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Agosto 2010 • Ano 1 • Número 5 R$ 7,80

Especial

A mãe das estradas Percorremos os 4.579km, de Chicago a Los Angeles, da estrada mais famosa do mundo pilotando duas motos Harley Davidson durante nte 13 dias

ECONOMIA

Aviões espiões: a nova ‘arma’ tecnológica P28

POLÍTICA

Os astros ditam o futuro dos candidatos P14

PERFIL

Sandy encara uma nova fase da carreira P116 Sandy dy Leah, de d disco e visual isual novos novo os

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Opini達o

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Opinião

Palavra do editor

DIRETOR RESPONSÁVEL Ferdinando Salerno

Aventuras pela rota mais famosa do mundo omo uma estrada pode ficar los próprios norte-americanos, feito famosa entre tantas outras no de cidades pequenas, algumas com mundo? Simples. Faça dela a apenas 750 habitantes e repletas de única ligação entre dois extre- costumes tradicionais, um país que mos de um país poderoso, use-a como passa longe das rotas turísticas. Enfrentaram dores musculares por cenários de filmes de Hollywood, temas pilotar motos extremamente pesade livros e inspiração para músicas de sucesso. Pronto: você tem a Rota 66 das, queimaduras de sol e um cansaço para ser explorada em seus 4.579 quilô- pouco experimentado antes. Não foi metros que ligam as cidades de Chicago uma viagem de turismo, foi uma aventura que gerou uma reportagem esa Los Angeles, nos Estados Unidos. E para mostrar tudo isso a revista crita nos bons moldes do jornalismo, valeparaibano enviou o editor-as- daquele que sai detrás de um telefone sistente Adriano Pereira e o repórter e vai às ruas experimentar o vento, a fotográfico Cláudio Viera para pilo- chuva, o sol. Aproveite e cruze essa tarem duas motos Harley Davidson estrada conosco. –outro ícone norte-americano ligado VO IV U IVO CLUS CL XC EX EX diretamente à estrada– e percorrer toda a extensão da histórica rodovia. Mesmo representando um romantismo cinematográfico no imaginário das pessoas, essa aventura não foi algo fácil como no cinema. No percurso, a dupla teve que atravessar três desertos –no Novo México, Arizona e Califórnia– sendo um deles o temido Mojave, que durante muito Especial radas tempo foi local de deserção de viajanA mãe das est tes despreparados para o calor e a sede. Eles tiveram que brigar com mapas enormes, GPS em mau funcionamento e com os sotaques americanos que mudam de um lugar para o outro nos oito estados cortados pela Rota 66. Aproveitaram para conhecer –e poClaret der contar agora nas páginas da re- Marcelo editor-chefe vista – um país pouco conhecido pe-

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DIRETORA ADMINISTRATIVA Sandra Nunes EDITOR-CHEFE Marcelo Claret mclaret@valeparaibano.com.br

EDITOR-ASSISTENTE Adriano Pereira adriano@valeparaibano.com.br

EDITOR DE FOTOGRAFIA Eugênio Vieira eugenio.vieira@valeparaibano.com.br

REPÓRTERES Yann Walter (yann@valeparaibano.com.br), Hernane Lélis (hernane@valeparaibano.com.br), Elaine Santos (elainesantos@valeparaibano.com.br) e Rafael Persan (estagiário) COLABORADORES Aaron Kawai, Bruno Frahia, Cláudio Vieira, Cristina Bedendo, Diego Migotto, Franthiesco Ballerini, Liv Taranger e Raquel Cunha DIAGRAMAÇÃO Daniel Fernandes COLUNISTAS Alice Lobo, Carlos Carrasco, Fabíola de Olveira, Marco Antonio Vitti, Marcos Meirelles, Ozires Silva e Roberto Wagner de Almeida CARTAS À REDAÇÃO cartadoleitor@valeparaibano.com.br

DEPARTAMENTO DE PUBLICIDADE Tatiana Musto tatiana@valeparaibano.com.br

(12) 3909 4646 SUCURSAL SÃO PAULO Alameda Gabriel Monteiro Silva, 2373 Jd. América (11) 3546 0300

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5 Ano 1 • Número R$ 7,80

via mais Angeles, da rodo de Chicago a Los Davidson durante 13 dias os 4.579 kms, motos Harley Percorremos do pilotando duas famosa do mun PERFIL

POLÍTICA

ECONOMIA

: Aviões espiões a nova ‘arma’ tecnológica P26

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m Os astros dita o futuro dos candidatos P12

Sandy encara uma nova fase da carreira P116

d dy Leah, de Sandy os novo isual novos disco e visual

A revista valeparaibano é uma publicação mensal da empresa Jornal O Valeparaibano Ltda. Av. São João, 1.925, Jardim Esplanada, São José dos Campos (SP) CEP: 12242-840 Tel.: (12) 3202 4000

ATENDIMENTO AO ASSINANTE Segunda a sexta-feira, das 8h às 18h 0800 728 1919 relacionamento@valeparaibano.com.br

www.valeparaibano.com.br FAX: (12) 3909 4603 PARA ANUNCIAR LIGUE: (12) 3909 4646 PARA FALAR COM A REDAÇÃO: (12) 3909 4600 As cartas devem ser encaminhadas com assinatura, endereço e telefone do remetente. O valeparaibano reserva-se ao direito de selecioná-las e resumi-las. EDIÇÕES ANTERIORES: 0800 728 1919 IMPRESSÃO GRÁFICA PLURAL TIRAGEM: 30 mil exemplares Esta tiragem é auditada pela BDO

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PERFIL

Sumário

DISCO, CARREIRA E VISUAL NOVOS PARA SANDY P116

ESPECIAL

A mãe de todas as estradas Nossa equipe percorreu a lendária Rota 66 entre as cidades de Chicago e Los Angeles, nos Estados Unidos

POLÍTICA ELEIÇÕES

ECONOMIA AERONÁUTICA

Candidatos de S. José Cidade desenvolve nas mãos do destino P12 avião espião P26 Astrólogos e místicos fazem suas previsões para o futuro dos deputados da região

Novos fatos revelam as razões e como ocorreu o assassinato de padre Wagner

O novo pai deste milênio P96

São José abriga duas empresas que fabricam aeronaves de reconhecimento e espionagem

POLÍCIA INVESTIGAÇÃO

O outro lado de um crime polêmico P38

COMPORTAMENTO FAMÍLIA

Cada vez mais, os homens assumem um papel familiar mais ativo com os filhos TURISMO

Barcelona cultural

MUNDO TERRORISMO

11 de setembro continua vivo P48

ENTREVISTA LAURENTINO GOMES

O autor de “1808” revela detalhes de seu novo livro P52

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A arte, a badalção, o passado e o presente da colorida cidade espanhola P76

Ensaio Fotográfico p68 Cinema p106 Flashes & p120 Viva a Vida p130

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Cartas

Cartas&e-mails AS CARTAS EDUCAÇÃO Ozires Silva A edição nº 4 da revista trouxe três de minhass grandes paixões: es: Figureiras de Taubaté, Vinícius de Moraes e um artigo preciso e precioso sobre o que acredito ter poder de realizar sonhos, a Educação. Ozires Silva foi preciso ao escrever “A história demonstra uma direta relação de causa e efeito da educação do povo e o sucesso do desenvolvimento econômico” e precioso ao afirmar compreender o “extraordinário poder da educação de transformar”. Constantemente fazemos escolhas. Sou convicta de que a escolha certa para uma sociedade socialmente justa e democrática está em oferecer educação de qualidade. Para tanto, é preciso investir em algo precioso: o ser humano. Polyanna Gama Vereadora e professora

FUTURO

Glauco Landim Filósofo e Assessor da Paróquia São João Bosco

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Transformação

CULTURA

Resultado Dentre tantos conceitos, é possível entender cultura como uma expressão da construção humana, constituída através do diálogo, no dia-a-dia das pessoas. Também, que essa construção, repleta de elementos e significados, identifica essas pessoas, diferenciando-as de outras, resgatando-as. E é esse resgate que vejo presente na revista valeparaibano, quando, a partir de artigos e reportagens, presencio povo e região em equilíbrio, porque valorizados com adequado amoldamento desses valores. Em bem conduzidas páginas, somos informados sobre a produção do hoje, sem perder de vista a História que nos conduziu até aqui. Afinal, quando enfocadas as raízes culturais, reavivamos a memória do povo e eternizamos a História. Na publicação que se faz presente, o que se percebe é que a coletânea de textos apresentada, além de escrita e bem conduzida, enfoca com propriedade aquilo que se propõe. O resultado obtido é a adequada soma de vários saberes, e tudo oportuno. Sendo assim, parabéns a todos que compõem a equipe da revista valeparaibano! José Rui Camargo Reitor da Universidade de Taubaté

Parabéns Sou joseense, mas atualmente resido em São Paulo, onde estudo e trabalho. Tive o primeiro contato com a revista. Está excelente, agradável, com matérias pertinentes e, como alguém já comentou, de acordo com a perspectiva de futuro para o qual a nossa região está direcionada. Parabéns pelo trabalho.

EDUCAÇÃO

O DESTAQUE

ENQUETE Quem ganha as eleições estaduais em São Paulo?

ALCKMIN

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Enquete www.valeparaibano.com.br

Foram computados 1.627 votos entre os dias 1º e 23 de julho

Não podemos desvalorizar o trabalho dos profissionais que por muito se dedicam na formação do povo brasileiro. De fato, a falta de compromisso das partes governamentais estabelece no meu ponto de vista uma sequela no desenvolvimento educacional do país. Tudo isso nos remete a uma educação pobre, onde os esforços não são motivados. Uma solução para tudo isso é antecipar as escolhas. Sem pretensões políticas, mas analisar, nesse período em que estamos, a forma que lidam e tratam a educação daqui pra frente. O país se desenvolve a partir do momento em que os seus se desenvolvem. Pessoas bem educadas intelectualmente transformam um país de cabo a rabo. Kleberson Gonçalves Estudante

DESIGN Qualidade Confesso que ainda não havia lido a revista valeparaibano o e, através de um amigo que me indicou, resolvi verificar e tal qual foi a minha surpresa quando li. Uma revista com um design e diagramação de muito bom gosto, com matérias variadas e interessantes. Parabéns pela revista valeparaibano. É bom saber que o Vale do Paraíba possuí um veículo com tamanha qualidade, informação e bom design. Lerrine Lisie Web Designer e Publicitária

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Domingo 1 Agosto de 2010

Cartas Av. São João, 1925 Jd. Esplanada, CEP 12242-840

ZONEAMENTO TO

E-mail cartadoleitor@valeparaibano.com.br

Twitter @revistavale

OS E-MAILS PLANEJAMENTO Sustentabilidade

Parabenizo a revista pela excelente reportagem sobre o futuro de São José, com base na lei de zoneamento. Não acredito que o cenário seria desfavorável como entenderam alguns técnicos consultados. Diversos aspectos da lei trazem uma concepção moderna de cidade, afetando positivamente a qualidade de vida da população. O novo projeto de uso do solo dirige o crescimento do município para os vazios urbanos, ordenando a ocupação dessas áreas. Ou seja, na nova lei as ZQAs estimulam as futuras moradias em áreas dentro do perímetro urbano e não fora dele.

Lendo a reportagem sobre a nova Lei de Zoneamento de São José, algumas considerações me pareceram um pouco imaturas, talvez até o projeto. Um exemplo é a afirmação de que esta nova lei teria “efeitos perversos”, como a retração no setor imobiliário ( já que o controle da ocupação e verticalização dos bairros será mais rígido) ou até mesmo o surgimento de ocupações irregulares e desvalorização de bairros já existentes. Até compreendo este ponto de vista, pois atualmente é o dinheiro que move o mundo, na ilusão econômica do “mais é melhor”. Mas será que para uma evolução para uma sociedade mais sustentável o estilo de vida não teria que ser mudado e deixar de levar em conta os lucros exorbitantes das construtoras? Se querem fazer uma Lei de Zoneamento focando na sustentabilidade, não adianta querer preservar conceitos econômicos atuais. A sociedade sustentável transcende estes valores. E desde quando uma evolução para uma sociedade mais sustentável vai afastar investidores e empreendedores? Como eu disse, compreendo o ponto de vista capitalista de alguns profissionais que estão atuando nesta área, mas acho que é uma visão atrasada. Pode parecer uma opinião utópica, mas acho que o que importa é que um zoneamento seja realmente executado e que este seja um plano amadurecido e que não leve em conta as premissas do capitalismo, pois este é um caminho atrasado e que não levará à sustentabilidade.

Juvenil Silvério Vereador

Carolina Monteiro de Carvalho Geóloga

Luiz Mota Vereador

VAZIOS URBANOS Favorável

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Redes www.flickr.com/revistavaleparaibano www.facebook.com/revistavaleparaibano

CULTURA

TWITTER

Meia-entrada

Pinheirinho É digna de elogioss a reportagem da reevista sobre a questão tão do zoneamento naacidade cidade. Friso que o debate sobre as coisas de nosso município contribui com o aperfeiçoamento da legislação local no desenvolvimento da cidade. Ressalto, na oportunidade, que a situação dos quase 10 mil residentes do acampamento do Pinheirinho não foi incluída na votação do projeto de zoneamento, sendo tratada à parte, em razão de sua dimensão única. A transformação da área em Zona Especial de Interesse Social, ZEIS, permite a entrada da administração municipal em locais de ocupação, de população de baixa renda, instalando novas habitações e outros benefícios de infra-estrutura.

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Gostaria de parabenizá-los pela revista, que achei extremamente interessante, além de bem escrita. Tenho que dizer que fiquei muito surpresa com a matéria “O conto da meia-entrada” por dois motivos: primeiro, porque não fazia a menor ideia dessa prática por parte dos produtores de shows e teatro e, segundo, por causa da ênfase que é dada na matéria no sentido de que quem é prejudicado é quem tem direito à meiaentrada, mas acaba pagando uma inteira. Na verdade, quem não tem direito ao benefício também é prejudicado porque acaba pagando o dobro. A matéria passa a sensação de que, quem paga a inteira pode pagar camarote ou espaços diferenciados, o que nem sempre condiz com a realidade. Isto me faz lembrar o atendimento preferencial em qualquer tipo de fila. Concordo que tenha que ser assim, mas, por falta de regulamentação, quem não tem direito ao atendimento preferencial, às vezes, tem que esperar um tempo excessivo.

@mayaralopes A revista Valeparaibano deste mês trouxe uma ótima reportagem do @musicalcats que está no último mês de apresentações em SP e é maravilhoso

@EduardoSpinelli Muito bom o texto de Cristina Bedendo, sobre o SPFW, na edição de julho da revista valeparaibano

@CabreraRodrigo Estou com a @revistavale nas mãos e adorei a matéria da @Isaback, Parabéns!!! #30AnossemVinicius

Diana Jacoby D’Onofrio Professora

ARROZ Revelar Sobre a matéria “Vale investe no cultivo do arroz especial”, é interessante a proposta de revelar aos leitores como os valeparaibanos exploram as tendências da gastronomia em seus planos de negócios. A reportagem mostra como é possível expandir nossas visões mesmo para algo que já estamos tão habituados, como o arroz. Heitor Augusto Santos Botan Comunicação e Eventos Senac Taubaté

@galvaofrade @revistavale Li a revista e gostei. Sou de Taubaté, um grande abraço

@rpasin Os preços de ingressos de eventos culturais é calculado em cima da meia-entrada. Hoje 80% dos ingressos vendidos são ‘meia-entrada’. Quem paga a inteira, está pagando por dois.

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Política

Dois Pontos

Marcos Meirelles Jornalista

O Trem-Bala na rota das eleições presidenciais No calor da disputa eleitoral, o projeto de construção da linha corre o risco de se transformar em mais um factóide político

BRANCO & PRETO Ponto de Vista: São Paulo e a Copa de 2014

“Não há hipótese de colocarmos recursos públicos no estádio. Infelizmente, ainda temos na cidade de São Paulo inúmeros desafios” Gilberto Kassab Prefeito de São Paulo

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REAÇÃO Para Serra, bancar a construção de uma ferrovia deste tipo com o dinheiro federal é desperdício

governo Lula promete alavancar o projeto do TAV (Trem de Alta Velocidade) entre o Rio de Janeiro e Campinas com um financiamento de R$19,9 bilhões do BNDES. O candidato do PSDB à Presidência, José Serra, avalia que bancar a construção de uma ferrovia deste tipo com o apoio do Tesouro Nacional é desperdício de dinheiro público e que seria melhor investir em outros projetos de infraestrutura, como melhorias nos metrôs das capitais. Quem tem razão? No calor da disputa eleitoral, o Trem-Bala corre o risco de se transformar em mais um factóide político, inspiração fácil para megalomania petista sob o comando de Dilma Rousseff ou alvo preferencial para os economistas conservadores alinhados à candidatura de Serra. Entre os eleitores da região, o Trem-Bala

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tornou-se uma obra necessária e palpável, restando dúvidas sobre a localização das estações e sobre o modelo de financiamento do projeto. Enquanto os políticos de São José trocam acusações infantis sobre a omissão da ANTT em relação ao segundo terminal no Vale do Paraíba paulista, outros administradores valem-se de seus padrinhos para reivindicar uma atenção especial dos consórcios que irão disputar a concorrência do TAV. Sobre o financiamento público do projeto, resta observar que, na história da indústria brasileira, são raros os projetos inovadores que tenham decolado sem o apoio do Estado. Em outros países, a realidade não é diferente. Então, na hora do voto, será preciso considerar o que é prioridade para o Brasil. De fato, uma verba de R$ 19,9 bilhões poderia ter uma destinação muito mais efetiva, a curto prazo, em termos de melhorias na infraestrutura. Mas a construção do Trem-Bala é inviável?

“São Paulo não ficará sem a abertura da Copa do Mundo. Será o Piritubão. O poder público tem de se mexer para resolver essa questão” Andrés Sanchez Presidente do Corínthians

“Construir um estádio para de vez em quando usar? Eu tenho estádios aqui, eu não preciso de estádios novos. Eu tenho, para que eu preciso de mais?” Alberto Goldman Governador de São paulo

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Domingo 1 Agosto de 2010

Indio da Costa, canditado a vice de José Serra à Presidência

O crack longe da urna em 2010

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uitos temas não são discutidos na campanha eleitoral porque não rendem votos. Quando os candidatos falam sobre segurança pública, por exemplo, gostam de prometer novas estruturas de prevenção ao crime ou mudanças na legislação para tornar mais rigorosas as penas contra os infratores. Nos palanques ou no horário gratuito de rádio e TV, o eleitor não vai escutar nenhuma mensagem específica sobre o combate ao crack, como se o tráfico de drogas fosse uma realidade irreversível, assim como o avanço da mais destrutiva de todas as drogas. No Congresso Nacional, a luz amarela já foi acesa. Existe uma frente parlamentar

O Estado negligente O deputado Fábio Faria (PMN-RN) é o presidente da frente parlamentar mista de combate ao crack, o mesmo que utilizou sua cota de passagens aéreas no Congresso Nacional para agilizar as viagens de sua então namorada, Adriane Galisteu. Em Natal, o avanço do crack mudou o perfil do turismo da orla da Ponta Negra e transformou alguns bairros da cidade, antes valorizada pela sua tranquilidade, em áreas de risco. Em Minas Gerais,bem ao lado da histórica Tiradentes, o município de Santa Cruz de Minas se transformou em território do crack, com uma escola pública aterrorizada por casos de homicídio e por

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“Todo mundo sabe que o PT é ligado às Farc, ligado ao narcotráfico, ligado ao que há de pior. Não tenho dúvida nenhuma disso” mista de combate ao crack, criada para avaliar o impacto da droga nas cidades brasileiras, e uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Violência Urbana, empenhada em investigar a influência do vício em crimes, como roubos e homicídios. O eleitor já ouviu alguma proposta de Dilma Rousseff para minimizar este drama? Alguém já analisou a política de prevenção à violência de José Serra, enquanto governador do Estado, antes que ele bancasse o ‘flâneur’ por aí, propondo a criação de Ministério para tratar da segurança pública? O tráfico e o consumo de entorpecentes representam um drama diário para milhares de famílias brasileiras, algo bem distante do glamour dos palanques de campanha. Quem tem filhos que são ou já foram viciados em drogas sabe que este não é um tema secundário para a discussão do futuro do país. Enquanto uns se omitem na ignorância e outros só falam em reforçar o aparato repressivo, milhares de jovens perdem suas vidas em uma batalha sem razão.

pactos de vingança. Os dramas de Minas e do Rio Grande Norte não estão distantes da realidade de São José, onde existem bairros com ‘biqueiras’ administradas direta ou indiretamente por facções criminosas e o Poder Público é impotente. Há duas semanas, uma dupla de repórteres se viu forçada a ignorar um traficante carregado de ‘trouxinhas’ no conjunto habitacional Henrique Dias, no bairro Monte Castelo, erguido pela prefeitura como modelo do projeto de desfavelização.No bairro Jardim São José 2, na região leste, a prefeitura e a polícia tentam salvar outra iniciativa do programa habitacional, ameaçada pela ação de gangues rivais de traficantes. O que adianta criar comissões no Congresso ou propor a criação de ministérios, se o Estado e sua força policial continuam agindo com uma negligência inadmissível?

PINGUE & PONGUE Paulo Vanucchi Secretário Especial de Direitos Humanos da presidência

Ministro, como o senhor avalia a decisão do STF de manter os termos da Lei de Anistia? Respeito a decisão do STF, mas avalio que ela não foi sensível ao clamor de justiça que familiares das vitimas da ditadura sustentam há décadas. Lamento que o voto vencedor tenha considerado a Lei de Anistia de 1979 como legítima, apesar de aprovada por um Congresso que ainda vivia sob o peso da ditadura militar. A ONU e a OEA rejeitam a legitimidade das leis de Anistia promulgadas nestes contextos e defendem que a adesão do Brasil aos tratados internacionais de Direitos Humanos obrigariam o país a admitir a investigação dos crimes de tortura. A decisão livra os torturadores de possíveis punições? Saúdo os votos dos ministros Ricardo Lewandowiski e Carlos Ayres Britto. E também o fato de a garantia ao direito à verdade e à memória ter se mantido como pano de fundo dos demais votos, que destacaram a importância do país conhecer a sua história para que a violência ocorrida naquele período não se repita. Nesse sentido, o projeto de lei que propõe a criação da Comissão Nacional da Verdade, encaminhado ao Congresso pelo presidente Lula, ganha força para sua aprovação.

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Política ELEIÇÕES

Elaine Santos São José dos Campos

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omos à procura dos astros, orixás e cartas para saber como anda a sorte dos políticos com base eleitoral em São José dos Campos que vão disputar vaga na Assembleia Legislativa ou Câmara dos Deputados. Para a consulta, escolhemos os nomes dos seis vereadores eleitos em 2008 e que lançaram candidatura, além dos dois deputados mais votados na cidade na eleição passada, Emanuel Fernandes e Carlinhos Almeida. Os vereadores candidatos a deputado estadual são Alexandre da Farmácia (PR), Hélio Nishimoto (PSDB), Macedo Bastos (DEM), Wagner Balieiro (PT) e Walter Hayashi (PSB). O vereador Valdir Alvarenga (PSB) é candidato a deputado federal, assim como Emanuel (PSDB), que tenta a reeleição pelo terceiro mandato consecutivo, e o deputado estadual Carlinhos (PT), que disputa vaga na Câmara Federal pela primeira vez. Dos 8 nomes, 5 candidatos aparecem com boas chances de vitória, segundo as previsões. Verdade ou não, os outros dois não estariam em boa sintonia com o mundo astral para as eleições de 2010 e o último teria o destino como incerto. Além de apontarem quem ga-

nha e quem será derrotado, a astróloga Ignês Cristina de Paula, o cartomante Valter Rubens da Silva e o zelador de Orixás Belmar Eduardo Cunha deram dicas e alertaram os candidatos sobre possíveis obstáculos na campanha. Inês estuda astrologia há 20 anos é já tem em sua carteira de clientes empresários da região e políticos renomados. Valter, que mora em Lorena e faz a leitura das cartas, é famoso entre celebridades e políticos importantes. Já Belmar, há 32 anos trabalha com a leitura dos búzios e tem entre seus clientes artistas, políticos e empresários de todo o país. Aparecem nas previsões com grande chance de vitória os candidatos Emanuel Fernandes, Carlinhos Almeida, Macedo Bastos, Walter Hayashi e Hélio Nishimoto. Alexandre da Farmácia e Valdir Alvarenga seriam derrotados nas urnas. Já o destino de Wagner Balieiro, que pela primeira vez concorre a uma vaga na Assembleia, não estaria completamente traçado, deixando margem para dúvidas. Aos 47 anos e casado, Carlinhos Almeida (PT) já foi eleito vereador por três mandatos em São José e está em seu terceiro como deputado estadual. Nas três consultas –cartas, búzios e mapa astral– ele sairia vitorioso nas urnas. “A gente vive num Estado laico, então respeito todas as crenças religiosas e nãoreligiosas e, sinceramente, não me guio por previsões”, disse Carlinhos, que é católico.

Hélio Nishimoto

Buscamos nos astros, orixás e cartas o destino político dos candidatos a deputado federal e estadual com base eleitoral em São José

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A sorte está lançada

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Domingo 1 Agosto de 2010

Valdir Alvarenga

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Walter Hayashi

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Emanuel Fernandes (PSDB), 54 anos, duas vezes eleito prefeito de São José e outras duas como deputado federal, é casado e tem três filhos. É católico. Emanuel, segundo as previsões, vencerá com facilidade. “Não costumo acompanhar esse tipo de previsão, não acredito, mas respeito. Para falar a verdade, não leio nem horóscopo”, disse. Eleito quatro vezes vereador, Hélio Nishimoto, 47 anos, assumiu como deputado estadual em 2009. É evangélico, casado e pai de três filhos. Hoje exerce o cargo de suplente na Assembleia Legislativa e teria chance de se eleger deputado estadual neste ano, com dois sim (do tarô e astros) e um não (dos búzios). “Acredito em Deus. Previsões, magia ou mitos, realmente não fazem parte da minha crença.” Macedo Bastos (DEM) já foi eleito vereador sete vezes. Aos 61 anos, essa é a segunda vez que ele tenta se eleger deputado estadual. Casado há 37 anos, Bastos é pai de três filhos e tem um neto. É cristão evangélico. Para as cartas, astros e búzios, o candidato será eleito. “Não acredito em nenhum tipo de previsões, mesmo que favoráveis. Acredito nos designos de Deus. Prefiro não saber as previsões da matéria.” Valdir Alvarenga (PSDB) está em seu quarto mandato. Tem como religião o catolicismo e entra na disputa por uma cadeira na Câmara dos Deputados. “Sou católico e quem recorre a previsões são pessoas místicas. Respeito, porém, não recorro a esse expediente para saber nada da minha vida. Prefiro não saber o resultado das previsões.” Wagner Balieiro (PT) está em seu segundo mandato na Câmara e, aos 32 anos, é o vereador mais jovem da atual legislatura. Solteiro, Balieiro tem como religião o catolicismo. “Nunca manifestei curiosidade em ver previsões, nem procuro me basear nelas para fazer alguma coisa em minha vida. Mas quando vejo algo do tipo leio por curiosidade.” Walter Hayashi (PSB), 64 anos, é católico e está em seu quarto mandato como vereador. Neste ano disputa pela primeira vez vaga na Assembleia Legislativa. Casado, o candidato tem três filhos e um neto. “Respeito bastante outras religiões, mas como não costumo frequentar não posso me manifestar nem contra e nem a favor. Prefiro não comentar os resultados.” Aos 40 anos, o vereador Alexandre da Farmácia (PR) está em seu quarto mandato consecutivo –é presidente da Câmara. Ele concorre pela terceira vez ao cargo de deputado estadual. Casado e pai de uma filha, o candidato é católico. Segundo as previsões, ele não seria eleito. Alexandre não quis comentar o assunto.

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Política

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Fotos: Eugênio Vieira

ASTROLOGIA Ignês Cristina de Paula, que faz mapa astral em S. José

O que diz o Mapa Astral Alexandre da Farmácia Com Sol em Touro e Lua em Capricórnio, aparece com força, transmite segurança e estabilidade. Não está na sua melhor fase, mas pode haver surpresas se colocar a persistência em jogo. Conselhos dos astros: deve continuar na luta incansavelmente. O trânsito de Plutão pela Lua em Capricórnio pode trazer certo pessimismo, que terá que ser transmutado com urgência. Hélio Nishimoto Carlinhos Almeida S Soll em Câncer, Lua em Leão, Mercúrio em Gêmeos apontam que está completamente à vontade junto ao povo. Passará por complicações durante o período de campanha, mas as dificuldades o fortalecerão. Existem aspectos fortíssimos no mapa que indica criar, realizar, lutar e vencer. Conselhos dos astros: deve cuidar da saúde e não se abalar com problemas pessoais. Sofrerá ameaças e traições, mas sairá forte de tudo isso.

S Soll em Leão, Lua em Virgem, sabe se posicionar como político e agradar grandes grupos. Seu mapa astral mostra uma ótima fase. A campanha será excelente, ótimo período para disputas. Conselho dos astros: deve valorizar seus trabalhos anteriores e mostrar isso durante a campanha, mostrando assim sua forte liderança. Não pode ser comedido ou deixar-se vencer por problemas que podem surgir, confundindo assim sua meta de trabalho. Macedo Bastos

Emanuel Fernandes L Lua em Capricórnio, Sol em Peixes e Mercúrio em Aquário mostram toda a resistência, intuição, humanitarismo e carisma que um político precisa. A Lua em Capricórnio em trânsito com Plutão pode trazer algumas dificuldades adicionais durante a campanha, porém são elas que irão alavancar uma votação de muito sucesso. Conselho dos astros: superar dificuldades familiares ou pessoais, mudar alguma característica já previsível dificultando o acesso aos adversários. Não deve dar importância a pequenos problemas diários com o partido.

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M Mapa com quatro planetas em Gêmeos. Versatilidade, jogo-de-cintura e carisma são características de campanha. Tem muita chance de vencer essa eleição. Conselho dos astros: deve continuar como está, porém, esclarecendo melhor algumas coisas com seu poder de comunicação. Não pode abusar da dispersão geminiana, que tem como tendência começar um projeto e não terminar. Também não deve ir a muitos lugares sem objetividade de campanha. Valdir Alvarenga H Homem de realizações singulares, força,

visão e pé no chão, está em ótimo momento. Em seu mapa, a Lua aparece em Aquário, o que mostra o quanto é humanitário e idealista. Conselho dos astros: ressaltar suas qualidades lembrando a seus eleitores. Deve tentar agilizar o trabalho de campanha. Wagner Balieiro A t Astrologicamente poderia estar em um momento melhor. Tem brilho e é guerreiro. Com Sol em Áries e Cavalo no horóscopo chinês, Balieiro terá uma campanha turbulenta com muita expectativa e pressão. Conselho dos astros: Deve melhorar os discursos, ser mais objetivo quanto às metas que quer atingir. Não pode ser autoconfiante, deixando tarefas suas para outros executarem.

Walter Hayashi S Soll em Áries, Lua em sagitário, Cão de fogo no Chinês: todos esses itens fortíssimos indicam turbulência na campanha, porém terá força na condução dos problemas com sucesso. Conselho dos astros: continuar com esse entusiasmo, melhorar discursos e comunicação em geral. Deve ter cuidados com a impulsividade.

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TARÔ Valter Rubens da Silva, que lê cartas para famosos

O que dizem as cartas do Tarô Alexandre da Farmácia l negativo para ele durante a camHáá algo panha que o prejudicará. Só ganhará essa eleição se conseguir provar inocência em uma acusação injusta que chega para prejudicá-lo politicamente. O conselho das cartas é que ele prossiga na política, mas não deve ter sucesso nessa campanha de 2010. Carlinhos Almeida A Aparece como um dos dois mais votados entre os deputados. Não terá nenhum tipo de problemas durante a campanha. Deve continuar o trabalho que vem exercendo, porém com mais humildade. Emanuel Fernandes Vai ganhar as eleições, mas terá algumas turbulências no meio do caminho. Mesmo assim, levará tranquilamente a campanha. O conselho é que ele faça um check-up de saúde antes de começar efetivamente o trabalho. Emanuel esse ano parece entre o segundo e terceiro candidato mais votado. Hélio Nishimoto h a eleição apesar das cartas indicaGanha rem muitos problemas em sua carreira política. Terá muita dor de cabeça, o que acabará interferindo em sua vida profissional e pessoal. Mas mesmo assim, as cartas indicam como positiva a eleição em 2010.

sobre seus planos e projetos para o mandato e procure mais pelo público jovem. Não vejo problemas na campanha. Valdir Alvarenga Não atinge a meta. As cartas mostram que ele não terá votos suficientes. O conselho é que ele continue na política, mas como vereador. A carreira política é cheia de oportunidades, mas em outras áreas. Mesmo gastando dinheiro suficiente para uma boa campanha não terá êxito. Ficará desapontado por contar com votos de pessoas próximas que o trairão no apoio final. Wagner Balieiro

Macedo Bastos T b ganha a eleição, mas um conselho Também para ele em campanha é para que fale mais

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h a disputa, mas com menos votos Ganha do que quando foi eleito em sua última campanha. Motivo: as cartas indicam que

ele recebe influencia de cinco políticos diferentes –deputados, vereadores e prefeitos– da região. São cinco políticos de muita importância no Vale que fortalece a campanha. Em cinco semanas, estará em sétimo lugar nas pesquisas. Walter Hayashi El Ele ganha, mas como primeiro suplente. As cartas indicam que ele será um dos últimos a ganhar na região em votos, mas acaba conseguindo uma vaga. Terá muitas dificuldades entre agosto e setembro devido problemas pessoais. Mas em outubro tudo melhora. A comunicação é excelente, mas tem negatividade dentro do corpo de trabalho que se divide em outras campanhas. Está acertando em tudo, só precisa ser mais presente na campanha. Deve saber separar a vida pessoal da profissional.

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ORIXÁS Belmar Eduardo Cunha, que joga búzios em S. José

O que dizem os Búzios Alexandre da Farmácia T Tem grandes chances, sim. A tendência dele é crescer na política. Ele não aparece muito no povo, mas é um grande articulador, sabe fazer política. Tem como orixá de cabeça Xango, o Orixá da Justiça, que o ajudará a vencer algumas batalhas que deve enfrentar pela frente. Carlinhos Almeida Q Quem responde é Oxalá. Está tudo bem harmonizado, o período é bom, mas ele terá muitas dificuldades. Será surpreendido. Ganha as eleições com grandes chances. Tem que manter a humildade, um dos pontos fortes de sua campanha, estando sempre em contato com o eleitor. Emanuel Fernandes N No jjogo Emanuel aparece muito cansado. Ele ganha as eleições, isso é claro, mas poderia buscar coisa melhor. Teremos em breve notícias de um novo rumo para Emanuel. Ele aparece aliado politicamente com uma mulher muito forte e isso vai ajudar a região. Atualmente a pessoa não é conhecida, mas vai chegar com muita força.

Macedo Bastos Tem ggrandes chances, mas está por chegar algumas mudanças para ele que serão melhore na política do que o cargo de deputado. Ele entra na política no próximo ano com um convite muito positivo, mas em outro cargo, onde ele vai ter mais êxito do que como deputado.

Hélio Nishimoto Valdir Alvarenga Regido por Ogum, o jogo mostra que ele não leva essa campanha, mesmo com grandes chances. O conselho é que ele permaneça na política. É um homem muito inteligente. No jogo ele aparece se aliando dentro da política com uma mulher que vai se destacar muito na política regional. Terá muito sucesso na vida política.

