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INFRAESTRUTURA VERDE COMO QUALIFICADORA DO ESPAÇO PEDONAL: UM RECORTE NA ZONA NORTE DE SÃO PAULO Taícia Helena Negrin Marques* *Arquiteta e Urbanista formada pela PUC- Campimas, Msc Arquitetura da Paisagem e Planejamento pela Universidade de Wageningen- Holanda, Doutoranda pela FAU- USP, Departamento Paisagem e Ambiente. São Paulo-Brasil. Fundadora Vaziopleno. e-mail: taicia@vaziopleno.com.br

Tatiana Sancevero Batistela** **Arquiteta e Urbanista e Especialista em Análise Ambiental formada pela UEL, Mestre em Paisagem, Ambiente e Sustentabilidade pela FAU - UnB. SãoPaulo- Brasil e-mail: tsancevero.b@gmail.com

RESUMO O desafio de reincorporar a dimensão humana no planejamento das cidades ao mesmo tempo que devemos lidar com questões ambientais surge como um dos grandes desafios desse século. A melhora na qualidade de vida urbana e consequente conservação ambiental sustentam a discussão aqui apresentada onde a dinâmica que envolve pedestre, áreas públicas e trama verde-azul em prol da resiliência da cidade de São Paulo é objeto maior desse estudo. Para tanto, o presente artigo se baseia no levantamento das potencialidades da paisagem e num estudo de caminhabilidade elaborado nos arredores da interseção das avenidas Engenheiro Caetano Álvares e Imirim, na zona norte de São Paulo, e busca explorar como a implementação de estratégias de Infraestrutura Verde (IEV) poderia ao mesmo tempo permear o tecido urbano trazendo benefícios ambientais, reincorporar a dimensão humana através da requalificação espacial para esta área e reconectar as pessoas com a natureza. Palavras-chave: dimensão humana; infraestrutura verde; caminhabilidade; espaço pedonal; requalificação urbana; biofilia. 1 INTRODUÇÃO O modelo modernista de planejamento associado a um crescimento urbano desordenado e intenso ocorrido durante o século XX em São Paulo, acarretou a perda da escala humana nos espaços públicos e a sobreposição das diversas infraestruturas cinzas com o objetivo de suprir as necessidades de uma população crescente. A priorização do transporte automotivo, principalmente individual, gerando ao longo dos anos a urgência de acomodar um número crescente de veículos, verteu-se num movimento cíclico de necessidade de espaço e aumento do número de automóveis. Esse processo reduziu drasticamente as áreas verdes da cidade, canalizou ou tamponou a maioria dos corpos d’água e acarretou a retirada do pedestre de muitas áreas da cidade além do aparente esquecimento das qualidades necessárias para garantir identidade e acessibilidade através de um caminhar confortável, seguro e interessante. O desafio de reincorporar a dimensão humana nas cidades, ao mesmo tempo que devemos lidar com questões ambientais surge então como um dos grandes desafios desse século e encontra no espaço público um potencial estratégico de transformação das cidades.


