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Ano 3

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№ 26

Setembro de 2010

E o que é mesmo independência?

lá, Sem Terrinha! Você lembra daquela música “Marcha soldado, cabeça de papel, quem não marchar direito, vai preso pro quartel...”? Hum... quem já não ouviu falar dos desfiles de 7 de setembro? Todos nós aprendemos, principalmente na escola, que no dia 7 de setembro de 1822, um príncipe chamado D. Pedro, às margens de um rio chamado Ipiranga, bravamente gritou: “Independência ou Morte!”, e a partir daí o Brasil se separou e se libertou do outro país chamado Portugal... Parece até um conto de fadas daqueles que existem príncipes e princesas e que no final da história tudo acaba com a frase “foram felizes para sempre”!

Quem dera as coisas fossem como nos contos de fadas... Você já ouviu esta história de um jeito diferente? Que tal procurar saber um pouco mais do passado do nosso país? Nós temos que saber como essa história é desde o início, pois o que somos hoje é resultado de tudo isto. Quem sabe assim nós podemos mudar o rumo dela, não é? Aproveite nosso jornal, que tem uma história bem legal sobre a Gabi e suas idéias sobre eleições e a democracia. Boa leitura, e viva os Sem Terrinha!!!!


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noite caiu fria, aquele inverno era diferente dos outros para Gabriela. Pela primeira vez, enfrentava a época mais fria do ano no acampamento dos Sem Terra. No início ela estranhou, mas logo acostumou com a vida no barraco, com as brincadeiras, com a ciranda infantil.... já tinha até feito novos amiguinhos e amiguinhas. Seus irmãos mais velhos iam pra escola da cidade, caminhavam mais de meia hora até o ponto do ônibus. Já ela tinha mais sorte, pois estudava ali mesmo, na escola do acampamento, onde a chamavam de Gabi. Mas, além da nova casa, aquele inverno tinha outra coisa diferente. Todo dia à noite na TV passava um programa diferente, com homens e mulheres, todos bem vestidos, falando e falando, um após o outro... Chamavam aquilo de “propaganda eleitoral gratuita”. Que era uma propaganda onde aquelas pessoas pediam voto para alguma coisa ela entendeu, mas com o “gratuito” ela ficou em dúvida. Será que era porque não pagavam nada para falar??? Na TV também viu jornalistas chamando aquela votação de “festa da democracia”, que o Brasil era a “maior democracia do mundo” e aquela era a “maior eleição de todos os tempos”. Mas o pai da Gabi nunca tinha muita paciência para assistir aquilo e desligava a TV antes de o homem careca terminar de falar, e a sua mãe resmungava que eram todos um bando de ladrões do dinheiro do povo. Gabi, que sempre foi muito curiosa e se interessava por tudo o que ocorria à sua volta, começou a ficar confusa: como uma festa podia ser feita por ladrões?

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foi elaborado coletivamente pelos Setores de Educação, Comunicação e Cultura. Os desenhos foram feitos por crianças Sem Terrinha de todo o Brasil. Agradecemos também a todas as pessoas que de alguma forma contribuíram para este trabalho. Esta edição faz parte do Jornal Sem Terra nº 306 Correio eletrônico: semterrinha@mst.org.br Página na internet: www.mst.org.br

Será que “democracia” era só votar a cada dois anos? A dúvida ficou batendo na cabeça da Gabi por mais de uma semana. Até que no domingo teve a festa de aniversário do acampamento. Todo mundo se envolveu na preparação, teve mística de abertura, muita comida de milho; tudo estava enfeitado com muitas bandeiras do MST, e a música começou logo cedo. No dia da festa, entre tantas visitas, estavam os seus tios e primos. De todos os primos da Gabi, um era especial: o Matheus. Ela sempre gostou muito dele. Um dia, todo mundo da família ficou assustado com a notícia de que Matheus tinha sido preso por participar de uma manifestação contra o aumento da passagem pros estudantes, lá na capital. Ela lembra de sua tia chorando e soluçando. Depois de três dias preso, foi solto com seus companheiros. Aquele dia Gabi ficou toda orgulhosa do seu primo, da firmeza com que enfrentou a prisão, da sua coragem e determinação de lutar pelos outros. Fazia tempo que Gabi não via o Matheus, mas ela lembrava exatamente como era o quarto dele: paredes coloridas forradas com cartazes, pilhas de livros por todo o quarto e uma bandeira que ela nunca vai esquecer, que Matheus contou que era de um país pequenino mas muito especial, chamado Cuba. E ele falava tanto de Cuba que ela ficava pensando que lá deveriam existir muitas pessoas iguais ao seu primo querido. Gabi não pensou duas vezes, e depois de dar um abração no primo, já foi logo perguntando sobre a sua dúvida: o que é democracia?

