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Amor ou vida Henry ou seu filho

O fim de sua família ou o fim do mundo. KATE DEVE ESCOLHER. Durante nove meses de cativeiro, Kate Winters sobreviveu a uma deusa ciumenta, um Titan vingativo e uma gravidez que ela nunca pediu. Agora, a Rainha dos Deuses quer seu filho a nascer, e Kate não pode impedi-la, até que Cronus oferece um negócio. Em troca de sua lealdade e devoção, o Rei dos Titãs poupará a humanidade e deixará Kate manter seu filho. No entanto, mesmo se Kate concorde, ele vai destruir Henry, sua mãe e o resto do conselho. E se ela se recusar, Cronus irá destruir o mundo até que o último deus e mortal estejam mortos. Com o destino de todos que ela ama descansando em seus ombros, Kate tem que fazer o impossível: encontrar uma maneira de derrotar o ser mais poderoso que existe, mesmo que isso custe-lhe tudo. Mesmo que isso custe a sua eternidade. 2


Prólogo Ao longo de sua vida eterna, Walter tinha presenciado inúmeros verões, mas nunca um tão infinito quanto este. Ele se sentou atrás de sua mesa de vidro, de cabeça baixa, enquanto lia a petição diante dele, assinada por quase todos os deuses e deusas menores espalhados por todo o mundo. Cada um prometeu ficar de lado e permitir que Cronus exercesse sua supremacia desde que significasse que não haveria guerra. Nenhum deles parecia entender que eles já estavam no meio de uma. Por que eles iriam? Ele e os demais membros do conselho tinham feito o seu trabalho em proteger o mundo da destruição de Cronus, mas não duraria muito mais tempo. Quando Cronus finalmente se libertasse de sua prisão na ilha no Mar Egeu, a petição seria o que era: um pedaço inútil de pergaminho cheio de nomes de quem seria o primeiro a morrer. — Papai? Ele exalou e endireitou-se, preparado para repreender quem se atreveu a perturbá-lo, mas ele parou. Sua filha estava na porta, seu cabelo dourado como o 3


sol perpétuo que derramava pelas janelas atrás de Walter. Ela era a única pessoa que ele não iria se afastar. Ele colocou a petição de lado. — Ava, minha querida. Eu não estava esperando você até de manhã. Há notícias? A luz deu a sua pele a ilusão de cores, mas seus olhos estavam sem brilho e seu rosto apertado. Observando-a deteriorar-se desde o solstício de inverno tinha sido a coisa mais difícil que Walter já tinha feito, mas ele não tinha escolha. Foi para o bem maior, e por enquanto o bem maior superou tudo, até mesmo a saúde de sua filha. — Iris está morta, — disse ela, e Walter parou. Uma grande tristeza que ele não sentia há séculos o encheu, e a luz do sol perpétuo parecia escurecer. — Como? — Disse ele, lutando para manter a voz firme. Ele havia reconhecido que o envio de seu mensageiro para tentar mediar um cessar-fogo com Cronus era perigoso, como sabia Iris. Era a guerra, e haveria vítimas. Mas ela estava disposta a correr esse risco, e ele não tinha imaginado que Cronus iria tão longe contra um embaixador. — Nicholas terminou a arma há uma hora, — disse ela. — Calliope queria testá-la. Walter apertou os lábios. Ele não tinha imaginado que fosse possível, mas as habilidades de seu filho eram maiores do que ele mesmo tinha estimado, — existe um corpo? — Calliope atirou-a para o oceano, — disse Ava, — eu a trouxe de volta para a sequência adequada. Engolindo com força, obrigou-se a acenar com a cabeça. — Muito bem. Obrigado, minha querida. Eu sei o risco que foi para você. E por causa disso, eu devo insistir que não faça tal coisa no futuro. Ava hesitou, mas depois de todo o seu planejamento, depois de todas as suas apostas, ele sabia que ela não podia negar-lhe agora. Por fim, ela concordou. — Sinto muito. Walter abriu os braços, e Ava atravessou a sala para enrolar-se em seu colo. Ele a envolveu, uma casca da filha que ele conhecia, e enterrou o nariz em seu cabelo. — Eu sou aquele que está arrependido, minha querida, mas vamos fazer o que devemos fazer para vencer. Há notícias de Kate? — Calliope diz que vai acontecer amanhã. Enfim, alguma coisa estava indo bem, — então, a nossa espera acabou. — Não importa, — ela murmurou em seu ombro. — Tem sido muito tempo. Ela perdeu a esperança tempos atrás. Nove meses. Esse foi o tempo que Walter tinha estado trancado em um jogo de estratégia e decepção com o ser mais poderoso da Terra. A partir do solstício de inverno para o equinócio de outono, ele carregava o peso do mundo em seus ombros enquanto escondia sua carga entre os membros restantes do conselho. 4


Com a deserção de Henry, todos estavam cientes de que suas chances de ganhar contra Cronus tinham ido de quase nulas a nenhuma. Ava era a sua última esperança de trazer Henry para o seu lado. — E você, minha querida? — Ele tirou uma mecha de cabelo da frente dos olhos dela. Nem mesmo o cansaço do ano passado poderia diminuir sua beleza. Quando Ava não respondeu de imediato, ela confirmou suas suspeitas. Ele tinha visto ela murcha diante dele, mas ela nunca tinha de bom grado mostrado seu desespero. Ela sabia as apostas. Ela sabia por que não podiam falhar. — Eu vou dizer a ele. A princípio, ele pensou que tinha ouvido mal, mas quando ela se afastou, seus olhos azuis de aço, ele sabia que não tinha. — Você sabe que não deve, — disse ele tanto com a repreensão suave de um pai e de comando de um rei. — Temos trabalhado muito para arriscar tudo agora. — Eu pensei que era apenas Kate. — Seu rosto ficou manchado como fazia quando ela estava prestes a chorar, e algo puxou dentro dele. O desejo paterno para impedi-la de se machucar. Mas o que ele poderia fazer quando suas ações eram totalmente necessárias para prevenir dor ainda pior do que a que ele estava causando nela? — Eu nunca teria concordado se eu soubesse que ela estava grávida. Você sabe disso. — Sim, eu sei, — ele correu os dedos pelos cabelos para acalmá-la, mas ela deixou escapar um soluço asfixiante. — Sinto muito. Ela afastou-se dele e tropeçou em seus pés. — No momento em que Kate der à luz, Calliope vai matá-la, você sabe disso. E você vai deixar isso acontecer de qualquer maneira. — Talvez não, — ele respondeu. — Você mesmo disse que Cronus tomou um gosto por ela. Talvez isso seja o suficiente. — Talvez? — Disse Ava, meio selvagem com frustração. — Você está arriscando tudo nesse talvez, papai. Você não sabe ao certo o que vai acontecer, e aquele pobre bebê— Devemos fazer tudo o que pudermos para garantir que venceremos essa guerra, não importa o que cada um de nós deve sacrificar. — Não importa quantos tinham que morrer. — Agora não é o momento para se segurar. — Não é o momento para riscos desnecessários e erros por descuido também, — ela atacou em direção à porta, — eu vou dizer a Henry tudo. — Ava. Sua voz ecoou pelas paredes do palácio, balançando a própria fundação do Olimpo. Qualquer vestígio de afeto paterno tinha ido embora. Era o comando de um rei. Ava parou. Ela não tinha escolha, não depois de eras de obediência, e Walter sentiu uma pontada de culpa ao falar com ela de tal forma depois de tudo o que ele tinha a feito passar. Era necessário, no entanto. O destino do mundo dependia disso. — Você não vai dizer, — disse ele. — Não até que Kate dê a luz. 5


— Qual é a diferença entre dizer a ele agora e dizer-lhe amanhã? — Disse Ava trêmula, mas ela se manteve firme. De qualquer outra pessoa, responder teria apenas irritado Walter, mas ele estava simplesmente feliz por ver que ela tinha alguma luta sobrando. — Ele não vai parar até que ele tenha Kate de volta, — disse Walter. — Mas quando o fizer, ele vai voltar para o Submundo e protegê-la com toda a força, e ele continuará a não se envolver em nossa guerra. Seus olhos se arregalaram, — espera – você está usando o bebê como isca? — Eu farei o que for preciso para trazer Henry para a guerra, — disse Walter. — Uma vida não vale a pena perder tudo. Ava olhou para ele como se ela não o reconhecesse. Embora Walter raramente experimentava o medo, ele corria desconfortavelmente através dele, como lodo em suas veias em vez de sangue imortal. — É um bebê, — disse ela. — Você não pode só... É uma criança. — Se Henry não participar na guerra, então milhões de crianças vão morrer, — disse Walter. Ela tinha que entender; esta não era uma questão de obediência e orgulho, — eu percebo o quão difícil é para você, minha querida. — Você sabe? — O veneno em sua voz o fez cair curto. Ele nunca tinha a ouvido falar assim com alguém antes, muito menos ele, seu pai. Seu protetor. O seu rei. — A culpa é minha que Kate está lá em primeiro lugar. Esse bebê pode morrer por minha causa. — Eu farei tudo o que puder para garantir que isso não aconteça, — disse Walter. — Uma vez que isto acabar— Você acha que isso alguma vez vai acabar? — Assobiou Ava. — Quando o conselho descobrir que está arriscando o filho de Henry para envolvê-lo, quem eles irão culpar, papai? Eu ou você? — Eu vou informar o conselho do meu papel, — disse Walter. — O único papel que o conselho vai ver é o que eu participei, e eu vou corrigi-lo antes que o bebê morra e eu realmente perca todos que eu amo. Walter se ergueu em toda sua estatura. Ele pode ter parecido como um homem velho, mas ao lado dos Titãs, ele era o ser o mais poderoso do mundo, e ele nunca deixaria ninguém esquecer. Mesmo sua filha, — eu proíbo-a. Ava riu, mas não era a risada de alguém que encontrou qualquer alegria na vida; em vez disso, estava cheia de autoaversão e desesperança. — Tarde demais. Antes que Walter pudesse dizer uma palavra, um grito de cortar o coração cheio de agonia rasgou de dentro da terra e tocou em todo o Olimpo. — Ele sabe, — disse Ava, e sem dizer uma palavra, ela escorregou pela porta e fechou-a atrás de si.

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Capítulo 1 Nascimento Henry. Eu pulei na posição vertical na escuridão. Minha testa estava molhada de suor, o sonho desapareceu, mas seu grito me envolveu, fixando em minha memória. Outra visão, uma das dezenas que eu tive desde que deixei o Submundo há uma eternidade. Desta vez, porém, eu não estava assistindo Henry ir sobre sua vida como governante dos mortos, enquanto esperava por eu voltar. Eu não estava junto, impotente, quando Ava deu a Henry falsas atualizações sobre onde na África que estávamos supostamente à procura de Rhea. Finalmente Henry sabia o que realmente tinha acontecido, e nos minutos antes de amanhecer durante a noite, eu me agarrei à esperança de que não fosse tarde demais. — Um pesadelo, minha querida? 7


Eu tremi, e as velas espalhadas por toda a minha prisão acenderam. Cronus se sentou ao lado da minha cama, na mesma cadeira que ele ocupava todas as noites desde o final de dezembro, quando eu acordei com uma dor de cabeça latejante e memórias que eu queria que fossem pesadelos. Isto não foi um pesadelo, no entanto. Cronus estava ali, lado a lado com a rainha dos deuses, que iria parar em nada para me machucar tanto quanto ela podia. O bebê agitou-se dentro de mim, sem dúvida, infeliz com o seu despertar rude. Eu não me atrevia a especular sobre se era um menino ou uma menina. Se Calliope tivesse seu caminho, eu nunca poderia saber, e essa dor de cabeça já era mais do que eu poderia tomar. Eu coloquei uma mão na minha barriga inchada, tão grande que os movimentos mais simples eram difíceis agora, e tentei mentalmente acalmar ele. — Você não ouviu isso? — Eu disse com a voz rouca. — O meu filho? É claro, — disse Cronus, estendendo a mão para o meu estômago. Dei um tapa na mão dele, e ele riu. — Parece que os jogos estão prestes a começar. — Que jogos? — Eu sabia a resposta antes que eu tivesse feito a pergunta, no entanto. Meu sonho, minha visão, era o equinócio de outono, e, finalmente, Henry sabia que eu estava sumida. Uma dor aguda veio das minhas costas ao meu abdômen, e eu engasguei. Cronus estava ao meu lado em um instante, exatamente do jeito que Henry teria estado se ele estivesse aqui. Eu me virei. — Calliope decidiu que vai acontecer hoje, — ele murmurou, e sua voz teria sido reconfortante, se não tivesse vindo dele. — Decidiu que o quê iria acontecer hoje? — Eu me esforcei para ficar de pé e ir ao banheiro, mas as minhas pernas cederam. As mãos frias de Cronus estavam lá para me firmar, mas assim que eu estava de volta na cama, eu me afastei dele. — Que o seu filho iria nascer. Todo o ar deixou meus pulmões, e desta vez não teve nada a ver com a dor física. Ele estava blefando. Eles estavam tentando me assustar em trabalho de parto antes de Henry me resgatar, ou algo assim. Mas quando eu me inclinei para trás, minha mão encontrou uma mancha molhada no colchão, e minha camisola úmida agarrou a parte de trás das minhas coxas. Minha bolsa d’água tinha rompido em algum momento da noite. Estava realmente acontecendo. Nove meses de espera. Nove meses de medo. Nove meses de tempo de ser a única coisa permanente entre Calliope e o bebê que eu estava carregando, e agora tudo estava acabado. Eu não estava pronta para ser mãe. Nunca em um milhão de anos eu tinha imaginado ter filhos antes de completar trinta anos, muito menos de vinte. Mas Calliope não tinha me dado uma escolha, e a cada dia que passava, o pavor doente dentro de mim cresceu mais espesso até que quase me sufocou. Calliope levaria o bebê de mim, e não havia nada que eu pudesse fazer sobre isso. Em questão de 8


horas, eu perderia o meu filho – filho de Henry – para alguém que não queria nada mais do que me ver sofrer. Mas agora ele sabia. Agora havia uma chance, se eu pudesse esperar um pouco mais até que Henry viesse. Cronus deve ter visto a expressão no meu rosto, porque ele riu e ajeitou um travesseiro para mim. — Não se preocupe, minha querida. Calliope não pode matála, a menos que eu a permita, e garanto que eu nunca iria machucá-la. Não era isso que me preocupava. — Você não vai me machucar, mas você vai deixar Calliope fazer isso, — eu cuspi. — Você vai deixá-la levar o bebê no momento em que ele nascer, e eu nunca vou vê-lo novamente. Cronus olhou para mim sem entender. Esses eram os momentos que eu me lembrava que, apesar de sua forma humana, ele não era nada. Ele não entendia por que eu amava tanto o bebê. Ou, quando eu tinha dado a Calliope muita atitude e ela bateu-me na boca, por isso que eu instintivamente cobri minha barriga. Ele não entendia o quanto o pensamento de ser separada do bebê me machucava antes de eu sequer conhecer ele ou ela. Então, novamente, Cronus também era o monstro que tinha tentado destruir seus próprios filhos, então eu suspeitava que empatia era demais para esperar. — Se você quiser ficar com a criança, tudo que você precisa fazer é dizer a palavra, — disse ele, como se fosse assim tão simples. Talvez para ele fosse, — eu vou garantir que Calliope não fique no caminho. Em troca, tudo que eu peço é que você governe ao meu lado. Não era a primeira vez que ele fazia essa oferta, e não era a primeira vez que, por um momento, eu cogitava a possibilidade. Como o nascimento do bebê se aproximava, dizer não parecia mais e mais difícil. Cronus não fez segredo do fato de que ele me queria como sua rainha enquanto ele governava sobre todo o mundo, destruindo todos os que se atreviam a entrar em seu caminho. Eu não tinha ideia de por que - o pouco de compaixão que eu tinha lhe mostrado no Submundo, talvez, ou porque eu não tinha lutado com ele na primeira guerra, mas isso não importava. Eu estaria a salvo da destruição, e assim o bebê. Henry, no entanto, seria a primeira pessoa que Cronus acabaria, e todo o mundo viria a seguir. Por mais que eu amasse este bebê, tanto quanto eu teria feito qualquer coisa para mantê-lo seguro, eu não poderia estar ao lado de Cronus enquanto limpava a humanidade. Eu não poderia fazer nada enquanto ele matava até a última pessoa que eu amava, e se eu concordasse, ele iria me manter viva até o fim de todas as coisas. Eu não teria a opção de morrer como Persephone tinha, e eu não poderia viver com essa culpa não importava o quão feliz e seguro meu bebê estivesse. Mas o tempo estava se esgotando. O jogo tinha mudado agora que o conselho sabia que eu tinha ido embora, e se eu pudesse manter Cronus

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adivinhando tempo suficiente para não machucar ninguém, então talvez daria ao conselho uma chance de encontrar Rhea. Então eu menti. — Prometa que não vai matar ninguém, e eu vou pensar sobre isso. Ele sorriu, mostrando um conjunto completo de dentes de pérola. Cronus tinha o sorriso de uma estrela de cinema retocada, e isso só o deixava mais enervante. — É assim mesmo? Muito bem. Concordo e vou deixar a humanidade sozinha. Minhas brigas não são com eles, e é preciso ter assuntos quando um governa. — Eu disse ninguém. — retruquei. — Não só a humanidade. Você não pode matar o conselho também. Cronus me olhou, e eu prendi a respiração, esperando contra toda a esperança que eu valia a pena isso para ele. Eu tinha que comprar ao conselho mais tempo. — Certamente você entende por que meus filhos devem ser contidos, mas eu estaria disposto a... considerar, dependendo da natureza do nosso relacionamento. No quanto você está disposta a dar, — ele passou os dedos pelo meu cabelo, e eu reprimi um arrepio. — Você e eu, juntos por toda a eternidade. Imagine-se, minha querida, a beleza que iriamos criar. E, claro, o seu filho vai conhecer o seu amor, e você nunca terá que dizer adeus. Fechei os olhos e imaginei o momento em que eu finalmente conseguiria segurar ele ou ela. O bebê teria cabelo escuro, eu tinha certeza disso, e olhos claros como eu e Henry. Bochechas rosadas, dez dedos, dez dedos do pé, e eu o amaria instantaneamente. Eu já o amava. — Você seria uma mãe, — ele murmurou, sua voz como a chamada de uma sereia. — Para sempre ali para amá-lo, alimentá-lo, para criá-lo em sua imagem. E eu seria o pai. O feitiço que ele tinha sobre mim quebrou, e meus olhos se abriram. — Você não é o pai desse bebê, — eu disse quando outra onda de dor tomou conta de mim. Isto foi muito rápido. Contrações deveriam vir lentas e durarem por horas, minha mãe tinha estado em trabalho de parto por mais de um dia quando eu nasci. Cronus se inclinou até que seus lábios estavam a centímetros dos meus. Eu franzi o nariz, mesmo que seu hálito cheirava como uma brisa fria de outono. — Não, eu não sou. Eu sou muito mais. A porta se abriu, e Calliope invadiu. Ela tinha envelhecido progressivamente ao longo dos últimos nove meses, até os ângulos de seu rosto tornaram-se mais acentuados, e ela tinha crescido vários centímetros para levantar-se acima de mim. Enquanto Cronus parecia Henry, com seu longo cabelo escuro e olhos cinzentos que estalavam com relâmpagos e nevoeiro, Calliope agora parecia minha mãe. Como uma versão loira mais velha de mim. E eu a odiava ainda mais por isso. — O que está acontecendo? — Ela disse, e eu consegui um leve sorriso. Aparentemente, ela tinha ouvido algo que ela não gostou. — Nada para você se preocupar, — disse Cronus quando ele se endireitou, embora seus olhos não deixaram os meus.

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— Cronus estava me fazendo uma oferta interessante, — eu disse, soando mais corajosa do que eu sentia. — Acontece que ele não vai me alimentar para os peixes como você quer. Seus lábios se torceram em um grunhido, mas antes que pudesse dizer uma palavra, Ava passou correndo por ela carregando uma cesta grande cheia de cobertores e outras coisas que eu não poderia distinguir à luz das velas. — Sinto muito, — disse ela, o rosto corado. — Já era hora, — retrucou Calliope, e ela se concentrou em mim novamente, — eu teria cuidado se fosse você, Kate. Eu tenho um novo brinquedo, e eu estive ansiosa para experimentá-lo em você. — O novo brinquedo? — Eu disse entre dentes. Calliope deslizou para o lado da minha cama. — Eu não lhe disse? Nicholas generosamente doou seu tempo e conhecimento para forjar uma arma que vai me deixar matar um deus. Seu timing não poderia ser melhor. Meu sangue gelou. Nicholas, o marido de Ava, havia sido sequestrado no solstício de inverno durante a batalha. Até agora, ninguém disse uma palavra para mim sobre ele. — Isso é impossível, — eu soltei. Nada além de Cronus poderia matar um imortal. — É mesmo? — Disse Calliope com um sorriso malicioso. — Você está disposta a apostar a vida do seu doce querido pequeno sobre isso? Meu coração caiu. Ela ia matar o meu bebê? — Ava? — Eu disse, minha língua pesada na minha boca. Mordendo o lábio, Ava colocou a cesta no chão ao pé da cama. — Sinto muito. O quarto girou em torno de mim. Isto era apenas mais um jogo. Calliope estava tentando me assustar, usando as pessoas que eu mais amava contra mim, e desta vez a minha suposta melhor amiga estava jogando junto. E se não era um jogo, entretanto? Calliope tinha jurado que tiraria a coisa que eu mais amava, e no momento eu pensei que ela quis dizer Henry e o resto da minha família. Mas ela falava do bebê. Ela estava prestes a obter tudo o que ela queria de mim, não havia motivo para ela mentir. E a maneira como Ava não podia sequer olhar para mim... Minha garganta inchou até que eu mal podia respirar. — Saia. Ava piscou. — Mas alguém tem de estar com você. — Eu prefiro ter Calliope aqui do que você, sua vadia traidora, — eu cuspi. — Saia. Seus olhos lacrimejaram, e para minha satisfação, ela fugiu, deixando-me sozinha com Cronus e Calliope. Ava merecia isso. Ela sabia o que isso significaria, que Calliope tinha a intenção de matar o meu bebê. E se Calliope realmente forçou Nicholas a forjar uma arma, se Ava havia distraído o conselho nos últimos nove meses, para dar-lhe tempo suficiente.

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Eu não me importava o quanto em perigo Nicholas estava. Ele era filho de Calliope, e não importava quão terrível pessoa que ela era, eu não podia imaginála matando o seu próprio filho. Mas ela ia matar o meu bebê sem pensar duas vezes, e Ava sabia o tempo todo. Mesmo que as nossas posições fossem invertidas, mesmo se fosse Henry que Calliope mantivesse refém, eu nunca, nunca faria isso com Ava. Eu nunca a trairia e permitiria Calliope matar seu filho. — Isso não foi muito legal, — disse Calliope em uma voz melodiosa, e meu estômago revirou. Ela não podia matar o bebê. Eu não iria deixá-la. — Preciso fazer xixi, — eu disse, empurrando-me para cima. Calliope fez um gesto vago e se ocupou com a descompactação da cesta. Cronus me ofereceu sua mão, mas eu desconsiderei. — Eu acho que posso ir ao banheiro sozinha, — eu disse. Cruzar o quarto não tinha sido fácil desde agosto, e meu corpo ficou tenso com cada passo que eu dava, mas eu fiz. Minha prisão não era exatamente chique, embora não fosse uma cela de concreto com um colchão fino e banheiro sujo também. Era um quarto simples, com um banheiro anexo, e estava a vários andares para cima, fazendo uma fuga pela janela impossível. Eu poderia ter sido imortal, mas eu não tinha a menor ideia se o bebê era. E se Calliope realmente tinha uma arma que podia matar um deus, não importava de qualquer maneira. Eu tentei fugir várias vezes quando eu ainda estava móvel o suficiente para ter uma chance, mas entre Cronus, Calliope e Ava, alguém sempre esteve lá para me parar. Eu tinha chegado até a praia uma vez, mas eu não sabia nadar e eles sabiam disso. O conselho podia ter pretendido esta ilha a ser prisão de Cronus, mas era a minha agora, também. Fechando a porta atrás de mim, sentei-me na borda da banheira e segurei minha cabeça em minhas mãos. Frustração subiu dentro de mim, ameaçando derramar em um grande soluço, mas eu o engoli. Eu precisava de um momento, e chorar só faria Calliope vir atrás de mim. — Henry, — eu fechei os olhos e tentei imaginar ele. — Por favor. Ajudenos. Finalmente eu afundei na minha visão. Depois de quase um ano neste buraco, eu tinha aprendido a controlá-las, mas eu ainda lutava para torná-lo o suficiente para vê-lo. Três paredes douradas se formaram em torno de mim, e o quarto virou um longo painel de janelas muito parecido com a sala no palácio de Henry. Mas em vez de rocha negra, eu vi o céu azul sem fim através do vidro, e a luz do sol derramando, iluminando tudo. — Você fez isso. — O som da voz de Henry me chamou a atenção, e eu me virei. Ele tinha Walter pelas lapelas, e seus olhos ardiam de raiva e poder que eu nunca tinha visto antes. — Tinha que ser feito, — disse Walter vacilante. Mesmo ele parecia com medo. — Nós precisamos de você, irmão, e se isso é o que é preciso para fazer você ver isso12


Henry jogou Walter contra a parede com tanta força que a fraturou, deixando uma teia de rachaduras para trás. — Eu vou ver você pagar por isso, nem que seja a última coisa que eu faça, — ele rosnou. — Chega. — A voz da minha mãe soou, e os dois irmãos se viraram para ela. Ela estava pálida, e ela cruzou as mãos na frente dela do jeito que ela fazia quando ela estava tentando manter-se sob controle — Vamos resgatar Kate. Ainda há tempo, e quanto mais nós perdermos— Nós não podemos arriscar nossos esforços pela vida de um, — disse Walter. — Então eu vou, — rosnou Henry. Walter balançou a cabeça. — É muito perigoso para você ir sozinho. — Ele não vai estar sozinho, — disse minha mãe, — e se você valoriza o seu domínio sobre o conselhoOs músculos em minhas costas e barriga contraíram, e a dor me tirou da minha visão. De volta ao banheiro, deixei escapar um soluço suave. Minha mãe estava errada, estávamos sem tempo. O bebê estava vindo, não importava o quão duro eu tentei esperar. Calliope iria matá-lo, e não havia ninguém aqui para detêla. Querendo ou não ninguém veio, não havia maneira de sair dessa. Mesmo que Henry e minha mãe atacassem a ilha, não havia garantia de que iria romper as defesas de Cronus, e aí já seria tarde demais de qualquer maneira. O bebê me cutucou por dentro, e eu me forcei a puxá-lo junto. Eu tinha que fazer isso. Eu não poderia quebrar. A vida do bebê dependia disso. — Sinto muito, — eu sussurrei, pressionando suavemente contra o local onde ele tinha me chutado, — eu amo você, ok? Eu não vou parar de lutar até que você esteja seguro, eu prometo. Alguém bateu na porta, e eu pulei. — Não pense que você vai dar à luz na banheira, — disse Calliope. — Você não vai ter esse bebê até eu dizer que você vai. — Só um minuto, — eu chamei, e eu fiquei o tempo suficiente para ligar a torneira e abafar meus sussurros no caso dela estar escutando. Não seria muito boa, mas a ilusão de privacidade teria que ser o suficiente por agora. Flexibilizando de volta para a borda da banheira, eu esfregava minha barriga. — Seu pai é muito bom, e você vai poder vê-lo em breve, ok? Ele não vai deixar Calliope fazer isso com você também, e ele é muito mais poderoso do que eu. A família toda é. Hoje provavelmente vai ser assustador, e vai doer - bem, vai me machucar, eu não vou deixá-los te machucar - mas no final, vai ficar bem. Eu prometo. Não foi uma promessa vazia. Mesmo se eu tivesse que morrer no processo, Calliope não tocaria meu bebê. Não importava o que acontecesse, eu teria certeza disso. *** O trabalho de parto progrediu tão rapidamente que eu quase não consegui sair do banheiro. Calliope não me deu nada para ajudar, sem medicação ou 13


palavras de incentivo, e apesar de Cronus permanecer ao meu lado, ele não disse nada enquanto minhas contrações ficaram cada vez mais próximas. Eles tinham que saber que os outros estavam chegando. Não havia outra razão para forçar o bebê a sair assim, e eu não poderia imaginar Calliope perdendo a chance de me fazer doer tanto tempo quanto possível, a não ser que era terrível. Recusei-me a gritar. Mesmo nos momentos finais do trabalho de parto, quando o bebê atravessou meu corpo, eu cerrei minha mandíbula e empurrei através da dor. Desde que eu me tornei imortal, a única coisa que tinha me ferido foi Cronus, e, aparentemente, o parto foi outra exceção. Meu corpo estava fazendo isso para si mesmo, e a imortalidade não ia parar. No momento em que o bebê me deixou, eu senti como se meu coração tivesse sido arrancado do meu peito e agora descansava nos braços de Calliope. Ela se endireitou, e um nó se formou na minha garganta enquanto eu vi a enrugada, criança sangrenta que segurava. — É um menino, — disse ela, e ela sorriu. — Perfeito. De alguma forma, apesar das palavras que eu sussurrei para ele, as horas que passei sentindo os chutes, e os meses que o carreguei, ele nunca me pareceu completamente real. Mas agora... Esse era o meu filho. Esse era o meu filho, e Calliope iria matá-lo. Ela não precisou de ferramentas para cortar o cordão ou terminar o resto do nascimento sujo; num piscar de olhos, tudo estava limpo, e o bebê estava enrolado em um cobertor branco. Como se ela tivesse feito isso milhares de vezes antes, ela embalou e se levantou, deixando-me sozinha na cama. — Espere, — eu disse com a voz embargada. Eu estava exausta e encharcada de suor, e apesar da dor, eu lutei para levantar. — Você não pode... por favor, eu vou fazer de tudo, só não machuque o meu filho. Os lamentos dele, tão pequenos e indefesos, encheram a sala, e meu coração se desintegrou. Todos os ossos do meu corpo exigiram que eu levantasse, que eu fosse com ele e o salvasse da dor que o aguardava, mas eu não podia me mover. Quanto mais eu lutava, mais eu congelei, e mais o meu corpo doía. Calliope olhou para mim, os olhos brilhantes e cheios de malícia. Ela estava gostando disso. Ela estava curtindo a minha dor. — Isso não é para você decidir, querida Kate. Na borda da minha visão, eu vi Cronus mover. — Você não vai machucar a criança, — disse ele, em voz baixa e cheia de trovões. — Isso não é um pedido. Os olhos dela se estreitaram. Ela iria desafiá-lo. Usar o meu filho para provar a dominância - que ela era a única no controle. Mas ela não era, e ela sabia disso. E, pela primeira vez desde que eu tinha ouvido falar do Rei dos Titãs, eu estava grata por ele. — Tudo bem, — ela disse em uma voz irritada, como se ela só o deixou ganhar porque ela queria. Nós duas sabíamos a verdade. — Eu não vou matá-lo.

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Alívio passou por mim como uma droga, e eu soltei a respiração que eu estava segurando. Por causa de Cronus, ele viveria. — Por favor, posso... posso segurar o meu filho? — Seu filho? — Seus braços apertaram em torno do bebê, e uma paródia de um sorriso curvou em seus lábios. — Você deve estar enganada. A única criança neste quarto pertence a mim. Sem outra palavra, ela entrou pela porta em uma nuvem de vitória, deixando-me esvaziar e completamente sozinha. Ela não iria tomar a sua vida, isso significava que ainda havia tempo. Mas quanto tempo levaria antes que ela se cansasse de obedecer Cronus e matasse o bebê só para me ver sangrar? Eu tinha que chegar até ele. Eu tinha que salvá-lo. Mesmo que Calliope não tocasse em um fio de cabelo da cabeça dele, o pensamento dele estar sendo criado por esse monstro, torceu em algo preto e irreconhecível – se o meu tempo no Submundo tinha me ensinado uma coisa, esse tipo de vida era infinitamente pior do que a paz da morte. O desespero arranhou-me, me rasgando de dentro para fora, e eu lentamente me virei para Cronus. Sua rainha. Minha vida, minhas escolhas, minha liberdade pela do meu filho. — Por favor, — eu disse, soluçando, — eu vou fazer qualquer coisa. Ele roçou seus dedos frios em meu rosto manchado de lagrimas, e desta vez eu não me afastei. — Qualquer coisa? As palavras eram como facas na minha língua, mas eu as disse de qualquer maneira: — Qualquer coisa, — eu sussurrei. — Salve-o e eu sou sua. Cronus se inclinou para mim, parando quando seus lábios estavam a apenas alguns centímetros dos meus. — Como quiser, minha rainha. Fogo se espalhou pelo meu corpo, calor substituindo as dores do parto queimando quando Cronus me curou. Valeu a pena. Henry iria entender, e de alguma forma, de alguma maneira, eu o uniria com o bebê. Tonta com esperança, sentei-me e toquei minha barriga lisa. De alguma forma Cronus tinha retornado meu corpo para a forma como tinha sido antes de eu engravidar, e a falta do inchaço da minha barriga e no peito foi desorientador. Por que não me deixou com a capacidade de alimentar o bebê? Porque ele sabia que não faria diferença? Mas antes que eu pudesse dizer uma palavra, o mundo começou a tremer. — O que... — comecei, segurando a borda do colchão, mas algo no canto me chamou a atenção. O céu da minha janela estava banhado em uma luz dourada não natural, e em torno de nós toda a ilha tremeu violentamente. — Eu vou voltar, minha querida, e depois vamos estar juntos, — disse Cronus. Ele apertou seus lábios frios em meu rosto, e em um instante ele se foi, mas eu não me importei.

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Ao longe, uma nuvem negra se aproximava, chiando com relâmpagos. Embora o próprio Cronus não conseguisse escapar da ilha, atravessou a barreira que o conselho tinha criado como se fosse nada, e eu vi a silhueta de um homem em cima dela. A esperança cresceu dentro de mim, e eu não tinha que ver seu rosto para saber quem era a figura escura. Henry.

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Capítulo 2 Sangue e Pedra

Durante nove meses, eu tinha sonhado com este momento. Em minhas visões eu assisti Henry ir sobre suas tarefas do dia-a-dia, esquecendo-se o que estava acontecendo, enquanto esperava que eu voltasse para casa, e eu desejava com todas as fibras do meu ser para ele perceber que algo estava errado e vir atacando pelas portas da minha prisão. Eu queria tanto que eu sofria com a necessidade de deixar a ilha, para deixar Calliope e Cronus e todos os meus maiores medos para trás. Agora eu poderia finalmente ter a chance, e eu não podia ir. Não importava o que estava esperando lá fora por mim – Henry, minha mãe, uma família, uma guerra para ganhar, eu não poderia deixar o meu filho. Henry voou em direção ao palácio, e eu procurei o céu atrás dele pelos outros membros do conselho. Nada mais que o dourado não natural. Meu peito se 17


apertou. Ele não podia estar sozinho. Ele não era tão descuidado. Ele não tinha o poder de segurar Cronus no Submundo, e muito menos fora de seu reino. Onde estava a minha mãe? Mesmo que os outros não tinham interesse em me ajudar, com certeza ela teria vindo para proteger Henry. Ele insistiu que ela não viesse, que era muito perigoso? Quando ele estava perto o suficiente para eu ver a raiva em seu rosto, me bateu. Ele estava sozinho. Nós estávamos sozinhos. Eu esperava que ele virasse a parede externa a escombros, mas ele voou por cima do meu quarto em direção a outra parte do castelo, como se ele não soubesse que eu estava lá. Talvez ele não sabia. Talvez Calliope estava tentando afastá-lo e... A arma. Oh, Deus. — Henry! — Eu gritei. — Henry! — Kate, — disse uma voz do corredor. — Kate, sou eu. Corri para a porta, agachando-me ao lado dela para espiar pelo buraco da fechadura. — Henry? ÉUm olho azul com longos cílios olhou para mim, e meu coração afundou. Ava. — Afaste-se da porta, — ela sussurrou, olhando por cima do ombro. O que ela tinha tanto medo? Henry invadir o corredor e a explodir em pedaços? Se ao menos eu tivesse tanta sorte. — Por que eu deveria confiar em você? — Disse. — Você sabia que Calliope ia matar meu filho, e você fez tudo que podia para que isso acontecesse. Ela piscou rapidamente, e seus olhos ficaram vermelhos e lacrimejantes. Uma vez eu pensei que Ava tinha sido uma das poucas que parecia bem quando chorava, mas agora tudo o que eu podia ver era a feiura por baixo. Durante meses, eu aprendi sobre as travessuras dos deuses gregos, a história que foi a base de sua mitologia. Nem tudo estava certo - muito havia sido torcido e corrompido ao longo da história quando mortais passaram as histórias para baixo. E por causa disso, eu queria acreditar que os deuses eram basicamente bons. Que eles realmente estavam olhando para a humanidade, que sua vida não tinha sido cheio de malícia e traição e egoísmo. Independentemente do que Calliope e Cronus tivessem feito, Ava poderia ter se provado certa. Uma única palavra ao conselho, e isso poderia ter terminado ao longo de meses atrás. Em vez disso, ela virou todas as esperanças em pó. — Eu sinto muito, — ela sussurrou. — Você é minha melhor amiga, Kate. Por favor, eu nunca quis que nada disso acontecesse. Eu não sabia. — Você sabia o suficiente. Ela verificou por cima do ombro novamente. — Uma vez que isto acabar, você pode me rasgar em pedaços tanto quanto você quiser. Mas agora eu tenho que te tirar daqui. 18


Eu zombei. Agora Ava queria me salvar, depois que Calliope tinha exatamente o que ela queria? — Como o inferno que eu vou a lugar algum com você. — Eu posso levá-la para o seu filho. Meu coração batia forte. Em um instante, meu desgosto virou-se para o desespero, e levou tudo que eu tinha para não arranhar a porta com minhas unhas. — Você sabe onde ele está? Ava assentiu. — E se você me deixar, eu posso ajudar ambos saírem daqui. Isso era tudo que eu precisava ouvir. Esqueça os últimos nove meses. Esqueça sua traição. Esqueça a possibilidade muito real de que isto era apenas mais uma armadilha para se certificar de que Henry não poderia me encontrar. Se havia uma chance de que ela estava dizendo a verdade, se havia uma chance de que eu poderia salvar o meu filho, eu não me importava. Eu dei um passo para trás, e uma brisa encheu a sala. O bloqueio clicou, e a porta se abriu, revelando Ava. Agora que havia luz de fora, eu podia vê-la corretamente. Seu cabelo loiro pendurado em cachos flácidos, e as sombras faziam círculos escuros sob os olhos parecerem hediondos. Eu nunca a tinha visto assim antes, nem mesmo a noite que eu conheci Henry perto do rio no Éden - a mesma noite em que ela tinha tomado um mergulho nas águas turbulentas e esmagou seu crânio contra uma rocha. Será que eu a teria salvo se soubesse que em menos de um ano e meio depois, ela me levaria longe de todos que eu amo? Que ela ficaria com Calliope enquanto ela me manipulava em uma gravidez para que ela pudesse me machucar tanto quanto humanamente possível? Será que eu teria a salvo se eu soubesse que Ava tinha pleno conhecimento do plano de Calliope para matar o meu filho o tempo todo? Eu não sabia. Eu não me importava. Se Ava ajudasse a salvá-lo, se ela nos ajudasse a fugir, os últimos nove meses não importavam mais. Eu nunca iria esquecer, mas com o tempo eu poderia perdoar. Corri para a porta. Ava me ofereceu seu braço, mas eu me afastei. O pensamento de tocá-la fez meu estômago guinar. — Não se incomode. Cronus me curou. Qual o caminho? Ava murchou e baixou a mão, e uma pontada de culpa passou por mim antes de eu empurrar de lado. Ela não merecia minha simpatia. Nós nos movemos em um ritmo dolorosamente lento, mas tudo na ponta dos pés pelo corredor pavimentado de ardósia. Eu estava certa? Ela estava apenas me escondendo assim Henry não poderia me encontrar? Não importava. Eu tinha que tentar. Crack. As paredes ao nosso redor tremeram, e Ava se atirou em mim, cobrindo meu corpo com o dela quando o teto desabou em torno de nós. A parte de trás da minha cabeça bateu contra a parede, mas mesmo que eu esperasse a dor, ela nunca

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veio. Eu era imortal agora. Mesmo que o mundo inteiro nos enterrasse, nunca morreríamos. — Você está bem? — Disse Ava, ofegante. O ar tinha virado poeira grossa, e quando eu respirei fundo, o grão me sufocou. — É preciso continuar, — eu disse, tossindo. Henry não faria qualquer pergunta no momento em que pusesse as mãos em mim, ele me levaria de volta para o Submundo. Tínhamos que encontrar o bebê antes de Henry me encontrar. Subi sobre os escombros, tateando meu caminho através da poeira quando bordas afiadas tentaram cortar minha pele impermeável. Meu pé ficou preso em uma pedra que eu não podia ver, e eu tropecei, jogando meus braços para pegar a minha queda. Mas, em vez disso um par de mãos fortes me pegou, e eu olhei para cima. O cabelo escuro, rosto bonito, ombros largos. Henry. Pisquei rapidamente, meus olhos lacrimejando para lavar a poeira, e seu rosto nadou em foco. Não, não Henry. Cronus. — Vem, minha querida, — ele murmurou, puxando-me para os meus pés. Suas mãos eram brasas contra minha pele, e bílis subiu na minha garganta. Onde estava o Henry? Por que Cronus não estava tentando impedi-lo? Porque ele não precisava. Um deus contra o Rei dos Titãs, não havia dúvida. E com a arma de Calliope, não seria uma luta justa entre irmãos também. Henry não saberia o que estava por vir, e então... Cerrei os punhos. Eu tinha que encontrar o bebê antes de Henry me encontrar, e eu tinha que encontrar Henry, antes que fosse tarde demais. Nenhuma outra opção era aceitável. — Eu quero ver o meu filho, — eu disse, empurrando meu braço longe de Cronus e lutando para manter a voz firme. À minha esquerda, um buraco na parede de pedra se abriu para um céu dourado e o som das ondas quebrando contra a costa. — Leve-me para ele. — Tudo a seu tempo. — Ele me levou pelo corredor destruído, e os escombros deixados de lado para fazer um caminho para nós. Para ele. Ava arrastou atrás de nós, arrastando os pés e espalhando as pedras como se ela estivesse tentando fazer o máximo de barulho possível. Um aviso para Calliope, que viríamos? Um sinal para Henry para lhe dizer onde estávamos? De repente, o ar mudou quando o pó desapareceu, e o vento tingido de sal soprando do mar deu lugar aos lamentos finos de um recém-nascido. Eu pisquei. Tinha sido um longo tempo desde que eu tinha escorregado em uma visão sem querer. Eu estava cercada por paredes pintadas para se assemelhar a um pôr do sol, e a sala estava vazia, exceto por um berço branco no centro. Um nó se formou em minha garganta, e eu olhava por cima da borda, mal ousando esperar. Lá, enrolado em um cobertor de malha, estava meu filho. 20


Seus soluços fizeram uma pausa, e ele abriu os olhos, como se estivesse olhando diretamente para mim. Mas isso era impossível, ele não podia me ver. Ninguém poderia me ver em minhas visões. Eu era uma observadora. Menos de um fantasma. Eu não era nada. A atração de seus olhos azuis era irresistível, e eu estendi a mão para tocálo. Por um segundo eu imaginei o calor de sua pele lisa e os dedos minúsculos e um sorriso surgiu no meu rosto. — Oi, — eu sussurrei. — Você é um pequeno homem atraente. Ele olhou para o espaço que eu ocupava, e eu mal podia respirar. Ele era perfeito. — Milo. — O nome saiu da minha boca antes que eu pudesse pensar sobre isso, mas uma vez que estava fora, parecia envolver o bebê, tornando-se tão parte dele como seu cabelo escuro ou o quanto eu o amava. Sim. Milo. Um grito enfurecido quebrou o encanto entre nós, e os soluços de Milo voltaram, ainda mais alto do que antes. Eu tentei tocá-lo novamente, para oferecer qualquer pequena medida de conforto que eu poderia, se ele realmente podia sentir que eu estava lá, mas minha mão passou por ele. Seus gritos só ficaram mais estridentes. — Calliope! Eu congelei. Henry. Dividida entre deixar Milo ou encontrar Henry, eu permanecia perto do berço. Por mais que me matasse deixar o bebê, eu tinha que saber onde Henry estava. Se ele estava fora do berçário - se ele sabia sobre Milo e estava indo para salvar ele. Por favor, por favor, por favor, deixe-o saber. Corri pela porta aberta e em uma parte do palácio que eu nunca tinha visto antes. As paredes eram de um ouro rico, não de pedra como as dentro da minha prisão, e o tapete índigo combinava com as cortinas de seda que pendia cada três metros na parede exterior. O corredor se estendia quase toda a extensão do palácio, e Calliope estava no meio, a apenas alguns metros de distância de Henry. Ele me salvou das garras da morte, nas margens do rio, no Éden. Ele lutou por nossas vidas quando Calliope me engasgou com correntes no Tártaro. Ele era o Senhor do Submundo, o Rei dos Mortos, e um dos deuses mais poderosos da história. Mas nunca o tinha visto tão terrível em seu poder. Ele rolava para fora dele em ondas negras, sacudindo a própria fundação do palácio, e mesmo que eu não estivesse realmente lá, pela primeira vez na minha vida eu estava realmente com medo dele. Satisfação misturada com o medo, porém, e desdém rasgou através de mim quando me aproximei de Calliope. Henry acabaria com ela. O que quer que esta arma era que ela alegou ter, não poderia igualar-se a raiva pura que o cercava,

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alimentando o seu poder. Apenas um Titã poderia matar um deus, e Calliope era como exatamente eu: imortal. Nada mais. Uma explosão sacudiu as paredes e o pânico passou por mim. Milo. Henry não tinha ideia de que ele estava aqui, que Calliope estava entre ele e seu filho. Ele poderia até não saber que ele existia. E se ele derrubasse todo o casteloTudo o que levaria era um único pensamento, e nosso filho iria morrer. Corri para o berço, mas antes que pudesse ver o rosto de Milo sobre a borda do berço, as paredes do sol desapareceram. Levei alguns segundos para recuperar o rumo. Cronus segurava meu braço, as mãos ainda queimando contra a minha pele, e Ava permanecia no meu outro lado. Estávamos em um corredor dourado e índigo, mas estava vazio. Tinha acabado? Tínhamos perdido? Não, impossível. Minhas visões eram sempre no presente. Eu não poderia ir para o passado ou ver o futuro. Henry e Calliope estavam em algum lugar nas proximidades. Eles tinham que estar. Acima de nós, abaixo. — Kate, minha querida. — A voz de Cronus cortou-me como uma adaga feita de gelo. — Você é minha? Nunca. Nem em um milhão de anos, não se fôssemos os últimos dois seres do universo. Não, se a única outra opção que eu tinha era para viver a eternidade enterrada sob pedras. Mas só momentos ficaram entre agora e todo o castelo rasgando nas emendas, e eu tinha que salvar Milo. Se isso significava fazer uma promessa que não poderia manter, então eu iria lidar com as consequências posteriores, — dême o meu filho, e eu sou sua. Meus pés deixaram o chão quando Cronus nos flutuou para cima, deixando Ava para trás. Juntos, passamos pelo teto, como se não estivesse mesmo lá, subindo para o corredor acima de nós, e eu prendi a respiração. Ficamos apenas alguns metros atrás de Calliope, e além dela, cercados por poder escuro. Henry. Ele e eu nos olhávamos através do corredor, e meus joelhos quase dobraram de alívio. Finalmente, alguém que me amava. Ele deu um passo involuntário para mim, mas apesar de ter sido a primeira vez que o tinha visto desde o solstício de inverno, meu corpo me puxou na direção do quarto de Milo. Apenas alguns metros de distância, duas portas atrás de Calliope, e eu seria capaz de segurar meu filho. Eu teria uma chance para salvar todos nós. Cronus agarrou meu braço, seus dedos uma algema de carne e osso, e nenhuma quantidade de puxão sutil e torcer soltou. Eu estava tão presa como eu tinha sido na minha prisão, mas desta vez os dois pedaços do meu coração balançavam na minha frente, me provocando. Me pedindo para fazer alguma coisa. Eu era impotente.

