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Cem Facetas do Sr. Diamonds Volume 4: Brilhante

Emma Green 2


1. Acima de tudo Gabriel não me dirigiu mais a palavra desde que estraguei tudo largandolhe estas três horríveis palavras. Uma declaração de amor ingênua e pueril que me dá vergonha só de pensar de novo nisso. Minha pobre menina, um orgasmo e você larga um "eu te amo". Não podia se contentar com um "obrigada"? A cruel vozinha em minha cabeça me persegue. Quanto a ele, nem mesmo parece chateado, nem frio nem irritado, apenas alheio. Mas como ele faz para exibir este ar de indiferença em todas as circunstâncias? De fato, tenho a impressão de não conhecê-lo. Ontem conectados como nunca, hoje não somos mais do que perfeitos estranhos, sentados um ao lado do outro. Esquecido o fim de semana romântico na montanha. Terminados os passeios como apaixonados pelas ruas de Gstaad. Evaporada a sessão de sexo ao ar livre no terraço coberto de neve do chalé. Neste avião luxuoso que nos leva de volta a Paris, não me sinto mais à vontade. Diga, você se sente desprezível, sem valor, inútil. Eu queria desaparecer. Ou gritar: "Diga alguma coisa!". Em vez disso, permaneço silenciosa e dócil, sentada em minha poltrona como uma idiota. O corpo inerte e o espírito em ebulição. Por que ele não fala? Por que não dá o primeiro passo? Será que ao menos pensa nisso? Será que está completamente indiferente? Sim, certamente… Ele deve necessariamente sentir meu mal-estar, mais isso pouco lhe importa, isso nem mesmo o toca. Gabriel Diamonds está tão acima de tudo isso. Deve estar dizendo a si mesmo que a partida terminou, que as apostas estão feitas. "Vamos, Amandine, adiante!" Estas palavras atravessam meu espírito e, sem que eu possa controlá-las, as lágrimas se põem a correr. Este "eu te amo" imbecil e espontâneo, que nem mesmo estou certa de pensar, caiu como uma guilhotina sobre nossa história. Recusa. Era o limite que não se podia ultrapassar. Uma das regras do jogo, entre todas as que ele é o único a conhecer. Gabriel pode ter quem quiser quando quiser. OK para se divertir de vez em quando com o corpo de uma garota parisiense 3


inexperiente, mas ele tem mais a fazer que suportar os seus impulsos apaixonados. Deve ter me achado grotesca, patética. Choro novamente e cada vez mais revivendo a cena em minha cabeça. Tanto pior. Inspiro profundamente para retomar o controle. Vira a cabeça para a janela para me esconder dele e secar rapidamente as minhas lágrimas. Enxugando as palmas das mãos em minha calça jeans, tento não entrar em pânico ao pensar na inexorável próxima etapa. Vou retomar o curso de minha vida. Não pode ser tão terrível. Eu estava indo muito bem antes dele. Feliz talvez seja uma palavra forte demais, mas estava serena. Fazia um estágio interessante, tinha uma formidável melhor amiga, me entendia bem com meus pais, gostava de meu minúsculo e confortável apartamento, contentava-me com pouco e me maravilhava com tudo. Eis do que preciso. Da simplicidade, do pouco mas do bem, do real. Enquanto tomo estas boas resoluções (forçadas) em minha cabeça, o voo me parece interminável. E esse silêncio tão pesado. Arrisco um olhar furtivo para o lado. Gabriel está a duas poltronas de mim, imóvel, os olhos fechados. Não sei se está dormindo ou se procura evitar esta conversa que poderia acabar mal… Aproveito que ele não me vê para lançar sem dúvida meus últimos olhares sobre ele. Deveria ser proibido ser tão bonito. Não sei do que vou sentir mais saudade. De sua indescritível beleza. De sua pele. De seus beijos. De sua implacável dureza. De sua louca e selvagem sensualidade. Lembranças de nossos embates me vêm à cabeça. Como pode este homem me fazer tanto bem e tanto mal ao mesmo tempo? Acho que difícil vai ser abdicar dos desafios que ele me lançava. Violentarme. Lutar contra ele, contra mim mesma. Afastar os meus limites, conter as minhas raivas, ousar, tentar, lamentar, recomeçar. Esse divino círculo vicioso me dá vertigem. E se ele estivesse aí, diante de mim, meu último desafio? E se fosse a melhor maneira de me fazer perdoar? Minha única chance de recuperá-lo? Tento levantar-me discretamente, mas meu corpo parece pesar toneladas. Meu coração bate forte, minhas pernas tremem, tento controlar minha respiração. Finalmente, à custa de um esforço sobre-humano, consigo sentar-me a seu lado. Seu rosto está a alguns centímetros do meu, mas ele não reage. Agora estou certa disso: meu belo amante está profundamente adormecido. Ou então finge muito bem, o canalha. 4


Respiro seu perfume misturado ao cheiro de sua pele, me embriago dele como se fosse a última vez. Gostaria de tocá-lo, passar as mãos em seus cabelos, traçar as curvas de seu rosto com a ponta do dedo indicador, hesito. Sua camisa entreaberta deixa aparecer a parte de cima de seu tórax. Instintivamente, meus dedos vêm roçar estes poucos centímetros de pele. Eu o acaricio lentamente, quase sem querer, e este contato me eletriza. Tento com todas as minhas forças não acordá-lo, mas estou como que imantada, incapaz de parar. Desabotoo sua camisa cuidadosamente, os pequenos botões cedendo um a um para me deixar o campo livre. O que noto literalmente me atordoa, como sempre. Decididamente, jamais me habituarei a isso. Seus peitorais bem desenhados, sua barriga lisa e bronzeada, sua pele fresca e tensa sobre os músculos abdominais, sinto meu desejo aumentar rapidamente. Com a ponta do dedo, sigo a linha do pomo-de-adão até seu umbigo. Estes leves toques sensuais não acordam meu belo adormecido, e em seu sono inocente ele me deixa redescobrir seu como nunca antes. Este homem que gosta tanto de me dominar, me maltratar, de repente me parece tão inofensivo. E contudo, estou mais do que nunca a sua mercê e quero mais do que nunca preenchê-lo. Sem desgrudar os olhos de Gabriel, eu me ponho de joelhos, entre suas pernas. Ainda nenhuma reação. Com uma mão trêmula, desabotoo sua calça jeans e suavemente desço o zíper. Nada de cueca, isso me facilita a vida, mas meu coração salta no peito. O que descubro me enche de desejo e de orgulho. É a primeira vez que vejo o sexo de Gabriel de tão perto. É gigantesco! E ele não me parece nem um pouco adormecido. - Então ele nunca descansa?! É demais, meu baixo-ventre está em brasa e reclama ação urgentemente. Mas minha razão luta furiosamente contra meu desejo. O que é que eu estou fazendo? Por que não paro imediatamente? Tão delicadamente quanto possível, continuo minha louca empresa, pego seu sexo e o acaricio, surpresa e quase envergonhada com esta perigosa tomada de iniciativa. E se ele reagisse mal? Se se levantasse de um salto e me mandasse pastar por que não lhe pedi permissão? Se não compreendesse que simplesmente quero tê-lo de volta, que não suporto seu silêncio, sua distância? Que diante da ideia de perdê-lo estou disposta a tudo para satisfazê-lo? Após alguns suaves movimentos de vai-e- vem, seu corpo se tensiona. Vejo seu tórax se elevar, a respiração acelerar, ele está prestes a acordar. Entro em pânico, me afobo, sei que deveria parar com tudo. A tímida Amandine de antes o 5


teria feito há muito tempo. Mas meu desespero me impede… e o sexo de Gabriel que se avoluma e o ligeiro sorriso em seus lábios me incitam a continuar. Será que ele acha que está sonhando? Aumento um pouco a cadência até que seu membro fique duro e inervado. Agora, gostaria que meu amante se acordasse e me fizesse um sinal. Apenas um. Todo o seu corpo está tenso e seu rosto muda repentinamente de expressão, agora sei que ele não está mais dormindo. Mas também então, permanece impassível, como se me desafiasse. "Vire-se sozinha". Ou "Até que ponto a pequena Amande se mostrará ousada?" ou ainda "Por uma vez, vá até o fim no seu projeto". "Surpreenda-me". Este homem vai me deixar louca. Hesito entre meu desejo por ele e o medo que ele me dá. Mas este diálogo surrealista que imagino em minha cabeça me desinibe mais um pouco. Eu me aproximo lentamente de seu sexo e o tomo na boca. Eu o lambo, aspiro, devoro. Volto a encontrar imediatamente esse gosto sutil e saboroso que tanto amo. Os contornos quentes e moles de minha boca parecem feitos para acolher seu pênis de proporções divinas. E sua bacia se põe a ondular quase involuntariamente, tranquilizando-me em meu louco projeto. Será que esqueceu que eu lhe largara tolamente que o amava? Será sua forma de me perdoar? O prazer que lhe proporciono nesse momento vai bastar para apagar essas três palavras de sua memória? Continuo a fazer a mim mesma mil perguntas, mas bastou um movimento quase imperceptível de meu amante cruel para lhe dar novamente coragem e desejo. Estou ávida, eu o engulo cada vez mais longe, com mais força, até quase sufocar. Sua excitação manifesta faz a minha aumentar… Ninguém me tocou, mas me sinto levar a um orgasmo transcendente, aéreo, de tirar o fôlego. No mesmo momento, o prazer de Gabriel explode no fundo de minha garganta. Depois de longos segundos de transe, ele enfim abre os olhos. Ele me dirige esse risinho de canto de boca cujo segredo conhece e murmura: - "Eu também…" Hein? O que? O que foi que ele disse? Alguém aqui neste avião ouviu a mesma coisa que eu? Gostaria de gritar "Corta, vamos refazer a cena!" ao imbecil que dirige este filme incompreensível. Gostaria de rebobinar, fazê-lo repetir. E, sobretudo, gostaria de trinta segundos para me recuperar de meu orgasmo e compreender o que está acontecendo. "Eu também". Não, mas como, eu também? Eu também gozei? Eu também te amo mas não achei uma maneira mais clara de 6


