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BANIDOS Sophie Littlefield


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Prólogo Junho de 1995 Acordar era doloroso. A cabeça latejava e havia alguma coisa em seus olhos, algo pegajoso e morno que prejudicava a visão. Ela piscou com firmeza e conseguiu enxergar melhor, o suficiente para perceber que estava em um carro. Não um carro qualquer, mas o do namorado. Era um Celica Branco, e ao mover a mão ela tocou as próprias pernas, sentindo o tecido sedoso e macio do vestido. O contato a fez lembrar: era noite de formatura, e eles estavam a caminho do Boone Lake levando a garrafa de champanhe que ele comprara uma garrafa em um balde com gelo. Antes de sair, ela havia passado pelo banheiro feminino para retocar o batom e o perfume, preparando-se para se despedir de todos os amigos reunidos no ginásio da escola. Lá, no espaço decorado com fitas e balões coloridos, os professores sorriam e acenavam para eles, porque eram bons alunos, tinham boas notas e não criavam problemas. Mas seu namorado havia bebido muito desde que chegaram na festa de formatura, e apesar de não estar exatamente bêbado, ele dirigia em alta velocidade pela State Road 9, os dois rindo muito enquanto ele fazia as curvas com uma das mãos no volante, a outra deslizando pelas dobras macias do tecido verde de sua saia. E ela não o detivera. Porque gostava de sentir a mão dele ali. E mal podia esperar para poder beijá-lo


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de novo. E estava gostando da velocidade e dos perigos das curvas da estrada, porque era como voar para o futuro, para o dia que deixariam Gypsum para nunca mais voltar. Mas alguma coisa havia acontecido. Agora não havia luzes no carro, nem mesmo o brilho do painel. Mas os faróis continuavam acesos, um deles iluminando o bosque à direita da árvore contra a qual haviam batido. O outro farol entortara e projetava sua luz num ângulo maluco. O raio iluminava o corpo dele caído no chão a uns três metros do carro, numa posição que não parecia nada natural. Ela começou a gritar, arrancando o cinto de segurança e empurrando a porta, mas não conseguia abri-la, estava emperrada ou presa, e ela rastejou para o banco do motorista, raspando o joelho em alguma coisa afiada, o pára-brisa, o pára-brisa que se quebrara, ou, ela percebeu horrorizada, havia sido estilhaçado pelo corpo de seu namorado. Ele nunca usava o cinto de segurança, por isso voara pelo pára-brisa e passara por cima do capô do Celica destruído, indo aterrissar no chão de terra, onde jazia ferido e sangrando. A porta do lado do motorista cedeu um pouco, e ela se espremeu pela fresta e saiu do carro, tropeçando na barra do vestido, o lindo vestido tomara-que-caia que , ninguém sabia, fora comprado na St. Benedicti’s, uma loja barata em Tipton, mas se ajustava em seu corpo como se houvesse sido feito sobre medida. Levantando a saia, ela correu na direção do namorado, tropeçando no salto antes de cair de joelhos ao lado dele. A mão, aberta e com a palma voltada para cima como se ele tentasse alcançar alguma coisa, sofreu um espasmo no mesmo instante em que os lábios se moveram. Os olhos dele era vidrados e sem foco, e ela se inclinou para tentar ouvir o que o namorado tentava dizer. - Dói... - ele conseguiu murmurar, passando a língua pelos lábios secos e cortados. - Não, por favor, não... - ela respondeu, abrindo o paletó do smoking com toda delicadeza de que era capaz. A imagem provocou um pavor que oprimiu sua garganta. Era demais. O ferimento era muito grave. A ferida aberta e escura brilhava à luz da lua, e o sangue que dela jorrava molhava a terra fria e seca.As mãos tocaram a área do ferimento, os dedos tentando determinar seu tamanho exato, as palavras dançando em seus lábios antes mesmo de ela perceber que havia tomado uma decisão. Mas o rapaz falou primeiro. - Eu... Eu amo...


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A voz era tão fraca que foi quase impossível ouvi-la, mas um brilho de compreensão iluminou seus belos olhos castanhos, e ele a olhou como fazia quando ia buscá-la na escola, como a olhara na primeira vez que ela passara pela frente do armário dele no ano anterior, como fazia quando procurava seu rosto na multidão depois de cada partida de futebol. Era um olhar que a via, que a reconhecia, realmente reconhecia de um jeito que a mãe nunca a reconheceu, e o pai, quem quer que fosse sequer havia tentado. Era o olhar no qual ela depositava todos os sonhos, cada esperança, mesmo as mais tolas, e quando ele piscou duas vezes, revirando os olhos que se tornavam opacos novamente, ela disse as palavras.Disse as palavras como a avó havia ensinado, as sílabas deslizando como fita de gaze por entre seus lábios, palavras que ela entoara centenas de vezes no passado, em noites iluminadas por chamas tremulantes de velas e pelos olhos brilhantes e determinados de sua avó. Cem vezes, cem noites, mas essa noite era a primeira vez que ela rezava com fervor para que as palavras funcionassem. Um movimento, um suspiro – ela parou no meio de uma palavra cujo som estava gravado na memória, mas cujo significado nunca soubera realmente, não como sua avó sabia não como ela temia saber. Seu namorado se moveu novamente, piscou, e ela tocou seu rosto. - Não me deixe – a jovem sussurrou – Por favor, não me deixe... – O coração batia forte no peito, porque ele não a abandonara. Quase morrera, mas ela o havia trazido de volta, dissera as palavras. E ele voltara. Quando se inclinava para beijá-lo e abraçá-lo, ela o viu piscar mais uma vez e abrir os olhos, mantendo-os abertos... ... E não havia nada neles... - Vincent – ela murmurou, sentindo o coração congelar. – Vincent, por favor, Vincent, por favor... Mas ele não respondia. Seus olhos estavam vazios e os lábios estavam imóveis. A floresta em torno deles era escura e silenciosa como uma pedra.


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Capítulo 1 Agora Quando eu tinha oito anos, assistentes sociais finalmente obrigaram minha avó a me mandar para a escola. Até então, ela havia dito as autoridades que me alfabetizava em casa, mas após anos sem nunca entregar a documentação exigida nem se apresentar para as obrigatórias reuniões com professores, os representantes do serviço social finalmente se cansaram e decidiram que eu tinha que ir para a escola normal. Vovó acatou a determinação; ela sabia quando havia perdido uma briga. A primeira coisa que notei nas outras crianças foi que todas pareciam prontas para aparecer na tevê. Eu as chamava de “Limpas”. Suas roupas eram novas e passadas a ferro. Os cabelos brilhavam e estavam sempre penteados. As unhas eram curtas e não tinham aquela sujeira preta que eu sempre via sob as minhas, desde que podia me lembrar. Ninguém precisava me dizer que, comparada com aquelas crianças, eu era suja. Mas isso não detinha as crianças no ônibus. No final da minha primeira humilhante viagem à escola, eu havia sido chamada de vários nomes feios e havia sido acusada de ter piolhos e uma avó bruxa. A viagem de volta para casa não foi diferente, embora o Sr. Francheski tenha parado o ônibus, ficado de pé e gritado: - Vocês todos foram criados em estábulos? Onde está a educação de vocês? Sejam gentis com essa nova menina.


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Naquele primeiro dia eu cheguei em casa chorando. Isso foi antes de Chub ir morar conosco, e embora eu soubesse que não deveria esperar nada da minha avó, deixei minha mochila com os livros no chão e corri até sua poltrona favorita na frente da televisão, onde ela fumava e assistia Montel. Contei tudo que havia acontecido, como as crianças me haviam chamado de suja e de lixo. Vovó deu de ombros, inclinando o pescoço para enxergar a tevê atrás de mim. - Acho que você sabe onde fica o sabão. – ela disse irritada. – E é capaz de passar uma escova no cabelo, se quiser. Agora saia da minha frente. Hoje, oito anos mais tarde, meu cabelo está limpo. Foi lavado ontem á noite e secado com um secador que comprei com minhas economias. Eu uso rímel e batom que comprei com meu próprio dinheiro, trocados que ganhei trabalhando para minha avó. Mas o resto, tudo o que eu tenho, é de segunda mão, algo que sempre me incomodou quando eu percorro os corredores de Gypsum High. Minhas roupas nunca são ideais. Minha mochila nunca é ideal. Meus sapatos, meus cadernos, meu corte de cabelo, errado, errado, errado – e todo mundo sabe disso. Gypsum podia ser uma cidade de ruas no meio do nada, no Missouri, mas há ali uma estrutura como em qualquer outro lugar, crianças populares, crianças mais ou menos, crianças que passam despercebidas, e os fracassados. E pessoas como eu, tão baixo de todo mundo que nem vale a pena o esforço de tentar classificar. Naquele dia eu tinha aula de educação física no segundo período. Meu armário ficava ao lado do de Claire Hewitt. Claire sempre tinha um perfume suave de talco infantil e óleo de motor, e seu cabelo era uma nuvem arrepiada que caía até um pouco abaixo dos ombros, mas, quando abri meu armário, até ela se encolheu como se quisesse ficar longe de mim. Quando você está perto do fundo da pirâmide social escolar, como Claire, a única coisa que pode ser realmente prejudicial é se relacionar com alguém que está ainda mais abaixo. E não havia ninguém abaixo de mim. Nem Claire. Nem Emily, que era manca e vesga. Nem mesmo os Morries. Ninguém. Comecei a vestir minhas roupas de ginástica, sem me dar ao trabalho de tentar falar com ela. De que adiantaria? - Ei, Hailey – chamou Shawna Rosen, aparecendo do meu lado sem aviso prévio. – Você está usando sapatos de enfermeira? As meninas que a seguiam se aproximaram de mim e olharam para os meus pés, enquanto Claire fechava a porta de seu armário e se afastava apressada. Eu podia sentir a agitação do grupo.


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Elas nunca ficavam mais felizes do que quando podiam lembrar alguma garota pobre da distância que havia entre a sua existência patética e a vida no topo da pirâmide. Ás vezes, quando Shawna e sua turma iam atrás de mim, eu as enfrentava. Olhava com firmeza para aqueles olhos maquiados e transmitia desprezo. Mas dessa vez não foi assim que eu agi. Eu recuei me afastando de Shawna e andando de costas pelo corredor largo entre as fileiras de armários, batendo em alguém que estava atrás de mim, tropeçando e quase caindo. Minha mão tateou o ar tentando encontrar algum apoio, talvez um dos armários, mas, desanimada, descobri que havia tropeçado em alguém do grupo dos Morries. - Desculpe – murmurei, mas elas seguiram em frente, desaparecendo antes que eu terminasse de falar, sumindo em outro corredor sem dizer uma única palavra. Era raro, quase impossível ver um dos Morries sozinho. Eles permaneciam juntos nos corredores, no fundo da sala e nas mesas da cantina, escolhendo sempre as mais afastadas da fila dos que se serviam da comida, mantendo-se em grupos silenciosos de três ou quatro. Como eu, eles não participavam de nenhuma atividade esportiva ou dos clubes extracurriculares. As meninas tinham cabelo comprido que escondia parcialmente o rosto. Os garotos eram tão magros que a calça jeans suja e desfiada estava sempre caindo. Eles nunca se manifestavam na sala de aula. Se eram chamadas, as meninas falavam tão baixo que logo os professores desistiam delas. Os meninos eram mais ousados, azedos, críticos e emburrados. Não sem importavam com notas, nem mesmo quando o assistente de diretoria os chamava para falar sobre seu desempenho acadêmico, o que acontecia freqüentemente. Eles eram chamados de “Morries” por causa da rua Morrim, principal via que cortava a Cidade do Lixo, que era como todo mundo chamava o bairro pobre na periferia de Gypsum, menos de um quilometro além de nossa casa. Não sei quem começou a chamá-los por esse apelido, mas se houve algum tempo em que os garotos da Cidade do Lixo se misturavam com os Limpos na escola, esse tempo pertencia a um passado muito distante. Shawna e as amigas se cansaram de me atormentar e foram embora, e eu tive de me apressar para terminar de me arrumar, e já estava atrasada para a aula. A Sra. Turnbull e o Sr. CougWin nem perceberam, porque estavam ocupados retirando os cavalos , a trava e as barras paralelas do lugar onde ficavam guardados, no fundo do ginásio. Respondemos á chamada e formamos uma fila atrás do equipamento. Ninguém parecia muito feliz com a situação, mas minhas razões para estar insatisfeita eram diferentes das de todos os outros, provavelmente. Não que eu fosse ruim naquela atividade. O problema era que eu era boa – boa demais.


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Eu sempre me perguntara se Deus me compensara por ter me criado tão esquisita, por eu não ter amigos e ter uma terrível vida doméstica, me dando aquela habilidade atlética natural. Se era isso, eu adoraria fazer uma troca. Era rápida e forte, conseguia me equilibrar bem, e lançava e pegava bolas com precisão incrível, mas em vez de servir para me aproximar mais dos alunos, essa habilidade só me trazia – sim, o que mais? – problemas. No sexto ano, meu professor de educação física percebeu que eu tinha o terceiro melhor tempo de corrida da escola. Ele me fez correr tiros rápidos seguidos por mais um quilometro e meio, oito vezes a pista completa, marcando meu tempo com seu cronômetro. Cada vez que eu passava por ele, eu via sua expressão mais atenta e animada. Quando terminei o teste, ele correu até onde eu estava me alongando – todos ali estavam sempre falando sobre a importância do alongamento depois da prática de exercícios – e me convidou para começar a treinar com a equipe de corrida do ensino médio. Fiquei tão surpresa, que não consegui pensar em uma resposta com a rapidez suficiente. Nunca havia imaginado que alguém me convidaria para participar de um time ou uma associação acadêmica. Mas é claro que não pude participar da equipe. Minha avó jamais teria permitido. Ela não queria que eu nem freqüentasse a escola. Se os assistentes sociais não a tivessem obrigado, ela nunca teria permitido que eu saísse de casa, exceto para fazer alguma coisa para ela. Uma vez, ainda nos primeiros anos da escola, recebi um convite para uma festa de aniversário. Corri para casa com o coração disparado de alegria e animação. Sabia que a dona da festa não queria realmente que eu fosse que a mãe a obrigara a convidar todos os alunos da sala, mas não me importava com isso. Eu nunca havia ido a uma festa de aniversário. Minha avó não dava muita importância para esse tipo de comemoração, por isso o meu aniversário passava todo ano sem bolo, sem presentes, sem música – e eu queria ir desesperadamente à festa. Minha avó leu o convite, seus lábios se movendo sem realmente pronunciar as palavras, e depois ela franziu a testa e o rasgou em pedaços.

-Você não precisa se misturar com as outras crianças – disse. Quando meu professor de educação física insistiu em mandar o formulário de autorização para eu participar da equipe de corrida, minha avó escreveu com grandes letras de forma na parte em que deveria fornecer informações sobre meu histórico médico: "HAILEY NÃO TEM MINHA AUTORIZAÇÃO PARA PRATICAR NENHUM TIPO DE ESPORTE". Desde então, tenho tomado cuidado para não deixar ninguém perceber que sou boa nas


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atividades esportivas. Mas hoje seria difícil. Eu estava na fila do cavalo para salto. Olhei para o velho objeto coberto de couro e tentei pensar em um jeito de me fingir desajeitada. Seria complicado; se eu me jogasse por cima do cavalo, acabaria me machucando muito. E eu não sabia se havia outra maneira de não saltar por cima dele com perfeição.

Como eu poderia passar por uma pessoa desajeitada enquanto voava graciosamente por cima do aparelho, deixando o instinto me dominar? Consegui, mas tive de recorrer a toda minha concentração. Fiz um esforço para me desequilibrar e cair da trava de equilíbrio; fingi não ter força para me sustentar nas barras paralelas. Quando o senhor C olhou para mim com ar de desaprovação e balançou a cabeça, senti uma onda de orgulho. Se ele soubesse... Eu estava no fim da fila, feliz por ter conseguido escapar mais uma vez, quando Milla Swanson se preparou para cumprir a rotina de exercícios. Milla era uma Morrie, uma garota magra com cabelo cor de mostarda grudada na tampa do pote. Ela se aproximou do cavalo com passos curtos, inseguros, mantendo a cabeça baixa como se esperasse que o chão se abrisse num buraco e a tragasse antes do salto. Eu a observava sem muito interesse quando ela pisou no velho trampolim de madeira, mas percebi que ela hesitava. Em vez de saltar uma única vez e com firmeza, como nos ensinaram desde a primeira aula, ela balançou sobre o trampolim e quase tropeçou quando saltou para o cavalo. As mãos escorregaram sobre o couro do revestimento. Às vezes isso acontecia; um aluno saltava errado para o cavalo, e escorregava ou caía do outro lado, normalmente se levantando em seguida com grande vergonha, mas não mais do que um arranhão e um hematoma. Eu mesma havia passado por isso uma ou duas vezes no meu esforço de parecer desajeitada. Mas quando Milla bateu com as mãos sobre o cavalo, o impulso a jogou para cima com mais força do que o esperado, e ela caiu para trás, em vez de passar por cima do cavalo, e de costas. Eu me encolhi quando ouvi o barulho dos ombros se chocando contra a madeira do piso. Aquilo devia doer muito. Mas, em seguida, escutei outro barulho e uma reverberação que pude sentir sob meus pés no chão duro do ginásio. Milla havia batido com a cabeça no trampolim. As duas meninas na ponta da fila saltaram para trás e gritaram e durante um segundo ninguém se moveu. Milla rolou lentamente para o lado, a cabeça caindo do trampolim para o chão, os braços inertes ao lado do corpo. Alguém gritou.


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A senhora Turnbull e o senhor C correram, mas eu fui a primeira a chegar perto de Milla. Nem percebi que estava me movendo até me abaixar ao lado dela, tentar segurar sua mão, e sentir a senhora Turnbull me tirando da frente. - Não toque nela! - ela gritou, apesar de o senhor C também ter se abaixado e estar segurando a mesma mão que eu pretendia pegar. Eu me afastei, mesmo sem querer. Havia alguma coisa dentro de mim, uma força em movimento, um impulso que fazia meus dedos vibrarem com a necessidade de tocar Milla, uma urgência que fazia o sangue correr em minhas veias com uma persistência quente, quase como fogo. Eu queria - não, eu precisava ajudar pôr minhas mãos sobre Milla, e mesmo percebendo quanto meu impulso era bizarro, tive de fazer um grande esforço para contê-lo. Voltei para o círculo formado pelos alunos. A senhora Turnbull e o senhor C falavam em voz baixa, tomando a pulsação de Milla e balançando a mão diante dos olhos dela, que estavam abertos e imóveis. A senhora Turnbull aproximou o rosto do da menina, como se fosse beijá-la nos lábios, mas virou a face. - Ela está respirando - todos nós a ouvimos dizer. - Está inconsciente - o senhor C acrescentou com um tom que atraía pânico. Vi as pontas finas do cabelo que ele penteava sobre a cabeça meio calva e sardenta tremerem, resultado do esforço que ele fazia para se afastar rastejando do corpo inerte da aluna, como se ela estivesse em chamas. Compreendi que ele não sabia o que fazer, apesar de todos os anos que passara lecionando técnicas de primeiros socorros. - Vou pedir ajuda - a senhora Turnbull avisou, levantando-se e correndo para a sala dos professores no fundo do ginásio. Nos segundos que levei para deixar o círculo de alunos e correr novamente para perto de Milla, não houve um único som no ginásio. Ninguém falou, tossiu, nem disse meu nome. Ninguém tentou me deter. Mas quando segurei a mão fria e inerte de Milla, a mão de unhas lascadas e palmas calejadas, deixei de ouvir o ambiente a minha volta. Quero dizer, não ouvia nada no ginásio. Dentro da minha cabeça começava a soar um estranho coro, um cântico sussurrado que não fazia sentido. Um segundo depois minha visão se apagou. Não creio que tenha fechado os olhos, mas tudo desapareceu e foi como se eu estivesse olhando para o tempo, vendo-o se mover para frente e para trás ao mesmo tempo, como se eu


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houvesse saltado de um penhasco e pairasse no ar em algum lugar do espaço vazio e negro. - Milla - sussurrei, e senti meus lábios se moverem, o que me deu certeza absoluta de que havia falado, e depois tive aquela mesma sensação de sangue correndo mais quente, como se toda a energia em meu corpo fosse direcionada para a ponta dos meus dedos, de onde se dissipava para o corpo de Milla. Soltei uma das mãos dela e meus dedos se moveram por sua nuca e pelo rosto, até encontrarem a parte de trás de cabeça, que estava quente e úmida. O cabelo estava colado sobre um grande edema que crescia ainda mais sob meu toque. A sensação se tornou mais intensa em minhas veias, e foi como se meu coração batesse mais devagar e falhasse. Comecei a cair, mas não conseguia soltá-Ia, não conseguia parar de tocar o corpo ferido de Milla. Quando senti que tinha esgotado toda minha energia, alguma coisa me empurrou com força e eu caí de lado no chão. Visão e audição retornaram imediatamente. - Que diabo acha que está fazendo? - gritou a senhora Turnbull, seu rosto vermelho e a mão erguida como se ela pretendesse me agredir, e talvez ela tivesse mesmo me batido, se nesse momento Milla, deitada no chão aos pés dela, não houvesse se virado para vomitar. E foi bom ela ter vomitado, porque a sra. Turnbuli se esqueceu completamente de mim. Milla se sentou, limpando a boca na manga da blusa, soluçou duas vezes e olhou em volta como se fosse chorar, mas a senhora Turnball começou a gritar uma série de perguntas, e ela as respondeu, falando tão baixo que nenhum de nós conseguia ouvi-la. Voltei para o círculo de alunos, e dois deles vieram me perguntar o que havia acontecido, mas a porta do ginásio se abriu com um estrondo antes que eu pudesse responder. O senhor Macklin, vice-diretor, entrou e começou a berrar para todos irem trocar de roupa para a próxima aula, porque tudo estava sob controle e ninguém precisava se preocupar. Eu acompanhei o grupo, mas não consegui deixar de olhar para trás, para Milla, que tentava se levantar enquanto a senhora Turnbull a segurava mantendo-a no chão. Milla me observava. O olhar que ela lançava na minha direção era difícil de entender: medo e desprezo na mesma medida, com um pequeno traço de gratidão. A única emoção completamente ausente de seu rosto era surpresa.


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Capítulo 2 Naquela tarde fui a pé ao mercado em vez de pegar o ônibus. Precisava caminhar, pensar no que havia acontecido no ginásio. Estava confusa. Não conseguia parar de reprisar mentalmente tudo que acontecera, o som da cabeça de Milla batendo no chão, a sensação da pele sob meus dedos, a vertigem que senti quando a toquei. Quando cheguei em casa carregando as sacolas com as compras, Rascal atravessou o quintal correndo para me encontrar. Ele era mestiço de bluetick, beagle, e mais alguma coisa. Vovó ganhou o cachorro de presente de uma cliente depois de um vira-lata ter pulado o muro de sua casa e cruzado com sua cadela, uma basset round premiada. A cliente ia se desfazer da ninhada inteira, mas vovó se encantou com Rascal. Por algum tempo, pelo menos - ela se cansou quando ele deixou de ser filhote. Rascal farejou minha mão, depois correu para dentro de casa e para Chub, que estava sentado na frente da porta aberta de um armário da cozinha, brincando com as panelas cujas tampas rolavam pelo chão. - Rastal! - Chub exclamou, batendo palmas antes de abraçar o cachorro. "Rastal" era um das melhores palavras de Chub. Ele me chamava de "Hayee", e conseguia dizer "aua" para pedir água e "deia" para se referir a cadeira. Para outras coisas ele tinha nomes especiais, sons que não tinham nenhuma relação com a palavra realmente utilizada, como "fufa" para flor e "bubu" para caminhão. Na maior parte das vezes ele nem formava palavras, apenas balbuciava ruídos mais ou menos altos que só ele conseguia ouvir. Eu sabia que havia algo errado com Chub. Tentei descobrir o que era persquisando na internet, mas encontrei tantas causas para atraso no desenvolvimento que nem sabia por onde começar. Sabia que no final, os assistentes sociais exigiriam que ele fosse submetido a exames,


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mas não estava ansiosa por esse dia, porque temia que o pusessem em um abrigo para crianças como ele. E eu não queria que Chub fosse embora. Nunca. Além de Rascal, ele era tudo que eu tinha para amar. Quando Chub chegou para morar conosco, vovó mudou. Ela passava algum tempo com ele todos os dias, murmurando palavras suaves enquanto eu fazia as tarefas domésticas, mostrando brinquedos e cartas de baralho e tentando faze-lo falar. Eram bons tempos. Se Chub fazia algo novo, se engatinhava até minha avó ou tentava pegar os blocos brilhantes que ela mostrava, vovó comemorava; desligava a televisão e não bebia tanto, e até elogiava o jantar que eu havia preparado. Mas quando Chub tinha um dia ruim, quando ele não repetia os sons que ela fazia, ou se comia terra do quintal, vovó parecia afundar um pouco mais em sua poltrona. Fui me apegando cada vez mais a Chub, e enquanto me aproximava fui percebendo que ela o via como um projeto, uma experiência. E quando ela não conseguiu concertar o que estava errado com Chub, minha avó desistiu. Dois meses depois ela estava novamente passando os dias na poltrona diante da tevê, fumando. Passou a beber muito durante o dia e quase nem prestava atenção a Chub, mas continuava recebendo os cheques que o estado mandava por ela cuidar da criança, que se tornou minha responsabilidade, como havia acontecia com Rascal. -Trouxe meus cigarros? - Vovó perguntou de sua cadeira, chiando ao falar. Ela fazia a mesma pergunta toda vez que eu voltava do mercado, como se eu esquecesse. Minha avó fumava um maço e meio por dia, e eu dei a ela os quatro maços de Marlboro com o recibo e algumas moedas de troco. Os cigarros custavam quase metade do que eu havia gastado comprando comida, mas eu nem me atrevia a sugerir que ela parasse. A única vez que tentei, ela me deu uma bofetada no rosto, e foi tão rápida e tão violenta que fiquei sem ar. Minha avó era cruel, mas também era fraca e doente na maior parte do tempo, por isso eu podia ficar fora do seu caminho, se tentasse. De manhã ela acordava tossindo e cuspindo coisas nojentas na pia, e muitas noites ela adormecia bêbada na poltrona. E ela me dava ordens o tempo todo como se eu fosse uma empregada. Eu não me incomodava muito com o serviço doméstico - tinha um gosto especial por manter a casa limpa, e teria cuidado de tudo mesmo que ela não mandasse. E ela me pagava pelo serviço, mesmo que fosse só uma fração do salário mínimo. Guardei as compras e comecei a preparar sloppy joes. Refoguei as cebolas e os pimentões congelados, a carne moída, e fui acrescentando molho de tomate aos poucos - como


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fizera milhares de vezes antes. Cozinhar era uma coisa que sempre me acalmava, especialmente com Chub brincando perto dos meus pés e Rascal cochilando no canto da cozinha, onde eu sempre mantinha uma pilha de cobertores velhos para ele. Minha avó riu de alguma coisa que Tyra Banks havia dito em seu programa, soltou com grande estrondo os gases que sempre a incomodavam, e eu pensei pela milésima vez como seria feliz quando Chub e eu saíssemos daquela casa definitivamente. Eu sei que não se deve ter esse tipo de sentimento pela própria avó. Todos os avós são superprotetores e intocáveis, e mesmo assim espera-se que os netos os amem. Eles devem ouvir seus problemas e oferecer conselhos baseados em toda sua experiência de vida. - Hoje aconteceu algo estranho na escola - eu disse, acrescentando o ketchup e a mistura para sopa de cebola ao refogado na frigideira.. Minha avó nunca me dera um único conselho digno de ser lembrado, e assim que comecei a falar eu soube que estava cometendo um engano. Mas precisava contar sobre Milla. - Milla Swanson se machucou na aula de educação física . - Aham - vovó respondeu, sem desviar os olhos da televisão. - Quero dizer, foi muito grave. Acho que ela ficou inconsciente por alguns minutos. Bateu a cabeça. -Mmmm. - Mas eu... bem, acho que talvez eu tenha ... Hmm ... A verdade é que eu só queria ajudar, sabe? Porque a senhora Turnbull queria chamar... - O que foi que disse? A voz aguda e cortante de minha avó me assustou, e eu deixei a espátula na frigideira e olhei para ela. Para minha surpresa, vovó fazia um grande esforço para sair da poltrona, gemendo como se o empenho fosse doloroso. - Eu estava dizendo que Milla caiu e bateu a cabeça. - Fui ajudar minha avó, e ela segurou minhas mãos e se levantou as costas estalando alto. - Ela perdeu sangue? Abriu a cabeça? Havia osso exposto? O que você fez? As perguntas tinham um tom aflito, uma urgência que eu nunca ouvira na voz dela, e


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imaginei se ela sabia alguma coisa que eu Ignorava. - Não foi nada realmente grave. Só um tombo. - Você disse que ela ficou inconsciente. - Havia agitação e acusação em sua atitude, e os olhos brilhavam e adquiriam uma intensidade que eu nunca vira antes. - Bem, talvez por um minuto. - E você a tocou? - Eu... sim. - Na cabeça? - Bem, sim, quero dizer, primeiro nas mãos, e depois no cabelo, basicamente. - O que você falou? - O que eu falei? - Não é uma pergunta difícil, Hailey. O que você disse enquanto a tocava? - Eu não... não sei. Talvez tenha dito o nome dela, e alguma coisa como "não se preocupe", ou "vai ficar tudo bem". Não sei mesmo. Mas enquanto respondia a pergunta de minha avó, alguma coisa surgiu no fundo da minha mente. Eu escutara alguma coisa. Uma trilha sonora esquisita, sílabas sussurradas, ruídos que eu quase não ouvia, porque o sangue correndo em minhas veias parecia soar mais alto que tudo. - Foi só isso? Você não disse mais nada? - Não. Mais nada. - Estava um pouco assustada com a intensidade da reação de vovó, e senti ainda mais medo quando ela cerrou as mãos magras como garras em torno dos meus braços, e uma unha comprida quase perfurou minha pele. -Você já fez isso antes, Hailey? - ela perguntou, aproximando-se o suficiente para eu


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poder sentir seu hálito, uma combinação repugnante de cigarro e podridão. Tive de me esforçar para resistir ao impulso de me libertar puxando o braço. - Fiz o quê? Seus olhos intensos buscavam os meus, e eu tinha a sensação de que ela procurava algum sinal, alguma coisa que provasse que eu estava dizendo a verdade - e algo mais, alguma coisa que eu não conseguia entender. Ficamos ali paradas por um momento que pareceu bem longo, e eu senti o medo crescendo dentro de mim, um medo que alimentava minha confusão e intensificava ainda mais as fortes emoções do dia. - Acho que você sabe - minha avó finalmente sibilou, apertando meu braço com uma força que me surpreendeu. - Você sabe o que fez. Durante todo esse tempo estive esperando por algo que não acontecia, e quando finalmente desisto você vai e faz o que era esperado. Eu me soltei com um movimento brusco, com o coração aos saltos dentro do peito. - O jantar vai queimar - resmunguei, e peguei a espátula para mexer a mistura na frigideira, meu rosto quente com o vapor que se desprendia da comida. Sentia minha avó parada atrás de mim, me observando. Ela era muito assustadora quando pensava. Mais do que em qualquer outro momento. Eu preferia que ela me batesse ou que gritasse comigo, mas não queria que me olhasse daquele jeito, porque eu não tinha como saber em que ela estava pensando. - Isso não muda nada - vovó resmungou, falando tão baixo que eu quase não ouvi. Quando me atrevi a virar e olhar, ela havia voltado para a poltrona, e assistia sonolenta a uma propaganda sobre cuidados com o gramado. Servi a comida em três pratos e acomodei Chub sentado à mesa com um guardanapo de papel e um copo de leite com achocolatado. Arranjei um dos pratos e uma cerveja sobre a bandeja da vovó e a servi na frente da televisão. Ela mal se deu ao trabalho de grunhir uma resposta, mas eu a observei enquanto jantava com Chub. Ela comia sem nenhum cuidado, derrubando carne na bandeja e no chão, onde Rascal a encontraria mais tarde. Depois de um tempo vovó esfregou o guardanapo na boca e o jogou sobre o prato onde ainda havia comida, e eu respirei aliviada, esperando que ela houvesse esquecido a conversa confusa. Vovó esperava clientes naquela noite. Enquanto eu lavava os pratos ela falava sozinha, erguendo a voz de vez em quando como se conversasse com alguém. Eu passava pela poltrona


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para ir pôr Chub na cama, quando ela estendeu a mão crispada e de unhas amarelas para agarrar meu pulso. - Você sabe que é o futuro, Hailey - disse, os lábios retorcidos num arremedo de sorriso que exibia os espaços vazios onde ela perdera dentes. Minha avó não teria ido a um dentista nem se pudesse pagar, por isso os dentes que restavam em sua boca tinham uma tonalidade acinzentada. - É você quem vai ficar com o legado. Puxei o braço para me soltar, mas vovó o segurava com força. Ela já havia dito coisas parecidas antes; não era nenhuma novidade. Anos atrás eu havia perguntado o que ela queria dizer, e minha avó piscara, fingindo acanhamento, e respondera que eu saberia em breve. Aquela reação me causara um arrepio, o jeito como ela me encarara com seus olhos brilhantes e leitosos, um olhar quase faminto. - Você agora tem seios, não tem menina? - minha avó perguntou. Numa reação instintiva, cobri o peito com a mão. O que ela dizia era quase mentira. Eu ainda era magra demais na região do quadril, e era evidente que nunca teria curvas como as de Jill Kirsch e Stephanie Lee, curvas que eram como Ímãs para os olhos dos meninos quando elas passavam pelo corredor. Mas era horrível pensar que vovó havia percebido, que ela estivera olhando para os meus... para mim. - E suas regras - ela continuou, chiando e tossindo na manga da blusa. Eu não havia feito nenhum esforço para guardar segredo. Quando menstruara pela primeira vez alguns anos antes, eu soubera o que fazer por ter ouvido conversas entre as garotas na escola, e guardava meus pacotes de absorventes no armário do banheiro. Mas ouviIa dizer as palavras fez meu estômago revirar, e puxei meu braço com tanta força que a mão dela se chocou contra o braço da cadeira enquanto eu me afastava. Ela riu, um som carregado que era sempre acompanhado por projéteis de saliva, alguns deles aterrissando em mim. Não consegui me afastar com rapidez suficiente. - Do que tem tanta vergonha, Hailey? - vovó chiou. - Sua mãe adorava tudo isso. Não era muito certa da cabeça e não conseguia falar coisa com coisa, mas isso não a impedia de rebolar por aí como uma gata no cio quando cresceu.


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O comentário me fez parar. Vovó nunca falava sobre minha mãe. Tudo que eu sabia sobre ela era que morrera no parto e "não era certa da cabeça". Eu pensava que essa última parte podia ser o motivo pelo qual vovó nunca falava sobre ela, por algum tipo estranho de luto que a tornara uma pessoa feia, estranha, e recolhida num silêncio obstinado. Minha avó não me dizia nem como era o nome dela, e não havia fotos de minha mãe em nossa casa. - O que... O que... - Gaguejei, e notei que seus lábios se distendiam num sorriso de satisfação presunçosa. Ela conseguira me atingir. Eu a odiava por isso, mas ela me atingira. - Ah, então agora você tem tempo para falar comigo - vovó comentou. - Sim, sim. Você não precisa saber nada sobre sua mãe, exceto que ela estava madura como um pêssego e pronta para ser colhida. Mal os rapazes começaram a se aproximar, e ela ficou grávida. - Quem... - comecei, mas tive de parar para umedecer meus lábios secos, odiando-me pela pergunta que estava por fazer. Eu a repetira muitas vezes antes, o suficiente para saber que minha avó nunca a responderia. - Quem é meu pai? A risada de minha avó se transformou em um ataque de tosse, mas as lágrimas que ela secou de seus olhos úmidos revelavam um humor cruel. -Essa - ela começou, mas teve de parar por causa de outro ataque de tosse. -Essa é a verdadeira questão, não é? - disse, respirando com dificuldade. - Pode ser qualquer um. Eu havia aprendido algumas coisas sobre minha avó depois de ter vivido com ela por dezesseis anos. Percebi como ela estreitou os olhos, como comprimiu os lábios. Minha avó estava mentindo para mim. Eu só não sabia por quê. O que estava escondendo? Às vezes era como se nós não tivéssemos nenhum parentesco. Seu corpo era muito frágil, como se estivesse apenas esperando pela hora de morrer, e eu nunca adoecera, nenhuma vez em toda minha vida. Mas ela também me conhecia, em alguns aspectos, até melhor do que eu mesma. E isso era algo que eu odiava. Não conseguia deixar de pensar na conversa que tivemos pouco antes, em todas as perguntas que ela fizera sobre Milla, como se tivesse alguma informação secreta, algum conhecimento misterioso sobre o que havia acontecido. Porém, uma coisa era certa: nada convenceria minha avó a me contar alguma coisa que ela quisesse manter em segredo. Era inútil continuar conversando com ela. Tentei me afastar, mas vovó me deteve. - Por que a pressa, Hailey? - perguntou, apagando o cigarro no cinzeiro que eu já havia esvaziado duas vezes naquele dia. Depois estendeu os braços. - Temos visitantes. Venha me ajudar a levantar.


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Só então ouvi o som de um carro do lado de fora. Fiz como ela pedia, segurando suas mãos e puxando com mais força do que era necessário, o que a fez cambalear ao ficar em pé. Deixei que ela se apoiasse em mim enquanto estalava os dedos das mãos e o pescoço, movendo a cabeça para um lado e para o outro. Quando tive certeza de que ela não ia cair, fui preparar Chub para colocá-lo na cama. Normalmente eu o teria levado para o banho, mas as visitas de minha avó logo começariam a beber cerveja, e em breve teriam de usar o reservado. Escovei os dentes de Chub com uma escova de cerdas macias e o creme dental infantil sabor morango. Depois o limpei com um pano e troquei sua fralda. Ele tinha quatro anos, era velho demais para ainda usar fraldas, e eu havia tentado tudo em que conseguira pensar para convencê-lo a usar o vaso sanitário, mas nada havia funcionado. Quando eu estava limpando a pia, ele abraçou minhas pernas e disse: - Xie, Hayee. Ele já havia dito isso antes, dizia de vez em quando, e eu tinha certeza de que queria dizer "amo você, Hailey", embora não tivesse nenhum jeito de provar. Ajoelhei-me no chão e o abracei, sentindo seu doce cheirinho de bebê. - Eu e você - sussurrei. - Sempre. Em dois anos eu teria dezoito. Teria me formado no ensino médio e as pessoas do serviço social não voltariam mais para saber de mim. E se tivéssemos sorte, iríamos para tão longe dali que eles nunca mais conseguiriam encontrar Chub. Ouvi vozes do outro lado da porta, e reconheci a mais alta: Dunston Acey. Isso não era bom... Tentei ir para o meu quarto sem ser vista, mas antes de alcançar a porta eu ouvi a voz rouca de uísque me chamar. - Hailey, venha até aqui para que eu possa vê-Ia! Parei, tentando decidir se poderia fingir que não o ouvira falar comigo, mas a voz de vovó soou em seguida: - Ponha logo esse menino na cama garota, depressa, temos companhia! Fiz como eles diziam. Acomodei Chub na cama, cantei para ele, massageei suas costas, e assim que sua respiração se tornou mais profunda e lenta, sinal de que adormecera, eu não


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pude mais adiar. Eles acabariam indo ao quarto, acendendo a luz, e acordariam Chub. Quando vovó e seus clientes decidiam festejar, nada os detinha. Fui até a cozinha e disse um olá seco, sem nenhum entusiasmo. Três pares de olhos me observavam. Ali estavam minha avó, Dun, e um homem que permanecia em pé no canto mais afastado, envolvido pelas sombras. Quando ele caminhou para a área iluminada, constatei com desânimo que o terceiro visitante era Rattler Sikes. De todos os homens cruéis, detestáveis e imprestáveis que haviam estado em nossa casa, Rattler era o pior. Era um dos únicos que não usavam drogas e, até onde eu sabia, não bebia, mas de vez em quando ele aparecia na companhia dos outros, e ficava em um canto da sala observando tudo e falando pouco. Todos conheciam as histórias sobre ele. Rattler era uma das poucas pessoas na Cidade do Lixo sobre quem as outras pessoas de Gypsum falavam, provavelmente porque o xerife tentava pegá-lo há anos. Mas ele nunca conseguia fazer suas acusações irem adiante. Comentava-se que Rattler fazia coisas com as mulheres. Coisas terríveis, coisas que as deixavam abaladas internamente e machucadas no exterior. Ele só ia atrás das mulheres da Cidade do Lixo, e talvez esse fosse um dos motivos pelos quais o xerife não conseguia pegá-lo. Desde que os problemas ficassem dentro das fronteiras da Cidade do Lixo, o povo de Gypsum não se importava muito com o que acontecia por lá. Diziam que as mulheres saíam com Rattler - era difícil imaginar que iam espontaneamente - e depois eram encontradas vagando pela cidade de madrugada, às vezes descalças, às vezes seminuas, e sempre sem conseguir ou sem querer falar sobre o que havia acontecido. Nenhuma delas jamais quis registrar uma ocorrência ou processá-lo, mas essas mulheres nunca mais voltavam a ser as mesmas. Consegui dizer um olá sufocado. Era mais fácil do que deixar minha avó zangada, porque era impossível prever o que ela diria nesse caso. - Você está linda hoje - disse Dun, erguendo uma garrafa na minha direção antes de sorver um grande gole da bebida. Vovó tinha uma política: tudo que um consumidor bebia ou fumava em sua casa era grátis - pelo preço de algumas cervejas e um pouco de erva ela os mantinha entretidos e felizes, e se ela cobrava caro pelas coisas mais pesadas, ninguém nunca reclamava. - Preciso ir ao porão - minha avó anunciou cravando os olhos em mim. Eu sabia o que


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ela queria - que eu descesse para ir buscar o que Dun queria comprar dessa vez, o que quer que fosse. Mas essa era uma coisa que ela não podia me obrigar a fazer: eu me recusava a participar do que ela chamava de negócios. Não tocava nos frascos com comprimidos, não lia os rótulos, não ajudava a separar e embalar a erva que ela comprava de um sujeito que vinha de Ozarks em seu carro uma vez por mês para fazer a entrega. Eu não fazia nada disso, e quando ela pedia, eu simplesmente repetia o aviso de sempre: um telefonema meu, e ela estaria acabada. É claro que tudo era só um blefe. Eu jamais faria nada para envolver as autoridades nessa história, porque isso me separaria de Chub. Vovó era estúpida com relação a algumas coisas, com essa acima de todas: ela devia saber quanto Chub era importante para mim. Ela se levantou, suspirando e bufando, e caminhou arrastando os pés até a escada que descia para o porão. Vovó levaria algum tempo para descer agarrada ao corrimão, um degrau de cada vez, e voltar com o produto. Vi a pilha de dinheiro sobre a mesa. As notas ficariam ali até Dun examinar a mercadoria e guardá-Ia nos bolsos, e só então minha avó poria o dinheiro dentro da bolsa que deixava sobre a bancada. Era sempre assim. Eu me sentei na única cadeira vazia para esperar. Vovó queria que eu conversasse com os clientes, mas isso não me obrigava a promover uma conversa vibrante. - Bela camisa - disse Dun. - Não é uma linda camisa, Rattler? Eu me senti corar; não havia nada de especial na minha camisa, uma peça simples de um tom comum de verde e gola alta que eu comprara de segunda mão por cinquenta centavos. Mas ela estava ficando velha e um pouco apertada no peito. Dun me perguntou sobre a escola, sobre minhas notas, e quis saber que programas de televisão eu costumava ver. Ele não parecia se importar com minhas respostas curtas e secas. De vez em quando pedia a opinião de Rattler, mas na maior parte do tempo parecia satisfeito por conduzir sozinho toda a conversa e beber sua cerveja, abrindo mais uma sempre que a garrafa em sua mão ficava vazia. Depois de um tempo que parecia infinito, minha avó voltou caminhando com dificuldade. Ela segurava dois sacos de papel pardo fechados, e os deixou sobre a mesa na frente de Dun. A atmosfera na cozinha mudou. Ninguém mais olhava para mim. Todos os olhos estavam fixos nos sacos de papel, e Dun abriu um deles para espiar seu conteúdo. Depois de um segundo ele introduziu a mão na embalagem e retirou dela os frascos plásticos. Sério, examinou os rótulos. Parecia querer comê-


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los sem remover a tampa. Quando terminou de examinar os frascos, ele os enfiou em um bolso enorme de sua camisa xadrez. Em seguida amassou os sacos de papel dados por minha avó e os arremessou na lata de lixo no canto. Eles bateram na borda da lata e caíram no chão. Eu esperei mais alguns minutos, até ter certeza de que era seguro me despedir, e então me levantei e empurrei a cadeira para perto da mesa. - Bem, boa noite - disse, tentando soar animada. Quando passei perto da cadeira de Dun, ele estendeu a mão e agarrou a cintura da minha calça jeans. -Já vai pra cama, benzinho? - perguntou com voz pastosa, espalhando no ar o cheiro repugnante de seu hálito de tabaco. - Precisa de companhia? - Ah, Dun - minha avó interferiu, batendo em seu ombro de um jeito brincalhão. - Não incomode a menina. - Ela não é mais uma menina - Dun protestou, piscando para Rattler. -Não é verdade? - Sabe, ela precisa ser ensinada - minha avó falou com tom sério, a voz expressando censura. - Pois eu acho que ela não precisa aprender mais nada. Sobre, ah, como ser muito quente. - Dun riu da própria piada e nem tentou disfarçar o fato de estar olhando diretamente para o meu peito. Eu me soltei com um movimento brusco. Violento. Minha avó ria alto com ele quando corri para o meu quarto e bati a porta.


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Capítulo 3 Era aniversário deles. Um ano desde o primeiro encontro. Por isso ela examinava as coisas dele. Outras mulheres faziam a mesma coisa, não faziam? Vasculhavam o apartamento do amante para procurar caixas forradas de veludo contendo braceletes e brincos, cintilantes presentes de amor. Era difícil saber o que era considerado normal, embora pensasse nisso o tempo todo. Fazia compras onde outras mulheres compravam, e se vestia tão bem quanto qualquer uma delas. Cortava o cabelo em um salão onde serviam champanhe para as clientes que esperavam sua vez. Por que não? Agora tinha muito dinheiro. Nem sempre havia sido assim. Foram necessários seis anos para concluir a faculdade trabalhando em período integral e nos finais de semana também, seis anos de um torpor resultante de muita cafeína e poucas horas de sono, até finalmente se formar. Depois disso, haviam sido mais seis anos de empregos em laboratórios na cidade fazendo mais cursos sempre que podia para complementar o que aprendia trabalhando. Outra faculdade estava fora de questão enquanto ainda estivesse saldando suas dívidas - os empregos em laboratórios não pagavam o suficiente para poder economizar, embora mantivesse um orçamento enxuto morando em um apartamento pequeno em uma área ruim da idade. Haviam sido anos de solidão. Mesmo que tivesse tempo para namorar, a lembrança do primeiro amor ainda ocupava sua memória o tempo todo. O coração não cicatrizara. Sim, tinha cicatrizes; a agonia arrefecera para uma dor contida que agora fazia parte dela, tanto quanto respirar. Mas nunca esquecera. Queria superar. Sua vida se tornara um esforço constante para reparar o engano do passado. Se ao menos pudesse encontrar um jeito de usar seu dom para ajudar as pessoas... Mas a comunidade cientifica não se interessara pelo trabalho que ela queria fazer. Até o dia em que conhecera o amante. É claro, nos primeiros dois anos ele havia sido apenas seu chefe. Ouvira falar nela - comentários sobre como ela trabalhava duro e obtinha resultados confiáveis, mas, mais importante, ele ouvira falar sobre a


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pesquisa que ela conduzia sozinha depois do expediente... e o que podia fazer, coisas que a ciência não conseguia explicar. Ela não contara a quase ninguém sobre essa parte, e ainda assim - de algum jeito - ele descobrira. E oferecera um salário três vezes maior do que ela recebia em outro laboratório, tudo para convencê-la a aceitar seu convite. E agora ela trabalhava no laboratório do amante e tinha expedientes mais longos do que em todos os outros empregos anteriores, mas isso não importava certo? Porque estavam juntos, e tinham uma idéia em comum, um sonho. Iam mudar o mundo. Era o que dizia a si mesma todas as manhãs, quando se preparava para passar pelas portas do edifício onde ficava o laboratório. Não havia identificação, nenhuma placa do lado de fora para anunciar o equipamento caríssimo no interior, os profissionais que o amante contratara no mundo todo. Mas ele era assim, disciplinado - não se gabava do que tinha e fazia, mas insistia sempre no melhor. E havia dito que ela era a melhor. Sem ela, o amante estava sempre lembrando, o trabalho no laboratório seria em vão. E ele dizia que estudá-la era um privilégio. Então, por que retribuir seu afeto e o contato físico se tornara tão difícil ultimamente? A culpa era dela, porque tinha muito mais dificuldades com relacionamentos do que as outras mulheres. Ela tentou banir da cabeça esse pensamento enquanto terminava de olhar o que havia nas gavetas da cômoda e considerava a escrivaninha de ébano, uma peça elegante no estúdio do lindo apartamento de cobertura com vista para o Lago Michigan. Em razão do que havia acontecido com ela no passado... talvez fosse inevitável demorar tanto para voltar a amar. E o amava, ela repetiu para si mesma enquanto mexia nos objetos sobre a escrivaninha, tomando cuidado para não mudar a ordem de papéis, canetas, lembretes adesivos e clipes. A escrivaninha era a única área desarrumada na vida de seu amante, esse espaço privado na casa dele. O restante - o laboratório estéril, a cozinha brilhante com os equipamentos de aço inoxidável, as camisas bem passadas e os ternos pendurados no closet - tudo era tão limpo e organizado que era como se não houvesse vida humana naquele lugar. Ela conteve um arrepio. Esse não era um pensamento que devia associar ao amante. Especialmente agora, quando havia uma chance - ele havia insinuado muitas vezes, não? - mais que uma chance, uma probabilidade de ele a pedir em casamento essa noite. Em algum lugar nesse apartamento podia estar o anel que ele poria em seu dedo, um lindo anel, porque ele insistia em ter sempre o melhor de tudo. E depois estariam unidos pelo casamento, além de serem unidos na paixão pelo trabalho, e ela seria a mulher mais feliz do mundo. Então, por que se sentia tão mal?


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Nervoso. Sim, era isso, ela disse a si mesma, calando a voz persistente em seu interior. Só precisava ver o anel. Porque vê-lo serviria para confirmar o que ela já imaginava e, se confirmasse a suspeita, poderia se preparar para ela. Quando ele se ajoelhasse diante dela mais tarde, estaria preparada para reagir com a devida alegria e surpresa, e ele jamais saberia que dentro dela crescia um medo incontrolável, uma certeza de que algo estava errado, errado, errado. Tinha de dominar esse medo, escondê-lo onde ninguém jamais poderia vê-lo, se queria ter uma vida normal. Casar-se, ter filhos, talvez. Nunca encontraria ninguém mais apropriado do que o amante. Ele era rico, inteligente, poderoso, e a escolhera. Isso era amor de verdade, amor maduro, e se ainda se pegava pensando naquele outro amor era só porque tudo acabara de maneira terrível. Apaixonara-se perdidamente pela primeira vez, mas o que chamava de amor devia ter sido apenas uma forte atração, uma intensa paixão. Amor de verdade era o que tinha agora, produto de interesses em comum e de um cuidadoso crescimento da intimidade ao longo do tempo. Seu amante havia sido paciente, soubera esperar o relacionamento crescer e se transformar em algo mais sério e sólido. Portanto, não se deixaria dominar por dúvidas. Hoje não. Esse era um dia especial. Um dia com que toda mulher sonhava, certo? Enquanto ia abrindo as gavetas da escrivaninha, ela tentava sufocar o medo persistente. Sim, recentemente o amante cometera alguns erros que não eram característicos de sua maneira de agir. Todo mundo podia se distrair - até as pessoas mais brilhantes. As incoerências nos relatórios de pesquisa que lera por engano no laboratório, os testes modelo e o controle de população que não pareciam em nada com o que haviam discutido até os arquivos que continham referências à patrocinadores sobre os quais ela nunca ouvira falar - tudo isso podia ser explicado com facilidade. Afinal, tinha apenas um diploma de bacharelado; todos os outros profissionais no laboratório, toda a equipe antipática e hostil que aparecia sem se apresentar e mergulhava no trabalho sem divulgar nenhuma informação pessoal sobre quem eram e o que faziam - todos eram tão mais preparados academicamente que ela mal conseguia entender o que faziam aquelas pessoas. Seus dedos tocaram as pastas guardadas na última gaveta. De repente ela parou, sentindo o coração bater mais depressa enquanto os olhos iam percorrendo as palavras na etiqueta de identificação. Era a caligrafia perfeita de seu amante. Seu nome. Seu verdadeiro nome. O nome que ninguém usava há anos. Uma porta se abriu atrás dela. Em seguida soou no apartamento o som característico do sapato italiano de seu amante no piso de madeira polida. Ela não se moveu. Não podia se mover. Estava segurando a pasta entre as mãos, uma pasta cheia de papéis, e olhando para o nome que pensava ter


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enterrado para sempre. - Ah - a voz profunda e controlada soou atrás dela. Ele parecia se divertir com o que via. - Está vasculhando meus arquivos particulares, meu bem? O germe da dúvida que já existia dentro dela despertou, e ela começou a tremer. Sem soltar a pasta, virou-se lentamente para encarar o amante. Ele estendeu a mão e, sem pensar, ela a aceitou, deixando-se guiar até o sofá de couro, onde os dois se sentaram juntos, os joelhos se tocando. As mãos dele eram quentes, e embora aquela voz interior gritasse de horror e medo, aquela parte de sua personalidade que treinara tão bem para ser outra pessoa, alguém como qualquer mulher normal, não recuava. - Temos muito sobre o que conversar - disse seu amante. - De certa forma, o momento é excelente. O fato é que fiz algumas descobertas sobre você recentemente. Sim, sobre você. Não fique tão surpresa, querida! Sabe que sempre a achei fascinante. Quem pode me culpar por ter desejado descobrir tudo sobre a mulher que amo? E agora posso dividir todas essas descobertas com você, sim, porque descobri algo que nem você mesma sabe a seu respeito, algo maravilhoso, eu acho. Algo excitante, um novo dado que trará coisas muito valiosas para nós e nosso trabalho. E então ele a chamou pelo nome verdadeiro, e a concha que ela havia construído cuidadosamente ao longo dos anos se desfez, estilhaçada em milhões de cacos. De repente percebia que não conhecia realmente esse homem.


