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skolkovo

Especialistas em países emergentes

50º aniversário

Arquipélago Gulag ganha nova versão resumida Página 06

Para celebrar o sol, panquecas!

Escola de MBA inspirou Vale do Silício russo

Festa pagã, a Maslenitsa exalta o fim do inverno

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rg

segunda-feira, 28 de fevereiro DE 2011

ria novosti

Soljenítsin para principiantes

do primeiro voo do homem ao espaço

Publicado e distribuído com The Washington Post (EUA), The Daily Telegraph (Grã Bretanha), Le Figaro (França), La Repubblica (Itália), Clarín (Argentina) e outros grandes diários internacionais

Notas

Aniversário Há 80 anos, nasciam os protagonistas da queda da URSS, Mikhail Gorbatchov e Boris Iéltsin

Eles mudaram o mundo

Roberto Carlos vai para a "pérola" do Daguestão O ex-jogador do Corinthians Roberto Carlos se transferiu para o clube russo Anji Makhatchkala (do dialeto local, "pérola"). O clube, fundado em 1991, viveu uma boa fase em 2002, quando chegou à final da Copa da Rússia, ocupou a quarta colocação no campeonato nacional e estreou na Copa Uefa. Na ocasião, o escocês Glasgow Rangers se recusou a viajar para o Daguestão, onde o Anji está baseado, na fronteira com a Tchechênia, e o jogo foi realizado em Varsóvia. Hoje, o time não figura entre os grandes do futebol russo e quase foi rebaixado para a segunda divisão no ano passado. A recompensa para os torcedores do Cáucaso do Norte foi a contratação, a peso de ouro, do primeiro campeão mundial na região.

As celebrações da queda da União Soviética, que neste ano completa duas décadas, serão marcadas por outros dois aniversários de peso. Os principais protagonistas da conturbada transição –o último presidente da URSS, Mikhail Gorbatchov, e o primeiro presidente da Federação Russa, Boris Iéltsin (morto em 2007) – completariam 80 anos em 2011. O distanciamento histórico acentua ainda mais as diferenças políticas e de personalidade desses dois homens, que, cada qual a sua maneira, definiram os rumos da história russa contemporânea. Mas certas coisas eles tiveram em comum. Gorbatchov é tido na Rússia como uma figura bem diferentes do herói que o Ocidente criou. E, quando os russos tratam de Iéltsin, cai por terra o ditado do país: "Sobre os mortos, fale bem ou cale-se".

getty images/fotobank

nesta edição

página 5

afp/east news

POLÍcia

Para proteger e servir

Fertilizantes Mercado brasileiro é o terceiro maior do mundo e importa 90% do que consome

Reforma na legislação extingue o título "milítsia" e tenta restituir credibilidade

Produtor de potássio mira o Brasil Espera-se que o setor agrícola do país cresça 40% até 2019. Produtividade está intimamente ligada ao volume total de fertilizantes utilizado nos campos brasileiros. Natalia Fedótova, Marina Darmaros Gazeta Russa

Si lv i n it, V lad islav Baumgertner. “No país, hoje, não há nenhuma fonte de potássio. Em outras palavras: o Brasil vai ter que pagar o preço”, afirma Benites. Atualmente, são consumidas quase 6 milhões de toneladas de fertilizantes no Brasil e o volume de produção do setor agrícola brasileiro crescerá 40% até 2019, segundo o relatório da ONU sobre o desenvolvimento agrícola e segurança alimentar. O país deve ser um dos líderes em crescimento no setor nos próximos anos, superando em um terço os tradicionais consumidores dos produtos das compa-

getty images/fotobank

Atrás somente da canadense PotashCorp e da norteamericana Mosaic, a empresa criada com a fusão das russas Uralkáli e Silvinit vai passar a fornecer potássio para o Brasil através da BPC (Belarusian Potash Company) – que realizava as vendas da Uralkáli no mercado internacional. Contando também com

produção própria, a BCP é líder mundial em volume de vendas para os mercado brasileiro e indiano. “Cerca de 90% do nosso potássio é importado e o Brasil é o 3º maior consumidor do produto no mundo”, explica o pesquisador da Embrapa Vinicius Benites. “Em relação ao potássio, Deus definitivamente não é brasileiro”, brinca. O consumo de fertilizantes minerais nesse setor praticamente duplicou nos últimos cinco a sete anos. “Os contratos firmados nesses mercados influem de modo considerável nos preços e na demanda de outros mercados de potássio”, afirma o diretor-geral da

Brasil será um dos líderes do crescimento

nhias russas de fertilizantes – a própria Rússia e a Ucrânia. Isso se explica pelo fato de que, entre 2008 e 2009, devido à crise, os agricultores aplicaram menos fermento mineral do que o necessário para o solo. “Existe uma relação muito estreita entre produtividade e o consumo de fertilizantes no Brasil”, diz Benites. “O país não pode, como a Argentina, ficar 2 ou 3 anos sem comprar potássio”, completa. Segundo a ONU, o ritmo de crescimento será de somente 4% na Europa e de 10% ou 15% nos EUA e Canadá. continua na Página 4

Página 2

Em foco itar-tass

Perfil do burocrata

Uma análise da figura do funcionário público no cotidiano e na literatura russa Página 8

Risco Diminuição da confiança no país e quedas no turismo, como em 2004 e 2005, estão ligados às ações suicidas

Múltiplos traumas de um ataque terrorista Além da tragédia humana, grupos separatistas atingem também a economia russa, tanto no turismo quanto em investimentos estrangeiros. Fabricio yuri vitorino

especial para gazeta russa

ap

Um grito seguido de uma explosão. Em seguida, o cenário de um filme de terror. Esse é o maior pesadelo dos russos, e ele voltou a se tornar realidade no dia 24 de janeiro, quando um terrorista suicida detonou uma bomba no hall de de-

Parentes e amigos homenageiam as vítimas em Moscou

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Agora a Gazeta Russa

sembarque do maior aeroporto da país, o Domodêdovo, em Moscou. Desta vez, foram 36 mortos e cerca de 180 feridos, bem longe das dolorosas marcas dos ataques ao Teatro Dubrovka, em 2002, quando 170 perderam suas vidas e outros 721 se feriram, ou ainda da invasão da escola em Beslan, na Ossétia do Norte, em 2004, que matou 385 pessoas e feriu cerca de 700. Mas o que impressionou no Domodêdovo foi a ousadia.

Atacar um aeroporto internacional minou praticamente toda a credibilidade de um governo que luta para reforçar a sensação de segurança para seus cidadãos e, consequentemente, para os turistas. O que pesquisas mostram, no entanto, é que esse esforço não rende frutos em nenhuma das duas frentes. Segundo dados do Centro Russo de Compreensão da Opinião Pública (VTsIOM) publicados no início de fevereiro, 52% dos moradores

de Moscou e São Petersburgo temem ser, eles próprios ou seus parentes, vítimas de um atentado terrorista. No âmbito nacional, 80% dos russos compartilham esse medo. Esses altíssimos níveis de temor ultrapassam os índices verificados logo após os ataques ao metrô de Moscou, em março de 2010. Ainda segundo os especialistas do VTsIOM, para 6% dos entrevistados a melhor forma de conter o terroris-

está também na internet

mo é com o endurecimento das leis de migração. Para 35% dos entrevistados, eliminar definitivamente o terrorismo é impossível para a Rússia. Já para a companhia inglesa de análise de riscos Maplecroft, a Rússia saltou do 15º lugar, em 2010, para o 10º lugar, em 2011, no ranking de países que têm maior risco de ataques terroristas. “Avaliar a a meaça ter ror ista no mundo é imprescindível para um cálculo de risco nos negócios”, diz o diretor da Maplecroft, Alyson Warhurst. continua na Página 2


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Política e Sociedade

Gazeta Russa

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Efeito contrário Governo volta a endurecer e atrai a atenção de ativistas

A intensificação do controle das autoridades sobre protestos menores começa a unir e inspirar a dispersa oposição russa. Veronika Dorman gazeta russa

Os protestos e a vitória da população do Egito estão na cabeça de todo mundo. Por isso aqueles que formam a oposição na Rússia não hesitam em comparar Vladímir Pútin a Hosni Mubarak. A diferença é que apenas mil pessoas protestaram em Moscou no dia 31 de janeiro – para defender o Artigo 31 da Constituição Russa, que garante o direito de manifestação – na

palavra da oposição

Nemtsov, ex-vice-premiê e ativista da oposição, Eduard Limonov, líder do Bolshevik Nacional e de outros partidos russos, e Iliá Iáshin, líder da ala jovem do partido Iábloko, descreveram a repressão como uma “Lukashenkização” do regime de Vladímir Pútin, referindo-se ao recém-reeleito ditador da Bielo-Rússia. Esses partidos representam diversos pequenos e desunidos movimentos, que têm em comum apenas o fato de serem antiKremlin. Nikolai Petrov, acadêmico do Centro Carnegie de Moscou, não acredita que a repressão durante o protesto seja uma nova estratégia de coerção das autoridades. Para ele, isso também poderia ser uma reação de curto prazo a acontecimento recentes. “Os protestos de rua têm se tornado populares por toda a Rússia e as autoridades estão obviamente esgotadas. É mais fácil ir atrás de 'bodes expiatórios' (como Pútin se refere aos ativistas da oposição) do que de uma multidão fervor o s a d e f a n át ic o s p o r futebol.” Desde que um grupo de 5 mil jovens entrou em choque com a polícia sob os muros do Kremlin, em 11 de dezembro, Pútin vem acusando a oposi-

pequena Praça do Triunfo, vigiadas por 2 mil representantes da polícia e do exército. Em novembro, as autoridades de Moscou finalmente aprovaram o direito de manifestação na Praça do Triunfo, embora o tenham feito sem renunciar ao direito do uso da violência, como foi visto no mês seguinte. Em 31 de dezembro, ao término de um protesto autorizado, diversos líderes da opos iç ão for a m d e t ido s e sentenciados a penas de 5 a 15 dias de prisão. Foram notícia em veículos internacionais e mobilizaram ativistas de direitos humanos. Depois de soltos, Bor is

Vladímir Rijkov um dos quatro dos fundadores do partido popular liberal

" itar-tass

Naquele dia, Vladímir Pútin selou o destino da democracia. Ele deu início à campanha presidencial de 2012 deixando perfeitamente claro que não haveria transferência democrática de poder."

AP

Oprimida, oposição ganha notoriedade

Movimento Estratégia-31, pelo direito de reunião, reúne centenas na Praça do Triunfo

ção liberal de ter iniciado a tendência destrutiva nos protestos públicos. Talvez impulsionado pelas afirmações do presidente Medvedev de que aceita críticas ao poder, o número de protestos populares aumentou em 2010. Mas as aparentes vitórias dos últimos deles aos poucos se dissiparam. A demonstração contra o projeto de uma rodovia na floresta de Khimki, por exemplo, foi uma causa ambiental que se tornou política e, até o fim do verão russo (inverno no Brasil), parecia vitoriosa. Diante dos grandes protestos, Medvedev decidiu interromper a derrubada da floresta, mas as obras voltaram em dezembro.

Unidos na coalizão Partido da Liberdade do Povo, os líderes dos movimentos democrático e liberal planejavam lançar candidatos para as eleições de 2011 e um candidato à presidência em 2012. Mas, durante o batepapo anual televisionado com o público, o premiê Pútin declarou abertamente que não permitiria que a oposição “se aproximasse dos grandes aliciadores” especialmente Boris Nemtsov, Vladímir Rijkov e Vladímir Milov, os fundadores do partido. Para Rijkov, “naquele dia, Pútin selou o destino da democracia. Ele deu início à campanha de 2012 deixando perfeitamente claro que não

haveria transferência democrática de poder”. “As autoridades querem amedrontar aqueles que estão contra elas, mas nós continuaremos defendendo a Constitu ição”, af i r mou Iáshin, do Partido Iábloko. Apesar da fúria dos líderes e principais membros da oposição política, ainda é preciso construir uma base real de apoio popular. De acordo com o diretor de desenvolvimento do instituto de pesquisas Centro Levada, Denis Volkov, a mensagem política desses grupos tem permanecido muito abstrata para a população russa, que não enxerga a utilidade do direito de se manifestar quando não tem nem o di-

reito a uma vida digna. Nemtsov, devido às perseguições políticas que sofre, também não teria inspirado com seu potencial de liderança. Segundo Petrov, é apenas uma questão de tempo. “Os problemas que estão envolvendo a sociedade não serão solucionados em 2011, e o descontentamento só irá aumentar. A oposição está se unindo. Quando os protestos começarem a se tornar populares e os indivíduos insatisfeitos procurarem representantes, a oposição estará lá”. “Com o estado atual das coisas, o povo precisa de um partido político como o nosso”, diz Nemtsov. “Nossas chances aumentam toda vez que as autoridades apertam o controle.”

