Page 1

%

&

'

(

'

)

*

+































































Salvador vive “crise estruturalâ€?, enquanto a Islândia enfrenta uma nova realidade 













!

"



!

#

$

,

-

.

/

0

1

2

3

4

-

5

6

7

6

8

9

:

;

<

8

7

<

=

-

1

5

-

.

0

6

.

2

<

NELSON OLIVEIRA VERENA PARANHOS*

Q

uem jĂĄ convive com uma crise estrutural pode aprender a lidar mais fĂĄcil com os males causados pela crise financeira. Muitos brasileiros, acostumados a conviver com a crise diĂĄria, nĂŁo percebem tanto que suas vidas mudaram apĂłs o crash. Alguns problemas se agravam, enquanto outros continuam a existir, fazendo com que a situação permaneça complicada. Neste contexto, Brasil e Islândia (pequena ilha prĂłxima ao Ă rtico) representam â&#x20AC;&#x153;mundosâ&#x20AC;? antagĂ´nicos: o primeiro vive raros momentos fora da crise, enquanto o outro aprende a lidar com ela apĂłs perĂ­odo de bonança. Como a maioria das capitais brasileiras, Salvador, com seus quase trĂŞs milhĂľes de habitantes, convive com altos Ă­ndices de desemprego, analfabetismo e violĂŞn-

<

>

2

9

5

6

=

<

?

@

1

6

.

5

6

@

<

8

:

9

.

0

9

<

-

8

-

.

A

-

=

<

<

7

cia. A Islândia, país nórdico com cerca de 300 mil habitantes (cerca de um dÊcimo da população da capital baiana), por outro lado, foi considerada como o melhor país do mundo em termos de qualidade de vida, segundo o �ndice de Desenvolvimento Humano 2007 (IDH), com excelentes sistemas de saúde e educação, elevados índices de crescimento econômico e taxas de violência e desemprego quase zero. Para ilustrar: o número de desempregados da Região Metropolitana de Salvador representa dois terços dos habitantes da Islândia. São exemplos de realidades distintas, que vivem e enfrentam a crise à sua maneira. A crise parece ter rearranjado os papÊis: enquanto em Salvador não ficam tão evidentes seus efeitos, o país dos gêiseres Ê considerado como o maior prejudicado pela instabilidade do mercado financeiro internacional. Contudo, esta comparação não pode ser feita de forma leviana, pois se

B

C

<

1

<

8

9

8

tratam de conjunturas e trajetórias históricas diametralmente opostas: uma grande população, herdeira de uma exploração colonial ferrenha que desencadeou um processo excludente e desigual versus uma pequena e modesta nação, que sobreviveu a inóspitas condiçþes climåticas e que, devido a uma política neoliberal agressiva e recente, assumiu com rapidez as primeiras colocaçþes nos rankings de riqueza e qualidade de vida.

<

Islândia Antes da crise, a oferta de emprego era tanta que, alÊm de imigrantes, o mercado absorvia jovens que muitas vezes nem haviam concluído a escola: um jovem islandês de 17 anos comum tinha carro próprio, morava sozinho e fazia pelo menos duas viagens ao exterior por ano. No entanto, a derrocada Ê fruto da administração aventureira de Davíð Oddson, primeiro-ministro entre 1991 e 2004, que transformou o país, mas sem preparar bases sustentåveis. Antes pobre e economicamente isolada, a Islândia tornou-se uma economia empresarial e globalizada. Neste período, empresas pesqueiras, sistema bancårio e atÊ o patrimônio genÊtico dos habitantes foram privatizados. Os principais bancos do país (que jå atuavam em outros países europeus) decretaram falência devido a seu insustentåvel gigantismo, levando toda a economia junto: a Króna, moeda local, sofreu grande desvalorização e jå não Ê mais aceita

