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SALVADOR SÁBADO 13/11/2010

LANÇAMENTO Livro da Formato reúne tiras que denunciam a agressão à natureza

Tibica, o índio dos quadrinhos que a floresta pediu a Deus VERENA PARANHOS

Tibica, um indiozinho preocupado com questões ecológicas, é o personagem do autor e ilustrador gaúcho Renato Canini que chega às livrarias, em Tibica – O defensor da ecologia, publicado pela Editora Formato. O autor, que ficou conhecido nos anos 1970 por dar a cara e o jeitinho brasileiro ao Zé Carioca do Estúdio Disney da Abril, considera Tibica um de seus personagens mais importantes. Canini deu vida ao indiozinho em 1978 pelo projeto Tiras, também da Abril, em uma época em que pouco se falava de meio ambiente e preservação da natureza. “O projeto acabou e eu fiquei uns 20 anos com o Tibica parado. De vez em quando publicava algumas tiras dele em jornais do Rio Grande do Sul”,

conta o autor. Dono de um traço simples e direto, com forte marca pessoal, somente agora conseguiu publicar tiras de Tibica, principalmente por sua importância temática: “Com ele eu posso trabalhar a defesa da ecologia e a violência, que considero muito relevantes. Personagens como o Zé Carioca eram feitos só para divertir”. O indiozinho é muito crítico e, para seu criador, dificilmente o leitor deixa de tomar partido dos problemas por ele apontados.

Identidade

“Canini era muito versátil e imprimia seu traço particular nos trabalhos. Tibica vem para comprovar que os desenhistas de quadrinho estavam antenados com questões importantes como ecologia, muito antes do tema ser pautado na sociedade”,

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Reprodução

Com sutileza, esta tira traduz a intenção de uma pequena árvore, que espera que sua morte denuncie as agressões contra sua espécie

defende Gutemberg Cruz, jornalista baiano que já foi colunista de quadrinhos e fundou o fanzine Na era dos quadrinhos, nos anos de 1970. Segundo o jornalista e apreciador da nona arte, um quadrinho é bom quando discute realidade, coisas próximas da gente, sem deixar a fantasia de lado. “Tibica reúne tudo isso”, completa Canini. Hoje, aos 74 anos, Renato Canini mora em Pelotas, no Rio Grande do Sul, e continua criando personagens e histórias do jeito tradicional: “Não tenho computador, micro-ondas nem máquina de lavar roupas. É tudo desenho livre, feito à mão”, conta, orgulhoso. Atualmente, ele trabalha em um projeto de ilustrações que retrata a figura do gaúcho, o qual gostaria de lançar no próximo ano. “Sempre o trabalho

seguinte é o mais importante. Mas a publicação depende do interesse das editoras”, lamenta o autor que, além da Abril, já trabalhou para a revista Recreio e o Pasquim. Saudoso do tempo em que não existia cinema, televisão, internet e a criançada podia dar conta das publicações, Canini revela que não acompanha o mundo dos quadrinhos de super-heróis. Mas admira o trabalho de ilustradores e cartunistas, como Moebius, Calvin, Edgar Vasques, Laerte, Angeli e Quino. “O Tibica tem um pouco da Mafalda do Quino, um certo quê denuncista. A gente faz o que pode com o desenho para atingir este objetivo”.

Zé Carioca

O José Carioca, mais conhecido pelo apelido Zé Carioca, foi criado pela Disney nos anos 1940,

em uma tentativa de se aproximar do público da América Latina. Segundo Paulo Maffia (pronuncia-se mafía), pesquisador e editor de quadrinhos Disney, o Zé Carioca moderno que nos chega até hoje é o resultado do trabalho de Canini e Luiz Saidenberg nos anos de 1970. “Canini deu a alma do personagem e ajudou a criar o universo brasileiro ao redor dele”, conta o editor. Foi só nesta época que o Zé ganhou toda a malandragem carioca: trocou o terno e a gravata borboleta por uma camiseta, os cenários passaram a retratar os morros e campos de várzea; o time onde o Zé Carioca e sua turma jogavam, Vila Xurupita Futebol Clube, também foi criado. “Canini e Saidenberg fizeram pouco mais de 100 histórias do Zé que se tornaram marcantes e

são republicadas até hoje”. “Depois de seis anos, a Abril recebeu o ultimato da Disney americana para me demitir. Meu traço sempre foi livre e tinha começado a fugir do estilo deles. Eu tentei fazer uma coisa diferente, que passou um pouco do padrão, e eles não aceitaram”, diz Canini sobre o seu afastamento. “Não me importo com o que ocorreu, porque reconheço que o Zé Carioca não era minha criação ”, acrescenta.

Brasileiros de sucesso

Canini foi um dos brasileiros pioneiros em fazer sucesso no exterior como ilustrador de personagens famosos das HQs. Atualmente, os brasileiros são muito procurados para ilustrar histórias dos estúdios americanos, como Marvel e DC. “Além do grande talento do brasileiro, responsabilidade e competência no cumprimento dos prazos são fatores que agradam os estúdios internacionais”, revela Maffia. Nomes como Carlos Mota, ilustrador do Tio Patinhas para edições europeias, Roger Cruz, Mike Deodato e Ivan Reis, desenhistas da Marvel de personagens como Hulk, Wolverine, X-Men, têm obtido grande êxito com trabalhos no exterior.