Polícia Mudanças na legislação passam a valer em março e incluem troca de nome e aumento de salários para combater a corrupção

Reforma ou só uma mudança de nome? Artem Zagorodnov gazeta russa

Instituição amplamente ridicularizada e vista como irremediavelmente corrupta na Rússia, a polícia vai passar por uma série de reformas que começam a entrar em vigor em março. Cortes de pessoal e aumento de salários foram anunciados, e uma nova “Legislação Policial” foi publicada na internet para fomentar a discussão pública. Com o intuito de inspirar confiança, o presidente Dmítri Medvedev sugeriu trocar o atual nome “milítsia”, um resquício soviético, para “polítsia”, termo usado na era tsarista. O texto final da legislação incorporou essas mudanças, bem como sugestões publicadas na internet por cidadãos comuns. A autoridade de um policial será agora res-

trita a seu distrito, as pessoas terão o direito de fazer uma ligação gratuita quando detidas e os russos poderão gozar de algo semelhante aos direitos Miranda dos norte-americanos (a obrigatoriedade de o policial anunciar, de forma expressa, clara e integral, os direitos de um suspeito).

Corrupção

No último levantamento realizado pelo instituto de pesquisas Centro Levada, 60% dos russos se disseram insatisfeitos com a atuação da polícia, e somente 10% afirmaram confiar no desempenho do órgão. “Gosto do meu trabalho. Tenho que conversar com as pessoas e fazer o bem”, diz o sargento Mikhail Menshênin, 25 anos. Junto com o policial Aleksandr Kuzminov, 23, ele é responsável pela patrulha de um distrito a sudoeste de Moscou. Menshênin, que tem um filho de dois anos, ganha 25 mil rublos por mês (cerca de R$ 1,4 mil), valor insuficiente em uma das cidades mais caras

itar-tass

Alterações nas leis limitarão a autoridade dos oficiais e introduzirão direitos para os detidos. Melhoras poderiam ajudar instituição a pôr um fim ao descrédito e aos dias de infâmia na sociedade civil.

Para os críticos, falta submeter o órgão a controle externo

do mundo. “Embora seja psicologicamente intenso, o trabalho dificil é recompensado. O salário pode não ser ótimo, mas nós ganhamos bônus. Se você der o melhor de si, pode ganhar o bastante”, diz o sargento. Segundo ele, os prêmios podem variar de 5 mil rublos (aproximadamente R$ 285) pela solução de um caso de roubo a 15 mil (R$ 855) no feriado nacional do “dia do policial”. Mas a solicitação rotineira de pequenas quantias de dinheiro em troca de favores – como livrar cidadãos de pequenas infrações no trânsito – incomoda muitos russos. “O que você espera de nós considerando o quanto ganhamos?”, pergunta Aleksei, tenente de outro distrito que não quis revelar seu sobrenome. “Os bons policiais apenas aceitam suborno em relação a coisas pequenas. Sabe como é, alguns rublos de alguém que está violando as regras de imigração ou algo do gênero, apenas para que se chegue a um acordo favorável a ambos”. A reforma da instituição foi

Continuação da página 1

Para Alberto Pinto, tradutor do russo para empresas brasileiras de grande porte, os ataques terroristas são pequenos desastres que vão minando dia após dia a imagem de país seg u ro, construída a um custo muito a lt o du r a nt e o r e g i me socialista. “A cada viagem, percebe-se cada vez mais o receio tanto das autoridades quanto de quem chega ao país a negócios. As pessoas perguntam se há riscos, pedem para encurtar a estadia e, em breve,

vão começar a evitar lugares públicos”, acredita ele.

Medo que afasta

A ousadia dos criminosos e sua necessidade de chamar a atenção do mundo para sua causa – ainda que ao custo de muitas vidas – choca pessoas de qualquer lugar do planeta. “Mesmo sem querer, os ataques atingem qualquer um, pois geram compaixão e empatia. Você se projeta, se vê naquele aeroporto, esperando alguém que você ama”, diz a psicóloga Nádia Reis. Essa empatia, no entanto, influi também na economia.

“Sem dúvida, se um turista puder optar entre um lugar seguro e um lugar perigoso, não vai pensar duas vezes para escolher o mais seguro”, completa Nádia. Em 2004 e 2005, a Rosstat (Agência Nacional de Estatísticas da Rússia) registrou a maior queda no turismo do p a í s , 9, 2% e 16 , 6% , respectivamente. Em 2004, quatro grandes atentados ocorreram na Rússia: dois ataques ao metrô de Moscou, uma bomba detonada em um voo comercial e o trágico sequestro da escola em Beslan. Somente nesses

reuters/vostock-photo

Terroristas atentam também contra a economia frase

Alberto Pinto TRADUTOR PROFISSIONAL

"

A cada viagem, percebe-se cada vez mais o receio tanto das autoridades quanto de quem chega ao país. As pessoas perguntam se há riscos, pedem para encurtar a estadia."

números

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É o número de mortos em decorrência do último atentado terrorista em Moscou, no aeroporto Domodêdovo. Cerca de 180 pessoas ficaram feridas

anunciada por Medvedev logo depois de um incidente envolvendo o major Denis Ievsiukov. Depois de uma discussão com a mulher, que se queixava de sua longa jornada de trabalho depois da promoção a chefe de polícia, Ievsiukov, de 32 anos, abriu fogo em um mercado. Sua ação deixou três mortos. Alguns legisladores não acreditam que as medidas possam conter a corrupção ou diminuir o descontentamento público. “Em vez de um novo poder, teremos a mesma milítsia com novo nome”, disse Gennádi Gudkov, vicepresidente do Comitê de Segurança da Duma (a câmara dos deputados da Rússia) e membro do partido de oposição Rússia Justa. Segundo Gudkov, o partido pró-Kremlin impediu as tentativas de submeter a polícia a uma vigilância pública maior. "Propusemos aumento de supervisão por meio de organizações de base, mas eles negaram", lamenta. Alguns oficiais da polícia

também não acreditam que a reforma irá inaugurar uma nova era. “Se nós não modificarmos as outras instituições juntamente com a polícia e esclarecermos quem é responsável pelo quê, nenhum corte de funcionários ou aumento de salários produzirá efeito”, disse o chefe de polícia do distrito sudoeste de Moscou, Iúri Matiúkhin. Segundo ele, poucas instituições têm tentado combater a corrupção interna tão incisivamente como a polícia. “Desafio qualquer um a mostrar um segmento do governo russo que esteja fazendo mais e de modo tão transparente na luta contra a corrupção”, disse. “O que é necessário é um controle externo em relação à polícia realizado por organizações públicas”, diz o especialista em segurança do Centro Carnegie de Moscou, Nikolai Petrov. “Não temos senso de responsabilidade como nos Estados Unidos, onde os corregedores são eleitos e afastados caso não estejam realizando seu trabalho corretamente.”

ataques, 479 pessoas morreram e mais de mil ficaram feridas, de acordo com as estatísticas oficiais. Segundo André Luís Woloszyn, especialista em terrorismo e consultor de organizações internacionais sobre conflitos, a lentidão do governo em relação aos ataques pode ter impactos devastadores para o turismo e outros setores da economia. “Uma resposta imediata e com resultados positivos – a identificação dos culpados e sua punição – demonstra que o país está preparado para este tipo de crise e proporciona confiança no poder do governo para debelar tais episódios”, explica. Woloszyn lembra ainda que o intercâmbio de dados entre as agências de inteligência e intensificação das revistas pessoais são fundamentais para a prevenção de novos ataques, sobretudo em áreas de grande concentração de pessoas. Mas ressalta que o endurecimento das regras de

vigilância esbarram na resistência dos cidadãos: “Principalmente os turistas acreditam que tais medidas ferem alguns princípios da Carta de Diretos Humanos e incomoda terem de aguardar horas para embarque ou desembarque, ou verem seus pertences manuseados durante a revista”. E os riscos tendem a aumenta. Tanto a Rússia como o Brasil vão sediar, nos próximos anos, eventos esportivos que os transformam em potenciais alvos para organizações terroristas – os Jogos Olímpicos (2014 em Sôtchi, 2016 no Rio) e as Copas do Mundo (2014 no Brasil, 2018 na Rússia). “O Brasil, como qualquer outro país, não está imune a este fenômeno, e eventos internacionais desta magnitude, com a presença massiva da mídia mundial, se constituem em uma excelente oportunidade para ações terroristas, como a que ocorreu nas Olimpíadas de Munique, em 1972”, alerta Woloszyn.

Ceticismo


Política e Sociedade

Gazeta Russa

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notas

MBA Escola de administração de Skôlkovo tem curso focado em mercados em crescimento

Especialistas em realidade emergente Rachel Morarjee gazeta russa

Brasileiros

Formado na primeira turma de MBA integral de Skôlkovo com o canadense Cuenant, o brasileiro Nicholas Wiczer chegou à escola orientado por um consultor de MBA. “O pessoal do MIT, que tem parceria com eles, falou muito bem, aí eu me inscrevi, mas fiquei na dúvida. No final, fiz o curso e gostei muito”, disse. “O ensino que eles estão promovendo é inovador. Não há uma fórmula que se possa copiar”, completa.

Emergentes

O reitor de Skôlkovo, Wilfried Vanhonacker, mudouse para a Rússia em 2008, depoi s de c r ia r a Escol a Internacional de Negócios China-Europa (CEIBS), em Xangai. Inaugurada em 1994, a CEI BS entrou para o ranking dos 20 melhores MBAs do jornal britânico Financial Times. Na escola russa, Vanhonacker transferiu a ênfase do aprendizado em sala de aula para um programa no qual os graduandos gastam mais de 70% do tempo em desafiadores ambientes de empresas que atuam em mercados emergentes ou em departamentos do governo. “Estamos tentando trazer a realidade para as salas de au la”, garante. Grande parte do crescimento das multinacionais nos próximos 20 anos estará em mercados emergentes dinâmicos, nos quais o ambiente de negócios é volátil e incerto, e os gestores já enfrentam tanto a escassez de talentos quanto falhas institucionais e de infraestrutura. O reitor explica que o MBA de Skôlkovo foi desenvolvido para preparar os alunos para esses desafios. “As escolas de negócios tradicionais já não estavam preparando os talen-

Derrotado duas vezes, lutador se aposenta

tos de que o mercado precisa – líderes empresariais capazes de trabalhar em ambient e s d i f í c e i s ”, a f i r m a Vanhonacker.

Obstáculos

Os estudantes de Skôlkovo devem enfrentar dificuldades que vão desde a sobrevivência por dois meses num dormitório de cidade fabril na China – lidando com o cotidiano do mercado de manufatura da grande oficina global que o país se tornou–, até ajudar burocratas russos a preparar projetos de lei que serão posteriormente enviadas ao Parlamento. Além de áreas já consolidadas por MBAs do Ocidente, como contabilidade, macroeconomia e marketing, o curso tem como um de seus objetivos colocar os graduandos em situações de pressão, lidando com diferentes culturas, a fim de que aprimorem suas habilidades de cooperação. Para alunos ocidentais, Skôlkovo significa um olhar profundo e pessoal sobre a burocracia e a corrupção que vêm junto com a prática de negócios em mercados emergentes. Já para os russos, o curso também ajuda a entender a vida corporativa na China, na Índia e nos Estados Unidos, bem como em sua terra natal. O canadense Cuenant conta, por exemplo, que o volume de papéis necessários para dar andamento a processos comuns na China e na Rússia o surpreendeu. “Uma tarefa de banco nos Estados Unidos requer apenas um formulário, três ou quatro informações e uma assinatura. Na Rússia, a mesma operação requer quatro formulários, cinco informações e quatro assinaturas”, conta. “Na China, são no mínimo sete formulários, oito informações e quatro assinaturas, e como

photoxpress

Quando o canadense Kane Cuenant procurou um curso de MBA, cogitou Harvard, o MIT ou mesmo a Universidade Tsinghua, na China, mas acabou optando por estudar na recém-inaugurada Escola de Administração de Skôlkovo, a 20 quilômetros de Moscou. “Procurei diferentes instituições em países com mercados consolidados, mas isso não parecia real o bastante. Sabia que queria trabalhar em mercados emergentes e gostaria muito de entender como fazer isso.” Cuenant é um dos primeiros 40 graduandos de Skôlkovo, e se formou em novembro. Ele afirma que a ênfase do programa em habilidades práticas para trabalhar nos mercados que lhe interessam foi fundamental para sua escolha. Além de russos e cidadãos de regiões da antiga União Soviética, os graduandos da primeira turma vêm de países como Brasil, Alemanha e Índia. O que levou o jovem canadense a escolher essa escola e não a equivalente chinesa foi sua grade curricular, baseada no modelo americano, que fez de Skôlkovo o primeiro MBA da Rússia com chances reais no cenário global.

