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SONHO DE INVERNO Por V. S. Nascimento Olhei para os meus pés, mas permaneciam grudados ao chão como sempre. O céu encoberto, demonstrava o nascer do dia por uma simples borda dourada que circundava algumas nuvens. Fora aquilo, às minhas costas ainda era madrugada. Desumano estar ao relento a estas horas. Minha jaqueta encolheu nas costas, enquanto enlaçava a alça esquerda da mochila. E o ar gelado agudamente me feriu, me forçando á um estremecimento quase violento de meu corpo. Sim. O ônibus estava chegando. Não havia uma boa alma naquele ponto para ajudar-me a ganhar tempo. Corri de maneira desengonçada arrumando minha roupa, que teimava em desnudar o centro de meu corpo. Por sorte o motorista meu viu. Embarquei ofegante, passei pela catraca e logo reconheci os vidros embaçados por um número não superior a uma dúzia de passageiros cotidianos. Sentei-me em um banco solitário, sabendo que logo desceria. Meu caminho até a escola consistia em sete paradas exatas do ônibus Rio Negro, e meia quadra de caminhada. Aquele dia não ia ser bom. A monotonia escolar estava transbordando da mente de todos, inclusive professores. Se um acordo fosse proposto sobre início imediato de férias naquele dia, tenho certeza que em absoluto, todos concordariam. O frio curitibano estava se agravando, como que conscientemente aprisionando sonhadores e preguiçosos em torpores de dias curtos que se entrelaçam. Retirei minhas luvas e as coloquei no bolso esquerdo de minha jaqueta, criando um grande volume. Minhas mãos estavam confortavelmente quentes. Foi quando o ônibus virou à direita, em uma rua onde não deveria virar. Por um segundo fiquei atenta, não acreditando, mas a cada metro percorrido ele se afastava daquele que será seu caminho correto. Olhei em volta e todos estavam calmos. Algo estava errado. Procurei por alguém amigável ao redor para partilhar minha aflição, mas não encontrei. Meus pensamentos cessaram abruptamente, e por isto o som do


motor do ônibus era perfeitamente audível agora, junto com a neblina, que de tão densa, soava grave. Eu precisei parar com minhas alterações em choque, juntar o mínimo de coragem social e me encaminhar ao cobrador. - Com licença... – aposto que ele não ouviu isto – este ônibus está... indo na direção certa? – conforme as palavras saíram, percebi que não faziam sentido algum. - Amm, bem moça, este é o ônibus Luiz Nichele, todos os motoristas fazem, todos os dias, este mesmo percurso. Me senti estranhamente burra, mas não desesperada o bastante. Se fizesse parte de minha personalidade ser irônica, eu riria e esperaria ansiosamente a hora de contar à todos sobre meu trágico pequeno engano. Mas não sou assim. Voltei para meu banco, cotovelos sobre os joelhos, cabeça entre as mãos. Não sabia o que fazer. Não conhecia nada dos lugares onde aquele ônibus passaria, então a alternativa de desembarque era nula. Claramente já estava atrasada para a aula. Resolvi então permanecer dentro do ônibus até ele retornar ao terminal, onde eu poderia voltar para casa, e ter um dia normal de inverno. Somente pedia Deus que o Benedito ônibus percorresse caminho curto e voltasse logo. Quando fiquei 100% conformada com meu erro, e me convenci plenamente que aquela situação não necessitava de drama, passei a olhar a paisagem. Realmente não conhecia nada, daquela parte do bairro. Nenhuma pessoa descia, nem tampouco outras embarcavam no ônibus, o que fazia com que ele corresse em velocidade constante aquelas ruas, que agora mais pareciam estradas. O número de casas diminuía e duas pequenas cruzes eram evidentes em uma curva fechada daquele caminho. Apesar do dia ainda não estar totalmente claro, o motorista usava óculos escuros e parecia muito concentrado. Já o cobrador, após nosso curto diálogo, cochilava dentro de seu casaco imenso. Como que mudança repentina de alguém acendendo uma lâmpada num cômodo escuro, o sol brilhou. Frisou o verde intenso das árvores a beira do caminho e forçou-me a retirar uma das camadas de roupa, que agora sobravam.