dizer isso? Eu também te amo mas sou um imbecil de primeira e só amo você quando me dá o prazer de me chupar? Eu também te amo mas prefiro deixar passar um voo inteiro de frieza, silêncio e incompreensão antes de confessá-lo? Mas o que diabo é isso? – Eu também poderia me apaixonar por você. Mas não devemos. Fuja de mim. Eu sou tudo, menos o que você procura, Amandine. – Ah. E também era nisso que você pensava enquanto gozava? – Por favor… – Não, isso não me agrada de modo algum. Durante todo o voo, você não diz nada, estou muito agitada, você sabe, e você espera o orgasmo para me dizer tudo isso. E então? Um último prazer antes da ruptura? Você é um canalha, Gabriel! – Era exatamente o que eu estava dizendo. – O que?! – Eu sou tóxico para você. – Oh, pare com esse circo, porra. Se você não quer mais, diga, mas poupeme dos seus clichês. O que está representando? Não o reconheço. – Não estou representando. Eu a quero mas faço mal a você, e não suporto isso. – Ora, escute você mesmo. Queria se passar por vítima, além do mais? – Nunca fui e nunca serei senão um carrasco. E devo parar antes de fazer mais estragos. – Pare com isso! Por que está fazendo isso comigo? – Por você, Amandine. Faço isso por você. – Mas eu não pedi nada! Está certo, eu disse que o amava. Isso me escapuliu, não deveria. E nem mesmo sei se penso isso. Não precisa me responder. Não precisa ter medo, preocupar-se comigo. Sou bem grandinha para me defender do malvado Gabriel Diamonds. – Amandine, você não me conhece. – Então me dê uma chance de conhecê-lo. Não o milionário que todo mundo admira. Não o homem de negócios que todo mundo teme. Não o Dom Juan que todo mundo disputa. Apenas você. – Você já viu demais, pegou demais. Acredite em mim.

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– E o que poderia me acontecer de pior, hein? O que é que eu poderia descobrir? – Não há amor a minha volta. Não há senão tristeza, violência, você não merece. – Mas eu não o amo, Gabriel, aí está. Absolutamente não o amo. Eu o detesto. – A senhorita mente muito mal, Amande. Este súbito tratamento por senhorita me sobreleva o coração. Poderia colocar uma distância entre nós, mas na boca de Gabriel, só coloca ternura. Seus traços se atenuam ligeiramente e um ínfimo sorriso ilumina seu rosto. Mergulho na abertura, seduzindo. – Não amo o senhor. Amo vossa tristeza, vossa violência, vossa frieza, vossa indiferença. Tudo capturo. – Amo muito a senhorita. Mas esta decisão não pertence à senhorita. Ela me pertence. Começou de novo. O dominador monomaníaco está de volta. – Se ao senhor agrada acreditar nisso… – Não vejo nada divertido nesta verdade. – Temo que o senhor minta pelo menos tão mal quanto eu. – Não me provoque demais, Amande doce. – Não queria provocar a vossa cólera, mas o senhor sabe que também sei me fazer amarga. – Doce ou amarga, estou cansado da amande . Sinto muito dizer isso à senhorita. Punhalada em pleno coração. As lágrimas me saltam aos olhos. Não sei o que ele quer. O que está tentando me dizer, quando está brincando, quando devo acreditar, em que devo acreditar. Ele me esgota, me esvazia, me arrasa. E à sua maneira odiosa de se regozijar, parece apreciar o efeito de sua pequena frase assassina. – Golpe certeiro? A senhorita visivelmente não está à altura do jogo que começou. – Estou cansada de jogar. – Voltamos ao começo dessa discussão. Tudo isso deve parar. 8


– Pronto, terminou? Realmente você me toma por uma idiota! Desde o começo! – Foi pelo bem da senhorita que decidi. Mas se a senhorita preferir, podemos dizer que a senhorita me deixou. – Vá se foder. – Não sabia a senhorita capaz de tanta vulgaridade. Fiquemos por aqui, a senhorita fala demais. Eu me enrolo em minha poltrona enquanto o jato particular começa lentamente a descida. Gabriel estende as pernas, repousa a cabeça no dorso de couro e fecha os olhos, retomando a posição inicial. A discussão está encerrada. Eu me volto para chorar em silêncio esperando que o avião aterrisse. Quando me levanto para deixar o aparelho, conduzida por uma aeromoça muito mal à vontade, lanço a ele uma última olhada. Meu amante, meu ex-amante, continua perfeitamente imóvel. Soberbamente indiferente. Com os olhos avermelhados e as pernas bambas, saio a duras penas do avião. Pouso enfim os pés no hangar parisiense, um motorista de pé diante de uma berlinda preta me faz sinal ao longe. Então o cavalheiro ditador previra tudo, até mesmo o carro que me levaria de volta para casa. Dirijo-me até ele lentamente, quase recuando, resmungando. – Até logo, Amandine. Eu me viro, sobressaltando-me. A pesada porta do jato já tornou a se fechar, ele está prestes a decolar novamente. A bela voz grave talvez não estivesse senão dentro da minha cabeça.

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2. Olhos fechados – Hein? Não entendo nada do que você está dizendo, Amandine. Chore ou fale, mas você não pode fazer as duas coisas ao mesmo tempo! – Obrigada, Cam. Você é a melhor das irmãs mais velhas do universo. – Oh e afaste o telefone quando fungar, é um horror! Ou se assoe, mas faça alguma coisa. – Eh, se eu quisesse ligar para mamãe, eu teria feito isso, hein? Falando sério, você envelheceu vinte anos desde que teve Oscar. – Quando tiver passado seis meses ouvindo um bebê berrar noite e dia, voltamos a falar. – Blablablá. – Vamos, pare de chorar, irmãzinha. Tens de esquecê-lo. Faz o que, duas semanas? – Treze dias. Detesto esse número, ele traz infelicidade. – O cara que você amava largou você. Que outra infelicidade você queria que acontecesse? – Mas você não entende nada. Tenho um pressentimento, tem alguma coisa que não vai bem, eu sinto isso. – Isso se chama uma dor de amor, todo mundo passou por isso, e juro a você que não se morre por esse motivo. – Bom, se você não tem outras frases feitas para me dizer, vou ligar para Marion. Obrigada mesmo assim. Desligo, me ajeito na cama e encontro o nome de minha melhor amiga em minha lista de contatos. Enquanto espero que ela atenda, percebo meu reflexo no espelho do quarto. Estou com uma cara atroz: a tez pálida, os olhos inchados, o nariz vermelho, uma mecha de cabelos colada por lágrimas em minhas bochechas. Enxugo o rosto com a palma da mão, torno a me pentear rapidamente e respiro profundamente prometendo a mim mesma prestar um pouco mais de atenção em mim. Não tanto para me sentir bonita, mas para que me deixem em paz. No escritório, Émilie não para de me perguntar o que eu tenho. Até mesmo Éric, o tipo de patrão que nunca percebe nada, me diz que não estou com uma cara boa. 10


– Alô? – Oi, Marion, estou atrapalhando? – Não, meu irmão está aqui, mas está monopolizando meu computador, o dele deu pane. – Salve jornalista, me diz a voz irônica de Tristan ao longe. Sempre a escrever em seu pequeno site de vinhos? – Salve, grande repórter. Ocupe-se com suas variedades, estou certa de que ainda descobriu uma história bem sinistra, de fazer chorar. – Bom, deixe-me adivinhar, são blagues de jornalistas? Impacienta-se Marion. Como vai você? – Muito bem! Há dez minutos pelo menos que não choro! – Não vou dizer que eu tinha lhe avisado, certo? – Obrigada, você é uma verdadeira amiga. Vai achar que sou louca, mas eu estava me perguntando… E se tivesse acontecido alguma coisa com ele? – Como encontrar uma nova amante? Esquecer você? Continuar sua vida de milionário e cagar e andar para o resto? – É bem possível… Mas Éric também não tem notícias dele. Eles tinham um encontro de negócios programado há muito tempo, Gabriel não apareceu, não desmarcou, não se desculpou, isso não é a cara dele. E seu celular nem mesmo toca! – Amandine! Você tentou ligar para ele?! – Está certo, somente duas vezes. Não, três. E mascarei meu número. Foi só por curiosidade. – Talvez lhe convenha desaparecer. Ele certamente muda de número a cada garota para não ser perseguido. Talvez tenha se expatriado na Patagônia. Talvez esteja na prisão por desvio de dinheiro. Há tantas possibilidades… –… – Tristan está perguntando se você procurou na Internet. Como se escreve o nome de família dele? – D.I.A.M.O.N.D.S. – Fala sério, como você pôde ter relações sexuais com um cara que tem nome de joia? – Acha realmente que esse é o momento? 11


