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Jornal Laboratório do Curso de Jornalismo. Campo Grande - MS - Ano 8 - Nº 57 - Abril de 2011 - Distribuição Gratuita - Venda Proibida

Catadora de material reciclável mantém filho na faculdade e tem internet em casa FOTO: VAL REISS

O CCZ deve exterminar o mosquito, não os animais. FOTO: VAL REISS

Cão com leishmaniose pode ser tratado

Cães que apresentam leishmaniose, em Campo Grande, estão sendo sacrificados. Isso tem gerado revolta em alguns donos de animais que se recusam a entregá-los para a eutanásia.

Oliveira com o carrinho de madeira que utiliza para recolher papelão

LEIA MAIS na pág. 8

Levantar às cinco horas da manhã, todos os dias, faz parte da rotina de Elizabeth Oliveira, 47 anos. Ela percorre as ruas próximas do bairro Rouxinóis, em Campo Grande, com um carrinho de madeira, recolhendo papelão, garrafas pet, alumínio e todo material reciclável que pode ser vendido, para manter seu filho na faculdade particular e a internet que colocou em casa. LEIA MAIS na pág. 5

Hippies ainda sofrem preconceito, apesar dos tempos pós-modernos

Aumento da frota de veículos provoca problemas no MS

Histórias sobre fantamas são comuns no MS FOTO DIVULGAÇÃO

FOTO: DAYANE REIS

FOTO DIVULGAÇÃO BLOG CRESCENDO NOVAS IDEIAS

A principal fonte de renda dos hippies é o artesanatos

Muitas vezes vistos pela sociedade como bandidos, os hippies atuais vivem do seu artesanato e de sua arte em geral, enfrentando diversos tipos de preconceitos. LEIA MAIS na pag. 4

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DETRAN revelou que frota de veículos no MS cresceu nos últimos 10 anos

Estudo revela que, entre 2001 e 2010, a frota de veículos do Mato Grosso do Sul cresceu 120%, sendo que boa parte desse número foi de motocicletas. LEIA MAIS na pag. 7

Porta bater sozinha, panelas caírem, possessões. Quem nunca ouviu alguma história parecida? Afinal, fantasma existe ou não existe? LEIA MAIS na Pág. 7

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EDITORIAL A Folha Guaicuru chega ao número 57 com algumas inovações. Agora, há chamadas nas primeiras páginas e os diagramadores tiveram preocupação com o equilíbrio entre os espaços cheios e vazios, tornando o jornal mais harmônico. O leitor terá a oportunidade de ler matérias que abordam questões econômicas, políticas e sociais. O objetivo é refletir sobre os problemas e as soluções que a sociedade atual tem enfrentado. Os repórteres foram a campo e se empenharam para realizar um retrato colorido e em branco e preto da realidade sul-mato-grossense. As descobertas foram muitas. Catadores de papelão, vendedores ambulantes, hippies e toda a economia informal estão aqui. São fatos do presente. De uma atualidade nem sempre tão fácil de capturar e compreender. O salário mínimo sofreu alterações. E daí? É a pergunta. O cão, animal de estimação muito querido, principalmente pelas crianças, tem sido ameaçado pelo mosquito da Leishmaniose. O que é melhor fazer? Há tratamento? Os hippies ainda sofrem preconceito. Por quê? Catadores de papelão prestam grande serviço à comunidade. São reconhecidos? É mais fácil adquirir um veículo, o que todos julgam muito bom, mas quais são as consequências? Por fim, as lendas urbanas e seus fantasmas fazem parte de nossa realidade. Essa é uma afirmativa que pode ser tomada como metáfora do nosso cotidiano. A vida é um pouco assim e o jornal tem por compromisso levar até você, leitor, um pouco dessa realidade feita de assombros e alegrias. Somos urbanos. Somos atuantes. É a Folha Guaicuru. É você, leitor amigo. Boa leitura.

EXPEDIENTE Faculdade Estácio de Campo Grande Direção Geral: Juliana Maria Silva de Rezende Valle Curso de Jornalismo da Faculdade Estácio de Campo Grande Coordenação de Curso: Profª Juliana Feliz - DRT 018/MS Coordenador Interino: Profº Osvaldo Passos - DRT 091/MS Jornalista Responsável: Profª Denise Sampaio Ferraz

