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DIÁRIO POPULAR DOMINGO, 13 DE MARÇO DE 2011

Depois do terremoto, o No primeiro de cinco capítulos da série Além do dever, os repórteres do Diário Popular que estiveram no Haiti falam sobre a dura realidade ainda vivenciada pela população mesmo um ano após o terremoto que assolou o país Vinícius Conrad, enviado especial

Porto Príncipe, Haiti. Em poucos dias, muitas histórias, aprendizados e reflexões. A partir de hoje, os leitores do Diário Popular irão acompanhar uma série de cinco reportagens com os relatos sobre a viagem ao país que há pouco mais de um ano foi vítima de uma das maiores catástrofes do século - o violento terremoto de sete pontos na escala Richter, que devastou 70% das construções da capital, Porto Príncipe. Após o tremor, o caos tomou conta do Haiti. Hospitais, transportes e redes de água e energia elétrica entraram em colapso. Nas ruas, a população brigou por água e alimentos. A tragédia que afetou mais de três milhões de pessoas e deixou 250 mil mortos, entre os quais 20 brasileiros, incluindo a médica Zilda Arns, fundadora da Pastoral da Criança, que estava em missão humanitária no Haiti, levou o povo haitiano a organizar saques generalizados. Seu território, montanhoso, apresenta duas grandes cordilheiras, que se estendem de leste a oeste. Foi a primeira colônia da América a libertar os escravos e possui uma população predominantemente negra, com um pequeno grupo de mulatos - mestiços de africanos e europeus -, que forma a elite do país. Ainda sente os efeitos das sanções econômicas sofridas na década de 1990 e, desde a queda de Jean-Bertrand Aristide, em fevereiro de 2004, está sob intervenção das forças militares patrocinadas pela Organização das Nações Unidas (ONU), que sempre teve o Brasil na direção militar. Ao chegarmos no local, constatamos o que realmente imaginávamos. Se historicamente a situação já era lamentável, a devastação gerada pelo terremoto prejudicou ainda mais as precárias condições de vida. A tragédia comoveu o mundo e gerou grande mobilização internacional. Mais de mil especialistas em resgate chegaram ao país. Toneladas de doações enviadas por nações e agências humanitárias ajudaram no combate do povo, mas a falta de organização para administrar a distribuição dos mantimentos prejudicou a entrega aos necessitados. O país que aos poucos conseguia pequenos avanços econômicos e políticos sofreu com as consequências. A estimativa é que a reconstrução do país custe em torno de oito bilhões de dólares, podendo levar até dez anos. Dois meses após a catástrofe, países e organizações internacionais se comprometeram em doar 5,3 bilhões de dólares nos próximos anos. Cerca de sete meses após o abalo, apenas 732 milhões de dólares haviam sido entregues. A lenta liberação dos recursos agravou ainda mais as condições nos precários acampamentos, onde, nove meses depois do terremoto, ainda vivia mais de um milhão de desabrigados. Em meio à ausência de condições sanitárias básicas, uma epidemia de cólera assola o país. A doença que não tinha registros de contaminação na população haitiana há 100 anos matou mais de duas mil pessoas e infectou mais de 72 mil.

Haitianos têm sobrevivido à custa da ajuda humanitária internacional; reerguer o país é uma tarefa que levará muitos anos

Mesmo com os problemas existentes, o maior orgulho por aqui é conviver com este povo receptivo, com vontade de vencer e que respeita os brasileiros.” Mário Cesar Joris, médico


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drama continua Marcel Ávila - DP

Diário Popular no Haiti Desde o convite para conhecer a realidade do país e durante todo processo de confirmação da nossa ida ao Haiti, muitas ideias surgiram. Porém, ao pisar no solo caribenho, tudo muda. Uma realidade completamente paralela. Não tem como não se orgulhar do trabalho realizado pela ONU e, principalmente, pela importância das tropas brasileiras para o país. Como um fanático por futebol e esportes, afirmo que nunca havia convivido com um sentimento patriota tão forte. Nem nos títulos mundiais que pude ver a Seleção Canarinho conquistar. Como quem vai participar da Missão de Paz no Haiti tem que ser voluntário, todos que tivemos contato não cansaram de dividir as experiências e convivências durante sua estada no país com os olhos brilhando. Para eles é encantador contribuir com os necessitados, que não são poucos. Conversamos com um dos médicos do batalhão brasileiro. Para nossa surpresa, tivemos o prazer de encontrar o chefe da Unidade Médica que está participando da missão pela segunda vez. Na primeira oportunidade em 2006, ficou seis meses e encontrou uma realidade bem mais complicada que a atual, onde está há sete meses e na qual ficará até completar um ano. Natural de Rio Grande, onde tem muitos familiares, Mário Cesar Furtado Joris, de 46 anos, está há 11 anos servindo ao Exército brasileiro e dividiu muitas experiências obtidas nas passagens pelo Haiti. Formado na Universidade Federal do Rio Grande (Furg), Joris passou pela Escola de Saúde do Exército e já teve outras experiências em missões no exterior. Na primeira estada em solo caribenho, o médico encontrou um país ocupado por gangues, principalmente em Cité Soleil, uma das favelas mais conhecidas de Porto Príncipe. No momento em que a polícia não conseguia entrar em alguns locais, os

