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Crônicas II Vera Cecília C. Dantas Mota

Não dá pra comprar, né? Um shampozinho... A Pena. Entrevista com Dona Gertrudes “Feijãozinho” Santo Tererê Fatos e Fotos

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Não dá pra comprar, né?

Milena tem um jardim enorme. Como se não bastassem os dois ou três mil metros, ela reformou a casa e fez mais um jardim praticamente dentro do banheiro e do quarto. Quando ela dorme de cabeça para baixo (o que ela costuma fazer sempre que perde o sono), de manhã ela acorda com o sol batendo no rosto: eu acho isso o máximo! É ou não é muito melhor que despertador? Pois bem, esse jardim do banheiro era cheinho de joaninhas! Elas entravam voando, pousavam onde queriam, às vezes em lugares impróprios! É, naquelas partes do corpo que não costumam ficar expostas. Vez por outra, Milena tinha que colocar alguma pra fora, porque o vidro do telhado deixa o ambiente meio quente, e, se elas se esqueciam de ir embora, acabavam falecendo. O tal teto de vidro vivia dando problemas... nunca vi tanta goteira na minha vida! Dizem alguns “entendidos” que quando a casa tem goteira é porque a família deixa “entrar água onde não deve”, em outras palavras, não está

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muito bem alicerçada, ou melhor, abrigada, protegida emocionalmente. (Se não for isso, é bem parecido.) - Tudo bem, vamos resolver o problema das goteiras. Na verdade, na minha opinião, não tinha problema nenhum. Molhava uma parte do chão, a banheira... depois aquilo tudo secava, até sozinho. Água no chão faz mal pra saúde, pro azulejo? Então, deixa molhar! É claro que cheguei a essa brilhante conclusão por absoluta falta de alternativa: parece que as goteiras me adoram! Precisa dizer que minhas outras casas também têm goteiras? Toda elas, na boa! Quando não entra água pelo teto, ou escorrendo pelas paredes, entra pelas portas e janelas! Hoje em dia eu acho é graça! - Tudo bem, vamos consertar as goteiras. - Olha, dona Milena, tem de trocar o teto de vidro todo, e o suporte do vidro, e a calha de vidro, e a armação dos janelões do jardim, e os janelões do jardim, e a treliça do jardim, e o fechamento do gesso no teto, e o gesso do teto...

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Adoro obra!!! É claro que cheguei a essa brilhante conclusão por absoluta falta de alternativa: as obras me perseguem! E meu senso estético idem! - Pode quebrar. Vai terminar quando? - (...) - Bem, já que tem de quebrar aqui, “umbora” fazer logo aquele negócio... Eu acho tudo fácil! Você acredita que um vizinho, o “mafioso”, lá de Natal chegou a me denunciar no CREA? Coitado, só porque eu mandei ele ir à merda! Foi ridículo. O vizinho da mamãe, aqui de Brasília, já tinha me prevenido: - Olha, Dona Milena, a senhora não pode sair construindo desse jeito, sem planta, sem supervisão do engenheiro... A senhora está tomando o nosso emprego! Além de mineiro e engenheiro, cheio dos títulos, ele era só o chefe dos fiscais de obras da cidade! Não me perguntem como é que ele sabia que eu estava em obras. - Claro, Sr. Nogueira. O senhor pode me mostrar que border o senhor usou na sua piscina? Eu

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achei aqueles da marca x muito sem graça... Os da marca y são carríssimos e nem são essas coisas todas... - Ah! Eu usei um espanhol. Comprei na ponta de estoque da Piso Forte. Vem ver! Se com o Sr. Nogueira — autoridade toda — nunca tinha dado problema, imagine se eu ia ter medo daquele babaca, de óculos Raybain... Eu sei lá quem é aquele bostinha... Depois fiquei sabendo que ele trabalha com a Prefeita da cidade... Mas a piãozada ficou toda do meu lado!!!!!! Me disseram que “o almirante”, síndico do condomínio, quando ficou sabendo do ocorrido, ficou vermelhinho de raiva: - Dona Milena tinha que ter me chamado. Eu ia fazer isso e aquilo e aquilo outro... Se ele voltar a falar com ela, me chame na hora... Imagina, eu não fiz praticamente nada... Chegaram lá em casa uns dez fiscais, em comitiva. - Nós somos da Prefeitura e recebemos uma denúncia de irregularidades na reforma deste imóvel. - Ô, moço, Dona Milena está terminando de almoçar. Os senhores podem se sentar aí, fiquem à vontade,

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que ela já vem. (Informou a minha gentil secretária do lar.) Putaquiopariu! O que que eu faço? - Milena, compra feito, porque agora já era! (Isso é meu anjo da guarda me dando conselhos. Ele é muito gente boa!) - Boa-tarde! Eu sou Joaquim, Chefe de Gabinete da Prefeitura. Esse aqui é o... e esse aqui o... aquele outro é o .. - Gente, mas essa cidade é bonitinha demais, né? Que Igrejinha linda! Quando foi que os senhores colocaram aquelas luzinhas? Ficou uma graça! A pracinha está um amor! Tem jardineiro? Mas aquela rodoviária não está meio pequena pra vocês, não? Podia fazer de dois andares: umas lojinhas em cima e os boxes embaixo... - A senhora gostou? - Adorei! Então, vamos tomar uma aguinha pra gente ir ver a obra! Vocês preferem um cafezinho? Eu não tomo café... - (...) - Sr. Joaquim, eu não consigo entender o problema desse vizinho! Venha ver! Esse sujeito está uma fera comigo por causa disso aqui. Diz

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ele que na época da chuva a água do “meu puxadinho” vai cair bem em cima do gramado dele! O que que o senhor acha? Ele diz que a senhora tem de deixar um recuo de ... metros. Pois é! O recuo já foi feito. É por isso que a casa dele está lá naquele canto. Essa parte gramada aqui é o recuo. Dá uma olhadinha para trás e me diga uma coisa: para onde cai toda a água dos outros chalés do condomínio? Pra essa direção. E por que esse sujeito quer que eu bote a minha água pro outro lado? Eu vou botar onde? Me diga, Sr. Joaquim? Água faz mal pra grama? Ele devia era agradecer! A senhora vai reforçar a irrigação desse gramado. Eu também acho. Olha, Sr. Joaquim, ele não estava aí no início da obra. Eu pedi autorização pra passar com o material ao caseiro dele. O moço foi superlegal: telefonou pra ele, deu a resposta que eu podia colocar a escada, tudo certinho. Eu mandei limpar tudo depois da quebradeira. Quando foi pra fazer o telhado, ele mandou me chamar aqui na varanda dizendo que ele não ia me deixar fazer a obra! Sr. Joaquim, já estava tudo feito. Olha aí, só faltam as telhas...

