Page 1

Nยบ10 AGOSTO 2010

6 ENTREVISTAS 12 REVIEWS


Foi no passado dia 5 de Junho, um sábado, que se realizou em Aveiro na associação cultural Mercado Negro (myspace.com/ mercadonegro_aveiro) o “Grotesque & Burlesque Show”. Evento este realizado como angariação de fundos para uma nova associação cultural a nascer em Aveiro, que visa a divulgação dos mais variados géneros artísticos. A entrada reverteu inteiramente a favor deste projecto, para que seja possível suportar os custos da sua escritura e processos burocráticos, ajudando assim a tornar uma ideia ambiciosa em algo sólido e com capacidade de operar legalmente. Tendo este contado com o apoio da Versus Magazine, Bleeding Heart (myspace. com/spreadonme), Blast BordShop (blastbshop. com) e MYO Productions (myspace.com/myoproductions) que ajudaram na divulgação e realização do mesmo. O início deu-se pelas 15 horas, com as exposições de fotografia de Sinvision Photography (myspace.com/sin_ vision) de Lisboa, Oracle Suicide (oraclesuicide. com) de Coimbra, e com as exposições de pintura e trabalhos digitais de Jean Calcagno (jeancalcagno.daportfolio.com) e Célia Rolo (myspace.com/ celia.c.rolo) ambos de Viseu, tendo as obras destes artistas dado vida ao tema central do evento. Estas extenderam-se por toda a tarde e noite, ten-

do Jean e Célia realizado pinturas no local. Em simultâneo com estes ‘live acts’ estiveram também os tatuadores Sara Antunes e Vasco Rodrigues do “Welcome Tattoo Studio” (Lisboa) e Fábio Marques (Coimbra) a mostrar o que melhor sabem fazer, realizando algumas tatuagens durante o evento. A noite teve início pelas 21 horas, com o som ambiente dos DJ’s Covas e Shark que

começaram por aquecer uma noite que já se previa calorosa e animada. A presença e animação das ‘Zombie Pin Ups’, figurantes vindas de Lisboa, e as performances das bandas foram sinónimos disso. Os Knives Out (myspace. com/knivesoutptca) de Leiria, vieram substituir os Life Deceiver e apesar de ter sido o primeiro gig da banda, furaram a noite com o seu acele-


radíssimo hardcore, seguidos pelos Iodine (myspace. com/iodinepbcc), também de Leiria, que mostraram o bom metal/hardcore que fazem. Ambas as bandas tocaram pela primeira vez em solo aveirense, conseguindo mesmo assim atrair bastante a atenção do público. Para fechar a noite, os Unbridled (myspace.com/unbridledmetal) de Viseu, trouxeram-nos uma vez mais a sonoridade do seu último trabalho “Deathcore Glamour”, classificado pela Versus Magazine como o melhor álbum de 2009 do género. Tudo isto fez com que o evento se revelasse bastante positivo, tendo contado com a participação de mais de 170 pessoas que não perderam o acontecimento e que ajudaram ao fantástico ambiente, uma constante ao longo da noite. Para os mais interessados, podem ser visualizadas fotografias e vídeos do evento no myspace da Bleeding Heart (myspace.com/ spreadonme).

Texto por: André Monteiro | Bleeding Heart Revisão por: Teresa Pereira Fotografia por vários artistas: SinVision, Oracle Suicide e H.Cirino


VERSUS MAGAZINE A/C Joel Costa VERSUS MAGAZINE Rua Adriano Correia Oliveira 153 1B 3880-316 Ovar Telem.: 933 454 462 Web: www.versus-magazine.com E-Mail: geral@versus-magazine.com MySpace: /versusmagazine Twitter: /versusmag PUBLICAÇÃO MENSAL Download Gratuito DIRECÇÃO Cátia Cunha Joel Costa EDITOR-CHEFE Joel Costa EDITOR Ernesto Martins GRAFISMO ELEMENTOS À SOLTA, LDA www.elementosasolta.pt EQUIPA André Monteiro | concertos Carlos Filipe | discos; entrevistas Cátia Cunha | redacção; fotografia Cristina Sá | entrevistas Daniel Santos | reportagens; discos Dico | colunista Ernesto Martins | discos; entrevistas Fábio Pinto | revisão Fábio Silva | notícias Francimar Ramos | entrevistas Gonçalo Parreira | revisão Henrique Pinto | discos João Ferreira | discos Joel Costa | redacção; discos; entrevistas Jorge Castro | entrevistas; discos Luís Coutinho | discos; Miguel Ribeiro | discos; entrevistas Paula Martins | discos; entrevistas Paulo Eiras | notícias; discos Paulo Perdiz | entrevistas Pedro Almeida | fotografia; entrevistas Pedro Sá | discos Renato Conteiro | discos Rui Vigo | discos; artigos Sandra Nunes | reportagens Teresa Pereira | concertos FOTOGRAFIA Créditos nas Páginas PUBLICIDADE geral@versus-magazine.com

Todos os direitos reservados. A VERSUS MAGAZINE está sob uma licença Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Não a Obras Derivadas 2.5 Portugal. O utilizador pode: copiar, distribuir, exibir e executar a obra Sob as seguintes condições: Atribuição. O utilizador deve dar crédito ao autor original, da forma especificada pelo autor ou licenciante. Uso Não-Comercial. O utilizador não pode utilizar esta obra para fins comerciais. Não a Obras Derivadas. O utilizador não pode alterar, transformar ou criar outra obra com base nesta.

Já longe vai a última edição com os gregos Rotting Christ na capa e esta quase que veio por favor. Esta edição, referente ao mês de Agosto (e depois de um hiatus de 3 meses) será a última deste ciclo. Já no próximo dia 15 de Setembro, iremos dar início a uma nova fase da Versus Magazine, com novas ideias e mais atenção não só aos conteúdos para os nossos leitores, como a toda a equipa, a qual deixei ficar mal ao longo deste tempo. Assim sendo, na próxima edição contaremos com The9thCell na capa nº11, numa longa conversa e com um apanhado de todo o trabalho do músico feito até à data. Nunca é demais dizer que necessitamos de novos colaboradores para que a Versus possa funcionar. Muitas vezes os cargos necessários são aqueles que ninguém quer, mas caso queiram colaborar eis do que precisamos: Notícias Nacionais e Internacionais; Artigos de Opinião e Outros


Os Finlandeses Poisonblack estão de volta com o álbum “Rust and Bones”: uma mescla de peso nas guitarras e melodia nas vozes. Estivemos à conversa com eles para saber um pouco mais sobre a banda. Passaram três anos desde que lançaram o vosso primeiro álbum. Entretanto, registaram-se algumas alterações na vossa formação. Podes falar-me um pouco sobre isso? No início, tínhamos outro guitarrista, chamado Janne Dahlgren, mas a química com os restantes elementos da banda não existia. O nosso baixista original, Janne Kukkonen, decidiu também deixar a banda

por razões pessoais. Não era nada de dramático, estas coisas às vezes acontecem. Encontramos o guitarrista Janne Markus e o baixista Anti Remes numa banda local e as coisas estão a correr muito bem. Por que é que Leppaluoto abandonou a banda? Como provavelmente deves saber, ele cantava também nos Charon e sentiu que não

tinha tempo para as duas bandas. Portanto, decidiu concentrar-se nos Charon, que eram a sua banda original. Depois da saída dele, decidiste logo assumir a voz ou fizeram audições? Quando o Leppaluoto saiu, ouvimos várias demos, onde havia grandes vozes. Mas também já tínhamos começado a ensaiar músicas novas e o Ville costumava cantá-las


muitas vezes nos nossos ensaios. Aconteceu naturalmente. Era ele que escrevia as letras e fazia as melodias de voz, por que não ser ele a cantar? A única coisa que nos preocupou, no início, foi se ele iria conseguir tocar e cantar, ao mesmo tempo, mas, depois de praticar, tem funcionado muito bem. Os Poisonblack são a continuação natural dos Sentenced? Não acho que seja assim. Quando o Ville iniciou os Poisonblack, os Sentenced ainda existiam e a ideia era criar música que não era possível fazer nos Sentenced. E, claro, temos de referir que eram pessoas completamente diferentes nos Poisonblack e que tiveram um grande impacto no nosso som. Podes dizer-me qual é o significado do nome Poisonblack? No início, a banda chamava-se Shadowlands, mas bem cedo descobrimos que já havia uma banda com esse nome. Nós tínhamos uma música chamada Poisonblack, que nunca chegámos a terminar. E, pelo que me lembro, foi o Leppaluoto quem sugeriu que a banda poderia chamar-se Poisonblack. Gostámos da ideia e foi assim que surgiu este nome. Quando é que vão visitar Portugal para um concerto? Infelizmente, não sei. Seria excelente um dia podermos tocar em Portugal. Sempre gostei de tocar nos países do sul da Europa. Acho que, do nosso ponto de vista, seria exótico. O que conheces do panorama musical português? Posso desde já dizer que não conheço muito. Conheço os Moonspell, claro. Estivemos em tour com eles, quando lançámos o primeiro CD. São uma grande banda e excelentes pessoas. Tocámos com eles, na Alemanha, há uma semana atrás e foi muito bom encontrá-los de novo. O que é que vos inspira? Falando da nossa música, sei que o Ville se inspira na vida real. A maior parte das suas letras são escritas sobre assuntos que têm a ver com a sua vida pessoal. Que bandas influenciam as vossas músicas? Olha, não são muitas. Quando éramos miúdos, ouvíamos Metallica e Iron Maiden, o normal. Agora, todos nós ouvimos géneros de música diferentes Não há muitas bandas de que todos gostemos.

Porque decidiram dar o nome “Rust and Bones” ao novo cd? Queríamos que o nome juntasse as faixas todas, sabes? De um lado, temos músicas mais rockeiras e com mais groove e, do outro, músicas mais melancólicas. E decidimos que o nome “Rust and Bones” combina esses dois elementos na perfeição. Quais a principais diferenças entre “Rust and Bones” e os vossos trabalhos anteriores? Na realidade ,este é o nosso quarto lançamento. Sinceramente, não vejo mudanças radicais no nosso estilo. Penso que, depois de vários concertos, nos sentimos mais coesos. E também, na minha opinião, neste CD, o som é mais colorido que nos anteriores. Usámos mais a guitarra acústica, por exemplo. Como é que decidiram escolher o Teemu Hostikka para fazer o artwork do CD? Recebemos trabalhos de vários designers, mas nenhuma das propostas apresentadas correspondia ao que nós queríamos. Acho que foi o nosso teclista que sugeriu o Teemu. Ele falou-lhe do título do álbum e de certas ideias que tínhamos acerca do conceito da capa e pedimos-lhe para enviar uma sugestão.Gostamos do que ele nos enviou e ficou. Foi assim: simples. Planos para o futuro? Durante o próximo Verão, para além de tocarmos em alguns festivais, vamos também começar a ensaiar músicas novas. No Outono, vamos dar concertos na Finlândia e esperemos que em outros países da Europa. Se tudo correr como estamos a planear, deveremos entrar de novo em estúdio no início do próximo ano. Um sonho que gostavam que se tornasse realidade. Gostava de um dia tocar na América do Sul. Deixa-nos uma palavras para os fãs portugueses dos Poisonblack e para os leitores da Versus Magazine. Espero que possamos visitar Portugal num futuro próximo. Até lá, continuem a ouvir boa música.

