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consumo colaborativo

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especial

consumo colaborativo quando feitos dentro da lógica colaborativa, educação, Consumo, e financiamento mostram novos caminhos para melhorar as cidades para as pessoas texto e fotos Natália Garcia

O sol ainda estava se firmando, espantando o vento frio que batia com violência no meu rosto, enquanto eu pedalava à beira do rio Tâmisa. Estava a caminho de uma entrevista com Camila Haddad, uma brasileira cursando mestrado em Londres sobre consumo colaborativo. Antes de encontrá-la, eu precisava devolver aquela bicicleta pública, que eu tinha alugado para chegar até a University College of London. Mais tarde, Camila me explicaria que naquele percurso eu já estava exercendo o consumo colaborativo, pois usufruía do benefício que aquela bicicleta poderia me trazer (pedalei de onde estava hospedada até lá) sem que ela fosse minha (e o aluguel saiu por menos de R$3). Na entrevista, ficou claro como essa lógica de colaboração aplicada ao consumo, à educação e ao financiamento de projetos pode revolucionar a maneira como as pessoas se relacionam com suas cidades. “Todo mundo tem alguma

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coisa em desuso: tempo, dinheiro, produtos, espaço, etc. O que o consumo colaborativo faz é criar um espaço para que as pessoas se encontrem e façam melhor uso desses ativos em geral”, explica ela. Pegue como exemplo uma pessoa que possui um carro em São Paulo. Segundo a média calculada pela pesquisa Origem e Destino, esse carro é utilizado durante três horas por dia – o que significa que ele é um bem ocioso durante 21 horas por dia. Em vez disso, o dono do veículo poderia alugálo ou, melhor ainda, trocar algumas horas de seu uso por uma furadeira emprestada, por exemplo. “Não precisamos possuir uma furadeira, precisamos do furo”, diz a autora do livro O que é Meu é Seu, Rachel Botsman. Na obra, ela mostra estatísticas de tempo de uso de eletrodomésticos. Acredite: as furadeiras são usadas, em média, durante 40 minutos em toda a sua vida útil. A questão é que é difícil


O sistema de bicicletas compartilhadas em Londres permitiu que moradores e turistas pedalassem pela cidade sem a necessidade de possuir uma

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coordenar os “queros” e “tenhos” para que os objetos circulem em um sistema de empréstimos nesse modelo colaborativo. “É aí que a tecnologia entra”, explica camila. na inglaterra, há uma porção de sites em que é possível pesquisar, por exemplo, se alguém que mora nas redondezas tem um cortador de grama para emprestar. “É curioso como o online está reconectando as pessoas com o offline e tem poder de criar relações mais interessantes nas cidades. o grande ganho desse sistema é que o dinheiro não é mais o único intermediário possível nas trocas entre as pessoas”, diz camila. trOca de serviÇOs bÁsicOs em um contexto de crise

Este chip instalado na bicicleta mede os quilômetros pedalados, que dão créditos no sistema Mo-bility

econômica mundial, essa é uma lógica que poderia beneficiar as cidades atingidas. foi o que percebeu um grupo de médicos de barcelona, na espanha. a recessão pós-crise é tão severa que o nível de desemprego entre jovens na região está em torno dos 50%. “a cidade está sem dinheiro, mas isso não significa que não tenha pessoas talentosas que possam trocar serviços entre si”, diz Jorge caldas, médico, que ajudou a criar a Áurea social, uma cooperativa de trocas de serviços básicos. saúde, educação e habitações de aluguel social são alguns dos bens a que as pessoas podem ter acesso se trabalharem na rede dessa cooperativa. isso faz com que uma artista plástica possa

tO pOnde a t vis cONViDaMOS GENtE QUE ViVE OU traBalHa Na rEGiÃO Para cOMENtar ESta rEPOrtaGEM – E DiZEr cOMO Ela PODE iNSPirar O FUtUrO DE alPHaVillE

“Projetos desta natureza se encaixam perfeitamente em qualquer comunidade, principalmente naquelas que estão em franca ascensão, como alphaville. os benefícios são imediatos a todos, e, por se tratar de um bairro em constante expansão, a cultura tem maior potencial de ser absorvida. significa dizer que alphaville vive ondas de mudanças continuamente, uma geração que fez diferente e continua com um Dna totalmente aberto para receber inovações que beneficiem as pessoas, a comunidade, a economia sustentável e o planeta.” Marcelo real, do centro administrativo rio negro