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Capítulo 4 Não dormi bem ontem à noite, e levei mais tempo que de costume para me arrumar de manhã, porque alguém havia derrubado cerveja no chão da cozinha. Não queria Chub sentado na sujeira, por isso limpei o chão. Antes de sair, preparei para ele uma torrada e o vesti com um macacão bonitinho, depois o deixei brincando com os blocos de montar. Alimentei Rascal e o pus para fora para passar o dia no quintal. Talvez tenha sido por causa do cansaço, mas o fato é que não vi o carro do outro lado da rua até o ônibus parar. Fazia frio para abril, e eu apertava os olhos contra a luz do sol e soprava nuvens brancas no ar gelado quando ouvi o ônibus se aproximando. Uns dez metros abaixo, do outro lado da rua, havia um sedan cinza com janelas escuras. Nossa casa era a única naquele trecho da estrada entre Gypsum e Trashtown, e qualquer pessoa que ia nos visitar simplesmente entrava no quintal. Ninguém nunca estacionava na rua daquele jeito. Entrei no ônibus e me sentei ao lado de Coby Poindexter, me debruçando sobre ele para poder ver o sedan. A janela do motorista estava aberta, apenas uma pequena brecha, mas não consegui enxergar o interior do automóvel. O ônibus partiu, e eu me virei para trás tentando ver a parte traseira do carro, mas só consegui enxergar um emblema da Lexus. Seriam os tiras? Policiais disfarçados vigiando nossa casa por causa dos negócios de minha avó? Mas policiais não dirigiam um Lexus, certo? - Ei - Coby me chamou. - Como vão as coisas na terra do lixo branco? Eu o ignorei e me virei. Hoje, por alguma razão, senti algo se rompendo dentro de mim. Não que eu me sentisse mais corajosa. Era quase o contrário - como se eu desmoronasse.


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O jeito como Dun me tratara na noite anterior, a sujeira na cozinha essa manhã, o carro estranho perto da nossa casa; era demais, e todas essas coisas não me deixavam energia suficiente para manter a máscara de indiferença que eu havia construído com tanto esforço. - Cale a boca, Coby - resmunguei. Não era uma reação fabulosa, mas ele parecia surpreso. Senti os olhos dele em mim durante o restante do trajeto até a escola, mas não prestei atenção, e quando paramos na entrada do colégio, eu desci antes que mais alguém pudesse falar comigo e fui procurar por Milla. Não foi difícil encontrá-Ia. Ela estava perto do bebedouro do segundo andar com duas outras garotas Morries que poderiam ser irmãs, com os mesmos cabelos loiros e engordurados emoldurando desgrenhados o rosto de faces encovadas e queixo saliente. Acho que o nome de uma delas era Jean - estivemos na mesma sala algumas vezes ao longo dos anos. - Com licença - eu disse, mais alto do que pretendia. Estava nervosa. Queria conversar com Milla sobre o que acontecera, mas as outras garotas se aproximaram formando uma barreira diante dela, como se houvessem ensaiado o movimento, e ela teria escapado pelo outro lado do corredor, se não tropeçasse na própria mochila e derrubasse o livro que estava carregando. Com a queda, as páginas do livro se abriram. Estendi a mão para pegar o livro no mesmo instante em que ela se abaixou, bati a cabeça em seu ombro, e ela se afastou de mim com tanta violência que deixei o livro no chão. Desde a minha primeira semana na escola, quando tentava me aproximar deles nos intervalos e na hora do almoço, sempre me senti atraída pelos Morries. Talvez por sermos igualmente patéticos, todos mal vestidos e maltrapilhos, rústicos e hostis, mas eu sentia que havia algo mais. Eu sentia - e, sim, isso podia ser apenas uma criança órfã sonhando com uma família - mas eu sentia que havia entre nós algum tipo de relação. Sentia que era uma deles. Tentei conversar com minha avó sobre essa sensação há muito tempo, e ela explodiu numa daquelas gargalhadas fétidas, a saliva formando uma espuma nos cantos de sua boca. - Você não é uma Morrie - ela dissera. - É muito melhor do que qualquer garota Morrie. Não se esqueça disso. Acho que não parecia muito convicta, porque ela estendeu a mão e, com os dedos manchados de nicotina, beliscou a parte interna do meu braço. Ela era capaz de beliscar com uma força surpreendente, provocando lágrimas quentes que inundaram meus olhos, mas eu


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não emiti nenhum som. - Já esses garotos Morrie, bem eles são uma história completamente diferente - minha avó acrescentara - mas isso é para mais tarde, e não preste muita atenção neles. Eu aviso quando chegar a hora, é isso. Agora não havia garotos por perto. Olhei nos olhos de Milla e algo aconteceu no meu interior. Eu não me afastei. Pelo contrário, me aproximei ainda mais, quase me divertindo com o jeito como ela se encolhia tentando fugir de mim. - O que aconteceu ontem? - perguntei. - Não sei do que está falando! - Você perdeu a consciência. Eu vi... Eu senti. - Não disse que ao tocar suas mãos e testa eu tivera a impressão de que ela estava mais do que inconsciente. Era como se ela estivesse... vazia. Perigo, destruição, dor. - Você não foi à minha casa uma vez? - perguntei com uma voz que era pouco mais que um sussurro. - Ano passado... com aquele cara. Você sabe. Aquele cheio de tatuagens. Não era uma grande dica, já que muitos clientes da minha avó eram tatuados, mas o homem em que eu estava pensando tinha cruzes azuis em torno do pescoço, desaparecendo na raiz do rabo de cavalo acima da nuca. Percebi pelo olhar de Milla que eu havia tocado em um ponto sensível. - Não fui eu - ela resmungou, pronunciando as palavras quase sem mover os lábios. - Sim, era você. - Não. Eu sou, estava... - Por que tem tanto medo de mim? - perguntei, me aproximando ainda mais. O sinal soou alto no corredor, e eu vi todo mundo, Limpos e Morries sem distinção, se dirigindo às salas de aula, mas não me movi. Milla balançou a cabeça, os olhos tão arregalados


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que eu podia ver as veias rosadas na parte branca. - Não tenho medo de você. Ela tentou se desviar, passar por mim, mas estendi o braço e bloqueei o caminho, apoiando a mão aberta na parede. A raiva era como um feixe de raios percorrendo meus nervos. Eu mal podia conter o impulso de bater nela. Sentia minha pele formigar onde eu imaginava o contato da minha mão contra aquela face pálida. Mas quando ela tentou escapar pelo outro lado, eu a deixei ir. Ela se afastou com passos curtos e rápidos, o livro esquecido no chão. - Não tenho medo - repetiu, e eu soube que ela estava prestes a se virar e correr, desaparecer dentro de alguma sala onde se sentaria no fundo com outros Morrie. - Não tenho medo - Milla repetiu mais uma vez, olhando pra mim com uma mistura de triunfo e tristeza. - Mas talvez devesse ter. Não consegui me concentrar em nada durante o resto do dia. Eu havia feito alguma coisa com Milla, algo que a trouxera de volta bem e inteira. Não sabia o que ou como, e minha mente dançava em torno das lembranças do dia anterior, tentando tirar algum sentido das imagens. Houve um segundo, quando meus dedos pressionaram seus cabelos úmidos e pegajosos, em que eu tivera a sensação de que alguma coisa mudava dentro de mim. Como se uma parte secreta do meu ser se houvesse libertado e agora viajasse pela minha corrente sanguínea, eletrizada pelas batidas do meu coração e me transformando de dentro para fora. Eu não sabia muito bem se gostava dessa sensação. Ser eu não era exatamente o paraíso, mas eu também não tinha certeza de que estava pronta para mudar. Pensei em minha avó e naquele breve momento em que ela se tornara quase humana, quando Chub chegou para morar conosco. Ela havia mudado - ou, pelo menos, eu pensava que sim. Por um tempo ela fora quase como uma mãe de verdade, me perguntando como havia sido o dia, querendo saber o que eu aprendera na escola. Ela não era muito boa nisso - não ouvia minhas respostas, e eu ainda tinha de fazer a maior parte do trabalho doméstico, mas quando eu a via lidar com Chub havia nos olhos dela um brilho luminoso, e isso era mais do que eu jamais havia visto antes ou do que vi depois. E agora ela estava pior que nunca. Era isso que o futuro me reservava? Eu acabaria


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como ela, amarga e cruel? Eu tentara ajudar Milla - não havia planejado aquilo, não entendia, mas havia tentado - e agora eu queria mais que nunca estabelecer com ela uma ligação. Não: a conexão já existia - eu só queria que ela a reconhecesse. E em vez disso, ela deixara mais claro que nunca que não queria ter nada a ver comigo.

Eu ainda estava distraída com meus pensamentos quando entrei na farmácia depois da aula e saí de lá sem a única coisa de que realmente precisava: o xampu infantil de Chub. Depois de percorrer alguns quarteirões, eu me virei e voltei. Quando estava quase chegando na farmácia, vi algo que fez meu coração pular dentro do peito: o carro que estivera estacionado diante da nossa casa na manhã anterior agora estava em uma vaga no estacionamento bem na frente da loja. Dois homens desceram do automóvel. Eram de estatura mediana, tinham cabelo curto, e usavam óculos de sol e jaquetas de couro. Eles se moviam depressa e pareciam fortes e musculosos sob as roupas, e não sorriam nem falavam. Poderiam ser qualquer pessoa, eu disse a mim mesma - devia ser coincidência o fato de eu tê-los visto duas vezes. Eles podiam ter parado na frente da nossa casa para examinar um mapa ou fazer xixi atrás de uma árvore, ou qualquer outra coisa, e quanto a estarem na farmácia, todo mundo na cidade ia lá. Por outro lado, eu jamais os vira antes. Em Gypsum, eu conhecia praticamente todo mundo, pelo menos de vista, e aqueles sujeitos não pareciam ser da cidade. Se eram policiais, não eram da polícia de Gypsum. Mas se alguém descobrira que minha avó está traficando drogas, era possível que os tiras locais houvessem acionado alguma outra agência. Como... Tentei lembrar o que havíamos aprendido na escola. Havia o Departamento do Álcool, do Tabaco, e os Bombeiros... mas drogas se enquadravam em algum crime federal? E quem teria delatado minha avó? Um de seus clientes? Talvez houvessem fornecido a informação em troca de algum acordo conveniente, se haviam sido presos por posse de alguma substância. Eu sabia que as penas por tráfico eram duras, muito mais sérias do que para quem apenas usava drogas. Mas se eles já suspeitavam da vovó, por que não providenciavam um mandado e simplesmente revistavam a casa? Talvez seja essa a intenção deles agora - tentar reunir evidências suficientes para justificar um mandado. Bem, não conseguiriam nada conversando com o sr. Hsiao - tudo que eu havia comprado hoje era uma embalagem de sacos de lixo, colírio pra minha avó, e sabonetes.


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Precisava saber mais. Esperei até eles entrarem na loja, depois caminhei rapidamente para o carro. Tentando parecer casual, espiei pelo pára-brisa: não havia nada lá dentro, só uma xícara térmica de café no porta copo. Voltei à farmácia, escolhendo o corredor mais afastado da caixa registradora. Estudei os aparelhos e cremes de barba e me esforcei para ouvir o que os dois homens estavam dizendo ao Sr. Hsiao. -Vem regularmente? - Era uma voz profunda com um tom levemente aborrecido. - Não, como eu disse, ela tanto pode aparecer, como pode não vir. Esses garotos não seguem uma rotina, sabe? Pode me dizer o que significa tudo isso? - Houve um incidente na escola - respondeu o outro, um homem de voz mais suave. Não podemos dar detalhes nesse momento. Apreciamos sua cooperação. E gostaríamos de pedir para não... comentar essa nossa conversa. - E vocês são de onde, mesmo? - Isso mesmo, Sr. Hsiao, descubra quem são eles, telegrafei silenciosa. - Departamento de estado - disse a primeira voz. - Aqui está minha identificação. Houve um momento de silêncio, depois o Sr. Hsiao disse com uma nota de desconfiança: - Bem, já contei tudo que sei. Pode ir atrás da garota, falar com ela você mesmo. Um momento depois eles saíram da loja. Vi o topo da cabeça deles no corredor vizinho e me abaixei. Contei até duzentos antes de sair da farmácia, tomando cuidado para não deixar o Sr. Hsiao me ver. Não estava convencida de que os homens eram mesmo de algum departamento de estado. Eles eram muito... anônimos, entre outras coisas. Além do mais, o Sr. Hsiao não soara muito impressionado com as credenciais que eles apresentaram. Seria algum tipo de concorrência? Traficantes da cidade vizinha, talvez, ou de Kansas City? Ou vovó se metera em coisa pior? Ela devia dinheiro, roubara alguma coisa de valor, enganara alguém importante?


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O carro não estava mais no estacionamento da farmácia, mas bem podia estar a caminho de nossa casa. Eu precisava ir para lá, mas havia trechos da estrada onde não existia nenhuma casa ou estabelecimento comercial, ninguém para me ajudar ou notar, caso acontecesse alguma coisa comigo. Mas eu nem imaginava o que esses homens podiam querer comigo. Não estava muito preocupada com o que poderia ocorrer com minha avó, mas não podia permitir que nada acontecesse a Chub. Eu ainda hesitava sem saber se devia ir correndo para casa ou continuar escondida para evitar ser vista pelos desconhecidos, quando Sawyer Wesson apareceu na esquina caminhando com Milla. Sawyer era um Morrie, mas não era como os outros. Ele era quieto, cauteloso, e se mantinha limpo. Eu nunca falara com ele, mas já o havia notado me observando algumas vezes na hora do almoço ou durante reuniões escolares. Milla me viu primeiro, e ela comprimiu os lábios compondo uma expressão dura enquanto tocava o braço de Sawyer. Ele dizia alguma coisa enquanto jogava o cigarro na calçada e pisava sobre a ponta para apagá-la. - Sawyer - chamei. O pânico me fazia mais ousada. - Sawyer, será que você pode me acompanhar até em casa? Só depois de falar eu percebi como as palavras soavam. Estava amedrontada, só isso, e queria companhia, caso alguma coisa ruim acontecesse. Sawyer era alto, tinha ombros largos, olhos estreitos e cabelos pretos e longos, quase na altura dos ombros, e quem não o conhecia se sentia facilmente intimidado por ele. Ele parou e olhou para mim. Parecia surpreso, depois atento, os olhos tomados pela dúvida. - Quero dizer... eu não ... - comecei a explicar, mas o que poderia dizer? Que pensava estar sendo seguida por agentes secretos do governo ou membros da máfia ou... eu nem imaginava quem? - Tudo bem - Sawyer respondeu, e então eu vi algo que nunca vira antes: seu sorriso. Era surpreendente como o rosto dele mudava como o sorriso o fazia parecer mais doce. - Você ia comigo ao Burger King. Esqueceu? - Milla disparou. Ela se recusava a me encarar. - Eu não disse...


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- Por que não vai com ela, então, já que é tão esquecido e provavelmente esqueceu quem ela é? Era um blefe, e nem era dos melhores, considerando que Sawyer se aproximou de mim sem sequer olhar para trás. Eu não sabia o que Milla queria dizer com "quem ela é". Estaria se referindo ao que havia acontecido no ginásio? Ao fato de eu ser uma excluída? O que quer que fosse Sawyer não sabia ou não se importava, e experimentei uma presunçosa satisfação quando vi Milla voltar de onde viera evidentemente derrotada. Percorremos meio quarteirão antes de eu conseguir pensar em alguma coisa para dizer, e então, no mesmo momento Sawyer também começou a falar. - Então como... - O que você... E nós dois rimos e dissemos você primeiro, não você. Sawyer chutou uma pedra e ela voou para o outro lado da estrada, acertando um tronco de árvore, e eu pensei em mim mesma nas aulas de educação física. - Você já quis praticar algum esporte? - perguntei. Por um momento Sawyer não respondeu. - Alguns. Acho que... sou muito bom arremessando. Pensei em beisebol, talvez. Mas... Ele não precisava terminar. Eu não sabia como era a vida dele em casa, mas podia presumir que tínhamos algumas coisas em comum nesse campo. Mudei de assunto, falamos sobre aulas e professores, e me surpreendi por saber que ele estava pensando em tentar cursar História na AP, uma faculdade americana. Ele seria o primeiro Morrie de quem eu jamais ouvira falar a entrar em uma turma de Colocação Avançada. Ele me perguntou o que eu gostava de fazer depois da escola e eu falei sobre Chub, sobre como ele era um irmão mais novo para mim, e Sawyer ouvia, assentia, e até riu quando eu contei como Chub gostava de seguir Rascal pelo quintal, como se acreditasse ser parcialmente cachorro. - Ei - ele disse quando vimos minha casa. - Só queria dizer que realmente sinto muito sobre Milla e, você sabe aquilo que ela disse. Ela não falou sério.


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Eu duvidava disso. Quaisquer que fossem os sentimentos de Milla por mim, pareciam ser bem intensos. Tentei pensar em um jeito de perguntar sobre ela e os Morries de maneira geral sem ofendê-lo. A julgar por como ele aceitara prontamente me acompanhar, como olhava para mim na escola quando achava que eu não estava prestando atenção - eu tinha certeza de que estava apaixonado por mim, e isso me fazia bem. Nunca antes um menino se interessara por mim, e eu não queria estragar tudo causando desconforto e constrangimento. - Eu... sempre me perguntei por que Milla e eu nunca fomos amigas - comecei com cuidado. Estava tentando decidir como continuar quando um carro parou atrás de nós e acelerou, obrigando-nos a correr para o acostamento e buscar o abrigo das árvores. Quando me virei para olhar, vi que não era um carro qualquer, mas uma velha picape Ford verde. O motorista abriu a janela e pôs um braço para fora. Era Rattler Sikes. O medo me invadiu quando Rattler se debruçou na janela e me encarou, mas, quando falou, ele se dirigiu a Sawyer. - Entre no carro, garoto - ele disse, e eu notei que seus dentes eram surpreendentemente brancos e alinhados. Seus olhos eram castanhos escuros, quase negros, mas duros e cintilantes com uma intensa emoção. Talvez curiosidade. Talvez raiva. - Eu não... Ela me pediu para... - Sawyer começou. Seus olhos indo e voltando entre mim e Rattler. - Eu não fiz uma pergunta, menino - disse Rattler. Seu tom permanecia neutro, mas havia nele uma ameaça, uma sombra de violência que me tocava e envolvia meu coração. - Não - Sawyer resmungou de cabeça baixa. - Não vou falar outra vez. Sawyer olhou para mim sem realmente me encarar, apenas voltando o rosto em minha direção, expressando sua infelicidade e, talvez, um pedido silencioso de desculpas. Ele caminhou até a porta do passageiro e entrou na picape. Depois de fechar a porta, ficou olhando para frente sem se mover.


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Rattler continuava me observando. Por mais desconfortável que fosse ser o centro de sua atenção, eu não desviei o olhar. Havia alguma coisa em como ele olhava para mim, algo que me impedia de fugir. A voz de Rattler soou ainda mais baixa, praticamente um sussurro. - Tome cuidado, ouviu menina Hailey? A caminhonete se afastou devagar, os pneus rangendo no cascalho e espalhando pedras soltas e folhas mortas. Os olhos de Rattler permaneciam fixos em mim, e quando eu já pensava que a picape ia sair da estrada, ele bateu na lateral do automóvel e girou o volante, voltando para o meio da pista. Rattler pisou no acelerador e eu inspirei a fumaça cuspida pelo escapamento corroído, solto. Percorri sozinha os últimos metros até nossa casa, e Rascal veio correndo pelo quintal para me receber, as orelhas tremulando ao vento, feliz com minha chegada ... mas a voz de Rattler persistia na minha cabeça. Tão baixa, pensei novamente, que muitas pessoas nem conseguiriam ouvi-la. Mas eu podia. Podia ouvi-lo perfeitamente.


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Capítulo 5 Ela quase não parou na periferia da cidade, mas no último segundo mudou de idéia e seguiu pela rampa que desviava o tráfego pelo Show-Me Trading Post antes de desembocar na Rodovia Estadual Nove. Partira para o sul logo cedo depois da noite mais longa de sua vida, horas passadas deitada no escuro revendo muitas vezes aquela cena horrível, as coisas que descobrira sobre o amante - e a surpresa que ele deixara para o final. A garota cuja existência ela desconhecia. Muita coisa teria sido diferente, se soubesse. Era inútil pensar no que poderia ter sido, mas no meio da noite, quando o silêncio era mais profundo e a escuridão penetrava em sua alma, era mais difícil resistir. Hoje começaria a consertar todas as coisas. O Snow-Me Trading Post era ainda mais dilapidado do que ela lembrava, um galpão de concreto caindo aos pedaços com cartazes de mau gosto nas janelas sujas, um lugar totalmente impróprio para se comprar um presente. Mas temia que a garota, que também nunca ouvira falar nela, fosse arredia. Talvez uma lembrancinha, apenas um gesto para mostrar sua intenção de ajudar, pudesse facilitar as coisas para um primeiro encontro. Porém, havia poucos objetos nas prateleiras que poderiam interessar a uma menina de dezesseis anos. Ela estudou um display de papelão onde havia uma linha completa de brilho labial com sabor de frutas, uma coleção de pulseiras baratas feitas com contas, revistas de moda, e finalmente escolheu um MP3 genérico com fones de ouvido. Poderia comprar algo melhor para a menina mais tarde - quando estivessem juntas, quando tivesse provado que suas intenções eram boas. Quando ela pegava o aparelho do suporte em uma prateleira na parede dos fundos, a porta se abriu e dois homens entraram, seguindo diretamente para o caixa em seus trajes sombrios.


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Ela ficou onde estava, tomada por um medo repentino, encolhida à sombra de uma geladeira que continha refrigerante e cerveja. Havia visto aqueles homens antes, no laboratório. Às vezes iam encontrar seu amante para conversas privadas. Não pareciam cientistas - não com aquelas jaquetas escuras que não escondiam completamente o coldre que eles levavam preso ao corpo. As visitas eram breves, e depois delas seu amante normalmente ficava distante por um ou dois dias, falando pouco, permanecendo em seu escritório até tarde da noite e observando os monitores mais altos que eram posicionados no escritório de forma que só ele pudesse vê-los. Um dos homens falou em voz baixa com a funcionária no caixa, mostrando a ela algum objeto pequeno e plano. A funcionária, uma mulher de cabelos cor de cobre e óculos que ela mantinha pendurados em uma corrente presa ao pescoço, respondeu em voz suficientemente alta para ser ouvida no fundo da loja. - Não, acho que não - ela disse com indiferença. Mais sussurros, e enquanto o homem que falava gesticulava insistente, o outro olhava em volta. Ela se encolheu ainda mais no canto entre a geladeira e a parede, permanecendo imóvel para não ser vista pelas pessoas na frente da loja. - Não, nunca - repetiu a funcionária no caixa -, mas eu não sou da cidade. Moro a trinta quilômetros de Casey, por isso é provável que não a conheça. O homem guardou a fotografia - porque só podia ser isso que ele mostrava uma foto da garota - e deixou uma nota sobre o balcão de vidro, colocando um cartão sobre o dinheiro. - Telefone para mim, caso consiga lembrar mais alguma coisa - ele disse em voz alta, e seu coração disparou quando ela viu os dois homens se dirigindo à saída. Então, seu amante não havia esperado. Podia ter acreditado na história que ela contara na noite anterior, em sua tentativa apavorada de convencê-lo de que encontrar a garota não tinha nenhuma importância para ela, exceto por ser uma descoberta favorável à pesquisa. Podia ter acreditado em suas mentiras, mas isso não o impedira de mandar seus homens a Gypsum. Era evidente que estava disposto a seguir em frente imediatamente. Precisava detê-lo. Mas não podia simplesmente invadir a casa e exigir que a garota a acompanhasse - não quando não havia como prever o que a velha havia dito a ela. Não - primeiro tinha de conquistar confiança.


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Ela olhou para o presente barato em sua mão e o devolveu à prateleira. Isso não ia ajudar em nada. Suborno não teria nenhuma utilidade. E também seria inútil exigir, ameaçar, pedir e suplicar. Ela se serviu de uma xícara de café frio e notou que as mãos tremiam. Depois pagou no caixa pela bebida, notando que a mulher mal olhava em sua direção enquanto contava as moedas, e saiu da loja. Parada no estacionamento, ela terminou de beber o café amargo antes de entrar no carro e dirigir pelas ruas antes familiares que conduziam a casa onde ela crescera; um lugar que havia esperado nunca mais voltar a ver. Tinha pela frente uma tarefa quase impossível. E a única arma de que dispunha era a verdade.


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Capítulo 6 Quando Rattler foi embora, fiquei parada do lado de fora por mais um minuto, esperando meu coração voltar a bater no ritmo normal, e só então entrei em casa. Disse oi para minha avó, e ela grunhiu uma resposta na minha direção. A Juíza Judy berrava na televisão. Chub estava deitado de bruços com um livro de colorir, rabiscando com um giz de cera grosso. Quando me viu, ele se levantou de um salto e correu na minha direção, abraçando minhas pernas como fazia todos os dias, gritando "Hayee!" Normalmente, eu adorava esse momento. Era a melhor coisa do meu dia, voltar para casa e me certificar de que Chub estava seguro, e saber que havia uma pessoa na minha vida que sempre ficava feliz por me ver. Hoje, porém, não conseguia retribuir aquele abraço sem demonstrar quanto estava abalada pelo encontro com Rattler. Dei um lanche para Chub e bebi um copo de leite, depois me sentei para fazer a lição de casa, embora fosse quase impossível me concentrar. Continuava pensando nos homens no carro, em Milla e Sawyer, e em Rattler. A tarde progrediu para a noite, e eu preparei o jantar e dei banho em Chub. Enxuguei e vesti o menino com seu pijama, mas ainda era muito cedo para colocá-lo na cama. Eu sabia que devia ler uma história para ele, mas ainda me sentia perturbada e distraída, e por isso fiz algo que me acalmaria: visitei as palavras. Eu as encontrara alguns anos atrás, esculpidas com cuidado na parede do closet do quarto que eu dividia com Chub. Não era possível vê-las sem realmente entrar no closet, e como vovó costumava mantê-lo sempre abarrotado de tralha, eu só as encontrei quando cresci o suficiente para arrumar o closet sozinha. Eu havia tirado tudo de lá e estava lavando as paredes em uma manhã de sábado, quando encontrei as palavras perto do chão, entalhadas no velho revestimento de madeira.


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Campo de Trevos Aquelas palavras acenderam alguma coisa dentro de mim, quase como um reconhecimento. Fiquei tentando entender o que elas significavam - imaginei um campo coberto de trevos balançando delicadamente ao vento, sob um sol brilhante. Mas, no mesmo instante em que imaginei a cena, eu soube que ela não era a ideal. Tracei as palavras com um dedo; alguém as desenhara com capricho, talvez usando um canivete ou uma chave de fenda afiada, cavando o contorno de cada letra até todas estarem gravadas profundamente na madeira. Senti que eu não era a primeira pessoa a acompanhar aquele contorno com o dedo. As extremidades eram bem lisas, sem farpas ou irregularidades. Eu voltava para visitar aquelas palavras quase que semanalmente. Alguma coisa acontecia quando eu as tocava, como se uma pequena medida de paz me invadisse, acalmando minha ansiedade e meus medos. Deixei meus dedos descerem escorregando pela parede, até descansarem no rodapé. Mas alguma coisa não estava certa ali. O rodapé, que se estendia por apenas meio metro ao longo da parede do lado esquerdo do closet, estava solto. Eu o separei ligeiramente da parede, sentindo que cedia sob meus dedos. Tentei empurrá-lo de volta ao lugar, tateando em busca do prego que se soltara, pensando em ir buscar um martelo para prendê-lo. Mas não havia pregos soltos. Em vez disso, quando puxei a parte mais alta do rodapé, a parte mais baixa se soltou da parede, e percebi que ele não era pregado, apenas mantido no lugar pela tensão entre as outras paredes. Na verdade eu compreendi; aquela tábua não era rejuntada como as outras. Quando a puxei, ela se soltou na minha mão. E quando tateei a área que ela recobria, descobri que havia encontrado um esconderijo: o revestimento fora recortado na parte central, criando um pequeno buraco de mais ou menos trinta centímetros de área e alguns centímetros de profundidade. Introduzi a mão nesse buraco cautelosamente, e lá encontrei alguma coisa. A estranha sensação de familiaridade tornou-se mais forte. Eu me ajoelhei e direcionei o raio de luz para o pequeno espaço. Com o rosto colado ao chão, pude ver que havia ali um pacote envolto em tecido e papéis enrolados e amarrados com uma fita. Tirei tudo de lá com grande cuidado e coloquei no chão do quarto, onde a luminosidade era melhor. Chub havia subido na minha


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cama e virava as páginas de seu livro favorito, cantarolando e tocando os desenhos com os dedos; ele era capaz de se entreter dessa maneira por muitas horas. Peguei uma moldura de metal escurecido contendo a foto de uma mulher jovem, sorridente e de cabelos negros. Era uma dessas fotos antigas da época em que haviam sido feitas as primeiras fotos coloridas, e as cores eram intensas demais: o amarelo da saia, o vermelho dos lábios. O penteado era antiquado, encaracolado em torno do rosto, mas a pele era macia e livre de rugas, e os olhos brilhavam como se ela houvesse acabado de ouvir algo engraçado. Virei a moldura e encontrei uma inscrição atrás da fotografia: Mary 1968. Ela não parecia com ninguém que eu houvesse conhecido, mas, ao mesmo tempo, era de alguma forma... familiar. Deixei a moldura de lado, colocando-a no chão com cuidado, e desdobrei um pedaço de tecido amarelado pelo tempo. Dentro dele, um retângulo de renda branca havia sido caprichosamente enrolado em torno de um colar. Uma corrente prateada sustentava uma pedra vermelha lapidada em dúzias de facetas e cercada por um delicado arabesco de renda. Era uma peça linda e parecia ser muito antiga. As páginas enroladas eram frágeis, folhas de papel amarelado e áspero ao toque, cobertas por uma caligrafia floreada. As letras desbotadas pareciam ter sido escritas com caneta tinteiro. Não consegui ler todas as palavras - havia nomes de mulher e datas de um lado, e do outro algumas linhas escritas em um idioma desconhecido. Estudei os nomes. A lista começava com Lucy Hester Tarbell e o ano de 1968. Continuei lendo os nomes: Sarah Beatrice Tarbell, Rita Joan Tarbell, Helen Davis Tarbell... Quando cheguei ao final da lista, o último nome me fez perder o fôlego: Alice Eugenie Tarbell, 1961. Olhei para o nome de minha avó até perceber o que estava errado: se aquelas eram as datas de nascimento, isso significava que ela tinha... quarenta e nove anos. Mas isso era impossível. Vovó era arqueada, sofria de artrite, e tinha dificuldades para respirar e se levantar de uma cadeira. Era verdade que ela nunca me dissera sua idade, mas eu sempre presumira que ela tinha pelo menos oitenta anos, talvez mais, que fosse tão velha quanto eu podia imaginar. A data podia ter outro significado? Uma data de casamento, talvez, ou... Tentei pensar em possibilidades. Talvez alguma coisa ligada a religião? Minha avó nunca ia à igreja, nunca mencionava Deus. Mas eu havia aprendido na escola que as famílias de imigrantes costumavam registrar nomes, datas de nascimento, morte e casamento, coisas desse tipo, em uma Bíblia da


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família. Eu havia encontrado páginas arrancadas da Bíblia da minha família? Voltei a elas e tentei ler o texto manuscrito, as linhas incompreensíveis. Tá mé mol seo draíocht Na anam an corp cara ár comhoibrí Mal havia terminado de ler as duas primeiras linhas, e descobri que meus lábios se moviam com facilidade, que eu pronunciava as palavras desconhecidas como se as houvesse recitado durante toda minha vida, linha após linha. Aquilo me deu uma sensação extremamente boa e parecia ser... certo, e eu continuei. Meus olhos perderam o foco, mas continuei recitando, minha voz baixando para um sussurro, e quando as palavras chegaram ao fim eu pisquei uma, duas vezes, e percebi que havia recitado o parágrafo inteiro ou poema, ou o que quer que fosse aquele texto escrito com tanto cuidado sobre as velhas páginas. Eu podia ter parado - não era como se estivesse possuída ou coisa parecida - mas as palavras estavam ali dentro de mim, e ler as primeiras linhas foi o suficiente para trazer o restante delas à minha mente consciente. Descobri que queria - precisava - recitá-las em voz alta. Examinei a página pela segunda vez, e me encantei com a beleza das palavras, em como eu conseguia produzir os sons estranhos, a entonação que os acompanhava. Então percebi que já havia escutado aquelas palavras uma vez antes. Quando eu tocara Milla no ginásio. Como eu podia ter esquecido? No momento em que minha visão escurecera, quando os sons do ginásio haviam desaparecido e eu me vira completamente focada na sensação do sangue correndo em minhas veias e no corpo inerte de Milla sob meus dedos, minha mente não havia estado completamente silenciosa. Havia um sussurro, uma voz dizendo aquelas mesmas palavras, ou talvez fosse minha própria voz, eu não podia ter certeza, só sabia que elas se desenrolavam como uma fita flutuando ao vento, permanecendo por um momento antes de desaparecer. Deslizei a ponta dos dedos pelas palavras, como se tocá-las pudesse trazer a resposta para minhas perguntas, como se, de alguma forma, o gesto pudesse revelar o que eu devia fazer. Porque eu tinha certeza de que havia sido escolhida para alguma coisa, e que Milla fazia parte disso, e todos os Morries, e vovó de alguma maneira... e Rattler Sikes, Dun, e até Chub. Tudo isso se encaixava de algum jeito que eu ainda não entendia, e a idéia era assustadora, mas envolvente.


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Peguei o colar e o aproximei da luz. Lampejos intensos de vermelho se projetaram nos cantos do quarto, como se a pedra tivesse alguma energia que se fragmentava ao ser tocada pela luz. Chub notou a pedra brilhante e abandonou o livro sobre a cama, batendo palmas. - Biiito! - ele disse rindo, e era quase como se dissesse "bonito". Pus o colar no meu pescoço, manuseando com cuidado o velho fecho de prata, e depois me sentei ao lado de Chub na cama e o deixei olhar para a pedra. Ele a tocou com delicadeza e murmurou alguma coisa, subindo no meu colo. Eu o segurei com força e embalei. Adorava cantar para Chub, e cantava de tudo, desde suas canções preferidas dos desenhos animados até as músicas que eu ouvia no rádio. Hoje eu cantarolava uma melodia triste que surgiu na minha cabeça. Chub suspirou e se apoiou em mim, e a melodia ganhou palavras, as palavras do verso. Se Chub as achava estranhas, não demonstrou nada. Eu cantava, e nós balançávamos, e quando a necessidade de repetir os versos muitas e muitas vezes finalmente desapareceu, ele havia adormecido em meus braços. Eu o levei para o berço e o acomodei sob seu velho cobertor favorito. Escondi o pingente sob a roupa para que vovó não o visse, e enrolei o pedaço de renda cuidadosamente e guardei no fundo da minha gaveta de camisetas, junto com a moldura e as folhas de papel. Quando saí do quarto, Chub segurava a ponta do cobertor junto do queixo, e sorria sonhando.


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Capítulo 7 No dia seguinte, eu me sentava no lugar de sempre para almoçar em uma mesa vazia, quando o vi. Sawyer estava sentado com Milla e alguns outros Morries, cutucando com um garfo de plástico a comida que levara dentro de um recipiente Tupperware. Mas havia algo errado, eu podia perceber de onde estava, cinco metros distante. O olho dele estava inchado e uma horrível mancha roxa cobria um lado de seu rosto. De repente perdi o apetite. Joguei fora meu almoço - um sanduíche e uma maçã que havia levado de casa - e passei pela mesa dele andando com toda casualidade de que era capaz. De perto a situação era pior. Ele tinha um olho preto, e sobre o outro, na sobrancelha, havia um corte bem feio, ainda vermelho. Além do hematoma no rosto, havia algo de errado com o nariz dele; estava inchado e torto para o lado direito. Ao passar, não consegui esconder meu espanto, e todos olharam para mim, exceto Sawyer, que baixou o queixo ainda mais mantendo os olhos fixos na mesa. - Por que está olhando para ele desse jeito, Hailey? - perguntou Gomez Jones. - A culpa disso é sua. Você fez isso com ele. Eu não podia deixá-lo falar essas coisas, não na frente de Sawyer. -Eu... eu ... Milla bateu com a mão na mesa, e a força do gesto furioso fez pular bandejas e talheres. - Por que não pode simplesmente nos deixar em paz? - Vadia... fique longe de nós - disse outra menina. Eu estava ficando cansada de como eles me tratavam especialmente depois do que


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havia feito por Milla. - Não fosse por mim, você estaria morta. Talvez devesse mostrar um pouco mais de gratidão. - Ah, é claro. Porque você me salvou, não é? - O rosto de Milla estava distorcido pela raiva. - Por isso devo lamber seu traseiro? - Eu não... nunca disse ... - Não preciso de você, nenhum de nós precisa. Acha que está acima de todos nós, mas não está. Não está. Você e sua avó, vocês estão loucas. São aberrações. - Para meu horror, Milla se levantou com os olhos cheios de lágrimas furiosas. Depois de um segundo de silêncio, Sawyer empurrou a cadeira para trás e foi atrás dela, sem sequer olhar para mim. - Feliz agora? - a menina perguntou, enquanto Gomez e os outros começavam a recolher suas coisas. - Quantos de nós ainda quer prejudicar? Nada disso estaria acontecendo se você simplesmente ficasse longe. Continuei parada no mesmo lugar depois que todos eles foram embora. Eu não entendia. Nunca - nunca - antes vira uma menina Morrie enfrentar alguém fora de seu grupo, nem uma vez em toda minha vida. Eu me afastei da mesa lentamente, ouvindo as palavras dela ecoarem em meus ouvidos. Quando tropecei em uma cadeira, eu me virei e saí da cantina tão depressa quanto pude. Fique longe. Havia infringido alguma regra ao conversar com Sawyer no dia anterior, e ele pagara caro por isso. Não me incomodei em perguntar a mim quem podia ter feito aquilo com ele - só podia ter sido Rattler, embora eu nem imaginasse por quê. Não culpava os Morries por terem medo de mim - eu mesma tinha medo de mim. Muito medo. Quando cheguei em casa, Chub estava dormindo no sofá. - Há quanto tempo ele dormiu? - perguntei a minha avó. - Não muito - ela respondeu, apagando um resto de cigarro no cinzeiro e estendendo a outra mão para o maço, amassando-o ao constatar que estava vazio. - Eu acho. Ou talvez tenha dormido há algum tempo. Não sei. Ela não fazia idéia, era evidente. Tudo com que se importava era a televisão, a menos que recebesse visitantes. Automaticamente, estendi a mão para o cinzeiro cheio, joguei o conteúdo na lata de lixo, e limpei o cinzeiro com um pano antes de colocá-lo de volta no braço


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da cadeira. Fui ao quarto dela buscar um maço de cigarros ainda fechado, e o encontrei no lugar de sempre, em cima da cômoda. Porém, quando tirei o maço do lugar, percebi que ele estivera até então sobre um envelope pardo simples. Curiosa, eu o peguei. Alguma coisa caiu dele - um envelope branco comercial e, para minha surpresa, um maço de dinheiro, notas presas por um elástico. Sacudi rapidamente as notas. Meu coração disparou quando percebi que eram todas de cem - devia haver milhares de dólares na minha mão. Larguei o dinheiro sobre a cômoda como se estivesse em chamas, e peguei o envelope branco. Retirei dele um pedaço de papel e depois de estudá-lo por alguns minutos compreendi que era uma passagem de avião. O embarque estava marcado para duas semanas a partir desse dia, e o vôo era de STL para DUB. Saint Louis para... onde? Antes que pudesse examinar a passagem com mais atenção, ouvi vovó tossir meu nome na sala, e enfiei o bilhete de volta no envelope e o guardei no outro, pardo e maior, com o maço de dinheiro. De volta à sala, entreguei o maço de cigarros para minha avó e tentei dar a impressão de que nada de extraordinário havia acontecido. Ajeitei um cobertor sobre Chub e beijei seu rosto. - Vou sair para caminhar. Volto logo. Minha avó não respondeu. Eu não esperava que ela respondesse. Não me importei com uma coleira. Rascal não precisava de uma - ele parava e se sentava sempre que eu parava. Fomos andando pela estrada, e eu tentava entender o sentido das coisas que encontrara no quarto da vovó. Nenhuma de nós jamais viajara de avião, e eu nunca havia visto tanto dinheiro em toda minha vida. Devia ter alguma relação com os homens no carro, mas o que poderia ser? Ela estava planejando fugir, escapar das garras da lei? O que havia feito? Estava tão compenetrada, tão distraída com meus pensamentos, que quando fizemos uma curva a uns quatrocentos metros da nossa casa, quase não registrei o ruído do caminhão. Barulhento, com um eterno problema de escapamento, aquele veículo passava pela estrada toda terça e sexta-feira a caminho do Wal-Mart em Casey. Rascal adorava correr atrás dele. Normalmente ele não saía de perto de mim quando estávamos fora de casa, mas havia alguma coisa no brilhante caminhão amarelo que o fazia sair correndo, as orelhas tremulando, a língua para fora, tudo nele revelando uma intensa alegria com a perseguição. Eu não me preocupei - Rascal era um cachorro esperto, rápido e ele adorava correr atrás de caminhões. Mas eu não contara com a curva. O motorista não podia ter visto o cachorro, que ouvira o caminhão se aproximando antes de eu mesma registrar o som, e saiu correndo pelo cascalho do acostamento no mesmo instante em que o veículo surgiu do trecho


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anterior à curva. Tenho visto aquele momento mil vezes nos meus pensamentos. Não quero lembrar. Quero esquecer o som que o corpo de Rascal produziu ao ser atingido pelo pára-choque dianteiro do caminhão, quando ele conseguiu escapar por pouco de ser esmagado pelas rodas, quando ele foi jogado longe e caiu sobre a terra batida além do acostamento. Eu corri, mas tinha a sensação de que meus braços e pernas se moviam com apenas metade da velocidade habitual, e o grito ficou preso na minha garganta. Sei que o motorista parou, e ainda lembro que ele desceu da cabine e falou comigo, mas não recordo o que ele disse. Eu me aproximei de Rascal e vi que a situação era grave. Muito grave. Não vou contar o que vi, não vou descrever o estrago que pode ser feito em um único instante de inocente alegria. Naquele segundo que levei para me ajoelhar ao lado de Rascal e aproximar meu rosto da cabeça dele, fiquei coberta de sangue, e atrás de mim, o motorista gritava para eu levar o cachorro para o caminhão, para procurarmos um veterinário, porque se corrêssemos talvez ainda houvesse uma chance... Mas eu sabia que essa chance não existia. Não se entrássemos no caminhão. Não se eu não fizesse o que tinha de ser feito por mim. O formigamento já começava a dominar meu corpo, o sangue corria mais depressa nas veias, tudo como havia sido no ginásio. Mas eu não podia fazer o que tinha de ser feito ali, não na frente do motorista do caminhão. Tirei minha jaqueta e a estendi no chão, e com toda gentileza de que era capaz eu coloquei o corpo de Rascal sobre a jaqueta. Com lágrimas inundando meus olhos e dificultando minha visão, dobrei o tecido sobre o corpo ferido de Rascal e o peguei nos braços. Ele não protestou. Já estava partindo. Não me lembro do que eu disse ao motorista. Nem sei se disse alguma coisa. O motorista do caminhão era um bom homem, e acho que ele sabia que Rascal estava quase morto, e creio que não quis interferir nos meus últimos momentos com o cachorro. Sei que ele partiu depois de tocar meu ombro com aquela mão pesada e me dizer que sentia muito, mas eu já havia me virado para voltar para casa. Deixei Rascal na varanda, no chão, ainda embrulhado na minha jaqueta. Aproximei o rosto do focinho do cachorro para sentir sua respiração, mas não havia nada. Apoiei as mãos na carne dilacerada de Rascal, senti o sangue frio já coagulando sob meus dedos, e fechei os olhos


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para me deixar invadir por aquela onda que ganhava força rapidamente, implacável, e os sons da tarde desapareceram, deixando sem eu lugar escuridão e cegueira. Meus dedos tornaram-se elétricos com aquela coisa que se movia dentro de mim, e a onda quebrou e fluiu de mim para Rascal. Tá mé mol seo draíocht Na anam an corp cara ár comhoibrí Eu havia falado alto? Meus lábios se moveram, as palavras haviam ecoado na brisa fria de primavera, haviam sido levadas para além do nosso quintal mal-cuidado, para a rua, para a Cidade do Lixo, onde meninas assustadas se escondiam atrás de janelas sujas, meninas que sabiam mais sobre mim do que eu mesma, meninas que me xingavam? Não sei, mas quando as palavras se juntaram àquela necessidade urgente e implacável, senti que tudo estava conectado, que o que eu fazia não era uma ação realmente minha, mas um ato resultante da interferência de alguma fonte que ligava todos nós de alguma maneira. Quando a onda arrefeceu e meus sentidos voltaram com uma intensidade repentina, tentei ignorar a incômoda sensação de que não tinha controle sobre aquilo, que invocava poderes que não podia dominar. Mas nada disso importava, porque o corpo de Rascal se moveu. Um espasmo pequeno, só um movimento quase imperceptível das patas. Pisquei para recuperar a nitidez da visão e notei que os lábios ainda estavam retraídos exibindo os dentes, mas sentia seu coração bater fraco sob meus dedos - uma pulsação irregular e lenta - e compreendi que ele não estava morto. Eu o abracei, tentando ser tão delicada quanto era capaz, e depois o peguei do chão. Pensando em tudo isso agora, não sei como tive coragem, mas fui buscar a cesta de costura no armário dos fundos da casa, passando por minha avó com passos leves para não despertá-la do cochilo da tarde. Lavei as mãos e esguichei nelas um bactericida que ficava no banheiro, e peguei uma agulha de tapete e um fio forte e encerado, usando o material para costurar as feridas abertas no corpo de Rascal, caprichando para fazer o melhor possível naquelas circunstâncias. Pedi desculpas antes de dar o primeiro ponto. Sinto muito, sussurrei, sei que isso vai doer, mas Rascal não se moveu nem demonstrou nenhum sinal de dor. Ele não olhava para mim, seus olhos permaneciam abertos, mas sem foco, e eu fui formando a fileira de pontos firmes, começando pelo local abaixo do peito onde começava o corte. Esguichei o bactericida sobre os pontos, e quando terminei a sutura, levei Rascal para dentro e o deixei sobre os cobertores no chão da cozinha, onde era sempre mais quente.


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Falei com ele por mais algum tempo, e acho que nesse momento eu já sabia que havia algo de errado. Ele não olhava para mim, apenas ficava ali deitado, apesar de sua respiração ser regular e forte. Limpei o sangue da varanda com panos de chão velhos e um produto de limpeza, e depois levei os panos e minha jaqueta para o barril que mantínhamos no fundo do quintal, onde queimávamos o lixo. Empurrei tudo para o fundo do barril, para as cinzas que restavam da última incineração. Lá dentro, Chub começava a despertar do cochilo. Ele devia ter tido um pesadelo, porque piscou uma vez e começou a chorar, agarrando o cobertor que eu usara para cobri-lo. Ele estava crescendo, ficando grande demais para esse tipo de coisa, mas me aproximei dele e me deixei envolver no abraço apertado. Lentamente, os soluços foram perdendo força, transformando-se em gemidos, e ele escondeu o rosto no meu pescoço onde suas lágrimas se misturaram ao sangue de Rascal.


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Capítulo 8 Rascal passou aquela noite deitado no piso de linóleo, perto da porta da frente. Na manhã seguinte eu examinei os pontos. A linha rosada da cicatriz era tão clara que quase não se podia vê-Ia, mas havia os pedaços de linha que eu usara para suturá-lo. Mais espantoso ainda, o pêlo já começava a crescer sobre o ferimento. Como era possível uma cicatrização tão rápida, como o pêlo podia crescer tão depressa? Mais cedo, nos momentos que antecederam o toque do meu relógio despertador, eu havia chegado a pensar que sonhara com o acidente. Agora começava a imaginar se não teria sido isso mesmo. Mas os fios de linha preta eram a prova de que tudo havia realmente acontecido. Fui até a porta da frente e chamei o cachorro pelo nome. Ele se levantou obediente, sem nenhuma dificuldade ou demonstração de dor, e saiu para ir fazer suas necessidades, depois voltou e se deitou outra vez sobre os cobertores. Peguei a tesoura de bordado de minha avó, porque as pontas eram bem finas, e uma pinça. Chamei Rascal novamente e ele me seguiu até o quarto, onde Chub começava a se mexer sob os cobertores, bocejando e murmurando palavras incompreensíveis. Rascal se sentou onde eu mandei, mantendo aquela pose perfeita de cachorro de exposição, muito ereto e imóvel. Quando pressionei delicadamente seus ombros ele se deitou, expondo a cicatriz. Ele não reclamou quando cortei os fios e os removi com a pinça. Era quase como se não sentisse nada. Eu me perguntava se o acidente havia danificado o sistema nervoso, se o deixara sem sensibilidade, embora não houvesse mais nenhum sinal externo de dano físico, e torcia para que ele estivesse se curando por dentro como cicatrizava por fora. Concluída a tarefa, peguei as ferramentas de minha avó e os restos de linha, que joguei no lixo, e mandei Rascal sair do quarto.


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Atrás de mim, Chub tossiu e resmungou sonolento. - Hayee... Passarinho. Eu me virei, esquecendo Rascal completamente naquele momento de espanto. Chub havia dito uma palavra - uma que ele nunca dissera antes, sílabas inteiras e claras como o repicar de um sino. - O que você disse Chub? - perguntei devagar, sentindo a boca seca. - Passarinho - ele repetiu. - Quer... que eu cante? Quer que eu cante para você a música do passarinho? Ele esfregou os olhos e assentiu. Talvez fosse uma casualidade. Talvez ele nem houvesse falado "passarinho", mas alguma outra palavra. Mas coisas estranhas estavam acontecendo. Milla, Sawyer, Rattler... quase perder Rascal... o dinheiro e a passagem aérea no quarto da vovó ... as coisas que eu havia feito sem sequer entender o que estava fazendo. Quando tirei Chub do berço e o abracei bem forte, as palavras das páginas dançaram na minha cabeça, uma trilha sonora sussurrada que parecia estar tocando desde sempre, durante toda minha vida, num volume baixo. Mas Chub queria que eu cantasse. Então, eu me recostei na minha cama, mantendo-o em meus braços e apoiando o queixo sobre sua cabeça de cabelos macios, e cantei sua canção de ninar favorita até ele se fartar, até se soltar do meu abraço e sair correndo do quarto para ir atrás de Rascal. Fiquei ali reclinada por mais alguns momentos, tentando entender o que estava acontecendo comigo, conosco. Na escola, desisti de almoçar para ir à biblioteca usar a Internet. Eu havia aprendido a fazer pesquisa on-line e me aperfeiçoava sempre, graças ao esforço para descobrir o que estava errado com Chub. Não que houvesse ajudado muito; havia muitas coisas que podiam estar erradas com ele, e eu sentia que, quanto mais lia, menos sabia. Não tive muita sorte quanto tentei pesquisar o que estava errado com Rascal. Não sabia exatamente o que procurar: "cicatrização rápida" me levava a sites de remédios naturais e alimentação saudável. Pesquisar os sintomas de Rascal resultou em "catatonia", que se resumia em movimentos repetitivos e ignorar estímulos externos, mas não me parecia que fosse esse o problema.