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Em minha mente, horas se passaram, mas na realidade levou a Calliope apenas alguns segundos para perceber o que estava acontecendo. Ela se virou e sorriu, seus olhos brilhando com malícia, e algo deslizou da manga solta de seu vestido na mão dela. Uma adaga. A lâmina brilhava com a mesma essência que havia infundido nas correntes que ela tinha enrolado no meu pescoço, o mesmo poder opaco que tinha enfiado na pedra que tinha usado para me bater inconsciente no dia em que ela me sequestrou. Ela não estava mentindo, afinal. De alguma forma, mesmo que Cronus estava ao meu lado e sólido, ela tinha conseguido separar um pedaço dele do resto. E agora ela tinha o poder de matar cada um de nós, até que ela estivesse livre para dominar o universo ao lado de Cronus. — Na hora certa, — disse ela, com a voz tão feminina como sempre, mas realeza saturou cada sílaba. — Kate? — A voz de Henry quebrou, e as ondas de energia escuras ao redor dele vacilaram. Não, não, não, ele não podia parar agora. Ela atacaria na primeira chance que ele lhe desse. Dei um passo para trás. Esqueça a sutileza. Como diabos eu estava deixando Cronus manter-me longe da minha família. — Não deixe que eles me sigam, — disse a Henry, e sem aviso, eu arranquei meu braço de Cronus tão duro quanto eu podia, puxando contra seu polegar. A parte mais fraca de seu aperto se ele tinha em tudo um ponto fraco. Talvez eu consegui pegá-lo de surpresa, ou talvez ele simplesmente se divertiu e queria ver o que eu faria, mas Cronus não brigou comigo. Ele soltou, e antes que alguém pudesse dizer uma palavra, eu rasguei pelo corredor e no berçário. Milo estava no berço, chorando baixinho, e eu ansiava por finalmente tocálo. Como era possível que minutos antes, tínhamos estado ligados? Como se eu jamais permiti meu corpo para deixá-lo ir? — Está tudo bem, — eu sussurrei, pegando ele. Ele se acalmou, e desta vez, quando seus olhos azuis encontraram os meus, eu sabia que ele me viu. — Eu não vou deixar nada acontecer com você. No momento em que meus dedos tocaram seu rosto fofo, alguém limpou a garganta atrás de mim, e eu me virei. Calliope ficou enquadrada na porta, e ela segurava o punhal na garganta de Henry. Todo o ar escapou dos meus pulmões. Era isso. Ele ia morrer. Eu ia perder meu marido, meu bebê, minha família inteira para uma deusa louca que não se importava quem ela iria ferir, desde que ela tivesse seu caminho. Enquanto ela chegasse a me torturar. — Não o machuque - você não pode, por favor, — eu sussurrei, agarrando a borda do berço. Os olhos de Henry estavam abertos, e ele olhou para mim, não, não para mim. Além de mim. Ele olhou para Milo. Era um pequeno conforto, sabendo que ele iria morrer com o conhecimento que ele tinha um filho. Que pelo menos ele teria neste momento. 23


— Por favor, — cuspiu Calliope, uma paródia do meu desespero. — Sempre, por favor, como se isso fosse o suficiente. Você sabe que não é, Kate. Por que se preocupar? Não importava se nada que eu fizesse foi o suficiente. Eu tinha que tentar. Eu não poderia viver comigo mesma se eu me rendesse e deixasse que ela tivesse tudo o que importava para mim. — Você o ama. Se você matá-lo, você nunca vai tê-lo. Você vai perder. Ela zombou, mas uma pitada de dúvida atravessou seu rosto. — Eu vou ser a rainha do mundo. Eu nunca vou perder de novo. — Ser rainha não vai fazer você feliz. — Eu estudei o jeito que ela segurava Henry. Ele poderia quebrar seu aperto se ela abaixasse a faca. Tudo o que precisávamos era uma fração de segundo, e eu poderia distraí-la por tempo suficiente para Henry levar o bebê e desaparecer. — Você ainda vai estar sozinha. Você ainda vai ser infeliz. Os olhos de Calliope estreitaram. — Seja o que for que você pensa que está fazendo, não vai funcionar. Eu não preciso mais dele. — Então o que você quer? — Eu já tenho exatamente o que eu quero. — Atrás dela, Cronus apareceu, de alguma forma, mais alto do que ele havia sido momentos antes. O poder que irradiava de Henry foi embora agora. — Primeiro eu vou matar Henry, e então eu vou matar sua mãe e todos os membros do conselho. Uma vez que eu terminar, quando o mundo se ajoelhar aos meus pés, eu vou segurar o seu filho, e ele vai me chamar de mãe e você de traidora. E, juntos, vamos vê-la morrer. Henry rugiu e lutou contra ela, voltando à vida finalmente, mas o que o acorrentava se manteve forte. Ela pressionou a lâmina em sua garganta. Não se tratava de ganhar mais, ela sabia que ela me teve, e eu sabia que era o fim. Agora era sobre me causar tanta dor quanto possível. A piada era sobre ela, no entanto. Sem Henry, sem minha mãe, sem meu filho, eu daria bem vinda à morte. Foco. Isto não podia ser. Tinha que haver algo que eu pudesse fazer alguma combinação mágica de palavras que eu poderia dizer para levá-la a baixar esse punhal. Qualquer coisa. Atrás de mim, os gritos de Milo ficaram mais altos, e eu tateei até que eu toquei a mão dele. Era isso. Estes eram os únicos momentos que eu teria com ele. Apesar do punhal na garganta de Henry, eu teria dado qualquer coisa para fazêlos durar para sempre. — Então me mate, — eu soltei. — Neste momento, na frente de Henry, em frente ao bebê, apenas faça. Porque eu prometo que se você machucar algum deles, eu vou ter certeza que você gaste a eternidade queimando no Tártaro. Calliope inclinou a cabeça, e eu prendi a respiração. Ela tinha que concordar. Qualquer coisa para fazê-la abaixar a faca, para dar a Henry aquele fração de segundo de vantagem – qualquer coisa.

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Mas antes que pudesse dizer uma palavra, Cronus exalou, e nevoa rastejou pelo chão do berçário. — Não. — A palavra era apenas um sussurro, mas enfiou dentro de mim, recusando-se a ser ignorada. — Você não vai prejudicar Kate, minha filha. Se ela morrer, você também. Por trás da onda de sua excitação, Calliope empalideceu. — Você pode manter Kate ou a prole dela viva. Não ambos. Escolha. — Eu já lhe disse o que você vai fazer, — disse o Cronus. — Você vai me obedecer, ou você vai ser a única a morrer. Essa é a sua escolha a fazer, não a minha. Apertando a mandíbula, ela cavou a lâmina mais profunda na pele de Henry, e ele fez uma careta. Esqueça-me. Sua voz ecoou na minha mente tão claramente como se ele tivesse falado. Faça tudo o que você deve para escapar antes que seja tarde demais. — Não, — eu sussurrei, e Henry estreitou os olhos. Ele podia olhar feio para mim tanto quanto quisesse. Eu não iria embora, não sem ele. Não sem o bebê. Embora ela ainda estivesse pálida, os lábios de Calliope torceram em um sorriso. — Quão bonito. Você pode tentar o quanto quiser, mas ela não está saindo daqui ali- — Ela parou. — O que é isso? A expressão de Cronus ficou em branco, e eu virei, procurando o que quer que fosse que havia lhe chamado a atenção. O que era o quê? O olhar de Calliope sem foco, e seu sorriso vacilou. — Pai, faça alguma coisa, — ela assobiou, e finalmente eu ouvi. O estrondo de um trovão distante, cada vez mais alto a cada segundo. O estalo de um relâmpago que iluminou o céu além das cortinas de índigo no corredor. Uma explosão de vento tão forte que uivava pelos corredores. E uma dúzia de gritos de guerra se misturou, formando uma harmonia temível. O conselho tinha chegado. O rosto de Calliope passou de pálido ao transparente, e seu aperto no Henry escorregou. Eu não pensei. Naquele momento, eu memorizei a sensação da mãozinha do meu filho na minha, e eu soltei. Tão rápido quanto pude, fui arremessada em direção a Henry e Calliope, derrubando-o para fora do caminho. Agarrando o pulso dela, esmaguei os nós dos dedos contra a parede para fazê-la soltar a adaga. Ela não era humana, embora, e assim como eu, ela não podia sentir dor. Não importava quanta força eu usasse, era inútil. Mas eu tinha que comprar a Henry tempo suficiente para pegar Milo e ir. Juntas lutamos, deusa contra deusa, e eu soltei um grito enfurecido. Algo dentro de mim tomou conta, algo primal. Enquanto Calliope lutou, assim como eu, com tudo o que eu tinha. — Cronus! — Gritou Calliope, mas ele desapareceu em uma névoa sinistra. Sua verdadeira forma. Com uma dúzia de deuses cercando o castelo, não 25


importa o quão poderoso ele era, ele não tinha escolha a não ser lutar. Ele não seria de nenhuma ajuda para ela agora. Calliope deve ter percebido a mesma coisa, porque com uma onda de poder, ela me empurrou, e caímos no chão. Ela torceu meu pescoço, e eu arranhava o rosto dela, tentando arrancar os olhos, mas nenhuma de nós poderia ferir a outra. — Sua vadia, — ela rosnou. — Sua conivente, cadela inútil. — Não pode me matar, — eu trabalhei meus dedos em torno do punho da adaga e lutei para tirá-la do seu aperto, — eu morro, você morre, lembra? — Meu pai não vai tocar num fio de cabelo da minha cabeça. — Você está disposta a apostar toda a sua vida nisso isso? Ela gritou e arrancou a adaga de mim. Eu não tinha nenhuma chance contra a sua imensa força, e vi com horror quando meu aperto escorregou e a ponta da lâmina infundida mergulhou no meu braço. Dor ardente rasgou através de mim, queimando tudo em seu caminho, infinitamente pior do que a escova de nevoeiro em minha perna durante a minha cerimônia de coroação remendada quase um ano antes. Isso estava dentro de mim, fundindo com o meu próprio ser, sufocando até que apenas alguns suspiros lastimosos permaneceram. Eu estava morrendo. Mais dois segundos, e eu iria. Um borrão preto bateu nela. À medida que o peso do corpo de Calliope desapareceu, o estrangulamento desapareceu. Agonia queimou dentro de mim, me deixando sem ar e fogo substituiu o gelo da lâmina enquanto eu sangrava livremente. O que estava acontecendo? Abri os olhos, meio que esperando ver aonde os deuses iam quando eles morriam, mas tudo o que eu vi foi o sorriso maníaco da Calliope enquanto ela estava deitada no chão ao meu lado. Não, isso não era tudo. Henry pairava sobre ela, estranhamente pressionado contra seu corpo em um ângulo que eu não entendia. Seus olhos se arregalados, sua boca aberta, e suas mãos seguravam algo contra suas costelas. — Eu ganhei, — sussurrou Calliope. E quando ela puxou o punhal sangrento do peito de Henry, eu finalmente entendi.

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Capítulo 3 A Hora Mais Escura Durante quatro anos, eu tinha ficado ao lado da cama da minha mãe e observado ela desaparecer. Seu corpo forte e saudável uma vez havia secado em uma imitação pobre da mulher que eu lembrava, e nem uma hora tinha passado sem eu imaginar como seria o dia que a morte a levasse. Eu vivia em constante medo de acordar e descobrir que ela se foi, uma concha onde minha mãe tinha estado uma vez. Veria o relógio virar para a meianoite e me perguntava se essa era a data que eu iria chorar a cada ano pelo resto da minha vida. Eu sabia o que era perder. Eu sabia o que era lutar contra o inevitável. Mas nada disso tinha me preparado para assistir Henry morrer. O sangue jorrou do ferimento no peito. Ele caiu de joelhos, com uma mão segurando o tórax, a outra chegando para mim. Eu nunca tinha visto esse

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verdadeiro terror em seus olhos. Deuses não deveriam morrer. Não a menos que eles quisessem. Estendi a mão para ele com o meu braço bom enquanto a vida drenava dele. A lâmina era forte o suficiente para me matar também? Depois que acabasse, nós estaríamos juntos do outro lado, onde quer que isso poderia levar? Havia ainda um outro lado para o Senhor dos Mortos? No momento em que nossos dedos se encontraram, meu corpo deu uma guinada. Foi um sentimento familiar, muito mais solavancos do que eu jamais experimentei antes, mas no instante em que isso aconteceu, eu sabia. Nós estávamos indo para casa. Um segundo, eu estava apenas metros de distância de Milo enquanto ele chorava. O próximo eu estava em uma pilha com Henry, e o silêncio nos cercava. Nós não estávamos no palácio de Calliope mais. Nós não estávamos mesmo na ilha. Mas não estávamos no Submundo também, ou pelo menos alguma parte dele que eu já vi. Em vez disso, nós estávamos no meio de uma sala enorme desprovida de qualquer coisa, apenas um teto azul celeste e chão pôr do sol. As paredes douradas pareciam estender-se para sempre, e com o sol no meio do teto, como se fosse um céu de verdade, tudo brilhava com a luz. Deveria ter tirado o meu fôlego. Mas Milo tinha ido embora. Onde quer que fosse, eu sabia instintivamente que ele não iria se juntar a nós, e dor indizível se espalhou como ácido dentro de mim. Eu alegremente preferia ser esfaqueada mais de mil vezes, em vez de sentir isso nem por um momento. Não havia nada que eu pudesse fazer, no entanto. Minha mãe estava na ilha com ele, junto com James e o resto do conselho, e isso teria de ser suficiente. A única pessoa que eu tinha uma oração de ajudar agora me tinha presa ao chão pôr do sol. — Henry. — Mesmo que a última coisa que eu quisesse fazer fosse machucá-lo, eu não tinha escolha, a não ser rolá-lo suavemente de cima de mim. O sangue encharcava sua camisa, e eu pressionei minhas mãos contra o peito, em uma tentativa de parar o fluxo, mas foi inútil. Depois de tudo o que tínhamos vivido juntos, depois de tudo o que ele tinha feito para me proteger, eu não poderia fazer nada para salvá-lo. Não era justo. Não era justo. — Kate? — Sua voz era grossa e rouca, como se estivesse doente, mas ele não estava. Ele estava morrendo. — Você - você está bem? — Eu estou bem, — eu menti, e minha voz quebrou. — Não se mexa. Você está perdendo muito sangue. — Quanto sangue os deuses tinham em si? O mesmo que os mortais? O quanto eles poderiam viver sem? — Eu não sabia, — ele sussurrou, — eu pensei - Ava disse— Não é culpa sua. — Eu trêmula toquei minha boca contra a dele. Ele tinha gosto de chuva. — Nada disso é culpa sua. Eu nunca deveria ter confiado nela. Eu nunca deveria ter deixado você. Sinto muito. Ele me beijou de volta fracamente. — Aquele era – aquele bebê... 28


Um nó se formou na minha garganta. — Sim. Ele é seu filho. — Eu consegui um sorriso aguado. Pelo menos Henry sabia. — Eu nomeei-o Milo. Podemos chamá-lo de algo diferente, se quiser. — Não, — ele tossiu, e algumas gotas de sangue mancharam os lábios. — É perfeito. E você também. Debrucei-me contra o peito dele, colocando mais peso sobre a ferida possível. Recusei-me dizer adeus assim. Não a Henry, não para a nossa vida juntos, nada disso. Eu não estava pronta, e Milo merecia ter um pai. Eu não tinha tido um, e como diabos eu iria deixá-lo experimentar aquele mesmo vazio e incerteza. Ele merecia mais do que isso. Ele merecia ter uma família. Meu braço sangrava livremente, e dentro de instantes a sala começou a girar. Os olhos de luar de Henry permaneceram abertos, e ele sorriu. — Nunca pensei que ia ter um filho. — Sua voz tremeu. — Nunca pensei que eu ia ter você. Eu cerrei os dentes contra a tontura, meu corpo ficando mais fraco a cada segundo. — Você vai ter-me para muito mais do que isso. — Minha visão ficou turva, e eu me esforcei para olhar ao nosso redor. Onde estava todo mundo? Por que não podiam sentir a vida escorrer de Henry da maneira que eu poderia? Porque não era a vida dele que eu senti esvaindo. Era a minha. — Kate? Henry? A voz de minha mãe tomou conta de mim, e eu deixei escapar um soluço exausto. — Mãe? Ela ajoelhou-se ao meu lado, irradiando calor e o cheiro de maçãs e frésia. — Deixe ir, querida, — ela murmurou. — Eu tenho você. Eu não podia forçar minhas mãos de Henry, no entanto. Ele estava frio agora, os olhos arregalados e sem piscar, e seu peito estava parado. Deuses não precisavam respirar, mas Henry sempre respirou. Seu coração sempre tinha batido, mas agora eu não vi nenhuma dica de um pulso. Ele estava morto. Eu não lembrava dos outros aparecendo. Um momento minha mãe me segurou contra o peito, com a mão enrolada no meu braço sangrando enquanto eu gritava e chorava e desaparecia para dentro de mim. O próximo, Walter pairava sobre nós, e Theo se ajoelhou ao lado do corpo de Henry, seus lábios se movendo em um ritmo furioso. — Leve-a daqui, — disse Walter, seu vozeirão distante enquanto eu me encolhia em um canto escuro nos recessos de minha mente. Mãos gentis me levantaram, e eu pensei que eu ouvi a voz de James murmurando palavras de conforto que eu não entendia, mas por fora eu debatia e gritava. Eu não poderia deixar Henry. Se eu deixasse, eu nunca iria vê-lo novamente, e então ele realmente teria ido. Ele não podia, apesar de tudo. Ele simplesmente não podia. Outro par de mãos se juntou a nós, mas eu estava tão completamente submersa em mim mesma que eu poderia muito bem ter fechado os olhos e desaparecido na escuridão. Aqui, nada poderia me tocar. Aqui, Henry estava em 29


toda parte. Aqui, era inverno novamente, e nós estávamos enrolados juntos debaixo do edredom no Submundo à medida que as horas passavam. Seu peito estava quente na minha palma, e seu coração batia contra meus dedos, firmes e eternos. Aqui, ninguém morreu. Um gemido me chamou a atenção, e eu abri meus olhos novamente. A sala dourada se foi, substituída pelo berçário do sol no palácio de Calliope, e meu coração afundou. Lá, deitado no berço, estava Milo. Minha mãe não tinha salvo ele, depois de tudo. Eu estava ao lado dele, fingindo que eu podia tocá-lo e embalá-lo para dormir. Fingindo que não era apenas uma questão de tempo antes que o fogo Titã em minhas veias me consumisse e Milo seria órfão. Eu nunca tinha conhecido o meu pai, mas eu guardava o tempo que eu passei com a minha mãe. Milo nunca teria isso também. A única vez que estivemos juntos foram aqueles poucos segundos antes que Calliope tinha matado o pai dele, e ele nunca iria se lembrar deles. Não, nós tínhamos o agora. Mesmo que ele não soubesse que eu estava com ele, eu poderia estar lá. Eu estaria. Estabelecendo-me ao lado de seu berço, eu o assisti sem pestanejar, imergindo em cada segundo. E eu esperei para o inevitável vir. *** Kate. A voz de James flutuava na minha direção e ferindo o seu caminho através do que restou do meu coração. Eu pisquei. Quanto tempo tinha passado? Minutos? Horas? Dias? Não, Calliope poderia ter sido um monstro, mas ela não teria deixado Milo sozinho por tanto tempo. Ele dormia profundamente no berço, seu pequeno peito subindo e descendo. Tomei conforto em cada respiração. Volte, Kate. Suas palavras eram um sussurro em meu ouvido, mas eu fiquei onde estava. Não sobrou nada para mim na realidade. Minha mãe tinha vivido por eras antes que eu tivesse nascido; ela poderia viver sem mim mais uma vez. Ela teria que viver. O ar ficou espesso com aborrecimento. Kate, eu juro, se você não voltar, eu vou dizer a Henry que você me beijou. E que você disse que eu tenho uma bela bunda. — Henry? — Meus olhos voaram abertos – meus olhos reais desta vez. Como tinha cada vez antes, a ideia de deixar Milo me tirou o fôlego, e formas difusas flutuavam diante de mim, até que eu consegui focar. Um teto azul-celeste e, sem dúvida, um piso de sol. Mas ao contrário da sala banhada pela luz dourada, esta era diferente. Menor, silenciada, e mais escura de alguma forma.

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Freneticamente olhei ao redor da sala por qualquer sinal de Henry, mas ele não estava lá. Era a ideia de piada doente de James, para me afastar da única coisa que me dava alguma pequena medida de conforto agora. — Como você está se sentindo? — Minha mãe pairava ao lado da minha cama, aplicando uma compressa de algo que cheirava a mel e tangerinas no meu braço. Percebendo meu olhar, ela alisou meu cabelo para trás e me ofereceu um pequeno sorriso que não encontrou seus olhos. — Uma compressa para impedir a dor. Você vai ter que usar uma tipoia, mas não vai se espalhar em qualquer outro lugar no momento. Eu balancei minha cabeça. — Tire. — O quê? — Sua testa franzida. — Querida, isso vai salvar a sua vida. — Eu não quero isso. — Sentei-me, e meu corpo gritou em protesto quando eu arranquei a compressa do meu braço. Não importava. Henry estava morto, e eu nunca iria segurar o meu filho novamente. Eu não queria que ninguém salvasse minha vida. Minha mãe colocou a mão no meu ombro bom, e com firmeza, mas com cuidado, ela me guiou de volta para a cama. Eu não tinha a força para lutar contra ela. — Muito ruim. Eu sou sua mãe, e quer você queira ou não, eu não vou deixar você morrer na minha frente. Funguei, olhando para o teto sem nuvens. — Eu não posso fazer isso, mãe. — Eu não a tinha chamado assim desde o segundo grau, quando a garota mais popular da minha escola particular de Nova York tinha ouvido e começou a me provocar pelos próximos quatro anos. — Não pode fazer o quê? — Ela colocou a compressa no meu braço novamente, e apesar de doer como o inferno, a dor não se espalhou. — Eu tive um bebê, — eu sussurrei. Será que ela sequer sabia que ela era uma avó? Será que ela sabia sobre a trama de Calliope? Ou será que ela achou que eu ia fugir com Ava durante nove meses e esquecer dela? Ela hesitou, não encontrando meus olhos. — Eu sei. Sinto muito, Kate. Era isso. Simples reconhecimento. Nenhuma oferta para encontrálo. Nenhuma promessa de tomá-lo da Calliope ba primeira chance que tivesse. Eu engoli em seco, a meia polegada de distância da histeria. — Seu nome é Milo. Henry - Henry gostava desse nome. — Tenho certeza que ele ainda gosta. — A voz de James filtrou através da névoa em torno de mim. — Ainda gosta? — Minha voz falhou, e embora minha mãe me segurasse, eu levantei minha cabeça. James encostou-se à porta aberta, seu cabelo loiro despenteado e seu rosto corado, como se tivesse corrido uma maratona. Ou talvez tinha sido porque eu não tinha visto a luz do sol por muito tempo. — Ele está em outra sala. Theo está cuidando dele, — disse ele. Theo, o membro do conselho com a capacidade de curar as feridas causadas por Titãs. Ou, se não curar, pelo menos, torná-las menos dolorosas.

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Seria possível? A forma como os olhos de Henry olhavam sem ver, a falta de batimentos cardíacos, de qualquer esforço em tudo para manter seu corpo - não poderia ser. — Henry está vivo? O momento entre minha pergunta e a resposta de James durou uma eternidade. Tudo que eu precisava ouvir era isso, mas eu não queria saber. Eu poderia ter me agarrado à esperança deliciosa que James me deu pelo resto da minha vida sem fim. Henry poderia estar para sempre no cômodo ao lado, vivo e esperando por mim. — Sim, — ele disse, e eu deixei escapar um soluço suave. Minha mãe tocou meu rosto, mas eu olhei além dela, com foco no meu melhor amigo. — Posso vê-lo? Eu preciso vê-lo. — Esqueça ficar deitada parada. Esforceime para me sentar novamente, mas pela segunda vez, minha mãe me segurou, mais insistente do que antes. — Você pode vê-lo assim que estiver bem o suficiente, — disse ela, mas ela olhou para James, e eles trocaram um olhar que eu não entendia. — O quê? — Meu pescoço ficou tenso com o esforço de manter a cabeça em pé, mas eu não conseguia desviar o olhar. — O que está acontecendo? James hesitou, e aquele delicado balão de esperança dentro de mim explodiu. — Ele está inconsciente, e há uma chance de que ele possa nunca acordar. Agarrei os lençóis com a minha mão boa. Ele não estava morto, mas ele não estava vivo também. Preso entre, como a minha mãe tinha estado durante o tempo que eu passei no Éden Manor, quando o conselho tinha me testado. Exceto que Henry era imortal, e ele não teria nenhuma libertação. Eu não sabia o que era pior - morte ou isso. — Theo parou de espalhar, mas Henry foi esfaqueado no peito, — disse James. Ele se aproximou da cama e pegou minha mão, agarrando-a com cuidado. Meus dedos se contraíram. — Nós não sabemos o quão ruim o dano é. Ou se Henry vai se recuperar o suficiente para acordar. — Há - há uma cura? Uma maneira de consertá-lo? — Não há nada que possamos fazer, — disse James, e do meu outro lado, minha mãe limpou os cantos dos olhos com um lenço. — Nós apenas temos que esperar. Minha garganta se contraiu. Tinha que haver uma maneira. Sempre tinha. Se Henry poderia me trazer de volta dos mortos, então eu poderia encontrar uma maneira de fazer o mesmo por ele. — E quanto a Cronus? Ele não podia fazer alguma coisa? Um silêncio de morte. Segundos se passaram, e sem aviso, a minha mãe e James começaram a falar ao mesmo tempo. — Eu não posso possivelmente permitir— Mesmo se pudesse, você realmente pensaOs dois pararam e olharam um para o outro, e, finalmente, minha mãe foi em primeiro lugar. 32


— Você não está indo para lá, meu amor, — disse ela. — É um milagre que Henry tirou você, em primeiro lugar, e ele arriscou tudo por você. Ele não quer que você ande de volta para isso. Você sabe que ele não iria. Se fosse só eu, então minha mãe estaria certa. No entanto, não era apenas sobre mim. Tratava-se de Milo, também. Eu poderia ter sido impotente para salvar nosso filho, mas se Henry poderia me salvar, então ele poderia salvá-lo, também. E se houvesse uma maneira que eu poderia ajudar Henry - se havia uma maneira que eu poderia dar a Milo o pai que ele merecia, então eu tinha que tentar. — Cronus pode ajudar Henry? — Eu disse novamente em uma voz tão firme quanto eu poderia reunir. James se inclinou mais perto, apertando minha mão na sua. — Sim, — ele admitiu. — Ele podia. Mas mesmo se você voltar para Cronus, ele não iria desfazer o estrago já feito para Henry. Você sabe que ele não faria isso. — Certo, — eu sussurrei. James estava errado, porém. Se Cronus tivesse incentivo suficiente, ele poderia. E eu não ia desistir só porque eles insistiram que não havia sentido em tentar. Mesmo que isso significasse marchar em linha reta até Cronus e dar-lhe tudo, eu realmente faria se isso significasse que Henry poderia viver. *** Enquanto acamada, eu planejei. Cada palavra que eu diria, todos os argumentos que eu usaria, tudo o que eu ofereceria a Cronus para fazê-lo salvar Henry. Camada após camada de projetos que dariam a Henry sua vida de volta e a nosso filho um pai. O que fosse preciso. Passei minhas horas com Milo, observando-o dormir, vendo quando Ava movia-o, vendo como Calliope tentava persuadi-lo a comer de uma mamadeira. Para minha imensa satisfação, ele se recusava. — Você tem que comer, — disse Calliope severamente quando ela ofereceu ainda outra mamadeira quente para o meu filho. Ele virou a cabeça, o rosto amassado e vermelho brilhante de tanto chorar, e ela estreitou os olhos. — Callum, você deve. Ele era Milo, não Callum, e não importa quanto tempo ele ficasse com aquela vadia, ele nunca seria dela. No entanto, quando as horas se transformaram em um dia, depois dois, minha preocupação superou o meu ódio por Calliope. Milo não estava comendo. Ele se mexia em seu sono, e quando ele estava acordado, seus olhos constantemente vazavam lágrimas. Ele estava infeliz. Eu não sabia o que fazer. Havia alguma coisa, que não fosse atacar o palácio e exigir para Calliope dar-lhe de volta para mim? Não funcionaria de qualquer maneira. Eu poderia ter todo o conselho me apoiando, mas sem Henry, seria nada mais do que um exercício de derrota. Cronus me manteria, Calliope iria esconder o meu filho longe, e ele só iria crescer mais fraco. 33


— Vamos lá, Milo. — Eu sussurrei enquanto eu me inclinei sobre seu berço. Pela enésima vez, tentei tocá-lo, mas mais uma vez os meus dedos passaram por sua bochecha. — Me desculpe, eu não estou aqui. Se eu tivesse escolha... — Minha voz ficou presa na minha garganta. — Eu sei que Calliope é horrível, mas você precisa comer. Você precisa ser saudável e forte para quando eu finalmente chegar a estar com você de novo. Finalmente, ele abriu os olhos azuis, e naquele momento, eu jurei que ele me viu. — Aí está você. — Eu lhe dei um sorriso aguado. — Você é lindo, você sabe. Você coloca Adonis na vergonha. Seu gemido se aquietou, e ele levantou os braços, como se estivesse chegando para mim. Eu tentei tocá-lo novamente, mas ainda não funcionou. Eu nunca pararia de tentar, no entanto. — Você poderia fazer isso por mim? — Eu murmurei. — Basta comer um pouco. Você pode ser tão infeliz como você quer. Eu não culpo você. Não vai durar para sempre, porém, eu prometo. — Não podia. Eu não iria deixá-lo. — Ele tem seus olhos. Meu coração quase parou. Lentamente, eu me virei, e apesar da pouca luz, pude ver todos os traços do seu rosto. — Henry? Ele sorriu tristemente e abriu os braços. Eu não pensei. Fui até ele, enterrando meu rosto em seu peito e inalando, mas ele cheirava a nada. Ele não estava aqui também. Eu podia tocá-lo, no entanto. Eu podia sentir sua camisa de seda e o calor que irradiava de seu corpo. Como? — Eu senti sua falta. — Ele murmurou, roçando seus lábios contra minha bochecha. Quando tentei virar a cabeça para beijá-lo corretamente, ele se afastou, apenas fora do alcance. Rejeição e dúvida tomou conta de mim. Ele estava zangado que eu tinha sido pega? Que eu não poderia salvá-lo? Será que ele sabia sobre meus planos para me entregar a Cronus em troca da sua vida? Quando eu segui o seu olhar, no entanto, eu relaxei. Milo. Eu me enfiei debaixo do braço dele, e, juntos, nos aproximamos do berço. Quando o bebê nos viu, ele chegou para nós. Para mim. E um pedaço do meu coração derreteu. Henry chegou para ele em troca, e antes que eu pudesse avisá-lo de que não iria funcionar, os dedos fizeram contato com Milo. Não persistente no espaço desocupado ao lado dele ou pairando um milímetro acima de sua pele e fingindo. Ele estava realmente tocando o nosso filho. — Olá, homenzinho, — disse Henry solenemente. — Ouvi dizer que você não tem comido. Produzindo uma mamadeira aparentemente do nada, Henry me soltou e pegou Milo. Eu fiquei para trás, atordoada, quando Henry ofereceu-lhe o leite. Alguns segundos se passaram, e, finalmente, Milo começou a comer.

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— Como- — Uma onda de tontura tomou conta de mim. Aquilo não podia estar acontecendo, a não ser que ele estivesse morto ou - ou algo que eu não entendia. — Como isso é possível? Às vezes a gente julga mal o que é possível e o que não é. A voz de Henry tocou na minha cabeça, claro, como qualquer coisa, e eu esperei que ele dissesse aquelas palavras novamente. Insistir que só porque eu não sabia como funcionava não impediria que isso acontecesse. Ao contrário, ele sorriu, e Milo comia avidamente. — Porque é. Que mais explicação você precisa? Eu queria saber tudo. Eu queria saber como salvá-lo, como colocar a nossa família de volta junta, como parar Cronus e Calliope de tomar o mundo. Mas, naquele momento, eu só precisava ouvir uma coisa. — Você vai ficar com ele? Em seus braços, Milo borbulhava, e eu tentei tocá-lo mais uma vez. Nada. — É claro, — disse Henry, e ele apertou os lábios na minha testa. — Sempre. Abri os olhos, mais contente e relaxada do que eu tinha estado desde o solstício de inverno. Apesar do céu azul brilhante em cima de mim, este lugar qualquer que fosse, onde quer que fosse, era tranquilo. Minha mãe não me deixou sozinha desde que eu tinha retornado do castelo de Calliope, mas olhando em volta, notei sua cadeira vazia. Por fim, a chance que eu estava esperando. Balançando as pernas para fora da cama, eu testei o chão do sol. Estava mais quente do que eu esperava, e enquanto meu braço queimava, a minha mãe tinha razão; nada mais ferido. O que estava naquela compressa tinha parado a agonia da ferida do punhal de se espalhar. Enquanto eu estive inconsciente, alguém – esperançosamente minha mãe e não James - me vestiu com uma camisola de seda branca, tão suave que poderia muito bem ter sido água contra a minha pele. Eu dei alguns passos hesitantes, e uma vez que eu tinha certeza que eu não ia entrar em colapso, eu me dirigi para a porta. Eu não tinha ideia de onde eu estava, mas eu queria ver Henry. Eu tinha que ter certeza que ele não estava morto. Que a minha visão não tinha sido o seu último adeus para mim. Para nosso filho. Não, ele tinha prometido ficar com Milo, e ele iria. Deuses não se transformavam em fantasmas corporais quando eles morriam, ou pelo menos eu achava que não. Um deus tão poderoso como Henry já tinha morrido antes? Eu abri a porta do quarto para revelar um corredor do outro lado, com o mesmo teto azul e chão de pôr do sol. As cores debaixo de meus pés mudaram enquanto eu caminhava, e eu tive que verificar as várias portas que estavam cerca de vinte metros de distância através do corredor. Quarto vazio após o quarto vazio. Alguns eram simples, como o meu, mas outros eram decorados e um com detalhes em azul claro e branco de seda que combinavam com a minha camisola, e outro com verdes profundos e flores

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brilhantes que cresciam em todos os lugares. Ele parecia exatamente o tipo de quarto minha mãe pode ter se elaEspere. Eu abri a porta mais larga. Não era apenas um quarto; era uma suíte, com várias outras portas decorando as paredes, muito mais do que o espaço permitia com os outros quartos que o rodeavam. Eu avancei em direção à mesa de cabeceira, onde a imagem estava. Não, não uma imagem - um reflexo, como o que Henry teve de Persephone no Éden Manor, o que capturou um momento, e não uma fotografia. Com a mão trêmula, eu peguei a moldura de madeira e olhei para ela. Minha mãe e eu olhamos de volta. Nós estávamos rindo no meio do Central Park. Eu não precisava ver os cupcakes ou a bagunça que ficaram do nosso piquenique para saber o que era. Era o reflexo que Henry tinha me dado o nosso primeiro e único Natal juntos. — Kate? O quadro escorregou da minha mão, e o vidro quebrou quando atingiu o chão. Xinguei e me curvei para pegá-lo. — Mãe, me desculpe, eu não tive— Está tudo bem, — disse ela, ajoelhando-se ao meu lado, e ela acenou a minha mão para longe. — O que você está fazendo fora da cama? Eu levantei quando o próprio vidro reparou sob sua orientação. Quanto tempo levaria para eu aprender a controlar meus poderes dessa maneira? Eu tentei descobrir o que eu era capaz, enquanto Calliope tinha me mantido em cativeiro, mas sem alguém para me ensinar, o melhor que tinha conseguido era controlar minhas visões. — Eu quero ver o Henry. — É justo. — Minha mãe se endireitou e colocou o quadro recém-reparado de volta em seu criado-mudo. E era seu criado-mudo; eu tinha certeza sobre isso agora. Esta era sua suíte. Esta era sua casa. Este era o Olimpo. — Você se importa de fazer uma viagem paralela comigo antes de ir vê-lo? — Disse minha mãe, envolvendo o braço em volta dos meus ombros. — O quê? Por quê? — Eu soltei. — Eu quero ver Henry, mãe. Ele estava na minha visão, e ele segurou Milo e o fez comer e tudo. Ela franziu a testa, mas em vez de me dizer que eu era louca ou que era minha imaginação, ela disse suavemente: — Podemos falar sobre isso mais tarde, querida. Walter convocou uma reunião de emergência do conselho, e eu estava no meu caminho para buscá-la. Para me buscar? No que eu poderia ajudar o conselho? Eu só tinha sido imortal por um ano e meio. Isso não era nada em comparação com o resto do conselho, alguns dos quais eram mais velhos do que os primórdios da humanidade. Como minha mãe. Como Henry. Como cada um dos seis irmãos cinco, agora que Calliope havia os abandonado. Quatro agora que Henry estava perdido em um mundo entre os vivos e os mortos. — O que aconteceu? 36


Minha mãe hesitou, e tendo meu braço bom, ela me guiou até a porta. — Eu não quero te preocupar, mas... — Mas o quê? — Minhas entranhas enrolaram. O pior aconteceu? Henry ou Milo foi morto? — Mãe, mas o que? Seus olhos brilhantes fecharam. — É Cronus, — disse ela, com a voz embargada. — Ele declarou guerra.

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Capítulo 4 O Conselho Dividido Apenas metade do conselho apareceu. Irene, minha tutora durante o meu tempo no Éden, chorava enquanto Sofia, enfermeira da minha mãe e outra dos seis originais, tentava consolá-la. No lado oposto do círculo, Walter e Phillip, os irmãos de Henry, sentaram-se com suas cabeças inclinadas em conjunto, e falavam em voz baixa. James e Dylan, namorado da Ava no Éden Manor, mantiveram-se em silêncio sobre seus respectivos tronos. Ninguém mais apareceu. — Onde estão todos? — Sussurrei para minha mãe, mas na sala sem fim, minha voz carregava. — Alguns optaram por não se juntar a nós. Não vamos os invejar. — Ela sentou-se e fez um gesto para eu ter um assento ao lado dela, no trono feito de diamante branco em linha reta do Submundo. De Persephone.

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Eu hesitei. Eu sentei lá algumas vezes no palácio de Henry, mas eu tinha assumido que estava lá porque era o seu reino. Era simplesmente um lugar para eu me sentar, ou isso significava que eu era um membro do conselho agora? Apesar da honra, a ideia de ter esse tipo de responsabilidade, esse tipo de controle sobre a vida dos outros fez mal ao meu estômago. Mas se eles confiaram em mim o suficiente para me tornar um deles, então eu faria tudo que pudesse para ajudar. — Nós estamos esperando por você, querida, — disse minha mãe, e eu me forcei a sair dessa. Pousando na ponta da cadeira, eu embalei meu braço no meu peito e esperei. Eu sabia por que Nicholas não estava lá, é claro, uma vez que Calliope estava segurando-o como refém. Ava estava ajudando-a – para salvar Nicholas, eu percebi, mas que não tornava mais fácil de engolir sua traição. E Henry... Todos eles tinham desculpas por não estar lá, e depois de Ella ter perdido o braço no dia que Cronus escapou do Submundo, eu não a culpo por não querer fazer parte também. Mas o que dizer de Theo? E sobre Xander? O conselho sem Calliope havia discutido e às turras, mas ninguém tinha diretamente abandonado a sua posição. Walter se levantou e limpou a garganta. Ele parecia mais velho de alguma forma, apesar de sua não velhice. Seus ombros caíram sob o peso de tudo o que tinha acontecido, e ao lado dele, Phillip, geralmente de modo brusco e impermeável, não parecia muito melhor. — Irmãos e irmãs, filhos e filhas... Filhas? Só Irene era sua filha. Sofia e minha mãe eram suas irmãs. A menos que ele se referia a mim, também. Não, foi um deslize da língua, nada mais. Porque se ele queria me dizer, também, então por que ninguém nunca tinha— Entristece-me muito em informar que Atenas caiu. Todas as minhas perguntas sobre o meu pai voaram para fora da minha cabeça. Atenas tinha caído? Irene soluçou, e Sofia a abraçou, esfregando suas costas e murmurando palavras de conforto que eu não podia compreender. Confusa, olhei delas para Walter. Como poderia Atenas cair? Esta não era a Grécia antiga - o que isso mesmo significava? — Como? — Disse minha mãe. — Por quê? Nós não temos nenhum exército lá. Nenhum soldado a ameaçar o domínio de Cronus sobre o Mar Egeu. Por que ele iria atacar sem provocação? Não foi sem motivo, no entanto. Cronus tinha prometido que ninguém iria morrer, enquanto eu ficasse ao seu lado, e agora que eu o tinha abandonado. Minhas mãos começaram a tremer, e eu empurrei-as entre os joelhos. Do outro lado do círculo, os olhos de Walter encontraram os meus. Ele sabia. — Nós não podemos fingir que entendemos como Cronus pensa, — disse ele, e uma onda de gratidão atada de culpa tomou conta de mim. Ele não ia contar.

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— Quanto à forma como ele atacou, — disse Phillip, subindo para ficar ao lado de seu irmão. — Ele usou o meu domínio. Foi um ataque calculado em Atenas especificamente - nenhuma outra área foi tocada. No entanto, o dano que ele fez... Irene chorava ainda mais forte, e Phillip levantou a voz para que todos pudessem ouvi-lo. — A onda lavou quase tudo. Meu corpo ficou frio, e a sala dourada girou até que eu não aguentava mais. — A-alguém morreu? — Eu sussurrei. Walter não disse nada por um momento, e eu pensei que eu vi uma faísca de compaixão passar sobre seu rosto. — Sim. Quase um milhão de pessoas perderam suas vidas. Algo torceu dentro de mim, forte e implacável, e se eu pudesse ter vomitado, eu teria. Quase um milhão de pessoas foram mortas por minha causa, porque eu tinha mentido para Cronus. Eu sabia que haveria consequências, mas eu tinha feito isso de qualquer maneira. Não, eu não sabia que seria qualquer coisa como isto. Esta não era uma guerra entre dois oponentes iguais; este foi um massacre de pessoas que nem sequer sabiam que os deuses e os Titãs eram reais. — Um ataque puramente simbólico, então, — disse Dylan, com o cenho franzido. Um mapa tridimensional da Grécia apareceu no centro do círculo, com montanhas, ilhas e mares, tudo com escala e cor exatamente como seria se isso fosse uma tomada aérea. Pelo que eu sabia, era. O mapa ampliou para Atenas até que o dano era visível. Durante o meu primeiro verão longe de Henry, James e eu tínhamos visitado a Grécia, e passamos semanas na cidade. Minhas lembranças de ruas pavimentadas, pessoas amáveis e o moderno aninhado ao lado do antigo poderia muito bem ter sido um sonho. Nada foi deixado. Detritos e lama substituíam o que havia sido uma cidade vibrante, agora arrastada para o mar. Lágrimas deslizaram pelo meu rosto, e eu não era a única a chorar. Ao meu lado, minha mãe colocou sua mão na minha, e até mesmo os olhos de James ficaram vermelhos. Atenas realmente se foi. — Olhe, — disse Irene, de repente, sua voz grossa. — Aproxime. O mapa foi ampliado, e eu desviei meus olhos. Eu não podia ver os corpos, se houvesse algum sobrando, para começar. Eu não podia ver os rostos daqueles que foram mortos por causa de mim. — O Partenon, — disse Irene. — Ele deixou de pé. Abri um olho. O templo de Athena – de Irene – se manteve, intocado, exceto pelos estragos do tempo e da história. — Uma mensagem? — Disse James, inclinando-se para frente. — Eu não posso dizer, — disse Walter gravemente. — Talvez ele tenha uma pequena quantidade de respeito por tudo o que fizemos para o mundo. — Ou talvez isso significa que ele vai nos manter vivos, se não ficarmos em seu caminho, — disse Irene, enxugando os olhos com um lenço. 40


— Não devemos ser vítimas da crença de que a remoção de nós mesmos com esta guerra vai impedir que isso aconteça, — disse Walter com surpreendente delicadeza. — Ele tem a intenção de nos matar - todos nós - por mantê-lo trancado no Tártaro. A humanidade não é nada para ele, mas ele não hesitará em acabar com eles, bem como, sabendo que a nossa existência está agora ligada à deles. Nós não temos escolha a não ser lutar até que acabe. — De uma forma ou de outra, — sussurrou Irene. Walter assentiu. — De uma forma ou de outra. — Não há algo que podemos fazer? — As palavras saíram antes que eu pudesse detê-las, e cada membro do conselho focou em mim. — Cronus deve querer alguma coisa. — Você sabe o que ele quer, — disse Walter, e minhas bochechas queimaram. Sim. Ele me queria. — Todos nós sabemos o que ele quer, — cortou Dylan. — Morte. Destruição. Mutilação. Guerra. Para governar o mundo mais uma vez. Normalmente eu iria aprovar, mas não quando nós somos os alvos. — Então, o que pretendemos fazer sobre isso? — Disse James. — Deixá-lo escapar disso? — Eu já convoquei uma reunião entre os meus súditos, — disse Phillip. — Eles sabem para não se curvarem à sua vontade, não importa o custo. — Cronus tem mais poder do que todos nós juntos, — disse Irene, uma vantagem determinada em sua voz agora. — Nós não podemos lutar como estamos e esperarmos alcançar qualquer medida do sucesso. — E sobre os outros deuses? — Disse James. — Eles poderiam ajudar. — Quase todos eles assinaram uma petição insistindo que eles não vão, — disse Walter. — Além disso, todos podiam se juntar a nós e colocar tudo o que têm para esta guerra, mas ainda não seria suficiente. Eles não são poderosos o suficiente para compensar a perda de Henry e Calliope. Eu cerrei os dentes. Henry ainda não estava morto. — Eu poderia falar com Cronus, — eu disse. — Ele - ele foi bom para mim. Ele pode ouvir. — Não, — disse minha mãe. — Mesmo se você tivesse esse tipo de poder sobre ele, ele vai parar em nada até que ele tem o que ele quer. Ele esperou e planejou por eras. Você não vai fazê-lo mudar de ideia, não importa o quanto ele gosta de você. Do outro lado do círculo, James focou em mim. Eu ignorei a questão em seu olhar e me concentrei na imagem flutuando entre nós em seu lugar. — Isso poderia funcionar, — eu disse. — Isso é um risco que não podemos correr, — disse Walter. — Calliope já provou que ela vai matá-la se for dada a oportunidade, e Cronus pode não estar disposto a protegê-la por mais tempo. Não, temos de concentrar nossos esforços em chegar com uma forma de equilibrar as nossas chances, apesar de nossos membros em falta.