Lixões e esgoto a céu aberto, bem próximo às casas, são parte do cenário da vida no Haiti

integrantes das gangues extorquiam a população, cobravam falsos impostos, bloqueavam ruas e comercializavam muitas armas e drogas. Segundo ele, existiam duas fortes gangues, uma comandada por Amaral e que era um pouco mais pacífica, e a violenta, comandada por Evans. Uma época em que a população desacreditava na segurança, uma guerra entre a pobreza e as gangues. Até a prefeitura de Cité Soleil sofreu com as ações criminosas, o prédio foi completamente alvejado por tiros e a Polícia Nacional do Haiti (PNH) nada pôde fazer, já que os bandidos possuíam armas mais poderosas que as deles e não tinham preparo para agir em situações como essas. O prefeito teve que deixar o local e buscar um lugar mais seguro. Reconhecendo as dificuldades, os integrantes da Missão de Estabilização das Nações Unidas no Haiti (Minustah) resolveram planejar para estabelecer pontos fortes nos locais de tensão e inquietar os bandidos. E assim foi feito. A primeira atuação aconteceu na Base Jamaica, um dos pontos de Evans, um prédio público que foi tomado. Logo que os bandidos perceberam a presença de militares, começou um tiroteio. A primeira parte do planejamento estava obtendo o êxito. Como a troca de tiros só aumentava, os comparsas das outras bases se deslocaram para a Base Jamaica. Sem esperar, militares já estavam posicio-

Miséria no país é escancarada; índice de analfabetos chega a incríveis 80%

nados para tomar as demais bases. Foi uma ação em uma das bases para chamar atenção dos demais. E com isso tomar as bases que foram desocupadas. Um grande sucesso. Revoltado com a perda, Evans - praticante de Vodu - colocou carros de sons nas ruas com mensagens contra os brasileiros. Entre as diversas mensagens, o médico contou que se lembra da alegação de que os gatos estariam trazendo má sorte ao país e pedia para que a população sacrificasse os animais. Uma senhora recusou matar seus inúmeros gatos e foi morta com um tiro na cabeça. As diversas ações dos militares e a busca pela captura de Evans fizeram que ele andasse com diversos disfarces pelas ruas, inclusive, vestido de mulher. A população começou a reconhecer o trabalho da Minustah e aos poucos deixou de ser prisioneira para viver com liberdade. Amaral foi para os EUA e seus comparsas entregaram as armas. Evans acabou sendo preso.

Suporte O médico contou que seu trabalho é mais voltado ao suporte para as tropas brasileiras, mas sempre que possível gosta de atuar com a população. Além da logística montada para a patrulha, dá palestras sobre as doenças, participa das Ações Cívico-Sociais (Aciso), onde distribuem alimentos, água, orientam sobre hábitos de higiene, como a correta escovação dos dentes. Mesmo com as diversas histórias, experiências, o médico se diz privilegiado por ter vivido na época de tensão e retornar em outra realidade. Por mais que ainda existam problemas, para ele, o maior orgulho é conviver com um povo receptivo, com vontade de vencer e que respeita os brasileiros, um país que angariou muita admiração pelas suas atuações em prol da população.

Alegria O sentimento que fica é de que, apesar das inúmeras dificuldades, os haitianos vivem sorrindo. Um povo alegre, que gosta de música, idolatra os brasileiros, ama o futebol e busca a reconstrução de um país que sempre viveu em situações dramáticas. Elas só aumentaram após o terremoto do dia 12 de janeiro de 2010. Mesmo assim, a união deles e força de vontade em reerguer a nação caribenha é uma lição de vida.


DIÁRIO POPULAR SEGUNDA-FEIRA, 14 DE MARÇO DE 2011

O Brasil de mãos dadas No segundo capítulo da série, os repórteres do Diário Popular contam, em texto e imagens, o dia a dia dos militares brasileiros no Haiti; às vezes, até mesmo os períodos de folga são trocados pela mais importante das tarefas no local: a reconstrução Vinícius Conrad, enviado especial

Porto Príncipe. Haiti. “Para quem gosta do que faz, todo dia é feriado. Tirando a saudade da família, os dias aqui são curtos.” Essa foi a resposta do tenente médico Venâncio, ao ser perguntado sobre a rotina e dificuldades de viver no Haiti. Marcello Ferraz Venâncio já tinha trabalhado um ano na região da fronteira entre Peru, Colômbia e Brasil e diferentemente da maioria dos integrantes da Missão das Nações Unidas para a estabilização no Haiti (Minustah), ficará um ano no país. A maioria costuma ficar por seis meses. Para ele, são situações diferentes, porém, muito marcantes. Formado em 1999, o militar de 35 anos se orgulha em servir ao país e, ao mesmo tempo, contribuir com um povo tão miserável. Com lágrima nos olhos, ele relembrou o dia em que conheceu um menino de oito anos que nunca tinha tomado água que não fosse do chão. Com sorriso no rosto, contou que o menino Jean Pierre, que mora nos fundos da delegacia da Polícia Nacional do Haiti (PNH), quer ser intérprete e trabalhar na Organização das Nações Unidas (ONU). Com apenas 11 anos, Jean fala inglês, francês, crioulo haitiano e português, e apesar de ter perdido sua família no terremoto, tem muita vontade de vencer. No último encontro que teve com o menino, recebeu o pedido de um livro de matemática em Francês. O garoto, exemplo e motivação para muitos militares que integram a missão, tem o mesmo objetivo que a maioria dos haitianos: estudar para sair do país, mas um dia retornar ao solo caribenho para contribuir com seus conterrâneos. O Brasil assumiu em 2004 a liderança da Minustah, com o envio do maior contingente militar e do Force Commander da missão. Após cinco anos de atuação, áreas foram reconquistadas das gangues e devolvidas aos cidadãos haitianos. Mas não basta pacificar militarmente essas áreas, é neces-

Presença de soldados da ONU na rotina do país é uma constante cheia de simbolismo: aos poucos, o medo dá lugar à vida nova

sário derrotar a violência nas suas raízes. Após o terremoto, essa necessidade só aumentou. É indispensável a convergência entre segurança e desenvolvimento socioeconômico, a integração entre as dimensões da manutenção da paz (peacekeeping) e da construção da paz (peacebuilding) e a consolidação das instituições de governo. Os princípios que regem a participação brasileira nessa nova fase são o res-

peito à soberania do Haiti, a liderança do governo legítimo do Haiti e o papel central da ONU na coordenação dos esforços de ajuda, reconstrução e recuperação. Embora a atividade do contingente brasileiro seja prioritariamente de segurança e estabilização, ele nunca deixou de realizar ações sociais, atendimento médico e odontológico, distribuição de alimentos e palestras educativas sobre temas que envolvem saúde e higiene básica.