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Desisti da pesquisa e peguei o pedaço de papel onde havia anotado algumas linhas das páginas que encontrara no closet. Desdobrei a página e digitei as palavras no mecanismo de busca. Logo ficou evidente que aquelas eram palavras do idioma irlandês, e depois de estudálas em um dicionário bilíngüe e em um site de tradução automática, consegui ter uma boa idéia do significado das frases:

Eu recomendo a essa magia As almas e os corpos de nossos pobres compatriotas Cure essa carne murcha Esses membros quebrados e amaldiçoados Esse sangue infectado

Lamentei não ter copiado a página inteira. Não sabia a que tipo de "magia" o autor se referia, mas sentia uma estranha agitação crescendo dentro de mim. Cura: podia ser realmente uma coincidência eu ter encontrado as palavras depois de tudo que havia acontecido com Milla no ginásio... e antes de Rascal ter sido atropelado pelo caminhão? Antes de sair do laboratório, pesquisei o código aeroportuário que havia encontrado na passagem aérea do quarto de minha avó. DUB era a sigla para Dublin... Irlanda. Não podia ser uma coincidência, podia? Mas como as palavras que encontrei escritas naquelas páginas no closet podiam estar relacionadas com o que acontecia agora, com os planos que minha avó mantinha em sigilo? Eu não sabia quem escrevera aquelas palavras, quem escondera as páginas no armário. Não sabia o que significava CAMPO DE TREVOS, mas tinha a sensação de que nessas palavras estava a chave. Precisava descobrir mais, mesmo que a única pessoa capaz de me ajudar me odiasse por razões que eu nem conhecia. Tinha de haver uma maneira de fazê-la falar comigo. Esperei até que o dia na escola estivesse quase terminando. Quando o último sinal soou, saí apressada da sala e corri para o laboratório, porque sabia que a última aula de Milla havia sido Ciências. Quando ela saiu da sala de cabeça baixa, no final de uma fila de alunos, parei diante dela impedindo a passagem. Abri a boca para perguntar se poderíamos ir a algum lugar e conversar, mas a


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expressão dela passou do cansaço ao reconhecimento, seus olhos se estreitaram, e seus lábios se entreabriram numa reação surpresa. - Onde achou isso? - ela sussurrou. - O quê? - O colar. Meus dedos tocaram a pedra vermelha do pingente. Eu não havia tirado o colar do pescoço desde que o encontrara no closet. Mantinha a pedra sob a camiseta no tempo que passava em casa, porque não queria que minha avó a visse, mas, na escola, eu a deixava do lado de fora e visível. - Eu... achei. - Sua avó lhe deu? Eu não sabia o que dizer. Se conseguisse pensar em uma mentira que a mantivesse falando comigo, não hesitaria em usá-la. Mas eu não tinha idéia do que ela queria, do que prenderia sua atenção. Só conseguia pensar em perguntar se ela iria comigo a algum lugar onde pudéssemos conversar; algum lugar privado. - Escute, você poderia, nós poderíamos... Ela balançou a cabeça, já recuando. - Não tenho nada para falar com você. - Mas eu preciso falar com você. Com alguém... Eu... Eu não... Eu lhe dou dinheiro, se é isso que quer, não tenho muito, mas posso conseguir mais ... - Sentia que a qualquer momento ela ia se virar e fugir de mim, correr para longe dali. - O colar! Eu lhe dou o colar. - Não tire isso do pescoço - ela disparou. - Não quero essa coisa perto de mim. Eu não sabia o que era, o que podia ser, mas era evidente que Milla estava perturbada, que aquilo exercia um efeito sobre ela. Segurei a pedra entre o polegar e o indicador e a girei à luz do corredor, diante das janelas amplas e altas e o sol a atingiu e dançou no rosto de Milla em reflexos intensos de um vermelho sangue. A expressão dela passou do medo à resignação. - Não vai desistir, não é? - ela suspirou. - Tudo bem, vamos acabar com isso de uma vez.


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Fomos juntas a uma das antigas salas de ensaio da banda do colégio, um lugar úmido com paredes de material acústico, apoios para partituras, e um piano velho e arranhado. Só havia uma cadeira, por isso nos sentamos no chão, ouvindo o som distante de alguém que ensaiava alguns acordes em um violoncelo distante. Eu não revelei tudo. Contei a ela sobre os homens no carro, sobre o receio de as autoridades me separarem de Chub. Não falei sobre Rascal- não queria que ela pensasse que eu era maluca. Disse a ela sobre os homens que haviam estado em casa, sobre os negócios que minha avó fazia e as coisas que ela guardava no porão. Quando falamos sobre Rattler, Milla baixou os olhos e ficou quieta. - O que é?- perguntei frustrada. - Qual é o problema com ele? Milla não respondeu de imediato, mas, quando falou, sua voz era tão baixa e fraca, que quase não consegui ouvi-Ia. - Acho que você devia saber. - Eu? Por quê? Nunca tive nada a ver com ele... Ela levantou a cabeça e me encarou furiosa. - Não se trata do que você fez. Será que não entende? Nenhum de nós, Banidos, pode opinar ou interferir nisso tudo. Está tudo decidido. - Banidos? Eu não... - O colar que exibe com tanto orgulho - Milla me interrompeu, apontando um dedo para mim. - Talvez goste de saber que ele não é o único. São três colares, e todos são amaldiçoados. Como acha que sua avó ficou daquele jeito? Qualquer pessoa que use o colar também é amaldiçoada. Toquei a pedra de maneira protetora. Não sabia dizer por que, mas tinha a impressão de que a verdade era exatamente o oposto do que ela dizia, a pedra era um talismã que impedia coisas ainda piores de acontecerem comigo. - Não acredito em você - sussurrei. - Realmente? Bem, sua mãe tinha um desses colares, e você sabe o que aconteceu com ela. O colar que está no seu pescoço deve ter sido dela. Sua avó negociou o dela, e talvez por isso ainda esteja viva. Apenas um colar está desaparecido, o da sua tia e ninguém sabe o que aconteceu com ela.


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- Minha... o quê? - Sua tia, Hayley. Ah, não se faça de tonta. - Eu não tenho uma tia... - Você sabe que tem. E eu não tenho que ficar aqui sentada ouvindo você falar tudo que pensa, como se me considerasse uma idiota, como se pensasse que vou acreditar em tudo que diz... - Eu... eu sei que não é idiota - disse apressada, tocando o braço dela e tentando acalmá-la, mas ela se esquivou do contato. - Não quero fazer você se sentir pior, nem nada desse tipo, mas eu realmente não tenho uma tia. Minha mãe morreu no parto e eu... - Pare! - Ela se envolveu com os braços como se sentisse frio.- Pare, por favor. Sua mãe enlouqueceu e se matou, e você sabe disso. Foi tão grave que sua avó acabou contaminada pela situação, e agora ninguém pode sequer pronunciar seu nome. Não entende? Teria sido melhor para todos se você nunca tivesse nascido, Hailey. - A voz dela ganhara um tom frio e cruel. Você acha que pode curar, mas quem sabe o que fez comigo? Deve ter me amaldiçoado... - Minha mãe não se matou - murmurei. Eu podia ter dito uma dúzia de coisas diferentes, mas foi essa a resposta que saiu de minha boca. - Ela... morreu. Quando me teve. Milla se levantou tão depressa, que a cadeira vazia atrás dela balançou e quase caiu. Ela apontou para mim um dedo trêmulo, os lábios comprimidos pela fúria. - Não posso... - começou, e depois recuou se afastando de mim. - Se realmente não sabe, pergunte a sua avó, ela vai fazer você acreditar nisso. - Espere, espere! Perguntar o quê? - Pergunte a sua avó - Milla repetiu antes de abrir a porta e sair correndo, me deixando ali sozinha com os sons tristes do violoncelo como única companhia.


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Capítulo 9 Quando cheguei em casa, havia um carro estacionado na entrada. Não era o Lexus de janelas escuras nem o caminhão de Rattler Sikes. Era um velho Volvo marrom, e eu deduzi por experiências anteriores que teria de enfrentar mais uma série de más notícias. Um carro como aquele - impecável, embora antigo, sem graça, mas apresentável... Só podia ser uma assistente social. O Departamento de Serviços Sociais, Divisão de Apoio à Família, mandava seus agentes para nos visitarem de tempos em tempos. Teoricamente, eles deveriam nos visitar mensalmente. Na verdade, eu nunca sabia quando devia esperá-los - por isso nunca conseguia me preparar para essas visitas. Atravessei o jardim correndo, ignorando Rascal, que estava deitado na varanda. Entrei pela porta da frente e fui para a cozinha com passos apressados. Era pior do que eu temia: Minha avó não se incomodara em fazer nada com Chub, e ele estava sentado no chão com uma fralda que parecia prestes a explodir de tão cheia, sem camisa, com o rosto sujo dos restos de seu almoço. Quando me viu, ele se levantou de um salto e correu na minha direção, abraçando minhas pernas com força e apertando o rosto contra minha coxa, dizendo "Hayee, Hayee" com aquele tom feliz. Minha avó nem se dera ao trabalho de oferecer chá ou café à assistente social. Ela mantinha os cigarros na sua frente e, considerando as bitucas no cinzeiro, não havia parado de fumar desde a chegada de nossa visitante. Na última vez em que alguém do serviço social estivera em nossa casa, o tabagismo de minha avó havia sido um dos assuntos principais. Eu esperava enfrentar dificuldades por ainda


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não termos detectores de fumaça, e por ainda haver pregos soltos na escada da casa, o que poderia causar um desabamento; esperava que nos questionassem por Chubby ainda não falar e não usar o banheiro, e por minha avó se recusar a deixá-lo freqüentar a pré-escola. Era hora de pôr em prática um plano de controle de danos. - Olá - eu disse em voz alta, removendo os braços de Chub das minhas pernas. - Sou Hailey Tarbell. A mulher reagiu com aparente tensão ao ouvir minha voz. Ela tinha cabelos castanhos e brilhantes num comprimento médio, um pouco abaixo dos ombros. Não era uma das que eu vira antes, mas isso não era incomum. Elas nunca ficavam muito tempo no mesmo emprego. A visitante se levantou, olhou para mim e começou a falar. Mas parou em seguida, e nós apenas nos entreolhamos. O rosto que olhava para mim... era o meu. Não que o rosto da desconhecida fosse idêntico ao meu, como o reflexo de um espelho. Mas ela era parecida comigo, como eu seria se fosse mais velha e tivesse dinheiro para roupas bonitas, maquiagem, e um bom corte de cabelo. E os olhos eram como os meus - mais dourados que marrons, amendoados. As sobrancelhas eram altas e arqueadas, como as minhas, embora fosse evidente que ela pagava caro para fazê-las em um bom salão de beleza. A boca era como a minha, com o lábio superior fino e o inferior mais cheio. As faces altas e a testa larga também eram como as minhas. Minha tia. Essa mulher devia ser a tia que eu nunca soube que tinha! Depois de me encarar por alguns segundos, ela fez algo que me surpreendeu ainda mais - virou-se de costas para mim e bateu com a mão sobre a mesa, uma batida tão forte que o cinzeiro pulou, espalhando cinza e bitucas de cigarro. Uma pancada tão forte devia ter sido dolorosa, mas ela cerrou o punho e, por um momento, tive a impressão de que ela ia agredir minha avó, mas ela apenas continuou com a mão fechada, apertando os dedos com tanta força que a pele ficou branca. Percebi que eu havia parado de respirar no mesmo instante em que ela apoiou as duas mãos sobre a mesa, inclinando-se até o rosto estar a poucos centímetros do de minha avó. Sua voz soou baixa, ameaçadora? - Se voltar a mentir para mim, Alice, eu mato você com minhas próprias mãos.


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Depois ela se virou para mim novamente, e toda raiva desapareceu de seu rosto, deixando apenas uma mistura de tristeza e cansaço. - Meu nome é Elizabeth Blackwel1. Vovó jogou a cabeça para trás e riu uma gargalhada horrível e rouca que mostrava seus dentes amarelos. Nós duas olhamos para ela. Finalmente, ela concluiu as gargalhadas com um prolongado ataque de tosse, limpando as lágrimas dos olhos com o dorso das mãos. - Quem está mentindo agora? - minha avó perguntou. A visitante me olhou e piscou uma vez. Depois respirou fundo, como se estivesse tentando reunir coragem para saltar dos rochedos sobre o Lago Bobine. - Tudo bem - ela disse; a voz tão suave que eu soube que falava comigo. - Não sou... quem eu disse. Meu nome é Prairie, e eu sou sua tia. Minha boca ficou seca. Prairie. Campo. Cravos. - Qual era o nome de minha mãe? - perguntei num sussurro. - O quê? - Minha mãe. Sua irmã. Qual era o nome dela? - Clover - minha tia respondeu. Cravo. - Alice nunca disse qual era o nome de sua mãe? De repente eu senti uma forte pressão na cabeça e uma intensa tontura. As palavras na parede, o jeito como as sentia sobre os dedos, a atração invisível que exerciam sobre mim... era o nome da minha mãe. Eu me perguntava se ela mesma havia entalhado as letras A tontura progrediu para algo mais, como se todo meu ser houvesse perdido a âncora e vagasse à deriva. - Preciso de ar. Saí pela porta de tela dos fundos. Por alguma razão, quando a ouvi me seguindo, não me surpreendi.


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Ela se mantinha alguns passos atrás de mim enquanto eu caminhava para o bosque, me afastando da estrada que Rascal e eu havíamos percorrido juntos no dia anterior. Havia um breve caminho de ligação que levava ao emaranhado de trilhas por entre as árvores, vias que conectavam as fazendas com a Cidade do Lixo de um lado, e Gypsum do outro. Segui em linha reta, e em poucos minutos cheguei no riacho. Estava quase seco - era meio de abril e tivemos pouca chuva ou neve ao longo do inverno - e havia uma rocha plana meio submersa na água rasa e lenta. Eu havia ido me sentar naquela pedra centenas de vezes, onde ficava pensando e jogando pedrinhas no rio. E foi lá que me sentei, meus pés balançando sobre a água. - Você se incomoda se eu também me sentar? - Prairie perguntou. Eu dei de ombros - Esse é um país livre. Ela se sentou do meu lado e pegou um graveto longo e fino que havia sido levado pelo vento e ficado preso em uma fresta da rocha, usando-o para traçar desenhos no ar. Por algum tempo nenhuma de nós disse nada. Dúzias de perguntas passavam por minha cabeça. Eu continuava pensando nos nomes entalhados juntos na parede. - Se você é minha tia, onde esteve durante todo esse tempo? - disparei. Não era isso que eu queria dizer, e de repente lágrimas inundaram meus olhos e ameaçaram correr por meu rosto, e eu o limpei com a manga da blusa. - Oh, Hailey - Prairie respondeu com voz trêmula. - Eu... tive razões para partir naquele momento. Eu não sabia sobre você. Pretendia voltar para buscar sua mãe, mas quando pude, ela... bem, ela havia morrido. Eu nem sabia que ela estava grávida. - Mas você... deixou minha mãe aqui sozinha com a vovó. E ela se matou. Não me dei ao trabalho de banir da voz a nota de acusação, embora não soubesse ao certo se acreditava no que Milla dissera. - Eu sei. - A voz de Prairie era ainda mais suave. - Isso é algo com que tenho que conviver todos os dias da minha vida. Pensei em dizer a ela que eu nunca deixaria Chub com minha avó. Nunca. - Ninguém veio procurar por você? - perguntei em vez disso. - Sua avó não registrou o desaparecimento - respondeu Prairie. Se sentia alguma


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amargura, ela não demonstrava. - Nunca fui considerada oficialmente uma fugitiva. E a polícia tinha coisas mais importantes para fazer do que procurar por mim. - Mas... por que você não voltou mais tarde? Depois que eu nasci?Ouvi o tremor na minha voz e o odiei, odiei que Prairie também o tivesse escutado. - Eu não sabia, Hailey. Alice disse que sua mãe... - Ela hesitou, e notei que mordia o lábio como eu fazia, pegando o lado direito do lábio inferior entre os dentes. - Ela nunca me falou sobre você. Por que eu devia me importar? Minha mãe não era nada para mim. Eu não tinha lembranças dela. Do meu ponto de vista, jamais tivera mãe. - Não importa - resmunguei. - Agora chub é minha família. Estamos bem, não precisamos de mais ninguém. Prairie assentiu mais para si mesma do que para mim, pensei. - Vejo que encontrou o esconderijo de sua mãe - Prairie disse com tom gentil. - O... o quê? Prairie levou as mãos à nuca e abriu o fecho de uma fina corrente de prata. Quando ela fechou os dedos em torno do pingente eu soube o que ia ver.

- É igual ao seu - ela disse. - Quando o vi em você... bem, sua mãe nunca o tirou. Nenhuma de nós tirou. Mary - nossa avó - nos deu os colares. São muito antigos. Ela disse que nos protegeriam. Ela me entregou o pingente ainda quente de sua pele. Eu havia notado que a pedra no colar que eu usava absorvia meu calor e o retinha, quase como se armazenasse energia. O colar na minha mão era idêntico ao meu, até onde eu podia determinar, desde o trabalho delicado que mantinha a pedra no lugar, até a argola pela qual passava a corrente. Eu devolvi o colar. Teria sido ótimo acreditar que havia magia nos colares, mas eu não contava com isso. - Acho que devemos voltar - disse. Não conversamos, mas o silêncio era confortável. Quando voltamos para casa, vovó


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ainda estava sentada na cadeira da cozinha, e ela nos recebeu com um sorriso frio, soprando fumaça na nossa direção. - Vejam só o que o gato trouxe para casa. - Vou levar Hailey para jantar fora - Prairie avisou. - Vamos demorar um pouco. O que ela me dizia era novidade. Chub, que estivera brincando com suas letras plásticas magnéticas na porta do refrigerador, aproximou-se de mim e pressionou o rosto contra as minhas pernas. Por um segundo fiquei embaraçada por Prairie poder ver que Chub não era como as outras crianças. Vovó olhou para ela com os olhos apertados, cheios de desconfiança, e Prairie sustentou seu olhar. Eu me descobri torcendo por minha avó piscar primeiro. - Tudo bem - ela disse finalmente. Percebi que ela pensava. Aquela expressão era comum em seu rosto. Minha avó podia ter muitos defeitos, mas estupidez não estava entre eles. Eu não podia dizer quantos de seus clientes chegavam em nossa casa pensando poder enganá-la, e ela os encarava com aquela mesma expressão e, com certeza, eles acabavam deixando mais dinheiro sobre a mesa do que haviam planejado, e se eles não gostavam disso, vovó simplesmente sugeria que fossem fazer negócios em outro lugar, o que raramente acontecia. Pensei novamente no dinheiro e na passagem, e tentei deduzir o que ela estava tramando. - Não espere acordada - foi tudo que Prairie disse enquanto pegava as chaves na bolsa. - Temos de levar Chub - eu disse. Eu queria descobrir o que Prairie fazia ali, mas me sentia mal por deixar Chub sozinho esta noite. Podia perceber que ele estava perturbado, porque me abraçava com força. - Chub não vai a lugar nenhum - minha avó se manifestou. - Acho que ele não está muito bem. Não quero que saia e pegue um resfriado. Eu sabia que ela estava mentindo, mas também sabia que Chub ficaria bem por uma ou duas horas. Segui Prairie até o carro dela. Nós não conversávamos. Ela seguiu para o Nolan, pegando o atalho que passava por trás do Napa Auto Parts, e eu me surpreendi por ela ter escolhido o único restaurante elegante da cidade.


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Cheguei a temer que não nos deixassem entrar, porque eu vestia jeans. Mas Prairie deu aquele sorriso agradável e disse: - Precisamos de um pouco de privacidade, por favor, se puder nos acomodar em uma mesa que não fique no caminho. A hostess nos levou a uma mesa perto de uma parede, fora do caminho dos garçons e longe da porta da cozinha. Ela olhava intrigada para Prairie, e agora que eu havia superado a surpresa provocada pela semelhança entre nós, podia perceber que Prairie chamava atenção. Eu era alta e magra, mas Prairie era alta e elegante. Magra, mas com quadris sinuosos e seios de verdade, e os cabelos castanhos eram brilhantes e lisos, com pontas ligeiramente encurvadas logo abaixo dos ombros. Sua jaqueta, reta e de gola baixa na frente para mostrar um pouco da camisa de seda que ela usava por baixo, tinha um caimento perfeito que gritava dinheiro com D maiúsculo. Acho que a hostess pensava a mesma coisa. Havia bem poucas famílias ricas em Gypsum; a maioria da população apenas lutava para sobreviver. Eu ia pedir o sanduíche de galinha. Li todos os preços e fiz uma conta rápida para calcular quanto custaria o jantar. Uma parte minha queria pedir o prato mais caro só para ver o que Prairie faria, para descobrir se havia um limite na preocupação dela comigo, talvez, ver se eu conseguia atingi-la a ponto de ela perder o controle e me mostrar quem realmente era. Como se sob aquela aparência elegante e agradável ela estivesse apenas esperando para me dizer o que queria de verdade, e seria algo ruim. Mas quando a garçonete se aproximou para anotar o pedido, Prairie disse: "O filé mignon parece realmente bom, não é, Hailey?" e eu olhei para o cardápio e vi que o prato custava vinte e três dólares, mas não comia um filé há mais tempo do que podia lembrar, e simplesmente disse que sim, parecia ótimo. Quando a garçonete se afastou, nenhuma de nós disse nada por um instante. Prairie brincava com a faca, balançando-a para frente e para trás. - Fale-me sobre seu cachorro - ela pediu finalmente. - Se não se importa. O pedido me pegou de surpresa. Rascal não era algo que eu queria discutir. - Não há nada para dizer. - Mas é que eu posso dizer que... que alguma coisa aconteceu com ele. Seu rosto ganhou uma repentina suavidade, e os olhos ficaram tristes. - Onde o encontrou? - Ah... vovó ganhou o filhote de um conhecido.


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- Alice o aceitou como pagamento por drogas. - A expressão de Prairie não mudou. Então, ela sabia sobre as drogas. - Sim. - Eu dei de ombros como se não fosse importante. Provavelmente. - Hailey... eu vi a cicatriz. O que restou dela, pelo menos. No estômago do animal. Eu pisquei. Naquela manhã a cicatriz havia quase desaparecido. Era preciso afastar os pêlos para ver a linha fina e rosada. Eu queria perguntar a Prairie como ela sabia, mas não queria dar a impressão de que me importava tanto. Dar importância às coisas faz você ficar vulnerável. - Ele foi atropelado por um caminhão há alguns dias. - Foi muito grave? - Ele... - Engoli sem eco, lembrando como Rascal havia ficado. Mas não queria contar a ela o que havia feito, não queria ter de tentar explicar como ele se recuperara quase completamente em uma única noite. - Não, foi só um corte. Pequeno. Prairie me observou com atenção. - Aposto que deve ter cuidado muito bem dele, Hailey... O que fez? A voz dela era tão bondosa que tive de desviar o olhar. Engoli em seco e bebi um gole de água gelada. - Eu, ha, só limpei o corte com anti-séptico e, você sabe, o mantive dentro de casa. - Falou com ele? - Se eu... fiz o quê? - Enquanto estava limpando os ferimentos? Quero dizer, talvez ele estivesse assustado. Sei como são essas coisas... você deve ter tentado acalmá-lo, deixá-lo confortável. Ela sabia. De alguma maneira, sabia que eu havia curado Rascal, que alguma coisa que eu fizera com ele depois do acidente o recuperara, exatamente como eu havia reanimado Milla no


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ginásio. Senti meu rosto quente. Ela podia ler minha mente? - Não creio que tenha dito alguma coisa especial - respondi cautelosa - enquanto estava cuidando dele. Prairie assentiu. - Certo. Bem, fico feliz por ele estar... melhor. - Sim, é eu... Quero dizer, ele manca um pouco, como deve ter notado. Mas é só isso. A garçonete chegou com a nossa salada. Nós agradecemos, e quando eu estava pegando o garfo, Prairie respirou fundo. - Tenho algumas coisas para lhe dizer, Hailey- ela anunciou.- Lamento ter de falar agora, quando acabamos de nos conhecer, mas acho que é necessário. Más notícias, então; ela agora ia revelar o que realmente queria de mim. Mas, com toda franqueza, quanto minha vida podia piorar? - Vá em frente - eu disse. - Estou me arrependendo por não ter pedido uma bebida - Prairie comentou sorrindo. Uma bebida bem forte. Muito bem, por onde começar? Vejamos... bem, Alice não é tão velha quanto você pensa. - O que você quer dizer? - perguntei. - Acho que ela está completando cinqüenta esse ano - respondeu Prairie. - Vejamos, eu vou fazer trinta e um, e ela tinha dezenove quando eu nasci, então, sim, ela ainda tem quarenta e nove. Pensei nas páginas antigas, nos nomes e datas escritos ali. Alice Eugenie Tarbell, 1961. Mas vovó era velha - tinha o rosto enrugado, o cabelo fino e grisalho, os dedos retorcidos como as pessoas velhas têm. E era fraca. Mal conseguia se levantar da cadeira e descer a escada para o porão. Não conseguia fazer as tarefas domésticas, e era por isso que eu sempre varria, passava pano no chão, lavava as janelas e tirava a neve do portão, lavava a roupa e fazia as compras. E ela era doente. Pegava todas as gripes que apareciam, ficava deitada por dias seguidos, e só se levantava quando algum cliente ia visitá-la. Eu achava tufos do cabelo dela no chão do banheiro, e suas unhas eram amareladas e quebradiças. Se batia nos móveis, surgia em sua pele imediatamente uma mancha roxa e amarela. Cada vez que ela acendia um cigarro,


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minha avó tossia como se os pulmões fossem sair pela boca. - Isso é impossível- eu disse finalmente. Prairie bebeu sua água - Teria sido bom se você pudesse ter conhecido sua bisavó. Minha avó Mary, mãe de Alice. Pensei na foto na moldura barata, na mulher de lábios vermelhos e olhos brilhantes. Minha bisavó - eu nem podia imaginar. - Ela morreu quando eu tinha dez anos - Prairie continuou-, mas ela era linda, forte, divertida e inteligente... muito inteligente. Como a maioria das mulheres da nossa família. - O que aconteceu com minha avó, então? - Bem, isso é parte do que preciso lhe contar, Hailey. As mulheres Tarbell... todas as suas ancestrais eram incrivelmente saudáveis e fortes. É... bem, é nosso legado, acho que podemos dizer. Está no nosso sangue. Aposto que você raramente adoece. Não é assim? - Ah... não muito. - E é forte... mais do que os outros jovens. E mais coordenada, certo? Eu apenas dei de ombros. - Bem, como eu disse, está nos nossos genes. Mas acontece que de vez em quando, a cada cinco ou seis gerações, surge uma aberração. - Uma o quê? - Nasce alguém que não se enquadra no padrão genético. Como Alice. Enquanto as outras mulheres Tarbell têm genes fenomenais, Alice sempre teve saúde deficiente. Durante toda a vida. Ela está envelhecendo muito depressa, e os tecidos de seu corpo se degeneram. Não acredito que ela chegue a completar cinqüenta e cinco anos. Pensei em Milla e no que ela dissera sobre os colares, sobre como eram amaldiçoados. Como acha que sua avó ficou daquele jeito? ela perguntara. Eu não havia dito isso, mas se fosse verdade, se minha avó havia sido amaldiçoada, eu


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não lamentava por ela. Vovó podia morrer no dia seguinte, e eu não me importaria. Fiz a conta rapidamente. Eu teria vinte anos. Vinte anos, e livre da minha avó - meu coração ficou mais leve quando pensei nisso. Uma idéia me ocorreu, uma peça desaparecida do quebra-cabeça da minha vida, uma resposta que Prairie poderia me dar. - Você e minha mãe são filhas do mesmo pai? Sabe quem ele é? Prairie balançou a cabeça. Às vezes eu tentara imaginar, olhando para minha avó com sua pele enrugada e o corpo alquebrado - se ela algum dia fora jovem, se algum homem a amara. Parecia impossível. - Alice nunca falou sobre essa parte da vida dela. - E quanto ao meu pai? - perguntei. - Sabe se minha mãe tinha um namorado, ou alguma coisa nesse sentido? Prairie olhou para mim com uma tristeza tão grande que eu quase desejei não ter perguntado. - Clover era minha irmã mais nova. Quando saí de Gypsum, ela tinha apenas quatorze anos. E já ... estava grávida. E eu não sabia. Nunca soube. Quatorze. Eu não podia acreditar. Quero dizer, sabia que era possível- estavam sempre falando nisso na aula de Saúde. - Ela teria... vinte e nove anos - eu disse. Jovem demais para ser mãe de uma criança pequena, e mais ainda de alguém da minha idade. - Sim... Clover, sua mãe, ela era muito tímida. Não tinha muitos amigos na escola. E ninguém que pudesse ser um namorado. Então, ela era como eu, naquela época. Eu sabia como era não ter amigos. - Mas vovó pode saber de alguma coisa. Prairie comprimiu os lábios por um momento, como se tentasse decidir o que diria em seguida. - Se ela sabe, receio que jamais fale. - Por que não?


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- Sei quanto é difícil viver com Alice - Prairie comentou com tom delicado. - Eu... ainda lembro. Ela não tem o poder que gostaria de ter, e o jeito como é... Tudo isso a deixou revoltada e amarga. Talvez até incapaz de amar alguém... Acredito que tenha sido difícil para sua mãe, mais difícil ainda do que foi para mim. Clover era sensível, e às vezes acho que ela se incomodava mais quando Alice era cruel comigo do que quando a crueldade era com ela. Eu endureci, acho. Há muito tempo decidi que não a deixaria me magoar, e na maior parte do tempo funcionou. Eu entendia o que ela estava dizendo, embora não revelasse.Era se convencer de que as palavras de Alice não significavam nada. Quando ela se recusava a conversar, era lembrar que não tinha importância. Era fechar aquela parte do coração que queria uma mãe, uma avó, e para isso era preciso lembrar todo dia que ela não podia magoá-la se você não deixasse, se não cometesse o erro de se importar demais. Minha mãe não havia conseguido. - Chub é filho de quem? - Prairie perguntou. Senti meu rosto quente. - Ele chegou com um dos clientes da vovó. Está sob nossos cuidados. - Alice o acolheu para receber o dinheiro do estado - Prairie refletiu. - Certo? Eu assenti surpresa por ela ter deduzido corretamente e tão depressa. - Sim, mas... acho que ela também queria que ele fosse um ... projeto. Algo que ela pudesse consertar. Ele tem... problemas. Quero dizer, é lento. Chub é ótimo, mas não está se desenvolvendo no ritmo esperado. Eu me sentia desleal dizendo essas coisas. Esperei Prairie falar alguma coisa sobre o menino, fazer alguma crítica desinteressada, e me sentia pronta para odiá-la se ela disse algo errado. Mas ela se limitou a mover a cabeça em sentido afirmativo, os olhos tristes. - Ele parece ser um menino doce. E você cuida muito bem dele. Deve ser difícil. - Não. - A palavra soou mais ríspida do que eu pretendia. - Quero dizer, não me incomodo. Não é difícil, é divertido. Eu não disse a ela como vovó agira diferente por um tempo, depois de candidatar-se à tutela do menino. Não queria admitir que havia sido idiota o bastante para ter esperanças, acreditar que as coisas haviam realmente mudado, durante aquele breve período quando vovó mantivera a casa limpa e preparara refeições de verdade, e não fizera negócios com os produtos


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do porão. Não queria confessar que quase acreditara que ela podia mudar por causa de Chub. - Sabe qual é o nome dele? O nome verdadeiro? Prairie perguntou com tom gentil. Olhei para o meu prato. - Não. Ele é só Chub. Eu havia pensado em mudar. Havia sugerido Charlie, mas minha avó rira e dissera achar que o nome dele era suficientemente bom. E a questão era que Chub conhecia esse nome, respondia a ele. Concluí que ele já tinha confusão demais em sua vida sem alguém acrescentar mais uma novidade. - Tudo bem - Prairie respondeu. - E o sobrenome? - Vovó sabe qual é, mas nunca me deixou ver os documentos - eu disse. - Ela diz apenas que agora ele é um Tarbell. Prairie assentiu. Seu rosto tinha aquela expressão novamente, aquela que eu sabia significar que estava pensando e tentando entender o que acontecia. A garçonete chegou com o nosso jantar, e eu comi. Era incrível como aquele filé era bom. Tenro, suculento, saboroso... a melhor coisa que eu já provara. Prairie mal tocou no dela. Suspirando, ela cortou um pedaço pequeno, e o colocou na boca. Mastigou e engoliu, mas tive a impressão de que nem sentia o gosto. Por mais que se esforçasse para parecer calma, era fácil perceber que estava perturbada, quase amedrontada. Eu queria saber por quê. Deixei os talheres sobre o prato. - O que faz aqui? O que quer de mim? Prairie me olhou nos olhos - algo que ninguém jamais fizera comigo, até onde eu podia lembrar - e respirou fundo.- Vou levar você comigo - ela respondeu. - Não pode continuar aqui com Alice. Meu coração deu um salto dentro do peito. Ir embora - mesmo que não fosse como eu havia planejado, mesmo que fosse com uma estranha - a idéia era quase irresistível. Eu queria dizer tudo bem, é claro, vamos lá. Para o diabo com a escola, com os estúpidos Limpos que sempre haviam debochado de mim. Para o diabo com nossa casa caindo aos pedaços, com o quintal de mato queimado, as longas caminhadas até o armazém. Qualquer lugar seria melhor que aqui. Sentia-me tentada a gritar "É claro, vamos embora agora", antes que ela mudasse de


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idéia. Em vez disso, o que falei foi: - Não posso deixar Chub. Prairie não parecia surpresa. Ela limpou os cantos da boca com o guardanapo e depôs o garfo. - Escute - começou - confesso que não contava com Chub. Na verdade, esperava partir hoje mesmo, esta noite. Isso complica um pouco a situação - mas nós ainda vamos embora. Só vamos nos atrasar um pouco em relação ao que havia planejado, e o levaremos conosco. Ela disse essa última parte bem depressa, antes que eu começasse a protestar. - Mas... mas e ... Ela ergueu a mão para me interromper. - Tente não se preocupar. Quero que deixe todos os detalhes comigo. Pelo menos por enquanto. Tudo bem? Escute, sei que não tem muita segurança com relação às minhas intenções, e talvez não confie em mim inteiramente, e isso... isso é compreensível. É sim. Eu entendo. Mas é que... não estou brincando, Hailey. Depois de me conhecer um pouco mais, vai entender que eu nunca brinco com coisas sérias. Ela falava de um jeito que sugeria uma promessa, ou algo ainda mais sério que uma promessa. Como algo de que ela tivera de se convencer com muito esforço, e agora faria qualquer coisa para não perder essa certeza. - Não posso simplesmente... - Você pode. - Prairie tentou pegar minha mão sobre a mesa, mas eu a afastei. - Tenho... recursos sobre os quais conversaremos melhor mais tarde. Tenho algum dinheiro. Podemos passar essa noite na casa, e você vai ter tempo para pegar algumas coisas, não muitas, só uma valise pequena. E não podemos deixar Alice perceber que está se preparando para partir. Ela não sabe. Disse a ela que estava voltando para Gypsum, me mudando para poder ficar mais perto de você. Falei que ia procurar uma casa na cidade. - Você disse a ela... - Vovó nunca acreditaria nisso. Ninguém acreditaria que alguém voltaria a morar ali, se houvesse alternativa. - Não tenho uma valise. - Uma caixa, então. Podemos comprar tudo que for necessário para você e Chub. - E depois? Para onde iremos? - Eu sabia que era loucura. Mas era tão tentador acreditar em Prairie, no que ela dizia poder fazer!


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- Não quero dizer. Ainda não - ela respondeu. - Sei que estou pedindo muito, mas prometo que logo revelarei tudo que você quer saber. Nesse momento, tenho que me concentrar em sair daqui com vocês dois. E você precisa me ajudar a fazer Alice acreditar no que eu disse a ela. Acha que consegue? Eu não disse sim... mas também não disse não.


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Capítulo 10 Quando chegamos em casa, vi que vovó tinha os próprios planos. O caminhão de Dun Acey estava estacionado na frente do gramado, o pára-choque traseiro um pouco mais baixo que da última vez que eu o vira, resultado de algum novo acidente que devia ter sido pior para o outro motorista. Prairie parou o Volvo no quintal, tão longe do caminhão quanto era possível. - De quem é o caminhão? - ela perguntou com a voz neutra, mas eu pude ouvir a tensão por trás das palavras. - É de Dun Acey. - Que surpresa - ela resmungou com ironia, como se essa fosse a última emoção que experimentava. - Você o conhece? - Conheci alguns Acey. - Ela pronunciou o nome como se fosse um veneno. Prairie foi andando na minha frente. Eu a deixei ir, feliz por ter um escudo entre mim e o que me esperava lá dentro. Na cozinha, Dun estava sentado à mesa, reclinado na cadeira na frente da minha avó. Rattler Sikes estava em pé ao lado da pia, com um cigarro aceso em uma das mãos. Ele sorvia com avidez a água de um copo. Depois de me cumprimentar com um breve movimento de cabeça, ele deixou o copo sobre a pia e foi se apoiar na bancada. Rattler levou o cigarro à boca, deu uma tragada demorada, e estreitou os olhos quando a fumaça saiu preguiçosa por suas narinas. Havia oito latas de cerveja sobre a mesa, e eu soube sem ninguém me dizer que seis delas estavam vazias, e Dun e minha avó esvaziavam as outras duas.


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- Olá, Hailey- Dun disse sorrindo, deixando os pés dianteiros da cadeira voltarem ao chão com um baque surdo. - Você parece ainda mais quente em agosto. E quem é essa com você? Atrás dele, Rattler riu. Era um som repentino, rouco, acompanhado por um esboço de sorriso. Dun olhou Prairie da cabeça aos pés, como costumava fazer comigo, demorando-se um pouco mais nos seios e nas pernas. Dun e Rattler deviam ter a idade de Prairie, provavelmente, mas Dun sempre me parecera mais velho, talvez por não ter alguns dentes e por estar sempre com o cabelo oleoso caindo no rosto. Depois de a olhar daquele jeito insolente, ele assobiou baixinho. - Prair-ie Tar-bell- disse, enfatizando as sílabas. - Eu a reconheceria em qualquer lugar. Você está ainda melhor do que no dia em que partiu. Senti que Prairie ficava tensa ao meu lado. - Olá, Dunston - ela disse com tom firme. - Rattler. - Maldição, você nos reconhece afinal, garota. Não esperava, agora que se acha superior a nós. Mas acho que simplesmente não conseguiu ficar definitivamente longe de nós, os rapazes da cidade. - Dun riu como se essa fosse a melhor piada que escutara em muito tempo. Vovó riu com ele, acendendo mais um cigarro e emendando a gargalhada com um ataque de tosse. - Eu me lembro de vocês. - Prairie praticamente mastigou as palavras. - Alice me disse que está voltando para a cidade. Que maravilha. É claro, se vai voltar para tentar se enfiar na minha calça outra vez, está um pouco atrasada. - As palavras de Dun eram pastosas, resultado do excesso de cerveja. - Estou interessado em outra garota. Vovó riu novamente, e os dois olharam para mim. - Que sorte a dela - Prairie disparou com tom gelado. - Bem, se nos dão licença, Hailey e eu estamos cansadas, e amanhã cedo vou encontrar um corretor para ir visitar uma casa, portanto, vamos para a cama. - Hailey e eu estamos cansadas - vovó repetiu com tom debochado, irônico. Às vezes,


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quando bebia, ela fazia isso comigo, imitava o que eu dizia. Mas alguma coisa me dizia que era um erro fazer isso com Prairie. Esperei que ela reagisse com uma resposta ríspida, como quando conversara com minha avó mais cedo, mas ela não disse nada. Segurando meu braço, apenas me levou para a sala. - Venha - ela disse, e eu senti que sua mão tremia. - Vai para cama, Prairie? - a voz de Rattler soou atrás de nós. Senti que ela ficava ainda mais tensa, mas não houve resposta, e ela praticamente me arrastou para o quarto que eu dividia com Chub. Assim que entramos, ela fechou a porta e se apoiou nela. Eu fui ver se Chub estava dormindo bem acomodado. Ele estava encolhido no berço, e me senti aliviada por minha avó ter, pelo menos, colocado o menino para dormir. O pulso fechado e gordinho pressionava um lado do rosto. Ele sempre ficava quente quando dormia, e suas faces se tingiam de uma tonalidade rosada. Toquei levemente sua nuca e senti a pulsação forte e regular. Só então me virei para olhar para Prairie. - Se Dun e Rattler sabiam sobre você, e provavelmente muito mais gente também sabia, por que nunca ninguém me disse nada? - Fale baixo, Hailey - Prairie pediu com tom suave. - Muita gente tem medo de Alice. Ou ela paga bem pelo silêncio das pessoas, não sei. Além do mais, com exceção dos clientes dela, poucas pessoas devem lembrar. Alice nos mandava para a escola em Tipton, porque não queria que nos aproximássemos das crianças daqui. E nunca tivemos amigos por lá também. - E quanto a Dun e Rattler? Tive a impressão de que eles a conhecem bem. - Havia algumas famílias com as quais Alice... socializava. Os Acey, os Sikes, e algumas outras. - Da Cidade do Lixo. Seus clientes.


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- Nem sempre eram os clientes, mas... sim. Alice sabia que eles apreciavam certas substâncias ilegais. E encontrou um jeito de lucrar com isso. Ela precisava ganhar dinheiro, afinal. Prairie suspirou e alisou o tecido de sua jaqueta, claramente abalada com as lembranças. - Mas você escapou - eu disse. - E... Eu quase não falei o que estava pensando. Mordi o lábio inferior e pensei em ficar quieta, deixar o passado em paz. Provavelmente, era o melhor a fazer. Mas no espaço de algumas horas eu descobrira que havia perdido mais do que jamais soubera ter. Então, quando falei novamente, minha voz soou amarga. - E deixou minha mãe aqui para lidar com Alice sozinha. Como eu. Prairie reagiu como se eu a houvesse esbofeteado. - Hailey! Eu... Não foi assim. Você precisa saber que eu amava sua mãe mais que tudo no mundo. Eu jamais teria ido embora se... se ... Se o quê? - O que aconteceu. Teria sido perigoso para nós duas, se eu ficasse. O que podia ter sido tão ruim a ponto de ela ter de sair da cidade? - Você matou alguém, ou algo parecido? O rosto de Prairie exibiu uma angústia intensa, e por um segundo me arrependi de ter perguntado. Se ela fosse uma assassina, talvez eu não quisesse saber. - Não - ela disse em voz baixa. - Nada disso, mas o que eu fiz tornou impossível para mim, continuar na cidade. Você precisa acreditar em mim. E eu ia voltar para buscar sua mãe. - É fácil fazer promessas - eu respondi. - Disse a ela que voltaria para buscá-la, e não voltou. Agora voltou e está tentando o que, me resgatar? Por que se sente culpada com relação ao que aconteceu com minha mãe?


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Senti meu coração oprimido e ouvia minha voz cada vez mais alta, mais aguda. Eu sabia que devia parar. Mas seria fácil ceder e aceitar o que Prairie prometia... e também seria muito perigoso. Se eu tomasse a decisão errada, não seria eu a única prejudicada. Chub também sofreria. Antes que Prairie pudesse responder, eu dei as costas para ela. - Esqueça. Não quero saber. Vou para a cama. - Hailey... - Se ainda estiver aqui amanhã, não que eu espere que esteja... Não terminei a frase, porque não sabia o que dizer. A verdade é que queria desesperadamente acreditar nela. Queria que ela me resgatasse. Mas receava acreditar nela, ter esperanças, e depois vê-la desaparecer como todas as outras coisas boas que eu sempre desejei. De repente me sentia cansada. Muito cansada. - Hailey, podemos ir embora assim que Rattler e Dun saírem.Alice não vai acordar depois que apagar. Você sabe disso. Prairie soava desesperada. - O que eu sei é que não quero mais falar sobre isso - respondi, passando por ela a caminho da porta. - Vou escovar os dentes. Quando voltei ao quarto, ela pegou na bolsa uma pequena valise de higiene pessoal e foi para o banheiro sem dizer nada. Nenhuma palavra. Parecia exausta. Enquanto ela estava no banheiro, improvisei uma cama extra da melhor maneira possível com o que tinha à mão. Usei meu saco de dormir como base e o cobri com algumas colchas velhas dobradas, e dei a ela meu travesseiro. Para mim, improvisei um travesseiro com um moletom. Quando Prairie voltou ao quarto, ela olhou para a cama no chão e sorriu para mim. Havia mais uma coisa que eu precisava fazer antes de dormir - eu tinha de ir ver o que minha avó estava tramando com Dun e Rattler antes de poder relaxar. Fui até a sala e espiei pela fresta da porta para a cozinha. A pilha de latas de cerveja havia crescido, e Dun estava desmoronando na cadeira. Rattler estava sentado à mesa com um cinzeiro cheio de bitucas e bebia outro copo de água.


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Vovó falava com ele em voz baixa e séria, mas a expressão de Rattler era impassível. Eu não tinha certeza de que Dun estava acordado. E diante dos meus olhos, algo estranho aconteceu: De repente Rattler levantou a cabeça e olhou para frente, para mim, mas eu sabia de alguma forma, que ele não olhava para mim - era como se ele estivesse vendo alguma coisa na própria cabeça. Seus olhos perderam o foco e ele se espremeu como se estivesse com dor, levantando uma das mãos como se quisesse fazer minha avó parar de falar. - Quem sabe que estou aqui? - ele perguntou. - Ninguém - minha avó respondeu, bebendo um pouco de cerveja e deixando escorrer uma parte do líquido pelo queixo. - Não, há... há... você trancou aquela porta do fundo? - Sim. - Alguma coisa não está certa. Um carro... - Não, é só o carro dela. - Minha avó bocejou sem se dar ao trabalho de cobrir a boca. Aquela coisa estranha. Rattler balançou a cabeça. - Homens. São homens dentro do automóvel. Minha avó pegou mais uma cerveja, soltando a lata de um daqueles anéis da embalagem de seis unidades. Até esse esforço era demais para ela. Sempre me espantou que, mesmo fraca como era, ela pudesse beber tanto. - Está enferrujado - minha avó disparou. - Nada acontece por aqui há tanto tempo, que agora está vendo coisas. Rattler balançou a cabeça com impaciência, franzindo a testa. Eu voltei para a sala - não podia acreditar que minha avó não tinha mais medo dele. - Não estou enferrujado, mulher maldita. - Tudo bem, então está errado simplesmente. Acontece.


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- Acontece com os outros, Alice não comigo. Alice riu, um som esganiçado que eu conhecia bem. Quando estava bêbada, ela achava tudo muito engraçado. Eu me afastei sem fazer barulho, sentindo meu coração disparado no peito. No meu quarto, Prairie estava sentada no chão, com o cobertor escondendo suas pernas até a altura dos joelhos. De repente me senti feliz por ela estar ali. - Prairie, Rattler estava falando com a vovó. Ele disse... Mas o que ele dissera exatamente? Nada específico, mas eu estava pensando nos rumores, nas mulheres cambaleando pela rua, voltando pra suas casas descalças na madrugada gelada. - Ele é tão sinistro - sussurrei. Prairie assentiu. Ela não parecia surpresa. - Não quero que você se preocupe com ele. Deixe que eu me preocupe com isso. Sou capaz de apostar que Dun já apagou na cadeira. Acertei? Eu assenti, e agora meu coração batia na garganta. - Acho que sim. - Muito bem, um já caiu, e Alice provavelmente não está longe. Mais cedo ou mais tarde, Rattler vai ficar entediado. - Queria que ele fosse embora. - Eu sei - ela disse. - Eu também. Mas deixe eu me preocupar com eles. Você precisa descansar se puder. Eu não conseguia pensar em mais nada para fazer. Deitei-me, e Prairie apagou as luzes, mas havia luar suficiente penetrando pela janela para eu poder ver sua silhueta. Ela estava de costas, e eu via seu peito subindo e descendo numa cadência constante, no ritmo da respiração.


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- Boa noite, Hailey - ela disse. - Estou feliz por termos nos encontrado e estarmos juntas. Eu não respondi de imediato. As palavras dela tiveram um efeito estranho sobre mim embora ela houvesse mergulhado minha vida num caos ainda maior do que aquele em que eu já vivia antes, sua voz era reconfortante, e uma parte de mim queria muito acreditar que ela viera para nos ajudar. Queria acreditar que eu tinha uma família além da vovó - uma família de verdade, do tipo em que as pessoas se preocupam umas com as outras, como eu via em outros lugares. - Boa noite - murmurei finalmente. Um pouco mais tarde, antes de adormecer, olhei para Prairie. Ela não estava mais deitada de costas. Estava deitada de lado, apoiada sobre um cotovelo, olhando para a maçaneta. Fechei os olhos outra vez. Pouco depois, um grito interrompeu meu sonho.


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Capítulo 11 O grito soou do outro lado da porta do meu quarto, e a voz era da minha avó. Prairie saltou sobre mim, cobrindo minha boca com a mão. Antes que eu pudesse protestar, ela se inclinou e sussurrou: - Quieta. Leve Chub para o closet, feche a porta e fique lá dentro. Não saia. -Mas... - Vá, Hailey. Por favor. Chub tinha o sono pesado - quando dormia, nada o acordava. Eu o peguei do berço, o que exigiu um certo esforço, porque ele havia crescido demais, e o aninhei com a cabeça perto do meu pescoço, sentindo sua pele quente e úmida. Olhei para trás, mas Prairie havia sumido; a porta do quarto estava entreaberta. Meu coração batia acelerado enquanto eu caminhava para o closet. Arranquei algumas roupas dos cabides e as joguei no chão, depois deitei Chub sobre elas, cobrindo-o com um suéter que ajeitei como se fosse um cobertor. Beijei seu rosto infantil e saí do closet, fechando a porta quase completamente. Quando atravessava meu quarto, ouvi um homem gritar: "Pare aí!" Depois ouvi dois estalos e a voz de Prairie falando bem baixo, dizendo palavras que eu não conseguia entender. Eu precisava descobrir o que estava acontecendo. Não estava preocupada com minha avó, não exatamente, mas tinha de saber que tipo de problema Prairie trouxera com ela. Caminhei pelo corredor na ponta dos pés, com as costas apoiadas à parede, e parei escondida atrás dela de forma a poder enxergar a cozinha e a sala.


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O que vi me fez parar de respirar. Havia um homem alguns passos além da porta, apontando uma arma para minha avó e para Prairie. Era um dos homens que eu vira sair daquele carro parado perto de casa - reconheci seu paletó cinza e o cabelo grisalho e curto. Vovó estava sentada em sua cadeira habitual perto da mesa, e compreendi pela trilha de baba que ainda molhava um lado de seu rosto que ela dormira sentada, como às vezes fazia. Ela piscava muito e ajeitava o cabelo num gesto nervoso. Prairie estava parada atrás dela, imóvel. Dun continuava no mesmo lugar em que eu o vira pela última vez, caído sobre a mesa, mas um pequeno detalhe mudara: agora uma poça de sangue se formava sob sua boca. Ele havia levado um tiro. Prairie parecia furiosa. Quis fazer algum sinal para ela, mas sabia que não conseguiria sem chamar a atenção do homem armado. - Você - ele disse com tom calmo, firme. - Velha. Deite-se no chão. Deite-se de bruços com as mãos estendidas para os lados. - Você não devia... - minha avó começou a protestar. De repente senti um forte cheiro de urina e soube que ela havia molhado a calça. Um movimento atraiu meu olhar para o canto da cozinha. Quando minha consciência interpretou o que eu vira, compreendi que Rattler se havia escondido atrás do refrigerador. Mas... por quê? Ele estava ajudando o homem armado? Antes que eu pudesse concluir a reflexão, outra arma apareceu na mão de Rattler e houve um lampejo, um brilho de metal, e a faca de cozinha da vovó apareceu enterrada logo abaixo do ombro do outro homem . Eu gritei. Tentei gritar, pelo menos, mas o som que emiti foi mais uma exclamação abafada. - Afaste-se daqui, Hailey - Prairie gritou no mesmo instante em que Rattler soltou o cabo da faca. Ele nem esperou o homem cair, jogando-o no chão da cozinha com um empurrão sem tentar tirar a faca cujo cabo podia ser visto em meio ao sangue que cobria seu peito. Em seguida, Rattler olhou para Prairie.