no estrangeiro. Os preços subiram e a inflação atingiu em março deste ano a marca de 17,6%. Em janeiro, poucos meses depois de assumir as dĂ­vidas dos bancos e falir o paĂ­s, todo o gabinete do primeiro-ministro Geir Haarde renunciou sob protestos violentos da população. DavĂ­Ă° Oddson, que havia assumido a presidĂŞncia do Banco Central islandĂŞs, foi o Ăşltimo a cair. Em 25 de abril, foram realizadas eleiçþes antecipadas que asseguraram, pela primeira vez na histĂłria, a maioria de esquerda no parlamento. JĂłhanna SigurdardĂłttir, que tinha sido escolhida primeira-ministra interina, continuarĂĄ como chefe do governo e enfrentarĂĄ como desafios, alĂŠm de questĂľes como a entrada da Islândia na UniĂŁo EuropĂŠia, um de crescimento de 576,8% no desemprego (avaliada entre janeiro de 2008 e 2009), que atinge principalmente jovens e imigrantes. Em busca do emprego perdido O jovem islandĂŞs Hartmann Ingvarsson sentiu por algum tempo o que muitos brasileiros estĂŁo acostumados a sentir. Ele abandonou a escola em 2007 para trabalhar em uma microempresa do ramo de alimentos. Foi demitido apĂłs a crise, mas ficou pouco tempo desempregado: conseguiu um emprego como entregador de pizzas em ReykjavĂ­k, capital do paĂ­s. Ele afirma que a rapidez se deveu a indicação do gerente assistente da rede, um amigo seu. â&#x20AC;&#x153;Ă&#x2030; um trabalho inferior ao que fazia, mas estou precisando. Tenho que pagar as prestaçþes do meu carro, do meu notebook, alĂŠm do bĂĄsico para viverâ&#x20AC;?, conta. A brasileira Tatiane Soares da Silva mora na Islândia hĂĄ dois


D

%





























































&

'

(

'

)

*

+



X

anos e ĂŠ um dos imigrantes que perdeu o emprego com a crise. Ela, que trabalhava em um hospital cuidando de idosos, acredita que ĂŠ muito difĂ­cil encontrar outro emprego. Pretende retornar ao Brasil em junho, mas nĂŁo descarta a possibilidade de ir morar em outro paĂ­s escandinavo. â&#x20AC;&#x153;NĂŁo consigo ver futuro algum aquiâ&#x20AC;?, revela. Em meio a todo o pessimismo, existem aqueles que se encontram otimistas com o futuro do paĂ­s. Pedro Videlo, economista e professor da Universidade de Barcelona, afirmou a um programa de televisĂŁo islandĂŞs que os habitantes da ilha nĂŁo devem entrar em pânico, pois a situação econĂ´mica do paĂ­s nĂŁo ĂŠ tĂŁo grave quanto a mĂ­dia internacional diz. Para ele, o crash islandĂŞs pode ser comparado ao de paĂ­ses de tamanho similar, como o Uruguai. â&#x20AC;&#x153;A situação da Islândia nĂŁo ĂŠ pior que a mĂŠdia dos outros paĂ­ses. HaverĂĄ aumento de desemprego, queda de investimentos, mas se polĂ­ticas econĂ´micas corretas forem tomadas, nĂŁo existe razĂŁo para pânicoâ&#x20AC;?, defende. Do outro lado do Atlântico No caso soteropolitano nĂŁo ĂŠ diferente: o mau momento da economia afeta principalmente os trabalhadores com menos experiĂŞncia ou tempo de serviço. Segundo o IBGE, em janeiro, a RegiĂŁo Metropolitana de Salvador tinha 206 mil pessoas economicamente ativas sem emprego, das quais 22% tinham entre 18 e 24 anos. Mesmo com a crise financeira mundial, a taxa de desocupação na regiĂŁo diminuiu 0,1%, se comparada a janeiro de 2008. JoĂ­lson Rodrigues de Souza, coordenador de Disseminação de Informaçþes do IBGE na Bahia, destaca que, se a crise nĂŁo existisse, a oferta de empregos teria aumentado. â&#x20AC;&#x153;O crescimento e a acessibilidade daqueles que buscam o primeiro emprego seria

maiorâ&#x20AC;?, afirma. Ele tambĂŠm acredita que o aumento de ofertas de trabalho no perĂ­odo estĂĄ atrelado Ă alta estação e Ă s compras natalinas: â&#x20AC;&#x153;Muitos postos de trabalho em Salvador surgem nesta ĂŠpoca do anoâ&#x20AC;?. No entanto, o coordenador afirma que o comĂŠrcio sofreu declĂ­nio por causa da redução do crĂŠdito, influindo diretamente na indĂşstria. Caio Gomes, estudante de engenharia mecânica, perdeu seu estĂĄgio, porque a empresa alegou corte de gastos. Assim como Hartmann, acredita que as indicaçþes de amigos sĂŁo o caminho mais rĂĄpido para conseguir novo emprego: â&#x20AC;&#x153;Tenho cadastro no IEL e CIEE, mas acho que ĂŠ mais fĂĄcil encontrar outro estĂĄgio atravĂŠs de contato com conhecidos que trabalham na ĂĄreaâ&#x20AC;?. L