Jornal Laboratório do curso de Jornalismo da Faculdade Estácio de Campo Grande, produzido pelos acadêmicos do 5º ao 8º semestres, sob orientação dos professores: Denise Sampaio Ferraz (Laboratório de Jornalismo Impresso II e Surpevisão de Editoração Eletrônica e Planejamento Gráfico) Reportagem: Adamo Antonioni, Amparim Lakatos, André Farinha, Beatriz Cruz, Flavia Cristina, Gilza Lopes, Jessica Honorio, Lilian Andreia, Marcos Brasil, Marcos Vínicios, Maria Clara Silva, Mariana Coli, Milton Oliveira, Natália Gonçalves, Paulo Victor, Rayani Andrea, Val Reiss. Projeto Gráfico: Amparim Lakatos, Paulo Victor e Val Reiss Tiragem: Mil exemplares Contato: Rua Venâncio Borges do Nascimento, 377 - Jd. TV Morena. CEP: 79050-700 - Campo Grande/MS - Fone/FAX: 55 (67) 3348-8800. E-mail: folhaguaicuru@gmail.com As matérias aqui publicadas não representam a opinião da instituição e de seus dirigentes. Reprodução permitida desde que citada a fonte.

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Fumantes têm dificuldade para abandonar o vício Por Gilza Lopes FOTO AMPARIM LAKATOS

monocíclicos ou tricíclicos e anti-hipertensivos). A psicóloga Clara Lemos, por sua vez, acredita que a utilização de medicamentos e gomas não é o suficiente. Lemos considera como essencial para o abandono do vício a disposição para realizar uma terapia cognitiva comportamental, porque esse tipo de terapia ensina o fumante a lidar com a dependência, livrando-o dos hábitos, manias e costumes que adquire como fumante. Mas mesmo sabendo dos malefícios provocados pelo cigarro, muitas pessoas fumam a vida toda. Maria Eufrazia dos Santos, 76 anos, dona de casa, diz que fuma desde os 10 anos e que seus pais nunca a proibiram. “Sou da época que fumar era chique”, afirma. E apesar de seus filhos e netos insistirem para que pare de fumar, Terapia cognitiva ajuda a parar de fumar Eufrazia dos Santos não pretende parar. “já esimpostos recolhidos. Esse tou velha, não morri até tabaco é o maior fato provocou a delibera- agora”. O pensamento de agente causador de doen- ção de leis estaduais coi- Eufrazia é compartilhado ças e mortes prematuras bindo as pessoas de fuma- pela maioria dos fumanda sociedade contemporâ- rem em espaços públicos tes. nea. O vício está associado e, também, a divulgação São inúmeros os benefícios a 30% das mortes por cân- de propagandas com aler- provocados pelo abandono cer. Segundo dados do Mi- tas sobre os malefícios do tabaco. De acordo com nistério da Saúde, 90% das que o uso do cigarro pro- o diretor do Laboratório Bio Med, Edeval Soares, pessoas morrem devido voca à saúde. ao câncer de pulmão, 30% O doutor Aldo Garcia, in- quando uma pessoa está por doenças coronárias, fectologista do hospital do fumando, o organismo 85% por doenças pulmona- câncer de Barretos, São passa por várias alterares obstrutivas crônicas e Paulo, diz que o cigarro ções. A pressão sanguínea 25% por doença cerebro- causa duas dependências: fica elevada após 20 minua física e a psicológica. De tos de inalação da fumavascular, entre outras. Mesmo o Brasil sendo, acordo com Garcia, a de- ça, o nível da nicotina no desde 1993, o maior ex- cisão de largar o cigarro organismo diminui apenas portador e o quarto maior surte mais efeito quando 8 horas após a inalação e produtor de tabaco do acompanhada por profis- são necessárias 48 horas mundo, o que proporciona sionais. Para ele, não é im- sem inalar a fumaça do um significativo recolhi- possível o usuário de taba- cigarro para que não haja mento de impostos para a co parar de fumar, pois a mais vestígios de nicotina economia do país, os gas- ciência dispõe de recursos no corpo. O ex-fumante tos do governo com trata- bem conhecidos tais como só consegue eliminar do mento médico decorrente a goma de mascar, os ade- seu organismo os vestígios do hábito de fumar são sivos e a terapia medica- deixados pelo cigarro após bem maiores do que os mentosa (antidepressivos um ano do abandono.