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Não en entra como deputado. O jogo está fechado para ele por que o caminho dele não é nessa área. Walter Hayashi Conse Consegue se eleger, mas vai ter que buscar

apoio de outras pessoas fora de seu partido. Deve seguir mais a intuição e ideais, sem se deixar ser podado por outras pessoas ou coligações políticas. Wagner Balieiro O jogo mostra que o candidato é uma pessoa que não está cem por cento maduro na política. Vai permanecer na política, mas não entra como deputado estadual nessa eleição de 2010. O conselho dos Orixás é para ele trocar de aliados políticos. Ele está em um lugar que já deu o que tinha que dar, não é mais o centro das atenções. O partido também não está dando todo o suporte suficiente para que ele ganhe a campanha eleitoral. No momento, o candidato se encontra fragilizado. •

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Política Fotos: Eugênio Vieira

INFRAESTRUTURA Maria Madalena Teixeira, 81 anos, da comunidade rural Pedreira Bengalar, em São José; fossa construída há anos nunca foi limpa

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SANEAMENTO RURAL

Vale tem um dos piores do mundo Apenas 6% da população do campo na região tem acesso à rede de esgoto sanitário; índice é pior que o de países marcados pela miséria extrema, como Sudão, Timor Leste e Afeganistão Hernane Lélis São José dos Campos

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aria Madalena Teixeira, da comunidade rural Pedreira Bengalar, em São José dos Campos, nada tem a ver com o terrorismo no Afeganistão, as mortes causadas pela guerra civil no Timor Leste ou a fome que tira a vida de milhares de pessoas no Sudão. Em um ponto, entretanto, a realidade dessa mulher de 81 anos se aproxima muito do ambiente vivenciado nesses países marcados pela miséria extrema. É que no Vale do Paraíba apenas 6% da população rural têm acesso a esgoto sanitário –índice pior que o da Angola e Haiti, por exemplo, onde, respectivamente, 16% e 12% dos moradores do campo são atendidos com serviços adequados de saneamento básico. No Sudão, o percentual é de 18%, no Timor Leste, 40%, e no Afeganistão, 30%. Tal cenário, segundo especialistas e sociólogos, se desenha diante da falta de políticas públicas em todas as esferas governamentais para problemas que vão além do perímetro urbano. Os dados nacionais constam no mais recente relatório de monitoramento do ODM (Objetivos de Desenvolvimento do Milênio), projeto humanitário coordenado pela ONU (Organização das Nações Unidas) que estabelece metas para melhorar a qualidade de vida mundial. Já os números regionais fazem parte do censo demográfico do IBGE (Instituto Bra-

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sileiro de Geografia e Estatísticas), de 2000. Após dez anos do estudo, pouca coisa mudou na vida de quem mora e trabalha na zona rural. Apontada como uma das regiões de maior desenvolvimento no Estado de São Paulo, com PIB (Produto Interno Bruto) estimado em US$ 24,7 milhões, o Vale do Paraíba esconde por trás de suas grandes indústrias e centros de pesquisa uma realidade que incomoda 33.177 famílias que moram no campo. Todas dependem de fossas rudimentares, valas e até rios e lagos para descartarem seus dejetos já que não possuem serviço de coleta de esgoto. A situação, de acordo com sanitaristas e especialistas em saneamento básico, expõe ao risco de contaminação ambiental e problemas de saúde, tais como, diarréia, verminoses, hepatite A e outras doenças tropicais. “É comum construírem fossas sem instruções, o que pode acarretar em doenças que chamamos de veiculação hídrica, como a febre tifóide e a diarréia. Existe ainda o problema da contaminação do solo e lençol freático, isso sem falar dos rios, como é o caso do Paraíba, onde o maior poluidor é o esgoto sanitário”, disse Wellington Cyro de Almeida Leite, doutor em hidráulica e saneamento da Unesp (Universidade Estadual Paulista). “Quando o esgoto vai parar em rios e córregos cria-se um ciclo vicioso. Muitas pessoas pegam essa água, com inúmeras bactérias, parasitas e vírus, para irrigar plantações. Por isso, quem mora na área urbana também sofre com a falta de saneamento na zona rural, uma vez que pode consumir esses alimentos”, explicou Silvana Audrá Cutolo, do Departamento

de Saúde Ambiental da Faculdade de Saúde Pública da USP (Universidade de São Paulo). Rotina No caso da família de Maria Madalena, que mora com o marido e quatro filhos na comunidade rural Pedreira Bengalar, todo esgoto é armazenado em uma fossa rudimentar que fica a pouco mais de 20 metros da casa, cercada de galinhas, porcos e outros animais criados por ela. O buraco é tampado apenas por alguns pedaços de madeira, galhos de árvore, telhas e uma grande chapa de metal enferrujada. “Não lembro quem construiu essa fossa, já faz muito tempo. Acho que ela já está cheia de esgoto, mas não sei se dá para esvaziar. Está até vazando um pouco de água para o quintal”, disse Maria Madalena apontando para uma pequena vala por onde escorria uma água preta, onde ciscava uma de suas galinhas. Em um ponto, porém, a senhora de passos curtos e mãos tremulas, se sente orgulhosa ao falar de sua precária infraestrutura sanitária. “A água que a gente usa vem de uma mina e fica em uma caixa d’água. É água muito boa, não é igual da cidade, cheia de cloro. Minha filha que mora na cidade vem aqui só para levar um pouco de água para ela” disse. Ricardo Ojima, doutor em demografia e mestre em sociologia pela Unicamp (Universidade de Campinas), acredita que a disparidade entre os países da África e Ásia dentro do sistema de coleta de esgoto pode ser explicada pela distribuição populacional, já que nessas regiões a população está concentrada praticamente na zona rural. No entanto, esse fator somente ex-

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plicaria a desigualdade, não servindo de justificativa para o problema encontrado no Brasil. “A população está distribuída diferente, mas existe a questão social. Muitos países são extremamente pobres e sem qualquer planejamento urbano e rural, o que poderia inviabilizar investimentos em infraestrutura, no caso a coleta de esgoto. O tratamento de esgoto não tem tanto retorno político e econômico ao poder público, por isso se investe pouco”, disse Ojima, que coordena um estudo de saneamento básico pela Fundação João Pinheiro, de Belo Horizonte (MG). Para as instâncias federal, estadual e municipais ligadas ao setor, são vários os obstáculos a serem vencidos a fim de garantir o esgotamento sanitário adequado fora do conglomerado urbano. Entre os principais apontados, estão a distância das áreas, pulverização geográfica das moradias e o custo de implantação. “O Plano Nacional de Saneamento Básico deve ser aprovado até o final do ano, com isso teremos diretrizes para a zona rural. Acredito que até agora os programas de saneamento não estão sendo suficientes. O governo federal está trabalhando para resolver essa situação, mas a disposição das áreas prejudica muito”, disse Ernani Miranda, analista de infraestrutura do Ministério das Cidades. Dúvidas A secretária estadual de Saneamento e Energia, Dilma Pena, não acredita na veracidade do estudo divulgado pela ONU. “Acho que esses dados não são verdadeiros, mesmo se tratando de zona rural. O Vale do Paraíba é com certeza superior a esses países africanos, é uma região muito desenvolvida. Na África as pessoas carregam latas com água na cabeça”, afirmou. Dilma pretende finalizar até o final desse ano um mapeamento na zona rural do Estado que dará origem a uma série de medidas com o objetivo de levar saneamento básico para aos moradores do campo. “Ainda estamos começando, mas acredito que até o final do ano estará pronto para execução. É difícil conseguir atender a todos, muitos moram em áreas espalhadas uma das outras. É quase um planejamento individual. Agora, os aglomerados vamos estudar caso a caso”, disse. Tal intervenção é sonho antigo do pedreiro Cassiano Aparecido Machado, 33 anos. Em sua casa, no núcleo rural Pau-de-Saia, em São José, ele mostra duas fossas rudimentares distantes a pouco mais de 10 metros de sua residência, onde mora com a mãe e outras três pessoas.

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Bem próximo às fossas passa um córrego de água, que ele garante ser livre de impurezas. “Uma das fossas já está cheia e tivemos que abrir outra. Essa nova eu mesmo fiz há uns sete anos e nunca deu problema. A prefeitura vem às vezes arrumar a rua, mas nunca falaram nada sobre a fossa. Esse ano ouvi dizer que vão trazer água encanada. Por enquanto a gente usa água de mina, já o esgoto não acredito muito que vamos conseguir”, disse. Infraestrutura De acordo com o IBGE, 140 mil pessoas moram na zona rural no Vale. Somente em São José, Taubaté, Jacareí e Guaratinguetá– são 33 mil moradores. A coleta de esgoto é quase que predominantemente feita por fossas rudimentares, que facilitam a poluição do lençol freático e poços d’água, e fossa sépticas, que funcionam como um filtro atenuando a agressividade do esgoto no meio ambiente. A terceira opção, também muito utilizada, é descartar os dejetos em rios e córregos. Em São José, por exemplo, apenas 0,02% da população rural, estimada em pouco mais de 6.000 pessoas, tem acesso à rede de esgoto. O mesmo índice é apontado pelo IBGE em Guará, com 5.000 moradores no campo. Entre os 7.000 moradores rurais de Jacareí, esse número sobe para 0,46%. Em Taubaté, com 14 mil moradores no campo, o percentual é de 1,68%. “O IBGE realiza seu 12º censo. O trabalho é feito a cada dez anos por seguirmos os padrões internacionais, além disso, o custo é muito alto devido sua abrangência. O que observamos nos últimos anos é que vem aumentando a quantidade de fossas sanitárias no Brasil. Ainda existe o êxodo rural, mas a proporção já não é tão grande como antigamente”, explicou João Alves de Lima, supervisor de disseminação de informações do IBGE de São Paulo. “Quando se fala em saneamento rural, estamos falando em fossas para esgoto e poço para água. O poder público precisa orientar essas pessoas sobre o funcionamento e construção desses meios alternativos. Observamos que muitos aglomerados rurais possuem condições de receber investimento para uma captação adequada, mas varia de governo para governo. Uns preferem uma praça bonita e outros esgoto tratado”, disse Lima. A Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), responsável pela distribuição de água e coleta de esgoto em 24 municípios do Vale, atua somente na área urbana das cidades tratando até 73% do esgoto

RAIO-X AMBIENTAL

6.536 PESSOAS Moram em núcleos rurais em São José dos Campos. 33 famílias contam com rede de esgoto e outras 568 com fossas sépticas

14.185 PESSOAS Moram em núcleos rurais em Taubaté. 1.114 famílias contam com rede de esgoto e outras 858 com fossas sépticas

7.845 PESSOAS Moram em núcleos rurais em Jacareí. 237 famílias contam com rede de esgoto e outras 374 com fossas sépticas

5.014 PESSOAS Moram em núcleos rurais em Guaratinguetá. Cinco famílias contam com rede de esgoto e outras 632 com fossas sépticas

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coletado. A previsão é que até setembro o índice de cobertura chegue a 95%, com a ativação de uma nova estação em São José. Segundo a companhia, o atendimento às comunidades rurais é de competência das administrações municipais, no entanto, quando solicitada pelas prefeituras procura apoiar as iniciativas de se levar infraestrutura sanitária aos moradores da zona rural.

SEM VISTORIA O pedreiro Cassiano Aparecido Machado, 33 anos, no núcleo rural Pau-de-Saia, em S. José; em sua casa há duas fossas rudimentares

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Reação A secretária de Planejamento de São José, Cynthia Gonçalo, afirma que a prefeitura não tem interesse em investir na área rural para evitar o adensamento da população. Por isso, pouco foi feito. A administração tem mapeado 33 núcleos rurais em áreas clandestinas –22 receberam infraestrutura de energia elétrica, 10 possuem água e luz e 1 tem água, luz e esgoto. “Isso vem do conceito das cidades, quando as pessoas se juntam em uma região para dividirem toda infraestrutura pública. A área rural é outra condição, não tem como receber a mesma infraestrutura do perímetro urbano. A gente tem um cuidado especial para não adensar por serem áreas ambientalmente frágeis. Por isso as pessoas são servidas de fossas e poços”, disse Cynthia. A secretária garante que a administração realiza um trabalho de orientação à população sobre como armazenar adequadamente a água e construir fossas sépticas e rudimentares. O trabalho é coordenado pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico, por meio do Proder (Programa de Desenvolvimento Rural). “A gente dá uma orientação técnica sobre o uso da propriedade. É uma assistência não só na parte produtiva, mas também social e ambiental. Temos um grupo técnico voltado para isso. Quando sabemos de um problema, a equipe vai até a propriedade e, em alguns casos, o produtor vem até a gente”, disse José de Mello Corrêa, secretário de Desenvolvimento. A Saeg (Companhia de Serviço de Água, Esgoto e Resíduos de Guaratinguetá), responsável pela infraestrutura sanitária da cidade, atendeu nesses últimos dez anos o núcleo rural Rocinha, que em 2000 tinha 194 domicílios rurais, sendo 34 com rede geral de esgoto. Hoje, o número de propriedades subiu para 315, com 200 casas atendidas pela companhia. A comunidade rural Pedrinhas era habitada há dez anos por 34 famílias que usavam fossa séptica e córregos para despejar os resíduos. Após a construção de uma Estação de Tratamento de Esgoto, em 2003, a quantidade de

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moradias subiu para 65, sendo 47 atendidas pela nova estação, que custou R$ 120 mil. De acordo com André Luiz de Paula Marques, presidente da Saeg, um novo plano de ação é traçado para atender 200 famílias do Ribeirão Guaratinguetá. A ideia é estabelecer parcerias com os moradores para que sejam construídas fossas sépticas em cada moradia. Além disso, a população será orientada quanto ao tratamento adequado de água em caixas d’água. “Economicamente é inviável investir em saneamento nessas regiões. As obras que fizemos na Pedrinha não foram rentáveis, mas se existe densidade pensamos no lado social e procuramos realizar essas obras. Temos casos de pessoas quem vêm procurar a gente para a construção adequada de fossas sépticas. Quando isso acontece procuramos estabelecer uma parceria, montamos o projeto e custeamos parte da obra”, disse Marques. O Saae (Serviço Autônomo de Água e Esgoto) de Jacareí não dispõe de informações para estabelecer comparativo entre o levantamento feito pelo IBGE com o quadro atual. Mas de acordo com Fernando Antonio Batista, presidente da empresa, existe hoje uma dificuldade técnica para levar saneamento adequado aos moradores do campo. “São propriedades de 45 hectares e a maioria em área de pastagem. A opção para essas pessoas é utilizar fossas sépticas. Fazemos panfletos de orientação sobre como construir de maneira correta uma fossa, mantendo distância de poços, entre outras informações. Agora, havendo viabilidade técnica podemos levar saneamento”, disse Batista. Buscar essa viabilidade técnica é um dos objetivos do secretário de Meio Ambiente de Jacareí, José Roberto Fernandes, com o Plano Municipal do Meio Ambiente. Uma das diretrizes do estudo, que ainda está em fase preliminar, é identificar aglomerados rurais que tenham condições de receber infraestrutura de distribuição de água e coleta de esgoto. “A primeira parte é a radiografia dessas áreas para verificar eventuais problemas e depois traçar alternativas de enfrentamento. Acredito que encontraremos áreas rurais que estão aptas para levarmos água e sistema de esgoto. Vamos detectar onde há problema de lançamento de esgoto, fossas construídas de maneira irregular e contaminação do lençol freático para reverter essas situações.”. Alternativa Com uma das maiores populações rurais do Vale do Paraíba, Taubaté também encontrou

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BUCÓLICO Área de pastagem na região norte de S. José, que concentra núcleos rurais; apenas 0,02% da população do campo tem rede geral de esgoto

Prefeituras apontam a distância como o principal problema para levar rede de coleta de esgoto às comunidades rurais

na distância entre as casas rurais um obstáculo para levar infraestrutura sanitária. No entanto, mesmo que tardia, a administração municipal procurou alternativas para suprir a falta de coleta de esgoto adequado. De acordo com Antônio Carlos Pedrosa, diretor de Planejamento, desde o início de 2009 a prefeitura está instalando fossas sépticas nas propriedades. “Não conseguimos levar obras de canalização, de coleta de esgoto. É um trabalho complicado demais, por isso optamos estimular o uso de fossas sépticas. Até agora conseguimos implantar 47 fossas, mas nosso objetivo é chegar a pelo menos 300 unidades. É difícil prever um prazo já que dependemos da vacância de homens e equipamentos. Essas fossas fazem um tratamento primário antes dos dejetos chegarem aos sumidouros”, explicou Pedrosa. A solução, segundo o diretor, é uma das melhores encontradas até que seja viável levar coleta adequada de esgoto. “O morador rural pode procurar a prefeitura e vamos oferecer todo o suporte para a construção dessas fossas, desde o material até a mão-de-obra. Trabalhamos também com a possibilidade de canalizar e fazer uma fossa séptica coletiva nos locais de grandes aglomerações”, disse o diretor. •

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Ozires Silva

A necessidade de termos estabilidade e controle em tudo que fazemos stes dois conceitos físicos, a estabilidade e o controle, são fundamentais na natureza e se apresentam como importantes para qualquer coisa que se desloque, inclusive os aviões. A estabilidade é em geral definida pela capacidade de um sistema retornar ao seu equilíbrio inicial sempre que sujeito a uma excitação externa que altera suas condições de repouso ou de movimento constante.

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Já o controle é o que se coloca em jogo para alterar uma condição de estabilidade, sendo limitado em geral por aplicações de força e produzindo de deflexões. Na realidade, o controle deve ser algo sempre limitado por razões estruturais ou de segurança. Estes dois conceitos foram claramente entendidos por Santos Dumont, quando efetuou seu clássico vôo do mais pesado do que o ar em 1906, em Bagatelle, na França, pendurou seu 14-Bis, no Balão 14. Buscava encontrar o centro de aplicação das cargas de gravidade para garantir o posicionamento correto no seu avião pioneiro, de modo a conseguir a estabilidade básica, essencial para um vôo seguro. Procurando ver o assunto sob o ângulo da sociedade brasileira, é curioso notar que estas características básicas, ditadas pela natureza, estão presentes em muitas outras aplicações e não somente nos veículos de um modo geral. E exercem um poder crucial na evolução dos sistemas sociais.

SOCIEDADE “No mundo global, aquele que não embarcar nas tendências já reais, perderá a capacidade de competir” Esta ideia vem do sentido que parece encontrarmos quando nos referimos à sociedade moderna, trazendo à tona a necessidade de contarmos com fenômenos, como a estabilidade e o controle, para garantir o funcionamento da vida das nações, regiões ou cidades. De um modo geral nos governos e no desempenho das organizações, e mesmo dos indivíduos, tudo passa pelo complexo emaranhado de influências e de obrigações que nos atingem todos os dias. Como seria bom contarmos com a estabilidade regulando os requisitos legais e sociais, assim como a natureza faz excelente o seu desempenho, em que pesem as catástrofes, possivelmente até necessárias para o bem maior. Já o controle, longe do que os governos desejam e mesmo praticam na atualidade, não parece responder aos princípios básicos dos fenômenos descritos. Tudo isso deve nos trazer reflexões, em face do que tem acontecido nesta parte do mundo. Ainda que muitos possam argumentar que se esteja exagerando, na atualidade, nosso continente está se atrasando com intensidade. Pesquisas recentemente efetuadas indicam que já há na China uma mudança que não poderíamos pensar há pouco.

Muitos falam que de comunista a China nada mais tem. Apoiada por regras claras e racionais, por um sentido global de colaboração entre as autoridades e o setor produtivo, a grande nação asiática conseguiu uma soma de resultado que surpreende a todos. Se tomarmos como exemplo a aviação brasileira, o nosso país parece fugir do real. Que precisamos de aviões acredito que ninguém possa negar. Numa nação continente, como a nossa, com uma infra-estrutura de transporte e mobilidade por construir, trabalha mais sobre restrições do que realizações. O resultado, como comentou recentemente um conhecido e respeitado analista norte-americano, “o Brasil tem uma aviação bem menor do que necessita”. Vamos continuar assim, sem reformas e mudanças? A resposta não está somente com o governo, mas também com a sociedade. No mundo global, aquele que não embarcar nas tendências já reais, perderá inexoravelmente a capacidade de competir no mercado mundial, passando a correr o enorme risco de condenar seus descendentes à pobreza no mundo competitivo que já existe. •

Ozires Silva Engenheiro

ozires@valeparaibano.com.br

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Avião espião: a nova arma tecnológica Em São José, duas empresas desenvolvem modelos de aviões não-tripulados para operações de vigilância, reconhecimento, sensoriamento remoto e de ataque Hernane Lélis São José dos Campos

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país já tem tecnologia para disputar o mercado dos veículos aéreos não-tripulados, mais conhecidos como Vants: os temidos aviões espiões desenvolvidos para uso em operações de vigilância, reconhecimento, inteligência, sensoriamento remoto e até de ataque. Estão em solo joseense duas empresas brasileiras que trabalham na produção dessas aeronaves, cobiçadas pelo setor de defesa de todos os governos mundiais. Uma delas, a Flight Technologies, entrou em fase de negociação com o Exército e tem um de seus equipamentos, o FS01 Watchdog, testado pelas Forças Armadas. Considerado um Vant de pequeno porte, com custo estimado em R$ 5 milhões, o FS01 tem câmeras de vídeo com visão noturna, o que o torna um excelente mecanismo de inteligência.

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O pequeno avião espião, de 3,2 metros de comprimento e 4 metros de envergadura (tamanho da asa), possui autonomia de voo de até seis horas e atinge velocidade máxima de 150 km/h e altitude de até 10 mil pés. “É um robô aéreo desenvolvido para o Exército Brasileiro. Pesa 100 quilos e é operado por uma estação de solo com dois computadores instalados em um veículo acondicionado com geração de energia. Cada sistema custa R$ 5 milhões e vem equipado com três aeronaves, além do sistema de controle de base”, disse Nei Brasil, diretor-executivo da Flight Technologies. Em paralelo, a empresa desenvolve um segundo projeto de Vant portátil. “Tratase de um sistema portátil para que os soldados possam carregar o material em uma mochila e operar o avião de qualquer lugar. O equipamento, FS02 Avant Vision, pesa 35 quilos, sendo 6 da aeronave e o restante do equipamento total. O FS02 tem capacidade para percorrer até 15 quilômetros da estação de solo”, disse o executivo. “Esse projeto [o FS02] a gente considera como sistema de Vant demonstrador de tec-

TESTES Soldados testam em área do Cavex, em Taubaté, o Vant FS02, produzido pela Fligth Technologies, em S. José

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Fotos: Eugênio Vieira

nologia. Seria o primeiro passo para se alcançar todos os requisitos que o Exército necessita. A intenção é que, com a disponibilização de mais recursos financeiros, o Exército e a Fligth, com base no atual projeto, consiga atender todos os requisitos necessários ao Exercito”, disse o major Ademir Rodrigues Pereira, gerente responsável pelo projeto Vant do Exército Brasileiro. Desde 2008, o Exército estabeleceu necessidades estratégicas com o uso de veículos aéreos não-tripulados de baixo alcance para reconhecimento e vigilância de áreas, principalmente em operações na Amazônia. “São três as nossas necessidades atuais com esse tipo de equipamento: alcance de 15 kms, que seriam propulsados pelo homem com peso máximo seis quilos, Vants com alcance de 20 a 50 kms e Vants com alcance de até 150 quilômetros de distância”, explicou o major. Os testes com o FS01 são feitos em Taubaté, na área do Cavex (Comando de Aviação do Exército). São testadas as capacidades de voo autônomo, quando a rota é programada antecipadamente, e de voo monitorado em tempo real pelo soldado. O Exército já definiu algumas unidades que serão compradas, mas somente deverá fazer a aquisição após a fase de testes. “A ideia de pesquisa e desenvolvimento existe e estamos cumprindo com o prazo definido estrategicamente. Vamos desenvolver no mercado nacional”, disse o major. Segundo ele, o projeto da Fligth Technologies já foi aprovado pelo Comando-Maior e o Vant joseense atingiu quase todos os requisitos –depende apenas de recursos financeiros do governo federal para ser habilitado para uso do Exército. “Nosso primeiro contrato com a Fligth já se encerrou. Agora, acreditamos que, no máximo, em quatro anos tenhamos nossa frota de Vants nacionais. Na verdade, o que o Exército encomendou de tecnologia à Fligth de São José foi um Vant que chamamos de DP15, que tem autonomia de apenas uma hora de vôo e de 15 km de distância. Já o FS01, que tem seis horas de autonomia, é um outro contrato que pretendemos ter com a empresa”, disse o major. Falcão Outra empresa, também de São José, que está pronta para disputar o mercado de Vants é a Avibras. Uma equipe de engenheiros trabalha na finalização do projeto Falcão. Diferentemente do pequeno FS01 desenvolvido pela Fligth, o Falcão é consi-

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Economia

derado de médio porte e chega bem perto da tecnologia avançada do Heron1, o Vant israelense já em operação pela Polícia Federal e adquirido por U$ 40 milhões pelo governo brasileiro. “O Falcão é desenvolvido com verba da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), do Ministério da Ciência e Tecnologia. Ele é a segunda etapa de um projeto que se iniciou com o desenvolvimento de um sistema de navegação e controle totalmente nacional, em conjunto com o DCTA (Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial), o IPqM (Instituto de Pesquisa da Marinha) e o CTEx (Centro de Tecnologias do Exército). Agora estamos concluindo nele o desenvolvimento de uma nova plataforma de voo e sensores para missões de reconhecimento e vigilância”, explicou Renato Bastos Tovar, gerente do programa Vant da Avibras. O Falcão terá um alcance superior a 150 km de distância e 15 horas de autonomia de voo, podendo levar mais de 150 quilos de carga útil –câmeras com infravermelho, câmeras coloridas e térmicas. A aeronave da Avibras tem 11 metros de envergadura e peso máximo de decolagem de 700 quilos. A previsão para os primeiros testes de voo é para o final deste ano. “O Falcão pode voar a 15 mil pés de altura, aproximadamente 5.000 metros, e é capaz de identificar alvos em solo com perfeição. Sua capacidade de imagem é Full HD. Ele consegue, com detalhes, identificar uma pessoa ou alvo a cinco quilômetros de distância”, explicou Tovar, admitindo que as especificações do Falcão vão de encontro às necessidades das Forças Armadas Brasileira, mas estão momentaneamente fora dos objetivos da Polícia Federal, que pede um Vant estratégico, de maior alcance e maior autonomia, como é o caso do israelense Heron1. A aeronave joseense foi projetada para decolar de pista com até 800 metros de comprimento ou de catapultas e trilhos. Em princípio, sua aplicação no Exército seria de vigilância na Amazônia, mas ainda não tem nada aprovado. Com valor estimado em U$ 25 milhões, o equipamento é composto por quatro aviões e um sistema de comando e controle de solo, além de suporte técnico. A previsão de entrega do projeto é para o final de 2011. Vida Real Os Vants passaram da ficção científica à realidade em pouco mais de três décadas. São produtos decorrentes do casamento das tecnologias aeronáuticas com as modernas

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PROJETO Funcionários da Fligth trabalham no FS01 na sede da empresa, no Parque Tecnológico

Vants surgiram há três décadas após a união das tecnologias aeronáutica e de informação para atender as necessidades dos setores de defesa

tecnologias da informação, voltados para atender especialmente as necessidades das áreas de defesa e segurança pública. Os aviões robôs são empregados em operações de vigilância, reconhecimento, inteligência, sensoriamento remoto e até de ataque. Teóricos em estratégia aérea já esboçam um cenário futuro, não muito distante, quando uma determinada Força Aérea realizará ofensivas empregando exclusivamente aviões não-tripulados, dirigidos remotamente por pilotos instalados em local seguro e distante do palco de operações. Atualmente existem diversos modelos de Vants desenvolvidos

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com tamanhos que variam das dimensões de um inseto até um Boeing 737. Desde 2007, o governo brasileiro vem trabalhando no projeto de segurança Vant. O diretor-geral da Polícia Federal, Luiz Fernando Correa, criou um grupo de trabalho para estudar a viabilidade do sistema de aeronaves não-tripuladas no país. “Há três anos, o Departamento de Polícia Federal estuda a viabilidade de emprego de estruturas Vants nas atribuições da PF. Desde então verificamos a importância desse sistema não só para a Polícia Federal, mas para o país. Fizemos a primeira aquisição da IAI (Israel Aerospace Industries), empresa israelense, e as primeiras duas unidades foram compradas em maio deste ano. Estudamos agora a aquisição de novas unidades para complementar o projeto, que tem previsão de final de operacionalização das bases necessárias até julho de 2014”, disse José Luiz Boanova, gerente do projeto Vant da Polícia Federal. Ao todo serão quatro bases para Vants da PF em todo o país: a primeira em São Miguel do Iguaçu, no Paraná, onde já há um sistema de voo de Vants em atuação, a segunda ficará na região de Manaus, a terceira está prevista para a região de Porto Velho, em Rondônia, e a quarta, em Brasília, onde haverá um centro de manutenção, formação e treinamento de pilotos para os Vant.

MODELO Vant Falcão que é desenvolvido pela Avibras, em S. José; previsão é que aeronave seja concluída em 2011

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Tecnologia Nacional À frente dos projetos de segurança nacional, Boanova explica que a tecnologia brasileira, mesmo avançada, ainda não atenderia em curto prazo os requisitos técnicos e operacionais atuais da Polícia Federal. “A própria Avibras, em 2008, foi chamada para uma apresentação do nosso projeto e concordou que, dentro das nossas necessidades, do nosso teatro de operações e da nossa atuação prevista para o Brasil inteiro, que é a ideia de prover seguranças de fronteiras e sobrevoar na região amazônica reprimindo o crime ambiental, não atenderia as necessidades da Polícia Federal em curto prazo. Afirmou que levaria até oito anos e seria preciso um investimento de R$ 1 milhão para chegar a uma plataforma como a do Heron 1”, disse Boanova. Segundo ele, o projeto Falcão da Avibras, não se aproxima do Vant israelense por uma série de características de operação. O Heron1 tem 16,6 metros de envergadura, 8,4 de comprimento, autonomia de até 40 horas de voo e pode ser controlado via satélite.

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Esse equipamento esteve em território nacional pela segunda vez na fronteira de Foz do Iguaçu, no início do ano, e tem negociação fechada de duas aeronaves que chegam ao Brasil nos próximos meses para serem usadas pela Polícia Federal. “Essa plataforma israelense já opera há 16 anos. A Polícia Federal não poderia utilizar um sistema que ainda está em desenvolvimento, como o da Avibras. Temos com o Heron1 mais de 40 mil horas de voo como requisitos técnicos importantes. Essa maturidade foi levada em conta para a escolha do equipamento, antes da aquisição”, disse Boanova. Segundo ele, o equipamento desenvolvido pela Avibras atende as necessidades do Exército e das secretarias estaduais de Segurança Pública, que pedem um equipamento com menor extensão de atuação. O Heron1 pode, em 10 dias, mapear por radar todo o território brasileiro. Com seu sistema infravermelho detecta túneis e identifica embarcações submersas, muito usadas hoje em dia por traficantes para transportar drogas. A base de controle Heron1 e a recepção de imagens do avião são móveis, uma espécie de contêiner, o que facilita a operação. O aparelho também atua com uma rota de voo pré-traçada, guiado por satélite ou também pode ser facilmente operado em tempo real por pilotos na base terrestre com trajeto a definir. Espião Para a Polícia Federal, o objetivo do uso dos Vants é melhorar a vigilância na maior porta de entrada de contrabando, armas ilegais e drogas do país: a tríplice fronteira Brasil, Paraguai e Argentina, na região de Foz do Iguaçu, no Paraná. “Teremos condição de monitorar todas as fronteiras do país e coibir o tráfico de drogas e contrabando com maior eficiência e sem expor nossas equipes ao perigo”, disse Boanova. Outros alvos são as divisas com a Colômbia, Bolívia, Peru e Paraguai, territórios livres para o tráfico e o contrabando. O avião Heron1 permite ainda filmar e monitorar ações humanas com perfeição a 30 quilômetros de distância. “Eu consigo, voando a 6.000 metros de altura, reconhecer um caminhão. É possível comandar a aeronave da base Vant em São Miguel do Iguaçu, sobrevoando a região de Manaus com a utilização de satélite, a 2.300 quilômetros de distância.” Em relação às informações publicadas pela imprensa nacional nos últimos meses, em que o comando da FAB (Força Aérea Brasi-

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leira) afirma que mandará abater os Vants da Polícia Federal caso estes levantem voo, Boanova, afirma que “as afirmações não refletem o que acontece em treinamento pela Polícia Federal”. “Já voamos mais 100 horas no Brasil com o equipamento de teste e agora estamos voando em treinamento na Vant da PF em São Miguel do Iguaçu, no Paraná. Portanto, essas afirmações da FAB não refletem a realidade da PF. Estamos voando e fazendo os testes com total colaboração e coordenação do Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle do Tráfico Aéreo, que é um órgão da FAB.” No mundo Nas guerras do Iraque e do Afeganistão, ganharam fama os aviões sem piloto encarregados de vigiar territórios e bombardear alvos inimigos. O uso dos “drones”, como são conhecidos internacionalmente, recebeu críticas pelas baixas civis que os equipamentos provocaram. O poder invasivo dessa tecnologia foi demonstrado ao mundo em agosto de 2009, quando agentes da CIA, nos Estados Unidos, viram de sua base, em Langley, na Virgínia, a imagem de Baitullah Mehsud, líder do Talibã no Paquistão, aplicar uma injeção de insulina. O fato foi divulgado mundialmente pela internet e deixou o mundo boquiaberto com tamanha realidade de avanço em espionagem. Os primeiros Vants eram pequenos, com pouco alcance e limitada capacidade de transportar sensores, mas eram também relativamente baratos, e o ganho militar alcançado pelos israelenses dede 1973 (Guerra do Yom Kippur) colocaram estas pequenas aeronaves na condição de estrelas da moderna guerra aérea. Todas as vitórias israelenses, desde então, tem tido fundamental participação do uso de Vants. A partir daí, as Forças Armadas dos EUA adotou o conceito, tanto em nível tático quanto estratégico, criando novas categorias de aeronaves não-tripuladas de características únicas. Atualmente, os Vants podem manter vigilância sensorial de grandes áreas durante extensos períodos de voo completamente automatizados a dezenas de quilômetros do seu centro de controle, onde um ou mais operadores monitoram todas as informações em tempo real. Se o inimigo movimentar tropas, veículos ou emitir sinais eletrônicos em área coberta por estes robôs aéreos serão detectados, fotografados e sensoriados, e os dados serão retransmitidos on-line para a retaguarda do comando em terra. •

TESTES O modelo Vant FS02 pesa seis quilos e tem capacidade para percorrer até 15 kms da estação de solo

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FICHA TÉCNICA PREÇO Heron: R$ 80 milhões Falcão: R$ 50 milhões PS01: R$ 5 milhões AUTONOMIA DE VOO Heron1: 40 horas Falcão: 15 horas PS01: 6 horas DIMENSÕES DA AERONAVE Heron1: 16,6 metros de envergadura Falcão: 11 metros de envergadura FS01: 4 metros de envergadura RAIO DE ATUAÇÃO Heron1: 4.000 km da base Falcão: 150 km da base FS01: 150 km da base EQUIPAMENTO DE RASTREAMENTO Heron1: câmera eletro ótica e infravermelha, 2 sensores de radar Falcão: imagem Ful HD, câmeras infravermelhas FS01: câmera de vídeo com visão noturna ALTITUDE Heron1: 30 mil pés Falcão: 15 mil pés FS01: 10 mil pés

Heron

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COMBATE AO CONTRABANDO

Depósito

milionário Galpão da Receita Federal em Taubaté abriga de eletroeletrônicos a carros importados que podem ser leiloados, doados ou destruídos; valor das mercadorias apreendidas chega a R$ 1 milhão Hernane Lélis São José dos Campos

B

asta olhar entre as grades que cercam o depósito da Receita Federal, em Taubaté, para observar dezenas de veículos estacionados no pátio à mercê da ação do tempo. São carros e caminhões de marcas cobiçadas à espera de uma definição judicial sobre sua legalidade. Dentro de dois galpões, mais mercadorias apreendidas – se somadas chegam a R$ 1 milhão. Eletroeletrônicos, computadores, itens de informática, relógios, brinquedos, CDs, DVDs e perfumes também figuram na lista de materiais de origem duvidosa que estão encaixotados e armazenados nas prateleiras sob os cuidados dos agentes. O destino de cada produto é incerto, pode levar anos para que alguma medida seja tomada para estabelecer um destino às mercadorias apreendidas. A morosidade e a burocracia do sistema muitas vezes lotam os depósitos, já que todos os meses chegam centenas de produtos suspeitos de contrabando. As alternativas para dar utilidade aos objetos e abrir espaço nos locais de armazenamento da Receita Federal são: venda por meio de leilão, incorporação a órgãos públicos, doação a entidades sem fins lucrativos e destruição. Entre as medidas citadas, a mais recente

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foi um leilão realizado em junho passado no depósito. À ocasião, foram vendidos pouco mais de R$ 2,9 milhões em mercadorias somente para pessoas jurídicas. A previsão do delegado adjunto da Receita Federal de Taubaté, Walter Curt von Gal, é organizar um novo leilão no início de 2011. “Conseguimos leiloar veículos, produtos de informática, eletroeletrônicos e bazar, que são relógios, porta-retratos, entre outras coisas de menor valor. Os preços ficam abaixo do mercado e 60% do arrecadado vai para a Fundaf (Fundo de Desenvolvimento e Aperfeiçoamento das Atividades de Fiscalização da Receita Federal) e o restante para a seguridade social”, explicou Walter. Diversos produtos apreendidos também são doados a instituições declaradas de utilidade pública federal, estadual ou municipal. Para receber as mercadorias é preciso procurar a Receita Federal e se habilitar. “Veículos apreendidos e não-recuperados também podem ir para doação, alguns vão até para escolas. Verificamos se temos o pedido da instituição, se não, ela fica aguardando. O que é doado não pode ser comercializado”, disse o delegado. O Lar Santa Verônica, entidade filantrópica de Taubaté, já foi beneficiado com doações da Receita. Em 2008, a instituição recebeu brinquedos, utensílios de cozinha, agasalhos e até roupas íntimas para as 270 crianças e adolescentes atendidas pela unidade. Uma nova lista de pedidos foi encami-

Leilão de mercadorias apreendidas pela Receita Federal de Taubaté arrecada R$ 2,9 milhões; novo pregão está previsto para o começo de 2011

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Eugênio Vieira

nhada no ano passado e a intenção para esse ano é pedir um automóvel como caridade. “Descobrimos esse trabalho por meio da mãe de uma das nossas crianças e, como sobrevivemos de doações, buscamos mais essa ajuda. Encaminhei um pedido de fogão, aparelho de som, máquina fotográfica, computadores e algumas outras coisas. Estamos precisando agora de um veículo para transporte das crianças e doações”, disse Elza Maria Pianta, diretora da entidade. Inutilização Produtos falsificados, cigarros, bebidas alcoólicas, CDs, DVDs e mercadorias condenadas pela Vigilância Sanitária ou Defesa Agropecuária são destruídas por empresas parceiras da Receita Federal. A medida pode ser tomada até mesmo enquanto o processo de ilegalidade está em andamento. Normalmente esse trabalho é feito em 3 de dezembro, no Dia Nacional de Combate à Pirataria e à Biopirataria. “Para realizar esse trabalho tomamos cuidado em não prejudicar o meio ambiente. Plásticos, papelão, metal e vidro são destinados para cooperativas de reciclagem”, disse Walter. No ano passado todas as unidades da Receita no Brasil destruíram 3.120 toneladas de mercadorias apreendidas em decorrência de contrabando, descaminho ou falsificação. Somente em Taubaté foram destruídos cigarros, bebidas, isqueiros, produtos químicos, brinquedos, CDs e DVDs, totalizando 13 toneladas de mercadorias –avaliadas em R$ 813 mil. “Se necessário a gente também incorpora alguns produtos. Ao invés de outras destinações, a gente procura aproveitar a mercadoria para uso da Receita Federal. É raro isso acontecer, não me lembro de termos incorporado nada nesses últimos anos, mas pode acontecer”, afirmou o delegado.