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Frustração, quente e inflexível, levantou-se dentro de mim. É claro que eles iriam me convidar para me juntar a eles apenas para descartar toda ideia que eu tinha. O que mais eu podia esperar? — E quanto a Rhea? — Disse. Pareciam anos desde que eu tinha decidido deixar o Submundo para pedir sua ajuda. Ela era a única pessoa que poderia coincidir com Cronus no poder, e se alguém poderia ganhar esta guerra, era ela. — O que ela disse? Silêncio. Walter e Phillip trocaram um olhar inquieto, e, finalmente, James saltou. — Ninguém tentou encontrá-la. — O quê? Por que não? — Não sabíamos que você não estava- — começou Walter, mas a minha mãe cortou. — A maioria de nós não sabia que Kate não estava procurando por ela, — corrigiu ela, o fogo em seus olhos. Os lábios de Walter estreitaram sob seu olhar. — Sim. A maioria de nós não sabia que você já não estava procurando por ela. Certo. Aquele momento entre Henry e Walter no escritório. Henry tinha insinuado que Walter poderia saber o que estava acontecendo. — E aquele tempo todo, você não parou para pensar que poderia ser uma boa ideia enviar alguém em vez disso? — Disse. Walter pigarreou. — Nossos esforços se concentraram em tentar parar a guerra iminente, não aumentar. — Ah, é? Como isso funcionou? — Eu disse, e minha mãe apertou minha mão, um comando silencioso para parar de falar. Esta foi minha culpa, porém, até a última gota do mesmo. Eu tinha ganhado imortalidade e roubado Henry de Calliope, ou pelo menos era assim que ela o viu. Meu erro estúpido tinha forçado Henry a liberar Cronus do Tártaro, em primeiro lugar. Agora, porque eu tinha deixado Cronus, quase um milhão de pessoas foram mortas, e mais, sem dúvida. Não, eu não ia calar a boca. — Enquanto o resto de vocês tropeça e tenta descobrir o que fazer, eu vou encontrá-la, — disse eu. — E eu vou levá-la a nos ajudar. Eu esperava um argumento, mas em vez disso o conselho ficou em silêncio. — É a nossa maior chance de obter um poderoso aliado, — disse Sofia depois de um longo momento. — Não podemos esperar Calliope balançar de volta para o nosso lado, e sem um equilíbrio de poder, mais cidades vão se desintegrar, e mais pessoas vão morrer. Eu não sei sobre o resto de vocês, mas eu estou disposta a tentar qualquer coisa que possa nos trazer a paz. Walter suspirou. — Muito bem. Se você é capaz de convencer Rhea para nos auxiliar na contenção de Cronus, então você vai fazer-nos um grande serviço, Kate. E, possivelmente, evitar que milhões - talvez até bilhões - de pessoas morressem. Sim. Nenhuma pergunta. — Eu vou fazer isso.

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— Eu vou com ela, — disse James. Nossos olhos se encontraram novamente, e desta vez eu não desviei o olhar. — Goste ou não, eu sou o único que pode encontrá-la, por isso não discuta. — Eu não ia, — eu disse. — Eu confio em você. — Se havia uma pessoa que eu conhecia que não iria me trair, era James. Ele não tinha nada nessa luta, exceto a sua própria sobrevivência, e sua capacidade de encontrar alguém significava que não iriamos perder tempo à procura de Rhea. Ele sabia exatamente onde ela estava. — Todos nós temos que confiar um no outro agora, — disse Walter. — Aqueles que estão aqui e aqueles que não estão. — Ele se concentrou no trono de concha vazio de Ava por um momento antes de voltar seu olhar para mim. — Todos nós cometemos erros. Todos nós temos um fardo para carregar. Mas a menos que estejamos unidos, vamos cair, e temos de encontrar perdão e compreensão dentro de nós mesmos. Pura maldade não existe. Mesmo Cronus tem suas razões para fazer o que faz, e o melhor é entendermos uns aos outros, a melhor chance que temos de encontrar uma solução antes da nossa fundação desmoronar. Desviei meus olhos. Certa vez, quando eu primeiro enfrentei o conselho, eu tinha perdoado Calliope por me matar. Eu tinha sido capaz de ver além de seus crimes e examinar as razões por baixo, e de certa forma, eu tinha sido capaz de entendê-la. Mas se Walter estava realmente pedindo-me para fazer o mesmo com Ava... Não era a minha vida que ela tinha ameaçado. Foi a de Milo, e algumas coisas eram imperdoáveis. Mas apesar da minha raiva, eu queria perdoá-la - eu queria simpatizar com ela. Eu queria que ela estivesse do nosso lado novamente. E eu conseguia entender por que ela tinha feito isso, mesmo que eu não queria admitir para mim mesma. Calliope a estava chantageando, usando a vida de Nicholas para assegurar a cooperação de Ava. O dia em que eu e ela tínhamos deixado o Submundo, os sinais tinham sido óbvios, e se eu tivesse tomado um momento para pensar sobre isso, eu teria sabido que algo estava acontecendo. A força de Ava estava em como amava os outros. Eu sabia que Calliope tinha tomado Nicholas e ela tinha falado com Ava sozinha, e eu deveria ter percebido que Ava faria o que fosse preciso para protegê-lo. Eu deveria ter feito algo para ajudá-la antes que ela me traísse. Isso acabou agora, no entanto. Ela fez os seus erros, e eu fiz os meus. Eu faria tudo o que pudesse para corrigi-los, e eu só podia esperar que ela fizesse o mesmo, também. — Nós todos vamos fazer o nosso melhor, — disse minha mãe, e ela apertou minha mão novamente, seu olhar focado em mim. Dei-lhe um leve aceno de cabeça. Gostaria de tentar. — Então está decidido, — disse Walter, e em algum lugar dentro do palácio, um trovão retumbou. — Kate e James tentarão aliar o conselho com Rhea. — E nós vamos nos preparar para a guerra, — disse Dylan com um brilho nos olhos. 43


— Não, — disse Walter. — Nós nos preparamos o suficiente. Agora vamos lutar. *** Passei os próximos três dias ao lado de Henry enquanto eu recuperava a minha força. Ele estava em um quarto sem decoração algumas portas para baixo do meu, e enquanto minha mãe cuidava de nós dois, eu estava deitada enrolada ao lado dele. Eu quase o perdi - ainda poderia se eu não pudesse convencer Cronus para desfazer o estrago que tinha feito, e eu não ia deixá-lo novamente até que eu absolutamente tivesse que fazer. O vento uivava sem parar, e em algum lugar distante, o mar bateu contra o resto do mundo. Apesar do céu azul ensolarado acima de mim e do pôr do sol abaixo, trovão rugia em todas as horas do dia e da noite, e mesmo se eu quisesse, eu não teria sido capaz de dormir. Eu dividi meu tempo igualmente entre o meu presente e minhas visões com Milo. Henry não quebrou sua promessa; cada vez que eu cheguei, ele estava lá, às vezes segurando Milo, por vezes, vigiando em seu berço, enquanto ele dormia. Ficamos lado a lado por horas e simplesmente o assistíamos, e Milo olhou para nós em troca. De alguma forma, de alguma maneira, ele sabia que eu estava lá, eu tinha certeza disso agora. Eu invejava Henry a sua capacidade de segurá-lo, mas pelo menos ele teria uma chance de conhecer nosso filho. Se o pior acontecesse, Milo teria esses momentos com ele. — Você vai voltar para mim, não é? — Eu disse na noite que minha mãe finalmente decidiu que eu tinha curado o suficiente para viajar. James e eu estávamos marcados para encontrar Rhea na parte da manhã, e com toda a probabilidade, esta seria a última noite que eu teria com Henry e Milo por um tempo. — O que você quer dizer? — Disse Henry. — Eu estou aqui agora. — Quero dizer aqui de verdade, — eu disse. — Você vai acordar? Eu sei que Cronus te machucou, mas - você está aqui, e talvez se você tentar realmente duro... Henry beijou minha testa, a palma da mão pressionada contra a minha nuca. — Eu sempre estarei aqui para você, minha querida. Nada vai mudar isso. Eu respirei fundo, me recusando a chorar na frente de Milo. Mesmo que ele fosse dormir e nunca iria descobrir, eu saberia. — Por favor, acorde, — eu sussurrei. — Nós precisamos de você. Não, não assim. Precisamos de você. Nós não podemos derrotar Cronus sem você. — Você não pode derrotar Cronus comigo. Não sem Calliope, — ressaltou. — Nós estamos tentando. Ele matou uma cidade inteira cheia de pessoas. Atenas se foi, e ele vai matar de novo e de novo até que ele consiga o que quer. — E o que você acha que é? — Disse Henry, e eu hesitei. Eu não podia dizer a ele sobre o negócio que eu tinha feito com Cronus. Era muito complicado, e se 44


ele fugisse, eu não seria capaz de viver com a culpa de saber que foi uma das últimas coisas que eu disse a ele. — Eu não sei, — eu menti. — O Conselho considera que ele quer matá-los por mantê-lo preso no Tártaro. — Talvez. — Ele passou os dedos pelo meu cabelo, seu toque tão suave que parecia uma brisa quente de verão. — Tudo que eu quero é você. Eu tremi. Os lábios de Milo se separaram em seu sono, e ele fez um gesto adorável de amamentação. — Tudo que eu quero é ser uma família. Uma família real, viva, juntos e salvos de tudo isso. — Nós vamos ser, — prometeu. — Eu vou ter certeza disso. Debrucei-me contra ele e envolvi meu braço em torno de sua cintura, sua camisa de seda fazendo cócegas no interior do meu pulso. Quanto tempo seria antes que conseguíssemos passar tempo juntos assim de novo? — James e eu estamos saindo para encontrar Rhea amanhã de manhã. Os dedos de Henry acalmaram no meu cabelo, e por um momento ele não disse nada. — O que é tão importante que você tem que se colocar em uma posição tão perigosa? — A mesma razão de antes, — disse. — Se conseguirmos convencê-la a lutar ao nosso lado, podemos ter uma chance de ganhar. — Mas Cronus está devastando o mundo. Se você deixar o Olimpo, você não estará a salvo. — Eu não me importo mais, — eu disse com tanta convicção que eu poderia reunir. — Além disso, ele está preso em sua maioria na ilha com Calliope. Ele é poderoso o suficiente para causar desastres naturais que matam milhões, mas a África não está perto o suficiente da Grécia para ser um problema. — Você tem certeza disso? Eu hesitei. — Não. Ele virou-se de Milo para me abraçar com força, quase possessivo, e ele enterrou seu nariz no meu cabelo. — Por favor, não vá. Rhea não vai lutar por ninguém, muito menos contra o seu próprio marido. Não vale a pena o risco. — Eu tenho que tentar. Você sabe que eu tenho. — Mesmo que possa matá-la? — Eu não estou pensando em deixar isso acontecer, mas, sim. Mesmo que possa me matar. Sua expressão ficou nublada. — Muito bem. — Ele murmurou. — Tudo que eu peço é que você se lembre do que aconteceu da última vez que você deixou a segurança do conselho. Eu fiz uma carranca. — Eu entendo. Algo ruim poderia acontecer se eu sair do Olimpo. Cronus pode me pegar, Calliope pode me matar ou o céu pode cair e pousar em cima de mim. Mas eu não posso ficar parada e ver milhões de pessoas morrerem por causa de mim, tudo bem? — A humanidade não é nada comparada a você, — disse ele, tocando minha bochecha, e eu me afastei. 45


— Mesmo se isso fosse verdade - e você sabe que não é - Milo merece uma vida feliz, e isso significa ter certeza que ainda há um mundo para ele viver. Eu tenho que fazer isso, Henry. Sinto muito. Eu te amo e Milo mais do que qualquer coisa, e se eu tivesse escolha no assunto— Você tem, — disse Henry. — Você tem tantas opções quanto você está disposta a dar a si mesma. Eu bufei. — Bem. Eu fiz a minha escolha. Eu vou lutar. — Você não deveria estar lutando em primeiro lugar, — disse ele. — Você é muito delicada, muito— Muito o que? Muito jovem? Muito inexperiente? Eu não preciso ser antiga para valer alguma coisa, e eu estou fazendo isso, quer você goste ou não. — Eu olhei para ele, mas ele desviou os olhos. Alguns segundos se passaram, e finalmente eu disse em uma voz mais suave. — Eu entendo por que você não quer lutar, Henry. Eu entendo. Mas isso foi antes de tudo isso acontecer. Isso foi antes de Milo nascer. Se você não vai lutar por mim, então você vai, pelo menos, lutar por ele? Henry ficou em silêncio por um longo momento, e nem mesmo a ascensão e queda do peito de Milo me confortou. Isso era impossível. Meio-morto ou não, Henry era tão teimoso como sempre. Depois de cuidar do bebê durante todo esse tempo, ele conhecia Milo ainda melhor do que eu, e essa era a parte que eu não entendia. Como alguém pode olhar para aquele rosto e não querer rasgar o mundo para levá-lo de volta? Como poderia Henry não precisar proteger o seu próprio filho e dar-lhe o futuro que ele merecia? — Vamos discutir isso depois de ter feito contato com Rhea, — ele finalmente disse. — Eu não vou prometer nada, mas se existe uma maneira que eu posso ajudar, eu vou. Tal como está, estou um pouco preso. Isso foi o máximo de uma concessão que eu ia conseguir. Eu fiquei na ponta dos pés para tentar beijá-lo, mas como ele tinha todas as outras vezes durante nossas visitas com Milo, ele virou a cabeça, então eu só capturei o canto de sua boca. — Obrigada, — eu disse, me recusando a deixar sua distância me irritar. Talvez ele fosse Bela Adormecida, e um beijo iria acordá-lo e tirá-lo de seu filho. Se fosse assim tão fácil. — De nada. — Ele enfiou a mão no berço e pegou o bebê. — Nós estaremos aqui esperando quando você voltar. — É melhor estar. — Eu segurei minha mão sobre a testa de Milo, o mais próximo que eu poderia chegar sem passar por ele. — Eu amo ambos pra caramba. Você sabe disso, né? Milo agitou os braços, como se estendendo a mão para mim, e Henry beijoulhe a mão. — Nós sabemos, — disse ele. — E nós não podemos esperar para estar com você de novo. Eu o cutuquei nas costelas. — Você pode contar com isso. — Kate? Abri os olhos. James inclinou-se para mim, o nariz a centímetros do meu. 46


— Aí está você, — disse ele com uma pitada de alívio. — Você estava sorrindo. Eu me ajeitei e ajustando a fina faixa em volta do meu braço queimando. Era mais fácil ignorar a dor, uma vez que se tornou normal, mas quando eu me concentrava nela, ela me fazia estremecer. — Eu não sabia que era um crime. — Não é. — James me ofereceu sua mão, e eu peguei. — Eu só achei que você não ia voltar. Venho chamando seu nome por tempos. Minhas bochechas ficaram quentes. Eu não sabia como eu agia durante essas visões, ninguém se preocupou em explicar-me, e eu tinha vergonha de perguntar. Podia James ouvir tudo? — Então por que você não entrou como você fez da última vez? — Eu murmurei. — O que, você quer dizer quando eu estava tentando arrastá-la de volta do total esquecimento? — Ele disse. — Eu sinto muito sobre isso, você sabe. É rude. Mas se eu não tivesse, você ainda estaria lá, convencida que Henry estava morto. Então, apesar de tudo, eu acho que valeu a pena. Fiz uma careta para ele, mas ele estava certo. — Como você fez isso mesmo? Ele bateu com o nariz. — Meu segredo. Talvez se você for boa, eu vou explicar isso mais tarde. Estamos indo embora? Arrumei uma mala para nós dois. Na verdade, sua mãe embalou a sua. Imaginei que Henry poderia me ferir se eu tocasse suas calcinhas. — Eu pensei que Walter era quem fazia a matança, — eu disse com um leve sorriso. As sobrancelhas de James dispararam. — Será que você não viu a nuvem negra da desgraça quando Henry partiu para a ilha de Cronus? Meu sorriso desapareceu. — Claro. — E você ainda acha que ele não tem isso dentro dele? Eu fiz uma careta. James não precisava esfregar o nariz no fato de que eu não sabia o que meu próprio marido era capaz. Ou o que eu era capaz, para esse assunto. — Vamos lá, — disse James, mais suave desta vez, e ele pegou meu braço bom. — Vamos dizer adeus. Minha mãe não era a única pessoa esperando por nós. Walter estava ao seu lado, e sua expressão suave não traiu tudo o que foi que ele estava pensando. Meu estômago revirou. Eu o tinha evitado desde a reunião do conselho, incapaz de esquecer como ele tinha se dirigido a mim - como sua filha. Parecia impossível. Tinha que ser. Se eu fosse filha de Zeus, eu saberia. Mas, quanto mais eu pensava nisso, menos eu podia negar. James e Ava tinham mencionado que apenas seus filhos se juntavam ao conselho; e se eu era membro, em seguida, a resposta era óbvia. Mas, independentemente das provas, parte de mim queria ficar em negação. Eu tinha vivido toda a minha vida pensando que meu pai tinha deixado a minha mãe desde cedo, que ele nem sequer sabia que eu existia. Era mais fácil 47


do que enfrentar a possibilidade de que ele sabia e não se importava. E se Walter era meu pai, então não havia nenhuma dúvida de que ele não apenas sabia que eu existia, mas que ele esteve muito consciente de tudo o que minha mãe e eu tínhamos atravessado, também. E ele nunca se importou o suficiente para ajudar. Enquanto eu caminhava em direção a ele e minha mãe, ressentimento fez meu sangue ferver. Ele não disse nada quando a minha mãe me abraçou, e eu enterrei meu nariz em seu cabelo, inalando profundamente. Não importava o que Walter era para mim. Eu tinha a minha mãe, e ela era o único pai que eu já precisei. — Onde estão os outros? — Disse. Não que eu esperasse que eles se importassem que eu estivesse saindo, mas eu percebi que eles iriam, pelo menos, querer dar a James um adeus decente. — Na tentativa de encurralar Cronus totalmente de volta para a ilha, — disse minha mãe severamente. — Vamos nos juntar a eles uma vez que você sair. O medo passou por mim. Eu nunca tinha pensado nela como um soldado ela lutou muito contra o câncer que tinha finalmente tomado sua vida mortal, é claro. Mas isso não era câncer. Isso era uma guerra, e o pensamento de minha mãe lutando ao lado dos iguais de Dylan e Irene e Walter fez minha cabeça girar. Ela era a pessoa mais gentil que eu conhecia. Ninguém podia se dar ao luxo de ficar de fora, no entanto. Se eu soubesse como lutar como eles sabiam, eu estaria na linha de frente, também, usando cada pedaço de poder que eu tinha dentro de mim para obter o meu filho de volta. Como estava, a única maneira que eu tinha de ajudar era essa. E foi por isso que ninguém, nem mesmo Henry, jamais iria me convencer do contrário. — Kate, — disse Walter, e minha mãe me deixou ir. — Você entende que Rhea é tão forte como Cronus, não é? Eu olhei para ele. Nós não parecíamos em nada um com o outro, mas quando os deuses podiam e alteravam as formas, isso não significava muito. — Sim, eu sei. Não é esse o ponto? — Sim, — disse Walter, dando a minha mãe um olhar que eu não entendia. — Isso também significa que se você pressioná-la a fazer algo que ela não está disposta a fazer, ou se você perturbá-la de qualquer forma, ela tem o potencial para ser tão devastadora para a nossa causa. — Então você quer que eu puxe o saco dela? — Disse. — Estamos no meio de uma guerra. — Sim, estou ciente, — disse Walter secamente. — Eu estou apenas pedindo que você mostre a ela o respeito que ela merece. Ela é nossa mãe. Sua avó duas vezes excessiva— Desculpe-me? — Eu soltei. Minha mãe apertou meu cotovelo, mas eu a balancei fora. Era uma coisa para mim para pelo menos ter a opção de fingir ser alegremente inconsciente de seu papel na minha vida, mas para ele forçar isto em mim agora... algo dentro de mim estalou. — Se você finalmente vai admitir que você é meu pai— Agora não é o momento, Kate, — disse minha mãe. 48


— Nunca é o momento certo, — disse eu bruscamente. — É um simples sim ou não, Walter. Você é o meu pai? Ele levantou o queixo e olhou para mim. — Sim. Eu nunca pensei que fosse uma pergunta. Como se não fosse grande coisa. Como se os anos em que eu passei cuidando de minha mãe sozinha não importasse. Eu chorei até dormir incontáveis noites, apavorada de acordar e estar sozinha no mundo, e todo esse tempo, não só o meu pai sabia sobre mim, mas ele sabia exatamente onde estávamos e o que estávamos passando. — Então eu acho que é uma boa coisa que nunca achei que eu precisava de um pai, — eu disse. — Agora, se você não se importa, eu tenho uma Titã para encontrar. — Kate, — disse minha mãe, estendendo a mão para mim, mas eu puxei meu braço. Seus lábios se separaram em surpresa, e culpa agarrou meu coração, mais doloroso do que qualquer coisa que Cronus poderia fazer para mim. Mas eu mantive minha posição. — Nós precisamos ir. — Enfiei minha mão na dobra do cotovelo de James e dei um passo para trás, ignorando a forma como a minha garganta apertava. Eu não ia chorar. Não por Walter, e especialmente não na frente dele. Pela primeira vez na nossa amizade, James manteve sua boca fechada. Ao contrário, ele balançou a cabeça na direção de Walter e de minha mãe. Na direção dos meus pais, eu percebi. Pela primeira vez na minha vida, eu tive pais. Isso deveria me ter tonta de excitação, ou pelo menos deveria ter me dado um vislumbre de felicidade durante um dos piores momentos da minha vida. Em vez disso, me deixou com náuseas. — Adeus, meu amor, — minha mãe sussurrou. Antes que eu pudesse dizer adeus em troca, luz dourada brilhou em todas as direções, e manchas brilhantes de cor estouraram na minha frente quando os pisos do pôr do sol desapareceram. James e eu aparecemos em uma colina gramada, e eu pisquei. Sheep’s Meadow no Central Park, o local exato em que eu encontrava com minha mãe todas as noites que eu passei no Éden. Nós estávamos cercados por pessoas, mas nenhum deles sequer olhou para a nossa aparência. Eles podiam nos ver? Ou será que James fez alguma coisa para fazê-los pensar que tínhamos estado lá o tempo todo? — Por que estamos em Nova York? — Disse. — Rhea está aqui agora? — Rhea? O que ela estaria fazendo aqui? — Disse James, e ele me guiou para baixo do morro. — Ela ainda está na África. — Então, por que nós não estamos na África? — Eu disse, e James sorriu. É evidente que ele estava gostando de minha ignorância. — Estamos aqui porque este é o lugar onde o Olimpo passou a ser. — Eu hesitei. — Eu pensei que o Monte Olimpo era na Grécia.

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— Monte Olimpo é, mas o Olimpo, casa do conselho, não está em um local fixo. Bem, não, está. — Ele emendou, apontando para o pôr do sol que manchava o céu de Nova York. — Ele está preso eternamente entre o dia e ao anoitecer. Certo. Por isso, a decoração de interiores. — Então, por que não podemos simplesmente... aparecer lá? — Porque eu sinto falta de viajar. — James pegou meu cotovelo, sua mão quente, mesmo através da minha camisola. — Estamos lidando com as coisas da maneira antiga e vamos pegar o primeiro voo para o Zimbabwe. Vai nos dar algum tempo para traçar o nosso plano de jogo, e eu percebi que esticar as pernas iria te fazer bem. Além disso, apenas os seis irmãos podem desaparecer e reaparecer em outro lugar. E você agora, também, suponho, uma vez que você aprender, — acrescentou. — Eu aposto que Walter irá ensiná-la quando voltarmos. A menção de Walter virou meu estômago. — Por que eu posso fazer isso também? James levantou uma sobrancelha. — Você está reclamando? — Claro que não. — Mordi o lábio. — Não pode ser porque ambos dos meus - meus pais- — Eu mal podia forçar a palavra — -são parte dos seis originais. Em seguida, Nicholas e Dylan também poderiam. Então, por quê? — Porque senão você não vai ser muito boa em viajar através do Submundo, você vai? — James desembaraçou o braço do meu e envolveu-o em torno de meus ombros ao invés. — Sinto muito, Kate. Walter deveria ter lhe contado há muito tempo. Um gosto amargo encheu minha boca. Desculpas não iam resolver nada. — Não importa. Eu não preciso dele. — Ele é um pouco mulherengo, — concordou James. — Definitivamente não é um bom modelo para o bebê. Felizmente Milo tem Henry para se espelhar. Por um momento eu fiquei em silêncio. James não sabia se Henry iria acordar novamente. Nós nem sequer sabíamos se ele ainda estaria vivo no momento em que voltarmos. — Seu otimismo continua a desafiar a realidade, — eu murmurei. — Eu estava certo sobre a sua mãe, — disse ele, e eu balancei a cabeça. — Não, você não estava. Ela morreu. Sua forma mortal, de qualquer maneira, e você não tinha ideia de que eu ia passar nos testes. Você não sabia se eu iria vê-la de novo. James acenou fora minhas objeções. — De qualquer forma, isso não é otimismo. Isto é verdade. Henry vai superar. Ele estava me pescando, o idiota, mas não importa o quanto eu não queria dar-lhe a satisfação de saber que ele tinha me pegado, eu não pude resistir. — Tudo bem, eu cedo. Como você pode ter tanta certeza? Sorrindo, James se inclinou para mim, seus lábios roçando a concha da minha orelha. — Porque, — ele sussurrou, — Rhea pode curá-lo.

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Capítulo 5 Debaixo — Você sabia? Eu estava ao lado do berço do Milo, olhando para sua forma adormecida enquanto Henry estava do meu outro lado. Ele parecia diferente, mais distante de alguma forma, como se ele estivesse em outro lugar, também. Ele mal olhou para mim, e ele olhava sem piscar para o bebê. — Eu sabia o que? — Disse ele depois de um longo momento. Será que ele estava ouvindo? — Você sabia que Rhea poderia curá-lo? — Eu disse, mantendo um domínio sobre o meu temperamento. Tudo o que tinha acontecido não era culpa de Henry, é claro, mas ainda assim. Ele sabia o tempo todo? Walter estava ciente? Minha mãe estava? — Eu... suspeitava, — disse Henry, e seus olhos brilharam de novo. Onde quer que estivesse, eu com certeza esperava que fosse mais importante do que sua própria vida. — Eu não queria te dar falsas esperanças. 51


— Besteira, — eu disse. — Você não queria me dar alguma esperança em tudo. Vários segundos se passaram, e, finalmente, seu olhar encontrou o meu. — Você vai tentar? — Tentar o que? Você é filho dela, não é? — Disse. — Em uma maneira de falar. — Então por que ela iria dizer não? — Ela não gosta de incomodar-se com as nossas atividades, — disse Henry. — Eu tenho certeza que ela não vai se importar de parar por um momento suas atividades, a fim de curá-lo, — eu disse. Por que ele estava sendo tão difícil? Kate? Eu gelei ao ouvir o som da voz de James, mas Henry não fez nem mesmo uma careta. Kate, volte, disse James, as palavras não mais do que um sussurro. É importante. Era sempre importante. Suspirei interiormente e me inclinei sobre o berço para dar a Henry um beijo na bochecha. — Eu tenho que ir. Estarei de volta em breve. — É claro, — disse ele distraidamente, mais uma vez olhando para o berço. Seu olhar não estava focado no rosto de Milo, embora; era como se ele estivesse olhando através dele. O que estava acontecendo? O berçário desapareceu, substituído pelo interior de um avião. Apesar do amplo espaço da primeira classe, meu braço doía do jeito que eu encostei na janela, e eu estremeci. Estas foram as únicas passagens que conseguimos, e James insistiu que Henry iria pagar de volta. Durante o meu primeiro verão fora, eu estava relutante em gastar o dinheiro de Henry e forcei James a voar na econômica. Desta vez, eu não discuti. Eu aprendi minha lição sobre gastar 12 horas espremidas entre um bebê gritando e um passageiro roncando que tratou meu ombro como um travesseiro. — Aí está você, — disse James. — Com fome? — Ele sentou ao meu lado, e sobre a mesa bandeja na frente dele havia uma dois pratos reais de cheeseburgers e batatas fritas. Chique. James não se importou com um deles, sem dúvida, significava que era para mim, mas no outro ele empilhou as batatas fritas em uma estrutura oscilando. — Depende. — Eu disse, esticando as pernas. — Você me afastou de Henry apenas para pedir as minhas batatas fritas? — Claro que não, — disse James alegremente, e ele puxou uma garrafa de plástico de ketchup da mochila. — Se eu as queria, eu as roubaria. Ketchup? — Você realmente trouxe uma garrafa de ketchup no avião? Como você conseguiu passar isso pela segurança? Ele sorriu. — Meu segredo. Mudei o meu prato para a minha mesa bandeja. Ao contrário da econômica, ela saia do meu descanso de braço, e na parte de trás do assento em frente de mim 52


estava uma grande tela reproduzindo de um filme que eu não reconheci. — Você é louco. — Eu prefiro o termo engenhoso. — Ele esguichou um fosso de ketchup em torno de sua fortaleza de batata frita. — De qualquer forma, eu te acordei porque você estava murmurando alguma coisa. O que você estava sonhando? Peguei uma das minhas batatas fritas e coloquei na minha boca. Não tão ruim para comida de avião. Então, novamente, as poucas refeições que eu tive em aviões antes não tinham sido servidas com porcelana branca e talheres. — Eu não estava sonhando. Eu estava com Milo e Henry. James franziu o cenho. — Quantas vezes Henry esteve lá com você? — O tempo todo. Pedi-lhe para ficar, e ele fez. — Você pode tocá-lo? — Disse James, e eu assenti. — E Milo? — Ele pode. Eu não posso. — Certo. — Sua carranca se aprofundou. — O que você esteve dizendo a ele? — O que, eu não posso ter uma conversa privada com o meu marido sem você se intrometer? James colocou a garrafa de lado e me encarou. — Disse-lhe para onde estamos indo e o que estamos fazendo? — É claro, — eu disse. — Bem, não, eu quero dizer, eu disse a ele o que estamos fazendo e que nós estamos indo para a África. Eu não mencionei Zimbabwe especificamente. — Bom. — Ele roçou os dedos contra o meu, e eu me afastei, dobrando minhas mãos e as colocando no meu colo. Amigos ou não, ele feriu Henry intencionalmente todos aqueles anos atrás por ter um caso com Persephone. Enquanto Henry poderia ter estado disposto a perdoar, ele, sem dúvida, não tinha esquecido, e eu não estava prestes a dar-lhe mais de um motivo para se preocupar. — Como ele te tratou? Ele disse alguma coisa estranha? Fez qualquer coisa que não parecia muito certo? — O que é isso, vinte perguntas? — Eu me inclinei para trás na cadeira, deixando meu prato quase intocado. — Não é da sua conta. — Sim, é. Nós nunca tivemos uma situação como essa antes. Durante a primeira guerra, obviamente, eu não estava vivo naquela época, mas Walter— Eu não quero ouvir isso. — Não quando tinha alguma coisa a ver com o Walter. — Você precisa. — A voz de James foi surpreendentemente gentil. — Não importa o que Walter é para você, certo? Esqueça ele. Ele não é importante agora. — Ele nunca foi importante. — Tanto quanto eu estava envolvida, ele nunca seria. — Eu não iria tão longe, — disse James com um sorriso irônico. — Ele é o Rei dos Deuses e chefe do conselho, depois de tudo. Somos todos seus filhos. Você sabe disso.

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— Então o que, você está dizendo que eu sou idiota por não perceber isso antes? — Eu disse, e embora James tenha balançado a cabeça, eu ainda me sentia como uma idiota. Ele estava certo. Ele e Ava tinham me dito que cada membro mais jovem do conselho era um dos filhos de Walter. — Você não é estúpida, — disse James. — De modo nenhum. Walter, ele é o único estúpido por não agir como seu pai, quando Diana disse-nos que seu corpo mortal tinha câncer. Sua mãe queria que ele fizesse, — acrescentou. — Portanto, não se chateie com ela por isso, certo? Ela lutou muito para fazê-lo aparecer. Phillip até mesmo se ofereceu para ser seu tio, mas no final, Walter decidiu que passar por aquilo só iria dar-lhe uma melhor chance de passar nos testes. — Ele é um bastardo, — eu sussurrei, meio que esperando um raio rasgar o céu e bater-nos fora do ar. — Na maioria das vezes, — concordou James. — Ele não entende as emoções bem, eu acho. Não foi um grande pai para qualquer um de nós, à exceção talvez de Ava, e ela foi adotada. Não posso culpá-lo muito, entretanto. Ele não teve exatamente o grande modelo também. Isso não compensava me abandonar quando ele sabia que eu precisava dele, mas ajudou saber que eu era parte da regra e não a exceção. — É bom saber que eu não perdi nada, — eu murmurei. James bufou. — Dificilmente. Ele faz Henry parecer grudento. Pelo menos eu sabia que Henry era um bom pai, e, no final, isso era o que importava – que Milo tinha um pai. Minha infância já tinha acabado. A dele estava apenas começando, e eu não estava prestes a deixá-lo passar pela mesma coisa que eu tinha sofrido. Ele teria um pai, alguém que o amava, que ele veria todos os dias. Eu teria certeza disso. — Precisamos falar sobre suas visões agora, — disse James calmamente. — Você vai me deixar ir com você e ver? — Ir comigo? Não é como se eu viajasse, você sabe. Eu ainda estou aqui, quando eu as tenho. — Você pode levar alguém com você, se quiser, no entanto. Persephone fez isso comigo às vezes. — Tenho certeza que ela fez, — eu disse, revirando os olhos. Ele gemeu. — Não assim. Quero dizer - você pode deslizar para ele agora, certo? Você ganhou o controle? Após nove meses de mais nada para fazer? — Sim, eu tenho o controle. Ele colocou sua mão sobre a minha novamente, e desta vez não me afastei. — Eu não sei como Persephone fez isso, exatamente, mas ela descreveu para mim como natação através de néctar. Em vez de quebrar a ligação que ela estava sozinha, ela me levou com ela. Certo. Não estava ajudando. — Se precisar de mim para chegar lá, então como você conseguiu falar comigo quando eu estava lá antes? — Isso é diferente. Eu fiz isso mentalmente. — Assim. 54


Sua voz ecoou na minha cabeça, mais alto do que jamais esteve antes, e eu me afastei dele. — O que é que foi isso? — Shh, — sussurrou alguém nos bancos atrás de nós. James riu baixinho, mas não havia nada de engraçado nisso. — Fui eu, é claro. — Mas como- — Parei e baixei a voz para um sussurro. — Como você fez isso? — É fácil. Todos nós podemos falar mentalmente um a um. Não todos de uma vez, é claro, porque isso iria ficar lotado e muito, muito alto, mas se focarmos nossos pensamentos sobre uma pessoa, podemos fazê-lo. — Ele me ofereceu sua mão novamente. — Você tenta. Eu hesitei. — Como? — Basta pensar em alguma coisa, e empurre este pensamento em minha direção. Fechei os olhos e me concentrei na sensação de sua pele contra a minha. Sua mão estava quente, seus dedos incrivelmente suaves, e havia algo reconfortante sobre isso. Familiar. Isso é loucura. — Estamos todos um pouco loucos, quando você pensa sobre isso, — disse James, e meus olhos se abriram. — Funcionou? — Parabéns, você domina a arte de pensar. Agora vamos aproveitar esta conexão um pouco mais longe. Vá para a sua visão e leve-me com você. Aparentemente era demais esperar para que ele se esquecesse de invadir minha privacidade assim. — Não vai funcionar. Por que você quer ir comigo de qualquer maneira? — Várias razões, — disse ele em uma maneira cautelosa que significava que ele estava escondendo algo de mim. Então, novamente, eu tinha quase certeza de que ele sempre esteve. — Como o que? — Para que eu possa ter uma boa ideia de como é o layout da fortaleza de Calliope, — disse ele. — Então, eu sei onde Calliope e Cronus gastam seu tempo. Assim eu posso ver ondeEle parou, e eu fiz uma careta. — Assim, você pode ver onde o quê? — Eu disse, e sua expressão se tornou distante. — Você já encontrou Iris? — Disse ele, e eu balancei a cabeça. — Ela era mais um dos mensageiros de Walter. — Era? Ele limpou a garganta e olhou para o forte de batatas fritas, mas seu coração não parecia estar mais lá. — Calliope a matou no dia que Henry salvou você. Minha boca se abriu, mas por um longo momento, nada saiu. Não importava que eu não a conhecia; a dor de James rastejou através de mim, tão 55


certo como se fosse tangível. — Sinto muito, — eu disse finalmente. — Eu não posso imaginar o que você deve estar passando. — Ela era uma das minhas melhores amigas, — ele disse suavemente. — É diferente quando você é imortal, você sempre leva as pessoas como concedido. Quero dizer, eles vão estar lá em um século ou dois, certo? Não há necessidade de dizer-lhes como você se sente, porque sempre haverá outra oportunidade. Eu apertei sua mão. — Tenho certeza que ela sabia, mesmo se você nunca teve a chance. — Walter nunca deveria ter enviado ela em primeiro lugar. — James deu um suspiro trêmulo, e por fim ele olhou para mim. Fingi não notar a vermelhidão nos olhos. — Eu quero ver onde ela morreu. Mas eu também preciso para ter uma ideia do que está acontecendo para que o Conselho possa formar uma estratégia. Se nós estamos indo para resgatar Milo, precisamos saber onde ele está. — Você realmente faria isso? — Disse. Ele me deu um olhar estranho e sorriu. — Claro. Ele é seu filho. Isso era tudo que eu precisava ouvir. Apertando o meu domínio sobre seus dedos, fechei os olhos e me concentrei em sua mão, ao mesmo tempo em que deslizava na minha visão. Ele me segurou, porém, era como se estivéssemos em movimento através de areia movediça. Isso era impossível. — Eu não posso fazer isso. Você está quase lá. Continue. Eu empurrei. Calor de Milo ficou na minha frente, esperando, e eu não poderia decepcioná-lo. Finalmente, como se emergindo de um oceano infinito de lama, nós surgimos em conjunto. Eu plantei meus pés firmemente no chão do berçário, mas James tropeçou, e ele levou um momento para endireitar-se. — Whoa. Esqueci sobre o tremor. — Ele olhou ao redor do berçário do sol. Henry estava no canto, alimentando Milo com uma mamadeira, e os olhos de James se arregalaram. — Finja que eu não estou aqui. — O que- — eu comecei, mas Henry se virou para mim, um sorriso branco no rosto. Ansiedade reuniu em meu estômago. Ele estava desaparecendo? Era por isso que ele mal estava lá? — Bem vinda de volta, Kate, — disse Henry, sua voz calma de alguma forma reverberando através do berçário, como se ele estivesse falando em um vale profundo. — Milo começou a se irritar. — Certo, — eu disse, olhando para James. Henry não vai dizer oi? — Desculpe por sair daquele jeito antes. Algo aconteceu. Henry assentiu uma vez, seus olhos desfocados. Ele mal parecia perceber que ele estava segurando Milo. — Nada terrível, eu espero. Eu balancei minha cabeça. — Só o almoço.

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James se aproximou de Henry, um passo lento de cada vez, até que ele estava apenas meio metro de distância. Henry não tanto como piscou. Como ele podia me ver e não sabia que James estava lá? Sem dizer uma palavra, James saiu do berçário. Será que ele esperava que eu fosse segui-lo? Ou ele estava decorando o corredor onde Milo estava? Com sorte ele olharia para fora da janela, também, outra coisa que não havia nenhuma maneira de ele saber que nível estávamos. A menos que Calliope não tinha fixado o enorme buraco no chão ainda. Nos próximos vários minutos, nem Henry nem eu falamos nada. Em vez disso, eu me mudei para o seu lado e vi Milo comer. Não demoraria muito tempo antes que eu fosse a única segurando a mamadeira para ele. Estávamos quase em Joanesburgo, e de lá era um voo muito mais curto para o Zimbabwe. Assim que Henry fosse curado e Rhea estivesse do nosso lado, terminaríamos com essa guerra. Um movimento perto da porta chamou minha atenção. Eu olhei para cima, esperando James vir se esgueirando de volta para o quarto. Em vez disso uma menina entrou, carregando uma pilha de cobertores que obscureceram o seu rosto, mas eu teria a reconhecido em qualquer lugar. Ava. Ela colocou os cobertores para baixo em uma cômoda empurrou no canto, uma nova adição desde a chegada de Milo, e ela pulou. — O - o que você está fazendo aqui? Fiquei de boca aberta. Ela podia me ver? — O que você acha que eu estou fazendo aqui? Em vez de me responder, ela correu em direção a nós, com os braços estendidos. — Se Calliope descobre que você esteve aqui de novo, ela vai ficar furiosa. Dê a ele a mim. Sem aviso, ela deu um passo diretamente através de mim e tomou Milo dos braços de Henry. Minhas entranhas se transformaram em gelo. Ela podia ver Henry, mas ela não podia me ver. E ela estava segurando nosso filho. — Dê ele de volta, — eu disse, estendendo a mão para ele, mas é claro que minhas mãos atravessaram a ambos. Henry segurava a mamadeira, e desprovido da sua refeição, Milo começou a chorar. Seus gritos eram mais altos e mais saudáveis do que tinham sido os primeiros dias, mas tão reconfortante como deveria ter sido, eles alimentaram todos os instintos que eu tinha para ajudá-lo. — Henry. — Eu peguei sua mão. — Não deixe ela levá-lo embora. Ele ainda está com fome. Finalmente Henry piscou e balançou a cabeça lentamente, como se estivesse saindo de um devaneio. — Eu estou fazendo o que foi pedido a mim, — disse ele a Ava, me ignorando. — Eu estou cuidando do meu filho.

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— Ele não é seu filho, — chiou Ava, embalando-o contra o peito e virando as costas para Henry. Fúria quente passou por mim, substituindo o meu espanto. — Sua vadia, — eu rosnei, avançando sobre Ava. Eu não me importava que ela não tivesse ideia de que eu estava lá. Eu tentei ver as coisas à sua maneira, mas se ela ia levar Milo longe de seu pai, se ela iria insistir que Calliope era sua verdadeira mãe— Kate? — A voz de James cortou minha raiva. — Não se mexa. Não diga nada. — Não desta vez, — disse eu, mas meus passos vacilaram. Ava debruçou sobre Milo, como se estivesse protegendo-o com seu corpo. De quê? Seu próprio pai? — Ela roubou Milo diretamente dos braços de Henry. — Ela só está tentando protegê-lo, — disse James. — Protegê-lo? — Eu explodi. — Esse é o seu pai, e ela está roubando Milo— Ela não está roubando dele. — Olhe para ela! Henry, por que você nãoEu me virei para encará-lo, mas sua expressão era tão branca como sempre. Como se ele não fosse nada mais do que um modelo de cera sem vida. — Henry? — Eu disse, hesitante. — Henry, o queJames colocou-se entre nós, e ele olhou para ele com tanto ódio que eu parei no meu caminho. — Sinto muito, Kate, — disse ele. — Esse não é Henry.

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Capítulo 6 Rhea Não é Henry. As palavras acertaram na minha cabeça como se estivessem presas em um labirinto e não conseguissem encontrar a saída. — É claro que é Henry, — eu disse. Quem mais seria? Ele tinha me tocado. Ele ficou com o nosso filho. Ele tinha feito tudo o que Henry teria feito. Ele não tinha me beijado, no entanto. Algumas das coisas que ele disse não soavam bem - elas não haviam soado como Henry. Algo estava errado esse tempo todo. Eu descartei como uma consequência da minha visão, dele mal pendurado a este mundo, em primeiro lugar, mas e se não fosse? Horror frio me encheu. A única pessoa capaz de imitá-lo de modo completoCronus. Claro. É claro. Eu era uma idiota, e todo esse tempo ele tinha me enganado. Ele tinha tomado cuidado de Milo. Ele o alimentou quando ele não iria 59


tomar uma mamadeira de qualquer outra pessoa. Ele balançou-o para dormir. Ele ficou comigo por horas, observando o levantar e cair do peito de Milo de forma constante. — Vamos lá, — disse James suavemente, tomando minhas mãos trêmulas. — Vamos sair daqui. — Eu não posso. — Eu olhei para a zombaria que era Cronus em forma de Henry, e raiva quente diferente de tudo que eu já me senti corria através de mim. — Eu não posso deixar Milo. — Não há nada que você possa fazer por ele aqui, — disse James. — Ava vai ter certeza que nada aconteça com ele. Apesar da minha fúria tremendo, eu sabia que Cronus não iria machucá-lo também. Seja qual for a razão que tinha para fazer isso, ele tinha sido bom para Milo até agora, e James estava certo. Não havia nada que eu pudesse fazer, não quando eu não podia sequer tocar o bebê. — Vamos para o conselho sobre o assunto assim que encontrarmos Rhea, — prometeu James. — Mas agora eu preciso falar com você, e nós não podemos fazer isso na frente dele. Eu olhei para Cronus sobre o ombro de James. — Ele não está ouvindo. Ele é praticamente um zumbi. — Ele está sempre ouvindo. — Ele tocou meu ombro. — Vamos, antes que ele volte e piore as coisas. Em outras palavras, antes que ele pudesse me ameaçar ao silêncio ou a inação. Depois de dizer um adeus silencioso para Milo, eu fechei os olhos e deslizei para fora do berçário, lutando através da areia movediça que nos retornava para a nossa realidade. Após a brisa do Mediterrâneo salgado, o ar viciado do avião cheirava estrangeiro. Ao meu lado, James parecia tão pálido como eu me sentia, e lágrimas quentes corriam pelo meu rosto. James silenciosamente me ofereceu um guardanapo de sua bandeja. Quando eu não aceitei, ele limpou meu rosto para mim. — Eu deveria saber, — eu sussurrei. — Não é culpa sua, — disse James. — Cronus poderia ter enganado qualquer um de nós, e você precisava da esperança de que Henry estava lá fora em algum lugar. Não é irracional. É humano. — Eu sabia que algo estava errado. Ele continuou dizendo coisas estranhas, ele não iria me beijar, e a maneira como ele conseguia segurar Milo quando eu não podia tocá-lo... — Eu balancei minha cabeça. — Eu deveria saber. — Você sabe agora, essa é a parte mais importante, — disse James. — Eu preciso saber o que você disse a ele. Um nó se formou na minha garganta. — Tudo. Eu disse a ele sobre Rhea. Eu disse-lhe os planos do conselho para lutar. Tudo que eles confiaram em mim, eu tinha divulgado diretamente para o

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inimigo. Mais uma vez, por causa da minha estupidez, qualquer vantagem que tínhamos sobre Cronus tinha ido embora. James me abraçou, e eu endureci. Eu não merecia sua compaixão. — Vai ficar tudo bem, — disse ele, uma reafirmação vazia. Independentemente de saber se havia ou não alguma coisa que ele poderia fazer, ele não poderia garantir que tudo iria acabar bem. Ele não podia prometer-me que Henry iria viver ou eu jamais iria segurar Milo ou que o conselho iria recapturar Cronus e se certificar que Calliope nunca fizesse mal a ninguém. Ele não poderia compensar as inúmeras vidas que já se perderam por causa de mim. — Eu nunca mais vou vê-los novamente, — eu sussurrei. — Sim, você vai. Vou me certificar de que você vai. Eu me enrolei no meu lugar e descansei minha cabeça em seu ombro, perdida dentro de mim. Eu só podia ter tanto antes de quebrar, e Calliope sabia. Cronus sabia. Ficar forte para minha mãe enquanto ela estava morrendo havia sido fácil, era ficar forte para mim mesma que tinha sido impossível. Agora eu não tinha ninguém para ficar forte, nem mesmo Milo. Nem mesmo Henry. James estava ficando forte para mim, no entanto. Eu devia isso a ele, e Henry e Milo e minha mãe e todos, tentar não desmoronar. Engoli em seco, e minha garganta seca protestou. — Ele sabia que você estava lá? Ele balançou a cabeça. — Ele pode vê-la, mas só porque ele espera você e já forjou essa conexão com você. Ele vai saber que alguém veio porque você estava falando comigo, mas a menos que ele descubra quem eu era, ele não será capaz de me ver se voltarmos novamente. — Como você sabia que não era Henry? — Eu não sabia, — disse James, correndo os dedos pelo meu cabelo. — Não até que eu o vi. A única questão é por quê? Meu queixo tremia. — Eu fiz algo realmente estúpido. — O quão estúpido? — Disse James, sua mão acalmando. Eu pressionei meus lábios juntos, lutando contra o desejo de deslizar de volta para o berçário do sol. — Eu prometi a Cronus que eu iria ficar com ele e ser sua rainha e se ele não matasse ninguém. E se ele me desse Milo. James suspirou. — Oh, Kate. — Sinto muito. — Eu tentei me afastar dele, mas o braço em volta dos meus ombros apertou. — Sinto muito, James. Eu não fazia ideia. Eu pensei - eu não sabia o que eu estava pensando— Você estava pensando que você tinha a chance de fazer o que você sempre faz, — disse James com bondade que eu não merecia. — Você ia entregar-se, a fim de salvar as pessoas que ama. É um pouco de um problema com você, você sabe. Funguei. — Eu só queria ver Milo novamente. — Eu sei. — Ele murmurou, beijando o topo da minha cabeça. — Você não tem nada que se desculpar. — Mas todas essas pessoas - Atenas-

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— Iria acontecer, não importa o que você fizesse. Cronus sempre teve a intenção de causar o máximo de destruição possível. Isso não tem nada a ver com você, Kate, eu prometo. — Ele fez uma pausa. — Na verdade, o seu acordo pode trabalhar a favor de nós. — Como? — Limpei meu rosto com a manga. — Ele sabe que vamos para Rhea para pedir sua ajuda. Ele sabe que ela pode curar Henry, e a primeira chance que Cronus tiver, ele vai matá-la. — Provavelmente, — disse James. — Nós vamos ter certeza que ele nunca tenha a chance, porém, e nesse meio tempo, temos uma linha direta com Cronus. — Ele não vai ouvir a razão. — Não, mas ele pode ouvi-la. Especialmente se você puder convencê-lo de que você ainda está do seu lado. Uma onda de náusea tomou conta de mim. — Eu nunca estive do lado dele. — Não importa quando ele não sabe disso, — disse James. — Ele está sempre disposto a acreditar no pior em nós. Use isso contra ele. Diga que você quer se juntar a ele novamente, mas Walter está mantendo você refém. Você quer estar com Milo, por isso não vai mesmo ser realmente uma mentira. A menos que ele pudesse ver a mentira na verdade, como Henry podia. — Ele vai vir atrás de vocês, — eu disse. — Ele vai atacar o Olimpo. James riu. — Da última vez que Cronus tentou, ele acabou no mais quente, mais profundo poço na terra. Eu duvido que ele vá nos dar outra chance. Mas não importa o quão duro ele estava tentando me convencer de que não era um grande negócio, eu ouvi a preocupação em sua voz. Esta era toda a sua família também. Esta era a sua casa, e ele estava apostando tudo em quê? Na pequena chance que Cronus poderia estar disposto a ouvir-me? Se James estava certo e Cronus tinha ouvido tudo o que havia acontecido no berçário, então ele saberia que eu sabia. E ele saberia que eu estava com raiva. — E se não der certo? — Eu sussurrei, encontrando a sua mão e entrelaçando os dedos nos seus. Um toque simpático. Nada mais, mas eu precisava tanto, e assim como ele. James apoiou a cabeça contra a minha. — Então nós vamos ter que descobrir algo mais. Seis horas e um voo de conexão mais tarde, chegamos ao Zimbabwe. James chamou um táxi na calçada do aeroporto, e logo estávamos em uma estrada remota viajando para um lugar que eu não conseguia pronunciar, não importa quantas vezes James tentou me ensinar. — Você vai consegui eventualmente, — disse ele com uma risada, mas depois de um momento, ele ficou sério. — Nenhum de nós contatou Rhea em um tempo muito longo. Eu não tenho nenhuma ideia de como ela vai reagir, e eu não posso prometer nada. — Eu não preciso de promessas, — disse eu, mas meu interior agitou. E se eu não pudesse convencer Rhea a nos ajudar? E se ela não quisesse curar Henry?

