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“Assim como ocorre em várias peças de Beckett, há uma unidade de lugar e tempo, mas ela é – evidentemente – parodiada. Nada daquilo que está associado à unidade de tempo no teatro dramático se aplica aqui. O que há não é exatamente uma unidade, mas uma desagregação da vivência do tempo... o tempo não avança: entricheira-se em si mesmo, curva-se e dobra-se como tempo lembrado. A busca de um tempo perdido...” Lehmann, Hans-Thies sobre Beckett


Robert Wilson em

A ÚLTIMA GRAVAÇÃO DE KRAPP de Samuel Beckett

Dias 14, 15, 18, 19 e 20 de abril de 2012 Teatro SESC Belenzinho


Tarde da noite. Daqui a algum tempo. A mansarda de Krapp. (...) Beckett, Samuel. A última gravação de Krapp.


ARTE, RIGOR E ESTRANHAMENTO   O debate em torno da utilidade ou não da arte preserva espaço para uma constatação: o discurso artístico, se não possui propriamente funções, de certo desempenhou diferentes papeis em cada momento histórico. Um desses papeis, ao menos desde o início da modernidade, é empreender uma suspensão da ordem, supondo um contágio posterior entre linguagem artística e vida, de modo que a arte engendre metáforas de outras possibilidades de vida. Mais que uma experiência estética, trata-se de uma vivência que pode conduzir à libertação – mesmo que momentânea – de artista e espectador.   O anseio dos artistas em suspender a ordem conhecida efetivou-se de modos variados, com a atenção ora voltada para processos de reelaboração formal e discussão da linguagem, ora interessada em temáticas inusitadas. Algumas obras mostram particular empenho ao efetuar essa suspensão, buscando atacar os hábitos estéticos, simultaneamente, por vários flancos. Quando obtêm êxito, a fruição do público adquire um potencial emancipatório.   A última gravação de Krapp, texto de Samuel Beckett encenado por Robert Wilson, conjuga precisão e desvio, rigor e estranhamento. Foi operando nesse registro que Beckett, escritor e dramaturgo irlandês, marcou a cultura do século XX, ao colocar em xeque convenções narrativas e teatrais: surgem temporalidades incômodas, flertes com o absurdo, arranjos que agregam simplicidade e caos. De forma análoga, o artista norte-americano Robert Wilson movimentou-se pelos campos do teatro, ópera, dança e música, propondo situações de convergência de recursos expressivos (como luz, cenografia e sonoplastia), cuja exatidão dos encaixes não prescinde da participação do público, impelido a recompor os nexos. No caso de A última gravação de Krapp, Wilson retoma o trabalho como ator, encarnando o personagem beckettiano que reavalia a própria existência ao ouvir seus antigos relatos gravados. Ambos artistas concretizaram em suas trajetórias o que consideram um dos papéis da arte: a indagação dos sentidos da vida a partir da reinvenção dos sentidos do discurso artístico.   É emblemática, neste momento, a presença da poética de Robert Wilson no SESC: ela atualiza um passado recente de intenso contato entre artista e instituição, materializado no espetáculo Quartett (2009) e na exposição Voom Portraits (2008/2009). No mesmo gesto, aponta para desdobramentos futuros que permitem cotejar essa poética com a de outros artistas. São oferecidas assim referências importantes para a construção de um repertório artístico que fertiliza subjetividades e contextos e para o convívio com múltiplas formas de expressão.   O acolhimento que o SESC dedica às relações entre arte e desenvolvimento humano está ligado a um entendimento da arte como convite à liberdade, por meio do questionamento dos modelos vigentes. Entre 2012 e 2014, uma parceria entre SESC, Change Performing Arts e Watermill Center, iniciada com a encenação de A última gravação de Krapp, aproximará o público brasileiro de uma produção teatral cuja importância deve muito à capacidade de ensejar novas significações.

Danilo Santos de Miranda Diretor Regional do SESC São Paulo


(...) Trinta e nove anos hoje, sólido como uma ponte, à parte do meu velho ponto fraco, e intelectualmente eu tenho agora todas as razões para me suspeitar na... (hesita) crista da onda – ou quase isso. Celebrada a solene ocasião, como todos estes anos, tranquilamente na Taberna. Nenhuma vivalma. Sentei-me diante do fogo, os olhos fechados separando o grão das cascas. Rabisquei algumas notas no verso de um envelope. Feliz por estar de volta à minha toca e aos meus velhos trapos. Acabo de comer, sinto dizer, três bananas e com dificuldade abstive-me de comer a quarta, com muito custo. Um veneno para um homem em minha condição. (com veemência) Eliminar! (pausa) A nova iluminação acima da minha mesa é uma grande melhora. Com toda essa escuridão ao meu redor, sinto-me menos só (...) Beckett, Samuel. A última gravação de Krapp.