DEPÓSITO Acima, carros no pátio da Receita Federal de Taubaté; ao lado, o delegado adjunto, Walter Curt von Gal: “o que é doado não pode ser comercializado”

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Triagem A Receita Federal realiza ainda uma triagem nos produtos apreendidos com objetivo de encontrar outros tipos irregularidades, como por exemplo, tráfico de drogas e outros tipos de entorpecentes. “Já encontramos anabolizantes escondidos dentro de potes de creme, remédios dentro de brinquedos e até mesmo munição. No caso dos anabolizantes e remédios enviamos para a Polícia Federal, já a munição foi para o Exército. Paramos de doar brinquedos por causa do risco de toxinas nos produtos de fabricação e risco físico às crianças”, disse Walter. •

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Economia Fotos: Eugênio Vieira

INCUBADORA

Novo salto da ciência Pesquisa com pele de rãs aponta novo caminho para o tratamento de queimaduras; tecnologia é desenvolvida no Parque Tecnológico da Univap

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Hernane Lélis São José dos Campos

QUÍMICA Maria de Lurdes Molarinho Velly, 74 anos, da VellyFARM

onhecida como polo de alta tecnologia e inovação no setor industrial, São José dos Campos pode se tornar também referência na área da saúde. Pesquisadores do Parque Tecnológico da Univap (Universidade do Vale do Paraíba) desenvolvem uma metodologia inovadora no tratamento de queimados usando como matéria-prima a pele de rã para fabricar curativos e pomadas. O trabalho é conduzido pela VellyFARM, uma empresa de biotecnologia, sob a coordenação da química Maria de Lurdes Molarinho Velly, 74 anos, que estuda há 30 anos a cadeia protéica de animais para fins medicinais e terapêuticos. Segundo ela, a diferença entre pesquisas já realizadas com o produto está no processo de fabricação e aplicação da nova fórmula. “Em Goiás, onde existem estudos similares, usam a derme, que é a camada mais profunda da pele, e nós usamos a epiderme para os curativos. Constatamos maior vantagem nesse tecido por ser transparente, poroso e conseguir se fixar sozinho na pele lesionada”, explicou a pesquisadora. Estudos morfológicos e patológicos comprovaram o poder antibacteriano e cicatrizante do produto. “Antes de ser utilizado em seres humanos, o curativo passou por diversos testes laboratoriais. Notamos uma acelerada cicatrização dos tecidos e sem deixar cicatrizes”, disse. A pomada em gel elaborada pela pesquisadora é feita de queratina pura extraída da epiderme (camada mais profunda da pele) da rã por meio de um processo patenteado no Brasil e em diversos países. A pomada age aliviando a dor provocada pelo ferimento, cicatrizando e restaurando os tecidos. “A rã tem uma potencialidade protéica rica em silício orgânico [elemento importante para formação e desenvolvimento de tecido] com todos os aminoácidos essenciais para o paciente vítima de queimaduras”, afirmou Maria de Lurdes. A pele da rã, que normalmente é desprezada pelos criadouros que querem apenas vender a sua carne, é comprada pela VellyFARM de um frigorífico do Rio de Janeiro, com preço médio de R$ 10 o quilo. Para conseguir aproveitar com maior quali-

dade os insumos, a pesquisadora aplicou um curso aos funcionários do frigorífico. “Segundo os testes, a pele da rã é revitalizante, consegue acionar os fibroblastos, que são os produtores de colágenos. Além dos materiais para queimados, estamos pesquisando outras 20 aplicações desse produto, como, por exemplo, na área de cosméticos e agricultura”, afirmou.

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Estudos com pele de rã já consumiram cerca de R$ 6 milhões em investimento, além de R$ 223 mil com verbas da Finep e da Fapesp

COMO FUNCIONA O TRATAMENTO INDICAÇÃO A pele da rã para o tratamento de queimados pode ser usada em lesões de até segundo grau, área doadora de enxerto de pele e ferida com tecido em fase de granulação APLICAÇÃO A pele deve ser reidratada com solução fisiológica de modo que readquira sua textura normal. Depois é aplicada sobre a lesão limpa VANTAGEM O curativo mantém a lesão umida e permite permeabilidade. Juntamente com o gel, acelera o processo de cicatrização dos ferimentos

Mercado Márcio Leite Fontoura, cirurgião plástico da Unidade de Tratamento de Queimados, da Santa Casa de São José dos Campos, acredita que o setor precisa de novas metodologias de tratamento, especialmente para os cuidados iniciais do ferimento. Para ele, além de eficiente, o medicamento precisa ter baixo custo de utilização. “É uma área que necessita de estudos. A fase inicial do paciente queimado é a mais complicada do tratamento. Essa nova iniciativa pode colaborar com esse estágio, como se fosse a primeira pele do paciente até que se possa fazer um enxerto. Tudo depende da extensão da queimadura”, explicou Fontoura. Somente no ano passado, a Unidade de Queimados da Santa Casa de São José realizou 155 cirurgias em pacientes com diferentes graus de queimaduras pelo corpo, 2.700 curativos, 130 internações e 777 consultas. Para avançar nas pesquisas e conseguir colocar os produtos no mercado, a VellyFARM busca agora aporte financeiro. Desde o início dos estudos, R$ 6 milhões já foram empregados –verba da iniciativa privada e recursos próprios da empresa–, além de R$ 223 mil da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) e da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa dos Estado de São Paulo). Investimento De acordo com Maria de Lurdes, mesmo cientificamente comprovada a eficiência do curativo e do gel ainda é preciso estudo clínico para utilizá-los em seres humanos. “Estudo a cadeia protéica dos animais há muitos anos, por isso tanto investimento. Esse trabalho deu origem também a outros produtos e pesquisas. Para avançar no que diz respeito ao tratamento de queimados é preciso agora pesquisa clínica, o que demanda mais recursos”, disse. •

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Ciência & Tecnologia

Fabíola de Oliveira

Onde está a representatividade do setor tecnológico na política regional?

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sociedade joseense tem particularidades que por vezes a faz navegar entre uma metrópole com ares internacionais e uma cidade provinciana, no bom sentido da palavra. A partir da década de 40 tornou-se berço e, posteriormente, capital da indústria aeronáutica no Brasil. Por decisão do governo federal, depois do CTA e do ITA, instalaram-se na cidade o Inpe, a Revap e, na esteira, vieram indústrias bélicas, como a Avibras e as extintas Engesa e Tecnasa. A cidade que até a primeira metade do século 20 era conhecida pelo clima favorável ao tratamento de tuberculose, tornou-se, em pouco mais de 20 anos, um dos principais polos tecnológicos do país. Com as instituições e empresas tecnológicas, migraram para a cidade especialistas, engenheiros, doutores nas mais diversas áreas, e outros tantos aqui se formaram, constituíram família, se enraizaram. Mas será que se imiscuíram, se entrosaram, fazem parte ativa do cenário sócio-político da cidade? Não é o que parece. Vamos ver o outro lado da população digamos, assim, mais nativa. Comenta-se que a cidade recebeu contingente expressivo de migrantes do Sul de Minas, que foram se instalando nos bairros Alto da Ponte e Santana. Houve no século 20 a fase sanitarista, com prefeitos nomeados pelo governo estadual (1935-1958) e mais um

PODER Representantes do setor de tecnologia em São José não têm força política

POLÍTICA “Será que os especialistas e doutores fazem parte ativa nesse cenário?” período de prefeitos interventores, durante o governo militar (1967-1978). A partir da década de 50 a força de trabalho, antes distribuída entre a lavoura e o comércio local, passou também a ocupar vagas nas indústrias. Então a cidade ganhou mais uma face, o lado operário, que se fortalece na década de 80, com o crescimento do movimento sindical. Ficamos com uma sociedade onde o poder de decisão política é exercido sob pressão de forças distribuídas entre grupos de cidadãos que, a grosso modo, se encaixam entre operários das indústrias, especialistas das instituições científicas e tecnológicas, e representantes do setor terciário. Mas

a correlação de forças não é igual. Os operários chegaram a ter representatividade política expressiva, elegeram vereadores, deputados da região, e uma parcela expressiva do movimento sindical joseense tem agora um candidato a governador do Estado. No entanto, o discurso radicalizado dos últimos anos, parece ter diminuído sua força política. Os especialistas das instituições científicas e tecnológicas, por sua vez, chegaram a ter um representante ocupando, por duas vezes, o cargo de prefeito e mesmo na administração atual alguns dos postos chave são ocupados por profissionais oriundos dessas instituições. No entanto, este fato não significa que essa parcela da sociedade tem atuação ou força expressiva na vida política. Resta constatar que o setor terciário, como se vê nas colunas sociais e na influência que exercem na política, prevalece hoje na cidade, possivelmente porque esse também representa a maior força econômica do município. •

Fabíola de Oliveira jornalista

fabiola@valeparaibano.com.br

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Especial

CASO PADRE WAGNER

O outro lado do crime que abalou o Vale Nova série de julgamentos dos jovens condenados pelo assassinato do religioso, torna público detalhes do processo que corria sob segredo de Justiça Elaine Santos São José dos Campos

ete anos depois do assassinato de padre Wagner Rodolfo da Silva, milhares de fiéis que choraram a morte do religioso, conhecido por celebrar suas missas cantando ao som de um violão na Paróquia São Benedito, no bairro Alto da Ponte, zona norte de São José dos Campos, descobrem o outro lado de um crime que teve repercussão nacional e abalou o Vale do Paraíba. A nova versão veio à tona neste ano depois que a defesa de um dos cinco jovens condenados pela morte do padre conseguiu junto ao Tribunal de Justiça de São Paulo reabrir o inquérito e desclassificar o crime de latrocínio (roubo seguido de morte) para que seu cliente tivesse o direito de enfrentar um novo julgamento. Com base em depoimentos dos jovens tirados do inquérito policial, a defesa conseguiu mudar a natureza do crime para homicídio qualificado, dando direito ao réu a um júri popular. O argumento usado para ter um novo julgamento chocou ainda mais a

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opinião pública: que o assassinato somente ocorreu porque padre Manoel Serafim de Lima, 46 anos, outra vítima do crime, mantinha relações homossexuais com três dos cinco rapazes presos. Quando os acusados foram julgados há quatro anos por latrocínio, um crime de natureza material, a sentença foi proferida pelo juiz, ou seja, não foram submetidos a júri popular, quando a absolvição ou condenação é dada por sete jurados, que decidem se o réu é inocente ou culpado. Depois que o primeiro advogado obteve o recurso no TJ, os defensores dos demais acusados também ganharam o direito ao júri popular. De lá pra cá, 4 dos 5 acusados passaram pelo júri popular –Michel Jucá de Brito, hoje com 25 anos, Anderson Jucá de Freitas, 30 anos, Lucas Serio Diniz, 28 anos, e Alexsandro Ribeiro da Silva, 25 anos. Á época do crime, os suspeitos tinham entre 18 e 23 PIVÔ anos de idade. Mas a estratégia de sensibili- Padre Manoel zar os jurados com as informações sobre a Serafim de orientação sexual do padre Manoel Serafim Lima, que não deu certo –somente um dos acusados sobreviveu teve a pena reduzida e os demais pegaram ao crime, até cinco anos e oito meses a mais de prichega ao são. De qualquer forma, para o advogado Fórum para Ricardo Bogdam Kalusinsk, que atuou na acompanhar defesa de Alexsandro, o objetivo foi cum- o julgamento

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Fotos: arquivo/vp

VÍTIMA FATAL Cartaz com a foto de Padre Wagner Rodolfo da Silva, morto aos 35 anos

prido: “mostrar à sociedade a conduta moral de padre Manoel Serafim”. No segundo julgamento, no dia 4 de março deste ano, Anderson foi condenado a 36 anos e 8 meses de prisão por homicídio qualificado e outros crimes praticados naquela noite –cinco anos e oito meses a mais que no primeiro, ocorrido em 2006. O mesmo aconteceu com Alexsandro, em 17 de maio de 2010, quando recebeu sentença de 35 anos e 8 meses de prisão –quatro anos a mais. No último júri popular, ocorrido em 22 de julho deste ano, Michel foi condenado a 35 anos e 8 meses de prisão –uma pena de quatro anos e oito meses a mais– e Lucas foi absolvido do assassinato, mas pegou 19 anos e 8 meses pela tentativa de homicídio contra padre Manoel Serafim e pelos roubos. No primeiro julgamento ele havia sido sentenciado a 31 anos de prisão. O único acusado que ainda não enfrentou um julgamento foi Robison dos Santos Couto, 28 anos, o último a ser preso, no dia 30 de junho de 2008, em Salvador, na Bahia. Defesa O advogado Rodrigo José Accácio, responsável pela defesa de Michel, disse que vai recorrer da sentença. Segundo ele, seu cliente não deve responder pelo roubo à Mitra Diocesana

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Especial

por não saber que estava roubando bens da diocese, pensava que eram dos padres. “Somente essa qualificação do crime já reduziria parcialmente a pena. Também vamos recorrer para desqualificar o crime de ocultação de cadáver. O corpo do padre [Wagner] não foi escondido”, disse o advogado. Durante o julgamento, Accácio defendeu que o envolvimento do padre Manoel Serafim com os acusados teria sido determinante para o crime. “O fato de padre Manoel fomentar os vícios dos réus e praticar relações sexuais com os mesmos, expondo-os à sociedade, é um agravante. Há de considerar a idade desses réus à época. Michel tinha 18 anos. Isso foi o fator preponderante para que Michel resolvesse roubar o padre e acabou por perder a noção do certo e errado com o uso de drogas no decorrer do crime”, disse. Roberto José Valinhos Coelho, advogado de Lucas, também usou na defesa de seu cliente argumentos questionando o envolvimento de padre Manoel Serafim com os jovens. “A motivação do crime em relação ao roubo foi o envolvimento com o padre Manoel. Eles já conheciam o padre e sabiam que podiam tirar mais dinheiro dele”, disse durante o julgamento. Segundo o advogado, Lucas não teve participação direta no assassinato de padre Wagner. “Tanto que a pena foi reduzida [em 11 anos e 2 meses]”, concluiu. O advogado Ricardo Bogdam Kalusinsk, que atuou na defesa de Alexsandro em maio deste ano, defendeu a mesma tese. “Na realidade, o padre Manoel Serafim induzia os jovens a manter relacionamentos sexuais, pagando por bebidas e levando esses jovens para dentro da casa paroquial. Os acusados tinham conhecimento de tudo o que havia de valor dentro da casa paroquial. No caso, padre Manoel é uma vítima, mas ele induziu o crime e é isso que provo na defesa. Se ele tivesse se comportado como padre não haveria ocorrido o incidente que culminou com a morte de outro padre. Ainda que todos sejam novamente condenados, nosso objetivo é mostrar à sociedade a conduta moral dessa vítima [padre Manoel]”, disse. Acusação O promotor Márcio Rogério Fracassi disse que as penas aplicadas aos acusados foram justas. “O Michel foi condenado em todos os termos. Em relação ao Lucas, os jurados entenderam que ele não teve participação no homicídio de padre Wagner e na ocultação do cadáver. É uma decisão soberana e a gente vai estudar a

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CORTEJO Multidão acompanha o cortejo do corpo de padre Wagner Rodolfo da Silva, em 2003

possibilidade de recorrer”, disse. Durante o julgamento, o promotor repudiou a estratégia de defesa dos advogados dos réus. “Pouco importa se o padre é ou não homossexual. Hoje ele aqui é uma vítima e, lembrando, ele nega [ser homossexual]. E se eles [réus] mantinham esses relacionamentos, disseram que eram pagos por isso. Lembrando, à época, eram todos maiores. Os acusados atraíram o padre [Manoel] para uma armadilha. Eles agrediram o padre, tentaram sacar o dinheiro do caixa, mataram o padre Wagner e tentaram matar o padre Manoel. Cléverson só não foi morto porque fugiu.”

Assassinato Padre Wagner foi morto na manhã do dia 24 de setembro de 2003 depois de ser rendido na noite anterior pelos acusados enquanto dormia na casa paroquial. Segundo a polícia, os cinco rapazes entraram no imóvel porque padre Manoel Serafim, que também morava no local, tinha sido feito refém horas antes em Jacareí, onde havia se encontrado com os jovens. Após os criminosos roubarem objetos de valor da casa paroquial, os religiosos foram levados para a zona rural de Santa Isabel. Padre Wagner foi degolado e padre Manoel sobreviveu a duas facadas no pescoço

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O crime De acordo com dados do relatório conclusivo do caso, feitos a partir da reconstituição do crime, às 22h30 do dia 23 de setembro de 2003, padre Manoel Serafim de Lima atende ao pedido de Michel Jucá de Brito e vai ao seu encontro na rua Urupa, frente à casa da tia do acusado, no bairro Igarapés, em Jacareí. Lá, o padre e seu amigo, Cléverson Wesley de Oliveira, à época com 18 anos, são abordados por Michel, Anderson Jucá de Freitas, Lucas Sério Diniz, Robison dos Santos Couto e Alexsandro Ribeiro da Silva. Com uma faca em punho, Michel anuncia o assalto, domina padre Manoel Serafim e prende Cléverson no porta-malas. Anderson assumiu a direção do carro da vítima, um Gol ano 97. Eles seguem para um terreno baldio no mesmo bairro, onde o padre é agredido e entrega aos criminosos R$ 400 em dinheiro. Depois todos seguem rumo à casa paroquial, no bairro Alto da Ponte, na zona norte de São José dos Campos. Já por volta da uma hora da madrugada do dia 24, eles entram na casa e rendem padre Wagner Rodolfo da Silva, 35 anos, que estava dormindo. Ao ser acordado pelos assaltantes, padre Wagner é agredido por Michel com um golpe com o cabo de uma faca na cabeça. Michel e Lucas ficam vigiando, em um dos quartos da casa, os dois padres e Cléverson. Os demais retiraram o material do roubo –uma TV de 29 polegadas, dois aparelhos de som, um computador, um ventilador, dois violões, duas canetas e dois celulares– e colocaram nos carros das vítimas, um

(veja quadro nesta página). As acusações de envolvimento sexual de padre Manoel Serafim com os três jovens (Michel, Lucas e Anderson) já constavam no inquérito policial aberto pela Delegacia Seccional de Jacareí em 2003. O relacionamento foi confirmado pelos próprios acusados e por Cléverson Wesley de Oliveira, um outro rapaz que tempos mais tarde foi apontado no inquérito policial como a terceira vítima caso. Segundo a polícia, Cléverson teria sido poupado pelos criminosos. De acordo com o inquérito policial, obtido com exclusividade pela revista valeparai-

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Gol ano 97 e um corsa 2001, ambos em nome da Mitra Diocesana de São José. Padre Wagner, Cléverson e Robison seguiram no Corsa para Jacareí e padre Manoel Serafim e os demais criminosos, no Gol, também rumo à cidade vizinha. Em Jacareí, as vítimas passaram parte da madrugada em um cativeiro, uma casa abandonada no bairro Igarapés. Lá, os acusados consumiram drogas e foram para a lanchonete Frango Assado, na via Dutra, na tentativa de sacar do caixaeletrônico o dinheiro da conta bancária de padre Manoel. Devido o horário, a ação não foi completada. Já pela manhã, eles resolveram matar as vítimas. Para isso, foram até a estrada da Figueira, na área rural de Santa Isabel. Eles chegaram ao local por volta das 6h30 do dia 24 de setembro. Michel e Lucas amarraram um cadarço no pescoço de padre Manoel, que recebeu de Robison duas facadas na garganta. Em seguida, Anderson segura padre Wagner que, também asfixiado com um cadarço no pescoço, é atacado por Robison com várias facadas e é degolado. A terceira vítima, Cleverson, assistiu aos crimes, mas foi poupado pelos criminosos com a promessa de não revelar nada à polícia. Os dois padres foram jogados em uma vala, na ribanceira da estrada. Padre Manoel sobreviveu aos ferimentos e conseguiu, 24 horas depois do atentado, se arrastar até a estrada, onde foi socorrido e encaminhado à Santa Casa de Santa Isabel. Horas depois o corpo de padre Wagner foi encontrado pela polícia.

bano, depois de alguns meses de relacionamento com Michel, Lucas e Anderson, os encontros de padre Manoel Serafim com os jovens passaram a ocorrer, inclusive, dentro da casa paroquial, sem o conhecimento de padre Wagner. Após terem acesso por algumas vezes ao interior da casa paroquial, os três decidiram roubar os objetos de valor vistos na residência com o apoio de outros dois amigos –Alexsandro e Robison. Após planejarem o roubo, os rapazes marcaram um encontro com padre Manoel Serafim, chamado por eles de ‘padrinho’, no bairro Igarapés, em Jacareí. Daí por diante

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a situação saiu do controle e eles decidiram, além do roubo dos objetos da casa paroquial, sacar dinheiro da conta do padre Manoel em caixas-eletrônicos e, depois, executar as vítimas para que não os denunciassem à polícia. “Se o caso fosse hoje teria outra repercussão. Nós seguramos ao máximo para não falar sobre homossexualismo na época porque serviu de grande exemplo, um alerta para o resto do sacerdócio”, disse Tális Prado Pinto, delegado da Seccional de Jacareí, responsável pelas investigações do caso à época. Prado Pinto afirma que o envolvimento sexual do padre Manoel Serafim com Michel, Lucas e Anderson contribuiu para o crime. “Está nos autos. Eles mantinham relação sexual”, disse. Questionado se mudaria a forma de conduzir o inquérito, o delegado leva a mão à cabeça, pensa e responde: “conduziria da mesma forma, mas hoje eu pediria a prisão do padre Manoel como cúmplice. De certa forma, ele contribuiu com o crime. A polícia fez um bom trabalho, todos foram presos. Prendemos gente em favela em São Bernardo do Campo, em São Luís do Maranhão. Localizamos o Anderson Jucá de Freitas em Juazeiro do Norte, no Maranhão. Passamos seis dias lá”, justifica o delegado. A acusação de envolvimento do padre Manoel Serafim com jovens antecede o caso padre Wagner. Segundo a Polícia Civil, em 2001, dois anos antes do crime, padre Manoel havia sido acusado de molestar um menor que frequentava a paróquia Santa Cecília, de Jacareí, onde ele foi pároco. A denúncia partiu da mãe do adolescente. O Boletim de Ocorrência foi registrado na DDM (Delegacia de Defesa da Mulher) de Jacareí. “À época, o caso não foi para frente por que nada foi provado”, disse Tális Prado Pinto. De acordo com o advogado Adalberto Calmom Barbosa, que conduziu o caso à época para a Diocese de São José, a conduta da igreja sempre foi a favor de padre Manoel Serafim. “Primeiro ele [padre Manoel Serafim] se colocou também como vítima [do assalto na casa paroquial]. Mas foi através dos depoimentos que a diocese teve conhecimento de que ele tinha relação homossexual e conhecia os acusados. Antes, nós não sabíamos”, disse. Relatório Em seu relatório conclusivo e de representação pedindo a prisão preventiva dos cinco acusados, encaminhado à Justiça em 2 de outubro de 2003, o delegado Tális Prado Pinto escreve: “(...)Salienta-se, nesse ponto que Lucas, vulgo ‘Luquinha’, conhecia padre Ma-

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Especial Fotos: Eugênio Vieira

noel, mantinha relação sexual, frequentava a casa paroquial, saíam juntos a bares e restaurantes, dirigia o veículo Gol, e as despesas eram efetuadas por Manoel. Nessa mesma linha acontecia com Michel e Anderson, ressaltando que Manoel era visto em vários lugares com eles (...) Fica registrado que Manoel Serafim de Lima foi ouvido no interior da Santa Casa, negou qualquer envolvimento sexual com os jovens autores, disse que fazia trabalho espiritual com eles e que Michel exigia a importância de R$ 3.000 (...)”. Ainda no relatório, o delegado acusa padre Manoel Serafim de mentir no depoimento à polícia. “(...) Inicialmente padre Manoel foi interpelado informalmente, logo após a cirurgia, e aduziu ter sofrido assalto, que, além de padre Wagner, existia uma terceira vítima, não mencionou o nome, porém acrescentou que o crime foi praticado por cinco pessoas (...). Embora conhecendo os autores, não informou maiores detalhes omitindo os nomes dos latrocidas, todos seus conhecidos, que já momento tivesse contribuído com a polícia, certamente todos estavam presos. Mentiu e mentiu”, concluiu. Contradições Em depoimento à polícia, em 30 de setembro de 2003, padre Manoel Serafim declara que, na noite do crime, estava celebrando uma missa em Santa Branca e foi para Jacareí se encontrar com Cléverson Wesley de Oliveira, que conhecia há um ano. Ficaram conversando por alguns instantes, oportunidade em que Michel ligou para seu celular pedindo que fosse até a casa dele, no bairro Igarapés. À ocasião, o padre ainda declarou que conhecia Michel por intermédio de Cléverson. Já Cléverson, em seu depoimento à polícia, afirmou que não conhecia nenhum dos cinco acusados do crime. Seguindo uma série de desencontros nas declarações oficiais à polícia, Michel, em seu primeiro depoimento, no dia 25 de setembro de 2003, não mencionou o nome de Cléverson. Já no segundo depoimento, prestado quatro dias depois –desta vez acompanhado pelo então advogado da diocese, Adalberto Calmom Barbosa, como seu curador– Michel declarou que conhecia Cléverson, do bairro Igarapés, e que algumas vezes teria saído com ele e o padre Manoel para lanchonetes. Afirmou ainda que não havia contado antes por medo. “Michel não tinha nenhum advogado na hora e, para não atrasar depoimento, acompanhei tudo de perto. Todos os de-

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JÚRI POPULAR Lucas Serio Diniz, 28 anos, que acabou absolvido da acusação de assassinato de padre Wagner Rodolfo da Silva em seu segundo julgamento

poimentos eu acompanhava. Não me lembro mais dos depoimentos, mas um dizia que não conhecia o outro na época. Mas o envolvimento do Cléverson na época ficou esquisito. A promotora até chegou a pensar em colocá-lo como co-autor, mas depois viu que era vítima”, disse Barbosa sobre ter acompanhado o depoimento como curador de um dos acusados do crime à delegacia. Diocese A Diocese de São José confirma que, mesmo diante das acusações, Manoel Serafim continua padre, porém se mantém afastado da diocese. “A diocese está com um trabalho sério e procurando sempre a verdade. Eu sou advogado da diocese desde 2007 e o fato ocorreu em 2003. Então, realmente, no tocante a essa parte (de envolvimento homossexual) há comentários, mas eu não sei dizer nada. Houve um caso até de um inquérito policial que foi aberto em Jacareí que até foi mencionado nos últimos julgamentos. Isso eu sei por que consta como material de defesa dos acusados, que ele [padre Manoel] já teve envolvimento homossexual. Hoje, a base da defesa é talvez tentar menosprezar o caso”, disse José Tarcisio Oliveira Rosa, atual advogado da diocese. “Não vem ao caso o homossexualismo do padre Manoel. Eles roubaram, tentaram sacar dinheiro em caixas-eletrônicos, esfa-

quearam o padre Manoel e mataram o padre Wagner. Isso não muda”, disse Rosa. Segundo o advogado, padre Manoel responde a processo canônico que se encontra em trâmite na jurisdição eclesiástica, em Roma, que deverá julgar a sua exclusão ou não da igreja católica. “Existe um processo relatando os fatos para que seja apreciado perante o setor competente do Vaticano para que, após uma análise, se entender que há provas, exclua o padre Manoel”, explicou. Como padre, Manoel Serafim recebe três salários mínimos por mês –R$ 1.530. Atualmente, ele mora na casa paroquial da Igreja Matriz Nossa Senhora do Rosário, em Jataí (Goiás). Mesmo sem constar na ordem diocesana de Jataí, ele celebra missas pelo menos uma vez por mês na matriz da cidade. Por telefone, uma funcionária da igreja informou que Manoel Serafim também daria aulas em uma escola de ensino médio e superior, além de trabalhar como professor de Filosofia Geral e Jurídica no Centro de Ensino Superior de Jataí e na Associação Jataiense de Educação, onde dá aulas para jovens de 15 a 18 anos. Segundo ela, o padre exerce o papel de auxiliar do bispo diocesano Dom José Luiz Majella Delgado, que tem forte ligação com o Vale do Paraíba –Dom Majella foi ordenado padre no Seminário Redentorista

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CONDENADO Michel Jucá de Brito, 25 anos, teve a pena aumentada em quatro anos e oito meses pelo Tribunal do Júri de Santa Isabel; sentença foi de 35 anos e 8 meses

Santo Afonso, em Aparecida, onde atuou por quatro anos, e já foi pároco na Igreja Santa Cecília, em Jacareí. Outro lado Padre Manoel Serafim foi procurado pela revista valeparaibano no dia 22 de julho, quando esteve no Fórum de Santa Isabel para depor no julgamento de Michel e Lucas, mas se negou em dar entrevista. Em depoimento à ocasião, ele negou que é homossexual e afirmou que nunca teve relações sexuais com os réus. “Conhecia Michel e Lucas há pouco tempo. Depois conheci os outros três mais rapidamente, os vi uma vez só. Conheci Michel na casa da família do Cléverson, dava assistência religiosa à família. Isso [relação sexual] nunca aconteceu e também nunca dei dinheiro a eles [réus]. Também nunca os levei eles para a casa paroquial”, disse. No julgamento, padre Manoel Serafim ainda relatou que somente sobreviveu às facadas porque é formado em enfermaria. “Meus conhecimentos em enfermagem me ajudaram a sobreviver. Respirando pausadamente consegui perder menos sangue, mesmo assim só fiquei com oito por cento de sangue no corpo. Foi horrível.” O padre afirmou ainda que exerce o sacerdócio e não respondeu nenhuma sanção pela igreja. “Fui transferido [para outra diocese], mas

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nunca fui suspenso, exerço todos os ministérios”, disse Manoel Serafim, sem informar onde trabalha e mora atualmente. O atual bispo da Diocese de São José, Dom Moacir Silva, não foi localizado para comentar o caso. Segundo o advogado da diocese, José Tarcisio Oliveira Rosa, Dom Moacir estaria na Colômbia, em uma viagem a trabalho, e não seria possível comentar o desdobramento dos novos julgamentos e das acusações da defesa dos réus contra o padre Manoel Serafim. Família “Para mim é muito delicado esse assunto [relacionamento de padre Manoel com os jovens]. Nunca soube nada disso, estou sem ação. Nós somos devotos, confiamos na justiça de Deus. Quem vai trazer ele [padre Wagner] de volta para a gente, o quê vai trazer ele de volta? Nada. Do jeito que o mundo anda hoje, com tanta coisa horrorosa, tanta impunidade, não tem nem como ficar indignado com mais nada. É só entregar na mão de Deus e deixar ele resolver”, disse Lucila Auxiliadora, irmã mais velha de padre Wagner. Segundo ela, sua família não tinha conhecimento que o caso ganhou novo julgamento. “Meu irmão foi uma pessoa que ajudou tanto o padre Manoel e tantas outras pessoas. Custa acreditar que uma pessoa possa ter feito uma coisa desta, que prejudicasse

