin musica mais agressiva, ma feita no nosso país. Este «A ção e a VERSUS Magazin brir mais sobre o que leva eris a existir neste mundo

O oposto de t


s Malevolence intervém a nalidade no panorama da as especificamente por ser Antithetical» não é excepne interessou-se em descoa um projecto tão sui geno tão seguidor de outros.

todo o resto

os componentes que fomos desenvolvendo através dos tempos. Algo que é facilmente extrapolável ao nível sensorial à medida que absorvermos o álbum no seu todo. Em quê este “Antithetical” é diferente do antecessor “Martyrialized”, gravado 14 anos antes? Ambos foram concebidos de forma artística tendo por função alargar tanto quanto possível os horizontes e não como produtos de fácil adaptação face às limitações das massas modernas. Martyrialized ficou na história do seu tempo por estar inegavelmente muito à frente do seu tempo. Antithetical por sua vez segue uma sequência idêntica de eventos embora os resultados analíticos superem neste momento claramente os do seu antecessor, extrapolando um álbum extremamente mais progressivo e pesado e muito mais negro e complexo em toda a sua extensão. É resultante de um processo que consideramos como uma evolução natural de processamento musical face ao trajeto iniciado em 1994. As letras são diversificadas, bem presentes nas músicas; é custoso escrever, para ti? É uma interpretação que ao longo de 20 anos de existência se tem vindo a intensificar como um ritual. É uma capacidade que desenvolvo de forma sistemática através de grandes doses de puro prazer e que sinceramente não me custa nada. Ao longo dos tempos apreendi até

35


que necessito de trazer algo sempre comigo onde possa incluir fragmentos de diversos pensamentos, incluindo mesmo algumas palavras chave que me vão surgindo, diria quase de forma incontrolável. A minha mente encontra-se em modo de produção constante e mesmo durante o sono já aconteceu por diversas vezes ter que recorrer a um certo sonambulismo por forma a apontar algo que me passou pela imaginação em determinado momento. Para certos músicos escrever é um acto extremamente dificil no entanto para mim é algo extremamente natural. Quem nasce primeiro a letra ou o riff? Acaba por ser como a abordagem interpretativa sobre se nasceu primeiro: o OVO ou a GALINHA ou vice-versa - visto que não existe um processo inteiramente uniforme que permita extrapolar ou quantizar de forma efetiva o que surgiu primeiro. Neste momento existem algumas dezenas de letras assim como algumas dezenas de estilhaços sonoros compostos que através da sua origem exprimem a captação de momentos extremamente particulares no tempo. O puro acto de natividade nestes processos torna-os praticamente indecifráveis visto que tanto um elemento como o outro poderá estar na génese dos desenvolvimentos a preconizar em torno de um determinado conceito. A religião e o dogma são temas presentes nos teus textos, são questões que te tocam e influenciam de que forma? O tema Slithering encerra praticamente tudo a que a religião diz respeito unificando o conceito associado a tais sistemas exploratórios num todo. Um todo protagonizado pelo próprio tema na sua forma mais extrema e corrosiva desde a nossa formação e no qual cuspimos descrédito integral. Poderá ser também o último tema/texto deste coletivo a versar sobre tais sistemas culturais de crenças visto que aos nossos olhos a religião não existe pura e simplesmente desde que se tornou no reflexo dos seus próprios métodos obsoletos. Já o dogmatismo é um tema transversal a toda a nossa obra e certamente sofrerá novos desenvolvimentos através de novas incursões conceptuais. Dirias que lutas contra algo que te rodeia? Diria antes que todos temos os nossos próprios demónios que necessitamos de exorcizar. No meu

caso tenho que me considerar uma pessoa extremamente realizada e de certa forma favorecida por uma determinada sorte, se tal acaso se pode sequer considerar. Ao longo de todos estes anos, quer seja no nível pessoal, quer seja no nível musical, tenho construído e expelido grande parte da minha revolta existencial em torno de tudo o que considero MALEVOLENCE. No entanto nos dias de hoje acho que consegui de certa forma ultrapassar grande parte, senão a totalidade da minha negatividade. Não existe por conseguinte contemporaneamente algo com que me identifique diretamente e que seja digno do meu furor. Antithetical marca de certa forma um ponto de viragem na existência deste coletivo sendo que o conceito abordado não se apresenta como uma luta propriamente dita mas sim como uma obra completa que pode ser interpretada e desbravada por forma a tentar compreender um pouco melhor tudo aquilo que nos rodeia. O português e a guitarra portuguesa que se ouvem neste trabalho são para dar um toque de exotismo ou porque sentem alguma honra em serem portugueses? A obra por nós desenvolvida sempre se pautou por ser extremamente eclética na sua génese. Factor que nos tem distinguido ao longo dos tempos dos demais. Independentemente da situação de sacrifício e descrença em que Portugal se encontra não deixamos de nos orgulhar de fazermos parte de um povo que consideramos como uma minoria bastante especial face a todos os outros povos existentes em paralelo. A língua Portuguesa acompanha-nos nos nossos trabalhos desde o álbum de estreia e continuará a estar sem sombra de dúvida sempre presente na nossa obra. Já a nível de guitarra Portuguesa, o tema Exocortex Momentum, inclui a nossa primeira incursão exploratória deste elemento, não de uma forma forçada, mas porque o tema, e em especial o crescimento de todo o conceito do álbum nos transportou para essa realidade. É um momento particular tanto a nível técnico como a nível sensorial devido à carga emocional que transluz. Como é ser uma banda de música extrema, num país como Portugal? É algo que não nos preocupa minimamente ainda que o coletivo seja em parte um reflexo do País.


A literatura ou outras formas de expressão artísticas são algo que te acompanha e influencia? Sem dúvida que a universalidade artística acaba por nos acompanhar ao longo de toda a nossa existência e mesmo de forma totalmente subsconsciente determinadas expressões acabam por se desenvolver nos momentos mais inóspitos da nossa vida. Desde tenra idade que sou uma pessoa bastante observadora possuindo um grande sentido critico sobre tudo o que me rodeia. Tentar perceber a função elementar da nossa espécie e seus semelhantes neste mundo é algo que me continua a fascinar e que todos os dias me lança novas questões existenciais. Ainda que saiba à partida que para muitas das minhas questões não se vislumbram sequer respostas no horizonte, acaba por ser essa fome de conhecimento e de realização constante de novas experiências que continua a despoletar e a catapultar mais além a maior parte da minha energia. A celebração do ser é acima de tudo a maior expressão artística de todos os tempos! Vê-se que o artwork que vos rodeia é muito cuidado, quem trabalha nesta componente e quais são as influências/intenções? Hoje mais do que nunca podemos falar de influências tão dispares como tudo o resto que consumimos. A linha que separa a dita realidade do reino imaginário é cada vez mais difícil de identificar visto que os padrões do coletivo e toda a experiência adquirida ao longo dos anos proporcionam o desenvolvimento dos próprios conceitos projetando componentes artistiscas que certamente não se identificam com o trabalho desenvolvido por outros artistas. Tal como a composição sonora que realizamos toda a componente visual deve convergir alcançando um ponto de equilíbrio na sua totalidade entre elementos. Todos os detalhes desenvolvidos em torno de cada novo conceito são para nós de importância fundamental sendo explorados até à exaustão enquanto que a maioria das bandas contracenando no mesmo cenário de à largos anos a esta parte e com as quais nos deparamos diariamente se desleixam totalmente nestes domínios. O vídeo que lançaram para o tema “Slithering”, produzido por David Barros teve a vossa colaboração no produto final? Todo o processo desenvolvido para o produto en-

gendrado teve a participação e influência direta de todo o coletivo. O guião amplificado pelo David nasceu do conceito inicial que lhe apresentámos e se esse rastilho não tivesse existido, à priori, os resultados finais não seriam os que foram apresentados ao público. Toda a sequência e alinhamento final da história partiu do nosso contributo visto que a maioria das passagens visuais dependeram essencialmente de todos os desenvolvimentos que fomos alicerçando ao longo dos anos em torno da composição. Ninguém melhor do que nós conhece os andamentos do tema e as sensações visuais que o mesmo deve transmitir. O vídeo representou uma excelente parceria entre ambas as partes e todos os elementos envolvidos na sua criação ficaram saciados com os resultados finais. Existem concertos agendados para breve? Os concertos não são nem nunca foram uma prioridade no nosso horizonte embora desde sempre tenha existido, e continue a existir, um interesse crescente de promotores em agendar concertos com o coletivo. No nosso ponto de vista existem bandas que gravam um álbum com o intuito de o promover até à exaustão um pouco por todo o Mundo, sendo elementar esse estilo de vida até para a própria sobrevivência dos seus integrantes. No nosso caso e até porque todos temos as nossas formas de subsistência alicerçadas em outros focos de desenvolvimento, trabalhamos sistematicamente no sentido inverso sendo que a componente artística é a que nos move a realizar um novo conceito e consecutivamente um novo trabalho. É possível que venhamos a realizar um ou outro evento mas sinceramente não é para nós algo considerado como fundamental. A nossa obra certamente será mais celebrada através das gerações vindouras pela sua componente criativa e estética do que propriamente pelas suas potencialidades musicais debitadas em eventos ao vivo. Entrevista: Adriano Godinho FACEBOOK www.facebook.com/malevolencept VÍDEO www.youtu.be/vQcCsjpbOK4


Quem nunca disse na sua vida uma frase semelhante a “Antigamente é que era”? Pois eu diria que quase todos nós já fizemos esta observação e claro está, o mundo da música está cheio de casos que se enquadram neste sentimento. No início deste ano de 2014, a equipa da VERSUS Magazine decidiu levar às suas páginas uma nova rubrica que procura desencantar pérolas que ficaram escondidas e esquecidas. Bandas e discos que surgiram e se extinguiram, por vezes, a uma velocidade meteórica mas que a seu tempo foram promissores e de quem teria sido interessante obter novos lançamentos. Para estreia nesta rubrica proponho uma banda Finlandesa intitulada Legenda. Lançaram na década de 90 um E.P. e dois álbuns sendo que nesta rubrica destacaria o último álbum «Eclipse». Kimmo Luttinen (ex - Beherit, Impaled Nazarene, Catamenia, etc) e Niko Karppinen (ex – Sentenced, e atualmente nos Bloodride) juntaram-se num projeto que me pareceu com o álbum «Eclipse» acima da média para a altura e mesmo na atualidade continua a ser um álbum que ouço com alguma regularidade. Bastante colado a uma sonoridade tipicamente Black Metal, «Eclipse» é um disco pontuado por uma consistente base de teclados que dão uma densidade melódica muito interessante a toda a sua extensão, caracterizado não só por melancolia com cadências previsíveis mas muitas vezes trespassado por divagações loucas de explosões de energia. O meu tema de eleição é “Cohorts of demons”, são quase 3 minutos explosivos onde uma fúria avassaladora é intercalada com segmentos curtos contemplativos, de sentimentos negros que podem tomar conta de um qualquer anjo e o transformam numa força demolidora que reduz a cinzas todas as forças que se lhe deparem, sejam elas forças do bem, forças do mal ou assim-assim. Não deixa de ser curioso que um dos temas mais belos do álbum surge na faixa imediatamente seguinte: “Sister shadow sister (BlooddanceMix)”. É de facto de uma melancolia e de uma beleza incrível, deixando as vocalizações agressivas de lado e assumindo um registo quase lírico este é um tema que serve de exorcismo a toda as tempestuosas sensações que previamente saboreamos. Um álbum ao mesmo tempo agressivo, irónico e que explora sentimentos entre o cinzento do frio nevoeiro nórdico e o cinzento das cinzas vulcânicas numa mistura entre o desconforto do calor abrasador e o gelo cruel algures no meio resulta num álbum que espero justamente reavivar agora em 2014. Sérgio Teixeira LEGENDA Quem? Kimmo Luttinen e Niko Karppinen Onde? Finlândia Quando? Década de 90. Activos entre 1996 e 1998. Como? Niko Karppinen no baixo, Kimmo Luttinen nos restantes instrumentos. Lançamentos «Chronicles Chapter I Promo», «Autumnal», «Eclipse».

