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Cães do Corpo de Bombeiros de Minas são treinados para atuarem na segurança pública na Copa do Mundo de 2014. Página 10

RAQUEL DUTRA

RAQUEL DUTRA

O radioamadorismo é um hobby oriundo da antiga ferramenta de comunicação via ondas de rádio e ainda tem muitos adeptos. Página 15

marco jornal

Ano 40 • Edição 290 LaboratóriodeJornalismodaFaculdadedeComunicaçãoeArtesdaPucMinas•LaboratóriodeJornalismodaFaculdadedeComunicaçãoeArtesdaPucMinas•LaboratóriodeJornalismodaFaculdadedeComunicaçãoeArtesdaPucMinas

Junho • 2012

ACIDENTES COM CARROCEIROS Problema a cada dia mais grave em Belo Horizonte, o trânsito registra acidentes envolvendo carroças, utilizadas especialmente para transporte de carga e recolhimento de entulho. Carroceiros e motoristas de veículos automotores se acusam por negligência, imprudência e desconhecimento da legislação. As carroças trafegam em baixa velocidade por serem veículos de tração animal, o que aumenta o risco de acidentes. Existem leis que regulamentam esse tipo de transporte na capital mineira, mas, muitas vezes não cumpridas. Página 11

MARIA CLARA MANCILHA

MARIA CLARA MANCILHA

MARIA CLARA MANCILHA

Feiras da Avenida Bernardo Monteiro são redescobertas Flores, antiguidades e gastronomia, são os componentes das tradicionais feiras que movimentam a Avenida Bernardo Monteiro, no Bairro Santa Efigênia, às sextas-feiras e aos sábados. Os eventos semanais vivem fase de boa frequência e atraem famílias e pessoas que optam pelo ambiente acolhedor entre as árvores como opção de cultura e lazer. Páginas 8 e 9 MARIA CLARA MANCILHA

Ruas da cidade se tornam fonte de sustento para vendedores ambulantes GABRIELA MATTE

GABRIELA MATTE

Vendedores ambulantes e artistas de rua fazem do trânsito uma alternativa para a obtenção de renda. Ora entre os carros parados em semáforos, vendendo desde balas a aparelhos eletrônicos, e até mesmo com apresentações circences que incluem malabarismos, ora no acostamento em vias e estradas com a venda de frutas e artesanatos, muitas pessoas se valem da criatividade para conseguir uma vida mais digna. Página 14

Consumo de droga tira praça da comunidade Moradores do entorno da Praça da Comunidade, no Bairro Dom Cabral, reclamam do uso de drogas no local, que, segundo relatam, inibe a população de usufruir o espaço em certos horários, sobretudo à noite, causando insegurança e mudanças na rotina da pessoas. Dessa forma, a praça está sendo degradada, devido a atos de vandalismo, e sofre também com a falta de manutenção. A Polícia Militar, que não reconhece oficialmente a praça como ponto de droga, mudou a forma de policiamento e promete aumentar a vigilância no local. Página 5

PIERO MORAIS

RAQUEL DUTRA

Pelé, auxiliar técnico do time de vôlei masculino do Minas, tem planos de levar o esporte a crianças e adolescentes carentes em Belo Horizonte. Página 16


2 Comunidade

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Junho • 2012

EDITORIAL

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Visita ao MARCO se torna pauta

VIDA A DOIS NO COREU Alegrar o parceiro com atitudes simples é uma das estratégias para manter um relacionamento consistente e duradouro RAQUEL DUTRA

n MARINA NEVES, 3º PERÍODO

Às vésperas da reunião de pré-pauta, a equipe de monitores do Jornal MARCO recebeu a visita repentina da leitora Rita de Cássia à redação. A sugestão do assunto se transformou em pauta e, posteriormente, em matéria presente nesta edição. Dono de um talento notável desde os seis anos, o artista plástico Hernani Gomes Lima é encantador por um simples gesto: doar brinquedos que ele mesmo produz, usando materiais recicláveis, para crianças carentes. Sugestões como a da leitora são de extrema importância para manter vivo o vínculo entre o jornal e a comunidade. Por isso, telefonemas, visitas à redação ou o envio de e-mail contendo propostas e críticas são essenciais para que o MARCO continue atendendo às necessidades da comunidade e descobrindo boas histórias para contar. Assim como as outras edições, essa, não deixa de retratar questões sociais negligenciadas ou desconhecidas pela população belo-horizontina. Em uma das reportagens, o MARCO apresenta à página 11 a complicada relação que, muitas vezes, resulta em frequentes acidentes envolvendo carroceiros e motoristas. Conduzir uma carroça pode até parecer uma tarefa fácil, mas não é o que comprovam os carroceiros de Belo Horizonte. Vítimas da impaciência, falta de atenção e imprudência de alguns motoristas no trânsito, eles são obrigados a mudar suas rotinas para não serem alvo de situações perigosas, colocando suas vidas em risco. Outra reportagem de destaque mostra as duas grandes feiras semanais abrigadas no coração da Região Hospitalar de Belo Horizonte. Uma delas, a Feira das Flores e Plantas Naturais, é deleite para os olhos dos apreciadores de flores e paisagismo, enquanto a outra, a Feira Tom Jobim, atrai admiradores de antiguidades e faz parte do circuito gastronômico da cidade. As histórias de expositores e assíduos frequentadores desses dois espaços são contadas nesta edição. Mas como nem tudo são flores, a realidade na Região Noroeste é diferente. Considerada a região com o maior número de casos confirmados de dengue em 2012, os agentes das equipes de zoonoses relatam suas preocupações quanto à banalização que a doença vem sofrendo por parte da população. E a Praça da Comunidade, no Bairro Dom Cabral, volta nessa edição. Desta vez, ela transformou-se em ponto de uso e venda de drogas. Os moradores, incomodados com o cenário, clamam por uma revitalização do local. Atento ao que acontece na comunidade e na cidade, o MARCO, com a ajuda de seus leitores, conta, há 40 anos, histórias curiosas e prioriza temas que afetam a rotina da sociedade.

O casal Maria das Dores Papson e Wilson Campos Papson mantêm um relacionamento com muito respeito e compreensão desde que se casaram n ANA PAULA MORAES 1º PERÍODO

Junho, mês em que se comemora o Dia dos Namorados, o amor e o desejo de agradar o parceiro andam de mãos dadas. Entretanto, a oportunidade de celebrar o relacionamento com presentes e surpresas confere à data um forte apelo comercial. Porém, a necessidade de agradar alguém especial nem sempre contribui para um relacionamento sadio e duradouro. Valéria Caixeta, 60 anos, moradora do Bairro Coração Eucarístico há cerca de 40, afirma que abriu mão de qualquer tipo de troca de presente entre ela e seu marido em datas comemorativas, como Natal, aniversário, Dia dos Namorados, para que houvesse mais praticidade no relacionamento. E a estratégia parece funcionar. Casada há 20 anos com Josemar Gomes Collen, 72 anos, diz que ambos se adequaram às necessidades do outro para construir um relacionamento consistente, sem nenhum tipo de obrigatoriedade. Nada muito sacrificado vale a pena", observa Valéria.

Embora não exista segredo para um relacionamento duradouro, ela afirma que é melhor renunciar aos guias de presentes e sugestões se a intenção for agradar o companheiro. O ideal é investir em pequenos gestos que agradem "como colocar a mesa do café", garante Josemar. "Se os casais atuais dispusessem de mais praticidade, respeito e liberdade, metade dos divórcios acabavam em casamento feliz", declara Valéria. Eles se conheceram durante os tempos de escola. Josemar foi professor de matemática no colégio onde Valéria estudava. O namoro durou quatro anos antes de o casal optar pelo casamento. "Naqueles tempos, a mulher tinha duas opções: casar ou ser professora", explica Valéria. Por isso, por convenção, eles decidiram se casar. Ela assegura que nunca foi apaixonada por nada, mas na concepção de gostar, gostava de Josemar. Também moradora do Bairro Coração Eucarístico, onde reside há 47 anos, Maria das Dores Santos Papson, 92 anos, admite não imaginar sua vida sem o marido Wilson Campos Papson, de 96 anos. "Eu

falo para ele me deixar primeiro", ressalta. Maria das Dores conta que Wilson significa muito para ela e que fica triste ao ver o companheiro de jornada há 67 anos com dificuldades para ouvir e se mover. Maria das Dores relembra com carinho dos momentos com Wilson, desde quando tinha apenas 22 anos e se apaixonou por uma foto dele, até as bodas de ouro, comemoradas com festa e presença das seis filhas e dos onze netos. Ela conta que se conheceram em João Monlevade, cidade de Wilson, namoraram três anos antes do casamento, e o amor sobreviveu ao ano em que passaram distantes um do outro, sendo o contato feito somente por meio de cartas. Wilson, que escuta somente com auxílio de aparelho de audição, afirma que Maria é uma mãe excepcional. Ele fala com orgulho do cuidado e empenho que ela sempre teve com as filhas. Maria das Dores acredita que o casamento atual resguarda os mesmos valores de antigamente, como respeito e compromisso. Ao comentar sobre o casamento do neto, ela lembra que o matrimônio deve ser levado a sério, independente da

época. "Não mudaria nada se fosse agora, repetiria tudo da forma como foi", acrescenta. Embora o marido não fosse romântico devido à criação e a convivência com a família fechada, nunca faltou amor na relação dos dois. Para Maria das Dores, não há segredo para um casamento feliz e duradouro, desde que haja muito amor. "Acredito que o amor é a coisa mais importante que existe", ressalta. Os relatos de Valéria reforçam que casais satisfeitos são propensos a acentuar mais o lado positivo da vida. Eles não apenas lidam bem com as adversidades, como também celebram os momentos felizes e empenham para construir e reforçar situações favoráveis. Josemar conta que não houve grandes dificuldades no casamento, o momento mais difícil para ele foi quando a mulher teve câncer. O medo de perdê-la o deixou consternado, enquanto que para ela não foi algo agravante, o câncer veio de uma forma simples. O pensamento dela é que se deve "encarar as situações com mais naturalidade e menos questionamentos". RAQUEL DUTRA

EXPEDIENTE

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jornal marco Jornal Laboratório da Faculdade de Comunicação e Artes da PUC Minas www.pucminas.br . e-mail: jornalmarco@pucminas.br Rua Dom José Gaspar, 500 . CEP 30.535-610 Bairro Coração Eucarístico Belo Horizonte Minas Gerais Tel: (31)3319-4920 Sucursal PucMinas São Gabriel: Rua Walter Ianni, 255 CEP 31.980-110 Bairro São Gabriel Belo Horizonte MG Tel:(31)3439-5286 Diretora da Faculdade de Comunicação e Artes: Profª. Glória Gomide Chefe de Departamento: Profª. Maria Libia Araújo Barbosa Coordenador do Curso de Jornalismo: Prof°. Francisco Braga Coordenadora do Curso de Comunicação / São Gabriel: Profª. Alessandra Girardi Cordenador do Curso de Jornalismo (São Gabriel): Prof°. Jair Rangel Editor: Prof. Fernando Lacerda Subeditor: Profª. Maria Líbia Araújo Barbosa e Profº. Mário Viggiano Editor Gráfico: Prof. José Maria de Morais Monitores de Jornalismo: Felipe Augusto Vieira, Gabriela Matte, Isabela Cordeiro, Keneth Borges, Marina Neves, Michelle Oliveira, Mouni Dadoun e Raíssa Pedrosa Monitores de Fotografia: Maria Clara Mancilha e Raquel Dutra Monitor de Diagramação: Nathan Godinho Fotolito e Impressão: Fumarc . Tiragem: 12.000 exemplares

Josemar Gomes e Valéria Caixeta estão casados há 20 anos e, para ela, o segredo é não ter obrigações e investir em gestos que agradem o parceiro


Comunidade Junho • 2012

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POUCA DIVULGAÇÃO DIFICULTA USO Pontos de coleta seletiva espalhados pela cidade são opções para contribuir com o meio ambiente. No Bairro São Gabriel existem dois deles, mas desconhecidos pelos moradores RAQQUEL DUTRA

n TAÍS GERVASIO 1º PERÍODO

Um assunto muito discutido atualmente, uma vez que a questão da sustentabilidade está em pauta, é a separação dos diversos tipos de lixo para contribuir com o meio ambiente. A luta, na maioria dos casos, é pela instalação de pontos de coleta seletiva que são restritos a poucos pontos da cidade de Belo Horizonte. No Bairro São Gabriel, no entanto, a situação é diferente e peculiar. Existem dois pontos de coleta seletiva ali, mas muitos moradores os desconhecem e, por isso, não os utilizam. Dessa forma, acabam não realizando a separação do lixo reciclável. O comerciante Edson Almeida Murta não sabia da existência do ponto de coleta seletiva. "Acabei de saber agora que existe este ponto de coleta", afirma. A aposentada Expedita da Silva relatou que coloca todo o lixo da casa junto, para que possa ser recolhido pelo caminhão da Prefeitura, que passa três vezes por

semana. De acordo com Superintendência de Limpeza Urbana (SLU), uma das razões para que os moradores não façam o uso dos pontos de coleta é a falta de uma campanha de incentivo e mobilização para a separação do lixo reciclável. Só foi realizada uma campanha de mobilização, quando foram instalados os Locais de Entrega Voluntária (LEVs), há mais de cinco anos. Esse assunto será pauta de uma reunião que acontece semanalmente, na qual será discutida a realização de campanha para a divulgação dos pontos de coleta voluntária nas comunidades onde estão instalados os LEVs. Os Locais de Entrega Voluntária são pontos de coleta de materiais recicláveis, onde são instalados contêineres nas cores padrões dos materiais recicláveis: azul para o papel, vermelho para o plástico, amarelo para o metal e verde para o vidro. A população separa o lixo seco do lixo úmido, que também é chamado de lixo

orgânico, composto de restos de alimentos e cascas de frutas e verduras. Após essa separação em casa, as pessoas levam para depositar nos respectivos contêineres. A coleta seletiva possibilita a diminuição da quantidade de lixo que é enviada para os aterros, visa o desenvolvimento das indústrias de reciclagem, gerando empregos, diminui a extração de recursos naturais e ainda contribui para a limpeza da cidade e para a conscientização da população quanto à consciência ambiental. Segundo o chefe de Seção de Operações de Coleta da SLU, José Oswaldo Reis, a Região Nordeste conta com 42 equipamentos e no Bairro São Gabriel existem dois pontos de coleta, nos seguintes endereços: Rua São João da Serra, 86 (em frente ao Epa) e na Rua Zumbi, esquina com a Avenida Esplanada, 72, que fica em uma das Unidades de Recebimento de Pequenos Volumes (URPV). O lixo depositado nos contêineres é recolhido duas vezes por semana, nas

Pontos de coleta seletiva no São Gabriel são pouco conhecidos pela população, que acaba não separandoo o lixo quartas e sextas-feiras, e encaminhados para a Associrecicle, uma entidade formada por catadores de papel, localizado à Rua Araguari, 12, no Centro de Belo Horizonte. De acordo com a pesquisa realizada pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Publica e Resíduos Es-

peciais (Abrelpe) foram produzidos 55 milhões de toneladas de lixo em 2011, sendo que 32,2 milhões de toneladas tiveram como destinação aterros sanitários dentro das normas brasileiras, enquanto 23,3 milhões acabaram indo para os lixões. Sem contar que 6,4 milhões de toneladas de lixo sequer foram

coletadas e acabaram parando em vias públicas, em rios e outros locais que acabam prejudicando o meio ambiente. Em Minas, a pesquisa relatou que apenas 19% de todo o lixo produzido em 2011 pelo estado teve como destinação o aterro controlado.

Falta de sinalização é problema no Minas Brasil n MOUNI DADOUN 6° PERÍODO

Localizada no Bairro Minas Brasil, à Rua Tito Novaes, onde fica a Paróquia São Luiz Gonzaga, e que faz esquina com a Rua Jacutinga, é alvo de reclamações de diversos moradores e frequentadores da região. A falta de

sinalização no cruzamento propicia acidentes entre veículos e pedestres. O perigo aumenta já que muitos desses pedestres são idosos. Em setembro de 2006 o MARCO publicou reportagem, em sua edição 245, sobre o problema, que continua sem solução, após quase seis anos. RAQUEL DUTRA

Trânsito no cruzamento é problemático devido à falta de sinalização

Alina Leal Costa, de 46 anos, trabalha como secretária na Paróquia São Luiz Gonzaga há um ano e diz ficar assustada com a velocidade com que os veículos transitam pela Rua Tito Novaes. "O trânsito já é pesado e vários carros estacionam dos dois lados da rua. É muito complicado. Há um ano trabalho aqui, mas moro na região há mais tempo. A cada dia que passa está mais difícil atravessar a rua", afirma. Maria da Conceição Rezende, 80 anos, moradora da Rua Jacutinga, frequenta a Paróquia e explica que principalmente para idosos é complicado atravessar a rua. Ela diz que já fez reclamações à Prefeitura de Belo Horizonte e acionou até uma figura política, que prometeu ajudar e há anos implantar uma sinalização, mas o prometido não foi cumprido. "Há anos tentamos solucionar um problema que só aumenta com a movimentação do bairro. Os próprios motoristas não sabem o que fazer. Muitos veículos cor-

rem e aproveitam a falta de sinal. Muitos idosos não conseguem chegar do outro lado da rua a tempo, ou correr, pois os carros estão em alta velocidade", explica.