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tanto meu irmão, uma pessoa tão boa. Nós da família não sabíamos sobre esses novos julgamentos. Não fomos avisados de nada, mesmo por que desde o primeiro momento tudo foi resolvido pela diocese”, concluiu. A morte de padre Wagner causou comoção em toda a Diocese de São José, que abrange ainda as paróquias de Jacareí, Igaratá, Santa Branca, Monteiro Lobato e Paraibuna. À época do assassinato, milhares de pessoas se reuniram por vários dias na igreja São Benedito, onde o padre era pároco, em vigília e oração –uma situação que se repete ainda hoje. Todo dia 25 de setembro de cada ano, centenas de fiéis vão à capela do cemitério Padre Rodolfo Komórek, onde o religioso está enterrado, para celebrar uma missa em sua homenagem. Ao longo desses sete anos, há quem atribua a padre Wagner algumas graças alcançadas. Em São José, o religioso já é considerado um santo popular. Seu túmulo fica durante todo o ano repleto placas de agradecimentos e flores. “Existe um carinho e respeito muito grande por ele até hoje. Nós da família nos sentimos muito reconfortados com todos esses manifestos”, disse a irmã de padre Wagner. Obra social Em 2006, fiéis da comunidade da paróquia São Bendito montaram a ‘Obra Social Padre Wagner’, com sede na ex-casa paroquial, onde padre Wagner morou por quatro anos. Eles trabalham diariamente dando assistência a pessoas carentes. Dentro do projeto, um grupo de 20 voluntárias atende 80 gestantes por ano, que recebem enxovais, presta orientação social às famílias e para adolescentes da comunidade Beira Rio, no bairro Vargem Grande. Todas às quartasfeiras as voluntárias se reúnem na sede para produzir bordados, uma das fontes de renda da ‘Obra Social Padre Wagner’. “Nós resolvemos montar esse trabalho social porque era um sonho que já acompanhava os objetivos do padre Wagner na época que ele era pároco da nossa comunidade. Infelizmente ele mesmo não pode executar esse trabalho, não deu tempo”, disse Ivanilda Martins Venâncio, paroquiana da igreja São Benedito do Alto da Ponte. O grupo de voluntários pretende, ainda este ano, aumentar o número de atendimentos, que chega a 200 pessoas por ano, com uma sala para reforço escolar, voltada a crianças e adolescentes da comunidade, e aulas de violão. “Era um dos grandes sonhos do padre que, como todos lembram, gostava de cantar em suas missas”, disse Ivanilda. •

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Segurança Pública

NA WEB

Crimes cibernéticos Quadrilhas especializadas em sequestros, roubos e assaltos usam a tecnologia para coletar dados das vítimas, planejar e executar as ações criminosas

Hernane Lélis São José dos Campos

uso de alta tecnologia como elemento facilitador para a prática de crimes, como sequestros, roubos e assaltos, se tornou cada vez mais comum dentro das quadrilhas especializadas nesses tipos de delitos. O arsenal hi-tech dos criminosos inclui avançados softwares, internet sem fio, celulares modernos, computadores portáteis e sofisticados dispositivos eletrônicos. Os bandidos se utilizam dos mesmos gadgets e serviços online, criados para aumentar a produtividade no trabalho e dar maior comodidade no dia-a-dia das pessoas, para se comunicarem com os membros do bando, obter informações sobre as vítimas, planejar e executar ações e aplicar golpes. Para a polícia, os criminosos descobriram no aparato tecnológico uma forma de aumentar a eficácia de seus atos. Como aconteceu no cinematográfico assalto ao Banco Central de Fortaleza, em agosto de 2005, onde foram roubados cerca de R$ 165 milhões numa operação em que nenhum dos envolvidos usou sequer uma arma de fogo. À época, a Polícia Federal verificou que as câmeras de vigilância apenas filmaram a movimentação dos bandidos, mas não gravaram a ação. Além disso, o alarme de segurança do banco também não tocou, levando a duas hipóteses nas investigações: o envol-

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vimento de algum funcionário no crime ou o serviço de hackers desconfigurando os meios de proteção da instituição financeira. “Uma pessoa de fora pode ter alterado alguma coisa do sistema de segurança. A partir do momento em que tudo está ligado à internet, uma falha na rede pode ser explorada para o crime”, disse Marcos Vinícius de Lima, chefe do Sepinf (Serviço de Perícias em Informática da Polícia Federal), ligado ao INC (Instituto Nacional de Criminalística). B* Cardoso, 32 anos, concorda com a afirmação do agente da PF. Trabalhando hoje como consultor de segurança da informação de uma grande empresa de São Paulo, ele é o que podemos chamar de um ex-hacker. “Realmente não dá para descartar essa possibilidade, é muito comum isso acontecer. Um pequeno erro de configuração já facilita a invasão”, explicou. Na adolescência, Cardoso costumava testar suas habilidades no computador invadindo sites de instituições públicas e privadas. “Certa vez, consegui entrar no sistema de logística de uma companhia área. Lá tinha centenas de números de cartões de crédito de clientes, poderia facilmente utilizar para fins próprios, mas não era a minha intenção”, disse. Hoje, a função de Cardoso é evitar que pessoas usem desses mesmos conhecimentos para a prática de crimes. “Invadir sites para gerar lucros é coisa de bandido, mas a frequência com que isso acontece é muito grande. Pouco se divulga esses crimes para evitar prejuízos à imagem da empresa. No entanto, sabemos que com o suporte da

DISPOSITIVOS VOIP é usado para obter conversação criptografada

GOOGLE EARTH para traçar rota de fuga e visualizar segurança

CHUPA-CABRA capta senhas bancárias em caixas-eletrônicos

BLOQUEADORES impede o rastreamento de veículos com GPS

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tecnologia, é possível realizar diversos atos criminosos”, disse Cardoso. Comunicação De acordo com a polícia, para se comunicarem entre si os bandidos já usufruem da tecnologia. Programas de troca de mensagens instantâneas, como o Messenger, estão cada vez mais popularizados. Segundo o chefe do Sepinf, uma das ferramentas mais utilizadas pelas quadrilhas é o Voip (Voz sobre IP), que tem o Skype como principal meio de conversação criptografada. O software dificulta, mas não torna impossivel o trabalho de interceptar a troca de informações realizada pela polícia, já que o sistema “quebra” as mensagens de voz em pequenas partes, diferentemente do que ocorre em uma ligação comum, quando há um fluxo constante de informação tornando mais fácil um grampo telefônico. Hoje, Polícia Federal possui cerca de 200 profissionais especializados em criptoanálises. Eles são responsáveis em decifrar mensagens sem que se tenha o conhecimento prévio da chave secreta que as gerou. “Nossa demanda está além do pessoal que temos, pois dependemos da abertura de concurso público para aumentar o contingente. Isso (criptografia) está se tornando muito popular nos aplicativos, complicando o nosso trabalho”, explicou Lima. Outro software que entrou na lista de artefatos tecnológicos utilizados pelo crime é o Google Earth, que permite visualizar qualquer ponto do planeta em imagens capturadas por satélites. O navegador auxilia as quadrilhas no mapeamento de condomínios residenciais com objetivo de encontrar eventuais falhas de segurança, além de ajudar em rotas de fugas. Em Londres, na Inglaterra, um construtor inglês faturou o equivalente a R$ 400 mil usando o Google Earth. Com o programa ele localizava telhados de chumbo que posteriormente seriam roubados. “O georreferenciamento é uma poderosa arma utilizada pelos criminosos, isso é fato. Nosso grande desafio é evitar que isso aconteça”, disse Lima. A popularização dos PCs e da internet contribuiu também para a falsificação de documentos. Segundo a polícia, antigamente era preciso ter conhecimentos de gráfica para conseguir um bom resultado nas ações. Agora, basta ter computador e uma boa impressora em casa para explorar o comércio ilegal de CDs com arquivos de imagens de vários tipos de documentos

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Segurança Pública

preparados para serem preenchidos com os dados que o estelionatário desejar. Aparelhos A familiaridade dos criminosos com a tecnologia vai além de softwares de grande circulação. Quando o próprio mundo cibernético impõe barreiras para a prática de determinados delitos, os bandidos usam seus conhecimentos na área para criar aparelhos que possibilitem êxito em suas ações. É o caso do “chupa-cabra”, que instalado em caixas-eletrônicos captura todas as informações bancárias do correntista. De acordo com o delegado-chefe da Polícia Federal de São José dos Campos, Carlos Tadeu Tasso, existem diversos modelos e formas para utilizar o aparelho. Em outubro do ano passado, por exemplo, dois homens foram presos acusados de furto qualificado. A dupla usava dois notebooks para obter dados pessoais de clientes de uma agência da Caixa Econômica Federal na cidade. Os computadores eram instalados nos caixas-eletrônicos substituindo as telas originais das máquinas –que já haviam sido roubadas pelos bandidos. Ao tentar utilizar o equipamento, inserindo o cartão no caixa, o cliente tinha todos seus dados armazenados no notebook. Essas informações posteriormente eram enviadas para um outro notebook por meio de wireless –a internet sem fio. Com o sistema, a dupla conseguiu movimentar 42 contas bancárias no Vale do Paraíba. “Temos um projeto específico para tratar de casos de clonagem de cartões, que é o Projeto Tentáculos, onde de tempos em tempos desencadeamos operações para prender essas quadrilhas. É uma investigação complexa”, disse o delegado. Outro modelo de aparelho “chupa-cabra” é similar ao bocal onde é inserido o cartão magnético no caixa-eletrônico. Com uma memória interna, o sistema capta apenas os dados da tarja do cartão, sem conseguir acesso à senha do proprietário. Para pegar a senha os criminosos instalam câmeras discretas perto do caixa ou simplesmente eles dão aquela “olhadinha” no momento em que o cliente está digitando a senha. “É preciso cooperação das vítimas para investigar os casos de clonagem. Muitas vezes as pessoas só procuram a polícia depois de encontrarem problemas com a restituição ou quanto o valor furtado é muito alto”, explicou o Vernei Antônio de Freitas, delegado titular da DIG (Delegacia de Investigações Gerais) de São José.

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Fred é usado na perícia de crimes eletrônicos, rastreando e-mails e arquivos, recuperando os dados excluídos e identificando quem operou computadores ou smartphones

O uso de GPS (Sistema de Posicionamento Global) deixou de ser um dos principais itens antifurto de carros. Hoje já é possível encontrar no mercado um aparelho que bloqueia o rastreamento imediato do automóvel. O produto tinha como público alvo os consumidores que não queriam ser localizados por motivos particulares, mas passou a ser usado por assaltantes. O bloqueador, vendido até pela internet, cobre uma distância entre dois e quatro metros –o suficiente para interromper sinais de GPS. Por esse motivo, o produto é utilizado principalmente por quadrilhas especializadas em roubos de cargas, que iniciam suas ações antes mesmo de abordar a vítima, blo-

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Fotos: Eugênio Vieira

COMBATE AO CRIME Policial civil opera o sistema Fred (abaixo), que recupera os arquivos de celulares e de computadores

queando primeiramente o sinal do aparelho. “É bastante recente o uso desse aparelho. Acho que começou a ser utilizado com mais intensidade esse ano. A polícia está empenhada em combater o crime, mas a tecnologia é um negócio que muda muito rápido, no estalar de um dedo. Antes usavam pé-decabra para roubar, hoje existem todos esses aparelhos”, disse Rafael Darrigo Valente, vice-presidente do Sindivapa (Sindicato das Empresas de Transporte Comercial de Carga do Vale do Paraíba e Litoral Norte). Combate ao crime Se a tecnologia nas mãos dos bandidos é usada como arma para cometer crimes, ela

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também serve para a polícia como meio de combate à criminalidade. O Deinter-1 (Departamento de Polícia Judiciária do Interior) tem uma série de softwares e equipamentos para investigação. A novidade é o Fred (Forensic Discovery of Evidence Device). A máquina é usada na perícia de crimes eletrônicos, rastreando e-mails e arquivos, recuperando dados excluídos e identificando quem opera ou operou computadores ou smartphones. Além disso, é possível localizar fotos, identificar sites visitados e buscar e cruzar informações que ajudam a desmantelar quadrilhas que agem virtualmente. “É importante ressaltar que quem pratica delitos por trás de um computador enfrentará uma investigação séria e com mecanismos sofisticados. Temos pessoas especializadas e treinadas no combate a esses tipos de crimes. Tudo que possui memória interna poderá ser rastreado por essas máquinas”, disse Edilzon Corrêa de Lima, delegado-assistente do Deinter-1. O departamento conta com outros mecanismos de combate ao crime, como o software conhecido como Guardião, que serve para escutas telefônicas autorizadas, e o Phoenix, usado em análise de fotografias e impressões digitais. “É um auxílio muito importante para a Polícia Civil, temos com esses equipamentos uma pré-perícia dos casos”, afirmou Lima. No início do ano, policiais civis do Vale participaram nos Estados Unidos de um treinamento realizado pelo FBI, a Polícia Federal norte-americana, sobre prevenção de crimes eletrônicos. Foram duas semanas em contato com os mais sofisticados aparelhos de combate ao crime e utilizados para cometê-los. Entre as novidades que circulam nas mãos de quadrilhas norte-americanas, estão um dispositivo similar a um pen drive, que capta em tempo real todas as informações que são acessadas em uma rede wireless. O aparelho é ligado geralmente em notebooks por bandidos que circulam em aeroportos, restaurantes, entre outros lugares que possuem serviço de internet em fio. A Polícia Civil não tem conhecimento de golpes realizados no Brasil que tenham sidos praticados com o dispositivo. No entanto, técnicas de prevenção e investigação para esse e outros delitos já são estudadas na Academia da Polícia Civil do Estado de São Paulo. Todo o treinamento aplicado pelo FBI foi incorporado na grade de cursos da instituição e repassado para os demais agentes ligados ao setor. •

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Mundo 11 DE SETEMBRO

O dia em que tudo mudou Nove anos depois do pior atentado já registrado contra o governo e o povo norte-americano, espectro do terrorismo ainda assombra os Estados Unidos

Yann Walter São José dos Campos

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uase nove anos já se passaram, mas ninguém esqueceu. O dia 11 de setembro de 2001 mudou para sempre a história dos Estados Unidos e do mundo. Ao lançar aviões contra o Pentágono e o World Trade Center, os terroristas da Al-Qaeda não apenas mataram quase 3.000 pessoas, como também acabaram com o sentimento de invulnerabilidade que prevalecia entre os habitantes da maior potência mundial. Naquele dia, a imagem de uma América toda poderosa e segura de sua força foi abaixo junto com as Torres Gêmeas, em Nova York. Os atentados de 11 de setembro foram os ataques terroristas mais mortíferos da história e os piores já cometidos em solo americano. No total, 2.993 pessoas morreram. Quase uma década depois, as autoridades de Nova York continuam encontrando restos mortais entre os escombros do World Trade Center. No fim de junho, o Instituto Legista de Nova York, que empreendeu este gigantesco trabalho de triagem, achou mais 72 ossos. O objetivo deste trabalho de formiga é colocar um nome nas vítimas ainda não-identificadas, por meio de

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testes de DNA. Somente 60% das vítimas do ataque contra as Torres Gêmeas foram formalmente identificadas até agora. Os atentados aconteceram há muitos anos, mas os norte-americanos continuam com medo. De acordo com uma pesquisa conduzida recentemente pelo Pew Research Center, 58% deles acreditam que haverá uma nova guerra mundial e 53% apostam que os Estados Unidos sofrerão um ataque nuclear até 2050. Ou seja, mais da metade dos norte-americanos estão pessimistas sobre o futuro. O ‘sonho americano’ exaltado por tantas gerações nunca pareceu tão distante. Os especialistas estão divididos sobre a questão. Muitos acreditam que o risco de os Estados Unidos sofrerem outro atentado igual ou pior ao de 11 de setembro é real e não pode ser menosprezado. “O sistema de inteligência dos EUA não tem obtido vitórias significativas sobre a Al-Qaeda. Não tem conseguido informações de dentro. Assim, fica mais difícil identificar futuros autores de atentados e as possibilidades de ataque ficam maiores”, considerou Reginaldo Nasser, professor de Relações Internacionais da PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo. “A consequência disso é que o governo americano exagera na prevenção, com medidas como o reforço dos controles nos aeroportos. Assim, acaba prejudicando as liberdades individuais.”

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Foto: Força Aérea Americana/Denise Gould

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MARCO ZERO Cinco anos após o atentado, luzes são instaladas onde ficavam as torres do World Trade Center, em Nova York

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Já a possibilidade de os EUA se envolverem em um conflito de grandes proporções com outros países é considerada mínima pela maioria dos especialistas, bem como a eventualidade de um ataque nuclear. “Não haverá Terceira Guerra Mundial porque hoje temos um núcleo de países que trabalham juntos. Os Estados Unidos não têm problemas sérios com nações relevantes no cenário mundial, como Rússia ou China. Podem surgir conflitos pontuais, mas nenhum de grandes proporções que envolva uma guerra entre Estados”, avaliou Cristina Pecequilo, professora de Relações Internacionais da Unesp (Universidade Estadual Paulista) de Marília. “É importante ressaltar que nenhum atentado com ADM (Armas de Destruição em Massa) foi cometido até o momento. Nem químico, nem biológico, nem nuclear. Para perpetrar um ataque nuclear, não basta possuir a bomba, é preciso também ter a tecnologia para lançá-la. Essa possibilidade é, portanto, muito remota”, afirmou o professor Reginaldo Nasser, para quem a ideia de uma nova guerra mundial não faz sentido. “Nunca na história as grandes potências mundiais estiveram tão unidas como agora”, lembrou. É muito provável que os 53% de americanos que dizem temer um ataque com armas atômicas sobre seu território estejam sendo influenciados pela questão nuclear iraniana. O Irã é acusado pelos Estados Unidos e pelas demais potências ocidentais de estar desenvolvendo a bomba atômica por trás de um programa nuclear civil, o que Teerã nega. Longe de acalmar os ânimos, o presidente iraniano, o controverso Mahmud Ahmadinejad, coloca mais lenha na fogueira com suas declarações bélicas contra os Estados Unidos e Israel. Em 2005, disse que o Estado hebreu deveria ser “varrido do mapa”. Entretanto, segundo os especialistas, a possibilidade de o Irã lançar um ataque nuclear contra os EUA é praticamente nula. “A ameaça iraniana é exagerada. A questão é administrada pelos Estados Unidos de forma equivocada. Eles têm uma postura agressiva, basta lembrar que o governo americano mantém dois conflitos na região, um no Iraque e outro no Afeganistão”, frisou Cristina. “O Irã não representa uma ameaça para os Estados Unidos. Com exceção da guerra contra o Iraque nos anos 80, o Irã nunca esteve em conflito direto com países vizinhos”, lembrou Nasser, admitindo, porém, que o governo iraniano apoia grupos bélicos em alguns destes países. “Os iranianos apoiam insurgentes xiitas no Iraque e no Líbano, mas nenhum deles nunca atacou diretamente o território ameri-

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Mundo

cano. Tanto o Hezbollah como os radicais xiitas iraquianos só cometem atentados em seus próprios países, e gozam de apoio popular. Não são terroristas, mas insurgentes. No caso do Iraque, eles combatem as forças americanas porque elas estão em seu território. Estes movimentos só são inimigos dos Estados Unidos por causa do apoio incondicional do governo norte-americano a Israel”, analisou. Assim, a maior ameaça que pesa sobre os EUA continua sendo a rede Al-Qaeda de Osama Bin Laden, o homem mais procurado do mundo, escondido em algum lugar remoto entre o Paquistão e o Afeganistão. “A Al-Qaeda é o único grupo que elegeu os Estados Unidos como inimigo direto”, ressaltou Nasser. A Al-Qaeda é direta ou indiretamente responsável pela maioria dos atentados terroristas perpetrados em todo o mundo nos últimos anos. O movimento fundado por Bin Laden no fim dos anos 80 criou um monte de ‘filhotes’ espalhados nos quatro cantos do planeta. Hoje, muitos destes filhotes cresceram e se tornaram independentes, preservando apenas uma ligação ideológica com o grupo original. Este quadro levou muitos especialistas a se referirem à Al-Qaeda como nebulosa, ou seja, uma complexa e variável constelação de astros em constante movimento. A rede terrorista e suas ramificações cometeram atentados em mais de 20 países, entre eles, os Estados Unidos. Em fevereiro de 1995, muito antes dos ataques de 11 de setembro, seguidores de Bin Laden explodiram um carro-bomba no estacionamento subterrâneo do World Trade Center, matando seis pessoas e ferindo mais de mil. Perigo Outra ameaça tão ou talvez até mais perigosa que os grupos terroristas são as ações perpetradas por indivíduos isolados ideologicamente próximos à Al-Qaeda. Muitos deles são americanos, não têm ficha criminal e vivem legalmente no país, o que praticamente inviabiliza qualquer possibilidade de prevenção. No dia 1º de maio, a polícia de Nova York neutralizou uma bomba caseira colocada em um carro estacionado na concorrida praça Times Square, um dos locais mais movimentados da cidade, impedindo o que seria um atentado de grandes proporções. Por sorte, uma pessoa viu fumaça escapando do veículo e acionou a polícia. Faisal Shahzad, um americano de origem paquistanesa, foi preso dois dias depois quando tentava embarcar num avião rumo a Dubai, nos Emirados Árabes. No dia 24 de dezembro, o nigeriano Umar Faruk Abdulmutallab tentou detonar os explosivos que levava

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na cueca em um avião da Northwest Airlines entre Amsterdã e Detroit. O homem foi dominado por um passageiro e detido na saída do avião. Durante seu interrogatório, disse ter frequentado um campo de treinamento no Iêmen e admitiu vínculos com a Al-Qaeda. “A maioria dos terroristas não usa ADM, e sim artefatos rudimentares, como bombas caseiras e armas leves. A facilidade de obtenção desses instrumentos é muito grande”, lembrou Reginaldo Nasser. E assim como os traficantes, os terroristas têm uma imaginação sem limites. Depois da tentativa de atentado no avião da Northwest, vários especialistas já alertaram para a chance de mulheres suicidas recrutadas pela Al-Qaeda inserirem explosivos nos seios por meio de um procedimento semelhante a um implante de silicone, tornando o artefato praticamente indetectável pelos

scanners de segurança dos aeroportos. Assim, fica claro que qualquer indivíduo determinado pode provocar grandes estragos e que as chances de antecipar tais ações são mínimas. Para os Estados Unidos, o perigo vem de fora, mas também de dentro. Além dos radicais islâmicos, a professora Cristina Pecequilo mencionou outra ameaça, muito menos citada mas, segundo ela, tão perigosa quanto os súditos da Al-Qaeda: o radicalismo branco. “Existem duas grandes ameaças. Uma delas é conhecida. É o fundamentalismo islâmico, responsável pelos atentados de 11 de setembro. Mas existe outra: o terrorismo interno praticado por radicais brancos. Foi um desses fundamentalistas (Timothy McVeigh) que cometeu o atentado de Oklahoma City em 1995, em que 168 pessoas morreram. São pessoas racistas, xenófobas, que portam armas. O perigo é maior, porque

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Divulgação

MEMÓRIA Bombeiros vasculham escombros em busca de sobreviventes; trabalho de resgate foi feito por duas semanas após o atentado terrorista

essas pessoas são americanas e já moram no país.” Além de brancas, o que as tornam menos suspeitas para a polícia. McVeigh, executado por injeção letal em 2001, era um simpatizante da extrema-direita americana. Obama Na opinião dos especialistas, a eleição do democrata Barack Obama à presidência dos Estados Unidos não trouxe modificações profundas na política externa do país. “A política externa atual dos EUA tem dois níveis, um diplomático e outro militar. No primeiro, houve uma mudança significativa. Obama tem se reunido mais, tanto com nações aliadas quanto com países inimigos, em busca de apoio e diálogo. Já a parte militar não mudou nada. Os americanos saíram do Iraque, mas se envolveram mais no Afeganistão”, destacou

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Nasser, citando um dado interessante. “Os drones (aviões sem piloto) americanos mataram mais gente em um ano e meio do que nos cinco últimos anos do governo do republicano George W. Bush. Cabe ressaltar, inclusive, que o secretário da Defesa de Bush, Robert Gates, foi mantido por Obama. Há, portanto, uma continuidade no que diz respeito à política militar”, avaliou. “Houve uma melhora nos discursos, mas nem tanto nos atos. O governo de Obama tem a mesma atitude que seu predecessor sobre a questão iraniana e o país continua envolvido em dois conflitos militares de grandes proporções”, frisou Pecequilo. Assim sendo, a grande pergunta é: o que os Estados Unidos podem fazer para limitar esta ameaça? Para os especialistas, o único caminho é uma mudança radical da política externa. “A política dos Estados Unidos no Oriente Médio é completamente equivocada e vai continuar alimentando inimizades. Um exemplo: o Irã, a Síria e a Turquia são inimigos históricos e os Estados Unidos conseguiram reunir os três contra eles e Israel, o maior aliado dos americanos na região. A aliança indissolúvel com Israel é um grande complicador para o país”, afirmou Reginaldo Nasser. “Os Estados Unidos precisam mudar de atitude, mostrar mais abertura ao diálogo. O inimigo sempre vai existir. A ameaça do terrorismo sempre estará presente. O que se pode fazer é limitar essa ameaça, por exemplo, aumentando o número de aliados. Mas ela não vai desaparecer. Nenhum Estado vai entrar em guerra contra os EUA, mas o terrorismo vai continuar”, acrescentou Cristina. Marco Zero Em Nova York, a reconstrução do chamado Marco Zero, onde ficavam as Torres Gêmeas, no coração de Manhattan, sofreu um duro golpe com a crise financeira que assolou o país em 2008 e 2009. O projeto prevê cinco arranha-céus, um memorial, um museu, um espaço para lojas e um terminal de transportes. A ideia é que o memorial seja inaugurado em setembro de 2011, uma década depois dos ataques. Já a peça principal do projeto, um arranha-céu de 541 metros de altura chamado One World Trade Center, não será inaugurado antes de 2013. Em maio deste ano, o conselho municipal de Nova York aprovou a construção de um centro cultural islâmico e uma mesquita a dois quarteirões do Marco Zero. O polêmico projeto tem como objetivo criar uma ponte entre os muçulmanos e os demais norte-americanos. É claro que esta iniciativa isolada não será suficiente para desencorajar atos de terrorismo, mas é um passo na direção certa. •

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A AL-QAEDA Quando surgiu Agosto de 1988

Onde Paquistão

Fundador Osama Bin Laden

Objetivo Livrar os países muçulmanos da influência ocidental e propagar o fundamentalismo islâmico

Modo de atuação Atentados com bomba e ataques suicidas

Número de membros milhares de combatentes divididos em vários países

Grupos relacionados Estado Islâmico do Iraque, Lashkare-Taiba (Paquistão), Jemaa Islamiyah (Indonésia) e Al-Shebab (Somália)

Países atingidos Afeganistão, Arábia Saudita, Argélia, Egito, Espanha, Estados Unidos, Iêmen, Índia, Indonésia, Iraque, Jordânia, Marrocos, Paquistão, Quênia, Reino Unido, Somália, Tanzânia, Tunísia, Turquia, Uganda, entre outros

Principais ataques • 7 de agosto de 1998 Nairóbi e Dar es Salaam (224 mortos) •11 de setembro de 2001 Nova York e Washington (2.993 mortos) •12 de outubro de 2002 Bali (202 mortos) •11 de março de 2004 Madri (191 mortos) •7 de julho de 2005 Londres (56 mortos) •23 de julho de 2005 Sharm el-Sheikh (90 mortos) •26 de novembro de 2008 Mumbai (174 mortos) •25 de outubro de 2009 Bagdá (155 mortos) •11 de julho de 2010 Campala (74 mortos)

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Cultura

Entrevista >Laurentino Gomes ficou famoso com ‘1808’, uma obra publicada em 2006 que relata, com linguagem acessível, a história da corte portuguesa no Brasil

“A história da Independência tem personagens fascinantes” Para quando está previsto o lançamento? < O livro será lançado no Brasil pela editora Nova Fronteira na primeira semana de setembro, na véspera do feriado de Sete de Setembro. Em Portugal, chegará às livrarias três semanas mais tarde.

Yann Walter São José dos Campos

O

escritor Laurentino Gomes, paranaense de Maringá, nasceu em 1956. Formado pela Universidade Federal do Paraná, com pós-graduação em Administração na Universidade de São Paulo e cursos na Universidade de Cambridge, na Inglaterra, e Vanderbilt, nos Estados Unidos, abraçou a carreira de jornalista durante 30 anos –trabalhou como repórter e editor em algumas das maiores publicações do Brasil. Ficou famoso com ‘1808’, uma obra publicada em 2006 que relata, com linguagem acessível, a história da corte portuguesa no Brasil. O livro foi um estrondoso sucesso de vendas no Brasil, com meio milhão de cópias vendidas, e em Portugal. Ganhou o prêmio Jabuti, considerado a distinção mais tradicional da literatura nacional, e foi eleito o Melhor Ensaio de 2008 pela Academia Brasileira de Letras. O trabalho, resultado de dez anos de investigação jornalística, ganhou uma sequência, ‘1822’, que retoma a narrativa do primeiro no ponto em que a deixou: a Independência do Brasil. A linguagem acessível, grande diferencial de ‘1808’, continua presente porque, como diz o autor: “ninguém precisa sofrer para estudar História”. O lançamento está previsto para a primeira semana de setembro.

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Como será seu próximo livro, ‘1822’? < A Independência brasileira é um desdobramento óbvio da chegada da corte de Dom João ao Brasil. Portanto, ‘1822’ será uma sequência natural de ‘1808’. O livro anterior trata de um período de 14 anos, entre a partida da família real de Lisboa, em 1807, fugindo das tropas do imperador Napoleão Bonaparte, que tinha invadido Portugal, e o retorno em 1821. ‘1822’ vai retomar a narrativa da História do Brasil a partir desse ponto para cobrir os 13 anos seguintes, até a morte de Dom Pedro 1º, em 1834, no mesmo quarto em que nasceu no Palácio de Queluz, 15 quilômetros ao norte de Lisboa. No começo do livro, pretendo mostrar que, ao retornar para Lisboa em abril de 1821, Dom João deixava para trás um Brasil profundamente transformado, já pronto para a Independência, mas ainda às voltas com problemas gravíssimos, que poderia ter inviabilizado a sua continuidade como nação independente.

O livro ‘1822’ será escrito no mesmo estilo que ‘1808’? < O estilo será muito semelhante ao de ‘1808’: capítulos curtos, pequenos perfis dos personagens e linguagem acessível, para atrair a atenção de um público mais amplo, que normalmente não se interessaria por um livro de História do Brasil. Mas o livro também trará algumas surpresas ao mostrar que muitos dos acontecimentos da Independência do Brasil foram bem diferentes do que a maioria das pessoas normalmente aprende na escola. Um exemplo é o Grito do Ipiranga, que nada tem a ver com o famoso quadro do pintor Pedro Américo. Haverá uma versão infantil para ‘1822’, como houve para ‘1808’? < O lançamento da edição juvenil está previsto para o início de 2011. É uma forma de tornar ainda mais acessível para jovens e estudantes adolescentes o estudo de um evento tão crucial para a História do Brasil quanto a Independência. O público jovem é pouco habituado aos livros e à leitura em papel. Tem grande intimidade com a internet, os meios digitais e à linguagem audiovisual. Com a edição juvenil de ‘1808’ fiz um formato menor, mais lúdico e adequado a

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PERFIL NOME: Laurentino Gomes IDADE: 54 anos NATURALIDADE: Maringá (PR)

LAURENTINO GOMES “MUITOS DOS ACONTECIMENTOS DA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL FORAM BEM DIFERENTES DO QUE A MAIORIA DAS PESSOAS APRENDE NA ESCOLA”

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FORMAÇÃO: Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná, com pós-graduação em Administração pela USP (Universidade de São Paulo). Fez cursos na Universidade de Cambridge, na Inglaterra, e Vanderbilt, nos Estados Unidos

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Cultura

LAURENTINO GOMES “USO LINGUAGEM E TÉCNICA JORNALÍSTICAS PARA TORNAR HISTÓRIA UM TEMA ATRAENTE PARA UM PÚBLICO NÃO HABITUADO AO ESTILO ÁRIDO DOS LIVROS ACADÊMICOS” esse público, que provavelmente teria mais dificuldade em ler o livro adulto, com mais de 400 páginas. Pretendo repetir a fórmula de ‘1822’ para facilitar a vida dos estudantes. Seu último livro exigiu o mesmo trabalho de pesquisa que ‘1808’? < O trabalho de pesquisa foi tão intenso e profundo quanto o do livro anterior. Li cerca de 180 livros e fontes de referência sobre o tema e visitei vários lugares no Brasil e em Portugal nos quais ocorreram alguns dos acontecimentos mais importantes da Independência e da vida do imperador Pedro 1º. Há episódios importantes na história da Independência que são completamente desconhecidos pela imensa maioria dos brasileiros. Um exemplo é a Batalha do Jenipapo, no Piauí. Foi travada no dia 13 de março de 1823 na localidade de Campo Maior, a 80 quilômetros de Teresina, que naquela época ainda não existia, que visitei em meados de 2009. O resultado dessa batalha foi um massacre. Morreram entre 300 e 400 brasileiros, contra apenas oito vítimas do lado português. Ou seja, a Independência do Brasil não se resume ao Grito do Ipiranga. Só na Bahia cerca de 10 mil pessoas lutaram na guerra contra os portugueses.

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Em sua opinião, quais são os motivos do grande sucesso de ‘1808’? < ‘1808’ teve uma repercussão enorme no Brasil e em Portugal. Vendeu até agora mais de meio milhão de exemplares e ganhou dois prêmios Jabuti, de melhor livro-reportagem e livro do ano de não-ficção. Também foi eleito o melhor Ensaio de 2008 pela Academia Brasileira de Letras. Não imaginava que um livro sobre História do Brasil repercutisse tanto. Mas é um bom sinal. Significa que as pessoas estão buscando no passado explicações que precisam para entender o presente. A História serve para isso mesmo. Minha modesta contribuição ao estudo da História do Brasil é de linguagem. Meu objetivo é facilitar a vida dos leitores escrevendo numa linguagem simples e acessível. Ninguém precisa sofrer para estudar História. O fato de ter sido jornalista durante muitos anos te ajudou a desenvolver este estilo acessível e conciso que é o diferencial de ‘1808’? Houve da sua parte um desejo de fugir do estilo acadêmico comum a este tipo de obras históricas e adotar um estilo mais jornalístico? < Na essência, a pesquisa de um escritor para

escrever um livro sobre História do Brasil é muito semelhante ao trabalho de reportagem. É preciso ler muito, consultar documentos, confrontar diferentes fontes de informação na tentativa de chegar o mais próximo possível da verdade. Procuro aplicar nos meus livros o conhecimento e a experiência adquiridos como jornalista em mais de 30 anos de atividade como repórter e editor de jornais e revistas. Uso a linguagem e a técnica jornalísticas para tornar História um tema acessível e atraente para um público mais amplo, não habituado ao estilo árido e, às vezes, incompreensível dos livros acadêmicos. Portanto, tento servir de filtro entre a linguagem especializada da academia e o leitor médio. Além disso, não me limito a pesquisar os livros e fontes tradicionais. Vou aos locais dos acontecimentos de 200 anos atrás, mostrando como estão hoje. Procuro atualizar valores da época, fazer comparações e dar exemplos. Tudo para facilitar a compreensão do leitor. O que procuro demonstrar com os meus livros é que a História pode ser fascinante, divertida e interessante, mas sem ser banal. Quais são, em sua opinião, os personagens mais fascinantes deste período da História do Brasil?