– Espere, Tristan está fazendo uma cara estranha, vou colocar o alto-falante. – É possível que ele tenha um jato particular, seu homem? Estava em Paris em meados de fevereiro? Ou ele tem um homônimo ou seu avião caiu. Dois mortos e três feridos, eles dizem. Mas o artigo data de duas semanas atrás! Enquanto Tristan desfia estas notícias com uma voz monótona, tenho um nó na garganta, meu coração tamborila no peito e uma torrente de lágrimas rola novamente sobre minhas bochechas. Desligo o telefone sem dizer uma palavra e me precipito até o computador. Depois de algumas pesquisas, recaio também sobre o artigo que releio quatro ou cinco vezes, chorando de novo e cada vez mais. Meu cérebro passa para o piloto automático et eu me encontro buscando no site das páginas amarelas, a discar para os números de telefone dos hospitais de Paris, um a um. No quinto número chamado, uma telefonista de lentidão insuportável me informa que um paciente com este nome foi admitido aqui, mas que foi rapidamente transferido para uma clínica particular. Pobre idiota! Era evidente que Gabriel Diamonds não se contentaria com um hospital público! Já esqueceu quem ele era? - Ao menos, isso significa que ele faz parte dos sobreviventes. Ou fazia… A esta mera ideia, meu coração dispara novamente. Retomo freneticamente as minhas buscas, concentrando-me nos estabelecimentos mais sofisticados da capital. Ninguém quer me dar uma informação, o segredo profissional obriga a isso. Fervilho literalmente, à beira de uma crise de nervos. Na longa lista de clínicas que tenho diante dos olhos, um nome chama a minha atenção. O hospital americano de Paris. Se ele estiver vivo, só pode estar lá. Uma nova telefonista abjeta me manda às favas. Incapaz de continuar parada, enfio meu impermeável pendurado no cabide da entrada, um par de tênis e salto no primeiro táxi que passa. Ao chegar no estacionamento do hospital, sou ensopada por um grande toró. Obrigada, águas de março! - Minha velha, mesmo ensopada até os ossos, você não pode estar mais feia do que há meia-hora. Ao menos a chuva serve de desculpa . Corro a me refugiar debaixo de um abrigo para me recompor. Olho a minha volta e tento encontrar a melhor estratégia. Percebo a uma dezena de metros a minha esquerda uma silhueta que me é estranhamente familiar. Alto, louro, espadaúdo, uma aparência descontraída e uma classe natural… Mas uma grande dúvida se apodera de mim. Você está doida, garota, agora o está vendo por toda parte 12


Olhando-o mais de perto, ele parece um pouco diferente daquele em quem penso. Talvez seja um pouco esbelto demais ou não bastante musculoso (mas pode muito bem ter emagrecido…), seus cabelos estão mais longos ( quinze dias de hospitalização, o que esperava?…), suas roupas estão mais desleixadas (mas não colocamos nossas melhores roupas em plena convalescença… ), e segura um cigarro na mão (estresse demais para administrar depois da batida, sem dúvida…). Você faz as perguntas e dá as respostas agora, está ainda mais louca do que eu imaginava! Apesar de tudo, sinto o coração pulsar em minhas têmperas enquanto o observo, e meus pés se põem a correr antes mesmo de meu cérebro tê-lo decidido. Precipito-me para o desconhecido, que o é cada vez menos na medida em que me aproximo dele. Quando tenho certeza de que se trata mesmo de Gabriel, me atiro ao seu pescoço sem dizer uma palavra, com a respiração entrecortada e lágrimas nos olhos. Ele me devolve a carícia apertando-me nos braços, em seguida me afasta, lançando-me um olhar de espanto e um grande sorriso sincero. – Encantado! Gosto muito das mulheres com iniciativa, mas você está realmente muito molhada! Nós nos conhecemos? – Ah ah, muito engraçado! – Também gosto muito dos cumprimentos, mas acho que há um engano. – Ora, basta! Tive tanto medo, Gabriel. – Certo, está mais claro. Meu nome é Silas, mas posso levá-la até ele, se você quiser. Diante de meu ar de espanto, o sósia de Gabriel toma a iniciativa e me guia até dentro do hospital, explicando-me que é apenas a cópia sem brilho, o gêmeo fracassado que vive à sombra de seu irmão há trinta e cinco anos. Custo a acreditar e continuo a examiná-lo minuciosamente enquanto caminhamos. Ele também me conta o desastre de avião há treze dias, a morte do piloto e de uma das comissárias, os ferimentos de Gabriel, milagrosamente vivo, mas em estado de coma durante setenta e duas horas, seu despertar e seu lento restabelecimentos. Enquanto tento registrar todas essas informações, não posso me impedir de pensar que Gabriel não se dignou a ligar para mim nos dez dias em que está acordado. Em que estado vou encontrá-lo? Será que ao menos tem vontade de me ver em sua cabeceira? – Gab, você tem visita. E uma visita de primeira qualidade. Un peu molhada, mas encantadora… E muito calorosa, se quer saber a minha opinião. 13


– Quem é? Ele só fez resmungar, mas eu reconheceria sua voz viril entre mil outras. Meu pulso se acelera novamente. Permaneci na porta e Silas faz um sinal para que eu me aproxime. Eu me insinuo pé ante pé no luxuoso quarto de hospital e encontro Gabriel deitado, um dos antebraços engessado, múltiplas feridas no rosto e em outras partes, as faces encovadas e o maxilar crispado pela dor. Esta visão me dilacera o coração. Ele está irreconhecível. Mas mesmo do fundo da cama, terrivelmente ferido, ele consegue continuar impressionante, tenebroso, terrivelmente sexy. – Não conheço. Estou cansado, me deixe. – Gabriel, sou eu. Amande. Minha voz está quase suplicante, patética. Uma jovem enfermeira loura interrompe esse diálogo de surdos ao entrar no cômodo. Silas lhe examina detalhadamente da cabeça aos pés e lhe lança um olhar de sedutor experiente, antes de se voltar para mim. – Bom, ofereço um café? E talvez alguma coisa para se secar. Não incomoda se nos tratarmos por você? Venha, vamos deixar este resmungão fazerse mimar. Quanto a mim, vou me ocupar de você se ele for besta o bastante para não querer fazê-lo. Esta cena é surrealista. Hesito entre cair no choro e sair correndo. Em vez disso, me sento em uma mesa da cafeteria a conversar com um desconhecido que tomei por meu amante alguns minutos antes, amante que me expulsou de seu quarto depois de uma rápida e cruel olhada. Chego a invejar a enfermeira que deve estar colocando as mãos nele e a quem ele deve reservar suas palavras mais doces, seu tom mais suave, seu olhar mais profundo. Morro de ciúmes. Durante esse tempo, Silas me corteja abertamente, todo sorrisos, piscadelas e piadinhas maliciosas, tentando desanuviar a atmosfera. Ele é talentoso, simpático e decididamente engraçado. O oposto exato do irmão. Por que sempre faço a escolha errada? Tiro esta ideia de minha cabeça e tento não jogar o jogo dos sete erros no momento em que, enfim, observo o charme de Silas. Ele não tem a mesma aura do irmão, mas seus belos traços delicados e seu caráter o tornam muito sedutor. Em todo caso, ele tem a delicadeza de não perguntar quem eu sou nem de pedir explicações sobre minha presença aqui. Contenta-se em me reconfortar, em me aconselhar a ser paciente e em tomar a defesa do irmão, que está voltando de muito longe. 14