CONFUSÃO Além da falta de sinalização, o desrespeito de motoristas é um problema destacado pelos moradores. Muitos não respeitam a mão única da Rua e entram na contramão para chegar com mais rapidez a seus destinos. Um exemplo é o comerciante Carlos Alberto Dias, de 38 anos, que transita diariamente de carro pela Rua Tito Novaes e afirma que a falta de sinalização o confunde. "De todos os lados chegam carros, muitos entram na contramão. A gente se perde, além do que, é preciso tomar cuidado com os pedestres, que também se perdem e não sabem o que fazer já que a movimentação de carros é bem grande", diz. Apesar dos moradores reclamarem do problema, muitos deles têm medo ou

pensam que as reivindicações para implantação de sinalização não surtirão efeito. Isso, de acordo com moradores, como Maria Aparecida dos Santos, de 75 anos, é consequência da crônica falta de solução para o problema. "Moro aqui há 30 anos e, pelo menos, há uns dez vejo o problema aumentar. Com o desenvolvimento do bairro, o trânsito aumentou bastante. Muitos reclamam, mas o problema já é tão antigo que desistiram", explica. Carlos Alberto Dias também afirma que desistiu de tentar oficializar as reclamações com os órgãos públicos e, mesmo, pedir ajuda a políticos com cargos eletivos. "Não adianta. Há muitos anos o problema existe, muitos prometem cumpri-lo mas nada é solucionado", afirma.

BUROCRACIA A Secretaria de Serviços Urbanos administra a infra-estrutura da cidade. O MARCO tentou contatar o órgão várias vezes, mas não obteve sucesso. A Assessoria de Comuni-

cação da BHTrans também foi contatada e informou que nenhuma denúncia ou reclamação foi feita e, quem quisesse, poderia mandar e-mail com imagens do lugar e detalhes por escrito das reclamações. Moradores do Bairro Minas Brasil, onde está localizada a esquina sem sinalização, passaram por problemas quando telefonaram a BHTrans e fizeram reclamações sobre a falta de sinalização. A professora de matemática Ana Carolina Borges, de 42 anos, por exemplo, diz não saber mais quantas vezes já tentou contatar para resolução do problema. Ela afirma que é muita burocracia para relatar a reclamação, além de muita confusão durante o telefonema. "Eles pedem para esperarmos, passam para outros ramais e confundem a gente, mandamos email e não responderam. Parece que fazem isso para desistirmos", conclui.


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Junho • 2012

REGIÃO TEM ALTO ÍNDICE DE DENGUE Região Noroeste é considerada a região mais afetada pela doença em Belo Horizonte. Foram confirmados 51 casos desde o início do ano. Moradores e Prefeitura desenvolvem formas de profilaxia e conscientização

n GABRIELA MATTE MARINA NEVES RAÍSSA PEDROSA

RAISSA PEDROSA

3º E 4º PERÍODO

A Região Noroeste de Belo Horizonte é a que tem maior número de casos confirmados de dengue em 2012. Até 21 de maio, tinham sido confirmados 51 casos da doença e 33 estavam pendentes. Por outro lado, houve redução no número se comparado à mesma época do ano passado. A Região da Pampulha vem em segundo lugar com 47 casos confirmados e a Região Leste juntamente com o Barreiro estavam em último lugar com apenas 24 casos confirmados. O que preocupa os agentes das equipes de zoonoses da capital é o caso da dengue tipo 4, vírus novo, mais agressivo, que foi registrado no Bairro Glória. Esse vírus, que entrou no Brasil no ano passado, em estados do Norte e no Rio de Janeiro, foi pela primeira vez registrado em Belo Horizonte somente em fevereiro deste ano. Não foi confirmado ainda pelas autoridades se o menino de 9 anos que contraiu a doença foi picado pelo mosquito em seu bairro, ou em uma viagem para o Rio de Janeiro. O Glória, juntamente com o Bairro Santos Anjos, vêm recebendo atenção especial por serem os locais com mais casos confirmados da doença. Sérgio Leão Magalhães, coordenador da zoonoses da Regional Noroeste supõe que o Bairro Glória possui esse alto índice por ser um bairro com um grande número de casas, onde os focos se concentram mais. "A gente tem na região grande número de bairros antigos, como Carlos Prates, Padre Eustáquio, com predomínio de casas com quintais grandes, sempre com acúmulo de materiais. O Glória

Água parada em ruas do Bairro Coração Eucarístico contribui para que a Região Noroeste lidere estatísticas da dengue em Belo Horizonte é um bairro desse tipo", diz, apesar de ressaltar que esses não são os únicos fatores responsáveis pela proliferação. Além disso, ele atribui grande responsabilidade às pessoas que não ajudam na prevenção. Ricardo Rodrigo de Paula Almeida, encarregado de serviços da zoonose do Centro de Saúde Glória, explica que acontece um trabalho de prevenção no Bairro desde 1998, quando a região foi considerada epidêmica. "O histórico aqui é bem definido", diz. Segundo ele, é necessário dividir responsabilidades dos altos índices entre questões populacionais e os números de imóveis fechados, que são de 38%, entre abandonados, sem moradores, esperando aluguel, lotes vagos e pessoas que não liberam a entrada dos agentes. Os agentes das zoonoses de cada bairro trabalham com três políticas de prevenção e con-

trole. A primeira, que é o "carro chefe", é chamada de tratamento focal e consiste em visitas domiciliares periódicas por áreas zoneadas. O trabalho dura cerca de 40 dias úteis. A segunda ação é chamada "Ouvitrampa", que funciona por meio da instalação de armadilhas de captura do ovo da fêmea do mosquito Aedes Aegypti (daí o nome), para fazer uma contagem do número de ovos encontrados na região. A cada 200 metros, seleciona-se um estabelecimento para se colocar uma palheta de metal dentro de uma garrafa de água parada durante sete a oito dias. Quando a palheta é recolhida, é possível fazer uma contagem do número de ovos naquela amostra, de acordo com marcas que ficam na palheta. A amostra é analisada com microscópio, para a contagem dos ovos. "Esse teste é um indicativo para se realizar um pente fino na área depois de se identificar os locais mais críticos", explica Ricardo

Almeida. A terceira ação chamase "Eliminação do Mosquito". É um trabalho realizado quando há caso positivo de dengue com a utilização do Ultra Baixo Volume (UBV), conhecido popularmente como "fumacê". A panfletagem para avisar a população é feita no dia anterior e é obrigatória. No Bairro Dom Cabral, existem outras duas formas de prevenção da dengue. Os moradores da região, por meio do Serviço de Atendimento ao Cliente (SAC), podem denunciar irregularidades vistas no bairro, como calhas entupidas e caixas d'água abertas, que posteriormente são verificadas pelo agente. O trabalho realizado no Centro de Saúde Dom Cabral possui quatro áreas de abrangência: Bairro Coração Eucarístico, parte do João Pinheiro, Dom Cabral e a Vila 31 de março, que fica entre os Bairros Dom Bosco e Califórnia. Dentro desses locais é realizado outro trabalho de

prevenção, que consiste no monitoramento quinzenal dos sete pontos estratégicos (PE) da região, ou seja, dos lugares onde há maior probabilidade de infestação do mosquito da dengue. "Além disso, a gente faz um trabalho de conscientização, como cartazes, palestras nas escolas para incentivar os alunos a verificar se no domicílio deles existe algum foco de dengue, a gente leva as larvas para mostrar aos alunos", conta Maria Aparecida Valadares, encarregada das zoonoses no Centro de Saúde Dom Cabral. Ela reclama da banalização da doença e da falta da devida importância que a dengue recebe por falta da população. "Todo mundo acha a dengue já é uma doença normal que todo mundo vai ter ou já teve. Mas não é, enquanto a pessoa não entender que é um risco que ela está correndo adquirindo a dengue, porque são quatro tipos de vírus diferente e cada um vai causar um transtorno na vida da pessoa e corre até risco de vida", diz. Daniele Abrão Leal, gerente de zoonoses da Regional Noroeste, concorda que as pessoas são as principais responsáveis por ajudar na proliferação do mosquito e que falta consciência. "O problema é que algumas pessoas passam a se preocupar só se alguém da casa ou vizinho tiver dengue", afirma. No Distrito Sanitário Noroeste no ano de 2012 já foram notificados 239 casos de suspeita de dengue, até o dia 24 de abril, sendo que 36 casos foram confirmados e 167 descartados e 36 estavam pendentes. "O agente de saúde vai na casa das pessoas 5 vezes ao ano, os outros 360 dias são de responsabilidade do morador", afirma Daniele Leal. RAQUEL

DUTRA

Prédio não é mais incômodo na Rua Dom Joaquim Silvério n MARINA NEVES 3º PERÍODO

Durante seis meses, os moradores da Rua Dom Joaquim Silvério, no Bairro Coração Eucarístico, foram obrigados a conviver com água suja, lama e buraco em decorrência de um prédio que estava sendo construído no local. O serviço com data marcada para o dia 14 de maio, finalmente foi executado. "Está 100% resolvido", garante o engenheiro res-

ponsável pela obra do condomínio, Lucas Cunha, 32 anos. Segundo ele, existe uma rede de drenos na garagem do edifício que é no mesmo nível da rua e essa é responsável por jogar a água de origem pluvial na sarjeta, junto ao meio fio, processo feito do mesmo modo em toda a cidade. Porém, a declividade da rua é muito pequena, dificultando o escoamento dessa água até a boca de lobo mais próxima. RAQUEL

DUTRA

Após seis meses de transtorno para os moradores, o problema foi resolvido

Por isso, o asfalto se mantinha sempre úmido e tornava-se susceptível a ter problemas com o fluxo de veículos pesados no local, o que ocasionou a abertura do buraco. Há cerca de um mês e meio, o condomínio entrou em contato com a Superintendência de Desenvolvimento da Capital (Sudecap), que vistoriou o local e solicitou que fosse feito uma tubulação, junto ao meio fio, ligada diretamente à boca de lobo mais próxima. "Assim que essa tubulação for ligada, a Sudecap irá ao local recapear a via", explicou Lucas Cunha. A moradora Nur Dorothéia Mudado Silva, 82 anos, conta como era a via antes do buraco e do início da construção do prédio. "Era tudo asfaltado, mas depois que a vizinha vendeu a casa e que construíram esse prédio, a rua que era tão bonitinha, agora não

está mais arrumadinha". Segundo ela, o que mais a incomodava era a poeira que entrava em sua casa e o acúmulo de lama no calçamento. "Quando estava seco era um poeirão, a gente tinha que limpar a casa todo dia. Em época de chuva fica pior, porque a rua fica com mais barro e é até perigoso afundar um carro ali (no buraco)", constata Dorothéia. Após a resolução do problema, a moradora acredita que a rua voltará a ser como era. "A rua vai voltar a ser arrumadinha, se Deus quiser. Eu acredito que o problema foi resolvido", diz. Myriam Mudado Silva, 50 anos, filha de Dorothéia, recorda que a situação foi piorando ao longo do tempo. "A gente começou a sentir essa situação quando o prédio já estava praticamente pronto. Quando você vê, o buraco realmente está na terra. Mas isso foi acontecendo aos poucos, gradati-

O buraco empoçava água suja e lama devido à construção de um prédio vamente". Ela conta que no dia em que o serviço estava sendo feito, sua mãe chegou em casa dando a notícia de que o buraco estava sendo tapado. Agora que tudo foi normalizado, Myriam se mostra confiante que o problema não voltará. "Se o asfalto tiver sido colocado corretamente, tiver acertado tudo, eu acredito que volte ao normal", observa. O síndico do prédio ao lado, Sebastião da Cunha, 48 anos, sentindo-se incomodado com a situação da rua, chegou a ligar para a Sudecap pedindo que o problema fosse solucionado. Apesar de não ter obtido resposta naquela época, ele

continuou aguardando. Agora, Sebastião confirma que o condomínio ao lado não voltará mais a causar transtornos. "O problema foi solucionado, então agora está tudo normal", afirma. Sheila Cristina Menezes, 37 anos, esposa de Sebastião, ainda explica que quando começou a construção do prédio ao lado, estava sendo feita uma reforma no piso da garagem do condomínio onde moram. Com isso, a água suja e a lama eram motivo de muito incômodo. "O piso foi reformado recentemente e os carros entram e sujam a garagem toda de lama", ressalta.


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MARIA CLARA MANCILHA

PRAÇA É PONTO DE USO E VENDA DE DROGAS Assustados com o consumo e a comercialização de entorpecentes na Praça da Comunidade, no Bairro Dom Cabral, moradores da região deixam de utilizar o espaço para atividades de lazer e evitam até mesmo transitar pelo local n MARINA NEVES RAÍSSA PEDROSA 3º E 4º PERÍODO

A praça de anos atrás já não é mais a mesma. O mal-trato e abandono da Praça da Comunidade, no Bairro Dom Cabral, mostram como o local passou de lazer a ponto de uso e venda de drogas. Escadas destruídas, muros pichados, alambrados quebrados, buracos no chão, um vestiário esquecido, campo de futebol sem gol e grama seca são exemplos do desleixo do espaço. Descontentes com o cenário, os moradores da região relatam as diferentes situações que precisam enfrentar para transitar pela praça. M.M.C., moradora do bairro e mãe de uma criança, conta que não frequenta a praça há mais de dois anos. "Costumava ir na Praça da Comunidade todo fim de semana, todo sábado e domingo para brincar de bola, andar de bicicleta", lembra. Segundo ela, o maior medo é da atitude inesperada dos usuários de droga. "Como eles mudam de comportamento, pode ser que na hora que se está passando perto, sei lá, eles podem agarrar a criança", exemplifica.

Esse caso se repete com a moradora I.C, que lamenta não poder mais ir à praça para jogar peteca e levar os netos para brincar. "Antigamente essa praça era comunitária, agora já não é mais. A gente não pode mais trazer criança aqui", relembra. "A terceira idade jogava peteca na praça, agora já não pode mais", acrescenta. M.D.M., morador da região, ressalta que após às 20h, geralmente, o uso e venda de drogas no local se agrava. Para ele, não é muito bom andar pela praça muito tarde e uma das formas usadas para evitar isso é dormir fora. "Eu saio, mas se for pra voltar tarde sozinho, eu não volto. Se for para voltar uma hora da manhã, eu prefiro dormir fora de casa", desabafa. Um grupo de aproximadamente 15 pessoas, entre menores de idade e adultos, além de consumir drogas, pratica atos de vandalismo, o que prejudica a imagem que a comunidade e as pessoas de fora têm da praça. "Aquele alambrado ali caiu porque os meninos ficavam balançando. Esse aqui está do mesmo jeito, não vai demorar a cair, eles sobem nele tranquilamente, é normal, hábito de vanda-

lismo puro", observa uma moradora. Os vizinhos da área de lazer também relatam que a praça está sem cuidados há aproximadamente cinco anos. Outro morador, E.J., garante que a movimentação de usuários de drogas é constante na praça e que também evita sair à noite, principalmente para ir ao bar. "Não saio, por causa disso, tenho medo, até porque eu gosto de tomar uma cervejinha e sou mais velho", diz. Ele ainda revela que já foi usuário de drogas, há aproximadamente 40 anos, e sabe como é a rotina de quem consome drogas e como é ter ansiedade e vontade de consumir. "Sempre que essa ansiedade vem, não tem horário, quando pinta a vontade você vai", lembra. M.D.M diz ver ações da Polícia Militar na praça. "Falar que não tem policiamento é mentira. Às vezes eles dão batida", observa. O major Gibran Condé Guedes, da 9ª Companhia da Polícia Militar, não confirma as informações dos moradores sobre a utilização da praça para uso e venda de drogas. "Teria que fazer o levantamento estatístico”, afirma. Atualmente, o policiamento na capital está sendo feito de

forma setorizada, sendo que na Região Noroeste existem quatro setores. Com essa nova gestão setorizada, é possível à PM fazer um acompanhamento mais próximo da comunidade, de modo que, ao receberem qualquer tipo de denúncia, uma viatura é enviada ao local e os policiais averiguam o chamado. No caso das drogas, o major explica que a PM não deixa a Praça da Comunidade descoberta. "É constante, diário o patrulhamento e as operações de cunho repressivo", observa. "A gente sabe que é quase um câncer social (o problema das drogas). Não tem como a gente falar que isso não existe. Dentro das nossas limitações de estrutura, estamos tentando combater o uso e venda de drogas", explica o major sobre o problema do tráfico de drogas. E.J. acredita que o problema da praça vá além daquilo que eles vivenciam ali. "Eu acho que o problema, não da Praça da Comunidade, mas o problema da droga é político, é um problema social, como na minha época também era, hoje a coisa generalizou e está em todo lugar”, opina.