Da janela do lado direito, onde eu estava, da paisagem agora se vi somente um grande paredão pintado de cinza, não era tão alto, mas obstruía a visão daquilo que guardava. De maneira arredondada, o paredão seguiu a curva da estrada e neste ponto pude ver seu fim, aliado à visão de algo inesperado. Nunca ouvira falar de um lugar como aquele nos arredores de Curitiba, e ainda menos dentro da cidade. Até onde minha vista alcançava havia água. Um imenso lago, circundado por elevações de médio porte. Naquele lugar todas as pessoas sorriam e desejei estar lá. Dois grandes barcos brancos estavam atracados naquela beirada, não muito larga de terra. Outro já havia zarpado, mas não a muito tempo, pois se viam ainda as cores das toalhas de banho de seus viajantes. Eram barcos de três andares e pareciam lotados de pessoas. O que parecia ser o lugar de se comprar as passagens estava sem nenhuma fila, e em algum devaneio rápido me imaginei naqueles banquinhos de espera, pronta para viajar. No segundo andar do barco que estava ainda atracado, três mulheres estavam sentadas em uma longa cadeira de balanço, mas um segundo após meu olhar tocá-las as cordas de seu balanço arrebentaram e eu ri sozinha do pequeno infortúnio delas. A sensação daquele lugar foi maravilhosa, tanto a visão, quanto o cheiro que provinha da água, despertaram em mim um ardente desejo de liberdade, liberdade de experimentar aquele passeio. Logo vi o reinício do grande muro cinzento e relaxei meus ombros, voltando ao meu estado de semi-preocupação por não saber onde estava. Havia logo à frente um ponto, onde algumas pessoas embarcaram. Esperei que estivessem voltando de seus passeios pelo lago, mas todas estavam muito sérias e tampouco sugeriam a idéia de terem estado em um barco. Aquilo me desanimou um pouco, mas formulei rapidamente planos sobre a volta para casa, e em como iria me organizar, convidando meus pais para aquele passeio irresistível. As luzes do dia estavam muito bonitas, mas meus olhos estavam um pouco cansados, então os fechei por um instante. Tombei minha cabeça no vidro da janela que tremia um pouco, mas foi o suficiente para que tudo em volta fosse convidativo à um breve descanso.


Senti uma dor ruim no pescoço e abri meus olhos, havia cochilado realmente por um bom tempo. Tanto que senti olheiras gordas em meu rosto e uma diferença amarga no sabor de minha boca. Não tinha idéia do tempo que estivera dormindo, mas não importando o quanto fora, o ônibus não havia chegado ainda ao terminal. Os vidros estavam muito embaçados agora e esfregando meus dedos numa pequena extensão, percebi que o dia ganhara tonalidades cinza escuro, permanecendo constante, quem sabe, até o seu fim. Bocejei e senti fome, um tanto quanto forte para aquele horário da manhã. Geralmente não tomava café da manhã em casa, pois por ser muito cedo, enjoava um pouco. O dia realmente estava sendo diferente em muitos aspectos. Senti-me finalmente entediada. Nunca fui do tipo que aperta celular por horas ou o que devora livros mesmo em pé. Minhas viagens de ônibus eram sempre curtas, e sequer eu estava em posse de meu celular naquela hora. Para os outros sempre atitude estranha, para mim o óbvio da não funcionalidade. Ou talvez eu estivesse mesmo errada... Estranhamente ao olhar para fora, tive a sensação de que o céu estava mais escuro que antes, como que se fechando. Talvez uma tempestade imensa estivesse a caminho. Mas não ventava, como se venta antes de chuva. E não mais que um quarto de hora depois, minha teoria foi derrubada. Não era tempestade, era noite. O ônibus atravessava agora um local de campo semiaberto, e ao fundo as araucárias estavam negras. Mas desta vez não tive um surto de desespero interno. Não precisei questionar o cobrador sobre horário e lugar. Estava perdida, de certa forma presa, e a cada minuto mais encrencada pelo horário e ausência em casa. Minha mãe deveria estar enlouquecendo, ligando para todos da sua agenda e talvez até chamado a polícia. Chorei um pouco. O pequeno engano se tornara coisa grande e me traria conseqüências gigantescas. Me senti injustiçada e passei a pensar no que fizera de errado para que aquilo acontecesse? Não havia sido boa filha, aluna, cidadã, cristã, humana? Mas o erro não era encontrado. Meu sermão interno foi perturbado pelas vozes de um grupo de homens que conversavam na parte mais posterior do ônibus. Um deles, com uma voz