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Mínimo dos Mínimos não cobre despesas Por Maria Clara Silva

Em fevereiro deste ano, o Senado Federal definiu o salário mínimo, um dos direitos sociais previstos no art. 7º da Constituição Brasileira e que, segundo o item IV, desse mesmo artigo, deverá ser capaz de atender as necessidades vitais básicas do trabalhador e de sua família. Apesar de algumas propostas de partidos de oposição, venceu a do governo – a de menor valor: R$ 545,00. Mas será que esse valor atende as necessidades do trabalhador? Silvana Aparecida Rocha, 31, doméstica, é uma de tantas brasileiras que recebem salário mínimo. É ela quem vai responder a questão. Paranaense de Jandaia, Aparecida Rocha vive em Campo Grande desde os sete anos. Atualmente, mora no Bairro Amambaí, em casa alugada, com três cômodos: quarto, sala, banheiro. Tem, também, uma minúscula área de serviço. Com ela, moram dois filhos, um menino com 6 anos e uma menina de 12 anos.

coisinha... Se ficar doente tem o posto, mas é só para uma coisa simples. Doença, quando complicada, até tem médico, mas tem que comprar remédio.” Constitucionalmente, fica faltando alimentação, lazer, vestuário e higiene. Tudo isso tem de sair dos R$149 reais que sobraram. Numa pesquisa de mercado, feita em princípios de fevereiro/2011, encontramos alterações significativas nos preços das cestas básicas. Considerando uma família de quatro pessoas, as cestas variam de R$130,00 até R$195,00 reais (perspectiva média para um mês). Existem outras mais baratas, porém, não incluem material de higiene. Com o saldo disponível (R$ 149,00), Aparecida Rocha poderia comprar uma cesta de R$130,00, contendo 22 itens, entre alimentação e higiene. Nessa cesta fica faltando produtos de higiene como desodorante, pente para cabelo, escova dental (fio dental, nem pensar), xampu. Quanto à alimentação, fica de fora do pacote: leiNa ponta do lápis te, pão, manteiga, frutas Aparecida Rocha abriu e carne (indispensáveis sua contabilidade familiar para o crescimento saupara a Folha Guaicuru. O dável das crianças). Após aluguel da pequena casa muitas contas, Aparecileva 48% do salário que da Rocha desabafa: “Não ela recebe. A conta de luz dá.” consome13% e a de água 7%. Seus gastos fixos ficam O que dizem os espeem torno de 68% sobran- cialistas do, para outras despesas, o valor de R$ 149,00. Segundo Kelly Wolff, 27, É impossível fechar as economista e professora contas de Silvana Apare- universitária, o aumento cida Rocha. Mais da meta- do salário mínimo tem por de do salário que recebe objetivo manter o poder vai para moradia (aluguel, de compra dos assalarialuz e água), transporte dos. “Pela ótica da políela não precisa, educação tica econômica, ainda é e saúde são por conta do cedo para se falar em pomunicípio. Mas Silvana es- lítica monetária expansiva clarece que, “apesar dos ou restritiva. A meu ver, meninos receberem os esse aumento foi uma formateriais escolares, sem- ma utilizada pelo goverpre precisam de alguma no para manter o poder

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FOTO AMPARIM LAKATOS

Salário mínimo não cobre as despesas dos brasileiros e as dívidas acumulam no final do mês

de compra da população, visto que a taxa de inflação tem aumentado. Em 2010, o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor) fechou em torno de 5,9%, taxa considerada alta. No início de 2011, o índice de inflação, que regula o aumento dos aluguéis de imóveis, o IGP-M, chegou a 11,4. Em Janeiro de 2010, o acumulado estava em 0,63%. – é uma diferença considerável.” Para a economista “o aumento não vai melhorar a qualidade de vida da população que recebe o salário mínimo. O aumento vai apenas manter, ou talvez piorar o poder de compra, já que as taxas de inflação podem aumentar. Esse assunto é tão preocupante para o governo que, no mês de Fevereiro/2011, o COPOM (Comitê de Política Monetária) aumentou a taxa Selic, que baliza todas as outras taxas da economia, para conter a inflação por meio da restrição do consumo.

Final das contas

mínimo para atender o que prevê o art. 5º da Consti Segundo Estudos da ANFIP tuição Federal. Para o mês – Associação Nacional dos de Dezembro de 2010 (úlAuditores Fiscais da Re- timo cálculo disponível), o ceita Federal do Brasil, o salário mínimo deveria ser crescimento real do salá- de R$ 2.227,53”. rio mínimo pode ser repre- Fazendo uma conta simsentado por meio de um ples, dividindo o que seria gráfico com uma reta que necessário para a sobrevisobe e desce de maneira vência digna do trabalhacíclica. Esse gráfico mos- dor pelo valor do salário tra que o crescimento, em mínimo atual, tem-se que 2011, é um dos mais bai- R$545,00 reais represenxos quando equiparando tam um 1/4 do valor calculado pelo DIEESE. Por ao de 1998. Wolff informa que “o DIE- esta informação básica, ESE (Departamento Inter- pode-se inferir que o sasindical de Estatística e lário mínimo não atende Estudos Socioeconômicos) à própria Constituição do calcula mensalmente qual Brasil. deve ser o valor do salário FOTO MARIA CLARA SILVA

Silvana Aparecida Rocha e seu filho. “Melhor não fazer contas...”