Calma durante o dia, à noite a praça é frequentada por viciados em drogas

Coberturas para quem espera ônibus na Imbiaçá RAQUEL DUTRA

n GABRIELA MATTE MARINA NEVES 3º PERÍODO

Há cerca de três meses, quem espera pelos ônibus na Rua Imbiaçá, no Bairro Dom Cabral, Região Noroeste da cidade, ganhou um conforto a mais. Agora, os três pontos da rua possuem banco e cobertura e, não mais, apenas uma placa sinalizando o local de parada do ônibus. "Gostei porque a gente espera sentada. Normalmente o ônibus não passa tão rápido, então alivia um pouquinho", relata Isabella Lopes Fonseca de Souza, 22 anos, moradora do Bairro Dom Cabral que pega ônibus na rua Imbiaçá todos os dias, desde os 16 anos. A jovem conta que antes esperava debaixo da árvore para fugir da chuva ou do sol forte. "Já sentei muito ali na beiradinha da casa", aponta a jovem. A moradora da casa em frente ao ponto, Wanda Cristina Coutinho, 43 anos, conta que, em dias chuvosos, já cedeu a

garagem de sua casa várias vezes para que pessoas conhecidas esperassem pelo ônibus. "Às vezes acontece de você estar em casa, estar chovendo e você ver a pessoa, e às vezes é chuva que a sombrinha não dá pra cobrir. Então a gente abre e deixa esperar aqui na porta, na garagem", explica. De acordo com ela, após a instalação da cobertura, houve apenas um dia em que ela ofereceu a garagem de sua casa para que uma senhora pudesse esperar pelo ônibus sem se molhar. "Teve um dia que teve uma chuva muito forte e tinha uma senhorinha aqui fora e ela estava molhando toda coitada. Aí nós falamos com ela: entra, espera aqui. Meu marido até ficou com ela aqui fora, na varanda, pra na hora que o ônibus viesse, dar o sinal", conta. Por outro lado, Wanda não está gostando da mudança que ocorreu com as novas instalações na porta de sua casa. Antes, as pessoas ficavam mais dispersas ou embaixo de uma árvore perto de outra

Com cobertura no ponto, Wanda não precisa mais ceder sua garagem

residência, mais afastadas de seu portão. "Agora, dá muito lixo, minha varanda fica muito suja. De noite o pessoal que fica esperando ônibus aqui conversa demais, parece que está conversando lá dentro de casa. Dá muito barulho, o pessoal que fica sentado aqui conversa muito alto, palavrão, essas coisas todas", compara. Simone Barbosa de Castro, 43 anos, que mora próxima a outro ponto da Rua Imbiaçá, também se mostra descontente com a presença do ponto de ônibus no local. "Barulho é sempre. É eterno. São quatro linhas de ônibus na porta da minha casa. Sou doida pra mudar. Um dos motivos é esse. O bairro ficou muito barulhento, não é mais o mesmo", desabafa a dona de casa. Ela também reclama da falta de educação dos pedestres, mas aprova a colocação das coberturas nos pontos. "Eu achei bom que colocaram a cobertura, pra descansar. Às vezes a pessoa fica esperando em pé, tá muito sol. Nesse lado é bom, mas por outro

lado o pessoal não tem educação", diz. Sua principal reclamação é a imensa quantidade de lixo jogado no chão por quem espera no ponto, que entra pelo muro de sua casa. A relação da moradora com os pedestres é complicada. "Imagina, poluição, barulho, tanto dos ônibus quanto de gente. De madrugada é gente bêbada no ponto", reclama. Evandro de Oliveira e Silva, 49 anos, é vizinho de Simone, mora, também, na porta do ponto de ônibus há 40 anos. Segundo ele, as coberturas trouxeram algum benefício. "Pelo menos a gente senta, mas mudar, não mudou nada. Não cobre sol, não cobre chuva, não cobre nada", afirma inconformado. Já Terezinha Rezende Faria, 50 anos, vê mais vantagens nas novas instalações, que antes tomava chuva frequentemente. "É mais conforto. Evita da gente molhar, diminuindo a possibilidade da gente ter uma gripe e problemas respiratórios", conta.


6 Campus

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Junho • 2012 RAQUEL DUTRA

PUC MINAS QUER RECEBER ATLETAS ESTRANGEIROS Pista de atletismo da Universidade está na disputa para ser escolhida por delegações internacionais após sua seleção como centro de treinamento para Olimpíadas no Brasil n GABRIELA MATTE 3º PERÍODO

Depois da notícia que a pista de atletismo foi selecionada para treinamento de atletas para os Jogos Olímpicos que serão realizados no Rio de Janeiro, em 2016, a equipe gestora do Complexo Esportivo da PUC Minas, no Coração Eucarístico, se prepara para receber visitas de delegações estrangeiras e luta para convencê-las a escolher a Universidade, dentre os outros 173 equipamentos que também foram eleitos. Todos eles farão parte do Guia de

Locais de Treinamento Pré-Jogos, que será apresentado em Londres, em julho deste ano, aos Comitês Olímpicos e Paraolímpicos dos países participantes das Olimpíadas. "Vai ser fantástico para a gente, um respaldo muito bom para o complexo e para a Universidade enquanto instituição também", define Brucce Cota, 33 anos, integrante da equipe. O anúncio foi feito em janeiro deste ano pelo Comitê Organizador das Olimpíadas e a Universidade assinou um termo de compromisso em fevereiro. A exigência, que já RAQUEL DUTRA

Para Antônio Guanaes, BH é próxima ao Rio de Janeiro é isso é atrativo

foi cumprida pela equipe, é a de enviar fotos, descrever o equipamento, indicar questões climáticas, de altitude, de proximidade do Rio de Janeiro, sede dos Jogos Olímpicos, e de qualidade de serviço médico nas imediações, como exemplifica Antônio de Pádua Domiciano Guanaes, também membro da equipe gestora do Complexo Esportivo. "A proximidade de BH com o Rio é um atrativo muito interessante. Então, uma pista com a qualidade nossa disponível num raio de movimentação de uma hora de avião, são poucas", conta. Antônio Guanaes explica que, para se diferenciar, é possível que cada instalação produza um material gráfico próprio para divulgação de si mesma. Esse movimento não é obrigatório, mas a Universidade está produzindo. Os contatos de delegações estrangeiras já começaram a acontecer, como por exemplo, integrantes da embaixada da Alemanha e do comitê olímpico e paraolímpico da Austrália. O número de delegações que utilizará o Complexo Esportivo não é previamente definido. As

A pista da PUC Minas está dentro dos padrões exigidos pela Federação Internacional de Atletismo delegações que primeiramente fizerem contato podem fazer exigências de adequações ou de exclusividade. O uso da pista e as exigências são todas pagas pela equipe, mas, Antônio Guanaes esclarece que, apesar de a questão comercial ter sido um fator que influenciou na hora da inscrição, uma vez que o complexo esportivo precisa pensar na sua sustentabilidade, a equipe gestora tem "horizontes mais amplos para o complexo esportivo". Ele diz que é uma oportunidade única. "Nós temos um curso de educação física dentro da universidade. O complexo esportivo é um centro gerador de projetos e possibilidades de esporte, lazer e qualidade de vida. Ter uma equipe de ponta utilizando nosso equipamento, é uma visibilidade incrível para a Universidade no mundo todo", conta. A pista de atletismo está em uso há quatro

anos e possui durabilidade de 10. Mesmo sendo resistente ao tempo, Antônio Guanaes informa que a PUC irá investir em qualidade de manutenção do material até 2016. O local foi selecionado por estar dentro dos padrões exigidos pela Federação Internacional de Atletismo (IAAF) e todas as provas de atletismo poderão ser treinadas na PUC, entre as masculinas e femininas, como, por exemplo, marcha atlética, corridas com barreiras e obstáculos, revezamentos, arremesso de peso, lançamento de disco, saltos em altura, distância, triplo e com vara, até mesmo a maratona, que é realizada na rua, mas necessita de treinamento em local interno. Quanto à funcionalidade no dia a dia de uma pista de atletismo desse porte dentro da Universidade, Antônio Guanaes pontua alguns eventos que são realizados com frequência no local ou que já

ocorreram ao longo desses quatro anos: a "Caminhada e corrida orientada" (leia a matéria abaixo), aulas de atletismo e de modalidades específicas de disciplinas do curso de educação física da PUC Minas, Jogos da Juventude, realizados pelo Comitê Olímpico Italiano, testes físicos de árbitros da federação mineira de futebol, entre outros. Em Belo Horizonte, outras duas instalações foram também selecionadas, a Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional da UFMG e o Minas Tênis Clube. Em Minas Gerais, há um total de 12. "Tínhamos plena confiança que tínhamos a possibilidade de sermos selecionados", salienta Antônio Guanaes. "É uma perspectiva de que o trabalho e o equipamento que a gente tem estão sendo reconhecidos", completa Brucce Cota.

Pista de atletismo é alternativa para comunidade RAQUEL DUTRA

n GABRIELA MATTE 3º PERÍODO

A falta de segurança, a poluição sonora e o trânsito são alguns dos transtornos que têm levado muitos moradores de Belo Horizonte a parar de realizar atividades físicas regularmente nas ruas da cidade. A falta de opção de locais para se realizar uma caminhada perto de casa é um problema para grande parte da população que deseja se exercitar, mas não tem alternativa. Há pouco mais de três anos, os moradores do entorno da PUC Minas, no Coração Eucarístico, ganharam uma nova opção para realizar caminhadas em um lugar seguro, dentro da cidade e perto de casa. Durante todo esse período, a "Caminhada e Corrida Orientada" tem ganhado mais e mais inscritos. O projeto, que começou em março de 2009, consiste na abertura da pista

de atletismo do Complexo Esportivo do clube da PUC Minas para a comunidade acadêmica, professores, alunos e funcionários e para comunidade externa, o que inclui não somente moradores da região, mas de qualquer bairro de Belo Horizonte. "Qualquer pessoa que queira participar, treinar com a gente, fazer atividade física, pode vir", conta Brucce Cota, 33 anos, coordenador da academia do clube da PUC, que organiza e gerencia a Caminhada e Corrida Orientada. As pessoas interessadas devem fazer matrícula, pagar taxa de R$ 25 por mês e passar por uma avaliação física antes de iniciar as atividades. Os alunos são, necessariamente, acompanhados por um profissional de educação física na pista de atletismo e podem fazer caminhadas ou corridas. Brucce diz que o projeto não é, simplesmente, a

existência de um espaço aberto ao público, mas que a prerrogativa é a orientação de um profissional que sempre irá interferir e orientar a prática em função dos interesses da pessoa, da avaliação física e do atestado médico. "O que me fez vir para cá foi o apoio e a instrução", alega o estudante Leonardo dos Santos Cabral, 28 anos, que há apenas duas semanas frequenta a pista de atletismo e é morador do Bairro Santa Tereza. O jovem, que tem o objetivo de treinar para provas de aptidão física de concursos públicos, conta que gostou e escolheu participar do projeto, principalmente, pelo apoio dado e pela qualidade da pista. "Uma pessoa que tenha somente o interesse de fazer uma caminhada, vai fazer a caminhada. Uma pessoa que tenha o objetivo de correr uma prova qualquer, meia maratona, uma maratona, o que for, ela

pode treinar e os professores vão orientar nesse sentido", completa Brucce. Terezinha Maria de Oliveira Aciole, 59 anos, optou por realizar caminhadas no clube em busca de qualidade de vida. A moradora do Bairro Coração Eucarístico frequenta o projeto desde que foi aberto, de segunda à sextafeira, e conta que caminhava na rua antes de ter essa alternativa. "Eu não acho que vale a pena caminhar na rua por causa da poluição, trânsito. Você não faz uma caminhada sadia. Você fica parando muito pra atravessar. Aqui não, aqui é direto, esse ar puro, isso aqui é maravilhoso", relata. Maria Lúcia Texeira Paulino, 66 anos, concorda com Terezinha que a tranquilidade é o diferencial. "Aqui você caminha e se você não tiver com radinho, nem precisa. Você escuta o cantar dos pássaros, esse verde, esse cheirinho de árvore, de terra. É muito diferente.

O espaço é aberto ao público que recebe orientação de um profissional No meio da cidade você ter um ambiente tão oxigenado igual a esse aqui, faz bem a qualquer pessoa", pontua Maria Lúcia, que vem há dois anos, três vezes por semana. A modalidade tem 250 a 300 pessoas cadastradas entre alunos, professores, funcionários e outras pessoas. O clube está aberto à comunidade de segunda à sexta-feira, de 7h às 9h e de 17h às 19h. Diariamente, 90 pessoas, em

média, comparecem em cada turno. Na parte da manhã, Elidia Braz, 37 anos, é a profissional de educação física responsável desde o início do projeto em 2009. "Eu monto o treino, prescrevo as atividades para cada pessoa", aponta. Ela diz que ama o trabalho que faz e que tem um carinho enorme pelos alunos. "Eu conheço um por um a história de vida a história da casa, de saúde, tudo", garante.


Cidade Junho • 2012

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Com o intuito de conscientizar a população e motoristas sobre a importância da bicicleta, projeto valoriza o veículo como meio de transporte urbano, podendo ocupar vias e merecendo respeito de todos os envolvidos no trânsito

BIKE ANJOS MOSTRA O PAPEL DA BICICLETA NA CAPITAL GLEIDSON ALVARENGA

n GLEIDSON ALVARENGA NAYARA JANAÍNA 2º PERÍODO

Bike Anjos é um projeto que no Brasil iniciou-se na cidade de São Paulo em dezembro de 2010, chegou a Belo Horizonte em 2011 e na medida em que é divulgado, por meio de redes sociais e por pessoas que o conhecem, está despertando cada vez mais o interesse e a oportunidade das pessoas de conhecer o objetivo principal do Bike Anjos, que é expandir o ciclo ativismo, conscientizando a população e motoristas que a bicicleta também é um veículo de transporte urbano. Sendo assim, os integrantes do movimento querem mostrar que os ciclistas têm o direito de ocupar as vias urbanas como os carros, motocicletas, entre outros. Os Bike Anjos também se comprometem a ensinar, de maneira voluntária, as pessoas que não sabem andar de bicicleta, ajudando-as depois a pedalar pelas ruas e avenidas movimentadas, com dicas de trânsito orientando, preparando-as para conduzir com segurança pelas ruas da capital. O Bike Anjos BH, tem hoje um grupo com seis voluntários que atendem a pessoas com interesse em

O ciclista Guilherme Lara critica a postura dos motoristas quanto ao desrespeito nas vias públicas e também aponta falta de ciclovias e estacionamentos aprender a pedalar. O estudante de Relações Internacionais, Guilherme Lara Camargo, de 23 anos, é um dos colaboradores no projeto desde fevereiro de 2012. Ele acredita que a adesão à bicicleta como um dos principais veículos de locomoção é possível futuramente, e comenta um projeto de lei do vereador Michel Barbosa, para possibilitar maior popularização do uso de bicicleta que seria adicionar uma raque dianteira para encaixe da bicicleta nos transportes coletivos. Segundo ele, isso facilitaria a vida de muitos que poderão ir pedalando até certo ponto

da viagem, tomar um ônibus mesmo com a bicicleta, podendo deixá-la instalada até o seu desembarque. Mas o projeto precisa de muito incentivo publico e privado e não tem previsão de implantação. Guilherme Lara admite o desrespeito por parte dos demais condutores de veículos para com os ciclistas, pois muitos não têm consciência de que a bicicleta também é um veículo com direito de circulação nas vias. Mas este não é o único problema que um ciclista tem que enfrentar, a falta de um número maior de ciclovias também causa

desconforto, assim como a falta de estacionamento para bicicletas em shoppings, mercados, e outros estabelecimentos comerciais. Nos locais onde existe o estacionamento, há insegurança devido aos riscos de furtos e roubos. E também o fato de o ciclista, acompanhado de sua bicicleta, não poder se locomover nas estações metroviárias nos horários de pico. O horário disponibilizado é a partir das 20h nos dias úteis. Guilherme Lara chama a atenção para a questão da circulação de bicicletas em passeios, que são destinados aos pedestres não ser permitida por lei.

