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SENTI Por V. S. Nascimento A criação de algo que tenha vindo de dentro de mim, sem restrições, nem medo. Algo que não fosse pura besteira que eu procuro sempre manipular antes de mostrar aos outros. Às vezes eu tenho medo que esta coisa, tão profunda, não tenha um sabor acessível. Seja algo que cause até repugnância, mas talvez eu esteja exagerando. Eu não penso estas coisas por inveja, para ser melhor que outra pessoa, ou mesmo para ser famosa. Eu gostaria somente de me conhecer o bastante para poder criar minhas próprias frases, saber como conduzir minhas ânsias, e desejo absurdamente fortes que às vezes quase me fazem afogar. Eu preciso pensar. Ou ate deixar de pensar um pouco, e começar a colocar tudo para fora. Eu tenho vivido uma vida completamente expositiva. Sem muitas decisões, mas muitas contas a pagar, e sempre muitas explicações a informar. Eu, que vida abandono, sopro de autenticidade, brilho do dia claro, para vasculhar os quartos sempre tão iguais dentro de mim. Eu reneguei os sons da noite, em troca de frases e vozes apetitosas aos meus ouvidos e à minha alma, mas não sei se elas serão digeridas como alimento de qualidade. Eu que gostaria de estar em qualquer lugar, pedalando ou caminhando sem notar a noite, seu frio e sua solidão. Queria experimentar cada coisa, me encher delas até não suportar mais, mas penso que isto é inviável. Eu gostaria que todos estes prédios, casas, e todo o resto desaparecem. Que eu abrisse meu portão e a terra estivesse desolada, com caminhos imensos e incertos a serem traçados. Desta forma eu ficaria bem. Eu colocaria sapatos confortáveis e correria até meus pulmões doerem, depois disto olharia em volta, respiraria e passaria a fazer meu caminho. Cada passo tocando a terra que me assiste unicamente, por ser sua única visitante. Eu queria não temer nada, não sentir falta de nada. Eu queria sentir meu sangue correndo nas veias sem precisar me preocupar com as horas, com meu estômago, com minha alma. Hoje a noite está neutra. Ela não está agitada prometendo ter surpresas como em um sábado, e também não está fria me chamando pra ser de outra nacionalidade.


Hoje não há nada, hoje não me importo. Não quero ser eterna esta noite, e estou incerta se quero ser incerta amanha também. Mas para amanha já está tudo programado. Eu tenho que seguir fielmente o cronograma, até o ultimo minuto, e depois poder sonhar em liberdade. Raras vezes eu estive dentro do circulo de liberdade que sempre quis, mas foi doloroso. Estar lá doeu muito, profundamente. Eu paguei quase o triplo do preço de um dia normal. Cansei-me, deixei de parecer viva. Me senti como nada, menos que um objeto ou mesmo um animal. Completamente invisível. Viva somente na mente daqueles que me feriram, e que eventualmente pensam ainda que discursos usarem quando eu voltar à vida, que forma de apunhalamento seria mais eficaz para abafar completamente próximas tentativas.

Senti (2)  

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