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VERENA PARANHOS

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Ana Maria Machado, Ruth Rocha, Lygia Bojunga, Angela-Lago, Maria José Dupré, Bartolomeu Campos Queiroz, Marina Colasanti, José Paulo Paes, Sônia Robatto, Gláucia Lemos, Rachel Queiroz, Ziraldo. Dificilmente uma criança consegue memorizar todos esses nomes, mas provavelmente já leu histórias criadas ou recontadas por esses autores da literatura infantojuvenil. Em comum, eles têm o fato de terem se tornado conhecidos e premiados pelo trabalho desenvolvido na literatura destinada a crianças e adolescentes. Para Elizabeth Serra, secretária-geral da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), a geração de escritores infantojuvenis que surgiu nos anos 1970, e se mantém até hoje entre os melhores do gênero, ainda é bastante influenciada pela obra de Monteiro Lobato, autor que, segundo ela, continua sendo grande referência para este gênero literário, apesar de toda a polêmica gerada pelo parecer do Conselho Nacional de Educação (CNE) ao considerar em 2010 o livro Caçadas de Pedrinho como racista. Por outro lado, a literatura infantojuvenil também tem se renovado e revelado nos últimos anos nomes como Roger Melo e Bia Hetzel, ganhadores do Jabuti (2002 e 1995, respectivamente), que, segundo Elizabeth, têm desenvolvido trabalhos de qualidade. Embora conquiste fatias cada vez mais grossas do mercado editorial, este gênero, para alguns, ainda é marginalizado. “A literatura infantojuvenil representa uma minoria”, defende Elizabeth Serra.

SALVADOR SÁBADO 12/3/2011

MERCADO EDITORIAL Maior parte dos nomes que dominam a produção editorial no segmento surgiu nos anos 1970 e teve como influência a obra de Monteiro Lobato

O VELHO DO MAR / ANA MARIA MACHADO

Literatura infantojuvenil se renova e consagra clássicos e novos autores Reprodução

Ilustração de Igor Machado para O velho do mar

PESCADOR DE NAUFRÁGIOS / ANA MARIA MACHADO

Editora Moderna / 47 páginas / R$ 29,50

O MISTÉRIO DO CADERNINHO PRETO / RUTH ROCHA

Editora Salamandra / 87 páginas / R$ 26,30

Boom

No Brasil, a literatura voltada para o público infantojuvenil aparece no final do século 19 e início do século 20 e cresce acentuadamente entre as décadas de 1920 a 1945, mostrando o culto aos heróis nacionais, contos de origem folclórica, a valorização do espaço rural e as aventuras das crianças, tendo como destaque a obra de Monteiro Lobato. Mas só nos 1970 aconteceu um boom na literatura infantojuvenil, período em que a narrativa abrandou o caráter didático-pedagógico e produziram-se obras diversificadas: modernos contos de fadas, de ficção científica, narrativas de cunho social e policial. A revista Recreio, lançada em 1969 pela Editora Abril, desempenhou importante papel no período por lançar autores hoje consagrados como Ana Maria Machado, Ruth Rocha, Joel Rufino dos Santos, Ziraldo, entre outros. Por trás da publicação estava Sonia Robatto, que escreveu mais de 400 histórias infantis publicadas em revistas, fascículos e livros, como criadora e editora da Recreio em sua primeira fase.

Grandes premiados

A Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) é o braço brasileiro da International Board on Book for Young People (IBBY), instituição sem fins lucrativos, que promove a literatura para jovens e crianças em mais de 70 países. A FNLIJ, entre outras atividades, é responsável no Brasil por indicar, a cada dois anos, nomes para concorrerem ao Prêmio Hans Christian Andersen, considerado o pequeno Nobel de Literatura. As brasileiras Lygia Bojunga (1982) e Ana Maria Machado (2000) são as únicas latino-americanas laureadas pelo prêmio mais importante da literatura infantojuvenil mundial, que leva o nome do poeta e escritor dinamarquês de histórias infantis. Lygia Bojunga coleciona ainda os prêmios Jabuti (1973), o mais importante do Brasil, concedido pela Câmara Brasileira do Livro, e ALMA (Astrid Lindgren Memorial Award) (2004), criado em 2002 pelo governo sueco em homenagem à autora de livros infantis. Ana Maria Machado, além do Jabuti de 1978 e diversos outros prêmios internacionais, desde 2003 ocupa a cadeira 1 da Academia Brasileira de Letras. Outro grande nome das publicações brasileiras é Ruth Rocha, ganhadora do Jabuti de 2002, com mais de 130 títulos no Brasil e 20 no exterior.