Esse est percipi Ser é perceber


Eu fui honrado em uma das minhas primeiras peças A LETTER OF QUEEN VICTORIA na qual Beckett foi ao camarim me ver. Ele me cumprimentou por meu texto fragmentado e não sequencial. Disse que foi formidável. E foi na verdade Eugene Ionesco quem fez a crítica da minha primeira peça DEAFMAN GLANCE. Ele disse “Wilson foi além de Beckett”. Eu estava muito intimidado quando realmente o conheci.   Sempre tive uma afinidade ao mundo de Beckett. De certa forma era muito próximo ao meu universo. E agora, depois de 35 anos, decidi enfrentar o desafio e fazê-lo.   Quando dirijo um trabalho eu crio uma estrutura no tempo. Quando finalmente todos os elementos visuais estão no seu lugar, eu criei uma moldura para os performers preencherem. Se a estrutura é sólida, pode-se ser livre nela.  Aqui, na maioria do tempo, a estrutura é dada e eu devo encontrar a minha liberdade dentro da estrutura de Beckett. Ele diz como o cenário deve ser, quais são os movimentos, etc.   Tudo está escrito. Robert Wilson


(...) Não conhecia tamanho silêncio. A terra podia estar desabitada.(...) Beckett, Samuel. A última gravação de Krapp.

(...) para Beckett, a imobilização, a morte, o negro, ... são apenas uma finalidade subjectiva. É apenas um meio em relação a um fim mais profundo. Um meio de alcançar o mundo antes do homem, antes da alvorada (...) Deleuze, Gilles. Imagem-movimento - Cinema I.


“O teatro de Wilson é um teatro das metamorfoses. Ele atrai o espectador para o mundo de sonho das transições, das ambiguidades, e das correspondências... Seu lema poderia ser: “Da ação à transformação.” A metamorfose combina, assim como a máquina deleuziana, realidades heterogêneas, mil platôs e correntes de energia.” Lehmann, Hans-Thies. O Teatro Pós-Dramático.


“... a mais elevada exatidão e a mais extrema dissolução; a troca indefinida das formulações matemáticas e a busca do informe ou do informulado ...” Blanchot, Maurice. Le livre à venir.


“As obras de Samuel Beckett são como um “poema visual”: um teatro do espírito que se propõe não a narrar uma história, mas a construir uma imagem; as palavras que servem de cenário para uma rede de percursos num espaço qualquer; a extrema minúcia desses percursos medidos e recapitulados no espaço e no tempo...” Deleuze, Gilles. O Esgotado.


(...) Surpreendido, abalado, sensorialmente seduzido ou mesmo hipnotizado, o espectador nas performances de Bob Wilson, experimenta a lenta passagem do tempo. Toda percepção é reconhecidamente percepção diferenciada, de modo que se sente nitidamente a diferença do ritmo perceptivo em relação ao andamento habitual da vida e do teatro. O tempo cristaliza e transforma o que é percebido; o objeto visual sobre o palco parece acumular tempo nele mesmo... o teatro se assemelha a uma escultura cinética, torna-se escultura do tempo (...) Lehmann, Hans-Thies. O Teatro Pós-Dramático.


“Os personagens, os danados de Beckett formam a mais impressionante galeria de posturas, de passos e de posições desde Dante...” Deleuze, Gilles. O Esgotado.


(...) groselhas, disse ela. Disse-lhe ainda que tudo aquilo me parecia sem esperança e não valia pena continuar, e ela concordou, sem abrir os olhos. (Pausa) Pedi para ela olhar para mim e após alguns instantes (Pausa) após alguns instantes ela olhou, os olhos como fendas por causa do sol. Inclinei-me sobre ela para os por na sombra e eles se abriram. (Pausa) Deixaram-me entrar. Derivávamos por entre os caniços e o barco encalhou. Como eles se dobravam, suspirando diante da proa! (Pausa) Deitei-me sobre ela, meu rosto entre os seus seios e a mão por cima dela. Deitamos ali sem nos mexermos. Mas debaixo de nós tudo estremecia, e nos fazia estremecer, gentilmente, para cima e para baixo, de um lado para o outro. Pausa (Os lábios de Krapp murmuram sem ruído) Passa da meia noite. Não conhecia tamanho silêncio. A terra podia estar desabitada (...) Beckett, Samuel. A última gravação de Krapp.


Pausa Aqui terminou esta fita. Caixa – (Pausa) – três, rolo – (Pausa) – cinco. (Pausa) Possivelmente os meus melhores anos já passaram. Quando havia ainda uma oportunidade de felicidade! Mas agora já não quero. Agora que tenho este fogo dentro de mim. Não, agora já não quero. Beckett, Samuel. A última gravação de Krapp.