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- Pegue Chub - Prairie gritou. - Agora! Fuja! Eu me virei e corri para o meu quarto. Peguei Chub do closet - ele nem se mexera desde que eu o deixara ali. Ouvi um estrondo na cozinha e o barulho de vidros se quebrando. Olhei para a janela, pensando em pular com Chub - eram só alguns metros até o chão, nós sairíamos vivos e inteiros - mas percebi que sem Prairie, e sem o carro dela, não iríamos muito longe. Jamais escaparíamos. O caminho pelo quintal para o bosque era longo, e não teríamos como nos esconder na fuga. E... eu não queria deixar Prairie. Enquanto eu ia para o corredor houve outro estrondo, e um homem gritou "Afaste-se", e eu parei pouco antes do final da parede e espiei novamente a cena, dessa vez segurando Chub em meus braços. Dun havia caído da cadeira para o chão, deixando uma mancha de sangue na mesa. O homem com a faca no peito estava sentado ao lado dele, fazendo barulhos horríveis enquanto tentava continuar respirando, as mãos cobertas de sangue segurando o cabo da faca. Um segundo homem estava parado na porta e apontava uma arma para Rattler - era o outro homem do carro, um pouco mais baixo que seu parceiro, com cabelos e olhos negros e um paletó preto. Eu o vi entrar na cozinha passando por cima de um amontoado de madeira quebrada e cacos de vidro, resultado da porta arrombada, e colocar-se exatamente entre Prairie e Rattler. Por um segundo tive a idéia absurda de que ele estava protegendo Prairie, de que eles haviam ido à nossa casa para nos salvar de Dun, Rattler e minha avó, mas então o homem falou com os olhos fixos em Rattler, que se ajoelhava lentamente e erguia as mãos no ar, aparentemente tão amedrontado quanto surpreso. - Deite-se de bruços, braços estendidos, ou serei obrigado a atirar - ele avisou, e Rattler obedeceu. Vi Prairie deslizando as mãos sobre o balcão atrás dela, encontrando um copo, um prato sujo, um pacote de salgadinho. Percebi que a torradeira estava fora de seu alcance, mas por muito pouco. Quis gritar para ela agarrá-la e jogá-la contra o invasor, acertá-lo na cabeça, mas não conseguia falar, e apertava Chub com tanta força que ele choramingava com o rosto escondido em meu pescoço. Não sabia se devia voltar ao quarto e arriscar o salto pela janela, afinal, ou se tentava ajudar Prairie. Antes que eu conseguisse decidir, vovó empurrou a cadeira para trás e tentou se levantar.


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- Parada, dona - disse o homem. - Para o chão como o seu amigo, braços abertos. Mas minha avó se atirou contra ele, o cabelo grisalho e despenteado colado no queixo molhado de baba, as mãos se movendo no ar como se fosse difícil manter o equilíbrio. - Mas sou eu quem... - Para o chão! - ele gritou, levantando um braço na direção dela. Pude ver o que ia acontecer uma fração de segundo antes do tiro ecoar na cozinha, porque minha avó continuava investindo contra o desconhecido, indo na direção dele. E não foi um só tiro - foram dois, um depois do outro, quase um eco, e enquanto minha avó ainda era jogada para trás pelo primeiro disparo, o segundo abriu um buraco sangrento em suas costas. Nesse momento Rattler se levantou do chão com grande agilidade, tendo se apoderado da arma do primeiro atacante. O atirador demorou mais que minha avó para cair. Rattler o atingira na lateral do corpo, mas não parecia ser um ferimento grave. Ele cambaleou, levando as mãos à ferida e tentando aspirar uma grande quantidade de ar. Rattler não teve mais paciência com ele do que havia demonstrado com seu parceiro, e o atingiu bem embaixo do queixo com o cabo da arma. O homem caiu ouvindo o som da própria mandíbula quebrando. Houve um segundo de silêncio absoluto. Eu analisava o cenário, minha avó deitada de costas com os olhos abertos e sem foco, Dun caído perto dos dois homens que Rattler havia ferido. E no centro de tudo, Rattler: Se eu havia sentido medo de seu olhar no passado, agora aqueles olhos eram dez vezes mais assustadores. Ele baixou a arma muito lentamente, e o revólver pendeu de seus dedos como se fosse cair a qualquer momento. - Senhoras - ele disse, como se testasse a própria voz. - Fui muito descuidado. Isso é o que mereço por ter duvidado de mim mesmo. Não vai se repetir. Prairie, acho que vamos usar seu carro. - Não vamos a lugar nenhum com você - Prairie respondeu. Rattler balançou a cabeça. - Prairie, não fique nervosa. Não vou fazer nada além de levá-la para algum lugar onde possa vigiá-la. Os olhos dela se estreitaram, e vi neles um medo renovado. Não podia acreditar que existia alguma coisa pior que aquilo - quatro pessoas caídas no chão em meio a um mar de sangue, Rattler nos ameaçando com uma arma - mas de repente Prairie parecia mais apavorada


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que antes. Foi o medo dela que me fez entrar em ação, finalmente. Lembrei que havia uma tesoura na cozinha, dentro de um pote onde ficavam também as espátulas e colheres de pau ao lado da pia, e corri naquela direção, pensando que, se Rattler atirasse contra mim, pelo menos ele não conseguiria atingir Chub. Esperei pelo impacto da bala quando agarrei a tesoura, batendo com a lateral do quadril na quina da bancada. Gemi de dor no mesmo instante em que ouvi o disparo, mas ... Eu estava ferida? Prairie estava ferida? Girei sobre os calcanhares e Rattler havia desaparecido. Eu estava intacta. Prairie também estava ilesa. - Agora, Hailey, agora! Ouvi o grito de Prairie e não precisei de mais nenhum incentivo. Chub chorava em meus braços, se debatendo apavorado. Deixei a tesoura ali mesmo e corri, segurado-o com força. Segui Prairie para a porta, pisando sobre os cacos de vidro, escorregando no sangue e correndo pelo quintal na direção do carro. Rascal estava parado no meio do quintal. Seus olhos brilhavam iluminados pela luz da lua. Era uma imagem sinistra, e não consegui entender como ele continuava tão calmo quando havia estranhos dentro de casa, invasores armados tentando nos matar. Por que ele não havia atacado os desconhecidos, por que não latira e tentara mordê-los, por que não reagira com a agitação que demonstrava quando perseguia um esquilo ou um coelho?


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Fuga Mas eu não tinha tempo para pensar nisso agora. - Prairie, preciso pegar Rascal! - Eu gritei. Deixei Chub em seus braços, e ela o pegou abrindo a boca para protestar, mas não lhe dei tempo para dizer nada, porque já corria para ir pegar o cachorro. Enrijeci todos os músculos das costas, esperando pelo impacto de uma bala enquanto corria de volta para o automóvel, mas nada aconteceu. Rascal era quente e macio em meus braços, e não protestava por ser carregado daquela maneira nada cerimoniosa. Quase o derrubei quando abri a porta do carro, e quando o coloquei no chão entre o banco traseiro e o encosto do banco dianteiro, notei que ele quase caiu. Prairie já havia colocado o cinto de segurança em Chub, e ele parecia estar bem preso ao banco, pelo menos por algum tempo. Ela se sentou no banco do motorista e ligou o motor, e eu quase não tive tempo para pular no assento traseiro com Rascal e Chub antes de as rodas entrarem em movimento. Ela acelerava como se pretendesse romper a barreira do som, superar a velocidade da luz, como se quisesse colocar a eternidade entre nós e o desastre de minha antiga vida.


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Capítulo 12 Entramos na estrada escura ao som dos pneus rangendo no asfalto, e Prairie moveu o volante duas ou três vezes de um lado para o outro, derrapando antes de recuperar o controle do automóvel. Alguma coisa não estava certa com Chub. Seus gritos se tornaram soluços e eu senti uma umidade crescente em sua perna. Toquei o tecido quente e molhado de sua calça, e quando o apertei ele gritou. - Oh meu Deus, Chub está ferido... Antes que eu pudesse concluir a frase, Prairie pisou no breque e foi para o acostamento. Havíamos percorrido apenas alguns metros da estrada, mas ela parou o carro e acendeu a luz de emergência, virando-se no banco para olhar para mim. - Dê-me o menino - disse com tom autoritário, baixo e urgente. Eu estava aterrorizada e não sabia o que mais podia fazer, por isso levantei seu corpo pesado com os pés voltados para frente, e o ouvi chorar e tossir ao mesmo tempo. Meus músculos protestavam contra o esforço, mas Prairie me ajudou puxando-o para frente. Ela esticou a perna de Chub com cuidado, exibindo uma mancha de sangue que era negra à luz fraca do interior do veículo, e o que ela fez em seguida me deixou sem fôlego. Ela deslizou os dedos pela perna de Chub, para cima e para baixo, até interromper o movimento e abaixar a cabeça. E então ela cantou... Só precisei ouvir algumas palavras para saber que ela repetia os versos das páginas que eu encontrara no esconderijo de minha mãe. Não levou muito tempo - apenas dez ou quinze segundos - e enquanto Prairie murmurava os versos com uma voz suave e cadenciada, Chub se aninhou e suspirou, e finalmente ficou quieto. Ela então removeu a mão de sua perna. Cuidadosa, Prairie levantou a perna da calça do menino


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e deslizou a ponta dos dedos por sua pele, e depois cobriu a perna roliça com a calça novamente. - Agora ele está bem - disse. - Ele vai ficar bem. Ela se virou para me devolver a criança, e eu acomodei Chub em meus braços. As mãos pequeninas encontraram meu pescoço e ele se aninhou confortável. Senti os longos cílios roçando meu rosto. Toquei a perna dele, o sangue pegajoso que já começava a secar e endurecer e o buraco aberto no tecido - e embaixo dele, a pele perfeitamente lisa. - Veja se consegue colocá-lo no cinto de segurança outra vez - Prairie sugeriu, ligando o automóvel e voltando para a estrada, ganhando velocidade assim que os pneus deixaram o cascalho do acostamento e encontraram o asfalto. Íamos para o leste, e eu ainda tentava prender o cinto em torno de Chub quando passamos pelo Bargain Barn, pelo KFC, pela velha igreja batista Peace Angel, que haviam tentando transformar em restaurante durante um tempo, e que agora era simplesmente nada. - O que acabou de acontecer? - eu finalmente perguntei quando consegui deixar Chub relativamente seguro. - O que foi que você fez? Mas eu já sabia qual era a resposta, e estava apenas tentando controlar minha histeria. Era o que eu havia feito com Milla. O que eu fizera com Rascal. Prairie ficou em silêncio por um momento, dirigindo em alta velocidade pela periferia da cidade, passando por uma seqüência borrada de caixas postais, garagens abertas e casas em variados estados de conservação. Finalmente, ouvi quando ela inspirou profundamente e deixou o ar sair lentamente, e quando ela falou sua voz soou calma como naquela primeira vez que a vi sentada à mesa da cozinha de casa. - Sou uma curadora - ela disse. - E você também é. Está no nosso sangue. Eu sabia que era verdade, mas ainda assim as palavras dela me causavam espanto. Eu ainda não havia dado um nome àquilo. - Eu sou... isso não é ... - Sei que você curou Rascal- Prairie disse com tom gentil. Senti meu rosto ficar quente. Pensei em negar tudo, mas não parecia haver muito sentido nisso. Prairie já sabia. E de certa forma, eu queria mesmo que ela soubesse. Tinha necessidade de que mais alguém entendesse. - Ele foi seu primeiro? - Prairie perguntou depois de algum tempo. - Hm.


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Olhei pela janela para a paisagem que passava voando, os celeiros e galpões escuros que se erguiam dos campos como sombras. E quase não contei a ela. Mas então comecei a falar. Contei a ela sobre o acidente com Rascal, sobre o sangue, os terríveis ferimentos no corpo do animal, como havia sido a sensação de carregá-lo para casa, de aproximar meu rosto do pêlo macio... a urgência, a energia intensa que brotava dentro de mim e fluía por meus dedos para o corpo quase sem vida. Falei também. sobre Milla, sobre como quase nem me lembrava de ter corrido para perto dela, contei sobre as palavras ecoando em minha cabeça, sobre a Sra. Turnbull me jogando no chão, e como meus sentidos haviam retornado com um repentino formigamento. Falei sobre ter visto Milla recobrar a consciência e vomitar - e sobre como ela estivera bem desde então. - O dom é forte em você - Prairie comentou quando terminei meu relato, a voz expressando certa admiração. - Nunca ouvi falar sobre alguém ser capaz de fazer tudo isso sem orientação de outra pessoa. Sua mãe e eu praticávamos com Mary durante horas seguidas, em segredo, escondidas de Alice, mas levamos meses até podermos usar nosso dom. - Mas Milla diz que fomos amaldiçoadas - respondi, sentindo que uma onda quente invadia meu rosto. - E que somos malucas. - Não - Prairie me corrigiu com firmeza. - Você tem um dom, Hailey. Pode fazer algo que outras pessoas não são capazes de fazer. Aquilo me fez sentir um pouco melhor. Há poucos dias eu acreditara que havia algo de errado comigo, mais uma diferença entre mim e os outros garotos da minha idade, mas agora Prairie me fazia crer que isso era algo de que eu devia me orgulhar. Porém, a conversa não mudava os fatos: fugíamos de assassinos armados, deixamos para trás uma cozinha cujo piso estava coberto de sangue, e minha avó havia morrido. - Quem eram aqueles homens? Eles invadiram nossa casa porque sou uma Curadora? Era minha culpa? - Aqueles homens eram... profissionais. - E o que isso significa? Quer dizer que eram pistoleiros? - Digamos que eram... investigadores treinados. Acho que é esse o nome. Eles são


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assassinos quando é necessário, mas não acredito que seja esse seu principal objetivo. Prairie estava muito calma. Isso fazia meu pânico crescer ainda mais. - O que eles queriam? - Tenho certeza de que estavam atrás de você, Hailey. - De mim? Por que eles estariam atrás de mim? - Porque você é uma Curadora. - Mas como eles sabem disso? Se eu mesma acabei de descobrir... Prairie suspirou. - Essa é uma longa história. Eu trabalho para um homem... não é um bom homem, embora eu não soubesse disso até recentemente. O nome dele é Bryce Safian. Nós fazíamos pesquisa em um laboratório na periferia de Chicago. Tentávamos descobrir como usar meus dons de cura, como replicá-los para que pudessem ser usados no combate a várias doenças. - Como assim, vocês queriam transformar pessoas normais em Curadores? - É mais ou menos isso. Fizemos uma análise completa do meu genoma e o comparamos a uma população controle para isolar o elemento que determina o dom. O passo seguinte teria sido descobrir como usar um processo especial para modificar o DNA de uma pessoa qualquer para torná-lo parecido com o meu. - Sempre pensei que essa conversa toda de DNA fosse... -Tentei lembrar o que havia aprendido nas minhas aulas de ciências no início do ano, e lamentei não ter prestado mais atenção. - Pensei que essas coisas ainda não estivessem bem entendidas. Que fossem ainda um grande mistério. - Sim, isso certamente é verdade em grande parte, mas Bryce é muito bem fundamentado. Tivemos acesso a pesquisas recentes. Tínhamos um laboratório, equipamento, uma equipe de cientistas. Estamos muito adiantados. - Mas isso tudo soa como uma coisa boa. Não é motivo para matar alguém. - Sim, mas... Bryce tinha outros planos. Outras idéias sobre o que fazer com os resultados da pesquisa quando conseguíssemos isolar o gene do Curador, para colocar a


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situação em termos simples. - O que quer dizer? - perguntei, sentindo um arrepio desconfortável. - Ele... havia encontrado um jeito de usar o gene da Cura na indústria de guerra. Em um ambiente de batalha. - Como assim, para curar soldados feridos? Para fechar ferimentos e permitir que continuassem lutando? - É... mais ou menos isso - Prairie respondeu hesitante. - A questão é que ele estava disposto a vender a pesquisa, os resultados que obtivéssemos com ela, pela oferta mais alta. E não se importava com quem seria o comprador, desde que pagassem bem. As palavras dela penetraram minha mente, e o arrepio que me percorria ganhou intensidade. - Quer dizer que ele venderia o trabalho... para outros países? - É possível - Prairie confirmou em voz baixa. - Para quem se dispusesse a pagar. - Mas ainda não entendo por que ele precisa de mim. Se já havia descoberto como conseguir o que queria usando toda a pesquisa que vocês fizeram... - Não é tão simples. Não se pode de codificar realmente o DNA sem uma população, mais de uma pessoa, e Bryce estava desesperado para encontrar outro sujeito. Então ele me investigou, e descobriu coisas que nem eu mesma sabia. - Ela sorriu para mim, um sorriso pálido, triste. - Como, por exemplo, que tenho uma sobrinha, alguém que podia ter o mesmo dom. - Então ele mandou aqueles homens para me espionar, os homens que estavam na casa da vovó - deduzi. - Deve ser isso. Eles estavam me seguindo. Eu os vi fora de casa uma manhã, e os vi mais tarde na cidade, falando com as pessoas. - Sim, acho que foi isso que aconteceu. Bryce deve ter contratado alguém em Chicago para descobrir tudo sobre o meu passado. E quando descobriram que eu usava uma identidade falsa, eles acabaram desvendando, de alguma forma, quem eu realmente era. Quem realmente sou. E quando chegaram em Gypsum... bem, foi só uma questão de conversar com as pessoas certas. Sabe como são as cidades pequenas, todo mundo sabe tudo sobre todo mundo. E se


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ofereceram dinheiro... - Todo mundo fala por dinheiro - eu concluí. As pessoas em Gypsum normalmente desconfiavam de forasteiros, mas se havia dinheiro envolvido, provavelmente não era necessário ter um grande poder de persuasão para fazê-los falar tudo que sabiam. - Mas ninguém sabia sobre a Cura. Quero dizer, nem eu mesma sabia antes de... eu não sabia que tinha isso em mim. - Bryce devia saber que o dom é hereditário, porque eu contei a ele - Prairie explicou com tom culpado, arrependido. - O que eu nunca imaginei é que ainda restasse alguém. Quero dizer, alguém além de Alice, e ela não tem o dom da cura. - Então, se seu chefe sabia que vovó era fraca, que ela não tinha o dom... - Por isso os homens que ele mandou não pensaram duas vezes antes de matá-la. Ela era inútil para eles. Porque o que realmente queriam era você. - Então eles vieram aqui e... não acredito que alguém em Gypsum nos tenha apontado por um punhado de dólares. - Senti a amargura crescer dentro de mim, quente e intensa. - Duvido que alguém tenha imaginado onde isso ia acabar. Aqueles homens são profissionais, Hailey, devem ter chegado aqui com uma história convincente, uma mentira persuasiva que conquistou a confiança das pessoas. Além do mais, o dinheiro que Bryce deve ter oferecido... Bem, aposto que foi uma quantia irresistível. - Seu chefe tem tanto dinheiro assim? - Ele tem mais do que você pode imaginar, Hailey. - Prairie respondeu com tom neutro. - Então, se ele é tão rico e poderoso, como você conseguiu escapar? Quero dizer, como chegou aqui sem ser detida por ele? Prairie me olhou com uma expressão perturbada. Mesmo tendo apenas a luz pálida do painel para iluminar seu rosto, pude ver nele as linhas de preocupação que se uniam aproximando as sobrancelhas. - Um homem pode ser... genial em alguns aspectos, e completamente estúpido em outros. Bryce era meu amante, Hailey. E embora ele tenha conseguido me enganar por muito tempo sobre quem realmente era... acho que havia alguns aspectos nos quais ele também não


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me entendia realmente. - Estava apaixonada por ele? - perguntei horrorizada. - Eu achava que sim. Mas quando compreendi o que ele pretendia fazer, bem, vamos dizer que recuperei a lucidez rapidamente. Tão depressa que consegui pensar em um plano para encontrar você antes de eles chegarem aqui. Eu o convenci de que achava uma grande idéia procurar você, envolvê-la no nosso trabalho. Fingi que não sabia nada sobre a parte sombria de seus planos. Disse a ele que precisava de um dia para comprar algumas coisas para você, para o seu... quarto ... o quarto que ele já havia preparado para acomodá-la no laboratório. E em vez disso, naquela manhã dirigi como uma louca para chegar à casa de Alice, rezando para encontrá-la antes de ele dar a ordem para que você fosse capturada. - Mas eu vi aqueles homens há três dias, antes de você chegar. Por que eles esperaram até hoje à noite para tentar me pegar? - Meu palpite é que eles não podiam agir sem a autorização de Bryce. E que estavam tentando encontrar um jeito de levá-la sem chamar muita atenção, sem envolver a polícia, de preferência. Bryce não ia querer esse tipo de problema. - Então... como ele deduziu que você havia fugido? Prairie suspirou, um suspiro longo e triste que pareceu enfraquecê-la. - Não creio que ele tenha percebido. Bryce é tão... confiante, que não acho que tenha pensado que eu poderia contrariar sua vontade. Mas os homens que ele comanda devem ter me seguido até a casa. Devem ter reconhecido meu carro - fui desleixada, não imaginei que Bryce teria fornecido a eles esse tipo de detalhe. E assim que eles relataram o que viram aqui, Bryce deve ter dado a autorização para irem atrás de nós. - Oh. - Pensei nos dois homens arrombando a porta da nossa casa. Em como era ter uma arma apontada em sua direção. Na aparência dos corpos mortos. Não conseguia acreditar que havíamos sobrevivido. Que escapamos de um ataque de assassinos profissionais e estávamos vivas. Vovó não sobrevivera. Ela estava morta. E pelo que eu havia visto na casa, Dun também podia estar morto. Ou os dois atacantes. Vasculhei minha mente para verificar se havia algum tipo de luto, se estava abalada com a morte de minha avó e ainda não percebera. Mas só encontrei o vazio. Se algum dia eu havia amado minha avó, esse amor morrera há muito tempo. Agora tudo que eu sentia era alívio. Alívio, e horror por todo aquele sangue que vira jorrar e cobrir o chão da nossa cozinha, horror por como os olhos abertos olhavam para o nada, pela faca no peito daquele homem, seus dedos tentando agarrar o cabo e remover a arma que


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lhe roubava a vida. Para não ficar focada nessas imagens, eu me virei no assento para olhar para Chub. Ele dormia tranqüilo, e eu afaguei seus cabelos macios, ajeitando-os sobre a testa morna. E como eu estava virada de lado, os faróis que surgiram repentinamente atrás de nós cortaram meu campo de visão. Eles surgiram do nada - num minuto tudo era escuridão atrás do Volvo, e no instante seguinte dois raios paralelos de luz iluminavam a estrada, a distância entre esse carro e o nosso reduzindo rapidamente. O outro automóvel devia estar nos seguindo há algum tempo, mas, no escuro, eu não percebi, e sabia que Prairie também não havia notado. Era um grande carro preto, e estava seis ou oito metros atrás de nós, se aproximando rapidamente. - Segure-se - Prairie avisou. - Agora! Eu me segurei. Não enxergava nada do veículo que nos seguia, porque seus faróis me ofuscavam, mas agarrei o encosto do banco da frente com a mão direita, apertando-o com força para me apoiar. Prairie pisou fundo no acelerador e fomos lançadas para frente como um raio. Ouvi o motor do Volvo gemendo, cedendo à exigência de mais potência, mas as luzes do outro carro iam ficando mais e mais brilhantes na medida em que ele se aproximava de nós. De repente, Prairie girou o volante para a esquerda, para a faixa de ultrapassagem, e pisou no breque com tanta força que os pneus cantaram no asfalto, certamente deixando no chão um rastro de borracha. Ela tentava se manter na estrada, e houve um forte solavanco quando o veículo que nos perseguia tocou de raspão o pára-choque traseiro. Fui jogada para frente e bati com a testa no encosto de cabeça do banco do passageiro, contra o plástico duro. Fui jogada novamente, dessa vez contra a porta, e senti o cinto de segurança pressionar minha clavícula quando Prairie pisou mais uma vez no acelerador, girando o volante freneticamente, manobrando o carro e descrevendo um semicírculo no meio da estrada, voltando na direção de onde viemos. Como? Essa era a única palavra que ecoava nos meus pensamentos, e acho que cheguei a abrir boca para pronunciá-la, mas não disse nada. Meu rosto doía, e eu sentia o sangue escorrendo morno do meu nariz. Percebi que o havia batido contra o plástico duro do encosto de cabeça do banco da frente, mas estava assustada demais para me preocupar com isso. . - Segure-se novamente - Prairie ordenou, e eu me segurei enquanto verificava se Chub estava bem. Ele estava acordado, e parecia surpreso com seus olhos muito abertos e brilhantes, uma das mãos fechadas esfregando a boca - mas o cinto de segurança o mantinha no lugar, e ele não se machucara. Agora eu conseguia ver mais do carro que nos perseguia, e que era


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manobrado no meio da estrada para vir atrás de nós. Uma das rodas saiu da estrada para o acostamento, girando em falso sobre o cascalho antes de impulsionar o veículo de volta à pista, atrás de nós. Meus dentes se chocaram uns contra os outros quando Prairie girou o volante outra vez, e nós saímos da estrada, cortando um campo de canteiros baixos - alfafa, talvez, ou morangos. O carro passava por cima dos arbustos e o barulho era ensurdecedor. Prairie dirigia em alta velocidade, atravessando a área plantada sem tirar o pé do acelerador. O outro automóvel tentava nos seguir, mas o motorista não se importava em manter as rodas em contato com a terra, entre as fileiras de vegetação. Percebi que eles cometiam um erro: tentavam cortar caminho e seguir em linha reta, em vez de acompanhar os ângulos que Prairie desenhava. Em alguns trechos a folhagem era muito alta, e o automóvel tinha de passar por baixo dela. Tínhamos uma chance. Prairie aumentou a distância entre nós e o outro carro quando o motorista estava quase perdendo o controle, se chocando contra galhos baixos e encontrando saliências de terra que atingiam diretamente os eixos das rodas. Eu me inclinei para frente para dizer alguma coisa. Não sei o que era exatamente, e minhas palavras morreram nos lábios quando percebi que ela nos conduzia diretamente para uma estrutura alta recortada contra o céu escuro, um velho celeiro com teto arredondado. - Prairie - consegui gemer aterrorizada. Estendi a mão para ela - não sei bem com que intenção, virar o volante, talvez, tentar nos desviar da rota de colisão que nos mataria - mas ela falou primeiro, exatamente quando uma nuvem encobriu a lua e tudo ficou ainda mais escuro, deixando apenas a luz dos nossos faróis cortando o campo à nossa frente. - Confie em mim, Hailey.


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Capítulo 13 Acho que eu não confiava nela. Fechei os olhos com força e agarrei a mão de Chub. Se íamos morrer, eu queria estar com ele quando isso acontecesse. Fui arremessada para frente mais uma vez quando Prairie pisou no breque, reduzindo a velocidade do Volvo antes de atingirmos o celeiro. E então batemos. O Volvo foi sacudido pelo forte impacto e, apesar do solavanco me fazer sentir a pressão do cinto de segurança, soube imediatamente que o celeiro não havia parado o automóvel. Nós nos chocamos contra a estrutura a uma velocidade de cinqüenta quilômetros, mais ou menos, e as grandes portas de madeira se romperam e foram jogadas para o interior, e Prairie pisou no freio mais duas vezes, enquanto eu tinha a impressão de estar percorrendo um túnel escuro no interior do celeiro, um espaço cheio de ângulos malucos e vigas altas, o ar cheio de fagulhas de feno girando à luz dos faróis. Identifiquei baias vazias dos dois lados, e quando Prairie continuou dirigindo para o outro lado do celeiro até se chocar novamente, o impacto foi como o primeiro, barulhento e destruidor, com madeira voando em todas as direções. Não me contive e gritei: - Prairie, o que você... - antes de ela girar o volante uma última vez para a esquerda. Senti as rodas passando por cima de pedras e raízes, o motor rangendo alto, os solavancos. Tudo durou dois ou três segundos, até Prairie parar o carro e desligá-lo. Fomos cercadas imediatamente pela escuridão e pelo silêncio. - O que está... - Tentei falar, mas ela se virou no assento e cobriu minha boca com a mão, olhando pelo vidro de trás. Eu também olhei para trás ao ouvir o ronco do motor do carro que nos perseguia. Ele passou pelo buraco aberto por Prairie na porta do celeiro, mas em velocidade superior à nossa, passou como um raio pelo nosso automóvel, e de repente decolou, as rodas da frente saindo do chão. Por um momento tive a impressão de que ele ia mesmo voar, mas no segundo seguinte a parte da frente descreveu uma curva descendente, e a parte de trás saiu do chão.


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Tudo parecia acontecer em câmera lenta, a parte de trás passando por cima da frente do carro antes de desaparecer num abismo escuro. Houve um estrondo horrível, um clarão assustador, uma bola de fogo na noite, e uma série de ecos menos intensos. - Para onde ele foi? - perguntei, esquecendo de falar baixo. Talvez eu tenha gritado. Chub começou a chorar. Mas Prairie já soltava seu cinto de segurança. - Saia do carro - ela ordenou. - Agora! Pegue Chub. Não precisei de uma segunda ordem - mas quando me virei para ele, vi que Chub havia sido jogado para fora da contenção do cinto de segurança, e estava no chão do automóvel com Rascal. Ele emitia uns sons curtos e sufocados, como se tentasse chorar e não conseguisse. Eu o segurei, e quando toquei seu braço ele gritou. Meus dedos sentiram o osso pontiagudo fora da pele. Apavorada, levei Chub para fora do carro com todo cuidado possível, e a luz da lua me permitiu ver que ele havia fraturado o braço logo acima do cotovelo. Meu coração ficou apertado, e os gritos de Chub tornaram-se ainda mais agudos com a dor. - Ele está ferido, ele está ferido - gritei para Prairie. Ela se aproximou correndo e estendeu os braços para pegá-lo, mas eu o segurei com força ainda maior. - Posso curá-lo - disse Prairie. - Não. Eu faço isso. - Mas você está só começando, ainda não está preparada... - Eu preciso curá-lo - insisti. Meus dedos já se fechavam em torno do ferimento, tomando cuidado para evitar a saliência do osso fraturado, tocando com delicadeza a pele quente de Chub. Por um momento Prairie nada disse, mas nosso olhar se cruzou e havia quase um brilho à nossa volta, uma energia que ligava nós três. - Tudo bem - ela concordou finalmente.


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Fechei os olhos por um momento e reduzi a velocidade dos meus pensamentos, esvaziei a mente, e logo senti a energia começando a fluir de mim para Chub. "Tá mé mol seo ...” Prairie murmurou o início do verso, e eu me juntei a ela, movendo os lábios para formar as palavras que soavam familiares como se eu as pronunciasse desde sempre. Minha voz e a dela se misturaram até serem uma só, e sob meus dedos eu senti a pulsação de Chub ficar mais lenta e estável, e depois seus gemidos enfraquecerem até ele ficar quieto. A carne cortada se fechou sob meu toque, e senti os ossos se movendo e emendando. Passei a ponta dos dedos pela pele macia e senti a cicatriz onde ela se reparara, mas até esse sinal desapareceu em segundos. - Eu o curei - disse fascinada. - Sim. Havia uma espécie de espanto na voz de Prairie. - Você é uma curadora de verdade, Hailey, é natural em você. Até sua mãe teve de trabalhar e se esforçar muito, e ela era duas vezes mais eficiente do que eu jamais serei. Mas você... você é algo ainda mais raro. Em meio à confusão mental provocada pelo esforço para curar Chub, ouvi o carro preto queimando e estalando no que eu agora sabia ser o leito seco de um rio. O terreno atrás do celeiro descia até o rio, que se abria de repente. As margens haviam sido cavadas pela água corrente durante um ano de cheia, criando abismos verticais que, em alguns pontos, tinham muitos metros de profundidade. - Temos de ir - disse Prairie, segurando meu braço e me puxando para longe do Volvo e do celeiro parcialmente destruído, para longe dos destroços do carro preto. - Chame Rascal. Só então notei que ele estava sentado ao lado do carro. Não parecia assustado, nem mesmo interessado na comoção. - Vamos, garoto - chamei, e ele se levantou sem nenhuma hesitação para nos acompanhar. Olhei para trás, para o local do acidente, e me perguntei se os homens que estavam no automóvel haviam sobrevivido. - Não deveríamos ir ver se... quero dizer, e se eles precisam de ajuda? - Eles estavam tentando nos tirar da estrada, Hailey. Quer mesmo dar a eles uma chance de nos pegar? - Não. - Andei mais depressa para segui-la, olhando para trás para ver se nossos perseguidores saíam do automóvel.


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- Alguém logo virá verificar o que aconteceu - Prairie acrescentou. - A fumaça deve ser visível a quilômetros. Ela estava certa; a fumaça que se erguia do local do acidente formava uma nuvem feia que subia e se espalhava pelo céu estrelado. Eu me obriguei a olhar para o chão, para o terreno diante de nós; não queria tropeçar em alguma coisa e derrubar Chub. Ele já havia sido ferido e curado duas vezes naquela noite; na minha opinião, era suficiente. - Aonde vamos? Seguíamos por uma trilha escondida de vegetação baixa, um caminho que corria paralelo ao leito do rio. Eu notei que à esquerda, no alto de uma encosta, além de uma horta cercada por arame daquele usado para construir galinheiro, havia uma casa quadrada e ampla. A trilha era tão estreita que andávamos em fila indiana, com Prairie na frente, depois Chub e eu, e Rascal no fim da fila. - Estamos quase em Tipton - Prairie comentou em voz baixa. - Aquela é a casa de Burnett. - O velho Burnett? - Bem... ele não era tão velho quando o conheci. Eu conhecia seu filho mais novo. Claude. Claude Burnett. Eu já ouvira esse nome. Ele era um homem de quase quarenta anos, e as pessoas diziam que não era muito certo. De vez em quando, aos sábados, ele chegava em Gypsum vestindo uma camisa limpa que punha para dentro da calça, cuja cintura usava alta demais. O pai se apoiava nele e o apoiava ao mesmo tempo. Com certo arrependimento, lembrei que certa vez eu havia debochado de Claude. Ofereci a ele metade do chocolate que estava comendo. Ele esperava do lado de fora da farmácia, enquanto o pai comprava remédios, ou alguma outra coisa. Mostrei a ele o chocolate, e quando ele estendeu a mão grossa para pegá-lo, eu o escondi atrás das costas. - Você não pediu por favor - eu disse, adorando sentir meu coração bater forte sob a camiseta. Eu devia ter uns oito anos, e era uma grande novidade ver alguém capaz de causar ainda mais desconforto nas pessoas do que eu causava.


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- Eu o conheço - disse. - Ele era amigo de sua mãe. Ela era sempre gentil com ele. Foi sua mãe quem o ensinou a falar. - O que quer dizer? Prairie deu de ombros. - Ele não falava muito, só algumas palavras. Clover conseguiu treiná-lo para falar frases inteiras. Acho que foi um tipo diferente de cura. Eu também brincava aqui quando era pequena. Mary costumava nos trazer... há um atalho, uma trilha muito estreita - Prairie contou. - Ou havia, pelo menos. Aqui, acho que é por aqui. Ela nos guiou por outro caminho que descia até um ponto de onde eu podia ver uma série de pedras planas no leito no rio, uma sombra pouco nítida ao luar. Não precisávamos delas para atravessar, já que o leito do rio estava seco, mas pisei com cuidado para não torcer o tornozelo ao descer a margem lamacenta. Estava pensando em Claude... e em Chub, que também não falava. Chub poderia ser... curado? Daquela maneira? Prairie me conduziu até a outra margem do rio. - Agora vamos passar pela propriedade dos Ellis. Você os conhece? - Acho que não. - Os filhos deles estudaram comigo e com sua mãe... mas aqui ... sim, acho que é isso ... O caminho seguia do outro lado, uma trilha estreita e difícil que subia pela margem e se estendia na direção de um aglomerado de luzes longe dali. Quando nos aproximamos, vi que era outra casa com um celeiro e alguns galpões construídos em um terreno de algumas poucas centenas de metros. - Como soube que tinha de fazer tudo aquilo? - perguntei. - Como bateu na parte certa do celeiro e, como soube que o carro ia se chocar contra ele e passar direito, e não bater em uma viga ou baia, ou alguma coisa assim? - Sorte - Prairie respondeu, e pude quase ver o sorriso que ouvi em suas palavras. - Não acha que merecemos um pouco de vez em quando? Além do mais, Hailey, portas de celeiro são só grandes chapas de madeira.


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- Mas como conseguiu ver as portas? Eu mal consegui enxergar o celeiro. E você tinha de bater no local exato, ou... Ou estaríamos mortos. Prairie caminhava mais devagar na minha frente. - Eu lembrei só isso - ela disse com simplicidade. - Pensei em Clover... em como ela e Claude gostavam de brincar de caubói por aqui, e fechei os olhos e tentei criar uma imagem mental, localizar as portas ... - Você fechou os olhos? Eu estava perplexa. Ela sorriu para mim, e o sorriso durou só uma fração de segundo à luz pálida da lua. Bem, na hora me pareceu ser uma boa idéia. Pensar em Prairie dirigindo pelo campo de olhos fechados era assustador... e talvez um pouco excitante. Pelo menos foi isso que eu pensei que causasse aquele arrepio nas minhas costas. Prairie seguia em frente, caminhando com passos confiantes, e por um louco momento eu me perguntei se ela estava ou não com os olhos fechados. Se ela nos guiava para longe de um bando de homens armados e decididos a nos matar orientada apenas por uma sensação. Não sei por que não me sentia mais amedrontada. Era estranho, mas o pensamento quase me fazia sentir um pouco mis segura. Chub pesava tanto em meus braços que eu estava entorpecida a partir do pulso, mas pelo menos ele se acalmara, dormia novamente com sua testa quente apoiada em meu rosto. Decidi experimentar. Estendi a mão e toquei a elegante jaqueta de Prairie, e depois segurei o tecido com força e fechei os olhos, induzindo meus pés a seguiram o rastro dos dela, sentindo Rascal bem atrás de mim. Se ela notou alguma coisa, não disse nada. Ela nunca tropeçava, nem eu, e foi assim que nos aproximamos dos galpões. O celeiro dos Ellis estava em melhor estado de conservação que o dos Burnett, mas feno empilhado até o mezanino e dois tratores estacionados lado a lado, brilhando ao luar quando Prairie abriu a porta. - Fique aqui - ela disse. - Vou tentar não demorar.


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Eu nem perguntei aonde ela ia. Sentei-me no assento do trator menor - na verdade era quase uma versão ampliada de um regador de grama - e desfrutei do prazer de poder relaxar os braços, doloridos do esforço de carregar Chub, que dormia apoiado em meu peito. Rascal deitou-se ao lado do trator, ignorando os sons das criaturas abrigadas no celeiro. Antes eu tinha medo dessas coisas, ratos e morcegos. Agora até me alegrava com a companhia. Fechei os olhos e tentei examinar as emoções que iam surgindo em mim. Senti que minhas defesas começavam a desmoronar. Os últimos dias haviam sido como um filme de terror, e eu não conseguia acreditar que era parte dele, que tudo aquilo havia acontecido. Mas o sangue em minhas roupas era a prova disso. Vovó estava morta. Muitas pessoas foram feridas em nossa cozinha e no acidente de carro menos de um quilômetro distante dali. E a vida que eu levara antes - aquela vida que eu odiava tanto - ficara no passado. Era difícil entender como eu conseguira ficar calma o bastante para sobreviver às últimas horas. Talvez estivesse em estado de choque, ou simplesmente me acostumara a lidar com as dificuldades de viver com minha avó, e para isso construíra defesas mais resistentes que as que uma pessoa normal teria em uma situação como essa. Mas eu não sabia ao certo por quanto tempo poderia mantê-las. O que aconteceria se eu voltasse a me deixar incomodar pelas coisas, se me deixasse começar a sentir coisas? A idéia era aterrorizante. Eu percebi que era tão aterrorizante, pelo menos, quanto ficar sentada em um celeiro escuro, tremendo, com medo de levar um tiro. Não sei quanto tempo passei ali, mas quando Prairie voltou e disse meu nome em voz baixa, eu me sobressaltei. Devia estar cochilando. - Vamos - ela disse com tom urgente. Peguei Chub outra vez e nós a seguimos para a porta do celeiro, de onde partia uma trilha de cascalho que se estendia até a estrada. Havia ali um carro com o motor ligado, o escapamento cuspindo uma fumaça branca que subia para o céu rosado com a aproximação da manhã. Fiquei surpresa quando vi o carro esperando, mas Prairie fazia coisas. Ela conseguia coisas de que precisava. Eu não sabia exatamente como, mas, naquele momento, isso não importava. - É o carro dos Ellis? - perguntei. Ela franziu a testa, unindo as sobrancelhas. - Sim... é. Lamento que tenhamos de usá-lo, Hailey. Não vamos danificá-lo, e eles o terão de volta. Mas...


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Ela não concluiu a frase, não era necessário. Precisávamos do automóvel. Tínhamos de sair dali. Mesmo que eu não entendesse exatamente do que fugíamos, eu entendia essa necessidade. Quando abri a porta, Rascal pulou para o interior do veículo e se deitou no chão na parte traseira, e eu prendi Chub com o cinto de segurança. Estava ficando boa nisso, mas quando Prairie partiu pela trilha de cascalho na direção da estrada, ela balançou a cabeça e disse: - Temos de providenciar uma cadeira de segurança para esse menino. Em afundei no banco do passageiro e observei a casa quando passamos por ela. Os Ellis tinham uma garagem aberta, o que facilitara muito para Prairie a tarefa de tirar o carro de lá, mas ainda restavam alguns obstáculos, como destrancar a porta e ligar o motor, a menos que ela soubesse fazer ligação direta. E se ela havia feito isso, eu não queria saber. Ainda não, pelo menos. Queria pensar nela como alguém que se preocupava por Chub não ter uma cadeira de segurança. Porque se ela pensasse em Chub, ele estaria muito mais seguro. Até onde eu sabia, eu era a única pessoa que se preocupara com ele, e sabia que Chub não era uma criança fácil de amar. Ele era atrasado em muitos aspectos. Mas Prairie se preocupava com ele, e quando chegamos à estrada principal e ela pisou fundo no acelerador, senti uma profunda gratidão. Eu estava muito cansada. Ninguém imaginaria que uma pessoa que foi perseguida e atacada por atiradores, que viu pessoas morrerem, seria capaz de deitar e dormir, mas isso era o que eu mais queria, mais que tudo. Apenas dormir. Prairie não parecia tão bem. Sua expressão era fechada, pensativa, e as mãos agarravam o volante com força. - Acho que chegamos lá em sete horas - ela disse. - Seis e meia se eu me esforçar muito. - Aonde vamos? Prairie ficou em silêncio por tanto tempo que eu pensei que ela não responderia, mas ela acabou sorrindo para mim, um sorriso que pareceu exigir grande esforço. - Para casa.


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Capítulo 14 Quando acordei o sol penetrava pelas janelas do Buick, e eu precisava ir ao banheiro. - Estamos em Illinois, a caminho de Springfield. Há um Wall-Mart trinta quilômetros adiante, mais ou menos - Prairie falou. - Precisamos comprar algumas coisas... pode esperar até lá? - Hm... tudo bem. - Eu também estava com fome, mas decidi não falar nada. Por algum motivo, era como se eu não devesse mencionar. Depois de uma noite como a que tivemos quem pensa em comida? Eu. O que me causava espanto. Por outro lado, tinha a sensação de que devia me sentir pior. Como se talvez devesse estar em choque, horrorizada com tudo que havia acontecido, ou alguma coisa desse tipo. Continuava esperando a culpa me atacar, mas nada acontecia. Sentia até certa antecipação. Apesar de tudo que havia acontecido, íamos para algum lugar novo. Nunca havia deixado o Missouri em toda minha vida. Só estivera fora de Gypsum algumas vezes, em excursões da escola a Hannival e St. Joseph para visitar o local onde Mark Twain nascera e o Pony Express Museum. Mas nunca estivera em uma cidade grande. Meu estômago grunhiu novamente, e para encobrir o som eu perguntei a Prairie algo que me incomodava. - Como é possível que não soubesse que minha mãe estava grávida? Prairie ficou tensa e não olhou para mim. Ela não havia dormido nada, e o cansaço era evidente nas linhas em seu rosto, em torno da boca, e nas sombras escuras sob seus olhos.


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- Quando deixei Gypsum, eu me mudei para Chicago. Escrevia para Clover quase todos os dias - ela falou finalmente. - Eu sabia que os problemas seriam inevitáveis se Alice descobrisse que Clover sabia onde eu estava por isso disse a ela para inventar uma história, dizer que tivemos uma briga muito séria, e que ela havia jurado nunca mais falar comigo. - Por que vovó se importaria se ela soubesse de você? - Ela tinha... planos para mim. Como acho que ela fez planos para você. As palavras dela me encheram de medo. - O que quer dizer? - Você precisa pensar em quem era Alice na juventude. Ela tentou ser Curadora por muito tempo, antes de desistir. Mary me contou que Alice ficou devastada quando teve de aceitar que não tinha o dom. Ela jamais superou o fracasso, e para lidar com ele, transformou toda sua infelicidade em culpa. - Culpa? Mas quem ela culpava por isso? - Alice decidiu que o motivo de sua incapacidade era que os Tarbell haviam misturado seu sangue com o de outras famílias. Eles se casaram e tiveram filhos fora das famílias, e isso havia corrompido a linhagem, na opinião dela. - Como assim, famílias? Que famílias? - Nossos ancestrais imigraram para cá todos juntos. Os Morries, os Tarbell, todos somos descentes do mesmo vilarejo na Irlanda. - Nós somos irlandesas? - Sim. - Prairie sorriu, mas o sorriso não iluminou seus olhos perturbados. - Nossos ancestrais viveram no mesmo vilarejo por séculos. Quando chegaram aqui, recomeçaram a vida do zero. Novos nomes, novas habilidades, novas casas, mas o plano era permanecerem sempre juntos. Todos eles são conhecidos como Banidos, e são... - Espere - eu a interrompi. O que Milla havia dito? Nenhum de nós, Banidos, pode opinar ou interferir nisso. - Por que eles eram chamados assim? - Ninguém mais lembra. Quero dizer, havia todas aquelas histórias. Quando sua mãe e eu éramos pequenas, Mary nos contava histórias na hora de dormir, coisas sobre fadas, bênçãos


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e maldições. - Você não acredita nelas. - Eu... - Prairie hesitou, escolhendo as palavras com cuidado. - Não é que não acredite. As bênçãos eram reais, mesmo que eu não consiga explicá-las, mesmo que não se enquadrem muito bem no que a ciência nos diz. Os Banidos são unidos por algumas... coisas poderosas. Mary sempre me disse que nós, os Tarbell, existimos para servir aos outros Banidos, para curá-los quando precisassem de nós. Mas a história era mais que isso. As outras mulheres tinham a responsabilidade de manter o vilarejo, o povo, todos unidos depois de terem deixado a Irlanda. Por isso podemos sentir a presença uns dos outros, por isso somos atraídos uns pelos outros. Pelo menos essa é uma explicação para como me sentia quando estava perto dos Morries, mesmo que soe meio maluca. Em parte, fiquei aliviada por não ter imaginado tudo isso. Podia ser real, mesmo que fosse uma história tirada de uma fábula. - O que mais? - Bem, quando deixaram a Irlanda, todos os homens receberam o dom da visão. Podiam ver o futuro, ou ver coisas que aconteciam em outros lugares. Deveria servir para protegê-los dos inimigos, desastres, até de coisas como tempestades que podiam danificar as colheitas. - Os Morries têm visões? - Pensei nos meninos na escola, em suas expressões sombrias, zangadas, obstinadas, vazias. Todos, menos Sawyer. - Agora nem tanto. Aquele dom, aquele poder, quase desapareceu. - O que aconteceu com ele? Prairie suspirou. - Há algumas gerações, tudo começou a desmoronar. Creio que deve ter sido conseqüência de casamentos com pessoas que não pertenciam aos Banidos, isso enfraqueceu o dom. Mary disse que se lembrava da primeira Curadora destituída do dom, quando ela era pequena... Uma Tarbell que nasceu como Alice, fraca, doente e cruel. Mas ela não sobreviveu para ser adulta. Mary disse que as Curadoras mais fortes eram Banidas puras. Acho que ela ficou devastada quando uma de suas filhas nasceu... prejudicada. E Alice nunca se conformou com isso. Creio que ela sempre acreditou que se pudesse voltar à origem de seu dom, ela poderia de alguma forma curar a si mesma.