Apesar de nas situações cotidianas esse regulamento ser ignorado por parte de alguns condutores. O projeto, não recebe nenhum apoio da Prefeitura, têm caráter totalmente voluntário. Os ciclistas que trabalham como voluntários no projeto em Belo Horizonte, se prontificam a ir até os interessados em aprender a conduzir, equilibrar e pedalar uma bicicleta, acreditando e ensinando sempre que a bicicleta pode sim ser um meio de transporte, tão seguro quanto qualquer outro. Não há faixa mínima de idade para ter as aulas e as

orientações com os Bike Anjos, mas no caso das crianças, não é realizado o incentivo ao trânsito pelas ruas com grande fluxo de veículos. Segundo Guilherme, preparar o ciclista para pedalar nas ruas de maior fluxo é um trabalho muito importante. "Se não sabe pedalar provavelmente sofre acidente", afirma. "O ciclista durante o dia deve roupas escuras, para melhorar a visibilidade no trânsito aos olhos dos demais motoristas", complementa. O uso da bicicleta como meio de transporte tem como consequência positiva benefícios para o ciclista, como a economia de tempo no trânsito, que em Belo Horizonte está cada vez mais intenso, também à saúde, pois pedalar, não deixa de ser uma atividade física que estimula uma melhor circulação de sangue, queima calorias significativamente. E causa sensação de bem estar no ciclista. Os interessados em participar do projeto ou ser um voluntário Bike Anjo, podem enviar um e-mail para bikeanjobh@gmail.com; ou entrar em contato através das redes sociais.

Visita aos acervos de museus com um clique RAQUEL DUTRA

n ISABELLA FOLSTA VALLE 2º PERÍODO

O Ministério da Cultura criou, em 2003, uma política nacional voltada para o setor museológico, a Política Nacional de Museus Memória e Cidadania, buscando promover a valorização e preservação do patrimônio cultural brasileiro. Em parceria com o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), o Ministério ajudou no desenvolvimento do projeto "Era Virtual", criado em 2008, que possibilita a visitação virtual gratuita a 15 museus brasileiros de quatro estados diferentes e a seus acervos. Entrando no site, é possível fazer um "tour" pelos locais, e a partir de um clique ampliar todas as obras expostas, possibilitando ao navegador uma maior observação dos detalhes. Durante a visita, há também textos explicativos sobre cada setor e cada obra das exposições. Localizado no Bairro Cidade Jardim, na Zona Sul de Belo Horizonte, o Museu Histórico Abílio Barreto (MHAB), cuja sua missão é promover o recolhimento, a

preservação, a pesquisa e a divulgação do acervo histórico de Belo Horizonte, adotou a programação virtual que inclui um percurso pelos cômodos do casarão colonial, antiga Fazenda do Leitão, com objetos de uso doméstico, mobiliário, quadros, documentos, livros, mapas e fotografias. Já no edifício-sede, pode-se conhecer um pouco da história dos bares na capital, além de estar exposta uma mostra de cartões postais que revelam as transformações do visual da cidade, entre 1902 e os dias de hoje. "Foi feito um contrato não pago com o museu, pelo direito do uso de imagem do local. Disponibilizamos o conteúdo, e a parte visual de fotos ficou por conta do site", afirma o museólogo, coordenador e responsável pelo processamento técnico de acervo do museu, Victor Louvisi, 35 anos. O esperado é que com o aumento de visitações através do site, o MHAB perca seu público. Porém, a opinião de funcionários do museu não segue essa linha. De acordo com Átila Siqueira, 25 anos, histori-

ador e funcionário do MHAB "O projeto não atrapalha no interesse de vir ao museu. Pelo contrário. Estimula a visita, além de trazer a facilidade para quem mora longe poder conhecer", afirma. O museólogo Victor Louvisi considera a "Era Virtual" vantajosa também em outros aspectos. "Acho muito interessante esse tipo de inovação. A vantagem é que com ela, podemos divulgar o museu principalmente para quem não tem condições de vir até aqui. Não é uma forma de perder o público, e sim atraí-lo. Além disso, também é uma forma de guardar a memória de todo acervo do MHAB, podendo ser futuramente acessado", ressalta. Mesmo com suas inúmeras vantagens, o projeto de visitação pela internet não dispensa a visita presencial. A historiadora e técnica do patrimônio cultural do MHAB, Joanna Guimarães, 32 anos, considera o percurso online pelo museu uma boa possibilidade de interação e de apresentação do local, mas que não substitui a visita presencial. "Acho que a visita pela internet não

substitui a visita presencial. Assim a relação com o patrimônio se torna mais real e você tem uma maior visão de tudo", diz Joanna. De acordo com a historiadora, a criação do projeto apresenta pontos positivos e negativos simultaneamente. "O bom é que com o projeto, podemos realizar visita prévia, sendo melhor para o visitante se organizar e saber o que vai visitar posteriormente no museu. Porém, considero uma visita fria, sem envolvimento algum com os objetos expostos", afirma. Para frequentadores conservadores como o empresário Irã Lopes, 49 anos, que gosta de passear com sua filha pelos museus da cidade, a visitação online não é vantajosa. "A visita através da internet é muito impessoal. O lúdico de ver pessoalmente, é muito mais interessante. Acho que essa nova geração deixaria de visitar o museu com a criação do site. Como pai, acho que é preciso que os pais exerçam o papel de estimular os filhos a conhecerem museus pessoalmente ao invés de visitar pela internet." Tanto Irã

O museólogo Victor diz que as visitas virtuais são formas de atrair o público quanto o Engenheiro Marcelo Ribeiro, 35 anos, consideram a visitação ao MHAB uma forma de lazer. "Eu acho que a visitação pela internet é mais acadêmica do que para quem está em busca de cultura. É muito diferente quando se está sentado na cadeira tendo acesso a tantos outros sites e quando se tem contato com os objetos e com o ar livre como aqui no MHAB. Se a pessoa está em busca de lazer, nada substitui a visitação presencial", afirma. Vitor Louvisi faz questão de valorizar a visita física aos

museus. "A visita presencial é superior à virtual, pois com ela é possível um melhor entendimento da história de Belo Horizonte e de um maior aprendizado patrimonial. A memória é uma experiência individual. A visita feita pessoalmente pode marcar mais a memória do que uma simples visita pela internet. Lembrome de uma vez que um homem mais velho, de barba branca, me contou que se lembrava de sua visita ao museu quando tinha 14 anos. Achei isso muito significativo”, diz.


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BERNARDO MONTEIRO É ESPAÇO DE LA Localizada em plena Região Hospitalar de Belo Horizonte, no Bairro Santa Efigênia, sob frondosas árvores que garantem sombra e clima ameno o ano inteiro, a Avenida Bernardo Monteiro é um importante ponto de disseminação da cultura, arte e gastronomia. As diferentes feiras que ocorrem naquela via pública, caracterizada por largos canteiros centrais, alegram os finais de semana de seus frequentadores. A diversão começa na sexta, com a Feira das Flores e segue aos sábados, com a Tom Jobim, que se divide entre comida e antiguidades. MARIA CLARA MANCILHA

n CAROLINA LACERDA PEDRO FONSECA 1º PERÍODO

Se Minas Gerais é reconhecida pelos pontos turísticos, Belo Horizonte abriga um ambiente digno de um belo cartão postal bem no coração do Santa Efigênia: a Feira das Flores e Plantas Naturais, que tem o número de visitantes estimado em 3 mil pessoas por sexta-feira. A Feira das Flores traz consigo uma história de longa data em Belo Horizonte, contando hoje com 44 expositores e mais de 60 tipos de flores, plantas, mudas e espécies exóticas. A feira surgiu em 1984, no adro da Igreja da Boa Viagem, sendo transferida logo depois para a Praça da Liberdade, sempre com funcionamento às sextas-feiras. Em 1991, foi transferida para a Avenida Bernardo Monteiro, entre Avenida Brasil e Rua Padre Rolim, onde é realizada todas as sextas-feiras entre 8h e 18h, sendo organizada pela Fundação Municipal de Cultura, por meio da Secretaria Municipal de Administração Regional Centro-Sul. Bem avaliada por feirantes e frequentadores, a feira acontece independentemente de chuva ou sol, mas sempre com um entusiasmo e atenção aos clientes como ressalta Sônia Vicentino, há mais de seis anos revendendo flores. "É essencial a educação, estar sempre feliz, sentindo dor e sorrir, até chovendo está ótimo", afirma com um sorriso no rosto. O bom atendimento, a beleza e a proximidade com a área hospitalar, são motivos que fazem com que os visitantes venham de diversos lugares.

A Feira das Flores e Plantas Naturais, que recebe, em média 3 mil pessoas por dia, conta com 44 expositores e mais de 60 tipos de flores, plantas, mudas e espécies exóticas MARIA CLARA MANCILHA

André Luís Claret, há dez anos na feira, trabalha juntamente com mais duas pessoas para que toda a logística tenha bons frutos. Ele oferece como diferencial em relação a outros feirantes os vasos de cerâmica que expõe. Para ele, a feira é sua principal fonte de renda, e trabalha também com serviços de frete. Diz que começou na feira através do pai Antônio Maria Claret que já expunha e também conta do prazer de trabalhar na MARIA CLARA MANCILHA

Clara Ribeiro conta que a ida à Feira das Flores é um compromisso certo às sextas-feiras

feira, pelo fato de estar sempre em contato com novas pessoas e criar amizades com os frequentadores. Norton Borges, de 50 anos expõe há 30 na feira. Além de também expor na feira do mineirinho às quintas e domingos, cultiva e revende algumas das flores, para que assim sempre possa trazer novidades que muitas vezes vêm de outras regiões do país. Segundo ele, as melhores datas da feira são véspera do dia das mães, dos namorados, e final do ano, "quando as pessoas enfeitam a casa". Para Wagner Franz de Lima, 52 anos, professor universitário e frequentador assíduo da feira, é um prazer ir ali e acredita que faltam mais locais como este em Belo Horizonte. "Eu sou apaixonado pela natureza e acredito que todo ser humano devia se apaixonar", afirma. Formado em direito internacional e administração de empresas, Wagner morou em vários lugares do mundo, por causa da sua atividade profissional. "O Brasil precisa cuidar mais do planeta terra e planeta água, sou muito ligado em feiras e em natureza, exposição de orquídeas e bonsai, vou em todas que sou convi-

dado", conta ele. Maria Margarida Fontara, professora de 61 anos, mora em Arcos e estava na feira pela primeira vez, diz que veio por indicação do filho, que ficou encantado com as flores e indicou a feira. Maria é apaixonada por orquídeas, bromélias e rosas, diz ter ido comprar flores para se dar de presente, e viu uma organização e atendimento exemplar durante o passeio. Clara Ribeiro, 56 anos, professora e moradora do Bairro Santa Tereza, diz ser um prazer ter uma feira tão bela perto de casa, e é frequentadora de outras exposições de flores por Belo Horizonte, mas o passeio à feira das flores é um compromisso certo às sextasfeiras. Vanessa Barros, de 26 anos, trabalha há mais de 13 na feira e começou através de uma vizinha que convidou para ajudá-la. Logo depois trouxe as irmãs para trabalhar, hoje são quatro pessoas envolvidas na logística para a exposição às sextas-feiras. Vanessa é uma das feirantes que revende, mas não cultiva as flores, o que abre o leque para sempre trazer novidades de outros lugares do país.

A variedade de flores atrai vários olhares


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Junho • 2012

AZER E CULTURA NA CAPITAL MINEIRA MARIA CLARA MANCILHA

Feira Tom Jobim oferece atividades culturais, comércio e gastronomia A Feira Tom Jobim acontece também na Avenida Bernardo Monteiro, porém, aos sábados, das 10h às 18h. Segundo o site da Prefeitura de Belo Horizonte, que administra a feira por meio da Secretaria Municipal de Administração Regional CentroSul, ela abrange a feira de comidas e bebidas típicas e a feira de antiguidades. Segundo informações da Secretaria, a feira se divide em dois espaços diferentes, um onde 27 expositores de antiguidades comercializam seus trabalhos e coleções e outro para comidas e bebidas, integrado por 19 feirantes. Os expositores da Feira de Comidas e Bebidas, alguns com mais de 20 anos de trabalho na feira, contaram sobre algumas

iniciativas que já aconteceram com o propósito de atrair mais visitantes para a feira e disseram que são ações muito importantes para a manutenção e sucesso da mesma, além de sugerirem várias ações que podem ser feitas para renovar e melhorar a qualidade da feira. Washington Antônio Gomes, há três anos na barraca de Comida Mineira, já trabalha no ramo há 20 anos e participa de outras feiras, motivo pelo qual foi convidado pela associação dos expositores a participar da Feira Tom Jobim. Ele disse que a divulgação é importante e que tem visto isso acontecer em jornais e às vezes até na televisão, quando acontece algum evento

especial na feira. Por outro lado, ele acha que seria uma boa ideia trazer brinquedos para a feira, uma vez que ela é bastante frequentada por crianças, que costumam ir acompanhadas dos pais. Ele mesmo já teve a iniciativa de levar, mas foi barrado pela prefeitura, por falta de licença. No comando da barraca de culinária italiana, está Teodoro Peluzzi Filho, o "Peluzzinho", que participa da feira há sete anos. Peluzzi também participa do evento gastronômico "Festa da Itália", que acontece anualmente na capital mineira. Ele contou sobre o apoio que tiveram no ano passado do Serviço Social do Comércio (Sesc-MG),

que contribuiu com a organização de eventos culturais, com música de alta qualidade. Porém, após o período das chuvas, em que a feira costuma ficar mais vazia, essa iniciativa ainda não voltou a acontecer. Ele afirma que dentro da Prefeitura "tem pessoas que têm interesse em ajudar e tem outros que não têm interesse", o que na opinião dele é prejudicial à feira, que sofre sem esse apoio. “Existe a necessidade de participação de mais barracas, porém, barracas com alimentação de qualidade e não pra repetir o que já temos; tem que ser comidas novas, diferentes, culinárias de outros países serão bem-vindas, mas, para isso acontecer, a prefeitura teria que fazer uma licitação, e ela não faz essa licitação", afirma. Dessa forma, a feira acaba sendo mais organizada pela associação dos expositores e contando com o apoio de instituições como a Idear, que promove o evento "Festa da Música", que acontece todo ano e leva atrações musicais à Feira Tom Jobim. A associação promove o Mês do Choro, que leva bandas de chorinho à feira, uma iniciativa que costuma agradar o público belo-horizontino. Apesar dessas iniciativas da Associação e de instituições que apoiam a feira, Peluzzi relata que existem algumas limitações de infra-estrutura que dificultam os trabalhos. "Nós temos poucas mesas, é preciso melhorar o atendimento, os garçons precisam aprimorar o atendimento, ou seja, tem uma série de questões que merecem uma atenção especial pra que a coisa dê certo". Na "Barraca Árabe", ou "Barraca da Vânia", que participa da feira há 23 anos, as opiniões são as mesmas. Escandar Alcici Curi, seu filho, que costuma ajudar a família na barraca, além de

ser ator e professor de teatro, comenta sobre a época em que a feira era mais cultural. "Teve momentos, há anos atrás, que a feira era muito cultural. Aconteciam muitos eventos da cidade, como o FIT (Festival Internacional de Teatro) e a feira era bastante movimentada, mas depois esse eventos foram parando e começaram a vir muitos pedintes e a feira esvaziou. Mais tarde, um grupo de contadores de histórias, o Aletria, junto com a Universidade Fumec, assumiram a parte de eventos da feira, trazendo contação de histórias e apresentações musicais e o movimento voltou a crescer". Para ele, a feira está com um bom movimento atualmente, apesar desses eventos não estarem acontecendo. Ele acha que deveriam haver mais atividades culturais na feira e dá a sugestão de exposições de livros de sebo, mostras gourmet's, teatro e dança. Duas senhoras têm uma história especial na feira. Maria José, da "Barraca da Zezé", que oferece a culinária nordestina e Marta Maria, da "Barraca da Tia Marta", de culinária mineira. Elas trabalharam na feira como garçonetes durante 15 anos e em um momento de declínio, tiveram a oportunidade de montarem suas próprias barracas. Elas aproveitaram o momento de crise e já estão há oito anos como proprietárias. As duas concordaram que os eventos culturais são importantes para estimular o público e disseram que esperam que as contações de histórias e os grupos de chorinho voltem a fazer parte da programação. "Minha barraca vende! Com chuva ou sem chuva! Às vezes com chuva ainda vende mais, eu graças a Deus tenho uma clientela boa", comemora Marta Maria.