Ajuda. Em média, por ano são distribuí-

Tropa brasileira é admirada pela população no Haiti

das mais de 60 toneladas de alimentos, oito mil atendimentos odontológicos contribuem com a saúde da população, aproximadamente 42 mil atendimentos médicos, uma média de 12 perfurações de poços artesianos, no mínimo 50 quilômetros são reparados nas ruas do Haiti e 20 quilômetros de pavimentação. Estas atividades se intensificaram após o terremoto, incluindo a reconstrução. Atualmente, cerca de 30 iniciativas de cooperação são executadas no país. A cooperação técnica no Haiti inclui projetos nas áreas de agricultura, segurança alimentar, tecnologias sociais, educação profissional, saneamento básico, saúde, meio ambiente e prevenção da violência contra a mulher. As tropas brasileiras permanecem prestando apoio

Para quem gosta do que faz, todo dia é feriado. Tirando a saudade da família, os dias aqui são curtos.” Tenente Venâncio, médico humanitário aos desabrigados (aproximadamente 1,5 milhão de pessoas) alojados em barracas e distribuídos em acampamentos.


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com o povo haitiano Fotos Marcel Ávila - Especial - DP

A Companhia de Engenharia Entre as diversas atuações, uma muito importante é o trabalho da Companhia de Engenharia que tem executado tarefas como construção, manutenção ou melhoria dos Eixos Principais de Suprimento (Major Supply Routes); de aeródromos e heliportos; de pontes e de travessias de pequeno vão, instalação e manutenção de pontes militares móveis. Obras hídricas e sanitárias nos acampamentos, construção de instalações para tropas da Minustah, produção e distribuição de brita e areia para as obras, tratamento de cerca de 20 mil litros semanais de água para áreas militares e orfanatos. Além dos auxílios aos demais batalhões, um dos papéis mais importantes é de auxiliar nos trabalhos de levantamento na área da futura Usina Hidrelétrica de Artibonite, a 60 quilômetros de Porto Príncipe. O projeto Aproveitamento Hidrelétrico Artibonite 4C é uma das principais iniciativas do governo brasileiro em apoio à reconstrução e ao desenvolvimento do Haiti. O estudo técnico relativo ao projeto - elaborado pelo Exército foi integralmente financiado e preparado pelo Brasil (com orçamento de 2,5 milhões de dó-

lares), em resposta a pedido de cooperação no setor energético, apresentado pelo governo haitiano. Localizada próxima à cidade de Mirebalais, tem capacidade instalada de 32 MW (geração média de 159 GWh/ano), capaz de atender a 213 mil famílias, com cerca de 1 milhão de cidadãos haitianos; deve gerar 700 empregos nos 40 meses da obra, fortalecer a rede de transmissão que conecta a usina de Le Péligre e a subestação Delmas, em Porto Príncipe. Porém, já que necessita construir, custear as despesas ambientais e sociais, inclusive a realocação da população da área inundável, o projeto tem um custo total estimado em 191 milhões de dólares.

Outras áreas. O trabalho de contribuição com Haiti não se restringe apenas ao serviço das Forças Armadas, entre os diversos que estão em operação, a Embrapa e o Ministério da Agricultura brasileiro implantaram o projeto Fond des Nègres com foco no melhoramento em cultivos de arroz, feijão, milho e mandioca. A parceria entre a Embrapa e o Ministério resultou em outro projeto, o Kens-

coff, que promove a produção agrícola sustentável na principal região produtora agrícola no Haiti. O Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) e o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) também realizam atividades no país. Foram implantados centros de educação profissional para serviços comerciais com cursos-piloto em mecânica, eletricidade, computação, vestuário e construção civil. A Fundação Oswaldo Cruz também contribuiu com os haitianos ao apoiar a implantação do banco de leite humano que não se restringe apenas a entrega do alimento, existe um treinamento e divulgação da importância do aleitamento materno.

Força brasileira a serviço da Organização das Nações Unidas tem ajudado a reerguer o Haiti

Banho de chuveiro - e de esperança! A comprovação de todos os trabalhos realizados durante esse período em que a missão de paz contribui com os haitianos foi comprovada ao conversar com o major Lira. Romar Lira Gonzales Bastos estava no batalhão emergencial que foi criado a pedido da ONU poucos dias após o terremoto. O militar serve em Goiânia, é natural de Fortaleza, e retornou ao país caribenho com a tropa do Nordeste. Pela segunda vez no país, ele se orgulha pelo carinho conquistado pelo povo brasileiro e da forma em que trata a população. Segundo ele, o povo haitiano também quer atenção, carinho. Como

a maioria dos voluntários na missão de paz, ele se dispõe a ajudar até nos dias de folga, um trabalho além do dever. Preocupado com a população, ele contou que participou da operação de retirada de escombros e que o cheiro era insuportável. “Mesmo com todas as dificuldades que convivi, voltei com uma satisfação enorme em ter a oportunidade de novamente contribuir com esse povo que tanto conquistou meu carinho. É um orgulho estar aqui, onde me sinto em casa e posso representar meu país”, declarou o major. Entre as inesquecíveis lembranças, uma que marcou na sua trajetória

foi a inauguração de um orfanato quando as crianças tomaram um banho de chuveiro pela primeira vez, em julho de 2010. “Eram cerca de 100 crianças correndo com um sorriso nos rostos que eu nunca tinha visto na vida. Foi incrível”, concluiu.