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Voltar à origem... para a Irlanda? Fiquei agitada e senti meu coração bater mais depressa quando pensei naquela passagem aérea para Dublin. - Há algo que não lhe contei - eu disse, e expliquei rapidamente sobre a pasta que havia encontrado no quarto de minha avó. Hailey franziu a testa. - Então, Alice pretendia mesmo ir. Ela costumava falar sobre isso às vezes... mas não consigo imaginar que diferença faria - não sei como ela poderia mudar alguma coisa simplesmente voltando ao vilarejo. - Se fosse possível, todos os Morries ... - ...poderiam ser reparados? - Hailey falou com tom suave.- Não é assim que funciona, Hailey. As mudanças nos Banidos são profundas, estão na base de quem somos. Eles têm medo uns dos outros. Daquilo em que se tornaram. Os homens... eles perderam o senso de moralidade, podemos dizer. Muitos deles têm vícios. Não querem trabalhar, não querem cuidar de suas famílias. - Mas nem todos são assim - eu disse, pensando em Sawyer. - Ah, definitivamente não. Ainda há homens Banidos que nascem com toda determinação e o idealismo daqueles que se instalaram aqui no início. Mas no geral... bem, acho que foi assim que o lugar passou a ser chamado de Cidade do Lixo. Certa vez vi uma foto que Mary guardava. Tinha quase um século, e não se percebia que aquela imagem era da Cidade do Lixo. Casinhas arrumadas, canteiros de flores, famílias felizes, todos bem vestidos e sorridentes. Pensei nos Morries na escola, em suas roupas sujas e remendadas, na aparência doente e mal nutrida que eles exibiam. Pensei em Milla, na combinação de fúria e medo que havia em seu rosto. - Não entendo por que eles me odeiam tanto agora. Os Morries. - É medo, Hailey. Depois que Alice nasceu... prejudicada ... eles acham que o dom se tornou uma maldição. Não acreditam que você tem realmente o poder de curar, da mesma forma que nunca acreditaram que eu e Clover o tínhamos. Eles temem que você tente curar alguém e acabe amaldiçoando essa pessoa. - Você nunca curou ninguém quando morava aqui? - Alice não permitia. Ela nos fez freqüentar a escola em Tipton, porque não queria que ficássemos perto dos Morries. Mary nos ensinou em segredo. Alice sempre disse que nos


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espancaria se nos pegasse curando. - Por quê? - Acho que é porque ela nunca superou o fato de ser prejudicada. Ela tentou curar quando era jovem... Mary me contou. E não suportava pensar que as filhas podiam fazer algo de que ela era Incapaz. - E então vocês... não curavam? - Tentei me imaginar resistindo ao impulso, agora que sabia o que fazer. - Eu... cuidava das pessoas às vezes, mas o mais comum era que eu não dissesse nada a elas. Sabe como é - uma amiga com uma marca de nascença. Outra com hematomas deixados por uma surra do pai. Seguimos em silêncio por um tempo, ambas perdidas em pensamentos. - Você conheceu seu pai? - Não, e Alice nunca me disse quem ele era. Eu nunca soube nem mesmo se Clover e eu tínhamos o mesmo pai. Eu não conseguia imaginar minha avó jovem. Não podia imaginar um homem se apaixonando por ela, tendo um filho com ela. - E seu avô? - Não. Ele morreu jovem, não muito tempo depois de Alice ter nascido, e Mary nunca falou sobre ele. Tudo que Alice jamais me contou foi que ele tinha sangue misturado. -Ele tinha? - Sim. Não havia muitos puro sangue, nem na geração passada, e o marido de Mary era parcialmente Cherokee, parcialmente alemão. - Como pode ter certeza disso? Prairie lançou um olhar rápido na minha direção, sorriu com tristeza, e voltou a olhar para a estrada. - Estudei genética quando finalmente consegui ir para a faculdade. E depois trabalhei em um laboratório. Quando Bryce me contratou, eu já havia traçado minhas origens. - Pode dizer tudo isso? Só pelo sangue? - Você se surpreenderia. Os testes são um pouco complexos, mas é possível traçar sua


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hereditariedade com precisão considerável. Pensei por um momento. - Você poderia... me testar? Quero dizer, consegue deduzir quem era meu pai? - Não como está pensando, Hailey. A menos que se esteja fazendo um teste de DNA procurando a identificação da paternidade, ou coisa parecida. Além do mais, se você está pensando na Cura, isso não tem importância. Alice estava enganada. Se o parceiro de uma Curadora for parcialmente Banido, ela vai transmitir à filha o dom da Cura em nove de cada dez casos. - E pode fazer essa afirmação a partir dos seus testes? - perguntei surpresa. - Não. Isso eu aprendi com Mary, Não é exatamente científico, mas não tenho motivos para duvidar da veracidade dessa afirmação. Mary me disse que algumas Curadoras são mais poderosas que outras, dependendo do sangue de seus pais. E de outros fatores também, dentre eles alguns que duvido que possamos um dia compreender. Como Alice... Não sei por que o dom foi corrompido nela. Eu... as vezes chego a sentir pena dela, por causa de como nasceu, com os poderes atrofiados como seu corpo, mas depois ... Ela não concluiu a frase, não era necessário. Acho que nós duas tínhamos nossas lembranças da crueldade da vovó. Sim, era possível sentir pena dela... até você lembrar quem ela era. - Então, vovó queria ter certeza de que você se casaria com um Banido - adivinhei. Para seus filhos não nascerem como ela. - É isso mesmo - disse Prairie. - Mas vai, além disso. Alice começou a sentir que era responsável por garantir a continuidade da linhagem Tarbell. Ela costumava dizer que quando eu me formasse no colégio, ela escolheria um puro sangue para mim. - E quando você foi embora... - Restou apenas Clover. E eu sempre me perguntei... Só precisei de um momento para adivinhar o que ela queria dizer. - Você acha que vovó... escolheu alguém para minha mãe. Quando percebeu que você não ia voltar. - Sim - Prairie disse com tom suave. - Acho que ela não quis esperar até Clover se


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formar. E eu acho que ela... Clover... não teve escolha, e ele ... quem quer que tenha sido ... deve ter... Enquanto Prairie se esforçava para encontrar as palavras mais adequadas, percebi porque sua dor aparecia sempre que ela falava sobre Clover. Sobre minha mãe. Vovó a sacrificou, a entregou a um dos Morries - os meninos de olhar cruel e jeito sombrio que eu conhecia dos corredores do Gypsum Hall - para garantir que ela engravidasse de um puro sangue. Para que a filha dela tivesse o legado Tarbell, para que ela fosse uma verdadeira Curadora. O horror me invadiu, fechando minha garganta e me impedindo de respirar. Eu era fruto da violação de uma menina ainda mais nova que eu. - Quando pensei em minha irmã sozinha, sem a única pessoa que se importava com ela, que podia protegê-la, meu coração se partiu. - Ela morreu no parto? - perguntei com a voz embargada. Eu precisava saber. - Oh... Hailey. - Prairie respirou fundo, preparando-se. - Não. Clover se matou. -Ela... Eu não conseguia falar. Sempre pensei em minha mãe como uma desconhecida, até conhecer Prairie. Minha avó dissera que ela era mentalmente perturbada e eu acreditara, e de alguma forma isso a tornara menos real para mim. Eu me sentia como se houvesse nascido do nada, de certa forma, como se um belo dia houvesse simplesmente aparecido na casa onde cresci. Mas agora eu sabia que havia sido diferente. - Você tinha algumas semanas de vida quando ela morreu - Prairie continuou em voz baixa. Os investigadores de Bryce encontraram os registros no gabinete do condado, e ele me contou há alguns dias. Fiquei... devastada. Pensei em como Clover deve ter se sentido amedrontada. - Como ela... você sabe. - Ela se enforcou, Hailey. No closet do quarto. Bryce encontrou os registros policiais. Meu closet. Não era de estranhar que eu me sentisse atraída por aquele espaço tão pequeno; não era de estranhar que houvesse encontrado o esconderijo secreto. Era a presença


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dela que eu sentia ali, sua tristeza. - Mas... por quê ... -Acho que ela se sentia sem alternativas. Estava envergonhada demais para me contar sobre a gravidez. E acho que ela sabia que eu teria voltado se tivesse me contado. À sua maneira, creio que ela estava me protegendo. - Mas e... - eu engoli o nó que se formara em minha garganta. E eu, pensei. Ela não se importava comigo? Não queria ter certeza de que seu bebê estava bem? - Você nunca deve imaginar que sua mãe não a amava - Prairie declarou com firmeza. Sei que Clover a amava muito, mas ela sabia que Alice a teria tirado dela, como tentou tirar tudo que ela queria. Alice a via como o futuro das Tarbell, e era com isso que ela se importava. Uma última chance para ela reparar tudo. Uma última chance para purificar a linhagem sanguínea. Você é o futuro, Hailey. - E ela não teria permitido que nada interferisse nisso. - Tenho certeza de que ela teria posto Clover na rua para impedi-Ia de criar você. Eu mal podia absorver o horror do que Prairie estava dizendo. Pensei em todas as vezes que vi minha avó cochichando e rindo com Dun Acey, em como ele me olhava com aquela expressão faminta. Seria ele o homem que minha avó havia escolhido para mim, o que me teria engravidado, o Banido puro sangue que garantiria que meu bebê fosse um Curador com o dom? Tive a sensação de que ia vomitar. Deixei escapar um som estrangulado, e Prairie me olhou alarmada. - Hailey, você está bem? Já estamos quase chegando na rampa de saída - acha que pode agüentar? - Acho que sim - respondi, engolindo em seco. - Por favor... conte-me tudo. Quero saber tudo. Como descobriu que minha mãe estava morta? O que foi que você fez? - Quando ela parou de responder minhas cartas, fiquei preocupada. Havia economizado algum dinheiro, e peguei um ônibus de volta a Gypsum para encontrá-la. Mas quando cheguei em casa ... ela não estava lá, e Alice me contou que ela se suicidara. Eu ia embora, não conseguia pensar em outra coisa que não fosse sair daqui, sair daquela casa, sair de


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perto de Alice. Mas ela me impediu. Disse que podia convencer as pessoas de que eu era culpada. Ela disse que Clover estivera falando muito sobre a briga feia que tivemos... - A briga que você sugeriu que ela inventasse? Quando escreveu para ela? - Sim. E ela disse que era melhor eu nem deixar as autoridades perceberem que eu estava na cidade, ou seria levada para interrogatório ou coisa pior. Agora entendo que ela estava só tentando se certificar de que eu nunca mais voltaria. Porque se eu descobrisse sobre você, poderia ter lutado pela custódia. E ela não queria perder você. Essa era a última peça do quebra-cabeça. Agora eu conhecia toda a história sobre por que havia crescido sem mãe. Ela não me abandonara de propósito. E se Prairie houvesse ido me buscar no passado, eu não teria Chub. Olhei para ele no banco de trás do carro, para suas faces coradas e sua boca formando um "o" pequenino e doce. Até Chub, eu havia crescido sem amor. Mas ele me dera um motivo para seguir em frente. Para continuar tentando. Prairie me salvara na noite passada, eu pensei quando alcançamos a rampa de saída da estrada, Mas Chub me salvara primeiro. Saímos da pista quase imediatamente para um imenso estacionamento. Eu estava faminta, e sabia que Chub sentiria muita fome no minuto em que acordasse. - Vamos comer aqui? Prairie fez uma careta. - Receio que sim. Tem um McDonalds no Wal-Mart. Vou comprar o que for necessário enquanto você leva Chub para tomar café e aproveita para comer. -E você? Prairie sorriu um sorriso inesperado e genuíno. - Se puder pegar uma salsinha e biscoito de ovos para mim, serei muito grata. Eu não como um desses há séculos. Ah, e pão integral, talvez. E um suco de laranja. E um café gigante, está bem? Ela pôs o dinheiro na minha mão e eu fechei os dedos em torno da nota. - Como prefere seu café? - Puro. E, Hailey, você está com alguns hematomas. Talvez seja melhor se... - Ela estendeu a mão e empurrou meu cabelo para trás, para longe da testa, arranjando-o de forma que caísse sobre a lateral do meu rosto. Prairie havia tirado a jaqueta. Pelo menos não havia sangue em sua blusa de seda. Ela


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havia escovado os cabelos e passado batom, mas ainda tinha aquela aparência de quem passara a noite sem dormir. - Rascal precisa caminhar um pouco - eu disse, olhando para trás para verificar como ele estava. O cachorro estava deitado no chão atrás do banco, com a cabeça apoiada sobre as patas. - Tudo bem, vou preparar Chub. Depois de levar Rascal para uma volta rápida em um gramado próximo, notei que Prairie já havia tirado Chub do carro. Ele apontava para a enorme loja e fazia ruídos animados. Abri a porta do automóvel e Rascal saltou obediente para o banco de trás outra vez. Enquanto atravessávamos sem pressa o amplo estacionamento, tomei duas decisões: primeiro esse seria o dia em que eu começaria a tomar café. E segundo, eu também o beberia puro. Creme e açúcar... essas coisas podiam deixar uma pessoa mais lenta. A essa altura, os Ellies em Gypsum já teriam percebido que o carro da família havia sumido, não? Teriam ido lá fora para pegar o jornal, ou deixar o gato sair, e se olhassem para a garagem... Mas era sábado. Talvez dormissem até mais tarde. Um quilômetro distante da casa deles, se a polícia já não houvesse sido chamada ao local, o Velho Burnnett estaria acordando para encontrar o imenso buraco em seu celeiro e um carro destruído dentro do rio seco que cortava sua propriedade. Sem mencionar o carro de Prairie, o velho Volvo marrom, abandonado atrás do celeiro. E quanto tempo demoraria até alguém encontrar a carnificina em nossa casa? Vovó era bem conhecida por algumas pessoas em Gypsum e no entorno dela, mas não eram pessoas que podiam chamar as autoridades. Provavelmente seria outra pessoa - alguém vendendo utensílios de alumínio ou verificando o medidor de água - que acabaria fazendo a horrível descoberta. Dentro da loja, um homem idoso com um colete azul empurrou um carrinho de compras na nossa direção. - Bem-vindas ao Wal-Mart - ele disse. - Obrigada, eu... nós vamos só, é, tomar café - eu disse, certa de que ele perceberia meu nervosismo e saberia que havia algo de errado. Mas quando Prairie entrou na loja cheia de clientes, ele se afastou de mim e empurrou outro carrinho para outra pessoa que entrava na loja atrás de nós.


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Vi uma placa indicando os banheiros e levei Chub até lá. No interior do sanitário havia um desses trocadores basculantes preso à parede, e eu me perguntei se a plataforma suspensa suportaria o peso de Chub, que agora tinha vinte e um quilos, de acordo com a velha balança da casa de minha avó. - Aqui - eu disse, levando-o para o maior reservado. Havia duas mulheres paradas diante das pias, uma delas lavando a mão, a outra passando batom. Eu esperava que elas tivessem a impressão de que Chub ia usar o banheiro. Percebi que não tinha fraldas nem lenços umedecidos comigo, e me perguntei como ia limpá-lo. Ele ficaria ensopado. Peguei um punhado de toalhas de papel e as umedeci na pia antes de entrar no reservado. Chub disse alguma coisa que eu não entendi e puxou impaciente o elástico da cintura da calça. Eu o ajudei a tirar a fralda molhada e, surpresa, vi Chub se sentar no vaso sanitário. Eu o colocara no vaso pelo menos uma dúzia de vezes em casa, prometendo ler histórias para ele ou recompensá-lo com um biscoito, qualquer coisa que pudesse convencê-lo a usar o vaso sanitário - e ele sempre descia e saía correndo. Mas agora ele se sentara sozinho no vaso. Ele terminou suas necessidades, desceu, e puxou a calça. Eu o ajudei a lavar as mãos na pia - ele adorava o dispenser de sabonete - e quando estávamos secando as mãos, uma mulher baixinha com cabelos vermelhos e arrepiados olhou para mim e disse: "Ah, que gracinha, é seu irmão?" E antes de pensar realmente na resposta eu disse: - Sim, senhora. Ela sorriu para nós e saímos do banheiro. Eu ia pensando, bem, por que não? Não havia ninguém ali para me desmentir. Podíamos ser parentes, pensei, nós dois tínhamos pele pálida e sardas. E mais tarde, se ele ficasse totalmente diferente, bem, se tivéssemos o hábito de pensar um no outro dessa maneira - talvez não fizesse diferença. Talvez pudéssemos ser normais, afinal. No McDonalds, pedi para mim a mesma coisa que Prairie havia escolhido para ela, e para Chub pedi bolo e salsicha. Comemos depressa, e tentei não olhar em volta para os outros clientes. Imaginei que, talvez, se eu não olhasse para eles, eles não olhariam para mim. Quando Prairie chegou com o carrinho de compras cheio de sacolas, eu me sentia melhor. Voltamos para o carro, e ela me entregou uma caixa grande.


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- O assento de segurança para o carro - disse. - Veja se consegue entender como essa coisa funciona enquanto ponho o resto das compras no porta-malas. No final, tivemos de trabalhar juntas na cadeira de segurança, Prairie lendo o manual de instruções, e eu tentando prender os cintos da cadeira ao cinto do automóvel antes de colocarmos Chub em seu novo assento. Rascal não parecia interessado no processo, mal levantava os olhos enquanto nós trabalhávamos. Chub bateu nas laterais plásticas da cadeira com uma expressão pensativa. Eu voltei para o banco da frente e Prairie guardou o manual de instruções e os sacos plásticos dentro da caixa, deixando-a no banco traseiro. Em seguida ela tirou da bolsa uma sacola plástica. . - Pensei - ela começou, mas parou hesitante. Ela abriu a boca e tirou dela uma pequena girafa de pelúcia azul com lã brilhante formando uma crina ao longo de seu pescoço comprido. As pernas eram frouxas e moles, e a cara era fofa com cílios longos bordados em torno dos olhos de botão. Ela entregou o brinquedo a Chub, que o pegou imediatamente e o segurou perto do nariz, virando-o para um lado e para o outro. - Raff - ele disse. - Prairie. Raff... Girafa Estava falando, mesmo. Como isso estava acontecendo? Seria por minha causa? Eu podia estar curando Chub de alguma maneira, sem sequer tentar? Eu havia realizado três curas: Milla, Rascal e o braço quebrado de Chub, só nos últimos dias. Talvez isso agora fosse parte de mim, e eu não podia desligar o dom. Parecia impossível... Mas havia acontecido tanta coisa, que não era inacreditável. Entreguei a Prairie o saco de papel com o café da manhã. Arrumei o copo de café para que ela pudesse beber, dobrando para trás a pequena tampa plástica, exatamente como eu havia aprendido a fazer vinte minutos antes, ao tomar meu primeiro Prairie agradeceu e comeu enquanto dirigia lentamente pelo estacionamento, procurando a saída por onde ela voltaria à estrada interestadual. Ela consultou o telefone e eu percebi que Prairie seguia instruções de um mapa que baixara anteriormente. - Aonde vamos? - perguntei quando ela entrou em uma estrada de várias pistas com muitas lojas ao longo do acostamento. - Bem, isso é um pouco complicado - Prairie respondeu. - Fique olhando lá fora e ache um... ah, lá está.


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Ela entrou em um estacionamento na frente de uma fileira de prédios baixos e passou por uma lavanderia, um restaurante tailandês, uma padaria. Finalmente, ela estacionou na frente de uma agência de Hertz, uma locadora de automóveis, e olhou para mim com uma expressão muito séria no rosto. - Isso vai soar um pouco estranho - disse - mas temos de fazer parecer que estamos alugando um carro. - Temos que dar essa impressão, mas não vamos alugar realmente, entendeu? - disse Prairie. - Sim. - Como eu posso... tudo bem. Lembra-se de quando eu disse que os homens Banidos costumam ter visões? E que podem ver o futuro? - Sim... - Um arrepio começou na base da minha coluna. Senti que ia ouvir mais notícias ruins, e não tinha certeza de que estava preparada para escutar ainda mais. Mas eu tinha escolha? - Os puro sangue ainda podem. Alguns deles, pelo menos. Bem, poucos. - Ela mordeu o lábio e olhou para as próprias mãos, que apertava com força. - Rattler pode. - Rattler Sikes? - Como se houvesse outro Rattler. Dizer o nome dele era suficiente para aumentar a intensidade do arrepio e transformá-lo em um tremor de medo. Prairie assentiu. - Rattler e eu temos uma... história. Quando éramos crianças, ele costumava me seguir por todo lado. Nessa época ele já tinha as visões, e elas só se fortaleceram com o passar do tempo. - Mas isso significa que ele sabe exatamente onde estamos!- Pensar nisso me fez querer saltar do carro e correr. - Não é bem assim que funciona. Ele não consegue ver o futuro por inteiro, ou escolher que partes vai ver. Ele só... abre a mente e tem lampejos, flashes. Imagens, fragmentos do futuro. Ou às vezes ele tem visões de coisas acontecendo ao mesmo tempo, mas em um lugar diferente. Lembrei daquele olhar sem foco quando Rattler estava na cozinha de nossa casa, em


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como ele havia ficado imóvel, como se tentasse se concentrar em alguma coisa que ninguém mais podia ver. -Alguma coisa não está certa. Um carro... Homens. São homens dentro dele. - Ele tivera uma visão dos homens de Safian. - Mas o que vamos fazer? - perguntei em pânico. Prairie tocou meu braço. - Fique calma, Hailey. É por isso que estamos aqui. Vamos criar alguns cenários, despistá-lo. Vamos dar a impressão de que estamos alugando um carro. E vamos dirigir até a estação rodoviária. Vou seguir alguns caminhos diferentes, dar a impressão de que podemos estar a caminho do sul ou do oeste. Só precisamos confundi-lo para que ele não saiba para onde nos seguir. - Mas no final ele vai... - Pare - disse com delicadeza, mas firme. - Não perca a calma. Rattler só consegue me ver quando estamos conectados, quando existe alguma energia entre nós. No momento estamos com medo, e estamos ligados pelo que aconteceu com Alice, mas vamos superar tudo isso. Vamos deixar para trás o que aconteceu e a conexão se romperá, e então ele não vai conseguir nos encontrar. - Não entendo. Como assim, vocês têm uma conexão? - Os Banidos... nós somos atraídos uns pelos outros, como eu disse antes. E existe uma energia em torno dessa atração. Mas se você se afasta, essa energia desaparece lentamente. Sua mente, seu coração enfoca outras coisas e a atração desaparece. A ligação se rompe. Não para sempre, mas você passa a funcionar sozinha, fora da influência dos outros Banidos. Foi o que eu fiz quando fui para Chicago. A atração desapareceu para mim, e Rattler era só uma parte do meu passado, e ele não podia mais me ver. - Mas quando você voltou para Gypsum... - Tudo retornou. A conexão, a energia. Mas podemos combatê-la. Já lutei contra isso antes. Já me afastei de Rattler no passado. Havia uma forte convicção na voz dela, mas mesclada a alguma coisa que não me agradava, algo sombrio e aterrorizante. Era quase como se ela estivesse tentando me convencer. Mas não tínhamos alternativas. - O que eu posso fazer?


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- Você e Chub vão levar Rascal para dar uma volta. Tem água mineral e uma vasilha de plástico no porta-malas. Só preciso de cinco ou dez minutos. Fiz como ela dizia, olhando pela vitrine de vidro da loja enquanto cuidava de Rascal. Ela estava conversando com o homem atrás do balcão, que consultava o monitor de seu computador. Chub estava feliz fora do carro, e ele caminhava ao meu lado, recolhendo pedras e gravetos que chamavam sua atenção. Na luz brilhante eu pude notar que Rascal tinha sangue no pescoço e nas costas, e percebi que Chub devia ter caído sobre ele no Volvo quando se machucara. Eu limpei o cachorro com um pouco de água mineral e um punhado de lenços de papel da caixa que os Ellis mantinham no carro. Ele não se incomodou, na verdade, foi como se nem notasse. Pus a mão diante do focinho dele para ser lambida, mas ele apenas olhou para a estrada, para os carros que passavam por ela. Imaginei se ele estaria pensando em perseguir os carros, mas Rascal não parecia interessado. Ele não havia balançado a cauda nem erguera as orelhas, e me perguntei mais uma vez se ele estaria tendo alguma reação ao acidente, se alguma coisa dentro dele se rompera. Mas quando eu o chamei, Rascal atendeu imediatamente e me seguiu de volta ao carro, pulando dentro dele. Se havia alguma coisa com ele, não era nenhum dano cerebral. Quando Prairie voltou, ela parecia um pouco mais calma. - Um a zero para nós - disse, consultando o telefone mais uma vez antes de sair do estacionamento. - Próxima parada, estação rodoviária. - Prairie - eu falei depois de alguns minutos de jornada -, o que aconteceu com Rattler? Em casa? - Ah, aquilo... - Prairie respondeu, e um esboço de sorriso distendeu seus lábios. - Eu, ah, pratico kickboxing. Aquilo foi um chute circular. Não devemos usar esse tipo de golpe nas aulas... bem, enfim, eu sempre quis experimentar. - Acho que funcionou. - Sim, acho que sim. Rattler não estava morto. Ele poderia delatar nosso paradeiro, quase me raptou, e até onde eu sabia, o único ferimento que sofrera havia sido causado pelo chute de Prairie. Eu queria


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que ele estivesse morto - e depois me perguntei se ele estava nos "vendo" agora. Pensar nisso me fez arrepiar de medo e repulsa. Eu nem prestava atenção enquanto Prairie ia percorrendo ruas menores e menos movimentadas, dirigindo por uma série de bairros que eram cada vez mais pobres e sujos, antes de entrar no estacionamento de uma estação ferroviária. - Dessa vez iremos todos juntos - ela disse. Deixamos Rascal no carro com uma lata aberta de alimento para cachorro que Prairie havia comprado no Wal-Mart. Ficamos fora do carro por aproximadamente meia hora, fingindo entrar na estação para comprar passagens. O que realmente aconteceu foi que Prairie fez um monte de perguntas sobre quando os ônibus partiam de vários lugares, e no final ela pegou dois panfletos com os horários e os guardou na bolsa. Passamos algum tempo sentadas em cadeiras desconfortáveis. Li uma velha revista que alguém havia abandonado ali, e Prairie comprou uma limonada de uma máquina para Chub. Não demorou o suficiente para ser tedioso. Aquilo me surpreendeu. Imaginava que nunca poderia relaxar, mas quando Prairie murmurou que era hora de seguirmos viagem, eu me senti aliviada. Depois foi a vez do aeroporto, e essa experiência foi um pouco mais interessante, embora o terminal aéreo de Springfield fosse pequeno e não se parecesse em nada com aqueles que eu via nos filmes. Mesmo assim, havia gente andando por ali, passageiros com malas, bolsas - isso me fez sentir vontade de viajar de avião para algum lugar. Nunca acreditei realmente que teria uma chance, mas agora parecia possível. Agora eu estava com Prairie. Também não era só pelo dinheiro e pela experiência que ela tinha; Prairie simplesmente me fazia sentir que eu era capaz de fazer coisas que nunca considerei fazer. Depois do aeroporto, Prairie me levou ao centro de Springfield. Havia ali edifícios altos em quantidade suficiente para fazer parecer uma cidade real. Circulamos por um tempo, às vezes quase sem nos movermos no tráfego, e quando Prairie saiu do centro da cidade a tarde já chegava ao fim. O último lugar ao qual Prairie nos levou foi um motel, um lugar comum em um bairro simples perto da interestadual. - Tudo bem - ela disse quando paramos no estacionamento. Preciso descansar um pouco antes de seguirmos viagem. Vou alugar um quarto para nós - fique aqui, está bem? Eu não discuti. Não sabia ao certo se queria admitir para Prairie que nunca havia


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estado em um motel antes. Gypsum tinha dois - um Super 8 e um motel térreo chamado Shy View, e eu havia passado por eles centenas de vezes, imaginando como seria ter um quarto só para mim, com tudo limpo e arrumado. Chub cochilava, por isso o deixei no carro e levei Rascal para dar uma volta ali por perto. Vi Prairie passar pela porta de vidro e entrar no saguão, onde a vi conversando com o homem que atendia atrás do balcão. Ela voltou depois de pouco tempo. - Consegui um quarto para nós perto do fundo - disse, e nós entramos no carro para percorrer o pátio e estacionar em uma vaga parcialmente escondida atrás de uma lata de lixo. Não falei com eles sobre Rascal. Vamos ter de levá-lo para dentro escondido. - Está com medo de a polícia estar procurando este carro, não é? E... os homens que Bryce contratou. Ela assentiu. - Mas hoje de manhã eu esfreguei barro nas placas antes de sairmos, por isso é difícil identificar os números. Eu a ajudei a tirar as sacolas do porta-malas. Chub segurou minha mão e bocejou, e nós seguimos Prairie até a última porta no primeiro andar, e depois eu voltei e carreguei Rascal enrolado no meu moletom. Ninguém nos viu. Do nosso quarto nós podíamos ver o final do estacionamento e um Denny's ao lado do motel. Além disso, depois da cerca, havia os fundos de outro restaurante com mais latas de lixo e portas de serviço, e com lixo espalhado pela calçada. Um homem fumava um cigarro sentado sobre um balde virado ao contrário. Eu sabia como eram os quartos de motel pelo que vira na tevê. Esse tinha um cheiro estranho, não exatamente ruim, mas químico e úmido. Deixei a mochila sobre uma das camas e vi Prairie tirando as coisas de suas sacolas do Wal-Mart. - Espero que esteja pronta para assumir um novo visual- ela disse, e percebi que ela tentava soar animada, apesar da exaustão. Prairie colocou uma caixa de L'Oreal Coleur Experte sobre o criado-mudo entre as camas. Depois ela tirou da sacola uma escova de plástico e uma tesoura. Ela virou as duas sacolas maiores, e várias peças de roupa caíram sobre a cama. A última sacola continha um punhado de pequenas embalagens de maquiagem, mas um enorme par de óculos de sol com armação branca. - Isso tudo é... um disfarce? - perguntei. - Sim. Temos de fazer o possível para nos tornamos invisíveis.


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E podermos voltar a Chicago. E depois encontrarmos um lugar onde possamos ficar seguras. Seguras de coisas que até hoje eu nem sabia que existiam. De magia antiga e maldições, de segredos sombrios, coisas extraídas de um conto de fadas distorcido. Na outra extremidade do espectro, um homem que queria me usar como sujeito de um experimento. Um cientista. Pensei nas aulas de ciência que nunca mais freqüentaria. Percebi, para minha surpresa, que sentia falta de algumas coisas de minha antiga vida, afinal. Chub se movia pelo quarto, tocando coisas e explorando. Ele encontrou o telefone e apertou todos os botões. Prairie sentou-se em uma das camas ao lado das compras e massageou as têmporas com a ponta dos dedos. - Falando sério, Hailey, precisamos dormir. - Ela pegou o celular na bolsa e pressionou as teclas. - Estou programando o despertador, vamos dormir por umas duas horas, pelo menos. Ainda teremos muito tempo para fazer o que é necessário. Tudo bem? - Tudo bem - respondi com um suspiro. Não valia a pena discutir com ela. E eu sabia que, provavelmente, ela estava certa, mesmo. E apesar de me sentir agitada agora, logo pegaria no sono. - Venha aqui - eu disse para Chub. - Hora de cochilar. - Hora de cochilar - ele repetiu, mas, em vez de se acomodar na outra cama, ele se deitou com Prairie. Ela devia estar quase dormindo, porque só suspirou e passou um braço em torno de Chub, que se aconchegou em seu peito. Menos de um minuto mais tarde ouvi a respiração profunda de Chub, sinal de que ele dormia. Tentei não sentir ciúmes, ficar feliz por Chub se sentir tão confortável com Prairie quanto eu me sentia. E de maneira geral, eu estava feliz. Exceto por agora estar sozinha. E eu não queria ficar só. Os medos, a ansiedade, tudo fervia dentro de mim, e eu temia que elas me dominassem se eu ficasse sozinha com meus pensamentos. Olhei para Rascal, que estava sentado imóvel ao lado da porta, olhando para ela. - Vem cá, garoto - chamei, e ele se levantou e trotou na minha direção. - Sobe - disse, e ele pulou sobre a cama. Eu o abracei e puxei para mais perto de mim. Ele não tinha um cheiro muito bom, era


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uma combinação de cachorro molhado e alguma outra coisa, algo que eu não conhecia. Mas, ainda assim, era melhor que nada. Estava preocupada por ele ainda não ter voltado ao normal, mas esse não era o momento de ficar obcecada com isso. Apaguei a luz, e com as pesadas cortinas fechadas, o quarto ficou tão escuro quanto se fosse meia-noite. Havia um som constante vindo do teto, um ventilador fazendo circular o ar com aquele cheiro estranho. O telefone celular de Prairie brilhava sobre o criado-mudo. Eu tinha certeza de que não ia conseguir dormir com tantas coisas ocupando meus pensamentos, mas o próximo dado registrado por meus sentidos foi o despertador de Prairie.


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Capítulo 15 Rascal estava encolhido ao meu lado, e nem se incomodou com o apito repetitivo do celular. Quando saí debaixo das cobertas, minha boca estava seca como o deserto. Na outra cama, Prairie se sentou e desligou o telefone, esfregando os olhos e bocejando. Fui ao banheiro, bebi dois copos de água da torneira e lavei o rosto. Quando voltei, Prairie havia se levantado e enfileirado as compras sobre sua cama. - Ei, olá, raio de sol- ela disse animada. - Por que está tão feliz? - Nada em especial... além de acreditar que conseguimos despistar Rattler. Quero dizer, se ele ainda não apareceu, acho que estamos indo bem. - Acha que funcionou? Todas essas voltas com o carro... - Ele não está aqui, está? Então, suponho que ele tenha sido despistado por uma de nossas outras paradas. Pelo que sabemos, ele pode estar em um ônibus a caminho do Texas. Ela reuniu suas compras. - Sei que uma ducha seria ótima agora, mas acho melhor pintar seu cabelo primeiro. Você vai precisar enxaguar a tinta depois do tempo de pausa, então é melhor esperar para tomar banho. O sono a reanimara; à luz da lâmpada que ela acendera, notei que as sombras escuras haviam quase desaparecido de sob seus olhos. Passei a mão pelo meu cabelo. Era liso, reto, castanho, com luzes naturais. Eu sabia que algumas pessoas pagavam caro por uma cor como a do meu cabelo. - Tudo bem - eu concordei finalmente. Meu cabelo era a única coisa que eu tinha e sabia


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ser especial. Mas se o que estava em jogo era nossa segurança, eu saberia superar. - Que cor? - Pensei em tentarmos reproduzir o tom do cabelo de Chub. Vamos criar a impressão de que você e ele são irmãos. Olhei para Chub, que se virava e suspirava enrolado nas cobertas. O cabelo dele era claro, quase branco, com reflexos dourados. Eu não conseguia imaginar aquela tonalidade em mim. - Vamos ter que cortar, também - Prairie acrescentou com tom de quem se desculpa. Eu não pediria, se não fosse importante. Enquanto ela misturava a tinta, espalhando pelo quarto um cheiro forte, eu despi a camisa de flanela e fiquei apenas com o tom que usava por baixo dela. - Primeiro vamos cortar - Prairie avisou, abrindo no chão o lençol que tirou de sua cama. Ela colocou a cadeira no centro do lençol. - Vamos tirar um pouco do comprimento. E depois, quando terminar a coloração, vou dar forma a ele, está bem? Eu me sentei na cadeira e senti as mãos dela no meu cabelo. Ela fez um rabo de cavalo e torceu, e eu fechei os olhos e tentei relaxar. O primeiro corte deixou minha cabeça estranhamente leve. Não queria pensar nos meus cabelos caindo no chão, por isso perguntei a Prairie algo em que estava pensando. - Como não sabia que Bryce não era quem você pensava? Quero dizer, você estava... você sabe. - Dormindo com ele, pensei, mas não disse. Prairie parou. Eu sentia o calor de sua pele, as mãos bem perto do meu rosto. - Acho que, no fundo, eu sabia que havia algo de errado. Mas é surpreendente como você consegue se convencer de coisas absurdas quando está em negação. Bem, vamos começar a coloração. Ela foi espalhando a tinta sobre meu cabelo, começando pela raiz e puxando para as pontas. O cheiro era horrível e meu couro cabeludo ardia. - Do que você gostava nele? - perguntei. - Quero dizer, no início. Ela parou. Um pouco da tinta escorreu para a minha sobrancelha. - Bem... para começar, eu achava que ele era gostoso.


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Limpei tinta da minha testa. - Em que sentido? - Ele era... não sei, bonito, com uma aparência limpa, definida. E ele se veste bem muito bem. Ele gosta de roupas caras. E sempre se exercitou muito. Na verdade, acho que podemos dizer que ele era um pouco compulsivo com relação à ginástica. Ele tem estatura mediana, mas é naturalmente atlético no porte físico. Ombros largos, braços fortes... - Cabelo claro ou escuro? - Castanho... Um castanho médio, eu acho. E olhos castanhos. A descrição soava interessante, mas ele não me parecia tão especial assim. - O que mais? - Bem, ele é muito inteligente. Acho que essa era a característica mais importante, para dizer a verdade. Ele tem um doutorado, ou diz que tem, pelo menos, embora agora eu não sabia mais se ele disse alguma verdade no meio de tantas mentiras. Eu pensei nisso. O sujeito mais inteligente no Gypsum High era Mac Blair, mas eu jamais pensaria em dizer que ele era gostoso. Ele não era um geek, não exatamente - mas sua mente tinha sempre alguma coisa a mais, normalmente um fato aleatório que ele encontrara na internet. - Como isso fez você gostar dele? Prairie não respondeu por um instante. As mãos dela no meu cabelo eram confiantes e eficientes, distribuindo a tinta de maneira uniforme por minha cabeça. - Acho que parte da atração estava no fato de eu nunca ter conhecido ninguém como ele antes. A maioria dos caras que eu conhecia - bem, você sabe como são as coisas no colégio. Ninguém tinha sequer curiosidade para saber como era o mundo fora de Gypsum. Eu freqüentei uma faculdade pequena, fiz aulas no curso noturno, qualquer coisa que fosse possível para conseguir os créditos necessários para me formar, e lá eu também não vivia cercada por gênios. Mesmo quando trabalhava nos laboratórios, a maioria dos homens que conheci não estava contente por estar onde estava não se comprometia com o trabalho. Não como Bryce. - Mas também era... eu queria muito fazer alguma coisa com meu dom, você sabe.


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Queria ser importante. E Bryce me deu a impressão de que podia fazer isso acontecer. Acho que foi um pouco de sede de poder, sabe? - Pensou que, se estivesse com Bryce, ele poderia abrir portas para você? Conseguir um emprego melhor, mais dinheiro, coisas desse tipo? - Não, não exatamente. Com essa história e todos os recursos de que dispunha, ele me fez pensar que as coisas com que eu sonhava eram possíveis. Acreditei que elas poderiam acontecer na minha vida. Quero dizer, agora entendo que vi o que queria ver e acreditei no que queria acreditar. Mas era fácil demais depositar minha fé em Bryce, aquele homem incrivelmente bem-sucedido - e me deixei cegar pelo fato de ele me desejar. - Mas e as outras pessoas? As pessoas com quem você trabalhava? Ninguém desconfiou dele? Quero dizer, se estavam mais próximas dos dados, elas não se perguntavam o que ele estava pesquisando? - Bem, sim. Há cerca de seis meses, Bryce começou a substituir vários empregados que trabalhavam no laboratório havia muito tempo. Ele contratou pessoas de muitas regiões do país, inclusive algumas de outras partes do mundo. Eram pessoas de seu círculo mais próximo, e quando não estavam reunidas com Bryce, elas se mantinham distantes, não se relacionavam com os outros. Acho que elas sabiam exatamente o que estava acontecendo... e participavam daquilo. Ele não pode fazer tudo sozinho, não sem ser pego. - E as pessoas que ele demitiu? Não ficaram zangadas? Não desconfiaram do que ele estava fazendo? - Bryce deu muito dinheiro a eles, talvez os tenha feito assinar todo tipo de documentos de desligamento. E muitas pessoas sabiam desse meu relacionamento com Bryce e se mantinham distantes, por isso não mantive contato com os que foram demitidos. Eu tinha um amigo... - ela sorriu ao lembrar. - Ele era um hilário. Seu nome era Paul, e ele era técnico no laboratório, um rapaz brilhante que me fazia rir muito. Ele saiu de lá há poucas semanas. Acho que Bryce teve dificuldades para encontrar alguém capaz de fazer o que Paul fazia, porque ele era um gênio na segurança de computadores. - Não ficou zangada quando Bryce o demitiu? O sorriso de Prairie tremeu. - Sim... acho que sim. Quero dizer, quando penso nisso agora, sim, eu fico muito zangada, porque ele era a única pessoa além de Bryce que almoçava comigo, ou tomava café, ou qualquer coisa. E não acredito que ele confiasse realmente em Bryce. Ele fez para mim um backup de alguns sistemas de segurança sem contar nada a Bryce,


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disse que era para o caso de alguma coisa acontecer com ele. - Talvez ele fosse apaixonado por você. Prairie riu. - Talvez. Ele sempre corava quando conversávamos. Seus únicos hobbies eram paintball e jogos de computador, mas você sabe, ele provavelmente teria sido um namorado melhor que Bryce. Acho que vou ter de trabalhar nisso, meu gosto com relação aos homens. Quando terminou de espalhar a tinta sobre minha cabeça, eu me perguntava se algum dia teria um namorado e, se tivesse se escolheria alguém bom. Sendo Banidas, talvez não tivéssemos o senso comum das outras pessoas. Éramos atraídas por pessoas como nós, e até onde eu podia dizer, a maioria dos homens eram desprezíveis. Bryce não era Banido, mas Prairie cometera um engano quando se envolvera com ele. - Nunca pensou em namorar Paul? - Ele nunca pediu. Não sei... se ele pedisse, talvez as coisas fossem diferentes. Eu gostava muito dele. Ele era mais baixo que eu, não que isso fosse importante, e tinha um rabo de cavalo, então, se você gosta disso... mas era bom sermos amigos, porque foi ele quem me fez guardar um crachá extra quando mudaram todas as senhas do laboratório. A conhecida ansiedade se instalou no meu estômago. - Por que isso foi bom? Prairie não disse nada por um minuto, estudando atentamente a tinta sobre minha cabeça. - Porque agora eu posso voltar ao laboratório. Não vou desistir enquanto não destruir os dados. Não posso deixar Bryce prosseguir com... o que ele está fazendo. - Como vai impedi-lo? - Eu tentava manter minha voz livre da histeria, mas só conseguia pensar nos assassinos na nossa cozinha. - Acha que ele vai simplesmente deixar você entrar lá e... - Não comece a se agitar - Prairie me interrompeu com delicadeza. - Precisamos só focar no momento, no... - Por isso estamos a caminho de Chicago? Não podemos ir para outro lugar qualquer? Algum lugar onde ele não possa nos encontrar? - Nós vamos. Prometo. Assim que fizermos essa última coisinha, iremos para bem


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longe e recomeçaremos nossa vida. Mas Hailey, nenhuma de nós estará segura enquanto Bryce continuar agindo. - Mas não podemos esperar um pouco? Deixar as coisas se acalmarem? Você pode procurar seu amigo Paul e pedir ajuda, e quando for seguro, você e ele podem, não sei, voltar ao laboratório, ou alguma coisa... - Receio que seja ainda mais perigoso esperar - disse Prairie. - Não sei até onde Bryce conseguiu ir. Eles estavam muito perto de algumas descobertas fundamentais. Mas Hailey, você precisa tentar não se preocupar com isso agora, de verdade. Relaxe um pouco enquanto esperamos a tinta agir no seu cabelo. Fiquei assistindo ao Bob Esponja com Chub enquanto esperava a hora de remover a tinta, e enquanto Prairie limpava tudo. Meu cabelo formava pilhas brilhantes sobre o lençol que ela estendera no chão, mas tentei não pensar nisso. Despi-me no banheiro e entrei no banho, deixando a água tão quente quanto podia suportar. Passei muito tempo lavando o cabelo, removendo toda tinta, parada sob o chuveiro com a cabeça inclinada para trás. Quando finalmente saí do banho, me sentia ao mesmo tempo pior e melhor. Pior, porque agora entendia qual era o principal motivo de Bryce, e estávamos voltando para lá. E melhor, porque por fim acreditava que Prairie não me abandonaria. Eu me enxuguei e me enrolei na toalha. Depois limpei o espelho embaçado para conseguir enxergar meu reflexo. Fiquei chocada. Meu cabelo estava muito claro, um tom pálido de dourado. Quase toda cor havia desaparecido - e ele caía numa pesada linha reta terminando abaixo das minhas orelhas. Meus olhos se encheram de lágrimas e eu engoli em seco. Era ridículo - minha aparência era o último dos meus problemas. Mas eu desviei os olhos do espelho enquanto me vestia. No quarto, Prairie apontou para as sacolas do Wall-Mart. - Tem uma blusa nova ali. Vá em frente, mas mantenha os sapatos - não sabia quanto você calça, e as pessoas não vão reparar nos seus pés. Nem no jeans. Então, na verdade, é só a blusa. Eu desdobrei a camisa. Era preta com mangas cinza, e na frente havia uma estampa de um crânio prateado com um sorriso sinistro, com chamas saindo pelas laterais.


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- Eu sei que você odiou - disse Prairie. - Desculpe. Achei que podíamos criar um visual de roqueira para você. - É... não é tão ruim - menti. - Tenho aqui esses... - ela procurou dentro da sacola e tirou dela um par de brincos que lembravam pedaços de uma corrente de bicicleta. Ela também tinha uma algema de couro com fechos e rebites, e um anel de prata com uma caveira. - Se serve de conforto, escolhi essa blusa porque achei que ela era exatamente o oposto do seu estilo. Quero dizer, você é linda, como sua mãe... A voz dela falhou e eu me virei, em parte para dar a ela um pouco de privacidade, em parte porque tinha um pouco de vergonha de trocar de roupa na frente dela. Encontrei roupas íntimas e meias em outra sacola e as vesti, depois pus minha velha calça jeans e a blusa nova. Havia nela aquele cheiro de Wal-Mart, limpo e químico, e ela era tão justa que tive de puxar as mangas para fazê-las subir por meus braços. Arranquei as etiquetas e as joguei no cesto de lixo. - Muito bom - disse Prairie com um sorriso que parecia autêntico. - Hay-ee? - Chub, que até então tentava enfiar a girafa dentro da fronha de um travesseiro, parecia ter me notado de repente. - Cabelo... o que foi? Toquei meu cabelo curto. - Tudo bem, Chub, é só uma cor diferente. É legal. Chub gostou de suas roupas novas, calça de algodão e blusa de moletom. Quando ele voltou a brincar com a girafa, Prairie dedicou toda sua atenção a mim. Ela empunhou a tesoura para repicar os fios, e eu vi meu cabelo caindo no chão enquanto ela trabalhava. Finalmente, Prairie recuou para estudar o resultado. Mais algumas repicadas, e ela foi buscar o secador de cabelo que o motel mantinha no banheiro. - Gostaria de ter algum produto - disse, usando o secador por alguns minutos, ajeitando o cabelo de um jeito e de outro. - Oh... - ela disse quando terminou. - Gostei muito, Hailey. De verdade. Acho que combina com você. Quero dizer, pode deixar o cabelo crescer de novo, mas... bem, espero que você também goste. Fui ao banheiro e olhei para o espelho. Seco, meu cabelo era de um loiro platinado brilhante, e o novo corte dava a ela uma forma mais leve, virado logo abaixo do queixo, um


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pouco mais curto na parte de trás, com camadas sobrepostas que eu podia sentir com a ponta dos dedos. Algumas mechas formavam uma franja leve sobre minha testa. Era incrível. Melhor que qualquer coisa que eu poderia ter feito em Gypsum - eu soube disso imediatamente. Por um segundo desejei poder voltar à escola só pelo tempo necessário para todos me verem. Eu parecia - capturei o pensamento e o retive por um segundo - parecia alguém que integrava uma banda, alguém que todos gostariam de ser. - Feliz com o novo visual? - Prairie me perguntou sorrindo quando voltei ao banheiro. Antes que eu pudesse responder, Chub se levantou de um salto do chão onde estivera sentado, brincando com sua girafa. - Homens maus - ele murmurou, apontando para a porta. Depois pressionou o rosto contra minhas pernas e as abraçou. Prairie se abaixou ao lado dele. - Onde estão os homens maus, Chub? - ela sussurrou. Estão perto daqui? Chub assentiu o lábio inferior formando um bico. - Lá fora. Ela o abraçou e se levantou, pegando a bolsa de cima da cama e retirando dela uma pequena lata preta. - Qual é a... bem, a precisão dele? - ela sussurrou. - Com essas previsões? - Essas o quê? Quero dizer, ele começou a falar agora. Nunca havia ido ao banheiro sozinho, até ontem. Se Prairie estava surpresa, não demonstrava. - Pegue isto - ela me disse movendo os lábios, sem emitir nenhum som, apontando para as últimas compras, uma mochila rosa clara com as etiquetas ainda penduradas. - Pegue tudo e ponha ai dentro. Enfiei nossas coisas na mochila, nossas roupas sujas e as compras feitas no Wal-Mart. Prairie pegou as sacolas plásticas e as enfiou na bolsa. - Estou muito cansada - ela falou em voz alta. - Acho que vou me deitar um pouco. Hailey pode pegar minha bolsa? Acho que a deixei no banheiro.


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Ela balançava a cabeça enquanto falava, apontando para a porta do lado oposto. Segurei a mão de Chub e o levei comigo. Quando Prairie se abaixou na minha frente, eu a imitei. Prairie tateou a parede de um jeito frenético até encontrar o interruptor, sem desviar os olhos da porta. Ela acionou um interruptor e mergulhou o quarto numa semi-escuridão, e depois agarrou o abajur sobre a mesa, segurando-o pela base. Com um dedo sobre os lábios, ela pediu silêncio. Eu senti meu coração disparar sob a blusa nova.


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Capítulo 16 Quando a porta se abriu com um estrondo, eu pulei. Pedaços de madeira voaram sobre mim e Chub. Houve um baque e um homem saltou para dentro do quarto, se abaixando. - Vai! - Prairie gritou. Ela empurrou a mesa contra a cabeça do invasor. Eu não esperei para ver se ele estava ferido. Peguei Chub e saí correndo pela porta, com Prairie logo atrás de nós. Um cheiro horrível nos seguiu, eu senti minha garganta fechando e comecei a tossir, e quando estávamos do lado de fora enchi os pulmões com ar fresco. O sol fora do quarto era tão brilhante que me ofuscou por um momento, mas Prairie me empurrou com força para o carro. - Rascal! - Eu gritei. - Vem, garoto! Ele trotou para fora do quarto, aparentemente despreocupado. Prairie pegou as chaves e destravou as portas do carro no instante em que estendi a mão para a maçaneta. Não me incomodei em tentar acomodar Chub, apenas o coloquei no banco traseiro com Rascal e pulei no assento do passageiro ao lado de Prairie. Ela já engatava a ré para sair da vaga. Os pneus cantaram quando ela virou o volante e partiu na direção da saída do estacionamento. Um casal que andava pelo estacionamento saiu do caminho correndo, o homem gritando e nos mostrando o dedo do meio, mas Prairie nem prestou atenção. Ela entrou no fluxo do tráfego, manobrando o Buick entre um carro compacto que seguia em alta velocidade e um caminhão muito lento cheio de regadores de grama, e depois mudou de faixa duas ou três vezes, fazendo um retorno em U em um farol amarelo. Voltamos rapidamente para a rampa de acesso à estrada. Eu só havia inalado um pouco do spray de pimenta ou o que quer que fosse, e havia


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conseguido limpar a garganta e voltar a respirar normalmente. - Não acredito que tenham posto um rastreador no carro - disse Prairie. - A menos que tenha sido enquanto estávamos no hotel. Mas não, eles devem ter ido atrás de nós assim que nos descobriram. Então... Eu me debrucei no encosto e ajudei Chub a prender o cinto da cadeira de segurança. Cadeira - ele disse. Além de tudo, agora ele acrescentava palavras novas ao seu vocabulário mais depressa do que eu conseguia acompanhar. - Isso mesmo, essa é sua cadeira especial- eu disse. - Muito bem, Chub. Bom menino. - Eles nos encontraram - Prairie repetiu. De repente ela mudou de faixa mais uma vez, indo para a direita e passando na frente de um carro que ia mais devagar. Prairie saiu por uma rampa que terminava em um oásis de bombas de combustível e lojas de fast food. - O que está fazendo? - Continue em frente - eu sentia a urgência em minhas entranhas, sabia que devíamos colocar a maior distância possível entre nós e o homem que invadira nosso quarto de motel. - Os homens de Bryce nos encontraram - ela repetiu. - E não foi o carro. Não pode ter sido. Vamos. Traga a mochila. Ela entrou no primeiro restaurante, um Wendy's, e estacionou sem nenhum cuidado em uma vaga próxima da porta. Eu agarrei Chub e a mochila, deixando Rascal no carro, e a segui para o restaurante. Prairie foi direto para o banheiro e abriu a porta. - Bom - ela disse. - É individual. Entre. Eu me senti estranha quando a segui, olhei para trás, mas ninguém estava prestando atenção. Havia alguns clientes na fila, grupos de duas ou três pessoas nas mesas, um som constante de conversas baixas. Prairie trancou a porta. - Minha vez - ela disse, tirando da bolsa uma sacola do WalMart. Ela despiu a camiseta a vestiu um suéter que tirou da sacola. Era uma coisa feia, marrom com bordado de folhas e abóboras. E era grande demais para o corpo magro de Prairie.


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- Aqui - ela disse, me entregando a pequena nécessaire plástica de jóias e maquiagem que tirou da bolsa. - Ponha todas essas coisas, inclusive os brincos, e faça a maquiagem. Capriche no delineador. Muito, mesmo. Fiz como ela dizia, começando por esconder o hematoma roxo no meu rosto, e a observei pelo canto do olho enquanto trabalhava. Ela tirou da bolsa uma faixa larga e prendeu os cabelos, afastando-os do rosto. Depois passou batom, exagerando a forma natural da boca. Eu me concentrei na minha maquiagem, fazendo o melhor possível para aplicá-la como havia praticado algumas vezes em casa por diversão. Sombra roxa, delineador escuro, várias camadas de máscara - recuei um passo e olhei para o espelho. - Uau - disse Prairie. Aquele rosto não era o meu. Acho que era esse o objetivo. Prairie havia passado blush e sombra nos olhos. Com o suéter e a faixa nos cabelo, ela parecia uma dessas jovens mães levando os filhos para o futebol. - Uau você - respondi. - Hm, não é seu melhor visual. Prairie ergueu uma sobrancelha e nós duas rimos. Estávamos muito encrencadas, mas rir era bom, aliviava a tensão. Chub olhou para nós duas, uma de cada vez, e depois me surpreendeu batendo com o punho fechado na minha perna. Ele não estava rindo. Prairie ajoelhou-se diante dele. - Chub, querido, eles estão aqui? No restaurante? No estacionamento? Chub balançou a cabeça, esfregando a boca com a mão rechonchuda que mantinha fechada. -Não aqui. - Tudo bem. Lá, então? No motel? - Homens maus - ele disse novamente, dando a impressão de que ia chorar. Prairie o


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abraçou e ele se deixou envolver por seus braços, enterrando o rosto em seu ombro. Ela afagou suas costas e murmurou palavras doces até o menino se acalmar. Eu me sentia estranha olhando para os dois. Chub sempre tivera a mim - só a mim. Eu não tinha certeza de que queria dividi-lo. Mas ele se virou para mim e abraçou minhas pernas com força. Enquanto umedecia um pedaço de papel toalha para limpar seu rosto marcado pelas lágrimas, soube que Chub ainda era meu. Meu irmãozinho se era assim que seria. A pessoa que me amava por quem eu era. Terminei de secar seu rosto, e enquanto isso Prairie virou a bolsa sobre a bancada da pia, espalhando tudo que havia dentro dela. Não era muito: um molho de chaves numa argola simples de metal. O telefone celular e duas canetas. Uma carteira preta e quadrada. Um estojo de couro preto e pequeno, que ela abriu movendo o zíper e de onde tirou um batom, uma escova e um pó compacto. - Eles estão nos rastreando de alguma maneira - Prairie disse em voz baixa. - Pelo menos eles não nos seguiram do hotel até aqui. Ainda. - Por quê? Por causa do que Chub falou? - Ele é um Vidente, Hailey. Prairie me calou com essa declaração. Tentei processar o que ela disse: é claro, Chub havia progredido muito nos últimos dias. Alguma coisa importante estava acontecendo com ele, definitivamente - eu tinha certeza de que não havia registros de outras crianças aprendendo a falar e usar o banheiro sozinhas, e da noite para o dia. Mas Prairie queria que eu acreditasse que, além de tudo, Chub podia ver o futuro. Todos os homens tinham o dom da visão, ela havia dito sobre os Banidos. Podiam ver o futuro... para se proteger dos inimigos ...