Robert Wilson Descrito pelo The New York Times como “a figura destaque no mundo do teatro experimental e um explorador nos usos do tempo e espaço no palco”, as produções de Robert Wilson foram aclamadas por plateias e críticos do mundo inteiro. Ao lado do compositor Phillip Glass, Wilson criou o monumental Einstein on the Beach, que alterou as noções convencionais da forma operística tradicional. Wilson também deixou sua marca em obras primas como A Flauta Mágica, Pelléas et Mélisande, O Anel dos Nibelungos e Madame Butterfly. A prática de Wilson é enraizada firmemente nas artes plásticas e gráficas e extensas retrospectivas foram apresentadas no Centro Georges Pompidou em Paris e no The Boston Museum of Fine Arts. Wilson é o artistaresidente para o VOOM HD Networks para o qual criou uma série de retratos em vídeo de alta definição. Wilson é também o fundador e diretor artístico do Watermill Center, onde em cada verão hospeda estudantes e artistas profissionais do mundo todo em seu International Summer Arts Program, um laboratório interdisciplinar para as artes e as humanidades.


Samuel Barclay Beckett (13 Abril 1906 – 22 Dezembro 1989) foi escritor, dramaturgo e poeta irlandês. O trabalho de Beckett oferece um ponto de vista austero sobre a cultura humana e tanto formal quanto filosoficamente se torna cada vez mais minimalista. Como estudante, assistente e amigo de James Joyce, Beckett é considerado por muitos o último dos modernistas; e uma inspiração aos escritores seguintes, ele algumas vezes é considerado um dos primeiros pós-modernos. Ele é também considerado um dos escritores-chave no que Martin Esslin chamou de “Teatro do Absurdo”. Beckett ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1969 por “escrita, que -em novas formas para o romance e o drama- na miséria o homem moderno adquire sua elevação”. Beckett foi eleito Saoi of Aosdána em 1984. Morreu em Paris de complicações respiratórias.

“Wilson tem sido regularmente comparado a Becket, ambos são mestres. Nada nas suas obras é irrelevante, nenhuma palavra, nenhum movimento. Na curta duração deste trabalho, que une Beckett e Wilson assistimos ao retrato de um mundo muito particular e ao mesmo tempo universal” Sue Jane Stoker


Robert Wilson em

A ÚLTIMA GRAVAÇÃO DE KRAPP de Samuel Beckett Direção, Cenário e Conceito de Iluminação Robert Wilson Figurino e Colaborador no Cenário Yashi Tabassomi Desenho de Luz A. J. Weissbard Design de Som Peter Cerone Diretor associado Sue Jane Stoker Assistente de Direção Charles Chemin Diretor técnico Reinhard Bichsel Supervisor de Iluminação Aliberto Sagretti Engenheiro de Som Guillaume Dulac Administrador de palco Thaiz Bozano Chefe de Contra Regragem Violaine Crespin Maquiagem Claudia Bastia Assistente pessoal de Robert Wilson Fabien Zurmeyer Direção de turnê Laura Artoni

Um projeto de Change Performing Arts comissionado por Grand Théâtre de Luxembourg, Spoleto52 Festival dei 2 Mondi produzido por CRT Artificio, Milan

Realização em São Paulo SESC - Serviço Social do Comércio Produção em São Paulo prod.art.br - interior produções artísticas internacionais Direção de Produção Matthias Pees, Ricardo Muniz Fernandes e Carminha Gongora Produtor Executivo Guilherme Yazbek Assistente renata Andrade Coordenação Técnica Júlio Cesarini, André Lucena e Ivan Andrade Intérprete Ederson José legendas Célio Faria e Hugo Casarini Projeto Gráfico: Edição de Textos e Direção de arte Ricardo Muniz Fernandes Tradução dos Textos (Beckett) Célio Faria, Hugo Casarini e A. Nogueira Santos Fotos © Lucie Jansch Ilustrações © Robert Wilson Design Érico Peretta


SERVIÇO SOCIAL DO COMÉRCIO Administração Regional no Estado de São Paulo Presidente do Conselho Regional Abram Szajman Diretor do Departamento Regional Danilo Santos de Miranda Superintendências Técnico Social Joel Naimayer Padula / Comunicação Social Ivan Paulo Giannini / Administração Luiz Deoclécio Massaro Galina / Assessor Técnico de Planejamento Sergio Battistelli Gerências Ação Cultural Rosana Paulo da Cunha Adjunta Flávia Andrea Carvalho Assistentes Sérgio Luis V. Oliveira e Sidnei C. Martins / Artes Gráficas Hélcio Magalhães Adjunta Karina C.L. Musumeci / Difusão e Promoção Marcos Carvalho Adjunto Fernando Fialho / Estudos e Desenvolvimento Marta Colabone Adjunta Andréa de Araújo Nogueira SESC Belenzinho Marina Avilez Adjunta Cláudia Darakjian Prado Programação Antonio C. Martinelli Jr.

(...) Krapp fica imóvel, olhos fitos no vazio. A fita continua a desenrolar-se em silêncio. Beckett, Samuel. A última gravação de Krapp.


realização

Um projeto de

Patrocínio Grand Théâtre de Luxembourg, Spoleto52 Festival dei 2 Mondi Produzido por CRT Artificio, Milan

SESC Belenzinho Rua Padre Adelino, 1.000 | Belém São Paulo - SP | CEP 03303-000 email@belenzinho.sescsp.org.br tel. 20769700 | 0800118220


A última gravação de Krapp