O material em inglês proposto pela escola russa foi idealizado para ensinar os estuda ntes sobre como funcionam, na vida real, os negócios em um mercado emergente. Para Marcus Alves, que deixou o cargo de gerente regional da Kimberly-Clark em São Paulo para integrar a segunda turma da escola, “a ideia que se tem é de que a Rússia é um país atrasado”, mas, segundo ele, “os russos estão muito mais abertos para tudo, e é por isso que e s t e pr ojet o é t ão inovador”.

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Schwarzenegger visita Skôlkovo em 2010, ainda no cargo de governador da Califórnia

frases

Wilfried vanhonacker

Ricardo Betti

Kane Cuenant

reitor

consultor de mba

Graduando da turma de 2010

"

"

As escolas de negócios tradicionais já não estavam preparando os talentos de que o mercado precisa - líderes empresariais capazes de trabalhar em ambienter difíceis.”

alguns dos formulários são preenchidos por funcionários, os clientes devem ainda aguardar que a operação seja concluída.”

Sob tutela

Ainda que a aprendizagem experimental seja por vezes desgastante, as turmas pequenas permitem um acompanhamento individualizado. Cada aluno trabalha com um mentor do mundo dos negócios que pode ajudá-lo a aprimorar seus objetivos, além de expandir sua visão da vida em diferentes companhias e ambientes. Os professores também selecionam aleatoriamente grupos de alunos para trabalhar

Duas derrotas seguidas –ambas para brasileiros – parecem ter acabado com a carreira de Fiódor Emeliánenko, campeão de artes marciais mistas. Sua derrota para Fabrício Verdum, em junho de 2010, foi um choque. Emeliánenko reinava sozinho no topo do ranking por quase dez anos, e àquela altura a derrota pareceu casual. Mas as quartas de finais do torneio Strikeforce contra Antônio Silva acabaram da mesma maneira e derrubaram de seu trono o “último imperador”, como foi apelidado pelos fãs. Durante dois rounds, Silva, muito mais forte, não conseguiu fazer seu adversário capitular, mas o combate foi suspenso pelos médicos. Então, com um grande hematoma no olho direito, o ex-campeão anunciou: “É hora de parar”.

Governo vai manter horário de verão

"

A escola é uma alternativa original ao tradicional esquema das escolas americanas. Eles falam explicitamente de assuntos que ainda são tabu, como corrupção.”

Procurei instituições em países com mercados consolidados, mas isso não parecia real o bastante. Sabia que queria trabalhar em mercados emergentes e gostaria de entender como fazer isso.”

em projetos, na tentativa de incentivar os choques culturais e de personalidade que enfrentarão na vida real. “Não permitimos que os alunos escolham seus próprios grupos até que cheguem à fase final do curso e tenham de lançar uma companhia startup,” diz Vanhonacker. “Você não escolhe os colegas de trabalho em uma empresa”. A escola planeja receber 240 estudantes de MBA por ano e até 300 estudantes do chamado “EMBA” (Executive MBA) quando atingir sua capacidade operacional total em 2014. Em 2009, a primeira turma de MBA de Skôlkovo tinha 40 alunos. Apesar desse número ter caído para 33 no

ano seguinte, o total de estudantes que se matricularam para o EMBA (que dura 18 meses e permite aos alunos que já trabalham estudar apenas meio-período) aumentou de 21, em 2009, para 37 em 2010. A experiência de trabalhar na Rússia, na China e nos Estados Unidos, de acordo com Cuenant, é incalculável. “Trabalhar com oficiais do governo de mercados em desenvolvimento é algo que você simplesmente não consegue aprender em uma sala de aula. A maioria dos estudantes que se matriculam em Skôlkovo não está atrás de um mero emprego de escritório. Eles buscam algo mais”, afirma.

itar-tass

O governo russo decidiu manter o horário de verão a partir do outono deste ano. “O prolongamento fará os dias ficarem mais claros, em relação à média anual corrente. Em algumas regiões esse aumento será de 7% a 17%”, c a lc u l a A rk ád i Dvorkovitch, assessor do presidente Dmítri Medvedev. “Isso fará bem para a saúde”, acredita o chefe do Serviço Federal de Defesa dos Consumidores e do Bem-Estar, Guenádi Oníshenko. Mas nem todos concordam. “Vivemos há 2 mil anos sem a troca de ponteiros e vamos continuar a viver de mesmo jeito”, afirmou o diretor do Centro de Cirurgias Cardíacas Bákulev, Lev Bokêria.

Olimpíadas Conhecida fábrica de estrelas olímpicas, Rússia passa a importar esportistas talentosos de olho nos Jogos de Londres 2012

Atletas estrangeiros fortalecem seleções

AFP/eastnews

Nascido nos EUA, John Robert Holden representa a Rússia no basquete

Deslocada para o terceiro lugar nos quadros de medalhas desde a ascensão da China, em 2004, Rússia busca atletas de outras nacionalidades com potencial olímpico, mas há resistências. iúlia Taránova gazeta russa

Conhecida por exportar talentos esportivos, a Rússia está atrás de estrangeiros para repor a escassez de atletas do país com vista à s pr óx i m a s c o m p e t iç õ e s internacionais. A antiga União Soviética disputou por décadas a primazia nas Olimpíadas com os Estados Unidos, mas depois dos anos 90 a Rússia tem experimentado uma certa decadência. Exemplo disso é que o país amargou o terceiro lugar nas Olimpíadas de 2004 e 2008, superado pela China, e também teve maus resultados nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2010, em Vancouver. Agora, o país

procura atletas estrangeiros para reforçar suas equipes.

Sondagens e sucessos

Desde o ano passado, a imprensa tem anunciado que a Rússia, de olho na Copa de 2014, poderia conceder cidadania ao atacante brasileiro Welliton Morais. O exjogador do Goiás foi o artilheiro do campeonato russo em 2009 e 2010, vestindo a camisa do Spartak de Moscou. Agraciados com o passaporte russo, os jogadores de basquete norte-americanos John Robert Holden e Rebecca Hammon tornaram-se capitães de seus times na Rússia. A patinadora no gelo Yuko Kawaguchi, nascida no Japão, tornou-se celebridade após representar a Rússia nos Jogos de Inverno de Vancouver. Os atletas enfrentam dificuldades com a língua e a cultura locais, além de uma enxurrada de críticas. “Meus amigos e família

ficaram surpresos e a imprensa também foi bastante crítica, mas a vida é assim: para aproveitar oportunidades excelentes, surgem muitas coisas boas e ruins”, disse Holden. O jogador de basquete, que se mudou para a Rússia em 2003, também tinha uma imagem carregada de estereótipos sobre o país. “Como a maioria dos americanos, imaginei que Rússia fosse como no filme Rocky”, contou à Gazeta Russa. Nascido em Pittsburgh, Holden foi convidado por diversos times europeus, mas escolheu o CSKA Moscou, que lhe paga US$ 3,5 milhões por ano.

Não sou espiã

Rebecca Hammon, que joga pela seleção nacional feminina de basquete, mudou-se para a Rússia com o intuito de se tornar uma campeã olímpica. Depois de oito anos jogando em times dos Estados Unidos, sua decisão de representar a Rússia gerou forte repercussão na terra natal. A treinadora do time feminino norte-americano, Anne Donovan, chamou Hammon de “traidora” e “antipatriota”. “Tive que escutar muitas coisas coisas ao voltar. Quase fui acusada de trair o meu país. Mas expliquei para todo mundo em casa que não sou uma espiã, apenas quero jogar basquete em uma Olimpíada. Se eu tivesse sido selecionada para o time norte-americano, teria feito tudo pelo meu país”, disse em entrevista ao jornal de esportes Soviétski Sport. A patinadora Kawaguchi mudou para São Petersburgo para treinar com a técnica Tamara

Moskviná. Ela ficou impressionada com a performance da dupla russa Elena Berejnaia e Anton Sikharulidze durante as Olimpíadas de Inverno de Nagano, em 1998, e, segundo a Reuters, escreveu para Moskviná pedindo para treinar com ela. Kawaguchi rece-

beu cidadania russa e começou a competir pela equipe nacional. No Japão, sua decisão não foi bem recebida por todos. “Li muitos comentários maldosos na internet”, disse à Reuters. “Aqueles que não entendem as leis dos esportes internacionais me chamaram até de

traidora, mas não estou ofendida. As pessoas que entendem como funcionam os esportes sabem que não traí ninguém. Ainda me considero japonesa. Decidi competir pela Rússia porque não tinha uma parceira suficientemente boa no Japão”.


04

Economia e Mercado

Gazeta Russa

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Retomada Depois de vender mais de US$ 1 bilhão em ingressos, bilheteria russa torna-se a segunda maior da Europa

Mercado de cinema vira herói da crise

números

11

mil é o número de salas de cinema de que a Rússia dispõe atualmente

250

milhões de dólares foram arrecadados por filmes estrangeiros na CEI ury martianov_kommersant

Projetores 3D mais modernos, usados em filmes como “Avatar”, chegaram no ano passado Rússia vive momento de grande recuperação da arrecadação do setor cinematográfico, após forte queda entre 2008 e 2009.

ficou de fora. Empreendedores se apressam em construir modernas salas por todo o país, a arrecadação de 2010 já faz da Rússia a quinta maior bilheteria do mundo e as distribuidoras de filmes faturaram US$ 1 bilhão no último ano, um crescimento de 40% em relação ao ano anterior, aponta a revista especializada Kinobusiness. Os resultados revelam uma forte recuperação

Tim Gosling

gazeta russa

O mercado russo, com seus 142 milhões de consumidores, atrai cada vez mais empresas estrangeiras. E a indústria cinematográfica, é claro, não

das perdas ocorridas em 2009, auge da crise econômica, quando o faturamento caiu de US$ 831 milhões para US$ 736 milhões em um ano. “À medida que as pessoas ficam mais ricas, podem, obviamente, gastar mais em entretenimento, cinema ou teatro”, ressalta Kingsmill Bond, chefe-estrategista do banco de investimentos russo Troika Dialog.