ENTREVISTA: Miguel Ribeiro FOTOGRAFIA: Oni Kinnunen


É um “one man project”, dividido com um companheiro de percurso – Neige, dos Alcest. Usa a música, simultaneamente, como uma forma de auto-conhecimento e um escape. A segunda pedra que marca este percurso – “.neon” – forneceu o pretexto para a conversa com Herbst, a alma do projecto.

O que significa Lantlôs? Que relação existe entre o nome e a banda?

Herbst – A palavra lantlôs vem do Médio Alto Alemão e significa “aquele que não tem casa”, se quiseres “sem abrigo”. Escolhi este nome para a banda, porque eu me sinto como se não tivesse um lar.

A vossa música é “catalogada” como black metal/post-rock. A que correspondem os elementos post-rock? E como os combinam com o black metal?

Francamente, não vejo nenhuns elementos post-rock no “.neon”. Na minha opinião, o nosso início tinha uma vibração esperançosa e refrescante, muito típica do post-rock. Mas “.neon” é sombrio e cinzento. Para mim, o post-rock é sempre algo alegre, esperançoso e melancólico, mas de uma forma positiva. Não posso dizer isso sobre o nosso último álbum. “.neon” trata de “coisas feias” como o álcool, o isolamento, a solidão e a psicose. Não consigo mesmo perceber onde é que alguém pode ter encontrado os elementos de post-rock. É claro que há algumas melodias de guitarra e algumas passagens melancólicas. Mesmo assim, vejo esse comentário mais como uma consequência da tendência actual para reduzir toda a música a estes elementos e a considerá-la como sendo essencialmente uma mistura de post-rock e black metal. Vêem na música o que gostariam de encontrar nela. Em suma, não ponho de parte a possibilidade de haver alguma influência, mas penso que se trata apenas de um pormenor sem importância.

A vossa música é vista como muito diferente. Que ideias novas sentes que a vossa banda trouxe à música extrema? Para mim, é primordial não me limitar a copiar outras bandas ou a replicar o meu próprio trabalho. Quando se ouve “.neon”, percebe-se logo que nele é possível encontrar traços de inúmeras influências dos mais variados estilos e géneros. Além disso, acho que tenho uma forma muito especial de tocar a guitarra, quase indie. Penso que são sobretudo esses elementos que fazem de Lantlôs uma banda diferente.

Quem faz o quê na vossa banda? A tua percepção da música é muito diferente da do Neige?

Eu componho toda a música e escrevo a totalidade das letras. Também sou eu que toco todos os instrumentos. O Neige canta. E posso dizer-te que estamos juntos neste projecto, precisamente porque temos maneiras semelhantes de ver a música. O Neige e eu estamos 95% de acordo sobre esse ponto, pelo menos no que se refere aos Lantlôs. Isto é óptimo, porque os temas da nossa banda não são fáceis de compreender. Posso assegurar-te que ainda não encontrei uma pessoa que tenha apreendido, de forma completa, a minha visão sobre a música e é maravilhoso poder trabalhar com uma das poucas pessoas que têm uma perspectiva destas questões semelhante à minha.

Ouvi o vosso primeiro álbum e pareceu-me mais influenciado pelo black


metal do que o segundo. Que pensas desta observação?

Estou de acordo contigo. Está mais ligado ao black metal clássico do que o “.neon”. Mas não sei o que pensar sobre isso. Sinto que é uma evolução normal. Tal como disse antes, detesto estar sempre a fazer o mesmo álbum e, como me estou a afastar do black metal, é natural que a minha música esteja a avançar noutras direcções.

O vosso primeiro álbum também me fez lembrar a música da primeira fase dos Darkthrone. Que pensas disto? Hum, não concordo. Muito sinceramente, não vejo qualquer semelhança entre os Darkthrone e os Lantlôs.

O título do vosso novo álbum – “.neon” – sugere modernidade. Que relação existe entre esta ideia e os temas das canções dos vossos dois álbuns? Lamento muito, mas não compreendo o Alemão – nem sequer escrito – e não consegui encontrar letras em Inglês.

As letras do “.neon” e do nosso primeiro álbum não estão relacionadas entre si. Referem-se às mesmas emoções – as que eu tento gerir –, mas, agora, sou menos romântico e mais pessimista. Quando comecei a compor a música e a escrever as letras para o primeiro álbum dos Lantlôs tinha 16 anos. Foi há quase 5 anos. Actualmente, esses temas já não me interessam. É evidente que, quando ouço esse primeiro álbum, consigo recordar os sentimentos que experimentei enquanto o criava, mas eu já não sou assim. “.neon” não me faz pensar na modernidade, de modo nenhum. Trata antes da relação entre a realidade e a forma muito pessoal, muito minha, como eu a vejo. Quando fiz 17 anos, a minha forma de ver o mundo alterou-se por completo. Tudo o que vejo parece desfocado e “filtrado”. É como se estivesse a ver um filme. Tu não controlas nada. É como se pisasses um chão diferente do que está debaixo dos pés dos outros. Actualmente, sinto-me surreal. Não vejas nisto qualquer sentimento de superioridade. É apenas a melhor forma que eu encontrei para exprimir o facto de que a minha relação com a realidade tem uma falha qualquer. Os estímulos vindos do exterior esbarram com uma “substância lamacenta”, que nem se pode chamar existência. Tudo o que existe está dentro de ti, porque só tu podes ver as coisas à tua maneira. Não há

consenso possível! Provavelmente, não vais conseguir perceber do que eu estou a falar. E muito difícil para mim explicar-to, porque é algo de muito íntimo, muito difícil de suportar. Porque tudo está sempre a mudar. Tudo é cinzento, não há contrastes, não há coisas boas, nem coisas más. Não há alegria, nem tristeza. Só o cinzento. E formas de escapar a ele. É disto que “.neon” trata. E o título está também relacionado com a perda de controlo. Eu sentia-me completamente “pedrado”. Tinha perdido o controlo por completo e a única coisa que conseguia fazer era sentir emoções. Estava “cego”! Só “via” cores de luzes de néon. Não sabia para onde ia, onde estava ou quem era. Sentia-me como se o chão estivesse a desaparecer debaixo dos meus pés. Delírio, desorientação, isolamento, solidão. Foi por isso que escolhi este título.

Por que escolheste esse tema para a tua música? Não é um tema habitual no black metal, embora pudesse efectivamente ser relacionado com as tendências post-rock.

Muito simplesmente, porque é desse modo que sinto a minha vida. Não me sinto um ser especial, um intelectual. Tudo o que conta nesta vida, pelo menos para mim, é sentir e tentar levar a vida da melhor maneira que te for possível e procurar a felicidade. Não estou a tentar parecer profundo. Para quê? A minha música é sobre mim e gira em torno de mim. Nada mais, nada menos do que isso. Não me interessa abordar conceitos, porque eu sou o tema essencial dos Lantlôs. E é natural que assim seja.

“.neon” é um álbum conceptual? Que relações estabeleces entre as faixas que o constituem? Ou será que a ligação é antes feita com base no estilo musical?

As canções referem-se essencialmente a uma forma de sentir a realidade, de a perspectivar, à depressão, à tentativa de escapar a tudo isto, através do amor, das drogas, do sono. Pode-se dizer que é este o conceito central do álbum, mas não no sentido clássico do termo. Não há nenhuma “história” neste álbum, apesar de as faixas estarem ligadas por esta ideia de uma constante mudança de percepção e da tentativa de a gerir.

O ponto antes da palavra neon, que figura no título deste álbum, desper-


ta-me uma enorme curiosidade. O que significa? Simboliza algo maquinal, mecânico, sem alma. Pretende sublinhar o lado cinzento e surreal do tema central do álbum.

Também gostei imenso da capa. Como relacionas esta capa com a essência de “.neon”?

O desenho representa um homem, a ser despedaçado por vários braços, e uma mulher. O homem simboliza o íntimo. Os braços e a mulher representam os estímulos externos. Enquanto que os braços torturam o homem, a mulher corresponde aos impactos que chegam mais perto do íntimo do homem. Temos novamente o tema da visão desfocada da realidade. O íntimo do indivíduo flutua num ambiente tenebroso e desfocado e a sua alma experimenta todos os impactos e todo o tipo de sentimentos. Esta imagem representa na perfeição o tema central de “.neon”- depressão, despersonalização, “cinzentura”, amor, tortura e surrealidade. Fursy é um artista extraordinário. Não lhe disse o que queria e ele nem sequer tinha as letras, quando fez a capa do álbum. Mas é tão sensível, tão bom a apreender atmosferas e a visualizá-las que chega a parecer loucura! Estou maravilhado com esta capa!

Tu e o Neige estão ambos noutras bandas. Até o artista responsável pela capa está envolvido em variados projectos musicais relacionados com black metal. Que influência tem esta banda sobre os outros projectos? E o que é que estes trazem aos Lantlôs?

Na realidade, agora só tenho os Lantlôs. E não consigo encontrar nenhuma relação entre esta banda e as outras que referes. Lantlôs foi sempre a minha principal esfera de criatividade, desde o seu aparecimento, e penso que será sempre assim. Quando eu compunha música para outras bandas, era diferente, menos sério. Sabes, Lantlôs trata da minha vida, não é uma ficção. Portanto, para mim, é completamente diferente de criar para outras bandas. E não sinto que qualquer outra banda em que eu tenha estado possa ter influenciado os Lantlôs. É claro que todas constituíram um passo natural e necessário para o aparecimento dos Lantlôs, mas acabaram, passaram.

Quais são os teus planos para a promoção de “.neon”?

Lamento muito, mas não sei responder a essa pergunta.

Haverá algum espectáculo em Portugal? Tivemos dois concertos dos Alcest em Maio, portanto os Portugueses devem estar preparados para receber os Lantlôs também. Se não vens, o que queres dizer aos teus fãs portugueses?

Ainda não posso dizer nada sobre concertos. Para já, não temos formação constituída para concertos ao vivo, mas estamos a apostar fortemente nessa ideia, porque queremos mesmo fazer espectáculos. Portanto, talvez venhamos a tocar em Portugal. Mas, de momento, não tenho nenhumas certezas. Espero que os fãs portugueses gostem deste álbum e me façam chegar informação sobre o que pensam dele. E obrigado por me dares a oportunidade de entrar em contacto com o público português.

Entrevista: Cristina Sá


Vêm da Sérvia, mas, nas suas palavras, não pertencem a nenhum mundo terreno. Têm uma missão, mas centra-se apenas em si próprios e no caminho que pretendem percorrer. Atterigner (vocalista) fala-nos do seu primeiro longa duração, intitulado “Antithesis of All Flesh”.


A referência à Sérvia traz logo à ideia memórias políticas. Mas como sei que não gostam de abordar este tema, prefiro perguntar quais são as vossas perspectivas sobre o papel desempenhado pelo BM na sociedade sérvia. Que ideias novas podem trazer ao vosso país como músicos a trabalhar neste subgénero do metal?

