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SALVADOR TERÇA-FEIRA 6/8/2013

ENTREVISTA Fernando da Rocha Peres

‘FIZERAM REFORMA URBANA E PARARAM NO FAROL’ Marco Aurélio Martins / Ag. A TARDE

Reprodução

VERENA PARANHOS

Em 7 de agosto, Salvador lembra um dos episódios que marcaram seu patrimônio arquitetônico, a demolição da Igreja da Sé em 1933. Fernando da Rocha Peres é um dos principais estudiosos deste acontecimento, ápice do processo de reforma urbanística iniciado por J.J. Seabra em 1912. Juntamente com os professores Antonio Heliodoro Sampaio e Pedro de Almeida Vasconcelos, Peres é um dos integrantes da mesa redonda Oitenta anos da demolição da Igreja da Sé, que acontece nesta quinta-feira, às 17 horas, no Museu de Arte da Bahia (Corredor da Vitória). Nesta entrevista, o historiador e poeta fala sobre o planejamento urbano da cidade e o processo histórico que culminou na demolição da igreja.

Qual a importância de relembrar, 80 anos depois, a demolição da Igreja da Sé? É acender um alerta contra aqueles que projetam sem um planejamento extenso. No caso de Salvador, fizeram esta reforma urbana e pararam no Farol da Barra. Por que não estenderam para as áreas livres de edificações que existiam, como Pituba, Amaralina, Rio Vermelho? A tendência de modernização da cidade que deveria ter sido efetuada para o lado de lá, não foi. Quando foi, já tinham destruído o que era velho. O que é novo hoje é este horror que está aí sem planejamento. Como o senhor vê as políticas atuais de planejamento urbano na cidade? Sinto a falta de um planejamento e de um continuísmo naquilo que já foi planejado. Planejou-se muito, executou-se muita coisa, mas não houve continuidade, nem novo planejamento para outras situações que se impõem. O senhor vem acompanhando a nova proposta de requalificação da orla de Salvador? Confesso que desconheço, mas se ela visa somente à modernização no sentido de embelezamento e alargamento de ruas, sem infra-estrutura, é uma proposta igual àquela perpetrada no tempo de Seabra. O que é preciso é construir novas ruas e bairros com saneamento urbano. Quando pensam em alargar a rua é para que o automóvel, o bonde, o transporte, seja ele qual for, circule melhor. Não pensam nas pessoas.

O historiador Fernando da Rocha Peres pesquisa a demolição da Sé

O que mudou na mentalidade da classe dirigente dos anos 1970, época que o senhor elaborou a tese que dá base ao livro Memória da Sé, para cá? Acho que mudou muito pouco, porque a mentalidade hoje ainda se tornou mais afeita a um comportamento extremamente imediatista, aproveitador das situações, sem cogitar aquele que habita a cidade. Os governantes, de um modo geral, não pensam nos seus eleitores, pensam naquilo que podem fazer sem o necessário planejamento. Se há uma continuidade é neste sentido. Fazer por fazer. O sujeito inventa que chegou o momento de construir a ponte para Itaparica, então vamos construir a ponte. Quais interesses foram articulados à época e culminaram na demolição da Igreja da Sé? O que marca primeiro esta questão é o interesse do poder econômico, representado aqui pela Light, pela introdução do bonde no sistema viário e urbano da cidade,

que pressionou muito a autoridade eclesiástica e o poder público para decidir a questão. O poder econômico não tinha força legiferante nem executiva. Só o poder público representado pela prefeitura (ex-intendência municipal) e pelo governo do estado poderiam decidir a questão, que começou no governo de J. J. Seabra e terminou na gestão de Juracy Magalhães, um interventor militar na Bahia. 1933 é uma data politicamente muito significativa por causa da ditadura Vargas, um sistema político de exceção. Por outro lado, só o poder eclesiástico poderia concordar com a demolição, representado pelo então bispo Dom Augusto Alves da Silva. Este apoio foi lastreado em muitas gratificações. 300 contos de réis foram pagos à arquidiocese para que ela consentisse. A atuação dos jornais foi importante no apoio da população à derrubada da igreja? A mídia, desde 1912 estri-

Pintura de Floro Freire, com base na foto de Benjamin Mulock, uma das poucas icononografias da Sé

HISTÓRIA DA IGREJA DA SÉ A Igreja da Sé começou a ser construída de pedra e cal em 1552, de frente para a Baía de Todos-os-Santos, onde hoje está o monumento da Cruz Caída, de Mário Cravo Jr. A demolição da igreja, em 7 de agosto de 1933, fez parte da reforma urbanística iniciada em 1912, no governo de José Joaquim Seabra. Sua demolição foi justificada como imprescindível para a introdução do bonde de tração no sistema viário urbano. O projeto, inspirado ideologicamente na modernização de Paris e em ideais de progresso, também previa a criação da Avenida 7 de Setembro, que ligaria o Distrito da Sé ao Farol da Barra, regiões na época residenciais. Outros monumentos religiosos foram destruídos para a implantação da avenida, tendo o Mosteiro de São Bento sido preservado por conta de protestos da comunidade beneditina.