A paisagem urbana se apresenta como um ecossistema dinâmico onde se processa a interação entre os sistemas naturais e antrópicos, e que consequentemente influenciam o comportamento, a saúde e o bem-estar. Segundo Jan Gehl (2015), por muitos anos havia pouco conhecimento sobre como as estruturas físicas influenciam o comportamento humano, mas atualmente já se percebe o quanto cuidar das pessoas na cidade é fato essencial para obtenção de cidades mais vivas, mais seguras, sustentáveis e saudáveis. Caminhar é o início, o ponto de partida. A vida em toda a sua diversidade se desdobra diante de nós quando estamos a pé. Em uma perspectiva mais ampla, uma infinidade de valiosas oportunidades sociais e recreativas podem aparecer quando se reforça a vida a pé. Ambicionase, mais do que simplesmente proporcionar espaço suficiente para circulação, possibilitar que as pessoas tenham contato direto com a sociedade em torno delas, isso significa que o espaço público deve ser vivo, utilizado por muitos e diferentes grupos. Cidades vivas requerem ainda densidade urbana razoável, distâncias aceitáveis para serem percorridas a pé ou de bicicleta e espaço urbano de boa qualidade. Ao proceder uma intervenção na paisagem urbana, partindo do pressuposto ecossistêmico das cidades, entende-se que a ênfase deve se dar na inter-relação entre o homem e os elementos biofísicos. Para Benedict e McMahon (2006), a infraestrutura verde como estratégia de conexão entre homem e natureza pode revelar, identificar e proteger espaços de conexão, redes para conservação da terra e outros espaços abertos, ao lançar mão dos instrumentos de conservação, restauração e manutenção de um sistema de funções naturais, também pode prover distintos espaços de sociabilidade, de lazer e de benefícios econômicos para as pessoas. Timothy Beatley (2011) foca na importância das áreas verdes nas cidades a partir do conceito de biofilia e cita estudos que atestam que mesmo as pequenas porções de verde existentes ao longo do tecido urbano são elementos essenciais e capazes de trazer benefícios para o bemestar das pessoas enquanto contribuem para a resiliência urbana. Além disso aponta para a necessidade de associação entre as funções infra estruturais desses elementos às características estéticas capazes de causar encantamento e prazer às pessoas, retomando mesmo nessas pequenas porções de verde, o contato com a natureza. Em maio de 2016 foi feito um estudo a respeito da caminhabilidade a partir de um raio de abrangência de 500m nos arredores da interseção das avenidas Eng. Caetano Álvares e Imirim, na zona Norte de São Paulo (BATISTELA e MARQUES, 2016). Essa distância é considerada propícia para que uma pessoa caminhe com tranquilidade (GEHL, 2015). Durante o estudo, a problemática urbana descrita anteriormente foi comprovada através de dados coletados quanto à qualidade urbana, ambiental e a percepção do pedestre. Como resultado, encontrou-se uma baixa qualidade espacial e ambiental na área, com poucas áreas verdes, formação de ilha de calor urbana e uso do solo muito homogêneo e pouco atrativo ao pedestre (figuras 01 à 03). A baixa permanência e apropriação do espaço pelo pedestre, que utiliza a área pública apenas como passagem, revela ausência de identificação da população com a localidade. Além disso, os maiores incômodos apontados pelos entrevistados foram, em sua maioria, diretamente relacionados ao tráfego de veículos, por exemplo: ruído, mal cheiro e falta de segurança devido à proximidade do pedestre ao leito carroçável e pouco espaço pedonal (BATISTELA e MARQUES, 2016).


Figura 01: av. Eng. Caetano Álvares uso do solo homogênio Fonte: MARQUES, T.H.N. 2016. Figura 02: Interseção av. Eng. Caetano Álvares x av. Imirim Fonte: MARQUES, T.H.N. 2016. Figura 03: av. Direitos Humanos interseção com av. Imirim Fonte: MARQUES, T.H.N. 2016.

A área de estudo está localizada nas proximidades do Horto Florestal e Parque Estadual da Cantareira e faz parte do projeto aprovado pela Fapesp “Infraestrutura Verde para a Resiliência Urbana às Mudanças Climáticas da Cidade de São Paulo”. Devido à sua localização, o próprio eixo de mobilidade da av. Eng. Caetano Álvares possui um potencial expansor de áreas verdes a partir das grandes massas encontradas ao norte, para a reintrodução do Ribeirão Mandaqui junto a superfície e também para receber um uso do solo diversificado e se tornar um eixo proeminente na região. A fim de garantir melhores qualidades urbanas e ambientais, há a necessidade de permear o tecido urbano pelas vias estruturais, coletoras, locais e vielas formando uma rede verde com caráter multifuncional que ao se ramificar pelo tecido urbano oferece serviços ecossistêmicos e contribui para a regulação dos fluxos de água, melhora o metabolismo urbano e traz um apelo estético. Esse conjunto de elementos é capaz de reconectar as pessoas à natureza e ao próprio meio urbano. Para o estudo foi identificada a hierarquia de vias assim como os espaços pedonais e outros espaços livres e verdes existentes. Focando no potencial de conversão do espaço público encontrado, foram aplicadas estratégias de Infraestrutura Verde para a reconexão de possíveis fragmentos e qualificação dos espaços para o pedestre e ciclista. O potencial encontrado aí foi comparado com a situação atual de forma a fornecer um quadro de áreas comparativas entre a situação existente e a possibilidade futura. 2 RESULTADOS E DISCUSSÃO A estratégia utilizada foi a de busca de espaços livres públicos com potencial para serem convertidos em áreas verdes e pedonais. Paralelamente, nas vias estruturais e coletoras, foram considerados espaços para a implantação de ciclovias. As áreas livres identificadas são caracterizadas por calçadas, ruas, áreas verdes públicas e algumas áreas verdes privadas expressivas, marcadas por sua representatividade e potencial conector, embora nesse estudo elas não tenham sido alvo de intervenção. Como visto na figura 04, quando é feita uma proporção quanto à ocupação do espaço livre, a área destinada ao viário é 13% maior que a


