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índice

[editorial]

Everything is a copy of a copy of a copy of a copy of a

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Vasco Morgado

The death of paper didn’t happen didn’t happen

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Alessandro Ludovico

SlowSlowSlowSlowSlowSlow down the internet

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Colby Chamberlain

re-photography re-photography re-

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about Krissy Wilson

affinity and Laser Discs

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Triple Canopy

oppositions and idiosyncrasies

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Silvio Lorusso

his own picture of that picture of that picture

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about Michael Wolf

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everything is a copy of a copy of a copy of a copy of a Tudo é uma cópia. O livro na sua origem era sagrado. Passando para a reprodução mecânica em massa, a cultura da anotação (o paratexto) nasceu. A digitalização, a impressora doméstica, a câmara fotográfica manuseável e acessível, são novas formas de processar a realidade de uma maneira pessoal, que é fundamentalmente residual no sentido em que acontece dentro da nossa casa através de exercícios mecânicos feitos pelas nossas mãos. Fora do ambiente em que foram criadas, ambiente que era antes vinculativo, estas peças acumulam detritos enquanto passam de mão em mão, de aparelho em aparelho. Porque a cópia raramente existe sem uma pequena adição, uma pequena morfose, na sua génese adiciona algo novo. E assim saltamos de plataforma em

plataforma, vamos para o papel e para o ecrã e de novo para o papel e de novo para o ecrã uma cópia de uma cópia de uma cópia.Nestas transferências, o que é que se ganha, o que é que se perde? Existe um sentimento irrevogável de perda, uma sobreposição sólida, que faz com que informação que antes existia deixe para sempre de existir. Porque é acrescentada esta dimensão de que estas adições (por vezes erros, como os catalogados em The Art of Google Books) são permanentes, que se inserem em peças que estão arquivadas com estas adições (estes erros) e como tal encontram-se para sempre mutadas. O que se ganha, por outro lado, é uma nova dimensão de entendimento da peça, do livro, da fotografia. RE-fotografia, RE-interpretação, RE-visita. O que Michael Wolf fez em A Serie of Unfortunate Events, e note-se que não estamos a discutir a base teórica ou as intenções do exercício, foi tirar uma fotografia a um ecrã. O auto escolheu, dentro das suas inclinações profissionais e intenções pessoais, tirar uma fotografia a um ecrã em substituição ao muito mais óbvio print screen.

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Isto evoca, se mais nada, o contraste entre a frivolidade ataráxica de um print screen e o calor de uma fotografia a um ecrã, um ecrã como o que temos em casa na escola no trabalho. É isto que se ganha, estes grãos na imagem (os pixéis na fotografia de um ecrã, uma mão enluvada a paginar um livro, uma frase manuscrita embutida numa fotocópia), esta permutabilidade de condições, entre nós e o autor, entre o autor e a peça. Outra dimensão urgente nesta tradução de conteúdos, nesta troca de suportes, é a arquivação. Se por um lado existem projectos com nascimento digital como o Triple Canopy que encontram na impressão em papel a forma suprema de arquivar determinados conteúdos (como o Binder and the Server ou o Invalid Format) projectos de origem impressa como as icónicas revistas Photostatic Retrograde ou Radical Software encontram-se digitalizadas com o mesmo objectivo. A modo como interagimos com material impresso, na folha no papel, é diferente de como interagimos perante um ecrã. De resto Alessandro Ludovico discorre amplamente sobre o assunto na Mag.net Reader. A mente humana dá uma dimensão quase holística ao que é impresso, e num sentido mais pragmático, consegue reter melhor o que se encontra arquivado no papel. Existe memória, e quando existe memória existe uma ligação emocional. O ecrã por outro lado carece desse calor afectivo, o que torna esta troca de processos algo que se assemelha a um choque térmico. Foi o que notei, em tom pessoal, quando me deparei com a Photostatic Retrograde digitalizada, que embora criada no auge da Xerox (experiencias com distorção, cópia, adulteração analógica de dados) mostra-se belissimamente traduzida no ecrã: estava guardado na sua génese, como um segredo que só faria sentido quase trinta anos depois da sua criação. O material impresso nos dias