Atterigner – Agradecemos-te teres evitado perguntas sobre questões políticas, porque essas nunca terão nada a ver com os Triumfall. Pensando nas novas ideias que podemos trazer à Sérvia… espero que consigamos encher o coração de qualquer ser humano que venha a contactar com a nossa música, nem que seja de forma apenas pontual, de misantropia e desejos de auto-destruição… Sejam essas pessoas de nacionalidade sérvia ou não! A nossa banda deverá ser vista como um vírus anti-humano, espalhando a essência do satanismo.

Como é a cena metal na Sérvia? Há muitas bandas? As que existem seguem tendências di-

ferentes ou privilegiam algum género (como vocês privilegiam o BM, por exemplo)?

É muito difícil falar da situação actual da Sérvia, no que diz respeito ao metal. Há várias bandas no activo, mas não me parece que se possa falar de uma cena metal, porque tal implicaria que houvesse um grande número de bandas de grande qualidade e não é esse o caso… mesmo pensando de uma forma global, ou seja, sem ter em conta géneros do metal.

E qual é o lugar dos Triumfall nesse contexto, especialmente agora que têm a oportunidade de pôr a Sérvia no mapa do BM europeu?

Preferíamos não situar os Triumfall em nenhum contexto, mas estamos contentes pela oportunidade de divulgação da nossa música a que tivemos acesso.

E, a propósito do BM europeu, que tipo de relações mantém a vossa banda com os músicos que cultivam esse subgénero?

Não mantemos quaisquer relações com músicos europeus da área do BM, excepto com o Infernus, dos Gorgoroth. Nunca tentámos criar elos com essas pessoas, porque nunca sentimos que houvesse alguma razão que justificasse tal esforço.

Como é que os membros da banda se conheceram? O que é que vos uniu em torno de um mesmo projecto musical?

Triumfall teve origem em duas bandas sérvias que se dissolveram: Introitus e Veles.


A devoção ao Caos e o gosto pelo tenebroso uniram os seis elementos da actual banda.

De momento, Triumfall conta apenas com duas gravações no activo, sendo a segunda editada pela Regain. O que vos levou a assinar com esta editora?

Na realidade, assinámos contrato com a Forces of Satan, uma editora gerida pelo Infernus, dos Gorgoroth, e por Vile Horgh. A Regain apenas assegura a publicidade e a distribuição de toda a música editada pela Forces of Satan.

“Antithesis of all flesh” soa a bom BM, mas é um pouco clássico demais para uma banda tão recente como a vossa. Talvez por isso, as críticas a este vosso álbum variam muito de tom, embora quase todas vos aconselhem a melhorar a vossa música. O que pensas destes comentários?

É natural esperar que melhoremos a nossa interpretação da ideia que fez nascer os Triumfall. É algo de inevitável, quando se percorre os caminhos mais negros em que o Espírito vagueia… À medida que as forças primitivas se forem fortalecendo, Triumfall, responsável pela sua interpretação, assumirá uma forma cada vez mais definida. Como hás-de compreender, este processo de melhoria é demasiado profundo e pessoal para poder ser perturbado por comentários vindos de quem não nos compreende. Na linguagem dos críticos musicais, a palavra “melhoria” aplica-se sobretudo a algo que ultrapassa as tendências em vigor e estas são uma doença social que nunca afectará os Triu-

mfall. Em suma: não nos importamos minimamente com as críticas. E não pensamos que “Antithesis of All Flesh” devesse ter um som diferente.

Sei que já estão a trabalhar num novo álbum e têm a intenção de começar a gravá-lo no próximo Outono. Que pretendem mudar neste novo CD, relativamente ao que fizeram no “Antithesis”?

Cada lançamento dos Triumfall deverá ser visto como mais um grau atingido no processo de iniciação. Portanto, podes esperar algo diferente e um som que começará no ponto que “Antithesis” não conseguiu atingir. Em poucas palavras, que te permitam compreender rapidamente o que será o novo álbum e o que o diferenciará do “Antithesis”, dir-te-ei que é mais agressivo, mais negro, e, se é possível aplicar a palavra “melódico” ao “Antithesis”, será absolutamente impossível associar tal adjectivo ao nosso futuro longa duração.

Li as letras das canções do “Antithesis” e são realmente muito negras. Por que escolheram esses temas? Têm alguma relação com tradições culturais do vosso país?

Para perceber Triumfall, é tão importante conhecer as nossas letras como ouvir a nossa música. Eu não diria que “escolhemos” esses temas. Eles decorrem da forma como vemos as consequências da Marca que todos nós trazemos desde o nascimento.

A capa do vosso álbum é maravilhosa. Como foi feita? Disseram ao artista gráfico o que queriam? Deram-lhe indi-

cações específicas? Ou limitaram-se a comunicar-lhe o título do vosso álbum e deixaram-no fazer o seu trabalho da forma que lhe parecia mais adequada? A artista dá pelo nome de Namtaru. É claro que lhe demos indicações muito precisas, porque a capa tem de representar de forma precisa o tema do álbum.

A vossa banda tem seis elementos. É uma banda grande. Como se organizaram para criar o “Antithesis”? E no estúdio?

As canções foram feitas por todos nós. Trabalhámos principalmente em casa. Quando entrámos no estúdio, estava tudo pronto.

Sei que não gostam de fazer espectáculos. Mas, ao mesmo tempo, sublinham o facto de a vossa música estar ao serviço da difusão de ideias que vos são caras. Como pretendem chegar às pessoas? O que pensam fazer para as levar a dar atenção à vossa música?

A mensagem dos Triumfall é algo que só alguns eleitos poderão compreender. Não nos vemos a fazer concertos, porque não gostamos de nos dirigir às massas… Não consideramos que estes sejam a melhor forma de difundir as nossas ideias, porque estas carregam consigo uma mensagem muito singular, que poderá ser apreendida por indivíduos, mas não por multidões. De qualquer modo, não pusemos completamente de parte a ideia de fazermos espectáculos. Resumindo e concluindo: nada faremos para fazer quem quer que seja gostar da nossa música. Ave, Satanás! Entrevista: Cristina Sá


Com base no folclore tradicional da Dinamarca, explorado em termos musicais e literários, os Svartsot produziram o seu segundo álbum: “Mulmets Viser”. Cris Frederiksen (guitarrista) falou-nos deste álbum, sublinhando a originalidade da banda e fazendo alarde de uma boa dose de erudição. Por que escolheram um nome tão sinistro para a vossa banda, quando a vossa música parece ser bastante alegre? Cris Frederiksen: Svartsot é o nome antigo de uma doença parecida com a icterícia. A diferença é que a pele do doente fica negra, em vez de ficar amarelada (svart significa negro, que, no

Dinamarquês moderno, se diz sort; e a palavra sot significa doença). Mas não se trata da peste bubónica, como muitos pensam. No passado, era uma doença perigosa, porque não se conhecia tratamento adequado, pelo que muitos doentes acabavam mesmo por morrer. Como se tratava de uma doença do fígado, uma das causas possíveis – entre outras – seriam os excessos alcoólicos. Hoje em dia, já quase não há casos desta doença. Escolhemos este nome, simplesmente porque nos pareceu adequado para uma banda de folk metal – um nome arcaico para uma doença que podia ser causada pela excessiva ingestão de cerveja. A vossa banda é uma das seguidoras de uma das recentes direcções do metal: o Viking folk metal. Por que escolheram este subgénero?


Para começar, gostaria de tornar claro que nos consideramos uma banda de folk metal e não de Viking folk metal. É verdade que as letras de algumas das nossas canções se referem à época dos Vikings, mas a maioria delas trata de épocas posteriores a essa. Para mim, o protótipo de uma banda de Viking metal é Enslaved e penso que não há grande semelhança entre nós, em termos musicais. Pessoalmente, durante muitos anos, tive uma grande paixão pela música folk e também ouvi muito folk rock dos anos 70. Sempre quis misturar metal com música folk, e tentei fazê-lo pela primeira vez, quando tinha cerca de 13 anos: toquei uma canção folk usando um pedal de distorção, para ver como soava. Isso foi há 19 anos. Há cerca de 3 anos, ouvi, pela primeira vez, Skylad, a primeira banda folk com que me cruzei. A velha ideia voltou-me à cabeça, mas não tive oportunidade de a concretizar minimamente, antes de termos formado a predecessora de Svartsot, em meados de 2004. Portanto, no que me diz respeito, não se tratou de seguir uma tendência (nessa altura, ainda não conhecia Finntroll!), mas sim de concretizar algo que queria fazer há muito tempo. Na época, também não havia assim tantas bandas de folk metal. Essa cena evoluiu muito nos últimos dois anos.

ca, mas nós tocamos mais melodias na guitarra do que em qualquer outro instrumento individual. Este aspecto é extremamente importante para o nosso som. Embora nenhuma destas características seja um exclusivo nosso, parece-me que a forma como as combinamos é provavelmente diferente do que fazem as outras bandas. Não sinto, de modo nenhum, que soemos como muitas das outras bandas de folk metal.

Que outras bandas de Viking/folk metal podem ter influenciado a vossa? Nenhuma, felizmente! Acima de tudo, procuro não me deixar inspirar por nenhuma outra banda de folk metal, principalmente quando componho, embora ouça música de outras bandas, porque gosto muito do género. Mas, nestes últimos tempos, nem tenho ouvido muita música. Para mim, o mais importante é inspirar-me no folclore tradicional ou na música medieval e em bandas de metal do que deixar-me influenciar por outras bandas da cena folk metal. Seria como seguir fontes de segunda mão.

Falando agora do vosso segundo álbum, podes elucidar-nos sobre os temas das canções? Não consegui ter acesso às letras, embora tenha lido as do primeiro, que estavam publicadas na internet, e gostaria de saber que diferenças existem entre os dois, no que se refere a esse aspecto em particular. Basicamente, este segundo álbum apresenta a mesma combinação de temas históricos, folclóricos e mitológicos que o “Ravnenes Saga”, mas numa versão mais amadurecida. Por exemplo, desta vez, apostámos um pouco menos no lado mitológico e procurámos incidir mais nos temas históricos associados à época medieval. Por exemplo, Æthelred é uma canção sobre o rei inglês Æthelred II (que significa Mal Preparado ou Mal Aconselhado), cujos domínios eram constantemente atacados pelos Dinamarqueses, pelo que, segundo consta, lhes ofereceu 10000 libras de prata, para reconquistar a paz. Esta medida apenas contribuiu para estes voltarem mais vezes, a fim de arrecadarem somas mais elevadas. Lokkevisen (Balada da Sedução) baseia-se em histórias do folclore dinamarquês sobre homens mortais que eram atraídos para a floresta por grupos de fadas que dançavam. O homem que as seguisse nunca mais conseguia voltar, porque ficaria para sempre submetido ao seu encantamento. Højen på glødende Pæle (A Mamoa dos Pilares Brilhantes) trata de uma tradição dinamarquesa, segundo a qual nas mamoas morava um povo subterrâneo chamado Bjergfolket. De vez em quando, fazem banquetes em que se divertem muito e, nessas alturas, aparecem pilares brilhantes nas mamoas. Qualquer homem que se junte a eles por ter aceitado uma bebida que lhe é oferecida num cálice de ouro acaba por ficar muito mais tempo do que contava. På Odden af hans hedenske Sværd

Queres comentar o facto de os suecos Amon Amarth serem mencionados como uma influência dos Svartsot? Nós não temos nada a ver com isso. Pessoalmente, só consigo apreender algumas semelhanças superficiais, mas nunca pensei nos Amon Amarth como uma grande inspiração para os Svartsot. E não podemos esquecer que as duas bandas encontraram as suas raízes musicais no death metal melódico. Mas é o máximo que se pode dizer. Consideram que têm uma marca distintiva? Sim, até acho que temos várias. Para começar, usamos grunhidos, o que não é comum no folk metal. Também a utilização de apitos é frequentemente referida como uma marca diferenciadora, embora os tivéssemos usado menos neste último álbum do que no primeiro. Tencionamos continuar a recorrer a eles e, aliás, vamos começar a usar mais instrumentos tradicionais. Uma outra marca que eu sinto como muito diferenciadora, mas que é frequentemente esquecida, é o uso da guitarra como instrumento condutor. A maioria das bandas de folk metal usa-a de forma rítmi-

Adoro o toque medieval na vossa música. Como o produzem? Obrigado. A música medieval tem sido, obviamente, uma das grandes influências para os Svartsot. Por isso, de vez em quando, ouço música medieval para me inspirar. De um ponto de vista puramente musical, uso o modo dórico com bastante frequência, quando componho, e essa escala tem um sabor muito medieval devido à sexta nota sustenida. Foi também uma das escalas mais importantes na primeira música religiosa medieval, que influenciou fortemente a música em geral durante o resto da Idade Média. O uso de compassos 6/8 e 3/4 também confere um sabor bem medieval à música (e, mais uma vez, temos aqui uma influência eclesiástica), assim como o recurso a certo tipo de frases musicais.