soma das áreas dedicadas a todos os outros espaços livres investigados o que demonstra claramente a priorização do espaço público para o uso veicular.

Figura 04: Distribuição do espaço livre atual Fonte: elaborado pelas autoras.

O potencial da Infraestrutura verde quanto à requalificação do espaço pedonal foi encontrado principalmente no que tange as seguintes problemáticas: 1. Utilização de áreas verdes como buffers de segurança entre as calçadas e o leito carroável; 2. Arborização urbana integrada aos elementos de IEV propiciando sombreamento das calçadas e melhor conforto microclimático; 3. Verdeamento da paisagem, trazendo apelo estético e conforto visual; 4. Conversão de vias locais muito estreitas em ruas do tipo woonerf a fim de estimular a apropriação do espaço público de forma compartilhada trazendo a possibilidade dos próprios moradores utilizarem parcelas da rua como jardins e criando sensação de pertencimento. 5. Potencialização da variedade biótica. 6. Criação ou melhora da qualidade espacial urbana; A partir desses princípios foram feitos cortes e sessões esquemáticos com o objetivo de compreender a proporção espacial de cada tipo de via que poderia ser convertida em áreas verdes, pedonais ou ciclovias e então houve a simulação a partir de ferramentas de geoprocessamento. Como resultado foi possível verificar como seria possível prover um espaço público mais equitativo e capaz de introduzir estratégias de IEV como requalificadoras do espaço pedonal. O resultado pode ser observado na figura 05, onde cerca de 23% do espaço destinado atualmente ao viário foi redistribuído entre áreas verdes, ciclovias e áreas para pedestres.


Figura 05: Distribuição do espaço livre simulado Fonte: elaborado pelas autoras

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS O objetivo de alcançar o status de cidade viva, segura, sustentável e saudável envolve qualidades essenciais como a combinação entre espaços públicos bons e densidade razoável, leia-se melhor densidade. Em continuação a esse estudo vê-se a necessidade de evoluir também na análise do tripé densidade, diversidade de funções e bons espaços urbanos, diretamente relacionado a atratividade do espaço público e sua qualidade pedonal; isso cria um espaço com significado. O estudo indica que mesmo nas condições atuais, através da redistribuição dos espaços dedicados aos automóveis, pedestres, bicicletas e áreas verdes já é possível obter uma relação mais equitativa sem a necessidade de grandes alterações estruturais. A abertura do córrego Mandaqui e sua reincorporação no tecido urbano por exemplo, poderiam ser vislumbradas em um cenário futuro onde a reestruturação de toda a avenida Engenheiro Caetano Álvares pudesse ser considerada. Vale lembrar que para a implementação das estratégias aqui elencadas uma série de possíveis desenhos é possível, valendo-se de projeto específico e preferencialmente com acesso à população. REFERÊNCIAS BATISTELA, Tatiana S.; MARQUES, Taícia H. N. Percepção da caminhabilidade no entorno da interseção das avenidas Caetano Álvares e Imirim. Revista Labverde: FAUUSP. São Paulo, n.12, 2016. No prelo. BEATLEY, Timothy. Biophilic cities. Integrating Nature into Urban Design and Planing. Washington: Island Press, 2011. BENEDICT, Mark A.; MCMAHON, Eduward. Washington, DC: ISLAND PRESS, 2006.

Green infrastructure: Linking landscapes and communites.

GEHL, Jan, Cidades Para Pessoas; tradução Anita Di Marco. 3ed. São Paulo: Perspectiva, 2015.

Marques- Batistela- CIAP_2016  

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