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Hippie ainda sofre preconceito, apesar dos tempos pós-modernos

Texto e Foto Beatriz Cruz

Hippie atrai curiosidade dos passantes

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algumas simpatias, hoje, a década de 60, nos as coisas não mudaram Estados Unidos da Amé- tanto. Muitas vezes vistos rica, houve uma revolu- pela sociedade como banção artística que teve por didos, os hippies atuais objetivo lutar pelos ide- vivem do seu artesanato ais de paz e amor, tanto e de sua arte em geral. É para os países em guerra, o caso de André, conhecicomo para o mundo. O do por seus amigos como lema dos integrantes des- Tuia, que trabalha fazense movimento era: amor, do bijuterias. Tuia diz que desprendimento do mate- não existe mais comunidarialismo e total liberdade de hippie e se denomina de expressão. É assim que surge o conhecido Movimento Hippie. Mochila nas costas, sandálias de couro e cabelos compridos, eram as características dos integrantes desses grupos de jovens que queriam romper com o conservadorismo da sociedade americana e propor novos modos e modelos de um “Maluco de BR” - “paz e amor, hoje em dia, é vida. Cinquenta anos após o apenas nas fotos”. apogeu desse movimento, Tuia nasceu em Santa Caainda pode-se encontrar tarina e já viajou pelo Brapor aí, inclusive no Brasil, sil inteiro. Acreditando na pessoas que levam o estilo filosofia hippie, fez desse de vida e o mesmo ideal estilo de vida uma opção. que os hippies da década Ele afirma que até hoje as de 1960/70 tiveram. No pessoas têm preconceito entanto, se naquela época para com quem escolheu os hippies foram critica- fazer do amor e do “viver dos e mal vistos, apesar de com a história e a geogra-

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fia no sangue” uma forma de sobreviver no mundo. “Por vivermos na rua e não nos importarmos com a nossa aparência, pensam que todos os Malucos de BR são drogados e que não tomamos banho. As pessoas fogem como se fossemos roubá-las, sendo que só queremos mostrar a nossa arte. Somos seres humanos como qualquer

esse estilo de vida hippie é muito inspirador e disse - “se tivesse coragem, em um momento de impulso, viveria como um hippie sem problemas”. Amaral parece dizer o que todos pensam sobre os malucos de BR - “Os hippies passam uma imagem de coragem e liberdade. Gostaria de viver de lugar em lugar como eles. Eu acho legal essa ideologia, a filosofia de vida deles”. Amaral completa dizendo que acha que ser hippie “não significa viver de artesanato e dormir na rua”. As controvérsias, por outro lado, existem. Marcella Christina, 21, tecnóloga, diz que acha o estilo de vida hippie sujo e que não teria coragem de ser como eles. Para Christina, o artesanato dos hippies representa uma forma honesta de ganhar dinheiro. Entretanto, não é uma forma de vida que ela adotaria para si. Ailton Planta, 38, carioca,

afirma ser artesão desde criança. Planta viajou por vários estados do Brasil e por mais seis países da América Latina, “Viajo a 22 anos em busca de conhecimento. Vou de carona mesmo”, disse Planta. Planta tem um vasto conhecimento sobre arte em geral, pois já trabalhou com pintura em tela e escultura e hoje faz pinturas em azulejos, reproduzindo fotos, paisagens e suas próprias criações. Planta se denomina um “Macunaíma”, pois se sente um canibal cultural. “O que eu ganho com a minha arte dá para sobreviver, o ruim é a falta de liberdade de expressão que tenho.” De acordo com Planta, a lei passa em cima da arte - “A Constituição diz que devemos ter liberdade, mas a prefeitura nos proíbe de expor nosso trabalho e fazermos disso um ganho. Mas pela arte, e pela nossa filosofia, estou disposto a prosseguir”.

um”, diz Tuia, indignado. Tuia já trocou seu artesanato por prato de comida, um bom banho e uma noite de abrigo. Atualmente, o que ganha com as vendas é o suficiente para sobreviver, afirma Tuia. No entanto, o preconceito não é geral. Leonardo Amaral, 20, acadêmico de Matemática da Unicamp, Artesanato hippie é exposto na praça por exemplo, acha que

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Catadora de material reciclável mantém o filho na faculdade e tem internet em casa Texto e foto: Val Reiss

Levantar às cinco horas da manhã, todos os dias, faz parte da rotina de Elizabeth Oliveira, 47 anos. Ela percorre as ruas próximas do bairro Rouxinóis, em Campo Grande, com um carrinho de madeira, recolhendo papelão, garrafas pet, alumínio e todo material reciclável que pode ser vendido, para manter seu filho na faculdade particular e a internet que colocou em casa. “O que chateia é que muitas pessoas têm preconceito e acham que somos mendigos. Embora a gente sobreviva do que é jogado fora, somos trabalhadores, e mais, estamos deixando o planeta melhor para a geração futura”, afirma Elizabeth, cheia de mágoa e demonstrando muita consciência do aspecto importante que seu trabalho tem para a sociedade. “Muitas pessoas são legais e nos dão roupas, calçados e móveis novinhos, que podemos usar ou doar para outras pessoas. A

gente tira nosso sustento daqui e é um trabalho como qualquer outro” explica.