Sentimento Como estivemos na troca de comando do 14ª contingente brasileiro que participou do 1º Batalhão de Infantaria de Força de Paz (Brabat 1), pudemos conviver com diversos militares que estavam deixando a missão. Todos eles com orgulho em ter contribuído com uma população que apesar das dificuldades, busca vencer na vida. Mesmo que tenha ficado por poucos dias no Haiti, retornei para Pelotas sabendo que daqui para frente terei outro espírito ao entoar o hino nacional: “Pátria amada, Brasil!”.

Por ano, são distribuídas no país caribenho aproximadamente 60 toneladas de alimentos

Veja mais vídeos sobre o dia a dia das tropas brasileiras no Haiti Homens responsáveis pela engenharia trabalham em diversas atividades, da construção de pontes à perfuração de poços

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DIÁRIO POPULAR TERÇA-FEIRA, 15 DE MARÇO DE 2011

As mulheres na linha de Em Porto Príncipe não é difícil encontrar mulheres guerreiras, sem as quais seria praticamente impossível pensar em reconstrução; além das haitianas, que diariamente suportam as privações, muitas brasileiras ajudam a reerguer o país Vinícius Conrad, enviado especial

Porto Príncipe, Haiti. Emocionante. Essa é a palavra que resume o dia de visita a alguns locais do Haiti. Além das imagens impactantes que pudemos ver nas ruas, conhecemos projetos nos quais há mulheres brasileiras participando de forma incrível. Exemplo de boa ação e contribuição com os necessitados. Logo ao amanhecer, tomamos um café, assinamos um termo da Organização das Nações Unidas (ONU) que para nossa segurança solicita que em toda saída da Base General Bacellar precisaríamos vestir colete à prova de balas e capacete azul da ONU. Após percorrer um longo caminho pelas ruas de Porto Príncipe, capital do Haiti, chegamos ao primeiro local que visitamos no dia. Como a maioria das ruas, o chão batido e a poeira são o cenário do Centro de Saúde Lucélia Bomtemps. O projeto conta com cinco irmãs dominicanas, sendo que uma delas é brasileira, a irmã Aparecida, natural de Curitiba. Elas tiveram sua casa em Porto Príncipe destruída pelo terremoto e na impossibilidade de reconstrui-la se juntaram a outra comunidade na localidade periférica chamada de La Plaine. Além da destruição do terremoto, no mês de outubro o país voltou a sofrer com uma epidemia de cólera depois da passagem do ciclone Thomas. Apesar de estar devastado pelos fenômenos naturais, violência, pobreza e instabilidade política, o Haiti vive na esperança de sua reconstrução. Partilhando a situação de milhares de pobres que precisaram se deslocar devido às tragédias, elas também vão à periferia da capital destruída. As irmãs mantêm um hospital que presta serviços completamente gratuitos e acolhem de 180 a 200 pessoas por dia, oferecendo os cuidados iniciais e encaminhando para os centros públicos de tratamento. As irmãs e os colaboradores do hospital transmitem as noções fundamentais de higiene para combater a epidemia, e também prestam serviço no diagnóstico de casos suspeitos de cólera, bem como a assistência às urgências e primeiras necessidades da população. Em um país que sofre de calamidades não tem como não reconhecer esse grande e exigente gesto de oferecer atendimento gratuito. Para elas, sofrer com o povo não significa se abater ou ajudar menos, muito pelo contrário, nesta hora difícil para o país, e também para elas, a solidariedade é a força que move a presença.

Fora da escravidão Poucos metros mais a frente fomos conhecer uma escola. A Ecole Frédéric Ozanam (em Pelotas há uma escola com o mesmo nome, Frederico Ozanan, ao lado do

Mesmo no mais difícil dos cenários pós-terremoto, a presença de crianças em crescimento assegura grande dose de esperança ao povo do Haiti

Em algumas iniciativas, mulheres recebem de graça cursos profissionalizantes


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frente Fotos Marcel Ávila - Especial - DP

Apoio aos filhos e às mães pelo futuro da nação Após contatos inesquecíveis, rumamos para o Centro de Nutrição e Saúde Rosalie Randu, que conta com a irmã brasileira Dulcimar, participando das atividades. Enquanto as crianças brincam e estudam, as mães realizam trabalhos de artesanato, de corte e costura e bordados. A venda desses produtos, no exterior, garante uma renda de sete mil dólares por semana, valor distribuído entre todas as mães, em pagamento pelo trabalho realizado. Há dez anos no Haiti, a irmã Dulcimar afirmou que não gosta de ficar mostrando seu trabalho através da imprensa, que trabalha para Deus, no silêncio e nunca pensando em se promover. Ela contou que cada criança passa por um processo de pesagem, avaliação e a montagem de uma alimentação específica. Como a maioria das mães são novas, o grande objetivo é ensinar as mulheres haitianas a serem verdadeiras mães, ensinando, educando e dando carinho as crianças. Um projeto que visa o futuro da nação. São diversas atividades que necessitam da participação das mães. Logo ao chegar ao local, por volta das 7h, as mães dão um banho nas crianças, servem mingau e fazem uma oração. Após a rotina diária, elas iniciam as atividades paralelas e no meio da manhã pegam seus filhos novamente. Desta vez, para alimentá-los com leite com vitamina. No final da manhã, uma nova ducha nos filhos e em seguida, as mães fazem massagem no fruto de seus ventres, mais uma atividade de aproximação, contato e carinho.