38


Grito de Sobrevivência 21 anos passaram mas nem por isso a vontade e o feeling desapareceram. Os Booby Trap, banda de Aveiro que praticam um cruzamento entre o Thrash e o Punk, após uma longa hibernação despertam com mais força que nunca e gritam um disco novo, «Survival», totalmente financiado pelos membros. A VERSUS Magazine esteve à conversa com o Wild e o Peter e quis saber tudo o que está por detrás desse grito. Apesar de um longo período de inactividade, como é que se sentem com 21 anos de banda? Pedro: Velhos… mas falando um pouco mais a sério e apesar de estarmos neste ano de 2014 a celebrar 21 anos desde a nossa fundação a verdade é que enquanto banda temos pouco mais de 6 anos de actividade. Estivemos adormecidos desde finais de 1997 até 2012, pode-se dizer que durante esse período estivemos a arejar as ideias e voltámos agora mais maduros e mais 40

conscientes do que estamos a fazer. Somos como o vinho do Porto. E como foi regressar aos Booby Trap em 2012, e fazer aqueles concertos em Aveiro e em Ílhavo? O que sentiram do público? Wild: Para nós foi estimulante, quer pelos concertos, quer pelo convívio e pela satisfação de voltarmos a tocar e criar música juntos. Quanto aos concertos,


foi bom saber que ainda conseguimos chegar ao fim de um “set” com vida, e que o público, embora mais morto que vivo, também acompanha. Na verdade o público foi excelente, nós temos é outra pedalada. «Survival» é o vosso novo trabalho. Como foi trabalhar nele? Foi difícil manter a sonoridade oldschool do Thrash e Punk, ou fluiu naturalmente? Pedro: Primeiro que tudo era importante saber se a nossa veia criativa continuava viva e se essa criatividade se revelaria em termos de qualidade, no geral foi um processo muito saudável, escrevemos as musicas para o álbum durante aproximadamente um ano (á excepção de duas que já vinham dos anos 90 mas que nunca tinham sido gravadas) por entre concertos e ensaios, quando decidimos que já tínhamos um bom punhado de músicas dignas de serem registadas e apresentadas ao publico restava-nos decidir a melhor forma de faze-lo. E depois de estudar as várias opções que estavam ao nosso alcance optámos então por gravarmos nós próprios o álbum, na nossa sala de ensaios convertida em “home studio”. Foi inclusive uma das nossas lutas durante todo o processo de produção em tentar manter uma sonoridade mais enquadrada nos anos 80 e 90. Sobre a questão do estilo dos Booby Trap, trabalhámos da forma que sempre funcionou connosco. Somos (agora ainda mais) profundos conhecedores das nossas virtudes e limitações enquanto banda. Não colocamos qualquer barreira ao nível de estilos aquando da composição, apenas fazemos questão que todos os elementos se sintam confortáveis e gostem do que estão a tocar, sendo que somos 4 pessoas com gostos bastante distintos mas que cruzam as suas influências algures entre o Thrash e o Punk, influencias essas que talvez fossem mais vincadas nos anos 90 mas que agora surjam um pouco mais misturadas com sonoridades Rock e Heavy Metal. Mas para não usarmos um termo de catalogação demasiado extenso, costumamos descrever os Booby Trap apenas como uma banda Crossover Thrash. Decidiram lançar este trabalho por conta própria porque não conseguiram uma editora, ou foi mesmo opção de serem totalmente independentes? Wild: Na verdade, nem nos passou pela cabeça contactar nenhuma editora para lançar o «Survival» porque da maneira que este mercado está, ter uma editora, considerando as possibilidades de distribuição que existem hoje em dia, deixou de ser um obstáculo, ou uma via única de edição. Qualquer banda ou pessoa, com a tecnologia existente, pode produzir e editar um álbum hoje em dia, com recursos próprios. Digamos que a edição independente foi uma opção natural para dar seguimento ao trabalho de produção. Ape-

sar de todo o investimento de produção ter corrido a nosso encargo, e a edição inicial ter sido também suportada por nós, podemos sempre considerar novas vias de distribuição que também possam incluir editoras no futuro, e existem contactos nesse sentido que obviamente se tornaram mais fáceis depois de termos um produto para distribuir. Não precisámos de editoras para produzir o nosso trabalho, mas planeamos trabalhar em conjunto com algumas editoras para distribuir o nosso trabalho e assim tentar difundir a nossa música com proveito mútuo. O que é que os Booby Trap têm a dizer aos ouvintes com a sua música? Qual a vossa mensagem? Wild: A mensagem deste álbum está bem reflectida no seu título, «Survival». Tem tudo a ver com resistência às adversidades da vida, à luta diária com o interior de cada um, o tocar a vida para a frente independentemente de toda a porcaria que te atiram e que te aparece pelo caminho. Mas o caminho é árduo, tens de sobreviver ao preconceito, à manipulação psicológica, à corrupção, guerra, drogas, inveja, etc... etc... e vais ter de destilar muito ódio no processo de busca pelas poucas coisas ou pessoas que verdadeiramente te fazem sentir valer a pena viver ou sobreviver. Resumindo: Desde que nasces que o mundo se quer ver livre de ti, sobreviver é a tua melhor vingança. Vi nos créditos do vosso álbum que convidaram algum pessoal para participar nalguns temas. Queres falar sobre isso? Pensaram em convidar mais pessoal? Pedro: No caso da “Survive”, foi mesmo pensado e preparado para isso. Quando andávamos a ensaiar a musica, eu imaginava-a sempre com uma voz extremamente forte no refrão ao estilo dos The Last Of Them, mas infelizmente não consigo atingir esses registos vocais. E quem melhor para fazer uma voz de um certo estilo do que o próprio criador do estilo? Vai daí e era só convidar o nosso grande amigo Zé Luís Rocha a participar no álbum. Convite esse que ele aceitou prontamente passando assim a ser um eterno membro honorário dos Booby Trap. Quanto á voz feminina na A.D.A.E.E.D.R.D.A.G.I. foi uma obra do acaso, uma questão de aparecer a pessoa certa no local certo á hora certa. Mas certo mesmo é que ficámos muito satisfeitos com estas duas participações especiais. Experiencias a repetir no futuro, sem dúvida. Vi também que o conceito e grafismo do álbum foram desenhados pelo Ricardo Miranda. Ele conseguiu captar bem a vossa essência e a essência do «Survival»? Ficaram satisfeitos com o trabalho? Wild: O Ricardo Miranda é um óptimo profissional, 41


“Continuamos a ser a peça que não encaixa no cenário musical nacional, e a dizer aquilo que pensamos sobre a sociedade/humanidade” e não só captou a essência desta banda, que é fundamentalmente uma banda de energia ao vivo e de atitude, mas também o facto de termos sobrevivido a anos de interregno, de mantermo-nos vivos no espírito dos nossos seguidores e amigos(as), e voltar com um novo trabalho sem perder os nossos valores e forma de estar na música. Nesse sentido o trabalho do Ricardo acertou em cheio no conceito, ligando a ideia “Survival” à própria sobrevivência da banda Booby Trap. Quanto ao grafismo, não podíamos estar mais satisfeitos - adoramos a ideia gráfica de sermos uma banda revolucionária, não num plano político, mas antes num plano musico-social. Continuamos a ser a peça que não encaixa no cenário musical nacional, e a dizer aquilo que pensamos sobre a sociedade/humanidade. Muito obrigado Ricardo Miranda, o teu trabalho muito nos honra. Se ficarmos ricos com isto não nos vamos esquecer de ti, amigo.

apoio/promoção às bandas da região - e isso só se vê aqui neste festival. Não me recordo de uma única banda de Aveiro ter alguma vez tocado no Vagos - e olha que eu tenho ido lá praticamente todos os anos e já vi muitas actuações que em nada foram melhores do que algumas bandas aqui da zona seriam capazes de proporcionar - e é claro que eu incluo os Booby Trap nesse lote de bandas capazes de fazer um figurão no palco do Vagos Open Air… resta-nos esperar que se faça luz sobre os organizadores e sejamos, então, convidados a integrar nesta festa maior do Heavy Metal em Portugal. Vocês já percorreram imensos palcos com bandas não só nacionais mas também internacionais. Ainda consegues recordar de alguns momentos mais hilariantes que queiras partilhar com os nossos leitores? Pedro: Houve tantos. Boa camaradagem entre bandas; boas tainadas; umas quantas bebedeiras; bons amigos (e amigas) que ganhámos em mais de uma centena de concertos que já fizemos. Mas recordo um episódio muito engraçado que se passou no festival Ultra Brutal de Penafiel em 94. Nós eramos ainda uns miúdos e íamos abrir para os grandes Cradle Of Filth. E durante a tarde (estava um calor de morrer) entre soundchecks e muita cerveja, proporcionou-se ali um jogo de futebol entre os Booby Trap e sua crew contra os Cradle Of Filth e respectiva crew também. É claro que no final fomos nós a sair vitoriosos! Esta gente do Black Metal não foi feita para jogar á bola.

E concertos? Quais são os vossos planos? Já têm datas marcadas? Agora lembrei-me do festival Vagos Open Air 2014, e como seria muito porreiro estarem no cartaz. Pedro: Sim, já existem algumas datas agendadas, outras ainda á espera de confirmação, estamos abertos a convites (vá lá, não se acanhem) e disponíveis para tocar por todo esse Portugal. Quanto a um possível convite para tocar no Vagos, seria obviamente muito bem recebido pela nossa parte. É, para mim, o melhor festival do género em Portugal. Tem uma reputação inabalável e tenho plena convicção de que seriamos muito bem recebidos no palco do festival. Mas infelizmente a organização do Vagos peca unicamente num Entrevista: Victor Hugo ponto, para mim fulcral, que é o de não dar qualquer


Composições surreais Multi-instrumentista e detentor de vários projectos e bandas, Markus, também conhecido por Herbst em Lantlôs, apresenta o seu lado mais 80s, Wave e Post-Punk. Nada tendo a ver, portanto, com o que nos habituou em álbuns como «Lantlôs» ou «.neon», «LowCityRain» tem potencial para agradar outros ouvintes e até os já habituais. Foi esta outra face, diferente e apelativa, que nos fez querer conversar com o Markus e perceber o que o moveu até esta sonoridade. Onde está a origem de LowCityRain? Markus: Está numa pequena vila chamada de Rheda, que se situa na parte ocidental da Alemanha. Nada que tenhas ouvido falar. É apenas uma pequena vila normal. A tua expressão musical é totalmente diferente da expressão em Lantlôs. Poderei dizer que LowCityRain é a outra face da mesma moeda? Sim, ambas as bandas têm uma sonoridade diferente, mas eu não afirmaria que LowCityRain é A OUTRA face da mesma

moeda. É, sim, uma faceta de muitas. Eu componho imensa música dentro de vários estilos – Electro, Jazz, Indie, todos os tipos de post-qualquer-coisa, Metal, Shoegaze, Bossa, Hip Hop, e por aí em diante. Sempre que ouço alguma coisa que goste, eu quero experimentar essa sonoridade. Assim, LowCityRain é mais como que uma colecção de canções que compus ao estilo dos 80s. Lantlôs e LowCityRain são bandas completamente diferentes. Isso mostra a tua mente é aberta a outros estilos e sons

musicais? Sentiste que ganhaste experiência e conhecimento aceitando e acolhendo outra música na tua vida? Oh, sim! Tenho a mente bem aberta. E como tu deduziste – desenvolveu-se com o processo de amadurecimento, quando entendi que todos os tipos de música são, na verdade, mais interessantes do que pensava quando era mais novo. Virtualmente eu ouvia vários estilos de música, desde Bossa Nova a Psy Trance. Mas percebi que grande parte dos artistas sentem as mesmas coisas – há tanta escuridão no Jazz e no Techno como