Aumento de Renda Com o seu trabalho de catadora, Oliveira arrecada

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Elizabeth Oliveira paga a faculdade do filho com a coleta do papelão

em torno de um salário mínimo por mês. Não é o bastante, então aumenta sua renda fazendo artesanato. Um dos instrumentos de trabalho utilizados por ela é a internet. É pela internet, que ela julga essencial, que Oliveira descobre modelos novos

para seus artesanatos. Ela acrescenta - “Como a coleta de papel ocorre geralmente muito cedo, tenho tempo livre e faço meus artesanatos. Tenho facilidade com isso. Hoje, bordo havaianas, faço chaveiros e uma infinidade

de coisas que vendo para conseguir renda extra, mas o que mais conta são os materiais recicláveis”. Oliveira guarda o material que arrecada como coletora de papel em um espaço no quintal de sua casa. Posteriormente, esse material é encaminhado para o revendedor que vem, pesa e leva tudo o que é aproveitável. O pagamento é feito na hora. Oliveira informa - “Já faz mais de nove anos que vendo para o mesmo revendedor. Isso

dá certo porque, quando a coisa aperta, ele adianta dinheiro pro gás, ou outra conta urgente. A gente vai levando” – reflete. Assim como Oliveira, diversas famílias vivem do que recolhem nas ruas. Mas como a função de catador é uma atividade totalmente informal, não existem estatísticas confiáveis que permitam determinar a quantidade de empregos e a produtividade do setor para Campo Grande.

Espaço onde o material reciclável é armazenado na casa de Oliveira

Dificuldades Vencidas Oliveira relata, ainda, que em 2009 teve um diagnóstico de câncer, o que a impediu de ir para as ruas, e isso fez com que as dificuldades aumentassem. A família e alguns vizinhos se juntaram e ajudaram, senão ela teria passado até fome. Hoje, completamente curada, já está novamente buscando os materiais recicláveis na rua, e sente orgulho de ter seu filho na faculdade e internet em casa. “A vida dele, seu futuro vai ser totalmente diferente. Ele está fazendo Engenharia da Computação e é muito inteligente. Ninguém acredita quando digo que meu filho está na faculdade”. Para Oliveira, o sucesso do filho significa seu próprio sucesso, afinal, ser catadora de material reciclável, embora nem sempre seja uma profissão valorizada, está lhe proporcionando condições de melhoria de vida para ela e toda a família.

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Ambulantes sobrevivem tendo porcentagens mínimas de lucro Por André Farinha FOTO: LEONARDO FREITAS

Ambulantes trabalham no mercado alternativo

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mbulantes já formam uma categoria de trabalhadores bastante conhecida nas ruas, praças e terminais de ônibus da cidade de Campo Grande. Muitos deles optam pelo mercado informal após intensa procura por trabalho sem que o almejado emprego com carteira assinada apareça. Eles formam uma economia periférica, quase sempre à margem do mercado tradicional. É a chamada economia informal. Alguns desses vendedores são aposentados que querem aumentar a renda familiar ou simplesmente não querem ficar “parados” após a aposentadoria. Outros têm a profissão passada de geração para geração. São aqueles que gostam do que fazem e prezam a liberdade que a autonomia do mercado informal proporciona. O fato é que vendedores ambulantes, ou autônomos, como também são conhecidos, estão presentes em vários lugares da cidade, desde praças, ruas do cen-

