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SALVADOR QUARTA-FEIRA 30/10/2013

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ENTREVISTA Pepetela

‘O QUE INTERESSA NÃO É O LIVRO EM SI, É CONTAR HISTÓRIAS’

mesmo se hoje há outros meios que atraiam mais as pessoas que os livros. O que interessa não é o livro em si, é contar histórias. O senhor acredita que depois das manifestações recentes no Brasil, em junho e julho, o povo está realmente acordando? Um dos livros que me formou foi Geopolítica da Fome (1951), de Josué de Castro, sobre o nordeste brasileiro e, sobretudo, Pernambuco. Josué de Castro escrevia que não há revolução nenhuma possível quando as populações são muito pobres e só podem estar a pensar a todo o momento “como é que eu vou arranjar uma maneira de comer?”.

VERENA PARANHOS

A luta pela independência de Angola é tão importante para a ficção de Pepetela como é para sua vida. Batizado como Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, o escritor e sociólogo angolano escreve a partir de sua experiência com o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), de professor universitário e secretário de educação. Em 1997, ele ganhou o Prêmio Camões pelo conjunto de sua obra, em que se destacam Mayombe (1980) e A Geração da Utopia (1992). Seu novo romance, O Tímido e as Mulheres, chega ao Brasil em janeiro. Pepetela participou da Festa Literária Internacional de Cachoeira, onde conversou com A TARDE sobre as relações entre Bahia e África, literatura, política, Copa do Mundo e protestos. Ele faz hoje uma conferência na Reitoria da Ufba.

Bahia e Angola têm muito em comum? Sem dúvida que há um enorme relacionamento, mas nem tudo é Angola. No que diz respeito ao candomblé, isso é Nigéria e Benin. Mas há outras coisas que vieram da Angola, que refletem na maneira de falar, na música. Cada vez mais tem havido estudos. Lembro das primeiras vezes que vim cá, em 80, 81, ainda havia poucos. Via-se desconhecimento por parte das pessoas ligadas à universidade. Muita gente dizia que África era um país. Eu brincava: “é um país de capital Nigéria”. Hoje já não posso brincar assim. Em Angola, como a literatura foi importante para a formação e a libertação de seu povo? A independência de Angola só foi (acontecer) em 1975. Mas essa luta começou no século anterior. A literatura foi realmente um meio muito importante na primeira fase para a identidade, para as pessoas se convencerem que era possível e era necessário lutar pela independência. Embora muito do que foi escrito a partir de 1960 era

impossível publicar e por causa da censura ficou guardado. Na última fase foram 14 anos de guerra, o que nós chamamos a luta de libertação. Acabou o império colonial inglês e francês. Nós pensávamos: Portugal não vai aguentar. Só que esses países que deram independência a suas colônias africanas no quadro da Otan continuaram apoiando Portugal. Então, resistiu 14 anos, uma guerra que era pra durar um. A literatura foi ainda mais importante depois da independência para consolidar a nação. Como sua formação em sociologia ajudou nesta luta? Eu fui estudar em Portugal, em 1958, porque em Angola não havia universidade. E quem falasse de universidade era preso pura e simplesmente. Em 1962 começou a luta armada. Eu fugi para França, passei pela Argélia, para depois chegar até o Congo e do Congo entrar na guerra. Aí o movimento de libertação disse: “não, para na Argélia e estuda. Precisamos de pessoas formadas, intelectuais”. Muitos dos estu-

O Brasil já superou esse nível de pobreza? Exatamente. Quando o Brasil começa a ter uma classe média maior, com vários extratos, com uma massa crítica de muitos milhões de pessoas já com tempo pra pensar, essa classe média quer mais e começa a tornar-se impaciente. São problemas de crescimento, os políticos vão ter que saber jogar com isso.

A maioria de seus livros foi escrita na época da luta de libertação? Alguns. Mayombe escrevi em 1971, sem preocupação nenhuma. Estava no mato, ia publicar como?