43


“Estava sempre pedrado e sentia-me numa espécie de bolha surreal claustrofóbica, esperando por coisas em vez de viver a minha vida.” no Black Metal, por exemplo. Portanto, actualmente muito artistas inseridos em diferentes estilos estão a compor as mesmas canções, usando as mesmas progressões, melodias e harmonias – entendes o que quero dizer? Contudo, toda a música é produzida de maneiras diferentes, e eu precisava de me habituar a novas sonoridades e arranjos. Comecei a pensar e a ver as coisas desta maneira quando comecei a aprender produção de música. Levou algum tempo, mas quando surgiu em mim essa clarividência foi um imenso enriquecimento para o meu entendimento da música. Alguma vez pensaste em gravar este álbum, «LowCityRain», com a banda Lantlôs? Não, não faria qualquer sentido, na medida em que ambas as bandas são “bandas sonoras” – entendes o que quero dizer? Ambas as bandas têm a sua estética, a sua música e sonoridade. E a produção é, obviamente, muito diferente. E na verdade eu sempre quis ter uma banda com a estética dos 80s. Por isso foi bastante evidente desde o início manter LowCityRain longe de Lantlôs. Como foi trabalhar neste álbum? Sim. Sabes, na altura em que compus as canções, eu estava num período muito estranho. A maior parte delas foram escritas no verão. Levantava-me cedo, predava-me e compunha as canções. Simplesmente eu estava a tocar à volta de sons e melodias; as horas dissolviamse em minutos e de repente tinha uma canção pronta. Ou alguma ideia para uma nova canção. Foi como uma descarga, como se as canções fossem elas próprias evoluindo sem 44

qualquer influência minha. Nas tardes, eu estava sempre com os meus amigos a aproveitar o clima do verão. Isso manteve tudo equilibrado e inspirou-me imenso. Tocaste todos os instrumentos e até cantaste? Alguns dos instrumentos são programados, mas a maioria deles são tocados. É quase um “sim” que eu toquei todos os instrumentos – Felix, o baterista de Lantlôs, fez-me o favor de tocar alguns loops. E também o Andy Julia, dos Soror Dolorosa, deu o seu contributo emprestando a sua voz numa canção. Outra canção foi cantada pela Laura, uma amiga aqui da Vila. Tudo o resto é comigo. Uma curiosidade: o Andy Julia também contribuiu com as fotografias do álbum? Sim, claro! Ele fez todas as fotos e até cantou na “Nightshift”! Ele é um gajo muito porreiro! Estou muito orgulhoso de ter trabalhado com ele! O que é que «LowCityRain» tem para nos dizer? Que ideias e sentimentos tu exploraste neste trabalho? Eu compus o álbum com uma mistura estranha de sentimentos. Inicialmente houve uma rapariga que me inspirou para escrever as canções – canções diferentes das de Lantlôs. Contudo a maior parte do tempo sentia-me mal devido a várias coisas que tinha de desvendar em mim próprio. Estava sempre pedrado e sentia-me numa espécie de bolha surreal claustrofóbica, esperando por coisas em vez de viver a minha vida. Por outro lado, estava sempre com os meus amigos em passeios pelo lago, aproveitando o verão e o sol num modo mui-

to obscuro. Portanto, foi uma mistura muito estranha de sentimentos que me inspiraram a compor aquelas canções. Penso que tu também poderás sentir isso ouvindo-as – algumas são mais sonhadoras, outras mais melancólicas, mas em suma há sempre aquele feeling esquisito e “claustrofóbico”, acho eu. Bom, mas talvez seja uma impressão minha, porque estou muito próximo do material. Poderemos ver os LowCityRain no palco? Planeias fazer alguns espectáculos? Sim! Havemos de tocar ao vivo. Temos cerca de 2 ou 3 ensaios até agora e foram bastante divertidos. Bastante diferentes dos ensaios de Lantlôs – não tão altos! É mesmo muito divertido e definitivamente queremos partilhar isso. Mas não há ainda planos concretos, e tenho a certeza que irá demorar algum tempo para dominarmos todas as canções e estarmos pronto para toca-las ao público. E de ti, Markus, podemos esperar mais alguma coisa tua no futuro próximo? Sim! Acabámos, finalmente, os nossos trabalhos no novo álbum de Lantlôs, «Melting Sun», que nos deu um monte de trabalho para ser produzido. E queremos, mesmo, energia e actividade para tocarmos ao vivo com Lantlôs este ano! Espero mesmo que todos os planos se concretizem, e que finalmente tenhamos uma espécie de Tour pela Europa! Entrevista: Victor Hugo FACEBOOK www.facebook.com/LowCityRain


ACHERON «Kult des Hasses» (Listenable Records) Banda já com créditos mais do que firmados, os Acheron regressam mais uma vez numa toada pró-satânica – do ponto de vista lírico – e fazendo vibrar as tonalidades da sonoridade old-school na vertente musical. Naturalmente este «Kult des Hasses» não é uma obra-prima porque os discos old school não são especialmente talhados para chegar a um tal nível de originalidade, proficiência técnica e multiplicidade de paisagens sonoras que levem a um desfecho dentro do que se chamaria uma excecional obra. Mas com este disco os Acheron estarão o mais perto possível da excelência dentro do sub-género que levam para o estúdio e para os palcos. A parte técnica é de facto um excelente ponto a favor, especialmente nos solos das guitarras e nas irrepreensíveis cadências debitadas pela bateria assim como na voz de Vincent Crowley. Tudo isto é suportado por uma sonoridade com um excelente equilíbrio entre o sujo do old school e o imaculado dos solos. Agora temas como “Satan holds dominion”, “Jesus wept” ou “Misanthropic Race” demonstram que Vincent e restantes membros dos Acheron sabem compor temas e álbuns com cabeça, tronco, membros e alma. Especialmente nestas 3 músicas fica patente a capacidade de tirar da vulgaridade e transfigurar riffs ou sequências rítmicas algo familiares mas que sabe bem ouvir vezes e vezes até perder a conta. «Kult des Hasses» faz sentido como um todo e por comparação com outros discos do campeonato old school que já tenho ouvido há aqui uns pontos a mais que não foi nem será fácil de bater. A ver vamos. [9/10] Sérgio Teixeira

45


…Na Montanha mais alta do mundo! É a banda progressiva do momento. Estes “jovens” conseguem chegar ao topo do Metal/Rock progressivo em apenas três álbuns. «The Mountain» é soberbo! A forma como os temas estão interligados, a produção e o cuidado colocado nas harmonias vocais fazem deste um álbum único! Estão no topo da montanha! Agora, o céu é o limite! Richard Henshall respondeu às nossas perguntas Olá Rich, tenho de te dizer que fiquei deslumbrado com «The Mountain». Foi segundo no meu top de 2013 e classifiquei-o com 10/10. Richard Henshall: Obrigado. Como é que vocês lidam com as excelentes reviews que por aí fazem? Li algures que alguns dos “pesos pesados” do Rock/Metal Progressivo, tais 46

como M. Portnoy ou J. Petrucci têm «The Mountain» em grande consideração É extremamente compensador para nós recebermos tão grandes elogios de pessoas que respeitamos muito. Crescemos a idolatrar esses músicos, por isso é extremamente surreal para nós vê-los a reconhecer a nossa banda. O M. Portnoy, em especial, ajudou-nos muito ao longo dos últimos meses


e estamos imensamente gratos pelo seu apoio e realmente ansiosos para conhecê-lo no Progressive Nations Cruise na próxima semana! Achas que terem assinado pela InsideOut ajudou os Haken a atingir o desejado sucesso? Quando começámos os Haken tínhamos uma lista de coisas que queríamos alcançar e assinar com a InsideOut era uma delas. Por isso, receber um convite dessa editora foi um grande passo para nós. Eu tenho comprado muitos álbuns de bandas do catálogo deles e é com satisfação ver que pertencemos à mesma editora de alguns dos meus heróis. Nós ainda não estamos naquele ponto em que podemos afirmar que a nossa música e as nossas vidas estão em perfeita harmonia. Mas estamos a trabalhar para isso. Estamos todos animados com o que o futuro nos reserva e realmente acreditamos que podemos conseguir grandes feitos com a InsideOut. Vocês são uma banda relativamente jovem. Desde 2010 lançaram três álbuns e penso que chegaram ao topo com este último. Devo dizer que o caminho para o topo não foi muito longo. A partir de agora o que podemos esperar dos Haken e como é que vocês estão a lidar com este sucesso todo? À primeira vista pode parecer que somos uma banda jovem mas na realidade já estamos a construir os Haken, mais ou menos, há 12 anos. O Ross e eu, juntamente com o nosso amigo de infância, Matthew Marshall (Ex-guitarrista), costumávamos tocar muito juntos e foi daí que nasceu a ideia de formar os Haken. Passamos por algumas mudanças antes de nos sentirmos com confiança para gravar duas demos – 2007 e 2008 – e foi com estas que ganhámos força para assinar com a Sensory Records. Desde «Aquarius» que percorremos um longo caminho mas sinto que ainda temos um maior à nossa frente. Depois de, recentemente, assinarmos com a InsideOut sentimos que demos o primeiro passo de uma nova viagem. Assinar pela InsideOut abriu, certamente, muitas portas para nós. O que mais aprecio e acho que está de facto soberbo, são as vozes. Este facto torna-vos únicos uma vez que não me lembro de outra banda ter feito tal coisa. Um excelente exemplo disso é a introdução de “Because it’s there” Como é que vocês conseguem combinar excelentes músicos com excelentes vocalistas? Vocês têm um produtor somente para

as vozes? Muito obrigado! Fizemos um grande esforço para fazer que «The Mountain» fosse um álbum mais direccionado para as vocalizações e harmonias nas vozes, do que o álbum anterior. Antes de irmos para estúdio demos uma especial atenção à criação de linhas vocais que fossem memoráveis e tirámos um tempo extra para criar várias “camadas” de arranjos vocais. Essa secção que mencionaste foi arranjada pelo Ray e é uma variação dos acordes de “The Path”. Nós temos muitas influências de algumas bandas que ficaram conhecidas pelos seus arranjos vocais, tais como os Gentle Giant, The Dear Hunter e Queen. Os Haken têm seis músicos muito talentosos com formação superior. Como é que vocês se organizam em termos de composição e criação? Todos contribuem ou existe um criador principal? Eu sou a principal fonte de todas as ideias musicais. Perco algum tempo a construir a ideia e arranjos iniciais em MIDI e depois envio o resultado para os outros aprenderem. Mais ou menos uma semana depois, pegamos nos temas e juntamo-nos para ensaiar e arranjar algumas partes se for preciso. Trabalhar desta forma tem-se mostrado bastante eficaz, uma vez que dedicamos muito tempo a cada tema. No final acabamos com o tema bem refinado com o qual todos estão satisfeitos Um tema prgressivo muito porreiro mas de alguma forma esquisito é “Cockroach King”. Quem é a barata (Cockroach)? “The Cockroack King” é essencialmente um tema sobre a ganancia. O protagonista reclama por riqueza mas, no fim, aprende que essa riqueza não leva à felicidade. A barata representa a fortuna financeira e o rei das baratas (Cockroach King) simboliza o topo da cadeia capitalista. Se queres ter uma melhor ideia, podes ler “The Great Gatsby”. Vi o vídeo deste tema no vosso sitio - http://www. haken.fr/ - e é fantástico! De quem foi a ideia de fazer uma versão vossa em forma de Marretas? O vídeo foi todo idealizado pelo Charile e é um pouco como a versão “Bohemian Rhapsody” dos Marretas do Jim Henson. Ele até se deu ao trabalho de fazer os bonecos. O tema é muito direto e achámos que deveríamos ter uma abordagem mais leviana do vídeo. O Christian Burnett fez um trabalho