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E o que que ele tem a ver com a casa da senhora? Pois é. Parece que ele é engenheiro... E daí? Desse muro pra cá a casa é da senhora. Pois é. Eu tinha pedido autorização pra subir com as vigas pelo jardim dele, mas a mulher dele mandou me dizer que enquanto ela estiver veraneando, até o carnaval, não queria saber de pião pisando no gramado... Olha, Sr. Joaquim, eu não sei como esses meninos conseguiram subir com essas vigas de madeira por dentro da casa... Não era muito mais fácil subir pela varanda? Era só botar a escada aí, como foi com o resto do material... Essa grama é de ouro? - Bem que a mulher estava junto dele, dando palpite... - Sabe o que ela disse? Que não queria ninguém olhando ela tomar sol no quintal... Tem cabimento? Uma praia desse tamanho, e ela quer tomar sol no quintal! E desde quando esses meninos ficam olhando pra uma “véia” daquela? Acostumados a ver mulher de biquine e de tudo quanto é jeito nessas praias! Eles não dão nem confiança... O senhor nem imagina como eu já me aborreci com essa história! Meu veraneio já tá ficando sem graça... Teve um dia aqui que eu perdi a paciência...

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- Faça isso, não, Dona Milena. Não carece! - O sujeito resolveu implicar comigo. Veio dizendo que queria construir uma garagem, no lugar desse gramado... E ele pode? Vai tomar toda a minha vista! E mais: vai acabar com a ventilação da minha área de serviço... Eu não entendi nada... - Olha, Dona Milena, no dia que ele colocar um tijolo encima dessa grama, a senhora liga pra Prefeitura que a gente embarga a obra dele é no primeiro dia! - Ô, Sr. Joaquim, obrigada. Ainda bem que o senhor veio aqui. O que é que eu tenho que fazer agora? Tem que assinar alguma coisa? - Não. Pode ficar sossegada. Se ele pedir pra botar uma calha, a senhora coloca? - Eu já deixei até o ralo. Olha aqui! Eu só não botei ainda porque a mulher dele disse que não queria ninguém pisando na grama... - Pois, tá! A senhora fique tranqüila e aproveite suas férias. Aí vem o apoio da galera, na saidera! Sr. Joaquim se vira pra descer as escadas, e a piãozeira atrás, soltando o verbo: - Rapaz, se fosse comigo, eu não tinha nem escutado, como Dona Milena fez. Eu tinha logo era pedido a

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escritura da casa dele... Você sabe que isso é invasão, né, Sr. Joaquim? Ele quer exigir direito de quem? - Eu tinha era falado desses cachorros: esse canil é empestado de cupim. Não tem quem dê conta. O almirante já mandou detetizar o condomínio duas vezes e não consegue acabar com os bichos por causa desse canil. Qualquer dia vai cair encima dos cachorros. Só assim eles param de latir... - E a horta? Inventou de plantar cebolinha bem no murro com a casa 5. A parede vive mofada. Não dá pra dormir ninguém ali. Onde já se viu fazer horta na parede do vizinho! E o pior é que ninguém tem coragem de reclamar com “o bigode”... Sr. Joaquim foi embora com a missão cumprida. E o bosta do meu vizinho tá lá, com aquela cara de mafioso... Coitado, fica horas no sol quente e não consegue pegar nem piaba! É claro que eu não botei a calha, nem mandei pintar a parede dele, da segunda vez... Meu irmão mais novo até hoje treme quando vai contar essa história. Ele estava lá em casa quando o “mafioso” mandou me chamar na varanda nova.

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- Milena, você é doida? Como é que você faz uma coisa dessas com o sujeito? Ele pode pegar um revolver, ele vai mandar te matar! - Só porque eu mandei ele ir à merda? - E aquelas outras coisas que você disse? Garanto que ele não vai se esquecer nunca mais! (Vamos pular essa parte, porque eu já tive que fazer um exercício prolongadíssimo de transcendência mental, espiritual, virtual... pra superar esse incidente.) E na hora de contar pro marido? - É melhor se preparar pra bronca... (Isso é meu anjo da guarda! Cúmplice em tudo!) - Marido, acho que nós vamos ter problemas aqui. - Hum... - Marido, se você quiser brigar comigo, tudo bem... eu mereço mesmo. Como é que eu faço uma baixaria dessas? - O que que houve? - Aquele bostinha mafioso de óculos escuros disse que não ia me deixar fazer minha obra (Contei tudinho em detalhes: o famoso ‘sincerocídio’!) - Milena, isso não é assunto pra denúncia no CREA. O CREA não tem absolutamente nada a ver com isso.

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E eu duvido que essa Prefeitura tenha normas de edificações, ainda mais nessa praia! Mas por que os fiscais vieram aqui? Ele fez essa palhaçada só pra te assustar. Não tem o menor fundamento! Tem certeza? Tenho. Essa história está me deixando sem graça... Ligue pra Haroldinho. Ele já foi do CREA e vai te explicar que não é assim que funciona. Marido, olha só o que eu aprontei! Eu sou encrenqueira da pior espécie, né? Amor, você é linda! O quê? Você é linda! Você não vai brigar comigo, não? Não tem nem perigo. E se o mafioso mandar me chamar na varanda de novo? Diga a ele pra falar com o seu advogado e dê o número. Que advogado? (...) Você? Eu vou cobrar bem baratinho... e, se você conseguir terminar no prazo, eu deixo de graça!