A força do sexo “frágil” A maioria dos projetos executados no país caribenho recebe a contribuição de uma mulher de fibra, daquelas que inspiram. Natural do Paraná, possui uma história que renderia um filme. Sua mãe estava se dirigindo de táxi ao hospital mili-

Aeroporto Internacional) acolhe crianças “restavec” das redondezas proporcionando além do ensino, uma vida digna, roupa, alimentação e condições de saúde que não encontrariam em suas casas. Um restavec ou restavek; do francês “reste avec”, refere-se a um sistema social no Haiti, no qual os pais que não conseguem cuidar de seus filhos lhes enviam a parentes ou estranhos que vivem em zonas mais urbanas onde recebem alimentos e habitação em troca de leves trabalhos domésticos. Na realidade restavecs muitas vezes vivem em pobreza extrema, escravizados por seus “provedores” e raramente recebem uma educação. O sistema é considerado como sendo uma forma de escravatura. Antes de chegar ao local, já haviam explicado a situação das crianças e imaginei uma cena bem diferente da que encontrei. Fui surpreendido ao entrar em uma sala de aula e ser recepcionado com canções e danças de boas vindas. Apesar das dificuldades, sorrisos nos rostos.

Trabalho de inúmeras religiosas é reconhecido entre a população haitiana como imprescindível

Aposta está na educação para superar dificuldades e construir um futuro melhor, sem qualquer tipo de escravidão

tar de Curitiba quando começou a sentir os primeiros sinais e seu pai, que era médico, fez o parto ali mesmo e embrulhou a futura embaixatriz do Brasil no Haiti, Roseana Kipman, num paletó. Casada há 40 anos com Igor Kipman, seu marido, que foi designado para o cargo de Embaixador pelo presidente da República. Por causa da situação do país, Roseana só anda de carro blindado e tem um contigente de 13 fuzileiros navais que passam todo dia ao seu lado, segundo ela, literalmente, seus anjos da guarda. Sua rotina é incrível. Ela acorda antes das 6h da manhã e só dorme no final da noite. Nesse dia longo, de forma voluntária, a apaixonada por leitura que tem mais de 2 mil livros, ensina português para os haitianos no Centro de Cultura Brasil-Haiti. Além de contribuir fortemente com os projetos que possuem brasileiros participando. E para quem pensa que a história de vida da embaixatriz termina aqui, está enganado. Mãe de três filhos que moram longe dela, dois nos EUA, em Miami, Seatle, e uma em Brasília, tem três netos que idolatra. Fala cinco idiomas de maneira fluente e compreende bem o idioma local, o creole. Viajou por muitos lugares do mundo, gosta de rafting, rapel, arborismo, caiaque e montanhismo. É dirigente do movimento escoteiro pelo mundo há 42 anos e sempre viveu para na busca da felicidade, por isso, acredita que ajudando

quem necessita é o melhor caminho para encontrar a fórmula da felicidade. “É maravilhoso contribuir com essa população. Acima de tudo, eles precisam de carinho. No final das diversas ações que executamos aqui no Haiti, a pessoa que mais ganha sou eu”, afirmou com alegria durante um jantar realizado no local destinado para confraternizações dentro da base General Bacellar, a maior do Haiti e a modelo para as demais bases militares. Comprovando que a história de vida de Roseana pode ser um filme, foi ela quem encontrou o corpo da brasileira Zilda Arns, fundadora da Pastoral da Criança, que estava em missão humanitária no Haiti. Com apenas um filete de sangue na cabeça, Zilda foi enrolada nos panos que cobriam os altares da igreja onde estava no momento do terremoto e foi atingida na cabeça por concreto, resultando na morte instantânea e indolor. Por ironia do destino, uma das mulheres que mais contribuiu com as crianças no Brasil foi carregada por uma mulher com trabalho exemplar no Haiti. Coberta em panos sagrados, Zilda, uma das mulheres que mais contribuiu com as crianças, foi carregada por aquela mulher que tanto ajuda a reconstruir o país mais pobre das Américas. Após todas essas histórias, será que ainda existem homens que não reconhecem a força e a capacidade que as mulheres possuem?


DIÁRIO POPULAR QUARTA-FEIRA, 16 DE MARÇO DE 2011

Quando o esporte traz es Em uma espécie de acampamento improvisado, 50 mil pessoas sobrevivem em condições sub-humanas; em Jan Visset, em meio a tanta pobreza, um projeto esportivo leva esperança para as crianças da localidade Vinícius Conrad, enviado especial

Porto Príncipe, Haiti. Tristeza, muita tristeza. Sentimento de qualquer pessoa que vive nas condições que nós convivemos diariamente dividiria, mas que não é retratado no rosto das mais de 50 mil habitantes de uma espécie de alojamento, o Jan Visset. Morando em barracas, uma ao lado da outra e com muitas pessoas vivendo no pequeno espaço, a visita tinha um pretexto: realizar a entrega de materiais esportivos para um projeto voltado às crianças da localidade. Logo ao chegar no centro de refugiados, a presença dos militares chamou a atenção dos moradores e principalmente das crianças, que em grande número vieram para volta de seus ídolos. Sim, é incrível o quanto eles admiram o trabalho dos militares brasileiros. Praticamente o contato entre um ídolo e fã, onde o fã brilha o olho com a situação e não acredita naquele contato, mesmo que rápido. Com razão, a partir daquele momento, eles teriam fardamentos, traves e bolas para se divertir praticando o esporte que tanto amam, o futebol. Foi através do futebol que em 2004, no ano em que iniciou a missão de paz no país, que aconteceu a ação diplomática para aproximar o primeiro contingente brasileiro e o povo haitiano através de um amistoso intitulado como Jogo da Paz. O Haiti estava totalmente destruído por causa da guerra civil e não tinha condições de hospedar os jogadores brasileiros. Por isso, a Seleção fi-