Temos muitas influências de algumas bandas que ficaram conhecidas pelos seus arranjos vocais, tais como os Gentle Giant, The Dear Hunter e Queen. 47


extraordinário ao realizar e editar, e capturou muito bem todas as expressões faciais. Vocês já partilharam o palco e tocaram com excelentes músicos e bandas – King’s X, Dream Theater, Diablo Swing Orquestra, Exivious, etc, Qual o concerto que mais recordas e qual a banda que gostaste mais de partilhar um palco? Desde o início da nossa carreira que partilhar um palco com os Dream Theater sempre foi um dos nossos objetivos. Então, quando aconteceu foi realmente especial. OS concertos com os King’s X, também, foram especiais porque estávamos no início da nossa carreira, eles realmente mostraram-nos como é tocar num grande palco. Cada banda que tocámos mostrou-nos sempre algo de novo, então, sentimonos abençoados pela oportunidade de tocar com todos eles. Infelizmente, (ou não, não sei), T. MacLean saiu da banda. O que aconteceu? Tenho a dizer, antes de mais, que ficámos destroçados quando o Tom nos deu a notícia. Ao longo destes seis anos tem sido como um irmão para nós, por isso lamentamos imenso. Ele tem outros compromissos e ambições que se mostraram incompatíveis com os Haken. Respeitamos totalmente a decisão dele e desejamos-lhe a melhor das sortes. Li no vosso Facebook www.facebook.com/hakenofficial que estão a audicionar um novo baixista. Como é que isso está a correr? Podes dar-nos

algum nome da vossa lista? (Acho que não mas perguntei na mesma. Está certo. Terminámos recentemente o processo de audições e escolhemos um. Inflelizmente, ainda não posso revelar o nome, mas podem estar descansados que temos plena confiança na sua técnica e acreditamos, sinceramente, que vai trazer algo novo aos Haken. Por falar nisso, estou curioso, como é que vocês audicionaram os baixistas? Pedimos às pessoas que submetessem um vídeo deles a tocar nota-por-nota de “Portals” e a sua própria interpretação do tema “Because it’s there”. Fizemos assim para termos uma ideia da sua técnica mas também, do seu lado criativo. Escolhemos um grupo reduzido e convidamo-los para uma audiência pessoal em Londres que teve lugar a semana passada. Ficámos muito satisfeitos com o resultado final e extremamente ansiosos para partilhar a decisão como os nossos fãs. Gostava mesmo de vos ver em Portugal. Haverá alguma possibilidade de vos ver por cá? Gostávamos de um dia poder tocar em Portugal. É bom saber que temos apoio aí. Obrigado pela entrevista Obrigado! Entrevista: Eduardo Ramalhadeiro


Não-humano A genialidade pode manifestar-se num indivíduo de várias formas. No entanto, nem toda a gente nasce com esta característica natural. Felix Martin não parece humano, mais parece uma máquina de alta precisão! Felix desenvolveu e aperfeiçoou uma técnica impar que faz dele um virtuoso… simplesmente genial. A música que produz está para lá da compreensão de um simples e comum mortal. Como diz algures na entrevista: “recomendo que os jovens tenham lições de música”. Portanto, rapaziada… vamos a estudar! Antes de mais, parabéns pelo novo álbum. Como foi recebido «The Scenic Album»? Félix Martin: Obrigado! Pelo que sei, as pessoas têm gostado, especialmente as mudanças de estilo nos temas e o uso da guitarra Este é, realmente, um álbum extraordinário!

Foi muito difícil para ti gravá-lo? Com este grupo de músicos acho que se torna um pouco mais fácil, especialmente com o Marco – Sou fã incondicional, é um extraordinário baterista. Foi um pouco duro porque há imensas mudanças, é como haver nove mini-temas num tema 49


inteiro e muitas vezes á difícil interligá-las sem problemas. Eu tive a sorte de trabalhar com o Marco e o Nathan, eles tornaram o processo mais fácil. O Marco é realmente muito rápido no que diz respeito à composição das partes de bateria. Eu vi alguns vídeos no teu canal do Youtube. Tu e a tua música são únicas. Relativamente ao tema “High spirit” escreveste que era “uma mistura de estilos” e no fim dizes que “é muito intensa/difícil de memoriza e tocar”. Como é que consegues misturar Prog Rock, Latin Metal e o tema do Inspetor Gadget? Esta é uma das tarefas mais complicadas: interligar diferentes estilos num só tema. Não consigo explicar muito bem porquê. Quando componho é algo que, simplesmente, acontece. Penso que o elemento mais importante é a “ligação” entre as diferentes secções com estilos diferentes. Se encontrarem a maneira correta não terão problemas. Tu és tremendamente talentoso, um “pequeno” génio :-), não só como músico mas em termos de… memória. Como é que consegues memorizar tanta música, riffs, etc.? Ao vivo já alguma vez te esqueceste de um riff e tiveste de improvisar? Apesar de tudo tocas duas guitarras ao mesmo tempo! :-) Obrigado! Acho que já estou habituado. O meu cérebro habituou-se a memorizar temas complicados. Também ajuda se souberes teoria musical e tiveres bom ouvido. Se souberes o tema na tua cabeça, então, os dedos sabem por onde têm de ir. Claro, ninguém consegue tocar de forma perfeita e acho que é assim. Às vezes tenho algumas imperfeições enquanto toco, mas… somos humanos, não robots! Sendo assim e enquanto músico, como te defines? Gosto de explorar novas ideias, é a minha paixão crira e compor música diferente. A tua música é muito complexa, como é que surgem as ideias e o teu processo criativo? Eu gravo todas as vezes que toco guitarra. Se houver algo que me agrade vejo o vídeo e transcrevo o que gosto. Depois disso, desenvolvo esse fragmento numa secção do tema (digamos, 30 segundos), depois, repito esse processo vezes sem conta. A ideia é encontrar a ligação certa entre as partes, como já disse anteriormente. 50

Como nasceu a ideia de construir tais guitarras? Elas são construídas segundo as tuas ideias e especificações? Sim. Enquanto adolescente costumava tocar com duas guitarras ao mesmo tempo mas era algo desconfortável. Além de que soavam diferente. Eu queria duas guitarras dentro de uma só exactamente com o mesmo som mas que eu pudesse tocar como uma. Eu desenvolvo todos os meus modelos em conjunto com a Luthiers. Fiz uma pesquisa no teu site – www.felixmartin.net – e não penso, sequer, em perguntar sobre a tua técnica propriamente dita, está muito para além do conhecimento de um simples mortal. Eu só te pergunto uma coisa: como é que desenvolveste tão complexo sistema? Para mim é natural. Todas essas técnicas apareceram, naturalmente, de tocar guitarra. O que faço agora é organizá-las todas. Isto pode parecer complexo mas actualmente estou a trabalhar em vídeos e métodos instrutivos, de maneira a explicar tudo isto facilmente. Guitarra clássica é mais difícil!


O meu cérebro habituou-se a memorizar temas complicados. Também ajuda se souberes teoria musical e tiveres bom ouvido. Como é que aplicas tão bizarro conceito, tal como Drum Blast beats, na tua música? Está relacionado com tapping percursivo. Esperem pelos vídeos.

ciso de fazer uma revisão a todo o material. Já não pratico por praticar. Tem em atenção que quando estou a compor estou, constantemente, a praticar.

O que é que nasceu primeiro: a guitarra de dois braços e a tua adaptação a esse instrumento ou o teu dom e a necessidades de construíres algo diferente? A necessidade de fazer algo diferente. Chegou a uma altura em que pensei utilizar um Chapman Stick, mas havia um problema… isso não era uma guitarra

Tendo nascido na Venezuela foi muito difícil cresceres como músico? Foi porreiro porque cresci numa cidade pequena onde, realmente, não existiam bons professores de guitarra e isso tornou tudo mais difícil. No entanto, isso obrigou-me a criar os meus próprios métodos e uma visão do instrumento. A propósito, recomendo que os jovens tenham lições de música, eu simplesmente não tive oportunidade.

Por falar no Stanley Jordan, já alguma vez tocaste com ele? Até podia ser divertido: 2 músicos e 4 guitarras… Não, ainda não. Vou contactá-lo assim que tiver este conceito mais organizado, provavelmente no verão! Quantas horas praticas por dia? Hoje em dia não pratico muito, em vez disso vou-me dedicando a projetos. Se estiver a compor eu, simplesmente, escrevo música durante todo o dia (14 horas, talvez?). Se estive a misturar ou editar no Pro Tools é a mesma história. Só pratico quando tenho um concerto e pre-

Muito obrigado pela entrevista e espero poder ver-te em Portugal. Eu estive em Portugal em 2012 e com certeza voltarei em breve. Entrevista: Eduardo Ramalhadeiro SITE OFICIAL www.felixmartin.net VÍDEO www.youtu.be/HQYhLPygG90


ALFAHANNE «Alfapokalyps» (Dark Essence Records) Primeiro trabalho deste projecto sueco, que resulta de uma miscelânea de estilos e influências e nos oferece um som cru e directo. Entre o black metal, o punk, o rock clássico e até o new wave, percebemos o espectro alargado aqui evidenciado, no entanto sem muito se desviar da sua raiz que é a música directa e com carácter (como o prova o facto de ser cantado em sueco). Somos levados a ter uma opinião de extremos pois a posição é mesmo essa. Se em faixas como o tema de abertura “Bättre Dar” o som é mais “in your face”, já outros temas primam pela profundidade do declínio e melancolia do arranjo, como no mais longo tema do trabalho: “Såld På Mörkret”. Ao longo do álbum, o ambiente das composições vai mudando, sem nunca deixar alguma sensação de se repetirem nem que as músicas são variações da anterior. O que nos deixa a sensação de um trabalho evoluído e feito por gente que sabe compor e materializar ideias. O ponto menos positivo passa pela dificuldade de digerir isto tudo e conseguir apreciar toda a dimensão do álbum. Para enquadrar o projecto, Alfahanne é constituído por antigos elementos dos Vinterland e Maze Of Torment e este álbum conta com a participação de gente como Hoest (Taake), Niklas Kvarforth (Shining) e V’gandr (Helheim). Para os que poderão se deslocar, os Alfahanne estarão presentes nos festivais “Inferno” (o de Oslo) e o “Tons Of Rock”. [6.5/10] Adriano Godinho