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Eu me ajeitei na parte de trás do taxi quente. Não importa o que eu tinha que prometer a ela, eu iria encontrar uma maneira de fazer isso acontecer. Eu iria encontrar uma maneira de salvar Henry. E se Rhea era realmente tão despreocupada com o resto do mundo e ela não estava disposta a se levantar e ajudar-nos a lutar... Ela iria. Ela tinha que ajudar. A paisagem do Zimbabwe, em sua maior parte, parecia surpreendentemente familiar. Mais seco e mais selvagem, com vegetação rasteira, mas mais perto de casa do que eu esperava. Eu pressionei minha testa contra a janela quebrada do taxi. Algumas pessoas caminhavam ao lado da estrada segurando cartões feitos de papelão surrado, mas o taxista acelerou passando antes que eu pudesse ver o que eles diziam. Paramos na beira de uma aldeia que mais parecia uma favela do que uma cidade. James segurou minha mão com força enquanto descíamos o caminho estreito entre os edifícios jogados juntos, alguns dos quais se inclinavam perigosamente para um lado. Lixo limitava às ruas improvisadas e algumas crianças vestidas com roupas usadas começaram a nos seguir. — Não temos nada que possamos dar-lhes? — Disse. James fez uma pausa longa o suficiente para tirar sua mochila e tirou várias maçãs que eu tinha certeza que não tinha estado lá antes. Ele entregou uma para cada criança, mas a multidão continuou a crescer, e ele franziu a testa. — Kate, eu quero ajudar tanto quanto você, mas nós temos uma agenda. — Nós só perdemos mais de um dia voando quando você poderia ter nos deixado muito mais perto, — eu disse. — Nós temos alguns minutos para isso. James continuou a entregá-las. — Você sabe como criar. Alcance e me ajude. — Na verdade, eu não sei, — eu disse, mas eu enfiei a mão na mala e tentei de qualquer maneira. O que eu deveria fazer, apenas imaginar que estava lá? Fechei os olhos e imaginei uma maçã amarela suculenta. E entãoNada. Perfeito. James riu. — Você é a pior deusa que eu já conheci. — Calliope é a pior deusa que você já conheceu. Eu sou apenas a mais incompetente. — Eu fiz uma carranca. — Seria bom se alguém se preocupasse em me ensinar como fazer as coisas, você sabe. — Hey, eu mostrei-lhe como pensar. — Ele sorriu, e eu lhe lancei um olhar. — Em toda a seriedade, todos estão em uma espécie de ocupação agora, mas vou ver o que posso fazer. A maior parte leva décadas para aprender. Nós não tínhamos décadas, não se eu tinha alguma chance de ajudar na guerra. James entregou mais algumas maçãs, mas a multidão continuou a crescer. Eles realmente estavam com tanta fome que uma maçã era suficiente para parar o que estavam fazendo e vir correndo? A criança gritou numa língua que eu não entendia, mas instintivamente eu sabia o que ele estava dizendo ao menino que ele lutava. Minhas. 63


— Whoa, hey, se acalmem, — chamou James, tentando percorrer os meninos e meninas de olhos arregalados para alcançá-los. — Sem luta, há muito mais onde— Acalmem-se, meus filhos, — murmurou uma voz que parecia vir de todos os lugares e em nenhum lugar ao mesmo tempo. Imediatamente os meninos se acalmaram, e James soltou um suspiro profundo. Ele não precisava dizer uma palavra para mim para saber o que estava acontecendo. Rhea estava aqui. A multidão se abriu, e uma menina que não poderia ter mais de treze anos caminhou descalça pelo caminho. Seus olhos se destacavam contra sua pele escura, e ela usava um lenço colorido na cabeça. Movia-se com graça inumana, e apesar dela se misturar na multidão puramente por sua aparência, ela irradiava calor e conforto. Não poder e dor como Cronus. Quando ela passou, as crianças estenderam a mão para tocá-la, como se isso por si só pudesse curar a doença ou trazer-lhes boa sorte. — Avó, — disse James com reverência, e quando ela se aproximou de nós, ele se ajoelhou. — Eu senti sua falta. Rhea tocou seu rosto. — Hermes. — Ela murmurou. — Eu estava esperando por você. Tem sido por muito tempo. — Eu queria vir mais cedo, mas... — James sumiu. Não havia desculpa para não vir para ver esta menina. Esta Titã. — Sinto muito. — Não precisa se desculpar. Você está aqui agora. De pé. — Ela disse, e James fez, deslizando sua mão na dela. — Vamos falar em particular. Eles passaram por mim como se eu não estivesse ali. James parecia estar em transe, e eu hesitei. Devia seguir? — Você também, filha de Demeter. — As palavras de Rhea sussurraram através do ar, e os meus pés se moveram sem eu dizer-lhes. Naquele momento eu teria a seguido ao fim do mundo, se ela queria que eu fosse. — Nós não usamos esses nomes mais, — disse James, e eu trotava para alcançá-los quando eles viraram uma esquina. Nenhuma das crianças acompanhou, mas todas as pessoas que passaram estavam nos encarando abertamente. Devido a Rhea? Ou porque James e eu éramos estranhos? Ela nos levou para o que equivalia a um grande barraco azul com uma cruz branca pintada na placa acima. Entramos, e James teve de se abaixar para não bater na parte superior da porta. No interior, em vez da igreja que eu esperava, era um hospital. Ao longo de duas dezenas de homens, mulheres e crianças descansando em berços e camas improvisadas empurradas tão próximas que os médicos e enfermeiros - ou pelo menos eu assumi que eram médicos e enfermeiros - não tinham espaço para deslizar entre elas. Em vez disso, cada paciente foi confrontado com a cabeça perto do corredor e os pés à parede. Vários estavam dormindo, e alguns pareciam tão frágeis e perto da morte que eu tentei memorizar seus rostos. Será que eu os veria no Submundo? Será que eu ainda teria a oportunidade de voltar, se Henry não sobrevivesse? O que aconteceria com os mortos, então? 64


Não, eu não podia pensar assim. Rhea iria nos ajudar. — Por aqui, — disse ela, e nós andamos através do corredor estreito para uma porta em direção à traseira. Eu esperava um escritório, mas em vez disso, entramos em um jardim apertado que florescia com todos os tipos de flores e ervas que eu não reconheci. Minha mãe teria amado este lugar. — Agora, por que vocês vieram? — Você sabe por quê, — disse James, embora com respeito, e ele sentou-se num caixote que servia de banco. — Cronus destruiu Atenas. Hera nos abandonou para lutar com ele. Hades está à beira de desaparecer. Estamos desesperados, e precisamos da sua ajuda. Rhea começou a cuidar de um arbusto com pequenas flores brancas. — Você sabe a minha posição sobre a guerra, — disse ela. — Eu não posso apoiar de qualquer maneira. — Por favor. — James fez uma careta. Ir contra ela era claramente doloroso para ele. — Se você não nos ajudar a levar Cronus de volta para o Tártaro ele vai destruir a humanidade e nos matar, se tivermos sorte. Se não tivermos, vamos passar o resto da eternidade como seus escravos. Sem Hera, não somos fortes o suficiente para lutar contra ele por conta própria. Colocando as flores que ela pegou em uma cesta, Rhea não disse nada. Depois de quase um minuto, os ombros de James caíram, e eu sabia que era impossível. Nem mesmo a ameaça de extinção não foi suficiente para convencer Rhea. Eu fiz uma carranca. Era uma coisa não querer lutar em ambos os lados de uma guerra - eu não estava louca para empunhar uma espada e correr gritando para fora em um campo de batalha também. Mas isso era diferente. — Nós não estamos pedindo para lutar, — disse. — Estamos pedindo que nos ajude a evitar mais mortes. — Eu conheço o meu marido, — disse Rhea. — Se eu fosse me envolver, eu seria forçada a lutar, e eu não vou machucar um ser vivo, não importa suas intenções. Isso inclui Cronus. — Mesmo que ele mate milhares de milhões de pessoas e quase todo o conselho, a fim de conseguir o que quer? — Eu respirei fundo, me forçando a manter a calma. Ficar chateada não ajudaria em nada. — Você sabe tão bem quanto eu que a negligência não é apoiar a paz. É fechar os olhos para o que realmente está acontecendo. E sem a sua ajuda, nós vamos perder. James pegou minha mão, mas eu me afastei. Se ele não estava disposto a lutar, então eu iria. Rhea lentamente se virou para nós. Sua serenidade desapareceu, substituída por desaprovação frígida, e eu me preparei contra ela. Ela poderia não gostar de mim tanto quanto ela queria. Eu não ia recuar. — Eu não seria útil para você, independentemente do que eu fizesse. Meu marido não vai ouvir a razão, — disse Rhea. — Eu não vou levantar a mão contra ninguém. Meus filhos estão muito bem servidos com o que eu faço aqui. 65


— Mas os seus filhos estão morrendo, — disse eu. — Você poderia parar com isso. Você pode salvar suas vidas - você é a única que pode. Se você não fizer isso, eles vão morrer, e vai ser por sua causa. No momento em que as palavras saíram da ponta da minha língua, eu sabia que era a coisa errada a dizer, mas eu não podia levá-las de volta. Olhei para James, um pedido de desculpas em silêncio e pedindo para ele me ajudar. Ele permaneceu em silêncio. Rhea se endireitou, seu poderoso olhar focado diretamente em mim. — Não, filha de Demeter. Eles vão morrer por sua causa. Meu rosto ardia, e levou tudo que eu tinha para não correr de lá o mais rápido que pude. Como ela sabia? Podia sentir a culpa flutuando dentro de mim, impulsionada por toda a vida já perdida por causa da minha estupidez? — Meu nome é Kate. E eu sinto muito. Estou arrependida. Eu não sabia— A ignorância não é uma desculpa para as consequências que resultaram por causa disso. — Você não acha que eu percebo isso? — Lágrimas quentes picavam meus olhos. Eu nunca odiei ninguém tanto quanto eu odiava Rhea naquele momento. Não Walter. Não Calliope. Nem mesmo Cronus. Não, isso era errado. Eu me odiava mais do que eu poderia odiar qualquer um deles. — Ele tem o meu filho. — Minha voz ficou grossa, e minhas mãos tremiam. — Por alguma razão insondável, ele quer que eu seja sua rainha— Não é insondável, — disse Rhea com enervante calma. — Você mostroulhe bondade e compreensão quando ninguém mais teve em milênios. Mesmo a mais enegrecida e torcida das almas não pode deixar de responder à compaixão. Eu hesitei. — Como você— Eu sei tudo o que eu gostaria de saber. Mordi o lábio. — Então você tem que perceber por que isso é tão importante para mim. Você sabe o que eu prometi a Cronus. Você sabe o que ele está fazendo para mim, o doente— Estou consciente, — disse Rhea. — E você tem a minha simpatia. De pé ao lado dele não te faz igual a ele nos olhos dele, e é uma vida dura, que você não tem o poder para lutar. — Eu não, mas você tem, — eu disse. — Henry é o seu filho, certo? Ele está morrendo. Ele precisa de você, mas em vez disso você está aqui com estranhos. — Ninguém que caminha nesta terra é um estranho para mim. — Seus olhos brilharam, uma estranha combinação do sol e do mar. — Eu não estou negligenciando meu filho. Ele sabia as consequências de seus atos quando os cometeu, e era um risco que estava disposto a tomar para te salvar. Eu exalei fortemente. Ela não estava ouvindo. Ela não entendia - ou talvez ela entendia, e ela simplesmente não ligava. — E o meu filho? Ele é de Henry, também, você sabe. E ele é seu neto. O nome dele é Milo, e ele não tem nem mesmo uma semana. Por que ele merece ser criado por Cronus? 66


Rhea não disse nada, e eu não conseguia parar o fluxo de palavras que saiam de mim agora. — Ele nunca vai me conhecer. Ele nunca vai conhecer o pai. Ele vai crescer chamando a puta que o sequestrou de sua mãe, o egomaníaco que matou milhões de pessoas de seu pai e ele nunca vai saber que eu estou aqui fora o amando mais em um momento do que eles poderiam em uma eternidade. O que ele poderia possivelmente ter feito para merecer isso? — Nada, — disse Rhea suavemente. — Seu filho não tem feito nada para merecer isso, como as pessoas desta aldeia tem feito nada para merecer brutalidade e fome. — Então, ajude-o como você está ajudando essas pessoas, — eu implorei. — Por favor, eu vou fazer o que você quiser— Eu quero que você me deixe em paz. — Tudo bem. — Eu tomei uma respiração instável. Ela não ia ajudar o conselho com a guerra. Se ela não faria isso por bilhões de pessoas indefesas no mundo, então nada que eu poderia dizer ou fazer mudaria sua mente. — Eu vou embora, eu prometo. Só - por favor. Ajude Henry. Pelo menos dê ao meu filho a chance de conhecer seu pai. Mais uma vez, Rhea estava quieta. Seus olhos distantes da mesma forma que Cronus teve no berçário, e sua mão parou no meio do caminho para a cesta. Olhei para James. Isso foi a nossa deixa para ir? Ele deu de ombros, e juntos esperávamos. — Muito bem, — disse ela, finalmente, quebrando o silêncio. — Está feito. — O que está feito? — Eu disse, dando a James outro olhar perplexo, mas sua testa franziu em confusão. — Rhea, por favor, o que está feito? — Dê a sua mãe meu amor, — disse ela, tocando meu ombro. A dor em meu braço do punhal desapareceu. — Você é forte, Kate. Mais forte do que você sabe. Enquanto você resistir ao meu marido, você não precisa de mim para ter o que você mais deseja. — Não é sobre o que eu quero, — eu disse, a segundos de explodir. Como ela poderia me curar, mas não ajudar a salvar as pessoas que realmente precisavam dela? — Ele vai matar todo mundo, esta aldeia incluída. Ela não respondeu. Em vez disso, ela pegou mais algumas flores e se virou para entrar novamente na clínica. Eu comecei a ir atrás dela, e James agarrou meu pulso com um punho de ferro. — Não, — disse ele. Antes que eu pudesse protestar, outra voz sussurrou através do jardim, rouca e rachada. Mas real. Muito, muito real. — Kate? Meu coração bateu, e eu me virei, puxando minha mão de James. Aninhado entre uma árvore retorcida e um caminho de samambaia estava Henry.

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Capítulo 7 Atenas Eu voei através do jardim para os braços de Henry, beijando-o como se fosse a última chance que eu iria ter. Era realmente ele. Sua pele estava quente, os olhos de luar focados em mim, e do jeito que ele me levantou no ar e me beijou – ninguém, nem mesmo uma Titã, poderia fazer minhas entranhas virar geleia do jeito que ele fazia. Ele alargou a mão sobre as minhas costas, a palma da mão tão quente que eu podia senti-lo através da minha camisa. — Eu senti sua falta. — Minha voz se quebrou, e ele pressionou sua testa na minha então tudo que eu podia ver era ele. — Está tudo bem. — Ele passou os dedos pelo meu cabelo da mesma forma que James tinha feito no voo, mas isso não era nada mais do que uma memória distante. Henry estava aqui agora, e parte de mim clicou de volta no lugar. 68


Ele tropeçou, e eu imediatamente caí de volta para o chão, procurando seu rosto por qualquer sinal de dor. Em vez de fazer caretas, ele sorriu e pegou minha mão. — Eu estou bem. Só preciso de descanso. Eu não tinha tanta certeza de que eu acreditava nele, mas James se levantou e fez um gesto para a porta que Rhea havia desaparecido completamente. — Devemos agradecê-la e seguir o nosso caminho, — disse ele, olhando para Henry. — Acho que você não está em condições de nos levar de volta ao Olimpo, por isso vamos ter de fazê-lo da maneira antiga. O pôr do sol é em poucas horas. — Espere, — eu disse, ajudando Henry levantar. — Há um lugar que eu quero ver primeiro. *** Henry e eu nos sentamos contra a parede no aeroporto de Zimbabwe, meus dedos entrelaçados nos dele. Eu não tinha soltado desde que eu tinha voado em seus braços no jardim de Rhea, e ele não tinha tentado me soltar. Eu tinha roubado beijos no taxi todo o caminho de volta para o aeroporto, ignorando as caretas que James fez no banco da frente. Agora que estávamos em público, Henry parecia hesitante, mas ele nunca me recusou. Como eu pude alguma vez acreditar no ardil de Cronus? Ninguém, especialmente o Rei dos Titãs, jamais poderia substituir Henry. — Você quer ver Milo? — Eu disse enquanto esperávamos para James voltar do balcão. — Sim, — disse Henry, sem hesitação, apesar do cansaço em seu rosto. Rhea havia retirado todos os últimos vestígios de Cronus de seu corpo, mas ele ainda se movia como se estivesse com dor. O que passar por essa barreira de areia movediça faria com ele? Faria o pior? — Uma vez que você descansar, — disse eu, segurando sua mão. — Você pode dormir no avião. Sua expressão cintilou com decepção, mas ele não discutiu. Se ele estivesse bem o suficiente para vê-lo, ele teria lutado como o inferno para me fazer concordar, e satisfação desconfortável estabeleceu dentro de mim. Pelo menos eu tinha feito uma escolha certa hoje. — O que aconteceu? — Ele falou em voz baixa, mas mesmo no meio do aeroporto alto, eu ouvi cada palavra. — Por que estamos indo para Atenas? Eu hesitei. Não havia nenhuma maneira fácil de dizer e nada que eu pudesse fazer para tornar menos doloroso, então eu não poupei. Contei-lhe tudo o que acontecera desde que Calliope tinha o atacado. O ataque a Atenas, minhas visões, tudo que Cronus tinha dito e feito, tudo exceto a parte onde eu me prometi a ele. Eu não poderia dizer a ele, e com a forma como os músculos do queixo de Henry contraíram quando eu descrevi como Cronus tinha segurado o nosso filho, eu não queria tornar as coisas piores do que já eram.

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— Eu vou matá-lo, — sussurrou Henry. — Se eu tiver que destruir o mundo para fazê-lo, eu vou. — E então você não vai ser melhor do que ele, — eu disse. — Nós vamos descobrir como obter Milo de volta sem ninguém morrer, eu prometo. Henry balançou a cabeça e pareceu relaxar contra a parede. Pelo menos eu achava que ele estava relaxando até sentir as ondas reveladoras de energia escura que emanavam dele. Toquei seu joelho. — Henry, tão mal quanto eu quero arrancar a cabeça do desgraçado, você não está em condições de entrar em um jogo de mijo com um Titã. Descanse em primeiro lugar, e vamos pensar em alguma coisa mais tarde. Depois de um longo e tenso momento, aquele poder ressonante desapareceu. Olhei em volta nervosamente, procurando qualquer sinal de que o povo passando em torno de nós tinha percebido algo, mas ninguém parecia notar nada. Seis metros de distância, vi James conversando com uma mulher usando uma mochila enorme. Ele apontou para baixo do comprimento do terminal, e ela deu-lhe um sorriso agradecido e saiu correndo na mesma direção. Eu fiz uma careta. — Não é exatamente o melhor momento para parar e dar orientações, não é? — Eu disse enquanto ele se juntava a nós. James deu de ombros. — Não é exatamente o melhor momento para reunir energia suficiente para acabar com metade da África também, — disse ele, olhando incisivamente para Henry. Eles olharam um para o outro. — Além disso, dar indicações é o que eu faço. Entre outras coisas. — Como roubar bancos, — disse Henry. — Isso foi uma vez. — James balançou a cabeça e produziu três bilhetes. — O aeroporto de Atenas não está mais lá, mas eu nos tenho o mais próximo possível. Tem certeza de que quer fazer isso, Kate? Eu balancei a cabeça atordoada. Tão importante quanto era informar o Conselho, eu tinha que ver o estrago. Cronus tinha deixado o Parthenon intocado por uma razão, e talvez houvesse uma pista lá, ou algo que poderia nos ajudar. Além disso, eu não tinha dúvida que Henry iria mergulhar na guerra no momento em que voltasse para o Olimpo, e ele precisava de uma pausa antes de ir cabeça a cabeça contra Cronus. Mantê-lo longe por tanto tempo quanto possível era a única solução que eu conseguia pensar. Henry apertou os lábios em minha têmpora. — Ir para Atenas não vai ajudar, — disse ele calmamente. — Não vai mudar nada. — Poderia. Podemos encontrar alguma coisa. Aquelas pessoas morreram por minha causa— É claro que não. — A carranca de Henry se aprofundou. — Não tem nada a ver com você. Cronus teria atacado a humanidade eventualmente, e nada que você fizesse teria evitado isso.

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James me deu uma olhada, mas eu desviei meus olhos. Eu não poderia dizer a Henry o quanto estava errado. — Vamos lá, — disse James, oferecendo uma mão para Henry. Ele se recusou, e o braço de James caiu para seu lado. — Nosso voo embarca em breve. Devemos chegar com tempo suficiente a Atenas antes do próximo pôr do sol. — Por que isso importa? — Eu disse, firmando Henry pelo cotovelo enquanto ele estava trêmulo. — Porque quanto mais perto estamos de Cronus, em mais perigo estamos, — disse James. — Eu não sei quanto a vocês, mas eu não estou disposto a arriscar por muito tempo. Parte de mim não se importava, a parte que tinha morrido junto com o povo de Atenas. Mas a parte de mim que segurava a mão de Henry e sonhava segurar Milo se importava, e eu assenti. Quanto menos tempo passássemos na Grécia, melhor. Eu tinha que ir, no entanto. Eu não iria ceder nisso. — Talvez você devesse voltar para o Olimpo, — eu disse para Henry. Se Cronus descobrisse que Rhea o tinha curado, Henry estaria morto no momento em que ele estivesse em seu alcance. Qual largura era isso agora? Até onde Cronus poderia estender? Para Atenas? Para Londres? Para Nova Iorque? Quanto tempo antes que ele fugisse da prisão da ilha que os outros tinham conseguido construir? Ele tinha quebrado para fora do Submundo no solstício de inverno. Será que ele faria o mesmo em dezembro? É claro que ele faria. É por isso que o conselho estava lutando contra ele agora. — Não, — disse Henry com suave firmeza, e seus dedos se apertaram em torno de mim. — Eu não vou deixar você de novo. E egoisticamente eu não poderia pedir-lhe também, mesmo que pudesse custar-nos tudo. Nosso voo estava quase vazio. Era como se os relatórios que eu iria assistir na televisão horas antes que um furacão deveria bater uma cidade; as estradas saindo estavam lotadas com mais pessoas do que jamais haviam sido projetadas para lidar, mas as estradas que levavam à cidade estavam desertas. Isso era nós. Estávamos sozinhos na primeira classe, uma necessidade agora que Henry estava com a gente e espaço necessário para descansar. Senteime no banco ao lado dele, observando-o dormir e tentando persuadi-lo a comer alguma coisa uma vez que as refeições extravagantes chegaram, mas ele não fez muito mais do que mexer em seu frango e lembrar-me que deuses não precisavam de comida. — Ele vai ficar bem, — sussurrou James do assento em frente de mim. Embora Henry tenha caído no sono, ele continuava a apertar minha mão. — Nunca deveria ter deixado Olimpo em sua condição, o jumento teimoso. Quando voltarmos, ele vai se recuperar muito mais rápido. — Você acha? — Apertei os lábios. — Isso é parte da razão pela qual eu queria ir para Atenas. Imaginei que no minuto em que voltarmos, ele vai querer 71


lutar com os outros. Ele não vai se dar o tempo que precisa para se recuperar. Pelo menos assim ele vai descansar um pouco. James olhou para ele. — Você realmente acha que ele vai mudar de ideia sobre lutar? — Claro. Eles têm Milo. — E não importa o quão teimoso Henry podia ser, ele não iria abandonar o nosso filho. — Existem outros? — Outros? — Titãs, — eu sussurrei. — Havia outros nos mitos, certo? James fez uma careta, a linha entre as sobrancelhas aprofundando. — Sim, havia outros, mas eles não vão ser de alguma ajuda. Eles foram enterrados no Tártaro com Cronus. — Ele deve ter visto a expressão no meu rosto, porque ele acrescentou rapidamente, — Nós não temos que nos preocupar com eles. Cronus nunca iria permitir-lhes sair, antes de tudo, ele quer ser rei, e eles desafiam seu governo. Em segundo lugar, todos eles tomaram capturados antes que Cronus fosse, e as medidas que os seis originais levaram para certificar-se de que nunca veriam a luz do dia novamente... — Ele fez uma careta. — A única razão pela qual eles não tomaram essas medidas contra Cronus é porque Rhea pediu-lhes que não. É mais ou menos matá-los, — acrescentou. — Ou, pelo menos tanto quanto um Titã pode ser morto. E porque ela é sua mãe, eles ouviram. — É por isso que eles não a prenderam? — Ela não lutou nessa guerra também. — Certo, — eu disse. Pelo menos ela foi consistente. — Você deveria dormir um pouco, — disse James. — Dia agitado na nossa frente. — Você também, — eu murmurei, e no resto do voo, eu tentei seguir seu conselho. Mas dormir significava ou visões e Cronus ou pesadelos de Titãs subindo da terra, e eu não podia suportar nenhum agora. O avião pousou, e eu, relutantemente, acordei Henry. Sem qualquer bagagem despachada, foi uma caminhada fácil através do aeroporto para pegar um táxi, e mais uma vez nós nos preparamos para uma viagem. Atenas não tinha sido o único lugar afetado pelas consequências do maremoto. Os sinais de devastação estavam por toda parte: refugiados amontoados em grandes tendas nos arredores do aeroporto, os restos do que fora outrora Atenas foram espalhados por toda a costa, e as cidades que nós dirigimos através estavam praticamente vazias. — Os terremotos, eles têm assustado nosso povo, — disse o taxista. Mais uma vez eu reconheci que as palavras que ele falou não foram em Inglês, mas eu as entendi de qualquer maneira. Essa capacidade deve ter se desenvolvido entre o meu verão na Grécia e agora. — Depois do que aconteceu com Atenas, muitos acreditam que fomos amaldiçoados. — Os terremotos? — Disse James e eu, ao mesmo tempo, embora ele tenha falado no que deve ter sido grego, enquanto eu usava Inglês.

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— Você não ouviu? — Disse o motorista, e por um momento os olhos de James pareceram distantes. Eu não conseguia ouvir o que ele dizia ou para quem ele estava dizendo, mas era óbvio que ele estava se comunicando com alguém. — Phillip diz que houve dezenas de tremores de terra menores em todo o Mar Egeu desde o ataque em Atenas, — disse James em voz baixa. — Dos grandes. — Ele está tentando escapar de nossas barreiras, passando pela terra, — disse Henry no meu outro lado. — Não está funcionando, não é? — Eu disse, e tanto ele como James balançaram a cabeça. — Bom. Passei o resto da corrida de táxi em silêncio. As horas escorregaram quando nós dirigimos através da paisagem grega, indo em direção à destruição, enquanto todo mundo estava indo embora. Eu não poderia adormecer. Sentei-me ao lado de Henry rigidamente, cujos olhos se fecharam por longos períodos de tempo, e nem mesmo o nosso motorista parecia muito falador, uma vez que ele tinha nos atualizado sobre tudo o que tinha acontecido. James disse a ele quais locais virar, e apesar de olhar irritado ao ser instruído por um turista, ele não discutiu. Finalmente, depois de eu ter me perguntado se algum dia chegaríamos a Atenas, o táxi parou em uma estrada que serpenteava até uma colina íngreme. — Eu não posso ir mais longe, — disse o motorista se desculpando. — Não há nada para nós para ir nessa direção, e eu tenho combustível suficiente apenas para voltar. — Isso é bom, — disse James, entregando ao homem um maço de notas. — Fique com o troco. Nós três descemos do carro, e eu abracei o braço de Henry quando James levou-nos no caminho. É inclinado para cima, uma vez que a volta ao morro, e eu não vi qualquer sinal da cidade, mas ele parecia saber para onde estava indo. — Você precisa se preparar, — disse James à medida que dobrava a esquina. — Isso não vai ser fácil. — Eu não vim aqui para fácil, — eu murmurei. Henry não disse uma palavra, mas ele deslizou o braço da minha mão para envolver meus ombros ao invés. O calor se espalhou por mim, e não foi o suficiente para me fazer relaxar, mas ajudou. Apenas Henry estar lá fez maravilhas. Chegamos ao outro lado da curva. Eu não sei o que eu estava esperando mais paisagem verde, mais árvores, mais Grécia, mas no momento em que eu vi o que estava diante de nós, eu congelei. O oceano brilhava a distância, agitando ameaçadoramente enquanto o crepúsculo se aproximava. Antes dele, onde Atenas tinha estado, não tinha nada. A terra que uma vez tinha sido coberta de edifícios e casas e pessoas em suas vidas diárias, agora estava árida e marrom. Escombros ficaram onde arranha-céus já estiveram, e embora as equipes de resgate estivessem espalhadas pelas ruínas, eu nunca teria imaginado que menos de uma semana antes, isto tinha sido Atenas. — Se foi, — sussurrou James, e eu tateei até encontrar sua mão. Seus dedos estavam frios. — Só – se foi. 73


Do meu outro lado, Henry encontrou a cena diante de nós com um silêncio sepulcral. Puxando-me para longe da destruição o tempo suficiente para avaliar sua reação, uma onda de náusea tomou conta de mim. Ele não parecia nada diferente. Sua expressão era impassível e seus olhos distantes, mas não havia horror em seus olhos. Só a mesma tristeza que sempre esteve lá. Esta era a sua realidade. Ele cercou-se de morte por eras; por que testemunhar na superfície seria diferente de ver os mortos no Submundo? De governar sobre eles, a julgar sua vida, escolhendo o destino daqueles que não poderiam escolher para si? Apesar da razão, a maneira como ele olhou para as ruínas com aceitação silenciosa me gelou. Eu nunca queria olhar assim. Eu nunca queria sentir como se a morte não fosse uma grande perda, porque para a família e os amigos e entes queridos que o povo de Atenas tinha deixado para trás, foi terrível. Debrucei-me contra ele, e nós três ali, ligados entre si. Como alguém que dizia ser capaz de amar poderia fazer isso? Cronus não era mortal, apesar de tudo. Ele não entendia os laços de humanidade ou o medo e o impacto da morte. Para ele, o que ele tinha feito nada mais era do que espantar um formigueiro em uma calçada, não percebendo que as ondulações seriam sentidas por milhões. Não, ele sabia. Ele sabia exatamente o que ele tinha feito. Ele simplesmente não se importava. — Podemos - podemos chegar ao Parthenon a partir daqui? — Disse. — Talvez Cronus tenha deixado algo ou— Não há nada lá, só escombros e poeira, — disse James. — Eu sei, masHenry apertou minha mão. — Vou levá-la. Antes que eu pudesse protestar, o mundo em torno de nós três dissolveu, e pousamos no meio das ruínas antigas. Acima de nós, o céu era uma sinfonia de cores, um forte contraste com a devastação abaixo. — Você está bem? — Eu disse, observando Henry. Ele estava pálido, e um brilho fino de suor cobria sua testa, mas ele balançou a cabeça. — Eu vou viver. Vamos procurar essa pista. O tom de sua voz tornou óbvio que ele estava com James nisso - não havia maneira de Cronus ter deixado qualquer tipo de sinal para nós, mas eu tinha que tentar. Eu andei em torno da estrutura em ruínas, em busca de qualquer coisa que parecia fora do lugar. James e eu tínhamos visitado o Parthenon durante meu primeiro verão longe de Henry, mas eu mal tinha olhado para os detalhes na época, mais encantada com a vista. Agora eu gostaria de ter prestado mais atenção. O que eu estava procurando? Os pilares pareciam o mesmo. Apesar da destruição abaixo, o Conselho tinha razão: Cronus tinha deixado estas ruínas sozinhas. Por quê? Talvez realmente fosse apenas um sinal. Uma oferta de paz se eles ficassem de lado. Mas Walter tinha sido convencido de que Cronus iria matar todos, 74


independentemente dos seus esforços contra ele. Ele estava errado? Ou Cronus estava tentando atrair os outros para o rendimento? Eu chutei um pouco de sujeira. Nenhuma maneira de saber sem perguntar, e a probabilidade de Cronus me dizer toda a verdade era minúscula. ExcetoEu olhava. O chão não tinha sido feito de terra a última vez que eu estive aqui. Ajoelhando-se, eu escovei-o longe, revelando a pedra usada por baixo. Meu coração se afundou. Apenas detritos do tsunami em seguida. Mas isso não fazia qualquer sentido. Como isso teria chegado aqui em cima? — Existe uma maneira de limpar toda essa sujeira para fora daqui? — Eu disse, e a alguns metros de distância, James acenou com a mão. Um vento suave rodou pelo chão, revelando o andar de baixo, juntamente com uma série de desenhos gravados na pedra. Não havia maneira que um ser humano tenha feito. Eles eram muito complicados, muito sofisticados, muito impossíveis. As imagens pareciam deformar a própria pedra, como se essas coisas realmente existissem dentro dela. — Que diabos é isso? — Disse James. Ele e Henry deram um passo atrás, e eu me levantei. Estes não estavam aqui na última vez. No chão, era impossível vê-los todos através do Parthenon. Em vez disso, concentrei-me no mais próximo dos meus pés: um desenho de quinze tronos, todos consumidos pelo fogo. Mesmo que as linhas não se movessem, era fácil ver o brilho das chamas. Meu pulso acelerou, e eu corri para o outro. Uma figura enorme pairando sobre uma fenda na terra enquanto uma dúzia de pequenas figuras que lutavam. Cronus, escapando do Submundo. — É a sua versão da história, — eu disse, atordoada. — Não só a história, mas seus planos para o futuro, também. Lentamente, Henry, James e eu caminhamos ao redor das ruínas, examinando cada imagem. Algumas eram de um longo tempo antes de eu nascer algumas antes do nascimento da humanidade - e Henry e James calmamente explicaram para mim. Mas outras eu reconheci. O desenho de um portão no Tártaro me fez tremer, e eu me virei. Cada barra tinha uma marca de mão sangrenta sobre ela. — Kate? — Disse Henry. — Venha ver isso. Mudei-me para o lado e deslizei a mão na dobra do cotovelo dele. — O queParei. Abaixo dos meus pés, uma gravura de Cronus olhava para mim, e ele não estava sozinho. De pé ao lado dele, segurando-o como eu me agarrava a Henry agora, estava uma menina que usava uma coroa. Não apenas uma menina. Eu. Aquela garota era eu.

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Capítulo 8 Rainha

Silêncio. Prendi a respiração, à espera de Henry dizer alguma coisa, mas ele não disse. Ele não piscou, ele não se moveu, ele não desviou o olhar da imagem. Ele só olhou, e as mesmas ondas negras de poder que apareceram no aeroporto começaram a se reunir. Ótimo. Lá se foi qualquer chance que eu tinha de parar Henry de montar sua nuvem da desgraça de volta para a ilha de Cronus. James passeou e soltou um assobio. — Legal. Cronus realmente captou sua essência. E olha que tiara. Eu lhe dei uma cotovelada. — Isso não sou eu. — Quem mais seria? Quero dizer, olhe para ela, o nariz está um pouco fora, mas fora isso, é perfeito.

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— Não sou eu, — eu disse teimosamente, dando-lhe um olhar. Nós dois sabíamos que era uma mentira, mas Henry não poderia saber sobre o negócio que eu tinha feito. — Calliope esteve mudando sua aparência, e ela parecia exatamente como uma versão loira mais velha de mim. Você não pode dizer que cor de cabelo esta menina tem, mas é definitivamente o nariz dela. James segurou meu olhar por um longo momento, e finalmente ele reorientou para a imagem. — Você está certa, — disse ele. — Deve ser Calliope. Eu queria abraçá-lo por ter mentido e bater nele por fazê-lo tão mal. Em vez disso, eu me estabeleci em um sorriso e envolvi meu braço em torno da cintura de Henry. — Está vendo? É Cronus e Calliope. Nada mais faz sentido de qualquer maneira. Henry suspirou, como se ele estivesse prendendo a respiração durante todo esse tempo. Talvez ele tivesse. — É claro, — ele murmurou. — Meu erro. Henry não era estúpido, mas eu não tinha mentido - Calliope parecia muito mais como eu e minha mãe nos dias de hoje. Com sorte, isso cobriria minhas mentiras tempo suficiente para Henry se recuperar. E até lá, talvez o seu envolvimento fosse suficiente para que o Conselho tenha Calliope morta e recapture Cronus, depois de tudo. Eu não podia suportar olhar para a imagem por mais tempo, e eu puxei Henry e James a borda do Parthenon. Juntos, olhamos para a devastação, mais uma vez, mas desta vez o aperto de Henry parecia como aço. Ele não estava me soltando para qualquer coisa, e nem eu ia. Eu não sabia quanto tempo ficamos ali. Minutos. Horas. Anos. Eu estava perdida para sempre, esperando que algo acontecesse para me lembrar que ainda havia um mundo lá fora, um lugar para lutar mesmo que Atenas tinha ido embora, e um futuro além do que Cronus queria para mim. Não tinha jeito, ainda não, e eu não podia me dar ao luxo de esquecer isso. O oceano ficou mais rude, formando carneirinhos e as ondas batendo contra a costa, e algo riscou o céu. Eu pisquei. — O que é que foi isso? — O que foi o quê? — Disse James, e outra faísca roxa acelerou no horizonte. — Isso, — eu disse enquanto outro seguiu, e mais outro. — Chamas de resgate? — Não, — disse Henry. — É crepúsculo, e Olimpo está ao alto. O conselho está atacando a ilha. Meu sangue gelou. Eu nunca tinha visto os outros membros do conselho atacando em seu próprio reino. Em baixo no Submundo, suas habilidades tinham sido silenciadas, mas na superfície devem ter vindo a dar tudo de si. A que custo? Quem seria o próximo? Minha mãe estava entre eles. Seria ela? Engoli em seco, e minha visão ficou turva. A última vez que tinha falado com ela, eu tinha sido uma pirralha egoísta. Eu não tinha dado a ela a chance de

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explicar por que ela manteve a identidade do meu pai em segredo. E se essas fossem as últimas palavras que eu disse a ela? — Eu deveria ajudá-los, — disse James, e ele tentou se soltar da minha mão, mas eu segurei. — Esteja seguro, — eu disse. — E certifique-se que a minha mãe chegue em casa. Ele beijou minha bochecha. — Sempre. Vejo você em poucos minutos. Poucos minutos? James começou a ir em direção ao centro do Parthenon, e a vários metros de distância, ele começou a brilhar. Antes que eu pudesse dizer uma palavra de surpresa, ele também se transformou em uma chama de luz, e ele foi atrás deles. — Oh, meu Deus, — eu disse enquanto seguia seu caminho através do céu. — Eu não tinha ideia de que poderíamos fazer isso. — Eles são mais poderosos quando o Olimpo está por perto, — disse Henry. — Como James disse, a batalha não vai durar muito. Venha. Nós temos que voltar para onde é seguro para você. — Para você também, — eu disse com firmeza. Ele poderia fingir que estava bem, tudo o que ele queria, mas ele não estava me enganando. Eu podia ver o cansaço nos olhos dele. Ele não teria uma chance se Cronus descobrisse que estávamos aqui, se ele já não soubesse. — Podemos ainda visitar o Olimpo em algum momento, uma vez que você estiver curado? Henry me deu um olhar intrigado. — Nós não estamos voltando para o Submundo. Nós estamos indo para o Olimpo. Cronus e Calliope acreditam que eu estou morto, e devemos incentivar essa crença. Ele estava errado; Cronus não achava que ele estava morto. Ele sabia que íamos encontrar Rhea, e ele tinha que perceber que Rhea não se recusaria a ajudar seu filho. Embora e se ele não soubesse? Ele não sabia nada sobre o vínculo de um pai para um filho. Ele se preocupava com o controle e poder, não afeto e amor. Se eu lhe dissesse que Rhea havia se recusado a ajudar, ele acreditaria em mim? — Tudo bem, — eu disse. Eu iria falar com James sobre isso mais tarde. Henry estava muito cansado e precisava descansar, não planejar a melhor forma de mexer com a cabeça de Cronus. Ele estaria muito disposto a fazê-lo, também, depois da minha imagem ao lado Cronus. — Eu não sei como voltar para o Olimpo. — Sorte sua que eu sei, — disse Henry com um leve sorriso. — Feche os olhos. Olhei para fora através das ruínas de Atenas pela última vez. Eu iria fazer isso direito. Eu não poderia dar às pessoas de volta a vida, mas eu faria tudo que pudesse para tornar a sua estadia no Submundo feliz. Concentrando nas estrias no céu atacando a prisão da ilha, fiz uma oração silenciosa que eles voltassem para casa com segurança. Para quem, eu não sabia.

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Para quem quisesse ouvir. Tinha que haver uma maneira de parar a versão do futuro de Cronus de acontecer, e eu faria tudo o que pudesse para descobrir. Finalmente eu fechei os olhos, e Henry passou os braços em volta de mim. Um vento quente nos cercou, e os meus pés deixaram o chão. Este não foi um ato de reaparecendo-desaparecimento habitual de Henry, mas isso não importava. Nós estávamos juntos, e por um momento bonito, estávamos voando. *** Eu passei muitas horas em hospitais, à espera de um médico para me dizer como minha mãe estava depois de sua última rodada de testes e cirurgias. A ansiedade tornou-se minha companheira mais próxima durante esses anos, e não importa quantas vezes eu joguei o jogo, nunca ficou mais fácil. Eu nunca tinha sido capaz de ler ou jogar conversa fora com os outros à espera de notícias. Às vezes, eu tinha preenchido os espaços vazios de livros para colorir com pacotes baratos de lápis de cor que eu tinha encontrado em lojas de presentes. Às vezes eu olhava para a televisão, incapaz de me concentrar no que estava mostrando. Nunca pareceu quase tão importante quanto o que estava acontecendo com a minha mãe. Às vezes eu imaginava que eu poderia sentir tudo o que ela sentia. Eu imaginava o que ela podia ver se ela estava acordada. Se não, eu imaginava o que ela tinha sonhado. E sempre, sempre, o tempo tinha parado enquanto eu esperava pela inevitável má notícia. Eu sabia que eu iria perdê-la um dia, mas então veio Henry. Depois vieram os sete testes. Depois veio o resto da minha vida. O momento que eu tinha passado, o momento em que eu tinha engolido meu orgulho o suficiente para admitir a derrota, a minha mãe tinha aparecido em toda a sua glória imortal, e eu pensei que era a maneira do universo de prometer que eu nunca iria perdê-la novamente. Essa promessa foi uma mentira. Henry se sentou em seu trono negro de diamantes na grande sala dentro do Olimpo, e sem dizer uma palavra, eu me enrolei em seu colo. Ele me beijou, o tipo de beijo quente, suave que normalmente lavava cada preocupação que eu tinha, mas não hoje. Esperamos. Ele passou os dedos pelo meu cabelo, brincando com as pontas, e eu olhava para o centro da sala do trono. Os sons fracos da batalha filtrados do mundo abaixo de nós, e as nuvens giravam no chão de pôr do sol, como se elas, também, pudessem sentir o descontentamento do mundo. Nunca deixou de me surpreender a rapidez com que alguns minutos com a minha mãe poderiam passar. Quando eu sabia que nunca poderia vê-la novamente, no entanto, aqueles poucos minutos se transformaram em horas, e todo o meu mundo se estreitou até que tudo o que eu conseguia pensar era nela. — Conte-me sobre ele, — sussurrou Henry, sua voz silenciosa, como se estivesse a meio mundo de distância. 79


— Milo? — Disse. — Sim. — Ele enfiou os dedos nos meus. — Como ele é? Ele estava tentando me distrair, e meu coração se encheu de gratidão. — James me ensinou a te mostrar. Você sente-se pronto para isso agora? O sorriso no rosto dele valeu a pena cada gota de culpa que eu sentia por me preocupar com outra coisa que não a minha mãe agora. — Sim. Eu adoraria isso. — E-e você está certo que Cronus não será capaz de vê-lo? Ele roçou os nós dos dedos com a ponta do polegar. — Eu vou ter certeza disso. Puxando Henry em minha visão do berçário senti como se estivesse o arrastando através de areia movediça, exatamente como foi com James, mas eu estava quase distraída demais para notar. Eu não tinha ideia do que eu ia dizer a Cronus. Será que eu o deixaria manter sua farsa? Ou será que eu já me entreguei com James? E o que dizer de Henry? E se Cronus disse algo que entregou a minha mentira no Parthenon? Mas eu precisava que Henry conhecesse Milo. Eu precisava que ele para visse o nosso filho por mais do que uma fração deAlgo me puxou bruscamente de volta ao Olimpo. Perdida no meio daquela areia movediça, eu não tinha escolha a não ser voltar para a sala do trono, mais uma vez sentindo como se estivesse à tona depois de um longo mergulho. Abri a boca para reclamar, certa de que era James novamente, mas minha mãe me puxou para um abraço antes que eu pudesse dizer uma palavra. — Kate. — Sua voz me cercou, acalmando a minha frustração. Sua pele estava fria, mas ela estava viva. Lutando contra as lágrimas, eu a abracei o mais forte que eu me atrevi. Seu corpo parecia tão delicado como durante os últimos dias de sua vida mortal. — Eu sinto muito - sinto muito, mãe. O que eu disse antes, eu não quis dizer— Eu sei, — ela sussurrou. — Está tudo bem. Eu só estou aliviada que você está segura. Eu poderia ter a segurado para sempre, esperando por ela me aquecer de novo, mas ela se afastou. Atrás dela, os outros se reuniram, todos desgastados, mas ninguém estava sangrando. — Eu disse para você não ir para ela, — disse minha mãe, e me levou um momento para perceber que ela estava falando com Henry. — Você não deveria ter ido a qualquer lugar em sua condição. Henry fez uma careta, e ele colocou a mão nas minhas costas, como se ele não pudesse ficar um momento sem me tocar. Eu não ia reclamar. — Você teria ficado tão zangada se eu não tivesse, — disse ele. — Provavelmente sim, — admitiu a minha mãe, e ela beijou a nós dois na testa. — Obrigada por cuidar dela. — Ei, e eu? — Disse James, e ela afastou-se para que ele pudesse se juntar a nós. — Eu fiz a maior parte do trabalho.