A última Copa do Mundo de Futebol, apesar de ter sido realizada na África do Sul, ficou conhecida como Copa da África. Que legado o evento deixou para o continente? Pouco. Essas coisas, antes de acontecerem, são grandes acontecimentos. Mas passam. Ficaram estádios de futebol na África do Sul. Angola também teve essa experiência com o Campeonato Africano das Nações de 2010. Grandes estádios foram feitos rapidamente e agora quase não são utilizados. Nunca se aprende, provavelmente no Brasil também estão construindo estádios que não vão ser aproveitados. A Fifa exige uma série de coisas, os países aceitam e pronto.

Na sua visão, a literatura tem uma função social? Eu estudei sociologia e uma coisa ajuda a outra. No fundo a literatura ajuda a compreender a sociedade. A sociologia dava os instrumentos para perceber a sociedade e depois escrever sobre ela. A literatura é fundamental

O setor cultural conseguiu aproveitar os investimentos? Depende. Lembro das Olimpíadas de Barcelona, souberam aproveitar. O Carnaval, por exemplo, normalmente é bem aproveitado, o Brasil tem essa experiência. Copa não é muito diferente disso em termos de aproveitamen-

Jorge Nogueira / Divulgação

Quando o Brasil começa a ter uma classe média maior, essa classe média quer mais e torna-se impaciente

Provavelmente no Brasil também estão construindo estádios que não vão ser aproveitados

dantes que fugiram de Portugal foram fazer cursos na Europa do leste. Eu quis fazer em África. Participei dessa guerra, depois disso houve a independência, saí das forças armadas para o governo.

to turístico, cultural. Angola não tinha experiência, África do Sul também não. Como o senhor vê as revoltas recentes na Síria, na Líbia e no Egito? Eu acho que os casos são diferentes. A África do Norte também já estava a atingir uma classe média, uma juventude muito inquieta, que estudou, não tinha emprego, depois começou a rebelar-se, a usar internet para manifestações. As antigas potências coloniais, que tinham muita responsabilidade pelos regimes anteriores, quiseram mais uma vez influenciar a história. Não está a dar certo. O caso da Líbia é uma coisa mais flagrante. O Kadafi era um ditador, só que (a Líbia) era o país africano com maior desenvolvimento social, hoje está no fim, aliás, nem estado tem. Voltou às tribos do deserto, cada tribo tem seu chefe, porque Inglaterra e França bombardearam, fizeram com que o exército de Kadafi fosse destruído e não ficou nada. Existe aí uma reconfiguração da relação entre colônia e metrópole? Há o dedo do Ocidente. Há aí uma tentativa de recolonização de outro tipo, mas claro que é também uma reconquista colonial. Óbvio que não está dando certo. Eram regimes mais ou menos ditatoriais ou fortes, mas que não eram islâmicos, eram laicos. Agora estão a cair em regimes de poder islâmico, acho que vai ficar pior. As sociedades vão ter que se revoltar de novo contra regimes islâmicos, vai ser muito mais complicado para chegar até uma tal democracia. Eu acho que vai ser muito longo o caminho, porque os países amigos do Ocidente, Arábia Saudita, Iémen, Kuwait, os grandes amigos dos americanos, são umas democracias muito especiais. A mulher não pode conduzir um carro, para sair de casa tem que pedir autorização ao marido, são muito democráticos, sem dúvida. Portanto, se é para fazer dessas democracias, é melhor não fazer. MEMÓRIA, LITERATURA, UTOPIA NA CONSTRUÇÃO DE ANGOLA, CONFERÊNCIA DE PEPETELA / HOJE, ÀS 15H / REITORIA DA UFBA / GRÁTIS

Kali, Senhora de todas as danças e múltiplos corpos Eliana Rodrigues Silva Professora da Ufba