O peso do público russo também ficou mais evidente com o sucesso que “O Turista” e “As Viagens de Gulliver”, duas produções norte-americanas, fizeram nas telas do país no começo deste ano. Os filmes atraíram mais público na Rússia que em qualquer outro lugar do mundo, com exceção dos Estados Unidos. “O Turista”, principalmente, foi um fiasco de bilheteria nos con-

142

milhões de pessoas compõem o mercado consumidor russo

solidados mercados europeus, mesmo com estrelas como Angelina Jolie e Johnny Depp no elenco e tendo Paris e Veneza como cenário. Na Rússia, por outro lado, a estreia arrecadou US$ 10,3 milhões já no primeiro fim de semana de janeiro e o faturamento com ingressos só perdeu para a Itália, que é palco da maior parte do enredo do filme. Já “As Viagens de Gulliver”,

com o irreverente ator Jack Black, gerou US$ 9,5 milhões no fim de semana de estreia, o melhor desempenho em todo o mundo. Hollywood já se deu conta dos lucros que a Rússia e seus produtores podem gerar. Os investidores estrangeiros, no ent a nt o, a i nd a pr e c i s a m encontrar meios de penetrar neste exponente setor, hoje dominado pelas distribuidoras russas. Segundo a Kinobusiness, as empresas locais detém 97% do mercado. Atualmente, filmes importados enfrentam uma competição acirrada com a crescente produção local – até o final de 2010, 338 filmes haviam sido lançados na Comunidade dos Estados I ndependentes (CEI). As distribuidoras de filmes hollywoodianos ficaram com um quarto do faturamento, ou seja, US$ 250 milhões. O resto foi abocanhado por empresas russas. Vale ressaltar que os maiores sucesso do ano foram os norte-americanos “Avatar”, que rendeu US$ 100 milhões para a 20th Century Fox, e “Shrek para sempre”, que obteve cerca de R$ 50 milhões, segundo a revista Kinobusiness. Em 2010, o título russo “Iôlki”, do diretor Timur Bekmambetov, está se provando o grande favorito das bilheterias. Bekmambetov é dos integrantes da geração que está reinserindo o país na indústria global. Além da versão dublada do popular filme de vampiros “Guardiões da Noite”, ele também dirigiu o blockbuster “O Procurado” (2008), estrelado por Angelina Jolie.

Pagando por qualidade

A forte atuação russa no mercado cinematográfico é surpreendente. Hoje, existem

menos de 11 mil salas de cinema em todo o país, das quais um terço pode ser considerada defasada. Os modernos projetores 3D necessários para a exibição de filmes como “Shrek para sempre” e “Avatar” foram introduzidos somente no ano passado. Segundo o chefe-executivo da rede Kinoplex, Simon Dunlop, um país do tamanho da Rússia deveria contar com pelo menos quatro vezes mais salas. “Uma rede de cinema de porte médio nos Estados Unidos possui mais salas de cinema do que todas as salas em funcionamento hoje na Rússia”, diz. O público russo também tem se mostrado disposto a pagar mais por qualidade. De acordo com dados da consultoria PricewaterhouseCoopers, se por um lado a receitas das bilheterias cresceu 40% em 2010, a frequência do público subiu apenas 14,9% no mesmo período. Com isso, a expectativa da consultoria é de que o mercado de entretenimento e mídia na Rússia cresça em média 9,3% ou mais ao ano, podendo superar dois terços de toda a receita da CEI até 2014. O número de complexos de cinema vinha crescendo 30% ao ano em relação ao número total de salas modernas. Porém, a crise econômica mundial acabou desacelerando a expansão do setor, que caiu pela primeira vez em 2010. Os piores efeitos, entretanto, não são esperados antes da metade deste ano. Ainda assim, a crise é vista como revés temporário e empreendedores já tentam emplacar novos projetos no país, cujo rendimento médio cont i nu a a c r e sce r 4% mesmo durante o período de recessão.

Saída digital E-books superam obstáculos territoriais e alcançam leitores de todos os cantos do país

Livros virtuais prometem salvar indústria editorial r ad a p a r a a s e d it or a s promoverem novos e jovens autores, mas essa falha vem sendo rapidamente resolvidas pelos livros eletrônicos, os e-books. Cerca de 80% dos livros publicados na Rússia são vendidos apenas nas cidades de Moscou e em São Petersburgo, de acordo com estimativas das livrarias virtuais russas Bookmate.ru e Ozon.ru. “Há pouca distribuição física de livros no país. Não existem grandes redes nacionais como a loja americana Barnes & Noble ou a britânica Waterstones”, explica Simon Dunlop, fundador da Bookmate.ru. A distribuição digital de obras literárias, porém, deve superar os enormes desafios logísticos impostos pelo vasto território. “Com a mídia digital, não há controle de fronteiras, de clientes ou custos com transporte”, explica Dunlop. Segundo ele, o número de do-

Rachel Morarjee gazeta russa

Os russos são notadamente ávidos leitores, capazes de ainda hoje render popularidade a escritores românticos como Aleksandr Púshkin, considerado por muitos o maior poeta russo. A sociedade russa é altamente instruída e possui índices de alfabetização semelhantes aos dos mais desenvolvidos países da Europa Ocidental. O mercado de livros em papel, no entanto, não conseguiu acompanhar essa paixão pela literatura. A pirataria on-line tem retardado o desenvolvimento da indústria editorial, já que a disponibilização de conteúdo ilegal na internet diminui a receita que seria ge-

wnloads registrado no site Bookmate subiu exponencialmente em 2010. A popularidade dos e-books é bastante perceptível em cada vagão do metrô de Moscou, onde há pelo menos uma pessoa agarrada a um leitor de livros eletrônicos, o chamado e-reader.

Os livros e a crise

Para atender a essa demanda dos consumidores por soluções economicamente acessíveis, um leitor barato e eficaz começou a ser produzido na Ucrânia, o Pocketbook, que já é campeão de vendas na Rússia. Criação do empreendedor ucraniano Oleg Naúmenko, 29 anos, esse e-reader foi projetado especialmente para o mercado de língua russa. Seus leitores de bolso, que custam em média US$ 300, não são exatamente os mais baratos, mas os usuários têm recuperado o investimento rapidamente substituindo os

Nova gigante do potássio está de olho no Brasil Atraente para os produtores de fertilizantes, o Brasil precisaria empreender esforços muito maiores para a criação de uma parceria mais intensa ou uma joint-venture, segundo Baumgertner. “É difícil fazer parcerias porque somente 12 países no mundo possuem grandes reservas de potássio. Além disso, a realização de um projeto totalmente novo nessa área demora uns sete ou dez anos”, explica. Entretanto, os contratos de compra pontual ainda despertam o interesse dos produtores, já que os preços das transações acompanham com mais rapidez as flutuações do mercado. A fusão, entretanto, não traria muita diferença para o agricultor. “O mercado é dominado por poquíssimas empresas porque é preciso um

AFP/eastnews

Continuação da página 1

Parceria com empresas nacionais é pouco provável

grande aporte logístico”, explica Benites. “Como o preço é internacional, o produtor rural nem sabe a diferença entre o potássio russo e o canadense”, completa.

Plano B

Em 2010 o governo brasileiro concentrou esforços no

livros convencionais por arquivos gratuitos disponíveis na web. A crise econômica recente também foi um divisor de águas para o setor. Em 2009, foram vendidos 142 mil Pocketbooks, o correspondente a US$ 37 milhões. Neste ano, a expectativa é de que o fa-

âmbito geológico para a identificação de reservas de potássio e a Vale do Rio Doce comprou minas na Argentina com o objetivo de produzir para o mercado brasileiro. “O Brasil não tem reservas como a Rússia, mas conta com reservas potenciais na costa, ou seja, o pré-sal”, conta Benites. A extração do elemento na camada superior ao petróleo, entretanto, n ão é pa r a u m f ut u r o próximo. “Não temos margem para, no curto prazo, criar outra alternativa de potássio para substituir a importação”, afirma Benites. A fusão das produtoras russas deverá se concretizar no segundo trimestre desse ano. As condições do contrato já foram aprovadas pelos conselhos das diretorias, apoiados pelos acionistas.

frase

Simon Dunlop

"

Há pouca distribuição física de livros na Rússia. Não existem redes de lojas nacionais como Barnes & Noble ou Waterstones. Mas, com a mídia digital, não há controle de fronteiras, clientes e nem custos com transporte. Só é preciso acesso à internet para usar o poder da tecnologia e criar novos mercados."

fundador da bookmate.ru

itar-tass

Distribuição ineficiente de livros pelas enormes extensões do maior país do mundo faz com que livros digitais batam recordes de downloads na Rússia.

Usuários do metrô moscovita se rendem aos livros digitais

notas negócios

Brasil reabre licitação de caças O Brasil reabriu a concorrência para aquisição de 36 novos caças pelo programa FX-2, com verba planejada de US$ 4 bilhões. Os participantes da licitação anterior – a norte-americana Boeing, a sueca Saab e a francesa Dassault – lideram a lista de preferências. Já a companhia russa Sukhoi, com seu caça multifuncional Su-35, pode ficar de fora da competição. A disputa pelo mercado brasileiro se estende desde 1999, quando foi aberta a primeira concorrência para a aquisição de 12 a 24 aeronaves no valor de US$ 700 milhões. Mas, apesar do interesse que a Sukhoi vinha despertando na época, o Brasil não finalizou a com-

sukhoi.org

pra devido a dificuldades econômicas. Em 2007, a licitação foi retomada, praticamente com os mesmos concorrentes. Nos planos, figurava a compra de 120 aviões por até US$ 10 bilhões. A aquisição, entretanto, foi mais uma vez adiada

devido à realocação dos recursos para custear a assistência aos desastres naturais ocorridos naquele ano. O Brasil havia empurrado a aeronáutica russa contra a parede, prometendo a compra dos Su-35 somente se a Rússia também adquirisse as aeronaves comerciais fabricadas pela Embraer. Como a empresa russa concluía o desenvolvimento e o licenciamento de sua própria aeronave comercial para voos regionais, o Superjet-100, o acordo foi rejeitado. Além disso, segundo fontes da própria Sukhoi, a empresa não pretendia transferir a tecnologia de produção do caça Su-35 ao Brasil, tentando prevenir sua divulgação para Venezuela, Chile ou Colômbia e evitar cópias. Assim, a terceira licitação para venda de caças e atualização da frota brasileira não pode contar com o russo Su-35 na lista dos principais concorrentes. No ano passado, porém, a imprensa divulgou que a Rússia havia proposto ao Brasil e à Índia a participação no

turamento chegue a US$150 milhões. De acordo com a consultoria SmartMarketing, o dispositivo ucraniano já domina 43% do mercado russo, enquanto a Sony aparece em segundo lugar com 24%. A Pocketbook tem crescido tão rapidamente que somente agora foi montada uma rede física para vendas do produto – 85% das compras do aparelho em 2009 foram feitas pela internet. Naúmenko também já criou um e-book no qual arquivos com licença custam bem menos que os livros impressos. Com 150 milhões de russos e 110 milhões de pessoas na Comunidade dos Estados Independentes (CEI) atualmente conectados à internet, o setor possui grande potencial de crescimento. Dunlop ressalta que basta uma conexão para explorar todo o poder das novas tecnologia e criar novos mercados consumidores.

projeto de um caça de quinta geração baseado no modelo T-50. O protótipo já passa por testes na base da cidade de Jukóvski, próxima a Moscou. Por enquanto não há uma resposta definitiva do Brasil, mas a Índia já acertou com o Kremlin a projeção dessas aeronaves para sua Força Aérea, com perspectivas de venda para terceiros. Segundo relatório do instituto internacional de pesquisas estratégicas, a Força Aérea do Brasil (FAB) possui atualmente dezoito caças franceses do modelo Mirage F-103E, 47 caças norte-americanos dos modelos F-5E\ B\F, mais de 50 caças-bombardeiros do modelo AMX (co-produção entre Brasil e Itália) e cerca de 100 caçasbombardeiros de treino do modelo Super Tucano. Muitos deles, no entanto, em função da idade, do uso extensivo e da desatualização técnica, encontram-se quase inativos e precisam ser substituidos. Víktor Litóvkin


Capa

Gazeta Russa

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05

Fim de uma era Retrospectivas celebram 80 anos dos dois homens que mais marcaram o renascimento da Federação Russa

Os dois pais da Rússia moderna

getty images/fotobank

reportagem

OPINIão

O homem

Iéltsin, o excomunista que trouxe liberdade

que escreveu a história

Os principais protagonistas do cenário político dos anos 90 celebram o aniversário do primeiro presidente da Federação Russa e discutem seu legado.

Grandes líderes mudam países, alguns mudam o mundo, diz a chefe dos programas de política russa do Centro Carnegie de Moscou, Lilia Shvetsova.