Comerciantes de antiguidades se consideram desprestigiados Em outro quarteirão da Bernardo Monteiro ficam os expositores da Feira de Antiguidades. Fernando Henrique, que trabalha com objetos, cartões postais e discos de vinil das décadas de 50, 60 e 70, afirma que essa parte não tem nenhuma ligação com a de comidas e bebidas. "Essa feira é desorganizada e a feira de comidas é outra coisa", diz. Ele considera que falta ação para trazer mais público para a feira de antiguidades e sugere que a Prefeitura coloque à frente da organização uma pessoa com experiência no mercado de antiguidades e algum interesse em promover cultura na cidade. Além disso, ele lembra a importância da divulgação: "Se você for olhar no catálogo da Belotur, vai encontrar apenas informações da feira de comidas e quase nada referente à nossa parte". Jornalista aposentado, Teó-

dolo Amauri da Mota, que expõe artigos de antiguidade há cinco anos, também reclama da precariedade na divulgação da feira. “A prefeitura não divulga a feira, então aparece pouca gente e tem gente que nem sabe da existência dela”, afirma. Ele diz que a ênfase maior é dada à feira de comidas e bebidas e também fala da necessidade de melhorar a infra-estrutura, com reparos no calçamento, limpeza do espaço e maior organização. A Prefeitura de Belo Horizonte, por meio da Gerência Regional de Comunicação Social da Região Centro-Sul, argumenta que a divulgação não é feita com grande ênfase, por já ser uma feira antiga e o conhecimento sobre ela se dá mais pelo chamado "boca-a-boca". Quanto à disponibilização de banheiros químicos, que é feita por meio de terceirização, a empresa

responsável disse que irá apurar o que foi informado pelos entrevistados na matéria. Em relação à conservação do espaço, a Prefeitura informou que enviou em maio último equipe para verificar irregularidades.

DIFERENCIAL Citada como melhor pelos vendedores de antiguidade a parte de alimentação da Feira Tom Jobim reúne um público diversificado: famílias com crianças, casais, grupos de jovens amigos. Dênio Marques e sua esposa Kátia, ambos industriais, têm o costume de visitar a feira e afirmaram que a música ao vivo e a melhor organização têm contribuído para o bom movimento. "A feira está mais tranquila, não se vê mais pivetes, o que antigamente tinha muito", afirma Dênio. Para o casal, a variedade de pratos oferecidos na feira é o grande diferencial. Ele ressalva que o número de barra-

cas está diminuindo. “Seria interessante trazer mais barracas, maior variedade", diz. Alex Valter, analista de sistemas, estava visitando a feira pela primeira vez com um grupo de amigos. Ele conta que já havia ouvido falar sobre o evento e teve ótimas recomendações: "Estou gostando do ambiente", ressalta.

Vanderley de Matos Júnior, que trabalha na montagem das barracas há 20 anos, cobra melhorias. “Deveria ser instalado banheiro com água para as pessoas lavarem as mãos e vaso sanitário adequado, porque os banheiros químicos que são disponibilizados não funcionam", afirma. MARIA CLARA MANCILHA

Boas e variadas opções de comidas ajudam a movimentar a Feira Tom Jobim


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Junho • 2012

PEQUENOS HERÓIS DE QUATRO PATAS Equipe de cães do Corpo de Bombeiros auxilia na busca e resgate de pessoas perdidas em matas e escombros. O faro dos animais é determinante para reduzir o tempo das buscas RAQUEL DUTRA

n JULIANA SILVEIRA 1º PERÍODO

Além de contar com cerca de cinco mil homens, o Corpo de Bombeiros de Minas Gerais tem um efetivo de cães adestrados que se dedicam à busca e resgate em escombros e matas. O cão, por ter faro apurado, contribui para diminuir o tempo das operações de buscas, levando os militares direto ao local onde a vítima se encontra. Outra vantagem que os cachorros trazem ao trabalho dos bombeiros, é que o militar é poupado e fica em maior segurança. E esses cães treinados terão papel importante no conjunto de medidas de segurança a serem adotadas para a Copa do Mundo de 2014, no Brasil. O canil está localizado no Bairro Saudade, na Zona Leste de Belo Horizonte, e é composto por oito cães, sendo cinco pastores belga malinois (raça usada nos Estados Unidos e na Europa, na parte de trabalho geral, não só como cão de busca e resgate, como cão de procura a entorpecente e proteção) e três labradores, que são cuidados e treinados por seis militares. O tempo de serviço de um cachorro é, em média, de oito anos. Edmar Carvalho de Jesus, 43 anos, sargento do Corpo de

O soldado Waldemir treina a cadela Beni para capacitá-la em missões de resgate

Bombeiros e instrutor da Força Nacional de Segurança Pública diz que a dificuldade maior é quando se trabalha com cães de doação, porque já tem uma idade mais avançada e não estão acostumados com atividade física. "Geralmente as pessoas só doam o que está dando problemas para elas", afirma. Com a Copa do Mundo em 2014, há uma atenção voltada para a segurança pública, o que envolve também o trabalho dos cães, por isso, vai haver um curso de nivelamento para os instrutores e novos cachorros, que foi proposto pela Secretária Nacional de Segurança Pública (Senasp) para ser efetivado em 120h (três semanas). O sargento Carvalho se preocupa com o tempo proposto para treinamento. "Não tem como em 120h a gente formar um cão de busca e resgate, por isso queríamos um curso de no mínimo dois meses. Agora, para assegurar o lado dos instrutores, que é o meu caso, eu propus à Senasp que os cachorros sejam avaliados antes de começar a trabalhar para ver se estão aptos", revela. Ele cita como exemplo o caso de um instrutor como ele que não certifica o seu cão para trabalhar. "Vamos supor que assim mesmo ele vai trabalhar no Mineirão, daí se solta da coleira e corre atrás da bola atrapalhan-

do o jogo, aí eles vão virar para mim e dizer: 'É Carvalho o cachorro que você treinou fez um vexame', ai eu posso responder que havia alertado a Senasp que esse cão não estava apto. Essa pré-avaliação foi aceita e será padronizada em todo o território nacional, portanto o instrutor, alertando previamente, está livre de qualquer acusação se o cão não estiver bem treinado", explica. Os cães da corporação mineira já se encontram capacitados para trabalhar na Copa do Mundo, e já atuaram no Pan-Americano, no Para-Pan e no Campeonato Mundial de Judô. Atualmente, o foco se volta para um credenciamento mundial de cães de busca e resgate, para que caso haja, por exemplo, um terremoto em um país próximo, os cachorros sejam enviados rapidamente para ajudar. Com a proximidade da Copa de 2014, a preocupação aumenta, e cada vez mais medidas de segurança são criadas ou ampliadas. Embora se espere que não haja grandes preocupações com relação a isso, pessoas como o sargento Carvalho estão empenhadas em fazer com que o evento futebolístico seja só diversão para o público, colocando-se de prontidão para qualquer ocorrência e levando com profissionalismo o trabalho que desenvolve junto com os pequenos heróis que caminham sob quatro patas.

Pontos gratuitos de internet em BH na berlinda n STENYO SANTOS

garante. A velocidade de conexão na 2º PERÍODO maioria das vezes é o probleBelo Horizonte conta atualma ao se oferecer internet gramente com mais de 50 pontos tuita em locais públicos, e de internet gratuita. Os segundo a designer gráfica chamados "hotspots" foram Daniela Jácome, de 28 anos, a criados em 2008 e fazem parte qualidade do serviço variou do Programa BH digital, que nos pontos em que ela utilivisa levar internet de graça a zou. "Na Assembleia obtive uma boa velocidade, mas na praças, vilas e favelas com um faculdade de direito, por não enfoque na inclusão digital. A estar próxima da prefeitura, Prefeitura da capital investiu, ocorreram oscilações na inicialmente, cerca de R$4,5 conexão. Alguns dias estava milhões inicialmente. Hoje, o R D bem rápida, mas em outros eu não conseguia acessar os sites", comenta. André, que utilizou o serviço no Palácio das Artes, ficou satisfeito com a conexão. "Foi satisfatório, porque eu consegui acessar o que queria sem nenhuma dificuldade", diz. George Wilson Almeida Machado, diretor de rede da Prodabel, afirma que o número de usuários no local pode determinar a velocidade de navegação. "A velocidade vai depender da quantidade de pessoas que acessarem, se tiver um usuário sozinho ele vai ter a velocidade total para ele, mas se acuPara a designer gráfica Daniela Jácome a qualidade dos pontos de internet gratuitos que ela utiliza varia muito dependendo da localização mularem 10 pesprograma conta com mais de 45 mil cadastrados, e com uma demanda de 1200 usuários, em média, por dia. O critério para a escolha dos pontos varia, mas geralmente, são escolhidos locais onde a aglomeração de pessoas é grande, como nas praças Sete e da Liberdade. Outro critério é a priorização de locais carentes, onde a internet é de difícil acesso, como em oito vilas e favelas atendidas atualmente pelo projeto da PBH.

Para utilizar a internet gratuita é preciso um notebook ou smartphone com a tecnologia wi-fi, que quando ativa, acha a rede nos locais disponíveis e se conecta. Para acessar o serviço oferecido pela Prefeitura, é necessário fazer um cadastro, que para André Aravechia, de 36 anos, não foi muito complicado. "Fiz o cadastro em menos de dois minutos, foi bem tranqüilo. Cadastros são sempre chatos, mas esse foi muito simples",

AQUEL

UTRA

soas, por exemplo, a velocidade vai diminuir", explica. A prefeitura estipula um prazo máximo de três horas diárias para cada usuário que utiliza o serviço, e, para Daniela Jácome, que faz uso da internet para trabalho e faculdade, esse tempo é suficiente. "Acredito que para resolver coisas importantes três horas são o suficientes", afirma. Tanto Daniela quanto André fazem avaliações positivas e negativas sobre o serviço oferecido pela PBH. A designer ressalta que o programa é um avanço para a cidade: "Acho o serviço muito bom, seria melhor se aumentassem a quantidade de locais de acesso à internet gratuita, para que as conexões fossem possíveis em qualquer região da cidade", comentou. Já André elogia a parte social do projeto, mas reclama da pouca divulgação do programa por parte da prefeitura: "Eu acho que é válido todo o investimento feito pela prefeitura, o único erro é a pouca divulgação por parte deles", observa. Segundo George, uma divulgação maior deverá ocorrer em breve. "Eu imagino que no final do ano, quando a gente terminar os novos pontos, o prefeito deverá fazer uma grande divulgação. para a Copa de 2014 com certeza a divulgação será muito ampla", comenta.


Cidade Junho • 2012

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CARROÇAS NO MEIO DE ACIDENTES Em avenidas e ruas da capital mineira, carroceiros e motoristas enfrentam problemas para transitar. Eles se acusam por desrespeito às leis de trânsito, imprudência e falta de atenção PIERO MORAIS

n JONAS SOUSA PEDRO MATOS 2º PERÍODO

Carroceiros estão se envolvendo em acidentes nas ruas e avenidas de Belo Horizonte com frequência. A diferença de velocidade entre carros e carroças, a impaciência de alguns motoristas, a falta de atenção e a imprudência no trânsito dos dois lados são algumas das principais causas desses acidentes, segundo os próprios carroceiros. Como consequência, intensificaram-se os problemas na rotina e na valorização da profissão de condutor de carroça, que sobrevive por ser fácil e mais barato para recolhimento de entulhos da cidade. A convivência entre motoristas e carroceiros nas principais ruas e avenidas da capital não costuma ser muito amistosa. Diariamente, de acordo com relatos dos condutores de carroça, eles enfrentam as mesmas dificuldades que um motorista comum, no trânsito, como engarrafamentos, buracos e alagamentos, por exemplo. No entanto, por ser um veículo de tração animal, a carroça não dispõe da mesma velocidade e agilidade dos veículos con-

vencionais, o que dificulta ainda mais o trabalho de quem precisa dela para se sustentar. "O trânsito só está piorando. Antes a gente ia até o centro para fazer os carretos, mas agora só andamos dentro dos bairros mesmo", conta o carroceiro José João, 58 anos, que já sofreu um acidente com um trator, sem se machucar gravemente. Desde a criação das Unidades de Recolhimento de Pequenos Volumes (URPV's), os carroceiros têm locais específicos para o depósito de entulho e restos de materiais. Mas, a distância entre as unidades faz com que os carroceiros, dependendo de onde estejam, tenham que percorrer uma grande distância para depositarem o entulho corretamente, muitas vezes passando por grandes avenidas, o que aumenta o risco de acidentes. Para Ricardo Célio, de 41 anos, a ampliação das URPVs facilitaria o deslocamento dos carroceiros pela cidade. "Na Região Noroeste, a URPV mais próxima é essa unidade da Avenida Pedro II. Do Caiçara, por exemplo, temos que trazer para cá, e isso atrapalha muito", afirma. PIERO MORAIS

O carroceiro Francisco Ribeiro fala dos desrespeitos às leis de trânsito

O carroceiro Emerson Vaz, 35 anos, conta como se envolveu em dois acidentes graves nos últimos tempos. "Minha carroça estava parada e um motorista bateu nela, acho que ele cochilou no volante. Ele até pagou direitinho, o estrago foi tão grande que tive que fazer outra, ainda bem que eu não estava na carroça", conta. O outro acidente foi causado pelo cavalo. "Da outra vez o cavalo desceu sozinho a Rua Zurik, no Bairro Gameleira, e 'atropelou' um monte de carro. Corri atrás da carroça e tentei pular em cima, até desmaiei", diz. A imprudência e o desrespeito às leis são, geralmente, os principais fatores que causam os acidentes no trânsito. O motorista Abelírio Nascimento, 52 anos de idade e 26 de profissão, trabalha na linha 2570 (Canadá de Contagem - Belo Horizonte) e conta que sua convivência com os carroceiros não é boa, principalmente na Via Expressa, na Região Noroeste. "O problema dos carroceiros é que muitos não conhecem a legislação de trânsito, sempre os vejo andando na contramão e cometendo irregularidades", conta. Já o carroceiro Cleiton Batista, 27 anos, diz que os motoristas de ônibus são os que mais causam problemas aos carroceiros. "Muitos motoristas, principalmente os de ônibus, me fecham direto. Eles não entendem que nós não temos motor, nossa tração é animal, por isso a gente não tem condições de agir como os outros carros", afirma. Ao ser questionado sobre os constantes desres-

Carroceiros enfrentam vários problemas no trânsito e nem sempre têm boa convivência com motoristas de carros peitos às leis de trânsito pelos carroceiros, Francisco Ribeiro da Silva defende a sua profissão. "Tem momentos que nós temos que dar alguma volta de maneira atrapalhada ou outra, mas normalmente nós andamos dentro das leis de trânsito", diz. Além disso, ele alerta que o respeito no trânsito não depende apenas do domínio da legislação ou das condições de locomoção. "Alguns carroceiros desrespeitam sim, mas motoqueiros e motoristas também. Alguns motoristas são educados e outros são mais despreparados. Esse problema não é só dos carroceiros", afirma. No final de fevereiro de 2011, o prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda, aprovou lei que dispõe sobre a circulação de veículo de tração animal nas vias públicas. Para tanto, a legislação considera veículo de tração animal o meio de transporte de carga ou de pessoa em carroça e similares. A lei define que o condutor de veículo de tração animal, ou carroceiro deve respeitar as nor-

mas do Código de Trânsito Brasileiro (CTB) e obedecer, também, à legislação complementar ou às resoluções do Conselho Nacional de Trânsito (Contran) e à legislação municipal específica. Fazem parte dessa lei, regras como a circulação restrita a dia útil e sábado e a de que a condução do animal deverá ser feita pela pista da direita, junto ao meio-fio e em fila única, sempre que não houver acostamento ou faixa a eles destinados, em velocidade compatível com a natureza do transporte. A lei ainda define regras que dizem respeito à jornada de trabalho do animal e ao atendimento e cuidados necessários à saúde deles. A saúde do animal é citada em diversas partes da lei. Apesar da aprovação da lei somente no ano passado, desde 1997, a Prefeitura de Belo Horizonte possui um projeto em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o Programa Carroceiros, que promove o cadastro dos carroceiros e dos animais,

realiza palestras que explicam os cuidados com o meio ambiente, formas de associação e trato dos animais e ainda dá assistência gratuita dos veterinários da UFMG aos animais, incluindo vacinação e exames de prevenção de doenças. Pelo telefone 156, a população pode acionar um dos carroceiros cadastrados no projeto para fazer a retirada do entulhos das casa, prédios ou lotes vagos. O entulho recolhido é levado para as URPV's instaladas na cidade e, posteriormente, o material é enviado para uma das Usinas de Reciclagem da SLU. O carroceiro Ricardo Célio, 41 anos, reclama da falta de fiscalização das URPV's. "As URPV's foram criadas para depósitos de entulhos pelos carroceiros, mas outros carros se aproveitam dos locais para jogarem entulho e materiais que fogem à regra de 'pequenos volumes', além de realizarem carretos que poderiam ser nossos", conta.