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de hoje, que não foi portanto criado nos anos 80, continua com esse segredo mais ou menos resguardado. Mas a verdade é, como escreve Stéphanie Vilayphiou e Alexandre Leray, grande parte da matéria impressa actualmente é criada, editada e guardada no computador, e como tal é acima de tudo digital. O presente projecto é construído por três partes (agrupadas numa plataforma central a todo o projecto) que de diferentes modos filtram referências textuais, processuais e formais que abordam a relação entre o sujeito e o ecrã ou a página impressa, a arquivação através da digitalização e a consequente vinculação de erros que se temem eternos, a matéria impressa como fundamentalmente digital na sua criação edição e arquivação e a transferência de formatos (como ferramenta de arquivação ou de expressão criativa) e a transformação da forma e/ou do conteúdo consequente. De existência digital, os dois primeiros momentos debruçam-se sobre a filtração de informação, alguns momentos prevalecem em relação a outros que se perdem para sempre, através da acção mecânica do utilizador. O momento seguinte tem vida no papel, sendo formalmente baseado na revista Photostatic Retrograde (especialmente os primeiros números, dos anos 80, que mostravam uma forte experimentação gráfica). Esta peça mimetiza os processos usados na referida publicação de culto, enquanto tenta parafrasear intenções através de mecânicas construtivas, sempre com o objectivo de filtrar e hierarquizar informação. Sempre baseadas na re-impressão, re-digitalização e re-fotografia, as mecânicas construtivas aplicadas incluem fotografar o ecrã para circunscrever determinada informação (reminiscente de Michael Wolf), re-imprimir e re-digitalizar de matéria previamente impressa e agora


digitalizada mostrando os resíduos resultantes (marcas da impressora e do scanner, “sombras” de mãos e de diferente acções mecânicas como cortes rasgões), agir directamente na matéria re-impressa escrevendo anotações ou sobrepondo informações, destacar informação manuscrita quando oposta á escrita mecanizada (ambas sofrendo acções semelhantes até chegarem ao resultado presente no booklet), distorcer matéria directamente no scanner (a passividade da máquina enquanto “leitor”), incluir elementos que apelam ao mundo material como papel quadriculado ou marcas da “transpiração” da tinta da frente de uma página para o seu verso, repetir imagens mas não os processos (mostrando a mesma informação através de diferentes exercícios analógicos).

editores. O que se ganha e o que se perde. De resto é tudo uma questão de assemblagem. //

No fim poderá tratar-se de um concurso de popularidade. Os doze issues da bandadesenhada Black Hole foram sendo publicados ao longo de dez anos, marginalmente, a sua história controversa e a sua arte visceral. Cada issue era acompanhado com capa e contracapa crípticas, arte adicional que nunca se provava aleatória, e mais importante, pequenos prólogos a cada capítulo que construíam uma narrativa paralela á já por si só difusa narrativa principal. Em 2005 surge a colecção completa e o decorrer dos anos torna Black Hole numa graphic novel de culto. Já não estamos a falar de banda-desenhada (comics, em inglês, que deixa sempre um sabor amargo) mas sim de uma graphic novel. As capas e contracapas e arte adicional e prólogos desapareceram. As opiniões dividem-se entre a sobriedade de um obra coesa por um lado e por outro a perda total de elementos narrativos, como metáfora, imagine-se um livro ao qual faltam capítulos, cuja história se mostra incompleta. A título pessoal, tendo lido a graphic novel, só compreendi a totalidade da história depois de analisar os issues originais digitalizados. Existem portanto as cópias, e existem os

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The death of paper didn’t happen didn’t happen from Paper and pixel, the mutation of publishing by Alessandro Ludovico ( ... ) The role of the printed page has radically mutated, from being a prevalent medium in itself to a complementary medium, often used as a static repository of electronic content. ( ... ) After the gigantic effort of digitizing books and magazines using microfilm technology (during the past decades), now there are countless efforts to preserve old printed materials, making them available again. Scanners, OCR software, the Pdf and Html standard do the

trick to bring new life to the dead, out of print or missing books and magazines. ( ... )