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— Você insistiu em cair em Nova York em vez da África, como eu lhe disse para fazer, — disse minha mãe com firmeza. — Você poderia a ter tido de volta dias atrás. James deu de ombros timidamente. — Sim, bem. Henry estava estável, e não é uma viagem, se não envolver viajar, você sabe. — Não finja que não era nada mais que você desejando passar mais tempo com ela, — disse Henry. James sorriu. — Você pode me culpar? Ela é a única de vocês que se preocupa comigo por mais do que alguns minutos de cada vez. — Eu me pergunto por que isso acontece, — disse minha mãe, cutucandoo com o quadril, e ele sorriu. Atrás deles, alguém limpou sua garganta, e o sorriso de minha mãe desapareceu. Walter se adiantou. — Irmão, — disse a Henry. — Bem vindo de volta. Você está bem? Algo brilhou nos olhos de Henry, como se estivesse tomando uma decisão. Nenhuma pergunta real do que era - a última vez que tinham conversado, tinha sido um assunto sobre mim. Mas eu estava a salvo agora, e havia coisas mais importantes para se preocupar. Como resgatar Milo. Esteja bravo com ele depois da guerra, eu pensei, empurrando-o para Henry. O conselho está fraturado o suficiente como é. A sobrancelha de Henry arqueou, e embora ele não tenha olhado para mim, os ombros relaxaram. Por fim, ele se dirigiu ao seu irmão. — Eu vou estar bem breve. Como foi a batalha? — Foi o que foi, — disse Walter, expirando. Mesmo que ele não conseguisse esconder seu alívio no aparente perdão de Henry. — Amanhã vamos atacar de novo, e vamos continuar a fazê-lo até que tenhamos feito os progressos necessários para permitir uma estratégia vencedora. James disse-nos de sua descoberta no Parthenon. Talvez isso nos dê pistas sobre o plano de Cronus. — Talvez, — disse Henry. Walter olhou para ele como se estivesse avaliando-o, e eu automaticamente me movi na tentativa de proteger Henry do olhar calculista. — E você, irmão, — disse Walter. — Você vai se juntar a nós, logo que você esteja bem? — Como estou fora do meu reino, eu não posso imaginar que a minha contribuição vai ser qualquer coisa grande. Mas sim, — ele disse calmamente. — Eu vou acompanhá-lo. — Eu também, — eu disse, e antes que alguém pudesse protestar, acrescentei: — Eu tenho o direito de lutar por minha família. Enquanto Henry está se recuperando, ele pode me ensinar. — Não. — A voz de Henry era pouco mais que um sussurro no meu ouvido. — Eu não vou deixar você lutar nesta guerra. Mais uma vez, estávamos de volta a isso, Henry insistindo que eu não podia cuidar de mim. Todo o conselho recusando-se a aceitar que eu poderia ser capaz 81


de ajudá-los, mesmo que apenas um pouco. Talvez um pouco seria suficiente para mudar a maré, mas eles se recusaram a considerar a possibilidade. Eu não tinha acabado de provar que não era completamente incompetente? Eu tinha sido a única a sugerir ir para o Parthenon, em primeiro lugar. Eu tinha sido a única a descobrir as gravuras. Eu não sabia como lutar como eles ainda, mas eu poderia aprender. E nesse meio tempo, eu poderia fazer um inferno de muito mais do que sentar e rodar meu cabelo. Eu abri minha boca para protestar, mas minha mãe chegou antes de mim. — Kate pode lutar se ela quiser, — disse ela. Seus olhos presos nos meus. — Se Henry não vai ensiná-la, eu vou. Henry fez uma careta, mas Walter foi o primeiro a falar. — Muito bem. Se é isso que Kate quer, que assim seja. — Ele tocou o ombro da minha mãe e virou-se para se juntar aos outros no lado oposto do círculo. Fiquei olhando para ele. Era isso? Depois de tudo que tinha acontecido, era tudo o que ele estava disposto a me dar? Não se oferecer para me ensinar ele mesmo, não que eu esperasse, e eu teria recusado de qualquer maneira, mas ainda assim. Nenhuma tentativa de insistir que eu ficaria segura. Apenas permissão para sair e morrer se isso era o que eu queria. Talvez se eu não estivesse tão no limite, não teria doído tanto como tinha. Minha mãe sabia que eu teria ido de qualquer maneira. Ela sabia quem eu era, e ela sabia que era inútil tentar argumentar. Walter não me conhecia, porém, e se ele era realmente qualquer tipo de pai, ele deveria ter se importado. — Kate, — Henry começou, mas eu estava de pé, puxando a minha mão da dele. Ele só poderia proteger-me por tanto tempo antes que ele pagasse o preço, e eu não ia deixar isso acontecer. Eu tinha que aprender a controlar minhas habilidades. Eu tinha que aprender a me proteger, mesmo que apenas para que eu pudesse proteger Henry e nosso filho. — Você precisa descansar, — eu disse mais cortante do que eu pretendia. Inclinando-se para baixo, eu beijei seu rosto, um pedido de desculpas em silêncio. — Eu te amo. Eu só preciso ficar sozinha agora. Ele pegou meus lábios com os seus, e um longo momento se passou antes que ele finalmente se afastasse. Depois de dar-lhe um pequeno sorriso, eu abaixei minha cabeça e corri em direção às suítes, rezando silenciosamente que ninguém me acompanhasse. É claro que iriam, no entanto. Se Henry não fizesse, James faria, e se não James— Querida. Se James não fizesse, minha mãe faria. Eu diminuí para dar-lhe a chance de me alcançar, mas eu não parei. O que ela faria se descobrisse sobre o acordo que eu tinha feito com Cronus? Será que ela ajudaria? Diria ao resto do conselho? Eu não podia ter certeza, e essa desconfiança doía como o inferno. Eu deveria ser capaz de confiar em minha própria mãe sem me preocupar com as consequências.

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— Eu só quero ficar sozinha, — eu murmurei, mas ela passou seu braço sobre meus ombros e começou a andar ao meu lado. Eu não me afastei. Eu não podia. Mesmo que a ansiedade da espera e a preocupação para ela voltar tenha ido, haveria uma próxima vez. Sempre haveria uma próxima vez, e eu não queria me bater sobre mandá-la embora agora como eu tinha feito antes que eu saí com James. — Você não deve ficar sozinha agora, — disse ela, e havia algo embaixo de suas palavras que eu não entendia. Ela estava certa, porém. Se eu tivesse meu caminho, eu nunca estaria sozinha de novo, mas eu já não tinha nenhuma garantia. Se acontecesse o pior se o conselho não descobrisse uma maneira de parar Calliope e prender Cronus mais uma vez - então eu poderia ter Milo, mas eu seria um joguete de Cronus para a eternidade. E eu preferiria que Milo morresse e passar o resto da eternidade alheio no Submundo do que ser submetido ao mesmo destino. Minha mãe me levou para o quarto dela, e quando ela entrou, os ramos de da armação de sua cama floriram com flores magenta. Sentei-me na borda de seu colchão e inalei. Elas cheiravam a verão. — Me desculpe que eu não lhe disse sobre seu pai mais cedo, — disse ela, esfregando minhas costas, e eu me deixei relaxar sob o toque dela. Depois de anos de querer saber quando seu último momento seria, eu já não conseguia ficar zangada com ela. — Está tudo bem, — eu disse, mas não estava. — Por que você não me contou? — Porque eu egoisticamente queria mantê-la para mim mesma. — Estabelecendo-se atrás de mim, ela passou os dedos pelo meu cabelo e começou a trançá-lo. — Eu amava a nossa vida juntas. Eu sentia falta do conselho, mas tê-la mais do que compensava. Eu não tinha sido tão feliz desdeEla parou, e eu olhei para minhas mãos. Ela não precisava terminar para eu saber o que ela ia dizer. — Desde que você teve Persephone, — eu murmurei. — Sim. Desde que eu tive Persephone. — Ela desfez a trança que ela tinha feito naqueles poucos segundos e começou novamente. — Eu te criei como uma mortal, porque eu acreditava naquele tipo de vida, longe desta existência grandiosa, iria dar-lhe a melhor chance possível de passar nos testes. Mas ao longo do caminho, eu descobri o quanto eu era mais feliz quando era só nós duas, perdidas no mar da humanidade. E se eu permitisse Walter em nossas vidas, aquilo teria quebrado. — Mas se Walter é imortal, e você é imortal, então por que eu não era? — Disse. Parecia uma questão sem importância, tão pequena no esquema das coisas, mas eu precisava dessa coisa pequena e sem importância no momento. — Porque eu tive você em minha forma mortal. — Ela começou em uma trança menor, tecendo-a juntamente com a maior. — Isso era parte do meu pacto com o conselho. Semideuses - e você sempre foi uma semideusa, querida - não são imortais, mas eles podem ganhar a imortalidade, como podem os mortais. 83


— Por que Henry se casaria com uma mortal para começar? — Disse. — Por que não - eu não sei. Porque não bastava me ter e me casar com ele? Ela riu suavemente. — E quão bem isso teria ido? Eu aprendi minha lição com Persephone. Henry queria uma rainha disposta, aquela que entendia o preço da morte, e ele insistiu em candidatas mortais. O conselho considerou ter você nascendo imortal, é claro, já que as outras morreram mortes muito mortais, mas Calliope foi a única a insistir que você não nascesse de uma deusa. — Sua voz caiu como se tivesse acabado de perceber o que significava, duas décadas tarde demais. — Eu pensei que era porque ela queria as mesmas coisas que Henry, que ela não queria empurrar outra garota em direção a um casamento e um papel que não queria, só para terminar mais uma vez em um desastre. Isso não foi o por quê entretanto, é claro. Ela queria a concorrência que ela pudesse matar. — Será que Walter sabia que você ia ficar doente? — Eu sussurrei. — O quê? Não, querida, não. — Suas mãos desaceleraram. — Eu nunca deveria ficar doente. Você devia ser mais velha. Era para você ter a chance de viver, de escolher uma vida para si mesma. Desilusão nunca era para ser parte. Eu planejava dizer em seu vigésimo aniversário, e nesse ponto você iria fazer os testes, se você quisesse. Quando eu descobri que eu tinha câncer, eu fui para o conselho, e eles decidiram acelerar o cronograma. Aguentei tanto tempo porque Theo me ajudou. Nada disso foi planejado, eu juro. Eu balancei a cabeça. Ela não mentiria para mim, não se tratando de algo assim. E tudo o que ela passou, tudo que ela sofreu, ninguém no seu perfeito juízo iria colocar-se nisso por um teste estúpido. Eu nunca teria passado se ela não tivesse desenvolvido o câncer, no entanto. Eu tive tanto medo da morte que eu estava disposta a desistir de seis meses de minha vida para salvar a de Ava. O Conselho tinha conhecimento disso? Eles tinham ido por trás das costas de minha mãe para me dar uma chance de lutar? Eu empurrei o pensamento da minha mente. Era ridículo. Nem mesmo o conselho era capaz disso. Eu esperava. — Walter sabia que eu estava sozinha, — eu disse. — Por que ele não veio me ajudar? — Porque ele é o rei dos deuses, querida, e, tanto quanto ele poderia amar a sua família, ele tem o peso do mundo sobre seus ombros. — Ela terminou minha trança, e depois a amarrou com um pedaço de fita de sua mesa de cabeceira, ela pegou uma flor magenta e colocou-a no final. — Walter nunca foi muito um pai para nenhum de seus filhos. — Então eu fui dita. — Eu me virei para encará-la. — O que teria acontecido se eu não tivesse passado? — Você sabe o que teria acontecido, querida. Sua memória teria sido apagada, e você teria continuado a viver a sua vida. — Mas você ainda estaria viva, — eu disse. — Seu corpo mortal teria morrido, mas você ainda estaria lá. E você teria me visitado, certo? 84


Os olhos de minha mãe ficaram sem foco. — Talvez em seus sonhos, se o conselho permitisse. Eu respirei fundo, e uma dor pior do que qualquer coisa que Cronus poderia jogar em mim enterrou no meu peito. Ela teria me deixado. Minha própria mãe teria de bom grado me abandonado, se eu não tivesse passado. Então o quê? Eu teria vivido o resto da minha vida mortal pensando que eu estava completamente sozinha. Eu teria estado, também, porque sonhar com a minha mãe - se o conselho me permitisse - não era o mesmo que tê-la comigo. Ela sabia o que eu passei, cuidando dela e observando-a desaparecer lentamente todos aqueles anos. Ela sabia que eu teria feito qualquer coisa para dar-lhe mais tempo para ficar comigo. E ela teria me abandonado assim mesmo. Eu levantei, minhas pernas instáveis. — Eu preciso ir. — Onde? — Disse minha mãe, levantou comigo, mas dei um passo para trás. Confusão e mágoa brilharam em seus olhos, e eu desviei o olhar. Ela era a minha rocha. Minha constante. Tinha jurado que ela me teve porque ela queria, e eu acreditei nela. Eu não era uma substituição de Persephone - mas só porque eu tinha passado nesses testes. Se eu não tivesse, eu teria sido nada mais que uma decepção, também, e ela teria me deixado exatamente como ela tinha deixado Persephone. Como Persephone tinha a deixado. Eu precisava do amor e apoio da minha mãe mais do que nunca, mas pela primeira vez na minha vida, eu duvidei dela. E isso me matou. — Eu estou indo obter Milo de volta, — eu disse. — Alguém por aqui merece ter pais que o amam mais do que tudo, incluindo a sua própria imortalidade. Eu fui em direção à porta, as lágrimas ardendo nos meus olhos. Silenciosamente eu orava que ela me dissesse para parar, que ela iria me abraçar e insistir que ela teria desafiado o conselho se ou não eles tivessem permitido que ela me visse. Que ela teria estado lá para mim, não importa o quê. — Kate. Meu coração ficou preso na minha garganta. — Sinto muito. Eu te amo. Pisquei rapidamente. Não o suficiente para ter ficado comigo para o comprimento da minha mísera vida mortal, apesar de tudo. Não se significava desobedecer o conselho. — Eu também te amo, — eu murmurei, e sem dizer mais uma palavra, eu saí do quarto e fechei a porta atrás de mim. Um leve zumbido encheu o berçário pôr do sol quando cheguei. Eu tinha ensaiado mais e mais o que eu queria dizer a Cronus, o meu último esforço contra a guerra iminente. Rhea poderia ter se recusado a nos ajudar, mas isso não significava que a batalha era inevitável, e eu tinha que tentar. Quando a minha visão ajustou à escuridão, no entanto, deixei escapar um suspiro estrangulado, todas as minhas frases cuidadosamente formadas foram esquecidas. Calliope andava através do berçário, segurando Milo ao peito. Corri para ela, mas como sempre, passei direto através dela e caí a quinze centímetros de distância de Cronus. Pela primeira vez desde que eu tinha 85


escapado, ele usava o seu rosto, em vez de Henry. Então, ele tinha absorvido tudo o que eu disse a James, afinal. Ele ficou em silêncio, apenas curvando seus lábios. Pelo menos alguém encontrou minha raiva divertida. — É claro que a Mãe vai curá-lo, — disse Calliope, a testa franzida de preocupação. — Eu sei que ela tem suas reservas sobre a luta, mas ela não iria deixar um de nós morrer assim, né? Ela olhou para Cronus para confirmação, mas ele não disse nada. Boa. Isso significava que ele não sabia. — Pai, eu preciso de Henry. Você não pode desfazê-lo? — Talvez você devesse ter levado isso em consideração antes de tentar matálo, — disse Cronus neutro, e Calliope apertou seu aperto em torno de Milo, seu cenho se aprofundando. — Eu estava apontando para o ombro, não seu coração. E ele não deveria sair. Você jurou que iria curá-lo. Ela não teve a intenção de quase matá-lo? Apertei os olhos. É claro que ela estava blefando o tempo todo. Ela tinha estado apaixonada por Henry durante milênios, ela não era do tipo de desistir disso. Como Cronus me queria ao seu lado, Calliope queria Henry ao dela. — Então parece que as coisas não saíram conforme o planejado, — disse Cronus claramente. — Você não pode me responsabilizar por isso. Milo começou a chorar, e Calliope soltou um suspiro de frustração. — Callum, fique quieto. Mamãe está tentando pensar. — Seu nome não é Callum, e eu sou a mãe dele, sua puta. — Eu rosnei, mas é claro que ela não me ouviu. Ela depositou o bebê nos braços de Cronus. — Aqui. Ele gosta mais de você de qualquer maneira. Eu preciso de Henry, Pai, e você precisa levá-lo de volta para mim. Ele não pode morrer. Milo se acalmou. Pelo menos Calliope não o tinha mais. — Se ele está no Olimpo, está fora do meu controle, — disse Cronus. — Então é melhor esperar que ele não esteja, — disse ela. Cronus inclinou a cabeça. — Você ousa falar comigo de tal maneira? Eu sou seu pai, seu governante, o rei, e ainda assim você me trata com tão pouco respeito como você faz com seus inimigos. Para minha imensa satisfação, Calliope congelou, sua boca formando um pequeno círculo. — Eu não- — Ela fez uma pausa, afobada. Serviu o seu direito. — Você sabe que eu respeito você, Pai, mais do que qualquer coisa no mundo. Eu só - Nada vai bem mais. Henry era para ser meu por agora, mas Ava não podia ser incomodada para cumprir sua promessa, quando ele estava aqui resgatando aquela bruxa. Eu acalmei. O que mais Ava tinha prometido a Calliope? — Tal comportamento insolente não vai conseguir o que você quer, minha filha, — disse Cronus. — Certamente você deve saber disso.

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Ela assentiu com a cabeça, e por meio segundo, ela pareceu quase mansa. — Você ainda está do meu lado, certo, Papai? Você não vai parar de me amar também? Eu poderia ter vomitado contra sua manipulação sacarina, mas Cronus não piscou um olho. — Não, filha, eu não vou. Estamos juntos nessa, e iria lhe fazer bem se lembrar disso. — É claro. — Calliope baixou a cabeça, o primeiro sinal de deferência que tinha mostrado desde que eu tinha chegado. — Sinto muito por incomodar você, Pai. Ele acenou com desdém, e ela saiu do berçário, fechando a porta atrás dela. Por um longo momento, o único som que encheu a sala era os gemidos de Milo. Finalmente Cronus focou em mim. Seu rosto se transformou em uma cópia de Henry, mais uma vez, apesar de ele agora usar uma máscara de falsa preocupação. — Minha querida, o que está errado? Tudo o que eu tinha planejado dizer se foi, mas pelo menos eu não tive que fingir chorar. Meus olhos estavam vermelhos e inchados, e minhas bochechas coradas de discutir com a minha mãe. Assistir Calliope com o meu filho tinha renovado as minhas lágrimas frustradas, e um nó se formou na minha garganta. Não havia nada falso sobre a minha tristeza. — Você sabe que eu sei quem você realmente é, — eu sussurrei. — Volte para o seu rosto normal. Por favor. Cronus me olhou e, finalmente, sua aparência mudou, até que fosse sua própria novamente. — Eu pensei que você iria preferir desta maneira. Ele sabia muito bem que ele estava me enganando o tempo todo, mas talvez não fosse apenas para enganar-me, talvez ele pensou que iria me trazer um pouco de conforto, também. Talvez tenha sido a sua versão de me consolar. Eu balancei minha cabeça. — Henry está morto. Rhea não poderia ajudá-lo. E ela não - ela não vai nos ajudar também. — Eu sinto muito, — disse Cronus. Ele estabeleceu Milo dormindo no berço e passou os braços em volta de mim. Prendi a respiração, me recusando a abraçálo de volta. Ele podia dizer que estava arrependido de tudo o que ele queria, mas nós dois sabíamos que ele não estava. Não podia estar. Ele não tinha isso nele. — Eu tinha certeza que Rhea iria ajudá-lo. — Nós - nós chegamos tarde demais, — eu disse com a voz entrecortada, permitindo que as lágrimas fluam. — No momento em que chegamos lá... — Foi tão perto da verdade que não foi difícil imaginar o que eu teria sentido como perder Henry completamente. Se Rhea não tivesse o curado, ele teria morrido. Eu tinha certeza disso. Ficamos ali em silêncio por vários minutos. Cronus fez os gestos habituais que alguém faz quando está confortando um ente querido; palavras suaves, um toque suave, prometendo que ficaria bem enquanto eu chorava em seu ombro. Mas

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eu não estava chorando sobre a suposta morte de Henry, e Cronus não me amava de verdade. Como eu acreditei que ele poderia ser Henry? — O que Ava prometeu fazer por Calliope? — Eu disse uma vez meus soluços haviam diminuído. — Será que ela fez alguma coisa para fazê-lo morrer? Cronus deu de ombros e afrouxou o aperto. — Estou certo de que ela não o fez, apesar de que eu não poderia começar a adivinhar quais eram suas intenções. Ele estava mentindo, mas não havia nada que eu pudesse fazer para falar. — Você é realmente leal a Calliope? — Eu disse em voz baixa. — Eu pensei que você me queria. — Eu quero, — disse ele. — Não sou leal a ninguém mais, só você. Eu digolhe o que for preciso para mantê-la feliz, mas eu vivo para te ver sorrir. Mentira. Eu solucei e me afastei dele, mas ele não me deixou ir completamente. — Pare de matar pessoas. Por favor. Ninguém deveria ter que morrer por causa de uma estúpida discussão familiar. Cronus pausou. — Eu não gostaria de nada mais do que conceder o seu pedido, minha querida, mas certamente você deve saber que não é possível. O que você espera que eu faça? Recue para o Tártaro sem tanto como um segundo pensamento? — Claro que não, — eu murmurei, limpando os olhos com a manga. Cronus produziu um lenço do nada, e só porque o recusar não me faria nenhum bem, eu peguei. — Por que é necessário que haja uma guerra, em primeiro lugar? Por que todos não coexistem? — Porque, minha querida Kate, eles não vão parar até que eu tenha sido preso mais uma vez, e eu não posso permitir que isso aconteça. — E se eles prometessem não tentar mandá-lo de volta para o Submundo? — Se fosse assim tão fácil, teríamos chegado a uma solução há muito tempo. Infelizmente, não é. Zeus nunca vai concordar. — Ele é um idiota teimoso, — eu murmurei, e Cronus riu. — Você está certa, minha querida. Certamente você entende que, enquanto ele governa o céu, eu não posso parar. — Mas e se ele e o resto do conselho prometer não atacar? — Disse. — Se eu pudesse fazer Walter - Zeus concordar em deixá-lo sozinho, desde que você não machuque mais ninguém? Cronus encolheu os ombros. — Se você é capaz de fazer o impossível, então talvez eu possa considerar uma trégua, embora eu certamente não possa falar por minha filha. Sem Cronus, Calliope era tudo, mas impotente contra os outros membros do conselho. — Alguém me disse uma vez que tudo é possível se você der uma chance, — eu disse suavemente. — Se Zeus concordar, você vai recuar e deixar que o conselho tome Calliope? — Sim, — disse Cronus, serpenteando os braços em volta da minha cintura e gentilmente me puxando em direção a ele novamente. — Eu não tenho nenhum uso para ela por mais tempo. Você é tudo que eu preciso. 88


Meu corpo inteiro ficou dormente. É claro que ele ainda me esperava para ser sua rainha. Ele pensava que Henry estava morto. Olhei para o berço. Eu nunca tinha segurado Milo. Eu quase não toquei nele, e agora ele seria condenado a uma vida com Cronus como um pai. Então, o que significaria tudo o que eu estava lutando? Nada. — Ok, — eu sussurrei. — Eu vou voltar para você assim que houver uma trégua e os outros tiverem Calliope sob custódia. Mas eu quero que você deixe o meu filho sair. — Se ele sair, eu não posso permitir que você vá com ele. Eu balancei a cabeça com força. — Eu sei. Ele me estudou. — Você não quer ser sua mãe? Eu queria ser sua mãe mais do que qualquer coisa no mundo, mas se eu deixasse Cronus perto dele, eu seria nada mais. — Eu quero a minha mãe para cria-lo no Olimpo, — eu disse com firmeza. Dessa forma, Milo estaria com Henry, e eu poderia respirar mais fácil sabendo que eles teriam um ao outro. — Eu vejo, — disse Cronus. — Você não quer que eu seja pai dele. Eu enrolei minhas mãos em punhos. — Você vai ter a mim. Você não precisa de qualquer outra coisa. Ele passou os dedos no meu rosto que eu tinha certeza que ele pretendia que fosse uma carícia amorosa. Causou arrepios na minha espinha, mas não do tipo que ele estava buscando. — Eu preciso de você para ser feliz. Iria me dar tão grande prazer mostrar-lhe a honestidade e compaixão que você tem me mostrado. — Se você quer me mostrar algo dessa honestidade e compaixão, então você vai me dar meu filho, — eu disse. — E você vai prometer parar de matar todas essas pessoas. — Tenha Zeus concordando com uma trégua, e você tem a minha palavra, — disse Cronus com um arco de sua cabeça, e ele produziu um livro fora do ar e colocou em minha mão. — Um símbolo de minhas intenções. Eu comecei a desatar a fita de seda preta, mas ele colocou a mão sobre a minha. — É uma lista de nomes daqueles que se tornaram traidores e prometeram sua lealdade a Calliope. Com seu marido morto, é apenas uma questão de tempo antes de eu derrubar o conselho, — disse o Cronus. — Se eles quiserem sobreviver, meu perdão é a única esperança. E para isso, tudo que eu peço é você. Agarrei o livro, e mesmo que tenha me rasgado em pedaços, eu sussurrei, — Obrigada. — Não, minha querida, — disse Cronus, e a névoa em seus olhos rodaram malevolamente. — Obrigado você.

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Capítulo 9 Mensageiro O que restou do conselho se reuniu na sala do trono do Olimpo. Era bem depois da meia-noite na Grécia agora, e depois da batalha ao pôr do sol, vários dos membros parecia que não dormia há meses. Eles estavam lá, porém, e essa era a parte importante. Mesmo Henry havia se reunido, embora ele tenha ficado em silêncio e ainda parecia muito desgastado. — Bem, Kate, — disse Walter de seu trono de vidro, — Nós todos estamos reunidos. O que é tão importante que não podia esperar? Eu levantei. James sentou perto de mim, e eu foquei nele quando meus nervos se agitaram. Comece simples. Não há necessidade de dizer-lhes o que eu barganhava até que se tornasse necessário. Eu não poderia dar-lhes alguma razão para rejeitar Cronus.

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— Cronus quer uma trégua, — disse eu, e uma onda de sussurros atordoados espalhou por todo o conselho. Apenas James não se moveu, seus olhos presos nos meus. Ele sabia o preço. — Absolutamente não, — disse Walter, sua voz crescendo com um trovão. — Nós não vamos negociar com um Titã. — Kate, o que está acontecendo? — Disse minha mãe calmamente, mas eu não vacilei. Se eu olhasse para ela, se eu visse a preocupação em seus olhos, se eu deixasse a confusão em sua voz quebrar a minha determinação, eu não tinha ideia do que eu faria. E eu não podia correr esse risco. — Ele enviou uma lista de deuses que estão do lado de Calliope, — eu disse, segurando o pergaminho para Walter, mas ele não fez nenhum movimento para pegá-lo. — Como um sinal de suas intenções. — Tenho certeza que ele mandou, — disse Walter. — E logo que ele tiver a nossa complacência e sua liberdade, ele vai nos rejeitar e mais uma vez tentar destruir o conselho. Eu não vou permitir que isso aconteça. — Ele vai destruir o conselho de qualquer maneira, — disse eu. — Nós não temos o poder para lutar contra ele e vencer. Você pode ser capaz de arrastar essa guerra fora mais dez anos, mas você vai perder, eventualmente. A humanidade será destruída, e Cronus vai matar todos nós. Isso é inevitável. Então, qual é o mal em tentar negociar? Ele está disposto a fazer um acordo. Isso não significa alguma coisa? — Não quando você está nos pedindo para negociar com um Titã, — disse Walter. — Cronus não se estabelece. Seu jogo final será sempre a nossa destruição, e ele não vai parar até que ele tenha tudo da maneira dele. Eu entendo que você é nova nisso, Kate, mas isso não é desculpa para tal ignorância teimosa. — Walter, — disse minha mãe acentuadamente, — Isso é o suficiente. Kate tem um ponto. Talvez seja sábio para nós, pelo menos considerar. — Pai está certo, — disse Dylan, levantando-se. Os círculos roxos sob seus olhos não fizeram nada para esconder a forma como eles brilhavam com zelo de gelar os ossos. — Não há sentido em tentar negociar com Cronus. Ele vai ver apenas como uma fraqueza, e não podemos permitir que ele acredite que temos todos os furos em nossa armadura que ele possa explorar para seu próprio ganho. A forma como ele me olhou enquanto ele disse fez a minha pele se arrepiar. — E por isso, você quer dizer, — eu disse. — Você acha que eu sou uma deficiência. — Você tem sido inútil para nós até agora, — disse Dylan. — Se qualquer coisa, você só fez piorar as coisas. Cronus não tocou Atenas até que você se foi— Ela o distraiu para nós e nos comprou mais tempo, — retrucou James. — - Você parece ter prazer em distrair o conselho e insistindo para fazermos coisas que sabemos que não vai funcionar— Ela é a única que surgiu com a ideia de pesquisar o Parthenon. — -e como se não bastasse, você quase teve Henry e seu próprio filho morto— Ele é o único que decidiu ir atrás dela sem apoio-

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— Ambos queiram calar-se imediatamente, — disse Henry, mas já era tarde demais. Dylan poderia muito bem ter me dado um soco no estômago. — Eu sei, — eu disse com uma voz estrangulada. — Eu sei, certo? Estou tentando fazer as coisas direito. Eu não quero que sete bilhões de pessoas morram por causa da minha estupidez. Eu não quero perder qualquer um de vocês. E eu estou tentando— Então talvez você deve tentar um pouco menos, — disse Dylan, e dois tronos para baixo dele, Irene se levantou. — Isso é o suficiente. — Ela disse em uma voz perigosamente suave que espelhava seu pai. De nosso pai. — Não há nenhuma vergonha em explorar outros caminhos. Aquele que salta para o combate puramente para a emoção da luta é um tolo, especialmente quando ele arrisca vidas inocentes ao fazê-lo. — Você está me chamando de idiota, filha? — Disse Walter. A mão de Irene se contraiu ao seu lado, mas ela não recuou. Eu poderia tê-la beijado. — Não, Pai. Estou apenas lembrando que você tem opções. Nós nem sequer sabemos o que Cronus quer ou por que ele quer. Certamente ele deve ter dado a Kate algum tipo de sugestão. Cada par de olhos na sala se virou para mim mais uma vez. Grande. Limpei minhas mãos em minhas calças. — Ele quer uma vida, — eu disse, reunindo o máximo de convicção quanto eu poderia. Eles tinham que acreditar em mim. — Ele foi preso no Submundo por tanto tempo que ele só quer uma chance de viver de novo. Ele acha que vocês não vão deixar. — Não, não vamos, — disse Walter. Irene deu-lhe um olhar e fez um gesto para que eu continuasse. — Ele concordou em parar de atacar-nos se você parar de atacá-lo. Ele não vai machucar ninguém. E - e ele vai entregar Calliope, ou pelo menos ele não vai impedi-lo de levá-la de volta. — Em troca de quê? — Disse Dylan, e embora Irene tenha o silenciado, ele continuou. — Nós o deixarmos ir? Você sabe o que foi necessário para contê-lo, em primeiro lugar? Eu hesitei. — Ele não vai voltar atrás em sua palavra. Ele sabe as consequências se ele fizer. — E quais, reze dizendo, são as consequências para o ser mais poderoso do universo flexionando seus músculos? — disse Dylan. — O que ele poderia querer mais do que o controle total sobre tudo? Silêncio. Meu coração - meu estúpido coração, inútil que se preocupava muito com tudo e todos - dolorosamente martelando, e minha respiração ficou irregular. Eu não era mortal mais, mas naquele momento, eu me senti mais humana que eu já me senti em toda a minha vida. — Ele me quer. Os segundos passavam. Walter franziu a testa profundamente, e Irene parecia confusa. Atrás de mim, eu podia sentir o olhar de Henry, mas eu não me virei. Eu não podia. Finalmente, Dylan bufou. — Você? Você não é nada para ele. 92


Concentrei-me em James mais uma vez, silenciosamente suplicando-lhe para explicar. Ele balançou a cabeça e levantou severamente. — Durante a nossa jornada através do Submundo, Kate teve um... encontro com Cronus, — disse James com cuidado. Dylan assobiou sugestivamente, mas ele parou quando avistou Henry atrás de mim. Seja qual for o olhar que ele estava dando a Dylan, eu estava feliz que eu não podia vê-lo. — Ela falou com ele e ele parou de atacar-nos. Ava e eu não acreditamos no começo, mas ele deixou-nos passar pelo Submundo desimpedidos depois disso. — O encontro no palácio de Henry, — disse minha mãe, sua maldita voz estilhaçada perto de quebrar meu coração. — Calliope deixou Ava intocada por causa do que ela tinha feito para Nicholas. Mas nunca entendi por que Cronus não prejudicou Kate. Mais uma vez, todos focaram em mim, esperando que eu falasse. Era o silêncio atrás de mim que era insuportável, porém, e alcancei a mão para Henry. Tudo o que eu tocava era o ar. Depois de um momento eterno, no entanto, os dedos quentes encontraram os meus, e eu deixei escapar um suspiro de alívio. Ele entendeu. Eu poderia fazer isso. — Quando Milo nasceu e Calliope o tirou de mim, Cronus estava lá, — eu disse. — Pedi-lhe para ajudar, e ele disse - ele disse que se eu prometesse ser sua rainha, ele iria me deixar ter Milo novamente. E ele iria protegê-lo. A carranca de Walter se aprofundou, e alguns assentos para baixo dele, Dylan revirou os olhos. — Você não é a pequena sereia? Eu o ignorei. — Eu concordei. Eu não quis dizer isso, — acrescentei rapidamente. — Mas eu disse que sim porque— Por causa de seu filho Milo, — disse James. — Você não precisa explicar. Eu dei-lhe um olhar agradecido. O aperto de Henry na minha mão aumentou, e eu continuei. — Quando vou ver Milo, Cronus está sempre lá. Ele tomou a forma de Henry no início, e eu pensei - eu não percebi quem ele era. Eu achava que ele era Henry. Foi estúpido, eu sei, mas James me disse quem ele realmente era. E eu lhe disse que Rhea se recusou a nos ajudar. — Fantástico, — disse Dylan. — Enquanto você estava tendo o seu pequeno caso, aconteceu de você dizer a ele algum outro segredo muito bem guardado? — Isso é o suficiente, Dylan, — disse minha mãe. Dylan abriu a boca para retrucar, mas antes de outra briga, eu soltei. — Ele acha que Henry está morto. Ele não sabe nossos números reais, e ele acredita que não temos escolha a não ser concordar com uma trégua. E nós não temos, — acrescentei. — Não, a não ser se quisermos arriscar todo o mundo. — Se nós nos rendermos e permitirmos que Cronus seja libertado, você percebe que ele vai querer você? — Disse Walter, e eu assenti. — No entanto, isso é algo que você está disposta a fazer? — Sim, — eu sussurrei. — Eu não gosto, mas se for a única maneira de parar esta guerra, eu vou fazer isso. — E Milo estaria seguro. Só isso já valeria a pena. 93


James fez uma careta. — Você realmente precisa superar seu complexo de mártir. Um dia desses, ele vai te matar. Atrás de mim, um par de pés moveu, e Henry soltou a minha mão, enquanto ele levantava. — Irmão, — disse a Walter, envolvendo o braço em meus ombros e me puxando para ele. — Se você permitir que Kate faça isso, você não terá mais a minha cooperação. Ela é minha rainha. Eu já completei sua coroação, e eu não vou permitir que ninguém, nem mesmo um Titã, usurpe a minha reivindicação. Sua reivindicação? Antes que eu pudesse dizer uma palavra, Walter me cortou. — Muito bem. Então não vamos aceitar a trégua de Cronus. — E a lista de traidores? — Disse Dylan, olhando para o pergaminho com um brilho desagradável em seus olhos. O que ele estava pensando em fazer, caçar cada um deles? De alguma forma isso não seria muito longe da verdade. — Eu vou lidar com eles pessoalmente, — disse Walter, e com um aceno de mão, o livro desapareceu. — Nós já perdemos a aliança da maioria dos outros deuses. Isso não é novidade. — Então o que? Você vai deixar todas essas pessoas morrerem enquanto você luta uma guerra que você sabe que não pode ganhar? — Eu disse, e o aperto de Henry de volta nos meus ombros aumentou. Mas eu não era sua reivindicação, e eu não iria deixar algo assim passar só porque Walter decidiu que a discussão estava encerrada. Ele não estava sempre certo. Minha infância foi a prova disso. — Não, — disse Walter. — Eu pretendo ganhar a guerra. Agora, se você nos desculpar, Kate, nós temos o ataque de amanhã para discutir. Dada a sua proximidade com Cronus, seria melhor se você não ouvir nossos planos. Ninguém falou em minha defesa. Nem Henry, nem James, nem mesmo a minha mãe. Depois de alguns segundos, eu engoli o nó em minha garganta e torci para fora do aperto de Henry. Se eles não me queriam por perto, então tudo bem, mas eu não ia mexer meus dedos pela próxima década, enquanto eles fossem todos mortos. Eu estava no meio do quarto de hóspedes quando Henry me alcançou. Ele colocou a mão no meu braço, e eu encolhi os ombros, furiosa demais para dizer qualquer coisa. Ele prometeu que a nossa relação seria entre iguais. Que eu não pertenceria a ele. Não era assim que nós trabalhamos, e como ele ousa insinuar que eu era sua por qualquer motivo que não o fato de que eu queria ser? Eu invadi meu quarto e tentei fechar a porta, mas ele a pegou. — Kate, por favor, pode me ouvir? — Por que eu deveria? — Eu vagava de um lado do quarto para o outro, olhando para ele e, silenciosamente, desafiando-o a se aproximar. Ele só avançou o suficiente para fechar a porta atrás de si. — Você não vai me ouvir – por que, porque eu sou jovem? Porque eu sou uma garota? O que é, Henry? Por que de repente sou nada mais do que a sua reivindicação? Ele exalou. — Você sabe que eu não penso em você em dessa forma— Claro poderia ter me enganado recentemente. 94


— Isso não é justo. Eu estou tentando manter minha família intacta, e a única maneira de fazer isso é falar uma língua que meu irmão entende. — Ah, então ele é o misógino? — Sim, — disse Henry. — Ele nunca entendeu parceria. Não em seu casamento, não no Conselho, nem mesmo entre os irmãos. Não é justo, mas ele é o chefe do conselho, e temos de jogar este jogo da maneira dele. Eu me joguei na cama. — Ótimo. Passei minha vida inteira querendo uma família, e quando eu finalmente consigo uma, ela é cheia de pessoas que pensam que eu sou melhor do que a sujeira. Henry deu alguns passos cautelosos em minha direção, mas parou quando eu dei-lhe um olhar. — Eu queria que você tivesse me dito sobre o seu negócio com Cronus. — Até dois dias atrás, você estava em coma, — eu apontei. — Sim, mas você teve ampla oportunidade de fazê-lo desde então. E pareceme que os detalhes do seu acordo foram feitos mais recentemente. Ele me olhou com seu olhar firme, e eu desviei o olhar. — Eu não estou bravo com você, Kate, — disse ele suavemente. — Eu não posso imaginar o que você enfrentou enquanto foi mantida em cativeiro, e sinceramente, eu teria feito o mesmo se nossas posições se invertessem. Mas, como você é minha parceira, eu sou seu. Independentemente das circunstâncias, deveria ter sido uma decisão para tomarmos em conjunto. Lágrimas surgiram nos meus olhos. Não porque eu estivesse brava com ele, mas porque ele estava certo. — Sinto muito. Eu estava com medo que você iria atrás dele, e você ainda está tão fraco— Eu aceito o seu pedido de desculpas, — disse Henry. — E eu peço que você aceite o meu, também. Eu não vou deixar você ir, Kate, porque eu te amo. Não porque eu acredito que você pertence a mim. Qualquer um que tenha estado em torno de você por cinco minutos sabe melhor do que pensar nisso. — Aparentemente, o meu próprio pai não, — eu murmurei, e Henry suspirou. — Sim, também. É fácil riscar toda essa confusão até Walter. Ele é o único que nunca deu a Calliope o respeito e o amor que ela merecia, afinal de contas. — Você acha que ele teria aprendido com isso. — Você poderia pensar. — Ele se sentou na cama, e eu não queria ir embora. — Eu quero pegar o nosso filho de volta tanto como você, mas este não é o caminho. Meus olhos se encheram de lágrimas novamente. Quando que eu iria parar de estar à beira de lágrimas? Quando eu finalmente segurasse Milo? Quando Calliope fosse derrotada? Quando Cronus estivesse de volta no seu canto pessoal do inferno? — Eu não sei como ser eu sem ele, — disse. — Tudo o que faço, é como, é como que esta necessidade está me puxando em uma direção, e eu não posso funcionar sem ir em direção a ela. E quando eu não estou, eu estou vazia. Ele

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precisa de mim. Ele precisa de nós, e nós não estamos fazendo nada para tê-lo de volta. Nós praticamente o abandonamos. Henry deitou de lado para que ele estivesse me olhando. — Você realmente acredita nisso? — Disse ele, imprensando minha mão na sua. — Estou certo de que Milo não acredita. Você mesmo disse que você acredita que ele sabe quando você está lá. Esfreguei meus olhos com minha mão livre. — Eu o quero de volta, Henry. Eu quero que sejamos uma família. — Nós somos uma família. — Ele beijou minha testa, minha bochecha, e, finalmente, roçou os lábios contra os meus. — Nós não podemos fingir que tem sido fácil, mas nós nos amamos incondicionalmente, e isso é o que importa. Vamos tê-lo de volta. Eu juro. Meu queixo tremia. — Como? — Eu não sei ainda, mas vou encontrar uma forma. Nós vamos encontrar um caminho juntos. Eu o beijei de volta, não me importando se ele poderia provar as minhas lágrimas. — Como é que eu vou ajudá-lo quando todo mundo acha que eu sou inútil e não vão me ensinar a usar minhas habilidades? — Eu não acho que você é inútil, — disse ele, seu hálito quente na minha bochecha. — Longe disso, eu lhe garanto. Vou ensinar-lhe tudo o que desejar. — Sério? — Eu disse, e ele assentiu. — Sério. Eu o abracei, enterrando meu rosto na curva de seu pescoço, e deixei escapar um soluço suave. Isso era tudo o que eu me permiti, embora; um soluço, e agora era hora de começar a trabalhar. Agora era hora de provar que eu merecia o meu lugar no conselho. Eu só tinha que fazer uma coisa pela primeira vez. — Você quer vê-lo? — Você realmente tem que perguntar? Eu consegui um sorriso aguado. — Certifique-se de Cronus não poderá ver você. — Eu vou. Mais uma vez eu afundei na minha visão, puxando Henry junto comigo, e desta vez ninguém nos interrompeu. Juntos, nós lutamos pela areia movediça até o quarto dissolvido em torno de nós e chegamos ao outro lado. Milo dormia em seu berço, com os olhos fechados. Tinha que ser bem depois da meia-noite na ilha. Cronus estava no canto mais próximo da porta, os braços cruzados, como se estivesse esperando por mim, mas eu ignorei. Eu não sabia como dizer a ele que Walter tinha recusado. Se ele já não soubesse. Henry e eu nos inclinamos sobre o berço de Milo como eu pensei que tínhamos feito uma dúzia de vezes antes, mas desta vez era realmente ele. Nós três estávamos juntos, ou pelo menos tão juntos quanto poderíamos por agora.

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— Ele é lindo, — sussurrou Henry. Eu não disse nada. Eu não poderia, não com Cronus pairando nas proximidades. Eu sorri, cuidando para manter meus olhos em Milo, e Henry tocou minhas costas. Ele entendeu. — Minha querida, — disse Cronus, aparecendo no outro lado e pegando minha mão. — Tem notícias da trégua? Eu não podia dizer-lhe a verdade, ainda não. Eu não tinha ideia do que ele faria para provar seu domínio - matar mais um milhão de pessoas? Destruir toda a Grécia? Mesmo que todo o resto resultou da maneira que Walter tinha tratado Calliope, isto estava em mim. E eu tinha que parar. — Eles não chegaram a uma decisão ainda, — eu disse, meu olhar não vacilando de Milo. — Eles precisam de tempo. Com o canto do meu olho, Henry me deu um olhar perscrutador. Eu ignorei. — Muito bem. Espero que não demore muito. — Ele começou a amassar o meu ombro, e eu estremeci. — Por que você está tão tensa, minha querida? Porque Henry estava vivo e de pé a dois centímetros do meu cotovelo. Porque o conselho - ou pelo menos alguns membros - me culparam por tudo. Porque se eu fizesse um movimento errado, tudo isso acabaria. — Você realmente tem que perguntar? — Eu disse, ecoando Henry. — Não, acho que não, — disse Cronus, e mudou-se atrás de mim para massagear os meus ombros. Henry fez uma careta e se afastou. — Por favor, não faça isso, — eu disse baixinho, mas Cronus continuou mesmo assim. Henry foi para o outro lado do berço para que ele pudesse me olhar diretamente nos olhos, e eu pressionei meus lábios juntos. Será que ele entendeu que eu não queria isso? — Logo você vai ser minha rainha, — disse Cronus, seus lábios fazendo cócegas no meu ouvido. O olhar no rosto de Henry era assassino. — Você não mudou sua mente, não é, minha querida? Meus olhos trancados sobre Henry. Ele tinha que entender que era tudo um ato. — Não, — eu disse. — Eu não mudei minha mente. — Boa menina, — murmurou Cronus, e Henry se ajeitou, com as mãos fechadas em punhos como se estivesse a segundos de distância de bater em Cronus. — Eu estou indo encontrar Calliope, — disse Henry. — Você fica aqui. Meus olhos se arregalaram, mas apesar do meu protesto silencioso, Henry se inclinou sobre o berço para beijar minha bochecha. Pelo menos ele entendeu. Quando ele saiu da sala, Cronus passou as mãos pelas minhas costas antes de voltar para os meus ombros. — Quando você e eu estivermos juntos, você nunca vai conhecer lágrimas. — Ele murmurou. — Você nunca vai conhecer a dor. Você só vai conhecer a alegria e a felicidade. Todo mundo vai se curvar a você. Todo mundo vai saber que você, Kate Winters, é minha rainha. E eles todos irão amar e ter medo de você por isso. Eu não queria ser temida. Eu não queria ninguém se curvando a mim, mas Cronus nunca iria entender o que significa ser feliz sem o poder absoluto. Ele 97


nunca iria entender por que eu amaria Henry para sempre e nunca deixaria de amá-lo. Mas, pelo menos, Henry não estava aqui para ouvir isso. — O que você está fazendo? As mãos de Cronus acalmaram. Tentei virar, mas ele bloqueou meu caminho. Não que isso importasse. Eu conheço essa voz em qualquer lugar. Ava definiu uma carga de cobertores para baixo sobre a cômoda e se moveu em direção a nós, seus olhos focados em Cronus. Ela não podia me ver. — Com quem está falando? — O bebê, — disse Cronus sem problemas. — Alguém deve assegurar a sua educação. — Não, você não estava, — disse Ava, avançando sobre ele. Suas mãos tremiam. Ela estava com tanto medo de Cronus como todos os outros. — Você disse o nome de Kate. — Então, eu falava de sua mãe. — Cronus endireitou-se e deixou cair as mãos. Aparentemente, ele tinha percebido que massagear os ombros de uma pessoa invisível não fez muito para sustentar seu argumento. — E daí? Ava olhou para ele. — Kate está aqui, não está? — Talvez. — Ele permitiu. — Talvez não. Meu estômago se contorceu em nós. Ela estava tão perto que eu podia alcançar e tocar-lhe se eu quisesse. — Eu quero falar com ela, — disse Ava. — Eu sei que vocês dois se comunicam. Eu sei que você pode ouvi-la e ela pode ouvi-lo, e - e eu quero que você diga uma coisa. Como ela poderia saber isso? Cronus não tinha mencionado isso para ela, então ela não teria soado tão determinada. Quem mais sabia? O conselho, mas nenhum deles tinha estado em contato com Ava. A menos que houvesse outro traidor. Não, impossível. Confiava no conselho com a minha vida. Com exceção de Dylan, mas ele não teria feito nada para arriscar perder uma batalha, especialmente alimentar as informações para o inimigo. A menos que tudo fosse uma farsa e que ele realmente estava relatando a Cronus, depois de tudo. Mordi o lábio. Eu não podia pensar assim, não a menos que eu tivesse provas. Com o quanto ele parecia me odiar, era fácil suspeitar de Dylan ser uma cobra, mas era esse tipo de pensamento e suspeita que nos afastaria. A última coisa que o conselho precisava era de alguém recuando. Dylan e eu poderíamos não gostar muito um do outro, ou em tudo, mas isso não quer dizer que não poderíamos trabalhar em conjunto para um objetivo comum. Contanto que ele não estivesse fazendo o que ele me acusou e contando seus segredos à namorada pelas costas do conselho. — Se você gostaria de falar com ela, então fale, — disse Cronus, e a nota falsa de calor que ele usou comigo evaporou. — Ela é perfeitamente capaz de lhe ouvir.