Uma idéia começava a se formar na minha cabeça. Fechei os olhos e tentei focá-la. Nos dias que os clientes de vovó iam nos visitar, muitas vezes Chub parava o que estava fazendo, deixava de lado o livro ou brinquedo e vinha abraçar minhas pernas, segurando-as com força, o que ele sempre fazia quando estava com medo ou perturbado. E alguns minutos mais tarde eu ouvia um carro se aproximando e parando na entrada de casa, o barulho das portas, o grito de


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algum fracassado meio perdido. Talvez fosse verdade. Talvez Chub fosse um Vidente. - De qualquer maneira, - Prairie disse - acho que temos de assumir que a coisa usada para nos rastrear, seja ela qual for, está aqui comigo. Ou em mim. Ela abriu a carteira e tirou de lá o cartão de crédito, a carteira de motorista e o dinheiro, guardando tudo nos bolsos da calça jeans. Depois, ela retirou duas chaves do anel de metal e as colocou em outro bolso. E me entregou seu telefone celular. Em seguida, ela colocou o anel com as chaves e todas as outras coisas que estavam sobre a bancada da pia dentro da bolsa, e jogou a bolsa na lata de lixo. Então Prairie pegou de volta o telefone celular e me deu um empurrão delicado. Vamos embora - disse. No estacionamento, ela se curvou na frente do automóvel enquanto eu acomodava Chub na cadeira de segurança no banco de trás e levava Rascal para dar uma volta. - O que acabou de fazer? - perguntei quando saímos do estacionamento e voltamos para a estrada, agora em velocidade normal. - Passei por cima do meu telefone celular. Quem estiver nos rastreando através dele vai encontrar só uma pilha de destroços no chão do estacionamento do Wendy's. Ela era esperta. Ainda não havia feito nada que não se pudesse aprender assistindo à televisão, mas, mesmo assim, eu estava impressionada. Havia momentos em que sentia o pânico me dominando e tinha de sufocá-lo com toda minha força de vontade. Mas havia conseguido fazer o que tinha de ser feito: acompanhar Prairie, continuar cuidando de Chub. Eu estava me segurando. Imaginei se isso seria resultado de ter crescido em constante estado de alerta. Eu estava sempre vigilante - primeiro com as crianças que me pregavam peças quando eu era pequena, ou com minha avó me batendo quando eu passava por ela, ou, pior de tudo, com as mãos bobas e os olhares famintos dos clientes - eu tinha de estar sempre um passo à frente. - Prairie - eu disse. - É... obrigada. Pelo corte de cabelo, pelas roupas, por tudo. Ela sorriu, mas manteve os olhos fixos na estrada. - Acha que tenho algum futuro nisso? Sabe como é, acha que posso ser estilista de


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estrelas, ou coisa parecida? - Hm, com esse visual, não, acho que não - respondi, apontando para o suéter que ela vestia. - Você parece pronta para uma reunião de pais e professores. Prairie riu e nós seguimos em frente por algum tempo num silêncio confortável. - Então - eu disse depois de um tempo. - Como aprendeu a cortar cabelo? - Trabalhei em um salão de beleza. - Pensei ter ouvido você dizer que foi garçonete. - Sim, também. Fiz as duas coisas. O que aconteceu foi que, um dia, quando eu trabalhava como garçonete, saí para caminhar e acabei indo parar numa área da cidade que eu não conhecia, na frente de um salão. Senti uma... compulsão para entrar. Não consegui resistir, então entrei e conheci a proprietária. Ela era polonesa, e seu nome era Anna. Nós nos demos bem desde o primeiro instante. Ela me contratou. Trabalhei ali enquanto estudava, e aprendi o ofício. Depois que me formei consegui um emprego na área de pesquisa, e nós... perdemos contato. Eu sabia que a história ia, além disso, porque Prairie escolhia as palavras com muito cuidado. - O que está deixando de me contar? Ela mordeu o lábio, e eu esperei. - Lembra-se de quando falei que tive uma identidade falsa? -Sim. - Foi Anna quem me ajudou a conseguir o documento. Ela conhecia um homem, alguém que ajudava muitos imigrantes. Anna me ajudou a ser uma nova pessoa. - Por que não podia ser simplesmente você mesma? Vovó jamais teria ido procurá-la. Você mesma disse. - Mas nunca deixei de me preocupar. Depois de ter descoberto sobre Clover, cheguei ao meu limite com Alice, não queria mais saber de Gypsum - de nada disso. Vi em que as pessoas ali haviam se transformado. Pensei que poderia levar comigo o dom da Cura e deixar


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todo o resto para trás. Os homens, clientes da vovó... as visões deles se tomaram turvas, muitos nem podiam mais ver o futuro, e havia muito crime e violência. Vi como eles tratavam as mulheres e soube que, se algum dia eu voltasse, seria novamente tragada por aquela vida. - Por quê? - perguntei. - Quero dizer, também odeio Gypsum, mas está agindo como se não tivesse livre arbítrio. Quando completou dezoito anos... - Os Banidos são ligados - Prairie me interrompeu. - Não viu isso? Não sentiu? Os Morries - a maneira como se sente atraída por eles? Senti meu rosto vermelho: era como se ela pudesse enxergar dentro de mim. - Não é sua culpa - Prairie disse com aquela voz suave. - Isso foi ordenado. Mas eu sabia que precisava me afastar de tudo aquilo. Então, me tornei uma nova pessoa. Mas... Por um momento ela não disse nada, e depois riu, mas havia mais dor que humor em sua risada. - Anna também era uma Banida. -O quê? - Não é só em Gypsum, Hailey. Há outros do vilarejo na Irlanda. Eles viveram lá por duzentos anos antes da fome chegar e ameaçar dizimá-los. Nosso grupo foi para a Polônia. Anna veio para os Estados Unidos há anos, depois que a mãe dela morreu. - Então há... pessoas como eu no mundo todo? - Não exatamente. Havia apenas algumas poucas famílias de Curadores originais, não sei quantas, exatamente. Talvez só nós e aquela que foi para a Polônia, ou mais algumas poucas. Mas os Banidos que foram com eles... sim, há pessoas como nós por aí. - Todas como os Morries? - Bem, Anna não é como eles. Anna é... Eu a amava. - Ela tinha uma nota emocionada na voz, e mais uma vez me perguntei por que elas haviam perdido o contato. - E ela contou tudo isso? - Anna... preencheu as lacunas para mim. Eu sabia um pouco dessa história por


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intermédio de minha avó. Anna é puro sangue. Quando me viu naquele primeiro dia em que entrei no salão, ela soube. Sentiu que eu era Banida. Os que foram para a Polônia mantiveram a história mais viva, se preservaram melhor, aprenderam a reconhecer uns aos outros. Mas agora... - Ela deu de ombros. - Com o tempo a história se perde. - Mas como ela sabia? Como podia dizer? - Não é difícil, Hailey - Prairie explicou. - Você vai aprender. Eu aprendi depressa. Vai ver tudo isso nas pessoas algumas vezes. Não com muita freqüência, e é quase sempre algo fraco nelas. Quando os Banidos deixaram a Irlanda, começaram a vagar. E como aconteceu com os que vieram para Gypsum, eles se casaram com pessoas de fora do grupo. Os homens perderam a visão. Resta muito pouco na linhagem sanguínea, mas Anna me mostrou. Alguém entrava no salão, alguém com sangue Banido, e ela me ajudava a reconhecer a pessoa, a vê-la... ou não ver, exatamente, porque ... é uma sensação, acho que podemos dizer. Normalmente nem eles mesmos sabem. Em um homem, pode haver certo déjà vu, como se às vezes as coisas acontecessem e eles já as houvessem vivido antes. Mas eles se convencem de que é tudo bobagem, ou tratam tudo como coincidência. As pessoas podem se convencer com grande facilidade sabe, quando querem. É da natureza humana. - Anna era uma curadora? - Não. Ela diz que ninguém sabe o que aconteceu com a linhagem dos Curadores na Polônia, se ela morreu ou não, ou se os Curadores emigraram para algum outro lugar. Por um tempo nenhuma de nós disse nada. Era muito para absorver. - Então, acho que Anna fez o que tinha de fazer - eu disse finalmente. Por alguma razão, me sentia desolada. - Ela encontrou você. Uma estrela dourada para ela. Duas Banidas puro sangue em uma cidade do tamanho de Chicago. Se Prairie percebia meu tom, ela não fez nenhum comentário. - Não, Hailey. Não duas. Três. - Três... o que quer dizer? - Anna tem um filho.


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Chicago…

Capítulo 17 Anoitecia quando chegamos nos limites de Chicago, uma cidade que tinha um horizonte recortado por cintilantes fileiras de torres distantes se estendendo até onde a vista podia alcançar nas duas direções. Saímos da estrada por um trevo muito movimentado e com tráfego intenso, de alta velocidade Apesar do breve cochilo no motel, eu não conseguia manter os olhos abertos. Devia ter cochilado por algum tempo, porque quando Prairie sacudiu meu braço com delicadeza para me acordar, ela havia estacionado o carro nos fundos de outro motel, maior, mais novo e mais anônimo que o primeiro; a parte dos fundos voltada para uma avenida larga onde havia uma loja de carros do outro lado da rua. Eu nem perguntei onde estávamos. Executei toda a ação de retirar Chub, profundamente adormecido da cadeira de segurança enquanto Prairie cuidava do Rascal. Dentro do quarto, desmoronei ao lado de Chub e só acordei na manhã seguinte, quando o sol já penetrava pelas frestas da janela. Eu me sentei na cama, desorientada pelo ambiente desconhecido. O quarto de motel era quase uma cópia daquele do dia anterior, mas ao


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contrário, com a televisão na parede oposta. Chub sentou-se na beirada da cama balançando as pernas, assistindo televisão com o som bem baixo. Ele já estava vestido e seu cabelo com um novo tom de loiro agora espetado. Prairie estava perto da janela agarrando a cortina entre as mãos, olhando para o estacionamento e Rascal estava sentado ao lado dela olhando para o nada. Quando a chamei pelo nome ela pulou. - Bom dia Hailey. – ela disse – Sente-se melhor hoje? Para minha surpresa eu estava melhor. Sentia-me descansada e forte, e os acontecimentos dos últimos dias haviam perdido o brilho em minha cabeça, como um filme ao qual eu havia assistido, mas esquecera. Nunca ia esquecer as imagens do desastre na cozinha, de minha avó no chão – mas eu sentia, enquanto me lavava e recolhia minhas coisas, como se tudo houvesse ficado no passado, como se aquela fase da minha vida houvesse terminado. Senti uma tênue esperança. Era quase uma da tarde quando levamos Rascal para dar uma volta e colocamos as coisas no carro, seguindo diretamente para um restaurante de beira de estrada onde almoçamos. Meu apetite retornara e eu pedi hambúrguer e fritas e um copo grande de leite. Até Prairie comeu quase toda sua salada com frango, e as linhas de preocupação em torno de seus olhos se suavizaram. - Então, - eu disse, terminando de comer minhas batatas. – acho que funcionou não é? O que... você fez. Para ele não conseguir nos encontrar. Não disse o nome dele, não suportava nem pensar nele. Rattler. A imagem de Rattler cravando a faca no homem de paletó preto passou como um raio por minha mente e sumiu, deixando apenas uma sombra pálida do horror daquela noite. Prairie assentiu pensativa e bebeu seu café. - Se ele pudesse nos rastrear... Ela não concluiu o pensamento, mas eu sabia em que estava pensando. Ele já nos teria encontrado a essa altura, se as visões pudessem levá-lo até nós. Tentei adivinhar se Prairie havia dormido, ou se havia passado todo o tempo ao lado da janela, preocupada, esperando o velho caminhão aparecer na frente do motel, esperando que ele arrombasse a porta como os homens de Bryce haviam feito no dia anterior.


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Eu me sentia culpada porque havia desmoronado e dormido como uma pedra, deixando para ela toda a obrigação de vigiar e toda a preocupação. Quase me desculpei, mas não consegui encontrar as palavras. - Então ele deve ter ficado em Gypsum - eu disse esperançosa. Prairie assentiu. - Mmm. Com um pouco de sorte vou conseguir concluir... o que tenho de fazer esta noite, então poderemos seguir adiante. Ela não olhava pra mim, mas para fora pela janela. Eu tinha tantas perguntas! Ela disse nós, mas estaria se referindo a nós três? E eu não tinha a menor idéia do que significava “seguir adiante”, ou para onde iríamos em seguida, como viveríamos. - O que você precisa concluir esta noite? - perguntei. Finalmente ela olhou pra mim e fez uma pausa, como se escolhesse as palavras com cuidado. - Preciso destruir a pesquisa de Bryce. - Como vai conseguir? - Eu... tenho algumas idéias. A primeira coisa a fazer é entrar no laboratório. E para isso eu preciso da minha cópia da chave. É muito perigoso voltar á minha casa, mas mantenho cópias extras nas casas vizinhas, com pessoas de confiança. - Não tem uma chave com você? Prairie empurrou a salada pelo prato sem me encarar. - Essa é uma chave especial Hailey. É um crachá, um cartão eletrônico com um código que tranca e destranca as portas, e tenho certeza de que, a essa altura, Bryce já mudou o código para me impedir de entrar. Mas tenho uma chave mestra na casa de uma amiga. - Ela sabe que você está voltando? - Não. – Prairie hesitou e mordeu o lábio. Eu podia dizer que ela estava tentando decidir o quanto devia me contar. - Achei que seria melhor se não telefonássemos ou fizéssemos alguma coisa... que pudesse alertar alguém. Tenho a chave da casa dela, por isso posso entrar sem problemas. Quanto mais rápido eu entrar e sair, melhor.


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Eu... Ela agora dissera eu. Não nós. O pânico começou a se formar no meu peito. pânico de ser deixada sozinha, de ter que defender Chub contra qualquer ameaça que surgisse. - Vou com você. - anunciei apressada, minha voz mais ríspida do que eu pretendia. Vamos todos juntos. - Acho que não... - Por favor. Podemos esperar no carro, vai ser melhor assim, podemos observar se... se... Não terminei a frase, mas imaginei que Prairie sabia o que eu queria dizer. Eu podia observar e dar o alerta se os homens de Bryce aparecessem, ou Rattler, ou quaisquer outras ameaças com as quais eu nunca imaginara ter que me preocupar, ameaças que até alguns dias atrás nunca haviam existido pra mim, mas que agora mudavam todo o curso da minha vida. Eu argumentaria com Prairie, discutiria se fosse necessário. Não ia desistir. Ela me salvara de Bryce, de minha avó e de Rattler, e eu era grata por isso. Mas ela não podia nos deixar agora. Eu não a deixaria. Não tinha escolha. - Tudo bem. - ela concordou finalmente, e eu deixei sair o ar que nem percebera estar retendo nos pulmões. - Pode vir comigo á casa de Penny. Mas depois disso, quando chegarmos ao laboratório eu entro sozinha. Eu não ia discutir essa decisão... ainda. Um passo de cada vez. Ela queria esperar anoitecer para ir a tal casa da vizinha, por isso passamos a tarde em um parque onde Chub brincou nos balanços e escorregadores e cavou buracos e túneis em uma caixa de areia, usando uma pazinha de plástico que alguém deixara para trás. Tentei convencer Rascal a correr atrás de um graveto, mas ele apenas caminhava do meu lado e se sentava sempre que eu parava. No final da tarde, Prairie nos levou de carro até o Norte da cidade, para Evaston, o subúrbio onde ficavam seu apartamento e o laboratório. Ela estacionou ao lado do lago e nós percorremos a pé uma trilha de terra onde podíamos ver Chicago ao sul, a luz do sol poente refletida nas janelas de todos os edifícios muito altos, dando a impressão de que a cidade era feita de ouro e espelhos.


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Chub estava mais interessado em jogar pedras da margem rochosa do que em olhar para a cidade, mas eu não conseguia desviar os olhos do horizonte e do sol descendo lentamente para o azul do escuro lago. Finalmente era quase noite. Prairie dirigiu por um tempo antes de escolher uma vaga para estacionar o carro em uma tranqüila rua transversal perto de um beco. Havia carros parados dos dois lados da rua, mas um pequeno Acura vermelho saiu exatamente quando estávamos passando. Foram necessários vários minutos de manobras cuidadosas até Prairie conseguir enfiar o grande carro do Ellis na vaga apertada, mas ela parecia satisfeita quando por fim desligou o motor. - Queria ter uma coleira para Rascal. - Prairie comentou. - Ele vai ficar perto de nós. Não vai fugir. - Sim eu sei, mas aqui há leis que obrigam o uso de coleiras... bem , vamos ter que ir sem ela mesmo. Quando chegarmos a casa de Penny ele pode entrar conosco. Ela adora cachorros. Deixamos a rua comercial e entramos em uma zona residencial. Prairie andava depressa, e ela atravessou uma rua larga para entrar em uma alameda que passava por trás de uma fileira de casas. Descemos a rua por alguns quarteirões, correndo em silêncio para atravessar um cruzamento mais movimentado. Eu tropecei em uma mangueira que havia sido deixada enrolada na entrada da garagem. Tivemos de silenciar Chub várias vezes, ele estava cansado, não dormira de tarde e cambaleava de um lado para o outro, resmungando e esfregando os olhos. Prairie tocou meu braço e apontou uma casa pequena no fundo de um terreno, um espaço dominado por uma construção maior de frente para a rua. Afaguei a mão de Chub e ele se apoiou em mim, com o rosto apertado contra minhas pernas. Ele estava tão exausto que começou a chorar em silêncio, soluços curtos abafados pela minha calça jeans. Havíamos parado sob os galhos baixos de um salgueiro que começava a se encher de folhas para a primavera, e eu esperava que ali estivéssemos escondidos de quem quer que olhe pelas janelas dos quartos. - Essa é a casa de Penny?- sussurrei.


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- Sim. Não quero bater na porta porque ela vai acender a luz da varanda, mas ela não vai se incomodar se eu entrar sem avisar. Temos uma espécie de acordo, molhamos as plantas uma da outra quando viajamos esse tipo de coisa. Prairie não parecia tão confiante quanto sua voz podia sugerir. Ela pegou as chaves que guardara no bolso da calça jeans. Eu peguei Chub quando ela girou a chave na fechadura. Ele ficou tenso em meus braços e eu o acalmei, segurando seu corpo agitado com mais força. Só quando ouvi o clique abafado da porta se abrindo eu percebi que estivera prendendo o ar, esperando... o que? Um tiro? Em Gypsum eu vivia sempre tensa - nunca sabia o que encontraria ao voltar para casa, quem eu encontraria desmoronando sobre a mesa da cozinha. Mas isso era diferente. Todas as coisas com que eu me preocupava em Gypsum agora pareciam meio estúpidas – crianças debochando de mim, ou o mau humor da minha avó ou Dun Acey tentando apalpar meu traseiro quando eu passava por ele. - Acho que ela foi dormir cedo. - Prairie estava dizendo enquanto dava um passo para o lado, me deixando entrar no hall escuro da casa. Rascal me seguiu. Ela deslizou a mão pela parede cujo contorno eu mal conseguia enxergar à luz da lua, uma luminosidade pálida que entrava pela porta atrás de nós. Houve um clique suave quando os dedos dela encontraram o interruptor de luz, e a sala foi invadida pela claridade suave de um abajur sobre a mesa baixa. Alguns passos na nossa frente, uma mulher idosa vestindo roupão cor de rosa de tecido acolchoado estava sentada em uma poltrona estofada, os pés estendidos pra frente num ângulo estranho, um de seus chinelos de cetim virado ao contrário no piso de madeira. Por um segundo pensei que ela estivesse dormindo. Então notei a mancha escura que começava em seu pescoço e descia pelo tecido do roupão, e quando dei um passo na direção dela, a razão ficou evidente. Seu crânio havia sido esmagado.


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Capítulo 18 Prairie emitiu um som ao meu lado, um grito estrangulado e interrompido. Empurrei o rosto de Chub contra o meu ombro, protegendo-o da visão do corpo de uma mulher morta. Quando ele havia chorado momentos antes... ele sabia que alguma coisa ruim havia acontecido dentro da casa. Vi que fragmentos do crânio esfacelado podiam ser vistos muito brancos sob a pele rasgada e manchada de sangue, entre as mechas de cabelo ensangüentado, e recuei um passo. Meu pé encontrou um obstáculo no chão e eu tropecei, quase derrubando Chub. Eu cambaleei para o lado, mas consegui me manter em pé. Olhei para baixo tentando ver em que havia tropeçado: uma frigideira velha e preta com cabo de madeira. - Bem-vinda ao lar - uma voz profunda e rouca falou, e outra lâmpada se acendeu, deixando ver um homem sentado confortavelmente em um sofá de estampa floral, um braço sobre o encosto, o outro empunhando uma arma. Era Rattler Sikes. Havia um hematoma roxo em seu queixo, sob a sombra da barba por fazer, mas, além desse pequeno detalhe, ele parecia normal. Meu coração pulou no peito. Todos os esforços para despistá-lo - nada havia funcionado. Ele havia visto todos os movimentos que fizemos? Como se lesse meus pensamentos, o homem riu em silêncio. - Aposto que está surpresa por me ver. - Acreditou mesmo que poderia me confundir com todos aqueles truques bobos? Deve ter esquecido que eu não costumo desistir. - Rattler - Prairie disse com um tom furioso, a voz embargada. - O que você fez?


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- Antes de começar a procurar alguma coisa para jogar em mim, Pray-ree, é melhor considerar que tenho uma arma, e você tem um menino pequeno em sua companhia, uma criança inocente que não fez nada de mal a ninguém. - O jeito como Rattler havia pronunciado o nome dela sugeria deboche, como se ele o usasse para zombar de Prairie. - E eu tenho um dedo muito rápido, por isso é melhor não me deixar nervoso, ou ele pode sofrer um espasmo, e sei que nenhum de nós quer isso, certo? - Antes vai ter de atirar em mim. - Eu me virei de forma a colocar meu corpo entre Rattler e Chub. - Ei, espere aí - disse Rattler. - Não estou atirando em ninguém, ainda não. Não quer saber como vim encontrar sua amiga aqui, Pray-ree? E devo dizer que ela não foi muito hospitaleira. - Como teve coragem... - Ela me viu batendo na porta da sua casa, e se aproximou empunhando aquela enorme tesoura de jardineiro, fazendo todo tipo de pergunta inconveniente. E o jeito como ela olhava para mim me fez pensar que seria capaz de me matar com aquela tesoura de poda. Então, tive a idéia de esperar por você aqui, na casa dela. A janela é ótima para quem quer observar a estrada, e eu queria ver você voltando para casa. E agora veja isso, deve ser meu dia de sorte, porque você veio diretamente para cá, para mim. - Ela nunca fez mal a ninguém...

- Ei, tudo que pedi a ela foi para me deixar entrar, e sugeri que ela ficasse sentada quieta naquela poltrona enquanto esperávamos juntos por você. Não pretendia matá-la, nada disso. Mas depois eu pedi a ela para preparar um chá, e ela voltou com uma frigideira, furiosa e pronta para bater na minha cabeça com ela, mas não foi rápida o bastante. Enfim, as coisas não terminaram muito bem para ela, não é? Pensei em como a mulher devia ter ficado amedrontada quando Rattler invadira a casa dela. Ele parecia segurar a arma sem muita força, quase sem atenção, mas eu sabia que essa era uma impressão enganosa. Ele era capaz de acertar uma lata em cima do muro dos fundos da casa atirando do portão da frente da casa vizinha. Eu o observara da janela do meu quarto numa tarde de verão, quando ele e outros clientes de minha avó se revezavam numa espécie de disputa de tiro ao alvo. Os outros competidores acertavam a área em


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torno da lata ou erravam completamente o alvo, mas Rattler não perdeu um tiro. E agora ele olhava para Prairie com uma intensidade que poderia acender uma fogueira. E ela sustentava aquele olhar penetrante. Havia algo entre eles, sim, alguma coisa carregada de tensão e perigo - algo quase vivo. - Você me fez perder tempo, menina - ele disse em voz baixa, o que me fez ter certeza de que falava apenas com ela. Era como se eu nem estivesse ali. - Mas não pode me deter. Não quando estou atrás de você. Meu medo cresceu e se tornou algo novo, uma constatação de que Rattler não queria nos matar - ele queria algo pior. Era como se ele quisesse possuir Prairie, ser dono dela, e de repente percebi que eu tinha mais medo de Rattler Sikes e dos outros homens Banidos do que de qualquer assassino profissional que estivesse nos perseguindo. Tinha mais medo de Rattler do que de todos aqueles homens juntos. - Não devia ter vindo aqui - disse Prairie, mas havia um tremor na voz dela, e um horror evidente na maneira como ela recuou, afastando-se dele. Era como se a energia distorcida que o cercava a diminuísse. De repente Rattler riu, e o encanto se quebrou. - Agora vamos voltar a um patamar mais amistoso - ele disse com voz pastosa. - Sente-se, menina, acho que vai ficar bem confortável naquela cadeira. Temos que ter uma conversa antes de voltarmos todos à estrada. - Não vamos a lugar nenhum com você - Prairie respondeu. Mas Rattler só deu de ombros. - Vou levar vocês para casa, onde é seu lugar. Podem ir por bem, ou podem ir por mal. Vocês decidem. Hailey pegue o garoto e coloque-o para dormir em um dos quartos. E leve o vira-lata com vocês. Eu não precisei ouvir a ordem pela segunda vez. Atravessei a sala, evitando olhar para a mulher morta, certa de que Rascal me seguia. Queria que ele fosse um cão de guarda melhor - ele nem parecia se importar com como Rattler nos ameaçava. Meu coração batia tão depressa que eu tinha a impressão de que todos podiam ouvi-lo. No corredor, notei uma porta aberta com uma cama arrumada e coberta por uma colcha e uma pilha de travesseiros em fronhas bordadas. Enquanto deitei Chub na cama e tirei a mochila dos ombros, deixando-a no chão, tentei não pensar na mulher na sala, em sua cabeça aberta deixando vazar metade do conteúdo.


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- Gosto de como parece confortável nessa cadeira - ouvi Rattler dizer na sala. Você está com uma aparência muito boa, Prairie. Eu precisava fazer alguma coisa para detê-lo. Abri o zíper da mochila e a esvaziei no chão. Entreguei a girafa de pelúcia a Chub e vasculhei os outros objetos com desespero. - Hora de dormir? - ele perguntou bocejando. - Quero minha cama. Apesar do medo, notei que ele falava bem e pronunciava as palavras com clareza. Evidentemente, ele havia esquecido o próprio medo, ou estava apenas cansado demais para se importar. - Pode cochilar aqui por enquanto - eu disse, afastando as cobertas dos travesseiros. Ouvi Prairie murmurando alguma coisa na sala. - Tudo bem. Boa noite. - Chub se ajoelhou na cama para me abraçar e beijar o topo da minha cabeça. Depois, ele se deitou e começou a se ajeitar sob as cobertas, mas de repente se sentou, e uma ruga surgiu entre suas sobrancelhas. - Não quero ver. - O que, meu bem? O que você não quer ver? - O olho do homem mau. Não quero ver. Meus nervos estavam em frangalhos, e precisei fazer um grande esforço para alisar os cabelos de Chub, afastá-los de sua testa e beijá-la com delicadeza antes de deitá-lo novamente. - Você não precisa. Vá dormir. - Tudo bem. Ele fechou os olhos, e os cílios longos lançaram sombras sobre suas faces macias. Na sala, Prairie e Rattler falavam em voz baixa, intensa. Não havia nada que eu pudesse usar apenas minhas roupas e as compras de Prairie. Olhei em volta analisando o que havia no quarto, mas tudo que vi foram fotos emolduradas, um jogo de pente e escova de prata, estátuas de porcelana, uma cesta com flores


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secas. Havia uma cômoda encostada a uma parede, e eu deslizei a mão pela superfície de madeira. - Não pode me dizer que esqueceu quanto nós nos divertíamos- Rattler estava dizendo, sua voz soando mais alta. - Você adorava nadar nua comigo e com os outros. - Eu nunca gostei daquilo - Prairie disparou. - Eu odiava. - Não é verdade. Você sabe que nós dois deveríamos estar juntos. Todo mundo sabia disso. -Não. Não . Abri a primeira gaveta da cômoda. Camisolas e combinações, todas dobradas sobre folhas de papel de seda. Tentei a segunda gaveta. Echarpes. Uma pilha macia de echarpes e lenços, pedaços de seda de todas as cores - lindas, mas só isso. O desânimo me dominava. - O problema é que você não fez o que devia fazer - Rattler prosseguiu. - Eu esperei, segui as regras da sua mãe, mesmo que você não as tenha seguido. Acha que eu não sabia sobre você e aquele garoto de Tipton? -Ele era... - Achou que era muito esperta se envolvendo com ele às escondidas? Pensou que ninguém ia perceber, só porque escondia o namoro da sua mãe? Bem, eu sabia. Eu sabia. A amargura na voz de Rattler me surpreendeu. Ele estava... com ciúmes? Seria possível? Enfiei a mão na gaveta e fui afastando os lenços e as echarpes, empurrando-os para os lados. Meus dedos tocaram algo duro e afiado. Peguei o objeto. Ele era feito de osso ou marfim, e tinha duas pontas delicadas, longas e encurvadas em uma das extremidades, e uma decoração perolada e entalhada em forma de leque do outro lado. Devia ser algum tipo de ornamento para cabelo, eu pensei. Estudei o objeto colocando-o sobre minha mão direita, virando-o de forma que as pontas estivessem apoiadas sobre meu pulso, e saí do quarto para voltar à sala. - Enfim, não importa - Rattler estava dizendo. - Especialmente porque sua irmã a superou na corrida pelo grande prêmio. Ouvi Prairie inspirar intensamente, uma reação de medo e choque. - O que quer


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dizer? Rattler riu com amargura. - É simples. Quando você foi embora, sua mãe disse que achava que Clover já tinha idade para namorar, afinal. Tive de fazer um grande esforço de persuasão, disse que estava magoado com como ela estava sempre me rejeitando, mas no final consegui fazê-Ia ver as coisas do meu ponto de vista. E acho que tive momentos maravilhosos com... - Não diga o nome dela! - Eu digo o que quiser Pray-ree - Rattler sussurrou. - Quer que eu soletre? Eu entrei na sala.

Rattler olhou para mim, e por uma fração de segundo seu rosto ficou exposto, a expressão aberta e sem reservas, e vi algo ali que não poderia ter imaginado nem em um milhão de anos. Dor. Por causa de Prairie. Não era amor - eu me recusava a acreditar que um homem como Rattler poderia amar - mas era um sentimento tão forte que aparecia estampado em seu rosto quase como uma segunda pele; e de repente foi fácil, para mim, acreditar que havia mesmo entre eles uma ligação muito antiga, não de gerações, mas de séculos. O que ligava Rattler a Prairie era um nó que se tornava mais forte com a resistência. Mas quando Rattler percebeu que eu o encarava, a dor desapareceu e foi substituída por outra coisa, algo ardiloso e penetrante. Divertido, até. - Pequena Hailey - ele disse. - Olhe só para você, praticamente uma adulta. - Você nunca... Não pode ser. .. ela não teria... - Prairie tentava encontrar as palavras e parecia pronta para saltar da cadeira, para atacá-lo. Mas Rattler levantou a arma sem sequer olhar na direção dela, apontando o cano em sua direção. - Devagar, Prairie - ele a preveniu, a voz um pouco mais alta que um sussurro rouco. Depois ele me encarou, seus olhos brilhando como centelhas verdes à luz pálida do abajur. Um canto de sua boca se ergueu, formando um desenho que sugeria crueldade. - Você


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sabe quem eu sou não é mesmo, menina Hailey? - Rattler disse com tom suave, e de repente, sim, eu sabia, e minha mão agarrou com força o cabo do adorno para cabelo, enquanto meu cérebro reverberava com esse novo conhecimento. - Eu sou seu papai. Investi contra ele com a mão erguida, agarrando o objeto pontiagudo com toda força que tinha, e o som que ouvi quando aquelas duas pontas delicadas atingiram o alvo foi diferente de tudo que eu esperava quase como o de uma faca cortando um melão... Mas o som que saiu de Rattler superou esse primeiro ruído, um barulho que não era humano ou animal, mas algo entre os dois, alguma coisa selvagem, alguma coisa furiosa, e ele levou as mãos ao objeto cravado em seu olho direito. - Prairie! - eu gritei. Virei-me e a vi pulando da cadeira. Corri para o quarto e puxei as cobertas da cama. Chub estava apoiado sobre os cotovelos, o rosto contorcido e pronto para um grito de horror. Ele não estava completamente acordado, eu percebi - às vezes acontecia, quando ele despertava assustado de um sono profundo; era como o pesadelo de um sonâmbulo. - Sou eu, sou eu, Chub - eu disse, tirando-o da cama, enfiando tudo de volta na mochila e pendurando-a nos ombros. Ele começou a gritar se debatendo em meus braços enquanto eu corria para fora do quarto a tempo de ver Rattler arrancar o objeto de seu olho - a mão que o pressionava coberta de sangue - e levantar a arma para apontá-la, uma hora para Prairie, em seguida para mim. Ele atirou contra mim. Mas errou. Esperei pela dor que não veio, mas houve um estrondo na estante atrás de mim. - Para o chão - Prairie gritou, me empurrando para longe dela com força, mas eu me mantive em pé, continuei onde estava enquanto ela corria para a cozinha e abria uma gaveta, vasculhando seu conteúdo com desespero. - Rascal- gritei, e ele apareceu na sala com aquela aparência desinteressada. - Pega, garoto! A mudança em Rascal foi espantosa. Numa fração de segundo, ele saiu da apatia e saltou sobre Rattler latindo e rosnando, mostrando os dentes. Dentes que cravou com força na canela do homem, emitindo um som gutural e feroz que brotava do fundo da garganta. Rattler gritou de dor, mas quando ele abaixou a mão que empunhava a arma para acertar a cabeça do cachorro, outro tiro soou e Prairie caiu sobre mim. Ela não disse nada, apenas fez


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um ruído abafado, um som como "unh”. -Você... - Estou bem - Prairie me interrompeu, segurando minha mão para me puxar para a porta. - Rascal, vem! - eu gritei, e todos nós corremos enquanto Rattler tentava se levantar pulando, segurando a perna ferida pela mordida violenta. Quando chegamos na varanda, Prairie cambaleou e quase caiu, mas eu a amparei - Você não está bem - eu disse com o coração disparado. - O tiro a atingiu? Senti a umidade quente do sangue sob meus dedos e, sob a luz de um poste na rua, vi o rasgo em seu suéter, o ângulo estranho em que ela segurava o braço. - Ahhh - ela disse, respirando com dificuldade. - Tudo bem, ele me acertou. Mas precisamos sair daqui. Não é só por Rattler, Hailey. Há luzes acesas em minha casa, e elas estavam apagadas quando chegamos. Você não reparou? Os homens de Bryce estão lá, e devem ter ouvido o que aconteceu aqui. -Mas... - Eles virão para cá, Hailey. Para verificar o que houve. E depois virão atrás de nós. Outra vez. - Como... o que eu posso ... - Só me ajude a correr, vamos tentar chegar ao telefone público que fica a dois quarteirões daqui. Eu me lembrei do celular de Prairie esmagado pelas rodas do Buick. Se havia um momento em que eu precisava ser forte, o momento era esse. Prairie assumira o comando desde o primeiro momento, quando a conheci, e eu a seguira. Nem sempre de boa vontade, e nem sempre havia acreditado ou confiado nela, mas eu a segui. Mas agora ela precisava de mim. E tive de deixar de lado minhas dúvidas, minhas questões, meu medo. Tirei minha


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camiseta velha da mochila e amarrei as mangas com força em torno do braço de Prairie, acima do ferimento da bala, para estancar o sangramento. Ela estava quieta e pálida, mordendo o lábio sem emitir nenhum som. Segurei a mão de Chub e amparei Prairie com meu outro braço, quase a arrastando, voltando à alameda por onde chegamos e por onde poderíamos ir à cidade. Rascal nos seguia novamente dócil. Qualquer sinal do cão violento que atacara um homem momentos antes havia desaparecido. Ouvi os passos atrás de nós, o som dos pneus no cascalho, mas não havia nada. Chegamos em uma farmácia fechada e eu vi o telefone público em meio a um círculo de luz na entrada do estacionamento da loja. Hesitei - seríamos um alvo visível para quem quer que chegasse ali. Um táxi passou lentamente pela rua. Eu pulei na frente dele. Jamais havia andado de táxi em toda minha vida, mas estendi a mão e levantei um braço para acenar, tentando pará-lo. Por um momento pensei que ele ia passar direto, mas, no último instante, o motorista reduziu a velocidade. - Não posso... meu braço - gemeu Prairie. - Podemos cobri-lo... Prairie balançou a cabeça. - Não. É perigoso demais. Se ele notar o sangue, vai insistir em nos levar a algum lugar. Polícia, ou hospital. - E isso seria ruim? Por favor, Prairie, você levou um tiro. Precisamos de um médico. Ela balançou a cabeça com veemência. - Não. Você não entende. Bryce tem conexões. Mais do que você pode imaginar. Tenho certeza de que ele tem gente cobrindo as ocorrências policiais, no departamento rodoviário - se formos procurar as autoridades, podemos nos dar por perdidas. Mortas. Além do mais, não podemos levar Rascal. - Mas... O motorista do táxi abriu a janela. - Senhorita, vai entrar, ou não? - ele perguntou com um sotaque acentuado. Prairie balançou a cabeça novamente. Eu tomei uma decisão rápida. - Só preciso


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usar seu telefone celular, senhor. Por favor. Nós vamos pagar. O motorista estreitou os olhos, visivelmente intrigado. - Não querem ir a nenhum lugar? - Não, sinto muito, só precisamos mesmo usar seu celular. Ele resmungou alguma coisa que eu não consegui entender e começou a subir o vidro, fechando a janela. - Não! Por favor! - Desesperada, fiz um gesto pedindo a carteira de Prairie, esquecendo completamente que ela a havia abandonado no banheiro do restaurante, mas ela enfiou a mão no bolso e me deu um rolo de notas. Tirei do maço três notas de vinte dólares. - Aqui. Só por alguns minutos. Prometo, terá seu celular de volta em seguida. O motorista hesitou, depois suspirou e levou a mão ao bolso do casaco. Ele me deu o telefone, e eu dei a ele o dinheiro. - Não vai sair daqui - ele disse, apontando um dedo para mim. - Sim, tudo bem. Entreguei o celular a Prairie, e ela recuou alguns passos buscando abrigo nas sombras. Enquanto isso fiquei esperando ao lado do carro, com Rascal sentado tranqüilo ao meu lado. Chub assistia a tudo do meu colo, seus olhos muito abertos e preocupados. - Fone - ele disse. - Prairie telefona. - É isso mesmo, Chub. Pedimos emprestado o telefone desse bom homem para Prairie poder fazer uma ligação. - Olhei para o homem, esperando que sua expressão se suavizasse diante da doçura de Chub, mas ele olhava para frente impassível, com os braços cruzados. Não demorou muito. Prairie voltou com passos arrastados e me entregou o celular. Ela tremia. - Obrigada - eu disse, devolvendo o aparelho ao motorista do táxi. Ele não respondeu, mas partiu ainda fechando a janela, guardando o telefone no bolso. - Falei com Anna - Prairie contou. Agora ela tremia intensamente, o corpo todo. - Ela


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está a caminho. Precisamos nos esconder. Disse a ela que estaríamos naquele primeiro quintal. Ela apontou na direção de onde viemos. Um bangalô compacto era separado da rua por uma fileira de árvores e uma cerca sólida. Com sorte, as árvores nos manteriam escondidas. Antes que eu pudesse responder, Prairie começou a balançar. Segurei seu braço bom e tentei mantê-la em pé, depois praticamente a arrastei, quase a carreguei, Chub andando atrás de nós, sua mão segurando a cintura da minha calça jeans. Um muro baixo de pedras se estendia por toda a lateral do quintal. Não havia luzes na casa. Rezei para os moradores terem sono pesado. Fiz Prairie se sentar naquela mureta de pedra, e depois olhei novamente para o braço dela. Na escuridão, eu não podia saber se ela ainda perdia sangue, mas o torniquete improvisado estava encharcado. - Tem alguma coisa que eu possa fazer? - perguntei. – Você sabe... curar? Prairie balançou a cabeça. - Curadores não podem se ajudar, Hailey. - Mas... por quê? - Não sei. Sempre foi assim. Mas somos fortes. Mais fortes que a maioria. Eu vou ficar bem. O tremor se tornou menos intenso enquanto esperávamos, mas a pedra era gelada debaixo de nós, e a noite parecia ficar mais fria a cada momento que passava. Chub estava apoiado nos meus joelhos. - Sono - ele murmurou, e eu deslizei os dedos por seus cabelos muitas vezes, como ele tanto gostava. Os minutos se arrastavam, com um ou outro carro passando pela rua a alguns metros dali. Finalmente, um automóvel parou junto da calçada. Era pequeno, e a iluminação pública me permitiu ver que também era velho e amassado. O homem que saiu pela porta do motorista era alto e tinha ombros largos. Sua silhueta se recortou contra a luz da rua, e ele parou com os punhos cerrados olhando em volta. Não consegui ver seu rosto - ele tinha um capuz que mantinha sobre a cabeça - mas alguma coisa se moveu dentro de mim, aquele sentimento intenso e profundo que às vezes eu experimentava quando me aproximava dos Morries, uma mistura de anseio, perda,


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conexão e medo. Seria ele um Banido? Como ele conseguira chegar ali tão depressa? Prairie também o viu, e eu ouvi seu murmúrio surpreso. O terror invadiu minhas veias quando percebi que ele nos vira. Eu me preparei para correr, embora soubesse que jamais poderia ser tão rápida, não com Prairie e Chub para carregar. Mas Prairie pôs a mão no meu braço para deter-me. - Está tudo bem - ela sussurrou. - É Kaz. O filho de Anna.


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Capítulo 19 Ele atravessou o jardim com alguns passos longos e quase nem olhou para mim antes de abraçar Prairie com cuidado.

- Não acredito que é você - ela disse, passando o braço bom por cima de seus ombros. Você está muito alto! Acho que devia ter só doze anos na última vez que o vi. - Vamos para o carro - ele disse com urgência. - Minha mãe vai me matar se eu não levá-la para casa depressa, tia Eliz... - Ele parou e balançou a cabeça como se estivesse constrangido. - Quero dizer, Prairie. Sinto muito. Mamãe me disse. - Tudo bem - Prairie respondeu. - Fui Elizabeth por muito tempo... não se preocupe com isso. - Sim, mas é que... quero dizer... enfim, sou Kaz - ele finalmente se apresentou, virando-se para mim e estendendo a mão. Não consegui ver os traços dele no escuro, mas a luz clara da iluminação pública fez brilhar seus dentes quando ele sorriu. Quando apertei a mão, senti aquela espécie de eletricidade que sempre aparecia quando eu me aproximava dos Morries. Não era tão forte quanto a corrente que senti quando toquei Milla, mas era cheia de energia. A pele de Kaz era fria pela exposição ao ar da noite, e seus dedos eram ásperos e calejados, mas a sensação de apertar a mão dela era boa, e a segurei por um segundo além do que pretendia. E de certa forma ele era diferente de todos os Morries que eu conhecia, exceto Sawyer. Eu me sentia segura com ele. - Sou Hailey - consegui responder. - E esse é Chub. E aquele é meu cachorro, Rascal. É um prazer conhecê-lo.


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Ele assentiu, depois voltou a atenção para Prairie. - Podemos conversar mais em casa, mas mamãe já preparou tudo, e parece que você está precisando. Como chegou aqui? - Dirigindo - Prairie respondeu rangendo os dentes. - Mas o carro está num lugar muito bom, ninguém vai notá-lo por dias. - E... o cachorro também vem? - Se você não se incomodar - respondi apressada. - Ele não vai dar trabalho. - Não podia abandonar Rascal depois de ele ter nos acompanhado até ali. - Não me incomodo. Meu carro já viu coisas piores. Muito bem, Prairie, como você está realmente? - Pareço pior do que estou. - Se você diz... - Ele segurou sua mão e a ajudou a ficar em pé. - Eu me ofereceria para carregá-la, mas... - Considerando que eu costumava ler histórias do Elmo para você, isso poderia exigir um tempo para nos adaptarmos - ela disse com uma risada fraca. Fui atrás deles carregando Chub, que cochilava. Quando chegamos ao carro, Kaz ajudou Prairie a se sentar no assento do passageiro e a prendeu no cinto de segurança, enquanto eu acomodava Chub ao meu lado no banco traseiro. Rascal deitou-se no chão, como de costume. Kaz acelerou e partiu, ganhando velocidade. Não falamos muito durante o trajeto, percorrendo ruas movimentadas em direção ao centro da cidade. Kaz seguiu por uma estrada que contornava o lago e, de repente, lá estava, toda Chicago brilhando como uma terra fantástica e cintilante à direita, o vazio negro do lago à esquerda. Eu não conseguia desviar o olhar daquela cena, mas logo retornamos ao labirinto mais na área urbana da cidade. Belos edifícios antigos se erguiam à nossa volta, mas, na medida em que seguimos adiante, eles cederam lugar a bairros mais planos com construções mais simples. - Estamos quase chegando - Kaz murmurou. - Agüente aí.


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Ele entrou em uma alameda estreita e logo parou o automóvel na entrada de uma casa pequenina e espremida entre duas outras. Assim que desligou o motor, Kaz desceu do carro e foi ajudar Prairie, tirando-a do automóvel com grande cuidado. - É melhor levá-la para dentro - disse como se pedisse desculpas. Chub havia adormecido novamente e eu tentava retirá-lo do cinto de segurança e do carro sem acordá-lo. Finalmente consegui, e percorri a passarela de concreto que se estendia até o quintal contornado por arbustos e por uma cerca alta que o separava dos vizinhos. Rascal me seguiu e percorreu toda a área com sua habitual eficiência. Uma escada de três degraus conduzia à varanda dos fundos, e ali uma mulher nos esperava parada na porta. Mais uma novidade para enfrentar. Respirei fundo e subi a escada. - Hailey - a mulher disse com tom suave. Ela devia ter a minha estatura, com curvas suavemente arredondadas e cabelos claros e encaracolados caindo sobre os ombros. - Meu nome é Anna. Seja bem-vinda. Entre. O cachorro também, tudo bem. A porta se abria diretamente para uma cozinha. O ambiente era confortável e quente, e cheirava a pão e temperos. Prairie já estava sentada à mesa redonda, e Kaz punha diante dela uma xícara fumegante. Ele removera o capuz do moletom, e finalmente consegui ver seu rosto. Os cabelos castanhos claros eram um pouco mais longos do que deveriam ser, e ele tinha ombros largos e queixo forte. Quando sorria, seus olhos azuis brilhavam intensamente. - Aqui vocês estão seguros - ele disse, e pude sentir suas palavras, além de ouvi-Ias, a voz baixa percorrendo minha pele e meus nervos como uma corrente elétrica. Anna caminhou até a pia e esfregou as mãos com uma pequena escova plástica e uma generosa quantidade de sabão. - Por favor, não pense que sou rude. Acho que agora preciso cuidar de Elizabeth. Quero dizer, Prairie. Sim? Depois conversaremos. - Vamos tomar chá - disse Kaz. - E leite para Chub, talvez? - Ah, eu... acho que ele não vai acordar - eu disse. O relógio de parede marcava uma e meia. Eu não conseguia acreditar que já era tão


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tarde, mas muita coisa já havia acontecido essa noite. De repente eu me sentia completamente exausta, e Chub pesava de maneira quase insuportável em meus braços. Queria muito me sentar, mas a mesa estava coberta de material de primeiros socorros - gaze, tesouras, frascos plásticos - e eu temia ficar no caminho. Anna se virou de costas para a pia e sacudiu as mãos, espalhando gotas de água em todas as direções. - Kaz, leve Hailey ao quarto dela. Esse lindo menino... - Chub - eu disse. - O nome dele é Chub. Eu o carregava há horas, e tinha a impressão de que minha coluna nunca mais voltaria ao normal. Estava exausta e sentia o cheiro desagradável do meu suor e do medo. Pior ainda, eu sentia as lágrimas quentes que ameaçavam transbordar dos meus olhos. - Chub - Anna repetiu. - Vamos colocá-lo na cama, está bem? Você e Chub vão ficar no quarto de Kaz. Prairie pode dormir comigo, minha cama é grande. Eu vou cuidar bem dela estou estudando para ser enfermeira, não precisa se preocupar. - Não posso ficar com seu quarto - protestei, mas a falta de convicção em minha voz era evidente até para mim mesma. - Oh. Oh, ukochana. Pobre criança, Kaz vai levar você agora. Anna comprimiu os lábios quando se sentou na cadeira ao lado de Prairie. Então, ela segurou seu braço com grande delicadeza e começou a cortar a manga da camisa, que havia colado no ferimento. Prairie estava quieta, mas sua pele brilhava pálida e úmida de suor e ela tinha olheiras muito escuras. O cabelo pendia em mechas de aparência engordurada, e a boca formava uma linha austera. - Venha - Kaz me chamou. - Quer que eu leve o menino? Antes que eu pudesse protestar ele pegou Chub dos meus braços e o colocou apoiado em seu ombro, com o rosto voltado para seu pescoço. Tirei a mochila dos ombros e a segurei com uma das mãos, sentindo os músculos entorpecidos de carregá-lo. Anna limpava o ferimento de Prairie com algodão, e pairava no ar o cheiro de anti-séptico. A pele em torno da ferida estava escura por causa do sangue seco, mas o


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algodão ia se tingindo de um vermelho intenso. Eu estremeci e me virei. Esperava que Anna soubesse o que estava fazendo. O corredor era estreito. No final dele, notei uma sala de estar pequena e arrumada. De um lado havia uma porta entreaberta por onde transbordava uma luminosidade dourada, e um banheiro. Kaz abriu a porta do outro lado da sala. - Eu, ah, peço desculpas pela bagunça - ele disse. - Não tive muito tempo para arrumar tudo antes de vocês chegarem. O quarto não estava desarrumado, não havia nada fora do lugar. E tudo era limpo. Eu sempre havia sido obcecada por organização e limpeza, mas sabia que essa era só uma forma de compensar a falta de controle reinante em todos os outros aspectos da minha vida, e o quarto de Kaz não era desorganizado. Era um lugar confortável, com livros abertos sobre a mesa e um IPod e uma lata de refrigerante no chão, ao lado de uma poltrona. Nas estantes, os livros se enfileiravam ordenadamente na companhia de troféus e de um conjunto compacto de alto-falantes. Pôsteres com temas esportivos cobriam as paredes, entre eles alguns de John Hopkins, Syracuse, e de outros integrantes de times variados. Caixotes no chão continham equipamento - luvas duas vezes do tamanho da mão de um adulto, rolos de fita e cotoveleiras, e outras coisas que não sabia para que serviam. Um capacete azul e branco ocupava lugar de honra sobre a cômoda, dividindo o espaço com mais livros e um laptop Mac. A cama dele estava arrumada. A colcha simples cobria um edredom macio e um travesseiro. - Se puxar as cobertas, eu posso deitar Chub na cama, e talvez ele não acorde - disse Kaz. - Você tem jeito com ele - eu disse, ajudando-o a acomodar Chub. - Cuido dos filhos de uma família do outro lado da rua - ele deu de ombros. - Eles têm quatro filhos. Gosto de crianças dessa idade. Elas são... determinadas, sabe? Sim, eu sabia. A palavra descrevia Chub perfeitamente. E de repente senti vontade de contar a Kaz tudo sobre ele, sobre nossa vida com a vovó, sobre como tudo havia terminado. Tinha a sensação de que poderia conversar com ele por horas, sem a timidez gaguejante que normalmente tinha de enfrentar quando me relacionava com pessoas da minha idade. Talvez houvesse uma oportunidade mais tarde. Mas, nesse momento, eu tinha outras coisas para focar. - Preciso ir ver como está Prairie.