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(É claro que eu terminei no prazo! Reuni a piãozada na segunda-feira e avisei que, se eles não acabassem na quinta-feira, eles iam dormir, todos eles, na praia, porque eu ia entrar na casa de qualquer jeito. Colou!) Mas essa vida é muito engraçada! Depois do sucedido, fui andar na praia, pra descarregar... Sinceramente, as lágrimas estavam caindo sem eu conseguir controlar. É sempre assim. Na hora eu faço tudo direitinho, digo o que devo e o que não devo... mas depois eu fico pensando nos riscos que eu corri! Todo mundo corre riscos! Na verdade a gente escapa deles... não se sabe exatamente como, nem por quê, mas eles estão em toda parte! Eu ainda acho que isso é coisa de anjo da guarda, mas tem gente que chama de outras coisas... Pois é, eu estava aos prantos... Ainda bem que eu levantei a cabeça, bem na esquina da enseada, senão eu ia pisar nele, no “cara de calção encardido”... Ele começou a sorrir quando me viu chorando. Eu até olhei pra trás: - Esse cara está rindo do quê? É maluco? Não havia nada e ninguém naquela praia, naquela hora... - Será que ele nunca viu mulher chorando?

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(Eu também acho gozado, mas todo mundo disfarça, né?) Ele estava lá sentado, na areia, segurando uma latinha de cerveja amassada. Na latinha estava amarrado um fio e na ponta do fio, provavelmente um anzol... Ele pescava daquele jeito!? Acredite se quiser! Quando voltei da caminhada, mais tranqüila, ele ainda estava lá, rindo... morto de feliz! Eu reparei que ele tinha um isopor pequeno, aberto, ao lado de um boné e de uma chave... É claro que passei bem perto do isopor pra ver o que tinha dentro: água e um monte de peixes ainda vivos! O isopor estava abarrotado! Quando me aproximei mais, sabe o que ele fez? Retirou um peixe do anzol — tinha acabado de pescar — deu um beijinho nele e devolveu pra água! É claro que comecei a rir! - É maluco! O “cara do calção encardido” passou todo o veraneio naquela praia. De vez em quando ele jogava bola com uns meninos. Um dia eu peguei ele correndo encima das pedras, dando tchauzinho para as ondas... - É maluco!

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Da última vez que estive na praia, a chuva tinha destelhado uma parte da casa dele, mas ainda tinha uma latinha de cerveja amassada, sentadinha na areia, na marca da maré cheia. E as goteiras? Ainda estão por toda parte! No final da reforma, com telhado novo, janelão novo, treliça nova... o banheiro ficou mais bonito ainda! O jardim... não sei como sobreviveu! Um belo dia, eu me dei conta de que ali não havia mais joaninhas! Nunca mais elas entraram no banheiro. Nesse mesmo dia fui passear na Granja do Torto, naquela exposição agropecuária. Estive em vários estandes, vi vários animais, mas o que eu queria mesmo, eu não consegui comprar. Não está à venda! Tem muitas coisas que a gente não consegue comprar, né? Voltei pra casa meio chatedada: - O que eu faço pra ter minhas joaninhas de volta? Eu acho que algumas pessoas não acreditam nas minhas histórias e até imagino os motivos... Tudo bem! Algumas passagens são inventadas mesmo. Outras até parecem, mas... Pois bem, nessa hora eu estava cochilando, embaixo das minhas bananeiras. Quando abri os olhos, vi um

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negocinho subindo rapidamente pelo meu joelho, fazendo uma cosquinha na minha coxa, em direção à ... Eu já ia dando um peteleco, quando consegui identificar o inseto, melhor dizendo, “a insetinha”, lindinha, coloridinha: - Elas vão voltar! Não é? (Meu anjo da guarda não respondeu na hora. Às vezes ele faz isso! Mas algo me diz que elas não estão muito longe!)

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Um shampozinho... Outro dia resolvi experimentar um outro salão, e eu detesto salão... É um exercício fascinante. O cabeleireiro chegou todo animadinho: - Nossa! Quanto cabelo branco! Nós temos que pintar tudo. - Pintar?! Eu acho lindo cabelos brancos! Você

sabe o que isso significa? A experiência, a sabedoria, a segurança no brilho de cada um desses fios? Não é para qualquer uma, não! Leva pelo menos uns 40 anos para conseguir esse patamar de desempenho. - Ôh, meu bem, me desculpe! Você foi a primeira mulher que eu conheci que pensa assim. Voltei por salão antigo, e a minha cabeleireira insistiu: - Você não quer passar uma Hena? É um produto natural, os fios brancos vão ficar dourados. Talvez você nem precise mais fazer luzes, porque seu cabelo fica tão claro nas pontas... Quando a mulher disse “Hena”, eu disparei a gargalhada descontrolada! Me contaram essa história de modo tão reservado, sigiloso, que eu fico meio sem jeito de falar no assunto... principalmente porque envolve a vida alheia.

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Como aprendizagem... Será que vale a pena uma reflexão? O tema é tão, tão...

É o seguinte: Uma jovem senhora, separada, alta funcionária, depois de longos anos, reencontrou um ex-namorado (aquele amor mal resolvido), separado, recém-transferido de volta para Brasília, alto funcionário. Ela, imagina! superinteira, malhada, lipada, siliconada... tudo que tem direito, estava apaixonadíssima pelo “ex”, com encontro marcado para a noite tal, e ia rolar... Depois de 30 anos, voltou tudo aquilo da adolescência, elevado ao cubo. Mas ela ligou pra uma amiga nossa, superinsegura, veja você, porque ela não queria que aquele monumento percebesse que ela tinha cabelos brancos....é... pubianos... - Passa Hena! Você mesma pode aplicar no banho! É

um shampozinho... Gente, eu tenho 41 e juro que nunca tinha ouvido falar que se usa Hena lá... Acho que eu só sei “um” versinho de cordel: adoro esse, porque tem um significado profundíssimo! Foi um daqueles violeiros que cantou pra mim, num restaurante,

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numa praia, sei lá eu onde, com certeza há mais de 30 anos: “As mulheres de Brasília Não têm mais o que fazer... Cortam o cabelo de cima E deixam o de baixo crescer”. Agora, passar Hena?! Ela passou! E lá se foi ela, impecável, para o tal jantar. Hum, rum, foram pro motel... Hum, rum, ele era irresistível... Hum, rum, além de irresistível, delicioso e “faz tudo o que merece”. Um atraso de 30 anos? Imagina o que é isso! Hum, rum, oral também... Você acha que tem jeito de ser ruim? Na pior das hipóteses é uma delícia completa. Ele não entendia a cara dela, olhando pra ele, sem graça, desconcertada, receosa, nervosa... Foi... Hum, rum, lábios, queixo, bigode, gengiva, dentes... Quando ela abriu os olhos, ele estava totalmente manchado de Hena: bigode, queixo, lábios, gengiva,