É realmente um bom sujeito. Não comece, sua volúvel. De volta ao quarto, encontramos Gabriel profundamente adormecido, os curativos trocados e o rosto mais sereno. Silas se diverte em cantar a enfermeira e quase me decepciono por ele não reservar esse tratamento de favores senão a mim. A bela loura é claramente sensível a isso e depois de uma nova troca de sorrisos e de olhares explícitos, o cômodo de repente se torna exíguo demais para nós três. Nenhuma dúvida, a intrusa sou mesmo eu. O pequeno casal elétrico se eclipsa, levando embora a tensão sexual ambiente e me deixando sozinha com o sono glacial e silencioso de Gabriel. Permaneço um bom momento imobilizada na mesma posição, incapaz de me mexer, com os olhos fixos no grande acidentado. Um sopro de ternura me invade. Eu gostaria de subir devagar na cama, me enroscar contra ele e não mais me mexer até que tudo tenha acabado. Lembranças de nossos leitos compartilhados e de nossos corpos encaixados em todas as posições desfilam diante de meus olhos sem que eu possa controlá-las. Apesar de nossa violenta ruptura, deste insuportável silêncio de treze dias e de sua odiosa resposta quando me percebeu em seu quarto, continuo atraída por ele. Você tinha dúvidas? Agora sabe, você está apaixonada. Assunto encerrado. Depois de acreditar que o tinha perdido, passei noites e dias a me consumir. Depois de tê-lo acreditado morto, lutei como uma leoa para tornar a encontrar uma pista dele. Mas como sempre com Gabriel, isso não basta. Este homem é um eterno combate. Ele vai me matar. Embora sempre gostado de vê-lo dormir, seu sono convalescente é uma tortura. Decido então me mexer e contorno a cama para vir me sentar ao seu lado. Morro de vontade, mas não me sinto no direito nem tenho coragem de tocá-lo. Simplesmente aproximo meu rosto do dele para captar um pouco de seu cheiro. O calor do seu corpo me inunda. Seus lábios cheios mas muito pálidos e seus longos cílios recurvados me perturbam. Observo seu peito se elevar ao ritmo de suas lentas respirações e acabo por murmurar em seu ouvido a primeira coisa que me vem à cabeça. – Senti tantas saudades... Eu me endireito, esperando secretamente que ele não me tenha ouvido e percebo através da vidraça a minha frente um Silas em plena demonstração de sedução. No quarto vizinho, ele continua seu pequeno número com a bela enfermeira que finge resistir a ele. As persianas estão meio fechadas, mas sobretudo meio abertas: adivinho facilmente quando eles se aproximam. Desvio os 15


olhos quando ele o beija apaixonadamente colando-a contra ele. Não posso me impedir de olhar de novo quando as mãos de unhas feitas tiram a camiseta e revelam uma pele dourada que eu conheço bem, sobre músculos firmes e mais alongados, mas igualmente bem definidos. A família tem bons genes! A bela loura sorri, enquanto Silas desliza suas longas mãos graciosas debaixo de sua blusa branca. Eu o vejo erguer seu seio redondo e pesado e lhe mordiscar o pescoço ao mesmo tempo. Sob suas carícias, ela se extasia, sorrindo tolamente, o que me irrita muito. Ele se inclina para levantar seu vestido e fazer escorregar sua tanga preta até os tornozelos. Eles continuam a sorrir com todos os dentes, como dois adolescentes. Meu olhar se alterna entre o belo rosto adormecido de Gabriel, seu corpo inerte e a cena muito viva do outro lado da vidraça. Não sei por que me inflijo este espetáculo, mas minha curiosidade vence. Silas pega sua enfermeira pelas nádegas, ela ergue a coxa ao longo de sua perna, excitando-o, até que ele a ergue do chão e a encaixa em volta de sua cintura. Tenho uma desagradável sensação de déjà-vu. A loura se ocupa de seu cinto e a calça de Silas cai ligeiramente, revelando um par de nádegas espetacular. uf, está calor, não? Depois de algumas contorções e grandes risadas, eles se põem a fazer amor de pé em um canto do cômodo, apoiados de encontro ao rebordo de uma mesa, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Seus gemidos divertidos chegam até mim. Esta história de gêmeos é perturbadora, tenho a impressão de assistir a um remake de meus embates, mas sem mim. Olhando-os, não posso me impedir de pensar em todas as coisas que meu louco amante talvez nunca mais faça comigo. Não posso imaginar perdê-lo. Perturbada, eu os deixe ao seu prazer e volto a minha contemplação. Dou com o olhar de Gabriel. Seus olhos azuis estão escancarados. – Você de novo! Mas quem é você? Saia daqui!

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3. O exame de admissão - Amandine, espere! - A voz grave de Silas ressoa nos corredores vazios da clínica enquanto corro na direção da saída depois de haver fechado com estrondo a porta do quarto. Eu não podia ficar mais nem um segundo junto de Gabriel. Reconheci seu olhar sombrio e o tom duro quando ele me pediu que saísse. Não negociável. Ele, em contrapartida, não reconhece nada em mim. E é mais do que posso suportar. - Os passos aceleram às minhas costas e o gêmeo desleixado se planta a minha frente. - Onde vai assim? - Não sei, qualquer lugar fora daqui. - Depois de tudo o que fez para encontrá-lo? Você não deveria abandonar a luta tão rápido, ele não gostaria disso. E tampouco de vê-la chorar. - Até parece... ele nem mesmo sabe quem eu sou. - Ele está se recuperando de um acidente grave, dê a ele um pouco de tempo. - Não faço a não ser isso, esperá-lo. Há meses. - Sei que meu irmão não é fácil. Ele deve ter feito você passar por poucas e boas... Mas se você ainda está aqui, é porque vale a pena. Estou enganado? - Você não sabe nada a meu respeito. Só quero que isso pare. Obrigada por haver tentado, mas você pode voltar para junto de sua enfermeira. - Tudo bem, obrigado. Fiz o que tinha de fazer. - Então encontre outra. E me deixe ir embora. - Hum... Chorona, ciumenta, voyeuse, de fato você só tem qualidades, estou encantado! - Garganta, pegajoso, exibicionista, devolvo os cumprimentos. E a sua camiseta está virada pelo avesso. - Dou um passo para o lado, ele me barra o caminho com seu corpão graciosa, vou para a direita, ele me segue, para a esquerda, ele recomeça, com um grande sorriso e ar todo cheio de si. Suspiro, tentando conter um sorriso. 17


- Como técnica de cantada, é completamente patética. - Sim, mas você está sorrindo. - De jeito nenhum. - Pelo menos não está chorando. - Silaaaas, você está me irritando! - Rima. Vamos, eu paro de aporrinhar e você para de chorar. - Ele se aproxima de mim, passa seu braço por sobre meus ombros e me esfrega suavemente as costas para me reconfortar. Resisto um pouco e acabo por me deixar levar, esgotada. Como paquerador inveterado, ele é desastrado, mas como irmão mais velho consolador, não se sai mal. Ainda enroscada em seus braços, eu o sinto erguer a cabeça e proferir às minhas costas: - Ah vocês estão aí! Quando ela me largar, possa apresentá-la a vocês, mas vocês sabem o que é... - Recuo, dando um tapa em seu braço. Vejo um casal muito elegante se aproximando, cuja idade tenho dificuldades para calcular. Jovens burgueses quinquagenários ou beirando os sessenta, muito bem conservados... Ela, com os cabelos louros impecavelmente escovados, pele de pêssego e lábios rosados, pérolas nas orelhas e em volta do pescoço, pulôver fino azul desmaiado sobre calça branca, silhueta longilínea e rosto muito suave, ela poderia fazer a propaganda de um creme anti-idade revolucionário, Ele, cabelos brancos e pele bronzeada, olhos cinzentos e pés-de-galinha risonhos à la Paul Newman, vestido com uma camisa polo Ralph Lauren por dentro de uma calça bege vincada, um casaco em tweed cuidadosamente dobrado debaixo do braço. Um casal digno de revista. - Amandine, Prudence e George Diamonds, os melhores pais do mundo... Mesmo que sempre tenham preferido meu irmão. - Ainda bancando o idiota, Silas? Estamos muito contentes em conhecê-la, senhorita. - A mulher me estende uma mão suave de unhas feitas e não posso deixar de perceber o enorme anel de ouro e diamantes em seu dedo anular direito. - Boa tarde, senhora. Senhor. - O homem me retribui com um sorriso radiante e um caloroso aperto de mão, proferindo, com um sotaque ligeiramente americano: - Encantando. Me chame George.

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- Eu me transtorno, como que fascinada por sua classe, petrificada com tanta perfeição. Eis aí de onde Gabriel e Silas tiram seu poder de sedução. Eles aprenderam em uma boa escola. Não posso deixar de pensar em meus pais, modestos professores ao menos tão tímidos quanto eu, que jamais se apresentariam com tanta desenvoltura. E em meu irmãozinho Simon, que herdou o humor duvidoso de papai e seu lado desastrado. Quem puxa aos seus não degenera. - Uma razão a mais para fugir, mocinha, olhe o fosso que separa as duas famílias. Você nunca fará parte do clã dos Diamonds. - Cada um por sua vez, os pais-modelo abraçam demoradamente seu filho entre os braços e entrevejo o pai piscando para Silas. Eu me dou conta de que eles me tomam por sua nova namorada, mas não tenho coragem de desmenti-los. Com minha roupa de domingo e meus cabelos achatados pela chuva, claramente sou uma mancha nesse quadro idílico, prefiro me fazer pequenininha. Ao menos eles tiveram a elegância de não me sentir a distância. Silas rompe o silêncio que começava a se fazer maçante. - Gab está meio dormindo e meio empestado, mas vocês podem arriscar. Eu ia sair para fumar um cigarro, a gente se junta a vocês daqui a pouco. - Você tinha me prometido parar. Já quase perdi um filho, não basta? - Prudence, please. - Com uma mão delicada em suas costas, o marido convida sua esposa a passar na sua frente e Silas e eu ganhamos o pátio interno da clínica. O ar fresco me faz um bem danado. - Você pode respirar, Amandine. Eles parecem imponentes, mas são calmos e relaxados. E você viu, eles também acham que deveríamos ficar juntos. - Sim... e você não fez nada para convencê-los do contrário. - Mamãe teria ficado muito desapontada. E para agradá-la de verdade, também seria necessário que tivéssemos um filho. Mas podemos treinar um pouco primeiro, se você quiser. - Ora vamos! - Então, o que a fugitiva quer fazer? Pergunta-me Silas esmagando sua guimba de cigarro no grande cinzeiro metálico. - Estou sonhando com um banho. - Muito bem, isso me convém. Façamos isso. 19