APHONIC THRENODY «First funeral» (Avantgarde Music) “O primeiro funeral é sempre o mais especial”, já dizia o coveiro lá da terra; e não é por este «First Funeral» dos Aphonic Threnody não ter cadáver que o torna menos especial. O som é um funeral doom cavernoso, sangrento, duro e lamacento. Nem um vislumbre de luz passa por entre a espessa camada de fumo à volta das composições deste trabalho. Não se assustem, que a falta de felicidade não interfere com a qualidade do trabalho; nem a falta de vida, devo dizer, traz a estes temas alguma desculpa de o pôr de lado, pois se o género não é dos mais diversificados, inventivos ou revolucionários, a intenção também não é essa e todos nós temos de encontrar o nosso intento e leva-lo a bom porto. Coisa conseguida aqui, neste funeral de melancolia, desespero…apatia! Com temas com títulos tão sugestivos quanto “Life calls death” ou “Light eyes fade away”, a temática é bem o que se espera de uma banda de funeral doom: o fim. As quatro faixas que compõem este álbum são bastante longas, marcando bem a sua presença e deixando o tempo maturar a música até levar-nos a um ponto de ruptura para com nós-mesmos. Assim se classifica o bom doom: os momentos a que nos leva a música, pois trata-se do instrumento de evasão da vida, a morte in re ipsa. Daí a palavra funeral, daí a morte, daí a fuga para o infinito e o inalcançável. Sejamos libertados destes tormentos. [7/10] Adriano Godinho

CHROME DIVISION «Infernal Rock Eternal» (Nuclear Blast Records) Banda que teve início de um projecto paralelo e toma hoje dimensões mais consequentes com um novo trabalho, que trás consistência e mostra a capacidade de rock ‘n rol desta gente, que pertence a outros universos musicais. O guitarrista não é mais do que Shagrath, vocalista dos Dimmu Borgir, que decidiu, com a ajuda dos seus amigos Lex Icon, dos The Kovenant e Luna, dos Ashes to Ashes, criar um banda de rock com a qual poderiam modelar a sua paixão por este estilo de música e toda a cultura que o rodeia. Apesar do colectivo ter sofrido substituições, a qualidade deste último trabalho está presente e não se sente

52


a perda de ritmo ou de contexto do intuito inicial. São-nos apresentadas doze faixas que percorre o momentos de muita energia, tanto num espectro mais heavy metal como noutro mais rock ‘n roll. Após uma boa apresentação com uma faixa instrumental, o rock começa com força em “Endless nights” com coros elevados e grosso som de guitarra. O ritmo não pára com as faixas seguintes; menção honrosa para o refrão de (we are the children of) “The Absinthe voyage”. O álbum sofre uma (brusca?) pausa com a faixa “Lady of perpetual sorrow” que impõe a qualidade da voz de Pål Mathiesen dos Athera of Susperia, a.k.a. Shady Blue acompanhada com uma componente instrumental que nos faz ainda acreditar no rock ‘n roll. Caso isso não chegue, ainda há mais por onde ficar com o desejo muito bem satisfeito com faixas como “No bet for free”, “Mistress in madness” ou “Reaper on the hunt”. Long live (doomsday) rock ‘n roll! [7.5/10] Adriano Godinho

CYNIC «Kindly Bent to Free Us» (Season of Mist) Bem, se escrevi na review dos Iced Earth que o álbum poderia ser, de alguma forma, não consensual e dado os primórdios dos Cynic, «Kindly Bent to Free Us» é capaz de suscitar esses sentimentos mas levados ao extremo. Os Cynic são um trio de músicos altamente técnicos: Sean Reinert, Sean Malone e Paul Masvidal. A sua soberba demo de 1991 mostranos uns Cynic num registo Death Metal muito técnico, provando que os Death não estavam sozinhos. Não foi por acaso que Reinert e Masvidal foram recrutados por C. Schuldiner para gravar «Human». A evolução – será? – levou os Cynic a registos cada vez mais progressivos, igualmente técnicos mas a um género que nada tem a ver com a primeira demo ou Death Metal em geral (Li uma crítica algures e numa frase apareciam Cynic e Muse na mesma frase…). «Kindly…» “desagua” num ambiente sonoro complexo, intenso que precisa de ser compreendido e ouvido muito atentamente de modo a podermos disfrutar de toda a sua musicalidade. Os Cynic transformaram o seu Death Metal numa fusão intrínseca e complexa de Jazz e Rock Progressivo. Para mim é claro como água: Evolução? Claramente! Assim como Schuldiner evoluiu progressivamente os Death para Control Denied, os Cynic evoluíram para um estilo e género de música completamente diferente. Goste-se, ou não, consensual ou nem por isso, «Kindly Bent to Free Us» é para ser ouvido e compreendido de uma forma inteligente. A beleza da música também é feita desta disparidade de sentimentos. Disfrutem-na! [9.5/10] Eduardo Ramalhadeiro

DEATHEVOKATION “The Chalice of Ages” (MDD) Cuidado! Ao ouvirem este álbum poderão ser arrastados até ao inicio dos anos 90, uma altura em que as bandas de Death-Metal trespassavam corajosamente as vivências da década anterior com uma ambiência ainda mais soturna. Desbravando um reino cuja atmosfera atrai libertinamente qualquer um com uma introdução retirada de “The Witch Hammer” de Shinjuku Thief e uma dose de ritmos e vocais excruciantemente nojentos que em nada lamentam a sobriedade, aqui há blasfémias tão atrozes que de certeza que vos agradará. DEATHEVOKATION (EUA ; o nome sendo o mesmo da primeira música da demo de Dismember de ’88) surgiu em 2005 tragando influências de bandas como Bolt Thrower, Nihilist, Morgoth, Asphyx, Autopsy, Unleashed e Dismember, irremediavelmente dando um pontapé nos tomates de muitas das bandas que dão mais valor à melodia, que cativa o ouvido, e à técnica, que cativa qualquer músico, do que ao peso. Após a edição da sua primeira demo, “Blood”, em 2005, receberam um convite por parte da Xtreem Music (ESP), editora liderada pelo famoso Dave Rotten, o que depressa fez com que esquecessem os planos de apenas editarem demos e lançassem em 2007 este álbum. Os membros estiveram/estão em Winterthral, Noctuary, Warface, German e Gutrote, mas, infelizmente, após vários splits cds com outras bandas, terminaram a carreira. Porque parece que o € faz falta, a Xtreem Music editou, em Fevereiro deste ano, “The chalice of ages” com um disco bónus contendo músicas ao vivo e outras que saíram na demo e splits. [8/10] Jorge Ribeiro de Castro

53


DESTRAGE «Are You Kiddin Me? No» (Metal Blade Records) Desde que me embrenhei nestas andanças de música, reviews, entrevistas e outras coisas que tais que o volume de bandas e álbuns que me passam pelos ouvidos tornou-se, de alguma forma, considerável. A grande vantagem – além do prazer de ouvir boa música – é mantermo-nos sempre atualizados. O grande revés é que começa a tornar-se cada vez mais difícil ouvirmos algo diferente e que nos surpreenda verdadeiramente. Nestes tempos mais recentes e assim muito de repente, lembro-me dos Ne Obliviscaris, A Diablo Swing Orchestra, Witherscape e os portugueses The Godspeed Society, (Poderão haver outros…). Neste rol entram agora os Destrage. Defini-los em termos musicais é algo… complicado. Bem, como ponto de partida temos o Modern Metal, estilo este relativamente “quadrado” podendo dissolver-se facilmente no Metal Core e afins, algo que, aliás, não é muito do meu agrado. No entanto, os Destrage conseguem incorporar uma dinâmica musical apreciável, associando técnica, groove, originalidade e humor. A voz de Colavolpe está mesmo no limite Metal Core que eu considero aceitável para a minha insanidade mental, mas até nisso conseguem imprimir dinamismo. Os Detrage fazem-me lembrar, se bem que em estilos diferentes os Carnival In Coal… Ouçam com atenção, por exemplo, a última faixa que dá nome ao álbum, a variedade de ritmos, a utilização de trompetes, qual ritmo Mexicano e a forma como encaixam um riff Eletrónico em «Obedience». Ainda estamos em Março mas para já o álbum original do ano! [9/10] Eduardo Ramalhadeiro FATES WARNING «Darkness In A Different Light» (Insideout Music) Tal como os Iced Earth, os Fates Warning são uma instituição e tal como os Iced Earth esperamos sempre o melhor de ambas sendo indiscutível e inquestionável a qualidade proporcionada por estas duas bandas. Com vinte anos de existência os Fates Warning são uma das maiores referências no metal progressivo. Como é óbvio, ao longo destes anos era de esperar que Jim Matheos fizesse algo de diferente. Um chuto na monotonia discográfica, mal de que padecem muitas bandas. O último lançamento data de 2004 e «Fates Warning X» (FWX) trouxe-nos uns Fates mais experimentalistas. Após este, todos os membros dedicaramse aos mais diversos projetos pessoais e após um hiato de dez anos chega, então, «Darkness In a Different Light». Curioso, no mínimo, para saber onde Matheos nos levava. «Darkness…» não é propriamente um regresso às origens de «A Pleasant Shade Of Gray» e não é, de maneira alguma, a continuação de FWX. No entanto, a musicalidade continua com um grande enfase nas guitarras, sem teclados ou samplers, sempre com a “impressão digital” e a qualidade que Matheos e os Fates já nos habituaram. Este álbum só tem dois “defeitos”: 1 - só à terceira vez consegui descobrir a sua verdadeira essência; 2 - depois de descoberto não é nada fácil deixar de o ouvir. Este tipo de álbuns torna-se complicado, para nós críticos, uma vez que há outros trabalhos para escutar e este, simplesmente, não sai da cabeça. De resto, os Fates tiveram mudanças na formação, com a entrada de Joey Vera, Frank Aresti e Bobby Jarzombek. O próprio título, «Darkness In a Different Light», faz um breve resumo deste álbum: os habituais riffs “negros” (e melancólicos), que misturados com uma nova musicalidade conferem aos Fates Warning uma brilhante e diferente luz. [9.5/10] Eduardo Ramalhadeiro ICED EART «Plagues Of Babylon» (Century Media) É sempre notícia quando Jon Schaffer faz sair um novo álbum dos Iced Earth. «Dystopia» saiu em 2011 e marcou a viragem de uma Era nos Iced Earth. Após a saída de Matt Barlow (vá… despedido), Schaffer chamou Tim “Ripper” Owens e coincidência ou não, acabou por ser uma das épocas menos boas dos Iced Earth, com alguns lançamentos menos conseguidos. «Dystopia» foi o primeiro álbum de Stu e a esmagadora maioria das vezes, o primeiro álbum de um novo membro nunca deixa transparecer o seu total valor. «Plagues Of Babylon» não será tão consensual como será o facto de Stu ter demonstrado o “Monstro” que é. Avançando para a música propriamente dita, «Plagues…» é um upgrade

54


do anterior. De uma forma muito crua e simplista, dá-me muito mais prazer ouvir este último. É viciante! «Plagues…» tem alguns momentos que podem quebrar um pouco o ritmo frenético Power/Thrash de faixas como: “Plagues of Babylon”, “Democide” ou “Among The Living Dead”. Este facto poderá gerar algum sentimento “amor/ódio” mas no que há minha opinião diz respeito, vejo-me muitas vezes com aquela sensação de: “Já chegou ao fim!?”. E recorrendo, outra vez, a uma forma simplista de a transmitir, nunca em momento algum passei uma faixa à frente, seja por não gostar ou por quebrar o ritmo da música. E isto inclui a power ballad “If I Could See You”. Visto a esta distância, talvez as classificações de «Dystopia» e «Plagues» estejam trocadas… não somos perfeitos. Para finalizar, Schaffer continua um mestre na arte de compor bons riffs e chamo muita atenção para a dinâmica deste álbum. Neste últimos tempos só comparável aos Witherscape. Ouçam, por exemplo, a bateria! O ressoar dos pratos… ouve-se tudo, com pormenor e clareza. É assim que a música deve ser… dinâmica! [8.5/10] Eduardo Ramalhadeiro