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tro ou mesmo batendo na porta das casas, sempre com algum produto para oferecer. Sem salário fixo, os vendedores ambulantes precisam trabalhar duplicado para ter uma renda razoável. No dicionário Aurélio, a palavra ambulante significa todo aquele que não permanece no mesmo lugar, que não tem ponto fixo. O vendedor ambulante é, portanto, um nômade que vende de tudo, desde CDs, roupas e salgados, até produtos de limpeza. Alguns dos produtos que disponibilizam para venda são comprados no Paraguai, outros, na Bolívia ou em Goiânia. Muitos desses produtos são fabricados por eles com a ajuda dos familiares. O número de vendedores ambulantes tem aumentado nos últimos anos e a causa principal é, sem dúvida, a dificuldade que grande parte da população tem encontrado para se empregar no mercado tradicional. O desemprego é o grande “vilão” provocador da economia infor-

panos de prato. Fábio Silva é outro ambulante conhecido nas ruas de Campo Grande, pois já faz três anos que vende chipa dentro dos terminais de ônibus. Ganhando o equivalente a R$ 0,30 centavos por chipa, Silva relata que consegue, dessa forma, receber quase trinta reais por dia. É pouco, diz ele. Tanto que para sustentar os quatro filhos, sua mulher também teve que aderir à profissão de ambulante vendendo, de porta em porta, roupas, lençóis e peças íntimas. Questionado sobre a pequena porcentagem que mal, tanto é que, segundo lucra sobre o produto, Sildados da Associação de va salienta que se for mais Vendedores Ambulantes caro, dificilmente irá ven(AVA), em Campo Grande, der. “Ganho pouco, mas se mais de 800 pessoas sobrefor mais do que isso, ninguém vai querer comprar, ficaria pior”. Ele ainda diz que mesmo com a ajuda de sua esposa, a renda é baixa. Tanto Reis, como Silva e sua mulher, singularizam um aspecto interessante da economia informal: o baixo custo do produto e o vasto interesse da populavivem apenas do trabalho tinha 20 anos. Reis, na ção por um mercado que, ocasião desempregado, vendendo de tudo um pouinformal. O presidente da Associa- precisava sustentar a mu- co, vem se firmando como ção de Vendedores Am- lher e o filho que acabara espaço opcional, tanto de bulantes, Vicente Reinal- de nascer. Desde então, já trabalho como de compra. do Peixoto, contou como se passaram dez anos e as É claro que na economia funciona a AVA, entidade vendas no mercado infor- informal o custo mais baque também é responsá- mal continuam. Reis rece- rato dos produtos agrada vel pelo camelódromo de be por dia de R$ 50,00 a aos fregueses, por um lado Campo Grande. “O am- R$ 100,00 reais. Algumas e, por outro, dinamiza e bulante interessado deve vezes, Reis parou de ven- proporciona meios de soprocurar a sede que fica der como ambulante, mas brevivência para aqueles no piso superior do came- não conseguindo manter o que não conseguem, por lódromo e comprovar que emprego, retomou o espa- motivos os mais variados, é um vendedor ambulan- ço das ruas e o mercado estarem integrados com o te. Ao se filiar, ele rece- informal. Hoje, já desis- mercado de trabalho trabe orientações de como e tiu de tentar algo fixo dicional que é bastante onde pode trabalhar”. O e cada vez mais inves- competitivo. camelódromo possui mais te em novos produtos, Qual é a opção para esses de 460 ambulantes e rece- como toalhas de banho e trabalhadores? be, por dia, em seu espaço, em torno de 6 a 8 mil pessoas. Entretanto, nem sempre a opção pelo trabalho como revendedor ambulante surge, apenas, como única opção ao desemprego. Muitas vezes, o trabalho como ambulante começa com o desemprego e depois prossegue, ora por gosto, ora por dificuldade para se firmar no mercado, o que justifica a fluidez de associados e de mercadorias que são disponibilizadas por aqueles que trabalham nesse setor. É o caso do vendedor ambulante Aguinaldo Reis. Ele revende tapetes e redes que compra em Goiânia (GO). Ele começou ainda jovem, quando

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Aumento da frota de veículos causa problemas no MS Estudo realizado pelo DETRAN revelou que a frota de veículos no MS cresceu muito nos últimos 10 anos. Texto e Foto: Flávia Cristina de Abreu

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Departamento Estadual de Trânsito de Mato Grosso do Sul divulgou, em Setembro do ano passado, o índice de crescimento da frota de veículos ocorrido no Estado do Mato Grosso do Sul nos últimos dez anos. Este estudo revela que, entre 2001 e 2010, a frota cresceu 120%, sendo que boa parte desse número foi de motocicletas. Segundo a pesquisa, a maior concentração desses veículos encontra-se na capital, onde o percentual de evolução foi de 104%. Em torno de 199.014 veículos circulam, atualmente, pela cidade de Campo Grande. Já o total de veículos circulando em todo o estado é de 438.457. No ano de 2008, o crescimento da frota de veículos de Mato Grosso

do Sul superou o aumento populacional, tanto em números absolutos, quanto relativos. Em Campo Grande, assim como em todo o Estado, esse aumento considerável deve-se principalmente à grande facilidade que as pessoas estão encontrando para financiar a compra de carros e motos e, também, aos incentivos que o governo tem dado, apesar da crise, para que as pessoas adquiram um veículo. O aumento da frota de veículos, no entanto, tem provocado alguns problemas, entre eles, o avanço do número de acidentes de trânsito em MS, pois esse número está diretamente relacionado com o volume de frota de veículos em circulação. Segundo informações repassadas pela