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CURIOSIDADES FAMÍLIA REAL

DOM JOÃO Nasceu em Lisboa em 13 de maio de 1767, onde morreu no dia 10 de março de 1826. Fugiu de Portugal após a invasão das tropas francesas e veio para o Brasil, onde reinou

CARLOTA JOAQUINA Descrita, à época de seu casamento com D. João, como quase horrenda, detestava o marido e o Brasil. Nasceu na Espanha, em 1775, e morreu em Lisboa, em 1830. Teve 9 filhos

< A história da Independência do Brasil é repleta de personagens fascinantes, uma galeria que inclui José Bonifácio, a princesa Leopoldina, a marquesa de Santos e, obviamente, o jovem príncipe Dom Pedro. Herdeiro da coroa portuguesa, Dom Pedro era uma força viva da natureza. Amava de forma desmedida mulheres, cavalos e amigos de reputação questionável. Teve inúmeras amantes e filhos bastardos, mas amou a todos de forma apaixonada. Na política, tinha um discurso liberal, mas um comportamento bastante autoritário. Admirava Napoleão Bonaparte, que obrigou seu pai, Dom João, a fugir de Portugal. Deu

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ao Brasil, em 1824, uma constituição surpreendentemente liberal. Mas alguns meses antes dissolveu a primeira constituinte brasileira, quando ela não se curvou às suas exigências. Em resumo, tinha virtudes e defeitos, como qualquer pessoa. Viveu poucos anos, mas de forma intensa. Fez a Independência do Brasil com apenas 23 anos e morreu com 35, depois de deixar um filho no trono brasileiro, Dom Pedro 2º, e uma filha no trono português, Dona Maria 2ª. Foi como um meteoro que cruzou rapidamente os céus da história, deixando para trás um rastro de luz cuja compreensão até hoje desafia os historiadores. •

DOM PEDRO 1º Nasceu em Lisboa em 12 de outubro de 1798 e morreu no dia 24 de setembro de 1834. Herdeiro da coroa portuguesa, era filho de Dom João e Carlota Joaquina

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Especial

Fotos: Cláudio Vieira

NO ASFALTO

Rota 66: a mãe de todas as estradas Nossa equipe percorreu 4.759 kms da histórica rodovia, que liga o leste ao oeste dos Estados Unidos, para conhecer um país que não aparece nos guias turísticos

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Fotos: Claudio Vieira

ÍCONE Trecho da Rota 66 no deserto de Mojave, na Califórnia. A estrada que foi ‘contada’ em livros, filmes e música continua atraindo viajantes do mundo todo

Adriano Pereira Califórnia (EUA)

ão 9h30 do dia 26 de junho, em Chicago, Illinois. Uma semana após a cidade ser atingida por dois tornados de uma só vez, o dia promete ser quente, muito quente. No rádio da van, Marvin Gaye canta sossegado com o ar condicionado que congela o interior do veículo. Mike, um negro forte cheio de pulseiras e anéis de ouro, é nosso motorista no trajeto do hotel até a empresa que aluga motos. “Então vocês vão percorrer a ‘velha 66’?”, pergunta. Vamos, pilotando duas motos

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Harley Davidson, carregando pouca bagagem e esperando conhecer uma América que poucos conhecem, até mesmo entre os americanos. “Vai estar quente”, avisa Mike. A “velha 66” dele é a US-66 construída em 1926 para ligar o leste ao oeste dos Estados Unidos. Hoje é conhecida como “Historic Route 66” porque a maior parte da estrada está desativada, jogada num canto de uma interestadual moderna ou simplesmente sumida numa plantação de milho. Sua pavimentação terminou em 1938 ligando Chicago a Los Angeles, na Califórnia, e seus 3.860 km, de pistas simples, que atravessam oito Estados, foram criados justamente para movimentar o interior do país. E conseguiram. Cidades nasceram às

margens da Rota 66 que serviu de caminho para os que procuravam empregos nas plantações de uva da Califórnia, até os que fugiam do temeroso “Dust Bowl”, ventos que traziam tanta poeira em velocidades tão assustadoras que eram capazes de dizimar casas e até matar pessoas e animais. Mas em meados dos anos 50, a tão útil Rota 66 foi caindo em desuso. O General Einsehower, encantado com as Autobanhs alemãs depois da Segunda Guerra, resolveu criar um programa de construção de estradas modernas, com várias pistas, mais seguras e mais rápidas. Sua desativação completa aconteceu em 1984. É a partir de uma interestadual que se chega à Rota 66 hoje em dia. Saindo de Chicago, o

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Especial

viajante é obrigado a entrar na I-55, uma estrada impessoal. Por alguns quilômetros, motoristas estressados, com vidros fechados, e tomando café sem parar aceleram seus carros enormes. Caminhões ignorantes em tamanho soltam fumaça e toda atenção é pouca. Depois de 30 minutos o cheiro da grama e de um país esquecido no tempo invade o ambiente. As pequenas casas de Joliet, a maioria delas com uma bandeira americana pendurada na varanda, anunciam outro país. A Rota 66 ainda está lá. Poucos quilômetros depois, Willmington. Era a primeira parada obrigatória nos anos 30, principalmente para as famílias. Um astronauta de cimento, com 10 metros de altura, chama a atenção para a lanchonete “Launching Pad”. Lá dentro, uma garçonete com dentes ruins dança “Dirty Deeds”, do AC/DC, que está tocando no rádio. Tomamos nossa primeira Coca-Cola da viagem. Jimi Hendrix anuncia “Fire” e a garçonete continua dançando e cantarolando. Nós aceleramos nossas motos. A próxima cidade é Dwight, um lugar tão tranquilo que parece não existir. Aqui a 66 justifica pela primeira vez a fama de “Principal Avenida da América”. A estrada que cruza as cidades nos leva para um posto de gasolina histórico. O local foi restaurado pela iniciativa de Ken Howard, que preservou as últimas duas bombas que funcionaram na Rota. “Nos bons tempos, este mesmo cruzamento abrigava quatro postos de gasolina. Hoje não temos nenhum funcionando”, diz. “Os negócios foram piorando e as pessoas foram embora”. Mais à frente, Michael Hidings, de 68 anos, tenta se refrescar na varanda de sua casa enquanto sua esposa cuida de um lado do jardim. Do outro ficam suas relíquias. Bombas antigas de gasolina, uma caminhonete dos anos 40, centenas de latas de óleo vazias e todo tipo que bugiganga que se pode encontrar à beira de uma estrada. Por uma porta na garagem se chega ao tesouro. Três motos Harley Davidson, que devem valer uma fortuna para colecionadores, estão estacionadas na garagem. “Não vendo e não troco. Fiz esse caminho que vocês estão fazendo várias vezes com elas”. Deixamos Dwight para trás e depois de 11 horas de viagem debaixo de um sol escaldante e algumas curvas erradas chegamos à capital de Illinois, Springfield. A cidade se orgulha por abrigar o túmulo de Abraham Lincoln, e as referências estão em todos os lugares, até nos sinais de trânsito. A recepcionista do

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hotel se espanta: “Onde vocês conseguiram essas queimaduras de sol?”. “Nós só precisamos de um banho e uma cama, por favor”, respondo. “É pra já”, diz ela. Segundo dia Nosso segundo dia começa dolorido. As mãos e os braços estão cansados de segurar motos que pesam 650 kg. É a falta de costume. O tempo está nublado e bem diferente do primeiro dia. Um alívio. Logo depois de Springfield pela antiga 66 cruzamos Carlinville. Seus 750 habitantes ainda não acordaram da festa do dia anterior. Em todos os estabeleci-

mentos é possível ler mensagens de congratulações para o novo casal da cidade. Estamos entrando no Estado de Missouri. A 66 nos leva a St. Louis, a maior cidade entre Chicago e Los Angeles em toda a Rota. Mas a “mãe de todas as estradas” é esquecida nesse lugar. O tradicional arco de St. Louis fica longe dessa paisagem e o caminho segue por subúrbios estranhos. Poucos trechos originais marcam esse trajeto e somos obrigados a pegar a interestadual por diversas vezes. É como se tudo tivesse perdido a graça. O traçado da Rota 66, às vezes, segue como uma marginal das grandes estradas, é usada

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balcão voltam a preencher o local. Pedimos um hambúrguer para matar a fome. Rolla está a poucas milhas e queremos chegar antes de anoitecer.

volta para o futuro”. Saímos do Missouri em poucos quilômetros e entramos no Kansas. Aqui a Rota 66 está como era há 84 anos, ou seja, imprestável em alguns trechos. O Estado tem o menor pedaço da estrada e não destrói nada, mas também não preserva. Nosso GPS nos mandou para um trecho de terra. Motos pesadas como essas não são feitas para andar fora do asfalto. Quase caímos por várias vezes derrapando nas pedras. Quando a Rota sai da terra entra em Galena, uma cidade que dura duas esquinas. Mas em uma delas um personagem é famoso. Um antigo guincho enferrujado ganha vida com dois olhos desenhados no para brisas. Foi esse veículo que inspirou os criadores da Disney para desenvolverem a animação “Carros”. As duas donas explicam que esse é o original. “Tem muita gente por aí que põe um guincho na frente de uma ‘biboca’ e diz que é aquele. Eu garanto que é esse!”. Estamos andando há muito tempo nesse sol. Alguns trechos da Rota têm mais de 80 km em um nada absoluto. Chegamos em Paris Springs, no Estado de Oaklahoma, uma vila que tem um dos postos mais antigos da 66, a garagem do local foi construída em 1926. Quem cuida disso é Hurley, um senhor simpático de 65 anos, que calça botas de cowboy e diz que vende as camisetas mais baratas de toda a estrada. “Vivo aqui nesse posto há seis anos. Amo isso aqui, é a melhor coisa que já fiz na minha vida. As pessoas deram suas vidas para construir esse caminho, devemos preservar isso por elas. Espero inspirar outros a fazerem o mesmo”, diz. Antes de sairmos ele avisa: “Você se surpreenderão com o dia de hoje!”. Já estávamos. Oaklahoma é o Estado que tem o maior trecho da Rota 66, e um dos mais bonitos também. Vales e pontes antigas, rios, trechos preservados e longe das interestaduais. Depois de muito tempo chegamos a Tulsa, uma cidade com 375 mil habitantes e 1.200 companhias de petróleo. É o segundo maior município do Estado. Conseguimos vencer o calor e o maior trecho dessa viagem.

Terceiro dia As dores nas mãos e nos braços diminuíram. E parecemos mais dispostos para pegar a estrada. Temos que estar, até Tulsa, no Estado de Oaklahoma, teremos que percorrer 505 km e cruzaremos um pequeno trecho do Kansas. Saindo de Rolla, no Missouri, seguimos direto para Carthage, uma cidadezinha que adora lembrar que serviu de cenário para o filme “De

Quarto dia Acordamos sem dores e animados pelo fato de termos vencido o dia anterior. Mas começamos com pouca sorte. Nosso GPS nos manda para um trecho da 66 que está fechado e em obras. Não conhecemos nada da cidade, não sabemos nem onde fica o norte. Entramos num bairro residencial para tentar alguma informação, mas é muito cedo

FANTASMA Motel abandonado na cidade de Erick, no Texas; com a construção das interestaduais as cidades foram ficando vazias e esquecidas

como “Servide Road” para acessar bairros e outras avenidas. Mas quando ela desvia e fica longe da interestadual a viagem parece voltar ao eixo. E chegamos a Cuba, uma pequena cidade que tem em seus prédios toda a história da 66 pintada em murais coloridos. Antes de chegarmos a Rolla, nosso destino final do dia, paramos no Sparkys Cafe, uma lanchonete no meio do nada à beira da Rota. O bar está cheio e todo mundo parece se conhecer. Assim que entramos, um silêncio ensurdecedor toma conta do local por alguns segundos. Depois o barulho da Jukebox, o jogo de bilhar e as moças risonhas do

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Especial

ARTE O Cadillac Ranch, no Texas, criado por um grupo de artistas que queriam protestar acabou se transformando num ícone da por art

ainda. Encontramos um motociclista saindo para o trabalho e pedimos informação. Ele nos guia até um trecho da interestadual e nos explica onde sair. Aqui vale uma ressalva. Desde que começamos, não existe um só motociclista que não nos cumprimente com um aceno de mão. Já nos deram mapas, coordenadas e sempre que paramos para uma água, um deles puxa uma conversa. Todos se surpreendem quando dizemos que somos do Brasil, mas logo caem em si e descobrem que não viemos de lá pilotando motos, e a risada é certeira. Assim que voltamos para a Rota 66 chegamos a Rock Creek, a cidade que tem o Rock Cafe, um dos estabelecimentos mais antigos dessa estrada. Dizem que a dona do local também serviu de inspiração para o Porsche azul do filme “Carros”. Aqui pelo menos existe um pôster assinado pelo diretor do longa que diz: “Essa é a verdadeira Sally”. Todos viajantes que passam por ali deixam seus recados nas paredes dos banheiros. Comemos alguma coisa e seguimos viagem. Nosso GPS resolveu atrapalhar. Em vários momentos ele nos pede para virar em curvas

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que sequer existem. Achamos nosso caminho com mapas e perguntas pela estrada. Depois de Rock Creek vem um dos ícones da Rota 66, um celeiro redondo construído na cidade de Arcadia. O lugar é imenso e dizem que foi feito dessa forma, sem ângulos retos, para enfrentar os fortes ventos sem perder suas telhas. Após 5 km, chegamos ao Pop’s, outro ícone. O posto de gasolina acabou se transformando numa atração até para os que transitam pelas interestaduais. Mesmo da estrada moderna é possível ver a imensa garrafa de refrigerante feita em aço. Lá, os gerentes garantem que existem mais de 5.000 rótulos de refrigerantes do mundo todo. Achamos algumas garrafas de guaraná, experimentamos duas bebidas de laranja e tocamos nossas motos para Clinton. O problema é que o GPS resolveu falhar de novo. Insiste em nos mandar para uma estrada de terra que não leva para nenhum lugar. Voltamos alguns quilômetros e encontramos um mecânico. “Qual estrada devo seguir para Clinton?”, pergunto. “Hinton ou Clinton?”, me responde o me-

cânico com outra pergunta e um sotaque indecifrável. Soletro o nome da cidade e ele faz um sinal para que esperemos. Ele coloca os óculos escuros e sai da oficina pilotando uma Harley azul brilhando, acelera na estrada e somos obrigados a andar a quase 140 km/h para acompanhá-lo. Assim que chegamos num cruzamento ele aponta para a direita e diz: “Clinton!”. Agradecemos muito e seguimos nossa viagem. A cidade de Clinton é nossa última parada antes do Texas, é onde fica o museu mais completo sobre a Rota 66. Muitas peças originais estão lá. Uma delas mostra que no início, a estrada foi aberta com equipamentos de tração animal. No final, você pode até sentar em um drive-in e assistir a um filme sobre o assunto. Quinto dia Apesar do trajeto ser curto, acordamos cedo em Clinton com destino a Amarillo, no Texas. A primeira cidade no caminho é Elk City, e outro museu sobre a 66 está no caminho. É menos completo do que o de Clinton, mas tem um charme especial por-

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que conseguiu reproduzir uma pequena cidade dos anos 20 que dá uma volta completa no prédio. A paisagem começa a mudar. Se no início víamos pequenas cidades arborizadas seguidas de grandes plantações de milho em Oaklahoma, na medida em que chegamos perto do Texas as planícies vazias dominam a cena. Parece não existir nada depois da próxima curva. Próximo à Erick, um filhote de cervo cruzou a pista bem na nossa frente, ameaçou voltar e seria atropelado pelas nossas motos. Uma acelerada e ele resolveu seguir o caminho para o mato. Tanto Erick, como Texola, são cidades fantasmas. Conforme o tráfego foi deixando a 66 e migrando para as interestaduais nos anos 50, as pessoas foram perdendo seus meios de vida. Casas, motéis e até carros foram largados nesse caminho. O silêncio desses lugares perturba. Parece que alguém vai sair de alguma porta e dizer: “O que você está fazendo aqui, tirando fotos da minha casa?”. Mas ninguém sai, não existe viva alma a não ser as nossas. É inevitável não pensar nos sonhos que foram construídos no velho hotel, quantas viagens aquele carro enferrujado, largado na garagem, deve ter feito. Quem ele carregou? Um gato aparece andando no meio disso tudo. Algo vivo. Mas as cadeiras que estão por ali, e parecem esperar por alguém, nunca mais serão usadas. Saindo de Texola se chega a Groom, e também a mais um ícone dessa estrada. A caixa d’água que se equilibra em duas das quatro pernas de ferro num pasto. Apesar dos ventos fortes que aparecem no Texas, a estrutura foi feita dessa maneira, torta. Ninguém explica como nunca caiu. As pessoas saem da interestadual para fotografar o “fenômeno”. Chegamos a Amarillo em um calor infernal. O primeiro deserto do percurso está começando e já sentimos a mudança. O país está mais “mexicanizado” deste lado. Todos os empregos de supervisão para baixo são ocupados por imigrantes. Alguns mal falam inglês. Mas trabalham, e sem eles os Estados Unidos entrariam num colapso. Sexto e sétimo dias Hoje é o segundo dia mais longo da viagem: serão 435 kms que nos levarão até Santa Fé, no Novo México. Estamos empolgados porque teremos um dia de folga da estrada, e precisamos disso, o cansaço começou a afetar algumas decisões sobre quais caminhos seguir. Assim que saímos de Amarillo nosso

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PRESERVAÇÃO Posto de gasolina construído nos anos 30 e preservado em Paris Springs, Oaklahoma

HISTÓRIA DA Rota 66 começou a ser construída em 1926 com o objetivo de ligar o leste ao oeste dos Estados Unidos. Foi completamente pavimentada somente em 1938. DSua extensão total é de 4.579 kms DPassa por oito estados: Illinois, Missouri, Kansas, Oaklahoma, Texas, Novo México, Arizona e Califórnia DSão três fusos horários diferentes em todo o trajeto DMuitas pessoas usaram essa estrada para fugir do desemprego no leste causado pela quebra da bolsa em 1929. Outras milhares fugiram do “Dust Bowl”, um fenômeno natural que unia ventos fortes e poeira que transformava o dia em noite e que chegava a matar pessoas e animais. DDiversos filmes usam a Rota 66 como cenário, alguns deles são: “Irmãos Cara de Pau”, “Kalifornia”,

“Easy Rider”, “As Vinhas da Ira”, “Thelma & Louise”, “Wild Hogs”, “Onde os Fracos Não Têm Vez”. DO escritor Jack Keorouac imortalizou a estrada no livro “On The Road” DVários músicos “usaram” a estrada como tema de suas composições, a mais famosa delas é “Get Your Kicks On Route 66”, de Bobby Troup e interpretada por diversos cantores e bandas como Nat King Cole, Rolling Stones, Chuck Berry e Depeche Mode. DA Rota 66 foi completamente desativada em 1984. O último trecho a ser substituído ficava no Estado do Arizona.

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primeiro destino seria o famoso Cadillac Ranch. O problema, mais uma vez, foi nosso GPS, que nos levou diretamente para Vega, 48 km depois de onde deveríamos estar. Voltamos e perdemos uma hora, mas foi compensador. A visão de 10 Cadillacs enterrados num pasto é no mínimo intrigante. No quê esses caras estavam pensando? Criado em 1974 por um coletivo de artistas chamado Art Farm, a ideia foi surgindo sem planejamento. Os três artistas responsáveis resolveram comprar velhos Cadillacs em Amarillo e amassá-los na frente de seus antigos donos, como uma forma de protesto. Em vez disso, começaram a enterrá-los num pasto. Com a atenção da imprensa local a brincadeira ficou enorme e resultou em um dos maiores ícones da pop art dos anos 70. Hoje, todos que visitam são convidados a grafitar os carros. Existe até um aviso oficial do governo do Texas na entrada que diz que antes da cerca, o grafite é crime e dá cadeia. Do lado de lá, crianças e adultos deixam marcas efêmeras que durarão por um dia, ou até por apenas algumas horas. Voltamos ao nosso curso normal com destino a Adrian, a cidade que fica exatamente no meio do caminho entre Chicago e Los Angeles. Sinceramente, quando chegamos nos sentimos como alguém que vence um desafio. A placa está lá no meio do nada, e do outro lado da rua, o “Midpoint Cafe”, que serve tortas de maçã aos viajantes desde o final dos anos 30. Esse desvio nos fez baixar o nível de gasolina. A paisagem já é de deserto no Novo México e os postos estão ficando cada vez mais distantes uns dos outros. Com os tanques quase vazios, achamos um posto novinho, mas que ainda não estava aberto. O atendente diz que devemos andar 20 km até San Jon. Conseguimos, mas o posto está completamente abandonado. Sabíamos que não tínhamos mais gasolina para nada. Mas um rapaz da loja que ficava no posto diz: “Atravessem por baixo daquela ponte, é um minuto, e vocês terão gasolina”. Foi a salvação. Estamos viajando sob a ameaça de uma tempestade. Um furacão que atingiu o Golfo do México mexeu com o clima nos Estados Unidos. E da estrada podemos ver vários pontos de chuva no horizonte. É preocupante. Para piorar, nosso GPS resolveu pifar novamente. E em vez de nos levar para Santa Fé está nos dirigindo diretamente para Albuquerque. Quando percebemos, já estamos perdidos.

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ASTRONAUTA Nos anos 50 e 60, a conquista do espaço estava no imaginário das pessoas

Paramos num bar que parecia sair de “Onde os Fracos Não têm Vez”, dos irmãos Coen. “Nosso GPS está meio maluco, como podemos chegar a Santa Fé”, pergunto. O homem ri e diz: “GPS? Todos são malucos!” Mas nos explica e seguimos viagem. De longe vemos a tempestade e resolvemos parar pouco antes de entrar na HW-285 que nos levará ao nosso destino e esperar por uma melhora no tempo. Almoçamos e saímos. Por uma providência divina, circulamos a tempestade o tempo todo e chegamos sãos, salvos e secos.

Oitavo dia Sair de Santa Fé foi como deixar algo seguro e bonito para trás e começar a enfrentar novamente o desconhecido e inóspito. Saímos bem cedo debaixo de uma chuva fina, o sol ainda nem apareceu direito. Mas temos que fazer isso. O problema de manhã não é o calor, mas a falta de umidade que existe em qualquer hora do dia. Em 30 minutos andando de moto, nossos lábios já estão rachados. Resolvemos seguir o conselho de um motociclista que conhecemos no caminho.

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dólares para viver e o dinheiro está além das cercas dos pueblos. Como para quase todo “estrangeiro” na América, o subemprego é uma das saídas. Em outra frente, legislando em causa própria, muitas reservas acabam montando cassinos que funcionam 24h por dia, sempre lotados. São comuns lugares em que a única coisa que existe à beira da estrada é um monumental prédio cercado de índios e luzes piscando como se estivéssemos em Las Vegas. Seguimos em frente e estamos chegando a Gallup, uma cidade que parece ter uma única avenida de quase 16 km. Nela você encontra todos os hotéis da cidade, todas as redes de fast food e todo o resto do município. Essa única via que um dia foi o caminho para o oeste americano, hoje é a “Avenida Histórica 66”.

CARROS O guincho que inspirou os criadores da Disney a desenvolverem o personagem Tom Mate do filme ‘Carros’

“No Novo México, toda vez que você vir um posto, encha o tanque”. Passamos por Albuquerque e começamos a chegar nos “pueblos”, as reservas étnicas do Novo México. Os índios Navajos habitavam esses lugares antes de qualquer imigrante fardado ganharam o direito a terra. Nos pueblos não valem as leis americanas, eles têm seus próprios governantes e suas próprias leis. Uma delas nos fere diretamente. É proibido fotografar. Até onde a cerca nos permite, conseguimos registrar algumas das cenas mais

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bonitas até agora. Apesar de estarmos no meio de um nada que chega a ser filosófico, o começo do deserto é encantador. Pedras e montanhas vermelhas contrastam com a vegetação verde-musgo rasteira criando um efeito visual interessante. O povo Navajo também não é muito simpático. Depois de algumas caras feias descobrimos que o problema é histórico. Eles eram os donos disso tudo. Inóspito ou não, era seu mundo até que a civilização os forçou a viver em reservas. Apesar de terem sua liberdade legislativa, eles precisam de

Nono dia Entraremos no primeiro deserto do roteiro. Dá certo receio, mas é o caminho que nos propomos a fazer. Saímos de Gallup às 7h numa manhã bastante fria apesar do sol estar brilhando sozinho no céu. O clima aqui é tão seco que nossos narizes sangraram quando levantamos. Vamos cruzar o limite entre os Estados do Novo México e do Arizona com destino a Flagstaff. Os índios Navajos são a maioria étnica nessa região. Em todos os lugares eles montam pequenos comércios para vender “artesanato autêntico” de suas reservas. É claro que é um grande engodo, na verdade as mesmas peças que se encontram em postos de gasolina estão nas “vilas originais” da beira da estrada. Mas a paisagem mudou drasticamente mais uma vez. A umidade do ar praticamente sumiu e o pouco verde que existia deu lugar ao marrom em vários tons. São morros de pedra e areia esculpidos pelo vento que é tão forte que chega a desequilibrar as motos. É 4 de julho e o norte-americano gosta de comemorar seu Dia da Independência. Está todo mundo nas interestaduais. Por sorte, a maioria deles se esqueceu da própria história e a 66 parece ser nossa. O Estado do Arizona teve o último trecho original da 66 totalmente funcional até 1984, foi o último a ser desativado. Por conta disso, nas cidades, por exemplo, a Rota é a avenida principal até hoje. Estamos bem adiantados no caminho em razão de mais uma mudança de fuso horário. Agora temos duas horas de diferença de Chicago, onde partimos. E assim nos demos conta que ainda era cedo. Assim que entramos em Winona parece que

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por alguns minutos estivemos fora da sala de teatro e o pessoal dos bastidores trocou o cenário. Tudo muda na paisagem. O marrom dá lugar a pinheiros verdes e lá no fim do horizonte, que antes não dava nenhuma perspectiva de mudança, uma montanha com um pouco de neve no cume dá um norte. Estamos a 1.820 metros de altitude e a montanha chega aos 3.500 metros. Começamos a serpentear uma estrada que antes era reta como uma régua e logo o frio aumenta. Deixamos Winona e entramos em Flagstaff onde a Rota 66 é a avenida. Vencemos o primeiro deserto. Décimo dia De Flagstaff para Williams são apenas 70 km pela 66. Então pegamos outro rumo, entramos na HW-180 rumando para o norte, uma estrada linda cercada por pinheiros, e depois entramos na AZ-64 e subimos mais um pouco para chegar num dos lugares

HISTÓRIA Angel Delgadillo não aguentou ver sua cidade ‘morrer’ e criou uma associação para preservar a Rota

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mais bonitos do mundo, o Grand Canyon. São 446 kms entalhados pelo Rio Colorado expondo 2 bilhões de anos de história geológica. Sua largura chega a 25 km em alguns pontos e é visitado por 4 milhões de pessoas por ano. Antes de chegarmos à entrada no parque, desviamos para o aeroporto do Grand Canyon. Entramos num pequeno avião projetado especialmente para sobrevoar o local. Em 50 minutos é possível percorrer 160 km de algo indescritível. O Grand Canyon já era habitado por indígenas há milhares de anos, o primeiro artefato humano encontrado no local data de 12 mil anos atrás. Atualmente ainda moram na região índios das tribos Hualapai, Havasupai, Navajo, Hopi e Paiute. Sua redescoberta para o mundo foi em 1857, graças ao explorador Joseph Christmas, sendo que em 1919 foi criado o Grand Canyon National Park, administrado pelo governo americano. A medida que essa viagem avança, ainda

mais diante de algo tão grandioso e antigo, percebemos nossa insignificância perante o mundo. Fechamos-nos em pequenas realidades que às vezes se limitam a pagar contas e terminar o dia sem lembrar-se do que foi feito pela manhã. Aqui percebemos que nossos horizontes devem ser ampliados sempre que pudermos. Chegamos a Williams. Temos que rumar pela primeira vez para o leste na 66 e encontrar nosso hotel. Nossas almas estão lavadas para sempre com as imagens que vimos. Décimo primeiro dia Saímos bem cedo de Williams, no Arizona, com destino a Laughlin, em Nevada. A Rota 66 não passa por esse Estado, mas ela some entre o final do Arizona e a Califórnia, então para retomá-la é necessário fazer um desvio. O caminho guardava uma grata surpresa. O Arizona preserva a 66, e muito. A maioria das cidades cortadas pela estrada se orgulha e aproveita esse fato deixando seu nome nas avenidas principais que faziam parte do traçado original da Rota e abrindo lojas de souvenires e bugigangas para turistas. Desde Flagstaff, todos os municípios são assim. Isso só foi possível por causa de um homem chamado Angel Delgadillo, de 83 anos. Em 22 de setembro de 1978, a interestadual I-40 foi inaugurada a 25 km de distância de Seligman, por onde a Rota 66 passa. “Foi o dia em minha cidade morreu por 10 anos. Eu nasci aqui e vi isso acontecer. Quando lembro fico até perturbado”, diz Delgadillo. “Por todo esse tempo não tínhamos nem feijão para por no prato das nossas famílias, muitos foram embora. Em 18 de setembro de 1987 resolvi mudar essa situação. Convoquei os moradores que restavam aqui e falei que deveríamos preservar nossa história”. O barbeiro que herdou a profissão e a barbearia do pai, fundada em 1927, decidiu que era hora de tentar salvar sua cidade. Foi aí que ele fundou a “Historic Route 66 Association”, uma associação com o objetivo de resgatar a história e tentar fazer com que isso fosse um meio de vida para os moradores de Seligman. “No início, ninguém acreditava em mim. Quem iria acreditar num pequeno grupo de moradores de uma cidade no norte do Arizona? Então resolvi fazer sozinho e, em dezembro de 1987, o governo do Estado reconheceu nossos esforços. Estamos preservando a América, os valores do passado. Não somos um lugar com McDonald´s ou grandes redes de loja, somos uma cidade de famílias”, conta. Com a associação, Delgadillo arrecada fun-

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dos para a preservação da 66. Na pequena barbearia que ainda funciona e na qual ele ainda trabalha todos os dias, uma pequena loja com tudo que se possa imaginar funciona anexa ao estabelecimento e ajuda nessa preservação. “Com nosso trabalho capturamos a imaginação do mundo. Hoje, a 66 tem essa visibilidade por nossa causa. Não é apenas uma estrada, estamos falando de pessoas. Fico feliz quando vejo viajantes passarem por aqui e se sentirem felizes. A felicidade não custa um dólar e ao mesmo tempo não tem preço”. Saímos de Seligman com uma sensação entranha. Fazemos parte dessa história agora, estamos viajando há 11 dias em contato direto com um asfalto que ganhou vida no imaginário das pessoas. A Rota 66, como diz Delgadillo, não é apenas uma estrada, é um lugar onde as pessoas construíram suas vidas, e esse suor derrubado nessa pista nenhum sol forte consegue secar. É para sempre. Seguimos direto para Laughlin sem parada. Hospedamos-nos num cassino repleto de turistas japoneses gastando seus ienes. O deserto de Mojave já começou e a temperatura lá fora ferve qualquer nervo. No dia seguinte enfrentaremos o restante deste fantasma. Décimo segundo dia Estamos com medo do deserto. “Às 9h o sol já está te queimando”, disse no dia anterior o manobrista do hotel. “Se eu fosse você sairia antes do sol nascer”, avisou. É o que fizemos. Acordamos às 4h30 com as malas prontas. Nem tomamos café da manhã, a tensão de enfrentar a sensação térmica de 50ºC é enorme. Durante os 340 kms teremos chance de abastecer somente duas vezes. Só existe um posto no meio do caminho. Ninguém é louco de se instalar no meio do nada. O Mojave recebe esse nome em razão de um tipo de cobra cascavel comum na região. É a parte mais elevada do deserto da Califórnia. Uma de suas regiões recebe o nome de Vale da Morte. São rios secos e repletos de sal. No filme “As Vinhas da Ira”, de 1946, o Mojave já existia para as pessoas como um lugar onde a morte era uma companheira próxima. Naquela época, muitos viajantes não aguentavam o percurso, abandonavam seus carros na beira da estrada e nunca mais eram vistos. “Vocês tem que usar mangas compridas, nenhum filtro solar aguenta aquele sol”, avisou Hurley quando ainda estávamos no clima gostoso de Oaklahoma. Entramos na interestadual com o dia na penumbra, é o único caminho para retomar a 66.

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Aqui ela corre praticamente paralela à grande estrada, só que com algumas curvas a mais que vão nos distanciando da civilização. A cada pequena cidade, e são apenas três até Bristow, onde o deserto dá folga, a água é necessária. Andamos por duas horas e o sol já está quente. Entre as cidades de Amboy e Ludlow, fica um lugar especial para a 66, o “Bagdad Café”, local usado para as filmagens do filme homônimo. É do mesmo jeito que o filme. Ermo, quente e insignificante. Mais a frente fica a cidade de Newberry Springs, e outro bar dá nome a um filme, é o “Sidewinder Cafe”. Já estamos preocupados porque temos que chegar a Victorville antes do sol do meio-dia. Assim que a 66 volta para a interestadual conseguimos ganhar velocidade e terreno. Nossas bocas estão secas, nossos olhos ardendo e o calor está de matar. Chegamos em Victorville às 9h30. Passamos por essa prova em quatro horas e meia de viagem. Assim que chegamos no hotel o recepcionista pergunta:

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“Vocês atravessaram o deserto?”. Respondemos que sim. “Dá para perceber”, retruca. Último dia Hoje foi o trajeto mais curto, mais feio e mais tenso de toda essa viagem. Depois de Victorville, a Califórnia mostra sua riqueza e cresce no tamanho. Pequenas cidades acabam engolidas pela grande Los Angeles e o que era um país pequeno do interior perde a identidade para um tráfego intenso nas estradas e trechos onde a Rota 66 se transformou em avenidas no subúrbio. Logo que saímos de Victorville entramos na I-15 para acessar “nossa estrada” depois de 48 km, no vale de San Bernardino. O sol sumiu nesse trajeto dando espaço para uma neblina densa e fria. Saímos de 40ºC do deserto para mínimos 13ºC. O tráfego nessa interestadual é completamente insano. Grandes carretas cruzam as quatro pistas, carros apressados para o trabalho e moto-

NAVAJO As reservas indígenas estão às margens da Rota desde que se entra no Novo México

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ristas que não pensam em outra coisa a não ser em garantir o tempo. Entrar em San Bernardino é um alívio por um lado, mas um sofrimento por outro. Esse subúrbio não é nada amigável e existem semáforos a cada 800m. É local de fundação do primeiro McDonalds da história. O trecho de 160 km passa a ganhar contornos inimagináveis. No caminho para Santa Monica, as casas começam a melhorar em aparência. Em Pasadena, o último pedaço de subúrbio antes de entrar na famosa Beverly Hills, tudo parece ter saído de um seriado de TV. Ruas arborizadas e vazias de um bairro residencial cruzam as avenidas movimentadas por Ferraris e Porsches. Isso tudo antes de entrar em West Hollywood, que é de fato, a terra do cinema, com estrelas nas calçadas. Assim que chegamos no Píer de Santa Monica procuramos um local para estacionar as motos. Entramos num estacionamento privado e vimos na placa que custava US$ 6,50 por veículo. O manobrista diz em inglês que são US$ 10. Questiono e ele olha para o colega e em português grita: “Boca,

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cobra US$ 10 de cada?” Brasileiro, morando temporariamente em Los Angeles, consegue colocar as duas motos numa única vaga e pagamos a metade do preço. O píer marca o final dessa viagem de 4.579 km cruzando os Estados Unidos. No exato momento em que chegamos à ponta do píer, não conseguíamos analisar friamente o que fizemos. Sabemos que foi grande, cansativo e modificador. Sim, de alguma maneira a estrada nos mudou numa loucura saudável. Como diz Jack Kerouac, em “On The Road”, “aqui estão os loucos. Os desajustados. Os rebeldes. Os criadores de caso. Os pinos redondos nos buracos quadrados. Aqueles que vêem as coisas de forma diferente. Eles não curtem regras. E não respeitam o status quo. Você pode citá-los, discordar deles, glorificá-los ou caluniá-los. Mas a única coisa que você não pode fazer é ignorá-los. Porque eles mudam as coisas. Empurram a raça humana para a frente. E, enquanto alguns os vêem como loucos, nós os vemos como geniais. Porque as pessoas loucas o bastante para acreditar que podem mudar o mundo, são as que o mudam.” •

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SANTA MONICA Placa que marca o final dos 4.579 km da estrada no píer de Santa Monica, na Califórnia

COMO PERCORRER A ROTA 66

O ideal é escolher os modelos de motos específicos para grandes trajetos como a Electra Glide, Road King ou Softail Heritage.