Em Jan Visset, aproximadamente 50 mil habitantes moram em barracas improvisadas e dividem muito pouco espaço sem qualquer infraestrutura

cou em Santo Domingo, na República Dominicana, uma viagem de aproximadamente uma hora e meia de avião até Porto Príncipe, local da partida. Aliada à celebração foi promovida uma campanha de desarmamento junto à população. O Haiti era e continua sendo o país mais pobre das Américas. Segundo militares, em época de Copa do Mundo, eles colocam telões em alguns locais do país e os jogos da Seleção Brasileira são os que reúnem o maior número de pessoas. Inclusive, a idolatria ao futebol brasileiro e aos craques é retratada nos “tap-taps”, uma espécie de ônibus, o principal meio de transporte dos haitianos. Bastante curioso, o veículo é adaptado para carregar um grande número de pessoas na carroceria improvisada com bancos de madeira. Mesmo com as inúmeras dificuldades, a população miserável não deixa de efetuar o pagamento ao motorista que cobra pela distância do percurso.

O panorama. A Seleção Brasileira chegou

Mesmo em meio a tanta precariedade, população demonstra conformidade e até uma certa alegria

à capital Porto Príncipe duas horas antes da partida. A equipe tinha muitos desfalques, mas Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho eram os embaixadores. Inclusive, a viatura blindada que levou os dois craques no trajeto até o estádio virou um monumento à paz no 15º Regimento de Cavalaria Meca-

nizado no Rio de Janeiro. Na época, o Milan não aceitou liberar Dida, Cafu e Kaká, e o Bayern de Munique também barrou as idas de Zé Roberto e Lúcio. A delegação foi dividida em três tanques de guerra e seguiu para o estádio. Milhares de pessoas foram às ruas para recepcionar os jogadores. De bicicleta ou correndo, mais de um milhão de haitianos tentavam acompanhar os ídolos brasileiros. As pessoas surgiam de todos os lados. Galhos de árvore foram disputados em busca da melhor localização para conseguir olhar algum atleta. A maioria dos jogadores convocados para o jogo festivo tinha participado do título mundial dois anos antes. Foram 15 quilômetros de histeria do aeroporto até o estádio. Uma demonstração que é possível seguir junto, sem armas, em harmonia, na busca da felicidade. Os próprios jogadores relataram que foi um momento épico, único. Um sentimento maior que qualquer título. O pequeno e único estádio de Porto Príncipe recebeu sua capacidade máxima, cerca de 15 mil pessoas. O calor era quase insuportável. Enormes pedras de gelo foram colocadas nas laterais do gramado para diminuir a sensação térmica e os atletas precisaram se hidratar diversas vezes durante a partida. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez questão de


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apertar a mão de cada jogador. Na hora do Hino Nacional brasileiro, todos os torcedores se levantaram no estádio em sinal de respeito como fosse o hino de sua nação. Quando o jogo começou, o Brasil dominou com facilidade. Mas o resultado era o que menos importava. Ronaldinho Gaúcho ainda fez um golaço, driblando quatro adversários e o goleiro. O estádio aplaudiu de pé. No fim, Seleção 6 a 0. Ronaldinho Gaúcho marcou três vezes, Roger marcou duas e Nilmar marcou o outro gol da partida histórica. As cinco horas em que a Seleção ficou no Haiti foram intensas. Um dia em que o futebol levou alegria para pessoas que vivem em condições precárias. A comprovação que a situação é dramática se deu nos rápidos minutos que ficamos no Jan Visset e convivemos com lixos a céu aberto, mau cheiro, muitas crianças com poucas roupas e a maioria delas descalças, milhares de barracas com diversas pessoas dividindo o pequeno espaço. No meio de toda essa cena lamentável, uma espécie de banheiros improvisados. Uma realidade completamente paralela que mesmo com a precariedade, conta com um povo alegre. Se torna difícil de acreditar na alegria das pessoas. Foi incrível. Ficou o questionamento, de onde eles tiram tanta força? Exemplos!

Embaixador aposta na usina Exercendo a função, Igor Kipman conversou conosco durante o jantar de recepção da comitiva que foi acompanhar a passagem de comando no país caribenho. Segundo ele, existem alguns pontos importantes para a reestruturação do Haiti. A principal luta é auxiliar nos trabalhos de levantamento da área da futura Usina Hidrelétrica de Artibonite, a 60 quilômetros de Porto Príncipe. O estudo técnico relativo ao projeto - elaborado pelo Exército foi integralmente financiado e preparado pelo Brasil com orçamento de 2,5 milhões de dólares, em resposta a pedido de cooperação no setor energético, apresentado pelo governo haitiano. Localizada próxima à cidade de Mirebalais, tem capacidade instalada de 32 MW (geração média de 159 GWh/ano), capaz de atender a 213 mil famílias, com cerca de 1 milhão de cidadãos haitianos; deve gerar 700 empregos nos 40 meses da obra, fortalecer a rede de transmissão que conecta a usina de Le Péligre e a subestação Delmas, em Porto Príncipe. O projeto tem um custo total estimado em 191 milhões de dólares. Outro ponto importante é que aconteça uma reforma constitucional mais complexa. Para que isso ocorra, precisa da aprovação do próximo presidente. O Haiti está em campanha eleitoral para o segundo turno e as eleições estão marcadas para o dia 20 de março. Os dois candidatos são de oposição: a ex-primeira-dama Mirlande Manigat e o cantor popular Michel Sweet Micky Martelly. Por determinação do Conselho Eleitoral Provisório, a campanha eleitoral vai até 18 de março. No primeiro turno, saiu na frente a professora universitária de Ciências Políticas Mirlande Manigat, de 70 anos, que obteve 31% dos votos. Se vencer as eleições, a professora, formada na França, será a primeira mulher a governar o Haiti. O cantor Martelly, 50, obteve 21% dos votos no primeiro turno. Os resultados preliminares do primeiro turno foram contestados e de-