Boris Iéltsin Primeiro presidente eleito da federação russa

Boris Nikoláievitch Iéltsin nasceu em 1º de fevereiro de 1931 no povoado de Butka, nos Urais. Iniciou sua carreira partidária no comitê regional do Partido Comunista em Sverdlovsk, do qual se tornou primeiro-secretário em 1976. Em 1985 passou a trabalhar em Moscou, no comitê central do Partido Comunista da União Soviética, ocupando o cargo de diretor do Departamento de Construção. Em 1985 e 1986 foi secretário do comitê central. Entre 1986 e 1988 foi candidato a membro do Politburo do comitê central do Partido Comunista. Depois de um pronunciamento crítico numa plenária do comitê central foi afastado da direção do partido. Em 12 de julho de 1990, anunciou a saída do partido e em 12 de junho de 1991 foi eleito primeiro presidente da Federação Russa, posição que ocupou até dezembro de 1999, após ser reeleito em junho de 1996. Quando deixou o cargo, em 1999, Vladímir Pútin ficou emcarregado do cargo de presidente de transição. Boris Iéltsin morreu no dia 23 de abril de 2007, em Moscou.

Então secretário-geral do Partido Comunista, Gorbatchov faz visita oficial à Polônia, em 1988

itar-tass

perfil

especial para gazeta russa

ria novosti

Se as mudanças trazidas pela dissolução da União Soviética certamente não satisfizeram a todos, o estabelecimento de u ma nova Constituição, de uma economia de mercado, da liberdade de ir e vir, de expressão e de imprensa são reconhecidos por muitos. Responsável, em grande parte, por essas transformações, o primeiro presidente da Federação Russa, Boris Iéltsin, completaria 80 anos neste mês. Falecido em 2007, o estadista agora ganhou uma série de homenagens pelo país. “Iéltsin, antes de qualquer outro político soviético, valorizou a importância do amparo popular, mudando o sistema tradicional de relações

Lilia Shevtsova

getty images/fotobank

gazeta russa

O contato próximo com o povo marcou a atuação dos estadistas durante os anos 80 e 90

reuters/vostock-photo

Marina darmaros

entre o poder e a sociedade”, disse o autor de sua nova biografia, Rudolf Pikhoia. Depois de construir a carreira política populista nos Urais, Iéltsin é indicado para a prefeitura de Moscou pelo então presidente Mikhail Gorbatchov e pelo segundosecretário Iegor Ligatchov. Mas em 1987, quando começa a criticar publicamente o presidente e o Politburo, acaba demitido. “Iéltsin não tinha medo, por isso não precisava de instrumentos para espalhar o temor”, disse à Gazeta Russa o chefe da revista alemã Der Spiegel em Moscou, Matthias Schepp. A campanha oposicionista dos comunistas contra Iéltsin e subsequentes denúncias de alcoolismo não o impediram de ser eleito presidente em 1991, com 57% dos votos. Ele inicia então uma série de reformas que culminariam numa abertura à liberdade de expressão e de mercado. “Iéltsin criou, sobretudo em seu primeiro ano de presidência, toda uma série de decretos chamados ‘acerca da liberdade de imprensa’, ‘acerca da defesa da liberdade de imprensa’ etc.”, explica o atual conselheiro presidencial para assuntos de direitos humanos, Mikhail Fedotov. A Constituição por ele promulgada em 1993 também garantia amplas liberdades individuais, como o Artigo 31, que garante que o “direito de se reunir de maneira pacífica, sem armas, conduzir comícios e demonstrações, desfiles e piquetes”. Mas para a ativista dos direitos humanos Liudmila Aleksêieva, a falta de tradição democrática teria atrapalhado. “A economia planificada e o mercado liberal se mostraram incapazes, então para muitos a memória de liberdade ficou atrelada à lembrança de dificuldades e privações”, explica. Outras reminiscências de seu governo remetem ao uso de força militar contra as massas que protestavam por melhores condições de vida em frente ao Parlamento em 1993, que resultou num total de 500 mortos (números nãooficiais), e a Primeira Guerra da Tchetchênia. “Acredito que nem tenha passado pela cabeça dele pensar sobre as liberdades como instituições. Na cabeça das pessoas, sobrou apenas o tiroteio no Parlamento – e isso está impresso mais forte que a Constituição”, diz analista político Gleb Pavlóvski.

Fama de populista de Iéltsin começou ainda nos Urais e se estendeu a Moscou

Frases

Mikhail Fedotov

Liudmila Aleksêieva

Lilia Shevtsova

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conselheiro do presidente para

Infelizmente, naqueles anos sobressaiu-se também uma colossal provação. A economia planificada e o mercado liberal se mostraram incapazes diante de todas essas dificuldades, então para muitos a liberdade ficou ligada à lembrança de dificuldades e privações.”

assuntos de direitos humanos

Defensora dos direitos humanos

cientista política

Iéltsin criou, sobretudo em seu primeiro ano de presidência, toda uma série de decretos chamados ‘acerca da liberdade de imprensa’ ou ‘acerca da defesa da liberdade de imprensa’. Ele se relacionava com a imprensa, eu diria, de forma paternal."

Gorbatchov garantiu para si um lugar na história e tornou-se um monumento vivo na Rússia. Ser ator histórico e manter a simplicidade e o capacidade de ser irônico sobre si mesmo não é fácil. Só alguém com uma personalidade singular é capaz de fazer isso."

Na história moderna, alguns grandes líderes encabeçaram movimentos determinantes para seus países, como o espanhol Adolfo Suárez, a britânica Margaret Tatcher, o alemão Helmut Kohl e o americano Ronald Reagan. Alguns, entretanto, mudaram o mundo. É o caso dos russos Vladímir Lênin, fundador do governo comunista – o maior desafio contemporâneo ao Ocidente –, e Mikhail Gorbatchov, que colocou abaixo o mesmo sistema, em um movimento que fechou para sempre as portas do século 20 e permitiu que o mundo entrasse em um novo ciclo. Entre 1985 e 1990, Gorbatchov ganhou destaque por uma série de feitos. O maior foi reconhecer o absurdo da corrida armamentista e da guerra atômica e anunciar seu ideal de um mundo desnuclearizado. Foi ele quem viabilizou o diálogo entre a URSS e os EUA para o desarmamento, levando as negociações à assinatura do tratado de eliminação de mísseis de médio e curto alcance, em 1987. A partir daí, os países decidiram destruir todo tipo de armamento nuclear, cuja existência em si é motivo para o início de uma guerra atômica, e passaram a negociar a redução dos armamentos e a proibição de armas químicas e biológicas. Ironicamente, a onda de mudança provocada por ele foi a mesma que o tirou de cena. No final de sua carreira política, teve de suportar a solidão e o isolamento. Muitos daqueles que ganharam os holofotes durante a transição iniciada por Gorbatchov, ou que subiram ao poder graças a ele, não o perdoaram pelas dimensões de seu pensamento sobre liberdade e o desprendimento do poder e, durante muitos anos, fizeram de tudo para atingi-lo do modo mais mesquinho. Em 1999, Gorbatchov enfrentou outro drama com o falecimento da mulher e amiga Raissa, vítima de leucemia. A tragédia, no entanto, impulsionou a reaproximação entre Gorbatchov e a Rússia. Diante do sofrimento do homem, os russos começa-

ram a entender o significado de sua figura política. Gorbatchov foi o primeiro governante na história da Rússia a deixar o Kremlin sem se agarrar ao poder. A saída voluntária do governo, iniciada por ele, certamente não foi uma moda que pegou. Iéltsin em seguida retomou a prática de permanecer ao menos até conseguir fazer seu sucessor. Agora, Gorbatchov está passando por uma nova nova provação. Como diria o escritor escocês Thomas Carlyle, a história é a biografia dos grandes homens. E, ainda tão disposto e encantador, Gorbatchov garantiu para si um lugar na eternidade e tornou-se um monumento vivo na Rússia. Tornou-se História. Ser homem e ator histórico ao mesmo tempo e, ainda, manter a simplicidade e a capacidade de ser irônico sobre si mesmo não é fácil. Somente alguém com uma personalidade singular é capaz de fazer isso.

PERFIL

Mikhail Gorbatchov Ex-secretário-geral, presidente da União Soviética

Mikhail Serguêievitch Gorbatchov nasceu em 2 de março de 1931 no vilarejo de Privólnoie, no território de Stávropol, no sul da URSS. Foi indicado para o cargo de secretário de Agricultura do comitê central do Partido Comunista em 1978. Em 1980 tornou-se membro do Politburo, onde ficou até 1991. Como secretário-geral do comitê central, entre 1982 e 1984, ajudou a trazer uma nova geração de políticos aos cargos mais elevados do governo. De 1984 a 1985, atuou como presidente do Comitê de Assuntos Estrangeiros do parlamento soviético. Em março de 1985, Gorbatchov se tornou secretário-geral, o primeiro líder da União Soviética nascido depois da Revolução de Outubro de 1917. Em 15 de março de 1990 tornou-se presidente da União Soviética, cargo que ocupou até agosto de 1991. Introduziu uma série de reformas que mudaram radicalmente a estrutura socioeconômica do país, incluindo as aclamadas glasnost (transparência) e perestroika (reconstrução). Também se deve a ele a significativa melhora nas relações com os Estados Unidos.


06

Especial

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Literatura Aleksandr Soljenítsin descreveu campos de trabalho no clássico “Arquipélago Gulag”, que ganha versão editada por sua viúva

O cronista russo do século 20 especial para rossiyskaya gazeta

Corria o ano de 1961 quando um original impresso em folha dupla chegou à redação da revista Nôvi Mir. O texto não tinha margens ou espaços entre linhas e estava intitulado “Щ-854” (Щ, que pronuncia-se “scha”, é a 27ª letra do alfabeto russo). A redatora da seção de prosa, Anna Berzer, entregou o exemplar imediatamente ao chefe de redação, Aleksandr Tvardóvski, e ressaltou que o texto era “sobre o campo de trabalho forçado sob o ponto de vista de um camponês, uma coisa do povo”. Tvardóvski lembra que naquela noite deitou e folheou o original. Depois de duas ou três páginas, concluiu que o manuscrito não deveria ser lido na cama. Levantou-se, vestiu-se e, enquanto sua família dormia, devorou durante toda a noite o romance, entre goles de chá. Leu e releu aquela obra até que o dia amanheceu sem que ele tivesse dormido. No dia seguinte, mandou que procurassem o autor e descobriu que o texto fora escrito por um professor de colégio, que ensinava física e astronomia, e que já havia dado aulas de matemática em uma escola da zona rural, perto da cidade russa de Vladímir, no oeste do país. A figura por trás do grande texto era Aleksandr Soljenítsin (1918-2008). O autor Soljenítsin nasceu e passou a juventude na cidade de Rostov, onde se formou em Física e Matemática e cursou, por correspondência, a Faculdade de Literatura do Instituto de História, Filosofia e Literatura de Moscou. Quando foi à capital russa para prestar as provas da instituição, viu eclodir a Segunda Guerra Mundial. Logo se tornou soldado. Em 1942 virou tenente e comandou uma bateria da artilharia. Depois, já capitão, permaneceu à frente dos combates até 1945, quando foi preso na Prússia Oriental, apenas algumas semanas antes do conflito acabar. O motivo da prisão foi uma carta trocada com um amigo e intercepta-

Primeiros livros Durante o tempo em que passou no campo, Soljenítsin escreveu sobre a juventude antes da guerra, as experiências do conflito, os contos dos colegas de regimento e o cotidiano cruel das prisões. Certa vez, ao ser perguntado sobre como se tornou escritor, disse: “A coisa aconteceu bem no fundo do meu ser, nos campos de trabalhos forçados”. Parte da pena ele cumpriu nas “charachka”, institutos de pesquisas patrocinados pelo governo e que usavam o trabalho de cientistas e intelectuais presos para desenvolver equipamentos de rádio e de telecomunicações. Dessa experiência saiu o romance “O Primeiro Círculo”. Um ano antes de ser libertado, descobriu que tinha um tumor e foi operado no hospital do campo de trabalhos forçados. O câncer, no entanto, já tinha se espalhado. Soljenítsin conseguiu autorização para que fosse levado a uma clínica do Uzbequistão, onde chegou em estado gravíssimo, e ali recuperou-se. A proximidade da morte e a cura foram traduzidas na obr a “O P av i l h ão do s Cancerosos”. No final da década de 1960, com o fim do regime de Nikita Khrushchev, o governo soviético endureceu e os exemplares de “Um dia na vida de Ivan Denísovitch”, escrito por Soljenítsin em 1962, foram retirados das bibliotecas. Em 1974, a censura passou a valer para todos os seus livros. Àquela altura, no entanto, os romances já haviam sido lidos por milhões de russos e traduzidos e publicados em dezenas de países europeus e asiáticos. “Cartas, centenas delas. Novos pacotes continuam chegando da Nôvi Mir todos os dias. Uma explosão de cartas de toda a Rússia”, surpreendia-se o escritor

Um autor sob vigilância De 1950 a 1953, Soljenítsin permaneceu no campo de trabalhos forçados em Ekibastuz, no Cazaquistão, onde os presos não tinham nomes e eram chamados pelos números costurados nos chapéus, no peito, nas costas e nos joelhos. Lá ele trabalhou numa brigada de pedreiros e depois na fundição. Esse campo foi descrito no romance “Um dia na vida de Ivan Denísovitch”.