Você deve partir de Chicago, Illinois, de onde ela começou a ser construída.

Para fazer de moto, empresas como a Eaglerider (www.eaglerider.com) alugam os veículos em tours que podem ter um guia ou não, depende da sua escolha.

O custo parte de US$3889. Esse valor corresponde a uma moto, sem guias, com hospedagem durante os 15 dias de viagem. Não inclui aluguel de GPS e programação do equipamento, nem os seguros obrigatórios. Para tudo isso é necessário adicionar em média US$1.000, além de um limite no cartão de crédito que fica bloqueado até a devolução das motos. Não precisa levar capacetes.

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Espere um pouco de chuva no caminho, afinal você cruzará diversos climas e regiões.

Calcule uma média de US$15 por dia de combustível por moto.

Se você nunca pilotou uma Harley Davidson espere um cansaço acima da média. São motos pesadas e de mecânica bruta, bem diferente das motos japonesas.

A empresa dá a opção de alugar um carro conversível. As taxas variam conforme a disponibilidade do veículo.

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Ensaio fotográfico

Cláudio Vieira fotógrafo

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A estrada mais pop do mundo A beleza encontrada nos 4.579 km da Histórica Rota 66, entre Chicago e Los Angeles, nos Estados Unidos, revelada pelo olhar aguçado do repórter fotográfico Cláudio Vieira

VENTO No ar seco do deserto do Mojave, na Califórnia, o fato de pilotar uma moto não ajuda muito quando o assunto é o calor

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Ensaio

ARIZONA Cantanda por Nat King Cole, a cidade de Winona mostra suas montanhas ao fundo numa paisagem buc贸lica

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GASOLINA Postos e lembranças são exibidos como forma de preservar a memória da Histórica Rota 66

COLEÇÃO Muitos colecionam tudo o que pode ser encontrado à beira da estrada

FANTASMA Tudo foi deixado para trás quando as interestaduais subsituíram a Rota

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Ensaio

DESERTO A paisagem muda drasticamente de um Estado para o outro e revela locais maravilhosos

ABANDONO Em algumas cidades tudo ficou pata trás; carros, comércios, casas e muita história

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ESCULTURA A beleza do Grand Canyon vista de cima impressiona; local recebe 4 milh천es de turistas por ano

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Coisa & Taltigo

Marco Antonio Vitti

Uma criança que já nasce com as piores feridas, as do abandono e rejeição

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o mesmo tempo em que um jogador de futebol poderia se glorificar em uma Copa do Mundo, aqui no Brasil, assistimos a tragédia de um goleiro de um grande time envolvido em um crime que não tem nada de glorioso, pelo contrário, entristece a todos nós que ainda nos consideramos humanos. Penso, mas logo em seguida desisto de pensar: Como pode um ser humano jogar o corpo de outro ser humano para ser devorado por cães? O que mais me choca é que a maioria dos personagens desta horrível notícia envolve pessoas abandonadas pelos pais ao nascer e, adotadas ou não, por pessoas que podem ou não ter condições psíquicas de educar uma criança que já nasce com a pior das feridas: o abandono, a rejeição. Penso que muitas pessoas adotam abandonados para preencherem seus próprios vazios existenciais, suas próprias psicopatias, mas graças a Deus esta não é a regra geral. Tive o caso de uma cliente que mesmo solteira conseguiu adotar uma criança. Ela me procurou 30 anos atrás para tratar de uma depressão. Ela era uma secretária executiva de uma grande multinacional e, por ter dinheiro, disse-me que adotou a criança para ter alguém que a amasse. Quando ela se tratou comigo seu filho já tinha oito anos. Fiquei preocupado,

AMOR “Muitas pessoas adotam para preencherem seus próprios vazios” pois para ser amado você conquista o amor, nunca compra, que é o que acontece nas adoções feitas no Brasil. Depois de uns dois meses sou procurado pela avó da criança –a mãe da mãe adotiva. Não atendo parentes de meus pacientes, mas, inteligentemente, minha secretária me avisou: ‘Doutor Vitti, a avó diz que é um caso de vida ou de morte!’ Pedi para que a avó subisse. Minha secretária avisou: ‘ela quer que o neto suba.’ Subiram. Abreviando: a avó tirou a camiseta do neto, que deprimido e chorando, exibiu suas costas cheias de pelotas da cor de grafite. A mãe que não tem o arquétipo da Grande Mãe, pois não gerou o filho, em vez do amor usou o poder do salário que recebia da empresa onde trabalhava. E quando chegava em casa, após o trabalho, julgando-se uma educadora, ensinava o filho a fazer suas lições. Pobre criança adotada. Se errasse a pergunta, sua mãe adotiva, com um lápis previamente apontado com o grafite fino como um diamante negro, enfiava o lápis nas costas do garoto. Fiquei enojado. As marcas mostravam nas costas da criança o amor que

a criança recebia da mãe. Abandonada ao nascer, a criança era mais uma vez agredida covardemente com o abandono da mãe cruel. Imediatamente redigi laudos retirando a guarda da criança da mãe terrível, passando-a para a avó. Em outro caso, também tão terrível quanto o anterior, uma adolescente sofreu um acidente e ficou em coma. Os pais revelaram ao médico assistente da garota que ela era adotada. O médico teve então a infeliz ideia de achar que se os pais revelassem sua adoção, ela sairia do choque. Realmente ela acordou do pesadelo e voltou à realidade, mas uma nova realidade, a de ser adotada. Em casa, ela encheu uma bacia com querosene, colocou embaixo da cama dos pais adotivos e, na mesma noite, ateou fogo. Quase matou os pais. Conclusão: porque alguns adotados sentem um ódio profundo de seus pais adotivos? Tenho também a verdadeira solução para a adoção. Atendi uma garota que, em depressão, revelou ter sido adotada. Mas antes que eu lhe perguntasse se sentia uma adotada, ela exclamou: ‘Não. Minha mãe adotiva adotou também minha mãe biológica para que ela continuasse me amamentando e nos criou. Tenho duas mães que me amam e que amo’. O adotado se rebela contra os pais adotivos porque se os pais adotivos têm dinheiro para criá-los porque não usam esse dinheiro para que seus pais biológicos os criem? Reflitam! •

Marco Antonio Vitti Especialista em biologia molecular e genética vitti@valeparaibano.com.br

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Domingo 4 Julho de 2010

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MONUMENTO

Turismo

Torre Calatrava, um dos muitos símbolos das Olímpidas de Barcelona (1992)

Fotos: divulgaç ão

e Gaudí

• Salamandra, d

• Park Guell

Barcelona,cultura e agito Liv Taranger Barcelona (Espanha)

B

arcelona é como a palheta de um pintor, onde o artista deposita pequenas porções de tintas de cores variadas, tudo com muita harmonia. A cidade espanhola, como poucas, consegue combinar as tonalidades do passado e do presente, da arte e da badalação numa só tela. O singular repertório –exposto a céu aberto– colocou a capital da

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Catalunha como um centro efervescente da Europa, sendo cada vez mais visitado por turistas do mundo todo. Um destaque, que já vale a viagem, é o conjunto arquitetônico, que vai de ruínas romanas e edifícios medievais à arquitetura genial de Antoni Gaudí. É ele quem assina o cartão-postal de Barcelona: a Igreja da Sagrada Família. Construções modernas também trazem um ar contemporâneo à orla cortada pelo Mar Mediterrâneo. Mas, antes de falar de todas as atrações de Barcelona, vamos começar pelo primeiro passo da viagem –como chegar lá.

DESTAQUE

SAGRADA FAMÍLIA Arquitetura do principal cartão-postal de Barcelona é assinada pelo famoso artista Antoni Gaudí

As passagens aéreas para a Europa estão cada vez mais acessíveis e com facilidades no parcelamento. A companhia espanhola Ibéria é a que oferece um dos melhores preços. O voo na classe econômica é simples –sem televisão individual e outras facilidades–, mas o custo-benefício é ótimo. Se você já estiver na Europa, a dica é tentar voos pelas companhias chamadas de low cost (baixo custo), muito usadas no continente. O voo não oferece nenhum serviço e as bagagens são cobradas à parte. Se tiver sorte, poderá achar passagens a

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Domingo 1 Agosto de 2010

CULINÁRIA A paella de frutosdo-mar ou de frango é um dos destaques da gastronomia mediterrânea

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MONUMENTOS

HISTÓRIA

Fazem parte do legado arquitetônico deixado pelo catalão Antoni Gaudí nas ruas de Barcelona

Em Barcelona, os edifícios medievais se misturam à arquitetura romana e contemporânea Liv Taranger

ão

partir de nove euros. Se optar por esse caminho, certifique-se que o seu destino seja o aeroporto de Barcelona porque algumas empresas operam no aeroporto de Girona, a 50 minutos da cidade catalã. Mesmo que seja por Girona, a cada 10 minutos, tem um ônibus que leva à capital. Ao chegar ao aeroporto de Barcelona, procure pelo metrô. É o meio de transporte mais econômico e que te levará aos principais bairros. Onde ficar Como localização é tudo numa viagem cheia de passeios e atrações, dê preferência aos bairros Góticos e Raval, próximo das Ramblas (um dos pontos de agitos da capital catalã, além de ter ótimos acessos ao transporte público). Por meio do site booking (www.booking.com) é possível ver as opções de hotéis e fazer a reserva. A rede hoteleira é bem variada, principalmente no custo –há diárias econômicas (albergues ou quartos com banheiros compartilhados) e mais luxuosas. As ruas próximas das Las Ramblas têm diversos hotéis na categoria turística (três estrelas). A região é agitada e, apesar do burburinho noturno, a localização é excelente –se faz quase tudo a pé. Uma dica para quem procura uma hospedagem confortável, com custo na média, é o Hotel Barcelona House inaugurado em janeiro de 2010. A decoração moderna é um lembrete de que estamos na cidade que nos brinda com belos modelos arquitetônicos. Um dos pontos turísticos mais visitados, a Igreja Sagrada Família, concentra sempre uma grande fila de pessoas para conhecer o interior do templo. Não se assuste e enfrente o corredor humano –não é tão demorado e vale a espera. A

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CASA BATLÓ É OUTRA FAMOSA OBRA DO ARTISTA ANTONI GAUDÍ; PRÉDIO É DO INÍCIO DO SÉCULO 20

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Turismo Fotos: Liv Taranger

igreja está cercada de guindastes que lembram que a obra iniciada em 1882 ainda não foi concluída. O projeto tornou-se a obra da vida do arquiteto catalão Gaudí. Por quatro euros a mais no ticket de entrada, é possível alugar um áudio-guia –faça isso, não pense em economizar. Com as explicações (em português), a construção ganha uma dimensão muito mais impactante do que ela já é. O grande legado artístico de Gaudí está em 12 monumentos desenhados pelo genial arquiteto. Além da Sagrada Família, não deixe de conhecer a Casa Milà, conhecida por “La Pedrera” por sua fachada ondulada, o Parque Guell, que apresenta um conceito de urbanização inovador com sua arquitetura inspirada nas formas da natureza, e a Casa Batló. Além das delirantes formas de Gaudí, é possível entrar em igrejas góticas do período medieval e se deparar, entre um passeio pelo estreito bairro Gótico, com ruínas romanas –um retorno ao passado. A modernidade também se faz presente nos desenhos mais contemporâneos dos prédios projetados por renomados arquitetos, como Bohigas e Martorell. Parte dessas construções mais modernas são da época das Olimpíadas de 1992 –quem for fã de

DICAS & DESTINOS HOSPEDAGEM

COSTUMES

Escolha hotéis na Barcelona permite região de Ramblas ficar sem roupas Prefira hotéis próximos das Ramblas. A região guarda a essência de Barcelona e tem bom acesso ao transporte público. Uma parte dos hotéis não possui café da manhã, mas quase todos os restaurantes oferecem o “desayuno”. Pelo site booking (www.booking. com) é possível ver as opções de hotéis e fazer a reserva.

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Não se assuste caso se depare com alguém pelado na capital da Catalunha, atualmente considerada o novo centro efervescente da Europa. Lá é permitido ficar se roupas (e vi um senhor). Se a viagem for na primavera ou verão, coloque na mala roupas de banho para pegar praia ou um bronzeado nas areias do Mediterrâneo.

COMPRAS

Roupas são as mais baratas da Europa No país mãe da famosa rede de lojas Zara é possível encontrar roupas, em média, dez euros mais baratas que as peças vendidas em outros países da Europa. Atenção: tem uma Zara em quase toda esquina! E se você tiver disposição para garimpar as peças nas gôndolas, é possível fazer uma economia e tanto.

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Domingo 1 Agosto de 2010

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esporte pode, inclusive, visitar as instalações olímpicas e, claro, o QG do sagrado time de futebol que recebe o nome da capital catalã –os espanhóis são fanáticos por futebol. Outra dica é visitar o Palácio da Música Catalã (Palau de la Música), um ponto que passa despercebido para muitos turistas. O auditório é belíssimo e recebe visitas guiadas. O local é considerado uma das principais casas de espetáculos do mundo. Arte e agito Há muitos museus com excelentes mostras e coleções. Destaco o Museu Picasso, um dos mais concorridos da cidade. Entre várias obras do artista espanhol está sua série mais famosa: “As Meninas”. Para quem gosta dos traços coloridos e singulares de Joan Miró, não deixe de visitar a Fundação Miró. Já aos notívagos, a noite de Barcelona é tão agitada que é preciso ter fôlego e disposição para encará-la. Lá foi a primeira vez que vi grupos de turistas fazerem uma sequência, com guia, de bares e clubes noturnos, a pé, por um valor fixo com direito a um drinque gratuito em cada parada –um prato cheio para quem gosta de curtição. Para quem deseja algo mais light, jantares especiais também não faltam. Mas, falar de comida na Espanha, vale um capítulo à parte. A culinária mediterrânea dispensa apresentação. Na região das Ramblas, tem muitos restaurantes. Um conselho é pesquisar bem as opções da região, pois a maioria dos estabelecimentos é chamada de “pega turistas”, com pratos não tão saborosos e a preços salgados. Por falar em sabor, não deixe de saborear a paella. Prove as opções de frango ou de frutos-domar. Também se aventure nas pequenas porções, chamadas de Tapas –uma delícia. E, para finalizar, não perca a oportunidade de experimentar os tradicionais churros de chocolate.

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MAR MEDITERRÂNEO NA PRIMAVERA OU NO VERÃO AS PRAIAS VIRAM UM DOS PRINCIPAIS ATRATIVOS

NÚMERO

9 euros PASSAGEM Uma dica é tentar voos pelas companhias de low cost (baixo custo). Se você tiver sorte pode encontrar passagens muito baratas

História Tradicional e moderno, no porto de Barcelona, de uma grande torre de Cristovão Colombo, pode-se contemplar uma bela visão panorâmica da cidade. Conheça ainda a região de Montjuic, cenário da Exposición Universal de 1929 e dos jogos olímpicos. O metrô e as várias linhas de ônibus servem bem a cidade. Agora, se o tempo for escasso, o turístico open bus (ônibus aberto) é uma boa pedida. O preço não é dos me-

lhores, mas através dele é possível passar pelos principais pontos turísticos. O transporte tem três linhas (azul, vermelha e verde). Em um dia, é possível fazer o tour por duas linhas, pelo menos. As paradas são sempre na frente das atrações o que economiza tempo. E, como uma obra de arte, em que cada pessoa faz sua própria leitura da criação artística, a sugestão é que você possa ter a sua percepção pessoal das belas cores de Barcelona. Para isso, buen viaje! •

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Turismo

JARDINS DOS PINHAIS

Nas cores do mundo Parque com 60 mil metros quadrados de área imprime tons vibrantes ao verde da Serra da Mantiqueira em Santo Antonio do Pinhal

Elaine Santos Santo Antonio do Pinhal

À

margem da estrada da pacata Santo Antonio do Pinhal, em meio à mata fechada da Serra da Mantiqueira, repleta de araucárias e eucaliptos quase centenários, se instala um enorme jardim com mais de 500 espécies de plantas vindas de todos os cantos do mundo. Com um colorido expressivo aos olhos, o Jardim dos Pinhais Eco Parque, fascina do curioso ao amante da natureza. O espaço foi idealizado e construído pelo arquiteto e paisagista Manoel Carlos de Carvalho, de Taubaté, e hoje é visitado por moradores da região e por grupos de estrangeiros –chineses, japoneses, argentinos, alemães e italianos. “Comecei a imaginar esse espaço no final de 1998, quando eu e minha esposa fomos fazer um tour pelo Canadá e Europa. Vinha fazendo pesquisas sobre parques temáticos para ter um arquivo e também pela minha paixão pela natureza e acabei idealizando esse parque”, disse Carvalho. A 166 quilômetros de São Paulo e 70 quilômetros de São José dos Campos, o local é o primeiro parque com jardins temáticos do Brasil. “A minha ideia foi realmente fazer com que as pessoas gostem da natureza e tenham um contato especial com ela. É isso o que a gente faz aqui. Temos monitores que acompanham o visitante explicando, du-

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rante as duas horas de trajeto, cada detalhe dos jardins”, disse o arquiteto. Cada um dos 12 jardins distribuídos nos 60 mil metros quadrados de área do parque reúne diferentes espécies de plantas que representam algumas partes do mundo. No jardim canadense, perpétuas, tumbérgias e até pequenas pimentas amarelas dão um colorido especial ao local. As plantas são trocadas a cada dois meses para que estejam sempre floridas. Já no jardim desértico, o clima árido reproduzido no espaço favorece o cultivo de centenas de espécies de cactos, entre eles, espécies curiosas como a cabeça de frade, o rabo de macaco e o saguaro do deserto do Atacama, que é considerado raro no Brasil devido à difícil adaptação. No jardim japonês, o visitante conhece o significado da ponte vermelha, das carpas e pedras para a cultura oriental. O passeio feito com monitor termina no jardim tropical, que recebe os visitantes com bromélias gigantes, mudas de pau-brasil e um gazebo para descanso com direito a redes e almofadas no meio da mata ao som das centenas de pássaros que rodeiam o local. O interessante da caminhada de quase duas horas por mais de 1.200 metros de rampa é que o visitante não se cansa devido ao trajeto em forma de ziguezague, que segue com acentuação planejada pelo arquiteto pensando na acessibilidade do parque. Outra curiosidade é o berçário de mudas. Para manter os jardins sempre floridos, a equipe que faz a manutenção e troca as mu-

PAISAGISMO O arquiteto Manoel Carlos de Carvalho, que idealizou e construiu e o Jardim dos Pinhais

COLORIDO Fontes d’água no jardim das bolhas

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Fotos: Eugênio Vieira

das todos os meses. Com isso, em qualquer época do ano, as cores de todos os canteiros estão sempre vivas e floridas. Aventura Mas nem tudo é tão bucólico por ali. O parque oferece atividades que atraem quem prefere admirar a natureza com certa dose de adrenalina. Uma trilha de duas horas de caminhada, ida e volta, leva o visitante direto ao mirante da Pedra do Baú, de 1.950 metros de altura. Ainda dentro do pacote de aventura está o arvorismo, com seis pontes suspensas entre as copas das árvores, em alturas que variam de 20 e 30 metros. Outro atrativo do circuito de aventura são as três tirolesas –a primeira com 40 metros extensão, outra com 90 metros e a terceira para quem tem muito fôlego: são 220 metros com pico de 30 metros de altura. A brincadeira chega a atingir 30 quilômetros por hora. Para finalizar, um rapel de 25 metros leva o aventureiro de volta ao chão. •

SERVIÇO HORÁRIO O parque funciona de segunda a domingo com visitação programada

PREÇO R$ 15 por pessoa para conhecer os jardins. Crianças com até seis anos não pagam

AVENTURA Circuito de arvorismo com seis pontes e três tirolesas custa R$ 50 por pessoa Trilha do mirante da Pedra do Baú custa R$ 25 por pessoa CAPUCHIM Flores comestíveis

LOCALIZAÇÃO O Jardim dos Pinhais Eco Parque fica na SP-46 (Estrada de Santo Antonio do Pinhal), 2.600

TELEFONE (12) 3666-2021 VARIEDADE Canteiro de flores no jardim canadense

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CANADÁ Perpétuas roxas e brancas

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Turismo

CULINÁRIA

Agosto é sinônimo de gastronomia SABOR Quinta edição do festival “Caraguá A Gosto” reúne 20 restaurantes com receitas exclusivas este mês Adriano Pereira São José dos Campos

I

nverno e praia não é uma combinação muito interessante. Mas tempo frio e boa mesa combinam perfeitamente –e se de quebra tem uma praia como paisagem, melhor ainda. Há cinco anos, Caraguatatuba, com a intenção clara de movimentar o turismo no fraco mês de agosto, criou um festival gastronômico. A iniciativa deu tão certo que o evento, que já faz parte do calendário oficial do município, chega em sua quinta edição contando com 20 estabelecimentos que preparam receitas exclusivas para este mês. Além de ser um acontecimento que divulga a culinária da cidade, atrai turistas e movimenta a economia na baixa temporada, o festival é também uma competição sadia entre os participantes. Por meio de urnas colocadas nos restaurantes, o público pode votar nas categorias de melhores

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apresentação e sabor de pratos e petiscos e também o melhor serviço e ambiente. De acordo com o proprietário do Restaurante Guaruçá, Roberto Toti, que participa do evento desde a primeira edição, realizada em 2006, “o resultado é surpreendente. Em média temos um aumento no lucro de 30%”, afirma Toti. No ano passado, mais de 6.000 clientes votaram em seus pratos preferidos. Durante o evento, turistas podem retirar um livreto que traz todas as informações sobre os restaurantes participantes e sobre os pratos que são servidos no festival. As receitas vão desde petiscos aos pratos mais sofisticados, o que também já se transformou numa marca registrada do evento. O restaurante Golfinho Azul, que já foi premiado várias vezes na categoria “melhor sabor”, é um dos estabelecimentos que merece visita. Mesmo que não esteja participando do festival, a casquinha de siri do restaurante é uma das mais famosas do Litoral Norte. Além dele, o Kiosk Canto

to a De 20 de agos ro b m te 19 de se á u ag ar em C

Bravo consegue juntar bom tempero e criatividade num dos pedaços mais tranquilos da movimentada praia Martin de Sá. Se você preferir uma receita mais sofisticada, procure o restaurante Ostra & Ouriço, no caminho para São Sebastião. A casa imita um quisoque de praia, mas é toda fechada por vidros, que garantem um requinte maior ao ambiente. No cardápio, os pratos seguem uma linha bastante diferenciada dos demais restaurantes da cidade. Os estabelecimentos que participam desta edição do ‘Festival Gastronômico Caraguá A Gosto’ são: Restaurante Akebono, Bela Vista Pizzas e Massas, Restaurante Ostra e Ouriço, Guaruçá Frutos do Mar, Restaurante Golfinho, Toca da Garoupa, Valentin Restaurante e Bar, Kiskonofre, Golfinho Azul Restaurante, Zanfredo, Parodi Pizza Bar, Bar do Japonês, Garage Bar, Al Badah, Empório do Frei, Kiosk Canto Bravo, Bar do Hélio, Água Doce Cachaçaria, Pizzaria Neno e Cantina Ferrucio. •

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CAMPEÃO Badejo à Andino, prato vencedor do festival de 2009 elaborado pelo chef Ossamu Odashima

Central de Vendas 12-3946 3055 ou 0300 789 8747

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PaladarArtigo

Roberto Wagner

Cuide para que o vinho não cozinhe no calor deste país tropical

A

lém de ser apaixonado por bons vinhos, Alexander J. Pandell é professor de Química na Universidade do Estado da Califórnia, com doutorado em Stanford. Por isso, sabe muito bem que o vinho continua vivo dentro da garrafa, passando por complexas alterações químicas. Elas podem ocorrer no ritmo próprio que lhes dita a natureza ou podem ser aceleradas pelo aumento da temperatura do local onde seja guardada a garrafa. Ele resolveu pesquisar como isso melhora ou piora a qualidade do vinho. ADEGA Ideal é que envelhecimento do vinho se faça à temperatura de 14 graus

Se um vinho tiver qualidade para ser guardado por longo período, o ideal é que seu envelhecimento se faça à temperatura de 14 graus Celsius, tão estável quanto possível. Pandell fez experiências em seu laboratório e descobriu que se o vinho que estiver assim guardado sofrer aumento de 6,6 graus na temperatura, isso dobra a velocidade de algumas alterações químicas e até triplica a de outras. Algumas dessas alterações melhoram aromas e sabores do vinho. Outras os tornam piores. Portanto, era preciso investigar a fundo essas reações químicas. Segundo ele, se você estiver mantendo seus melhores vinhos à temperatura de 14 graus e houver um aumento constante de apenas 1 grau na temperatura, o envelhecimento passará a ser de 1,2 a 1,5 mais rápido. Nada muito preocupante.

GOSTO “Algumas alterações melhoram aromas e sabores do vinho. Outras, pioram” Mas se, em vez de guardar seus melhores vinhos à temperatura de 14 graus, você os mantiver a 23 graus, a velocidade do envelhecimento é acelerada de 2 a 8 vezes. Assim, 3 anos de guarda de um vinho à temperatura de 23 graus equivalem a 6 ou 24 anos de envelhecimento a 14 graus. Em um vinho guardado a 32 graus isso se dará 4 a 56 vezes mais rápido do que a 14 graus. Se você for mineiro como eu, dirá:

“Uai! E isso não é bom?” Pandell explica que não, garante que isso é péssimo. Ele descobriu que, quando sobe a temperatura, as más reações, que pioram aromas e sabores, aumentam muito mais rapidamente que as boas. Em um vinho guardado à temperatura de 32 graus, enquanto as boas reações se multiplicam por 2, as más se multiplicam por 8. Agora, considere que neste Brasil tropical nós passamos boa parte do ano sob um calor em torno de 30 graus. Se seus vinhos não estiverem numa adega climatizada, estarão cozinhando à temperatura ambiente e piorando cada vez mais. Se você costuma consumir vinhos pouco tempo depois de comprá-los, tudo bem. Mas se tiver intenção de guardá-los para envelhecimento, lembre-se do que nos ensina o professor Pandell. •

Roberto Wagner de Almeida jornalista

robertowagner@valeparaibano.com.br

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Hi-Tech LANÇAMENTO

Tamanho não é documento O Xperia X10 Mini, o smartphone mais compacto do planeta, já chegou ao mercado brasileiro; aparelho celular é menor que uma carta de baralho, mas conta com vários aplicativos e tecnologia de ponta Yann Walter São José dos Campos

M

enor que uma carta de baralho. Assim é o Xperia X10 Mini, da Sony Ericsson, o smartphone mais compacto do planeta, que chegou no final do mês passado ao Brasil. Engana-se quem acha que tamanho reduzido é sinônimo de poucos recursos. O Mini conta com uma câmera com resolução de 5 megapixels, foco automático, sistema geo-tagging (marcação geográfica das fotos) e flash integrado de tipo LED. O aparelho ainda vem com GPS incorporado, cartão de memória MicroSD de 4 GB –a memória interna dele é apenas de 128 MB– Bluetooth e conexão Wi-Fi. Aliás, o recurso Turbo 3G proporciona velocidade de banda larga, facilitando a navegação. Para a diversão, o smartphone oferece MP3 player, rádio FM com RDS e jogos 3D, além de integração com sites como YouTube, Facebook e Twitter. A bateria permite conversar durante três horas e meia ou quatro horas, dependendo da rede e do uso do telefone. Para fins de comparação, o Xperia X10 normal tem

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um tempo de conversa de 8 a 10 horas. Basicamente, o Mini desempenha todas as funções de seu irmão mais velho. As diferenças entre os dois são decorrentes do tamanho: por ser maior, o Xperia X10 tem mais ‘potência’. Por exemplo, sua câmera tem 8,1 megapixels e inclui recursos como o zoom digital, o reconhecimento de rostos o estabilizador de imagem. Os dois smartphones contam com os aplicativos Timescape, mas apenas o Xperia tem o Mediascape. O Timescape organiza por ordem cronológica todas as interações reais (mensagens de texto e voz) e virtuais (mensagens e conteúdo em redes sociais) do usuário. Já o Mediascape classifica por categorias o conteúdo da memória multimídia do celular (músicas, vídeos e fotos). Ambos os aparelhos contam com a tecnologia ‘touchscreen’ (tela de toque), mas a

999 REAIS É o preço inicial do Xperia X10 Mini, da Sony Ericsson, nas lojas do ramo; na internet, o aparelho celular pode ser comprado por valor menor

digitação é mais fácil no Xperia X10, cuja tela vem com o teclado QWERTY completo. No Mini, a plataforma Android foi adaptada para que o usuário possa usar o smartphone com apenas uma mão. O recurso “4corner” permite personalizar os quatro cantos da tela principal para acessar rapidamente os aplicativos mais usados. Ao contrário do Mini, o Xperia normal tem a função reconhecimento de manuscrito, que permite a seu dono escrever como se estivesse usando uma caneta (a escrita à mão vira texto digital). Também está previsto o lançamento do Xperia X10 Mini Pro, uma variação mais ‘poderosa’ do Mini que conta com o teclado físico QWERTY em slide. O Mini Pro é um pouco mais pesado que o Mini (120 gramas) e ligeiramente maior (9 x 5,2 x 1,7 cm). Por enquanto, vem apenas nas cores preto e vermelho. Preço O preço do Xperia X10 oscila entre R$ 1.800 e R$ 1.900 no país. Já o Mini custa R$ 999, mas também é possível comprá-lo na internet por um preço que varia entre R$ 800 e R$ 900. O Mini Pro deve ser R$ 100 mais caro. Na Europa, o Mini é comercializado por cerca de 300 Euros. Já nos Estados Unidos, sai por até US$ 410. •

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Domingo 1 Agosto dee 2010

CORES Disponível em seis diferentes cores no exterior, mas o Mini chega com menos opções ao Brasil

2010

ANO DO LANÇAMENTO Aparelho celular já está nas prateleiras das lojas especializadas de todo o país

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PRÁTICO Plataforma do Xperia X10 Mini foi adaptada para que o usuário possa usar o smartphone com apenas uma das mãos

FICHA TÉCNICA MEDIDAS 8,3 x 5,0 x 1,6 cm PESO 88 gramas SISTEMA OPERACIONAL Android 1.6 (a versão 2.1 deve chegar no fim do ano) TAMANHO DA TELA 2,6 polegadas RESOLUÇÃO 240 x 320 pixels MEMÓRIA INTERNA 128 MB PROCESSADOR 600 MHz CORES Preto, branco, lima, rosa, vermelho e prateado PREÇO R$ 999 em lojas de celular, mas já é possível comprá-lo na internet por até R$ 800

• Xperia X10 Mini Pro

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DIVERSÃO MP3 player, rádio FM com RDS e jogos 3D, além de integração com sites como YouTube, Facebook e Twitter BATERIA Permite conversar durante três horas e meia ou quatro horas, dependendo da rede e do uso do telefone 4 CORNER Personaliza os quatro cantos da tela principal para acessar rapidamente aplicativos

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Vejo flores em você Cristina Bedendo São José dos Campos

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á um jardim imenso para ser contemplado na próxima temporada primavera/verão 2010/ 2011. Isso porque as estampas florais prometem invadir as vitrines nos próximos meses em razão da influência dos anos 70 que dominou diversas coleções. Valem todos os tipos de florais: dos abstratos e hibiscos até a chamada estampa liberty –florais bem miúdos, numa estética mais romântica. E as misturas são muitas: florais e peças com listras, estampas rock, jeans destonados e acessórios mais pesados para equilibrar tudo isso. Mas a década setentista não está só. Chegam com ela um perfume dos anos 50 e 60, com saias evasês, cintura marcada e tons adocicados e pastéis, muitas vezes contrastados com acessórios em cores fluo. Dos jardins de “Alice no País das Maravilhas”, os tons pastéis são complementados por insetos e figuras animais, principalmente nos acessórios, como broches (toque de nostalgia) e anéis com pedrarias. Nas formas, a silhueta vem dos anos 60, mais retangular, solta do corpo, principalmente para as peças curtas. E a influência boudoir (inspirada na lingerie) continua: os corsets se unem aos florais para um verão leve, porém luxuoso.

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Look

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Fashion Estampa com motivo floral dominou as passarelas

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VERDE JADE Sucesso no último verão, volta nesta temporada em diversos acessórios, inclusive bolsas. O modelo ao lado é da Dumond

Cores

VERÃO DE CONTRASTES As cores adocicadas e o nude vão dividir as prateleiras. Cores coral e turquesa são destaque da estação

NOVA COLEÇÃO

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VICTOR HUGO Marca investe nas cores adocicadas, como o verde acqua, azul ocean e rosa confetti. Ao lado, bolsa em couro de avestruz

BOBSTORE

SHOP & MAIS

Grife faz ensaio de fotos na Turquia

VP DESTAQUE!

Clogs: tamancos do verão 2011

AREZZO Bolsas com inspiração nas it bags da Mulberry viram febre. Essa versão tem alça removível e bolsos utilitários R$ 759,90.-

Com balões multicoloridos como cenário, a Capadócia, na Turquia, foi o local escolhido para as fotos da campanha primavera 2010 da Bobstore, que ganha uma franquia em São José sob o comando de Renata, Mariana e Fernanda Cury. DESTAQUE

Não estranhe a nomenclatura: os clogs nada mais são do que as novas versões dos tamancos de madeira, muito usados por aqui nas décadas de 70 e 90. O fato é que eles voltaram às ruas depois de apareceram na passarela do verão 2010 da Chanel, no final do ano passado, o que resultou em alguns modelos no inverno brasileiro deste ano. Mas é a partir de agora, quando as marcas de calçados lançam suas coleções de verão, que vamos realmente nos deparar com muitos, muitos clogs. Durante a 42ª edição da feira calçadista Francal foi possível ter a dimensão da tendência: praticamente todas as marcas investiram em um ou vários modelos de clogs. E tem para todos os gostos: com aberturas frontais, salto alto ou baixo –quase sempre mais grosso–, em tons de nude ou cores fortes, como coral, rosa e azul turquesa. Há ainda as ver-

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sões em jeans lavados, com aplicações de flores ou laços em couro e cortes a laser, imitando renda. Como característica registrada, é impossível não identificá-los por conta dos rebites nas laterais, que também foram aplicados em alguns modelos de sandálias com salto de madeira.

ELLUS A linha de acessórios da Ellus conta com um modelo no estilo carteiro. Estilosa chega às lojas em setembro

Shirley Mallmann é estrela da Fillity

Preço sob consulta

Como usar Como os clogs são tamancos mais pesados, aproveite para usá-los com peças mais românticas, como vestidos ou saias com estampas florais ou em tons pastéis. Já as versões com laços ou aplicações de flores mais delicadas ficam ótimas com jeans em lavagens bem clarinhas. Nos modelos acima, há opções de sobra para todos os bolsos, inclusive, em marcas como Arezzo, Dilly, Ellus, Luiza Barcelos, Moleca e Raphaella Booz.

LUIZA BARCELOS Grife aposta no modelo em couro de boi e conta com a segunda alça em tecido, que também é removível R$ 649,75.-

Depois de passar pelo São Paulo Fashion Week, a modelo Shirley Mallmann, ícone dos anos 90, é destaque da campanha de verão 2011 da Fillity, que traz uma cartela de cores, inspirada nas riquezas das pedras preciosas e dos minerais, voltada à mulher elegante.

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Moda

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ESTILO

Gracie Carvalho

Divulgação

PINGUE & PONGUE Gracie, como é o seu estilo no dia-a-dia? Varia bastante. Tem dias que eu quero ficar mais jogada, em outros, com um look mais “menininha”. Mas o que eu gosto mesmo são de camisetas, sapatilhas e bolsas. Quais são as suas marcas favoritas? Adoro as roupas pretas de Alexander Wang e as bolsas da Chanel.