(Na Ponta da sua Espada Pagã) também se refere a outra história tradicional, relativa a um monge colérico chamado Thangbrand, que foi enviado pelo rei da Noruega para converter a Islândia à fé do Cristo Branco. Como muitos missionários dessa época, ele não era exactamente Cristão no sentido moderno que incluíam matar pessoas. Grendel é o nome do monstro do mito de Beowulf que atacava o salão de festas de um dos reis da Dinamarca à procura de carne humana. Esta história passa-se antes da chegada do herói. Jagten (A Caçada) refere-se a outra história tradicional que fala da lendária Caçada Selvagem. Nas noites escuras de Inverno, de vez em quando, ouvia-se barulho ao longe. Eram as almas dos mortos que percorriam o céu montadas em corcéis negros e acompanhadas por cães monstruosos. Andavam a caçar as almas dos infelizes que não conseguiam encontrar abrigo dentro de portas a tempo de lhes escaparem. É este conto que está representado nas chamas que aparecem na capa do álbum. Li críticas ao vosso primeiro álbum que eram muito boas e também o ouvi. Reparei que “Mulmets Viser” é diferente do seu predecessor. Parece mais folk e menos metal do que este. Na verdade, pareceu-me que este vosso álbum está mais próximo de bandas como os Korpiklaani. Que pensas disto? Realmente, neste álbum, concentrámo-nos mais na vertente folk, mas também queríamos que as guitarras tivessem um som mais pesado, mais sujo. Assim, há efectivamente uma grande diferença entre os dois álbuns, mas não me parece que o segundo soe menos a metal que o anterior. Queríamos soar tão crus e orgânicos quanto possível. E penso que fomos bem sucedidos no nosso intento. Sobre a comparação com os Korpiklaani, não sei que dizer. Comparam-nos frequentemente com as bandas mais variadas, mas eu não consigo perceber em que se baseiam para o fazer. Como já disse, penso que o som que nós fazemos é muito diferente do de qualquer outra banda de folk metal. Parece-vos que a mudança de vocalista afectou a banda? Não muito. Thor, o actual vocalista, não escreve letras para as canções e Claus, o anterior, também não o fazia. Logo, nesse aspecto, não há diferenças a registar. O Thor também grunhe, tal como o Claus, portanto aí também não há diferenças a registar. E o que tens a dizer sobre a substituição do músico responsável pelos instrumentos folk? O Hans-Jørgen juntou-se à banda durante a digressão dos Ragnarök, em 2008, para substituir o Stewart, quando era necessário. Já tocava connosco de forma quase permanente, quando ocorreu a grande mudança na nossa formação. O facto de ele tocar uma grande variedade de instrumentos (que está sempre em expansão) permitiu-nos introduzir variações no som deste álbum e ten-

cionamos continuar a investir neste aspecto em próximos trabalhos. Tendo em conta o facto de que cinco novos elementos entraram para a banda desde que saiu o “Ravnenes Saga”, é inevitável que o “Mulmets Viser” tenha um som diferente. Uma das coisas em que mais insisti, quando apareceram estes novos elementos, foi na valorização do seu contributo pessoal para a banda. Não queria que eles se convertessem em “clones” dos antigos membros. A vossa banda é muito grande. Como é que se organizam para o processo criativo? E nas sessões de gravação? Eu compus toda a música para “Mulmets Viser” e fiz metade das letras. A outra metade foi feita pelo James (o baixista), que tem um estilo muito diferente do meu, mas igualmente adequado ao tipo de temas dos Svartsot. Como ele é Inglês, também tive de traduzir as suas letras para Dinamarquês. Portanto, o processo criativo decorreu mais ou menos na forma habitual (eu escrevi 80% do material no “Ravnenes Saga”). Assim que a parte de escrita ficou pronta, enviei ficheiros audio das faixas a todos os outros e eles estudaram as suas partes. O processo de gravação não foi difícil. Alguns de nós estiveram no estúdio durante a maior parte das sessões (eu estive em todas) e foram gravando as respectivas partes, à medida que eram chamados para o fazer. Houve muita comunicação entre mim e o produtor, Lasse Lammert, antes de entrarmos em estúdio, portanto todos estavam bem informados do que era preciso fazer. Soube que a banda portuguesa Gwydion já tocou convosco. O que vos parece a ideia de gente do Sul da Europa se atrever a invadir territórios culturais nórdicos? É verdade. Andámos em digressão com os Gwydion em 2008. São bons companheiros de estrada e também tenho muito apreço pelo trabalho deles. Mas, pessoalmente, não compreendo por que é que os Vikings são tão fascinantes para bandas fora da Escandinávia. Penso que, se tivesse nascido noutra região do mundo, preferiria fazer música sobre as tradições locais, em vez de me dedicar a uma cultura que não me é familiar. Como vão fazer a futura invasão da cena musical europeia? Já têm datas para concertos? E onde vão acontecer? Na realidade, já começámos. Voltámos agora mesmo de uma participação na Spirit of the Land Tour dos Negură Bunget e tocámos na festa do 15º aniversário da Napalm Records na Austrian Metalfest. Ainda vamos participar em alguns festivais, durante o próximo Verão: por exemplo, o Wacken Open Air e o Leipzig Wave Gotik Treffen. Também me parece que os nossos agentes estão a fazer marcações para o Outono, mas, de momento, desconheço os pormenores. E espero que, desta vez, possamos actuar em Portugal. Entrevista: Cristina Sá


Iluminados aqueles que, possuindo a rara capacidade de se converterem a si próprios em motivo de piada, andam um passo à frente dos seus detractores. Sim, porque zombar das especificidades que nos distinguem é uma prova de inteligência e abertura de espírito. Não tenhamos ilusões - se não o fizermos haverá sempre quem esteja disposto a substituir-nos nessa "função"... Obviamente, esta máxima aplica-se também ao universo do Metal. Historicamente, e pela sua natureza intrínseca, o estilo encontra-se associado a uma imagem sizuda, obscura, agressiva e negativista, explorada ao limite em subgéneros como o Thrash, o Doom, o Death, o Dark, o Grind/Gore, Metalcore ou o Black Metal. Por outro lado, as sagas épicas megalómanas, fantásticas e românticas que sempre caracterizaram o Heavy Metal clássico e o Power Metal, ou o glamour que distingue o Gothic Metal (já nem sequer refiro o Glam Metal), de imagética irrepreensível mas amplamente exagerada, não deixam os seus fãs indiferentes. Fãs que se revêm totalmente nas respectivas abordagens. Não sou excepção. Porém, sempre entendi que, no Metal, a generalidade dos grupos se leva demasiado a sério, não raramente caindo no ridículo devido às abordagens “tão maus/másculos que somos” ou “tão valentes/bonitos (vulgo amaricados) que somos” - conforme os subgéneros em que se inserem -, sobejamente exploradas por inúmeros ao longo dos anos e mal cultivadas por muitos outros, que facilmente se transformaram em paródias de si próprios. Os exemplos abundam e só não os vê quem não quer. Essencialmente devido aos seus conceitos lírico e estético, o Power Metal, o Heavy Metal clássico, o Gore/Grind e o Black Metal serão os géneros mais passíveis de inspirar bandas como

os italianos Nanowar, que transformam os dogmas do Metal na sua matéria-prima (com especial incidência nos temas dos Manowar, mas também dos Iron Maiden, entre outros). No entanto, se olharmos atentamente à nossa volta, qualquer estilo musical pode gerar situações cómicas, passíveis de serem retratas humoristicamente. No final dos anos 80 os ingleses Bad News já haviam feito algo do género, transformando «Bohemian Rhapsody», dos Queen, numa hilariante paródia. Mais recentemente, bandas como os Beatallica (que fundem temas dos The Beatles com músicas dos Metallica), Cannabis Corpse (colectivo inspirado nos Cannibal Corpse que canta sobre marijuana) ou Fozzy também ganharam fama, numa linha distinta mas sustentada em pressupostos análogos. Portanto, o conceito dos Nanowar não é original, mas sim a forma como abordam a música (até porque antes deles há muito que os míticos Spinal Tap ou Dread Zeppelin haviam ganho fama). Exemplos de joke bands não faltam e uma rápida busca na Internet prova-o. Mas, numa abordagem distinta, ainda há quem se esforce por marcar a diferença possível, embora raramente original, conferindo um toque de humor negro ao seu trabalho (Lordi, na linha gasta e previsível dos Gwar) ou explorando o non-sense em toda a sua plenitude (os nacionais Kalashnikov ou Comme Restus, e os extintos Paranóia e Cunnilingus, por exemplo). Contudo, outros (raros) grupos assumem uma postura lúcida mas descomprometida e optimista, igualmente válida. Os Helloween constituem o melhor destes exemplos. Desde sempre conhecidos pela sua abordagem divertida e positiva face ao Metal e à vida (alguns designam pejorativamente a sua música de happy metal, embora esta seja uma designação feliz, passo a redundância), os alemães provaram recentemente, com o CD duplo Unarmed - Best Of - 25th Anniversary que a capacidade de nos rirmos de nós próprios é não apenas saudável como denuncia elevados níveis de maturidade, abertura à mudança e predisposição para a descoberta interior. A recriação dos seus clássicos imortais em géneros tão díspares como a Pop, o Rock, a Música Clássica ou até o Gospel revela-o bem e constitui um exemplo meritório. Em suma, brincar connosco próprios e com o género musical que tanto adoramos é saudável, desde que tenhamos a necessária abertura de espírito, entrando no jogo sem preconceitos. Sim, porque uma coisa é brincar, outra completamente distinta é humilhar deliberadamente, situação da qual o Som Eterno e respectivos fãs sempre foram vítimas por parte daqueles para quem o Metal não passa de barulho feito por e para drogados. Mas nem vale a pena falar acerca dessas bestas ignorantes. P.S. - alguns momentos de gargalhadas garantidas encontram-se em http://whiplash.net/materias/humor/026647.html


Conhecidos por muitos como a formação onde pontua Vic Santura, braço direito de Tom “Warrior”, os Dark Fortress são, no entanto, uma entidade a ter em conta por si própria quando o assunto é black metal sofisticado. Falando-nos ao telefone directamente da sua residência, na Alemanha, o vocalista Morean dissecou os pormenores mais extravagantes de «Ylem», o sexto álbum de originais, declarando-se especialmente satisfeito com as múltiplas reacções de perplexidade que este disco tem suscitado.