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Na cozinha, Anna havia acabado de limpar o ferimento e contivera a hemorragia, mas eu tive de desviar os olhos - a imagem da carne rasgada no braço de Prairie era mais do que eu podia suportar. Ajoelhei-me diante dela, segurei sua mão livre e a afaguei. Queria fazer mais alguma coisa - mas não sabia o quê. Sabia que, se todas aquelas coisas ruins não houvessem acontecido, ela não me deixaria vê-la fraca ou amedrontada, como estava agora. Mas o que eu podia fazer? Prairie e eu nos havíamos salvado bem, ela me salvara muitas e muitas vezes. Provara que era digna da minha confiança. - Logo eu vou estar bem - ela disse, fazendo um grande esforço para soar animada. Anna riu e enfiou a linha em uma agulha curva. O cheiro de anti-séptico dominava o ambiente. - Anna retirou a bala. Não era grande coisa. Bala - a palavra dizia tudo. Apoiei o rosto sobre os joelhos de Prairie e senti meus ombros tremerem, senti a mão dela no meu cabelo, na nuca, e ouvi sua voz suave dizendo que tudo ia ficar bem, e isso me fez chorar ainda mais, mas temia sacudi-la enquanto Anna dava um ponto. Além disso, meu nariz estava escorrendo, ia molhar sua calça, e apesar de ela já estar imunda depois dos últimos dois dias, eu ainda não suportava a idéia de sujá-la um pouco mais, por isso me levantei trêmula e meio cambaleante, limpando o nariz na manga da camisa e engolindo as lágrimas com dificuldade. - Hailey, há lenços de papel sobre a bancada - disse Anna com seu tom calmo, bondoso. - Por favor, fique à vontade. Fui pegar os lenços. Assuei o nariz, depois lavei o rosto com água fria na pia da cozinha, e lavei também as mãos antes de secá-las na graciosa toalha amarela. Em seguida, mesmo com medo de olhar, eu me sentei e observei como Anna ia fechando o ferimento com pontos pequeninos e cuidadosos, desenhando uma linha de "x' pequeninos e pretos, única lembrança de que ela havia sido alvejada por um tiro horas antes. Kaz havia entrado na cozinha sem que eu notasse. - Chub continuou dormindo. Deixei sua mochila no quarto. Você pode, bem, usar o banheiro, ou ir para a cama, ou fazer o que quiser quando quiser. Pode usar as coisas da minha mãe. - Sim, é claro - Anna concordou. - Obrigada, Kaz. - Hailey, por favor, sinta-se em casa. Há toalhas no armário do corredor.


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- Obrigada, Kaz. - Eu sabia que estava imunda, devia estar cheirando mal, e me sentia envergonhada por Anna e Kaz me verem naquele estado. Mas não queria sair de perto de Prairie. Fiquei parada atrás da cadeira, vendo Anna concluir o trabalho. - Então, Hailey, está no segundo ano do colégio? - Anna perguntou, erguendo os olhos do curativo para sorrir para mim. - Ah, sim... - Mas era improvável que um dia eu voltasse a pisar no Gypsum High outra vez. - Kazimierz estuda no Saint Michael 's. Primeiro ano. O nome é polonês. Nós o chamamos de Kaz. E o Saint Michael's é um colégio excelente, cheio de bons professores. Você é boa aluna? - Eu? Eu... não... - Hailey é inteligente como a mãe dela - disse Prairie. Sua voz era suave e ela mantinha os olhos fechados, a cabeça apoiada no encosto da cadeira. - Ela vai ficar bem? - perguntei preocupada. - Ah, sim, não há nada para se preocupar. Acho que ela só está muito cansada. O ferimento é superficial, e eu só limpei bem a área para evitar infecção. A bala não atingiu o osso. Olhei para os pontos no braço de Prairie. - Está tudo bem, sim. Tive de mexer no local para limpar, verificar se não havia nenhum fragmento de osso ou corpo estranho, e isso foi desconfortável para ela. Mas agora vou dar a Prairie alguma coisa bem forte para beber, e ela vai relaxar, vai sentir muito sono. Vi Anna concluir a sutura e enfaixar cuidadosamente o braço de Prairie. Queria poder simplesmente tocá-la e curá-la como fiz com Milla e Chub, mas a urgência não estava em mim, e eu sabia que era verdade - não podia ajudá-la. Anna, Banida como nós, usava linha, agulha e anti-séptico, ferramentas tradicionais, e elas pareciam muito... inadequadas comparadas ao nosso dom. E eu entendia como Prairie podia se sentir tentada a usar seus dons para curar tantas pessoas quanto pudesse, como podia ter se sentido envolvida pelo esquema maluco de Bryce, se acreditara que daquela maneira poderia encontrar uma forma de compartilhar seus poderes. Eu segurava a mão dela, e sentia sua pulsação lenta e estável. Pensei que ela tivesse


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adormecido, mas quando Anna começou a guardar seu material de primeiros socorros na caixa, Prairie ergueu o corpo na cadeira e piscou algumas vezes. - Anna, não sei nem corno começar a te agradecer. - Não precisa - somos família. Pensei que, qualquer que fosse o motivo da separação, não podia ser tão grave, se Anna ainda considerava Prairie como alguém da família. Anna olhou para mim e deu um tapinha no meu joelho. - Sua tia me contou sobre sua avó Alice. Lamento que tenha tido de viver com ela. Na Polônia, havia história sobre os Blogoslawiony. - É como chamam os Banidos na Polônia - Prairie explicou. - Sim, as pessoas que vêm do velho país. Enfim, depois que eles saíram da Irlanda, às vezes nasce uma mulher Curadora que não é normal. O dom é demais para ela, ou essa mulher não é suficientemente forte para utilizá-lo corretamente. Elas se tornam cruéis, e as famílias precisam trancá-las. Normalmente doentes, elas acabam morrendo jovens. - Minha avó era... - Eu não conseguia pensar em nada para dizer. Ela era muitas coisas, todas ruins. - De qualquer maneira, agora que está com sua tia, com nossa Eliza - nossa Prairie, tudo vai ficar muito melhor. Prairie suspirou e estendeu a mão para tocar a de Anna. - Devo muito a você. Estava certa. Você me disse para deixar aquele emprego, e tinha razão. Não sei o que mais dizer... exceto que sinto muito. Devia ser esse o motivo do afastamento. Anna balançou a cabeça, baixou os olhos, mas depois de um momento ergueu os ombros e encarou Prairie. - Não precisamos mais falar sobre isso. - Mas... Todos esses anos pensei ter perdido você. E Kaz... ele agora é um homem. Kaz olhava de uma para a outra.


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- Foi por isso que discutiram? Por causa do emprego de Prairie? - Não se zangue com sua mãe - disse Prairie. - É minha culpa. Sua mãe me perguntou o que fazíamos no laboratório, e eu menti. Eu me senti muito mal com tudo isso, mas Bryce me fez assinar um contrato de sigilo. Disse que seríamos patrocinados pela Universidade. Só descobri que o dinheiro vinha do governo há alguns dias. E ele me disse o que falar... disse que eu devia contar às pessoas que estávamos trabalhando em uma vacina para gado. - Eu sei quando você está mentindo - Anna revelou com tom triste. - E também sei quando Kaz mente. Vocês não são bons nisso. - Mas, mãe, como teve coragem de mandar Prairie embora daquele jeito? - Agora Kaz estava muito bravo. - Foi necessário - Anna respondeu. - Ela tentava usar o dom da Cura em um projeto científico. Isso não é bom. Poderes Bajeczny são restritos ao povo do vilarejo, e czarownik amaldiçoou os que partiram. Talvez os Banidos devessem morrer. Desde que o povo deixou a Irlanda, os homens perderam as visões, há violência e crimes. As mulheres são fracas, esqueceram a história. - E eu? E o papai? Ou Prairie. Ou Hailey? - Ele olhou para mim ao dizer meu nome. Teria preferido que não houvéssemos nascido? - É claro que não. - Bem, então quer que façamos algo de proveitoso com nossa vida? Algo importante? Ou quer que eu seja um contador, um vendedor de sapatos, ou alguma coisa assim? - Não há nada de errado com um trabalho honesto - Anna respondeu. Eu percebia como eles iam ficando cada vez mais nervosos uns com os outros. - Seja um vendedor de sapatos - se for um bom vendedor, eu não me importo. - Você não se casou com um vendedor de sapatos - Kaz murmurou furioso. - Seu pai era um guerreiro. Você sabe disso. Ele foi um herói no Iraque.


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- E Prairie é uma líder. Uma inovadora - disse Katz. - Ela não tem culpa se o chefe era um maluco. - Obrigada, Kaz. - Prairie interferiu. - Mas cometi erros e preciso repará-los. Coisas terríveis estão acontecendo por eu ter sido teimosa, por ter me recusado a ver o que sua mãe tentava me dizer. Agora tenho que consertar tudo isso. - Vamos deixar essa conversa para amanhã - disse Anna. Agora é hora de irmos todos descansar. Amanhã é domingo, o salão vai ficar fechado, e todos poderão dormir. - Mas e... - eu perguntei. Por mais acolhida e segura que me sentisse na casa de Anna, por maior que fosse o alívio de saber que Prairie ia ficar bem, eu não conseguia deixar de pensar em Rattler, lembrar dele segurando o próprio rosto com a mão ensangüentada. - E se Rattler vier atrás de nós? Houve um breve silêncio enquanto Prairie e Anna se entreolhavam. Percebi que estavam perturbadas - e que não diziam o que estavam pensando. - Por favor - sussurrei. - Não tentem esconder coisas de mim, eu preciso saber. - Acho... que estamos seguras por enquanto - Prairie falou cautelosa. - O ferimento... eu não me surpreenderia se Rattler perdesse aquele olho. Ele deve ter perdido muito sangue. Não vai conseguir fazer nada enquanto não tiver ajuda. Mesmo que ele tente apenas descansar e esperar até estar suficientemente bem pra viajar, não irá a lugar nenhum esta noite. - Sua tia, ela descreveu... o que você fez. - Anna fez um gesto com a mão imitando o ataque, e eu me encolhi ao lembrar da presilha de cabelo perfurando o olho de Rattler. A reação era incontrolável, porque eu não suportava a lembrança. - Ela disse que foi profundo... Pode ter havido alguma lesão cerebral. É possível que ele tenha piorado muito depois que vocês o deixaram. É uma menina muito corajosa - Anna acrescentou apressada. Eu sabia com que ela estava preocupada - temia que eu desmoronasse ao pensar na possibilidade de ter matado ou incapacitado Rattler. Mas isso não ia acontecer. Não lamentaria por ele. Esperava que ele estivesse caído no chão até agora, perdendo sangue até ficar fraco demais até para dizer o próprio nome. E também sentia uma sensação profunda cujas raízes estavam cravadas naquele ponto em que o instinto supera a razão, que ele não estava morrendo. Sentia que qualquer dano que


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conseguisse causar a ele não seria suficiente. Sabia que, depois de curado, ele seria tão forte quanto antes, tão determinado, e que viria atrás de nós outra vez, de um jeito ou de outro. Mas eu havia conseguido ganhar tempo para nós. Por ora, isso teria de ser suficiente. Prairie me permitiu ajudá-la a se levantar. Kaz a amparou do outro lado e, juntos, nós a ajudamos a percorrer o corredor, com Anna seguindo na frente. Anna abriu a porta do quarto dela, onde um lindo edredom já havia sido afastado sobre a cama de casal. - Vou ajudar Prairie a se lavar - ela disse. - Tenho uma camisola e um robe. Vocês dois, vão dormir também. Kaz se ofereceu para levar Rascal lá fora enquanto eu escovava os dentes e lavava o rosto. Eles não demoraram muito, e Kaz olhou de um jeito estranho para Rascal ao dizer boa noite. Fechei a porta do quarto, satisfeita com a solidão e toda tensão do dia finalmente invadiu meu coração como uma onda, e eu senti que ia desmoronar. Em vez disso, deitei na cama de Kaz e bati no colchão ao meu lado. - Vem, Rascal chamei, e ele pulou na cama. Era bom poder abraçá-lo, sentir sua pulsação forte e regular sob o pêlo macio. Era como se nem fosse mais tão importante o fato de ele ter perdido a personalidade, de nem brincar mais. Fechei os olhos e lembrei como ele costumava ser, e afaguei o pêlo fofo em torno de seu pescoço, o que me fez sentir melhor. Até meus dedos tocarem alguma coisa que não devia estar li. Apalpei a região com cuidado, tentando identificar o objeto pequeno e duro sob sua pele. Ansiosa, apoiei-me sobre um cotovelo e acendi o abajur sobre o criado-mudo. Afastei o pêlo de Rascal e olhei de perto o que percebi ser um pequeno pedaço de metal preto brotando do inchaço onde a pele já começava a recobrir o corpo estranho, e acompanhei o contorno com os dedos. Era pequeno. Nodoso. Uma bala. Afastei a mão e respirei fundo, afastando-me dele. Minhas pernas estavam enroscadas no lençol, e eu meio caí meio me arrastei para fora da cama de Kaz. O choque se misturou ao desgosto quando limpei minha mão no tapete, queimando a pele. - Não, não, não - me ouvi sussurrar, e quando fechei a boca tentando calar as palavras, elas se transformaram em um gemido desesperado.


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Rascal havia sido alvejado. Eu me lembrei dele esperando no quintal da casa da vovó, com sangue no pescoço - devia ter sido atingido quando eles chegaram. Os homens de Bryce provavelmente tentaram matá-lo para fazê-lo ficar quieto. Talvez fosse um ferimento superficial, só uma lesão sem grande importância, algo que Rascal curava com as próprias defesas. Eu me agarrei com desespero a essa idéia, mesmo sabendo que era improvável, e me obriguei a olhar para ele. Rascal não se movera; estava deitado e quieto, indiferente, ainda no mesmo lugar onde eu o deixara sobre a cama. Eu precisava saber. A náusea ameaçava me dominar quando me aproximei da cama de joelhos, olhando para o ponto onde a bala penetrara, tentando não fitar seus olhos inexpressivos. Rangi os dentes com força e estendi a mão trêmula para tocá-lo, e quando ele não reagiu, tive a sensação de estar tocando o próprio mal, e todo meu corpo resistiu meu coração batendo num ritmo alucinado. Quase não consegui. Fechei os olhos com força e senti lágrimas correndo quentes por meu rosto, mas não consegui sufocar os pequenos sons que escapavam de meu peito, como soluços abafados de desespero e horror. Mas me obriguei a deslizar os dedos pelo pescoço de Rascal, e encontrei a irregularidade na pele em torno da perfuração por onde as balas haviam penetrado. Uma delas eu consegui sentir alojada profundamente no músculo, mas a outra penetrara em seu corpo até onde eu não podia tocá-la através da pele, bem em cima do coração. Rascal havia levado três tiros. Devia estar morto. Mas não estava. Balas não podiam matá-lo. Porque ele já estava morto. Porque eu o transformara em um zumbi. Eu era amaldiçoada. Não era uma curadora - era uma criadora de zumbis. No fundo, sempre soubera disso. O acidente voltou à minha mente como um filme em velocidade acelerada, imagens congeladas que se sucediam com rapidez: o sangue, os órgãos escapando de seu corpo, a maneira como ele havia revirado os olhos uma última vez. O vazio quando eu o trouxera de volta. Eu o trouxera de volta. Dos mortos. E agora ele não podia morrer. Fora atingido por tiros, as balas estavam em seu corpo como prova, e haviam rasgado a pele, a carne e até seu coração, mas ele continuava em pé, um cachorro robô. Um cachorro zumbi. Eu gritei e o empurrei da cama com toda força que tinha. Seu corpo caiu no chão com um baque, e ele se levantou lentamente sobre as patas, e ficou ali parado e imóvel, olhando para o nada. Eu me levantei e comecei a recuar me aproximando da porta caminhando de costas, e


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quando meus ouvidos registraram o significado daquele som estranho e persistente, compreendi que ainda gritava. A porta se abriu e braços fortes me envolveram por trás, praticamente me tirando do chão, e eu lutei e gritei, tentando me afastar de Kaz enquanto ele me arrastava para o corredor, para a sala de estar. - Pare com isso Hailey - ele ordenou, mas não tentou se defender. Lentamente, fui ficando sem energia e parei de me debater, e os gritos se transformaram em soluços enquanto ele me segurava contra o corpo com firmeza e cuidado. Ouvi uma porta se abrir atrás de mim, depois a voz de Prairie e a de Anna. - O que aconteceu? - Hailey está bem? - Ele não foi curado - eu gritei, livrando-me dos braços de Kaz e correndo para Prairie. Queria me jogar nos braços dela, mas sabia quanto estava frágil e simplesmente me abracei, tremendo muito. - Eu transformei Rascal em um zumbi.


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Capítulo 20 - Você precisa me dizer a verdade - eu disse quando Anna ajeitou a manta sobre mim e Prairie. Estávamos sentadas juntas no sofá da sala de estar. - Toda a verdade. Kaz levara Rascal para o quintal depois de eu dizer que não poderia passar nem mais um segundo com ele dentro de casa. Ele ferveu água para o chá, e nós quatro nos reunimos na sala de estar. Felizmente, Chub não acordou com a comoção. - Nós nunca... não sei se zumbi é a palavra certa - Prairie começou hesitante. - Mas é isso que Rascal é! - explodi. - Ele não pode ser morto. Voltou dos mortos. - Eu me esforçava para controlar a respiração, e minhas mãos tremiam tanto que as uni e apertei com força. - Por favor, me diga como isso aconteceu. Quero saber o que eu fiz. Diga que Milla não vai acabar assim. Diga que nunca farei isso com Chub. - Não vai mais acontecer - Prairie afirmou com cuidado. Ela olhou para Anna, que havia falado pouco desde que eu acordei. Ambas pareciam tão preocupadas que minha ansiedade ameaçou explodir novamente, e senti o grito se formando dentro de mim, então apertei novamente as mãos até os dedos ficarem brancos. - Como posso ter certeza? - É só... você nunca tentar curar alguém que já morreu. Essa é a única regra. Mary nos ensinou desde o início, a mim e a sua mãe, antes de termos curado qualquer coisa, até mesmo um lagarto. Ela não nos deixava curar nem um esquilo ou rato morto - nos fez prometer. -


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Prairie tentou segurar minhas mãos e as apertou com ternura até que, como um pedaço de gelo derretendo, relaxei e a deixei entrelaçar os dedos nos meus. - Lamento que não tenha tido ninguém para ensinar, explicar tudo. Você é o futuro, Hailey. As palavras de minha avó, todas as vezes que ela havia olhado para rnirn daquele jeito estranho, ávido - tudo voltou à minha lembrança, tentando ocupar espaço e alimentar o terror. Eu resisti, concentrando-me na sensação da mão morna de Prairie na minha. Depois de um momento, percebi algo - o curativo havia sido removido de seu braço, e a ferida que Anna havia suturado parecia melhor. Curadores não podem curar uns aos outros, mas somos fortes. Ela me havia dito isso. Eu era forte. Agarrei-me a esse pensamento e me mantive firme. - Então me explique tudo agora. - Não há muito para dizer. Só aquela regra única - jamais curar alguém que já morreu. O corpo dessa pessoa vai voltar, pelo menos por algum tempo, mas sua alma já terá partido. Eles não sentem amor, dor, nada, nenhuma emoção. Respondem a estímulos básicos, comem e até dormem, mas não sonham. Não podem tomar decisões por conta própria, embora ouçam e processem instruções e cumpram todas as ordens que recebem. - Rascal faz o que eu mando. Se digo a ele para vir, ou ficar, ou... você sabia, não é? - Eu... sim, tive certeza desde o momento em que o vi. Por isso procurei cicatrizes em seu corpo. - E por que não me disse? Sabia o que eu havia feito com ele, e me deixou levá-lo no carro conosco, me deixou tocá-lo... - Hailey, eu sinto muito, mas não sabia como dizer tudo isso sem perturbá-la... - Sem me perturbar? Estou muito perturbada, não acredito... - Eu precisava manter você calma - Prairie me interrompeu. - Eu sinto muito mesmo, Hailey, mas você não estava preparada para saber. - Ficamos em silêncio por um momento, e eu percebi que era verdade. Havia


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estado muito perto de perder o controle nos últimos dias. Mais uma coisa, e eu poderia ter desmoronado. - Há quanto tempo você sabe sobre... o que acontece? Se você cura depois de... - Mary costumava nos contar histórias - Prairie respondeu. Histórias de horror acho, com a intenção de nos assustar, para não nos sentirmos tentadas. Quando ela era menina, uma das outras curadoras não se conteve e trouxe de volta um gato, um animal que ela amava, e foi como o que aconteceu com Rascal. Todas as crianças ficaram com muito medo de como ele ficava sentado na varanda, apenas olhando para o nada, imóvel. As pessoas não passavam pela casa. - O que aconteceu com ele? Prairie mordeu o lábio. - Mary disse que ele começou a... bem, seu corpo começou a se decompor. O corpo de um morto curado não consegue sustentar a vida indefinidamente. - Oh, meu Deus - gritei, sentindo o horror invadir minhas veias novamente. Rascal começaria a se decompor? Seu corpo já estava apodrecendo? - Um dia alguém - jamais descobriram quem - quebrou o pescoço do gato. Mary disse que foi uma bênção. - Mas pensei que eles não podiam ser mortos. - Existem meios... o tronco cerebral deve ser rompido. Uma... decapitação funcionaria. Esmagar essa... área do cérebro... um rompimento definitivo entre as vértebras seria suficiente, se... bem, você entendeu a idéia. - Era uma pessoa boa, compassiva - Anna declarou. Notei Kaz parado na porta e percebi que ele estivera ouvindo a conversa. Havia uma xícara em cada mão dele. Kaz aproximou-se e deixou as xícaras sobre uma mesa. Seus olhos encontraram os meus e havia tristeza neles. - Lamento sobre Rascal - ele disse em voz baixa. - Mas não é sua culpa. - É. Eu fiz aquilo. Ninguém mais. Não acrescentei que, de alguma forma, eu sabia que


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estava fazendo algo errado, mesmo quando senti a urgência fluindo de mim para o corpo sem vida de Rascal. Antes mesmo de saber que era uma Curadora - Quanto... tempo? - perguntei quando ninguém mais respondeu. - A decomposição leva mais tempo do que levaria em uma morte normal- Prairie explicou com aquele tom cauteloso. - Depende da saúde da pessoa - ou animal. Pode levar duas ou três vezes mais que o normal para os tecidos se decompor. E outras condições afetam esse tempo. Calor pensei, e umidade, insetos, todas as coisas que aprendemos nas aulas de ciência. Eu sentia ânsia de vômito. Ainda não havia notado nada, exceto um cheiro ruim, e Rascal era um cachorro jovem e saudável, mas em quanto tempo seu pêlo começaria a cair e seu corpo se encheria de gases que romperiam a pele? Soltei as mãos de Prairie e cobri o rosto, tentando resistir às lágrimas. - Não suporto olhar para ele - sussurrei. - Não me façam olhar para ele. - Ele está lá fora - Kaz lembrou. - Você está aqui, conosco. Está tudo bem. Eu queria acreditar nele. Ele se ajoelhou na minha frente, Anna se aproximou, e ficamos ali todos juntos. As mãos deles me confortavam, umas tocando meus ombros, outras afagando meus dedos, e tudo isso ajudou a me acalmar. Eu me sentia mais próxima de Anna e Kaz do que de pessoas que eu conhecia desde sempre. Quanto a Prairie - não conseguia mais imaginar a vida sem ela. Mas, no fundo, eu sabia que ainda era sozinha de um jeito muito importante. Havia feito o que nunca devia ser feito, aquilo que Prairie e minha mãe sempre souberam que não deviam fazer. Fizera o imperdoável. E não conseguia deixar de pensar que poderiam sofrer as conseqüências por isso de muitas maneiras. Pensei em Prairie quando o rosto dela ficara sombrio por minha desgraça. Reconheci a dor solitária em sua essência. Ela também guardava um segredo, e me perguntei se um dia eu seria como ela, marcada com um tipo de sofrimento que outros seres humanos não poderiam entender. - O que você fez? - perguntei a ela. Eu precisava saber se era algo conectado com as coisas que haviam acontecido com o que eu fizera. - Por que deixou Gypsum?


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O rosto dela empalideceu, mas não foi surpresa que vi estampada em seu rosto. Pelo contrário, foi quase resignação. - Não hoje - ela disse a voz rouca traindo exaustão. - Hoje já tivemos de enfrentar coisas demais. - Pare de tentar me enrolar - reclamei. - Você me deve a verdade. - Conversaremos amanhã. Prometo. Depois de todos termos uma chance de descansar. O sol vai nascer em poucas horas e não poderemos fazer o que deve ser feito, a menos que todos tenham um pouco de descanso. Vamos dormir. Quis discutir com ela, insistir na verdade imediatamente, mas a fadiga me vencia. Apesar do choque provocado pela descoberta sobre Rascal, apesar de ter um pesadelo vivo para me preocupar, eu estava desesperada para fechar os olhos e deixar o sono apagar todos os pensamentos. Mesmo que fosse só por algumas horas. - Prometa - implorei num sussurro. - Prometo. - Ela me olhou diretamente nos olhos quando falou, e vi refletido sem eu rosto uma sombra de mim mesma, um reflexo no verde profundo. Ela passou o resto da noite comigo em meu quarto. Insisti para ela ficar com a cama de Kaz, e quando Prairie protestou, eu me acomodei no ninho de cobertores que Kaz havia feito para Chub e adormeci antes de ela dizer para eu não me preocupar.


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Capítulo 21 De manhã ela havia desaparecido, deixando para trás uma cama arrumada e raios de sol entrando pela janela do quarto de Kaz. Chub também estava acordado. Encontrei Prairie na cozinha depois de levar Chub ao banheiro, onde escovei os dentes e lavei o rosto. Antes que pudesse exigir que ela cumprisse sua promessa e me contasse a história, Prairie me deu um copo descartável com café. - Há alguém que quero que conheça - ela disse. Pegue um pãozinho para ir comendo no caminho. Anna vai cuidar de Chub enquanto estivermos fora. Anna entrou na cozinha nesse momento, seu rosto pálido e cansado, mas ela sorriu para mim como se para isso não precisasse fazer nenhum esforço. Não havia nenhum sinal de Kaz na casa, e o lugar parecia ainda menor sem a presença dele. - Vão, vocês duas - ela nos incentivou, afagando rapidamente meu braço. - Estou preparando gulasz, teremos um almoço especial quando voltarem. Eu não estava com fome, mas peguei um pãozinho do prato que Anna deixara sobre a mesa. Ele já havia sido cortado e recheado com cream cheese e damascos secos. Anna pôs um guardanapo de papel em minhas mãos. - Não quero sair - eu disse, odiando como minha voz soava aguda e estridente, mas o horror da noite anterior retomava ameaçando me dominar. Caminhava com desespero, tentando dominar o pânico, mas sabia que se eu tivesse de passar pela criatura em que havia transformado Rascal eu perderia o controle. - Não posso olhar para ele, simplesmente não posso. - Está tudo bem - Prairie disse com gentileza. - Ele já foi. Está... descansando.


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- Como assim? - perguntei. - O que fez com ele? - Eu fiz - Anna respondeu. Ela deu um passo adiante e tocou meu ombro, olhando para mim com ternura, mas também com firmeza. - Foi humano, Hailey. Sou enfermeira, sei como fazer essas coisas. Kaz está enterrando o corpo no parque, um lugar onde há árvores, floresta, tranqüilidade. Mais tarde, quando você voltar, tudo já terá terminado. Comecei a tremer, e lágrimas brotaram do canto dos meus olhos. Segurei a mão de Anna, cobrindo-a, tentando encontrar um jeito de agradecer, mas temendo que minha voz me traísse. - Tudo bem - consegui dizer. - Anna vai me emprestar o carro - Prairie falou. - Vamos, podemos conversar no caminho. Mas não falamos muito. O carro de Anna era só um pouco mais novo que o de Kaz, e o motor falhava em cada cruzamento, como se fosse morrer sempre que ela reduzia a velocidade. Prairie pisava no acelerador, revivendo o motor, e nós percorremos os bairros em torno do lago, voltando ao trevo e para a estrada. - Aonde vamos? - perguntei finalmente quando notei que seguíamos para o norte. - Não estamos longe. Alguns minutos mais tarde ela saiu da estrada para uma região de bangalôs de tijolos e outra igreja ou tapema. Não havia nenhuma placa identificando o prédio diante do qual ela parou. Havia venezianas brancas nas janelas e tulipas nos canteiros na frente. As longas rampas sinuosas eram a única indicação de que tipo de lugar era aquele. - Um hospital? - Perguntei quando subimos nos aproximando da porta da frente, que se abriu deslizando quando pisamos no tapete. - Uma casa de convalescença - disse Prairie. - Muito boa, com alguns dos melhores médicos do país em seu quadro de profissionais. - Sra. Blackwell- cumprimentou animada a mulher que estava na recepção. - Vincent hoje está num bom dia. Ele vai ficar muito feliz com sua visita.


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Prairie trocou algumas palavras com a recepcionista ao se registrar como visitante. Olhando por cima de seu ombro eu li "Susan Blackwell" numa caligrafia perfeita. - E quem trouxe hoje? A mulher sorriu para mim com franca curiosidade. - Essa é Hailey. A família dela acabou de se mudar para cá e juntar-se à congregação da igreja. Ela também está interessada em prestar serviço voluntário. - Ah, isso é maravilhoso! Hailey amamos nossos voluntários. E nossos pacientes também. Especialmente aqueles que não têm família. As visitas sempre os beneficiam muito. - O que significa tudo isso? - perguntei quando Prairie agradeceu à recepcionista e me levou por um corredor. Passamos por uma porta automática e caminhamos por outro corredor com piso encerado e brilhante e quartos dos dois lados. Nos quartos havia camas de hospital com pacientes nelas. Alguns estavam sentados, outros pareciam dormir. Ninguém olhava para nós. - Venho visitá-los toda semana. E uso uma identidade falsa, como você percebeu. Eles não fazem muitas perguntas quando alguém da igreja vem visitar. E há anos venho visitar Vincent regularmente, então, eles já se acostumaram comigo. - Quem é Vincent? Ela caminhava mais devagar, e nós nos aproximamos do final do corredor. Eu respirei fundo. Ela fez um gesto indicando que eu devia entrar no último quarto à direita. - Vincent era meu namorado - ela disse ao me seguir para dentro do quarto. Havia um homem sentado na cama, coberto com um cobertor fino, as mãos unidas sobre a coberta. Havia algo errado com ele. Sua pele era inchada e havia sobre ela uma camada brilhante de suor, e uma fina rede de cicatrizes recobria seu rosto e o que eu podia ver dos braços abaixo da manga da camisa. O cabelo era escuro, fino, e pendia um corte em torno do rosto. Mas o pior eram seus olhos. Eles olhavam diretamente para frente, para o nada, piscando lentamente em intervalos regulares de poucos segundos. Eram as coisas mais vazias que eu jamais vira. Não havia emoção, nenhuma evidência de sonhos ou esperanças, planos ou decepções, nada que desse a eles alguma profundidade. Quando entramos no quarto, eles piscaram e se viraram em nossa direção sem nenhum traço de emoção ou curiosidade, e tive de


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lutar contra o impulso de sair correndo dali, fugir, me afastar dele o máximo possível. - Não contei por que saí de Gypsum - Prairie disse em voz baixa. - Nunca contei a ninguém além de Anna. E menti para você antes. Quando disse que nunca curei ninguém que já havia morrido. A verdade é que curei. Eu curei Vincent. Eu tinha dezesseis anos, e nós estávamos apaixonados. Íamos fugir juntos. Alice nunca soube. Estávamos esperando apenas termos dinheiro suficiente para ir para um lugar bem longe, onde Alice não pudesse nos encontrar, e planejávamos levar Clover conosco. Ela se aproximou de Vincent e tocou seu rosto. Eu não conseguia imaginar como ela suportava tocá-lo. E ele nem parecia notar. - Sofremos um acidente na noite de formatura - Prairie contou, ajustando a gola da camisa de Vincent antes de se afastar da cama. - Ele foi jogado para fora do carro e morreu. E diferente de você, Hailey, eu sabia que não devia fazer o que fiz. Havia sido prevenida sobre o que aconteceria, caso eu tentasse trazer alguém de volta. - Como pode... - Eu o amava. Pensei que ia morrer sem ele. E eu quis, realmente, desejei estar morta também, mas não tinha coragem para fazer acontecer. Por isso, em vez de segui-lo na morte, eu o trouxe de volta. Creio que havia uma parte de mim que acreditava que, se eu rezasse muito, se quisesse de verdade, se confiasse que só daquela vez poderia dar certo, Deus teria piedade de mim e o deixaria vivo. Uma vida real, não isso... Mas é claro que não aconteceu. E quando percebi o que havia feito... eu fui embora. Essa parte era verdade. A única coisa que não disse foi que levei Vincent comigo. - Como o trouxe para cá? - perguntei preocupada. - Chegamos em Chicago de ônibus na noite do acidente. Eu tinha algum dinheiro, o suficiente para comprar roupas limpas e as passagens de ônibus. No dia seguinte chegamos aqui, finalmente. E a noite toda tudo que ele fez foi olhar pra frente sentado naquele banco de ônibus... - Mas e os pais dele? Não ficaram aflitos quando ele não voltou para casa? - Tenho certeza de que ficaram nervosos, Hailey, mas, diferente de Alice, eles sabiam sobre mim e Vincent. Sabiam que ele me amava, e ele havia dito aos pais que, se não dessem sua bênção, ele iria embora comigo da mesma maneira assim que concluíssemos o colégio. Eles


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protestaram... queriam que ele fosse para a faculdade, não que passasse o tempo todo comigo, mas ele não ouvia os conselhos. Acho que os pais dele... todos que sabiam sobre nós... simplesmente deduziram que havíamos fugido juntos. E tenho certeza de que procuraram por nós durante algum tempo. Mas Vincent era maior de idade. Legalmente, não havia nada que eles pudessem fazer. - Eles devem ter ficado devastados - eu disse, imaginando como os pais do rapaz haviam se preocupado. Depois de tanto tempo, se ainda estavam vivos, eles continuavam sem saber o que acontecera com o filho. Pela infelicidade no olhar de Prairie eu soube que ela também havia pensado nisso. - Para onde foram quando chegaram em Chicago? - Eu o levei para um hospital, o melhor da cidade. E me certifiquei de que era o melhor. Gastei quase todo o dinheiro que me restava em um táxi e o levei ao pronto-socorro. Não havia mais ninguém ali, então o sentei em uma cadeira. Fingi estar procurando atendimento para mim mesma, o que não foi difícil, já que eu também estivera envolvida no acidente e, diferente de Vincent, tinha cortes e hematomas que não haviam sido curados. Disse ao pessoal da recepção que meus pais não tinham documentos e eles me trataram como indigente, e eu só fiquei por ali o tempo suficiente para ouvir conversas e descobrir o que fariam com Vincent. - Espere, eles não souberam que vocês estavam juntos? - Não, e ele não podia informá-los. Ele nem olhou para mim. Nem uma vez. Depois disso, eu me mantive informada sobre seu paradeiro, o que não foi fácil, porque eu estava tentando encontrar trabalho e um lugar para morar, ma eu consegui segui-lo sempre. Eu... aprendi a ser criativa. E convincente. Um dos médicos no plantão do pronto-socorro era um jovem residente que estudava desordens do sistema imunológico. Isso era o que pensavam dele, na verdade... depois desse tempo, a equipe da clínica ainda acha que Vincent tem uma séria desordem imunológica, e o submetem a testes freqüentemente. - Eles podem examiná-lo assim? Fazer experiências? - Tecnicamente não já que ninguém jamais assinou uma autorização e eles nem tentaram encontrar a família. Ele é um desconhecido, mas como usava uma pulseira com seu nome gravado, todos o chamavam de Vincent. Para mim, isso era um... conforto. De qualquer maneira, como você mesmo vai aprender um dia, quando há dinheiro envolvido muitas coisas se tornam possíveis. O médico sobre quem lhe falei - aquele que estuda o sistema imunológico - ele tinha muitos recursos, patrocínio, e providências foram tomadas. Ela deu de ombros. - Descobriram como manter a pele intacta e os órgãos funcionando durante


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todo esse tempo. - Mas como... - Milagres da ciência moderna. - A voz de Prairie era pesada, cheia de pesar e emoção. É irônico. Sempre me perguntei o que aconteceria se os médicos se reunissem com Bryce, o que poderiam realizar... Mas nunca pude falar sobre um com o outro. Eles trabalhavam em propósitos cruzados, podemos dizer. - O que os médicos daqui fazem com ele? - perguntei com a boca seca. - Eles estão pesquisando regeneração celular - Prairie respondeu. - O organismo de Vincent reagiu bem. Acho que devo gratidão a esses médicos. Mas ela não parecia grata. Eu não a culpava por isso. Como devia ser para ela ver alguém amado ali, mantido vivo artificialmente? Tentei imaginá-Lo com a idade de Kaz, cheio de vida, rindo, mas tudo que via era uma embalagem vazia. - O que ele... faz? - perguntei. - Ele é muito bom com tarefas simples, como separar contas e montar quebra-cabeça. Mas não se expressa verbalmente. Os médicos ainda têm esperanças. - Eu... não sei se isso é pior. Veja isso. - Ela parou na frente da cama, na linha de visão de Vincent, se é que ele enxergava alguma coisa. - Vincent, bata palmas três vezes. Sem nenhuma mudança de expressão, o homem na cama levantou as mãos e bateu uma contra a outra lentamente. Uma, duas, três vezes. Depois ele deixou as mãos caírem sobre as cobertas. Seus olhos nunca focavam nada, ninguém. Vê-lo me causou um arrepio, mas eu não queria que Prairie soubesse quanto eu estava horrorizada. - Não pode ficar se culpando. Você não podia saber. Prairie balançou a cabeça com imensa infelicidade. - Eu sabia. E fiz o que fiz mesmo assim. Preciso ter certeza de que isso não vai acontecer novamente, e é por esse motivo que tenho de deter Bryce, seja como for. Eu não suportava vê-Ia tão aborrecida. - Não se preocupe. Se as pessoas sabem o que acontece quando curam uma pessoa que já morreu, elas jamais farão tal coisa, não deliberadamente. Mesmo que Bryce consiga criar mais Curadores, ele não os induziria...


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- Hailey - Prairie me interrompeu com firmeza. - Você não entende. Isso é exatamente o que Bryce quer fazer... coisas como essa. Ele quer vendê-los pelo preço mais alto. Os Curadores serão só uma ferramenta, como uma linha de montagem. Olhei para Vincent, para seu olhar vazio, para a baba que escorria num fio fino pelo canto de sua boca. Eu não entendia. - O que alguém pode querer com... O rosto de Prairie ficou sombrio. Ela segurou meu pulso e me puxou para o lado, até eu estar a poucos centímetros de Vincent. - Vincent, bata em você mesmo - ela sussurrou, e Vincent começou imediatamente a estapear um lado do rosto, depois o outro, as mãos abertas e firmes, os sons dos tapas ecoando no quarto. Prairie olhou para mim para ter certeza de que eu via aquilo e a dor nos olhos dela me atingiu como uma faca. - Mais força - ela cochichou, e os dedos de Vincent se cerraram, e cada soco fazia sua cabeça balançar e virar, mas ele ainda se batia... - Pare! - gritei. - Por favor, Vincent, pare, não, não se machuque! - E sem precisar de uma nova ordem, aquela coisa chamada Vincent, o zumbi que habitava as ruínas de seu corpo, repousou as mãos sobre as cobertas. Seu rosto exibia hematomas recentes e alguns cortes, e o lábio começava a inchar. Mas não havia nenhum sinal de que ele percebesse, muito menos de que se incomodasse. Prairie recusou, se afastando dele com os olhos brilhantes pelas lágrimas que ela continha. - Por quê? - Porque é possível mandá-los para a batalha, Hailey - ela disse com a voz embargada.. - É possível carregá-los com explosivos e dar a ordem para se explodirem, mandá-los entrar em centros comerciais ou escolas, e eles não vão hesitar, não vão pensar duas vezes. - Não - cochichei horrorizada. - Ninguém seria capaz... - Sim. Uma dúzia deles, colocados nos lugares apropriados, poderiam pôr de joelhos as grandes cidades do mundo.


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Mas Bryce não poderia... ele não ousaria ... - Eu vi. Eu vi a lista. Estava sobre a mesa de Bryce, Hailey. Governos instáveis no exterior... havia pelo menos meia dúzia deles. Ele não vai escolher os compradores, desde que paguem bem. - Mas onde ele conseguiria... - eu parei incapaz de encontrar a palavra certa. Matériaprima? Bryce teria de encontrar pessoas mortas há pouco tempo, e muitas delas, se queria fabricar zumbis em número suficiente para vender. Prairie riu com amargura. - Ele é inteligente, Hailey. Vai encontrar pessoas de quem ninguém sentirá falta. São tantas nessas condições que você nem pode imaginar... sem teto, pacientes psiquiátricos, pessoas abandonadas pela família. E isso não é nem o começo. Se ele conseguir ajuda do nosso governo, e eu tenho fortes razões para acreditar que sim, vai ter acesso ao hospital dos veteranos. Soldados mortos em outros países - corpos mandados de volta para os familiares podem ser forjados, enquanto os verdadeiros são desviados. - Acha mesmo que nosso governo se envolveria em alguma coisa tão horrível? - Não, é claro que não, não oficialmente. Mas há corrupção em todos os níveis. Hailey, Bryce costumava receber visitas de homens que pareciam ser oficiais. Nunca prestei muita atenção, porque imaginei que eles tivessem alguma coisa a ver com nosso financiamento. Mas, pensando nisso tudo agora, é muito fácil perceber que eles já haviam integrado o exército. Eles tinham aquele ar militar. Havia alguém que chamavam de "o General”, e costumávamos brincar com isso quando estávamos só nós - mas agora eu acho que esse homem era o principal contato de Bryce. - Mas por que eles o deixariam vender os... eles... para os inimigos dos Estados Unidos? - Os governos na lista travam batalhas no próprio território. São extremistas, terroristas, estão em guerra uns contra os outros - ou com o próprio povo. Já cheguei a pensar que isso podia fazer parte do plano, algum patife do exército podia querer que eles se exterminassem. Zumbis.


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Terroristas. Agentes secretos atuando fora do controle do pr贸prio governo, financiando esse estudo de horror. Era demais. Especialmente quando se pensava que, sem nem mesmo eles saberem, eu era uma das chaves para o sucesso desse plano. Um dia antes eu nunca teria acreditado que podia haver algo pior do que ser perseguida por assassinos. Mas agora eu sabia que me enganara. Havia algo muito pior, e essa coisa estava em mim.


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Capítulo 22 Quando chegamos em casa, Kaz estava no quintal com Chub, jogando bola com ele. - Hayee, olha, olha! - Chub gritou jogando a bola, sua voz clara e distinta, a fala melhorando a cada dia. Kaz acenou rindo. Mas eu passei correndo por eles sem muito mais que um olá resmungado. Anna estivera cozinhando, como havia prometido, e a casa tinha um cheiro maravilhoso, mas não consegui falar com ela. Fui diretamente para o quarto de Kaz e fechei a porta, e me deitei na cama cobrindo o rosto com o travesseiro, tentando bloquear as imagens da minha mente. Vincent em uma cama de hospital, olhando para o nada sem enxergar realmente. Rascal depois de eu ter encontrado a bala e o empurrado para o chão, inerte e indiferente. Zumbis caminhando para a batalha, impassíveis, ignorando as imagens e os sons da guerra. Locais públicos cheios de gente, dominados por uma confusão de fogo e explosões. Não sei quanto tempo fiquei ali tentando não pensar antes de ouvir as batidas delicadas na porta. Removi o travesseiro de cima do rosto, mas não respondi. - Posso entrar? Eu não podia impedir Kaz de entrar no próprio quarto, por isso me sentei e passei as mãos pelos cabelos, esperando não ter uma aparência tão ruim. - Entre. Ele abriu a porta hesitante e apontou para a cadeira em forma de saco no meio do quarto. - Você se importa se... - O quarto é seu - respondi corando. - Quero dizer, eu deveria estar perguntando se


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você se incomoda. Ele se sentou, apoiou os braços fortes sobre os joelhos, e olhou para mim. Quero dizer, ele realmente olhou para mim, de um jeito com o qual eu não estava acostumada. - Prairie me falou sobre Vincent e tudo mais. Uau é muita coisa para... você sabe, descobrir. Sinto muito. Eu dei de ombros. - Sim, acho que é. Pelo menos a cura... bem, eu estava me acostumando com essa parte. - Mas o resto? - O resto. Ah... Não consigo... - Tentei pensar em um jeito de descrever o que eu sentia quase culpada por alguma coisa, porque se Bryce conseguisse me encontrar, eu sabia que ele me obrigaria a acatar seu plano. - A coisa dos zumbis. Não consigo entender como alguém pode fazer isso de propósito. - Sim... - Você sabia? Sobre Rascal? - Não. Quero dizer, percebi que havia algo de errado com ele, e fiquei meio surpreso... Sabia que Prairie era capaz de curar animais, porque ela curou a pata do nosso gato uma vez quando ele caiu da janela, há muito tempo. E quando a conheci pude perceber que você também é uma Curadora. Então pensei que era estranho que não pudesse curar seu cachorro. Mas eu nunca soube sobre... essa coisa de mortos reanimados, até Prairie me contar agora há pouco. - Mortos reanimados? - Fiz uma careta. - Bem, foi... o que Prairie disse. Acho que ela não consegue dizer zumbi. - Mas, Kaz, se você o visse... - Ei, por mim tudo bem, pode chamá-los pelo nome que quiser. Quer dizer... carne em decomposição andando por aí, isso meio que define um zumbi. Ele sorriu para mim, e eu me senti um pouco melhor. - Além do mais, com exceção desse pequeno detalhe, acho que é legal o que você consegue fazer. Seu dom.


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Aquilo me surpreendeu, mas então lembrei que ele havia crescido sabendo que era um Banido. Sempre soubera. - E você? perguntei. - Também tem... você sabe, tem visões? - Às vezes. Normalmente, só quando algo realmente ruim vai acontecer. Como quando eu era criança e tive aquela visão da nossa garagem em chamas, e fiz minha mãe ir lá ver o que estava acontecendo, e ela encontrou uns trapos usados para limpar tinta da pintura das paredes. Eles haviam pegado fogo em um canto da garagem. Ou quando nossa vizinha teve um infarto. Eu vi alguns dias antes, vi a mulher caída no chão de seu apartamento, morta. Coisas assim. - Pode ter deliberadamente uma visão de alguma coisa que quer ver? - Como se um maluco furioso e assassino estava atrás de você, por exemplo. - Mas eu não disse isso. Kaz balançou a cabeça. - Não, não é assim que funciona. Não se pode invocar a visão. É algo que simplesmente acontece de vez em quando... fico meio tonto, e é como se houvesse uma segunda camada no meu campo de visão, imagens nebulosas que vão e voltam. Se eu fechar os olhos, então a visão acontece. Caso contrário, tudo que sinto é náusea, ânsia de vômito, quase como um quadro típico de enjôo provocado por movimento. - Então, você não vai querer ter uma visão enquanto está dirigindo, por exemplo. - Sim... Seria horrível. - Kaz sorriu para mim, e percebi que ele havia conseguido algo quase impossível- ele me animara. - Obrigada - falei. - Por ter cuidado de... do sepultamento de Rascal... - Ah, não foi nada. Tudo bem. - Por um minuto pensei que ele ia dizer mais alguma coisa sobre o assunto, mas ele se levantou e estendeu a mão na minha direção, me ajudando a levantar da cama. - Você perdeu o almoço. Guardei um pouco de comida. Depois de tudo, a tarde foi boa, por mais incrível que pareça. Prairie e Anna estavam envolvidas numa conversa muito séria quando eu saí do quarto, e Chub havia conseguido encurralar o gato de Anna, e tentava pegar o animal para abraçar, uma experiência que o deixou com alguns arranhões nos braços e lágrimas nos olhos. Pensei em curar os ferimentos, mas decidi que esse tipo de capacidade deveria ser reservada para quando fosse de fato necessária. Chub ainda precisava conhecer os machucados e as dificuldades da infância, porque só assim se tornaria forte e auto-suficiente. Kaz esquentou meu prato no microondas, e depois que terminei de comer, nós todos


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fomos para o parque levando uma bola, bastões e uma sacola. Ele tentou me ensinar a jogar lacrosse, e nós perdemos algumas bolas no meio dos arbustos do parque. Empurramos Chub nos balanços, e demos migalhas de pão para os patos, e quando a noite já começava a cair, eu havia conseguido esquecer tudo por algum tempo, o que, suspeitava, havia sido a intenção de Prairie e Anna. Quando nos dirigíamos a uma pizzaria sobre a qual Anna e Kaz falaram muito bem, Prairie se aproximou de mim. - Vou ao laboratório amanhã cedo. Só há um guarda de plantão aos sábados. Estou pensando em esperar até ele ir ao banheiro, ou alguma coisa parecida, e entrar com meu crachá eletrônico. Ela não parecia muito confiante. Imaginei que o plano era mais complexo, mas que ela não queria revelar os detalhes para não me preocupar. - Quer que eu vá com você? - Não... acho melhor eu ir sozinha. Eu não discuti. Talvez devesse argumentar, mas havia sido muito bom não pensar nesse assunto por algumas horas, e eu não queria abrir mão desse momento de paz. Em vez disso, tentei banir o assunto para o fundo da mente, dizendo a mim mesma que teria muito tempo para me preocupar com ele mais tarde, mas quando chegamos em casa e eu dei banho em Chub e o pus na cama, me senti repentinamente exausta. Não dormira muito nos últimos dias, e de repente o cansaço me dominava. Deitei-me na cama de Kaz, com Chub aninhado na cama feita com cobertores ao meu lado, e mergulhei num sono profundo e sem sonhos. Acordei com alguém sacudindo meu braço. - Hailey, acorde. - Era Kaz cochichando, seu rosto envolto pelas sombras e difícil de ver à luz da lua. - Temos um problema. Vou chamar Prairie. Encontre-nos na cozinha. Eu me levantei com cuidado para não acordar Chub. Lavei o rosto antes de ir para a cozinha. Quando Kaz e Prairie entraram um minuto depois, ela parecia completamente alerta, como se nem houvesse dormido. - Você já enfrentou muitos problemas recentemente - disse ao me ver. - Kaz, devia tê-la deixado dormir. - Ela tem o direito de ouvir o que vou dizer.


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- O que é? - perguntei, um instante antes de uma porta se abrir no corredor e Anna aparecer na cozinha. - O que estão todos fazendo... - Tive uma visão, mãe - Kaz anunciou. - Elas precisam saber. Notei que Anna ficou tensa e lembrei que Kaz havia dito que suas visões sempre prenunciavam algo ruim. - O que é? - ela sussurrou, o rosto subitamente pálido. - Bryce... Ele tem estatura mediana? Cabelos castanhos, já ficando grisalhos aqui? - Kaz apontou para as próprias têmporas. - Sim. - Eu o vi em um quarto... Parecia ser um quarto de motel. Ou um alojamento? Havia pessoas nas camas... gente ferida. Ferimentos graves, Prairie, as pessoas estavam inconscientes. - O que ele estava fazendo? - Não se trata do que ele estava fazendo, ele estava apenas sentado ali, fazendo anotações ou escrevendo alguma coisa em seu laptop... - O que é então? - Prairie perguntou com voz aguda e tensa. - O que você viu? - Sinto muito, Prairie... Ele tem outra Curadora.


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Capítulo 23 - Como assim... outra curadora? - Não consegui vê-la com muita nitidez. Ela tinha cabelo comprido, e estava inclinada sobre os enfermos, cantarolando ou falando. Não consegui ouvir, nunca ouço nada quando tenho essas visões. - E por que acha que ela os estava curando? - Bem... em primeiro lugar, era óbvio que todos ali estavam... morrendo. - Kaz hesitou. - Quero dizer, estavam inconscientes, e um deles tinha a cabeça raspada e o que parecia ser uma cicatriz recente. E outro tinha um tubo na boca, daqueles para respiração, e gesso no corpo. Eram rapazes. Homens jovens. - Militares - Prairie respondeu. - Deviam ser. A única questão é... de onde. - E a Curadora, essa mulher. Ela os tocava, punha as mãos sobre o rosto dos feridos. Kaz demonstrou segurando o próprio rosto com as duas mãos. - E depois... é difícil dizer, porque a visão aconteceu em saltos, passando de uma cena para outra, mas depois, ah... eles acordavam ... - Acordavam? - Prairie repetiu angustiada. - Sim, eles se moviam, abriam os olhos, se sentavam. Isso foi tudo que eu vi. Prairie ficou em silêncio, mas percebi que ela estava refletindo. - Quem pode ser? - Anna perguntou depois de um momento. - Não havia mais


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ninguém no seu vilarejo? Tem certeza? - Ninguém - Prairie respondeu com veemência. - Clover está morta. Hailey está aqui. Alice está arruinada. Mary está morta. Não há mais ninguém... Não consigo imaginar onde ele encontrou outra. - Uma das nossas, então - Anna deduziu. - As Curadoras devem ter saído da Polônia, afinal. - Temos de ir agora. Até eu mesma me assustei ao ouvir essa declaração. Prairie precisamos detê-lo. Você precisa destruir a pesquisa. Não podemos permitir que ele a encontre, não podemos deixá-la criar zumbis. - Mas nós não... - Não temos muito tempo - insisti. - Não é isso, Kaz? O intervalo de tempo entre as visões e os fatos previstos... não é muito grande, é? Kaz olhou de mim para Prairie. - Não sei. Talvez um ou dois dias. Talvez... menos. - É possível que ainda tenhamos tempo - insisti. - Eu vou ajudar - Kaz decidiu, empurrando a cadeira para longe da mesa para se levantar. - Vamos nós três. Mamãe fica para cuidar de Chub. - Vai cuidar dele, não é, mãe? - O que pretendem fazer? - Tudo que for necessário para deter aquele miserável. - Kaz - Anna reagiu. - Isso não é necessário. - O que não é necessário, mãe? Dar ao chefe de Prairie todos os nomes que ele merece? Ela tem razão, ele precisa ser detido. Temos que destruir tudo. - E por que está falando em nós? - Anna perguntou incisiva. - Não há nenhum nós... - Eu vou com ela - Kaz repetiu. - Ela não pode fazer tudo isso sozinha.