Made in São José Cristina Bedendo São José dos Campos

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modelo joseense Gracie Carvalho completou 20 anos de idade no mês passado com muitos motivos para comemorar. Quando saiu de São José dos Campos para seguir a carreira de modelo em São Paulo, seu sonho era trabalhar com a grife Victoria’s Secret. Hoje, além de fotografar para a marca, estrela capas, campanhas e editoriais de grandes revistas e marcas ao redor do mundo.

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Entre seus trabalhos atuais, Gracie, que mora em Nova York, mantém as campanhas para a GAP, Tommy Hilfiger, Express, entre outras que ainda está para fechar contrato e ainda não pode revelar. E no Brasil ela também continua com tudo: na temporada de verão 2011 fez 18 dos 39 desfiles no São Paulo Fashion Week e 15 das 34 apresentações no Fashion Rio. Em maio, Gracie estrelou sua primeira capa da Vogue Brasil, ao lado de outras nove tops brasileiras que estão acontecendo mundo afora. “Nunca imaginei que estaria naquela capa”, disse a modelo. Sobre seu estilo pessoal, assim como as outras modelos, Gracie adora um look total preto e ótimas it bags a tiracolo.

O que você vai aderir para o verão 2011? Calça com barras mais largas, tipo boca de sino, vestidos justos e também gosto dos vestidos longos para usar na praia. É muito difícil usar estampa, só tenho cores mais básicas, como preto e cinza, pois é muito prático e mais fácil também para os trabalhos. Por exemplo: é muito mais fácil eu ser escolhida num teste de casting vestida de preto do que com uma roupa super estampada. Como é sua relação com São José dos Campos, onde nasceu? Consegue visitar sempre sua família? Venho para o Brasil a cada três meses para renovação do meu visto e sempre tento visitá-los. Em maio último, você estrelou sua primeira capa da Vogue Brasil. Já era esperado? Nunca imaginei que estaria naquela capa. Fiquei muito emocionada com esse novo trabalho. •

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Tempos ModernosArtigo

Alice Lobo

Greenwash fashion: não seja enganado por belas campanhas

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ocê sabia que a cultura do algodão é a mais tóxica do mundo e mata mais de um milhão de agricultores por ano? Ou seja, que o tecido feito desta planta apesar de ser natural não é sustentável? Sabia também que o tecido de bambu não pode ser considerado proveniente desta planta renovável por ela não ter fibra do tamanho mínimo para se fazer um fio sequer? Resumo: o bambu é um dos diversos ingredientes, mas o que tem maior apelo comercial. Pois é, muitas verdades são escondidas do consumidor e muitas ideias equivocadas são inventadas para garantir um bom marketing de um produto –e com isso gerar mais vendas. Esta “mentira fabricada” aplicada a conceitos relacionados ao meio ambiente é chamada de greenwash. E o que fazer para não cair nessa? A informação e o conhecimento aqui são o maior trunfo e a melhor arma para não ser enganado. Para isso, separei algumas dicas de sites e livros que falam sobre moda sustentável. Claro que não são guias de certo e errado, mas publicações onde é possível você se familiarizar com notícias e conceitos eco-fashion. Entre os sites nacionais, destacamse o blog Moda do Futuro (http:// modadofuturo.wordpress.com), Ser Sustentável com Estilo (http://sersustentavelcomestilo.blogspot.com), o Coletivo Verde (www.coletivoverde.

CONSCIÊNCIA Você sabia que a cultura do algodão é a mais tóxica do mundo e mata mais de um milhão de agricultores por ano? O tecido feito da planta não é sustentável” A PLANTA Natural, mas não é sustentável

com.br) e, como não podia deixar de falar, o meu Verdinho Básico (www. verdinhobasico.com.br). Já os internacionais são mais numerosos e entre os melhores estão EcoStiletto.com, GreenMyStyle.com, Ecouterre.com, EcoFashionWorld.com, EcoTextile. com e GreenByDesign.com. Agora se você quer ler um livro muito gostoso e com informações reveladoras e didáticas que já vão te situar totalmente no universo ecofashion, não deixe de ler “Eco Chic – O Guia de moda ética para a consumidora consciente”, da jornalista inglesa Matilda Lee. Ela fala tanto de tecidos e materiais sustentáveis, como o algodão orgânico

e o couro vegetal, quanto de processos ecológicos de fabricação, a cultura do descartável e o comércio justo, entre outras coisas. Matilda também mostra estilistas que já fazem isso sem abrir mão do design e, no último capítulo, traz um “faça você mesmo” para quem tem dotes manuais. Mas a grande verdade é que na indústria da moda isto ainda é relevado pelo consumidor que na maioria das vezes não se vê afetado diretamente. O problema preocupa mais quando ele descobre que um produto de beleza ou de limpeza “ecológico” ou “natural” tem ativos prejudiciais à sua saúde e à do planeta. Mas isso é assunto para mês que vem, né? •

Alice Lobo Jornalista alice@valeparaibano.com.br

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ValeViver MODERNIDADE

Novo pai do milênio Cada vez mais, homens assumem parte das tarefas domésticas e participam da educação e dos cuidados com os filhos; comportamento é visto com naturalidade Yann Walter São José dos Campos

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rocar fraldas, dar banho, levar as crianças para a escola, arrumar a casa, fazer compras, lavar louça, cozinhar: o que era, há duas décadas, a rotina da maioria das mulheres do Brasil passou a ser também, por necessidade ou opção, o dia-a-dia de muitos homens. Essa evolução progressiva da sociedade brasileira se deve, principalmente, ao número crescente de mulheres que entram no mercado de trabalho. Hoje, a maioria das mulheres tem um emprego, levando os maridos a assumirem parte das tarefas domésticas e a participarem mais da educação dos filhos. Longe de ficarem incomodados com a nova situação, eles até gostam e veem com naturalidade esta inversão de papéis. Por ocasião do Dia dos Pais, comemorado no segundo domingo de agosto, eles contaram suas experiências à revista valeparaibano, contribuindo para traçar o perfil do novo pai do milênio. Fabiano Lüdke Chedid, 38 anos, tem duas filhas. Separado da mulher desde setembro, ele

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adotou o sistema de guarda compartilhada. As meninas ficam cinco dias com ele e cinco dias com a mãe. Segundo ele, é um caso único em São José dos Campos. “Normalmente a guarda compartilhada não é concedida quando os filhos têm menos de 12 anos”, explica. Fabiano mora com a mãe dele em um apartamento no Jardim Aquarius. De cinco em cinco dias, ele vive em função das filhas Bianca, 10 anos, e Sofia, 5 anos. A cumplicidade entre os três é evidente. Carinhoso e atencioso, assume o papel de pai em tempo integral com naturalidade, pois sempre teve participação ativa na educação das crianças, mesmo quando era casado. “Antes mesmo da separação, já ajudava bastante nas tarefas da casa e cuidava das meninas. Trocava fraldas, dava banho, cozinhava. Sempre fiz questão de participar”, afirma. Hoje, a primeira pergunta que vem à cabeça é: como é possível conciliar casa, emprego e filhos? Fabiano tem a sorte de ser dono de suas empresas, o que lhe garante a possibilidade de definir seus horários. “Meu trabalho é mais administrativo, faço tudo no computador. Às vezes tenho reuniões, mas procuro marcá-las nos dias em que minhas filhas não estão comigo. Posso me planejar em função

BRINCADEIRA Carlos Eduardo Campos Cortês, 25 anos, com os filhos Gabriel, de 3 anos, e Mariana, de um ano e meio, na casa da família

delas. Faço questão de aproveitar muito essa fase. Daqui a alguns anos, elas só vão querer ficar com as amigas, não terão mais tempo para o pai”, brinca, sob o olhar enternecido de sua mãe, Felícia, também separada, que passou a morar com o filho quando ele se separou da mulher. “Minha mãe ajuda bastante nos afazeres da casa, mas quem cuida da educação das meninas sou eu”, garante. “Não acho essa rotina pesada. Tivemos que nos adaptar à separação, que foi amigável, sem conflito. Conversamos muito e elas entenderam que foi melhor para todos. Quero que sejam felizes, que não sintam o peso da separação”. Pela alegria que emana das duas, principalmente da extrovertida e falante Bianca, percebe-se que ele está no caminho certo.

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Fotos: Eugênio Vieira

Prioridade Com as filhas, Fabiano gosta de passear, andar de bicicleta e ir ao cinema. Vai ao shopping, meio a contragosto. Outro de seus passatempos favoritos é cozinhar para as meninas. “Fico muito feliz quando elas gostam do que faço”. Ele brinca com as filhas, incentiva a aptidão delas pelo desenho e pintura e tem orgulho em exibir as ‘obras de arte’ das meninas. Cita Hannah Montana e Jonas Brothers, mostrando que navega com desenvoltura pelo mundo dos ídolos pop adolescentes. “Fabiano sempre fez tudo pelas filhas. Sempre fez tudo em função delas. É um pai perfeito”, elogia Felícia, demonstrando que na família Lüdke, a ‘corujice’ se transmite de mãe para filho. Michael Jarvis, 38 anos, é norte-americano.

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Chegou em São José em março junto com a mulher, Analie, e as filhas Carinne, 10 anos, e Alexis, 6 anos. Analie é diretora em uma multinacional sueca que fabrica airbags, volantes e cintos de segurança e tem filial em Taubaté. A família mora em uma casa de dois andares em um condomínio no Urbanova, cujo aluguel e dois carros são mantidos pela empresa. Michael, que também é engenheiro no setor automotivo, perdeu o emprego que tinha nos Estados Unidos, o que facilitou a decisão da família de se mudar para o Brasil. Hoje, não trabalha, e divide seu tempo entre a casa, as filhas e aulas diárias de português. “Morávamos em uma pequena cidade do norte de Detroit, no Estado de Michigan, onde ficam todas as grandes montadoras

norte-americanas. No ano passado, no ápice da crise das montadoras, a firma onde eu trabalhava mandou muita gente embora, inclusive eu. Minha mulher recebeu essa proposta de vir ao Brasil e resolvemos aceitar. Para ela, é uma grande oportunidade profissional. Para mim, é a chance de passar mais tempo com minhas filhas”, resume, sentado no sofá da sala com uma menina de cada lado. Em São José, Michael tem uma rotina tranquila. “Acordo cedo, umas 6h30. Levo as meninas à escola e volto para casa para minha aula de português, que dura uma hora e meia. Fico em casa até as 16h, quando vou buscar as meninas. Deixo Carinne no curso de português e fico fazendo hora com Alexis até o fim da aula, quando retornamos para casa. As meninas fazem o dever de casa e eu preparo o jantar.” Como todo americano que se preza, não dispensa um bom ‘barbecue’. “Aproveitamos bastante a churrasqueira. Fazemos hambúrgeres, hot-dogs. Estou melhorando na cozinha”, garante, arrancando altas risadas da filha caçula, uma menina hiperativa que ri o tempo todo e não consegue ficar sentada mais de cinco segundos. “Ela só para quando dorme”, diz o pai. Apesar dos problemas de adaptação inerentes à troca de um país por outro, Michael diz estar gostando de sua nova vida. “Às vezes sinto falta de trabalhar, de não saber como será meu dia. Como engenheiro, viajava bastante, chegava a passar uma semana fora de casa. Agora estou numa rotina. Mas adoro passar mais tempo com as meninas. Quando trabalhava, vivia estressado. Hoje, meu único estresse é limpar a casa”, explica o americano. Assim como Fabiano, Michael começou a se envolver na educação das filhas muito antes de parar de trabalhar. “Nos Estados Unidos, tanto minha mulher quanto eu viajávamos muito a trabalho, então tivemos que nos organizar. Às vezes eu ficava com as meninas e, às vezes, era ela. Sempre dividimos tarefas”, afirma. Sem preconceito Michael diz que não se sente menosprezado por não trabalhar e ficar cuidando da casa e das filhas enquanto a mulher sustenta a família. “Nos Estados Unidos, meus amigos tinham inveja de mim”, afirma. “Eu e minha mulher somos totalmente iguais. Lidamos bem com essa situação, que por sinal está se tornando cada vez mais comum no Michigan, onde muitos homens perderam o emprego por causa da crise do setor automotivo. Sei que esse preconceito existe, mas não ligo para o que as pessoas pensam. Acho que é um pensamento antiquado. Na época dos nossos

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ValeViver

avôs, as mulheres nem trabalhavam. É uma evolução natural, progressiva, que se dá de uma geração para outra”, interpreta. Para a psicóloga Letícia de Oliveira, que tem um consultório em Jardim Maringá, em São José, esta evolução aconteceu como consequência. “A partir dos anos 90, quando as mulheres entraram em massa no mercado de trabalho, os homens assumiram progressivamente um papel maior na criação dos filhos, como forma de compensação”, analisou. “Os pais mais jovens já integraram essa nova tendência. Hoje, participam muito mais da vida dos filhos. Conhecem detalhes que não conheciam antes, como tamanho de roupa ou número de calçado”, afirmou. “Percebo nitidamente essa evolução do papel do pai na família e na escola. Hoje o pai é muito mais atuante. Tenho pais que vêm sozinhos visitar a escola. Participam, questionam, fazem perguntas sobre a rotina, o material. Na década passada, esse papel era somente da mãe”, comentou Célia Maria Fonseca Terlizzi, diretora pedagógica da escola Mater Dei. Na opinião da psicóloga, o problema não é a inversão dos papéis em si, e sim a perda de autoridade paterna que pode decorrer desta inversão. “Não vejo a inversão dos papéis como um problema. O que pode acontecer é o pai se sentir inferior se for o único do seu círculo de amigos a ficar em casa enquanto a mulher trabalha. Mas cada vez mais homens estão nessa situação. O maior problema que vejo é que o pai acabe sendo considerado pelos filhos como um amigo. Pode haver uma perda de autoridade. O pai nervoso e inacessível de antigamente era um pai respeitado. A questão tem que ser bem trabalhada no ambiente familiar. Existe essa percepção de que o provedor tem o poder. É isso que deve ser discutido, inclusive com os filhos”, avaliou. Indagado sobre o que pretende fazer num futuro próximo, Michael revelou o projeto de procurar emprego na região em 2011, quando seu português estiver melhor. “Tudo foi discutido e planejado, inclusive com as meninas, antes da viagem ao Brasil. Sei que estou numa situação temporária, até porque vou ter que voltar a trabalhar para ajudar nas despesas. Mas não tenho pressa. Estou curtindo o momento. Se pudesse ficaria assim, se bem que essa aqui já está me deixando maluco”, brinca, enquanto Alexis continua dando pulos no sofá. A.S.M. tem 68 anos. Teve dois filhos de um primeiro casamento. Sua segunda mulher, Iara, morreu de câncer em junho de 2008. O casal teve uma filha, Junia, de 8 anos. Após uma bem-sucedida carreira de economista

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BEBIDAS Drinks seguem os mesmos preços na maioria das casas

DEDICAÇÃO O americano Michael Jarvis, 38 anos, com as filhas Carinne, 10 anos, e Alexis, 6 anos; ele cuida das meninas enquanto a mulher trabalha

”Sei que existe o preconceito, mas não ligo para o que as pessoas pensam. É uma situação temporária até porque vou voltar a trabalhar” De Michael Jarvis, que cuida das filhas enquanto a mulher trabalha

em São Paulo, aposentou-se e mudou-se para São José há seis anos, em busca de uma qualidade de vida melhor. Hoje, mora com a filha em um casarão de dois andares com piscina no condomínio Jardim das Colinas. “Convivi com meus dois primeiros filhos até eles completarem quatro, cinco anos. Participei de tudo: levei para o médico, troquei fralda, dei banho. Mas depois meu crescimento profissional inviabilizou esse esquema. Passei a viajar muito mais em função do trabalho. Já com a Junia foi totalmente diferente. Ela nasceu em 2002, quando eu já estava aposentado havia dois anos. Dei o primeiro banho na sala de parto, cortei o cordão umbilical. Desde o primeiro instante da vida dela, acompanho tudo, 24 horas por dia”, explica ‘papito’, como é carinhosamente chamado pela filha. “A convivência com Junia me dá muito prazer. Perdi parte da criação dos meus dois primeiros filhos por motivos profissionais, e acho que de certa

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DIVERSÃO Fabiano Lüdke Chedid, 38 anos, brinca com as filhas Bianca, 10 anos, e Sofia, 5 anos, na sala do apartamento da família, em São José

forma, quis compensar isso com ela”, justifica. Dedicação Com exceção de penteados, a única coisa que não consegue fazer, A.S.M. faz tudo que uma mãe faria, com o mesmo carinho e a mesma dedicação. Prepara o café da manhã da filha, leva ela para a escola, vai buscá-la, ajuda na lição de casa, faz o jantar. “Aqui não entra refrigerante. É tudo light. À noite comemos pizza de pão integral ou tomamos uma sopa”. Tem empregada, mas ela só cuida da casa, da roupa e do almoço. “Da minha filha cuido eu”, sentencia o pai coruja, admitindo exercer um controle bastante rígido sobre a televisão e a internet. “Junia é muito esperta, alegre, meiga, amorosa”, derrete-se, todo apaixonado. “O desempenho escolar dela é muito bom, não caiu nem quando a mãe morreu. Mas ela é acompanhada por um psicólogo até hoje. Os primeiros meses após a morte de Iara foram difíceis, mas hoje

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”Não acho essa rotina pesada. Tivemos que nos adaptar à separação, que foi amigável, sem conflito. Foi o melhor para todos” De Fabiano Lüdke Chedid, 38 anos, que fica com as filhas a cada 5 dias

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ela não tem problema em falar da mãe.” Aos 25 anos, Carlos Eduardo Campos Cortês é pai de dois filhos: Gabriel, 3 anos, e Mariana, um ano e meio. O mineiro de Itajubá veio para São José em julho de 2007 quando a mulher, Cecília, conseguiu um emprego na cidade. Obteve um estágio e ingressou na Univap (Universidade do Vale do Paraíba) para estudar engenharia à noite. Contudo, teve que largar provisoriamente o estágio para se dedicar exclusivamente aos estudos. Ao mesmo tempo, passou a cuidar sozinho da casa e dos filhos, enquanto a mulher trabalhava. “O mais chato era lavar, pendurar e passar roupa, e trocar fralda. Às vezes me irritava porque precisava enviar currículos e estudar no computador e não dava tempo. Mas aproveitei o momento para curtir meus filhos, passar mais tempo com eles. Foi muito tranquilo. Encarei essa fase com naturalidade. Era a governanta, a babá, o administrador da casa. Era o meu trabalho”, define. Carlos pode não gostar de lavar roupa, mas na hora do entretenimento ele é craque. “Brincava muito com os dois no parquinho. Enquanto Gabriel ficava no velotrol, ensinava Mariana a andar. Hoje, brinco mais com Gabriel. Brincamos de luta, com os carrinhos dele. A Mariana fica mais com a mãe”, conta o jovem pai, que também manda bem na cozinha. “Faço hot-dog, carne moída com batata”. Cada pai tem sua história e existem milhares delas semelhantes em São José, no Brasil e no mundo, mas todas têm um denominador comum: o amor. A visão do pai provedor e da mãe dona-de-casa já mostrou seus limites e está cada vez menos adaptada à sociedade atual. Da mesma forma que as mulheres provaram que têm a mesma capacidade de trabalhar que os homens, os pais vêm mostrando que podem cuidar dos filhos com a mesma dedicação que as mães. “Pais e mães têm visões diferentes. Enquanto a mãe é mais conduzida pela emoção, o pai tem um lado mais prático, mais objetivo. Por isso, a participação de ambos na educação é enriquecedora para a criança”, explica Célia Terlizzi, para quem “a presença do pai é tão importante quanto a da mãe”. “Um pai presente faz muita diferença na constituição da criança”, concorda a psicóloga Letícia de Oliveira, citando um dado interessante publicado recentemente pelo instituto Harris: segundo o centro de pesquisas norteamericano, 70% dos pais abdicariam de um salário maior para poder passar mais tempo com os filhos. Na Alemanha, já existe até licença paternidade. Um exemplo a seguir? •

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ValeViver

CULTURA

São Paulo, a capital dos livros Para sua 21ª edição, Bienal Internacional do Livro aguarda 800 mil visitantes; evento promete variada programação com mais de 700 atividades e obras para todas as idades

Yann Walter São José dos Campos

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ela terceira vez, o Pavilhão de Exposições do Anhembi, em São Paulo, abre suas portas para a tradicional Bienal Internacional do Livro, que chega à 21ª edição. O terceiro maior evento do gênero no planeta –perde apenas para a Feira do Livro de Frankfurt e a Feira Internacional do Livro de Turim– acontece entre os dias 12 e 22 deste mês e promete uma ampla e variada programação cultural, com mais de 700 atividades, além de uma grande oferta de livros para todas as idades, tudo para estimular o hábito de leitura entre os brasileiros. O primeiro dia do evento é reservado aos profissionais do livro. A Bienal será aberta ao público logo no dia seguinte, com uma programação especial: ‘Sexta-feira 13’. Neste dia, quem for fantasiado não paga a entrada. O ponto alto do dia deve ser um debate sobre vampirismo com a presença do escritor canadense Dacre Stoker, sobrinho-bisneto do autor irlandês Bram Stoker, o criador de Drácula. Dacre Stoker vem pela primeira vez ao Brasil para promover “Drácula, o morto-vivo”, uma sequência do grande clássico da literatura de horror publicado em 1897. Lançado este ano no país, o livro é inspirado em anotações de Bram Stoker que, inclusive, aparece como personagem na história. “A ideia é dar aos leitores de hoje a oportunidade de redescobrir o personagem de terror mais popular de todos os tempos”, explicou Dacre Stoker à revista

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valeparaibano. “A dificuldade foi garantir que a sequência faça justiça à história original. Tentamos desenvolver os personagens e a trama da mesma forma que Bram faria, mas modernizamos o estilo para torná-lo mais atrativo para os leitores de hoje. A história tem romance, sexualidade e, é claro, horror”, descreveu, dizendo-se “muito animado” com a viagem ao Brasil. “Estou muito animado para aprender um pouco sobre a cultura. Como praticante de esportes, sempre tive muito respeito pelos atletas, times e torcedores brasileiros. Além disso, vocês vão sediar a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016”, destacou. O debate sobre vampirismo integra a programação cultural do Salão de Ideias, o espaço mais tradicional da Bienal do Livro, conhecido por promover debates sobre temas variados entre escritores nacionais e internacionais e personalidades dos meios editorial, intelectual, artístico e acadêmico. Este ano, o espaço, com curadoria dos jornalistas Manuel da Costa Pinto e Alexandre Agabiti Fernandez, conta com mais de 40 convidados de prestígio, entre eles, a escritora Lygia Fagundes Telles, um dos maiores nomes da literatura nacional. Também marcam presença o jornalista e escritor Laurentino Gomes, o desenhista Ziraldo, o professor e autor Pasquale Cipro Neto, o escritor, teólogo e filósofo Rubem Alves, a escritora e pesquisadora Marisa Lajolo, entre muitos outros. Entre os estrangeiros, destacam-se, além de Stoker, o norueguês Jostein Gaarder, que escreveu o best-seller internacional “O mundo de Sofia” –traduzido em 42 idiomas– e acaba de lançar no Brasil seu

A BIENAL

11 DIAS É o período da 21ª edição da Bienal Internacional do Livro, que ocorre entre 12 e 22 de agosto, em S. Paulo

40 PERSONALIDADES Foram convidadas para participar da Bienal, que terá mais de 700 atividades culturais na programação

350 EXPOSITORES Representarão mais de 900 selos editoriais no terceiro maior evento do gênero do planeta

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Tessa Posthuma

HOMENAGEM

O norte-americano Benjamin Moser, autor da biografia sobre a escritora brasileira Clarice Lispector Divulgação

QUADRINHOS O cartunista Maurício de Sousa

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Divulgação

DRÁCULA Dacre Stoker, sobrinhobisneto do autor irlandês Bram Stoker, o criador de Drácula

novo romance, “O castelo nos Pirineus”, o irlandês John Boyne, autor de “O menino de pijama listrado”, e o norte-americano Benjamin Moser, autor de “Clarice”, uma biografia sobre a escritora brasileira Clarice Lispector, uma das homenageadas pela 21ª edição da Bienal. “A primeira vez que tive um contato com Clarice foi num curso de literatura brasileira na faculdade, nos Estados Unidos. A última obra que estudamos foi ‘A hora da estrela’. Nunca tinha visto coisa igual. Senti uma necessidade de divulgar essa escritora no mundo. Anos depois, resolvi fazê-lo através de uma biografia”, explicou Moser à revista valeparaibano. “Clarice não era uma escritora conhecida nos Estados Unidos e isso dificultava bastante meu trabalho. Mas pensei: quando terminar esse livro, as pessoas vão entender o porquê do meu entusiasmo. E isso de fato aconteceu. Agora, seus livros são traduzidos nos Estados Unidos e na Inglaterra. Trabalho todos os dias para promovê-la, e parece que está dando certo”, festejou. Moser já conhece bem o Brasil através das diversas viagens que fez para escrever o livro. “Fui a lugares onde Clarice viveu ou que tinham algum vínculo com ela, como Belém ou Porto Alegre. Também fui à Moldávia e à região da Ucrânia onde ela nasceu, que ainda hoje é de acesso muito difícil. É uma experiência engraçada conhecer um país por uma pessoa, seguindo-a”, relatou o norte-americano. Saramago O Salão de Ideias ainda apresenta uma mesa de debates em homenagem ao famoso escritor português José Saramago, morto em junho aos 87 anos. Para animar as discussões, vêm de Portugal o filósofo, professor e escritor João Marques Lopes, autor de uma biografia sobre Saramago, e o cineasta Miguel Gonçalves Mendes, que acompanhou o escritor nos últimos anos de sua vida. Outra grande atração da Bienal é o Palco Literário, animado pelo escritor e autor de novelas Walcyr Carrasco, membro da Academia Paulista de Letras. O Palco Literário recebe grandes nomes do teatro, do cinema, da música e da televisão, responsáveis por fazer a ponte entre a literatura e as demais expressões artísticas. Os atores Ary Fontoura, Paulo Goulart e Regina Duarte estão entre os participantes. Além de participar do Salão de Ideias, Marisa Lajolo, uma das pesquisadoras mais conceituadas do Brasil sobre Monteiro Lobato, é a curadora do Espaço do Professor, onde são discutidas questões profissionais e a inserção no mercado de trabalho. A Bienal do Livro

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2010 também preparou uma programação especial para o público infantil, com uma série de atividades destinadas a atrair as crianças para o mundo da leitura. O carro-chefe desta programação é o espaço Fábulas com a Turma da Mônica. “É um espaço lúdico para que as crianças se sintam dentro de um livro de fábulas. Tem brincadeiras interativas envolvendo os personagens conhecidos dos contos infantis na versão da Turma da Mônica”, explicou à revista valeparaibano o desenhista Maurício de Sousa, o mestre brasileiro das histórias em quadrinhos, que cuida pessoalmente da organização do espaço. “A linguagem dos quadrinhos é mágica e aproxima a criança da leitura, o que é um grande ganho. Sempre que um pai me diz que aprendeu a ler com minhas histórias e que agora seu filho trilha o mesmo caminho, vejo que estamos fazendo algo especial para o estímulo à leitura”, declarou. De fato, personagens como Mônica, Cebolinha, Cascão, Chico Bento, Franjinha e Bidu encantaram várias gerações de leitores. O sucesso foi tamanho que ultrapassou as

fronteiras do Brasil. “Sucesso não se explica. Acontece. As histórias da Mônica são publicadas em 25 idiomas, superadas apenas pelas do Ronaldinho Gaúcho, publicadas em 32 línguas diferentes. Na China, a Turma da Mônica atinge cerca de 180 milhões de crianças através de um programa educativo do governo chinês transmitido pela televisão e a internet”, relatou o desenhista. Para Maurício de Sousa, o papel das histórias em quadrinho no mundo de hoje vai além da diversão. “Nosso primeiro compromisso é divertir os leitores, mas é claro que ao mesmo tempo passamos diversas ações educativas, como o respeito à natureza e à diversidade do ser humano”, explicou. A Bienal ainda manteve o espaço O Livro é uma viagem, que tem como objetivo passar para as crianças e adolescentes a sensação de que estão, de fato, entrando nas histórias de um livro. O espaço está repleto de atividades educativas e lúdicas que favorecem a interação com o público, como o túnel de livros e o labirinto de páginas. Como se não bastasse, a organização da Bienal firmou

uma parceria com o canal Discovery Kids, que ganhou um espaço para promover atividades lúdicas para os pequenos. O evento também conta com um espaço dedicado exclusivamente ao público jovem, chamado Território Livre. A editora e consultora em educação Maria Tereza Rangel é a curadora do espaço, que tem debates sobre definição de identidade, aspectos culturais e mercado de trabalho. O jornalista Caco Barcellos e a equipe do programa “Profissão Repórter” estão incluídos na programação, assim como a cineasta Laís Bodanski e os jornalistas Alberto Dines e Luiz Nassif. Serviço O ingresso custa R$ 10, um preço que não evolui desde 2006. Os estudantes têm direito à meia-entrada. Maiores de 65 anos e menores de 12 anos não pagam, assim como os estudantes incluídos na visitação escolar programada. Professores, profissionais do livro e bibliotecários também têm entrada franca. Poucas vezes a relação custo-benefício de um evento apareceu tão favorável. •

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CULTURA POPULAR

Agosto do folclore

Fundação Cultural Cassiano Ricardo realiza programação especial no Museu do Folclore e Teatro Municipal, em S. José

São José dos Campos

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uando falamos em folclore, muitos têm a impressão de estarmos voltando no tempo. Um erro comum e facilmente explicável levando em consideração que as iniciativas de estudá-lo estão cada vez mais raras. Na verdade, estamos fazendo folclore todo dia, construindo nossa identidade e modificando costumes ao nosso tempo. Isso é folclore, e este é o mês dele. Desde 1965, por decreto federal, o dia 22 de agosto é considerado o Dia do Folclore. O desafio real, no entanto, é deixar o assunto atrativo e envolvente para as novas gerações e desmitificar o assunto. A Fundação Cultural Cassiano Ricardo, por meio do CECP (Centro de Estudos da Cultura Popular), realiza esse trabalho há 10 anos em São José. Aproveitando do acervo do Museu do Folclore, a instituição abre suas portas para que escolas visitem o local e participem de uma programação com uma linguagem voltada especialmente para crianças e jovens. “A educação é o grande canal de comunicação do folclore. É um processo que envolve, além dos alunos, os professores, que acabam se descobrindo também, afinal, estamos falando de nós mesmos, da nossa cultura”, explica Flávia Diamante, coordenadora de projetos do CECP. O museu neste contexto ganha o papel de um grande laboratório para as pessoas. É o local onde o conhecimento teórico ganha forma e torna-se palpável. “Tínhamos dificuldade em alcançar resultados apenas com trabalhos teóricos. Quando o assunto é cultura popular, o correto é sensibilizar. Posso afirmar que São José dos Campos já tem outro olhar em relação ao folclore e à própria cultura. Ainda hoje consigo me emocionar passeando pelas salas do museu”, conta Flávia.