Artista plástico produz brinquedos recicláveis RAQUEL DUTRA

n ISABELLE RÊDA MARIANA OZÓRIO 1º PERÍODO

Ser solidário e fazer doações são exemplos do que deveriam ser comuns na sociedade, porém, muitas vezes, não é o que ocorre. Pessoas, como Hernani Gomes Lima, 56 anos, que doa brinquedos, fabricados por ele mesmo, para crianças carentes pode ser considerada exceção. Formado pela Escola Guignard, da Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG) e na Fundação Clóvis Salgado Filho, o artista plástico, comunicador visual, cenógrafo, figurinista e estampador de camisetas, desde os seis anos, já apresentava talento para as artes. Isso foi moldado pelos diversos cursos realizados durante a vida. Tendo trabalhado

como cenógrafo a maior de parte de sua carreira, em peças como "O Mágico de Oz", "Mozart e Salieri", "A Flauta Mágica" e "As Aventuras do Tio Patinhas", Hernani não pensa em se aposentar tão cedo. "Mas eu não paro de trabalhar porque amo os brinquedos", justifica. O ateliê do artista plástico é em sua casa e possui um charme próprio, diferente de todos os outros cômodos. Decorado por ele, o ateliê mostra todo o carinho que Hernani tem pelos brinquedos e pelas crianças. A casa em que mora desde 1980, foi planejada e construída por seu pai. Com três andares, a residência possui 12 quartos, um para cada irmão, e reúne aos finais de semana toda a família. Seu modesto ateliê apresenta um boneco de espuma na porta que

Brinquedos feitos por Hernani Gomes são doados para crianças carentes serve de molde para seu novo brinquedo: marionetes de espuma, que para Hernani representam uma evolução em seu trabalho. Os brinquedos começaram a ser produzidos por Hernani há cerca de dois anos e são feitos a partir de materiais recicláveis, como caixas de leite, rolos de

papel higiênico, embalagens de amaciantes e revistas em quadrinho, pois como a finalidade deles é a doação, o menor custo em sua produção é adotado pelo artista. "Quanto mais barato ficar, melhor", explica. Vizinhos e familiares são essenciais no processo de cons-

trução dos bonecos: os vizinhos com o intuito de inspirar o artista sempre lhe dão moldes de outros brinquedos e assim como sua família, lhe dão materiais que podem a vir ser novos brinquedos, como forma de apoio e suporte. Hernani afirma já ter produzido mais de 500 bonecos, todos para doação, e diz que as crianças do bairro, na faixa etária de 10 anos, sempre o procuram por brinquedos. Segundo ele, todos os dias a campainha toca, com crianças pedindo boneco. O seu local de trabalho reúne brinquedos já prontos dependurados em araras, outros ainda para serem fabricados em um canto no chão do ateliê, além de matériaprima e uma máquina de costura, utilizada pelo artesão para confecção das roupas dos bonecos. Se

Hernani fosse produzir um boneco por vez, ele levaria em média dois dias para finalizar o trabalho, contudo vários bonecos são feitos ao mesmo tempo, e cada dia é feita uma parte do brinquedo. Um dia ele pinta, no outro faz os olhos e a boca do objeto com Etil Vinil Acetato (EVA), e assim por diante. O artista que não se cansa de produzir trabalha de manhã, à tarde e à noite. Muitas vezes a produção dos brinquedos não se limita ao ateliê, e seu quarto deixa de ser apenas um local para descanso e passa a ser uma extensão do seu local de trabalho. O quarto possui uma parede toda desenhada de bambus feitos por Hernani com lápis de cor e aquarela, que segundo ele demorou muito tempo para ficar pronta.


12Cultura

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Artista que já passou pelo Cirque du Soleil traz para as ruas de Belo Horizonte seu personagem, o Palhaço Viralata, com humor e crítica social e participa, com outros palhaços, do projeto Quaquaraquaquá

Junho • 2012

RODRIGO ROBLEÑO ALEGRA COM O ALTER EGO VIRALATA FELIPE AUGUSTO VIEIRA

n JÉSSICA LELLIS PEDRO FONSECA 1º PERÍODO

Rodrigo Robleño, que no papel do palhaço Viralata, com toques de critica social, apresenta um espetáculo com um humor que comprova o longo tempo de estrada. Em um momento de descontração, ele se diz um ex-paulista e mineiro desde "pequemenino". Se descobriu palhaço em uma oficina circense quando universitário, e aprendeu a arte nas ruas da Espanha. Durante quatro anos atuou no espetáculo Varekai do Cirque du Soleil, e, hoje, está feliz com a volta às ruas de Belo Horizonte, participando do projeto Quaquaraquaquá junto ao coletivo de palhaços, na ocupação de espaços públicos. Rodrigo foi um dos coordenadores da 6ª Semana Interplanetária dos Palhaços que aconteceu no mês passado e ainda ministra esporadicamente cursos para iniciação de "pessoas que querem ou não ser palhaço". Rodrigo conta que teve seu primeiro contato com a arte de ser palhaço à época do Teatro Universitário quando teve a oportunidade de fazer um curso de clown com o grupo argentino La Pista 4. Ele relata também a experiência que teve ao morar na Espanha durante três anos. "Tive que passar chapéu na rua para sobreviver. Essa é uma relação muito direta com o público. Quer dizer se eles não gostam do que você está fazendo, eles não te dão dinheiro. Então, você vai aprendendo a olhar para o público, entendendo o que

eles querem", observa. Ao ser perguntado se ele possui outros palhaços no currículo além do Viralata, ele afirmou que enquanto palhaço acredita em uma técnica, em que cada pessoa tem um único palhaço. Assim o Viralata é o palhaço dele, mas como ator ele pode ter vários personagens. O mais conhecido é o personagem que fez no Cirque du Soleil, Skywatcher. Sobre os quatros anos que atuou no Cirque du Soleil, Rodrigo diz ter sido uma experiência muito boa. "Eu não achava que com meu trabalho eu iria, por exemplo, para a Austrália, Nova Zelândia, lugares tão longes. E com o Varekai, fiz 1500 espetáculos em 12 países. É interessante, conviver com diferentes culturas, entender como diferentes públicos reagem a uma piada, isso te ensina um outro viés do trabalho cênico. Profissionalmente é interessante, mas sempre tenho dúvidas do que pode te ensinar, porque é uma super produção que você não tem ao alcance das suas mãos para fazer aqui", afirma. Fazendo um paralelo do Cirque du Soleil e do trabalho da rua, ele considera o segundo muito mais difícil. Primeiro, porque na rua o palhaço está sujeito a intempéries várias, e no circo tem tudo muito bem controlado. "Há a desvalorização midiática, ou do modelo de vida de hoje que incentiva o consumo desenfreado", diz. Por isso, raramente, trabalha passando chapéu hoje em dia. Quando questionado se ele vê alguma semelhança entre ele e Chaplin, pelo fato dos dois serem atores cômicos e dirigirem es-

petáculos, ele respondeu: "Quando falamos de palhaço hoje em dia, pensamos somente ou quase exclusivamente nos palhaços de circo. A tradição de circo tem aproximadamente 250 anos e os registros mostram que a história do palhaço tem pelo menos 4 mil anos. Acredita-se que desde que o ser humano começa a conviver em sociedade tem-se os fazedores de riso. Então, o Chaplin, eu, o pessoal da comédia Dell'Arte, os trapalhões, o pessoal da comedia artelana e os palhaços de circo, participamos de uma mesma tradição", afirma. Para Rodrigo, o palhaço possui uma função social e política. Ele diz que pode ou não falar sobre política em seu espetáculo, mas que gosta de aproveitar os espaços que a mídia abre para abordar esses temas. "Nós vivemos em uma sociedade que cria em nós necessidades de consumir, para vender coisas que não precisamos, cria medos para vender segurança, cria sistemas de poder para nos fazer oprimidos", diz. Quando questionado se é melhor trabalhar com o humor crítico ou o humor inocente ele diz que o melhor humor é aquele que consegue trabalhar com essas duas vertentes. Ainda diz que não gosta muito do tipo de humor "casaco" que está vendo nos dia de hoje, ele não vê graça nele, pois, para ele, uma coisa fundamental no trabalho do palhaço é que ele não zomba do público, mas zomba da condição humana. "É menos por o dedo na ferida de cada um e é mais por o dedo na

Por meio de seu personagem, o palhaço Viralata, Rodrigo Robleño, cativa público de diversas faixas etárias ferida das pessoas", diz Rodrigo, diferenciando o que ele acredita seja feito em muitos dos stand up's. Quando questionado se para ele o circo está em decadência, o palhaço diz que vê um fortalecimento do circo nos últimos 10 anos, apesar de se estar em crise. Segundo ele, circo é algo contemporâneo, que se adapta ao tempo atual, e esse é o desafio enfrentado. "Então se adaptar assim tão constantemente, e ainda mais num mundo que muda tanto, é difícil”, destaca.

APLAUSO Rodrigo revela que a situação mais difícil para um palhaço lidar é com o aplauso. Porém, é também a mais

gratificante, e o sorriso é um simples e grandioso sinal de que uma pessoa é humana. "Pois ser palhaço é mostrar seu melhor brilho, já que ele trabalha com a sensibilidade das pessoas, principalmente através do riso, mas também é uma profissão de denúncia", afirma. Durante uma apresentação, Rodrigo faz algumas destas denúncias, e revela o motivo "A sociedade nos ensina a falar 'eu não consigo', porque assim você tem que buscar tratamento, buscar ajuda, buscar apoio do governo. Quem consegue é o governo, quem consegue é o seu patrão, quem consegue é o outro, é o que tem poder. Se conseguirmos eliminar

essa frase 'eu não consigo', desde crianças, que são quando elas aprendem, teremos pessoas mais felizes e ocupando melhor o seu espaço", afirma. Rodrigo também ministra ocasionalmente cursos de iniciação para pessoas que se interessam pelo ofício de palhaço. Ele considera que ministrar o curso é uma sensação tão provocante quanto estar no palco. "As duas me dão uma sensação de ser limitado, que eu gosto, e me ajuda a ampliar meus limites, sem cair para fora dele. É aquela ideia do planeta terra, que era quadradinho, então até ali dá para ir, vamos, até descobrir que a terra é redonda", analisa.

RAISSA PEDROSA

Grupo Caixinha de Phósphoros rememora clássicos do chorinho n RAÍSSA PEDROSA 4º PERÍODO

Grupo Caixinha de Phósphoros em show na PUC Minas

Formado em 2002, o Grupo Caixinha de Phósphoros vem trazendo para a atualidade um estilo de música autenticamente brasileiro, o chorinho. Criado inicialmente por André Salles Coelho e Túlio Ferreira que eram estudantes de jornalismo à época e por Teresa Moura, atualmente esposa de André, o Grupo cresceu e conta atualmente com 10 integrantes que trazem para a atualidade o choro criado no final do século XIX. Eles consideram essa a época de maior diversidade e qualidade do gênero. O grupo se reúne para tocar

em festas fechadas e possui um repertório que varia de compositores consagrados a artistas pouco conhecidos, como Pixinguinha, Abel Ferreira, João Salgado, Joaquim Callado, Anacleto de Medeiros, entre outros. Para André Coelho, o chorinho é um tipo de música autenticamente brasileira, e, por isso, a escolha de tocar esse estilo. "O choro é a nossa música brasileira mais típica, e, além disso, ela é uma música de muita dificuldade técnica, e mais um ponto também, o fator estético que no chorinho é muito bonito", conta. Luisa Faria Pereira, 21 anos, estudante de jornalismo, acompanhou a apresentação do grupo no 'MPB Quarta', evento

cultural gratuito promovido pela PUC Minas e gostou do que viu. "Eu achei um máximo a apresentação deles! A sintonia dos diferentes instrumentos deixou a música gostosa de ouvir, principalmente com a flauta transversal", diz. Neste dia, além da flauta transversal, havia dois violões, um cavaquinho, um pandeiro e também uma clarineta. O grupo é integrado ainda por Hamilton Azevedo Oliveira Souza, Maria Inês Carvalho Souza e Johnathan Magalhães, que participaram da apresentação na PUC Minas. Para André, o trabalho do grupo consegue atrair, além do público habitual, composto por pessoas mais velhas, uma nova faixa etária de apreci-

adores, que apesar da diversidade de estilos musicais atuais, demonstra interesse pelo estilo antigo. "O chorinho tem, a princípio, uma cara de atrair pessoas mais velhas, porque é uma música muito antiga no Brasil, mas, hoje em dia os jovens estão gostando muito, estão participando, estão querendo ouvir, e o nosso público é de todas as idades", afirma. Luisa é prova disso e também diz que o chorinho é muito bonito e pode instigar a curiosidade de quem não conhece. "Eu vi alguns jovens que foram prestigiar a apresentação, e outros que passavam por ali na hora e se interessavam em ouvir também", lembra.


Cultura Junho • 2012

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ASCENSÃO DO ARTESANATO EM BH Com a consolidação da atividade na capital mineira, o artesanato passa a ser a principal fonte de renda de muitas pessoas, resultado também do aumento de cursos profissionalizantes RAQUEL DUTRA

n MOUNI DADOUN 6º PERÍODO

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o artesanato faz parte de 75% de atividades econômicas nos municípios brasileiros. De caráter interiorano e cultural, passou a ser uma atividade abrangente nas cidades brasileiras e participativa na renda de artesãos, que estão cada vez mais se profissionalizando. Em Belo Horizonte não é diferente. Nayla Chaim, coordenadora do Centro de Referência em Artesanato, localizado à Avenida Amazonas, 2474, no Bairro Barro Preto, afirma que 60% dos alunos que ali se matriculam para cursos de artesanato estão ligados a empresas já consolidadas no setor, além de já estarem há muito tempo no ramo. "São artesãos que já trabalhavam em feiras que com o curso de Melhoria em Acabamentos aperfeiçoaram técnicas e lapidaram talentos", explica. A coordenadora do Centro revela que com o artesanato em alta os cursos profissionalizantes do setor estão em constante adaptação e cada vez mais cursos teóricos e palestras estão sendo incluídos nas grades curriculares. "O Centro, que abriu inscrições para cursos de artesanato em dezembro de 2011, por exemplo, está ampliando as atividades e promovendo palestras, cursos teóricos", afirma. A coordenação do Centro

Exposição de patchwork, arte em tecido, no hall de entrada do Centro de Referência em Artesanato, no Barro Preto informa que estão em cursos 115 alunos, 600 cadastrados e a expectativa para o futuro é chegar a 190 alunos. "Muitos expõem em feiras, como a da Bernardo Monteiro, são autônomos ou trabalham em empresas, aqui são oferecidos além de cursos genéricos de artesanato, oficinas de cor e criação", diz a coordenadora. Na Feira Bernardo Monteiro, localizada na Avenida de mesmo nome, são expostos artesanatos, antiguidades e comidas típicas de Minas Gerais. A feira acontece aos sábados, das 8h às 18h e possui 12 divisões, dentre elas, as de tapeçaria, cama, mesa e

banho ( tecidos) e de esculturas (Leia matéria nesta edição, nas páginas 8 e 9). De Belo Horizonte, formada em Marketing, Gestão de eventos e profissional em artesanato, Fernanda Bruni, de 31 anos, fez um curso de bordado e peças em tecido, patchwork, e diz ter sido uma experiência proveitosa para suas atividades. "O mercado hoje em dia está muito exigente. No meu caso, que tenho uma loja virtual, o mundo todo vê, então a exigência de qualidade do produto originado do artesanato, é grande", diz. Fernanda começou sua carreira em feiras de artesanato e

hoje possui uma loja virtual e após seis meses de curso, faz parte da equipe técnica do Centro, oferecendo aulas de peças em tecidos. "Fui fazendo contatos e me especializando. Conheci o espaço através de uma conhecida que fez o curso, achei interessante, entrei na primeira turma de bordado. A partir daí surgiram oportunidades e possibilidades de trabalhos, juntos a colegas de sala, trabalhos em conjunto, já trabalhava na área, patchwork, peças em tecido. No meu caso, que tenho uma loja virtual, o mundo todo vê, então a exigência de qualidade do produto originado do artesanato, é

grande", acrescenta. Nayla ainda observa que o artesanato do interior é muito procurado, mas que isso está mudando com a consolidação da atividade como profissão." Muitos falam da identidade do artesanato como interiorana, mas já se pode dizer que isto está se ampliando em Belo Horizonte. São oferecidos no Centro cursos gratuitos de cerâmica, peças em tecidos, cursos teóricos, are em cerâmica, palestras e cursos de moda", afirma. A artesã autônoma Maria do Rosário, de 56 anos, afirma que há 15 anos o mercado de artesanato era mais limitado e era só uma contribuição para renda. Ela fabrica brincos, bijuterias e pinturas em tecido. "Ficou mais fácil mostrar o que faço em feiras e exposições. Antes o lucro do artesanato contribuía para as compras de casa, e eu conciliava isso com outros trabalhos. Hoje é a principal atividade de renda na minha vida. Tenho duas lojas no centro de Belo Horizonte. O sonho de todo artesão é viver do que faz", observa. Cristina Soares, de 40 anos, artesã há mais de 10, afirma que fez vários cursos de artesanato em Belo Horizonte e hoje ministra aulas. "Achei minha identidade no trabalho, Abriu portas para o mercado de trabalho.Eu era autônoma, havia muitos anos que não trabalha fora, desde 2006, ela tinha um ateliê, sem carteira assinada, hoje, trabalho em uma empresa especializada”, comenta. RAISSA PEDROSA

Oficinas de flauta gratuitas no Centro Cultural Pe. Eustáquio n GUILHERME OLIVEIRA RICARDO DINIZ 3º PERÍODO

Longe da agitação, o som suave da flauta doce é o que dá a tônica nos finais de semana. O Centro Cultural do Padre Eustáquio, na Região Noroeste de Belo Horizonte, oferece gratuitamente oficinas de flauta doce, todas às tardes de sextas-feiras, às 14h, para alunos a partir dos 12 anos. O projeto começou em 2010 e tem duração prevista até agosto próximo. A responsabilidade de ensinar é da professora Isabela Santos Duarte, 19 anos, que foi convidada a trabalhar com jovens e adultos das mais diversas idades a arte e o prazer de tocar o instrumento de sopro. Segundo a professora, cuja paixão pela flauta doce a levou a cursar Música na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a atividade é essencial e bastante benéfica sobre diversos aspectos psicológicos. "A música não serve só para o lazer, ela ajuda na comunicação humana, concentração, na coordenação motora e espiritualmente. Desenvolve o ser humano em todos os sentidos", afirma. Porém a professora destaca só é possível aprender com empenho e atenção. "Falo com eles para sempre ouvirem muito as músicas, cantar as notas como forma de assimilar os sons, analisar o que estão tocando e criar melodias, quando realmente demonstram o que sabem", acrescenta.