Another strategic factor is how much you can use your own photographic memory for retrieving information. Photographic memory on paper is evident and static. You can remember the exact layout of a specific page on a magazine (even related to the time when you bought it), because it is physically in that specific place. Photographic memory doesn’t work well on the screen, because it’s dynamic and changes every time, even if physically it’s the same place with changing contents. //

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“At the beginning of the 20th Century, the death of paper was predicted.�

~ Alessandro Ludovico


“Our initial conviction that online publishing differed from print was practically physiological (...)�

~ Colby Chamberlain


SlowSlowSlowSlow SlowSlow down the internet from The Binder and the Server by Colby Chamberlain ( ... ) The role of the printed page has radically mutated, from being a prevalent medium in itself to a complementary medium, often used as a static repository of electronic content.

pointing toward the saboteur aesthetics of pioneering Net artists like the duo Jodi, who have made a career of exploiting the internet’s glitches. Rather, we were speaking as readers. Our initial conviction that online publishing differed from print was practically physiological: quite simply, our eyes moved differently over screens. //

( ... )

Slow down the internet. Like “Don’t be evil” for Google, this was our guiding slogan. To be clear, we didn’t coin it out of nostalgia for the modem blips of the dial-up era. Nor were we

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“(...) quite simply, our eyes moved differently over screens.”

~ Colby Chamberlain


re-photography re-photography reabout The Art of Google Books by Krissy Wilson ( ... ) Q: You describe the process of digitizing books as “re-photography.” What do you mean by that? A: The rephotography I am talking about is what happens when you take a photograph of a photograph — the idea that, were one to take a photo of the Mona Lisa, you would not have a copy of the Mona Lisa, but a photograph, authored by the photographer. I see the images produced by Google Books employees as photographs, in that sense. //

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“The obsession with digital errors in Google Books arises from the sense that these mistakes are permanent, on the record.�

~ Kenneth Goldsmith


“(...) a sense of the materiality of the magazine or the book.�

~ the editors of Triple Canopy


affinity and Laser Discs

however apart from, the printed page. //

from Invalid Format by Triple Canopy ( ... ) How can the form and function of interactive, audiovisual works be degraded elegantly, without disappearing entirely, in print? ( ... )

Of course, this continuing affinity for objects has as much to do with our inclination to reproduce, online, a sense of the materiality of the magazine or the book. Triple Canopy has always existed I reference to,

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oppositions and idiosyncrasies from P-DPA by Silvio Lorusso

(as culture), the artist (as archivist) and print publishing (as a new/old self-serve schema for expressing the archive). //

( ... ) The aim of P-DPA is to systematically collect, organize and keep trace of experiences in the fields of art and design that explore the relationships between publishing and digital techonology. The archive acts as a space in which the collected projects are confronted and juxtaposed in order to highlight relevant paths, mutual themes, common perspectives, interrelations, but also oppositions and idiosyncrasies.

(...) this collection of printed artifacts is presented as a reference tool for studying shifting relationships between the web

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“(...) the web (as culture), the artist (as archivist).� ~ Silvio Lorusso


his own picture of that picture of that picture about A Series of Unfortunate Events by Michael Wolf ( ... )

When he found an image that fit his project, Wolf mounted his own camera in front of his computer screen, cropped the part of the Google image that he wanted, and made his own picture of that picture. //

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“(...) his own picture of that picture.”

~ Jim Casper


index

Photostatic Retrograde No. 5 ‘Degeneration’ 1984 Paper and Pixel the Mutation of Publishing Alessandro Ludovico, Mag.net Reader 1, 2006 The Binder and the Server Colby Chamberlain, Triple Canopy, 2012 The Art of Google Books [.tumblr.com] Krissy Wilson Invalid Format the editors of Triple Canopy, 2011 Post-Digital Publishing Archive [p-dpa.net] Silvio Lorusso A Series of Unfortunate Events Michael Wolf

[also] V for Vendetta Alan Moore and David Lloyd Black Hole Charles Burns The Medium is the Massage Marshall McLuhan and Quentin Fiore, 1967

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REFaculdade de Belas-Artes | Universidade de Lisboa MDCNM Design Editorial e Novos Media 1ยบ Ano | 2ยบ Semestre Vasco Morgado | 7878 2013-2014


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