Editora Moderna/ 47 páginas / R$ 23,60

O RATO DO CAMPO E O RATO DA CIDADE / RUTH ROCHA

Editora Salamandra / 29 páginas/ R$ 31

Maria Emília e Miguel, em O mistério do caderninho preto Rejane Carneiro / Ag. A TARDE / 3.8.2005

Ilustração de Rogério Coelho: O rato do campo e o rato da cidade Patrícia Moreira / Ag. A TARDE / 12.8.2010

“Desenvolvemos uma literatura infantil de excelente qualidade”

Ruth Rocha, que iniciou carreira na década de 1970, publicou seus primeiros textos na Revista Recreio

ANA MARIA MACHADO, escritora

Variedade temática e opções de escolha A literatura infantojuvenil contemporânea reúne narrativas que abordam diversas temáticas e formatos, facilmente acessíveis nas prateleiras de livrarias e bibliotecas em publicações de novos e consagrados autores. A escritora e jornalista Ana Maria Machado afirma que a partir dos anos 1970 “desenvolvemos uma literatura infantil de excelente qualidade, o que proporciona muito o que escolher”. E completa dizendo que a variedade temática para crianças e jovens que conhecemos “não é de hoje. Monteiro Lobato já falava de temas ‘sérios’, por exemplo, em A Chave do Tamanho, a mais contundente

obra contra guerras que já se escreveu para crianças”. A série Sete Mares, lançada recentemente pela editora Moderna, é uma das opções de textos de qualidade disponíveis

Para Elizabeth Serra, uma conquista dos últimos 15 anos é a tradução de clássicos

no mercado. A coletânea apresenta histórias da tradição popular de diversas origens, como grega, brasileira e oriental, recontadas por Ana Maria Machado. No livro O Velho do Mar, por exemplo, a autora reconta, de sua maneira, um conto popular russo e em Pescador de Naufrágios, a história de um pescador irlandês. Desde 2009, a editora Salamandra vem reeditando toda a obra de Ruth Rocha, com novos formatos e ilustrações, compondo a Biblioteca Ruth Rocha. O Rato do Campo e o Rato da Cidade é uma das recontagens relançadas. Já O Mistério do Caderninho Preto é uma aposta da

autora em alcançar o público jovem, com uma mistura de histórias engraçadas e mistério. De acordo com o escritor Rogério Andrade Barbosa os textos juvenis “têm a vantagem de poderem abordar temas mais complexos como tortura, prostituição e pedofilia”.

Traduções

Para Elizabeth Serra, uma conquista dos últimos 15 anos é o resgate de traduções, realizadas por muitos desses grandes autores nacionais. “Nossas crianças têm que ter acesso aos clássicos, que ficaram por muito tempo esquecidos”, afirma a especialista da FNLIJ.

Mercado de livros infantojuvenis registra crescimento nos últimos anos Segundo a pesquisa Produção e Vendas do Setor 2010, relativa ao ano de 2009, foram lançados 5,8 mil títulos de literatura infantojuvenil e relançados 9,5 mil, totalizando mais de 40 milhões de exemplares colocados à venda. A mesma pesquisa revelou um crescimento de aproximadamente 37% de exemplares publicados em relação ao ano anterior. Para Ana Maria Machado, o mercado editorial infantojuvenil brasileiro vem crescendo não de agora, mas desde o boom da década de 1970, influenciado principalmente pelo maior acesso à escola e à diminuição do analfabetismo. “É um dos segmentos mais fortes do mercado, com aumento no número de editoras voltadas para este público e de títulos”, afirma o escritor Rogério Andrade Barbosa. Para ele, o Governo Federal é um dos fomentadores deste segmento, ao comprar livros infantojuvenis para escolas e bibliotecas.

Literatura infantojuvenil se renova e consagra clássicos e novos autores  

Matéria sobre o mercado editorial infantojuvenil brasileiroCaderno 2+, Jornal A Tarde, 7 de maio de 2011

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