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Mesmo que houvesse uma vontade política de formar moralmente os nossos jovens, não haveria professores para isso

Atualmente se discute muito a respeito do tempo. Qual a importância do ócio na sociedade hoje? O mundo do capital durante algum tempo associou a felicidade ao lucro e à produtividade. Nessa nova fase, de uns anos para cá, percebeu-se que a vida boa deveria transcender a essa concentração do capital, ao trabalho e à produtividade. E aí então surge a ideia do ócio devendo ser entendido como um tempo de existência não consagrado à produção e à utilidade. Há um problema em propor isso: reforçar a ideia de que todo e qualquer trabalho é incompatível com o conceito de uma vida boa ou de uma vida feliz. Tem-se a impressão então de que é só no ócio que a vida pode atingir a sua plena realização criativa. Eu, pessoalmente, não concordo. Acredito que o ócio é só uma forma, entre outras, de proporcionar uma vida plena. De qualquer maneira, essa ideia é ainda uma proposta teórica muito distante do cotidiano da maioria das pessoas, que continuam escravizadas pelo capital e pelo seu lugar no sistema produtivo. Como a gente sabe se está num ócio produtivo ou apenas sendo inútil? Eu tenho a impressão de que, no final das contas, o ócio de quali-

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dade ocorre quando ele permite um pleno desabrochar dos nossos próprias potenciais. Então, longe de ser um momento para coçar e não fazer nada, o ócio é uma oportunidade que nos damos para ter iniciativas que nos sejam experiências de vida intensas, potencializadoras, energizantes. Por que é tão comum as pessoas passarem a maior parte do tempo se sentindo inadequadas ao local onde estão ou desconfortáveis com o que estão fazendo? Porque não é fácil mesmo. Nem sempre as condições materiais de vida que o mundo oferece têm a ver com as nossas inclinações, apetites e alegrias. Então é muito provável essa inadequação entre o que você gostaria e o que te alegra, e aquilo que o mundo te oferece como condição de vida, de outro lado. Poderíamos, de maneira pomposa, chamar isso de tensão permanente entre o princípio do prazer e o princípio da realidade – e aí você teria um jargão psicanalítico para dizer a mesma coisa. O princípio de realidade são as condições do mundo (a civilização, a sociedade, as circunstâncias materiais ou físicas, etc.), e o de prazer é essa busca permanente que você tem por resgatar as sensações do útero materno, as experiências de prazer. O que acontece então? De um lado, você tem essa inclinação desejante, esse tesão permanente, e, de outro, um mundo colocando areia na sua sopa. E aí a capacidade que o mundo tem de te brochar é infinita. Enquanto a energia que você tem para desejar é limitada pelas suas células, a capacidade que o mundo tem de te brochar é interminável. Por isso eu me atreveria a dizer que o mundo ganha sempre, razão pela qual as pessoas frequentemente se sentem apequenadas, inadequadas e tristes. É uma visão entristecedora pensarmos que o mundo brochador ganha sempre, não? Sim, é uma visão triste, mas é a minha visão. Esse é o meu negócio, eu sou uma pessoa desconfiada da vida. Talvez por isso tenha me interessado em escrever o livro A vida que vale a pena ser vivida. Não por acreditar em uma publicidade de margarina, pelo contrário,

por entender que é difícil sempre, e a chance de dar errado é enorme. Aliás, se eu pudesse resumir o meu pensamento em uma única frase, seria esta: “A chance de você se dar mal na vida é muito grande”. Seu livro A filosofia explica as grandes questões da humanidade ficou entre os cinco mais vendidos da Livraria Cultura em 2013. Como é possível levar a filosofia para o cotidiano de forma compreensível? Fazendo o que eu faço (risos). Tenho a impressão de que todas as ideias filosóficas têm uma correspondência no cotidiano. Todas. Não há nada na filosofia que não possa ter alguma relação direta com as nossas experiências de vida. Por isso, uma forma de apresentar a filosofia é mostrar as ideias já indicando os momentos da existência em que essas ideias são pertinentes ou têm a ver. E aí, aquilo que parece num primeiro momento estritamente hermético, na verdade, faz todo o sentido. Para que a filosofia tenha alguma graça fora da Universidade, é preciso que ela venha acompanhada de experiências do cotidiano, porque só isso permite uma aproximação das ideias abstratas com o repertório das pessoas. É isso que eu tento fazer ao longo da minha vida como professor. No capítulo “É vergonhoso não ser querido”, do seu livro mais recente (Ética e vergonha na cara), você diz que “enquanto não convivermos com a ética como a arte do conviver bem para além dos prazeres individuais, não teremos entendido muita coisa”. O que isso significa? Vamos imaginar que você vá começar um relacionamento com uma pessoa, pode até ser afetivo ou mesmo de amizade, e aí vamos dizer que você seja um extraordinário comedor de quiabo. Você gosta muito de quiabo, e essa pessoa detesta. Então a convivência exige que você pelo menos diminua a frequência da degustação do quiabo. Em nome da convivência, você agora come um pouco menos, ou seja, a convivência exigiu uma mudança na política de satisfação dos seus apetites. Você trocou a plena satisfação deles por ou-

Revista VERO | Mai/2014  

Alphaville | Atitude | Comportamento | Gente | Miami | AES Eletropaulo | Clóvis de Barros Filho | Luiz Felipe Pondé | Flávio Gikovate | Carl...

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