Fazer um disco diferente de tudo o que os Dark Fortress fizeram até agora – como é o caso de “Ylem” – tem a vantagem de manter a banda interessante, mas também o potencial de afastar alguns fãs da velha guarda. Que tipo de reacções é que vocês colheram até agora com este novo álbum? Duma maneira geral, as reacções têm sido bastante entusiásticas, quer nos media quer nos concertos que temos dado. O novo disco é de facto bastante diferente, e até pode não ser um álbum para todos. Como artistas, é importante para nós que a música constitua um desafio constante, embora os fãs nem sempre compreendam isso. Mas é apenas uma questão de tempo até se adaptarem. Em 2008, quando o “Eidolon” saiu, lembro-me que toda a gente estava à espera duma continuação do “Séance”, o que não aconteceu. Todavia, ao fim de algum tempo, as pessoas habituaram-se, e o disco acabou por ser um sucesso. Provavelmente, desta vez, estariam à espera dum “Eidolon” parte 2! Portanto, como vês, é um processo que se repete. Temos de dar algum tempo até que as primeiras ondas de choque tenham passado e até que o álbum tenha sido completamente digerido, o que não acontece propriamente à primeira audição num disco como o “Ylem”. Em geral, nas primeiras audições, temos a tendência para dar atenção apenas àquilo que esperávamos ouvir, e ficamos desiludidos se isso não coincide com as nossas expectativas. Pelo menos, essa é a minha experiência pessoal como consumidor de música. Tendo tudo isso em consideração, acho que ficámos felizes com as reacções que o disco suscitou. Claro que houveram pessoas que o detestaram, especialmente os fãs de black metal mais old-school ou os que sempre gostaram mais do nosso primeiro álbum. Outros ficaram desapontados porque, de alguma forma,

contavam com um disco muito progressivo. Portanto, geramos algumas desilusões, quer no lado dos fãs de black metal tradicional, quer do lado dos fãs das abordagens mais experimentais. Bem vistas as coisas, a verdade é que é sempre mais importante ter alguém que te ama ou te odeia, do que ser completamente inócuo. Uma dos aspectos que diferencia o “Ylem” do álbum anterior é o facto de incluir material, em média, bastante mais lento. Houve alguma razão especial para os temas saírem assim? Se tivesse que apontar apenas uma razão, diria que teve a ver com o facto do V. Santura (guitarra) ter tocado com os Celtic Frost em 2007/2008. Penso que durante este período ele teve o melhor treino possível no campo da música lenta e muito pesada. Não é que ele tenha copiado alguma coisa dos Celtic Frost, mas esta influência – que é evidente – permitiu-lhe descobrir o lado musical mais lento dele mesmo. A maior lentidão também pode estar relacionada com o facto de estarmos a ficar todos mais velhos (risos), mas na realidade teve mais a ver como a necessidade dele experimentar algo diferente que não seja sempre a abrir. Para nós continua a ser black metal, embora tenha deixado de o ser para algumas pessoas… Os temas «Evenfall» e «Wraith» são aqueles que mais sugerem uma tentativa clara de explorar, musicalmente, para além daquilo que conhecemos dos Dark Fortress. Fala-me um pouco destas músicas. O «Evenfall» é um tema já antigo, composto na altura do álbum «Stabwounds» [NR: em 2004], mas que nunca foi considerado adequado a esse ou a qualquer um dos discos posteriores. E desta vez o Santura também estava indeciso sobre se o havíamos de incluir neste

álbum, mas eu sempre achei que este poderia ser um tema especial no «Ylem». No entanto, na minha opinião, o «Evenfall» precisava de algo mais do que as vocalizações típicas do black metal. E assim dei por mim a fazer algo que jurei nunca fazer desde que me juntei aos Dark Fortress: cantar com voz limpa (risos). Foi uma abordagem completamente nova que tentei pela primeira vez no momento das gravações. E acabei satisfeito com o resultado final. Acho que com o «Evenfall» abrimos uma porta que nos pode conduzir a música muito interessante. É possível que, no futuro, façamos mais alguma coisa nesta linha, embora talvez não tão baladesco. Quanto ao «Wraith», a primeira versão deste tema era ainda mais suave e um pouco monótona. Segundo a opinião do Santura, isto era algo que devia aparecer apenas como faixa bónus. No entanto, quando gravamos o «Wraith» com o nosso amigo Mortal a cantar, adicionamos linhas de baixo mais elaboradas e alguns arranjos orquestrais, e a canção acabou por sair bastante melhor do que esperávamos. Lembro-me que quando ouvimos a versão final pela primeira vez, ficamos a olhar uns para os outros meios aparvalhados (risos). Nem queríamos acreditar que tínhamos feito esta coisa!... Algo que não tem nada a ver com black metal. Mas ao mesmo tempo ficámos satisfeitos com o tema e decidimos então incluí-lo como uma faixa normal. A julgar pelas reviews que li, o «Wraith» foi o tema mais controverso em todo o álbum. Qual é a tua opinião? Sim, penso que é a parte do álbum que está a confundir mais as pessoas. E nós estamos a divertir-nos com isso (risos). Acho que isto é importante para desafiar um pouco quem nos ouve. Se fossemos outro tipo de banda e fizéssemos um tema melódico como o «Wraith», seríamos imediatamente acusados


de vendidos. No black metal um tema como este é o caminho mais curto para uma sentença de morte comercial, pois não te ajuda nada nesse ponto de vista. Mas estes são aspectos com que já nos deixamos de preocupar há algum tempo, e este álbum prova isso mesmo. Mesmo que toda a gente o detestasse, nós continuaríamos orgulhosos do «Ylem». O «Ylem» parece ter sido o primeiro álbum a ser gravado no estúdio que o V. Santura abriu há pouco tempo. O que é que essas novas condições trouxeram de novo para o processo de gravação? Foi tudo muito mais relaxado. Antes de termos estas condições a produção dos discos era feita num estúdio que funcionava também como sala de ensaios. E como esta sala era partilhada por várias bandas, perdia-se imenso tempo com interrupções que exigiam deslocar e montar equipamento, voltar a desmontar mais tarde e voltar a montar logo a seguir. A banda acabava por se desconcentrar muito com coisas sem importância. Agora pudemos concentrar-nos apenas na música e no trabalho que estávamos a fazer. Desta vez, quando haviam discussões, eram sempre sobre aspectos da música. Por exemplo, como é que a parte X deve ser interpretada, qual deve ser o volume adequado do snare na parte Y, etc. Como o estúdio fica situado numa zona rural isso significa que não temos vizinhos a chatear-nos por causa do barulho. Além disso, continuar a trabalhar com uma pessoa como o Santura, que é, ao mesmo tempo, o principal compositor, o principal guitarrista e o produtor, e que consegue ser bom nestas três coisas, continua a ser uma benefício para esta banda. Não sei se houve algum problema com as versões promocionais do álbum que fo-

ram distribuídas em mp3. Questiono isto porque na faixa «As the world keels over» bem como num outro tema mais à frente, é possível ouvir o som de umas estranhas blast beats muito abafadas no background, que parecem soar algo deslocadas. É mesmo assim? Sim, isso faz mesmo parte da música. O que acontece é que o Seraph, o nosso baterista, usa dois snares e executa dois ritmos ao mesmo tempo: um em blastbeat, e outro a um ritmo diferente. O resultado é semelhante a teres dois bateristas ou duas faixas de bateria em simultâneo, quando na realidade tens apenas um baterista a tocar tudo em tempo real. O Seraph está prestes a graduar-se no conservatório e a cada passo tem estas ideias malucas. Sendo um baterista sofisticado sempre nos disse que tinha esperança que a banda se mantivesse interessante para ele. Na verdade, se fosse obrigado a limitar-se artificialmente aos três ou quatro padrões rítmicos que se estabeleceram há 15 ou 20 anos atrás como padrões no black metal, a vida dele seria muito frustrante. Por isso ele vai introduzindo novas ideias aqui e acolá, mantendo mesmo assim a identidade sonora da banda. Presumo que estes detalhes tenham gerado muitos comentários por parte dos críticos e do público em geral. Sim, foi incrível a quantidade de queixas que recebemos de pessoas que julgavam que havia algum problema com o CD. Fartamo-nos de rir com isso! (risos). Para ser franco, achamos tudo isto muito engraçado e sentimo-nos orgulhosos por confundir um pouco as pessoas. Não é que o façamos de propósito; fazemo-lo apenas por razões musicais e porque faz sentido. Mas acabamos por nos sentir um pouco chocados com a facilidade com que o mundo do metal se confunde. Acho que as coisas mudaram bastante des-

de os anos 80, em que surgia um novo subgénero quase de dois em dois anos, e as pessoas eram mais abertas a inovações. Hoje em dia basta que faças algo um pouco diferente e toda a gente fica surpreendida. Se as pessoas soubessem a quantidade de ideias experimentais que não pusemos em prática, podes crer que ficariam muitíssimo mais admiradas! Nos últimos anos os Dark Fortress têm-se vindo a afirmar como uma das bandas mais relevantes da cena alemã. Qual é a vossa percepção? Sentem que o vosso trabalho é reconhecido pelos media em geral como algo acima da média? Penso que a banda tem crescido em popularidade de álbum para álbum, especialmente nos últimos dois anos em que tocamos muito mais ao vivo. Há portanto um reconhecimento substancialmente maior pelo nosso trabalho, o que é óptimo. No entanto, aquilo a que as pessoas por vezes chamam a “cena germânica”, não é de facto uma cena. Aqui as bandas estão muito espalhadas geograficamente, o que faz com que aquela identidade colectiva que normalmente caracteriza uma cena, não exista aqui. Cada banda trabalha por si. Claro que somos amigos e apoiamo-nos mutuamente, mas não há aquele sentimento de coesão típico duma cena. Além disso, ser originário da Alemanha também não é vantagem nenhuma. Se viéssemos da Noruega ou da Suécia, isso sim, seria um benefício. Salvo raras excepções, penso que a maioria das bandas alemãs são ainda demasiado pequenas para explodir internacionalmente. Além disso somos uma banda de terceira geração ligada a um género que já conta com cerca de vinte anos de desenvolvimento, o que faz com que, provavelmente, as pessoas já não esperem muito de inovador por esta altura. Entrevista: Ernesto Martins


Dois anos depois do primeiro grito de guerra a que chamaram «Ŷnys Mön» e da feroz invasão europeia que protagonizaram logo a seguir, o clã Gwydion acaba de regressar para mais uma razia que promete não deixar pedra sobre pedra. Aproveitando um momento de relativa tranquilidade nas hostes guerreiras, chegamos à fala com o Daniel César (teclas), o Ruben Almeida (voz) e o Miguel “Kaveirinha” (guitarra), que nos revelaram detalhes cruciais sobre este segundo ataque, cujo nome de código é «Horn Triskelion». Depois do feedback muito positivo que receberam da imprensa internacional relativamente ao álbum «Ŷnys Mön», quais foram os objectivos que traçaram para a banda e para este segundo disco? Daniel: Após o sucesso que tivemos com o

«Ŷnys Mön» (que acabou por ser uma colectânea de temas compostos nos cinco ou seis anos anteriores), decidimos fazer um álbum mais maduro e mais orientado para o estilo que vínhamos a desenvolver ao longo dos anos. Este novo trabalho foi desenvolvido num espaço de tempo mais curto e por isso creio que resultou mais coeso e mais profissional do que o anterior. O nosso objectivo foi dar, não apenas mais um passo em frente, mas dois de uma só vez.

