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Costurando uma profissão A trajetória de um alfaiate ao longo das mudanças do mercado texto Luís Fernando Lisboa e Verena Paranhos foto Luís Fernando Lisboa

Linha, agulha, tesoura, giz e fita métrica. Esses são os instrumentos de trabalho e fiéis aliados de Antônio Andrade há 55 anos. Na rua Domingos Caetano, no Barbalho, onde mantém um ateliê de “fundo de quintal”, é fácil encontrá-lo caso se SHUJXQWHDRVYL]LQKRVSRUC6HX$QGUDGH Anos de trabalho o fizeram sentir na pele as mudanças das últimas décadas. Já não se encomenda mais roupa como antigamente. “Pra quê? Se tudo agora é industrializado, feito em larga escala e mais barato?”. Na cidade de Ruy Barbosa, as coisas eram muito diferentes quando o menino Antônio, aos 15 anos, começou a costurar com sua avó. Logo ele pegou gosto pelos cortes, numa época em que a maioria das pessoas frequentava alfaiatarias e movimentava a profissão. Da costura em casa para uma alfaiataria da região foi um pulo. Lá aprendeu a fazer os traços precisos que definiriam seus trabalhos e teve a certeza de que seguiria a profissão. “A gente aprendia a fazer uma coisa de cada vez: primeiro se especializava em calças, depois em camisas e, finalmente, os segredos de se fazer um bom paletó”. Após passar por São Paulo e Feira de Santana, Seu Andrade veio para Salvador em 1970. Trabalhou no centro da cidade no momento de efervescência das alfaiatarias. “Elas estavam espalhadas pela Praça da Sé, Rua Chile e Praça da Misericórdia. Eram mais de 50”. Nesse período, a cidade já tinha indústrias têxteis, mas os alfaiates conseguiam manter a clientela que primava pela elegância e preferia cortes feitos sob medida.

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Seu Andrade teve vontade de mudar a rotina quando já trabalhava há mais de uma década em várias alfaiatarias no Centro, “com um ou outro alfaiate que lhe pagasse melhor”. Uma oportunidade surgiu ao ver em um anúncio de jornal que a Alfred - fábrica de roupa social masculina - oferecia vagas para alfaiates. Ele não perdeu tempo, logo pegou seus materiais e foi bater na porta da fábrica. Talvez esta não tenha sido uma vontade qualquer, mas sim um indicativo de que os tempos estavam mudando. Andrade foi aceito e teve 90 dias de adaptação ao sistema fabril. No entanto, conta orgulhoso que em 60 dias já estava totalmente adaptado à rotina produtiva imposta pela fábrica, que, segundo ele, era completamente diferente do caráter artesanal das alfaiatarias. “De lá saiam 400 roupas diariamente. Só eu alinhavava 80 paletós por dia”. Em 1996, quando percebeu que a Alfred estava prestes a falir, Seu Andrade resolveu fazer um acordo com a fábrica e sair com algum dinheiro no bolso. Montou sua própria alfaiataria no quintal de casa e passou a conquistar clientes fiéis na região. “No dia-a-dia sempre chegam muitos pedidos para fazer bainha, colocar botão ou velcro. Raramente costuro peças inteiras, só para clientes especiais”, conta. Na verdade, hoje ele prefere os serviços menores, pois o lucro é maior. “Eu costumava cobrar R$ 150 por um conjunto de paletó, mas já não faço mais porque não compensa. Existem muitas indústrias fazendo roupas mais baratas em grande escala. Eu sairia no prejuízo”. Os consertos substituíram a antiga de-

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manda de se fazer roupa sob medida e hoje são a principal fonte de renda de Seu Andrade. No entanto, não extinguiram um dos princípios básicos da profissão: atender aos desejos dos clientes e ajeitar as coisas do jeito que eles querem. Os fregueses pedem para cortar ali, aumentar aqui, emendar acolá e o alfaiate está sempre preocupado para que tudo fique exatamente como lhe foi pedido. É por esse motivo que prefere não trabalhar com consertos de vestidos, já que “não sabe fazer”. “Não aprendi a consertar vestidos cheios de detalhes. Algumas clientes até saem chateadas quando digo que não faço e duvidam que eu esteja falando a verdade”. Tantos são os pedidos diários que as sacolas acumulam-se em sua pequena sala de trabalho. “Às vezes não dou conta”, diz. O alfaiate mantém uma relação informal com a clientela, baseada na confiança e no compromisso de ambas as partes. As pessoas deixam suas calças, camisas e bermudas para que sejam consertadas sem nem perguntar o preço. Toda a negociação é feita quando os clientes vêm buscar. Entretanto, nem sempre a relação é harmoniosa: “Às vezes o serviço fica pronto, eu precisando de dinheiro e as pessoas não vêm pegar”.

Alguns convites para voltar a ter carteira assinada já bateram à porta de Seu Andrade, no entanto o alfaiate preferiu continuar como autônomo. Ele foi chamado para trabalhar em uma loja do Shopping Iguatemi fazendo pequenos consertos, aceitou, mas só ficou por três dias. “Toda hora era uma coisa ou outra. Uma correria. Eu liguei e disse que não queria mais. Aqui eu trabalho sozinho, ninguém me abusa, eu vivo mais à vontade. Tudo que eu faço aqui, faria lá também.” Outras propostas surgiram com a chegada do Salvador Shopping à cidade, mas dessa vez Andrade nem cogitou aceitar. “Me ligaram oferecendo uma oportunidade de emprego. Disseram que pagariam R$ 800 por mês, eu respondi que não queria. Grosseiramente, foram logo me dizendo que eu não sabia o que estava perdendo”. Seu Andrade sabia que não estava perdendo nada. Ele prefere controlar sua rotina, marcar seus próprios horários e no fim das contas ganhar até mais.


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