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dentes, língua... faringe, laringe, amígdalas, adenóide... (Esqueci do nariz!) Claro que o amor é lindo! E ele, um jovem senhor que se presa, ficou mais apaixonado que antes. Elegância, sabedoria, experiência... pelo menos uns 50... Ele tem bem, bem, bem mais que isso: de senso de humor e tranqüilidade também! A “malhada, lipada, siliconada...” ligou pra nossa amiga, em plena madrugada, para perguntar o que fazer: como é que se tira rena do bigode, da gengiva, dos dentes??????????????????????? Dentista sabe dessas coisas? Eu tenho tanta pena das pessoas que pintam os cabelos para “parecer”, pra esconder... - Um dia, eu vou entrar nesse salão com a cabeça

branquinha! E tenho certeza de que eu vou ser a “velhinha” mais charmosa e interessante da face da terra! Aquele cabeleireiro animadinho, que não conseguiu pintar nada, ficou tão emocionado que me contou tudo sobre a avó, a bisavó, a mãe, a cliente de São Paulo.... incríveis mulheres, lindas, charmosas, de cabelos brancos.

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De vez em quando, lá no meu trabalho, chega um de cabelo pintado. Normalmente é namorada nova e “nova”... Um desastre!!!Elas não têm mais o que fazer? Deixem o cabelo dos outros em paz! Eu deixei “a minha cabeleireira” passar Hena dourada nos meus cabelos de cima, numa boa! Ninguém notou, ninguém, porque eu já fazia luzes! Tenho um pouquinho de saudade dos fios brancos naturais, mas eu sei que é por pouco tempo. Depois disso, de vez em quando eu examino... os de baixo... Já pensou?! Que chique! Namorada nova é um perigo! Não pintem o cabelo! Ninguém precisa parecer nada...

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A Pena! Quando o padre me pediu que gravasse o CD para mulheres grávidas e crianças de pré-escola, tive que fazer várias reflexões sobre o tema. Sempre que eu encontro aquelas mães preocupadas com seu desempenho com os bebês, eu repito minha primeira lição: - Se seu filho escolheu você pra mãe, ele deve saber o que está querendo!!! Ele quer você desse jeitinho aí. A gente só pode dar o que tem, né? É sempre assim: uma “escolhição” sem fim! Quando me lembro dos meus partos, morro de pena do médico! Meu obstetra não faz mais partos. Mudou de especialidade. Acho que ele se cansou de passar sustos, tantos sustos! Só eu dei dois que bastariam pra traumatizar qualquer um! E, no fundo, eu acho que traumatizou mesmo... Eu com certeza! O engraçado é que com o tempo a gente acaba se esquecendo. Vez por outra eu me pego sonhando com mais um, ou dois, ou quantos quiserem vir. Acho que gosto de ser escolhida! Nós escolhemos eles, os médicos, pra nascer, pra renascer de cada doença e, às vezes, até pra morrer!

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Eles pensam que têm controle sobre a vida, como as mães pensam que têm controle sobre os filhos que geram... Os médicos são apenas os escolhidos para aqueles momentos, assim como as mães... Alguém tinha que estar lá e estava porque foi o(a) escolhido(a) para a missão, para a lição: essa vida e uma “escolhição” sem fim! Antigamente, quando eu me via cheinha de problemas, eu fazia um acordo com Deus: - Tudo bem, eu resolvo os seus problemas e você resolve os meus! (Ele é gente boa! Eu sempre acho os dele facinhos... Ele só escolhe a gente porque sabe que vai terminar tudo bem! A gente só faz o que pode. Se escolheu, deve saber o que está querendo, né?) Foi assim que ocorreu naquela sexta-feira. Milena tinha marcado um encontro, pro final da tarde. Que horas é o final da tarde? Pra mim é 17h30, 18h... E pra você? Era um encontro importante pra ela, importantíssimo! Mal sabia ele quantas vezes ela tinha voltado naquele estacionamento do Hospital Santa Cecília, onde ela acha que tudo começou. (Eu também não contei, mas foram muitas vezes!) Domingo à tarde, domingo à noite, depois das 10h... Normalmente ela só encontrava os lixeiros, varrendo a rua, o estacionamento...

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- O que é que eu estou fazendo aqui? Eu perdi alguma coisa? Eu não estou entendendo nada! O que é que eu tenho de encontrar? Realmente Milena anda assim meio afastada das rezas oficiais... Essa é outra história, interessantíssima, diga-se de passagem, mas vai ficar pra outra, porque meus leitores detestam calhamaços... Muito bem. Nesse fim de tarde, ou seja, exatamente às 17h30, Milena nem chegou a parar o carro, porque logo na entrada do estacionamento, ela viu que seu encontro “já era”. - Só pode ser gozação! Não dá pra combinar nada! Ela saiu dali completamente indignada, vendo só o lado ruim de tudo, o lado mais evidente, aquele mais contundente, mais próximo quando a gente precisa sentir dores, chorar, sofrer, ou melhor dizendo, quando a gente quer ir além de onde já se está... Não deu outra. Ela foi diretinho pra igreja, uma das mais lindas da cidade. No final da tarde, então, quando o sol entra por aqueles vitrais, vira o cenário perfeito para os melhores encontros. Eu nem sou muito chegada àquela paróquia, mas que a igreja é linda, é! Ela estava furiosa! Decepcionada, frustrada, rejeitada, humilhada...