O material presente em «Horn Triskelion» sugere um trabalho meticuloso de composição onde nenhum detalhe foi deixado ao acaso. Fala-me um pouco do processo de criação dos temas

deste novo álbum? Ruben: A experiência que adquirimos com o

primeiro álbum e com os concertos que fizemos posteriormente em Portugal e lá fora, permitiu-nos desenvolver uma capacidade de composição que está muito para além daquilo que demonstramos no «Ŷnys Mön». Passamos a encarar a banda de uma outra forma e a investir muito mais no trabalho criativo. Kaveirinha: Sim, desta vez decidimos dar tudo por tudo e prestar muito mais atenção aos detalhes. E também apostamos mais forte na produção. O álbum foi gravado com o Fernando Matias dos F.E.V.E.R. que nos deu uma ajuda fabulosa em todos os aspectos e a quem estamos gratos pela paciência e pelo esforço que colocou neste álbum. O contributo dele foi fundamental para obtermos o som nórdico que desejávamos. Ruben: E para além disso tivemos o contributo de alguns músicos convidados, nomeadamente vozes femininas e instrumentos folk, pelo que o resultado é um trabalho bastante mais maduro e elaborado do que o «Ŷnys Mön».

Foi a primeira vez que utilizaram instru-


mentos folk reais? Que instrumentos? Daniel: Sim, foi. A maioria das sonoridades folk

continua a ser sintetizada, no entanto desta vez usamos alguns instrumentos naturais como a gaita-de-foles, a flauta de bisel e a gralha. Estes instrumentos surgem no tema «Triskelion horde is nigh» e no instrumental «At the sumbel».

E quem são as vocalistas convidadas? Daniel: Tivemos os contributos da Isabel Cristi-

na, vocalista dos Insaniae, e da Célia Ramos que está envolvida em vários projectos, entre eles os Mons Lvnae.

Desta vez vocês optaram por entregar a mistura à responsabilidade do Børge Finstad. Porquê? Daniel: Essa decisão resultou duma longa pes-

quisa que nos levou a consultar estúdios de onde tivessem saído trabalhos do nosso agrado e semelhantes ao nosso estilo de som. Uma vez que já estava decidido que as gravações seriam feitas com o Fernando Matias, o nosso objectivo visava apenas a melhor solução para a mistura e masterização. No fim optamos pelos estúdios TopRoom e pelo Børge Finstad, que trabalhou com bandas com um som muito característico e que gostamos bastante, especialmente os Arcturus, apesar de não serem uma banda de folk metal.

“… o «Ynys Mön» já deu mostras de querermos enveredar por esse caminho [o folk metal], e este novo álbum é a consolidação dessa tendência” Neste novo disco parece que os Gwydion se aproximam ainda mais do estilo acessível de folk festivo que é característico de bandas como Finntroll, Korpiklaani ou Tyr. Porque que é que optaram, desta vez, por explorar mais este vertente? Ruben: Esta mudança vem na continuação da-

quilo que temos vindo a fazer nos últimos anos. Embora os Gwydion não sejam originalmente uma banda de folk metal, o «Ŷnys Mön» já deu mostras de querermos enveredar por esse caminho, e este último álbum é, por assim dizer, a consolidação dessa tendência. Na verdade, desde que tivemos o primeiro contacto com este estilo de som - tanto o folk com o viking metal - achamos que era com isto que nos identificáva-

mos mais. Portanto, esta foi uma mudança que se tornou natural; não foi nada combinado. Foi algo muito genuíno em todos os elementos da banda, e o resultado é esta mudança que se vê no «Horn Triskelion».

Claro que há o risco de se estarem a aproximar excessivamente de algo que é muito conhecido, podendo a banda tornar-se indistinta dos nomes que referi. Ruben: Sim, mas em relação a isso não temos muito receio porque estamos convencidos que o contributo de cada um de nós tornou a sonoridade final deste álbum bastante rica e particular. E não acredito que a sonoridade esteja assim tão próxima de outro tipo de trabalhos.

Uma questão que ocorre inevitavelmente perante uma banda como os Gwydion tem a ver com o facto do grupo se basear num imaginário inspirado por uma cultura e mitologia, mais Viking do que Celta, que pouco ou nada tem que ver com a história de Portugal. Como é que vocês respondem a esta questão? Ruben: Penso que não é pelo facto de sermos

portugueses que devemos ter vergonha de explorar uma temática relacionada com uma cultura que nos interessa. Este álbum explora de facto a cultura nórdica, em particular a viking, mas isso não significa que gostemos mais da cultura nórdica do que da cultura portuguesa. Foi apenas uma das opções que assumimos para este álbum, o que não quer dizer que será assim daqui para a frente. E aqui é importante referir que o disco inclui também temas que não têm nada a ver com a cultura nórdica, como é o caso de «Ofiússa (A terra das serpentes)», que se refere às nossas próprias origens como portugueses, em particular ao primeiro nome pelo qual o território português foi conhecido na antiguidade. Normalmente a História fala de Lusitânia, mas não refere Ofiússa que é uma designação ainda mais antiga que remonta à civilização grega. Além disso, para os gregos, as pessoas que habitavam a nossa terra eram os adoradores do culto da serpente. Enfim, são alguns factos primordiais da nossa civilização, que descobrimos e achamos interessante deixar patente neste álbum.

E aqui é importante sublinhar que este tema inclui também uma passagem interpretada em língua portuguesa. Ruben: Exactamente. Aliás essa foi uma das

experiências que fizemos neste álbum com o intuito de o tornar mais diverso e o mais rico possível. Achamos que é isso que dá valor às nossas composições. E já agora, voltando a uma questão que colocaste há pouco, devo di-


zer que são aspectos como este que distinguem este álbum do restante folk/viking metal que se faz na Europa. Achamos que é algo que permite distinguir o «Horn Triskelion» de outro tipo de trabalhos. Kaveirinha: Eu acho que, de facto, o álbum ficou bastante variado, com temas que são mais festivos e outros que são um pouco mais negros. É um álbum misto, e não algo completamente virado para músicas festivas.

Já alguma vez pensaram em integrar na vossa sonoridade algum instrumento do folclore português? Kaveirinha: Sim, já pensamos nisso. No futuro poderemos vir a fazer qualquer coisa nesse sentido, até porque temos instrumentos tradicionais muito interessantes que poderão dar uma cor particular ao nosso som e, ao mesmo tempo, salientar as diferenças entre o nosso estilo e o de outras bandas. Neste álbum já houve lugar a alguma experimentação com instrumentos folk, e este é pois um caminho que pretendemos continuar a explorar. Temos é que o fazer gradualmente, de forma a fundir da melhor maneira esses elementos com a nossa música.

A indumentária de guerreiros que vemos nas fotos é uma coisa recente, não é? Trata-se apenas de uma imagem usada para efeitos promocionais, ou a banda apresenta-se mesmo assim ao vivo? Daniel: Sim, temos usado este tipo de vestimentas em palco. Começamos há cerca de um ano. Decidimos apostar um pouco mais na imagem para melhor transmitir ao público o sentimento da nossa música. Kaveirinha: Quando estivemos em digressão com os Svartsot, os Tyr e os Alestorm notamos que havia uma grande diferença, em termos de imagem, entre nós e os outros grupos. Nessa altura apercebemo-nos que o espectáculo não passa só pela música, e que estes pequenos elementos visuais acrescentam algo importante ao espectáculo musical.

“Não é pelo facto de sermos portugueses que devemos ter vergonha de explorar uma temática relacionada com uma cultura que nos interessa”

Os Gwydion estão neste momento à procura de novo agenciamento, depois de terem passado por uma má experiência com a Metal Maniac que aparentemente não se portou bem na organização duma digressão pelo Leste da Europa, que deveria ter acontecido em Agosto último. O que é que se passou ao certo? Daniel: Basicamente o que se passou é que tínhamos uma tournée dada como certa, com os Shining como cabeças de cartaz, com tudo bem acordado com a agência de booking, e entretanto, aos poucos, fomos sabendo através de bares e da empresa que supostamente nos iria alugar o material, que nada estava marcado. Ou seja, dois ou três dias antes de embarcarmos, descobrimos que os autocarros não estavam marcados, o material não estava alugado e o espaço já tinha sido cancelado. Contactadas as outras bandas, fomos descobrindo mais coisas que não batiam certo. Como as condições mínimas não estavam garantidas, os Shining cancelaram a tournée e todas as restantes bandas foram por arrasto. Enfim, uma coisa realmente desagradável… Daniel: Sim, foi o nosso grande revés em 2009. Depois de um ano muito positivo em que tudo correu bem, nomeadamente com a composição e a gravação do «Horn Triskelion», e em que conseguimos também solidificar um pouco mais a nossa posição a nível nacional com concertos nos festivais mais importantes como o Barroselas, o GDL, o Caos Emergente, etc., esse cancelamento foi de facto uma pena. Já que falamos em concertos, quais são os planos a curto/médio prazo para os próximos tempos? Daniel: Ontem [4 de Abril] regressamos de Fribourg, Suíça, onde tocamos pela primeira vez o novo set. Tivemos uma recepção fenomenal e o concerto foi uma experiência excelente que superou as nossas melhores expectativas. Com este bom incentivo que serviu também de ensaio geral, temos já presença oficial marcada para a próxima edição do Metal GDL, em Junho, estamos marcados para o East Riding Festival, a 17 de Julho, em Inglaterra, que conta com algumas bandas grandes como Akercocke, e temos também já na agenda o OST Mountain Festival Open Air, que vai ter lugar a 8 de Agosto, em Busteni, na Roménia.

