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Valéria de Oliveira valeria.7oliveira@gmail.com

Valéria Ap. de Oliveira Silva , conhecida como Valéria Ribeirinho é graduanda em Serviço Social pela Unifesp– Universidade Federal de São Paulo campus Baixada Santista. É integrante do grupo PET (Programa de Educação Tutorial) Educação Popular da mesma universidade desde 2012. Atualmente atua como Educadora Popular na Frente Educação Popular, Corpo, Cultura e Comunicação, construindo intervenções nos espaços acadêmicos numa perspectiva de desconstruir os conceitos sobre o corpo culturalmente construído na sociedade de classes. É amante de uma Educação transformadora e traz como lema uma citação do mestre Paulo Freire. “Educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas mudam o mundo”.

Santos/SP. 2016 Nº 01

A História do rapaz que queria apresentar seu TCC em formato de Cordel


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Eu tô aqui matutando Como contar essa história Sobre o tal “conhecimento” Que só nos enche de glória! Vou começar do princípio, Me valendo da memória e nada Vou esconder de toda essa trajetória. Era uma vez um sujeito, Tinha lá seus vinte anos, Negro e pobre, o desvalido, Veio lá do Ceará. Tinha pai e mãe bem vivo, Que diziam o tempo todo “Fio, vai estuda”! Passado o tempo, hoje em dia Parecia que ainda ouvia, O que o pai vinha falar, Nessa vida nada ganha, Quem não sabe nem contar. Só Deus sabe da labuta, Que ele sempre enfrentou

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Se manteve firme e forte, Naquilo que o pai ensinou. Com ideia resoluta, A custa de muita luta, Foi pra Federal estudar, Sem nunca ter tido chance, De um pequeno livro comprar. Muita coisa ele sabia, Mesmo na tenra idade, O muito que aprendeu Até sua mocidade, da vivência Que ele teve das voltas lá na cidade. Aprendeu ler e escrever, Nas histórias de Cordel. Por ali tudo aprendia, Parecendo até que um dia, Um milagre ele previa. Foi assim que o rapazola, Todo contente e feliz, Chegou lá na Faculdade, Como seu pai sempre quis.


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3 O sonho desse rapaz, muito esperto E sagaz era sair de lá doutor,

A dura realidade, de estudante cotista

E voltar pro Ceará,

Longe da sua vista

Como grande professor, dizendo

Falta grana e moradia,

Para seu pai que o momento chegou.

Falta tempo e condição

Não se aflija criatura,

Bateu forte a tristeza

Seu dilema começou,

Dentro do seu coração.

Com a família distante,

Sem nenhum constrangimento,

Ainda assim se valia,

Foi com esse pensamento

Dizendo, dia após dia,

E controlando a euforia,

Daqui só saio doutor.

Que o moço muito empenhado,

Nessa altura já sabia, que também

Ficava bem informado

Na academia, tudo que pretendia

De tudo que acontecia,

Não chegava à perfeição, tinha que

Dentro da academia.

Levar em conta a tal precarização.

Não tardou ele sentir,

Mas num derradeiro dia,

Que tudo isso tinha um preço,

O moço já mais centrado,

Como tudo nessa vida,

Na sala de aula ouvia,

Isso aqui eu esclareço,

O professor falar bem claro,

O que falta nesse mundo,

Com crescente animação,

Eu digo e me enterneço,

Sobre os saberes que vinha

O moço tinha saudade, coisa que desconheço.

Desse nosso povão.


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Discorreu com maestria

O rapaz abobalhado,

Sobre a contribuição, que por ali existia

Se sentindo derrotado,

Para nossa formação,

Argumenta com razão,

Que a cultura popular, construiu uma nação.

Professor o senhor defende

O rapaz agora tinha nova compreensão,

A cultura do povão,

E com muita alegria, tomou uma decisão,

Mas só da boca pra fora,

Queria no TCC, sua cultura defender.

Essa é minha opinião.

Procurou aquele mestre,

Meu rapaz, eu não me ofendo

Com grande admiração,

Com sua indignação.

Meu querido Professor,

Não defendo só ciência

Tenho aqui uma questão,

Defendo a educação,

A minha monografia, creio que

Mantenho minha posição,

Defenderia a cultura popular,

São os saberes diversos,

E muito me alegraria em cordel apresentar.

Que fazem a transformação.

O professor preocupado,

Infelizmente eu queria,

Com o olho arregalado,

Com vocês compartilhar,

Disse, menino, cuidado

Toda essa experiência, que tive ao ensinar,

Vais arrumar confusão!

Existem outros saberes,

Eu vou lhe dar um recado,

Basta querer encontrar,

Não estamos preparados,

Mas não são reconhecidos,

Pra tamanha evolução!

Para além desse lugar.


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Professor eu compreendo,

Essa história não tem fim,

Toda sua explicação,

Mas tem um bom fundamento,

Mas confesso, não entendo,

Olhar pra realidade,

Qual o problema então,

Só traz mais um sofrimento,

Posso falar de cultura,

Fica aqui um chamamento,

Mas não de literatura,

Pra cultura perdurar,

De prestígio popular.

Venha pro movimento de Educação Popular!

Isso mesmo meu rapaz, Por tudo que aqui se faz, Só será reconhecido, Se cumprir e bem cumprido

Valéria Ap. de Oliveira

Educadora Popular

Com pesquisa eficaz, Pois o conhecimento só A ciência é que traz. Obrigado professor, Agora tenho entendido, Já me sinto convencido, Tenho que seguir a regra, Tudo para ser doutor, E voltar para minha terra, Como grande professor.

Todo meu amor às amigas e parceiras queridas: Mari Santos, Aline Rocco, Tatiane Berude, Núbia Cristina.

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