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- Afinal! O que que você quer de mim? Você quer que eu volte a te ajudar? Tá com saudade? Quer que eu venha aqui todos os domingos, todos os dias, só pra te ver? - (...) - Quer que eu peça pra ficar no seu colo? Que eu te implore pra me ajudar? - (...) - Tudo bem! Eu aceito trocar de problemas com você! Eu vou te dizer o que eu quero! E você me explica o que você quer que eu faça agora... - (...) ( Às vezes ele demora um pouquinho pra responder... É assim mesmo!) Eu não posso contar o que eu queria, tudo que eu imaginei e senti acontecer em sonho, em pensamento — mas com uma tanta nitidez que hoje eu penso que já aconteceu, de verdade mesmo — porque eu já falei demais! Cometer “sincerocídio” com tanta freqüência deixa as pessoas muito vulneráveis: é um risco enorme! Não sei como eu tenho escapado... Mas, lá pelas tantas, eu parei de falar e resolvi ouvir... ou tentar escutar alguma coisa, alguma respostinha, porque, afinal de contas, ele sabe que eu não nasci pra monólogos! - Já terminei! É melhor você dizer alguma coisa, porque eu tô exausta, nem sei como vou

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conseguir me embora...

levantar

desse

banco

pra

ir

(Pra dizer a verdade, acho que eu estava meio cochilando, de olhinho fechado...) Quando eu me dei conta da situação, a missa já tinha começado, acho que era a das 18h. Levantei os olhos, vi o padre lá na frente... e de repente, não mais que de repente, alguma coisa chamou minha atenção em direção ao lustre, aquele lustre poderoso, enorme, reluzente, todo de cristal! - O que é isso, meu Deus do céu? Acredite se quiser! Meus olhos se fixaram numa pena! Não me perguntem de onde ela saiu... Ela veio caindo, ropodiando no ar, se exibindo pra mim embaixo daquele lustre enorme, reluzente, poderoso... até pousar no chão, no meio daquele tapete vermelho, bem na minha frente. Quem me conhece sabe que eu tenho uma paixãozinha por penas de aves! São ou não são lindas? As de papagaio, as de faisão, as de pavão, as de marequinho Carolina, as de peru, as de galinha d’angola... Claro que eu tenho um monte delas! Eu mesma recolho no meu jardim,

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ou nas fazendas alheias, ponho tudo em caixinhas separadas e, vez por outra, faço cartões! Morro de ciúmes dos meus cartões de pena!!! Eu faço um monte de coisas e distribuo na boa... mas meus cartões de pena! Não sei qual é o mais bonito, e até dos feios eu gosto! Cada vez que eu decido me libertar de algum, é um parto! Um dia eu vou achar tudo isso uma bobagem, mas ainda não cheguei nesse nível! Pois é! Quando a pena pousou no tapete, eu demorei pra captar a mensagem: - De onde veio essa pena? Do lustre? E tem passarinho aqui dentro? Ninho no lustre? Será que é pena de espanador de pó? A essa hora? Os passarinhos já estão dormindo há muito tempo... Como é que ela caiu? Que pena é essa afinal? A peninha é linda! Pintadinha, ainda por cima! Ficou guardada na minha carteira... (De onde vem essa idéia de guardar as coisas na carteira, hein? Ela ficou amassadinha...) Fiquei olhando aquela pena em cima do tapete... - É claro que eu aceito o presente! Obrigada! Adoro penas!

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Dona Gertrudes é uma figura..., meio desbocada... Veja essa!

Entrevista com Dona Gertrudes. P- Quais são as novidades? R- Entre outras, vou viajar perto do dia dos namorados... P - Mais um curso? R- O curso da vez é à distância, virtual. Vou levar meus pais para um casamento, em Teresina. Eu quase me mudei prá lá há alguns anos. P- Está tudo bem? R- Tudo, não... Tive muitos aborrecimentos no trabalho (passou!), me sinto muito cansada, dores nos pés. P - O que mais lhe incomoda? R- Nos últimos meses, tem sido a saudade. Se dependesse só de mim, ela não teria chance nem de existir. É uma crueldade. P- O que a senhora tem aprontado? R- Todas ao meu alcance: muitos e-mails, filmes, livros — “O relatório sobre sexualidade masculina”, “Educando meninos”, “A semente da vitória”... —; dever de casa... P- E o marido? 28


R- Dois cursos simultâneos de pós-graduação, incluindo os sábados... (acho que é fuga da realidade! Minha mãe me deu um beliscão quando eu disse isso...) P- A senhora está guardando alguma mágoa? R- Sim, mas só dá pra contar pessoalmente, de pertinho... P- O que você gostaria de ter feito e não fez? R- A lista ainda é enorme. P- A senhora tem feito músicas novas? R- Fiz, mas não gostei. Tá aqui gravada... P- A senhora não acredita nesse “amoooorrrrr pra vida inteira”? R- Pra vida inteira, não... até depois da vida!!!! Eu sou a prova e maior testemunha de que há sentimentos que simplesmente não acabam, talvez nem com a morte! P- A senhora tem problemas sexuais? R- Eu não. P- A senhora já arranjou outro tipo masculino? R- Ainda não, mas tem aparecido alguns fãs... Física e intelectualmente eles não têm a menor chance, por enquanto. Com esses não dá. P- A senhora costuma apagar as pessoas da sua memória? R- Sim, com muita freqüência e enorme facilidade. P- A senhora não anda com a memória boa?

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R- Não. Vou marcar com um geriatra com urgência. Outro dia me peguei tentando abrir a porta do banheiro (público) com a chave da minha sala... P- Por que a senhora não tem aparecido aqui? R- Problemas de auto-estima, rejeição, abandono, insegurança, carência afetiva em alto grau... P- Por que a senhora está revelando essas coisas? R- A explicação não é muito racional, pra mim. Sinto uma confiança fora do normal, uma identificação... é um apoio, uma força inabalável. P- Por que isso não é racional? R- Porque me sinto meio empurrada, conduzida... como se estivesse fora da minha esfera de decisão... P- E por que a senhora não reage? R- Tô tentando. É uma pena que isso me deixe tão intrigada. Eu queria entender tudo. P- A senhora ainda acha que é patológico? R- Não. É diferente, só. No fundo me faz muito bem. P- De que datas a senhora ainda se lembra? R- 8 de maio. Aniversário da minha mãe, da minha avó e da lixeirinha... eu não quis ir à festa delas e levei a maior bronca por ter faltado. P- De que frases a senhora ainda se lembra? R- Exercício de memória: Vai chorar também? Não faz isso que é pior.

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Ainda bem que você não é minha funcionária. Sabe o que eu ia te dizer: vai porra nenhuma! Eu é que vou cuidar de você. Mas já? Adoro essas breguices que você faz. E você acha que eu consigo? Não tem remédio. Eu sou seu terapeuta. Que gostoso. Então, vem todo dia. A coruja estava na janela. Você não se acha, né? Não tenho como retribuir. Você não sabe como isso me deixa feliz. Eu tenho alguém, quando eu preciso. Vai brigar com mais alguém hoje? Vem cá, deixa eu fazer uma coisinha. Por que você comprou isso? Tenho tudo aqui na cabeça. Eu queria te pedir um presente. Eu tô menstruado. Ainda e muito. O que é me pega? Ouvi. Você já me mostrou isso. O que eu penso é um enigma. Eu tenho responsabilidade. Ela está de olho é em mim...