Entrevista: Ernesto Martins


O mundo da música é muito vasto, já de tudo se fez e de tudo se viu, e poucos são aqueles que se aventuram no mundo da criação, no mundo da originalidade, no mundo da novidade. “Em equipa que ganha não se mexe”, mas, e em música que vende? Muitos de vós estarão pensando “Sim, mexe-se.” mas a realidade grita “Não! Se vende não se muda mais!” E grande parte da sociedade musical reflecte as palavras gritadas e não as pensadas como gostaríamos. Todos nós já vimos os nossos ídolos a “passarem de moda”, a parar num ponto no tempo, a deixar para trás uma vida de sonhos, de mensagem, de ajuda e alegria para quem admira, e tal entristece-nos. Mas haverá algo mais triste para um fã que ver a pessoa, ou conjunto de pessoas, que mais admira estagnar numa “fórmula” e cingir-se única e exclusivamente ao que esta dita? Por exemplo, artistas que não têm uma sonoridade facilmente definível, mas que exploram um pouco as opções musicais que têm à sua disposição dentro do seu género predilecto, e que começam a criar uma pequena legião de fãs um pouco por todos os cantos do planeta, à medida que vão crescendo vão-se conhecendo melhor a si próprios e vão deixando de explorar tanto o espectro musical, focando-se assim mais num único ponto, ou seja, criando uma identidade. Mas até que ponto essa “identidade” assim é? Há que saber definir o que é identidade e estagnação, pois há bastantes artistas que procuram o seu papel no mundo da música, mas quando o acham não é por ser aquilo que mais se sentem confortáveis a fazer nem é a maneira através da qual querem fazer passar a sua mensagem, mas sim o modo como esta mais vendeu, achando assim a sua fórmula.

Quando o gosto puxa dinheiro, e o útil se junta ao agradável, tudo está bem, agora quando muitas das vezes se estagna e se perde a paixão, o fogo pelo simples e tão grandioso acto de criar música… É quando a outrora crescente legião de fãs devotos pelo amor empregado nas músicas começa a desgostar do agora produto embalado e pronto a consumir, e de cabeça baixa completamente desiludidos abandonam as filas da frente dos concertos desses artistas anteriormente tão queridos. É certo que as filas da frente nunca estarão vazias, e o que repugna uns é admirado por outros, mas e se essa identidade é mesmo uma pura e dura estagnação? Um divertido ciclo monótono de se fazer sempre o mesmo trocando a primeira nota com a última? Possivelmente é um problema. É neste momento que se diz que quando se ouve uma música, ouvem-se todas as do mesmo artista. Mas haverá algo mais triste para um fã que ver quem mais admira estagnar? A resposta é sim. Infelizmente há. Porque estagnar nos seus próprios meios e através do seu próprio esforço, dedicação e evolução é algo que se pode até compreender, mas há ainda aqueles que para além de estagnarem vão atrás das ditas “modas”, e procuram fazer algo similar ao que alguém que está “na berra” fez para merecer, ou simplesmente para lhe ser atribuído. O mundo dá música tem apenas um grande holofote que vai girando por artistas e estilos, um de cada vez. Esperemos que um dia existam holofotes com potencialidade para suportar mais que apenas um estilo e artista. Texto por: Daniel Guerreiro


AVANTASIA «The Wicked Symphony / Angel of Babylon» [2010 / Nuclear Blast]

ALCEST «Écailles de Lune»

[2010 / Prophecy Productions]

Avantasia é um supergrupo liderado por Tobias Sammet (Edguy), que desde 2000 reúne periodicamente algumas das mais importantes figuras do power metal mundial. Inicialmente, a ideia era editar apenas dois discos («Metal Opera Pt. I e Pt.II»), mas o sucesso obtido levou Sammet a retomar o projecto. Em 2008 saiu ‘The Scarecrow» – um álbum conceptual e o primeiro capítulo da «The Wicked Trilogy»; agora, de uma assentada, são publicados os capítulos II e III da trilogia – «The Wicked Symphony» e «Angel of Babylon», que dão, ainda que vagamente, continuidade ao conceito. Nestes dois novos discos, repete-se a fórmula dos anteriores – faixa após faixa vão desfiando alguns dos melhores vocalistas do género: Russell Alan (Symphony X), Michael Kiske (Helloween), Klaus Meine (Scorpions) e André Matos (Angra, Shaaman), só para citar alguns. As guitarras são maioritariamente asseguradas por Sascha Paeth (Heaven’s Gate), fi-

cando o baixo entregue ao próprio Sammet e as baterias a Eric Singer (Kiss), mas os discos contam ainda com as participações de Henjo Richter (Gamma Ray), Jens Johansson (Stratovarius), Miro Rodenberg (Kamelot) e Alex Holzwarth (Rhapsody of Fire), entre outros. Qual é o resultado de tanta estrela junta? Dois discos muito, muito bons. «The Wicked Symphony» abre com a faixa-título – definida por Sammet como “uma batalha vocal de dez minutos”. Depois, ao longo de uma hora, vão-se sucedendo boas malhas de puro power metal com elementos épicos e sinfónicos, com destaque para «Dying for an angel», o primeiro single. «Angel of Babylon» acaba por ser um disco muito idêntico e também muito forte e coeso do princípio ao fim – uma excelente sucessão natural. Os dois discos existem no mercado em edições separadas mas também numa boxset que contém os dois discos em digipack e um pequeno livro. Obrigatório comprar: seguramente de um dos melhores lançamentos de 2010.

[9/10] [Renato Conteiro]


ALTAR OF PLAGUES «White Tomb»

natureza pintada em tons de negro. Apesar dos seus cinquenta minutos de duração, a composição minimalista tende a induzir uma certa sensação de insatisfação; de “saber a pouco”. Todavia, a verdade é que, por vezes, menos é mais, o que é sem dúvida o caso num álbum tão rico e multi-dimensional como este. [8.5/10] [Ernesto Martins]

[2009 / Profound Lore]

Imaginem um híbrido de post hardcore e doom derivado de uns Neurosis ou Cult of Luna, com uma densa atmosfera drone a sugerir algo de vasto e apocalíptico, uma boa dose de black metal e um sentido épico maior do que a própria vida, e talvez fiquem com uma vaga ideia do que podem esperar deste ambicioso álbum de estreia dos irlandeses Altar of Plagues. Constituído por quatro faixas com durações entre dez a quinze minutos, «White Tomb» é um disco que se desenvolve tão lentamente quanto se possa imaginar, em crescendos que ganham corpo lentamente até explodirem em ondas de riffs arrasadores, percussões colossais e tempestades sónicas de desespero e raiva. A música faz-se de grandes excursões de intensidade com momentos de quase silêncio, linhas distantes de guitarra e camadas de teclados a conferir profundidade, alguns segmentos repetitivamente hipnóticos, e passagens torturadas de doom funerário marcadas por recitações de uma cólera pungente. Embora se situem, musicalmente, longe dos compatriotas Primordial, partilham com estes a convicção apaixonada que imprimem aos momentos mais abrasivos da música. Em termos líricos «White Tomb» move-se por entre questões ecológicas e ambientais, elaborando sobre uma imagem do choque entre civilização e

sempre bastante precisa e coesa, e o nível de qualidade é mantido razoavelmente constante ao longo de todas as faixas, excepto talvez nos dois minutos redundantes de estática e ruído industrial daquela que é, supostamente, uma peça instrumental. Mas o melhor fica reservado para o fim, no tema “Prakalba i atmatas”, um excerto de rara inspiração que vale também pela refrescante fuga a alguns dos lugares comuns a que a banda não conseguiu evitar nas faixas anteriores (os primeiros 2’.30” são particularmente excepcionais). Ficamos a torcer para que este momento constitua, de alguma maneira, uma indicação de uma direcção a explorar no futuro. [7.5/10] [Ernesto Martins]

ARGHARUS «Pleištas»

[2009 / Inferna Profundus Records]

Chegam-nos de um dos lugares mais recônditos da Europa de leste, a Lituânia, com uma proposta de black metal nitidamente influenciada pelo legado dos nomes maiores do género, como sejam Mayhem e Immortal, e uma sonoridade crua e algo primitiva, feita de riffs crispados e arrasadores, sem qualquer recurso a teclados. Numa demonstração de talento que é pouco comum em álbuns de estreia, a banda mostra como é possível agarrar numa mão cheia de riffs viciantes e construir longos temas com pés e cabeça, mantendo uma composição madura e inteligente que favorece os andamentos apressados e com o suficiente em textura para nos pregar o ouvido às colunas. Embora toda a interpretação seja feita no idioma nativo do colectivo, é quase impossível não perceber no vocalista 7 os tiques dementes de Niklas “Kvarforth” ou, por vezes, o registo tipicamente tortuoso de Attila Csihar. A execução de todos os instrumentos soa

BARONESS «Blue Record»

[2009 / Relapse Records]

Se os Baroness já tinham impressionado – e de que maneira – com o debutante «Red Álbum», aqui nota-se que a fasquia foi elevada ou que, pelo menos, a banda cresceu e ganhou confiança. «Blue Record», como segundo longa-duração desta banda do estado da Geórgia, conta com o contributo de Pete Adams na segunda guitarra em vez de Brian Bickle, irmão do baterista, Allen Bickle. «Blue Record» soa velho e moderno ao mesmo tempo; tem a chama hard-rock da década de 70, temperada a riffs sludge do presente. Temos, em «Blue Record», uma fabulosa conciliação de psicadelismo e


melodia, força e delicadeza. Tanto somos atirados, rapidamente, contra uma parede com sujos riffs de hard-rock, como, logo a seguir, somos imersos numa atmosfera melódica contagiante, que irá, provavelmente, acabar num explorar de efeitos de um qualquer riff de guitarra. Por vezes, estas transições não são fáceis de compreender, mas qualquer fã de rock progressivo reconhecerá que um bom álbum vai-se descobrindo aos poucos, e que é aos poucos que ele se vai apreciando cada vez mais. «Blue Record» funciona como um todo, havendo um sentimento comum a todas as músicas, e são os numerosos interlúdios que nos transportam nessa viagem. Como pontos altos temos «The sweetest curse», «Steel that sleeps the eye» e «Swollen and halo», funcionado como uma apenas, e «A horse called golgotha». «Blue Record» é, acima de tudo, um álbum refrescante, directo e carregado de vigor. Sendo os Baroness uma banda ainda jovem, pode-se, de certo, antecipar que deles ainda virá muita coisa boa. Cá a esperamos, então. [8/10] [Luís Almeida Ferreira]

Vocalizações apocalípticas, riffs de guitarra viciantes, uma secção rítmica executada de forma cirúrgica e solos de guitarra atípicos. Na voz também podemos destacar as vocalizações mais guturais misturadas com outras mais thrash-core que nos fazem lembrar Phil Anselmo (Pantera). Em suma um bom disco que poderá ser ouvido não só por quem gosta de thrash metal mas também por fãs de metal em geral. Para provar que no Brasil não são só os Angra e os Sepultura que fazem boa música - os Claustrofobia estão aí para continuar a dar-nos bom thrash. [7.5/10] [Miguel Ribeiro]

DARK FORTRESS «Ylem»

[2010 / Century Media]

CLAUSTROFOBIA «I See Red»

[2009 / Candlelight Records

«I See Red» é o novo álbum dos brasileiros Claustrofobia, onde nos apresentam 15 temas de pura brutalidade e violência, e onde se podem combinar influências que vão desde o hardcore, thrash e death metal.