População local convive com lixo a céu aberto, lava roupa em valetas e usa banheiros improvisados

sencadearam uma nova crise política no território haitiano. A Organização dos Estados Americanos (OEA) sugeriu a exclusão do terceiro candidato, Jude Célestin, por considerar que ele foi favorecido de forma irregular. “É importante que aconteça essa reforma na constituição. Também é necessário que seja reconhecida a dupla nacionalidade. Infelizmente, a maioria das mães estão indo para os Estados Unidos dar à luz seus filhos para eles conseguirem passaporte americano e retornam ao Haiti”, sonha o embaixador. Ele afirmou que independentemente do presidente vitorioso nas eleições, terá o apoio do Brasil.

União O significado da palavra foi comprovado muitas vezes em solo caribenho. Milhares de militares, de diversos países unidos na busca pela reestruturação do país. O trabalho realizado pelos brasileiros, por voluntários vindos de todos cantos do mundo e a vontade de vencer dos haitianos, resulta numa corrente na busca do sonho de viver em condições humanas.

Igor Kipman recepcionou a delegação no Haiti

Militares brasileiros que levaram traves, bolas e camisetas de futebol são recebidos pelas crianças da localidade como ídolos


DIÁRIO POPULAR QUINTA-FEIRA, 17 DE MARÇO DE 2011

Brasileiros à frente das Último capítulo da série aborda uma história de amizade e destino. Os dois generais que farão a troca de comando da Missão das Nações Unidas para a estabilização no Haiti são conhecidos de longa data Vinícius Conrad, enviado especial

Porto Príncipe, Haiti. Destino. Geralmente é concebido como uma sucessão inevitável de acontecimentos provocados ou desconhecidos. No último capítulo da série sobre nossa viagem ao Haiti, uma história que envolve o destino. Tudo começou em 1973, quando dois jovens filhos de generais se conheceram na Escola Preparatória de Cadetes. Agora, em 2011, o reencontro. Seguindo o exemplo dos pais, os amigos de infância tornaram-se generais e um está substituindo o outro em uma das funções mais importantes para os militares: comandar as tropas da Missão das Nações Unidas para a estabilização no Haiti (Minustah). Há dez meses em Pelotas, o general Luiz Eduardo Ramos Baptista Pereira comandava a 8ª Brigada de Infantaria Motorizada. Ele foi substituído para começar sua missão no país mais pobre das américas no dia 30 de março. Um orgulho para a Princesa do Sul. Antes de aterrissar em solo caribenho, ele embarca para Nova York amanhã onde fica em treinamento e tem reunião com a Organização das Nações Unidas (ONU) até viajar para o Haiti e começar sua missão de comandar as tropas de diversas nações durante um ano. Serão mais de nove mil homens sob a responsabilidade dele. “Ninguém faz nada sozinho. Você faz parte de um time. A minha vida inteira eu trabalhei em equipe e estou encarando esse desafio com muito orgulho. Sei que o trabalho de um ano não mudará totalmente a situação no país caribenho, mas estou indo para contribuir com aquela população tão necessitada. Se cada um fizer algo, a gente pode modificar”, afirmou o general Ramos, que vai substituir seu amigo de infância, o general Paul Cruz. O processo de escolha do general, natural de Rio de Janeiro e que afirmou ter se apaixonado pelo Rio Grande do Sul, aconteceu após diversas entrevistas com a ONU e o exército. Ele concorreu com mais dois generais e a experiência de ter comandado o treinamento do contingente que realizou simulações em Pelotas e partiu recentemente para o Haiti, o curso para Lideranças em Missões de Paz realizado em novembro de 2010 e ter trabalhado como observador militar na Iugoslávia durante os anos de 1992 e 1993, contribuiu com a confirmação de sua escolha como Force Commander da missão. “Será uma despedida parcial. Estou indo para comandar mais de nove mil homens, mas vou encontrar os que foram treinados na Brigada que acabei de passar o comando. Reencontrarei eles com a boina azul na cabeça, contribuindo com pessoas que necessitam de nossos esforços”, concluiu.