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- Não diga bobagens - Anna o censurou, tremendo de medo e raiva, ou com uma combinação dessas duas emoções. - Não é bobagem - reagiu o rapaz. - Prairie está certa. Precisamos destruir a pesquisa e deter esse homem. - Esse homem é perigoso, Kazimierz. Ele contratou pessoas para seqüestrar Hailey. Eles matam quem os atrapalha. - Meu pai foi para a guerra - Kaz lembrou. - Lá também havia morte, mas você não tentou impedi-lo de ir. Compreendi que ele não ia desistir, e tive a sensação de que ninguém seria capaz de dizer a ele o que fazer. E eu o entendia: ninguém jamais me diria novamente o que fazer. - Anna - Prairie falou em voz baixa. - Eu entendo. Vou sozinha. - Não pode ir! - protestei. - Não pode ir sozinha, Bryce a matará! - Não se eu tiver um plano - ela respondeu, mas percebi que estava apenas tentando parecer forte. - Não se eu tiver uma estratégia. - Estratégia não basta - Kaz a interrompeu com voz firme. - Você precisa de ajuda. Eu posso ver coisas que vão acontecer. Especialmente se estiver lá, se estiver perto. Posso fazer a diferença. - Não posso pedir tanto - Prairie protestou. Ela ergueu os ombros e os deixou cair. Percebi que seu braço se movia com facilidade, mesmo com o curativo. - É minha culpa se tudo isso aconteceu e... Não vou deixá-Ia sozinha - eu anunciei. - Vamos com você - Kaz acrescentou. Ele olhou para Anna. - Mãe, você não me educou para ser covarde. Meu pai era corajoso, você me diz isso todos os dias desde que posso me lembrar. Não pode negar. - Seu pai não está mais conosco, Kaz. Não posso perder você... não posso.


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O rosto de Anna refletia uma agonia típica de mãe aflita. Prairie também parecia hesitar. Mas eu sabia. Sabia que Kaz não se deixaria dissuadir. - Se acontecer alguma coisa, se Kaz for ferido, eu também estarei lá - disse a Prairie com urgência, rezando para ela me entender. - Podemos curá-lo - ele vai estar seguro conosco. Anna me olhou com atenção, os olhos apertados numa expressão de alerta. Depois ela olhou para Prairie novamente. - O que você acha? - perguntou em voz baixa. - Não posso pedir mais nada a você - Prairie respondeu. O que já fez por nós, recebernos em sua casa, Hailey e eu, isso já é perigoso. Ela tinha razão. Bryce não se importava com os inocentes que tinha de tirar do caminho. Ele não ia parar. Não se incomodava com todas as pessoas que tinham de morrer para que ele continuasse com sua pesquisa, para poder estudar Prairie e me estudar, aprender como usar nosso dom para transformar pessoas em zumbis. Para esses zumbis matarem outras pessoas. Tudo que esse homem tocava parecia resultar em morte. Ele queria me usar como um instrumento para matar, uma ferramenta para torná-lo mais forte, mais rico e mais poderoso, enquanto outras pessoas morriam. A cozinha mergulhou no silêncio. Kaz caminhou até a janela e olhou para a rua escura, os braços cruzados sobre o peito, a postura sugerindo que estava tenso e preparado. Depois de um longo momento, Anna assentiu devagar. Compreendi que a decisão havia sido tomada. Kaz e eu havíamos vencido essa batalha. Iríamos com Prairie. ] - Vou protegê-la como se fosse meu - Prairie prometeu num sussurro. - E Hailey também. - Farei tudo que estiver ao meu alcance para voltarmos ilesos dessa missão. Anna assentiu. E nós partimos. Kaz foi dirigindo. Prairie ia no banco do passageiro, ao lado dele, e não falava muito. Ela prendera os cabelos num rabo de cavalo e vestira jeans, blusa de moletom, e calçara um velho par de tênis que Anna lhe havia emprestado. Vestida dessa maneira ela mais parecia uma colegial que aquela mulher elegante que eu vira pela primeira na cozinha da casa de minha avó. Kaz seguia sem dificuldades para a estrada que contornava o lago, voltando pelo


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mesmo caminho que havíamos percorrido na noite anterior. A lua quase cheia pairava sobre a água bem perto do horizonte, seu reflexo tremulando na superfície escura do lago. Quando chegamos em Evanston, desejei repentinamente que o trajeto fosse mais longo. Não me sentia preparada. Prairie murmurou as instruções. Ela nos levou por uma região de casas antigas e simples que iam se tornando menores na medida em que nos afastávamos do lago, até serem praticamente chalés. Atravessamos a ferrovia e eu vi o centro de Evanston diante de nós. No quarteirão seguinte havia vários prédios de escritórios, construções baixas e modernas. - Ali - Prairie apontou. - Estacione perto das lixeiras. Kaz fez como ela dizia e desligou o motor. Éramos protegidos por uma fileira de árvores, e o Civic estava parado sob galhos baixos que o escondiam... Havia muitos carros no estacionamento, clientes do restaurante tailandês e da lavanderia automática do outro lado da rua. - Vou dizer o que estou pensando - anunciou Prairie. - O dado está nos computadores no laboratório, na área de segurança. O crachá vai permitir nossa entrada na área principal do laboratório. - Acha que Bryce pode estar lá dentro? - perguntei. - É possível... mas o mais provável é que ele tenha colocado segurança extra no local, e que tenha instruído os guardas para me deterem, caso eu apareça. Pela força, se for necessário. Porém, duvido que haja alguém lá dentro no meio da noite. - Deixe-me ir - Kaz pediu. - Sozinho. Eles não estão esperando um homem. Prairie balançou a cabeça. - Não. Eu tenho que ir com você. - E eu? - perguntei. Prairie fechou os olhos por um momento. Quando voltou a abri-los, havia neles uma sombra de dúvida, de incerteza. - Deve ter um. guarda no saguão - ela disse. - Um guarda noturno. A menos que tenham contratado alguém novo, é um homem idoso que gosta de cochilar no horário de serviço. Mesmo assim, ele é perigoso. Pode acionar o alarme, fechar todas as portas e atrair toda a equipe de segurança para o local. E Bryce pode ter instruído o guarda


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para entrar em contato com ele antes de fazer qualquer outra coisa. - Quer que eu o distraia? - perguntei. Prairie parecia desconfortável. - Não consigo pensar em nenhuma outra coisa. Pensei que talvez pudesse fingir uma emergência qualquer, não sei, alguma coisa como... se estivesse ferida, talvez ... Assim que nós entrarmos, você sai. Pense em uma desculpa qualquer, diga ao guarda que se enganou, enfim, faça o que for necessário. Saia de lá e espere por nós em algum lugar de onde possa ver o carro. Ela enfiou a mão no bolso e me deu um telefone celular. - É de Anna. O número de Kaz está na agenda do aparelho - disse. Pressione e segure a tecla "3" e ele vai discar diretamente. Telefone se vir alguém entrando no prédio depois de nós... qualquer pessoa. Ou se tiver algum problema. Não gostava da idéia de ficar para trás, mas não via alternativa. - O que vai fazer com os computadores? - Tenho acesso de administrador de rede a todos os servidores. Paul me deu a senha junto com as chaves do prédio. Precisamos acreditar que Bryce nunca vai descobrir. É nossa única esperança. Tenho certeza de que ele mudou as fechaduras, mas aposto que não mudou a senha de administrador de rede. Só preciso entrar e executar o programa de formatação do disco. - Qual é a quantidade de dados armazenados? - Kaz perguntou. - Porque vai levar horas para formatar um disco muito grande. - Eu... não sei ao certo. - Bem, não tem importância - Kaz decidiu sua voz baixa traindo forte tensão. - Vai haver fogo. Nós duas olhamos para ele. - Como assim? - Eu vi. Tive uma visão... esta noite vai acabar em fogo.


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Capítulo 24 - Você teve uma visão? - perguntei. Mas Prairie me interrompeu. - Fogo? Oh, meu Deus... eu devia ter pensado nisso. - O que é? - As paredes... em todos os escritórios internos. Vão queimar. - Trouxe uma coisa que peguei na garagem de casa - Kaz revelou. - Para usar como acelerador. Não quis dizer nada na frente da mamãe, porque ela teria enlouquecido se soubesse, mas isso vai ajudar a propagar o fogo e... - Não, o que estou querendo dizer é que as paredes são inflamáveis. Bryce nos fez trabalhar com sujeitos específicos, voluntários que diziam ter o poder de prever o futuro. E alguns eram simplesmente muito mais do que se podia esperar. Videntes, entende? Eu tinha certeza disso. E Bryce estava pesquisando maneiras de bloquear suas visões. - Para o alistamento militar - Kaz deduziu. - Como é que é? - Eu estava perdida, mas os dois praticamente completavam as frases um do outro. - Como se o outro lado tivesse Videntes? Seria necessário bloquear as visões, certo? Ou eles poderiam antecipar seu próximo movimento. - Mas isso é algo muito difícil de fazer - Prairie concluiu. - A única coisa que


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encontramos e parecia prejudicar um pouco esses sujeitos e suas visões foi ferro. Mas Bryce não podia colocar paredes de ferro no laboratório, então ele encontrou um homem que conseguia inserir partículas de ferro em espuma de poliuretano. Daquele tipo usado em sprays, sabe? Aquele material que expande? O problema é que as paredes se tornaram cem vezes mais inflamáveis que madeira, então ele contratou uma equipe para vir aplicar o material em um final de semana no outono passado... - Isso é perfeito - Kaz a interrompeu. - Perfeito para destruir o prédio, eu pensei, mas não para sairmos dele com vida. - Que tipo de acelerador você trouxe? - Prairie quis saber. - Algumas latas de fluído para isqueiro e um pouco de solvente para tinta. E fósforos. - Muito bem, ótimo. - Prairie suspirou. - Já havia pensado em tudo isso, não é? - Eu... sim. Mas não conte nada a minha mãe. Ela me deixaria de castigo pelo resto da vida. Saímos todos do carro, e Kaz ia levando sua mochila cheia de suprimentos. Eu fiquei para trás, apoiada no automóvel enquanto eles caminhavam na direção do edifício. Os dois andavam pela extremidade do estacionamento, como se fossem atravessar a rua para o centro da cidade. Quando chegaram no prédio, eles continuaram em frente mantendo-se bem próximos da parede da frente, quase invisíveis na escuridão. Havia chegado a hora. Respirei fundo e toquei meu colar com a ponta dos dedos, a pedra vermelha era morna sob meus dedos. Fechei os olhos por um segundo e tentei esvaziar a mente de tudo que não fosse o que tinha de ser feito. Então, atravessei o estacionamento correndo e me joguei contra a porta de vidro, batendo as mãos contra ela e empurrando com força. Não tive tempo de olhar para Prairie e Kaz escondidos nas sombras. A porta se abriu e eu entrei no saguão do edifício. À esquerda havia uma fileira de elevadores, e à direita eu vi um balcão encurvado e um homem sentado atrás dele, um senhor idoso vestindo uniforme marrom e lendo um jornal. Ele levantou a cabeça, seus olhos cheios de surpresa, e me viu correndo para o balcão. Eu me apoiei nele ofegante.


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- Preciso de ajuda! - gritei. - Um carro... estava passando... atropelou alguém ... Subiu na calçada perto do estacionamento. Acho que tem gente muito ferida. O homem baixou o jornal mais devagar do que eu achava que a situação merecia. - Está dizendo que aconteceu um acidente lá fora? - Sim, por favor, pode vir comigo? - Preciso... - Eles vão seguir a rotina normal - o homem disse com má vontade. Li o nome dele no retângulo dourado preso à sua camisa. Maynard. - Preciso telefonar... - Não há tempo! - Agora eu estava gritando, dominada por um medo que me fazia abandonar a cautela. Se ele usasse o telefone para pedir ajuda, estaria tudo perdido; a polícia chegaria em pouco tempo, e Prairie e Kaz não conseguiriam entrar no laboratório. - Por favor! - Sim, assim que eu... Mas isso foi tudo que ele conseguiu dizer. Porque quando minha mão passou por cima do balcão e tocou a lateral de seu pescoço delicadamente, ele arregalou os olhos por um segundo e todo seu corpo ficou rígido, como se ele houvesse encostado em um fio de alta tensão. Depois, ele caiu sobre o balcão. Eu não sabia que ia fazer o que fiz. E, ao mesmo tempo, soubera exatamente como fazer o que fiz. Poderosa: a palavra soou em minha mente enquanto eu me afastava do balcão. O dom do qual eu havia duvidado, ao qual eu resistira à habilidade que eu finalmente usara e reconhecera como minha - era mais poderoso do que eu me permitira perceber. Eu sabia que o guarda não estava morto ou mesmo ferido. O que eu havia feito fora transmitir uma onda de energia relaxante que, de alguma forma, se impusera ao seu circuito cerebral e o tirara de circulação temporariamente. Como dormir. Como um sono realmente profundo. Eu compreendia tudo isso de uma forma primitiva, visceral, tomava consciência da compreensão que fluía de algum lugar dentro de mim, de onde ela havia existido sempre, desde que eu nascera. Desde que fora concebida, até, na violenta união de meus pais, recebera o dom diretamente da fonte que nos embebia de poder desde as primeiras Famílias.


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Ouvi a porta se abrir atrás de mim Kaz e Prairie entraram. - Eu vi - disse Prairie. Falaremos sobre isso mais tarde. Apenas assenti. Depois lembrei. - Não podemos deixá-lo aqui, não se vai haver um incêndio... Kaz correu para trás do balcão, pegou o guarda, jogou-o sobre um ombro e se virou como se ele não pesasse nada. Prairie hesitou apenas por um instante antes de apontar para o corredor. - Vamos deixá-lo na porta dos fundos. Lá ele estará escondido... e seguro. Depois ela se virou para mim. - Sua parte está feita por enquanto, Hailey. Vá lá para fora. Espere por nós. Eu os vi seguir pelo corredor, a cabeça do guarda balançando contra as costas de Kaz. Prairie havia acabado de entrar na minha vida, e eu não queria perdê-la. Eu não queria que nada acontecesse com ela. Mas nós estaríamos sempre em. perigo, a menos que terminássemos esse assunto. Bryce continuaria nos perseguindo enquanto nos considerasse útil para o seu trabalho. Segui em frente. Depois de algumas curvas no corredor havia uma porta reforçada sem nenhuma identificação. Prairie passou pela fechadura seu crachá eletrônico e, ao ouvir o estalo metálico, empurrou a porta. Corri para alcançá-los antes que entrassem. Quando me viu, Kaz hesitou só por um segundo antes de segurar a porta para mim. - Hailey, não! - Prairie cochichou. - Ela tem o direito de estar aqui - Kaz opinou quando eu já passava por ele. Segurei a mão de Prairie e a apertei com força. - Não vou voltar. Ela me olhou nos olhos por um momento, depois assentiu. Tudo bem. - Tudo bem. Vocês dois, comecem a molhar os cantos da sala, perto das paredes. Vou executar o programa de formatação do disco rígido. Duvido que consiga entrar no servidor, porque isso requer uma leitura de retina e tenho certeza de que minha identificação foi bloqueada, mas posso formatar a máquina da minha estação de trabalho. Prairie acendeu as luzes e vi que estávamos em um amplo laboratório, com estações de trabalho e monitores de última geração, além de aparelhos que eu nem conseguia identificar.


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Havia máquinas que pareciam robôs em vários estágios de montagem sobre plataformas, e diversas fileiras de caixas iluminadas com cabos de ligação dos mais variados calibres. Mais cabos atravessavam o piso. A única coisa ausente ali era a presença humana - visível apenas nas pilhas de papel, notas adesivas e copos descartáveis de café, além de um ou outro suéter esquecido nas cadeiras. Era como se as pessoas que ali trabalhavam nunca levassem nada de pessoal para o laboratório. Não havia fotos, nem desenhos de crianças presos às paredes dos espaços delimitados por divisórias, nem plantas, pesos para papel ou esculturas. Prairie desapareceu no final de um corredor do outro lado da sala, e Kaz abriu a mochila para retirar a lata de fluído, que me entregou. - Não vamos precisar de muito - ele disse. - Concentre-se na parede seca. Começamos a trabalhar desviando de todo aquele equipamento. No início eu fui cuidadosa, mas depois segui o exemplo de Kaz e comecei a empurrar as coisas que estavam no caminho, afastando mesas para me aproximar das paredes. O cheiro forte de substâncias químicas pairava no ar, ardia em meus olhos e me fazia tossir, e a adrenalina invadia minhas veias. Pensei ter ouvido alguma coisa - um baque, um grito sufocado. E o som vinha do corredor por onde Prairie havia desaparecido. Kaz também ouviu o barulho, e nós dois ficamos quietos, olhando um para o outro e tentando escutar alguma coisa além do zumbido constante e baixo dos equipamentos. Em seguida, nós dois corremos para a origem dos ruídos. Mal havíamos entrado no corredor quando ouvimos um estrondo de metal e madeira e uma porta batendo contra a parede alguns metros à frente. Prairie apareceu no corredor seguida por outra pessoa. Bryce Safian - só podia ser. Um homem de impressionante porte físico com cabelos castanhos e curtos e camisa social engomada. Ele segurava uma arma contra as costas de Prairie. Kaz reagiu antes que eu pudesse interpretar a cena - ele correu e se colocou entre Bryce e Prairie, jogando-a no chão. Quando Kaz agarrou a arma na mão de Bryce, ela disparou, e no segundo seguinte ele segurou a própria mão. O sangue escorria por entre seus dedos. Ele havia sido ferido na mão, e agora Bryce apontava a arma diretamente para seu peito. Kaz recuou devagar, enquanto Prairie se levantava.


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O homem olhou para mim, me estudou por um instante, depois relaxou. Ele sorriu, exibindo uma expressão cruel e calculista que não era muito diferente de como minha avó costumava me olhar quando pensava que Dun ou outro de seus clientes havia dito alguma coisa engraçada. - Você deve ser Hailey. Eu sou Bryce Safian. Pode me chamar de Bryce. - O sorriso dele tornou-se mais largo. - Foi bom eu ter decidido vir dar uma olhada em tudo no laboratório quando soube que meus empregados haviam deixado você escapar outra vez. Sua ingenuidade é impressionante. Incrível, realmente. - Sua mão... - eu disse, vendo o sangue de Kaz pingar no chão. - Não se preocupe com ele - Bryce falou com desdém. - Ele não é digno do seu tempo. Sabe, Hailey, se as coisas fossem diferentes, eu poderia ser seu Tio Bryce. Olhei para Prairie. Jamais a vira tão zangada. Bryce seguiu a direção do meu olhar. Sim, é isso mesmo. Estava pensando em pedir sua tia em casamento. Isto é, até ela deixar claro que havia entre nós profundas diferenças de caráter, podemos dizer. -Você não tem caráter- Prairie disparou. - Não tem vergonha. Não é ... humano. Bryce riu, um som profundo e reverberante. - Isso é muito engraçado, vindo de você, querida. Na minha opinião, é você quem merece essa descrição. Sabia - ele continuou, olhando mais uma vez para mim - que sua tia tem anormalidades cromossômicas tão severas que, tecnicamente, ela não poderia estar viva em nenhuma condição conhecida pela ciência? - Oh, céus - ele acrescentou, batendo com a mão na testa e fingindo se preocupar. - Eu não devia ter dito isso, considerando que você - e seu jovem amigo aqui, também - têm as mesmas... Deficiências. Kaz ergueu as mãos ensangüentadas como se pretendesse atacar Bryce, mas ele brandiu a arma apontando para Prairie, depois para Kaz novamente, ameaçando-os. A mão que empunhava o revólver era firme. - Não tenha nenhuma ideia brilhante - ele me disse. - Vocês todos perdem sangue normalmente - e eu já deveria saber, considerando todos os testes que realizamos aqui. E presumo que perder sangue em quantidade suficiente pode matá-los, como mataria qualquer ser humano normal. E eu sei que não pode curar seu amigo sem tocá-lo. Eu já sentia o formigamento, a energia vibrante que assinalava a necessidade de curar.


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Não conseguia desviar os olhos da mão ferida de Kaz. Meus dedos pulsavam com a compulsão de tocar a mão dele, encontrar o ferimento e deixar minha energia fluir por ele. Mas eu não podia alcançá-lo. Bryce jamais permitiria. E sem tocá-lo, eu não poderia curá-lo. Milla, Rascal, Chub... Eu tivera de tocá-los, encostar as mãos neles para sentir minha energia fluindo de meus dedos para o corpo de cada um. - É meio divertido, na verdade - Bryce continuou. - Se você conseguisse chegar perto do garotão aqui, provavelmente o curaria, mas eu tenho muitas balas, por isso só precisaria continuar fazendo muitos buracos nele. Tem alguma dúvida sobre quem venceria o jogo, raio de sol? - Você não sabe o que está fazendo - Prairie resmungou. - Ah, mas eu sei! Quem está fazendo testes há meses? Hmrnm? Ouso dizer que tenho conhecimento íntimo sobre como funcionam esses poderes especiais, sabe? De fato, acredito que poderia ferir seu jovem amigo aqui com gravidade suficiente para obrigá-la a fazer uma escolha muito difícil. Não é isso, Prairie? Ela parecia devastada, e um soluço sufocado morreu em sua garganta. Lembrei da promessa que ela fizera a Anna. Eu o protegerei como se fosse meu. - Não tem importância - Bryce continuou com um sorriso preguiçoso. - Não preciso mais de você. Encontrei alguém. Ela não é tão bonita, e duvido que seja tão... divertida. Mas é cooperativa - muito cooperativa, considerando que se tornou uma... digamos, hóspede permanente neste laboratório. E agora que tenho Hailey, os dois são tudo de que necessito para concluir o trabalho. É uma pena, realmente, que você não possa ficar para dividir a glória. Então, a visão de Kaz havia sido real. Bryce encontrara outra curadora, e a trancara ali como pretendia me manter cativa. Meu coração ficou pesado quando percebi que todo aquele trabalho podia ter sido em vão. Bryce planejava me manter viva, mas ele não tinha a intenção de manter Prairie ou Kaz por perto. Senti que o desespero superava a determinação que me havia impelido na noite anterior. - Não vai viver tanto tempo - Prairie anunciou, surpreendendo-me com sua fúria. Ela deu um passo na direção de Bryce, sem demonstrar nenhum medo. - Pode atirar em mim, se quiser. Vá em frente, eu o desafio. Sua nova namorada nunca vai criar zumbis para você. Não foi essa a ordem recebida, e não vai poder lutar contra isso. Bryce riu os olhos iluminados por um humor genuíno. - Oh, Prairie, quanto idealismo!


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É renovador. Sempre amei essa sua característica. Se você soubesse... - Soubesse o quê? - Onde acha que encontrei sua sobrinha? Prairie hesitou, e eu vi a incerteza brilhando nos olhos dela. - Os homens que contratou - arrisquei, chegando mais perto de Prairie. - Seus homens. Seus homens mortos. Bryce gargalhou. - Isso é tão divertido para mim! Porque, quando conseguiram rastrear a verdadeira identidade de Prairie, eles encontraram um aliado inesperado. Alguém que se dispunha a nos dizer tudo que sempre quisemos saber sobre você, pequena Hailey, por um preço. Alguém se dispunha a criar a oportunidade perfeita para meus homens irem pegá-la, que não só não sentiria sua falta, como também tomaria providências para que ninguém mais sentisse. Um murmúrio começou nos meus ouvidos e progrediu rapidamente para um rugido. Balancei a cabeça e sussurrei um "não" desesperado, mas de repente sabia de quem, exatamente, ele estava falando. - Sua avó, Hailey - Bryce anunciou incapaz de disfarçar a satisfação em sua voz. - Alice Tarbell. Ela a vendeu por cinco mil dólares e uma passagem para a Irlanda. Ah... e pela promessa de que ... sem querer ser indelicado, mas... bem, prometi que quando chegasse a hora de você procriar, nós providenciaríamos alguém da sua espécie. De repente Kaz deu um salto para frente, atirando-se contra o tronco de Bryce, tentando derrubá-lo. Mas o ferimento havia enfraquecido Kaz, e ele cometeu um erro de cálculo. Bryce deu um passo para o lado e apertou o gatilho, uma cena à qual assisti quase em câmera lenta, e depois ouvi o tiro e vi a mão ferida de Kaz se mover, descrever um arco no ar e bater contra a parede provocando um spray de sangue.


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Capitulo 25 O buraco no braço de Kaz permaneceu limpo e redondo por um segundo, antes de o sangue começar a verter por ele. Eu agora podia ver que o ferimento na mão era grave, os dedos ensangüentados se dobravam formando ângulos estranhos, o indicador pendia por uma fina tira de pele. Uma forte onda de náusea brotou do meu estômago, seguida por intensa vergonha. Eu devia ser uma Curadora - como podia ser tão fraca? Prairie estendeu a mão para Kaz, mas Bryce bateu com a coronha do revólver sob seu queixo e a jogou contra a parede enquanto Kaz caía no chão, o rosto muito pálido enquanto ele tentava apertar com a mão ilesa o braço ferido, procurando estancar o sangue com os dedos acima do ferimento. Bryce suspirou. - Eu disse que poderíamos fazer tudo isso por bem, ou por mal, Eliz... Quero dizer, Prairie. Dei um passo na direção dela, mas Bryce ergueu o braço e apontou a arma para mim. Fique onde está, Hailey. Talvez deva lembrar que sua tia não vai poder fazer nada se você se machucar. Um arranjo interessante, não acha? Vai ser fascinante estudar essa resistência natural dos Curadores ao dom de seus semelhantes. Estou ansioso por essa pesquisa. Prairie estava a centímetros de Bryce, apoiada contra a parede, e no segundo em que ele se virou, percebi que ela enrijecia os músculos com a evidente intenção de atacá-lo. Balancei a cabeça e tentei formar a palavra não com os lábios, sem emitir nenhum som, porque sabia que Bryce a mataria, mas também sabia que ela não se importava com isso. Vi quando ela atacou, e esperou ouvir o som do tiro enquanto um grito silencioso se formava em meu peito. Mas Bryce me surpreendeu.


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Ele bateu com a coronha do revólver contra a cabeça dela, atingindo-a acima da têmpora, e Prairie caiu como um fantoche com as cordas cortadas. Mas ele não a matou. Quando ele olhou para mim e para Kaz, havia algo em sua expressão que eu reconheci. Era uma mistura de anseio e desafio. Tinha alguma coisa parecida com o jeito como Rattler havia olhado para ela. O velho laço de sangue não existia ali, mas naquele segundo percebi que Bryce também a amara, à sua maneira. O suficiente para não ter atirado nela. E percebi que o amor era, no mínimo, tão perigoso quanto irresistível. - Não pense que não vou gostar de matá-la lentamente - Bryce manifestou-se, mas agora nós dois sabíamos que ele tinha uma fraqueza, e pela primeira vez vi a incerteza em seus olhos. Ele mantinha o revólver apontado para mim, mas se ajoelhou ao lado de Prairie para sentir sua pulsação. Se ao menos houvesse uma maneira de usar essa fraqueza contra ele! Olhei para Kaz. Ele tinha os olhos fechados, o rosto contorcido pela dor. Pude perceber que ele começava a perder o equilíbrio, e a quantidade de sangue que brotava de seu braço era chocante. A bala devia ter atingido alguma estrutura muito importante. A necessidade de curá-lo se ergueu dentro de mim como uma onda quente e envolvente, pulsando em todos os nervos e se estendendo para a ponta dos dedos, e meu desejo de tocar Kaz, seus ferimentos, era irresistível. Eu o induzi a abrir os olhos e me encarar - e ele atendeu ao meu comando mental. No segundo em que os olhos encontraram os meus eu senti novamente, aquela conexão que havia notado quando ele tocou minha mão pela primeira vez. A diferença é que agora a vida dele dependia disso. A vida de todos nós. Fitei seus olhos com toda profundidade de que era capaz e tentei me desligar de tudo, exceto do dom que era parte de minha herança de sangue. Os olhos de Kaz tremularam, seus lábios se entreabriram. e senti meus batimentos cardíacos mais lentos. Minha respiração foi perdendo intensidade até quase desaparecer. Alguma coisa aconteceu também com minha visão; os limites desapareceram, substituídos por um halo tremulante e incerto, e não havia nada além de mim e Kaz. Privada de oxigênio comecei a perder a visão e senti meus pulmões clamando por ar, mas era tudo tão lindo, tão delicado e intenso, que eu sentia como se meu coração pudesse se partir em mil pedaços, como se tudo desaparecesse contraposto à força daquele elo entre nós, uma ligação que nos tornava muito mais fortes do que poderíamos ser sozinhos. Eu caí. Não percebi que ia acontecer até cair no chão aos pés de Prairie. Bryce gritou alguma


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coisa e desviou o revólver que mantinha apontado para Prairie, virando-o na minha direção. Eu me preparei para sentir o impacto da bala, me perguntando onde ele me acertaria, tentando adivinhar se preferiria me aleijar apenas, mas manter-me viva em seu laboratório - ou se me mataria. Então, Bryce se chocou contra mim com muita força, expulsando o ar que ainda havia em meus pulmões. Levei um segundo para compreender que Kaz o havia empurrado que conseguira reunir a energia necessária, lançar mão de uma última reserva de força, para atacar de onde estava apoiado à parede. - Afaste-se, afaste-se dele - Kaz gritou. Eu tentei, mas Bryce era pesado demais, e estava caído em cima de mim, quase me matando com seus joelhos e cotovelos e... Deus, onde estaria a arma? Ele ainda tinha o revólver, mas foi repentinamente puxado para cima, arrancado de sobre mim e jogado contra a parede. Havia sido Kaz. Kaz, cujo braço ileso ainda era muito forte, Kaz, cujo braço ferido já começava a melhorar, porque eu o curara, não com perfeição, porque era difícil curar sem tocar alguém, mas o suficiente. O suficiente. Kaz chutou Bryce e a arma voou da mão dele para o corredor. Eu o empurrei com toda força que tinha e consegui rolar para o lado, tentando alcançar Prairie. Mas sabia que não podia fazer nada por ela agora. Não podia curá-la, não podia despertá-la. Kaz mexia na mochila que ficara aberta no chão, retirando dela a última lata de fluido para isqueiro, segurando-a com o braço dobrado enquanto removia a tampa. O cheiro me atingiu como um soco quando ele sacudiu a lata sobre Bryce, ensopando suas roupas e lavando seu rosto com o líquido claro. Bryce levou as mãos aos olhos e começou a gritar um urro de raiva que se transformou em terror quando Kaz riscou um fósforo. Muitos gritos. Eu havia finalmente recuperado a voz, e ela se juntava a de Bryce. Afastei-me da bola de fogo em que Bryce se transformara, arrastando Prairie comigo, vendo o brilho das chamas se tornarem cada vez mais intensas. Os gritos de Bryce se tornaram um horrível uivo de dor, e ele rolou para a porta por onde havia entrado. Kaz segurou meu braço e me pôs em pé. - Você não tem muito tempo - ele disse com urgência. Verifique o servidor, certifiquese de que ela conseguiu começar a formatação. Precisamos tomar medidas de precaução, caso nem tudo seja destruído pelo fogo. Eu cuido de Prairie até você voltar. - Não espere por mim - eu disse, já correndo para aporta. - Vá, leve-a com você.


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Mas nosso olhos se encontraram e uma energia sombria foi transmitida nesse olhar demorado, e eu soube que ele não partiria. Eu também não teria ido. Corri para fora da sala. A fumaça me seguia na forma de nuvens escuras, pesadas e gordurosas, e eu soube que o fogo devia estar se alastrando na sala principal. A última coisa que vi foi Kaz se abaixando ao lado de Prairie, puxando a camisa sobre a boca, e rezei para que houvesse ar suficiente para eles. A porta se abriu e eu entrei na sala do servidor, menor que as outras. Ali ainda era frio e escuro, porque o fogo não chegara àquele local, e números brilhantes rolavam pela tela do único monitor sobre a mesa numa velocidade vertiginosa. Prairie havia conseguido - os dados eram apagados do disco rígido, desapareciam como se nunca houvessem existido. Já era hora de termos uma boa notícia. Esvaziei a lata de fluído para isqueiro em torno do equipamento e me virei para sair, correr de volta para Prairie e Kaz, para me reunir a eles e tentar fugir do prédio, escapar do incêndio, e ainda corria quando percebi uma porta na outra parede da sala do servidor. Era uma porta pesada, reforçada, como aquela do laboratório principal, com um visor instalado na parede ao lado dela. Eu hesitei. O fogo ardia, e os dados eram apagados. Devia ser o suficiente. Mas a porta estava trancada. Havia além dela alguma coisa suficientemente importante para Bryce tê-la trancado em local isolado. Mais dados? Equipamento específico? De repente eu lembrei o que ele havia falado: ela se tornou hóspede permanente neste laboratório. Sua nova Curadora - estava aprisionada em algum lugar perto dali, e aquele era o único local que não havíamos examinado. O medo invadiu meu corpo. Eu precisava encontrá-la e tirá-la do prédio em chamas, salvá-la da morte, se pudesse. Não tinha uma rama, não tinha mais nem uma gota de fluído para isqueiro, mas tirei do bolso o crachá eletrônico e o aproximei do visor com o painel eletrônico. Ouvi o clique da porta se abrindo e, sem pensar, a empurrei. O que vi do outro lado me causou um horror tão profundo que eu quase corri de volta para o fogo. Um grito começou a se formar em minha garganta e explodiu com o desespero de


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um animal enjaulado. Tentei correr, mas minhas pernas não funcionavam - meu cérebro aterrorizado não conseguia controlar meus movimentos, apesar do pânico eletrizante estimular todas as minhas terminações nervosas e a adrenalina inundar meu organismo, ameaçando afogar minha consciência. Lá dentro, sentados em cadeiras dobráveis, eu vi uma dúzia de homens imóveis vestindo calça cáqui e camiseta comum. Pisquei para reduzir o ardor da fumaça em meus olhos e engoli o ar tóxico, enchendo meus pulmões com ele. Entendi que aqueles não eram homens comuns. Eles estavam em decomposição. O tom de pele variava do branco gesso ao cinza, mas havia também os que estavam roxos, e em alguns casos a pele já se desprendia dos ossos. Em seguida registrei o cheiro, pior do que todos que eu já sentira, e a náusea subiu do estômago até minha garganta. Alguns daqueles homens não usavam sapatos, por isso era possível ver a carne inchada e se separando dos ossos em seus pés. O que estava mais perto de mim tinha a camiseta manchada e, tomada de assalto por uma segunda onda de náusea, percebi que seu peito vazava, liberando fluidos corporais. O pior de tudo eram os olhos. Vazios, como se as almas daqueles homens houvessem sido sugadas pelas órbitas. Todos viraram a cabeça lentamente na minha direção. Um a um, eles se levantaram e começaram a andar na minha direção, todos com os braços estendidos. Eles eram zumbis. E vinham atrás de mim.


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Capítulo 26 Por um momento não consegui me mover, as pernas ainda paralisadas pelo choque. Mas o zumbi mais próximo surgiu na minha frente, e seus dedos roçaram meu braço. Eles estavam cobertos de sujeira e fuligem, e a pele que cobria suas mãos havia começado a se soltar dos ossos. Gritei e recuei, mas não antes de ver que as órbitas de seus olhos transbordavam carne podre e solta, as gengivas haviam recuado e se desprendido dos dentes, e os cabelos cobriam a cabeça em tufos irregulares. O cheiro era tão forte que quase sufoquei tentando não vomitar. Virei e corri para a porta, mas ele conseguiu me agarrar pela camisa. Fui puxada para trás e percebi que o zumbi não havia sido enfraquecido pelo processo de decomposição. Outra mão macabra agarrou meu pescoço e me virou, e percebi que todos convergiam na minha direção, todos com as mãos estendidas, a boca aberta e o queixo caído. Eu gritei e empurrei aquelas mãos mortas. Gritei novamente, mais alto, quando minhas mãos tocaram a carne úmida, escorregadia e flácida. Uma das mãos cobriu meu rosto, apertou meu nariz e a boca, me deixando sem ar. Respirei o cheiro de podre e meus gritos se transformaram em expressões de fúria, enquanto eu lutava para me livrar de todos os corpos que se aglomeravam à minha volta, mas eram muitos. Mordi a mão que me sufocava. Mordi forte. Meus dedos se fecharam em torno de um dedo e eu investi toda minha força na luta, e ouvi um som repugnante quando o dedo se desprendeu da mão, cuspi e continuei gritando, já rouca, e pisei com força nos pés mais próximos dos meus, mas eram muitos. Outra mão substituiu à primeira, e mais uma, puxando meu cabelo, os dedos tentando encontrar meus olhos.


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Eu ia morrer. Os zumbis haviam recebido a ordem para me matar - destruir todos menos Bryce deduzi. Há quanto tempo ele construía aquele exército em decomposição? A julgar pelo estado dos corpos, há dias. Semanas, até, considerando o que Prairie me dissera sobre a decomposição ocorrer mais lentamente. Talvez mais, se Bryce estivera trabalhando em métodos para retardá-la. Eu ia morrer, mas a fúria me mantinha lutando. Meus dedos encontraram carne, empurraram, lutaram, e eu insisti na difícil resistência mesmo quando eles encontraram tecidos podres. Eu sabia que não podia matá-los. Seus corpos patéticos seguiriam se movendo até toda carne se desfazer e eles não serem mais que esqueletos, e só quando os últimos tecidos apodrecessem, eles estariam realmente mortos. Eu, por outro lado, morreria como morrem os humanos; eles apertariam meu pescoço e me deixariam sem ar, torceriam e quebrariam meus membros e me jogariam no chão para pisotear a vida para fora do meu corpo. - Hailey! - Kaz surgiu na porta atrás de mim. Ele hesitou só por um segundo, observando a cena, e depois pegou uma das cadeiras dobráveis. Brandindo-a na frente do corpo, Kaz afastou os zumbis. Eles se aglomeraram na minha frente, por alguma razão desprovidos do instinto para me cercarem e atacarem pelas costas, e Kaz os atacou com a cadeira, derrubando vários deles, perseguindo os que ainda restavam em pé e repetindo os golpes com força redobrada, impressionante. Ele batia com a cadeira como eu o vira bater com o taco de lacrasse, com precisão fatal e a força de todos os músculos desenvolvidos e condicionados. Uma a uma, as mãos foram se afastando de mim. Eles eram lentos para se ajustar às mudanças de circunstâncias, e tropeçavam uns nos outros e hesitavam, as mãos agarrando o ar, a expressão do rosto inalterada. Os que haviam sido empurrados para longe agora se levantavam do chão e caminhavam para Kaz, e eu compreendi que tinha apenas alguns segundos até eles se adaptarem à nova ameaça. Usei toda minha energia para chutar e arranhar. Consegui libertar meus braços quando chutei as pernas do último zumbi, derrubando-o. - Agora. - gritei, agarrando o braço de Kaz e puxando-o para a porta. Ele arremessou a cadeira contra os zumbis que avançavam, e nós dois caímos contra a porta quando eu a puxei com força e fechei. - Estão trancados lá dentro - eu disse, mais como uma prece do que como uma afirmação, e Kaz agarrou minha mão e nós voltamos correndo pelo corredor enfumaçado. Agora as chamas lambiam o chão, e eu soube que o fogo atingiria a sala do servidor em


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poucos segundos. - Prairie... - gemi, minha voz sufocada pela fumaça. - Levei-a para o saguão - Kaz me orientou. - Tente não respirar até sairmos daqui. Enchi os pulmões de ar pela última vez e o retive, e nós corremos juntos até não podermos enxergar através da fumaça, e depois estendemos as mãos para as paredes e nos orientamos assim, seguindo por corredores até atravessarmos o fogo. Senti as chamas me lambendo e soube que, se nossas roupas pegassem fogo, estaríamos perdidos, e então, repentinamente, irrompemos no saguão onde a fumaça era mais fina, e eu vi Prairie caída e inconsciente ao lado do balcão onde o guarda estivera lendo seu jornal. Ela parecia morta, a cabeça virada para o lado sobre o braço estendido, e meu coração parou de bater por um instante. - Ela vai ficar bem? - Eu vou tirá-la daqui - Kaz conseguiu dizer, jogando-a sobre um ombro como havia feito com o guarda anteriormente. Eu tossi, tentando expulsar a fumaça dos pulmões, e quando o segui para além da porta principal e para o ar frio da noite, respirei com avidez o ar fresco e puro. Antes que pudesse recuperar o fôlego, Kaz agarrou meu braço e me puxou para longe do prédio, para a sombra das árvores enfileiradas na rua. - Precisamos correr - ele disse. - E a curadora? - perguntei com voz rouca e arfante. - Ela continua presa lá dentro, em algum lugar! Foi quando ouvi as sirenes se aproximando. Kaz também as ouviu. Ele olhou para trás, para o prédio, onde as chamas agora saíam por todas as janelas. Depois olhou para mim com tamanho sofrimento nos olhos, que eu soube que não havia esperança. A curadora morreria sozinha e em agonia, cercada pelas horríveis criaturas que ela fora forçada a criar. Prairie gemeu baixinho e se moveu nos braços de Kaz. - Precisamos nos apressar - ele repetiu, e eu soube que não voltaríamos a falar sobre a curadora.

Quando acomodamos Prairie no banco de trás, viaturas da polícia e dos


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bombeiros percorriam as ruas em alta velocidade se aproximando do laboratĂłrio. Eu dei as costas para o edifĂ­cio em chamas e olhei pelo para-brisa para a noite fria. Kaz jĂĄ pisava no acelerador para nos tirar dali.


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Capítulo 27 Prairie despertou pouco antes de chegarmos em casa. Ela tinha um hematoma na cabeça, mas como eu já havia testemunhado como ela se curara do tiro, não me preocupei. Kaz a informou sobre tudo que havíamos descoberto no quarto atrás do laboratório, e descreveu como conseguíramos escapar. Eu ainda não conseguia falar sobre o assunto. Ainda sentia as mãos moles e frias em mim, e sabia que jamais seria capaz de esquecer a sensação dos meus dedos penetrando na carne decomposta das criaturas. Anna ouviu uma versão muito resumida. Por um acordo tácito, ficara decidido que a pouparíamos dos piores detalhes. Os ferimentos de Kaz agora pareciam apenas arranhões superficiais, suas mãos funcionavam normalmente, e o buraco em seu braço se fechara, por isso não contamos a ela sobre a verdadeira extensão dos ferimentos. E não mencionamos os zumbis. Mas ela escutara tudo que os âncoras dos telejornais haviam divulgado, e chorou aliviada ao constatar que havíamos escapado do incêndio, que se transformara em um inferno que destruiria completamente todo o prédio. Equipes de emergência se reuniram no local, e nesse momento os trabalhadores tentavam salvar os prédios vizinhos. Havia dois sobreviventes: o guarda de segurança fora encontrado vagando pelo fundo do edifício, tonto e desorientado, mas sem nenhum outro ferimento. Ele não conseguiu dar detalhes sobre o começo do incêndio, porque as lembranças dos eventos daquela noite terminavam no sanduíche que comera no intervalo do jantar. O outro sobrevivente fora retirado do prédio em uma maca. Vimos a mesma cena várias cenas pela televisão. E nenhum de nos conseguia desviar os olhos da tela. - É ele - Prairie disse na primeira vez, quando viu pela televisão os médicos carregando a maca para uma ambulância parada perto dali. - São os sapatos dele.


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Mas só havia um pé. Um mocassim de couro que havia descascado e formado bolhas no calor do incêndio, mas permanecera no pé de Bryce. O outro pé estava descalço, e era evidente que a calça fora destruída pelo fogo. A carne enegrecida da perna de Bryce ficou visível assim que a câmera o focalizou. - Queimaduras em mais de oitenta por cento do corpo - o repórter anunciou com tom sigiloso, sem esconder a excitação. A história geraria material para os jornais por alguns dias, era evidente, especialmente porque os "detalhes inusitados" sobre o laboratório sugeriam que ali era realizada importante pesquisa científica com recursos fornecidos pela universidade, embora ninguém ainda houvesse confirmado essa informação. Bebemos café forte enquanto assistíamos ao jornal. Anna preparou um prato de sanduíches e os colocou sobre a mesa enquanto os primeiros raios rosados tingiam o céu lá fora, anunciando a chegada de um novo dia, mas ninguém tocou neles. Eu me perguntava se conseguiria voltar a dormir algum dia, se o amanhecer não se tornaria uma imagem comum para mim. Quando eu começava a cochilar com a cabeça apoiada em Prairie, a voz do âncora interrompeu a transmissão. - Lá está, queridos telespectadores - ele disse, incapaz de esconder a animação. - Conforme previsto parece que o edifício está completamente... Oh, meu Deus, vejam aquilo! Todos nos inclinamos para frente quando o prédio desmoronou em câmera lenta, os pisos superiores se desmanchando como um modelo de papel machê. Segurei a mão de Prairie. - Eles devem estar mortos - sussurrei, mas nós duas sabíamos que era uma pergunta. Ela assentiu. - Foi anunciado que a temperatura ultrapassou os quinhentos graus. E agora isso... nada mais será encontrado quando o fogo for debelado. Talvez alguns fragmentos de ossos. Eu assenti e me aproximei um pouco mais dela, rezando para que estivesse certa, para que os zumbis queimassem como todas as outras criaturas. E tentando não pensar na Curadora presa lá dentro. Um momento depois, porém, ela ficou tensa. - Esquecemos - disse, ajeitando o cobertor que nos cobria. Esquecemos seu


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apartamento. Temos que ir lá para destruir todos os documentos e backups. Eu ergui o corpo. Kaz já estava se levantando. Anna tentou puxá-lo de volta. - Agora não - ela disse. - Está exausto. Tudo lá foi destruído, Bryce está no hospital, provavelmente vai morrer. Mas ela não vira os zumbis. Nós os havíamos visto. A discussão foi encerrada quando Kaz abraçou Anna com força, interrompendo seu discurso. - Amo você, mãe - ele disse cada sílaba uma promessa. - E vamos voltar inteiros. O trajeto e volta a Evanston foi ainda mais difícil do que na primeira vez, embora não houvesse lá mais nada que pudesse nos atingir. Tudo havia sido destruído pelo incêndio. Mas não havia mais em nós a energia de antes. Aquela era uma viagem triste, o final de uma jornada que fora marcada por ganhos e perdas, e mal falamos durante todo o tempo, exceto quando Prairie dava uma ou outra orientação com relação ao trajeto. Encontramos uma vaga em uma rua movimentada, e Kaz manobrou o automóvel para encaixá-lo no espaço reduzido. O prédio de apartamentos tinha poucos anos, e era uma torre reluzente de tijolos, aço e vidro. - O que há nos documentos, afinal? - Kaz perguntou quando saímos do carro. Ele levara a mochila, mas dessa vez a usaríamos para tirar coisas do apartamento e levá-las conosco. Prairie havia dito que tudo que precisávamos pegar estava em uma gaveta de arquivo, e havia também o laptop de Bryce. Planejávamos rasgar os documentos assim que voltássemos para a casa de Anna, onde destruiríamos o laptop também. - Até onde sei, são basicamente anotações que ele fazia para uso próprio. Talvez as tenha transferido para arquivos eletrônicos posteriormente, mas havia listas manuscritas, como aquela de que lhe falei sobre os contatos em exércitos estrangeiros. Não sei realmente o que há nesses papéis, mas imagino que tenhamos de nos garantir. No hall reluzente, o segurança assentiu e sorriu para Prairie. Ele a reconhecia de suas visitas anteriores era óbvio. Bryce não devia ter informado ao guarda sobre a mudança nas circunstâncias do relacionamento. Quando nos aproximamos dos elevadores, Prairie se aproximou de mim, o bastante para eu poder ver as linhas finas em torno de seus olhos, as olheiras profundas sob eles. Ela parecia muito cansada.


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- Está quase acabando - Prairie me disse em voz baixa, e tentei decidir se ela tentava se acalmar tanto quanto queria me tranqüilizar. O elevador subiu lentamente até a cobertura. Percorremos um corredor acarpetado e suavemente iluminado. Havia apenas dois apartamentos, as coberturas. Prairie introduziu a chave na fechadura e o último obstáculo foi removido. Bryce não tivera tempo para mudar as fechaduras, mas eu havia aprendido a não tomar nada por certo. A porta se abriu revelando um belo apartamento discretamente mobiliado. O sol do meio-dia iluminava a superfície de mesas, os pisos de madeira, um vaso de tulipas. Os móveis elegantes foram arranjados em torno de um tapete estampado. Tudo parecia normal. Convidativo, até. Meus ombros praticamente se encurvaram com o alívio. Finalmente, eu sentia que havíamos chegado ao final da jornada. - Vamos levar só um minuto - disse Prairie, voltando à mesa na sala íntima ao lado da sala de estar, onde começou a reunir alguns papéis. Kaz estendeu o braço para me amparar, e eu me apoiei nele, deixando que ele me apoiasse, respirando o cheiro confortante de roupa limpa e sabonete. Meus olhos se fecharam, e eu me perguntei se seria possível dormir em pé, porque eu me sentia capaz de dormir para sempre. Foi quando ouvi a voz. - Sr. Safian? Era uma voz feminina com forte sotaque estrangeiro, uma voz parecida com a de Anna, mas mais próxima de suas raízes polonesas. Eu fiquei paralisada ao sentir a tensão de Kaz ao meu lado. Prairie derrubou os papéis. A voz soou atrás de uma porta fechada no final do corredor. Olhei para Prairie expressando minha confusão. - Quarto de hóspedes - ela sussurrou. Dei um passo naquela direção, mas ela me deteve tocando meu braço. - Ela é Banida - eu disse, porque podia senti-Ia mesmo através da porta fechada, mesmo de longe. O pulsar do sangue, os sentidos aguçados, tudo estava ali. - Sr. Safian? - a voz repetiu, agora choramingando. - Fiquei sozinha a noite toda. - Sr.


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Safian! - É ela - disse Kaz. - Aquela que vi pela visão. Só pode ser. - Não sabemos - disse Prairie. - Não podemos ter certeza... - Não voltou, prometeu voltar, não voltou, estou com muito medo. A voz se transformou em soluços. A mão de Prairie apertou meu braço, e um medo renovado brotou em meu peito, progredindo rapidamente para o terror. - Por favor, não fique zangado, Sr. Safian. Faremos o seu trabalho não vamos mais lutar, não vamos mais resistir. Faremos o que nos mandar fazer. Agora traga minhas irmãs, por favor. Traga minhas irmãs de volta para mim?

Fim


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Na mitologia nórdica, as valquírias eram deidades menores, servas de Odin. O termo deriva do nórdico antigo valkyria (em tradução literal significa "as que escolhem os que vão morrer”.) As valquírias eram belas jovens mulheres que montadas em cavalos alados e armadas com elmos e lanças, sobrevoavam os campos de batalha escolhendo quais guerreiros, os mais bravos, recém-abatidos entrariam no Valhala. Elas o faziam por ordem e benefício de Odin, que precisava de muitos guerreiros corajosos para a batalha vindoura do Ragnarok. As valquírias escoltavam esses heróis, que eram conhecidos como Einherjar, para Valhala, o salão de Odin. Lá, os escolhidos lutariam todos os dias e festejariam todas as noites em preparação ao Ragnarok, quando ajudariam a defender Asgard na batalha final, em que os deuses morreriam. Devido a um acordo de Odin com a deusa Freya, que chefiava as valquírias, metade desses guerreiros e todas as mulheres mortas em batalha eram levadas para o palácio da deusa. As valquírias cavalgavam nos céus com armaduras brilhantes e ajudavam a determinar o vitorioso das batalhas e o curso das guerras. Elas também serviam a Odin como mensageiras e quando cavalgavam como tais, suas armaduras faiscavam causando o estranho fenômeno atmosférico chamado de Aurora Boreal.


Banidos sophie littlefield  
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