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Ava deu mais um passo hesitante para frente, concentrando-se em algum lugar por cima do meu ombro direito. — Kate - Kate, eu sinto muito. Eu juro que eu não sabia o que Calliope estava fazendo. Eu nunca teria arriscado a vida de seu bebê se eu soubesse. Mudei protetoramente na frente do berço do Milo. Muito pouca coisa boa que faria, mas me fez sentir melhor, pelo menos. — É tarde demais para desculpas, — eu disse, e para minha surpresa, Cronus abriu a boca e falou as mesmas palavras, exatamente como eu disse-lhes. A expressão de Ava ficou ferida. — Por favor. Eu farei qualquer coisa. — Volte para o Olimpo, — eu disse, e mais uma vez Cronus me repetiu. — Deixe Calliope. — Eu não posso, — disse ela. — Você não entende, ela tem Nicholas, e se eu não cooperar, ela vai matá-lo como ela matou Iris e Henry. No momento em que disse essas palavras, um silêncio frio caiu sobre a sala, e ela piscou várias vezes. — Eu sinto muito. — Ela disse, e eu podia ouvir o soluço borbulhando dentro dela. — Sinto muito, muito mesmo, Kate. Eu não posso te dizer... — Então, não diga, — eu disse. — Se você sente muito, então faça algo para provar isso. Eu não ligo para o que. Mas pare de agir como uma vítima indefesa e defenda o que você acredita antes que não tenha mais nada. As lágrimas corriam pelo seu rosto, e ela não tentou detê-las. — Eu só quero que as coisas estejam bem novamente. Por favor, Kate, você tem que entender. Você teria feito a mesma coisa por Henry, não é? — Sim, — eu disse suavemente. — Mas eu teria me odiado a cada momento, e no instante em que eu percebesse que você estivesse grávida, eu teria lutado com Calliope até a morte para protegê-la. Eu nunca a deixaria destruir você como ela está tentando me destruir. O silêncio caiu sobre a sala uma vez Cronus terminou de me repetir. Ava caiu no chão, abraçando os joelhos contra o peito, e eu pressionei meus lábios juntos. Tão machucada como eu estava, a minha não foi a única vida que Calliope estava tentando destruir. — Você tem a minha compreensão, — eu disse calmamente. — Faça a coisa certa, e um dia você vai ter o meu perdão. Mas você não vai ter nada se você não começar a agir como a Ava que eu conheço e levantar-se contra Calliope. Ava estava chorando agora, seu corpo inteiro tremendo. — Eu não posso. Eu não posso. Ela vai matá-lo. Por favor, Kate. Você é minha melhor amiga. Você é a única que entendeu antes. Por favor, tente entender agora Callum, ele está seguro com ela, ela não vai o machucarAlgo feio desenrolou dentro de mim, algo perverso e escuro, onde cada pensamento terrível que eu já tive dormente, esperando para sair novamente. — Ela fere Milo a cada segundo que ela o mantém longe de mim e Henry, e você é a única que a deixou levá-lo em primeiro lugar. Você não levantou um dedo para impedi-la, e por causa de você, ele está aqui, e ele nunca estará seguro com 99


ela. Nunca. Se você não pode ver isso, se você é tão cega para suas próprias ações que você não pode se responsabilizar por elas, então, tanto quanto eu estou preocupada, nunca fomos amigas em tudo. E nós nunca vamos ser de novo. Seus olhos se abriram. Em vez da angústia que eu esperava, eles estavam cheios de fogo magenta, tão certos como os de Henry brilhavam com luar e os de Cronus rodavam com nevoeiro. Ela desdobrou as pernas e levantou-se, e uma aura pálida brilhava ao seu redor. — Você é um mentiroso. — Suas palavras ecoaram em todo o berçário, e Milo soltou um grito assustado. Ela o ignorou e foi de igual para igual com Cronus, sem saber que eu estava menos de um metro de distância. — Kate nunca diria essas coisas para mim, e suas tentativas patéticas de cortar a minha lealdade não vão funcionar. Mesmo que Kate disse essas coisas horríveis, ela realmente não tem intenção. Calliope vai usar seus poderes para fazê-la me odiar, não é? Calliope não tinha que cortar as cordas de nossa amizade. Ava já estava desgastando-as além do reparo. Mas não importa o quanto eu entendia porque ela estava fazendo isso, não importa o quanto eu queria perdoá-la, eu nunca tive esses sentimentos conflitantes para alguém na minha vida. Eu sempre oscilei entre a fúria irresistível e o profundo desejo de entender, como se essas duas partes de mim estivessem em guerra umas com as outras. E enquanto eu estive na ilha, perto o suficiente para Calliope chegar a mim sempre que quisesse, perdoar Ava nunca tinha passado pela minha cabeça. Talvez Calliope estivesse por trás disso, afinal. Eu tomei uma respiração profunda. Reconhecendo que não fazia a tensão na boca do estômago diminuir, mas eu me obriguei passar as influências de Calliope se Ava fizesse a coisa certa. — É mesmo? — Disse Cronus com estranha calma, me puxando de volta para o presente. — O que faz você ter tanta certeza? Você já está do nosso lado. Eu não tenho nenhuma razão para mentir. — Você tem todos os motivos para mentir, — disse Ava. — Eu disse a Calliope, e agora eu vou te dizer. Eu não sou sua cadela. Estou aqui para o meu marido, e eu estou aqui para o bebê de Kate. Eu não vou deixar você ou Calliope envenená-lo. Uma sombra se moveu na porta, e Henry apareceu. Ele estava seguro. Sem dizer nada, ele atravessou a sala e pegou minha mão. — Você pode me dizer tantas coisas terríveis quanto quiser. Eu não acredito em você. — A voz de Ava tremeu, mas o poder irradiava dela. — Ela é minha melhor amiga, e eu a amo. Não que você entenda uma coisa sobre o amor. Ela enfiou a mão no berço de Milo e o pegou, e seus gritos ficaram mais altos. Seus braços se agitavam em minha direção, e eu segurava minha mão sobre a testa. — Está tudo bem, — eu sussurrei. — Estou aqui. À medida que as palavras saíram da minha boca, no entanto, Ava saiu na direção da porta, e foi só o aperto de Henry na minha mão que me impediu de ir atrás dela.

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— Onde você o está levando? — Disse Cronus sem qualquer indício de raiva. No entanto, ele parecia divertido. Ava olhou para ele. — Para dar-lhe um banho e uma mamadeira. Alguém precisa ter certeza de que ele sabe o que é ser amado, e você e Calliope com certeza não são qualificados. Dei um passo em direção a ela, puxando a mão de Henry na tentativa de levá-lo a seguir, mas ele se manteve firme. — Vem, Kate, — disse ele, e o mundo ao nosso redor começou a desaparecer. — Não há nada mais que possamos fazer. E embora eu não tenha dito nada enquanto ele me trouxe de volta para o Olimpo, eu sabia que ele estava errado. Havia algo mais, e agora eu não tinha escolha, a não ser fazê-lo.

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Capítulo 10 Destruição Eu não tinha certeza de quanto tempo fiquei ali, olhando para Henry no meio da nossa cama. Tempo suficiente para o meu coração doer da mesma forma que fez quando eu estava longe de Milo por muito tempo. Tempo suficiente para ter certeza de que a reunião do conselho terminou por agora, mas minha mãe ainda não tinha vindo me encontrar. Talvez ela soubesse que eu não queria ser encontrada. — Por que você acha que ela fez isso? — Eu disse, quebrando o silêncio entre mim e Henry. — Ava? — Ele disse, e eu assenti. — Porque ela ama Nicholas, e porque ela era ingênua o suficiente para acreditar que Calliope iria manter sua palavra. — Mas por que Calliope iria atrás de Ava para começar? 102


Henry se inclinou e me beijou. — Calliope vê Ava como sua maior rival. Walter a ama mais do que qualquer outra pessoa no conselho, e Calliope sempre teve ciúmes da influência que ela teve com ele. Ava é poderosa em seu próprio direito, também. Calliope tem o controle sobre a lealdade de uma pessoa, mas Ava controla o amor. Nem mesmo Calliope pode tocar isso. Realização se estabeleceu. — Ela queria você. Calliope ia capturá-lo e forçálo a ser seu parceiro. Esse era o seu fim de jogo – atraí-lo e mantê-lo como uma espécie de animal de estimação ou algo assim. Talvez seja por isso que ela queria Ava do seu lado. Henry não disse nada. Eu esperei que ele falasse, mas seu olhar ficou distante, e, eventualmente, tornou-se óbvio que ele não ia responder. Eu hesitei. Outro tema então. — Você acha que Ava está certa e Calliope vai usar suas habilidades para me fazer odiar Ava? — Eu não sei. A única pessoa que pode responder isso é você. Mas eu não tinha uma resposta. Eu nem sabia quais as perguntas certas a fazer. Minha raiva não era irracional, mas eu nunca estive tão furiosa e frustrada com alguém em toda a minha vida. Nem mesmo Calliope depois que ela tentou me matar. Se eu pude perdoá-la, então por que eu não poderia perdoar Ava? Porque Calliope só tinha tomado a minha vida. Ava tinha rasgado a coisa mais importante no mundo para longe de mim. — Ainda não faz sentido, — disse. — Se ela está usando os poderes de Ava de alguma forma, então por que não ouvimos sobre isso? Por que Cronus não me disse? — Eu não sei. — Sua mão deslizou para o meu lado para descansar em minha cintura. — Não há nada que possamos fazer sobre isso agora, exceto nos preparar para a possibilidade de que Calliope ainda tem um ás escondido na manga. Miserável como eu estava, eu cheirei seu ombro. — Ouvir você usar metáforas de pôquer é bizarro. — Eu sou muito melhor nisso do que você imagina, — disse ele. — Eu acredito nisso. Ele me beijou novamente e passou um dedo acima do cós da calça, deixando calor escaldante onde quer que ele me tocasse. Não precisava ser um gênio para descobrir o que ele queria, e eu o beijei de volta, mas coloquei a minha mão sobre a dele. Ele suspirou. — Sinto muito, — eu disse. — É – a última vez que fizemos isso, Calliope usou contra nós. E eu não posso passar por isso novamente. Em vez de protestar, Henry me puxou para mais perto, deslocando seu corpo para que ele descansasse contra o meu. — É este o seu modo de me oferecer mais incentivo? Ganhar a guerra, e você vai dormir comigo de novo? Revirei os olhos. — Por favor. Se fosse isso que eu estava tentando fazer, eu seria muito mais óbvia. Vencer a guerra é um pouco vago, depois de tudo. Eu iria para algo mais sólido. 103


— Por exemplo? — Ele murmurou. — Eu diria que algo como... Eu vou dormir com você depois que você me ensinar a desaparecer e reaparecer. Ele olhou para mim, e pela primeira vez em muito tempo, eu pensei ter visto um sorriso verdadeiro no rosto dele. — Isso é uma promessa? Porque com esse tipo de motivação, estou certo de que poderia resolver isso até o próximo pôr do sol. — Você é ridículo, — eu disse. — Mas se você está oferecendo... Ele imediatamente se sentou e ajeitou sua camisa. — Deve haver algum lugar neste lugar que possamos praticar sem sermos repreendidos. Comecei a sugerir voltar para o Submundo, mas estávamos tão presos aqui como eu tinha estado na ilha. Se deixássemos o Olimpo, por qualquer motivo, seria apenas uma questão de tempo antes que Calliope e Cronus descobrissem que Henry estava vivo. Nós tínhamos tido sorte na África e na Grécia, e não podíamos nos dar ao luxo de arriscar uma segunda vez. — Você acha que nunca vai vê-lo novamente? — Eu disse, e o sorriso de Henry desapareceu. — Milo? — Ele disse, e eu assenti. — Sim. Vamos vê-lo sempre que quisermos. — Você sabe o que eu quero dizer. Ele me puxou para ele novamente, seus braços apertando em torno de mim. Eu tinha sido uma idiota de sempre achar que ele não me amava, só porque ele não dizia. Ele me dizia uma centena de vezes por dia, sem ter que dizer uma palavra. — Eu prometi que iríamos encontrar uma maneira de pegá-lo de volta, e nós o faremos. Custe o que custar. — Exceto se você morrer, — eu disse com firmeza, passando os dedos ao redor da bainha de sua camisa preta. — Quero dizer isso. Henry beijou minha testa. — Então, você está autorizada a oferecer-se para Cronus por toda a eternidade para tirar Milo de lá, mas eu não estou autorizado a oferecer a minha vida para fazer o mesmo? — Eu ainda estaria viva, — eu disse. — E eu gostaria de encontrar uma maneira de sair de lá um dia. — Eu admiro a sua coragem, mas James está certo. Você deve encontrar uma solução para este seu complexo de mártir. Eu dei-lhe um olhar indiferente. — Você não estava reclamando quando o meu complexo de mártir deu-lhe uma segunda chance. — Mas chegou a hora de lutar não apenas pela vida daqueles que você ama, mas pelo seu próprio, bem, — disse ele. — Só assim você não machuca essas mesmas pessoas, deixando-os do jeito que você está com tanto medo que eles vão deixar você. Isso não foi justo e ele sabia disso. Se alguém tinha que morrer, eu preferiria que fosse eu do que sofrer esse tipo de perda. Henry, minha mãe, Milo - eu não podia sair dessa e ainda ser eu. — Eu vou fazer o meu melhor, — eu disse. 104


— Prometa-me. Mas eu não podia, e nem ele podia. Ambos iríamos fazer o que tínhamos que fazer, a fim de proteger um ao outro, e nenhuma promessa no mundo poderia parar qualquer um de nós. Até o momento que o Olimpo mais uma vez pairou sobre a Grécia e o conselho partiu para outra batalha de duração de minutos contra Cronus, consegui desaparecer de um lado da sala do trono e reaparecer do outro. Com a quantidade de concentração que levou, eu não tinha nenhuma chance de me preocupar com a minha mãe e o resto do conselho. E eu estava muito esgotada para estar irritada que este deve ter sido o plano de Henry o tempo todo. — Por que você não me ensinou isso antes? — Eu disse, puxando meu cabelo em um rabo de cavalo. — Isso teria vindo a calhar há nove meses, você sabe. — Ele não tomou qualquer esforço físico em tudo, mas a quantidade de força de vontade que era necessário me deixou tonta cada vez que atravessei a sala. Como Henry viajava por todo o Submundo assim? — Nós não tivemos a oportunidade, — disse ele. — Agora, tente ir para o quarto. Eu vou te encontrar lá. Eu dei-lhe um olhar. — Eu disse a você, eu não quero fazer isso até— Isso é tudo o que você pensa? — Disse ele com um leve sorriso antes de desaparecer, e eu bufei. Completamente injusto. Fechei os olhos e me concentrei no ar em torno de mim. Na sala do trono, parada e quente, mas não era insuportável. Lentamente, dolorosamente assim, juntei uma imagem do quarto em minha mente. A cama simples, cômoda, armário, a porta branca, o chão do pôr do sol e o teto azul-celeste exatamente como a sala do trono. Reunindo-me, sentindo cada centímetro do meu corpo da ponta do meu nariz para o fundo dos meus calcanhares, eu exalei. E então eu abri meus olhos. — Muito bom, — disse Henry, em pé perigosamente perto de mim. — Você foi mais rápida desta vez. Menos de trinta segundos. Era difícil aceitar um elogio de alguém que poderia fazê-lo num piscar de olhos. — E se a gente aparecer no mesmo espaço? — Isso não vai acontecer, — disse Henry. — As leis do universo não vão permitir isso. Oh. Bem, isso foi bom saber. Debrucei-me contra a cabeceira da cama e enfiei as mãos nos bolsos. — Assim que eu tiver aprimorado isso, você poderia me ensinar a lutar? — É preciso séculos para aprender a lutar da maneira que faria qualquer diferença nas batalhas, — disse ele. Droga. Então James não estava mentindo. — Isto - aprender a viajar - é a sua melhor aposta. — Como isso pode ajudar? — Eu disse, e ele deu de ombros. — Qualquer número de maneiras, realmente. Nunca subestime o valor de ser capaz de ir para onde quiser com um único pensamento. Isso juntamente com suas visões... bem, você pode ser uma oponente formidável, de fato. 105


— Você só está dizendo isso para tentar me fazer sentir melhor. — Talvez, — ele disse com um sorriso. — Mas isso não torna menos verdadeiro. Agora, antes que você tenha a ideia errada de mim, eu vou encontrá-la de volta na sala do trono. Mais uma vez, ele desapareceu, e eu suspirei. Se eu ainda fosse mortal, eu tinha certeza de que eu teria uma dor de cabeça violenta por agora. Fechando os olhos, eu repeti o processo, desta vez tentando me concentrar mais rápido e raspar um ou dois segundos do meu tempo. Eu tinha que ficar melhor, e eu tinha tanto tempo para aprender como. Eu reapareci na sala do trono 22 segundo depois e sorri. — Da próxima vez que jogar tag1, eu vou usar isso, — eu disse, e meus olhos se abriram. Walter ficou dois centímetros na minha frente, tão perto que o meu nariz quase foi pressionado contra seu peito. — Embora seja admirável que você tenha encontrado tempo para brincar durante um período tão preocupante, devo pedir que você tome o seu lugar agora. Eu tropecei um passo para trás e bati em outra pessoa. James. Ele colocou a mão no meu ombro para me firmar. — Estamos de volta, — disse ele. — Não tinha imaginado, — eu murmurei antes de me mover para o meu trono. Henry estava ao lado do dele, e ele estendeu a mão. Eu peguei. O resto do conselho se sentou também, e eu fiz uma contagem rápida mental. Todos pareciam desgastados, a pele da minha mãe estava doentemente pálida, uma lembrança dolorosa de seus últimos dias de volta no Éden, mas todos já haviam retornado. Ninguém falou. Suas expressões variaram de profunda tristeza para raiva inexplicável, e levou tudo que eu tinha para não afundar em uma visão e me certificar que Milo estava bem. — O que aconteceu? — Eu disse com voz trêmula, assustada demais para esperar por Walter falar primeiro. — O alcance do Cronus está ampliando. Ele enviou outra onda, — disse Walter. — Alexandria se foi, e Cairo está meio inundado. — Mas- — Tentei imaginar um mapa do Egito. Tinha passado uma eternidade desde que eu tinha visto um. — Cairo não está na costa. — Com o poder de um Titã por trás disso, não havia nada para parar a onda de chegar tão longe no interior, — disse Phillip, e ele deu um grande suspiro trêmulo. — Sinto muito. Eu tenho feito tudo o que posso para contrariar ele, mas— Há apenas tanta coisa que você pode fazer, — disse Sofia suavemente, seus olhos avermelhados. — Ninguém culpa você, Phillip. Do jeito que ele abaixou a cabeça, era óbvio que Phillip se culpava. Enfiei minhas mãos trêmulas entre meus joelhos. Duas cidades neste momento, e tudo mais. — Quantas vítimas? — Disse.

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Pega-pega

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— Milhões, — disse Walter. — Várias vezes maior que a quantidade de destruição em Atenas. Todo o ar deixou meus pulmões. Por que eles não tinham aceitado o acordo de Cronus? Talvez só tenha valido a pena um pouco mais de tempo para se preparar, mas isso ainda era alguma coisa. Cronus estava fugindo com ou sem a sua permissão, e não demoraria muito para ele devastar a Europa e a África. E então onde ele iria bater? Ásia? Austrália? América do Norte e do Sul? Quanto tempo levaria para destruir tudo? Pelo menos Calliope me atacou por uma razão. Mas Cronus - ele estava fazendo isso só para machucar o conselho? Para provar que era mais forte e não havia nada que pudesse fazer para detê-lo? Eles já sabiam disso, mesmo que Walter fosse muito teimoso para admitir que ele não era o maior, pior bastardo no universo. Eu abri minha boca para exigir que Walter fizesse alguma coisa, qualquer coisa, eu não me importava o que, desde que parasse o ataque. Henry pegou a minha mão, porém, acariciando meus dedos com a ponta do polegar, e eu caí em silêncio. Para Walter, eu não era nada mais do que uma praga incompetente. Por isso, não importa o que eu dissesse, não importa quanta a lógica e raciocínio que eu usasse, ele não me escutaria. Nenhum deles, exceto minha mãe, James e Henry, e o Conselho não podia se dar ao luxo de ser mais dividido do que já estava. — Kate, você pode ir, — disse Walter, e deixei a sala do trono sem protestar. Eu poderia ser jovem e inexperiente, mas isso não faz de mim uma idiota. E se eles não iam corrigir isto, então eu iria. Sombras dançavam nas paredes do berçário do Milo, uma vez que se materializou em volta de mim, e Cronus pairava sobre seu berço. Ele parecia mais pálido do que o normal, mas seus olhos rodaram com nevoeiro, e uma leve aura de poder o rodeava. — Eu estive esperando por você. — Ele colocou a mão nas minhas costas, e eu recuei. — Você é um monstro, — eu rosnei, indo em direção do berço para meu filho. — Você percebe quantas pessoas você sóComo sempre, minha mão encontrou ar vazio, mas desta vez foi diferente. Eu olhava para a bagunça de cobertores, e eu congelei. Milo não estava lá. — O que você fez com ele? — Eu disse, e minha voz falhou. — Onde diabos está o meu filho? Cronus gesticulou atrás de mim, e eu me virei. Ava se sentou em uma cadeira de balanço que não tinha estado lá no dia anterior, e ela embalava Milo. — Ela quase não o coloca no berço desde a última vez que você saiu, — disse o Cronus. Corri até ela, e Ava olhou para cima. Por um momento horrível, pensei que ela pudesse me ver, mas em vez disso ela olhou através de mim. — Não vai funcionar, — disse ela a Cronus. — Eu não me importo quantas vezes você 107


tente. Kate não está aqui, e mesmo que ela estivesse, você não seria capaz de vêla. Ainda em negação então. Por enquanto, isso não importava; Eu assisti Milo feliz sugar a ponta do dedo mindinho dela, e meu coração se derreteu. Abrindo os olhos, ele olhou diretamente para mim, e eu podia jurar que ele sorriu em torno do dedo dela. — Oi, bebê, — eu sussurrei, ajoelhada ao lado de Ava. A lâmina de sua cadeira de balanço cortou minha coxa insubstancial. — Olhe para você. Seus olhos estavam brilhantes, as bochechas cor de rosa, e ele acenou com as mãozinhas para mim com mais entusiasmo do que antes. Ele parecia um bebê saudável de dez dias de vida. Seja o que for que Ava estava dando para ele, estava funcionando. — Por que ele parece muito mais saudável? — Eu disse a Cronus, e ele repetiu a pergunta. Ava, que não deve ter percebido que ele estava mais uma vez falando por mim, deu de ombros. — Todo mundo sabe que os recém-nascidos precisam ser segurados, e não por um vazio de emoção, no entanto. Um pouco de amor faz grande diferença. E agora, ela era a única pessoa que poderia dar isso a ele. Eu mordi o interior da minha bochecha e foquei em Milo. Ele era tão bonito que doía olhar para ele, mas eu não conseguia me afastar. — Por que você atacou essas pessoas? — Eu disse a Cronus. — Pela mesma razão que eu ataquei Atenas, — disse ele. — Para ensinar o conselho uma lição. — E que lição que deveria ser? — Eu bati. — Quanto mais você machucálos, menos provável será que eles concordem com sua trégua. — Nós dois sabemos que isso não vai acontecer, — disse Cronus, e na cadeira de balanço, a testa de Ava franziu com a confusão. — Pare com isso, — disse ela, seu aperto no Milo aumentou. — Ela não está aqui. — Diga a ela que você mentiu ontem, — eu disse. Ava estava fazendo algo que ninguém mais poderia ou iria para Milo agora, e se Cronus dissesse a coisa errada, eu não podia arriscar Ava deixar o bebê sozinho novamente. A última coisa que ele precisava era perder alguém que o amava. Cronus suspirou e disse em uma voz irritada, — Minhas palavras ontem foram apenas as minhas, e não um reflexo das expressões de Kate. Minhas mais sinceras desculpas. Ava sorriu triunfante. — Eu sabia. Você é a escória. — Então me foi dito, — disse Cronus com uma facilidade surpreendente. — Minha querida Kate, o fato é que todos nós sabemos que uma trégua não vai acontecer, não enquanto Walter está a cargo do Conselho. — Não está em meu poder convencê-los a derrubar Walter, e mesmo se eu pudesse, eu não iria, — eu disse. 108


— Então você sabe as consequências, — disse Cronus. — O tempo de inatividade acabou. Eu dei ao conselho tempo suficiente para se render, e agora que eles escolheram que não, eu vou fazer o que for preciso para colocá-los em seu lugar. Meu estômago caiu. — Por favor, — eu disse. — Dê-lhes um pouco mais de tempo. Dê-me um pouco mais de tempo. — Não vai fazer diferença. O solstício de inverno é em menos de três meses. Os laços do Conselho deixam de me segurar, então. — Eu sei. — Então por que você veio? — Disse Cronus. — Não me diga que era apenas para ver seu filho. Eu passaria a eternidade trancada em um quarto com Calliope se isso significasse passar cinco minutos com Milo. Mas eu não disse isso, porque Cronus estava certo. Ele estava sempre certo. — Você sabe por que estou aqui. Seus passos ecoavam atrás de mim, crescendo mais perto, até que ele se ajoelhou ao meu lado e serpenteou seu braço em volta da minha cintura. Ava se afastou dele. Eu não a culpo. — Kate? — Disse ela, com a voz trêmula enquanto ela procurava o espaço que eu estava. Eu a ignorei. Agora não era o momento. — Eu quero ouvir isso de você, — disse com voz rouca Cronus, e apesar de seus lábios persistentes junto ao meu ouvido, ele não tinha nenhum fôlego. Nem quente, nem frio - nada. Eu apertei minhas mãos em punhos e foquei nos olhos azuis de Milo. Henry entenderia. Ele tinha que entender. — Estou aqui para fazer uma troca. — De verdade desta vez? — Disse Cronus. — Sim, — eu sussurrei. — De verdade.

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Capítulo 11 Horizonte Cronus me deu sete dias com Henry e minha mãe, antes que ele atacasse novamente. Não foi fora da bondade de seu coração. Eu não tinha maneira de chegar à ilha por conta própria, no entanto, e eu não podia pedir a ninguém para ir comigo. Além disso, quanto mais pessoas eu envolvesse, maior chance isso tinha de voltar para Henry. Então eu tinha que aprender a chegar lá sozinha. Eu mal podia viajar por todo o quarto sem a ajuda de Henry; aprender a atravessar meio oceano em uma semana parecia impossível, mas eu tinha que fazer.

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Quando minha mente voltou para o Olimpo, eu fiquei consciente de duas coisas: primeiro, eu estava chorando. E segundo, Henry estava ao meu lado, com os olhos presos nos meus. — Você está bem? — Ele passou o polegar na minha bochecha, pegando uma lágrima perdida. A vontade de contar tudo a ele tomou conta de mim, tornando difícil respirar, mas eu não podia. Isto era por Milo. Se um de nós tinha que fazer isso, eu era a melhor escolha. Cronus já havia dado a Calliope um ultimato para não me machucar ou Milo; Henry não teria a mesma segurança, e ele era muito importante, muito poderoso, muito necessário para se sacrificar. Gostaria de encontrar uma maneira de voltar o mais rápido que pudesse. Talvez se eu pudesse aprender a viajar corretamente, eu seria capaz de levar Milo e escapar. Não era muito, mas era alguma coisa, e eu não poderia ter Henry arriscando-se nesse meio tempo. — Eu te amo tanto, — eu disse, fechando a distância entre nós e me envolvendo em torno dele. — Não importa o que aconteça, não importa como essa guerra acabe - Eu te amo, para sempre e sempre. Henry ficou em silêncio por um longo momento, e eu contava os segundos, levando conforto em cada respiração que ele tomou. Por fim, ele baixou os lábios nos meus, beijando-me com dolorosa ternura. — Você é minha vida. — Apesar de suas palavras serem quase um sussurro, pareciam ecoar de algum lugar dentro dele, envolvendo meu corpo e me infundindo com algo inabalável. — Não há nada que eu não faria para fazer você feliz. Antes de conhecer você, meu mundo era uma sequência de dias que eram cinza e vazios. Eu não tinha nada para olhar para frente, e eu não posso te dizer o que era encarar a eternidade sozinho. Todos os dias eu te desejei. Todos os dias eu me agarrei a esperança de que, eventualmente, iriamos nos encontrar. E quando eu finalmente te encontrei... Ele se inclinou e me beijou de novo, tão ternamente como antes. Sua mão deslizou por baixo da minha camisa, espalhando em meu estômago, mas o toque não era sexual. Era como se ele estivesse tentando me memorizar, quando eu estava tentando memorizar ele. — Eu existo há mais eras do que eu me lembro. Eu vi o sol nascer e cair tantas vezes que os dias perderam todo o significado. Por muito tempo, eles passaram por mim como um borrão. Mas, naquela noite em que nos conhecemos no rio – a noite que você desistiu de si mesma, a fim de salvar um estranho - meu coração começou a bater de novo. Ele pegou minha mão e apertou-a contra o peito, e lá estava - thump thump, thump thump, forte e bonito. Eu teria dado qualquer coisa para manter seu coração batendo. O abismo negro que se tornou meu mundo nas horas que eu pensava que ele estava morto havia desaparecido, mas era uma cicatriz que eu sempre suportaria. Eu não podia voltar a isso. Mesmo se eu tivesse Milo, eu nunca teria outro Henry.

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— Eu vejo o sol nascer agora, — disse ele. — Por causa de você, os dias têm cor. Eternidade tem sentido mais uma vez. Você encontrou cada pedaço quebrado de mim e me juntou novamente, mesmo quando eu te machuquei muitas vezes para eu merecer. Você é a cola que me mantém junto. Se eu te perder, será o meu fim. Um nó se formou na minha garganta. — Você nunca vai me perder, — eu disse, minha voz embargada. — Prometa. — Seu olhar procurou o meu quando ele passou a ponta do dedo pela minha espinha. — Eu prometo. — Eu fechei a diferença minúscula entre nós, mais uma vez, capturando seus lábios e tentando mostrar a ele o quanto eu quis dizer isso. — Eu te amo. Eu amo a nossa família. Eu amo a nossa vida juntos, e eu não posso esperar pelo dia em que estaremos de volta em casa, apenas nós três, e toda essa guerra acabar. Eu juro para você que vai acontecer. Isso vai ser o nosso futuro. Ele embalou a parte de trás da minha cabeça, a palma da mão contra a minha pele queimando. — Esperei uma eternidade por esse amor. Eu não vou deixar ninguém, Titã ou não, levar de nós. — Promete? — Eu disse, e desta vez foi a vez de Henry me beijar. — Eu prometo. — Então faça-me um favor. — Qualquer coisa. Mudei-me de costas, rolando-o comigo. Seu corpo pressionado contra o meu em todos os lugares certos, e eu levantei a cabeça alta o suficiente para descansar minha cabeça contra a dele. — Viva esse amor agora, — eu sussurrei. — E nunca pare. *** Nesses sete dias, eu passei todos os momentos que pude com Henry. Walter decidiu que, apesar de ele ter praticamente se curado, Henry permaneceria no Olimpo até o último momento possível, para dar ao conselho o elemento surpresa. Embora Henry tivesse uma tendência a andar ao redor murmurando coisas sobre seu irmão e eu concordasse, isso nos deu mais tempo juntos. Quando não estávamos tocando a nossa nova marca de tag em todo o palácio cheio de sol, nós lutamos nosso caminho através da areia movediça das minhas visões para ver Milo. Cronus estava sempre lá, uma lembrança silenciosa do pouco tempo que me restava com a minha família, mas agora Ava tornou-se um elemento permanente, também. Quanto mais feliz e saudável Milo se tornava, mais fina e mais pálida Ava ficava, como se ela estivesse derramando tudo o que tinha para ele. Talvez ela estivesse. Talvez ela fosse a única coisa que o mantinha vivo. Quando eu falei isso a Henry depois de voltar ao Olimpo um dia, no entanto, ele balançou a cabeça. — Nós dois somos imortais, e então Milo também. 112


— O quê? — Eu parei no meio da sala do trono abandonado, o único lugar que poderia ir que não me sentia abafada. O sol brilhava um pouco mais forte aqui, e o pôr do sol em nossos pés parecia mais profundo, mais real de alguma forma. — Mas eu pensei que todo mundo tinha que fazer os testes. — Os membros do conselho têm, — disse Henry. — Semideuses que tentam ganhar a imortalidade geralmente tem que provar de alguma forma. E realezas fazem o teste, também. Se Walter decidir ter outra rainha, independentemente de sua mortalidade, ela terá que passar pelos mesmos testes que você fez para ganhar a posição. Se Milo me substituir como Rei do Submundo— Por que ele iria? — Só hipoteticamente, — disse Henry, e seus dedos dançaram para baixo na curva das minhas costas. — Se ele me substituísse, ele teria que fazer o teste também. Não era apenas hipoteticamente, no entanto. Ele estava planejando a mesma coisa que eu estava - se sacrificar para conseguir Milo volta de alguma forma? Não, ele não faria isso comigo, não depois de tudo o que tínhamos passado. Eu gostaria de encontrar um caminho de volta para ele, porém, não importa o que precisasse. Eu descansei minha cabeça em seu ombro. A cicatriz de prata do primeiro ataque de Cronus cutucou para fora debaixo de seu colarinho, e eu segui-a com um toque leve como pena. — Venha, — ele murmurou. — Eu quero lhe mostrar uma coisa. Antes que eu pudesse dizer uma palavra, o sentimento agora familiar de desaparecer tomou conta de mim, e a sala do trono desbotou. No entanto, uma sala semelhante substituiu, com o céu que se estendia interminavelmente diante de nós. Havia algo diferente sobre isso, porém. Antes tinha sido fácil dizer a diferença entre o teto e o chão, mas aqui eles se misturavam como se fosse uma coisa real. A não serEu pisquei. Era a coisa real. — Eu não deveria trazê-la aqui, ou até mesmo estar aqui, — admitiu Henry. — Esta é a varanda exterior dos aposentos privados de Walter. É o auge de seu domínio, e ele é muito protetor sobre ela. Mas não há nada mais bonito do mundo, e eu queria que você visse. Ele me levou a uma grade de vidro, e eu olhava para fora através do céu infinito. Apanhado entre o dia e ao anoitecer, as cores giravam como se fossem líquidas, e as chamas pareciam dançar nas nuvens. — Isso é incrível, — eu disse, atordoada. Ficamos ali por um longo momento, e, finalmente, ele passou o braço em volta de mim, me puxando para mais perto. — Você pode me dizer qualquer coisa, você sabe. — Eu sei, — eu disse suavemente. — Então me diga o que tem te incomodado. 113


Foquei no horizonte. Eu não podia mentir para ele. Eu não queria, e mesmo se eu tentasse, ele saberia. — Estamos no meio de uma guerra, e nós dois estamos sendo usados como peões em maneiras que não compreendemos. — Isso não é atípico para o meu irmão, — disse Henry com uma pitada de alegria. — Isso não é o que quero dizer. Estamos todos em um grande tabuleiro de xadrez, não estamos? Cronus está de um lado e Walter, do outro, usando todos como peças de xadrez. Só que eu não sou como um peão no lado de Walter. Henry abriu a boca, mas eu o interrompi antes que ele tivesse a chance de falar. — Não me diga que eu estou errada. Nós dois sabemos que eu não estou. Eu sou inútil para Walter. Eu tentei dar-lhe informações, agir como uma enviada, aprender a lutar para que eu possa ajudar a todos, mas ele não aceitou. Cronus embora - ele está me movendo ao redor como se eu fosse uma maldita peça do rei. Um passo de cada vez, em qualquer direção que ele quer, mas eu nunca posso ir muito longe sozinha, porque se eu fizer isso, se ele me perde... — Ele não vai perder a guerra se ele perder você, se é isso que você está pensando. — Henry virou-se, então ele estava de frente para mim, e ele segurou meu olhar. Havia algo sério e ansioso em seus olhos, como se estivesse desesperado para me fazer entender. — Você não é uma peça do rei para ele. Se você é alguma coisa, você é um peão. Algo pequeno e inofensivo, facilmente esquecido, nada mais do que as forragens. Se ele tem você onde ele te quer, no entanto - tão profundamente em território inimigo, que nem sequer sabemos que você está lá então você vai se tornar mais para ele. Mas só por causa do papel que você joga, não quem você é. Apesar da ilusão que ele está oferecendo a você, você não será nada mais do que uma outra peça do jogo para ele. Você entende? Eu respirei fundo e liberei lentamente. Não havia nenhuma boa solução para nada disso. — Cronus me quer. Qualquer que seja a ímpia razão que ele tem, o que quer que ele pensa de mim, me ter significa algo para ele. Eu não posso ignorar isso. — Eu não estou pedindo para você ignorar, — disse Henry. — Eu estou pedindo que você pense em mim, pense em Milo, e perceba que não será bom para nenhum de nós se ele tiver você. Você não pode confiar em um Titã. — Agora você está começando a soar como Walter, — eu murmurei. — Ele tem um ponto sobre Cronus. A única pessoa que pode impedi-lo de repudiar um acordo é Rhea, e ela já disse qual a sua posição sobre esta guerra clara. Enquanto isso, não vale a pena o risco. Milo está seguro. Ava está cuidando dele, e ela não vai deixar nada acontecer com ele. — Ela já deixou algo acontecer com ele, porém, — eu disse. — E como eu sei que a primeira chance que ela tiver, ela não vai jogá-lo no oceano? — Se ela fizer, então devemos considerar-nos felizes, — disse Henry, me puxando para outro abraço. — Phillip iria encontrá-lo, e nós o teríamos de volta.

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— Mas e se Calliope decide matar Milo, depois de tudo? Ela tem o punhal. Ela tem Cronus. Ela poderia fazer isso. Cronus poderá fazer se eu me recusar a ir para ele— Se Cronus ou Calliope ameaçar matar nosso filho, eu os rasgarei com as minhas próprias mãos, — disse Henry. — Você não está sozinha nesta luta, Kate. Não se esqueça disso. Eu já falhei com você mais vezes do que posso contar, e eu não vou fazer isso de novo. — Você não- — As palavras prenderam na minha garganta. — Você não falhou comigo. — Você morreu na minha supervisão, — disse ele. — E meus sentimentos por Persephone— História antiga. Você não falhou comigo, entendeu? E eu não vou deixar você invadir lá por conta própria. Ele passou os dedos pelo meu cabelo. — Também não vou permitir que você faça isso também. Estamos juntos nessa, não importa o que aconteça. Eu não vou cometer o erro de te deixar para trás novamente. Tudo que eu peço é que você faça o mesmo por mim, também. Horror frio me atingiu. Ele sabia. De alguma forma, de alguma maneira, ele sabia o que eu estava pensando, e em vez de admitir e me parar a força, ele estava tentando argumentar comigo. Ele estava me dando uma escolha. Mas ele também tinha me feito ver as consequências de tomar a decisão errada dolorosamente claras. Se eu fugir sozinha para tentar proteger Milo e acabar com essa guerra, ele faria o mesmo. E nós dois sabíamos que suas tentativas seriam um inferno de muito mais sangrentas do que as minhas. Inclinei a cabeça para cima, para capturar seus lábios, beijando-o com toda a paixão, frustração e culpa dentro de mim. Ele tinha que entender. — Eu te amo, e eu serei sempre sua. — E eu seu. Teremos o nosso futuro, — sussurrou Henry. Apesar de tudo que estava acontecendo em torno de nós, apesar das escolhas dolorosas que ambos enfrentamos, eu acreditei nele completamente. No meu último dia antes de me render a Cronus, minha mãe me achou. Eu estava praticando por tempos, e Henry há muito havia se cansado de me perseguir em torno do Olimpo. Apesar das horas que eu tinha cronometrado desaparecendo e reaparecendo em lugares aleatórios em todo o palácio, eu não tinha visto todo o Olimpo ainda. Agora eu nunca iria, mas era um lamento estúpido para ter, considerando todas as coisas. — Precisamos conversar, — disse minha mãe quando eu reapareci na sala do trono. — Sobre o quê? — Eu disse, forçando minha voz a permanecer estável. Não adiantava dar-lhe alguma razão para pensar que eu estava fazendo alguma coisa, e se alguém poderia descobrir isso, era a minha mãe. A menos que Henry já tinha dito a ela.

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— Você tem estado ansiosa ultimamente, — ela disse, e eu xinguei interiormente. — Todos nós estamos no limite. Ela não podia discutir com isso. Em vez disso, minha mãe apertou os lábios. — Você quer falar sobre isso? Sim. Eu queria rastejar em seu colo como eu tinha quando eu era criança e admitir todas as coisas estúpidas que eu tinha feito e cada coisa idiota que eu tinha concordado. Eu queria que ela me dissesse que tudo ia ficar bem, e que eu não tinha que me preocupar mais, porque ela iria consertar. Isso não era algo que ela poderia resolver com um aceno de mão ou algumas palavras gentis, porém, e pela primeira vez na minha vida, eu comecei a entender que ela não era a todo-poderosa mãe que eu sempre pensei que fosse. Ela era humana, ou pelo menos o mais próximo ao ser humano, como um membro do conselho poderia ser. Ela cometeu erros, também, e ela nem sempre tinha as respostas. — Eu não posso, — eu murmurei, e ela fez sinal para que eu me juntasse a ela. Eu me enrolei no colo dela sem pensar duas vezes. Por que as coisas não poderiam ser simples de novo? Elas não tinham sido simples por anos, porém, não desde que eu tinha quatorze anos e minha mãe tinha sido diagnosticada. E enquanto eu tinha a ilusão de simplicidade nos anos antes disso, eles nunca tinha sido muito fáceis, tinham? Ela teve que me criar sabendo o que estava por vir. O conselho sempre pairava sobre mim, esperando que eu fosse velha o suficiente para me fazer passar por um teste que nenhuma garota antes de mim tinha sobrevivido. Minha mãe sabia dos riscos. Ela sabia como o inevitável parecia, mas ela sempre esteve lá e sempre me amou com tudo o que tinha. Agora era a minha vez de fazer o mesmo para Milo. — Você é uma boa menina, Kate. — Ela murmurou, me segurando perto. — Faça o que você tem que fazer para proteger a sua família. Eu a abracei de volta com força. Então Henry tinha dito a ela, depois de tudo. Será que todo o conselho sabia agora? Será que isso importava, contanto que eles não tentassem me parar? — Eu te amo, — eu disse, me agarrando a ela. — Eu também te amo, querida. — Ela esfregou minhas costas em círculos lentos. — Tudo vai ficar bem no final. O mal nunca dura para sempre, e nem isso irá. Mesmo que eu saiba que ela estava certa, mesmo que ela tenha dito as palavras exatas que eu precisava ouvir, ela não podia prever o que aconteceria. Ninguém podia. E era isso que eu tinha muito medo. Mais tarde, em nosso quarto, Henry e eu não conversamos. Nós nos perdemos um no outro, uma despedida silenciosa, pois nenhum de nós poderia suportar dizer algo. Se eu não estivesse determinada antes, agora eu estava; ele

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estava me deixando ir, e seria apenas uma questão de tempo antes de eu descobrir o preço que ambos teríamos que pagar por isso. Quando meu tempo reduziu-se a menos de meia hora antes de eu me entregar a Cronus, eu ainda não tive coragem de dizer adeus. Esperei até o peito de Henry se levantar e cair no ritmo constante de sono, mas ele não me enganou. Ele estava acordado, e eu nos dei um último momento de fingir e fugir em silêncio. James estava esperando por mim no corredor, encostado na parede com uma carranca no rosto. — Indo para algum lugar? — Eu- — Eu parei. — Você não pode me parar. — Não há dúvida sobre isso, — disse ele, pegando a minha mão e me levando para a sala do trono. Tanto quanto eu queria me afastar, eu não podia. Não quando esta podia ser a última vez que eu o via. — Você tem certeza disso? — Se você fosse eu, o que você faria? — Eu teria saído há muito tempo. Pelo menos ele entendia, mas eu não tinha tempo para isso. Se eu não estivesse no palácio de Calliope, em 20 minutos, Cronus mataria milhões mais. — Se você não está tentando me parar, então o que você está fazendo aqui? — Todo mundo recebe um adeus, menos eu? — Ele disse, e eu o abracei na cintura. — Sinto muito. Eu queria te dizer. — Isso é uma mentira, mas obrigado pelo seu interesse, — disse James sem um pingo de raiva. — Então, qual é o plano? Eu não disse nada. Não era da conta dele, e se eu dissesse a ele, eu corria o risco dele tentar interferir e estragar tudo. Eu confiava em James, mas eu confiei em Ava também. Eu tinha confiança em Calliope. Cada vez que algo terrível acontecia, essa confiança me mordia na bunda. Se este plano contava com alguma chance de sucesso, eu tinha que manter minha boca fechada. James não me pressionou sobre o assunto até chegarmos à sala do trono vazia. Paramos no centro, ele procurou meu rosto por algo que, obviamente, não poderia encontrar. — Pode confiar em mim, — disse ele. — Eu quero ajudar. — No momento em que eu lhe disser, você vai fazer tudo ao seu alcance para me parar, — eu disse, sem raiva ou acusação. Era verdade, e nós dois sabíamos disso. — Eu juro que eu só vou ajudar, — disse ele, traçando um X sobre o peito. — Atravesse meu coração, palavra de honra, enfia uma agulha... — Ele fez uma careta. — Na verdade, não, não essa última parte. Nem sequer rima corretamente. Eu dei um soco de leve no braço. — E como é que você está pensando em ajudar? Vai correr para Walter e dizer-lhe tudo para que ele possa me parar? James zombou. — É isso que você pensa de mim? Você está se esgueirando para viver em pecado com um assassino em massa, e eu sou o cara mau aqui?