Em torno de 199.014 veículos circulam pela cidade de Campo Grande

Assessoria de Comunicação do DETRAN/MS, em Campo Grande, o número de acidentes, só em janeiro desse ano, ultrapassou a média de 56%, sendo 434 com vítimas não fatais. Um setor que vem ganha-

do espaço, com o crescimento da frota de veículos, é o ramo das oficinas de funilaria e pintura. Segundo Clayton Nantes, empresário do setor, “com o aumento da frota de veículos, aumentou também

os acidentes de trânsito e, consequentemente, a oficina vive sempre cheia. Há casos em que a demanda é muito grande e o cliente tem que esperar até 10 dias para poder ter seu carro arrumado.”

Lendas sobre assombrações são comuns em MS Por Adamo Antonioni

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orta bater sozinha, panelas caírem, possessões. Quem nunca ouviu alguma história parecida? Fantasmas, vultos e coisas do além povoam a mente de grande parte dos brasileiros e, às vezes, ultrapassam o limite do imaginário. Aqueles que presenciaram algo do tipo juram de pés juntos que “eles” existem. E os que não acreditam, preferem nem tocar no assunto. Afinal, existe ou não existe? Para a freira Ana Rodrigues, 89, não existe. Fantasmas e coisas do além são coisas que a mente humana cria. Mesmo assim, a religiosa afirma que antigamente era comum história sobre lobisomem. “Naquele tempo, acreditava-se que os homens que não casavam na igreja viravam lobisomem na

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sexta-feira santa,” relembra a freira entre risos. Ao retornar da casa de sua ex-namorada, o fotógrafo Marcílio Rocha da Silva levou um grande susto. Era quase meia noite, estava sozinho. Quando atravessava a ponte da Avenida Roseira, um barulho assustador o pegou de surpresa. “Parecia uma batida forte. Quando ouvi, saí correndo de medo,” diz.

bração e reencarnação, apesar disso, jura ser verídica a história que conta. Toninho era um jovem tranqüilo, trabalhador, que gostava de ajudar o padre Rei na igreja, mas de repente começou a ter um comportamento alterado. “O rapaz dava uns acessos que entortava todo o corpo, o olho virava, a voz ficava esquisita,” ressalta o padre. Várias vezes foi chamado pela família de Toninho para Exorcismo realizar orações e aspergir O padre Reinirio Rojas Peágua benta. reira, 63 anos, e 23 deSegundo o religioso, a dicados a vida religiosa, alma que se manifestava lembra que acompanhou no rapaz queria se vinum caso de possessão dugar da família dele. Há rante dois anos na cidade 80 anos, os parentes de de Bandeirantes, muniToninho o torturam numa cípio localizado a 66 km fazenda próxima a Camade distância de Campo puã. Quando estava seGrande. Padre Rei, como mimorto, jogaram o corpo é mais conhecido, diz que num mato e atearam fogo. não acredita em assom-

O padre decidiu realizar um missa no lugar onde se acreditava estarem os ossos mortais do fantasma. O objetivo era deixar a alma descansar em paz. A cerimônia aconteceu debaixo de uma jabuticabeira. Ventos fortes, seguidos de um temporal, quase interromperam a missa. Passado alguns dias, o religioso foi novamente chamado pela família de Toninho. Desta vez, o tal espírito só queria agradecer a realização da cerimônia no local. “Agora, estou na luz,” concluiu a alma ao se despedir do sacerdote.

retornar a uma fazenda localizada em Corguinho, a 99 km da Capital. “O chute foi tão forte que balançou até a chave,” ressalta.

Ela não foi a única a ouvir o estrondo. Seu esposo, Jorge Lucas, também ouviu. Era em torno de 10h da noite, já havia outros comentários sobre panelas caírem, tiros, mas eles achavam que era mentira. “Foi a noite mais triste do mundo, nós não dormimos bem,” lamenta Jorge, que atribui o fato a fantamas. “Quando ouvimos o barulho, começamos a orar o pai nosso. Já realiza“Tá repreendido em mos culto para resolver, até agora não resolveu. nome de Jesus” Chutes fortes na porta Tá [sic] repreendido em foram o suficiente para a nome de Jesus,” salienta dona de casa Leci Bento Leci, que freqüenta igreLucas, 53, nunca mais jas evangélicas.