KAYSER «Read Your Enemy» (Listenable records) A Suécia continua com uma séria produção musical em vários estilos, tanto no Southern rock até ao metal extremo, aqui os Kayser são um grupo que se coloca entre o rock e o metal. As vozes e as melodias dos refrões fazem-nos associar a sonoridade mais rock (o vocalista poderá estar na influência disto pois trata-se do Spice, antigo Spiritual Beggars), no entanto o início do álbum e alguns momentos mais agressivos espalhados pelas doze faixas que completam este álbum, não nos deixam esquecer que trata-se de uma banda de metal. O intuito da banda, como comunicado pelos próprios, é de criar uma banda de puro metal. A verdade é que isso não me transparece e vejo neste trabalho um som bem mais rock, ouvido em refrões de faixas como “I’ll deny you”, “He knows tour secrets” ou até no tema título “Read your enemy”. Estando apenas presenta a faixa “Bring out the clown” para mostrar algum som mais pesado que poderá ser considerada mais do que rock. No geral fica um álbum que falha no intuito, mas que nos deixa um bom som rock. Se falhar o objectivo não deve denegrir nem descaracterizar o trabalho realizado, então penso que este rock pesado dos Kayser pode agradar a muitos, sem redefinir o género. Se a originalidade num estilo musical já com várias décadas nunca é fácil (mas não impossível!), a capacidade de fazer algo de conciso e bem elaborado é sempre um bom plano. [6.5/10] Adriano Godinho

LEGION OF THE DAMNED «Ravenous Plague» (Napalm records) Apenas oito anos após a criação deste projecto, os rapazes dos LOTD não tiveram tempo de desenvolver hobbies ou até vida pessoal, diria eu, pois desde então já lançaram nada mais do que oito álbuns: um álbum por ano em média. Nada mau, diriam vocês, ou nada de extraordinário diriam outros, pois trata-se de death metal, basta meter dois ou três riffs, uma batida e uns berros e tá feito, bem, quem conhece os LOTD e está familiarizado com os trabalhos que lançaram sabe da qualidade a que nos habituaram, os outros poderão formar a sua própria opinião ouvindo. Este último «Ravenous Plagues» larga jarda e mostra ter mais do que apenas um primeiro impacto que-nos-cola-ao-chão. Claro a entrada de cabeça com “Howling for Armageddon” é dos momentos fortes deste álbum (com uns versos que, devo dizer, me agarraram de imediato) mas ficam também assinaladas as faixas “Doom priest”, “Bury me in a nameless grave” e “Strike of the Apocalypse”. De notar uma intro composta por Jo Blankenburg (Harry Potter, X-Men, 300) que cria um ambiente que julgo não se encaixar bem com a primeira faixa. O resto do álbum não nos dá vontade de ir matar gente para Kiev, nem de lançar o armagaddon em Sochi, portanto fica margem para este quarteto germânico crescer, que julgo terem mais para nos dar nos próximos anos que poderá criar uma legião, não de danados mas sim de good damn fans. [7/10] Adriano Godinho

55


MENACE «Impact Velocity» (Season of Mist) Quem já ouviu falar dos Napalm Death sabe que os seus elementos já andam na estrada há muitos anos; agora o guitarrista Mitch Harris decide dar o pontapé de saída ao seu projeto a solo denominado Menace. Quem espera ouvir a sonoridade típica dos Napalm nestes Menace vai ficar no mínimo surpreendido pela componente eclética que perdura ao longo dos 13 temas de «Impact Velocity». Primeiro que tudo este é um álbum que vai buscar peso sobretudo às tonalidades graves das guitarras e esse é um vetor que define todos os temas; no entanto o suporte melódico das vocalizações limpas de Mitch Harris coloca a fasquia dos Menace bem mais próximo de uma banda mais próxima do Hard Rock do que do Metal extremo. Como comecei por referir, este é um álbum eclético, no sentido em que não se sabe muito bem o que esperar, dada a as múltiplas texturas e padrões que vão surgindo tema após tema e acompanhados de inequívocas maturidade e personalidade. Em apenas 2 ou 3 audições não se consegue absorver todos os elementos e nuances que subtilmente vão surgindo segundo após segundo. Contratempos, múltiplas camadas, por vezes dissonâncias, guitarras que vão do ultra pesado até aos arpejos limpos, conferem a «Impact Velocity» uma densidade estonteante. Os primeiros 4 ou 5 temas talvez sejam facilmente digeríveis mas a partir do tema “Drowning in density” as coisas começam a ser bem menos lineares. Não é fácil classificar esta estreia e é possível que esteja mais perto de ser uma obra-prima do que o que sou capaz de destrinçar em apenas algumas audições. [9/10] Sérgio Teixeira MONKEY3 «The 5th Sun» (Napalm Records) Muitas vezes o problema das bandas instrumentais é cativar o ouvinte. Até podem ser mestres da técnica mas se levam a música à monotonia, não conseguindo “prende-lo”, perdem-se logo na primeira audição - Convenhamos que é muito mais fácil de o conseguir tendo um vocalista. Os Suíços Monkey3 conseguiramme agarrar com facilidade e logo na abertura. À primeira audição de «Icarus», o tema com quase 15 minutos que abre de forma magistral «The 5th Sun», somos arrastados para um turbilhão de diferentes emoções, melodias e ambientes. Tal como Boris nos conta na entrevista, este tema nasceu de dois ensaios improvisados, resultando em diferentes “peças” que depois de encaixadas no sítio certo, deixam transparecer um magnífico e admirável puzzle! «Icarus» é o mote prefeito para o resto do álbum. Rock Instrumental Psicadélico, com laivos de Led Zeppelin, Porcupine Tree ou Pink Floyd. Os temas não são banais, não se repetem e em momento algum nos deixamos envolver pela monotonia. Todos têm as tais “peças”, cada qual representando um diferente ambiente ou influência, soberbamente “encaixados”. “Birth of Venus” e “Pintao” estão um “nadinha” abaixo dos restantes. Talvez por serem os que tenham menos variações, menos mudanças ambientais e por isso podem soar… diferente. Fiquei, por isso, com a sensação que estes temas poderiam ter mais qualquer coisa ou desenvolverem-se de uma forma diferente. De maneira alguma desvirtuam o álbum fazendo deste o ponto mais alto dos Monkey3. [9/10] Eduardo Ramalhadeiro SAMMATH «Godless Arrogance» (Hammerheart Records) Mal se começa a ouvir este quinto álbum dos Sammath, cedo se descobre que, ao longo dos próximos minutos mal teremos tempo para descansar, quanto mais respirar. Formados em 1994 por Jan Kruitwagen (guitarrista) num dos continentes mais a sul, Austrália, o seu mentor e único compositor cedo tragou inspiração dos pestes e libertinos que ultrajaram a música com as suas composições avassaladoramente cruéis nos anos 80 e início dos 90 (Death-Metal e Black-Metal). Enquanto algumas bandas permitiram o uso e abuso da doce melodia, Sammath nunca foi de seguir uma empreitada mais mundana, antes embrenhar-se em

56


cenários de destruição maciça com uma banda sonora arrepiante cujas letras dignificassem qualquer ensinamento que a História ofertasse. Aliás, os instrumentistas de Sammath não se preocupam com o que eleva a alma, mais com o que a condiciona aos piores tormentos porque as guitarras serram qualquer harmonia tanto quanto o vento mais arrepiante, a secção rítmica bate e remate mais do que qualquer metralhadora e a voz agoniza cada instância com os delírios de quem padece por saber que nunca encontrará a liberdade de morrer. Este é o primeiro álbum na Hammerheart, o quinto na carreira, após dezasseis anos na germânica Folter Records, e, quem os conhece desde há anos, sabe que continuam a aprimorar as forças mais negativas com o seu Furious Black-Metal, o que de certeza agradará aos ilustres ouvintes de Mayhem, Venom, Marduk e Burzum. [9.5/10] Jorge Ribeiro de Castro SHEAR «Katharsis» (Lifeforce Records) O 2º lançamento dos Shear acontece no início deste ano sendo que, para quem não conhece, é mais uma banda com vocalista feminina made in Finland. Quem anda por estes trilhos sabem bem o quão difícil é ser-se mais uma banda heavy com vocalista feminina e ainda assim não cair nos dez mil clichés associados a esta tendência: riffs de consumo imediato, produção híper-maquilhada, a história de uma qualquer alma alvo de todas as setas do cupido que esgotou o stock de madeira ao arruinar o destroçado coração da rapariga afetada por todos os desgostos amorosos. Enfim, neste aspeto os Shear não se desviaram muito. Porém acho que não se pode olhar para Katharsis como apenas mais um do género. Há de facto uma preocupação genuína com a estética e paisagens sonoras para obter um resultado com cabeça tronco e membros. A voz de Alexa Leroux apesar de não ser radicalmente diferente de todas as outras, acaba por ter pontos de distinção, nomeadamente quando colocada em oitavas mais perto do limite superior e bafejada por uma rouquidão Rock’n’roll com um resultado um pouco diferente do standard. Esta vertente Rock está também muito presente em alguns segmentos do álbum, e destacaria o tema “Hollow, Black & Cold” que é espelho tanto desta vertente Rock, como de uma composição de encaixe imediato mas inesperada na evolução dos riffs e estados de alma conseguidos. Mas nem só de Rock é feito «Katharsis», a maioria dos segmentos são pesados, alguns acústicos e o resultado é um disco versátil, fácil de gostar mas que poderá facilmente cair no “mais do mesmo” dependente de quem o escuta. [8/10] Sérgio Teixeira TEMPEL «On the Steps of the Temple» (Prosthetic Records) «On the Steps of the Temple» é o mais recente disco dos norte-americanos Tempel tendo sido gravado em Agosto de 2012 como álbum independente, vem agora por intermédio da Prosthetic Records até mais perto da luz do dia. Mas as paisagens sonoras deste álbum são sobretudo negras, pesadas e reflexo de espaços de desolação mas simultaneamente acolhedores. Uma viagem por sons e apenas isso (sem vocalizações) num labirinto onde somos aprisionados e onde queremos ficar sem encontrar a saída. Não é fácil para álbuns puramente instrumentais encontrar bases sólidas para captar e hipnotizar os ouvintes, neste caso os Tempel conseguem-no devido ao tal labirinto sonoro, sublime e quase impercetível, mas que é sobretudo devido a múltiplas camadas de éteres sonoros que se sobrepõem colocando sempre quem ouve num estado de submissão/hipnotismo sem saber bem para que deserto, ou queda de água, ou viagem interestelar, ou o nada, para o qual seremos encaminhados no riff seguinte, no silêncio que se avizinha. A única coisa que julgo eu separa este álbum da nota máxima tem a ver com o facto de a dada altura não se notar uma clara linha de rumo sem que o efeito surpresa consiga superar essa indefinição. Daí que ao colocar este trabalho novamente em rotação no “gira-discos” ficamos com a sensação de se ir ouvir novamente a mesma coisa, sem que haja 2 ou 3 temas fortes que nos deixem num estado de dependência auditiva. No entanto para primeiro álbum da banda, neste caso um duo, é de facto uma excelente estreia. [9/10] Sérgio Teixeira

