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Saudades daquilo que era meu Veridiana Guimarães Desde os meus 12 anos ele era meu, só meu. Minha cama, meu guarda-roupa pequeno que mal cabia as minhas vestimentas, a escrivaninha sem computador, a cadeira giratória vermelha. O espelho cheio de figurinhas: “No stress”, “Me amarro em você”. Não era possível se enxergar nele, funciona mais com um expositor de frases e desenhos colantes. Ah, meu rádio, meu companheiro. Quando mais precisava dele, lá estava sobre o criado-mudo. Sonoridade vinha dos meus porta-joias. A bailarina rodopiava sem cansar. As paredes não tinha cor, cimento puro. As cores se expressavam de outras formas. Fitas de cetim se acomodavam entre os puxadores do roupeiro. Meu quarto mais parecia uma um habitat de ursos. Brancos, marrons, amarelos, alguns tinham gravatas outros preferiram segurar corações. Na janela via a lavoura de meu pai, a estrada de chão batido, a casa da Lilica. Minha vizinha parece nunca estar em casa. Janelas e portas parecem estar sempre fechadas. Vejo apenas a casa verde com as aberturas brancas. Meus bibelôs, eu chamava de anjinho. Cruzes, esses enfeites juntava uma poeira. Minha boneca, a Fernandinha que esteve ali acompanhando meu crescimento. A boneca Vitória tão linda que parecia um bebê de verdade. Muitos porta-retratos com fotos de poses variadas, a cara sempre era a mesma. Coisa de adolescente que pensava que a cada roupa nova deveria tirar uma foto. Ele era a minha “cara”, meu refugio, meu canto, meu quarto. A parte da casa que era só minha. Abandonei o meu quarto, minha casa, minha família, mãe e pai, meu gatinho de estimação aos 17 anos. Tinha de trabalhar e iniciar os estudos na faculdade. Fui morar com minha tia e minhas duas primas. As garotas, uma com 16 anos e outra com 12 anos, dividiam o quarto comigo. Na verdade nenhuma tinha seu espaço. Eram as roupas das três, os sapatos, os materiais escolares das três... Uma confusão. Eram duas camas e na hora de dormir o pequeno corredor que nos restava era ocupada por uma cama auxiliar para a terceira integrante do cômodo. Durante a noite o quarto não tinha corredor. Filha única nunca dividi uma boneca com ninguém. Agora tinha que dividir o quarto. Separação é tão doida. Queria meu quarto de volta, saudades e mais saudades.


Crônica unicom 2  
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