- Você nunca para, não é? Estou sonhando com um banho, sozinha, em minha casa. - Eu paro, eu paro. Mas meus pais reservaram todo o andar de um hotel aqui ao lado. Dois minutos a pé. Salas de banho livres, apenas isso! E a ducha de jatos é realmente soberba. Permanecerei comportadamente em meu quarto a esperar por você, prometo. - É tentador, mas não tenho mudas de roupa. Pagarei caro por meias secas e um pulôver mais quente. - Se for só isso... Vamos, venha, faremos uma refeição ligeira pelo caminho. Pagarei caro por um steak tartare! - Depois de uma curta caminhada, eu me encontro em um luxuoso quarto de hotel que Silas abre para mim, guiando-me até a sala de banhos e me jogando na cara, como um menino, uma toalha esponja macia, branca com barra dourada. Fecho a porta em sua cara e o ouço me perguntar, rindo: - Meias 44, um pulôver XXL e o que mais? Quanto às roupas de baixo, está ok ou me ocupo disso também? Ah, e um steak tartare, lhe apetece? - Como quiser, mas suma daqui, grito para ele da ducha muito quente que escorre. - Ok, vou mandar subir isso para seu quarto. Espero você no quarto ao lado. E não demore dez mil anos, hein? - Jantamos todos os dois sentados com as pernas dobradas na imensa cama, eu aquecida pelo par de meias novas e o pulôver preto de lã angorá que ele descobriu não sei onde. Ele me explica da forma mais natural do mundo que o luxo por vezes o oprime, mas que é muito prático poder pedir o que se quer quando se quer e obtê-lo no mesmo minuto. Ele me conta também que é o patinho feio da família, o filho vagabundo e sem ambição que não faz nada na vida a não ser aproveitar a fortuna dos pais. Que a vida em Los Angeles é agradável, mas que depressa nos entediamos quando não temos de lutar por nada. Sua lucidez e suas pequenas revelações me dão segurança quando ele me pede que fale de mim. Em tom de confiança, acabo por lhe confessar que gosto muito de Gabriel e que o mataria se ele repetisse isso com quer que fosse. Ele parece realmente surpreso. - Ele nunca falou de mim, não é? - Mas é claro que sim! Sua cor preferida é o azul, a cantora Britney Spears e você dirige um carro mini. - Quase. Vermelho, gosto mais de Adele e não tenho carteira. 20


- Ele ri com vontade e acrescenta, de boca cheia e com o ar indiferente: - Se isso pode tranquilizá-la, ele nunca fala de ninguém. Meu irmão é o maior dos mistérios, até para mim. Vamos voltar? Da única vez em que é Gabriel que preocupa meus pais, não quero perder estes preciosos momentos! - Quando chegamos ao quarto do hospital, todo o clã Diamonds está reunido. Eles discutem em uma mistura de francês e inglês, um pouco difícil de entender, a enquete da polícia que concluiu que houve falha mecânica e não sabotagem, como eles temiam. Em dado momento, tenho a ligeira impressão de que falam de mim. - Pronto, começou de novo a paranoia. - As coisas se precisam quando Silas se põe a tomar minha defesa elevando o tom de voz. - Sim, mamãe, ela estava naquele avião justo antes do acidente, não, ela não é suspeita e sim, é normal que você não entenda nada. Não, não é minha nova namorada, que pena! Não, eu não sou gay e sim, é com Gabriel que ela está! - Hã? Como? - Traduzo em minha cabeça a última frase do Sr. Diamonds, que pergunta, com um suspiro desesperado, por que seus filhos têm tantos problemas com as mulheres... - Espere, do que é que eles estão me acusando? - Será que se dão conta de que estou no mesmo cômodo com eles ou não? - Arrisco, titubeando: - Acho que vou embora. - Sim, senhorita, a senhorita deveria nos deixar em família. - Vlan. Obrigada, até logo. - Se a "prudência é a mãe da segurança", Prudence Diamonds é uma desagradável mãe superprotetora. - E eu acho que você deveria ir descansar, mamãe. Verá isso com mais clareza amanhã. E talvez vá parar de odiar a terra inteira quando acontece alguma coisa com seu filho adorado. É a vida. Boa noite. - Silas dá um beijo na testa preocupada de sua mãe, um abraço no pai, e o casal Diamonds se retira em silêncio, sem um olhar para mim, sempre como se eu não existisse. A noite caiu sobre o hospital americano, acrescentando ainda um 21


pouco de mistério e de peso à situação. Eu me vejo sozinha no meio de dois irmãos, um dormindo sereno e o outro bastante nervoso. - Obrigada por ter me defendido. Você não tinha essa obrigação. - Apenas tento lembrá-los de vez em quando que todo o seu dinheiro não os autoriza a dizer qualquer coisa. Ás vezes eles acham que podem tudo. Mas têm o coração de ouro. Basta apenas cavar um pouco. - Espere, isso me lembra alguém... - Ah la la, o anjo Gabriel e seus demônios. Ele não era assim, antes. - Antes de que? - Antes de ser maltratado pela vida. Também daria tudo para reencontrar meu irmão. Repartir um pouco de seu sofrimento, aliviar seu fardo. Ele não merecia isso. Não sei por que o destino sempre persegue as mesmas pessoas. É nojento. Eu, que não fiz muita coisa de bom na vida, sempre escapei dos perigos. Ele tudo consegue, transforma em ouro tudo o que toca, e paga caro por isso. É assim desde sempre. É o preço da glória, diz meu pai. Conversa fiada. Faz mais de dez anos que ninguém o vê feliz, sereno. Quanto a mim, não consegui dar ele de novo o gosto de viver. Não sei quem o fará. Talvez você. - Com os olhos embotados, Silas parece falar mais consigo mesmo que comigo. Não ouso interrompê-lo para fazer mais perguntas. Grossas lágrimas rolam sobre suas bochechas quando lança um olhar de ternura para seu irmão. Ele enfia o belo rosto entre os braços, como uma criança. Isso me emociona terrivelmente. - Eu me aproximo dele devagar, afasto a sua cabeça dos braços e enxugo as suas lágrimas com ambas as mãos. Seus olhos avermelhados estão cheios de uma tristeza infinita. - Se quer a minha opinião, é você que é um anjo. - É a única que pensa isso. - Por que estamos sussurrando? - Para não acordar o demônio ali. - Vlan. Obrigada, até logo. - Se a "prudência é a mãe da segurança", Prudence Diamonds é uma desagradável mãe superprotetora. - E eu acho que você deveria ir descansar, mamãe. Verá isso com mais clareza amanhã. E talvez vá parar de odiar a terra inteira quando acontece alguma coisa com seu filho adorado. É a vida. Boa noite. 22


- Silas dá um beijo na testa preocupada de sua mãe, um abraço no pai, e o casal Diamonds se retira em silêncio, sem um olhar para mim, sempre como se eu não existisse. A noite caiu sobre o hospital americano, acrescentando ainda um pouco de mistério e de peso à situação. Eu me vejo sozinha no meio de dois irmãos, um dormindo sereno e o outro bastante nervoso. - Obrigada por ter me defendido. Você não tinha essa obrigação. - Apenas tento lembrá-los de vez em quando que todo o seu dinheiro não os autoriza a dizer qualquer coisa. Ás vezes eles acham que podem tudo. Mas têm o coração de ouro. Basta apenas cavar um pouco. - Espere, isso me lembra alguém... - Ah la la, o anjo Gabriel e seus demônios. Ele não era assim, antes. - Antes de que? - Antes de ser maltratado pela vida. Também daria tudo para reencontrar meu irmão. Repartir um pouco de seu sofrimento, aliviar seu fardo. Ele não merecia isso. Não sei por que o destino sempre persegue as mesmas pessoas. É nojento. Eu, que não fiz muita coisa de bom na vida, sempre escapei dos perigos. Ele tudo consegue, transforma em ouro tudo o que toca, e paga caro por isso. É assim desde sempre. É o preço da glória, diz meu pai. Conversa fiada. Faz mais de dez anos que ninguém o vê feliz, sereno. Quanto a mim, não consegui dar ele de novo o gosto de viver. Não sei quem o fará. Talvez você. - Com os olhos embotados, Silas parece falar mais consigo mesmo que comigo. Não ouso interrompê-lo para fazer mais perguntas. Grossas lágrimas rolam sobre suas bochechas quando lança um olhar de ternura para seu irmão. Ele enfia o belo rosto entre os braços, como uma criança. Isso me emociona terrivelmente. - Eu me aproximo dele devagar, afasto a sua cabeça dos braços e enxugo as suas lágrimas com ambas as mãos. Seus olhos avermelhados estão cheios de uma tristeza infinita. - Se quer a minha opinião, é você que é um anjo. - É a única que pensa isso. - Por que estamos sussurrando? - Para não acordar o demônio ali. - Suas lágrimas se mesclam a nossos risos abafados e eu me dou conta de que continuo com o seu rosto entre as minhas mãos. O silêncio que se segue dura muito tempo. Silas se inclina lentamente em minha direção, olhando minha boca. 23