CITAção

Iosif Bródski poeta

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Natália Soljenítsina

da pela censura. Na correspondência, os jovens oficiais chamavam Stálin de “padrinho”, uma referência à máfia e à figura cruel e bruta do líder russo. Aos 26 anos, Soljenítsin foi condenado a oito anos em campo de trabalho forçado, seguidos de exílio interno perpétuo.

Soljenítsin sentiu na pele os abusos dos gulags e se tornou a voz de um povo oprimido

Se as autoridades soviéticas não tinham um Homero, agora elas têm Soljenítsin. Possivelmente, dentro de dois mil anos a leitura do ‘Arquipélago Gulag’ proporcionará o mesmo prazer que a leitura da Ilíada nos proporciona nos dias de hoje.”

dissidente. Assim, Soljenítsin tornou-se o cronista e o confidente da tragédia popular russa. “E que contemplação elevada das vidas dos presos tenho. Uma perspectiva nunca antes alcançada. Biografias, casos, eventos, tudo isso as pessoas enviam para mim”, revelou.

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Nem as condenações ou a censura foram suficientes para impedir que o autor ganhasse o Nobel de Literatura em 1970.

Autor, publicado pela primeira vez em 1961, superou o câncer e as arbitrariedades do regime soviético até ter a acusação de traidor revogada e poder voltar à Rússia

A grande obra Não foi uma tarefa fácil trabalhar sobre esse material extenso, espontâneo e desorganizado. O escritor nunca guardou as cartas recebidas em um único lugar. As principais partes da obraprima “Arquipélago Gulag” também precisaram ser escritas em um local secreto, que só foi revelado 25 anos depois. Soljenítsin trabalhou por dois invernos seguidos, entre 1965 e 1967, naquele que se tornaria o mais influente livro sobre os campos de trabalho forçado (os gulags) da era Stálin. Nos primeiros anos de 1970, o escritor franco-russo Sasha Andreie, acompanhado de uma delegação da Unesco, articulou um esquema para tirar o livro da Rússia. Foram dias de tensão. Se a obra fosse descoberta na fronteira seria o fim para o livro, para o autor e para o portador.

Arquipélago Gulag para para principiantes

Você reduziu o livro a quase um quinto do tamanho original. O que ficou de fora? Acho que mantive todas as linhas narrativas, apesar de sacrificar grande quantidade de detalhes. Eliminei partes que descrevem o curso das repressões da dé-

cada de 1930 e foi necessário sacrificar muitos episódios, mas tentei escolher histórias de vida que permitem ver um panorama. Acho que consegui manter a linha narrativa e não enxugar demais o romance. Qual a lição mais importante para os estudantes que irão ler o livro? Arquipélago Gulag não é um romance didático, não é um sermão. Mas tenho a impressão de que, após sua leitura, todos podem entender quão horríveis são as décadas de atraso com que as injustiças e maldades em nosso pa ís são de scobe r t as e discutidas. É verdade que Soljenítsin lia capítulos de Arquipélago para os filhos dormirem? Claro que não! Isso é mais uma das lendas sobre a vida de Aleksandr Issáevitch. Nunca lemos Arquipélago para nossos filhos, nem de dia, nem de noite. Quando cresceram, cada qual leu os livros do pai a seu modo. Ignat, por exemplo, conheceu o Arquipélago bem cedo, aos 11 anos. Sei que já releu o livro diversas vezes.

Fazendo a nova versão, você se sentiu mais como autora ou editora literária? O trabalho não foi uma edição, mas uma alteração do texto. Um trabalho feliz e amargo ao mesmo tempo, pois dava pena cortar todas as linhas. Imagine um quadro à óleo que você tem de reproduzir com meios mais econômicos. Senti-me como uma aprendiz de pintor que carregasse a tarefa de re-

Nova edição tem quase um quinto do número de páginas do original, mas manteve a essência produzir um grande quadro à óleo usando somente um pedaço de carvão. Por que a versão resumida demorou tanto a ser publicada na Rússia, apesar de já haver edições semelhantes nos EUA? Há 25 anos, Aleksandr Issáevitch aceitou, relutantemente, editar uma versão resumida de Arquipélago para estudantes norte-americanos. Naquela época, talvez com certa arrogância,

imaginávamos que os americanos teriam dificuldade de aguentar os três volumes da obra. Tínhamos certeza de que um resumo não seria necessário na Rússia quando o país fosse livre e o livro fosse publicado. Passaramse 20 anos e Gulag foi publicado. Mas a vida mudou tanto que as pessoas não têm tempo. Ficou claro aqui, do mesmo jeito, que não só crianças, mas muitos adultos também, não conseguem ler todo o Arquipélago. Se uma versão resumida foi feita pelo próprio Soljenítsin, por que não a usaram? Esperava poder fazê-lo, mas, quando comecei a trabalhar, já no primeiro capítulo, tive certeza de que essa abordagem não seria possível. O cenário é outro. Algumas partes foram suprimidas da versão norte-americana por não precisarem de comentários extensos, desnecessários para nossas crianças, onde uma memória coletiva permite entender certas passagens. Ao contrário, algo que seria especialmente interessante para os estrangeiros podia ser suprimido sem muitos problemas em

Nobel Em 1970, Soljenítsin recebeu o Prêmio Nobel de Literatura “pela força moral com a qual deu continuidade à secular tradição da literatura russa”. “O prêmio caiu como um feliz balde d’água sobre a cabeça!”, festejava. Era algo contraditório. Comemorar o quê, se há cinco anos seu nome estava proibido de ser mencionado, seu arquivo pessoal fora confiscado, suas obras não podiam ser publicadas na União Soviética e outros textos estavam fadados a um intransponível enclausuramento? Somente o samizdat – a prática de cópias e transcrições caseiras clandestinas de livros proibidos – absorvia a obra de Soljenítsin. O escritor temia ser barrado na volta da viagem a Estocolmo, na Suécia, para a cerimônia de premiação. As autoridades até desejavam desesperadamente livrar-se dele, mas não tiveram a coragem de destruir o autor aos olhos de um mundo que lia o Arquipélago. Em 1974, no entanto, Soljenítsin foi acusado de “traição à pátria” e preso, além de ter a cidadania revogada e ser extraditado. Novos tempos Passados 16 anos, muito mudou. “Arquipélago Gulag” foi publicado na Rússia, a acusação de traição foi revogada e Soljenítsin retornou ao país. Muitos documentos secretos do regime soviético foram abertos ao público, revelando a verdade do período, e a obra continua atual. Elizabeth Applebaum, autora de um livro sobre a história dos gulags e ganhadora do Prêmio Pulitzer, ressalta: “Passados 15 anos desde a queda da URSS é impressionante constatar, quando relemos ‘Arquipélago Gulag’, quão poucas inconsistências tem o livro. Isso tudo considerando que o autor não tinha acesso aos arquivos nem aos documentos oficiais. É graças à veracidade que a obra não perdeu sua atualidade e a sua importância”.

dadeiros, temos até hoje e guardamos como tesouro. Aleksandr Issáevitch os trouxe do campo de trabalhos forçados, costurados dentro do uniforme. Seus companheiros de prisão fizeram o mesmo. Chegando ao destino, ainda nos primeiros dias, eles costuraram aqueles números nas roupas novamente, do jeito que andavam quando presos, e tiraram fotografias um do outro. O dono da câmera era Nikolai Ivánovitch Zubov. Ele e sua esposa, também exilados internos, viraram grandes amigos de Aleksandr Issáevitch, apesar de ele ser bem mais novo. O casal Zubov é descrito com muito amor no Arquipélago, também retratado sob o nome Kádmin na novela O Pav i l hão dos Cancerosos.

rg

Aleksandr Issáevitch Soljenítsin (1918–2008) foi um dos maiores escritores e ativistas da Rússia no século 20. Sua obra-prima, “Arquipélago Gulag”, foi escrita sob constante ameaça de prisão, viajando pela então União Soviética e conversando com sobreviventes dos campos de trabalho forçado. No Brasil, uma versão resumida da obra foi publicada nos anos 1970 por duas editoras diferentes – a Difel e o Círculo do Livro. Depois disso, poucos livros do autor saíram no país. Na Rússia, a obra completa, em três volumes, teve sua publicação tardia apenas na década de 1990. Para torná-lo mais acessível, a viúva do escritor, Natália Soljenítsina, compilou uma versão resumida da obra, publicada em outubro e incluída na lista de literatura russa do século 20, obrigatória nas escolas secundárias do país.

O manuscrito chegou ao exterior com sucesso e Soljenítsin comemorou: “Liberdade! Leveza! Todo o mundo pode ser abarcado! Eu estou enclausurado? Eu sou um escritor intimidado? Não! Meus caminhos são livres e por todos os lugares!”

Natália Soljenítsina, viúva do autor, descreve o trabalho como a reprodução de um quadro a óleo usando apenas carvão

uma versão para os russos. Assim, tive de refazer todo o trabalho. A nova edição apresenta uma fotografia inédita do autor, na qual Soljenítsin, vestindo uma telogreika (o uniforme de inverno do Exército Verme-

lho) com numeração de preso, é revistado em um posto de controle. Qual é a história da foto? Ela foi tirada nos primeiros dias do exílio interno, já depois de ter cumprido pena no campo de trabalhos forçados. Os números são ver-

O material final recebeu muitos comentários? Todos sentiam falta de algo que foi suprimido e cada qual tentou me convencer a reavaliar alguma parte específica. Eu ouvia com muita atenção todos os comentários e, quando possível, incluía algo de volta ao texto – cortando outras partes, para não aumentar o volume geral. Terminei por elaborar um pequeno dicionário dos nomes mais importantes, o que não ex istia no A rquipélago original. Entrevista a Tatiana Shebáieva e Maria Agranovitch


Opinião

Gazeta Russa

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07

IÉLTSIn acreditou no povo russo quando seu partido foi derrotado. Embora tenha aceitado o resultado eleitoral, nunca aprendeu a trabalhar com u m parlamento indisciplinado. Todo grande líder erra, mas Iéltsin cometeu duas falhas graves que comprometeriam seu registro na história. Em 1994, a Rússia enfrentava um verdadeiro problema de ordem pública no Cáucaso do Norte, porém declarar guerra contra o povo tchetcheno foi um grave erro de julgamento e falta de humanidade, que cheirava a resquícios de governo soviético. A guerra na Tchetchênia se tornou o instrumento perfeito para difundir a russofobia na Europa e na América – era de fabricação russa. Seu segundo erro se deu quando concorreu ao segundo mandato presidencial. Infelizmente, Iéltsin foi facilmente convencido, por meio de uma mensagem comunicada com urgência diretamente de Washington, de que somente ele poderia impedir que os comunistas retornassem ao poder. Havia diversas opções de governantes além de Iéltsin. Nenhum deles era ideal e a maioria era pouco conhecida no Ocidente, mas qualquer um deles poderia ter vencido e feito um trabalho melhor que o dele. Os anos seguintes no seu gabinete se alternaram entre o fracasso e a farsa. Considerando sua trajetória confusa, por que alguém de-