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Qualquer pequena quantidade de diversão que eu tinha conseguido naqueles poucos minutos com ele evaporou. — Você sabe que eu não tenho escolha. — Você tem uma escolha, — ele respondeu. — Você acabou de fazer, isso é tudo. — O que mais você quer que eu faça? Ele deu de ombros. — Não poderia dizer. Eu faria exatamente a mesma coisa. Minha raiva esvaziou. — Então me dê um abraço de despedida e me deixe ir. Eu posso ser uma criança em comparação com o resto de vocês, mas isso não faz de mim uma idiota. — Na maioria das vezes, — disse James, e eu lhe dei um soco no braço novamente. Sem dizer nada, ele me abraçou e escondeu o rosto no meu cabelo. — Era para eu ser o seu primeiro caso. Um nó se formou na minha garganta, e eu o abracei de volta ferozmente. — Eu não acho que isso conta como um caso se o pensamento de Cronus faz mal ao meu estômago. — Então, ainda há esperança para mim, depois de tudo. Eu meio que ri, meio solucei. — Você é um idiota. — É de família. — Ele me deixou ir. — Esteja segura, Kate. Quero dizer. Se você morrer, Henry irá— -rasgar todo o mundo com as próprias mãos, — disse eu. — Sim, eu sei. Acredite ou não, eu realmente quero me manter viva, também. — Apesar de todas as evidências mostrarem o contrário. — Ele sorriu, e eu toquei o cotovelo dele. — Faça-me um favor. Encontre alguém para você, ok? Não uma aventura ou uma mortal para se casar por 50 anos antes dela morrer, mas alguém para realmente se estabelecer. Você tem, o que, milhares de anos de idade? Você não acha que está na hora? Seu sorriso vacilou por uma fração de segundo. — Eu teria ficado com você, mas você teve que ir e se casar com o meu tio. Você é uma pequena destruidora de corações, você sabe. Revirei os olhos. — Você é terrível. Quero dizer. Você merece alguém, alguém que não esteja comprometida. Vá para fora e a encontre. Ou ele. Basta encontrar alguém. — Eu me estiquei em minha altura. — Eu vou ficar com raiva de você até que você faça. — Levou Henry mil anos para encontrá-la, — disse James. — Você acha que poderá ficar realmente com raiva de mim por tanto tempo? — Henry não sai muito. Você sai. — Eu beijei sua bochecha. — Estou falando sério. Tem que haver uma deusa menor lá fora em algum lugar que é absolutamente de ponta-cabeça para você. — Quem eu não já deflorei - Ow. — James esfregou seu ombro, onde eu o havia batido uma terceira vez. — Você está muito violenta hoje. 118


— E você é terrivelmente grosseiro. Ele me capturou em outro abraço. — Pena que você não teve uma filha. — Se eu tivesse, eu teria dito a ela para ficar bem longe de você. — Mesmo sendo uma recém-nascida? — Você nunca pode começar muito cedo. Beijando o topo da minha cabeça, ele deslizou sua mão na minha. — Justo. Agora, o que você diria para sair daqui? Estávamos de volta para isso novamente. Eu suspirei. — Eu não preciso de sua ajuda, James. Estou bem sozinha. Eu tenho tudo planejado. — Você tem agora? — Disse ele, sobrancelha levantada. — Então me diz como que você está pensando em sair Olimpo? Usando as escadas? Eu hesitei. — Posso? — Esta não é uma canção de Led Zeppelin, querida. Não há escadas para o céu. — Ele apontou para o chão do sol. — Walter tem este lugar bloqueado no momento, o que significa que só há uma maneira de sair daqui, e isso é ter uma escolta olimpiana com você. Pronta? Eu olhei para ele, procurando qualquer sinal de que ele estava prestes a correr para Walter. Mas o tempo estava se esvaindo, e eu não tinha muita escolha. — Se eu te deixar, você jura que você está apenas ajudando? — Tudo, menos da agulha — disse ele. Como era possível que ele pudesse me fazer sorrir, mesmo no meio da coisa mais difícil que eu já tive que fazer? Porque ele era James, e porque eu poderia tê-lo amado assim se eu já não amasse Henry. Eu tinha Henry, no entanto, e eu nunca iria traí-lo. James sabia, eu sabia, a única pessoa que não sabia era o próprio Henry. De pé na ponta dos pés, eu beijei o canto de sua boca, demorando mais tempo do que o estritamente necessário. — Primeiro caso, eu prometo, — eu sussurrei. — Agora vamos fazer isso. James sorriu. — Pensei que você nunca diria. Chegamos de supetão no meio do cruzamento mais movimentado que eu já vi. Centenas de pessoas se moviam juntas em direções diferentes, córregos cruzando e se fundindo como o tráfego real, e eu olhei para cima na esperança de ganhar o rumo. Nuvens cor de rosa e roxo decoravam o céu, o que era pouco visível através da densa floresta de arranha-céus que nos cercavam. Ficar parada em meio ao caos não era uma opção, porém, e acabei imprensada entre dois empresários japoneses em ternos pretos, ambos transportando maletas e conversando em uma língua que eu não conhecia. No entanto, como na África e na Grécia, mesmo que eu não conhecesse as palavras, eu os entendia de qualquer maneira. —... Reunião pela manhã com o executivo de San Francisco? — Na verdade, mas você não iria dizer— James, — gritei, lutando contra o fluxo da multidão, mas foi inútil. Com menos de dez minutos restantes antes do prazo de Cronus, eu não poderia encontrar James em qualquer lugar. 119


Os empresários de ambos os lados me deram um olhar sujo, como se eles só agora perceberam que eu estava lá, e eles se moveram até que eu estava atrás deles. Por mim tudo bem. — James! — Eu gritei novamente quando cheguei à calçada. Acotovelando meu caminho através da multidão, cheguei à face de vidro de um edifício e encosteime a ela, diretamente sob um letreiro néon de publicidade eletrônica. Isto era uma loucura. Como poderia haver tantas pessoas em um lugar ao mesmo tempo? — Primeira vez em Tóquio? — Disse uma voz divertida ao meu lado. James inclinou-se casualmente contra a parede, e ele segurava um prato de macarrão com a mão direita, enquanto ele manobrava um par de pauzinhos com a esquerda. — Muito engraçado. Estou saindo agora. — Eu fechei os olhos e comecei a escapar, mas a mão de James no meu ombro me parou. — Eu vou, — ele disse com a boca cheia de macarrão. — Eu vou encontrar alguém, desde que você me prometa que isso não é para sempre. Eu toquei a mão dele. — Eu prometo. Vejo você do outro lado desta guerra, James. — E talvez com um pouco de sorte, nós dois vamos permanecer vivos. Eu beijei seu rosto uma última vez e dei um passo para trás, dando-me espaço suficiente para ir. Isto não era o fim. Se eu não podia ter certeza disso, então James teria. — Espere, — disse ele de novo, e com um aceno de sua mão, seu macarrão desapareceu. — Como é que você pretende levar Milo de volta para Henry? Eu olhei para ele. O que mais ele iria fazer para convencer-me a levá-lo comigo? Independentemente de quanto de um idiota manipulador ele de repente decidiu ser, no entanto, ele tinha um ponto. Eu tinha dado como certo que Cronus me deixaria trazer Milo ao Olimpo eu mesma, ou que ele iria mandá-lo para o Olimpo, mas Cronus não tinha como chegar lá, e uma vez que eu desembarcasse na ilha, eu tinha certeza que nunca seria capaz de sair. Pelo menos não até que esta guerra tivesse acabado. — Você é irritante, — eu murmurei, segurando a minha mão. Com um olhar complacente, James tomou. — Eu não sei como trazê-lo junto. — Você vai descobrir isso, — disse ele. — Eu confio em você. — Confiar em mim não tem nada a ver com o que posso e não posso fazer. — Faz exatamente a mesma coisa que você fez quando você me levou para ver Milo e Cronus, — disse ele. — Nem pense nisso. Mais fácil dizer do que fazer. A cacofonia de ruídos em torno de nós tornou difícil me concentrar, mas se não o fizesse, então não havia como dizer o que Cronus faria se ele achasse que eu tinha desistido do nosso acordo. Então, eu tinha que fazer. Nenhum vacilo era permitido. Eu me concentrei em meu corpo, me tornando consciente de cada centímetro dele, e eu estendi meu alcance para James, tanto quanto eu poderia. Senti ser forçado, como se eu estivesse fazendo nada mais do que

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imaginar, mas James sabia os riscos. Se ele estava disposto a arriscar, então eu estava disposta a tentar. O barulho de Tóquio canalizou em torno de nós, uma parede de vibrações que soavam como tudo e nada. O barulho ficou mais alto, até que finalmente ele me ultrapassou completamente, e entãoEu estava me afogando. Água encheu meus pulmões enquanto eu lutava para fazer a coisa humana e respirar. Eu provei o sal e me debati, minha mão ainda presa em James, mas isso não ajudou. Ele era tanto de uma rocha como eu era, e, juntos, nós afundamos cada vez mais fundo no oceano escuro como breu. Nós estávamos indo para a morte. Ou, pelo menos, ser preso no fundo do mar para o resto da eternidade. Algas iriam envolver em torno dos nossos membros, nos puxando para baixo até que o mar estivesse pronto para puxar-nos mais longe em suas profundezas. No momento em que conseguíssemos escapar, o tempo acabaria, e Cronus iria acreditar que eu o tinha abandonado completamente. Milhões mais seriam mortos, e nada do que eu dissesse ou fizesse convenceria Cronus a parar. Nada.

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Capítulo 12 Afogando Eu abri minha boca para gritar por socorro, mas não tinha mais fôlego em mim. Eu não podia ver a superfície. Tudo misturado em um pesadelo de trevas, e o terror se apoderou de mim tão completamente que eu não conseguia pensar. Era isso. Este era o fim. Eu realmente deveria ter deixado Ava me ensinar a nadar. — Tendo problemas? — Disse uma voz rouca ao meu lado, tão claro como se estivéssemos falando sobre a superfície. Eu virei e quase desmaiei de alívio. Phillip, Senhor dos Oceanos, flutuava ao nosso lado, parecendo como se ele estivesse andando em terra seca. Eu não me importava que ele deveria saber o que estávamos fazendo ou o que eu tinha planejado; Eu não me importava se ele sabia,

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Walter deveria saber, também. Enquanto eu não passasse o resto da eternidade no fundo do mar, iria valer a pena. Ajude-nos, eu murmurei, apontando para a mão que segurava James. A água era tão escura que eu não podia mais vê-lo. — É claro, — disse Phillip, e ele olhou na direção que deve ter sido para cima. Uma corrente forte chamou a nós três, levando-nos em direção à superfície em uma velocidade formidável. Assim que o céu azul tornou-se visível através da água, a maré nos arrastou para o lado, e eu arranhava meu caminho em direção à superfície. Só mais alguns centímetros. — Sua parada, eu acredito, — disse Phillip. — Esteja segura. Eu balancei a cabeça e murmurei meu agradecimento. Eu podia ver James através da água agora, e ele estava sorrindo para seu tio e dando-lhe um aceno estúpido. Imaginei. Tínhamos quase nos afogado, e ele estava sorrindo. Finalmente, chegamos à superfície, e eu cuspi uma quantidade impossível de água do mar. De alguma forma os meus pés encontraram a areia movediça, e eu fiquei trêmula, meus joelhos batendo juntos. Mas nós fomos para fora do oceano e ainda tinha alguns minutos sobrando antes de Cronus me esperar. Essa foi a parte mais importante. Algo brilhou na borda da minha visão, e eu olhei ao redor, meu coração batendo descontroladamente. Por uma fração de segundo, eu pensei que eu vi uma figura de cabelos escuros aparecendo nos penhascos, mas eu pisquei, e foi embora. Respirações profundas. Estávamos fora do oceano, e eu não tinha mais nada para ter pânico. A menos que um Titã imortal determinado a destruir tudo que eu amava contasse. Ondas de frio lambiam minhas canelas, e James estava ao meu lado, tremendo como uma folha. — Tudo bem, — ele murmurou. — Eu admito que - que pedir-lhe para fazer isso sem praticar primeiro foi um - um erro. — Não me diga, — eu disse com uma voz que tremia tanto quanto a dele. Ficamos a poucos metros da costa da ilha de Cronus, e o palácio se erguia acima de nós, uma sombra gigante contra o céu brilhante. — Você está bem? — Eu vou viver, — disse ele ironicamente. — Pelo menos até chegarmos lá dentro. — Como passaremos através da barreira? — Eu não podia vê-lo, mas eu podia sentir, vibrando em meus ossos como um campo de força. Se Cronus não conseguia penetrá-la, pelo menos não o suficiente para sair - apesar de seu alcance, agora alargado até o Cairo - em seguida, como iríamos? — Nós andamos, — disse James. — A barreira é destinada a manter Cronus preso, não nós. Walter ainda insistiu que não a modificássemos para incluir Calliope. Até que percebemos que ela tinha você, é claro. — Você quer dizer- — eu hesitei. Eu deveria ter tentado mais escapar. De alguma forma, eu poderia ter encontrado uma maneira. Phillip poderia ter me pegado no oceano e me trazido para a segurança, ou-

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Eu me preparei contra a enxurrada de possibilidades que inundaram minha mente. Jogando e-se não mudaria nada. Eu tinha tentado escapar. Eu tinha feito tudo o que podia. E agora, tudo que eu podia focar era como garantir que as coisas finalmente seguissem meu caminho. — Quer dizer o quê? — Disse James, e eu balancei a cabeça. — Não importa. Vamos. Com a minha mão ainda na sua e o sabor do sal na minha língua, eu cavei meus saltos na areia e empurrando para frente, marchando para fora do oceano para encontrar o meu destino. Silêncio não natural caiu sobre a ilha. Os penhascos com vista para a praia ficavam altos e inflexíveis, mas, apesar de sua altura imponente, James passou um dos poucos minutos preciosos que haviam sobrado a tentar encontrar a maneira mais rápida para subir. — Isso não vai funcionar, — eu disse, irritada. Estávamos perdendo muito tempo. — Vamos dar a volta. — São milhas fora do nosso caminho, — disse James. — Então me dê o seu braço e eu vou nos levar até lá. Ele bufou. — Você realmente acha que eu vou me colocar nisso de novo? — Você realmente tem uma escolha? — Eu vacilei em toda a praia, as pegadas ficando na areia a cada passo que eu dava. — Caminhar ou reaparecer, James. Não importa para mim. Estou saindo em dez segundos, com ou sem você. Murmurando algo baixinho que eu não entendi direito, ele correu para mim. — Se acabar no oceano de novo, eu vou embora. — Você é o único que insistiu que eu tinha que levá-lo junto, em primeiro lugar, — eu disse. — Além disso, pare de fingir que você não gostou de nadar. Eu vi você sorrindo. — Sim, timidamente. Phillip nunca vai me deixar viver depois disso. Se ambos estivessem vivos ao final desta guerra. Tomando sua mão, eu fechei os olhos. — Sem água, desta vez, — eu prometi. O ar ao nosso redor mudou, a brisa do mar quente substituída com o cheiro rançoso de rocha antiga. Eu suspirei de alívio. Nós estávamos no quarto que Calliope tinha me mantido por nove meses, e não havia uma gota de água à vista. — Muito melhor, — sussurrou James. Estendi a mão para a porta. Ela estava trancada. — Droga, — eu murmurei, mas antes que eu pudesse reclamar ou sugerir outra viagem através do nada, James tocou a maçaneta, e eu ouvi um leve clique. — Tente novamente. Desta vez, a porta abriu-se sem problemas. Eu levantei uma sobrancelha, e ele deu de ombros. — Eu tenho alguns truques na manga. Juntos nós andamos furtivamente pelo corredor abandonado. Ele não era tão decadente quanto o de fora do berçário, e eu olhei ao redor, inquieta. Eu não tinha ideia de como chegar lá a partir daqui.

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Cada extremidade do corredor parecia idêntica. Esquerda ou direita, não importava, mas Ava tinha me puxado para a direita, quando Henry atacou o palácio. Bom lugar para começar. — Por aqui, — eu disse, arrastando-me através da escuridão, e James seguindo alguns passos atrás de mim. Alguém tinha consertado o dano que Henry tinha feito no castelo, tornando a passagem clara. — Você tem certeza? — Disse ele em dúvida. — Você não deveria saber sempre onde você está indo? — Não em território Titã. Você está certa, não é do outro lado? Eu o ignorei. Eles tinham que ter alguma forma de passar de andar em andar. Tentei imaginar mentalmente as partes do palácio que eu conhecia, mas eu não conseguia me lembrar de ter visto uma escada. — Kate, — disse James com um toque de desespero na voz. — Eu acho que você está indo erradoUm barulho de metal contra metal rasgou o ar, e um homem gritou. Em um instante, James me puxou de volta para que nós dois nos inclinássemos contra a parede. — O que- — eu comecei, mas ele pressionou a palma da mão contra a minha boca. Um riso frio ecoou pelo corredor, e eu virei minha cabeça o suficiente para detectar Calliope saindo de uma sala no final do corredor. Cantarolando para si mesma, ela passou pela outra porta e desapareceu, rapidamente seguida por uma figura encurvada que não poderia ter sido qualquer uma, mas Ava. Onde estava Cronus? E quem estava lá dentro daquela sala? — Nicholas, — respirou James. — Ele está vivo. Minha consciência me puxou para Nicholas, mas eu vim aqui por uma razão e uma única razão. Por mais que me matasse me esgueirar passando a sua cela, se eu quisesse qualquer chance real de salvar meu filho, eu tinha que fazer. — Vamos voltar para ele, — eu disse, meio uma promessa a mim e metade uma promessa para James. Nós não teríamos a chance de voltar para Nicholas embora, e nós dois sabíamos disso. James liderou o caminho, desta vez, e apesar dos meus protestos assobiados, ele abriu a porta que Calliope tinha desaparecido completamente. Prendi a respiração, certa de que ela estaria esperando por nós do outro lado, ciente que estivemos lá, mas em vez— Acho que realmente há uma escada para o céu, depois de tudo, — disse James com um sorriso, e se eu já não estivesse no limite, eu teria rido de sua piada estúpida. Corremos até as escadas em silêncio. Dois níveis, eu assenti em direção à porta, e ele empurrou-a grande o suficiente para um de nós passar. — Eu primeiro, — eu disse. Se Cronus estava esperando do outro lado, ele não iria me atacar. James, por outro lado, não tinha exatamente sido convidado. Deslizando através da porta para o corredor vazio azul pavão e dourado, eu esperei o espaço de três batimentos cardíacos antes de acenar para ele me seguir. — Qual

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é o quarto de Milo? — Eu não tinha passado algum tempo fora do berçário, mas durante a minha visão James havia. — Quarto para baixo, — disse ele. — Kate, se alguma coisa der errado— Olá. A voz de Cronus, frígida e desprovida de compaixão, deslizou pela minha espinha. Girei meu calcanhar, dando um passo automaticamente na frente de James para protegê-lo, mas foi um gesto vazio. Se Cronus quisesse matar James, ele não precisava da minha permissão. — Eu te disse que estava vindo, — disse eu friamente, mas não era nada em comparação com a forma como Cronus falou. Ele poderia congelar o sol se ele quisesse. — Sim, mas eu não me lembro de consentir com um convidado. — Eu não posso voltar ao Olimpo com Milo. James vai levá-lo para mim. — É mesmo? — Disse Cronus, e James assentiu. Seus olhos estavam muito brilhantes e sua mandíbula rígida, mas ele levantou o queixo e olhou para baixo em Cronus. Terror se apoderou de mim. Cronus não iria me machucar, não importava quão insolente que eu era, não, desde que ele pensasse que eu seria sua. Mas James era dispensável, quase nada mais para Cronus do que os milhões de pessoas que já havia dizimado com um único pensamento. — Sim, — disse James. — Agora, se você não se importa, eu vou fazer o que eu vim fazer aqui. — Por todos os meios. — Um estranho sorriso torceu nos lábios demasiado perfeitos de Cronus, e ele se afastou com um floreio. O que, Cronus estava brincando? James moveu-se para frente, e eu fui com ele. Se isso fosse algum tipo de armadilha, se Cronus tinha conhecimento e só estava armando para JamesCronus não tentou me parar, no entanto. James e eu corremos para o berçário, e meu coração batia forte. Milo ainda estava aqui? Cronus tinha feito alguma coisa com ele? James e eu alcançamos a maçaneta, ao mesmo tempo, mas antes que qualquer um de nós tocasse a peça de metal, a porta se abriu. Calliope. No início seus olhos azuis arredondaram com o choque, mas depois de uma batida, ela sorriu. Parecia que ela era minha mãe e da idade de Sofia agora, muito mais apropriada para um dos seis originais, mas que não fez nada para me distrair do fato de que ela embalava Milo nos braços. — Kate, — ela ronronou. — Que bom que você se juntou a nós. Aqui estava eu pensando que você era inteligente o suficiente para ficar longe. Boba eu. — Kate? — Disse uma vozinha atrás dela, e Ava apareceu na porta. — Oh, meu Deus, Kate! Cronus disse que estava viva, mas eu não achei— Silencio, — disse Calliope. Ava imediatamente se acalmou, mas as faces coradas e seus olhos dançaram com a luz. Pela primeira vez em quase um ano, ela

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parecia viva. Calliope limpou a garganta e se virou para James com um sorriso afetado. — Querido, já faz muito tempo. — Eu não sou seu querido. Dê-me o bebê, — disse James, estendendo os braços. — Por que eu faria uma coisa dessas? — Disse ela com um suspiro. — Callum é o meu filho. Eu queria afundar minhas unhas no rostinho bonito dela e arrancar seus olhos. — Ele é meu filho, não o seu, — eu rosnei. — Cronus e eu fizemos um acordo. Eu estou aqui, e Milo fica com James. — Ah, é? — Calliope olhou por cima do meu ombro. — Por que não fui parte deste acordo, Pai? — Não era o seu negócio, — disse o Cronus. — Você vai fazer o que eu digo e manter minha palavra. — Que palavra é essa? — Disse Calliope venenosamente, seu aperto apertando meu filho. — O bebê será devolvido para a família de Kate, e ela vai ficar aqui comigo. Duas manchas vermelhas apareceram no rosto de Calliope, e ela sacudiu estranhamente, como se estivesse lutando contra algum tipo de compulsão. — E se eu não fizer? — Então eu já não tenho qualquer utilidade para você. Ela assobiou. — Depois de tudo que eu fiz para você, depois de tudo o que eu sacrifiqueiFúria saiu de cima dela em ondas, e eu tive que me esforçar para não me afastar. Eu estava tão perto de Milo que tudo o que eu tinha a fazer era estender a mão e tocá-lo. Eu não podia deixá-lo novamente. — É esta a sua decisão final? — Disse Cronus. — Desistir de nossa lealdade por uma questão de manter um filho que não é seu? — Ele deveria ser meu. — Calliope voltou para o berçário, mas Ava bloqueou seu caminho, um brilho magenta que emanava de seu corpo. — Não me faça fazer isso, Pai. Um brilho de metal ao lado de Milo chamou minha atenção. Calliope puxou o cobertor para trás e, antes que qualquer um de nós pudesse reagir, ela pressionou o punhal que Nicholas tinha forjado, a única arma capaz de matar um imortal, contra a garganta de Milo. — Eu não vou deixá-lo ir, — disse Calliope, mais calma agora, quando medo encheu o ar como um veneno. — Você deu algo que não era seu para dar, Pai. Atrás de mim, Cronus suspirou como se estivesse lidando com uma criança petulante. Não uma assassina que não tinha problema em matar novamente. — Eu não vou pedir-lhe uma segunda vez. Entregue a criança ou enfrentará a ira do rei dos Titãs. — Será que a ira da rainha dos deuses não significa nada, então? — Disse Calliope. Paralisada de medo, eu não conseguia tirar os olhos do meu filho. Eu não

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me importava com um jogo de mijo entre eles; tudo o que eu queria era que Calliope parasse e movesse a lâmina para longe do pescoço de Milo. — Calliope, você não quer fazer isso, — disse Ava, se aproximando. Calliope virou, seus dentes à mostra, enquanto ela segurava Milo ao peito. — Não se atreva a usar seus poderes em mim, — ela resmungou. Levantando o punho da adaga, ela pressionou a ponta contra o peito de Milo. — O que vai ser, Pai? O seu negócio ou a minha lealdade? Milo soltou um grito suave, e eu pulei para frente. Mas antes de chegar a ele, Cronus agarrou meus ombros e me puxou contra seu peito, e não importa o quão duro eu lutava, ele não se moveu. — Eu não vou quebrar minha palavra com Kate, — disse Cronus, sem emoção, e eu lhe dei uma cotovelada forte no estômago. Nada. — Faça o que for preciso, mas não se engane. Nossa lealdade depende da vida desse bebê. Pensei ter visto um flash de dor no rosto de Calliope, mas durou apenas uma fração de segundo. — Então você escolheu Kate acima de mim, — disse ela, praticamente cuspindo meu nome. — Então, isso pouco importa o que eu faço, não é? Sua fidelidade nunca vai ser minha, e a minha não é mais sua. Ela levantou a adaga, e um grito rasgou através de mim e ecoou pelo palácio. Eu não podia assistir, mas eu não conseguia desviar o olhar nos últimos segundos da vida curta de Milo também. Eu não poderia abandoná-lo assim. O mundo escureceu em torno das bordas, e por um belo momento eu pensei que estava morrendo. Meu corpo ficou dormente, minha mente se aquietou em silêncio, e o segundo pendurava entre nós, congelado. Queria viver com esse medo para sempre se isso significava que este momento nunca aconteceu - se Calliope nunca moveu a lâmina mais perto, se Milo nunca morreu, se todos nós ficamos desta forma para a eternidade. Um flash de luz branca me cegou, e as trevas que crepitava com energia nos engolfou. — Calliope, — trovejou uma voz todo-demasiado-familiar. — Abaixe a arma e me dê o meu filho. Henry. Não teria sido possível para eu ter mais medo do que já tinha, mas agora, vendo Henry flutuar pelo corredor com aquela nuvem negra em torno dele, um estrangulamento de terror agarrou-se a mim e se recusou a deixar ir. Eu ia perder os dois. Desta vez, Calliope não tentou esconder o choque. Sua boca abriu, mas ela também abaixou o punhal. — Henry, — disse ela. — Que surpresa inesperada. E o Pai estava me dizendo que você estava morto. Ela olhou para Cronus, e os braços dele se apertaram em torno de mim, até que faltava um milímetro de distância para esmagar meus ossos. — Você mentiu para mim, — ele sussurrou em meu ouvido, e sua maldade zumbia no ar ao nosso redor. — Depois de tudo que eu fiz para você, é assim que você me paga. Com engano e zombaria. 128


Engoli em seco. Sem mais segredos agora. As cartas estavam na mesa, e agora tudo o que podíamos fazer era jogar. — Dê-me o meu filho, — Henry repetiu. Estava a menos de um metro de distância de mim agora, mas ele não me poupou um olhar. — E o que eu ganho neste acordo? — Disse Calliope, olhando-o com avidez. — Eu, — disse Henry em voz baixa. — Dê-me o meu filho, jure pelo Rio Estige que você nunca vai prejudicá-lo ou cometer danos para chegar a ele de qualquer maneira, forma ou formulário, e você me terá. — Henry, não, — eu engasguei, e Cronus segurou sua mão sobre a minha boca. Não, não, não. Henry deveria ficar com Milo e mantê-lo seguro. Eu não poderia, não da maneira que ele podia. Tinha que ser eu. Eu tinha que ser a única a ficar. Tentei protestar, gemendo e gritando e me debatendo contra Cronus, mas Henry me ignorou completamente. — Isso vai cumprir os termos do nosso acordo, — disse Cronus, e eu congelei. — O bebê vai ser criado pela família dele, como Kate exigiu, e eu vou têla. Não, isso não foi o nosso negócio. Nem perto disso. Milo era para estar seguro no Olimpo com Henry e minha mãe e James, não aqui com Calliope e Cronus. Eu não conseguia falar, porém, e ninguém estava prestando atenção em mim. Henry balançou a cabeça uma vez, e naquele segundo, meu coração despedaçou. — Muito bem, — disse Calliope, mas, apesar do fato de que ela estava recebendo tudo o que ela sempre quis, houve uma borda em sua voz, uma dureza que eu não entendia. Ela deveria estar comemorando. Eu estava quebrada. Eu não tinha nada, e ela tinha tudo agora. — Eu juro pelo Rio Estige que não irei prejudicar o bebê, nem permitir que danos cheguem a ele, desde que você fique comigo. — Que assim seja. — Houve um trovão suave na voz de Henry, e minha visão ficou turva. Tinha que haver uma maneira de sair disto - esta não poderia ser a intenção e Henry. Ele não iria me deixar assim. Mas eu não estava disposta a deixá-lo? — Perfeito, — disse Calliope, e sem rasgar os olhos de Henry, ela disse para Ava, — Faça. — Mas- — disse Ava, sua coragem anteriormente falhando. — Faça. Fazer o que? Não demorou muito para eu obter uma resposta. A aura magenta em torno de Ava cresceu até tocar Henry, e como um relâmpago, bateu Calliope. Em vez de chorar, no entanto, seu sorriso presunçoso só ampliou. — Pronto, — disse Ava, com a voz trêmula. — Agora deixe Kate e o bebê irem. — Você ouviu o Pai, — disse Calliope. — O bebê fica com Henry. Mas se você insistir, vou dar-lhe uma escolha. Henry, querido. — Ela deu um passo em direção a ele, e meu coração batia forte. — Com quem você quer ficar? Eu ou Kate? 129


Era algum tipo de piada? É claro que Henry queria ficar comigo, especialmente quando todos nós poderíamos ser uma família. Henry se aproximou de Calliope, porém, e meus olhos se arregalaram. Ele colocou a mão em seu rosto na forma familiar que sempre me tocou, e entãoSeus olhos se fecharam, e ele se inclinou para beijá-la. O que Ava tinha feito? Pergunta estúpida. Eu sabia exatamente o que tinha feito. E não importava por quais seus motivos foram, não importava o que Calliope estava segurando sobre a cabeça dela, não importava quantas vezes ela embalou meu filho chorando, eu nunca, nunca iria perdoá-la por fazer Henry se apaixonar por Calliope. Cronus recuou, levando-me com ele. Pânico se apoderou de mim, não deixando espaço para a racionalidade, e eu arranhava suas mãos, desesperada para que ele soltasse. Eu não podia sair, não agora. Não quando o meu marido pensou que ele estava apaixonado por outra pessoa. Afastando-se de Henry, Calliope me olhou com desgosto. — Não, não vá ainda. — Ela disse em uma voz real que teria Cronus a ferindo dois minutos antes. — E por que isso? — Disse Cronus. Calliope sorriu docemente. — Porque eu não terminei com ela ainda. Sem mão para guiá-lo, o punhal subiu no ar entre nós, até que alinhou com a minha garganta. E em um borrão de prata e aço, ele voou direto na minha direção.

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Capítulo 13 Jogos maus

Eu não tive tempo para pensar ou respirar ou me preocupar se Milo iria ou não se lembrar deste momento. Tudo que fiz foi fechar os olhos. Para abrandar nos últimos segundos antes da morte - e eu realmente morreria agora, sem Submundo para mim e sem Henry para salvar-me - mas nada mudou. Era isso. A grande batida de metal contra metal ecoou por toda a guarda pretoriana, e por um segundo horrível eu pensei que Henry ou mesmo James tinham sido estúpidos o suficiente para pularem na frente dele. Meus olhos se abriram, mas ambos estavam vários metros de distância de cada lado da porta. E flutuando na minha frente, a um centímetro do meu pescoço, estava o punhal. 131


— Eu acredito que no meio de forçar o Senhor do Submundo em sua aliança, você se esqueceu de um fato importante, — disse Cronus em uma voz mortal que parecia estar em todos os lugares ao mesmo tempo. — Seu destino está vinculado a Kate. Se ela morrer, você também morre. Certamente você não está pronta para desaparecer, minha querida filha. Os braços de Calliope tremiam tanto que eu temia que ela ia derrubar Milo. Henry o tomou gentilmente dela, e por um momento eu tinha certeza que ela ia lutar. Ele poderia desaparecer assim que ele tocasse o bebê; Tudo levaria apenas um piscar de olhos, e Henry teria ido, seguro de volta no Olimpo com o nosso filho. Mas ela de bom grado o deixou ir. Prendi a respiração, esperando Henry sair. Ele ficou onde estava, porém, um estranho sorriso em seu rosto quando ele olhou para Milo. Meu coração se afundou. Ela tinha Henry agora. Ela realmente, verdadeiramente o tinha. Mas a maneira como ele olhou para o bebê, a maneira como seus ombros relaxaram enquanto segurava-o - Henry amava Milo. Ava não tinha tomado isso dele, o que significava um pequeno pedaço dele, não importa o quão sepultado, ainda me amava também. — Aqui estava eu pensando que já não tinha qualquer interesse na vadia traidora, — disse Calliope para Cronus, suas palavras se engasgaram com fúria. — Que bobagem da minha parte pensar que você não seria vítima de emoção humana. — Eu sou o Rei dos Titãs, — disse Cronus friamente, e ele se endireitou em toda sua altura, puxando-me com ele para que meus dedos dos pés mal roçassem o chão. — Eu caí preso a nada. — No entanto, aqui estão vocês, protegendo uma mera deusa, — disse Calliope. Eu olhei feio para ela. Não muito formidável, mas foi o melhor que pude fazer, dadas as circunstâncias. — O que ela fez para merecer a sua lealdade? Ela foi a única a libertá-lo? Ficou ao seu lado quando os deuses fizeram fila para lutar contra você? Durante todo esse tempo, ela vem trabalhando para o inimigo, contando os segredos que você compartilhou, planejando uma defesa com base nas estratégias que você de tanta boa vontade mostrou a ela. Ótimo. Agora ela estava tentando fazer com que ele me matasse. Calliope tinha errado, no entanto - Cronus era o único que tinha me enganado por tanto tempo. Ele era o único que tinha conseguido que eu derramasse segredos do conselho, fazendo-me pensar que ele era Henry. E sem perceber, ela estava confirmando o que os seus argumentos já tinham implicitamente: Cronus não se importava com ela. Ela era um peão, exatamente como o resto de nós. Fossem quais fossem os seus planos, ele não estava compartilhando-os com ela. Ao contrário do Conselho, Cronus e Calliope não eram parceiros. Eles eram mal aliados. No desespero de Calliope para escapar de Walter, ela conseguiu tropeçar no único ser no universo que a tratava ainda pior do que ele tinha. E, a julgar pelo olhar em seu rosto, ela estava finalmente começando a perceber isso.

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Cronus ficou em silêncio por um longo momento, e as trevas enchiam o corredor até que eu não podia ver um centímetro na minha frente. — Eu mostrei a ela e ela não lhes disse nada. — Não há outra explicação, — disse Calliope. — As batalhas que lutamos, eles estão sempre dois passos à nossa frente, contornando minhas armadilhas e planos, e eles não poderiam saber essas coisas, se você não estava dizendo a Kate cada movimento nosso. Ele não estava, porém, o que significava que havia um traidor na casa de Calliope. Olhei para a escuridão, onde Ava estava de pé. Não é possível. — Silencio, — disse Cronus, e ele me soltou. Eu tropecei, e sua mão agarrou meu pulso. — Não vou ouvir mais nada disso. Se houve algum vazamento, não é de mim. Portanto, eu só posso supor que é você quem é a traidora, minha filha. E eu não sofro traição. Ele puxou minha mão até que meus dedos tocaram outros – os de James. Ninguém mais estava de pé nessa direção. — Eu terminei com esse debate inútil. Você tem o que você quer, e meu trato com Kate foi cumprido. No entanto, porque eu não posso garantir sua segurança, não posso deixá-la ficar. Finalmente Cronus soltou meu pulso, e eu entendi. As nuvens escuras, o seu argumento com Calliope, ele queria que eu saísse. Eu não poderia, porém, não quando Henry e Milo estavam em perigo. Eu não podia abandoná-los novamente. O ar estalava com um tipo diferente de poder, mas a escuridão à nossa volta silenciou-o, e Calíope soltou um grito frustrado. — Você não pode fazer isso comigo! Ela é nada— Então me diga, — disse Cronus, — Se ela não é nada, por que você se importa? Calliope vociferou, e James apertou minha mão com tanta força que eu pensei que meus dedos iriam cair. Se eu tivesse qualquer chance de tirá-lo daqui com vida, tínhamos que ir agora. Eu não poderia ser responsável por qualquer coisa acontecendo com ele, mas eu não podia sair também. E então, no vazio, uma voz meia-noite me cercou. Vá. Lágrimas ardiam meus olhos. Henry. Não havia nada que eu pudesse fazer e ele sabia disso. Se eu ficasse, Calliope me mataria. Como o nosso piquenique na floresta quando ela revelou-se ser a traidora, ela era muito emocional, muito irracional para eu depender de seu pensamento com clareza. Ela sabia, então, que ela iria se sair como uma assassina para todo o conselho, e ela não se importava. Eu não tinha garantia de que ela não iria chamar o blefe de Cronus agora. Eu foquei toda a minha energia em Henry e empurrei meus pensamentos em direção a ele. Eu te amo. Nunca se esqueça disso.

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Sem me dar uma chance de mudar minha mente, eu segurei a mão de James e desapareci. Nós pousamos em uma praia abandonada quando o sol mergulhou no oceano. Eu afundei na areia, e James me pegou, deixando-me chorar em seu ombro sem reclamar. Eu tinha os deixado. Eu jurei que nunca iria abandonar Henry, e na primeira chance que eu tive, eu tinha feito isso de qualquer maneira. Se eu tivesse falado com ele antes do prazo de Cronus, nós poderíamos ter vindo com um plano em conjunto. Nós não precisávamos de permissão do conselho para agir, e eu pulei sem pensar, mais uma vez. Desta vez, tinha me custado a minha família. — Eu nunca mais vou vê-los novamente, eu vou? — Eu disse. A maré lavando centímetros de nossos dedos, e não tínhamos mais do que alguns minutos antes que perdêssemos a nossa janela para retornar ao Olimpo. O pensamento de voltar sem Henry e Milo me corroeu até não sobrar nada, senão pele e osso. Walter e Dylan estavam certos. Todo o conselho estava certo. Eu não estava pronta para ajudá-los, e quanto mais eu fiz, piores as coisas ficaram. — O que aconteceu com você? — Disse James. — O que você quer dizer? Ele se afastou o suficiente para olhar para mim, seus olhos procurando os meus. — Você não é a garota que eu conheci no Éden. Ela não se decompõe em lágrimas cada vez que alguma coisa não acontece da maneira dela. — Eu não- — Eu comecei, mas então outra lágrima rolou pelo meu rosto. — Minha família se foi. Ninguém está me deixando ajudar, e toda vez que eu tento, eu estrago tudo ainda mais. Ele enfiou os dedos nos meus. — Desde quando você precisa da permissão de alguém? Limpei meu rosto e olhei para o sol. — Então, o que mais eu poderia fazer? Eu já tentei de tudo. Meu trato com Cronus falhou completamente, e mesmo que não tivesse, tudo o que teria feito era pela segurança de Milo. Não teria mudado nada no quadro maior, e a única maneira de vou vê-los novamente é se nós ganharmos esta guerra. — Então nos ajude a ganhar. Funguei. — Como? — Pense, — disse ele. — Você sabe as fraquezas de Cronus melhor do que qualquer um de nós. Você sabe seus pontos fortes. Você o conhece. — Besteira. Os seis originais lutaram com ele por uma década. Eu nunca lutei com o braço com ele. — Não, — concordou James, — Mas você é a única que já o parou no meio do caminho. Aquele momento no Submundo, quando Cronus tinha nos perseguido por um deserto. Eu pensei que eu ia morrer ali, também. Aquilo teria feito algo disso mais fácil?

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Não, não teria, porque os seis originais nunca teriam escapado da caverna no Tártaro. Eles ainda estariam lá, inconscientes e morrendo lentamente enquanto Cronus e Calliope descobriam uma maneira de sair. Tudo teria sido diferente. Mas mesmo o meu ato de coragem tinha sido um supremo ato de estupidez. Cronus estava livre, porque eu tinha entrado em sua caverna quando Persephone tinha especificamente me dito que não, e eu tinha dado a Calliope a vantagem que ela precisava para obter Henry para abrir o portão. — Pense, — disse James. — Por que Cronus não a matou, então? — Porque ele não me conhecia. Porque eu— Porque você foi gentil com ele, quando o resto de nós estava fazendo o nosso melhor para mantê-lo acorrentado. — Porque eu prometi que iria abrir o portão. — Sim, — disse James. — E ele parou porque ele confiou em você. — Olha onde isso nos trouxe, — eu disse com desdém. — Sim. Olhe onde sua obstinação e recusa a desistir de nós chegou. Temos uma chance de lutar agora. Não foi do jeito que imaginávamos, mas Calliope teria descoberto uma maneira de libertar Cronus, eventualmente. Ela estava malditamente perto da eternidade, assim como o resto de nós. Eu tirei meus joelhos no meu peito. — O que acontece se Cronus apagar toda a humanidade e todos vocês perderem seus propósitos? James hesitou, e provocou medo entre nós. Ele me puxou para mais perto. — Eu não sei. — Talvez você não vá desaparecer, — disse eu. — Quero dizer, sempre vai haver o amor e as viagens, música e jardins e - e tudo. Talvez— Kate. — A voz de James subiu acima da queda do oceano, e eu caí em silêncio. — Não se preocupe com o pior cenário. Apenas torça para que isso nunca aconteça. Concentre-se em fazer o que você faz melhor e lute pelas pessoas que você ama. Ele se levantou, e me levantei com ele, meus joelhos tremendo. — Sem pressão nem nada, — eu disse, e apesar de tudo, ele me deu um sorriso de menino. — Pelo contrário, você é um diamante. Você brilha sob pressão. Eu meio que ri, meio sufoquei. — E você é um bloco de queijo de mau cheiro. Leve-me de volta antes que o sol se ponha completamente. James apertou sua mão na minha, o seu aperto firme e inabalável. — Me prometa que você vai lutar. Não importa o quão ruim as coisas fiquem, você não vai quebrar e deixar Cronus e Calliope vencerem. Eu balancei minha cabeça minuciosamente. Eu não podia prometer isso. Eu lutaria por tanto tempo quanto eu pudesse, mas Calliope tinha a minha família, e depois de dois acordos falhos, Cronus estaria sem dúvida focado em destruir a humanidade e tudo o que já tinha sido familiar para mim. Quanto tempo antes da minha mãe desaparecer? James? O conselho inteiro? Eu não poderia lutar se eu não tivesse mais nada pelo que lutar. Então não deixe que isso aconteça. 135


A voz de Henry ecoou pela minha cabeça, e eu olhei em volta freneticamente, em busca de qualquer sinal dele. É claro que ele não estava lá, no entanto. Ele era prisioneiro de Calliope - agora um prisioneiro disposto que não sabia que quando ele a beijou, quando ele a acariciou, ele realmente não sentiu. Ele não sabia que era um truque, mas eu sabia, e eu não podia deixá-lo sofrer por uma eternidade dos jogos doentios dela. Eu não vou, eu pensei em troca, esperando como uma louca que o tivesse alcançado. — Prometa-me, Kate, — disse James, e eu pisquei. — Prometa-me que você não vai desistir de sua família. Aço lentamente envolveu a minha espinha. Ele estava certo. Henry precisava de mim. Milo precisava de mim. Não havia nenhuma maneira no inferno que eu ia deixar Calliope vencer. — Tudo bem, eu prometo. Agora vamos convencer Walter a deixar de ser um bastardo egoísta. James bufou. — Suas palavras, não minhas. Chegamos ao centro da sala do trono. Eu não tinha certeza do que eu estava esperando, mas o pleno conselho – menos Calliope, Henry e Nicholas - não era. Todo mundo estava lá, mesmo Ella com o braço de prata. Seu rosto estava comprimido como se ela cheirasse algo nojento, e ela olhou para o centro da sala do trono, onde James e eu ficamos. — O que está acontecendo? — Eu disse, virando-me para Walter. Ele também olhou para o centro do círculo com uma expressão pétrea, mas James me puxou de lado e o olhar de Walter não vacilou. Ele não estava olhando para nós. Em vez disso, exatamente onde estávamos de pé, estava Ava. Ou, pelo menos, uma versão de Ava. Sua forma parecia substancial, mas apenas alguns segundos antes, tínhamos ocupado o mesmo espaço. Ela não estava realmente lá. James me soltou e sentou-se, e eu segui o seu exemplo, tentando ignorar a dor em meu peito quando eu vi trono vazio de Henry. Quando me acomodei no meu, minha mãe pegou minha mão. — Sinto muito, — disse Ava com a voz embargada, tão claro como se ela estivesse realmente ali de pé. A luz dourada fluía de quatro dos tronos - os irmãos originais remanescentes, incluindo minha mãe. Cada uma correu para o centro do círculo, se reunindo onde Ava estava. O conselho estava fazendo algo que a fez estar lá ser possível. — Eu quero voltar para casa. — Você não pode voltar para casa, — disse Walter em voz dolorosamente neutra. Eu tinha um bom motivo para nunca mais querer falar com ela de novo, e depois do que ela tinha feito para Henry, aquele ódio de esfaquear com a visão dela voltou para mim, e desta vez eu estava certa que Calliope não tinha nada a ver com isso. Walter era o pai dela, porém, e ela era sua favorita. Por que ele não se importava? — Eu não posso mais fazer isso. — A voz de Ava quebrou, e ela se virou para olhar cada membro do conselho no olho. Quando nos encontramos, ela fez uma careta, e eu segurei seu olhar. 136


— Não é possível fazer o que mais? — Não era o meu lugar para falar, mas eu não conseguia parar. — Não é possível ajudar um assassino em massa a conseguir o que quer? Não é possível lavar e passar roupa para alguém que rouba bebês inocentes? Seu lábio inferior tremeu, e eu raspei minhas unhas contra o meu trono. Eu tive que arriscar minha vida, minha família, tudo para ganhar um lugar no conselho, para provar que era digna de governar sobre o Submundo com Henry. No entanto, eles eram autorizados a ferir quantas pessoas quisessem, desde que isso significasse que eles conseguissem o que queriam. Eu estava de saco cheio. — Por favor. — Ela implorou, com as mãos tremendo quando ela deu um passo em minha direção, mas a luz dourada não iria abraçá-la, e ela foi forçada a voltar ao centro. — Kate, eu amo você - Calliope me fez - Por favor, entenda, eu nunca quis nada disso— Chega um ponto em sua vida em que você tem que fazer uma escolha, — eu disse. — Você pode continuar a descer pelo caminho mais fácil, não importa onde te leva, todos os outros que se danem, ou você pode lutar por aquilo que você acredita. — Eu estou lutando! — ela explodiu. — Eu estou fazendo isso por Nicholas e Milo e Henry e todos vocês - você não entende isso? Você acha que eu queria ficar longe da minha família assim? Eu tenho um filho, também, Kate. Eu sei o que é amar alguém tanto quanto você ama Milo. Você acha que se eu tivesse qualquer outra escolha— Chega. — A voz de Walter, baixou e qualquer coisa, mas neutra agora, ecoou pela sala do trono. — Você disse que a sua parte, filha, e agora você deve permitir que o conselho— Dane-se o conselho. — Ava não fez mais do que olhar para o seu pai, e se ela tivesse sido mais do que uma ilusão, eu não tinha dúvida de que o quarto teria estalado com o poder. Como foi, ninguém se atreveu a falar. Mesmo Walter olhou como se ela tivesse lhe dado um tapa no rosto. — Eu quero que você me escute, Katherine Winters, — disse ela. — Tudo o que fiz, cada palavra, cada olhar, cada traição, foi para ajudar a nossa família. Fazer a coisa certa nem sempre significa agir como um santo. Às vezes isso significa sujar as mãos e fazer a coisa que você mais odeia para que outras pessoas possam ter uma vida mais fácil. Assim, outras pessoas podem não morrer. — Se essa é a sua desculpa, então como você justifica arrastar Milo para isso? — Eu bati. — Ele nunca era para ser parte. Ele nunca deveria existir. — Mas ele existe. Ele está aqui, e agora Calliope tem Henry também. Tudo por causa de você. O conselho permaneceu em silêncio, e nem mesmo a minha mãe reagiu. Então eu estava certa. Todos eles sabiam exatamente o que ele planejava fazer, e nenhum deles o havia parado.