Muitos foram os caminhos que me emocionaram ao assistir esse trabalho: a força, a simbologia, a originalidade, a cor, a voz, a música, a palavra. Sobretudo senti o empoderamento feminino através do conhecimento e da arte. Surpreendeu-me mais este caminho de Adelice, artista multifacetada que agora corajosamente se lança em novos rumos. E assim me pergunto o que há

na obra de arte que alcança êxito? Será o tema escolhido? A forma como a obra é feita? A natureza das escolhas artísticas? O estilo ou a linguagem? Não, nada disso importa tanto quanto a individualidade, a experiência única daquele criador transformada em voz artística. E por isso gosto de perguntar: O que essa obra quer me dizer? O que Adelice quer me dizer? O que Kali quer me dizer? Além do magnífico e rico texto, permeado de um manancial de emoções, me chama muita atenção o corpo, construído no processo e pleno de verdades. Sim, o corpo e seus poderes, o

corpo como o universo em miniatura,comoessequadrodemil cores que traz tantas histórias, marcas e possibilidades. Kali é este corpo senhor-senhora de todas as coisas, sensor, rede, mensageiro, oração e veículo de seus rastros e da alma

Multifacetada, corajosamente Adelice se lança em novos rumos

Isabel Gouveia/ Divulgação

A escritora Adelice Souza

que vive em todos nós. Certos contos africanos dizem que o corpo tem dois pares de orelhas, um par para ouvir os sons do mundo e outro para escutar a própria alma; dois pares de olhos, uma para todas as coisas que nos rodeiam e outro para a vidência; dois pares de força, aquela dos músculos e outra do espírito. Kali multiplica esses sentidos e vai mais longe, pois entre umacenaeoutra,exercitaaconsciência mais profunda, mexendo o caldeirão do conhecimento feminino e de seus arquétipos. O corpo de Kali fala com grande clareza e é multilíngue. Fala através da cor da pele, do brilho

dos olhos, das mãos, dos gestos, da respiração, do plexo solar, de cada mínima partícula de suor, da voz, dos cabelos. Fala intensamente através do seu bailado íntimo que nos é dado de presente, passando por tantos sentimentos e estados, sempre pleno de verdade. É como um campo semeado que começa a brotar, uma força da natureza que não pode ser cerceado. Vamos celebrar Kali e deixar que seu espírito continue livre na sua magnificência! O ESPETÁCULO KALI - SENHORA DA DANÇA VOLTA A CARTAZ EM NOVEMBRO NO TEATRO GAMBOA NOVA

CURTAS Sarau poético para Vinicius de Moraes

Jonas Brothers anunciam fim

A Biblioteca Prometeu Itinerante e a Biblioteca Comunitária Castro Alves promovem, no Quadrilátero da Biblioteca Pública da Bahia, o sarau poético Aniversariando Vinícius de Moraes, nesta quinta, às 18h30. Poetas, atores e atrizes interpretam poemas, sonetos e canções do poeta Vinícius de Moraes, neste mês em que se comemora o seu centenário de nascimento. A ideia dos organizadores é mostrar a riqueza das diversas fases da poesia do poetinha, inclusive seus poemas existencialistas.

Os membros do grupo Jonas Brothers afirmaram que estão se separando. Em entrevista à revista People, um dos membros do grupo, Kevin Jonas, afirmou: “É o fim por enquanto.” “É realmente difícil dizer para sempre”, disse outro membro do grupo, Nick. “Nós estamos fechando um capítulo, com certeza”. A decisão ocorre três semanas após a banda ter cancelado uma turnê por “problemas sérios na banda”. O grupo foi formado em 2005 pelos irmãos Joe Jonas, Kevin Jonas e Nick Jonas.

Divulgação

O grupo, formado em 2005, era composto por Nick, Joe e Kevin

Dança em rede no Teatro Martim Gonçalves Nesta quinta, às 21 horas, sobem ao palco os dançarinos brasileiros do projeto Embodied Varios Darmstadt 58 no Teatro Martim Gonçalves. Ao mesmo tempo, no Salón de Danza Unam, às 19 horas, na Cidade do México, os dançarinos mexicanos do projeto entram em cena, enquanto o mesmo acontece na Espanha, na Fabra i Coats, às 2h, em Barcelona. Trata-se de um espetáculo de dança em rede que fará com que os artistas dancem conjuntamente pela internet. Os ingressos estão à venda no local e custam R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia).

Precursora no Brasil da “dança telemática”, a criadora em dança e pesquisadora Ivani Santana é quem dirige o projeto.

Os dançarinos interagem com seus parceiros virtuais em tempo real na dança telemática


Entrevista com o escritor angolano Pepetela