Wayne Merry diplomata americano

niyaz karim

O

ano de 2011 marca o vigésimo aniversár io do fim da União Soviética e do Estado leninista. É importante, contudo, começar nossas memórias evidenciando o que seria o 80º aniversário de Boris Nikoláievitch Iéltsin, o personagem principal daquele momento em 1991, e que morreu em 2007. Felizmente o colapso da União Soviética foi presidido por dois homens de inteligência e ponderação. Apesar de todas as críticas severas que receberam no próprio país, Boris Iéltsin e Mikhail Gorbatchov serão lembrados no longo curso da história como líderes positivos, porém limitados. Gorbatchov reconheceu a inutilidade da Guerra Fria e deu um fim a ela com o objetivo de revigorar o sistema soviético – iniciativa que acabou falhando. Iéltsin reconheceu o fracasso do sistema soviético e tentou ajudar a exterminá-lo para que as nações do Ocidente aceitassem a Rússia como uma delas – o que também não saiu como esperado. Embora forças maiores tenham determinado os resultados da Guerra Fria e da União Soviética, grandes talentos políticos locais foram necessários para

que fosse mantida uma transição de regime pacífica. Devido a sua experiência como chefe do partido comunista em Sverdlovsk, Iéltsin entendeu o sistema soviético por dentro como poucos. No entanto, como muitos de seus colegas, somente depois de descobrir o mundo real, no exterior, ele percebeu o fracasso que seu país tinha se

tornado. Com seu carisma, impetuosidade e sorte, ele triunfou, primeiro em Moscou e depois como líder da Federação Russa. Iéltsin foi extremamente feliz na escolha do momento e dos personagens que frustraram o golpe de agosto de 1991. Ele sempre tomou as crises como fontes de inspiração, mas faltava-lhe acompanha-

mento e vigor para materializar as reformas necessárias. Mesmo após ter seu mandato renovado no referendo de abril de 1993, Iéltsin não conseguiu promover uma reforma institucional. Em setembro do mesmo ano, recorreu a métodos ilegais para dissolver o legislativo, gerando um conflito que o levou a uma vitória violenta, mas também

acarretou prejuízos irreparáveis, no dia 4 de outubro daquele ano. O episódio representou um terrível retrocesso para o estado de direito em um país que necessitava de segurança jurídica. Aquele Iéltsin tinha perdido a noção das necessidades econômicas, e o medo da população russa ficou explícito nas eleições de dezembro de 1993,

veria olhar para trás com respeito para o governo de Boris Iéltsin? Acima de tudo, porque ele representou a antítese de um Slobodan Milosevic – o sanguinário presidente da ex-Ioguslávia. Nós todos fomos beneficiados pela atuação de Iéltsin durante os meses críticos de 1991-92. Além disso, devemos lembrar Iéltsin pela visão que tinha mas nunca conseguiu praticar. Até certo ponto, ele foi um líder russo que não teve medo da população. Acreditava que se o povo russo tivesse mais poder político e econômico, tudo correria bem. Só não fazia ideia de como alcançar isso. Ele não queria mobilizar, doutrinar, disciplinar ou controlar a população, mas capacitá-la. Fracassou. Iéltsin não pôde realizar essa visão em parte porque a tarefa era imensa e em parte porque poucos indivíduos das supostas forças democráticas russas compartilhavam dela. É absolutamente verdadeiro que toda carreira política acaba em fracasso. A de Iéltsin foi assim. Mas quanto tempo será necessário para que a Rússia gere novamente um líder nacional que acredite que a seu povo deve ser dado poder no lugar de doutrinas? Wayne Merry foi redator de política da Embaixada dos Estados Unidos em Moscou entre 1991 e 1994.

terrorisMO, BRAVATAS e corrupção Olaf Koens

especial para gazeta russa

O

s líderes russos se comprometeram mais uma vez a perseguir e punir os terroristas responsáveis por um atentado. Desta vez o perpetrado no aeroporto Domodêdovo, em Moscou, no final de janeiro. Ainda assim, é difícil sentir-se seguro, pois o problema real continua ignorado. Depois do atentado, o presidente russo Dmítri Medvedev pediu para as autoridades “trazerem os culpados à justiça e destruírem suas organizações”. Após os incidentes com bombas no metrô de Moscou no ano passado, Medvedev se comprometeu a “continuar as operações antiterroristas sem hesitar e até o final”. O presidente tenta imitar o tom severo de seu mentor, o primeiro-ministro Vladímir Pútin, que prometeu, em 1999, “limpar os terroristas de suas privadas” e afir-

mou ser “uma questão de honra para o serviço de segurança arrastar os terroristas do fundo dos esgotos para a luz de Deus”. As declarações provocaram repercussão. Depois do atentado no aeroporto, a polícia de Moscou anunciou medidas adicionais

Políticos assumem suposta linha dura, mas ataques continuam quase todo dia no Cáucaso de segurança. Na verdade, quase nenhuma mudança aconteceu. Pouco tempo após o ataque, com receio de perderem seus voos, os passageiros do Domodêdovo simplesmente rodeavam os dispositivos de rastreamento. Os detectores de metal localizados na entrada do aeroporto, por sua vez, não funcionam há quase 6 meses. No fim das contas, a segu-

rança durante o ataque foi pior do que nunca, segundo testemunhas. Os passageiros que chegavam ao aeroporto perambulavam pelos terminais. Nenhum setor da segurança tomou para si a responsabilidade pelos procedimentos pouco rigorosos no local, embora ex-funcionários tenham dito a jornalistas que o corte nos salários, em primeiro lugar, e depois de pessoal, comprometeram a realização de um rastreamento adequado. Classificar o ataque como um atentado terrorista “significa que alguém responsável pela segurança no Domodêdovo ou do Ministério de Serviço de Segurança Federal vai ser despedido”, escreveu Anna Nemtsova, correspondente da revista americana Newsweek. “Infelizme nt e pa r e c e que n ão aprenderam a lição. Ainda há pouca segurança nos lugares públicos”, completou. Incapazes ou não dispostos a encarar difíceis questões como, por exemplo, o que

ocorreu e por quê, os políticos assumem uma suposta linha dura, mas os ataques continuam. No próprio Cáucaso, que seria a base dos grupos apontados como responsáveis, eles acontecem quase diariamente, e a população muçulmana das problemáticas regiões de Daguestão, Inguchétia e Tchetchênia sabem muito bem o que significa a linha dura dos políticos russos. Corrupção e medo reinam no Cáucaso do Norte, onde o poder reside em um sistema complicado de lealdades e afilhados políticos corruptos. Para acalmar a situação, Moscou envia navios de dinheiro que nunca vão ao encontro da população mais pobre, desaparecendo nos bolsos dos oficiais regionais. Enquanto muitos não conseguem comprar nem um carro popular, policiais de tráfego no Daguestão patrulham em Porsches Cayenne. Os verdadeiros terroristas circulam livremente, e a população é quem paga o preço. As disparidades têm

tivas a tudo que possa ser oferecido pelo fundamentalismo islâmico. No verão passado, Khlopónin anunciou uma série de projetos prioritários de desenvolvimento econômico para combater conflitos étnicos e religiosos. Nos pla-

causado aumento do apoio local ao terrorismo. Algumas horas depois dos ataques no aeroporto, já apareciam mensagens de apoio em sites de extremistas russos. Por todo Cáucaso, as pessoas viravam a cara para o Kremlin. Entre os caucasianos há a crença de que os representantes da segurança federal sequer tentam caçar os verdadeiros terroristas, explodindo prédios “de forma simbólica”. Afinal, se os terroristas fossem encontrados não haveria mais necessidade do envio de recursos de Moscou para financiar essas operações. O economista e empresário Aleksandr Khlopónin talvez seja o homem mais solitário da Rússia. Indicado há quase um ano como enviado presidencial para o recém-criado Distrito Federal do Cáucaso do Norte, imediatamente após assumir a nova posição iniciou uma nova jornada na tentativa de melhorar a situação da região, estimulando o desenvolvimento econômico e proporcionando alterna-

Corrupção e medo reinam no Cáucaso do Norte, região dominada por afilhados políticos nos constam a construção de uma refinaria de petróleo na Tchetchênia e o desenvolvimento dos portos de Makhatchkala e de Derbent, juntamente com a criação de infraestrutura turística na região. Porém, não é tão simples obter investimento, e em meio à retórica dos donos da guerra, oficiais do serviço de segurança, líderes militares e figuras políticas locais, a voz

de Khlopónin tem passado despercebida. “A iniciativa de promover emprego e desenvolvimento econômico não parece estar funcionando”, disse Nemtsova, da Newsweek, no dia em que o ataque ocorreu. “Há muita frustração entre os habitantes.” Depois do ocorrido, o presidente Medvedev postergou sua viagem para participar do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, onde discursaria sobre como a Rússia é um lugar seguro para investimentos – tendo em vista, particularmente, o estímulo de interesse estrangeiro no desenvolvimento de esportes de inverno no Cáucaso do Norte. A Rússia ainda sonha que as montanhas do Cáucaso possam competir como destino turístico com os Alpes Suíços. A cada ataque, entretanto, fica mais distante de seu sonho. Olaf Koens é um jornalista holandês baseado em Moscou e freelancer para diversos veículos de comunicação.

William Dunkerley

The Moscow Times

O

presidente Dmítri Medvedev anunciou planos para retirar o Estado de suas variadas participações na mídia. Embora os entendidos no assunto já possam prever o benefício da venda massiva das empresas de mídia, seria interessante, em primeiro lugar, questionar se todas essas companhias têm, de fato, algum valor comercial. A revista Newsweek, por exemplo, foi vendida por apenas US$1 no ano passado. Pela minha experiência, é raro encontrar uma empresa nativa de mídia que seja lucrativa. Geralmente, um negócio com número insuficiente de

telespectadores e recursos gerados pela publicidade vende propaganda disfarçada de notícia para compensar o déficit na receita. Quem vai querer se associar a um tipo de negócio tão corrupto? Arkádi Dvorkovitch, conselheiro econômico do presidente Dmítri Medvedev, disse que gostaria de manter a compra das empresas de mídia fora das mãos de “investidores desonestos”. É um conceito interessante. O objetivo de uma empresa comercial é a geração de lucro. Partindo desse princípio, qual é o valor de uma companhia que gera apenas prejuízo? A revista Newsweek foi colocada à venda pela The Washington Post Company porque a publicação estava incorrendo em prejuízo.

expediente presidente de conselho: aleksandr gorbenko; Diretor-Geral: pavel negoitsa; Editor Chefe: Vladislav Fronin ENDEReÇO DA SEDE: AV. PRAVDY, 24, BLOCO 4, 12º-ANDAR, MOSCOU, RÚSSIA - 125993 WWW.RBTH.RU E-mail: BR@RBTH.RU TEL.: +7 (495) 775 3114  FAX: +7 (495) 775 3114 Editor-chefe: EVGuENi ABOV; editor-executivo: Pavel Golub;

Antes, porém, da negociação do ano passado, a Newsweek vinha fazendo um esforço significativo para se reerguer. Os dirigentes mudaram a composição do público, fizeram uma reformulação gráfica e editorial e até tentaram aumentar a receita, mas acabaram cometendo graves erros de julgamento. No caso das dispendiosas empresas de mídias controladas pelo governo russo, algumas circunstâncias dificultam esse processo. Em primeiro lugar, elas são muitas – mais do que a economia poderia sustentar como negócios legítimos. Além disso, os integrantes da mídia não costumam ter uma visão apurada de negócios. Por último, a cultura de corrupção já instaurada seria uma instituição difícil de ser erradicada.