bada no ideário de J.J. Seabra, pregou de forma constante a reforma urbana da cidade e a demolição da Sé. A TARDE foi fundado em 1912, haviam outros jornais, todos fazendo um coro pró-demolição. Evidentemente não deixavam de noticiar também os contra a demolição. Mas o invólucro da pílula da demolição era mais atrativo e a ideologia do progresso foi pregada através da imprensa e entranhou-se na mentalidade da população, que pendeu para o lado mais favorável, tanto que não houve uma manifestação popular como está havendo agora. Hoje a mídia tradicional está perdendo lugar para a mídia internética, que está levando esse povo pra rua. Que outros monumentos foram destruídos para a construção da Avenida 7 de Setembro? A reforma urbana foi iniciada em 1912 com um espírito demolidor, que destruiu monumentos religiosos, como a Igreja da Ajuda, a Igreja de

São Pedro, a Igreja do Rosário e as Mercês. São Bento não foi demolido por inteiro porque o abade resistiu conjuntamente com a comunidade beneditina e os fiéis da área. Desde o início do projeto a Sé já estava arrolada dentre aqueles monumentos que iriam ser demolidos. O projeto de reurbanização poderia ter sido feito de forma a preservar a Sé? No meu livro você pode ver que poderia ter sido feito de outra forma, pelo menos no caso da Sé. Já que tudo tinha sido demolido, poderia-se preservar a Sé como símbolo de uma identidade religiosa, cultural. Foi a última etapa, porque eles não conseguiram demolir São Bento, nem dar continuidade à Avenida 7 de Setembro, que deveria seguir pelo Pelourinho e chegar até a Ladeira da Água Brusca. Assim, seria necessária a demolição de grande parte da arquitetura civil e eclesiástica existente na área do Pelourinho.

Rapper Daganja solta EP virtual para download e faz show com banda ao vivo sexta-feira Coletânea Chico Castro Jr. Jornalista e repórter do Caderno 2+

Referência do hip hop baiano, o rapper Daganja faz um show imperdível para os apreciadores de black music (ou só de music, ponto) nesta sexta-feira. Imperdível porque, além de mandar muito bem na letra e nas ideias, o rapper se apresenta acompanhado de banda ao vivo, integrada por músicos de alta responsabilidade. A noite ainda conta com o convidado MC Marechal (Niterói - RJ) e VJ Gabiru, com suas projeções. “O show é para marcar o lançamento virtual do EP Tá no Ar”, anuncia Daganja. “O disco tem oito faixas e foi gravado aqui em Salvador, nos Estúdios WR, com produção do DJ Gug, Vitor H e Abel Vargas, de Curitiba. A mixagem e a masterização é de Luis Café, especializado em hip hop. O cara já

trabalhou com MV Bill, Emicida, Rashid, todo mundo”, conta. No show, Daganja sobe no palco acompanhado de alguns dos músicos que gravaram o Tá no Ar: Alan do Grave (baixo), Prince Addam (guitarra), Manchinha (trombone) Ras Elias (trompete) e DJ Leandro. As baterias são programadas.

Tá no Ar e na rua também

”O título é Tá no Ar porque, desde que comecei, todo o meu processo de evolução musical se deu independente de ‘estar na mídia’. Nossa música vai além disso. Se estou no ar, é graças às facilidades da internet, através da qual conseguimos chegar em

Sujeito consciente, Daganja pratica rap positivo, valorizando os heróis anônimos do dia a dia urbano

todo o Brasil e em outros países”, reflete o rapper. Esperto e articulado, Daganja gravou diversas cenas do clipe para a faixa Nossa Conquista durante uma das manifestações ocorridas durante o mês de junho, em Salvador. “O tema da música é sobre isso mesmo. A ideia foi do Max Gaggino, diretor. Fomos para a rua e também captamos imagens de pessoas que são símbolo de resistência, como um amigo meu que é padeiro. Tem um que faz artesanato, outro que tem um estúdio. Pessoas que conseguem lutar a batalha do dia a dia sem perder a graça, a dignidade”, observa. No show de sexta-feira, ele convida todos a gravarem os próprios vídeos. “É um clipe em produção coletiva. Todo mundo filma com o que tiver na mão. Depois a gente coleta imagens para montar o clipe”, convida.

Max Gaggino / Divulgação

Só dá o guitarrista Júlio Caldas no Pelourinho este mês. Sábado, tem show na Teresa Batista (21 horas, grátis). E dias 15 e 29, ele prossegue com o IV Circuito Guitarra Baiana, no Teatro Sesc Senac, sempre com convidados. 20 horas, gratuito.

Concertos gratuitos Chão é o título de uma série de três concertos do Camará Ensemble (grupo de música de câmara da Osufba), que começa hoje, no Palacete das Artes. Serão apresentadas peças solo para violoncelo, flauta, saxofone tenor e violino. Hoje e nas próximas duas terças-feiras (13 e 20). Às 20 horas, gratuito.

Qd5 e a Recompensa

DAGANJA / SHOW DE LANÇAMENTO DO CD TÁ NO AR/ PART.: MC MARECHAL (RJ) / LARGO PEDRO ARCHANJO (PELOURINHO) / SEXTA-FEIRA, 21 HORAS / GRATUITO OUÇA, BAIXE: DAGANJAORIGINAL.COM

Júlio: agosto agitado

Daganja lança EP virtual. O CD físico “chega em setembro”, diz ele

Quarteto de Cinco leva o show Recompensa ao Teatro Gamboa Nova na sexta-feira e sábado. 20 horas, R$ 20 e R$ 10.

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