O espaço também é seu!

Escreva você também para o Jornal das Crianças Sem Terrinha. Mande suas críticas, elogios, sugestões, poesias e desenhos. Anote aí o nosso endereço: Alameda Barão de Limeira, 1232, Campos Elíseos, São Paulo, SP CEP 01202 - 002 Correio eletrônico: semterrinha@mst.org.br

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Matheus sentou com Gabi debaixo de uma mangueira enorme, bem na praça da escola, e ficou um tempão conversando com ela. Explicou que vivemos em uma democracia limitada, imperfeita, chamada de “democracia burguesa”. Nesta democracia, o nosso papel é só votar a cada dois anos e pronto. A classe dominante (burguesia) se mantém no poder porque tem muito dinheiro e não está preocupada em resolver os grandes problemas do povo, como a Reforma Agrária, a reforma urbana, o trabalho para todos, moradia, saúde, educação etc. Na verdadeira democracia, nós não entregamos para outros o papel de decisão, estudamos e nos inteiramos dos assuntos, discutimos e nós mesmos decidimos. Esta é a chamada “democracia popular e participativa” (ou “democracia socialista”), e nela o poder está nas mãos do povo organizado. Gabi achou tudo muito bonito, mas perguntou se isto existia mesmo ou se Matheus conhecia só

dos livros que tinha. Ele respondeu que a verdadeira democracia necessita de todo um processo de construção, que não é fácil, pois ela enfrenta os donos de bancos, os latifundiários e todos os poderosos. Mas explicou que ela está sim em construção em vários lugares do mundo, como Cuba, Venezuela e Bolívia, por exemplo. Na Bolívia, hoje, sua população escolhe até os juízes e promotores. Depois de tanto conversarem, Gabi respirou fundo, olhou a movimentação toda da festa e o céu azul e ensolarado. Pensou no dia-a-dia do acampamento, no monte de reuniões, nos coordenadores e coordenadoras, nos debates nas assembléias, nos assuntos que iam e vinham, e em como eram tomadas as decisões. Abraçou forte o seu primo e ficou com a certeza de que é possível, sim, a gente ter outro tipo de demoracia... Colaboração de Talles Reis, do MST-Paraná (atualmente contribuindo na Escola Nacional Florestan Fernandes)

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Uma estória sempre tem começo, meio e fim, não é mesmo? As figuras ao lado mostram o crescimento de uma plantinha, mas elas não estão na ordem correta. Vamos consertar? Numere as imagens de acordo com o que aconteceu primeiro e depois pinte com cores bem bonitas!

Dica de atividade: PREPARAÇÃO DA JORNADA DE OUTUBRO Outubro vem aí, e com ele mais uma Jornada dos/das Sem Terrinha. É hora de aproveitarmos para debater com as crianças as relações de poder, no sentido de contribuir para sua formação político-organizativa. Vamos realizar um encontro preparatório? Aí vão aparecer muitas questões que podemos – e devemos! – discutir com eles: vamos fazer um encontro regional? Vai ter encontro estadual? Do que nós precisamos, com quem vamos conversar e como podemos ajudar a fazer um encontro bonito

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e divertido? Temos problemas e dificuldades com as escolas do nosso acampamento, assentamento ou região? Faça junto com as crianças uma lista, envolvendo-as com as tarefas com as quais possam contribuir diretamente; incentive-os a produzir uma carta para a militância convidando todos e todas a participar. É de pequeninos que vão aprendendo – e nós, aprendendo com eles também – a se organizar, ouvir um ao outro, dividir o trabalho e assumir responsabilidades.

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