TIBICA – O DEFENSOR DA ECOLOGIA / TEXTO E ILUSTRAÇÕES DE RENATO CANINI /

Editora Formato / 96 páginas / R$ 29,90

Uma das tiras que integram Tibica – O defensor da ecologia, em que se pode ver a crítica do personagem, com bom humor e ironia, ao desmatamento

Apresentação do Brasil na Bienal de Arquitetura 2010 Gloria Kaiser Escritora austríaca, membro correspondente da ALB gloria.kaiser@aon.at

A arquitetura é considerada a mãe de todas as artes. Convivemos com expressões da arquitetura e do urbanismo (a ciência do planejamento de cidades) diariamente. A casa onde moramos, o prédio onde trabalhamos, a cidade onde vivemos – enfim, tudo isso existe principalmente para o nosso crescimento e bem-estar espirituais. Por isso, a Bienal de Arquitetura de Veneza é uma das mais importantes exposições internacionais em busca de respostas para questões sobre como as pessoas quererão e poderão morar no futuro. Nações de todo o mundo estão apresentando as suas visões e os seus projetos arquitetônicos e urbanísticos em 29 pavilhões no antigo Parque Giar-

dini, em Veneza. Apenas três exemplos: Tóquio aboliu todas as normas de construção civil, cada um pode construir e morar como quiser. Em consequência disso, a cidade muda de cara a cada 12 anos, pois este é o tempo médio das mudanças profissionais e assim também das transformações do ser humano no seu espaço. A Holanda planeja revitalizar quatro mil casas desabitadas transformando-as em instituições culturais e educacionais para trazer as pessoas de volta para as cidades. A Dinamarca pretende circundar as suas zonas urbanas com um anel viário para injetar mais vida nas cidades através de vias de trânsito bem planejadas. Trata-se de uma tentativa de “vascularizar” as cidades de forma ordenada.

Paisagens urbanas

Durante séculos a fio, as cidades têm se desenvolvido em torno da igreja, da praça central e do mercado. Este modelo de vida, entretanto, mudou. Agora as pessoas vivem interligadas por uma rede global, de forma in-

dividualizada, democrática. Não seria melhor construir uma cidade primeiro e só então instalar nelas as pessoas? Isto seria certamente a futura imagem arquitetônica e urbanística ideal. Correto! E isto já existe! Este modelo futurístico foi transformado em realidade há 50 anos com a construção de Brasília. O Brasil é o único país a apresentar na Bienal de Arquitetura de Veneza um projeto futuro implementado (e funcionando) há 50 anos, com vocação de servir de modelo para o mundo todo.

A casa onde moramos, a cidade onde vivemos existem para o nosso crescimento e bem-estar

O Pavilhão Brasil

Há dois ateliês instalados no pavilhão elegante e perfeitamente organizado. O tema de um dos ateliês é Brasília e Oscar Niemeyer. O curador Ricardo Ohtake explica: Brasília é sinônimo de tudo para o ser humano, tudo na forma de democracia viva, tudo em igualdade vivenciada para todos. O Plano Piloto representa uma filosofia de vida urbanística e arquitetônica trazida à luz por dois gênios – Lúcio Costa e Oscar Niemeyer. Pensemos nas monumentais construções barrocas. Nelas, as distâncias sociais eram evidenciadas, quanto mais perto a pessoa chegasse (ou chegue) de um palácio ou de um prédio parlamentar, tanto mais inatingível fica o objetivo, pois portões gradeados e imensos espaços inacessíveis criam a distância entre a pessoa e o centro do poder. O Plano Piloto, com a sua expressão democrática, é completamente diferente. O caminho conduz diretamente aos prédios parlamentares. Não há obstáculos arquitetônicos. É possível

ir até os prédios do poder, abrir a porta e entrar. E a arquitetura de Oscar Niemeyer! É puro devaneio! Cada um dos prédios é uma escultura da mais nobre estética por fora, e cada um dos prédios tem muito, muito espaço por dentro. Bem de acordo com a filosofia de vida – tudo para as pessoas. Vistas por fora, cada construção é uma escultura maravilhosa, e por dentro há espaço suficiente para se poder viver e trabalhar com liberdade, com liberdade de pensamento. Brasília é um conjunto artístico urbanístico e arquitetônico. Há 50 anos Brasília era considerada uma ilusão, e hoje não há a menor dúvida de que a sua estética arquitetônica tem a qualidade atemporal de catedrais. No segundo ateliê do Pavilhão Brasil, estão expostos alguns projetos de arquitetos nascidos após a inauguração de Brasília, isto é, depois de 1960. Uma ideia genial! Estes projetos comprovam que, na arquitetura brasileira, a mesma linha continua consistente – tudo para as pessoas.

Eis apenas alguns exemplos: Mário Biselli e Artur Katchborian desenvolvem um diálogo arquitetônico com materiais industriais (Teatro Natal). Angelo Bucci cria estruturas para espaços amplos, como esculturas (Mediateca, Rio de Janeiro). Marcos Boldarini dedica-se à renovação de espaços urbanos (Cantinho do Céu). Além disso, está sendo apresentado também o monumento em memória da imigração japonesa ao Brasil (Belo Horizonte) de Gustavo Penna e Mariza Machado. O Brasil abriu amplamente as suas asas em todas os setores, e, naturalmente também na arquitetura e no urbanismo, voando com um estilo inconfundível em direção ao futuro. No Pavilhão Brasil da Bienal de Arquitetura de Veneza 2010, é possível perceber que – o futuro está há muito acontecendo, o futuro já está sendo vivido – no Brasil! É fascinante ver e vivenciar o Brasil na Bienal de Arquitetura de Veneza.


Tibica, o índio dos quadrinhos que a floresta pediu a Deus