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Na vida, não há papéis para todo mundo\Os Gours são os que conseguem se enfiar na pele de um personagem Os GASSES são os chegam tarde : não há mais papéis, nem de policial, nem de ladrão, nem de padre, nem de prisioneiro.. nem de homem, nem de mulheres: almas doloridas, indivíduos que não estando enfiados na pele de um sujeito, ficam sem projeto, são excedentes, menos do que nada, pior do que a gentalha. [...] Pode acontecer que a cada ensaio alguém se enfie na pele de quem ele encontrar (dragão, pastor, galera, evadido, profetisa, etc) O que pode dar em profetisas bigodudas, dragões fêmeas O FILME se faria a partir, a respeito dessa trupe que ensaia e representa no palco [...] Os figurinos são como marionetes Tamanho natural Parece-me que isso poderia dar um burlesco trágico Que haja prólogos malucos entre os Gasses – ou os Gours – não seria demais

Deligny, sem data precisa (extraído da correspondência pessoal entre Deligny e Guattari, pesquisada nos arquivos da Biblioteca do Mosteiro d´Ardènnes, na França)


As linhas de errância As linhas de errâncias são os lugares mesmo do espírito, e o traçado, que não quer dizer nada, é um agir sem sujeito nem objeto. Deligny defendeu com obstinação essas linhas erráticas da vida na sua fuga incessante para o deserto, nessa escapada, nesse exílio coletivo para onde sempre conduziu seu “povo de autistas” ou para onde foi conduzido por eles, cada vez mais longe das instituições, das pedagogias, das ideologias, das palavras de ordem, da linguagem, da cidade – nomadismo esse que Guattari não admite que seja restrito aos autistas, à região de Cévennes, onde se instalou o poeta-autista, a esse universo sem linguagem, mas faz questão de operar todos esses instrumentos esquisitos que Deligny ou Deleuze ou ele mesmo inventaram no coração mais candente de nossa atualidade maquínica, semiótica, psicopolítica, biopolítica, capitalística.


A natureza da rede O homem-que-somos descenderia menos dos macacos do que das aranhas: a gestualidade primeva que consiste em tecer uma rede, ou traçá-la através de uma mão que não pertence a quem parece possuí-la, é de uma gratuidade que não se inscreve na dialética da comunicação ou da finalidade. “Os acasos da existência fizeram com que eu vivesse mais em rede do que de outro modo […] A rede é um modo de ser [...] A rede me espera em cada esquina [...] Esta já dura 15 anos [...] Esses dias eu me pergunto se esse projeto não é um pretexto, sendo o projeto verdadeiro a rede enquanto modo de ser. [...] É o mesmo que dizer que a teia tem o projeto de ser tecida […] No que me diz respeito, e quanto a remontar o curso da criação, eu paro na aranha quando um bom número não vai mais longe do que seu avô.”


A Greve da Finalidade Deligny contrapõe agir e fazer. Fazer é fruto da vontade dirigida a uma finalidade, por exemplo, fazer obra, fazer sentido, fazer comunicação, ao passo que agir, no sentido muito particular que lhe atribui o autor, é o gesto desinteressado, o movimento não representacional, sem intencionalidade, que consiste eventualmente em tecer, traçar, pintar, no limite até mesmo em escrever, num mundo onde o balanço da pedra e o ruído da água não são menos relevantes do que o murmúrio dos homens… Nesse mundo, a linguagem “ainda não está”, ela que nos permite falar no lugar dos outros, pensar por eles, fazer com que sejam ou desapareçam, decidir o seu destino. Daí a necessidade de falar contra as palavras, suspender o privilégio do projeto pensado, colocar-se na posição de não querer, a fim de dar lugar ao intervalo, ao tácito, à irrupção, ao extravagar, à “dessubjetivação”. Nenhuma passividade nem omissão, ao contrário, é preciso “limpar o terreno” constantemente, livrá-lo do que recorta o mundo em sujeito/objeto, vivo/inanimado, humano/animal, consciente/ inconsciente. Só assim é possível traçar as linhas de errância, estabelecer lugares.


A tentativa

Uma tentativa não é um projeto, não é uma instituição, não é um programa, não é uma doutrina, não é uma utopia – mas uma tentativa, frágil e persistente como um cogumelo no reino vegetal... Uma tentativa esquiva as ideologias, os imperativos morais, as normas. Uma tentativa só sobrevive se não se fixar um objetivo, mesmo quando inevitavelmente é chamada a realizá-lo.


A jangada

Uma tentativa é comparável à jangada. Pedaços de madeira ligados entre si de maneira bastante solta, para que quando venham as ondas do mar a água atravesse os vãos entre os troncos, e a jangada consiga continuar flutuando. É apenas assim, com essa estrutura rudimentar, que quem está sobre a jangada pode flutuar e sustentar-se.


Fernand Deligny é um dos autores mais solitários e originais da França do pós-guerra. Seu trabalhou “clínico” e teórico influenciou artistas e pensadores como François Truffaut, Françoise Dolto, Félix Guattari e Gilles Deleuze – sobretudo para o conceito de rizoma. É autor de mais de uma centena de ensaios, artigos, scripts e contos que se somam a filmes, fotografias, desenhos e mapas. Apesar da radicalidade e relevância de seu pensamento, ainda é praticamente desconhecido no Brasil. Parte de seu pensamento visual foi exposto na 30ª Bienal Internacional de Arte de São Paulo, mas sua produção textual e teórica ainda permanece inédita em português.

Sua obra L’arachnéen et autres textes, uma compilação póstuma datada de 2008 reúne 15 ensaios de Deligny, escritos entre 1976 e 1982, algumas fotografias e diversos dos seus “mapas”, verdadeiras “linhas de errância” que cartografam os movimentos de crianças autistas – às quais o pensador dedicou boa parte de sua vida. Nestes ensaios, quase sempre aforísticos e em primeira pessoa, são abordado alguns dos temas e metáforas centrais de seu pensamento: o homem/o inumano, a linguagem/o silêncio, as redes/a singularidade, a instituição/a esquiva, o traço/a errância, e a dimensão primeva da cultura, que ele chama de aracnídea.


Reconhecido na França principalmente como educador, Fernand Deligny preferia ser considerado “poeta e etólogo”. Durante mais de cinquenta anos trabalhou com crianças que não se adaptavam à sociedade: crianças delinquentes, psicóticas, autistas ou, nas palavras do pensador, simplesmente “crianças à parte”. Ainda assim, preferia o termo “etólogo” à educador pois o utiliza como imagem para a sua forma de atuar, buscando, a todo momento, novas formas e maneiras de dar a essas crianças uma oportunidade de sobreviverem em uma sociedade excludente e normativa. Seu método questionava a centralidade da linguagem, a educação formal e o emprego caricatural das teorias freudianas. Repudiava

qualquer tipo de encarceramento, preferindo a criação de circunstâncias e de espaços para trocas e encontros. Para dar voz àqueles que são carentes de linguagem e comunicação verbal, Deligny inventou um sistema de transcrição que considerava uma das suas principais contribuições. Num trabalho de inscrição sobre o papel, Deligny registrava os percursos “espontâneos” da criança autista, seus hábitos, gestos e percepções. Dessas marcas nascem as “linhas de errância”, com volteios, superposições, cruzamentos, velocidades e movimentos distintos, verdadeiras “teias de aranha”. São linhas que expressam subjetividades; um “traçado” primordial; um gesto que é desenho ou escrita, livre de qualquer vontade de representação.



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