Tanques com militares brasileiros fazem a segurança das ruas do país mais pobre das américas, a Missão de Paz iniciou em 2004

Gaúcho de coração Entre conversas sérias e análises sobre a situação do país onde ele vai exercer um importante cargo, Ramos brincou, cantou músicas tradicionalistas e, inclusive, declamou. Segundo ele, virou “gaudério”. Casado com Lígia há 34 anos, sua esposa ficará no Brasil. Pai de duas filhas que estão casadas e avô de uma criança de um ano, para ele, um dos maiores desafios será controlar a emoção para não prejudicar o desempenho profissional. Para se preparar, pesquisou, assistiu a filmes e a documentários sobre o Haiti. Deixando a missão, Paul Cruz iniciou seu trabalho de comandar as tropas em março de 2010. Chegou em um momento emergencial, pouco tempo após o terremoto que abalou o país que já tinha um histórico de dificuldades. Tive a oportunidade de conversar com ele em um jantar no país caribenho e ele relembrou momentos de sua trajetória como Force Commander. Além das ações que foram coordenadas pelo general, uma das mais importantes foi organizar e contribuir com a realização do primeiro turno das

Entre as ações coordenadas pelo general Paul Cruz está o primeiro turno das eleições de 2010

eleições que ocorreu em 28 de novembro. Foi criado um planejamento logístico visando à segurança do processo eleitoral e à organização dos centros de votação. Porém, o sistema utilizado para escolher seus representantes são as antigas cédulas, que facilitam a manipulação. Segundo ele, um

processo similar ao antigo sistema brasileiro que foi substituído pelas urnas eletrônicas. O Brasil tem ocupado o posto de Force Commander (Comandante das Forças) da Minustah ininterruptamente desde 2004. Dentre as funções do Force Commander


DIÁRIO POPULAR

tropas Fotos Marcel Ávila - Especial - DP

Cólera preocupa Alvo de uma epidemia de cólera desde o ano passado, o Haiti pode sofrer ainda mais em decorrência da doença. O prognóstico é da revista científica britânica The Lancet, que estima que quase 800 mil pessoas deverão ser afetadas pelo cólera ainda este ano no país e 11 mil poderão morrer. A cólera provocou 4.672 mortes no Haiti em apenas cinco meses depois de a epidemia ter sido declarada no país. A conclusão é baseada em estudo de uma equipe norte-americana comandada por Jason Andrews, da Escola de Saúde Pública de Harvard. Segundo Andrews, as estimativas mundiais referentes à epidemia de cólera são baseadas no pressuposto de que 4% da população serão afetados pela doença. Mas, segundo ele, as estimativas são apenas uma “suposição”. Os resultados, publicados na versão on-line da revista, consideram que uma combinação de mecanismos, como o acesso à água potável, à vacinação oral e ao uso de antibióticos, poderia salvar vidas. Os especialistas desenvolveram uma série de modelos matemáticos para prever diferentes resultados mediante a modificação de cada uma das três variáveis. Esse método permitiu estimar que haverá 779 mil casos de cólera, dos quais 11 mil serão potencialmente mortais, no período de 1º de março a 30 de novembro de 2011.

Satisfação De maneira completamente pessoal, utilizo esse último espaço destinado para série Além do dever, que teve como objetivo dividir com os leitores do Diário Popular a experiência no Haiti para registrar a satisfação em ter participado de um momento histórico, tanto na minha carreira quanto para a história de um jor-

Monumento em homenagem as vítimas do terremoto no Haiti foi erguido na base General Bacellar

nal impresso com mais de 120 anos de serviços à comunidade da Zona Sul. Após conviver com a realidade do dia a dia das tropas brasileiras, retornei para Pelotas orgulhoso do trabalho que vi em contribuição de um povo tão sofrido. Para completar, recebi a notícia que o próximo Force Commander seria o general Ramos, que estava há quase um ano vivendo na Princesa do Sul. Como já tinha conversado com o atual, ter a oportunidade de participar de uma entrevista exclusiva com o próximo comandante de mais de nove mil militares foi sensacional e inesquecível. No meio da conversa, descubro que eles foram colegas na escola de formação. Seria o destino? Prefiro não afirmar, mas não poderia deixar de registrar e agradecer a todos os envolvidos nesse importante momento em que aprendi muitas coisas. De coração, muito obrigado.

Participação Abaixo, compare o número de soldados enviados por cada nação para contribuir com a reestruturação do Haiti

País

Amanhã, o general Ramos embarcará para treinamento em Nova York com a ONU

709

Bolívia

208

Brasil

2.220 10

Canadá* Chile

503

Equador

67

França*

2 147

Índia*

1

Japão

230

Jordânia

612

Nepal

1.075

Paraguai

Contingente brasileiro é o maior na Missão de Paz; são quase nove mil militares de diversos países sob a responsabilidade do Force Commander

Militares

Argentina

Guatemala

estão: comandar a força militar da operação de paz, aconselhar o Special Representative of the Secretary-General and Head of Mission (SRSG), ou seja, Representante Especial do Secretário-Geral das Nações Unidas e Chefe de Missão, posto mais alto da chefia da Missão sobre os acontecimentos diários das operações militares, assistir o SRSG no desenvolvimento militar e na coordenação entre a missão das Nações Unidas e a divisão militar, fornecer conselhos políticos sobre todos os aspectos da política da missão e oferecer, ainda, orientações sobre as regras das Nações Unidas e seus procedimentos, é responsável pela coordenação das políticas e da execução entre os vários componentes da missão, garantir que o aconselhamento e as informações estejam coordenados com todos os componentes relevantes antes da apresentação para o SRSG, planejar e executar as operações militares, aconselhar a base da ONU, em Nova York, através do SRSG, sobre todas as questões militares relacionadas à missão, fornecer orientações sobre medidas militares sugeridas para ajudar na consolidação de atividades de confiança. O Force Commander deve ser necessariamente general-do-exército do seu país.

3

31

Peru

372

Filipinas

157

República da Coréia

242

Sri Lanka

961

Uruguai

1.129

EUA*

9

Total:

8.814

* Sem contingente Fonte: ONU. Dados levantados em agosto de 2010

Haiti  

Série de reportagens publicada no Diário Popular - Além do Dever

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