57


THIRDSPHERE «Ice» (Independente) Após o fogo ataca-nos o gelo, nem mesmo os presságios da subida da temperatura média no planeta desanima o lançamento deste último álbum dos Thirdsphere que nos oferece um metal dividido entre melodia e bom ritmo. A subida de temperatura conseguida com as primeiras faixas curtas e incisivas é alcançada antes da metade da viagem deste trabalho de 7 faixas. O título “United by blood” mostra a qualidade melódica da banda, conseguindo uma boa evolução até ao refrão que agarra bem, sendo a sua ascensão sempre intercalada entre ritmo e quebras na monotonia. Segue-se de imediato a “Await the day” que arrefece um pouco a correria, com um momento de elevação da qualidade do ambiente melódico e um término brusco para rapidamente tomar com o tema “Vicious Cycle”, retomando o ritmo mais mexido e com muitos momentos com voz limpa. A última faixa denomina-se “Colossus”, iniciada com uma introdução de samples e seguida de um ritmo rápido, fica uma faixa que concluiu com o capítulo do gelo, nesta interpretação do metal nacional que nem sempre é denunciada por uma originalidade marcante nem uns momentos de voz limpa muito generosos, mas que deixa um trabalho de qualidade que pode levar a mais do que a breve queimadura do gelo na nossa mão. [6/10] Adriano Godinho

WOLVSERPENT «Perigaea Antahkarana» (Relapse Records) Wolvserpent originários dos E.U.A. lançaram já em 2013 o 2º de originais sobre o respetivo nome conotado com duas espécies selvagens mais agressivas na respetiva linha genética, o lobo e a serpente. Bom o nome da banda é talvez demasiado restritivo para o que ouvimos – Doom Metal - mas representativo da linha lírica que serve de suporte às vocalizações: a natureza e a vida (e ligado à vida está sempre a morte). «Perigae Antahkarana» é daqueles discos que poderão facilmente passar despercebidos mas que têm uma filosofia sonora bem longe de amealhar indiferença. É notória a presença de elementos orgânicos, cheios de vida, desde o sopro do vento, ao grasnar do corvo, ao cantar do grilo, ao estalar da madeira consumida pelo fogo, ao bater da água. A primeira faixa é totalmente dedicada a transportar o ouvinte para este cenário híper naturista. Mas a partir do 2º tema “Within the light of fire” começam as sonoridades debitadas pelas guitarras, teclados e bateria, juntos com um registo de vocalizações suficientemente guturais para nos ligarmos à natureza selvagem que a banda tenta retratar. Ao escutar todo o álbum fui transportado para dimensões diretrizes de um universo próprio, que embora não seja original em todas as suas vertentes, é refrescante na maior parte das ideias e transformam Wolvserpent num conceito artístico refinado mais do que numa banda. Em «Perigaea Antahkarana» é a mente que é venenosamente sugada para um espaço de conforto onde o belo canto da natureza se confunde com um inóspito inferno imaginário letal. [8.5/10] Sérgio Teixeira

anuncia aqui 58


Marta Paiva

59


Viagem por novos sons Juseph foi uma descoberta. Apanhei-os num concerto em Aveiro, na Associação Cultural Mercado Negro, e a experiência foi sublime. Uma verdadeira viagem sonora. E esta minha caracterização da banda faz real justiça ao som deles, poderoso ao mesmo tempo ambiental, quase tangível. E porque não só gostei deles, mas porque merecem destaque, convidei-os para uma pequena conversa. Leandro Sousa Bastos teve a gentileza de responder a algumas perguntas. Como é que chegaram aos Juseph? Qual a história da banda? Leandro Bastos: A banda começa em finais de 2009, quando eu, o Pedro Simões e o Marcos Martins, nos juntamos para fazer umas jams. Sabendo de antemão que até tínhamos ideias em comum em função daquilo pretendíamos levar enquanto banda, a coisa lá se foi desenrolando. Mais tarde entra o Pedro Bastos para colmatar a ausência de baixista. Inicialmente erámos Joseph, e ainda demos bastantes concertos sobre essa forma. Só após a gravação em estúdio, em Maio de 2013, decidimos trocar o nome. Questões meramente relacionadas com identidade, dado o anterior ser muito abrangente. Resultou bem. A vossa sonoridade é focada no poder dos instrumentos. Alguma vez tencionaram, ou experimentaram, adicionar voz nas composições? Nunca experimentamos, mas já várias vezes nos surgiu essa ideia de colocar voz na banda, ou melhor, em alguns temas. Apesar das composições acabarem sempre por nos satisfazerem na sua veia instrumental, de forma até trazer novidade a futuros temas, poderemos equacionar participações exteriores à banda para tal, porque de facto, entre nós, não vejo ninguém à altura para o fazer. Mas de momento não é algo que nos preocupe. O que está por detrás do nome da banda, Juseph? Algum sentido especial? Querem sugerir alguma coisa? Não há nenhuma razão especial. Juseph surge pósestúdio, digamos, como evolução do nosso primeiro nome. Uma só letra muda assim o nosso rumo, dado que o anterior era bastante vago, facilmente se associaria a muita coisa, pessoas, marcas, artistas, etc. Juseph acaba por ser único nesse aspecto. Relativamente à razão da escolha, queríamos algo curto, directo. O nome de uma pessoa pareceu-nos sempre 60

o mais indicado para esse efeito. Mas de qualquer forma, estamos abertos a quem do lado de fora nos queira ajudar a representar a imagem dessa personagem com nome, Juseph. O ano passado foi o ano do lançamento do vosso EP «Novae». Como foi trabalhar nele? Alguma participação exterior à banda? Conseguiram editora, ou é financiado do vosso bolso? Foi muito importante e produtivo, tanto antes, como durante, como depois da gravação. Fizemos uma préprodução caseira de forma a entrar em estúdio com as músicas bem organizadas. Durante a gravação fomos trabalhando o nosso som, dar retoques em algumas partes de forma a aprofundar e a dar mais brilho aos temas. Tudo isto fruto da grande disponibilidade dos produtores, Makoto Yagyu e Fábio Jevelim, que nos ajudaram bastante nesse processo. Makoto acaba até por fazer uma pequena participação no último tema usando um espécie de sampler. Depois da gravação tivemos que nos moldar um pouco ao som do disco. Ou seja, processos que nos levaram a preparar as músicas com outra abertura para os concertos. Uma outra visão relativamente ao que praticávamos no passado, daí a gravação ter sido bastante importante e enriquecedora para nós. Quanto ao disco, lançamos em Setembro de 2013, por edição de autor, financiado por nós. Entendemos que como primeiro registo seria bastante complicado arranjar alguém que pegasse na banda. Apesar de 2 anos de estrada, consideramo-nos uma banda nova, por essa razão, nem fizemos um grande esforço nesse sentido, pois dada a experiência de pessoas próximas seria um processo que levaria muito tempo e atrasaria de facto o lançamento do mesmo. Poderá não ter sido a melhor das ideias, pois acreditamos no nosso valor, mas até agora nem tem corrido muito mal, portanto, quando voltarmos a gravar aí sim, pensaremos noutros voos.


Sendo a vossa música totalmente instrumental, qual a mensagem que transmitem nas vossas composições? A capa do vosso disco é também muito interessante. Alguma relação com essa mensagem? A composição foca-se nas emoções e nas experiências que cada um de nós leva para a sala de ensaio. Despejando tudo isso e moldando-se o que cada um pode dar, surgem os nossos temas. Não há nenhuma mensagem directa associada à música que fazemos. Como banda instrumental, cada pessoa é livre de assimilar e sentir a música à sua maneira, nunca igual à pessoa que está ao seu lado. O processo criativo da capa ficou a cargo de Pedro Sobast (Catacombe) e demos-lhe total liberdade para compor o artwork dando-lhe apenas como base o título do disco, Novae. A mensagem que pode passar a capa? A cegonha parece estar em direcção a algo novo, desconhecido, num espaço amplo e ambiental, um pouco à semelhança do som do disco. Mas a mensagem poderá passar por aí, cada um de nós pode ser essa “cegonha”, digamos assim. Como têm sido as reacções e a aceitação do público em concertos? Não demos todos os concertos que desejaríamos nos últimos meses de 2013, no entanto, tudo o que fizemos pareceu-nos bom e aceitação foi muito boa. Tocar na terra natal é sempre especial e inspirador para continuarmos com isto, pois sabemos que temos lá muita gente, desde miúdos a graúdos, que acreditam no nosso trabalho e isso é reconfortante. Quanto a outras datas pós-lançamento, os concertos em Viseu, Breyner85 e Viana do Castelo foram muito bons e especiais. Para além de tocarmos com amigos e para amigos, estivemos num ambiente diferente, principalmente em Viana. Podemos também incluir Aveiro. O Mercado Negro é um espaço incrível com pessoas a trabalharem na cultura de forma séria e inovadora. Para além de concertos, o que é que os Juseph pretendem definir para o futuro? Chegar a zonas do país que ainda não visitamos, continuar na demanda “Novae EP”, desenvolver merch. Quanto ao resto, não temos ainda nada definido, mas poderá passar por gravar 2 a 3 temas e tentar jogálos num split com uma banda de fora. Existem ainda outros projectos a serem pensados entre nós e que envolvem pessoas amigas próximas à música, mas nada que ainda se possa adiantar com profundidade.

JUSEPH «Novae» (edição de autor) Quem ouve o disco consegue, de alguma maneira, imaginar o poder desta jovem banda de Vale de Cambra. Este colectivo ao vivo tem um poder incrível. A força da música deles é extraordinária. Aliás, eles deveriam pensar em gravar os seus temas ao vivo. Mas, o som em estúdio não é mau. Muito pelo contrário. O poder da música está presente em todos os temas, com uma dinâmica muito interessante e apelativa, ou a música dos Juseph não fosse instrumental, sendo por isso ela foco da total atenção do ouvinte. Por isso podemos ouvir passagens interessantes, versáteis e com crescendos de intensidade, e breaks de bateria muito bem colocados. O ambiente é apelativo, embora por vezes se possa notar alguma mesmidade sonora. Mas o Rock ambiental, Shoegaze e o Sludge está bem presente e vincado, ali a pisacar o olho a uns Isis (sem voz). «Novae» convence e pode conquistar se lhes derem a devida atenção. A VERSUS Magazine aguarda atenciosamente e com orgulho o caminho dos Juseph. [7.5/10] Victor Hugo

Entrevista: Victor Hugo

61


GWYDION + INSANIAE + GROG

República da Música – Lisboa 07.12.2013 Gwydion – Dimensão internacional? Todos temos os nossos concertos e bandas favoritas, mas, por vezes, há aquele algo extra, a noção de que estamos perante um projecto que sobe a um próximo nível e tudo acontece mesmo à nossa frente. Foi precisamente o que aconteceu no dia 07 de Dezembro de 2013 quando os Gwydion apresentaram o seu novo álbum «Veteran» a uma República da Música cheia como em poucas ocasiões. Os veteranos e icónicos Grog foram os primeiros em palco, para o que se revelaria um concerto demolidor, que nem os problemas técnicos iniciais puderam parar. Com o público em pleno delírio desde o início, Pedro Pedra e companhia eram monstros de palco, puxando pela adrenalina dos presentes com poses que mostravam uma banda a sentir a música em cada poro.