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Deixe esse velho seguir a vida. Não pode ser assim. Não posso. Hoje não. E o que que faz sua cabeça? Então aproveita. Tô vivo. Eu é que sou babaca.

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“Feijãozinho” Por que será que as pessoas não dão o que a gente pede? Me lembrei da “Feijãozinho” com 28 anos de idade. No dia seguinte, peguei meu carro e fui pra Pioneira da Borracha. - Moça, eu quero uma “Feijãozinho”. - O que é isso? - Uma boneca, molezinha, que vem com uma touquinha... Meu Deus, como eu queria aquela boneca! No meu tempo de criança não tinha esse negócio de ficar comprando brinquedo, não. Era um no Natal, um no dia do aniversário, um no dia da Crianças e olhe lá! Não foi por falta de pedir... Uma vez minha mãe não sabia o que comprar pra dar de presente para minhas primas e primos no Natal. Eu fui com ela à loja e ajudei a escolher. Não deu outra: ela comprou várias “Feijãozinhos”. Uma seria a minha, óbvio! Fiquei de olho nos embrulhos pra ficar com a azulzinha.

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A essa altura dos acontecimentos não tem mais graça falar nos defeitos dos outros, nem tentar justificar mágoas que nunca foram tratadas. No dia do Natal chegou lá em casa uma menininha a mais, que não estava na lista! Eu vi quando ela entregou a minha “Feijãozinho”... Não me lembro se chorei, mas até hoje dói. Tudo bem! Era só comprar outra, no meu aniversário, por exemplo. Não foi por falta de pedir... Me lembro direitinho da rosto da “Feijãozinho”. Não era cara, não era difícil de achar... Eu não vivia pedindo brinquedos, eu não queria um monte de bonecas... Quando Milena tinha 28 anos, ela foi convidada pra jantar no apartamento de Augusto. Era a segunda vez que ela ia lá. Quando estacionei em frente ao prédio, Augusto estava chegando do mercado. Subimos juntos. Eu tinha vindo direto do trabalho, meus pés estavam doendo, tirei os sapatos e deixei ao lado da porta da sala... Ele foi desempacotar as compras, e eu fui ao banheiro. Quando abri a porta, ele estava bem na

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frente com um saquinho do supermercado na mão, um saquinho da SAB: - Isso é seu. Me entregou o saco e saiu dali. Eu demorei quase um mês pra entender o presente. Acontece que a gente sempre fica sonhando com uma “Feijãozinho”, de preferência na cor azul! Sabe o que era? Quando eu saí do banheiro, vi que ele estava no quarto e fui agradecer o presente. Antes que eu dissesse alguma coisa, ele abriu uma bandinha do armário. Estava vazia. Embaixo havia três gavetas. Dava pra ver que estavam vazias. - Guarde suas coisas aqui. - Minha bolsa? Acho que ficou na sala... Eu levei mais de um mês pra entender o presente. Sabe o que era? Um chinelo e uma escova de dentes. - Se ficar de pé no chão vai acabar doente.

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A escova? Ele mesmo pegou de volta do saquinho e guardou no banheiro, ao lado da dele. Milena nunca ganhou a “Feijãozinho”, e Augusto nunca a “pediu” formalmente em casamento.

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Santo Tererê

A Trilogia Analítica é legal! Você conhece? É um escola de psicanálise, vamos dizer assim, com princípios muito simples. Estou tomando pé do assunto há pouquíssimo tempo, mas realmente não tenho muitos argumentos para discordar da teoria, porque a prática parece ser extremamente útil e eficaz. Comprei outro vestido verde — esse é verde água, chiquezão, lindo! —para ser madrinha num casamento (se alguém quiser me ver aos prantos, é só me levar a essas cerimônias...), e eu queria encher o cabelo de strass, para combinar com a frente do vestido. No dia, eu nem me lembrei do penteado, e não deu... Mas na semana seguinte não deu outra. Eu vi um tererê bem parecido com o que eu queria. Fui diretinho ao salão e colei aquilo no cabelo, só pra matar a vontade, e já me preparando pro casamento seguinte. Aí deu quase tudo certo. Dessa vez tomei algumas precauções, só que a mocinha do salão atrasou tanto que eu saí de lá com mais de meia hora de atraso... Resultado: fui direto pra festa, porque o casamento mesmo, já era... Isso é porque eu tinha viajado especialmente e exclusivamente para o evento... 37


Tudo bem, o tererê estava lá, e o vestido verde água também, lavadinho, lindinho! Bem, a previsão era de no máximo um mês, para o tererê descolar e cair. O meu estava batendo todos os recordes, porque eu praticamente não penteio o cabelo. Aquilo é ótimo pra paquerar! As pessoas ficam olhando, se aproximam, perguntam, pegam... É interessantíssimo! Mas eu nunca tinha imaginado que aquele negocinho fosse mudar tanto a minha vida! Finalmente, o padre “meu amigo” (minha vida é cheia de padres: tio, professor, amigo da família...) me pediu que o levasse para visitar um outro amigo nosso. Eu não sabia que ele estava muito doente... O padre foi me preparando no caminho: - “Olha, ele não está conseguindo andar, o cabelo caiu, ele quase perdeu a voz, está falando com dificuldade, a família colocou rampas no apartamento para a cadeira de rodas, a quimioterapia não deu resultado”... Quando cheguei lá, não acreditei no que vi e ouvi! Eu nunca vi um doente tão feliz em toda a minha vida! É uma alegria inexplicável! Ele me contou o início da doença, os erros de tratamento, a descoberta do diagnóstico, as rotinas nos hospitais, o apoio da família, o carinho dos amigos... Sem

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brincadeira nenhuma, parecia que ele estava contando piada! Uma segurança, uma tranqüilidade, uma felicidade, cada gargalhada... Enquanto eu olhava pra ele falando, com aquela voz sumida, sussurrada, eu só me lembrava da Trilogia Analítica: a doente ali era eu, não ele! Eu tinha ido ali visitar um doente, mas ele estava ali me curando! - Eu estou superfeliz! Porque eu achava que eu ia morrer na semana passada, e não morri! - Eu não sabia que você estava doente, mas eu sei

que cheguei na hora certa, pra te ver assim! Você está ótimo! - Minha amiga, pra mim, tudo que acontece é graça! Eu nunca mais vou ser a mesma pessoa, eu mudei a minha vida. Nós ficamos lá um tempão, mas quando eu já estava em pé, pra ir embora, ele não resistiu e disse pra filhinha dele: - Você viu que ela tem um brilho no cabelo? - O que é isso, tia? - São cristais para iluminar meus pensamentos. - E não sai? - Está bem colado, mas um dia vai cair: é um tererê,

só que esse é mais chique... - Você viu que meus cabelos já estão crescendo?