Ele vai beijá-la, ele vai beijá-la, reaja, ELE VAI BEIJÁ-LA! Deixo que ele se aproxime muito antes de recuar bruscamente. – Vou embora, amanhã eu trabalho. – Não vá, por favor. – FORA! A voz tonitruante de Gabriel nos assustou a ambos. – Silas, saia. Você fica. O irmão gêmeo obedece a contragosto, os olhos esbugalhados e o ar confuso, deixando-me sozinha com o dragão mal desperto. – Olhá-lo trepar não bastou para você. Queria também experimentar? – Gabriel… Está me reconhecendo? – Eu pensava que conhecia você, Amandine. – Mas o que é que está acontecendo ? Por que você só disse agora? – Basta! Não é você que faz as perguntas. Com que então você ia ter um orgasmo com meu irmão debaixo do meu nariz? Depois de ter contado a todo mundo o quanto gostava de mim? – Mas o que é isso, você está me testando? – Responda! – Não, estava consolando seu irmão, que o ama mais do que tudo e que me apoia quando você me trata como um zero à esquerda. – E o que você é? – Sou a pobre idiota que o está procurando por toda parte há dias. Que ligou para todos os hospitais acreditando que você estava morto. Que vem aqui e tenta sobreviver ao clã dos Diamonds. Que luta contra ventos e marés para não perdê-lo, ainda. Alerta vermelho: não lhe diga as três palavras que exasperam. Nada de "Eu te amo", Amandine, seja forte! – A pobre idiota que faz tudo o que pode para não amá-lo. Fracassei. Gabriel me agarra com violência pelo punho e me atrai para si. Depois sua mão forte me aperta a nuca e imobiliza meu rosto a alguns centímetros do seu. 24


– Você quase fracassou, Amande doce. Ele me beija furiosamente, naquilo que se parece mais com uma mordida que com um beijo. Tento me debater e recuar, surpresa por sua brutalidade, depois o contato de sua língua com a minha me faz baixar as armas. Meus sentimentos mais confusos nada podem contra esta alquimia reencontrada, intacta, vertiginosa. Estou completamente aturdida com isso. Com seu braço bom, Gabriel me pega pela cintura e me coloca com suavidade em cima de sua cama de hospital. Arrumo um pequeno espaço ao seu lado, continuando a me afogar em seus beijos. Estava com tantas saudades de seu gosto... De sua pele, também, que eu procuro às apalpadelas por sob sua camiseta fluida cinza mesclado. Com sua única mão, hábil, ele percorre minha coluna vertebral que me faz estremecer até a nuca e desataca meu sutiã quase sem que eu perceba. Meus dedos correm sobre seu ventre e eu chego ao elástico de sua calça de pijama com quadrados cinzas e azuis. Como ele faz para ficar tão excitante mesmos nestes trajes? Mergulho a mão e acaricio seu sexo tenso que não perdeu nada de seu vigor, apesar da extensão de seus ferimentos e da máscara de dor que ele às vezes exibe. Eu gostaria de me jogar em cima dele e nem mesmo sei como tocá-lo sem lhe fazer mal. Seu corpo ferido, seu braço engessado e suas costelas quebradas formam uma barreira entre nossos desejos imperiosos. Ele dá longos suspiros, tanto de prazer quanto de frustração, antes de murmurar: – Minha Amande, desta vez não vou poder tirar sua roupa. Quer fazê-lo para mim? Seu olhar febril e seu sorriso maroto me fazem derreter. Fico de ponta de pé, me planto a sua frente da outra ponta da cama e deixo cair no chão meu impermeável, ao mesmo tempo em que tiro os tênis com a ponta dos artelhos. – Devagar. Deixe-me aproveitar… Será que ele está realmente me pedindo para fazer um striptease, aqui e agora? Mas como se faz isso? Na penumbra do quarto, começo a me desfolhar, febril, retirando lentamente meu pulôver angorá que arrasta consigo meu sutiã desabotoado. Tento sustentar seu olhar voraz, atacando os botões de minha calça jeans, um a um. Marco um tempo de hesitação quando não resta mais do que minha calcinha a tirar. – Vire-se. Quero ver suas admiráveis nádegas arredondadas se oferecendo para mim. 25


- De costas para ele, faço minha calcinha molhada deslizar ao longo de meus quadris, depois de minhas coxas, me inclinando para frente para deixá-lo entrever a melhor parte do espetáculo. – Quero senti-la contra mim. Quero você em cima de mim. A minha volta. Sempre sem pronunciar uma só palavra, eu me volto para subir na cama e sentar escarranchada em cima de meu grande ferido. Ele parece haver esquecido tudo a respeito de suas dores. Sua mão vem se esmagar contra meu seio, que ele massageia sem controle. Enquanto faz rolar meu mamilo entre seus dedos, libero seu sexo, ainda mais gigantesco e de desejo e o pressiono de encontro a meu clitóris prestes a explodir. Com um gesto brusco, ele, por sua vez, empunha seu membro duro para metê-lo em meu rego, arrancando-me um longo estertor de prazer, e eu me afundo completamente nele, não podendo mais me conter. Gememos em uníssono. Gabriel me pega por uma nádega e ritma minhas ondulações em torno de seu sexo, sem nunca tirar o olhar de mim. Afasto um pouco mais as pernas para acolhê-lo bem no fundo de mim e enrolo lentamente a bacia, tentando controlar o fogo no fundo de meu ventre. Mas o orgasmo me submerge quando meu amante se põe a fazer investidas rápidas e potentes, fazendo balançar a cama de hospital sob os nossos corpos impacientes. Ele goza dentro de mim em longos sobressaltos profundos e eu me abandono a meu próprio prazer, vindo esmagar minha boca ululante de encontro a seu peito ardente. Permanecemos por um longo momento imbricados um no outro, meu corpos deitado, saciado, sobre o dele, enfim relaxado. Seus dedos acariciam delicadamente minhas costas, desenhando um motivo improvável sobre minha pele. Afundo um pouco mais meu rosto em seu pescoço para aproveitar este raro momento de ternura e seu grande braço acaba por me envolver, rodeando-me as costelas. Ele me aperta com muita força, quase com demasiada força, cochichando: – Agora você não vai a lugar nenhum.

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4. Concorrência desleal

De: Marion Aubrac Para: Amandine Baumman Asunto: Procuro amiga desesperadamente Amandine, você passou todas as noites da semana no hospital, bem pode me dedicar uma única noite! Pronto, você encontrou seu milionário, ele não vai fugir! Hoje é sexta-feira, vamos sair, fim de papo!

De: Amandine Baumman Para: Marion Aubrac Asunto: RE: Procuro amiga desesperadamente Não posso, Marionette! Gabriel deve sair do hospital esse fim de semana. É de preciso de todo jeito que eu esteja lá esta noite. Se ele decidir voltar para a casa dele em Los Angeles, nem mesmo sei quando poderei revê-lo. De antemão já me dói a barriga.

De: Marion Aubrac Para: Amandine Baumann Asunto: RE: RE: Procuro amiga desesperadamente Você é chata, eu falo de nós duas e você me fala dele. Acho que ainda preferia quando você brigava, ao menos você tinha vontade de me ver e eu não era obrigada a suplicar. Boa noite! 27


- 17 horas, fecho minha caixa de mensagens pessoal, desligo o computador, pego o casaco e a bolsa e deixo o escritório na ponta dos pés, esperando não cruzar com Éric, que ainda deve estar com a cara enfiada em seus dossiês. É Émilie que esbarra comigo no corredor e que me pergunta se tirei a tarde de folga. - Muito engraçado! Adoro a vida de escritório! - Um tapinha no ombro e uma piscada mais tarde, minha colega me deseja um bom fim de semana e sobretudo um bom encontro essa noite, examinando detalhadamente meus trajes com um sorriso cúmplice. - O que? Exagerei? - No elevador, lanço um olhar para meu reflexo: jaqueta preta apertada, top cinza claro muito decotado, calças pretas e escarpim combinando, gosto disso! - Bom, OK, pareço um pouco fantasiada de working girl,,, - Mas é preciso que isso seja assim para rivalizar com toda a família Diamonds reunida. - Arregaço rapidamente as mangas de minha jaqueta em grandes dobras desleixadas para parecer mais descontraída e refaço um rabo de cavalo um pouco menos apertado ao mesmo tempo em que corro para apanhar o metrô. Aproveito o trajeto para me fazer bela, mas não consigo compreender como fazem essas mulheres que se maquiam todas as manhãs em um espelho minúsculo entre duas trepidações do trem. Deixo para lá e me ocupo mais a observar as pessoas em meu vagão... e imaginá-las na cama com sua cara-metade. É meu passatempo preferido, para me desestressar. - Eu me aproximo do hospital com o coração leve e o passo seguro, percebendo Silas fumando no pátio interno. Ele assobia para mim quando chego ao seu lado, me toma a mão para me fazer girar sobre mim mesma, planta grandes olhos esbugalhados em meu decote, sem mesmo procurar se esconder, e me diz: - Não precisava se fazer tão bela para mim, ao seu lado pareço um idiota. - Eu lhe asseguro, você parece idiota mesmo quando não estou presente. - Dou um beijo feliz em sua bochecha à guisa de bom dia e lhe endireito o queixo com um dedo para que enfim ele me olhe nos olhos. - Não é o que diria a pequena auxiliar de enfermagem chinesa que dá os plantões noturnos... - Minh? Ela é vietnamita! E eu achei que era casada! 28