O humor nunca lhes faltou, muito em contraste com o actualmente usual em bandas “core”, e ainda bem, porque ver umas centenas de metaleiros cantarolar “pipi, pipi, pipi” é memorável. OK: talvez não tenha sido “pipi”. Tenho quase certeza que foi “cona”. Foi mesmo “cona”. Mas este é o tipo de palavras que não se imprimem. Certo? Com uma prestação grandiosa (Alexandre, no baixo, em especial destaque numa aliança perfeita de perícia técnica com pose em palco), os Grog receberam um irrecusável pedido de encore para finalizar. Já os Insaniae começaram mal, com a voz de Isabel Cristina algo inaudível até à terceira ou quarta música, mas, depois, o seu Doom incisivo e o belíssimo poder vocal da sua vocalista encantaram um público, que não lhes ficou de modo algum indiferente. Esta é uma das bandas menos reconhecidas em Portugal e, com toda a certeza, a ocasião ganhou-lhes fãs extra, e muito bem merecidos que foram: os Insaniae tiveram uma prestação tão empenhada quanto fascinante. Finalmente, entraram os Gwydion, escoltados ao palco por um grupo de cavaleiros medievais trajados até ao pormenor, e que viriam a deliciar o público com uma ágil demonstração

de esgrima medieval, aço contra aço, e cotas de malha numa coreografia de morte. A apresentar o tremendo «Veteran», os Gwydion tiveram toda a pose de headliners, tocando desde o início, com sede de conquista e vitória, temas tão potentes quanto “Math of War”, “Womb of Fire” ou “From Hel to Asgard”. A sua prestação fortíssima ainda viu o regresso ao palco de Isabel Cristina acompanhada de Célia Ramos (Mons Lunae), com os Gwydion a levarem até à apoteose uma noite de Heavy Metal ao mais alto nível internacional. Com cornos de beber abastecidos de bom néctar fermentado, Miguel Kaveirinha e os seus deram um espectáculo tremendo e reverberante, um verdadeiro exército de espadas a abrir caminho pela vontade do público até à conquista final. Os Gwydion confirmaram assim, com todas as letras, que são das melhores e mais trabalhadoras bandas de Metal em Portugal e que têm as ideias certas no local certo, para fazerem em terras lusas aquilo que só esperamos de além-fronteiras. Reportagem e fotos: Marco Trigo Gwydion

62


Gwydion

Insaniae

Grog

Grog

63


DREAM THEATER Coliseu – Porto 15.01.2014

“O regresso dos mestres” Foi com alguma expectativa que me desloquei ao Coliseu do Porto para assistir a mais uma passagem dos Dream Theater pelo nosso País. Desta feita o álbum homónimo – lançado em setembro de 2013 e integralmente gravado com Mike Mangini na bateria – foi tocado na totalidade. Recordo que já houve uma passagem com a atual formação também no Coliseu do Porto, em julho de 2011, mas ainda com os temas gravados por Portnoy, num espetáculo que – julgo eu – não chegou a 2 horas de duração. Mas, voltando à passagem dos “5 magníficos” este ano pelo Coliseu, pouco depois das 21h30, estes brilhantes músicos entraram em palco para 3 horas de um espetáculo que serviu para dar o pontapé de saída para um conjunto de atuações na Eu-

64

ropa, no âmbito da tournée “Along for the ride tour”. Além do prato principal – que consistia na apresentação de todos os temas do novo álbum intitulado «Dream Theater» –, ainda houve espaço para surpresas muito agradáveis, tanto na escolha do reportório, como na projeção de imagens da banda e animações. Não sendo inédita a introdução de projeções durante os concertos da banda (longe disso), desta vez houve um cuidado adicional, tanto para captar planos da execução instrumental de Myung, Mangini, Petruci e Rudess, mas também para preencher 15 minutos cheios de humor, durante o intervalo que a banda fez para respirar. Isto permitiu que não houvesse espaço para descontentamento na plateia por não se estar a sentir as vibrações positivas de todos os elementos da banda. O reportório teve um toque especial também pela comemoração dos 20 anos do álbum «Awake», que, para mim, continua a ser o mais apelativo de todos os que a banda concebeu. E é nestas alturas que descobrimos que, embora quase todos gostemos de surpresas, se calhar ter acesso à set-list antecipadamente, seria muito

mais interessante, para haver uma preparação como deve ser. Ainda assim, foi com especial gosto que entoei os temas “Trial of Tears” (do álbum «Falling into Infinity») e que, pela primeira vez, cantei e comemorei a interpretação integral dos temas “The Mirror” e “Lie”, do álbum «Awake». Infelizmente, notou-se a senioridade destes temas, especialmente pela falta de participação do público mais novo. Portanto, deixo um trabalho de casa à malta mais nova: revisitar os álbuns mais antigos – se não todos, pelo menos o «Awake», que é praticamente obrigatório. Globalmente, a atuação não surpreendeu pelo simples facto de que melhor combinação de técnica e genialidade nas composições não pode haver. Por conseguinte, quem não compareceu, só tem a fazer uma coisa: começar a amealhar trocos para a próxima passagem da banda por Portugal, porque perder um concerto destes senhores é quase como ganhar a lotaria e perder o bilhete num qualquer banco de jardim. Majestoso!!! Reportagem: Sérgio Teixeira Fotos: Eduardo Ramalhadeiro


SETLIST: 1ºparte

1. False Awakening Suite 2. The Enemy Inside (Live premiere) 3. The Shattered Fortress (Live premiere) 4. On the Backs of Angels 5. The Looking Glass (Live premiere) 6. Trial of Tears (Tocado integralmente pela primeira vez desde 2004) 7. Enigma Machine (Com solo de bateria de Mike Mangini, live premiere) 8. Along for the Ride (Live premiere) 9. Breaking All Illusions 2ª parte

10. The Mirror 11. Lie 12. Lifting Shadows Off a Dream (Tocado pela primeira vez desde 2002) 13. Scarred (Tocado pela primeira vez desde 2007) 14. Space-Dye Vest (Live premiere) 15. Illumination Theory (Live premiere) Encore

16. Overture 1928 17. Strange Déjà Vu 18. The Dance of Eternity 19. Finally Free 65


ICED EARTH + WARBRINGER + ELM STREET Paradise Garage - Lisboa 18.01.2014 Aço cortante, metal incandescente! Foi há menos de um ano que os Iced Earth passaram por Vagos, para um concerto memorável com um álbum novo na bagagem! Mas não foi por isso que o Paradise Garage deixou de encher para o seu regresso e para a primeira oportunidade dada aos fãs Portugueses ouvirem ao vivo o seu novo «Plagues Of Babylon». Coube aos australianos Elm Street a responsabilidade de abrir a noite. Vieram de longe estes rapazes e mais do que demoliram quaisquer dúvidas que se pudesse ter sobre eles, ao debitarem um concerto gigantesco com a sua receita de Metal tradicional, tocado com entusiasmo e perícia técnica apreciáveis. Toda a banda resultava em palco, com linhas de baixo inebriantes e solos fulminantes a coroarem aquilo que teria por si só sido uma bela noite de Metal.

Os Warbringer sobem ao palco de seguida e é mais do que certo que esta é uma banda que os fãs portugueses bem conhecem e admiram. Seria perfeitamente normal que fossem headliners, mas como abertura para Iced Earth podemos simplesmente dizer que deixaram o público ao rubro. O headbanging intenso começou desde logo, com os presentes a entoarem os temas com que iam sendo bombardeados e lançando a plateia no familiar redemoinho do mosh a que Kevill constantemente incitava o público. Era caso para perguntar o que poderiam fazer os Iced Earth para tornar a noite ainda melhor e a resposta chegou na forma de «Plagues of Babylon». Com a música a falar por si mesma, a prestação dos Iced Earth não poderia deixar de ser tremenda. Tocavam com imponência, com John Schaffer a atiçar o público com riffs marciais e cortantes, enquanto Appleton e Seele mantinham a ala esquerda em alvoroço e Stu Block projetava uma voz que ameaça tornar-se uma das grandes do Metal. Não obstante a sua grandeza – como se fossem incapazes de fazer um concerto fraco! – o seu nível de esforço foi inferior ao das bandas de abertura. Os Iced Earth tocavam a velocidade

Iced Earth 66

de cruzeiro, sem grandes apelos ao público. Via-se, no entanto, uma banda que vibrava com os fãs ao rubro, Schaffer a exibir um fogo orgulhoso nos olhos com a multidão em furioso headbanging. Se duvidássemos que os Iced Earth estavam atentos ao público, Block apaziguou os ânimos quando uma infantilidade injustificável levou a demonstrações de pugilismo no mosh pit. É certo que o público foi excepcional no apoio às bandas e por isso é lamentável o comportamento de uns poucos, sendo necessária uma rápida intervenção da segurança e da banda para levar a noite a bom termo. O concerto terminou com um grandioso encore com “Dystopia”, “Watching Over Me” e “Iced Earth”, um modo perfeito de findar uma noite de Metal muito perto de irrepreensível. Único ponto negativo, como tantas vezes acontece no Paradise Garage: o som estava alto demais para o local, prejudicando a acústica de modo notório. Os nossos agradecimentos à Prime Artists e a Paradise Garage. Reportagem e fotos: Marco Trigo/ Bliss e Hellfire

Warbringer


ALCEST + HEXVESSEL + THE FAUNS Hard Club – Porto 04.02.2014

Noite de outro mundo FNem o clima tempestuoso conseguiu dificultar a peregrinação ao Hard Club. Um concerto como aquele deixa qualquer apreciador destas sonoridades com uma vontade avassaladora de estar presente para uma noite memorável - as expectativas são grandes e a ansiedade imensa. E foi o que aconteceu. A sala 2 do Hard Club esteve composta, quase cheia, para receber três bandas com uma sonoridade não só bela, que nos faz imaginar que aqueles sons têm origem nos sonhos, numa qualquer irrealidade, mas também intensa – cada uma à sua maneira, a música evocada naquela sala foi forte. Os The Fauns, banda britânica, ofereceram um Post-Rock muito ambiental na abertura da noite. Apesar da Alcest

visível timidez, o público dividiu-se entre os que gostaram e os que não tiveram paciência para a meia hora de sonoridades etéreas, com um certo toque melancólico – altamente British, leia-se. A banda mostrou-se tímida, com pouco à vontade e com uma energia aquém das expectativas. Mas, a verdade é que, nalguns momentos, numa música ou noutra, ali para o final, conseguiu hipnotizar alguns da plateia e a viagem foi intensa por trilhos de ambientes e ritmos fortes. Já os finlandeses Hexvessel partilharam uma energia diferente, a começar pela postura mais descontraída. A banda soube pegar no público e agarrar-lhe a atenção, com uma musicalidade a misturar o Folk e o psicadelismo e argumentos, cujas premissas foram florestas e paganismo. A plateia ficou rendida. As energias espalhadas foram contagiantes, não só devido à música mas também à expressão corporal dos músicos, que transpiraram feeling em todos os momentos – destacando, claro está, o homem responsável pelas teclas, violino e trompete e também o vocalista/guitarrista. Já a segunda aparição dos Alcest nesta mesma sala foi altamente positiva.

Numa postura muito mais descontraída, Neige (a timidez deste homem está a desaparecer) e amigos fizeram do resto da noite uma viagem por realidades, sentimentos e energias de outro mundo. E quando pensávamos que o destaque seria maioritariamente para o disco mais recente, «Shelter», eis que a banda faz uma viagem pelos seus quatro trabalhos. Não faltaram, portanto, temas como “Opale” e “Summer’s Glory” a abrir. “L’Éveil des Muses” e “Voix Sereines” foram de uma intensidade indiscritível. Houve tempo para encaixar a fortíssima “Beings of Light” e a majestosa “Percées de Lumiere” recordou-nos o quão bela é aquela passagem de guitarra e o quão harmoniosa pode ser uma canção com um homem aos berros e a tocar uma melodia de outro mundo. O final ficou a cargo de “Délivrance”, um tema todo ele energia, com um instrumental encantatório, que tem o poder de resumir toda a noite e toda a viagem. O público não ficou indiferente e ficaram no ar a memória e a saudade até ao próximo concerto. Reportagem e fotos: Victor Hugo

Hexvessel

The Fauns 67


facebook.com/versusmagazinepage versusmagazinept@gmail.com


Versus Magazine #29 Janeiro/Fevereiro 2014