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- Você não precisa de tererê, nem de cristais, sua

cabeça já está iluminada! Mas até que ia ficar bonitinho em você. - Minha imunidade está boa. Venha me visitar de vez em quando. - Pode contar comigo. Eu pulei uma parte importante da conversa e da história, porque não quero falar sobre isso agora... Cada dia tem sido mágico! A verdade é que eu saí daquela casa com outra cabeça! Minha vida mudou tão profundamente que até o tererê caiu... simplesmente soltou e caiu. Meu amigo tem um sorriso maroto e uma alegria comoventemente simples e duradoura. O que eu vejo nele é muito mais que uma graça, que um bálsamo para mim! Acho que não vou usar o tal vestido verde água nem tão cedo: perdeu a cara de novo... (Já comprei outro, chocolate, para os próximos eventos extraestaduais.) Mas confesso que eu estava morrendo de vontade de mandar colar o tererê, de novo! É... só para paquerar...

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Fatos e Fotos Milena sempre gostou de tirar fotografias e de revêlas também. Tem alguma coisa errada... ela não tem as fotos que queria rever. O mais ridículo da situação é que ela anda com uma na carteira... Completamente ridículo... a foto não é verdadeira. Um belo dia ela estava folheando uma revista de Brasília, morta de saudade, lá em Natal, quando viu alguém parecido, simplesmente parecido, muito parecido, é verdade, mas apenas “parecido”. Não, ela não fica revendo aquela foto, mas é bom saber que ela está lá. Milena nunca carregou a foto de ninguém na carteira, e agora, está lá, a foto do “parecido”. Só pode ser doença... Certa vez Milena estava exausta, talvez isso seja uma tendência: fazer um monte de coisas ao mesmo tempo. Todo mundo pergunta como é que ela consegue, como ela arranja tempo. Dizer que “não tem tempo” é pior que carregar foto de parecido na carteira... Eu não carrego mais... Pois bem, exausta, à beira de um colapso, Milena resolveu descobrir de onde vinha esse negócio de trabalhar demais...

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- Por que eu não paro tudo? Por que eu não fico sem fazer nada, descansando? Por que eu não me recuso a fazer coisas que parecem tão difíceis, tão complicadas? Depois de meia hora de profunda reflexão veio a resposta, clara, límpida... “Oh, meu divino chefe Jesus Fazei-me generosa e leal Quero estar semper parata Para vos servir como vós mereceis Para dar sem restrição Para combater sem medo

Para trabalhar sem buscar descanso Para despender toda a minha vida Servindo a Deus e a meu próximo Sem esperar outra recompensa Senão a consciência e a alegria De estar cumprindo o meu dever E fazendo a vossa santíssima vontade. Santa Joana D’Arc, Rogai por nós.” Sabe o que é isso? É a oração Bandeirante, que Milena aprendeu quando tinha uns sete anos de idade. Pois é, ela foi Bandeirante até grandinha... Acampei até

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não poder mais, ganhei um monte daqueles negocinhos de pano pra pregar na farda... só não aprendi a cozinhar. Uma vez me botaram pra lavar os pratos. Tinha que ir, né! Na minha casa eu nem chegava perto da pia, porque a empregada me enxotava. Até hoje ela mora com a minha mãe. Vai se aposentar no próximo ano... Eu abri a torneira e tome sabão na bucha., cantando, morta de feliz! Quando me chega a chefe: - Meu bem, não é assim que se lavam pratos no campo! Você vai acabar com as nossas reservas... Pegue ali duas bacias. Esta aqui é para ensaboar todos os pratos e talheres juntos. Esta outra é para enxaguar: a água que cai sobre um, já vai servindo pra os outros... Agora veja os copos: você ensaboa todos juntos e quando estiver enxaguando, jogue a água de um dentro do outro, porque assim a gente economiza. Tudo bem! Eu aprendi, e vai rapinho. Uns dez anos mais tarde, estava eu na casa na minha futura ex-sogra, uma mineirinha pra lá de dona de casa. Precisa dizer que fiquei mais de dez anos sem lavar pratos? Fiquei! Era um domingo, bem familiar, a casa estava cheia, e ela sem empregada. Meu namoradinho, fofinho, artista, entre outras coisas: - Pode ir pintar seu quadro que eu lavo os pratos! Eu vou adorar.

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Lá estava eu, feliz da vida, lavando os pratos, dessa vez com a pia bloqueada, pra virar tipo uma bacia... e, obviamente, aplicando toda a minha técnica bandeirante! Quando chega a minha ex-futura sogra: - Meu bem, o que é isso? - Ah, Dona Carlos, assim a gente ensaboa tudo de uma vez só, vai rapidinho, e a gente ainda economiza água! - Milena, meu amor, aqui a gente não economiza água e sabão, ainda mais para lavar a louça! Se você joga a água suja no copo ensaboado, você nunca vai conseguir limpar direito... Não precisa fazer isso, meu bem. Pode abrir a torneira e ir ensaboando e enxaguando um a um.... Deixe a água correr bastante no final. Olha aqui como eu faço! Pois é, ela reassumiu o posto até o final da festa... Eu fiquei lá, sem saber onde enfiar a cara, dando apoio moral, ao lado da pia... Precisa dizer que dessa hora em diante eu nunca mais lavei uma colherzinha na casa dela? Pois nunca mais eu lavei... ela nunca deixava. E olha que nós namoramos uns cinco anos, apesar de tudo. Levei semanas para me lembrar onde eu tinha aprendido aquela “nojeira”... Não me esqueço da carinha dela me olhando, horrorizada. No mínimo devia estar pensando:

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- É no Nordeste que se lava louça assim! Coitadinhos! Lá tem de economizar água! Aquela seca é um horror! Uma moça tão bonitinha, bem vestida, sabe até pintar sabonete... Tá rindo porque não foi com você... Esse foi outro sonho que eu realizei. Um belo dia, eu me indaguei, decidida: - Por que eu não namoro um rapaz elegante, fino, que tenha um carro que preste, roupa lavada, casa... (os dois anteriores moravam em pensão e os fusquinhas viviam quebrados... era terrível!). - Ah! E que seja artista! Já pensou, eu deixar um suquinho de laranja pra ele ao lado das telas... Uau!!! Se eu contar, ninguém acredita! Em menos de um mês eu estava namorando ele, artista, com um carro zerinho, praticamente meu vizinho de bairro... Se eu soubesse que eu tinha tanto poder pra conseguir o que eu desejava, eu teria caprichado mais nos predicados: foi inexperiência minha, confesso. Eu estou falando seriísimo. Claro que eu tenho testemunha. Antes de tudo acontecer, eu comentei meu sonho com Tia Margarida. Foi ela quem me alertou:

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- Menina, você é fogo! Conseguiu o artista, de carro novo? Levou o suquinho de laranja pra ele? Eu não me lembrava que tinha desejado isso, em voz alta... Hoje em dia eu já estou mais espertinha, mas ainda não consigo listar todos os predicados... sempre me esqueço de algum detalhe... Mas como eu ia dizendo, o problema era a estafa! Como é que se trabalha sem descansar? Só pode ser maluquice! Nunca mais rezei a oração Bandeirante... só por causa daquela frase! Muitas vezes eu chego em casa cansadíssima, normalmente nas sextas-feiras, como hoje; boto meu pijaminha, me enfio embaixo do edredon e tento ficar parada e muda. - Talvez se esqueçam de mim aqui... Fico sem responder aos dez primeiros chamados, na boa... mas quando começa a chorradeira de menino, eu não resisto! Parece que ninguém na casa inteira consegue resolver aqueles probleminhas: tem que ser a mãe! Eu até ouço que todos estão tentando... mas fazem tudo errado!!!! Que falta de habilidade! Onde será que eu aprendi a ser mãe?

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Obs.: eu não disse que as forças do universo conspiram? Pois bem, comecei a escrever na hora do DF TV. Parei pra jantar, e são exatamente 20h01, no reloginho do computador. Sabe o que eu acabei de ganhar? Um envelope cheinho de fotos! Exatamente! As do aniversário, do banho de piscina, do futebol de sabão e do Dia das Mães!!! Ficaram lindas!!! Eu até me esqueci daquelas outras, que ainda não tenho.

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Isso é amor? Por falar em amor, Milena tem fobia de supermercado. Sabia? Mais do que vinte minutos costuma ser desastroso! Foi assim que ela se sentiu na lua de mel! Milena detesta frio! Mas, a gente pensa que com uma boa companhia tudo se resolve, né? Aceitei ir pro frio na lua de mel... não sei onde eu estava com a cabeça!!! Pois bem, no primeiro passeio, depois de casada, numa caminhada de final de tarde (em Bariloche: dá de mil a zero em Londres, por causa dos lagos!), tive que enfrentar meu primeiro dilema: de um lado um supermercado (aqueles pequeninhos, cheio de temperinhos exóticos, bebidas com rótulos desconhecidos, diferentes marcas de queijos e enlatados...); do outro, uma perfumaria (aquelas enormes, com todos os tipos de essências, em tamanhos variados, embalagens novas e antigas, lançamentos de todas as marcas...) Isso é uma questão de “gens”: eles puxam a gente pra um lado e nos impedem de ir para outro!!! Não tinha a menor condição... Foi cada um pra um lado, “oposto”! Foi assim que Milena começou a notar os pólos extremos: até na sinastria (comparação de mapas astrológicos), sol e lua em oposição!

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Hoje em dia, ela tira de letra! Já aprendeu quase toas a manhas, menos a do supermercado... Um mercado do Lago Norte já colocou até mesinhas de espera, ao lado das plantinhas...” Ficou bonitinho, até “simpático”, mas eu não entro ali nem... Foi minha mãe. A culpa é dela! Ela não gostava de dirigir e me pedia pra acompanhá-la ao mercado! Boa filha, sabe como é, né... (Lá em casa todo mundo aprendeu a dirigir muito cedo, só pra levar mamãe ao mercado!) Eu ia, mas até hoje não consigo entender como as pessoas conseguem demorar tanto pra comprar aquelas “trenheiras”! Pior: saem comprando um monte de coisas que não estavam na lista! E o mais grave é quando vão sem lista: - O que que é pra comprar? - Ué, Milena, a feira da semana. - Nós viemos comprar o quê? - Tudo... - Você não sabe o que veio comprar? - A gente vai olhando e decidindo... “Apreciar” prateleiras de supermercado??? Tem gente que acha aquilo lindo! Já desisti de compreender esse fenômeno e superar a fobia!

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Minha mãe, pelo menos, fazia aquilo por obrigação: eu pegava mais da metade da lista rapidinho e reclamava tanto que ela ia no meu embalo... direto pro caixa... Inconcebível é fazer por prazer!!!!! Ah, meu amigo! Gosto não se discute! E os requintes? Tem gente que chega a ler os rótulos: - Milena, olha que interessante: é fabricado naquela cidadezinha que fica às margens da rodovia que liga Porto Seguro a Eunápolis. - Tem mais uns vinte itens nessa lista... Você veio aqui ler os rótulos ou comprar “os trens”? - Meu amor, a gente tem que escolher os produtos... Eu gosto de saber o que estou comprando... - Isso aí eu conheço: é farinha! Tem mais umas cinco marcas...Você vai ler todas? - Essas outras são antigas, já experimentei. (A sorte de Milena é que ele leu e testou tudo ainda quando era solteiro... Equivale a algumas horas a menos no supermercado: tô fora! Nem aquela grande rede de Porto Alegre me atrai! E olha que eles capricham!) PS: adoro “feiras”, ao ar livre!!! Aquelas... de barraquinhas! De frutas, então! Tudo penduradinho! Acho lindo!

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Crônicas II