ligeiramente mais aguda, parecia liderar o assunto, falando mais rápido e alto que os outros. Não havia prestado atenção desde o início, mas entendi que falavam sobre aqueles campos por onde estávamos passando. Ele falou que não raras vezes, à noite, foram visto leões vagando por ali, e que por isto não era a favor do ônibus estar passando por ali. Os outros gargalharam com prazer, e ri também da improbabilidade daquilo ser real. Leões em Curitiba!? Se é que estávamos em Curitiba ainda! Aquele pensamento me amedrontou mais ainda, mas minha atenção foi puxada mais uma vez pela conversa daqueles homens. Outro falava agora sobre umas tais luzes que podiam ferir qualquer animal que tentasse atravessar aqueles campos. Não entendi muito bem aquela parte. Olhei atentamente para fora, e realmente haviam as comentadas luzes, mas não eram fixadas em postes. Elas pareciam estar saindo do solo, e eram muitas. A impressão que me causou era a de uma grande constelação estelar brilhando do lado oposto. Leões reais ou não, desacreditei do fato de que as luzes pudessem ferir. Luzes não ferem, somente mudam a cor das coisas. Esta idéia era óbvia para mim, assim também como a de que a noite seria longa. Passei ouvindo muito do que o grupo de homens falava. Em geral eram mitos urbanos sobre pessoas, animais e coisas que praticavam anomalias. Algumas histórias eram interessantes e outras extravagantemente mentirosas. Um parecia querer ser melhor contador de casos que o outro, mas sempre todos riam animosamente, iniciando outro seus relatos. Não saberia dizer se a madrugada passou lentamente, ou somente em alguns minutos. Minhas pernas doíam e meus olhos arderam, quando um raio de sol os feriu. O motorista parecia exausto, mas o cobrador estava cochilado, como na maior parte do percurso. A estrada era agora de terra, mas por estar seca parecia poeirenta. Na paisagem não predominavam mais campos, e sim algumas elevações, e mais ao longe até algumas montanhas. O romper solar daquele dia não parecia invernal. Algumas nuvens realmente obstruíam o sol, mas isto somente embelezou mais toda a cena. Vários borrões laranja pareciam confusos no céu e o dia prometia estar claro.


Foi quando algo na estrada não parecia certo. A menos de 1 km à frente, o chão parecia acabar! A visão era aterrorizante, mas o ônibus marchava ainda em velocidade constante. Como uma espécie de fenda, por quase cinco metros não havia estrada. Mas naquele espaço vazio girava algo que não fazia sentido algum. A base e a agulha de um gramofone imenso estavam lá, como que flutuando no lugar do asfalto. Peça que, segundo meus cálculos previsores, seria o lugar onde o ônibus passaria, para chegar ao outro lado. O motorista avançava àquela conjugação infernal, e eu temi a morte, pela queda do veículo naquele buraco. Cheguei a visualizar seu estado de destruição como uma premonição, mas voltei à realidade no exato momento em que, naquela manobra impossível, o ônibus chegou ao outro lado da estrada, após tocar seus pneus rapidamente na peça. Expirei algum ar após isto e, virando meu rosto para o lado, senti o aconchego de várias cobertas. Olhei a forma como a luz do sol pairava sobre o guardaroupa dando-lhe cores brilhantes. Tudo estava claro. Um segundo dividido em duas versões de existência que pareciam verdadeiras, ambas, somente naquele segundo.


Sonho de Inverno