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CONGO Grupo durante apresentação de dança foclórica no Teatro Municipal

Além de abrir suas portas, o CECP também criou no ano passado um projeto-pioloto que ganha mais corpo neste ano. Alunos da EE Rui Rodrigues Dória se envolveram na criação das peças que fizeram parte da exposição ‘Pelas Ruas e Calçadas de Santana’. Com um resultado positivo, agora três escolas aceitaram o desafio de criar exposições, trabalhando temas diferentes: EE.Rui Rodrigues Dória, com o tema festas, a Escola Moppe, com literatura de Cordel, e a Fundhas-Embraer, com papéis familiares, brinquedos e jogos. O projeto recebeu o nome de “Ação Educativa e o Mês do Folclore”. Segundo Flávia, esta é uma outra forma de fazer uso do mesmo ‘laboratório’. Desde o início do ano, alunos e professores estão trabalhando em conjunto com o CECP na elaboração do material para as exposições. “É emocionante observar as descobertas, tanto das crianças como dos educadores. Eles conseguem entender que a riqueza da nossa cultura está muito

próxima, no dia-a-dia”, conta. O Museu do Folclore está aberto para todo o público, não somente para as escolas. No mês de agosto, acompanhando as exposições, haverá apresentações de músicas folclóricas e teatro de mamulengos. Apresentações O Teatro Municipal também receberá uma parte das comemorações no mês do folclore. Um dos protagonistas é o Grupo Piracuara, criado em 1987 com o objetivo de resgatar e preservar a riqueza da cultura popular brasileira. O grupo trabalha na pesquisa e na recriação artística das mais diversas manifestações folclóricas, como o moçambique, as folias, o congo. Além do grupo, que se apresenta nos dias 9, 11 e 13, às 20h, no dia 10, às 19h, haverá uma Benção Caipira, e no dia 12, às 20h, a Orquestra Piracuara de Viola Caipira também mostra sua arte. A entrada é gratuita. •

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PIRACUARA O Grupo se apresenta no Teatro Municipal em comemoração ao Dia do Foclore

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CINEMA NACIONAL

Cosmética da fome Estreia no dia 6 ‘400 Contra 1: a história do Comando Vermelho’, que conta os bastidores do surgimento da facção criminosa do Rio de Janeiro; mais um filme brasileiro com os temas tráfico, violência e favela Franthiesco Ballerini São Paulo

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m 1959, o cineasta brasileiro Anselmo Duarte participou do Festival de Cannes apenas como observador. Ele queria saber que tipo de filme o júri de festivais esperava de países como o Brasil. Isso bem às vésperas de rodar seu novo projeto, ‘O Pagador de Promessas’. Em 1951, Orfeu Negro, do francês Marcel Camus, ganhara a Palma de Ouro. Isso ajudou Anselmo a fazer uma descoberta que mudaria para sempre o cinema brasileiro, mudando totalmente o roteiro de ‘O Pagador de Promessas’. O diretor se deu conta de que europeus e norte-americanos que participam dos festivais não querem ver as belezas e a alegria brasileira, tampouco comédias, aqui tão bem-sucedidas, ou documentários sobre o nosso futebol. O que eles querem mesmo é conhecer os dramas da urbanização desorganizada do país. Traduzindo: favelas, violência e tráfico de drogas. Meio século se passou e praticamente todos os filmes brasileiros premiados internacionalmente abordam um ou todos esses temas que remetem à violência e à pobreza no país. Quando ‘Cidade de Deus’ arrebatou quatro indicações ao Oscar em 2002, intensificou ainda mais a onda da ‘Cosmética da Fome’, termo cunhado pela pesquisadora Ivana Bentes. Uma invasão de filmes sobre o tema

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chegou às telas, uns bons, outros nem tanto. No dia 6 de agosto mais um longa-metragem da safra estreia nos cinemas. ‘400 Contra 1: A História do Comando Vermelho’, dirigido pelo estreante Caco Souza, tem como objetivo mostrar os bastidores do surgimento do Comando Vermelho, a facção criminosa do Rio de Janeiro. O filme é baseado no livro autobiográfico de William da Silva Lima, um dos principais articuladores da organização. O interessante do filme é dar luz para histórias que pouca gente ouviu ou leu nos noticiários. O Comando Vermelho foi criado no auge da ditadura militar por presos políticos no Presídio de Ilha Grande (RJ). O problema é que estes presos políticos foram misturados aos presos comuns, criando uma relação polêmica dentro da prisão, culminando em tragédias. O livro foi adaptado pelo roteirista Victor Navas (Carandiru, Cazuza) e é estrelado por Daniel de Oliveira e Daniela Escobar nos papéis principais –Daniel como William e Daniela como Teresa, sua companheira. A cantora Negra Li também tem papel de destaque no filme. “A Geni é uma mulher politicamente correta e foi criada praticamente em cena, na hora de filmar. Foi uma experiência interessante saber de praticamente tudo da personagem poucos minutos antes do ‘ação’. Depois de Tropa de Elite e Cidade de Deus, estou certa de que esse filme vai bombar”, diz Negra Li. Será mesmo? Algumas produções pós-

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Fotos: Divulgação

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Cidade de Deus com grandes estrelas e orçamento relativamente generoso não produziram grandes efeitos. A primeira grande decepção foi Carandiru. Embora tenha feito 4,5 milhões de espectadores, o que Hector Babenco queria também era usar sua fama internacional para angariar um troféu importante em festivais. Não aconteceu. Fórmula Saturada Já o cineasta Breno Silveira havia acabado de virar hit nos cinemas com 2 Filhos de Francisco quando lançou ‘Era Uma Vez’, uma história de amor entre uma mocinha de Copacabana com um rapaz do morro. O filme não emplacou. “O que eu mais temo na estreia é que o público diga ‘já vi esta história’ e decidir não ver o filme. Meu enfoque é diferente de ‘Cidade de Deus’. O tema pode estar frequente, mas não está esgotado”, comentou Breno Silveira quando lançou o filme. A ‘Cosmética da Fome’ também não gerou frutos de bilheteria nem mesmo para o premiado Walter Salles, que lançou ‘Linha de Passe’, em 2008. Embora sua protagonista, Sandra Corveloni, tenha ganhado o Festival de Cannes, o longa não chegou nem próximo do sucesso de bilheteria de ‘Tropa de Elite’. Em entrevista concedida na época do lançamento de ‘Linha de Passe’, Walter Salles admitiu que o tema do filme já estava esgotado, mas explicou por que não só ele quanto outros cineastas insistem em falar do assunto. “Minha contribuição para a temática é este filme, depois acabou. O Fernando Meirelles falou algo importante certa vez, que o cinema da Retomada lançou seu olhar naquilo que a TV ignorou por décadas. No entanto, acredito sim que seja preciso ampliar os assuntos para não ficar falando apenas de classes pobres em favelas e bairros de periferia”, disse Salles. E neste meio termo ainda houve ‘Maré – Nossa História de Amor’, um musical de Lúcia Murat e outros filmes de qualidade bem inferior, francamente oportunistas com relação à onda da temática, como ‘No Meio da Rua’, de Antonio Carlos de Fontoura, sobre um menino rico que acaba se enturmando com um garoto da favela. Outro mais bem elaborado foi ‘Verônica’, de Maurício Farias, sobre uma professora de escola pública que decide proteger um garoto de favela cuja família fora assassinada. Futuro A temática favela, violência e tráfico não deve dar folga nos próximos anos. Vale lem-

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PROTAGONISTA A atriz Daniela Escobar, que interpreta Teresa, um dos principais personagens do longa dirigido por Caco Souza

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CENAS Acima, parte do elenco do filme ‘400 Contra 1’, que estreia nos cinemas de todo o país no próximo dia 6, ao lado, o ator Fabrício Boliveira, no papel do personagem Cavanha

brar que ‘Tropa de Elite 2’ entra em cartaz ainda neste ano e promete sacudir a chamada ‘Cosmética da Fome’, mas desta vez não terá a pirataria para alimentar os fuxicos sobre o filme, uma vez que os produtores se protegeram mais contra este perigo. ‘400 Contra 1’ tem uma agenda programada para festivais internacionais, quer arrebatar pelo menos um prêmio importante na Europa ou nos Estados Unidos. Apostou na estética de ‘Cidade de Deus’ para garantir a continuidade de elogios do júri destes festivais. Em outras palavras, o filme é salpicado de ação e cenas de violência, algumas pesadas. Mais importante, os trejeitos, linguajar e a fotografia do filme de Meirelles e de Hector Babenco (Carandiru) estão todos aí. Será que emplaca no exterior? Pode ser

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que sim. Segundo Ilda Santiago, organizadora do Festival do Rio, o festival brasileiro mais internacional do país, o estereótipo do Brasil no exterior não é um mal que atinge apenas a nós. Praticamente todos os países do mundo são estereotipados em festivais. “Espera-se um filme específico do Leste Europeu e outro da Ásia. Assim como se espera a velha fórmula de Hollywood dos filmes norte-americanos. Assim, acho muito difícil que uma comédia brasileira, embora faça muito sucesso no mercado nacional, conquiste prêmios no exterior”, diz Ilda. Como se vê, Anselmo Duarte deixou um legado que nem ele mesmo poderia imaginar. A ‘Cosmética da Fome’ deve durar muito tempo ainda, até os europeus e norteamericanos se sentirem saciados dela. •

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Fotos: Sérgio Carvalho

FILME

Mochila viaja o mundo

FILMAGEM Equipe da produção se prepara para as filmagens em uma casa na zona rural de Tremembé; longa conta a história de uma mochila perdida

Região é escolhida para as gravações do filme “The Lost Backpack”, que será rodado por 25 cineastas em 15 países

SET anta Tremembé e S Branca viram ga cenário de lon internacional

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Hernane Lélis Tremembé

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magine reunir 25 cineastas para escrever e dirigir um longametragem independente e que tem como personagem principal uma velha mochila. Junte isso ao fato de que cada “episódio” terá no máximo quatro minutos de duração e será gravado em pelo menos 15 países diferentes. O resultado será o filme “The Lost Backpack”. O longa conta a história de uma misteriosa mochila que viaja o mundo por conta da ambição, curiosidade e descuido das pessoas que a encontram pelo caminho. A cada fronteira ultrapassada, algumas pistas sobre o conteúdo da bolsa e a origem de seu dono, conhecido apenas como Macguffin, são reveladas. No Brasil, o projeto está sob os cuidados do jovem cineasta nascido em Jacareí, Ra-

fael Yoshida, 23 anos, que ficou responsável pelas cenas iniciais e finais do filme. O cenário escolhido por Yoshida para gravar sua participação foi uma pequena casa na zona rural de Tremembé e a colorida praça Ajudante Braga, de Santa Branca. As gravações aconteceram entre os dias 29 e 30 de maio. A trama de “The Lost Backpack”, traduzindo para o português como “A Mochila Perdida”, começa numa estrada rural de Tremembé, onde o personagem Inocêncio, interpretado pelo ator Felipe Vitri, caminha tranquilamente em direção a sua casa. Durante o percurso ele encontra uma mochila abandonada e resolve levá-la para mostrar à mulher. No caminho, é interceptado por Genival –personagem do joseense Allex Cardozo–, que fica desconfiado sobre o conteúdo da estranha bolsa que o amigo carrega. Logo a mochila vira assunto na cidade levando a diversas especulações sobre o seu dono e pertences. Diante da inquietação

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script emocionante”, disse. Visando atingir a proposta do projeto com maior exatidão possível, Yoshida escalou para atuar na trama somente atores da região. O elenco conta com 16 pessoas, a maioria de São José dos Campos e Santa Branca. “O projeto é excelente, consigo atingir o objetivo mostrando um pouco a região em que nasci e cresci”, disse Yoshida. Para Allex Cardozo, 36 anos, que interpreta o personagem Genival, a chance de participar do filme veio por acaso. “Me encontraram depois de um ensaio na Companhia de Atores Debaixo do Pano, perguntaram se queria fazer um teste para o filme, explicaram o projeto e dois dias depois já estava no elenco”. Mesmo participando como voluntário do projeto, assim como os demais atores e membros da equipe técnica, Cardozo comemora a oportunidade. “É raríssimo aparecer uma chance na cidade, quando aparece é difícil também conseguir o papel. Consegui emendar um trabalho no outro praticamente”, disse o ator, que participou recentemente das gravações do filme Aparecida, dirigido por Tizuka Yamasaki.

CENAS Acima, gravações do filme em casa da zona rural de Tremembé; ao lado, o elenco de “The Lost Backpack”

da população, Inocêncio resolve mostrar o que tem dentro da bolsa, mas no momento da revelação ela é roubada –dando início à odisséia pelo mundo. “A mochila vai passar pelo Equador, Estados Unidos, por países da Europa, pela Índia, China e Oriente Médio. Acredito que até agosto todos os envolvidos vão terminar a gravação para, em dezembro, trabalharmos na pós-produção e finalização. Em janeiro já dá para escrever o filme em festivais, até Cannes vamos tentar”, disse Yoshida. Preparação Foi navegando pela internet que Yoshida descobriu o site da CallabFeature, uma associação de produtores independentes de cinema, sediada em Nova York, que procurava parceiros para filmar “The Lost Backpack”. A ideia de rodar o filme em diversos países surgiu diante das dificuldades de se fazer cinema sem patrocínio e grandes

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investimentos. Todo o contato de Yoshida com a instituição e demais cineastas envolvidos no projeto foi feito por troca de e-mails, mensagens instantâneas e outros aplicativos online da internet. Cada diretor escreveu um roteiro, que foi adaptado de acordo com o cronograma de filmagens. “Quando a filmagem dura apenas um final de semana é mais fácil conseguir favores, obter descontos em equipamentos e similares. Achei que outras pessoas poderiam pensar da mesma forma, então por que não unir as forças?”, explicou Marty Shea, diretor da CallabFeature. Além de conseguir rodar um filme por meio de colaboradores espalhados pelo mundo, Shea queria reunir no longa diferentes culturas e individualidades de cada região. “Queríamos um confronto de estilos e perspectivas. Temos mais de uma dezena de línguas no roteiro, o que torna o

Apoio Apesar de não estarem no elenco de “The Lost Backpack”, o diretor cultural da Fundação Cultural Cassiano Ricardo, Cláudio Mendel, e o secretário de Cultura de Santa Branca, Sarkis Ramos Alwan, foram um dos protagonistas do projeto. Mendel ajudou na seleção dos atores e cedeu espaço para os testes, já Alwan ofereceu transporte, estrutura e atores para as cenas em Santa Branca. “Acho que é uma proposta bem interessante e ousada, já que o produto final vai refletir a realidade da produção independente de cada país não só do ponto de vista profissional, mas também a técnica de cada cineasta. Estou curioso para saber do resultado”, disse Mendel. A experiência de ter sido cenário de um dos clássicos cinematográficos de Amásio Mazzaropi, na década de 50, foi um dos fatores que levaram o secretário de Cultura de Santa Branca a apoiar as gravações de Yoshida no longa. “É gratificante, tivemos a experiência do filme ‘A Carrocinha’, de Mazzaropi, que ficou marcado na cidade. Até hoje as pessoas têm boas recordações desse trabalho no município. Acho que essa iniciativa internacional também será uma boa vitrine para Santa Branca”, explicou Alwan. •

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As cordas ganham a cena Sesc de São José dos Campos apresenta o projeto “Tom das Cordas” e coloca o violão como protagonista de uma história íntima com o desenvolvimento da música mundial Fotos: Divulgação

Adriano Pereira São José dos Campos

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ão apenas seis cordas, mas que por mãos hábeis e personalidades criativas abrem uma gama infinita de possibilidades sonora. É para explorar essa característica que o Sesc de São José dos Campos traz este mês o projeto “Tom das Cordas”, nos dias 6, 7, 27 e 28, com nomes mais do que representativos nessa arte. O projeto destaca os instrumentos de corda e aborda sua importância em uma obra musical, seja como acompanhamento ou protagonista. Neste mês, o destaque é para o violão, talvez um dos instrumentos de maior identidade com a música brasileira. Pesquisadores indicam algumas hipóteses para sua origem, entre elas, a de que o instrumento é uma derivação do alaúde que os Egípcios, Persas e Árabes levaram para a Espanha. Outra teoria refere-se a uma transformação a partir de um instrumento grego denominado Kethara Grega (precursor da Cítara), passando pela rota medieval inglesa e chegando na Vihuela, surgida na Espanha, durante o século 16. Ao longo do tempo este instrumento sofreu grandes evoluções e, hoje em dia, possui uma variedade de formatos e tamanhos, cada qual mais apropriado a um estilo de execução. O primeiro a se apresentar pelo projeto é o Quaternaglia Guitar Quartet, no dia 6, às 21h. Com 15 anos de carreira, é considerado um

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SONS Acima, Euclides Marques e Luizinho ‘7 cordas’, que se apresentam no dia 7; ao lado, o Quaternaglia Guitar Quartet, um dos nomes de maior destaque na atualidade

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dos mais importantes quartetos de violões da atualidade, tanto pelo alto nível de seu trabalho camerístico quanto por sua importante contribuição para a ampliação do repertório, com destaque para obras de Heitor Villa Lobos, Federico Moreno Torroba e Alberto Ginastera. Com Chrystian Dozza, Fabio Ramazzina, Paola Picherzky e Sidney Molina. No dia 7, às 20h, se apresentam Euclides Marques & Luizinho 7 Cordas. O duo, formado há quatro anos, destaca-se por apresentar as ricas possibilidades de diálogo entre o tradicional violão de seis cordas de nylon solista, juntamente ao violão de sete cordas de aço acompanhante. Luizinho 7 Cordas é um dos maiores instrumentistas de choro e de samba no Brasil, sendo considerado o sucessor de Dino 7 Cordas, “pai” desse instrumento. Atuou ao lado de nomes como Cartola, Nelson Cavaquinho, Orlando Silva, Paulinho da Viola, Baden Powell, Toquinho e Vinicius de Moraes. Dia 27, às 21h, é a vez de Paulo Bellinati e Weber Lopes. O trabalho da dupla representa a união de dois estados, duas histórias e estilos diferentes para criar uma nova sonoridade. Transitam entre a tradição e a modernidade, misturando cores variadas para formar uma nova matiz, representado no CD ‘Virado’, álbum produzido em 2009. Paulo Bellinati é um dos mais respeitados violonistas brasileiros em todo mundo. Além de uma sólida carreira em palcos internacionais, é também compositor e arranjador, com peças executadas e gravadas por violonistas como John Williams, Fábio Zanon, Los Angeles Guitar Quartet, Quaternaglia, Carlos Barbosa Lima e Duo Assad. Ulisses Rocha fecha a programação no dia 28, às 20h. Com 25 anos de carreira e nove discos gravados, é um dos mais criativos e inovadores violonistas brasileiros, além de professor da Faculdade de Música da Unicamp. Como solista, participou do festival de Jazz de Paris, Free Jazz Festival, Phillips Innovation Show e Festival de Inverno de Campos do Jordão por diversas vezes como concertista e como professor. Acompanhou Gal Costa, Zé Renato, Olívia Byington, Heraldo do Monte, Hermeto Pascoal, Hugo Fatoruso, Roberto Carlos, além de dividir o palco com Egberto Gismonti, Al di Meola, Toquinho e Marco Pereira. Neste show, o músico apresenta seu último trabalho: ‘Estudos e Outras Idéias’. No repertório novas composições e estudos para violão, revelando uma enorme coleção de recursos musicais, permeados pela delicadeza e harmonia em interpretações marcantes. •

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MÚSICA

Lennon remasterizado Adriano Pereira São José dos Campos

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o ano passado, a discografia oficial dos Beatles ganhou edições remasterizadas, em versões mono e stereo, num lançamento mundial que mexeu com a cabeça dos beatlemaníacos. Agora chegou a vez dele, o cara que montou a banda e que teve uma carreira solo menos frutífera, porém tão mais notória

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quanto vivia com os outros três de Liverpool. Supervisionado por Yoko Ono, o projeto “John Lennon Gimme Some Truth”, cuja campanha será lançada dia 4 de outubro, em Londres, e 5 de outubro, na América do Norte, prevê lançamento mundial de oito álbuns de estúdio remasterizados, além de vários títulos recém-compilados. Os discos chegam às lojas para celebrar o 70º aniversário do ex-Beatle, dia 9 de outubro. “Neste ano muito especial, no qual veria meu parceiro na vida e meu marido completar 70 anos, espero que este projeto ajude a trazer

EMI relança toda a obra remasterizada digitalmente da carreira solo do beatle mais famoso de todos sua música incrível para os novos consumidores e ouvintes. Com a remasterização de 121 faixas que cobrem a sua carreira solo, espero também que aqueles que já estão familiarizados com o trabalho de John encontrem nova inspiração e relembrem seu talento como compositor, músico e vocalista, além de seu dom de cronista da condição humana. Suas letras são tão relevantes hoje como eram quando foram escritas e não posso pensar em nenhum título mais apropriado para esse projeto do que palavras simples e diretas como Gimme Some Truth”, disse Yoko Ono.

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Os álbuns foram remasterizados digitalmente a partir das mixagens originais de Lennon e Yoko Ono, por uma equipe de engenheiros liderada por Allan Rouse, em Abbey Road, e por George Marino no Avatar Studios, em Nova York. Todos os títulos remasterizados ganharão embalagens em digipack que reproduzirão a arte original de cada álbum. “Double Fantasy”, de 1980, vencedor do Grammy de Melhor Álbum do Ano, por exemplo, será apresentado em uma nova versão remix –a “Stripped Down” version remix– produzida por Yoko Ono e Jack Douglas, co-produtores com John Lennon da mixagem original. A nova edição do álbum virá nas versões extendida com 2CDs, digital e ainda na versão original registrada por Lennon, agora remasterizada. Os álbuns a serem reeditados são: “John Lennon/Plastic Ono Band” (1970), “Imagine” (1971), “Some Time In New York City” (1972), “Mind Games” (1973), “Walls and Bridges” (1974), “Rock ‘n’ Roll” (1975), “Double Fantasy Stripped Down” (2010), “Double Fantasy” (1980) e “Milk and Honey” (1984). •

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REMASTERIZADO Os oito discos da carreria solo de Lennon ganham edição comemorativa

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PERFIL

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Escrito à mão São José dos Campos

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epois de 17 anos ao lado do irmão, Sandy encara pela primeira vez o desafio de lançar um disco –“Manuscrito”– sem a companhia artística de Júnior. Em parceria com o marido, Lucas Lima, a cantora compôs boa parte do disco. De visual novo, Sandy conta de onde veio essa inspiração. Como foi compor com o Lucas? Foi uma experiência muito bacana. Além de ser meu parceiro em algumas composições, ele também foi o produtor musical de “Manuscrito”. Ele sabia exatamente aquilo que eu vinha pensando, sentindo e planejando para minha carreira nos últimos anos. De onde veio a inspiração para o disco? Eu costumo dizer em entrevistas que sou mais ‘inspiração’ do que ‘transpiração’ na hora de compor (risos). Então, foi algo que surgiu naturalmente. Acho que tanto em “Pés Cansados”, quanto nas demais composições de “Manuscrito”, acabei por me influenciar –de forma indireta– pelos artistas e estilos musicais que gosto de ouvir; o pop e o rock britânicos são alguns exemplos. Está pronta para enfrentar o palco sem a companhia do Junior? É claro que será uma experiência nova. Mas já estou começando a me acostumar um pouco nesta fase de lançamento do CD, indo a programas de TV e rádios, tocando e concedendo entrevistas sem ele ao meu lado. No início é estranho. Mas aos poucos a gente se acostuma. Por que “Manuscrito”? Por ser um projeto bem autoral, de composições que eu havia escrito à mão. Pensei em alguns nomes e achei que este se encaixava perfeitamente como primeiro projeto solo. •

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SANDY Disco novo sem a participação do irmão Júnior, após 17 anos de carreira

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Cultura&mais Fotos: Divulgação

Força progressiva

BASTIDORES

Pearl Jam sai de cena por enquanto Eddie Vedder, vocalista do Pearl Jam, anunciou que a banda irá parar por tempo indeterminado, durante show realizado no festival Optimus Alive, em Portugal.

Adriano Pereira São José dos Campos

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xistem poucos grupos que na história da músicas conseguiram imprimir uma identidade tão particular que ao primeiro acorde de qualquer uma de suas composições conseguem ser reconhecidos. O canadense Rush é um deles. Pela segunda vez no Brasil, a banda fará duas apresentações em outubro, em São Paulo, no dia 8 e, no Rio de Janeiro, no dia 10. Formado por Geddy Lee (baixo, teclado e vocal), Alex Lifeson (guitarra) e Neil Peart (bateria), o Rush, que possui mais de 40 milhões de discos vendidos, é famoso

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tanto pela virtuosidade de seus músicos, como pelas letras provocativas. De acordo com RIAA (Recording Industry Association of America), a banda é o 3º grupo de rock que mais ganhou discos de ouro ou platina consecutivos, ficando atrás apenas de The Beatles e The Rolling Stones. O grupo iniciou a “Time Machine Tour” dia 29 de junho e passará por mais de 40 cidades americanas, inclusive por Los Angeles, onde recentemente ganhou uma estrela na conhecida “Calçada da Fama de Hollywood”, antes de chegar à América do Sul. São shows para encontrar todas as gerações de roqueiros brasileiros. Entre dezenas de hits, a grande atração é sempre o baterista Neil Peart. Dono de técnica e carisma acima do normal humano, Peart é um “show dentro do outro”. Se você nunca viu o Rush ao vivo, não perca essa oportunidade.

“Obrigado por vir ao nosso último show. Não será último para sempre, mas o último por muito tempo. Desculpe”, disse Vedder, em português. O vocalista completou: “vamos nos divertir hoje à noite porque não sabemos quando iremos nos divertir de novo”. O Pearl Jam estava em turnê, divulgando o disco Backspacer, lançado em setembro de 2009. No último dia 17, Vedder divulgou a música “Better Days”, no site site oficial da banda. A faixa foi feita especialmente para a trilha sonora de Comer, Rezar, Amar, que tem previsão de estreia para o dia 1º de outubro no Brasil. A música está disponível para download no iTunes.

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DVD

CENSURA

LIVRO

“Abraços Partidos”, de Almodóvar, chega para a venda neste mês nas lojas especializadas

O dia 3 de agosto marca o fim oficial da censura no Brasil por meio da Constituição de 1988

Paulo Coelho revela como uma crise de fé o levou a sair à procura de um caminho de renovação

FIM

MÚSICA

Cinema

CD’S & MAIS

Novo 007 ainda não está descartado

VALE DESTAQUE

Adriana Calcanhotto para crianças

PARA OS SUBÚRBIOS O nwe brit volta com o Arcade Fire num lançamento esperado em 2010. O disco chega às lojas no dia 3 PREÇO: R$ 35.-

A MGM afirmou que a sequência prevista para este ano só foi adiada e não descartada como algumas publicações afirmaram. O diretor Sam Mendes e o ator Daniel Craig até teriam dito que estão com esperanças e que pretendem voltar à franquia assim que os problemas financeiros da MGM forem resolvidos.

Comédia

Adriana Partimpim cresceu. Ao contrário da maioria dos pobres mortais, ela não envelheceu. Quatro anos depois de sua última apresentação por aqui, ela está de volta com todos os seus brinquedos, apetrechos e instrumentos para a estreia de ‘Dois é Show’ nos próximos dias 14 e 15 no HSBC Brasil. Mais bagunceira, mais solta e mais moleca, Partimpim continua a ter com a liberdade o seu único compromisso. Com este espírito, ela vai reler canções do primeiro CD e apresentar novidades do disco ‘Dois’, também devidamente repaginadas. “Os cinco integrantes da banda são compositores e Partimpim acredita que eles tenham uma visão das canções que difere daquela que os instrumentistas que não compõem podem ter do seu repertório. Eles não fazem muita ceri-

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mônia em relação às composições, se apropriam mesmo, com muita liberdade”, diz Adriana Calcanhotto sobre a banda que acompanhará seu heterônimo Partimpim no palco. Os músicos são Davi Moraes e Moreno Veloso, Domenico Lancellotti, além de Rafael Rocha e Alberto Continentino, que não estavam no primeiro show do projeto. “A primeira coisa foi decidir mudar a banda para começar do zero, inclusive com as canções do primeiro CD. Decidi correr mais riscos, o que acabou indo na direção do que o álbum apontava: espontaneidade, desejo de não cristalizar”, explica a cantora. “Partimpim vai tocar também o Pistom Cretino, um instrumento inventado por Walter Smetak, vai fazer ruídos eletrônicos em brinquedos musicais que ela mesma desmonta para alterar o circuito interno, faz scratches com um vinil, enfim, ela se diverte”, resume.

SEMPRE LINDA A bela Katy Perry chega no final do mês com um disco que promete mantê-la nas paradas PREÇO: R$ 30.-

COM CERTO ATRASO Prometido para julho, o disco tenta reviver os bons tempos da banda PREÇO: R$ 35.-

Chegou a hora de ‘zuar’ os vampiros

Até que demorou bastante. Estreia neste mês a paródia “Vampires Suck”, que coloca o humor pastelão contra a saga “Crepúsculo”. O filme também satiriza outros fenômenos pop, como “Alice no País das Maravilhas” e Lady Gaga. Os diretores são os mesmos de “Espartanos”.

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Social

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Flashes& Almoço especial em Campos O empresário João Dória Jr. recebeu celebridades e políticos para mais um almoço no Boulevard Nestlé, em Campos do Jordão. Com um menu assinado pelo chef Marcelo Ozi, do Badebec, Dória foi prestigiado por Daniela Mercury, a miss Brasil 2007 Natália Guimaraes, o grupo KLB, todo elenco do programa Aprendiz da Record, o empresário Carlos Tolkian, presidente da Estrela, o senador Romeu Tuma (PTB) e o deputado estadual Ricardo Montoro (PSDB), José Henrique Reis Lobo, coordenador nacional da campanha de José Serra , entre outros. Bia Dória

Karina Flores, Bruno,Kiko, João Doria Jr., Natália Guimarães e Leandro

Gabriela Gaspari

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Carlos Tolkian

Ramon Ronê

Ricardo Montoro

Márcio Moraes e Flávia Bravo

Lia Khei e Ana Medrado

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Fotos: Bruno Fraiha

Daniela Mercuri e Marco Scabia

Bia Dóriaa

José Henrique Reis Lobo

Romeu Tuma e Ana Cristina Machado Cesar

Moraes e Bravo Natália Noha

Ivo Wohnrath e Stella Theodorakis

Medrado do

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Erich Pelitz

Cristina Ferraz e João Armentano

João Miranda e Sonia Hess

Renata Bacha

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Social

Uma casa de espetáculos A La Musike inaugurou com a proposta de inovar a balada em São José. A casa noturna chegou cheia de estilo e com a promessa de eventos inusitados até dezembro. Já no dia de abertura, o empresário Ângelo Lima reuniu músicos como Priscila Coutto, Peleco, Fernanda e Fauze, Camerata Dominante e shows circenses do grupo Sem Máscaras, que se apresentou com malabaris e artes cênicas com o casal Rodolfo e Dorinha. Além de muita música, destaque para o espaço cultural com uma exposição especial da artista plástica Suzi Toledo.

Eder Grangeiro, da Camerata Dominante

Ângelo Lima Fernanda e Fauze

Peleco

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Alison Braga e Willian Roggles

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Fotos: Eugênio Vieira

Priscila Coutto

ominantee Márcio André Santos e Caio Franco

Alê Baldim e Adriana Siqueira

gelo Limaa

Braga e n Roggless

Patrícia Arantes

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Rodolfo Silva e Dorinha Santana

Adriano Ramires

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Social

O requinte do tempo São José dos Campos ganhou um lugar especial para quem gosta de luxo e decoração. Com um estilo refinado e romântico, projetado pelo arquiteto Luís Gustavo Martins, o Relicário Santo Antônio reuniu alguns nomes da sociedade para seu terceiro leilão de artes e antiguidades. Antes da disputa nos lances, com peças de porcelana, espelhos, tapetes e pratarias, um breve coquetel de boas vindas aos convidados. Os empresários Tânia e Marcos Carvalho, de Jacareí, inovaram no novo espaço situado em plena avenida São João. Fotos: Eugênio Vieira

Marcos Carvalho e Tânia

Lara Rigobello e Carla Menezes

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Ivan Mac

Newton Fernandes

Luiz Bittencourt

Márcia Tavernari

Ana Paula Yuan

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Fotos: Diego Migotto

Diáspora da arte O encontro de artistas plásticos na galeria Miriam Badaró, em Taubaté, recebeu Jorge Gutlich para mostrar um pouco da magia da arte de seu pai, o pintor holandês Johann Gutlich, um dos primeiros nomes a integrar o MAB (Museu de Arte Moderna), em São Paulo. Durante o evento, os convidados puderam conhecer parte do estilo de Gutlich em uma palestra que reviveu todo o momento histórico do trabalho desse artista, hoje referência na arte moderna, que viveu e morreu em São José dos Campos.

Denise Mendes e Elisa Surnin Saes

Marialine Tavares

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Neide Murad, Marília Badaró, Ana Gatti

Jorge Gutlich

Larissa Vieira e Flávio Vieira

Fernando Ito e Sérgio Badaró

Ronaldo Abraham

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Social

Um brinde entre amigas Nelza Salgado reuniu alguns nomes da sociedade joseense para brindar em seu atelier de beleza mais um aniversário. Na festa, nada de bolos e velas. O evento foi marcado pela especialidade de Nelza: um momento de beleza e, claro, dicas de moda. A har stilist foi presenteada pela presença de todas as suas belas amigas, que fizeram questão de prestigiar a data. O destaque do dia ficou para a modelo Fernanda Heringer, que aproveitou para renovar seu guarda-roupas com um belíssimo vestido de gala. Fotos: Aaron Kawai

Lorana Salgado e Vitória Pinheiro

Juliana Friggi

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Barbara Grandino

Renata Pinheiro

Nelsa Salgado

Lucima Motta

Fernanda Heringer

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Fotos: Eugênio Vieira

Entre a Serra e o Mar Os empresários João Ribeiro e Leda Vilhena reuniram 380 convidados em um almoço especial à beira-mar, em Caraguá, para a inauguração do Costa Nova Residence Club. Os convidados conheceram o espaço privilegiado pela localização: o condomínio de alto padrão fica entre a encosta da Serra do Mar e a praia de Massaguaçú –um visual perfeito para relaxar em dia de sol, como o escolhido para a inauguração. Estiveram no evento empresários de São José, Taubaté , Caçapava, São Paulo, Campinas e do Litoral Norte. Fotos: Francine Farfam

Inaiá Teixeira e Fábio Martini Proença

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Renata Vilhena

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Mariana Schicker Pedrosa Aidar

Marina Martini Proença

Bruna Vilhena Ribeiro

Silvana e Paulo Galvão

João Ribeiro e Leda

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Social

Coronel em: feijão e caipirinha Seis anos de tradição reuniu a turma do Bar do Coronel em mais uma megafeijoada. Desta vez, o local escolhido foi a Mansão Eventos, na zona Leste de São José, dos empresários Augusto Delfim Moreira e Eduardo Zinsly. Benê e Rogéria Córdoba seguiram a tradicional receita de sucesso do Coronel e conquistaram uma lista de fieis já para o próximo ano. A surpresa entre os convidados foi o jogador do São Paulo, Washington Stecanela, que apareceu por lá acompanhado de alguns amigos joseenses. A animação ficou por conta da banda Orfeu. Rogéria e Benê Córdoba

Augusto Delfim Moreira e Eduardo Zinsly

José Pedro Alcântara Neto, Roberta Alcântara e Pablo Rossi

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Ana Ribeiro

Junior Cárdia

Washigton Stecanela

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Fotos: Raquel Cunha

Diuale e João Paulo Córdoba

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Patrícia Moraes

Talita Campos

Sabrina Zinsly, Vanessa Scarpa e Cris Tardelli

Karen de Abreu Barbosa e Érika Nunes

or Cárdiaa

nela

Roberta Utida

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Heloisa Romão e Camila Cesar Silva

Aline Rodrigues

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Viva a Vida

Carlos Carrasco

Mundo fashion: o sonho e os desafios da profissão de modelo

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esolvi escrever sobre a profissão de modelo, uma das mais desejadas dos últimos anos. Mas porque será esse desejo? Dinheiro? Glamour? Gisele? Gisele Bündchen conheço bem, participei da carreira dela e de muitas outras modelos, como Adriana Lima, Isabel Goulart, Fernanda Tavares. Mas resolvi escrever porque recebo muitos e-mails de meninas de todo Brasil desejando, sonhando em ser modelo. Acho que sonhar é importante, mas com inteligência para não se arrepender depois. Sei exatamente como começa este movimento, esse desejo de ser modelo. O primeiro tem início em casa. Se tua mãe te acha linda e diz o tempo todo que você tem que ser modelo, te chama para mostrar a uma amiga ou alguém que você nunca viu na vida, esquece meu amor. Mãe não é parâmetro. A filhinha é sempre uma Gisele. O segundo ocorre quando você está no shopping, academia, supermercado, em qualquer lugar do planeta, e chega um ser maluco dizendo que você tem tudo para ser modelo. Escute o que ele tem para dizer e não se empolgue. Pegue o cartão do indivíduo, vai para a casa e pesquise na internet sobre a pessoa ou a empresa que ele representa. Normalmente, qualquer pessoa ou empresa ligada à moda está no Google ou tem um site super chique. Não caia em arapuca. O mercado fashion é serio, as agências são responsáveis e mantêm pes-

CARREIRA “Acho que sonhar é importante, mas é preciso sonhar com inteligência para não se arrepender depois” soas nas ruas em busca de novos rostos. Mas muitas vezes, oportunistas usam a tática para praticar o engano, já que as sonhadoras são fáceis de enganar. Uma agência quando realmente acredita em uma menina, enxerga nela um futuro no mercado, paga as despesas no começo da carreira. Mas não pense você que não vai te cobrar. Funciona mais ou menos como um empréstimo fashion. Agora, a candidata a über model que não convence a mesa de bookers tem que pagar todas as despesas do começo de carreira. O booker é a pessoa que fica o dia todo falando com clientes de todo o mundo em busca de trabalhos. Sua função, além de atender o cliente da agência, é cuidar da modelo, da carreira dela. As modelos são produtos, que vão vender outro produto –o do cliente. Está confusa? É, meu bem, a engrenagem da moda é complicada e cheia de surpresas. Você precisa de um book (álbum de fotografias feito por profissionais), de uma pele cuidada, limpa e sem imperfeições, cabelos hidratados e um corte atual, se vestir o mais natural possível, e, o item mais importante, ter sorte. Com tudo isso, é só começar a trabalhar muito. Mas não pense você que é glamour

puro. Modelos acordam muito cedo para se preparar para uma foto ou comercial de TV. Tem maquiagem, cabelo, provar roupas e, só depois, começar a trabalhar. E não pense que é rápido. Muitas vezes trabalham até 18 horas por dia, dormem 2 ou 3 horas e ainda tem que ser linda. Consegue ver glamour em 18 horas de trabalho? Bom, conseguirão lugar ao sol quem tiver mais de 1,73 metro de altura, de preferência 1,79 metro, pesar 53 quilos, ter entre 87 e 89 cm de quadril, mais ou menos 90 cm de busto e muita, mais muita sorte. Se você se enquadra neste perfil pode ser uma grande modelo. Caso contrário, a sorte, que já é necessária, tem quer multiplicada por 1 milhão ou mais. Então, querida, é melhor estudar. Existem muitas profissões dentro da moda. Ninguém fora do padrão da moda tem seu lugar na passarela ou nas revistas –só se você for a sortuda do século ou tiver uma personalidade exclusiva, única e admirada por alguém do mundo da moda, que será o seu padrinho ou madrinha. Ser modelo não é só ter um rosto bonitinho ou ser alta e magra. É o conjunto da obra que faz a diferença. Boa sorte! •

Carlos Carrasco cabeleireiro

carrasco@valeparaibano.com.br

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Fotos ilustrativas

Confiança se conquista com o Tempo E foi com a confiança da população de São José dos Campos que a Helbor construiu uma história de sucesso na relação de uma incorporadora imobiliária com uma comunidade. Nossos empreendimentos residenciais e comerciais traduzem o compromisso que temos com o trabalho, a inovação e o respeito com os nossos clientes e com o mercado. De olho no futuro, reafirmamos nosso papel de estar ao lado de quem aposta na força e no desenvolvimento dessa cidade. O Vale Paraibano já faz parte da história dessa cidade.

www.helbor.com

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32 anos de experiência Presença em 25 cidades, 10 estados e o Distrito Federal 1 milhão e 300 mil m2 construídos

Passado, presente e futuro ao seu lado.

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Revista valeparaibano - Agosto 2010