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A sociedade te prepara para gostar daquilo que você vai estar autorizado a gostar

tra mais moderada, em nome da convivência com aquela pessoa. A ética é a convivência com todo mundo, nela cabe uma disposição de abrir mão de certos apetites em nome da melhor convivência possível com todo o mundo. Assim como o quiabo, na ética você abre mão de uma série de impulsos em nome de um convívio mais sadio – caso contrário você vai inviabilizar a relação. Então poderíamos dizer que a arte da convivência pressupõe uma política de gestão dos próprios apetites. Isso significa que, se um indivíduo sair para o mundo com a perspectiva de que buscará a plena satisfação dos próprios interesses, ele terá um problema ético. Claro, não se trata de abrir mão o tempo inteiro, senão seria insuportável. Mas existe na ética uma necessária regulação coletiva dos apetites, que passa por uma abdicação de certos interesses e a satisfação de outros. A arte da convivência é delicada porque, queira ou não, sempre haverá por parte de muitos a busca de uma maior satisfação de si no lugar da abdicação. Ou seja, passaremos o tempo inteiro lutando para ceder menos e ganhar mais. O problema? Os outros também farão o mesmo. Quer dizer que invariavelmente a ética pressupõe uma negociação permanente daquilo que será possível ou não.

50 | VERO | MAIO | 2013

É possível mudar o pensamento de que comportamentos corruptos fazem parte da cultura brasileira e devem ser aceitos como algo “normal”? É possível e necessário mudar esse pensamento. Para tanto, vejo dois caminhos possíveis. O primeiro, o da formação moral, demonstra o seguinte: toda a vez que você usa o “jeitinho”, no fundo você está tentando triunfar um apetite seu em detrimento de uma convivência sadia – lembrando, se todo mundo resolver fazer o mesmo, vai inviabilizar a convivência. Estamos falando aqui de uma questão de formação. Quando essa formação não existe, a sociedade tem que sobreviver de qualquer maneira, então, o uso da punição torna-se necessário no sentido de preservar a ordem e olhar em qual medida aquele comportamento desviante prejudica as relações sociais. Você sempre pode mudar esse cenário “numa boa”, traduzindo, dando às pessoas lucidez moral; ou então mudar isso de uma forma um pouco mais violenta (quando uso essa palavra, quero dizer dentro do estado de direito, aplicando com eficácia as leis de uma sociedade). A impressão é de que aqui no país faltam as duas coisas. É verdade, na nossa sociedade faltam as duas coisas de maneira clara. Eu acho que o nosso Poder Judiciário até está tentando funcionar um pouco melhor, mas a nossa formação moral é pífia, completamente insuficiente. Mesmo que houvesse uma vontade política de formar moralmente nossos jovens, não haveria professores para isso. Então estamos falando de uma empreitada muito longa. O senhor diz que tinha fama de estranho na adolescência e que as coisas mudaram aos 13 anos, quando o professor de Geografia pediu um seminário sobre petróleo. Por quê? Acha que ali percebeu a sua vocação para dar aulas? Na verdade eu não era um estranho apenas até os meus 13 anos. Eu sempre fui muito estranho. Mas o que aconteceu naquele momento foi algo importante. Ali eu entendi que, se a vida podia con-

seguir alguma chance de ter graça, seria ensinando as coisas para as outras pessoas. Tenho a nítida impressão de que existem certas situações na vida que fazem com que ela tenha graça. E outras não. O senhor sofreu bullying por pensar diferente? Eu acho que não sofri bullying. Não me lembro, mas acho até que meus colegas eram bem cordiais comigo de uma maneira geral. Penso que o bullying existe em todo lugar, ele não é um fenômeno restrito ao ambiente escolar. Ele é a maneira como a sociedade alinha os apetites em função dos seus interesses. Em outras palavras, toda vez que você tiver um comportamento desviante, você sofrerá bullying. O problema é que a maneira de manifestar essa conduta às vezes pode ser violenta fisicamente, ou de uma violência psicológica repleta de chacotas e desqualificação. Nesse sentido, a sociedade, por meio do bullying, ortopediza os corpos, eu diria, como se fossem uma palmilha. Essa palmilha faz com que você passe a se alegrar com tudo aquilo que a sociedade considera de bom gosto – e passe a se entristecer com as coisas que ela considera de mau gosto. De certa maneira a publicidade faz exatamente isso. Toda a nossa vida social é um processo de socialização pedagógico. Um exemplo que eu adoro é o da propaganda da Sukita, aquela do “tiozinho do elevador”. O que você vê nela é uma condenação radical do tiozinho por ele tentar passar um xaveco na moça, como se os afetos tivessem uma idade-padrão para acontecer. Portanto, existe uma espécie de ditadura dos afetos que faz com que você tenha de sentir coisas por pessoas que pertençam a uma espécie de órbita ou categoria autorizadas para o seu perfil. Se, por um acaso, você se alegrar com pessoas que sejam pertencentes a nichos desautorizados, vai sofrer, e muito. Nosso corpo não pode sentir na espontaneidade, só no lugar onde a sociedade nos autoriza. E a sociedade prepara você ao longo da vida para gostar daquilo que estará autorizado a gostar, porque, se você resolver pisar fora da bacia, você pode apanhar, entre outras consequências.

Revista VERO | Mai/2014  

Alphaville | Atitude | Comportamento | Gente | Miami | AES Eletropaulo | Clóvis de Barros Filho | Luiz Felipe Pondé | Flávio Gikovate | Carl...

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