Além do mais, ainda paira no ar a seguinte dúvida: deseja realmente o governo retirar sua atuação na mídia? Uns sugerem que os canais poderiam ser adquiridos por parceiros dos atuais proprietários políticos; outros, que a iniciativa é um meio para tomar o controle dos líderes regionais e colocá-los sob o poder vertical. Criar leis de “subsídios” para auxiliar essa “transição do governo para o privado” parece coerente com o suposto esquema de corrupção. Em entrevista televisionada em dezembro, Medvedev afirmou que as decisões de imprensa devem ser tomadas independentemente de qualquer influência estatal, uma iniciativa louvável. Isso, porém, será muito difícil de acontecer. Não parece simples garantir trans-

parência absoluta de propriedade ou conhecer as alianças dos novos donos. Além disso, é difícil definir o que é um veículo de propriedade do governo. Afinal, mesmo que pelo registro o proprietário pareça ser uma empresa independente, o beneficiário pode ser um político ou uma entidade do Estado. Eliminar da sociedade os canais de mídia picaretas é algo que o público tem capacidade de fazer, porém é necessário que tenha como opção outros veículos de boa qualidade. É nesse aspecto que a administração deve focar. Devem-se criar condições para que canais de mídia realmente preocupados com seus públicos possam crescer e prosperar. A safra atual de fornecedores de autocensura e notícias de-

niyaz karim

A difícil libertação da mídia

sonestas serão colocados em seus devidos lugares – e marginalizados. Há um ótimo provérbio russo que caracteriza bem o plano original de vender os canais de mídia do governo: “cerveja sem vodca é como dinheiro jogado ao vento”. Tal-

Editor: Dmítri golub; subeditor: marina darmaros; editores no brasil: felipe gil, wagner barreira; Editor de foto: ANDREI ZAITSEV; Chefe da seção de pré-impressão: MILLA DOMOGATSKAIA; Paginadores: IRINA PAVLOVA; ilia ovcharenko representante no brasil: ALEksANDER Medvedovsky (mir@mirmidia.com.br)

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vez o mesmo pudesse ser dito em relação a empresas que não geram lucro. Elas serão bem difíceis de vender. William Dunkerley é analista e consultor de negócios de mídia especializado na Rússia e na antiga União Soviética.

escreva para a redação da Gazeta Russa em Moscou: BR@RBTH.RU


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Em Foco

GAZETA RUSSA

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Folclore popular Redonda e amarela, iguaria é símbolo da festa pelo retorno da primavera

JENNIFER EREMEEVA GAZETA RUSSA

Se você deseja ganhar o respeito de uma família russa, deve aprender como fazer blini (panquecas) – e bem. Principalmente neste período do ano. Costumo me esquivar dessa responsabilidade, mas neste ano prometi a mim mesma que me tornaria uma mestra na arte das panquecas russas a tempo da festa pagã Maslenitsa. Arregacei as mangas e mergulhei em livros de receitas do século 19. Interroguei senhoras na feira e cheguei até ao ponto de ligar para minha sogra. A festa pode ser resumida como uma semana de comemoração, panquecas e brigas, que prenuncia o fi m do inverno, o início da quaresma e a promessa de primavera. Absorvida sem grande destaque pelo calendário ortodoxo russo, a Maslenitsa é, na verdade, um ritual que persistiu ao tempo e que pertence a uma antiga cultura pagã de veneração da natureza, de tradições agrárias e mais consciente da mudança de estações. A Maslenitsa foi originalmente ligada ao equinócio de primavera, momento que marca o início da estação e se caracteriza pela passagem direta do sol pelo equador, fazendo com que noite e dia tenham a mesma duração. Dos quatro pontos extremos do calendário (os solstícios e equinócios), o equinócio de primavera era o mais venerado por sociedades antigas, já que anunciava o retorno do sol após o inverno. No mito popular russo, Iarílo e Morana (inspirados nos egípcios Ísis e Osíris), são irmãos e amantes que representam a vida e a morte, o

A Maslenitsa, festa pagã para celebrar o final do inverno e início da primavera, dura uma semana é recheada de comida, fogueiras e brincadeiras

Como preparar os “blini” russos Ingredientes:

• 250g de farinha de trigo; • 7g de levedura seca (que se autofermenta); • 7g de açúcar; • 5g de sal; • 3 ovos (gemas separadas); • 250ml de leite; • 150ml de nata/coalhada; • 100g de manteiga clarificada derretida (própria para cozinhar)

Rigoroso inverno russo termina com verdadeiro banquete

em menos de dois meses. Ambos os objetivos podem ser facilmente atingidos se alguém estiver vivendo à base de mingau de trigo e sopa de repolho. O próprio nome Maslenitsa contém a palavra “maslo”, que significa manteiga ou óleo – embora alguns estudiosos argumentem que é uma versão mais antiga de

“miasnoi post’”, que significa “jejum sem carne”. Seja qual for a explicação, a Maslenitsa é a hora certa para se esbaldar em manteiga, queijo e creme de leite. É uma celebração geral do povo pelo retorno da luz e do calor e a última gota de diversão e gordura antes do início da quaresma.

Modo de preparo:

1. Em uma tigela grande, junte a farinha com os demais ingredientes secos. Adicione leite, a nata e as gemas, e misture até formar uma massa consistente e lisa. 2. Cubra a tigela com filme plástico e espere até que pequenas bolhas se formem na superfície da mistura. Isso deve levar cerca de meia hora. 3. Bata as claras até que atinjam uma consistência semelhante à

Burocratas Servidores são os alvos preferidos das sátiras

A imagem do tchinovnik na vida russa Um dos maiores tradutores de literatura russa no Brasil na atualidade, Paulo Bezerra analisa a figura do funcionário público na Rússia. PAULO BEZERRA

Em seu empenho para modernizar o Estado, o presidente russo Dmítri Medvedev, já tendo escolhido a desestalinização do país como fundamental para esse processo, pretende introduzir mudanças essenciais no estatuto e na atividade do tchinovnik (funcionário público, burocrata), por entender que “o tchinovnik é um servidor do povo e não o senhor do seu destino”. Tratase de uma iniciativa importante, pois a Rússia precisa eliminar os entraves burocráticos para dinamizar sua economia e a morosidade da burocracia é um empecilho a essa dinamização. Os tchinóvniki formam uma categoria ou casta praticamente tão antiga quanto o Estado russo e, apesar de haver em seu meio muita gente digna e abnegada, sua

ITAR-TASS

ESPECIAL PARA GAZETA RUSSA

Burocracia remete ao ditado brasileiro: “É na hora da confusão que o malandro mete a mão”

imagem na história do país é bastante negativa e sempre foi o objeto preferido da sátira literária. A palavra tchinovnik deriva de tchin, que significa ordem instituída, patente militar, grau, classe funcional, etc. Antes de Pedro, o Grande, os tchinovniki eram nomeados pelo critério de sangue e linhagem, a vida do Estado não era subordinada a regras e à observância de proporções geométricas e relações lineares. Ao estruturar o Estado, Pedro criava a nobreza como classe para dirigi-lo.

Com este fi m, instituiu em 1722 a Tabel’ o rangakh (ou “Escala hierárquica”), que criava dezoito categorias funcionais para militares e civis, sendo as sete primeiras exclusivas dos nobres. A partir da oitava classe, pessoas sem linhagem nobre podiam exercer o serviço público na classe de assessor de colegiado, o qual recebia também a patente de major e o direito de pleitear sua inclusão na classe da nobreza. Essa mistura de patente militar com classe funcional dava ao Estado russo uma

característica burocrática muito peculiar por misturar burocracia militar com burocracia civil, instituindo o uso de uniforme-farda para o tchinovnik. O leitor que desconheça esse fato jamais entenderá por que o detentor do mais alto cargo na hierarquia burocrática do serviço público russo tinha a patente de general se seu cargo era civil. Tal mistura também se deve ao prestígio de que a farda e o exército gozavam na sociedade russa. Como os tsares eram militares e viam no

exército o ideal de organização, a ordenação do serviço público a partir da Tabel’ o rangakh decorreu, segundo o criador da culturologia Iuri Lotman, da natureza de um poder que se espelhava na estrutura do exército. Daí sua psicologia de casta, seu arraigado corporativismo, seu autoritarismo, em suma, sua existência às vezes quase impermeável a um controle por parte do próprio Estado. Na consciência social russa, o tchinovnik sempre esteve associado ao uso de infinitos pormenores e formalidades para protelar e tornar extremamente confusos os processos judiciais e administrativos e assim abrir espaço para a propina, a concussão. Parece aquele ditado brasileiro: “é na hora da confusão que o malandro mete a mão”. É claro que há exceções, mas a força da imagem negativa que ficou na história parece apagá-las. Quase três séculos se passaram desde a instituição da Tabel’ o rangakh. Muita coisa mudou no mundo e sobretudo na Rússia. Mas a tradição burocrático-militar deixou marcas indeléveis na história russa, e até o socialismo, cujos ideais democráticos nortearam seus fundadores, acabou degenerando num “socialismo” burocrático de caserna. Torçamos para que Medvedev consiga mudar essa tradição.

PHOTOXPRESS

fogo e o gelo, e a primavera e o inverno. O romance deles chega a um ponto febril durante o solstício de verão, para depois se tornar um espiral de traições no outono, e separação e mor te no inverno. Possuída de raiva, Morana se transforma em uma bruxa terrível, espalhando morte e geadas. As lavouras se transformam em palha seca enquanto Iarílo se retira para um mundo subterrâneo. Com o retorno da primavera, os fiéis costumavam queimar uma estátua de palha com formato de Morana sobre um monte de neve para chamar Iarílo de volta à superfície. Quando as chamas estalavam e tomavam conta da estátua, os eslavos pagãos celebravam o retorno da primavera dançando, lutando e fartando-se de um grande banquete no qual as panquecas, redondas e amarelas, representavam o sol. Então os cristãos, sempre eficientes na reciclagem de feriados alheios, encontraram uma adaptação constrangedora para a Maslenitsa na leitura litúrgica da Páscoa. Na Rússia agrária, a quaresma serviu como uma desculpa espiritual conveniente para seguir uma dieta espartana, já que proíbe o consumo de carne, queijo, óleo, ovos, álcool e manteiga, ingredientes muito utilizados para dar sabor ao tradicional mingau de aveia. Conveniente porque os quarenta dias da quaresma coincidem com o período em que a quantidade de alimentos básicos que restava ao final do inverno era mínima. Nos dias de hoje, é claro que se pode comprar mangas ou carne em qualquer supermercado durante o ano todo, mas a maioria dos russos ainda se orgulha de cumprir “O Grande Jejum” como uma maneira de se agarrar a algum terreno moral superior e perder dez quilos

REUTERS/VOSTOCK-PHOTO

De origem pagã e adaptada à tradição cristã, festa também serve como um farto banquete antes da esquálida dieta da quaresma.

GETTY IMAGES/FOTOBANK

Panquecas anunciam chegada do sol

da massa e, em seguida, misture tudo. 4. Pré-aqueça o grill ou uma frigideira (temperatura média) e delicadamente espalhe a manteiga sobre toda superfície. Coloque mais ou menos 3 colheres de massa na panela, certificando-se de que a massa se espalhe uniformemente. 5. Deixe a massa fritar até que a parte superior fique dourada e crocante e seu miolo pareça seco. Vire-a. Cozinhe por cerca de

um minuto ou até que doure novamente, e depois tire do fogo. Empilhe um blin sobre o outro, pincelando-os com manteiga.

Modo de servir:

Na Rússia, o jeito mais popular de se comer blini é com caviar vermelho (existem redes de fast-food que vendem a iguaria em cada esquina), mas também pode-se degustá-los com creme de leite azedo, salmão, manteiga ou geleia.

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Para especialistas da indústria de carne e derivados, a exibição dispõe de equipamento completo para processamento, empacotamento, transporte e venda de produtos semi-prontos e prontos, incluindo certificação e estocagem. › www.vvcentre.ru

SAPATOS E COURO DE 28 A 31 DE MARÇO, EXPOCENTR, MOSCOU

A peça de Renato Andrade é baseada no clássico de Antón Tchekhov “As Três Irmãs”. Drama sobre o pânico do sentido de sobreviver e a espera por um amanhã obscuro e carente de perspectivas.

A feira é a mais antiga do setor de sapatos e curtume na Rússia e nos países da CEI (Comunidade dos Estados Independentes), e apresenta coleções atualizadas dos fabricantes. Uma boa oportunidade para estabelecer contatos com revendedores e representantes na região.

› www.indac.com.br/teatro

› www.expocentr.ru

O CONCERTO

JÓIAS E ACESSÓRIOS

CINEMAS PÁTIO HIGIENÓPOLIS (12H35) E RESERVA CULTURAL (13H), SÃO PAULO

DE 21 A 24 DE MARÇO, COMPLEXO DE EXIBIÇÕES MANEJ, MOSCOU

Um renomado maestro da orquestra Bolshoi, Andrei Filipov é demitido por contratar músicos judeus e decide reunir seus colegas e organizar um grande concerto em Paris. › www.reservacultural.com.br › www.cinemark.com.br

Realizada duas vezes por ano, a feira tem por objetivo colocar em contato fabricantes e compradores, distribuidores, fornecedores e consumidores. › www.gifts-expo.com

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