- Como você pode ser puritana às vezes, Amandine! Diriam que é minha mãe... E Linh é uma pessoa muito aberta. - Certamente, mas continua a se chamar Minh. Até eu sei disso. - Ah! Ela também a agradou?! - Continue e eu vou lhe dar um tapa... - Acho que está na hora de voltar a LA. - Quando vai embora? - Nós temos um voo amanhã à noite. - Quem é "nós"? - Papai, mamãe, Ching e eu. - Gabriel não vai embora? - Ele diz que tem assuntos para resolver aqui. Eu me pergunto se isso não tem relação com uma morena de tailleur preto. Bonita mas um pouco difícil. Enfim, são só suposições... E minha mãe está agorinha mesmo tentando convencê-lo a voltar conosco. - Ah. Muito bem, muito bem... Por acaso você não quer anunciar que é gay para distrair? - Gab gosta muito de você, você sabe. Enfim, ele mais do que gosta, acho. Faz muito tempo que não vejo meu irmão assim. Ele fica inquieto o dia todo, está colado ao celular como um adolescente retardado... - Sim, ele se entedia aqui. É preciso retomar os negócios. - E ele sorri quando você entra em seu quarto, enquanto faz horas que tento fazer piada para descontraí-lo. - Visto seu senso de humor, não se pode culpá-lo por isso.

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5. Um ar de família A apenas vinte minutos de LA, a casa da família está situada em Manhattan Beach, um bairro de classe alta do condado de Los Angeles. É de encher os olhos. Passa um pouco das 20 horas quando adentramos, Gabriel, Eva e eu, na suntuosa propriedade. Antes disso, não imaginava nem por um segundo que sequer pudessem existir tanta grandeza, luxo e esplendor. Meu Deus… - Instantaneamente sucumbo ao encanto indecente do palacete dos Diamonds. Desde o imenso terraço decorado como sala de verão, pelo qual Gabriel e Eva chegam à entrada principal, sou apanhada de surpresa pela visão paradisíaca que se estende a minha frente. O oceano… a perder de vista. Aspiro os eflúvios divinos da água cristalina e saboreio o vento tépido que vêm acariciar meu rosto. Diante desse espetáculo irreal, permaneço imóvel, monopolizada por tanta beleza. Ao cabo de alguns minutos, meu amante vem se aninhar em meu pescoço e murmura algumas palavras de uma ternura infinita… – Venha, minha Amande, teremos todo o tempo para nos embriagarmos com os vapores marinhos… Gabriel me dá um beijo de leve atrás da orelha e me leva com ele, apertando as suas mãos em minhas ancas. Impossível resistir, eu o sigo docilmente, ainda perturbada pela intensidade e a doçura que percebi em sua voz. Do outro lado da impressionante dupla porta de bronze, diviso, estupefata, a obra do célebre arquiteto Wallace Tutt. Eva, a assistente-eu-sei-tudo, havia feito suas pesquisas e não se abstivera de me participar o fato no avião. – Foi o gênio que construiu a casa de Gianni Versace! Informação capital… Obrigada, garota da tatuagem! Pisando o chão de mármore claro, penetro em um templo de refinamento. A suave luminosidade da boca da noite ilumina as grandes paredes e as colunas esculpidas da entrada, que deve ter quase cem metros quadrados. O teto de quatro metros de altura faz ressoarem nossos passos e literalmente me causa vertigem. Avanço apesar de tudo, amparada pela ascendência firme de meu Apolo. Descendo alguns degraus, eu me vejo em uma gigantesca sala art déco, luxuosamente decorada. As esculturas e pinturas contemporâneas, mescladas à mobília excepcional, me lembram com quem estou lidando: o clã dos Diamonds 30


não tem realmente nada de ordinário… Por fim, meu amante me leva até a imensa janela envidraçada para me mostrar os jardins. Chama a isso um jardim?! Sem o menor esforço, ele empurra a porta-janela que deve pesar uma tonelada e me conduz à parte externa. Vegetação cintilante, plantas tropicais, luminárias design, fontes de pedra: tenho a impressão de pisar o jardim do Éden… versão caríssima. Gritos de alegria me arrancam a meu devaneio: na parte de baixo dos degraus que levam à suntuosa piscina de cascata, uma cinquentena de convidados aclama o retorno do herói. Todos os três, ficamos cara a cara com a multidão em delírio. Eu me apresso em pegar no braço de Gabriel, um pouco para me tranquilizar e muito para marcar meu território e não passar por figurante em serviço. O problema é que, do outro lado, vejo Eva fazer exatamente a mesma coisa que eu e meu amante não resiste a ela de modo algum. - Ora essa, largue-o, assistente! Sou eu a oficial! Acho mesmo que ele aprecia esse triângulo amoroso, ou, em todo caso, a imagem que ele traz, chegando triunfante com duas belas mulheres pelo braço. Entre os convidados, muitos vestidos de brancos (será um costume noturno em Los Angeles?), busco rostos familiares. A elegante Prudence se joga em cima do filho e o aperta contra o peito, enquanto George lhe dá grandes tapinhas paternalistas nas costas. Silas também vem ao seu encontro, vestindo uma bermuda azul vibrante e uma camisa polo verde. Sempre do contra… Isso não deve ter agradado a mamãe! Ele levanta o irmão gêmeo do chão e o sacode como um jogador de rúgbi comemorando uma vitória com seu companheiro de equipe. Suas costelas quebradas ainda o fazem sofrer, vejo isso em seu olhar, mas Gabriel exibe, apesar de tudo, um grande sorriso sereno, sinceramente feliz de estar entrar entre os seus. Uma sublime mulher negra, alta e esguia, se aproxima, por sua vez, vestida com um longe vestido branco de alta costura de tirar o fôlego. Um bustiê lhe realça muito os seios e deixa aparecer uma pele cor de caramelo perfeita, iluminando seu peito e seus braços. O vestido, cortado muito alto, também mostra uma perna fusiforme, musculosa, mais longa e mais desenhada do que eu jamais havia visto. Arbora um corte curto e sofisticado, absolutamente nenhuma joia, mas transborda feminilidade, elegância, energia e sensualidade. Seu porte de cabeça altaneiro, seus passos seguros e seu olhar intenso me confirmam que ela pertence ao mundo de Gabriel. E mesmo a seu círculo próximo, se considerarmos o terno e longo 31


abraço que dão um no outro, de olhos fechados e o rosto enfiado no pescoço um do outro. Sua ex, só me faltava isso… Eva também notou a cumplicidade deles e eu percebo seu rosto jovial se crispando. Eu achava que ela estava apaixonada por mim?É Halle Berry quem ela quer, agora? George e Prudence incitam gentilmente um rapazinho recalcitrante a cumprimentar Gabriel. Ele deve ter 12 ou 13 anos, cabelos louros tipo surfista, que lhe recobrem as orelhas e a testa, traços finos e adoráveis sardas que contrastam com seu ar rebelde. Gabriel passa a mão ternamente em seus cabelos e o garoto resmunga, olhando para outra parte. Certamente um sobrinho ou um priminho em plena crise da adolescência. Observo esse espetáculo tocante um pouco de longe e vejo Gabriel desaparecer na multidão, monopolizado por outros convidados. Ok, não vou revê-lo tão cedo… Decido me dirigir ao apetitoso bufê multicor que vislumbro perto da casa da piscina. Empregados havaianos me recebem, deslizando um colar de flores em volta de meu pescoço e me oferecendo uma espécie de ponche laranja intenso, muito refrescante. Belisco, de uma bandeja que me apresentam, camarões com abacaxi e gengibre que são de cair de joelhos! Três músicos tocam uquelele um pouco afastados e eu me sento em um belo banco de pedras para desfrutar do miniconcerto. Reina uma atmosfera leve, de uma felicidade quase insolente. Estou em outra dimensão. Talvez um pouco solitária, mas maravilhada. Eva vem se juntar a mim, aparentando estar mais ou menos tão alegre quanto o adolescente de há pouco, e ergue os olhos para o céu destinando-os a mim, caso eu não tenha compreendido que ela se entedia. Senta-se ao meu lado, se lança a um monólogo, meio em inglês, meio em francês, sobre as virtudes afrodisíacas do gengibre e eu lhe volto ligeiramente as costas para tornar a mergulhar na música cativante. Eva não se desencoraja e se põe a traçar com a ponta do dedo indicador os relevos de minha coluna vertebral. – O que está fazendo? – Tentando me ocupar… – Desenhando em minhas costas? – Eu tinha outras ideias, querida. – Você deveria ir mais devagar com o ponche… querida! 32


