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O rebanho avança caótico. As ovelhas estão doentes. Elas vêm de longe, dos naufrágios, da Balsa da Medusa, dos tempos imemoriais... Entre elas, a vidente do mal, Cassandra, e um cego, trazem a peste, um futuro tempestuoso. Algumas dão viva ao rei, mas o rei é tirânico, inescrupuloso, sanguinário, ridículo. O rei é cego, não enxerga seu povo, não se enxerga. Outras clamam por um porvir lúdico, uma hospitalidade caraíba. Confusão de línguas, revoluções, cegueiras... O pastor canta uma música feita de ecos. A anjuboa realiza desejos, muda o futuro. Sem o amor a pastroa não tem como continuar sua peregrinação incessante, nômade, geratriz. Há também a pensatriz que gira com seu vestido repleto de pregadores. Momento de transversão. Basta de pregação. Surge o pensador, todos a sua volta silenciam, esperam. Nascem pensamentos, manifestos anárquicos, futuros. Desponta o mundo da floresta.


desenhos, imagens de ensaios, anotaçþes e trechos de roteiros (2013)


esboço de  roteiros  -­‐  Cais  de  Ovelha,  2012


minhas ovelhas é melhor repousarmos essas nuvens essas nuvens nuvens nuvens é melhor repousarmos essas tormentas essas tormentas mentas mentas esses ventos doidos doidos é melhor repousar esses ventos esses ponteiros teiros teiros essas horas horas horas minutos minutos segundos segundos é melhor repousar pousar as mãos adormecidas sonâmbulas é melhor pousar minhas ovelhas calma calma calma serão pedras? serão fantasmas? serão ovelhas? ovelhas encantadas? amaldiçoadas? calma calma calma é melhor pousar repousar é melhor esquecer o vento o vento o vento


para além do torpor das fúrias para além da vela rota dos farrapos os olhares cruzados os roçares as curvas os becos as palavras ao vento as exclamações ah! as exclamações as estrelas rasgando o céu o breu do mar eu nunca tinha visto um mar assim antes


é mais tarde do que você pensa adiante vejo o pior a peste as ovelhas morrerão todas uma a uma de algum modo adiante é tarde demais nada mais tentar de novo falhar melhor demais para esperar aquela sombra dizer que um corpo débil curvado olhos cerrados nenhum osso nenhum solo nada mais ver não mais dizer é tarde saída nenhuma às ovelhas o pior nenhum futuro solo nenhum basta adiante


O rebanho avança caótico. As ovelhas estão doentes, extenuadas, algumas desmaiam pelo caminho, demoram a erguer-se. Elas vem de longe, de muito longe, do mar, dos naufrágios, da Balsa da Medusa, dos tempos imemoriais... São mais antigas que tudo. São o futuro. Algumas giram em torno de si mesmas, perdidas, desencontradas. Não conseguem sair do lugar, afundam. Onde estará o pastor, a pastroa? Seguem sem rumo, barulhentas, ofegantes. Entre elas há uma vidente do mal, Cassandra, e um cego. Eles avançam, trazem a peste, um futuro tempestuoso, maligno. Uma neblina os encobre, prejudica a visão das outras ovelhas, do caminho a seguir. Algumas ovelhas perdem-se pelo caminho. Outras clamam p or um futuro lúdico, uma hospitalidade caraíba, tupi, tupinambá. Tupi or not tupi? Outras, dão viva ao rei, precisam de um rei, mas o rei é tirânico, despótico, inescrupuloso, sanguinário, ridículo. Viva o rei! Abaixo o rei! Viva a revolução caraíba! O rei é cego, não enxerga nada, não enxerga seu povo, não se enxerga, não se dá conta do sangue que corre, desperdiçado. Confusão de línguas, de linhas, de revoluções, de cegueiras... Caos. O almirante-pastor canta uma música feita de ecos. É uma música generosa, que acolhe muitos cantos, muitos ritmos. Surgem notas várias, notas dissonantes. Ecoa o silêncio. A música-mantra-eco encanta. Hipnotiza as ovelhas. A vidente prediz um futuro desastroso, sem esperança. Ainda bem que surge a anjuboa que realiza os desejos, muda o futuro, abre as portas, alegra o mundo. Ela repete muitas e muitas vezes: catiti, catiti... A pastroa recebe o ramalhete de flores do amado, marcado com fitas cor laranja. A anjubo a faz tudo, tudo mesmo, para que a pastroa tenha sorte no amor. Um poeta canta o amor-flor, fugidio. A pastroa precisa de amor para cuidar do rebanho, continuar sua peregrinação incessante, nômade, geratriz. Há também a pensatriz com o vestido repleto de pregadores, mulher dervixe que chama as forças para si. Ela gira com seu vestido repleto de pregadores que espalham-se pelo chão. Momento de reversão, transversão. No meio do rebanho, aparece o pensador. Ele gesta um pensamento. Todos a sua volta silenciam, esperam, adivinham. O que vai nascer? Basta de pregação, disso o mundo está farto. Em meio ao caos nascem pensamentos, manifestos anárquicos, lutas, futuros.


ERRÁTICA 4  

Cais de ovelhas