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Donos de cães acham que a CCZ tem que exterminar o mosquito e não os animais Por Val Reiss, Paulo Victor e Amparim Lakatos

Cães que apresentam leishmaniose em Campo Grande estão sendo sacrificados. Isso tem gerado revolta em alguns donos de animais, que se recusam a entregá-los para a eutanásia. “O pessoal do Centro de Controle de Zoonoses CCZ veio até minha casa e colheu sangue do meu cachorro, deixando uma coleira que repelia o mosquito. Meses depois me ligaram dizendo que meu animal estava com leishmaniose e teria que sacrificá-lo. Eu argumentei que não poderia entregá-lo, pois estava conosco há quase nove anos e fazia parte da família, e questionei porque não se preocupavam em exterminar o mosquito, em vez do animal”, explica o empresário Adair Oliveira. A peregrinação do empresário em busca de solução para o problema foi grande. Ele visitou três clínicas veterinárias e a resposta era sempre a mesma: “não tratamos cães com leishmaniose”. Na quarta clínica, encontrou um veterinário que decidiu tratá-lo com vacinas, já que o tratamento com medicamento humano, anteriormente utilizado, foi proibido por uma portaria do Ministério de Saúde em 2008. Comprovada a doença, Adair tentou regularizar a situação do animal junto ao CCZ. Quando chegou ao órgão, teve a informação que não estavam mais aceitando o tratamento e ainda ameaçaram retirar a licença da clínica veterinária que se propôs a tratar a doença. “O meu cão teria que ser sacrificado, ou então teria no meu IPTU uma multa de nove mil reais. Achei absurdo,

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estar sem nenhum sintoma e ser portador da doença. Além disso, ele vai disseminar a doença na região onde mora”, afirma a coordenadora do CCZ, Júlia Maksoud Brazuna. André Luis Soares da Fonseca, mestre em imunologia, professor adjunto da UFMS, ressalta no blog nossomundo.com que o tratamento da Leishmaniose Visceral Canina proporciona a cura clínica da doença. Ele ressalta que mesmo que a sorologia continue positiva, o que apenas indica um prévio contato com o parasita, o animal está clinicamente curado. O médico afirma também que os animais merecem o respeito e o amor dos proprietários, que podem e devem utilizar os medicamentos disponíveis para tratar dos seus animais de estimação. Na ordem jurídica, o proprietário tem o direito de tratar o seu animal, assim como tem o direito de defender sua propriedade. Fábio Andreasi, advogado do Abrigo dos Bichos, uma associação de Campo Grande que cuida de animais abandonados, entrou com uma ação contra o forma. Tenho um filho de Município de Campo Gran7 anos, o Pedro, e por ele de e o CCZ, e conseguiu eu decidi entregar o ani- uma liminar que proíbe a mal para a eutanásia. Eles eutanásia dos cães com a me disseram que Pipoca doença. “Pelo menos por não sentiria dor. Meu fi- enquanto, o Município de lho chorou muito, mas era Campo Grande, o CCZ e melhor pra ele, não podia até o Presidente da Repúarriscar.” Relata Lesly Le- blica, por conta de uma dezma, assistente social. ordem judicial do Tribu“Além dos focos de proli- nal Federal de São Paulo, feração da doença, como continuam proibidos de terrenos sujos, a resistên- matar cães portadores de cia dos donos dos cães in- leishmaniose em nossa cifectados em sacrificar os dade. Ganhamos a liminar animais também prejudica e o recurso. Tenho fé que o combate a doença. Um ganharemos a causa e os cão com leishmaniose não cães inocentes serão poutem cura. O animal pode pados”, afirma. FOTO: VAL REISS

O empresário Adair Oliveira e seu cão, Half, portador de Leishmaniose

entrei em contato com o pessoal do Abrigo dos Bichos, que me orientou a esperar, já que estavam com uma liminar na justiça contra isso. Foi o que fiz”, afirma Oliveira, que continua com o tratamento.

tribuiu coleiras repelentes para os animais sadios. O maior problema que eles enfrentam é a resistência das pessoas em entregar os animais para os Centros de Controle de Zoonoses. “Quando eu soube que a minha cadela, um vira-lata chamado Pipoca, Respeito e o amor aos estava com a doença, eu fiquei muito triste, mas animais pesquisei bastante sobre Segundo a CCZ, em 2009, o assunto. Os médicos vemais de 130 mil cães fo- terinários não me aconseram examinados e 13% lharam o tratamento, pois deram resultado positivo o protozoário continua no para a doença, em Campo cachorro e a doença pode Grande. A Prefeitura dis- ser transmitida da mesma

04/05/2011 17:05:50

Folha Guaicuru Edição 57  

Jornal Laboratório da FAculdade Estácio de Sá em Campo Grande

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