No sistema Mobility, podem ser alugadas “cargo bikes”, bicicletas com nicho para levar crianças

tO pOnde a t vis

fazer uma oficina com alguns alunos e, com esse trabalho, pagar parte do seu aluguel. “o sistema funciona sem a intermediação do dinheiro, as trocas são calculadas com base no tempo e no trabalho das pessoas”, explica caldas, uma das coordenadoras da cooperativa. transpOrte cOmpartilhadO mas o consumo colaborativo não se restringe a empréstimos de bens mediados pela internet ou sistemas alternativos de vida nas cidades. ele pode estar na lógica de projetos oficiais adotados pelo poder público. um exemplo é o sistema de aluguel de bicicletas que foi lançado em lyon e já se espalhou por várias cidades europeias. esse sistema aumentou o número de deslocamentos de bicicletas em todas

as cidades em que foi adotado. “e quanto mais ciclistas na rua, mais segura para pedalar a cidade é”, diz o urbanista americano Jeff risom. um grupo de urbanistas na alemanha está tentando unificar os sistemas de aluguel de bicicletas e carros elétricos com toda a rede de transportes públicos da cidade em uma espécie de bilhete único, o mobility. o interessante é que, se o usuário possuir uma bicicleta própria, pode instalar nela um chip e, a cada quilômetro que pedalar, ganha créditos no seu bilhete. a lógica é: um ciclista não polui o ar, ocupa menos espaço e precisa de infraestrutura mais barata, portanto seu deslocamento precisa ser incentivado. se as pessoas, a economia informal e o governo podem se beneficiar dessa

“morador de alphaville desde 1986, guardo na memória paisagens, pessoas e histórias que somente quem conheceu e viveu nessa época poderia apreciar. ao longo desse tempo, crescemos! nossos espaços, verdes, avenidas, segurança, convívio e mobilidade foram e estão sendo tomados por um crescimento desordenado e especulativo. e isso é fruto da falta de um planejamento urbano inteligente e eficaz. a união, a mobilização e a colaboração serão as únicas formas de conseguirmos perpetuar um alphaville mais moderno, organizado e digno para nós, nossos filhos e netos. assim serviremos de exemplo para outras sociedades e associações do brasil e do mundo.” José carlos cardoso, da gate log

Escritório compartilhado em Barcelona, uma maneira de otimizar espaços e promover pessoas 2013 encontro | agosto entre | vero | 21


lógica, por que não os projetos criativos? É nesse sentido que nasceu e se fortaleceu o crowdfunding, o movimento de financiamentos coletivos pela internet. em vez de um grande patrocinador, uma multidão de pequenos apoiadores pode viabilizar ideias e projetos em que acreditem por meio de uma plataforma online. foi assim que o cidades para Pessoas foi financiado, no site brasileiro catarse – o que possibilitou que essa repórter que vos fala viajasse pelo mundo em busca de projetos que deixam as cidades mais humanas. a ativista erin barnes achou que essa lógica tinha potencial para melhorar as cidades e criou uma plataforma de “crowdplaces”, na qual projetos que melhorem as cidades são financiados coletivamente. nela é possível doar dinheiro para a construção de um playground público no seu bairro, por exemplo. Praças, ciclovias e até fornos de pizza a lenha públicos já foram financiados por lá. o

bacana é que o projeto tem cada vez mais conexão com a prefeitura de nova York, onde a plataforma mais atua, para que o poder público possa facilitar a execução dos projetos que as pessoas querem para suas cidades. em todos esses nichos de atuação, o consumo colaborativo tem potencial de melhorar a pegada ecológica das cidades, reduzir o impacto logístico do consumo tradicional e melhorar a qualidade dos espaços públicos. mas talvez o melhor ganho seja mesmo reconectar as pessoas. brasil cOlabOrativO no brasil, camilla Haddad aplicou essa lógica à educação, na plataforma online cinese.me. Qualquer pessoa pode cadastrar um curso ou debate no site, e o público interessado se inscreve para comparecer. camila fez um mapeamento de espaços públicos que possam hospedar os cursos e apresenta uma rede de sedes que cedem seu espaço a esses encontros. “a ideia é recuperar o prazer da

QUEr cOMENtar O tEMa?

Quadro que controla a oferta de serviços na cooperativa integral áurea Social

aprendizagem, que acaba sendo perdido em muitas instituições oficiais de ensino”, diz camila. também são cada vez mais comuns os centros de trabalho colaborativos, que reúnem profissionais autônomos e pequenas empresas para dividir os custos e compartilhar a estrutura. “sai mais barato para todo mundo,

mas o maior ganho são as conexões, que surgem porque todo dia tem gente nova circulando por aqui”, diz aline cavalcante, jornalista, cicloativista e uma das criadoras d’oGangorra, um espaço que segue essa linha, em que todos que trabalham se unem pela paixão de pedalar por são Paulo.

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