Entre maioria dos alunos, a prerrogativa máxima para escolherem a flauta doce é a busca pela tranquilidade, dificilmente encontrada no cotidiano estressante do trabalho e da cidade. "É um instrumento divertido e tranquilizante. Tinha dificuldades e hoje sou mais concentrada e quieta", diz a estudante Iara de Oliveira Rocha Aguiar, 14 anos, mais nova da turma. A aposentada Célia Marina de Moura, 63 anos, ainda em suas primeiras aulas, diz-se atraída por isso. "Às vezes, fico tocando durante a noite e isso traz muita calmaria. O som da flauta traz muita paz", ressalta. Para outras pessoas, a oficina é um reencontro com o passado, uma nova oportunidade de aprender música, deixado por conta de outras ocupações. A aposentada Iva Rosa Soares, 71 anos, volta anos no tempo com a flauta doce. "Queria tocar, vendo meu pai tocando rabeca, mas não achei ninguém para ensinar. Hoje, faço aulas de violão e flauta doce, ocupando meu tempo e evitando a depressão", afirma. Em sua primeira aula, a dona de casa Maria Marlene Santos, 41 anos, declara a realização de um sonho. "Semprei gostei de tocar violão, mas tive que abandonar por falta de tempo. Hoje estou na flauta doce e quem sabe um dia tocar saxofone", salienta. Entretanto, para o artista

Francisco José Dornellas, 67 anos, o aprendizado é muito mais do que a simples busca pela paz ou afastamento. Praticante de apresentações circenses e teatrais, o instrumento é uma ferramenta a mais para sua experiência profissional e de vida. "A flauta aumentou a experiência com as notas, me ajudando no procedimento de cantar. Além disso, posso utilizá-la em algumas das minhas apresentações". O artista também encara a atividade como provação. "Dizem que depois de velho, você não aprende mais música. Mentira. Ela não só ajudou a melhorar minha memória, mas também a percepção musical" complementa Dornellas.

MÉTODO Flautista desde os 15 anos de idade e participando em apresentações e ensaios no Centro Cultural desde a época das férias escolares, a professora Isabela Duarte separa sua turma em dois horários de acordo com o estágio de aprendizado. Para ensinar, explica que ajuda a desenvolver os alunos por níveis, sempre o desafiando-os. "Primeiramente, trabalho com o método de gráficos, em que os alunos vêem as notas a serem tocadas e depois com partituras. Dessa maneira, vou ensinando e trazendo novas músicas cada vez mais complexas", afirma.

Francisco Dornellas diz que a flauta ajudou a melhorar sua memória


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Junho • 2012

QUANDO A RUA VIRA ESCRITÓRIO Vendedores ambulantes espalhados pela cidade lutam para ganhar a vida e usam criatividade na hora de escolher o que comercializa. Malabaristas e palhaços também dão seu recado GABRIELA MATTE

n GABRIELA MATTE 3º PERÍODO

Balas, pipoca, artigos para celular, frutas, revistas, jornais, doce de leite, água, DVD's. Quem nunca comprou algo de dentro do carro no engarrafamento e no sinal de trânsito, na porta da escola, trabalho ou universidade, na porta do bar ou teatro? Ou simplesmente deu dinheiro para pedintes, crianças ou malabaristas? Todos os dias, muita gente se depara com vendedores ambulantes nos mais variados lugares. Eles são incontáveis e se espalham pelas esquinas da cidade de Belo Horizonte. "É porque é a única coisa que restou. Nós tava (sic) na vida errada", afirma Wesley Pires, 23 anos, ao definir sua profissão com o amigo e vizinho Carlos Augusto, de 18 anos. Os dois jovens não estudam. A única ocupação de ambos é o malabarismo com fogo nos sinais espalhados pela cidade."Fui preso uma vez, vi que cadeia não era para mim, aí a única coisa que eu sei fazer é isso. Já trabalhei de servente de pedreiro também, só que a gente rala muito, ganha pouco e não é valorizado, aí pelo menos aqui dá pra tirar o leite da criança todo dia", desabafa Wesley, que trabalha de segunda a sexta-feira, de 7h às 14h30 há quatro anos. O pai de família conta que dá para sustentar os dois filhos e a esposa grávida e pagar o aluguel,

mas que se arruele vem trabalhar, masse um emprepõe capa de chugo melhor, mudava ou se esconde va de profissão. "É nos bares da beira um trabalho canda Avenida para sativo, o ruim é o esperar a chuva sol. A gente mexe estiar um pouco. com o fogo mais o Antônio Rodrisol quente, fica gues dos Santos, ruim", conta. Ele 49 anos, é o Pelé. diz que impresPoucos sabem seu siona muitos moverdadeiro nome, toristas ao lidar que foi substituícom o fogo de pé do pelo apelido no ombro do amihá mais de 20 go. O trabalhador anos, mas, não há conta que aprenquem estudou no deu malabarismo Colégio Santo vendo o vizinho Agostinho, na Refazer, mas que já gião Centro-Sul chegou a queimar de Belo Horizontoda a barriga. te, que não o co"Alguns valorizam nheça. Seu meio o trabalho da gende ganhar a vida é te. Alguns manum pouco difedam a gente ir rente de quem trabalhar e não vê fica nos sinais da que a gente tá cidade, mas esse (sic) trabalhando tipo de trabalho mesmo", afirma. informal é igualO dinheiro arremente cansativo. Wesley Pires e Carlos Augusto ganham a vida fazendo malabarismo com fogo cadado com o traHá mais de 35 balho varia muito, anos, Pelé está na viver com o salário mínimo da de R$ 40 a R$ 100 nos melhores porta do colégio. No início, aposentadoria, uma vez que susdias. vinha ajudar o seu pai. "É um Arlindo Pereira Alcântara, 65 bocado cansativo. Você chega tenta quatro filhos. "Ninguém anos, já conhecido entre os aqui cedo, fica parado só num vive com um salário mínimo, motoristas que transitam na lugar. É o dia inteiro", conta. Ele você vive?", desabafa. A ideia de Avenida Nossa Senhora do trabalha cerca de 12 horas por ir para o sinal foi criatividade Carmo, Região Centro-Sul de dia, nos três turnos de segunda a dele, que não via alternativa. Ele Belo Horizonte, está sempre presábado. "Domingo é o único dia conta que o tempo passa muito sente no mesmo sinal de segunque a gente pode descansar", diz. devagar e que em época de chuva da a sexta-feira há seis anos. Ele A renda arrecadada com a venda muito forte, ele tem que segurar conta que escolheu a profissão de balas, chicletes, pirulitos, a família somente com a aposeninformal porque estava difícil chup-chups e palha italiana comtadoria. Quando a chuva é fraca,

plementa o dinheiro ganho pelo filho, de 17 anos, que já faz estágio, e o da esposa que ganha bolsa-família do governo. Pelé conta que almoça num restaurante próximo e que, para tanto, fecha o carrinho com uma lona e o deixa na rua, na porta da escola. Os lanches que come ao longo do dia, ele traz de casa, e ir ao banheiro, somente na hora do almoço ou em casa, para não perder vendas. Em época de chuva é mais difícil de ganhar o mesmo dinheiro, pois os alunos saem correndo. "Não pode deixar de trabalhar não. Eu vou ali pra debaixo da marquise", explica. Ele lamenta somente os dias de muita chuva em que não dá para vender nada. O vendedor, que já é querido dos alunos, pais e funcionários da escola, lembra que nunca teve problemas com ninguém nesses 35 anos. "Geralmente todos são muito bacanas comigo. Eu acabo conhecendo muita gente, médico e tal, então onde eu vou eu sou bem tratado", observa. Segundo ele, no dia que não vai, todos sentem sua falta. Por outro lado, Pelé não esconde que gostaria, sim, de mudar de vida. "A gente acostumou e adora aqui. O lucro, graças a Deus, é bom, mas se eu puder montar alguma coisa eu saio para poder ter uma melhor qualidade de vida", justifica o ambulante, que sonha comprar uma casa maior, montar uma lojinha e sair da rua. GABRIELA MATTE

Força de vontade na luta para sustentar a família GABRIELA MATTE

Seis e trinta da manhã Eula Silva Santos, de 35 anos, já está de pé para trabalhar. Ela é mãe de duas meninas e, juntamente com seu marido, sustenta a família de quatro pessoas. Faça chuva ou sol, a mulher sai da cidade de Joatuba, na Rregião Metropolitana de Belo Horizonte, para trabalhar à beira da BR 040 na altura do BH Shopping. Eula é contratada, desde 2009, por um patrão que busca sacos de laranja na Ceasa todos os dias de manhã para revender. "Meu patrão também pega essa jornada com nós, só que ele fica no caminhão. Tem dia que está chovendo e ele está na chuva ajudando a gente", diz. No total, são três empregados que ficam em pontos diferentes da BR vendendo os sacos de laranja para os motoristas que param. O barulho dos veículos que passam a pouquíssimos metros da vendedora é altíssimo e quase impossibilita um diálogo. A poeira levantada pelos carros é sufocante, mas Eula jura que já se acostumou. A mulher ganha R$ 30 por dia, independentemente de quantos sacos de laranja vender. Ela conta

Artistas usam criatividade para ganhar seu sustento nos sinais em meio ao trânsito movimentado da cidade

Eula Santos trabalha seis dias por semana na beira da BR 040 há 3 anos que o número de vendas varia muito, de 50 a 90 sacos diários, a R$ 12 cada. "É um trabalho muito cansativo", desabafa a trabalhadora ao explicar que só recorreu a essa alternativa por falta de opções de emprego. "Já trabalhei em casa de família, farmácia, agencia de carros, assim vai. Emprego que é bom a gente não arruma", conta. A alimentação e o uso do banheiro são detalhes que podem passar despercebidos por muitos motoristas que ali passam diariamente. "Para você ver, eu fui no banheiro hoje às 8h da manhã", conta Eula às 16h40 da tarde de uma quarta-feira. "Se tem água a gente bebe, se não tem, fica com sede. Quando eu trago, de

manhã ela ainda está fria, de noite está igual café", relata com um riso nos lábios. Sua única refeição é o almoço, quando passa alguém vendendo marmita. O chefe paga pela comida. Caso contrário, a moça não se alimenta. "Eu não ligo não, eu chupo laranja", diz ela bem humorada. "Eu não trago lanche de casa, pois não tenho tempo de comprar", explica. Para se distrair, a trabalhadora conta que traz bordado, crochê ou um livro para ler. "O tempo não passa. Eu bordo, distraio vendo os carros", relata. Essa é a rotina de Eula Silva Santos, que trabalha seis dias por semana e não tem hora para ir para casa.

O trabalho informal é opção para fugir do desemprego O mestre em economia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Flávio Constantino considera que há mais de uma explicação para a informalidade no Brasil. As primeiras razões dizem respeito às características históricas estruturais do país e à qualificação exigida do trabalhador na atualidade, mas, existem também razões secundárias. O Brasil mudou muito rapidamente o seu modelo de desenvolvimento e essa mudança trouxe consequências a longo prazo para o país. O modelo primário exportador cedeu espaço a um modelo de industrialização. Nessa passagem, um contingente expressivo de pessoas largou o campo em direção ao meio urbano. Porém, na cidade, a geração de empregos tem outra dinâmica, diferentemente da apresentada

no campo. A tecnologia e os processos no meio urbano não absorvem tanta mão de obra como no campo. O resultado dessa dinâmica, num contexto de crescimento demográfico elevado foi o enorme desemprego. Diante do desemprego, as pessoas começaram a buscar alternativas como a informalidade e a criminalidade. Um segundo problema que poderia explicar a enorme procura pelos empregos informais no país diz respeito à necessidade de um novo perfil de trabalhador mais qualificado e capacitado. Devido à abertura da economia do Brasil para o capital estrangeiro, à mecanização e à atração de empresas multinacionais, a exigência em relação a capacidades do trabalhador aumenta. "Infelizmente, a educação deixa a desejar, a política pública

acordou muito tarde para o fato de que sem pessoas qualificadas não tem como você melhorar a igualdade e distribuição de renda", analisa Flávio Constantino. "Então o fator demográfico aliado à falta de qualificação empurram as pessoas, numa visão de longo prazo, para a informalidade". As razões secundárias incluem a legislação brasileira e períodos de baixo crescimento do país. Se o país cresce pouco, a geração de empregos e as oportunidades são menores. "Se você tem uma legislação que protege muito o trabalhador, você pode tirar o incentivo à produção. Se o Estado me mantém, porque eu deveria trabalhar de forma regular? Então é uma questão de entrada e saída no mercado de trabalho de acordo com o apoio financeiro recebido do Estado".


Comportamento Junho • 2012

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RAQUEL DUTRA

NA FREQUÊNCIA DO RADIOAMADORISMO Apesar dos avanços dos meios de comunicação, aficcionados mantém viva a antiga maneira de se comunicar à distância. Mais do que hobby, relacionado à remota forma de radioemisão, o código morse, continua com importante função social GUILHERME OLIVEIRA THIAGO BONNA 3 º PERÍODO

Uma corrente de frequências e comunicados passa imperceptível para a maioria dos moradores de Belo Horizonte, mas sobrevive ao tempo pela paixão de alguns amantes de um curioso hobby: o rádioamadorismo. A prática consiste na transmissão de ondas de rádio para comunicação pessoal e encontra vários praticantes em diversos pontos da capital e região metropolitana, utilizando seus rádioemissores para falar com amigos em todo o mundo, trocar informações profissionais e desempenhar importantes funções às vezes, pouco reconhecidas pela sociedade, criando um ambiente tão amplo e diversificado quanto o das redes sociais. Entre os diversos rádioamadores, cerca de 2000 em toda Região Metropolitana de Belo Horizonte de acordo com a Liga de Amadores Brasileiros de Rádio Emissão (Labre-MG), está o aposentado Francisco Rocha Neto, 62 anos, que acompanha a evolução da comunicação e é usuário de sites e programas de relacionamento da internet, mas recusa abandonar ou compará-los aos radioamadores. "Não é a mesma emoção, é muito diferente. Os sites mostram-se dis-

tantes, pois são apenas para comentários e bate papo. Qualquer um utiliza esses sistemas com um computador, mas nem todos podem usá-los em qualquer lugar. No radioamadorismo, falamos com qualquer lugar como acontece na Amazônia, só necessitando da propagação", afirma. De acordo com o presidente da Labre-MG, José Omar de Oliveira, 60 anos, os benefícios da prática do radiojornalismo abrangem diversos campos do conhecimento. "O rádioamador deu origem aos celulares. Através de estações, as informações chegam por repetição até o número que se pretende falar. Pouco se sabe mas as pesquisas relacionadas ao meio possibilitaram o desenvolvimento de microondas e a fabricação de fornos, de aparelhos de ondas para hospitais e colaboraram incessantemente para a origem da internet", observa. A utilização dos aparelhos como prestação de serviços de emergência é desconhecida da população, mas de suma importância nacional para as autoridades. A Rede Nacional de Emergência de Radioamadores é um cadastro criado pelas Labraes estaduais em conjunto com o Ministério da Integração Nacional, no ano de 2001, cujo partici-

pantes se comprometem na transmissão de informações e alertas emergenciais para áreas em situação de risco e em calamidades públicas, atuando em parceria com a Defesa Civil e Corpo de Bombeiros estaduais. Em Minas Gerais, 300 participantes integram parte deste grupo, atuando recentemente nas áreas afetadas pelas chuvas, no começo de 2012. Porém, o caráter solidário, sempre foi uma marca presente no meio, reservando histórias de verdadeira camaradagem e apoio entre rádioamadores e aqueles que necessitam de ajuda. Atualmente aposentado, Edson Lopes da Cruz, 92 anos, acompanhou vários momentos do meio, usando aparelhos profissionalmente, quando trabalhava como telegrafista nos Correios até a utilização de apenas por diversão e conta uma história de cooperação desse tipo. "Certa vez, ajudei um senhor do Bairro Floresta que pedia remédios para sua mulher doente, mas só existiam na Argentina e no Chile. Então, pedimos para um radioamador, que comprou os remédios através de um argentino. Ele entregou para um piloto com destino a São Paulo e este entregou para outro, com destino a Belo Horizonte, chegando

pouco tempo depois", lembra Edson. Ele se dedicava tanto ao radiomadorismo, que motivou a esposa Agnesília de Carvalho Cruz, 86 anos, a aprender a operar o aparelho. “Aprendi por curiosidade, para saber o que ele estava conversando”, revela. No âmbito da comunicação direta, o mundo das frequências tem uma diversidade muito mais ampla, verificada por Edson em suas chamadas diárias. "Costumo comunicar com colegas do Rio de Janeiro e São Paulo que são comerciantes. Mas também encontramos bispos, padres, pessoas do exército. Não existe distinção, encontramos pessoas de todos os tipos”, afirma.