Ultimamente, na área específica do black metal, a produção alemã tem mostrado as suas garras através de um conjunto de lançamentos incontornáveis aos quais se junta agora este novo registo dos Dark Fortress. Se em 2008 o anterior «Eidolon» foi sentido como um dos trabalhos mais bombásticos da banda bem como uma evidente acomodação ao nicho mais ortodoxo do género, «Ylem» volta a aventurar-se para lá dos aspectos tradicionais e previsíveis do black metal, enveredando por territórios que, não constituindo novidade em si, permaneciam ainda intocados na discografia pretérita. Este sexto de originais do colecti-

vo bávaro é assim um disco muito mais apostado na criação de atmosfera, com mais de metade dos temas a rolar entre o meio tempo e o lento, e até com Morean a mostrar em duas ocasiões («Evenfall» e «Wraith», este último especialmente evocativo da fase clássica dos Solitude Aeturnus) que sabe cantar como os vocalistas de heavy tradicional. Este sexto de originais do colectivo bávaro é assim um disco muito mais apostado na criação de atmosfera, com mais de metade dos temas a rolar entre o meio tempo e o lento, e até com Morean a mostrar em «Evenfall» que sabe cantar como os vocalistas de heavy tradicional. «Wraith», interpretado também com voz limpa pelo convidado Mortal, é especialmente evocativo da fase clássica dos Solitude Aeturnus, e é o tema que mais se afasta de todo o reportório da banda até aqui. A sonoridade mantém-se relativamente standard mas a composição é primorosa e das mais variadas de sempre, com riffs pontuadamente esmagadores, belíssimas linhas de guitarra de grande inspiração, um fundo subtil de teclados, alguns refrães contagiantes, e uma daquelas produções que até brilha de tão lustrosa. É inevitável não se detectar aqui uma influência mais visível de Celtic Frost o que até é compreensível, mostrando que a passagem de Vic Santura, principal compositor dos Dark Fortress, pela extinta formação liderada por Tom “Warrior”, deixou as suas marcas. [8/10] [Ernesto Martins]


DEMONICA «Demonstrous»

[2010 / Massacre Records]

Este é o primeiro álbum dos Demónica, agrupamento formado por cinco gigantes vindos da Dinamarca e Estados Unidos que não temem em desbravar caminho por demências e outras monstruosidades. Estes são Hank Sherman (guitarra - Mercyful Fate), Craig Locicero (guitarra - Forbidden), Marc Grabowski (baixo – Corruption), Mark Hernandez (bateria – Forbidden) e Klaus Hyr, um louco com voz de tempestade dentro de uma garrafa com o gargalo partido que já tocou baixo e rasgou as goelas em Furious Trauma e Battalion. O que é que se poderia esperar de um agrupamento com tão extensiva biografia senão o mais ultrajante do Thrash-Metal? Quem quiser uns bons minutos de martírio poderá esperar em «Demonstrous» um batalhão de ritmos excruciantes violados por uma panóplia vocal que rasga ouvidos como se não se importasse em entorpecer qualquer miserável condição que nos tenha anteriormente seduzido. Isto é… se não se importarem de regredir no tempo pois existem óbvias influências que agradarão aos fãs de Slayer, Nuclear Assault, Testament e Destruction. Enganam-se ao pensar que a única coisa a esperar deste lançamento seja uma sobeja brutalidade pois «Demonstrous» compreende certos apontamentos melancólicos que dão a conhecer o uso e abuso do experimentalismo. Tal só poderá ser apreciado se se gostar da deturpação de elementos um tanto contemporâneos, embora apenas lhes dê uma diminuta originalidade elegantemente disfarçada. Infelizmente, a nível lírico também não existem grandes filosofias ou eloquências devido à repetição de clichés o que nos conforma com a apresentação de uma banda a ter em atenção nem que seja pela elite que a

forma. [7.5/10] [Jorge R. de Castro]

tal, levando o ouvinte numa viagem introspectiva de emoções e pode ser melhor descrito como uma banda sonora para os sentidos”. A descrição não é exagerada. [8/10] [Renato Conteiro]

NEVERMORE «The Obsidian Conspiracy» [2010 / Century Media]

«The Obsidian Conspiracy» é o novo disco dos Nevermore e o aguardado successor de «This Godless Endeavour», que data já de 2005. Ao sétimo álbum, o quarteto de Seattle volta a mostrar porque é que tem lugar na primeira divisão do metal norte-americano. O novo disco incorpora, como de costume, elementos groove no thrash metal musculado praticado pela banda, com algumas introduções ambientais, solos progressivos e uso intenso dos dois bombos em genial articulação com a poderosa distorção da guitarra de Jeff Loomis, criando uma parede sonora de uma qualidade que já vai sendo rara nos dias que correm. As vocalizações alternam entre o habitual “dirty voice/clean voice”, com Warrel Dane a mostrar porque é que é uma das vozes mais carismáticas e um dos grandes mestres do género. A produção, irrepreensível, ficou a cargo de Peter Wichers (que já trabalhou com Dane no seu projecto a solo) e Andy Sneap (antigo guitarrista dos Sabbat e que já produziu, entre outros, Arch Enemy, Exodus, Kreator, Machine Head, Megadeth e Napalm Death), um amigo de longa data e que colabora com a banda desde o quarto disco. A editora descreveu o disco como “uma viagem épica através do panteão do me-

POISONBLACK «Of Rust and Bones» [2010 / Century Media]

Os Finlandeses Poisonblack estão de volta com o seu novo trabalho «Of Rust and Bonés». Neste trabalho nota-se uma maior proximidade ao som dos extintos Sentenced, banda da qual Ville Laihiala fazia parte. Um factor importante a destacar neste novo trabalho é que Laihiala, na guitarra, mostra um lado emotivo e fervilhante, para além da sua voz quente e melódica. A banda colocou um pouco de lado a parte mais gótico-romântica dos álbuns anteriores, e enveredou por caminhos mais decadentes, o que confere um tom mais agressivo e directo a certas músicas. Desde o tema de abertura do álbum, «My sun shines black», até «The last song», este disco mantém-nos sempre à espera do que vem a seguir. Temas como «Leech» e «Buried alive» têm riffs contagiantes que contrastam com a melancolia de «My world». E o poder de «Casket case» que é sem duvida o tema mais pesado do álbum. Um bom trabalho para ser ouvido com toda a atenção e calma. [8.5/10] [Miguel Ribeiro]


SIMPLE EXISTENZ «Das Leben vor dem Tod»

THE VISION BLEAK «Set Sail to Mystery»

Barulhentos, alemães, estranhos e com um sentido de música algo diferente, até podia querer dizer alguma coisa de bom. Pena é terem-se perdido no meio de algumas boas ideias que parecem ter tido. Entre uma ou outra música que até tem alguma parte por onde se lhe pegue (se bem que depois a música passa para uma parte menos boa), a verdade é que este álbum só pode ter sido apadrinhado por alguém que goste muito da banda. Há um ou outro pormenor de recorte interessante. Uns acústicos bem alinhados, uns efeitos sonoros ao estilo de outras bandas alemãs, etc. Mas quando vamos a meio do álbum, parece que já ouvimos aquele acorde, aquela guitarrada, aquele grito. Têm ainda a colaboração de voz feminina, mas que acaba por entrar no esquema da mediocridade do resto do álbum. Na verdade, fica-se pelas ideias, que, na melhor das hipóteses dariam para uma EP de 3 ou 4 músicas, e nunca para um álbum. Tentaram talvez “esticar” o material que tinham para completar mais o CD, mas acabaram por, com um sem número de mudanças de ambiente na mesma música, deitar por terra o pouco que se poderia aproveitar fazendo com que este álbum se perca por falta de algo onde agarrar. Fica-se pelas ideias que andam perdidas lá pelo meio, mas que sinceramente não apetece ir procurar. [4/10] [João Ferreira]

Após revolverem as águas sombrias de um frutuoso passado à procura de uma inquieta inspiração, os The Vision Bleak regressam com um álbum que espelha em qualidade a sua pujante mistura de diversas referências musicais e literárias. Desta feita, sucumbem em todos os seus trabalhos anteriores e cortam amarras, navegando impiedosamente pela glória que o medo, a angústia e a lamentação poderão conceder. Como inicio, um poema de Lord Byron é declamado ao som de uma ténebre entoação que nos enleva em fantasmagóricas liberdades ao conhecermos por quais infames momentos iremos passar. Logo a seguir, surge uma procissão de ritmos sombrios que se agarram a sedutoras ambiências, estas velando a poderosa voz de Konstanz que é parcamente abusada por endemoninhadas vozes. Apesar dos momentos solenes, o que parece surgir para nos conceder uma certa paz, estes logo caem com as eloquentes melodias, os suspiros e os trejeitos de quem nos quer guiar até ao desconhecido. Já que nem sempre se conhece o descanso, quem se deixar levar pela desconfortável pomposidade de «Set Sail to Mystery» talvez até oiça o espírito dos grandes escritores de ambiências menos cómodas proferindo em coro que até a delicadeza poderá esconder um funesto terror. Porque a coragem nasce nos momentos em que se desco-

[2010 / Ván Records]

[2010 / Prophecy Productions]

bre que o maior desespero é saber que a nossa sanidade se está a estreitar, sentimos que os passos já não são nossos. Somos guiados pela curiosidade, só que o caminho já não parece tão incerto como antes. As novas músicas dos The Vision Bleak podem não transpirar a intranquilidade de outrora mas nos seduzem na convicção de que acompanham bem a melancolia numa enevoada madrugada. [7.5/10] [Jorge Ribeiro de Castro]

WINTER’S VERGE «Tales of Tragedy»

[2010 / Massacre Records]

Winter’s Verge surgiu em 2004 na ilha de Chipre, enveredando por uma sonoridade fortemente influenciada pelo Heavy/Power-Metal progressivo. Desde então gravaram duas demos que lhes permitiram dar os passos certos a nível de conhecimento regional mas, de modo a se tornarem mais profissionais, decidiram gravar o seu primeiro álbum, “Eternal Damnation”, no Music Factory Studios, na Alemanha, o produtor sendo R. D., o vocalista dos Mystic Prophecy. Apesar da banda conhecer uma certa popularidade dentro do circuito Power-Metal, surgem certos contratempos com a saída de diversos membros. Resolvida a situação, decidem compor o que se torna «Tales of Tragedy», um álbum que possui uma direcção mais progressiva, épica e obscura, cujo nome advém do conceito lírico. Beneficiando de uma grande qualidade sonora devido a gravarem outra vez no Music Factory Studios entre Março e


Abril de 2009 é apenas após uma digressão pela Grécia no Prog ‘N’ Run Festival, em Novembro, que assinam pela Massacre Records e são confirmados para suportar Stratovarius em parte da sua digressão europeia “Polaris” no ano de 2010. Tendo em conta que há vinte anos que oiço diversos géneros dentro do Metal, tive de ouvir este álbum mais vezes do que supunha à priori para começar a engraçar com ele. Mesmo sendo a banda de Chipre, as influências (Stratovarius, Sonata Arctica, Iron Maiden, Yngwie Malmsteen sendo algumas), são demasiado pujantes pois se Winter’s Verge demonstra grande qualidade o mesmo não se pode dizer em relação à originalidade. De um álbum com onze músicas, três («For those who are gone», uma balada; «The captain’s log», cujo inicio fez-me lembrar Dark Lunacy com um majestoso som de violino; «Envy», com um bom trabalho de teclado) induziram-me a supor que esta banda tem muito mais para oferecer do que é aqui apresentado. Só é preciso “acordar” o espírito criativo… [7/10] [Jorge Ribeiro de Castro]


Versus Magazine #10 Agosto 2010  

Edição nº10 da Versus Magazine c/ Gwydion; PoisonBlack; Lantlôs; Triumfall; Svartsot; Dark Fortress e muito mais. DOWNLOAD: http://www.media...

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you