– Não estou bêbada, estou com vontade de me divertir. A gente aqui se entedia. Agora ela está choramingando? – Venha, vamos nos banhar! – Sim, Eva, grande ideia! Você não tem roupa de banho e eu também não. – Para que? Tenho muita vontade de vê-la nua. – Ninguém fica nu, ninguém vai se banhar. – Você estava menos pudica ontem, querida. Vamos, venha, a água está boa! - Ela acaba de tirar um de seus sapatos, mergulha o pé na água da piscina e acaba por me molhar, rindo. Alguns convidados voltam os olhos espantados em nossa direção e minha camisa azul-celeste molhada em alguns lugares adere a minha pele, deixando aparecer meu sutiã de bolinhas. Genial! Vou afogá-la… Eva volta em minha direção, os olhos fixos em meu peito e o sorriso carniceiro nos lábios. Ela aproxima a mão do primeiro botão, cochichando: – Pode tirá-la agora. Quero beijá-la, isso vai alegrar a festa deles. Preciso de diversão… – Não, você está com vontade de chamar a atenção. E certamente não vou servir de álibi para você. Eu me levanto para me afastar da louca de cabelos ruivos, pouco segura de que isso seja muito bom para minha imagem. Minha última observação um pouco seca a feriu, ela me olha friamente com um ar de puta que prepara sua vingança… – Preciso de sexo, Amandine! Desta vez, Eva pronunciou esta frase um tom acima, quase gritando, e não passou despercebida. Fez-se o silêncio a nossa volta. Ela coloca a mão na boca como uma garotinha falsamente arrependida da besteira que disse… E retoma as provocações, passando um braço em volta de meu pescoço e beijando-me no rosto para fazer de mim sua cúmplice. Sinto dezenas de olhares dirigidos para nós, não sei mais onde me enfiar. No momento em que me livro de seu domínio, vejo Silas, Gabriel e sua ex caminhar em nossa direção, seguidos de perto pelo adolescente mal-humorado. 33


– Estão se divertindo, meninas? Pergunta o primeiro. A sublime liana negra nos dirige um olhar cheio de reprovação, enquanto que o de Gabriel parece antes curioso e interessado em nossa nova cumplicidade. Se está imaginando um plano a três, está enganado, Diamonds! – Apresento Eva Miller, minha assistente, e Amandine Baumann, de quem já falei. Ouvi direito? Ele falou de mim para sua ex? Ela nos dirige seu mais belo sorriso forçado, deslizando seu longo braço grácil em volta da cintura de Gabriel, em seguida se enrosca contra seu corpo, fingindo estar com frio. Deve estar fazendo dezoito graus, apesar da noite que cai em Los Angeles. Entendi a mensagem, está reservado! Tudo se torna confuso em minha cabeça: Eva quase me cai em cima, Gabriel que parece apreciar seu joguinho de sedução, a ex tátil que parece ainda muito agarrada, Silas que diverte com a situação e o rapazote que nos olha fixamente com um ar estranho… Não sei se se pode ser mais mórbido. Meu amante nota minha perturbação e decide vir enfim em meu socorro. – Amande, apresento minha irmã, Celeste. Sua o QUÊ? – Ah, e ele é Virgílio. Mas este pequeno selvagem não deixa que nos aproximemos dele facilmente. Gabriel coloca a mão no alto da cabeça do lourinho, que se esquiva e foge correndo. Criança encantadora… Depois de um silêncio interminável, Celeste retoma o controle da situação achando útil me fazer um desenho: – Tudo bem? Sim, meus irmãos são brancos, eu sou negra, donde se deduz que eu sou, portanto, a irmã adotiva deles. Mas me parece muito mais com eles do que você acredita. – Diplomacia, a gente tem isso no sangue da família, diverte-se Silas. – Prazer em conhecê-la.

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Não encontrei nada melhor para responder a tanto desprezo e agressividade. Gabriel muda de assunto e se dirige diretamente a Eva, estranhamente silenciosa e que o devora com os olhos. – Senhorita Miller. Acho que sua presença entre nós não é mais necessária. – Excuse me? – A senhorita teve um comportamento completamente inapropriado. A senhora nos deixa esta noite. Definitivamente. Vou mandar alguém acompanhá-la de volta. Depois desse belo discurso, Gabriel me pega pela mão, beija ternamente a irmã no rosto e me conduz até dentro do palacete. Estou estupefata com tudo o que acabo de ouvir. Ele me propõe irmos passear na praia e eu lhe pergunto se posso primeiro me trocar, para tirar a camisa molhada e, sobretudo, respirar cinco minutos, sozinha, na intimidade de um quarto. Antes de me deixar sair, ele desliza em minha mão uma fotografia em polaroide, que tira do bolso da camisa. Ignoro quando a foto foi tirada, certamente quando de nossa chegada ao jardim. Estamos todos os dois lado a lado, muito próximos, olhos nos olhos e sorrindo um para o outro. Ela está magnífica. Eu a arrumo cuidadosamente na pequena caixa de joias em madeira, gravada com meu nome, que levo por toda a parte comigo desde que minha mãe me deu. Meu vestidinho branco vaporoso acendeu uma centelha nos olhos de Gabriel. Ele não para de me olhar enquanto caminhamos lentamente na areia macia. A escuridão, o barulho das ondas se quebrando e o perfume marinho deixou-nos apaziguados. Com sua voz quente e timbrada, ele me conta a paixão de seus pais em Paris, seu estabelecimento nos Estados Unidos, onde seu pai fez fortuna nos negócios, a infelicidade de não poder ter filhos, sua longa espera antes de poder adotar esses dois gemeozinhos magricelas em uma maternidade da América profunda, depois a adoção de Celeste em um orfanato da Etiópia. Ele me explica por que todos os três receberam nomes tão simbólicos e por que Prudence é uma mãe tão protetora. Eu o ignorava, mas Gabriel tem uma grande admiração por seus pais e um amor profundo por seu irmão e por sua irmã. Então ele tem um coração. Sem dúvida um pouco perturbado por suas próprias confidências e pela emoção que me ganha, Gabriel para subitamente de caminhar, me ergue do chão e me carrega em seus braços na direção do mar, anunciando-me que está na hora do banho da meia-noite. Ele me põe nas ondas mornas, eu sempre agarrada a seu pescoço, e me beija langorosamente enquanto nós mergulhamos sob a água 35


salgada. Damos cambalhotas, enlaçados, no oceano que parece nos ter sido reservado para a noite. Quando o desejo nos assalta, ele me carrega de novo para me deitar na areia. De joelhos diante de meu corpo estendido, ele tira a camiseta ensopada da maneira mais viril possível e vem se colar contra mim. Já estou fervendo. Ele sobe o vestidinho branco, tornado transparente, colado contra minha pele, acima de meus quadris e rasga minha tanguinha de renda branca com um gesto violento. Jamais fiquei tão excitada. Ele atiça ainda mais meu desejo por meio de longos beijos molhados, ferozes e salgados, que me fazem perder o chão. Meu amante sabe me fazer enlanguescer até que eu lhe suplique, mas tenho tal fome dele que me viro de um salto para me achar escarranchada sobre o enorme volume de suas calças. Surpreso com minha ousadia, ele se deixa levar, e isso é raro demais para que eu não tire proveito da situação. Tiro o botão e desço o zíper de sua calça enquanto ele faz deslizar as alças de meu vestido e me pega os peitos. Seu sexo magistral, enfim liberado, se ergue em minha direção e reclama meu domínio. Meu baixo-ventre em fogo só espera por isso. Coloco as mãos de um lado e de outro de seu rosto, ergo ligeiramente as nádegas e sinto sua ereção me procurar. Ele enfim me conquista. Eu o deixo mergulhar em minha intimidade com deleite, lhe arrancando um grunhido bestial. Nosso corpo-a- corpo se anima na praia deserta, ondulamos em uníssono em uma sensualidade infinita. De repente, suas mãos em meus seios se fazem mais fortes, ele me apalpa, enquanto eu o cavalgo em um ritmo delirante. Seus dedos abandonam meus mamilos endurecidos por suas carícias tórridas e vêm se plantar na carne de minhas ancas. É ele que conduz a dança, agora, e eu me abandono ao ritmo infernal de suas investidas apaixonadas, cada vez mais desenfreadas. O orgasmo selvagem de Gabriel explode no mais profundo de mim, sacudindo todo o meu corpo com tremores furiosos. O êxtase me ganha e eu deixo os meus gritos exaltados quebrarem o silêncio da noite escura. A lua ilumina o torso brilhante de Gabriel e enquanto solto meus últimos suspiros de prazer, vislumbro em seu belo rosto um sorriso cheio de orgulho. Sorrio por minha vez, saciada, inteiramente satisfeita, preparando-me para vir me aninhar em seus braços. Sou interrompida neste élan de ternura por uma voz feminina, ameaçadora, surgindo da escuridão: – É ela ou eu.

Continua! Não percam o episódio a seguir! 36


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