CÓDIGO MORSE Uma das formas mais antigas da rádioemissão, o CW ou código morse, é um dos métodos mais queridos pelos rádioamadores. Criado em 1835, por Samuel Morse, consiste na transmissão de alfabeto através de sinais curtos, longos e intervalos, criando as letras do alfabeto para transmição de mensagens. Para Francisco Rocha Neto, a prática perdura também por questões técnicas. "Usar o código morse vária de acordo com a distância que se fala, quando a fonia (sinais de voz) não chega em deter-

Edson Lopes conta histórias e fala de companheirismo no radioamadorismo minados lugares. Nessas condições, o CW é um sinal filtrado que consegue vazar as camadas de propagação chegando com mais facilidade ao ouvinte", explica. José Omar de Oliveira queixou-se de falta de apoio por parte do Ministério das Comunicações. Segundo o presidente, a entidade dispõe de recursos parcos, obtidos em sua maioria da arrecadação de uma taxa mensal de 10 reais de cada rádioamador filiado. "Não temos nenhuma subvenção do estado, nem do munícipio ou governo federal, vivemos a duras penas, fazendo nossas pesquisas, ajudando a sociedade, sendo parceira da Defesa Civil, sem recursos das instituições públicas", diz.

A entidade também é responsável por toda a aplicação de provas para a obtenção e promoção de classes A, B e C para a operação de equipamentos de rádioemissão em todo o estado, sob chancela da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), responsável pela fiscalização e regulamentação da atividade no Brasil. O presidente da entidade reclama também da falta de iniciativa para criação de estudos ligados ao rádioamadorismo. "A parte de pesquisa no Brasil é abandonada, então poucos imaginal que podemos ajudar a inventar coisas, só aqueles ligados às informaçoes. Então caminhamos com nossas próprias pernas, enfrentando as dificuldades", observa.

Leitor coleciona jornais por valorizar as notícias n MICHELLE OLIVEIRA VITÓRIA CARVALHO 3° PERÍODO

Ir às bancas, escolher o material a dedo, levar para casa e guardar com carinho todos os dias. Foi assim que o mineiro José Castro, durante pouco mais de dez anos, formou uma coleção de jornais de que ele não se desfaz por nada. José Castro é um leitor apaixonado por jornais. Formado em Administração, atualmente é comerciante no Bairro Buritis, na Zona Sul de Belo Horizonte. Castro possui uma coleção feita entre 1991 a 2001 de edições da Folha de S. Paulo (parte delas encadernadas como livros). Também possui alguns exemplares do Hoje em Dia, do Estado de Minas e do extinto Diário da Tarde. José nunca teve interesse em ser jornalista, mas alimenta um respeito

e paixão pelo jornalismo impresso e não se desfaz da coleção. "Tem muita coisa aqui também que me interessava e me interessa até hoje, porque tem muita notícia que não fica velha", afirma o comer-

ciante, ao se referir aos jornais dentro da caixa em que guarda a coleção. Ele também diz que, atualmente, o Brasil está parecendo com a Inglaterra com tablóides por todos os lados. Ele sempre teve

vontade de encadernar para manter uma organização e para não ficar muito caro, conta que juntava de dois a três temas numa encadernação só. A encadernação com maior número de exemVITÓRIA CARVALHO

Exemplares da Folha de São Paulo encadernados com capa dura por José Castro, que são organizados por assunto

plares é a que ele montou com o caderno infantil Folhinha da Folha De S. Paulo. Castro começou a coleção para formar enciclopédias para o futuro da filha que nasceu em 1991. O caderno preferido dele era o caderno "Mais" da Folha que hoje forma parte da coleção com mais de 200 exemplares. Segundo José, a Internet e outras novas mídias, por mais práticas que sejam, não substituem o jornal impresso. O motivo para Castro ter a coleção era guardar material informativo para servir no futuro como fonte de pesquisa para a filha. "É uma coisa que eu fiz pensando em mim, pensando na família também", diz. "E acho que o jornal, de certo modo, forma um espírito crítico. É essencial mesmo", argumenta. Ele também não se desfaz de sua coleção por nada. Para ele, o valor sentimental adquirido ao longo dos anos é muito

grande e a coleção é muito importante na vida. "Eu até brinco. Minha mulher fala assim: “Por que você não joga essa caixa fora?” E eu digo: vou jogar você", conta, brincando. Fora a coleção dos jornais, ele coleciona livros que formou a partir da outra coleção. Alguns jornais costumam disponibilizar livros em partes para depois de certo período, o leitor montá-lo. Questionado se tinha vontade de lucar com a coleção, ele afirma não ter essa intenção. "Só tenho intenção de me satisfazer mesmo e absorver o que eles têm a me oferecer", revela. José Castro sente que no mundo atual, os materiais das coleções são insignificantes. Ele diz que as pessoas não dão tanto valor à informação. Para ele, a liberdade da imprensa para fazer denúncias e comprovações sobre documentos e outros assuntos significativos é muito importante para os cidadãos.


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Entrevista

Pelé AUXILIAR TÉCNICO DE VOLEI

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‘REI’ DO VOLEI EM MINAS GERAIS n LUCAS ALVES 2º PERÍODO

Ele é mineiro, negro, teve origem em uma família humilde, no seu esporte foi um dos melhores do país e construiu sua fama num time de camisa branca. Tudo isso aproxima o Pelé do vôlei do jogador de futebol que inspirou esse apelido. Porém, enquanto o Pelé do futebol roda o mundo para levar o futebol, o Pelé belo-horizontino que brilhou durante a década de 80, quando foi escolhido por sete anos consecutivos o melhor atacante de vôlei do Brasil, entende que sua função é oferecer, primeiramente aos seus conterrâneos carentes, a oportunidade de praticar o esporte que tanto ele já ajudou a divulgar. Para isso, depois de ter sido jogador por doze anos e treinador por outros dez, Pelé busca agora iniciar carreira na política. Ele será candidato, pela segunda vez, a vereador nas próximas eleições municipais, sem deixar de lado suas escolhinhas de vôlei, sobre as quais fala com paixao no olhar. Nessa entrevista, ele conta um pouco sobre o seu tempo no Minas Tênis Clube, time onde passou a maior parte da carreira e onde hoje é auxiliar técnico da equipe principal de vôlei masculino, além de ídolo. Ele fala do racismo que sofreu em um jogo pelo Minas Tênis e sobre as melhorias do esporte nesse aspecto. "Hoje, vejo que já mudou muito e melhorou bastante a situação. Eu falo para os meninos negros do time do Minas que eles pegaram tudo mastigado pelas gerações passadas", afirma. Pelos momentos marcantes que viveu por lá e de seu sonho, Pelé ainda espera um dia ser o técnico principal do Minas, mas, no momento, sua prioridade é implantar o projeto “Esporte para Todos”. n Durante a sua infância você enfrentou a morte do seu pai, a sua ida para a extinta Fundação Estadual para o Bem Estar do Menor (Febem) e teve que trabalhar desde cedo. Qual foi o momento mais difícil? O momento mais difícil foi quando fui interno na Febem e tive que ficar longe da minha família e dos meus irmãos. Quando saí de lá tudo ficou mais tranquilo porque juntou todos da família e todos tinham que trabalhar para somar os ganhos e sobrevivermos. Eu fui trocador dos 12 aos 15 anos.

n Como foi a sua entrada no mundo do vôlei? Quando eu tinha 16 anos eu levava a minha irmã para treinar no Olímpico. Nos intervalos dos treinamentos dela eu ficava batendo bola no ginásio, brincando de "paredão". Depois de seis meses o técnico do time do Olímpico me perguntou se eu não queria fazer um teste lá e eu aceitei. Acabei passando na peneira da equipe e foi lá que comecei a jogar vôlei. Na verdade eu já tinha jogado no Guaíra, mas foi no Olímpico que comecei de fato minha carreira.

n Nas eleições municipais em 2008, você se candidatou a vereador de Belo Horizonte pelo Partido dos Democratas, mas acabou não sendo eleito. Nesse ano, você já é précandidato novamente a vereador. Como surgiu o interesse político? Eu trabalho no Minas há dez anos e por doze anos atuei como jogador. Por isso eu acho que posso ajudar mais o esporte. O esporte de alto rendimento eu já ajudei bastante. A ideia agora é ajudar na socialização, na integração do menor. Então, eu acho que na política posso ajudar mais, porque o esporte realmente precisa da política para ajudar àqueles que não têm condições de pagar uma escolinha ou uma academia. Para mim, a gente que já viveu muito tempo no esporte, principalmente no especializado, pode ajudar mais. Em 2008 eu tive uma experiência boa na eleição. Tive 3987 votos, e isso tendo trabalhado somente eu, minha esposa, meus filhos e meia dúzia de amigos na minha candidatura. Depois da campanha em 2008 eu venho planejando esse meu projeto, o "Esporte para todos", junto com um grupo de amigos. Eu sou pré candidato a vereador e vou tentar chegar à câmara municipal e chegando lá vou tentar colocar em prática esse projeto.

n Você pensa em RAQUEL DUTRA

acumular o vôlei e a carreira política? Já está tudo dentro do planejamento. Se eu chegar a ser eleito vereador já existe um acordo com a diretoria do Minas para que eu automaticamente abandone o meu cargo lá. Porém, não abandonarei minhas escolas e o projeto que tenho para dar esporte para as pessoas carentes e para a terceira idade também.

n Como começou o projeto das Escolinhas de Vôlei Pelé? Quando eu abri as escolhinhas eu estava voltando da Itália. Já existia antes o projeto para abrir a escolhinha. Quando eu comecei a jogar vôlei a Telemig, que hoje é Oi, tinha um p ro j e t o c h a mado

"Adote um atleta". A própria Telemig me adotou como atleta e como funcionário. Eu já tinha trabalhado 15 anos na empresa e já tinha algumas regalias por já ter sido campeao brasileiro. Quando eu voltei da Itália eu conversei com o presidente aqui da ART (local sede de uma das duas Escolinhas do Pelé) e em três meses já tínhamos mais de 400 alunos. Como eu já tinha sido funcionário, os donos daqui sempre me convidavam para abrir a escolinha, mas como eu não tinha tempo, não dava. Eu tive que esperar parar de jogar para sentar e desenvolver de fato o projeto.

quando você é técnico você não consegue descontar em ninguém. Você tem que ser mais controlado para não passar o nervosismo para dentro da quadra. Se um técnico fica nervoso isso afeta todo o time, mas se um jogar fica estressado é problema e falta de experiência dele. Eu era tá um jogador bem tranquilo. Nos meus dez anos como profissional no Minas eu nunca levei um único cartão amarelo.

n E quando você foi convidado para trabalhar no Minas, o que mudou na sua rotina de trabalho em relação a atenção dada às suas escolinhas?

Foi tranquila. Assim que eu parei de jogar eu comecei a trabalhar com as minhas escolinhas. Eu procurei fazer todos os cursos para ser técnico que eu tinha que fazer para estar bem preparado. Depois de seis anos estudando e trabalhando nas escolinhas surgiu o convite para treinar as categorias de base do Minas. Eu fui campeão brasileiro juvenil em Brasília, quando a equipe mineira não estava cotada nem pra chegar na final. Ganhei também o Campeonato Brasileiro de Seleções com o time infanto-juvenil mineiro em 2009. Nesse time tinha o Lucarelli e nós fomos campeões sem perder nenhum set.

A prioridade passou a ser o Minas porque é um planejamento de alto rendimento. Mas deu para conciliar as funções, porque eu tinha alguns coordenadores de minha confiança para tomarem conta das escolinhas e quanto à parte pedagógica eu a montava para eles executarem. Porém, todos os dias ou pelo menos uma ou duas horas por dia, durante meus horários livres no Minas, eu passava em todas as escolas. O que deu muito certo foi a minha esposa Iolanda coordenar a parte administrativa e minha filha, Bárbara, começar a dar aula nas escolas. Eu já tentei ampliar mais a escolinha, mas para isso você tem que deixar o comando na mão de terceiros que não usam sua filosofia. Isso é perigoso porque é seu nome que está na frente. Entre família fica tudo muito mais fácil.

n O Minas é um clube que tem sócios como qualquer outro. A grande maioria desses sócios tem realidade diferente das crianças atendidas nas suas escolas. Como lida com isso? É isso aí que me deu mais força para continuar com esse projeto para crianças carentes, porque dentro do Minas é outro mundo. Em todas as modalidades tem 70% de associados e apenas 30% de não sócios. De 20 pessoas só posso ter seis não sócios, é pouco. Eu quero dar a oportunidade para outras pessoas praticarem o esporte.

n E você leva atletas

n Como se deu a sua transição de dentro da quadra para fora delas, de jogador para treinador?

n Nos últimos anos aconteceram alguns casos de preconceito dentro do vôlei brasileiro. Você chegou a sofrer algum tipo de preconceito na sua era como jogador ou isso de alguma forma atrapalhou sua carreira? Eu fui o primeiro negro a jogar no time do Minas e a cobrança foi sempre maior por causa disso. Mas acabei mostrando potencial, por isso acho que não sofri muito com esse tipo de preconceito dentro da equipe. Mas uma vez aconteceu um caso comigo no Taquaral, em Campinas. Eu fui para o saque e um torcedor começou a me chamar de "negão", "macaco", essas coisas. Aí ele cuspiu na minha cara. Na hora deu vontade de voar no pescoço dele, mas me controlei. Limpei o rosto e fui para o saque. A resposta veio com a nossa vitória na partida. Você tem que se controlar e não deixar que isso te atrapalhe.

n Na Itália você também sofreu algum tipo de racismo?

daqui direto para o Minas? Não. Durante o ano eu fico observando os jogadores que mais se destacam e que eu vejo que têm boa técnica e levo para a peneirada do Minas, que acontece todo fim de ano. Lá eles fazem o teste como todo mundo. Os que não passam eu levo para fazer teste no Olímpico ou no Sada em Contagem.

n Dos atletas que jogam hoje pelo Brasil, algum saiu daqui das suas escolinhas? O Wanderson que jogou no Minas duas temporadas, o Maurício que hoje joga no Sada e que já foi do Minas e o mais novo deles, o Lucarelli que jogou com a gente também. O próprio Anderson que já foi da seleção brasileira foi técnico nosso aqui por algum tempo.

Não, parece engraçado, porque achamos que lá tem mais preconceito que aqui. Mas lá nunca sofri nenhum tipo de racismo.

n E como você vê a questão do preconceito no vôlei atual? Hoje, vejo que já mudou muito e melhorou bastante a situação. Eu falo para os meninos negros do time do Minas que eles pegaram tudo mastigado pelas gerações passadas, as chances estão maiores e está tudo muito mais fácil para eles. Hoje, por exemplo, você consegue ver muito mais negros jogando nas categorias de base do Minas.Você acha que poderia ter crescido mais no Minas se fosse de classe alta ou mesmo branco?

[ ] “JÁ AJUDEI BASTANTE O ESPORTE DE ALTO RENDIMENTO. A IDEIA AGORA É AJUDAR NA SOCIALIZAÇÃO”

n O que é mais difícil, ser técnico ou ser jogador? Ser técnico é mais difícil. Quando você é jogador você pode extravasar dentro da quadra pode descontar na bola. Mas

Não, de forma nenhuma. Como disse, eu tive que mostrar o meu potencial quando cheguei aqui e todos o reconheceram. Pela história que tenho aqui, eu tenho uma relação muito boa com os diretores do clube e não acho que minha cor ou origem tenha atrapalhado ou ajudado a permanecer aqui. Mas claro que é uma jornada difícil até chegar a ser treinador de uma equipe profissional como o Minas, e é o que eu ainda sonho um dia.

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