W

T

I

V

U

T

L

T

O

J

S

M

R

M

Q

O

P

N

M

J

F

K

L

I

J

H

G

E

F

E

E

Y

/

Construindo cidades e empregos A construção civil ĂŠ um setor fundamental em tempos de crise, pois ĂŠ responsĂĄvel por grande nĂşmero de contrataçþes. Se o crĂŠdito e os investimentos vĂŁo bem, o segmento deslancha e propulsiona o crescimento das cidades. Mas, com as incertezas do momento, comprar um novo imĂłvel pode ser supĂŠrfluo: exatamente por isso, alguns donos de construtoras acabam interrompendo obras iniciadas por tempo indeterminado e raramente arriscam em algum novo empreendimento. Na Islândia, este foi um dos ramos mais abalados, o que forçou a interrupção imediata da maior parte das obras: o cenĂĄrio da regiĂŁo de ReykjavĂ­k (que concentra mais de sessenta por cento da população do paĂ­s) acabou se transformando em um cemitĂŠrio de guindastes, como conta o brasileiro Pedro Ziviani, dono do blog Vida na Islândia [www.vidanaislandia.com]. â&#x20AC;&#x153;O setor de cons-

8

<

.

=

9

/

9

/

Z

<

[

9

:

\

]

9

7

-

8

2

3

4

-

=

<

/

C

<

.

9

8

<

/

^

.

trução civil estĂĄ completamente parado. As empresas venderam suas mĂĄquinas e demitiram seus funcionĂĄrios. ReykjavĂ­k estĂĄ cheia de prĂŠdios e bairros inteiros inacabados e abandonadosâ&#x20AC;?. Em Salvador, os danos ao setor ainda nĂŁo sĂŁo muito evidentes. Grande parte das obras em andamento nĂŁo foi interrompida e o crĂŠdito tem sido mantido, apesar de algumas demissĂľes. Para Newton Barretto, empresĂĄrio do ramo da construção civil, o bom momento vivido pelo mercado nos Ăşltimos trĂŞs anos, propiciado pelo superaquecimento da compra e venda de imĂłveis, foi fundamental para que o setor nĂŁo desempregasse tantas pessoas. â&#x20AC;&#x153;O â&#x20AC;&#x2DC;freio de mĂŁoâ&#x20AC;&#x2122; do fim do ano para cĂĄ nĂŁo foi tĂŁo sentido em relação ao emprego. Na prĂĄtica foram desligados somente aqueles menos qualificados, que sĂł tinham conseguido oportunidade pela escassez de profissionaisâ&#x20AC;?. Fabio Teles, gerente regional da EBM Incorporaçþes, afirma que o final de 2008 (comparado com o final de 2007) apresentou uma queda de 30% nas vendas. Todo o ano de 2008, no entanto, registrou o dobro de vendas do ano anterior. Segundo ele, o principal problema do setor ĂŠ a crise de confiança por parte dos clientes que deixaram de comprar, ape-

<

/

1

2

<

/

9

=

9

1

1

2

_

<

:

A

-

7

9

1

.

-

sar das empresas terem condiçþes de entregar as obras. Barretto afirma que o perigo se instala quando a falta de confiança faz as pessoas pensarem que as coisas nĂŁo vĂŁo bem: â&#x20AC;&#x153;AĂ­ o empresĂĄrio age de forma preventiva, investimentos sĂŁo postergados, custos sĂŁo reduzidos e empregos sĂŁo cortadosâ&#x20AC;?. Para ele, as açþes devem ser focadas no estabelecimento da confiança entre as diversas partes, entre elas o Governo Federal, que deve exercer o importante papel de oferecer linhas de crĂŠdito e abrir licitaçþes para obras de infraestrutura ou de construçþes populares como forma de estimular as construtoras e gerar empregos. O Plano Nacional de Habitação Minha Casa, Minha Vida, cujas inscriçþes começaram no dia 4 de maio, ĂŠ uma iniciativa do Governo Federal, em parceria com estados e municĂ­pios, que visa impulsionar a economia e gerar empregos, viabilizando a construção de um milhĂŁo de moradias, sendo 80 mil na Bahia. Dessa forma, o Governo vem afirmando que os recursos do PAC nĂŁo serĂŁo reduzidos e por essas â&#x20AC;&#x153;bandasâ&#x20AC;? a crise nĂŁo passarĂĄ de uma marolinha. *Verena Paranhos fez intercâmbio na Islândia entre 2005 e 2006. Viveu em SauĂ°ĂĄrkrĂłkur, norte da ilha.

Dois pesos e duas medidas  

Salvador vive “crise estrutural”, enquanto a Islândia enfrenta uma nova realidadeEm parceria com Nelson OliveiraJornal da Facom, nº 20, maio...