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por

Muriel Mendes

http://pulsares.blogs.sapo.pt/

Yarn Bombing por B-Arbeiten

É engraçado como todos nós criamos o nosso próprio mundo, cheio de certezas absolutas. Montamos os pilares da nossa alma de forma a ninguém os poder abalar. Enchemo-nos de rigorosas regras, sem nunca pôr em dúvida as nossas linhas orientadoras. Seguimos em frente, quase que fugindo, para não correr o risco de ser abalroado nas nossas certezas absolutas. Temos medo de parar. Temos medo de ouvir. Temos medo de duvidar. Temos medo de entender. Temos medo de mudar. Porque quando temos tantas certezas, é difícil reconhecer que talvez, talvez nos tenhamos enganado. Talvez haja outra maneira de fazer o que queremos ser. Talvez a pessoa que somos possa vir a ser a pessoa que um dia sonhamos ser.

E é difícil. É difícil reajustar quem somos. Já nada é claro, já nada é certo. Já tudo está sobre nós. O nosso mundo é abalado. O que pensávamos conhecer afinal já não conhecemos, já mudou. A pessoa que nos resignamos a ser afinal pode mudar, afinal até pode ter sido uma farsa este tempo todo. É difícil abrir-se ao mundo e começar numa página em branco. A nossa mente não está programada para ser vulnerável. A nossa mente é forte e atrapalhase com incertezas. Mas a nossa mente só aprende quando admite não saber. A nossa mente evolui ao deixar-se ensinar. A nossa mente supera-se quando se expõe à dúvida e volta a criar uma certeza sabendo que, certamente, será apenas temporária. É engraçado como todos nós criamos o nosso


próprio mundo, mas mais engraçado é quando o fazemos depois de nos expormos aos mundos dos outros. Todos nós precisamos sentir segurança no que somos, mas eu aprendi nestes últimos tempos que, apesar de difícil, todos nós temos a ganhar em sair da nossa bolha. Eu sinto por vezes um certo receio na pessoa que me estarei a tornar, fora das minhas certezas absolutas e julgamentos prévios. Ter opções pode ser destabilizante, para quem vive numa estrada sem saídas. A auto-estrada é apelativa para muitos, mas quando saímos pela nacional podemos facilmente cair na distracção e esquecer o nosso destino inicial, acabando por ir parar a outra cidade que nem estava no nosso mapa, que desconhecíamos. Por isso, no final do dia, aprendo que a vida é feita de crescimento. Aprendemos e evoluímos enquanto seres

humanos. Não somos uma constante, mas sim uma variável. Viver é mudar, moldar-se às circunstâncias. Viver é lutar pelo que queremos ser. O mais provável é amanhã descobrirmos que aquilo que pretendíamos ser já não é o que somos. O mais provável é amanhã descobrir que aquilo que nos tornamos é exactamente o que temos de ser, neste exacto dia.

How do You Measure Your Life, um quadro de Stephanie Clair

As Certezas que Temos  

É engraçado como todos nós criamos o nosso próprio mundo, cheio de certezas absolutas. Montamos os pilares da nossa alma de forma a ninguém...

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