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Ava respirou fundo. — Sinto muito, — disse ela em uma voz medida, e foi essa mudança de segundos antes que me levou um momento para entender que ela estava sendo sincera. Algo feio surgiu dentro de mim. Eu não queria que ela se desculpasse. Eu queria que ela lutasse. — Nada disso deveria ter acontecido. Não importa que erros estúpidos eu cometi... Sinto muito por aqueles, Kate. Sinto muito a todos vocês por deixá-los. Eu nunca quis, mas como eu disse, eu não tinha uma escolha— Ava. — A voz de Walter reverberou por toda a sala do trono. — Você já fez muito, papai. É a minha vez de falar agora, — disse ela com tranquilidade desumana. — Eu sinto muito por tudo. Eu amo todos vocês, e eu fiz o que eu pensei que eu tinha que fazer. Mas Henry está aqui para proteger o bebê agora, e eu não posso fazer mais nada para ajudar a Nicholas. Ao redor do círculo, vários membros do conselho olharam para o trono de cobre vazio de Nicholas. — Você está disposta a abandoná-lo, sabendo que isso pode significar sua morte? — Disse Walter. — Eu sou mais um perigo para ele se eu ficar e dar a Calliope a chance de usá-lo para me controlar, — disse Ava. — Ele quer que eu vá, e a única maneira de ajudar a salvá-lo é retornando ao Olimpo. Cronus decidiu que ele vai escapar da ilha no solstício de inverno, e dado o que ele mostrou ser capaz de fazer, eu acredito nele. Eu quero ajudar. Naquele momento, ela não soava como a Ava que eu conhecia – a egoísta, insincera deusa do amor que não poderia priorizar o que os outros precisavam antes do que ela queria. Ela parecia velha. Assombrada. Como os outros membros do conselho pareciam quando estavam tão profundos no planejamento que eles deixavam suas máscaras escorregar. Foi mais um lembrete de quem e o que eles eram - antigos. Poderosos. Mais sábios do que eu jamais poderia imaginar, mas míopes e fechados, também. Isolados do mundo real, da humanidade que se esforçavam para defender. Teimosos e tão apaixonados sobre a proteção de seus próprios interesses como eles estavam prestes a fazer seus trabalhos. Essa era Ava. Teimosa e apaixonada, e agora se perdeu completamente como nosso pai. — Eu sinto muito, filha, — disse Walter, mas ele não parecia muito triste em tudo. — Nós não podemos fingir saber as intenções de Calliope, e devemos agir com cautela. É possível que Nicholas permaneça vivo apenas porque Calliope acredita que ele é a chave para controlar você. Se você abandoná-la, não há como dizer o que ela poderia fazer com ele. Um murmúrio subiu de outros membros do conselho, mas ninguém se opôs. Eu não os culpava. Tanto quanto me doía admitir, Walter estava certo. — Você vai ficar com Calliope até dadas novas instruções, — disse Walter. — Você vai agir normalmente, sem sabotagem ou atos de má vontade para com ela. Ela deve acreditar que suas intenções são puras. — Mas vocês nem mesmo discutiram, — gritou Ava e Walter levantou a mão, cortando-a. 138


— Não há necessidade. Dois dos nossos estão agora à mercê de Calliope e Cronus, e não podemos perturbar o equilíbrio até que estejamos prontos para a luta. Vamos acatar no prazo de Cronus. Qualquer informação adicional que você adquirir será útil para nós, mas não ceda ao risco dos prisioneiros. — Eu não conto como uma prisioneira? — Ela disse, seus olhos lacrimejando. — Porque eu não luto da forma como você faz, eu não sou digna de salvação? Por uma fração de segundo, a expressão de Walter suavizou. — Minha querida, claro que é. — Eu fiz tudo o que você me pediu, — disse Ava. — Eu arrisquei a minha vida, a minha integridade, meus amigos, tudo por falsas promessas. Acontece que você é tão ruim quanto Calliope é, papai. Mas pelo menos ela não tem a pretensão de ser algo que ela não é. Silêncio atordoado. Será que ela estava dizendo a verdade? Ele realmente pediu-lhe para fazer todas essas coisas? Walter empalideceu, mas ele não discutiu, o que só foi uma admissão de culpa. Então não era inteiramente culpa de Ava, depois de tudo. Ela não era inocente, mas ela não estava sozinha nessa também. Henry tinha razão. Walter sabia que eu estava grávida. Ele sabia onde eu estava e o que estava acontecendo. Ele sabia, e ele não tinha feito absolutamente nada para detê-lo. E as coisas que ele tinha feito Ava fazer, sabendo como isso afetaria tudo, sabendo como o resto do conselho iria vê-la - como ele poderia ferir a própria filha assim? — Eu vou concordar em voltar para Calliope sob seus termos, desde que você concorde em cumprir um dos meus, — disse Ava. — Eu quero falar com Kate. Sozinha. Um murmúrio subiu de outros membros do conselho, e minhas sobrancelhas se ergueram. — Você sabe que não é possível, — disse Walter. — Está drenando o suficiente de nós para manter este método de comunicação sem Calliope e Henry. — Então, ela pode vir a mim, — disse Ava. — Fora de questão. — A voz de minha mãe levantou-se acima dos outros, e eles ficaram em silêncio. — Eu não vou tê-la se arriscando novamente. É um milagre que ela conseguiu sair de lá, em primeiro lugar. — Eu sei como suas visões funcionam, — disse Ava. — Eu sei que ela pode me ver e ouvir tudo o que digo. Eu não preciso dela para falar de volta para mim. Eu só preciso dela para ouvir. E eu não vou concordar com seus termos até Kate concordar com os meus. Tudo o que ela queria falar era comigo, ela não podia dizer isso na frente dos outros. O que significava que ela achava que não podia confiar neles, ou pelo menos não podia confiar em seu pai. Algo sobre Henry? Sobre Milo? Ela tinha encontrado uma maneira de contrabandeá-lo a mim de alguma forma? 139


Esperança me cercou, tão frágil e delicada que uma única palavra poderia tê-la quebrado em pedaços. Era possível, e porque era possível, eu faria isso. Eu balancei a cabeça uma vez, e Ava esvaziou, como se ela tivesse usado tudo que ela tinha que fazer para aquele momento. — Amanhã ao pôr do sol, — disse ela. — No berçário. Eu confio em você para estar lá. Ela não tinha nenhuma maneira de saber se eu estaria, mas ela era inteligente o suficiente para saber que ela tinha me pego, e eu não iria perdê-la. — Eu te amo, — disse ela, e desta vez não foi dirigido a qualquer pessoa. Em vez disso, as palavras sussurradas por meio do conselho, tocou cada um de nós quando elas passaram. — Adeus, por enquanto. — A luz dourada no chão do sol brilhou, e ela foi embora. Por quase um minuto, ninguém falou. Não falaram sobre Ava, não perguntaram a James e eu o que tinha acontecido na ilha, nada. Finalmente Ella e Theo se levantaram. — Nós temos que voltar, — disse Theo. — Obrigado por nos incluir, Pai. Walter assentiu, e a confusão tomou conta de mim. Eles não estavam aqui para lutar? — E sobre a guerra? — Eu soltei. — Eu pensei— Estamos fazendo o que podemos sobre a terra, — disse Theo. — Fizemos aberturas para muitos dos deuses menores, mas nem mesmo a Nike vai nos apoiar, não sem Henry. — E os gêmeos? — Disse Walter. — Eu pensei que você estava fazendo progressos com eles. Ella franziu a testa. — Lux foi receptivo até você recusar seus termos. Agora eles desapareceram novamente, e foi bastante difícil rastreá-los pela primeira vez. Eu não estou passando por isso de novo. A expressão de James cresceu distante. — Eles estão em Paris. — Não importa agora, — disse Theo. — Nós não podemos obrigá-los a ajudar. Mesmo o Fates se escondeu. Todo mundo está com medo, e nada do que dizermos ou fazermos pode acalmar as coisas. Eles estão convencidos de que se não nos ajudarem, Cronus pode poupá-los. — Bobos, — murmurou Walter. — Muito bem. Mantenha-me informado quando puder. Theo e Ella acenaram com a cabeça em uníssono. Uma fração de segundo antes que eles desaparecessem, seus olhos encontraram os meus, e eu jurei que eu vi pena. — Venha, — disse minha mãe, e ambas levantamos. — Você teve um longo dia, e eu tenho medo que não vai ficar mais fácil. Você precisa descansar. — Você também, — eu disse, pegando sua mão. Enquanto caminhávamos pelo corredor, seus ombros caíram, e ela empalideceu com o esforço que levou para chegar ao seu quarto. Envolvi meu braço firmemente ao redor dela. Depois de tudo que ela e eu tínhamos passado juntas, depois de tudo tínhamos conseguido sobreviver, quanto tempo seria antes de Cronus tirar ela de mim também?

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Capítulo 14 Correntes de Névoa

Eu disse à minha mãe tudo o que aconteceu no palácio de Calliope, e embora ela não tinha confirmado os meus medos, eu sabia que eu estava certa. Ela sabia sobre o plano de Henry - talvez ela até ajudou. E do jeito que ela ficava tocando meu rosto, era fácil dizer que ela estava feliz por ter sido ele que Calliope tinha tomado, não eu. — Nós vamos descobrir, — ela murmurou enquanto nos enrolamos em sua cama juntas. — Nós chegamos até aqui, depois de tudo. Eu não tinha certeza do que ela queria dizer. Ela e eu? O conselho? Será que isso importava? Isso acabaria de um modo ou de outro, e ninguém, nem mesmo minha mãe, poderia me tranquilizar de que tudo ficaria bem. Não desta vez. Levou-me séculos para cair no sono, e quando o fiz, eu sonhei com palavras sussurrantes de Henry que eu não entendia. Dezenas de perguntas giravam em 141


minha mente inquieta, mas aquela voz não ofereceu respostas. Por que ele tinha ido, sabendo o que isso poderia significar? Ele tinha feito isso apenas para proteger Milo? Eu tinha tudo resolvido, mais ou menos - eu não tinha previsto a interrupção de Calliope, mas Henry não poderia ter conhecimento que ela iria também. Ele deveria ter ficado para trás. Ele teria sido muito mais útil como uma arma que Cronus e Calliope não sabiam. Ele podia ter sido o peso que fazia pender a balança para longe deles e para o conselho em vez disso, e ele tinha desistido disso para se entregar à Calliope. Eu queria estar chateada. Eu queria ficar furiosa, rasgar o quarto até não sobrar nada. Não iria adiantar muita coisa, porém, e o melhor que eu podia fazer era exatamente o que James tinha me pedido: concentrar meus esforços em pensar em algo que o Conselho não tinha. Certo. Não era o orgulho a mesma coisa que tinha quase me perdido para Henry e minha mãe e da imortalidade, em primeiro lugar? Mas os membros do conselho não eram exatamente uns anjos também. Eles podiam fazer muito bem o queriam, e se eles poderiam enganar, eu também poderia. Orgulho foi então, junto com um lado de ira para uma boa medida. Se houvesse uma maneira de sair dessa, eu iria encontrar. Depois de uma noite agitada e um dia ainda mais irregular, o pôr do sol sobre chegou a Grécia, e finalmente era hora. Quando o conselho desapareceu da sala do trono para lutar contra um inimigo que eles não tinham uma oração de derrotar, eu fechei os olhos e deslizei na minha visão. Ava estava esperando por mim no berçário, exatamente onde ela havia dito que estaria. Milo não estava em seu berço, no entanto. Os braços de Ava estavam vazios, e Cronus não estava de pé nas sombras balançando-o também. Henry deve tê-lo pegado. Espiando ansiosamente para fora da porta, Ava apertou os lábios, esquecida que eu estava esperando. Olhei por cima do ombro e segui seu olhar para uma janela no corredor. Através dela eu vi uma meia dúzia de pequenas formas atacando um nevoeiro opaco. Batalha da noite havia começado. — Kate? — Disse Ava, virando tão de repente que eu não tive tempo para sair do seu caminho. Ela caminhou através de mim. — Você está aqui? Eu não me incomodei em responder. Ela não seria capaz de me ouvir, por isso era inútil. Ela olhou para o berçário vazio, e seus ombros caíram. — Sinto muito. Eu sei que você não quer ouvir isso, mas é verdade. Eu juro que eu não sabia o que Calliope estava planejando. Era isso? Outra rodada de desculpas? Eu bufei e fechei os olhos, pronta para voltar ao Olimpo. Eu vim. Eu tinha escutado. Eu não ia perder meu tempo com isso por mais tempo. — Eu sei que a última coisa que você quer fazer é confiar em mim, — ecoou Ava enquanto eu escorregava de volta ao Olimpo. — Mas eu preciso te mostrar uma coisa. 142


Eu bati de volta para o berçário, com fome de esperança. Olhando em volta, como se ela não tivesse certeza de que eu estava lá, Ava saiu do quarto, e eu segui em seus calcanhares. Ela me levou para o corredor e a escada estreita que eu tinha usado no dia anterior. Paramos no mesmo nível que ficava a minha prisão, e meu estômago explodiu com borboletas. Onde Ava estava me levando? Calliope não poderia estar prendendo Henry aqui, poderia? Ava parou diante de uma porta. A sala de Nicholas. O tinido de metal contra metal rasgou o silêncio, misturando-se com os gritos dele. Eu vacilei, mas Ava abriu a porta e entrou. Corri atrás dela. — Você jurou que iria parar, — disse ela, e me levou um momento para perceber que ela não estava falando comigo. — Eu fiz o que você me disse para fazer. Agora você cumpre sua parte do trato. Calliope estava no meio de uma sala úmida com prateleiras e mesas de trabalho ao longo da borda. Restos descartados de metal e dezenas de armas algumas brilhando fracamente e outras nada mais que pedaços de aço coberto de cada superfície. A Oficina de Nicholas. Este era o lugar onde ele tinha feito esse maldito punhal. Ao lado do fogo morrendo no centro da sala, alguém tinha uma cadeira de metal soldada ao chão com nevoeiro opaco. Nicholas caiu contra ela, sangrando e quebrado de uma maneira que deuses nunca deveriam estar. Ele estava semiconsciente, com o rosto cortado e roxo e seu corpo uma confusão de cortes e contusões. — Seu lado do nosso negócio ainda não foi concluído, — disse Calliope. — Kate ainda está viva. Ava fez uma careta. — Isso não tem nada a ver com— Eu não me importo. — A voz de Calliope cortou o ar como uma foice. — Você vai fazer o que eu digo, ou eu vou matar Nicholas. Isso é tudo que existe. Ele gemeu, seus olhos se movendo debaixo de suas pálpebras inchadas, e Ava estendeu a mão para ele. Calliope se colocou entre eles. — Eu acho que não, — disse ela com prazer de menina. — Você sabe o que acontece se você tocá-lo. — Eu não me importo mais. — Ava passou por Calliope e ajoelhou-se ao lado da cadeira. — Nicholas? Estou aqui. Sinto muito, baby. Nicholas tentou balbuciar alguma coisa através de seus lábios rachados e mandíbula quebrada, mas era ininteligível. Para mim, pelo menos; Os olhos de Ava se encheram de lágrimas, e ela gentilmente pegou sua mão. Quando sua pele tocou a dele, um som de assobio encheu a pequena prisão e Ava estremeceu. Mas não foi até Nicholas resmungar que ela soltou. Onde ela o tocou, a palma da mão dela ficou escarlate, como se ela tivesse manipulado brasas. — Eu vou libertá-lo depois de ter vencido a guerra, — disse Calliope. — Não antes.

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O rosto de Ava torceu com raiva mal contida, e ela mudou sua postura, como se estivesse prestes a estrangulá-la. Calliope deve ter notado, também, porque em um piscar de olhos, a adaga apareceu em sua mão, e ela segurou-a delicadamente no pescoço de Nicholas. — Eu não faria isso se eu fosse você, minha querida, — ela ronronou. Foi uma pena que eu estava sem substância, senão eu teria felizmente a socado. Ava cerrou os punhos, aparentemente com a mesma ideia, mas ela não fez mais nenhum movimento em direção a Calliope. — Seu monstro, — ela sussurrou. — Ele é seu filho. — Todos nós fazemos sacrifícios. Certamente você de todas as pessoas tem que entender isso. A sala tremeu, e como ela teve na noite anterior, Ava começou a brilhar magenta. — Não admira que o papai nunca te amou. Não há nada amável em você. Todo esse tempo eu pensei que ele estava errado, tratá-la da maneira que ele fez, mas você mereceu. Você perverte o amor e a família até que estejam irreconhecíveis, tudo para o seu próprio senso de satisfação. Ninguém, nem mesmo Cronus, merece queimar no Tártaro mais do que você. — É mesmo? — Disse Calliope em voz perigosa. — Deve ser uma pena para você, então, sabendo que vamos ganhar e você nunca vai escapar de mim. — Oh, eu vou, — disse Ava. — Primeira chance que eu tiver, vou dar o fora daqui e— O que está acontecendo? Henry estava na porta, segurando Milo. Mudei-me para eles tão rápido que eu podia jurar que eu criei uma brisa, mas Henry olhou direto através de mim, seu foco em Calliope. Uma faca torceu na boca do meu estômago, mas ele não podia me ver. Ele não tinha ideia de que eu estava lá. Mesmo que ele tivesse, ele ainda estaria olhando para Calliope como se ela fosse a coisa mais linda do mundo. — Olá, querido, — disse Calliope. — Eu estava indo vê-lo. Como está o bebê? — Ele está bem. — Henry deu a Ava um olhar curioso, e ela desviou os olhos, a mão pairando um centímetro sobre a de Nicholas. — O que está acontecendo? — Ava aqui parece acreditar que, apesar de seus crimes contra nós, Nicholas tem o direito de sair agora, — disse Calliope, e ela riu. — Como se pudéssemos correr tal risco. Não podemos ter Nicholas correndo de volta com os nossos segredos, agora, podemos? Henry olhou para Nicholas do jeito que ele olhou para Calliope depois que os irmãos tinham a capturado no Submundo e a amarrado nas correntes. Meu estômago embrulhou. O Henry que eu conhecia e amava tinha que estar em algum lugar, mas agora, este não era ele. Não importa o quanto isso machucava, eu tinha que me lembrar disso. Se era a influência de Ava ou o poder de Calliope para cortar

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os laços de lealdade entre Henry e o resto do conselho, não importava. Ele era o inimigo agora. Não, não era o inimigo. Mais um prisioneiro como Nicholas e Milo. — Claro, meu querido amor, — disse Henry, e eu engasguei. — Nós vamos fazer o que devemos para garantir a vitória. Atravessando a sala, ele deu a Calliope um beijo sensual. Protegi meus olhos e fiz uma careta. Mas apesar dos meus melhores esforços para ignorá-los, eu não pude resistir a um olhar, e foi aí que eu vi. Os olhos de Henry estavam abertos, e ele estava olhando diretamente para Ava. Em seus braços, Milo se mexeu e estendeu a mão para mim. Ele sabia que eu estava lá. Será que Henry sabia, também? Ele não era Cronus – Calliope nunca iria beijá-lo assim se fosse. Mas ele podia sentir-me? Para meu espanto, Ava assentiu uma vez, tão pouco que no começo eu não tinha certeza se eu tinha visto direito. Henry fechou os olhos mais uma vez, no entanto, e eu estava certa. Henry e Ava estavam trabalhando juntos. Contra Calliope? Para Calliope? Para salvar Milo? Ou será que ela disse a Henry que eu estaria aqui e escutando tudo o que aconteceu? Eu não podia ter certeza, a menos que Ava me dissesse, e se Henry sabia ou não que eu estava lá, ele ainda estava beijando Calliope. Talvez ele tivesse que fazer. Talvez ele quisesse. Eu não tinha as respostas, mas isso não importava. Ele não estaria a beijando se fosse por ele, e eu tinha que segurar isso. Finalmente Calliope se afastou e tocou os lábios inchados. — Talvez devêssemos nos retirar para o quarto. Oh, Deus. Eles estavam dormindo juntos? Náusea tomou conta de mim. Saber que ele tinha estado com Persephone eras atrás era uma coisa, mas isso era demais. Ele era meu marido. Meu Henry, não dela. — Sim, — disse Henry em voz baixa. — Permita-me cuidar do bebê, e então eu vou acompanhá-la. Com uma risadinha, Calliope beijou mais uma vez e deslizou para fora da sala. Por uma fração de segundo, Henry esvaziou, seus braços apertando Milo protetoramente, e ele encontrou o olhar de Ava novamente. Nenhum dos dois falou. Em seguida Henry virou-se e saiu da sala, deixando Nicholas ligado à cadeira. Fechei os olhos. Este não era ele, e se tivéssemos alguma chance de conseguir passar por isso sem a nossa relação ser irreparavelmente danificada, eu tinha que me lembrar disso. Assim como eu me ofereci para Cronus em troca da segurança de Milo, Henry tinha feito o mesmo com Calliope. Eu não tinha o direito de ficar chateada com ele. Com Calliope e Ava e todos os membros do conselho que iriam deixá-lo fazer isso, sim. Mas não Henry. — Kate, — disse Ava, uma vez que ele tinha ido embora. Abri os olhos. Nicholas estava inconsciente novamente, seu peito subindo e descendo superficialmente, e Ava estava ao lado dele. — Agora você entende? 145


Eu entendi. Não desculpava nada disso, e não consertava a nossa amizade. Mas eu entendi. — Henry ainda ama você, você sabe. Eu não tirei isso dele. Eu nunca poderia. Ela o fez se apaixonar por Calliope, no entanto. Artificial ou não, ainda era amor, e não iria apagar o que aconteceu naquela sala. Estremeci. Eu tinha que parar de pensar sobre isso. Eu já tinha visto o suficiente. Ava pediu desculpas tantas vezes que as palavras eram sem sentido agora, e eu tive que sair antes da mágoa cavar tão fundo dentro de mim que eu nunca poderia tirá-la. Eu estava no meio do caminho foi quando Ava falou. — Cronus vai escapar no solstício de inverno. Ela já disse ao conselho isso, embora, e ela sabia que eu tinha estado lá com eles. Eu afundei ainda mais no esquecimento, já à beira de acabar com essa visão. — E, — disse Ava, sua voz tão distante era pouco mais que um sussurro, — o primeiro lugar que ele vai atacar é Nova York.

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Capítulo 15 Ponto de Ruptura

Eu bati de volta para a ilha tão rapidamente que a sala girou em torno de mim. Tonta, eu esperei por Ava terminar, mas uma explicação nunca veio. Ela ajoelhou-se ao lado de Nicholas novamente, murmurando palavras que significavam apenas para ele, e eu me virei. Havia apenas uma razão para Cronus especificamente atacar Nova York quando tantas outras cidades como Londres, São Petersburgo, mesmo até Pequim – estavam mais perto. E isso era eu. Desta vez, quando eu desapareci da câmara de tortura de Nicholas, eu não reapareci no Olimpo. Em vez disso, quando eu abri meus olhos, eu estava no quarto do Milo novamente.

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Cronus estava em um canto escuro, como se ele estivesse esperando por mim. Se eu não tivesse certeza de algum tipo de conexão entre nós antes, eu tinha agora. Ele estava de olho em mim. Olhando-me de uma maneira que apenas um Titã poderia. — Seu bastardo. — Eu empurrei-o tão duro quanto eu podia, mas é claro que não fez nenhum bem. Ele olhou para mim, com o queixo levantado e os olhos. — O que eu fiz para merecer tais palavras duras? Não fui eu que lhe ofereceu tudo, mas suportou suas mentiras de novo e de novo? Eu cerrei os dentes. — Você está indo atrás de minha casa. — Sua casa é no Submundo, e posso garantir que não tenho a intenção de remover você do meu caminho do jeito que eu irei com o resto do conselho. Você terá toda a eternidade para ficar lá com os bilhões de almas que morrerão em minhas mãos. Talvez se você se comportar, vou permitir que você se junte a mim na superfície por um tempo. Muito parecido com o arranjo que você tem atualmente com seu marido muito vivo. Horror frio caiu sobre mim. — Por que você está fazendo isso? Eu vim para você. Eu ia cumprir a minha parte no trato. Eu não sabia— Você não sabia o que? — Disse Cronus com aquela neutralidade perigosa que era infinitamente mais assustadora do que a raiva. — Que o seu querido Henry estava vivo? — Eu não sabia que ele me seguiu, — eu disse. — Eu não sabia que ele tinha um plano. Estou arrependida. Cronus inclinou a cabeça. — Não, você não está. Você está arrependida de ter perdido o que você pensou que poderia manter escondido. Você lamenta que você não foi a única com permissão para se sacrificar por seus entes queridos. Você está arrependida que você será forçada a permanecer viva depois de eu ter destruído todos que você sempre se preocupou. Você está arrependida que tenha perdido o seu filho. Mas você não está arrependida que você mentiu. Um peso invisível repousava sobre meu peito. — Você está certo, — eu disse com voz trêmula. — Eu não sinto muito por mentir. Mas lamento por todas essas pessoas que vão morrer. E se você não tivesse me empurrado a este ponto, eu teria ficado triste por ferir você, também. Cronus tocou minha bochecha com o fantasma de afeto. — Eu pensei que você fosse diferente, Kate Winters. Eu achei que você entendia. — Eu entendo. Mais do que você já me entendeu. — Um nó se formou na minha garganta, mas as lágrimas não vieram. Pedir e implorar não me faria nenhum bem, mas tinha que haver uma maneira de corrigir isso de alguma forma. Para fazê-lo entender. — Você não merece esse tipo de dor, mas, novamente, nem eu. Nem o conselho. E nem os milhares de milhões de vidas que você vai destruir. A única diferença entre nós e os seres humanos é a morte. Mesmo agora, com você aqui, não há nenhuma diferença. Você consegue imaginar isso? Um

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fim? Um momento em que você deixar de existir? E as pessoas que você ama, o que eles iriam... O que eles iriam passar— Chega, — disse ele. Eu procurei o rosto por algum lampejo de emoção, mas não os achei. — Eu tomei a minha decisão. Eu não te mostrarei misericórdia quando você não me mostrou nenhuma. A guerra vai continuar, e não vou me render ou concordar com uma trégua. Tentei estender a mão da paz para o conselho, e eles cuspiram na minha cara. Confiei na pessoa que eu acreditava me entender, e você acabou por ser a maior mentirosa de todos eles. Não temos mais nada para discutir. Antes que eu pudesse protestar, Cronus desapareceu, e minhas mãos tocaram nada além de ar. Ele se foi, junto com qualquer esperança que eu tinha de preservar a minha família. Olhei fixamente para o espaço vazio. Assim que Cronus escapar no solstício, isto deixaria de ser uma guerra. Seria um banho de sangue. Tinha que ter algo que eu não estava vendo, algo que eu poderia fazer para fazê-lo mudar de ideia. Mas o que eu poderia dar a ele agora que ele não confiava em mim? Que palavras eu poderia dizer para corrigir isso? Um murmúrio suave me chamou a atenção, e eu virei a tempo de ver Henry vaguear no berçário com Milo em seus braços. Ele certamente tomou o seu tempo a chegar aqui. Ele tinha desviado? Ele devia ter. Eu silenciosamente rezei para que não fosse para ver Calliope. — Aqui vamos nós, — disse Henry suavemente. — Você está seguro aqui. Ele passou por mim tão lentamente que ele parecia estar se movendo através de melaço. Não é à toa que ele tinha levado tanto tempo. Uma tartaruga poderia tê-lo superado. Ao me avistar, Milo agitou os braços, e eu consegui um sorriso choroso. — Oi, bebê. Divertindo-se com seu pai? Ele borbulhava, e Henry sorriu. — Eu gostaria de poder ficar aqui, também, mas eu vou estar de volta antes que a lua desapareça da sua janela. Nesse meio tempo, tenho certeza que sua tia Ava estará aqui em breve para lhe fazer companhia. Com um aceno de sua mão, o berço se moveu alguns centímetros, presumivelmente em uma posição onde Milo podia ver a lua. Um soluço prendeu na garganta. Henry apertou os lábios na testa do bebê por um longo momento antes de se endireitar. — Seja bom, — ele murmurou, e ele olhou diretamente para mim. — Sua mãe e eu te amamos. Eu congelei. Será que ele sabia? Foi uma coincidência? Outro truque de Cronus? E eu te amo. Embora seus lábios não se movessem, sua voz sussurrou em minha mente, e eu prendi a respiração. Assim como Milo, ele sabia que eu estava lá. Ava não mentiu; ela não tinha tirado esse amor dele.

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Eu sei o que você está fazendo. Empurrei as palavras para ele, e ele se virou para olhar para o berço de Milo. E eu espero que você possa lutar contra o que Ava fez você sentir, porque uma vez que isto acabar, eu nunca irei deixar você ir novamente. Poderia ter sido minha imaginação, mas eu podia jurar que ele sorriu. Isso vai acabar, e nós estaremos juntos novamente. Meus pensamentos foram firmes e inflexíveis agora. Apenas fique comigo. Não deixe Calliope convencêlo de que você é alguém que não é, e tudo vai ficar bem. Eu vou me certificar disso. Como se olhasse em minha direção, Henry caminhou até a porta do berçário. Mas quando ele passou por mim, sua mão passou pela minha, e desta vez eu sabia que não era um acidente. Eu também. *** Quando voltei para o Olimpo, o conselho estava esperando por mim. Todo mundo parecia exausto e bem passado de seus pontos de ruptura, com manchas escuras sob os olhos e pele pálida que parecia estender-se com muita força em seus rostos. — Kate, — disse Walter. Mesmo ele parecia gasto. — Você tem notícias? Agora eles queriam ouvir o que eu tinha a dizer? Eu mordi de volta uma resposta afiada. Eles passaram o suficiente naquela noite sem ter que lidar com o meu senso inflado de injustiça, também. — Calliope realmente está torturando Nicholas para manter Ava na linha. Ela tem uma sala cheia de armas que eu acho que ele fez - algumas delas parecem com armas de teste antes que ela finalmente tenha decidido pelo punhal, e um número suficiente deles são infundidos com os poderes de Cronus se pudermos chegar perto o suficiente, talvez há uma chance de podermos utilizá-los eWalter levantou a mão cansada, e pela primeira vez eu caí em silêncio. — Se tivermos a sorte de chegar tão longe passando as defesas de Cronus, isso significa que já teremos vencido. — A nota de inevitabilidade que ele tinha usado sempre que ele falava de vencer a guerra tinha desaparecido. — O que aconteceu durante a batalha de hoje? — Eu disse, e meia dúzia deles desviou o olhar. — Cronus estava mais... focado do que o habitual, — disse minha mãe. — Tivemos sorte que ninguém ficou ferido. — Ele está lutando mais forte por minha causa, — eu disse, e do outro lado do círculo, Dylan zombou. — Sempre por causa de você, não é? Não poderia ser porque ele está ficando mais forte quanto mais nos aproximamos do solstício de inverno, não é? — Talvez, — eu permiti. — Mas eu não acho que é uma coincidência que isso aconteceu um dia depois que ele descobriu que eu tenho mentido para ele sobre Henry. Dylan fez uma careta, mas ele não disse mais nada. 150


— Como está Henry? — Disse Sofia. — Você o viu? Eu balancei a cabeça. O que eles fariam se soubessem que Calliope, de alguma forma convenceu Henry a lutar por ela? Será que eles o tratariam como o inimigo, também? Ele ainda poderia me amar, mas o amor não era o suficiente para convencer o conselho que ele não iria lutar contra eles, se Calliope o ordenasse. — Ele está lutando com ela, — eu disse. Uma meia verdade na melhor e uma mentira completa na pior das hipóteses. — Há tanta coisa que ele pode fazer, sem se entregar, mas ele ainda está lá. — Bom, — disse Sofia, recostando-se em seu trono. — Ela não o conhece como ela conhece o resto de nós. Dá-lhe menos de uma chance de explorar suas fraquezas e usá-las contra ele. Isso era exatamente o que ela estava fazendo, no entanto. Ela conhecia suas fraquezas - ela sabia que ele faria qualquer coisa para proteger Milo e eu. Talvez ela até tenha pedido para Ava não levar o amor dele por mim para que ele pudesse se lembrar do por que ele estava fazendo isso. Ou talvez ela tenha feito isso apenas para que ele pudesse sentir desgosto quando ele a beijava e se lembrasse de quem ele realmente deveria amar. Puta sádica. — O que Ava queria discutir? — Disse Walter. — Ela queria pedir desculpas novamente e tentar explicar. — Era a verdade, na maioria das vezes. — Ela me disse que Cronus vai atacar Nova York, uma vez que ele fugir. Um murmúrio percorreu os restantes membros do conselho, e James disse a Dylan, — Precisa de mais provas de que ele está fazendo isso por causa da Kate? — Cala a boca, — murmurou Dylan, e James deu um sorriso satisfeito. Ele podia gostar de esfregar no nariz de seu irmão, mas eu teria dado malditamente quase qualquer coisa para Dylan estar certo. — Muito bem, vamos nos preparar para esse resultado, então, — disse Walter, e eu pisquei. — E se Ava mentiu para mim? — Eu disse, e Walter deu de ombros, cansado. — Então estamos condenados. — Ele levantou em pernas trêmulas. — Vão descansar e se recuperar. Não vamos atacar amanhã ou qualquer outro dia até o solstício de inverno. Dylan levantou-se com a intenção de parecer indignado, mas ele mais parecia um homem velho levantando de uma poltrona que era muito curta para as pernas. — Nós estamos desistindo? — Estamos salvando a nossa energia e estratégia, — corrigiu Walter. — Esgotamos nossos meios como são, com Cronus usando os escudos na ilha contra nós. Agora temos que planejar uma abordagem diferente. — Ele acenou para mim. — Kate, eu gostaria que você se juntasse a nós.

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— Eu? — Eu disse, atordoada, e minha mãe acariciou minha mão. — Eu não sei nada sobre o planejamento de uma guerra. — Mas você gastou mais tempo na presença de Cronus desde sua fuga, e não podemos mais ignorar a validade de suas reivindicações, — disse ele. — Você vai coletar as informações que você puder durante o dia, e o conselho vai se reunir todas as noites para receber. A menos que alguém tenha alguma outra ideia, — disse ele, olhando diretamente para Dylan. Dylan deu de ombros e não disse nada. — Muito bem. Conselho dispensado, — disse Walter, e com enorme esforço que mostrou em cada passo que dava, ele dirigiu-se para um corredor que eu nunca tinha visto. Os outros membros do conselho saíram da sala do trono, até que apenas James, minha mãe e eu ficamos. Apesar da aparência de meio segundo de distância de desmaiar, James cruzou o círculo em direção a nós, vestindo um sorriso exausto. — Parece que você finalmente conseguiu sua entrada, — ele disse, jogando o braço em volta dos meus ombros. — Agora é a sua chance de provar a si mesma. — Esse é o problema, — disse. — Eu não sei como. Minha mãe acariciou meus dedos com o polegar. — Você vai descobrir. Mantenha seus olhos e ouvidos abertos, e você vai chegar a algo. Tão reconfortante como sua garantia deveria ter sido, ela estava esquecendo-se de uma coisa. Cronus podia me ver, e agora que ele não confiava em mim, eu não tinha a menor chance no inferno de conseguir mais informações dele. *** Todos os dias nas últimas três semanas de outubro, eu mergulhei em minhas visões, com a esperança de encontrar até mesmo a menor das pistas que pudessem ajudar com a defesa do conselho. Meus esforços foram em sua maioria perdidos, no entanto. Calliope passou a maior parte do tempo sozinha, olhando para a imagem holográfica da ilha, e quaisquer estratégias que ela e Cronus fizeram foi um mistério para mim. Eles estavam raramente na mesma sala, e sempre que Cronus aparecia em algum lugar perto de Calliope, ela era rápida em encontrar uma desculpa para sair. No começo eu pensei que ela estava com raiva, com a curta maneira que ela falou com ele. Quanto mais eu os via juntos, no entanto, mais eu notei outras coisas. A forma como a sua postura escorregava quando ele estava por perto. A forma como a sua voz e foco vacilavam. Ela não estava com raiva. Ela tinha pavor dele. Eu não a culpava. Sem ninguém para conter sua ambição e determinação, Cronus tornou-se mais forte a cada dia, até que nem mesmo a sua forma humana parecia capaz de segurar. Ele estalou em torno das bordas, e em todos os lugares 152


que pisou, deixou pegadas negras em seu rastro. Embora ele tenha me visto, ele nunca me reconheceu. Eu preferia que fosse assim. Eu relatei ao Conselho todas as noites até que, finalmente, Dylan disse exatamente o que eu temia. — Ele está ficando mais poderoso do que esperávamos. Nossas barreiras não vão segurar até o solstício. Ninguém no conselho o questionou. Todos sabiam que estávamos correndo contra o tempo, e sem mais informações, eles estavam tropeçando no escuro. Eles tinham adivinhado as rotas que Cronus usaria em Nova York, as formas que ele poderia martelar a destruição na cidade que tinha me criado. Eles tinham um plano para cada uma. Eles estavam terrivelmente em desvantagem numérica, porém, e nada que Ella e Theo disseram aos deuses menores que perseguiram por todo o mundo trouxe reforços. James se juntou muitas vezes a eles, ajudando-os a encontrar os esconderijos da ira de Walter, deixando-me sozinha com minha mãe e um punhado de deuses esticados até ao limite. Guardei para mim mesma, e logo minhas visões não eram apenas para espionar missões. Era outra maneira de evitar o conselho, também. Não importa quantas vezes eu tenha visto Henry no palácio de Calliope, ele nunca mais revelou que sabia que eu estava lá. Quanto mais o tempo passava, mais eu duvidava daquele momento no berçário; e quanto mais tempo Henry gastou com Calliope, mais ele parecia afundar em seu feitiço. Qualquer sinal de sua rebeldia tinha ido embora. Ele fazia o que ela dissesse, mas Milo estava sempre com ele, e eu me agarrei a isso com tudo que eu tinha. Ele estava lá em algum lugar, e apesar de que seria uma batalha para ele se libertar quando chegasse a hora, ele tinha uma chance. No início de novembro, quando Henry balançou Milo para dormir uma sesta à tarde, Calliope correu para o berçário. — Algo está errado com Cronus. Em vez de colocar Milo no berço, Henry o pegou e seguiu Calliope. Corri atrás deles, e através das janelas eu vi uma tempestade se formando ao longo da ilha. Nuvens negras giravam entre o ar quente do oceano, apagando o céu azul, e o trovão rolou pelo mar, um aviso do perigo que vinha. Calliope subiu correndo os degraus e através de uma porta que se abria para o telhado. Henry segurava Milo perto contra os ventos fortes, mas, apesar dos gritos de Milo, ele não voltou para dentro. No momento em que avistei Cronus do meio do telhado, eu entendi. Esta tempestade não era natural. Sua forma não conseguia mais segurá-lo, e Cronus era agora nada mais do que uma esfera brilhante de poder. Crepitando com mais raios do que qualquer coisa natural nunca poderia produzir, a névoa opaca de Cronus rodava no olho do furacão, com um funil preto expandindo para cima, para o céu. Um aviso. Uma mensagem. Um comando. Venham lutar. Eu instintivamente estendi a mão para Henry. Em vez de espelhar o medo que Calliope usava tão abertamente, sua boca estava definida em uma linha 153


sombria e determinação franziu a testa. O que quer que estava por vir, ele estava pronto para isso. — Vá, — disse ele, e ele se virou para me olhar diretamente nos olhos. Eu te amo. Avise aos outros que já começou. Eu abri e fechei a boca duas vezes. E você e Milo? Vou me certificar de que ele esteja seguro. Basta ir. Através do vento uivante, cheguei a ele, meus dedos a um centímetro de seu rosto. Eu também te amo. Não se esqueça de quem você é. Apesar da massa negra de roda da morte a não vinte metros de distância, Henry conseguiu dar um sorriso. Devo dizer o mesmo para você. Seja corajosa e faça o que for preciso. Meus olhos ardiam com o vento, mas enquanto eu desbotava do telhado, eu não conseguia desviar meu olhar para longe dele. Por favor, não faça nada estúpido. Antes que ele pudesse responder, a tempestade crescendo derreteu, substituída por meu quarto no Olimpo. Corri pelo corredor, esquecendo momentaneamente a minha capacidade de estar onde eu tinha que estar sempre que eu precisasse estar lá. Eu precisava correr. Eu precisava gritar, mas eu não tinha voz sobrando para outra coisa senão as palavras que eu estava temendo. Estourando na sala do trono, eu corri para o centro do círculo, ignorando o silêncio da conversa quebrada. Seja o que for que o conselho vinha discutindo, isso não importava agora. — É Cronus, — eu disse sem fôlego. — Ele está fugindo. Há uma tempestade em torno da ilha e— Nós já sabemos, — disse Dylan, e eu balancei a cabeça. Ele não entendia. — A batalha final - começou.

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Capítulo 16 A Última Hora Walter teve que gritar quatro vezes e quebrar um raio perante o conselho para estabelecer a ordem. Todo mundo estava de pé, incluindo minha mãe, e a energia na sala sacudia entre nervosa e agressiva. — Nós estivemos nos preparando para este momento há um ano, — disse Walter uma vez o barulho desapareceu. — Nós podemos não ter mais aliados que nos basear, mas nós temos um ao outro, e juntos somos fortes. Ninguém disse uma palavra. Mesmo Dylan não poderia dar um grito de guerra. Este seria ou o dia em que eles finalmente enviariam Cronus de volta para o Tártaro, ou seria o dia em que o conselho cairia. Por essa hora amanhã, eu ou teria uma família ou estaria sozinha, sujeita aos caprichos de Cronus e prazeres mais obscuros. Eu preferiria cortar minha garganta com aquele maldito punhal eu mesma.

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— Estamos preparados. Estamos juntos. E vamos lutar até vencermos ou não existirmos mais, — continuou Walter. — Tomem uma hora para fazer o que for preciso, e vamos nos encontrar aqui, então. Um a um, o Conselho saiu, alguns em pares, outros sozinhos. Em uma perda, eu fiquei onde estava. O que eu deveria fazer? Tinha sido bastante difícil vêlos todos ir para a guerra o último solstício de inverno, mas desta vez... Desta vez, seria a maior batalha que o mundo tinha visto desde a primeira guerra Titã, e toda a minha família seria o centro das atenções. — Eu quero lutar, — eu disse uma vez que a sala tinha esvaziado de todos, exceto minha mãe e James. — Você disse que eu podia. — Oh, querida. — Ela me puxou do meu lugar e para um abraço. — Você tem lutado, da forma que o resto de nós não poderia. Lutar não significa sempre ir para a batalha com uma espada e um escudo. Você já fez mais do que suficiente, e agora é a hora de você ficar segura. Pelo amor de Milo. — Milo é exatamente a razão pela qual preciso lutar. Eu sei que não sou forte o suficiente para dar-lhe todo o apoio real, mas talvez eu pudesse distrair Cronus ou Calliope ou - ou algo assim. Qualquer coisa. Seus braços se apertaram em torno de mim, e ela escondeu o rosto na curva do meu pescoço, sua bochecha quente contra a minha pele. Eu fechei os olhos e tentei memorizar este momento. Ela tinha que voltar. E se ela nãoNão, eu não podia pensar assim. Eles sobreviveram às batalhas até agora, e eles sobreviveriam a essa, também. Minha mãe não iria morrer hoje. Ninguém iria. — Venha, — ela murmurou. — Nós não temos muito tempo, e há algo que eu gostaria de fazer antes disso. James? James deu um passo e tocou nossos ombros. — Isso não vai ser divertido, — disse ele, e antes que eu pudesse perguntar onde estávamos indo, a sala explodiu em luz quando nós caímos para a terra. Meus olhos lacrimejaram. Indo do Olimpo para a superfície não era nada novo. Por que James sentiu a necessidade de me avisar, eu não sabia. AtéAté que o céu azul desapareceu, substituído por pedra. Eu teria vomitado se eu pudesse. Mesmo com a minha mãe ao meu lado, as camadas opressoras da terra pressionadas em cima de mim, fazendo meu coração vibrar com o pânico à medida que aceleramos para baixo. Eu tentei forçar meus olhos a fechar, mas eles estavam colados abertos com terror, e o melhor que pude fazer foi abraçar minha mãe com força e esperar como o inferno que iria terminar em breve. Afinal desembarcamos na caverna de rocha obsidiana fora do palácio de Henry. Meus joelhos batiam um no outro, e todo o sangue correu da minha cabeça, fazendo as paredes girarem. — Seu bastardo. — Eu dei um soco no braço de James tão duro quanto eu podia. Não como ele iria machucá-lo. — Por que você continua fazendo isso comigo? 156


Ele sorriu. — Porque o olhar no seu rosto é impagável. Honestamente, Kate, o que você acha que eu ia fazer? Deixá-la nas pedras? Estremeci. — Você não faria isso. — Eu não poderia, — ele corrigiu. — Uma vez que você aprender a usar os portais, você não será capaz também. Eu abri minha boca para responder, mas o murmúrio de vozes baixas chamou a minha atenção, e eu me virei em direção ao palácio. Nas sombras, uma multidão se formou, que fervilhando o jardim e em direção ao rio, do outro lado da caverna. — O que é isso? Quem são eles? — Os mortos, — disse James. — As almas perdidas, aqueles que precisam de orientação. Ninguém está aqui para ajudar, então eles estão presos até que você e Henry retornem. Eu encarei. Tinha de haver milhares deles. Eu esperava alguns, sabendo que Henry não estava aqui para ajudar, mas não isto. É claro que havia muitos, no entanto. Com os números que Cronus tinha abatido, eu deveria ter ficado surpresa que não havia mais. — Nós precisamos ajudá-los. — Não agora, querida, — disse minha mãe, esfregando minhas costas. — Eles têm a eternidade. Temos um lugar para estar. — E onde é isso? — Disse. — Estamos indo visitar sua irmã, — disse ela, e toda a minha indignação derreteu. Ela tinha ficado eras sem ver Persephone antes de enfrentá-la no ano anterior. Outra visita tão cedo só podia significar uma coisa: que ela estava dizendo seu adeus. — Mãe, — eu botei pra fora, minha voz embargada. — Você não pode me deixar. Você prometeu. — Quem disse alguma coisa sobre deixar você, querida? — Disse ela, escovando meu cabelo dos meus olhos. Nós duas sabíamos a verdade, no entanto. Não importa quantas conversas estimulantes Walter deu, não importa quantas vezes ela me garantiu que ela não ia a lugar nenhum, ela sabia que era uma possibilidade. E desta vez não haveria retorno milagroso. Agarrei a mão dela. — Poderíamos ficar aqui enquanto os outros lutam. Eles não vão sentir sua falta. E podemos chegar a uma outra maneira de ajudá-los. Ela me deu um sorriso triste. — Querida, você sabe que o conselho precisa de todos eles agora. Eu tenho uma responsabilidade para com eles, e eu não posso ir embora. — E quanto a sua responsabilidade por mim? — Meu rosto ficou quente como meus olhos ardiam com as lágrimas. — Você prometeu que nunca me deixaria de novo. — Eu não vou. Eu estou lutando por aquilo em que acredito, — disse ela. — Não tenho nenhuma intenção de morrer hoje, Kate. — Mas você pode. 157


— Sim, eu posso, — ela permitiu. — Como disse Walter, Cronus é um inimigo formidável, e há pouco o que podemos fazer para combatê-lo diretamente. No entanto, é preciso lembrar que temos milhares e milhares de anos de experiência atrás de nós, e nós vamos colocar cada último segundo para uma boa utilização. Eu farei tudo ao meu alcance considerável para me certificar de que eu voltarei para você. Para me certificar de que nós todos voltaremos. Ela poderia me prometer a lua, mas ela estava escolhendo esquecer um fato muito importante: Cronus não era passível de ser derrotado. Considerável poder ou não, não havia nada no arsenal do conselho que poderia levá-lo e vencer. Juntos, eles tinham uma chance, mas sem Henry, sem Calliope, eles poderiam muito bem terem se rendido. Eles teriam uma expectativa de vida mais longa assim. Tinha que haver alguma coisa. As adagas - as armas espalhados na câmara de tortura de Nicholas - essas eram as vantagens que poderiam ser nossas, mas como? — Agora vem, — murmurou minha mãe. — Leve-nos para ver a sua irmã. Eu teria atrasado se eu achasse que poderia funcionar, mas se minha mãe morresse hoje, eu não poderia viver com a culpa de negar seu último pedido para ver sua outra filha. E Persephone merecia a chance de dizer adeus também. Eu estendi minha mão livre para James, e ele a aceitou sem dizer uma palavra. Para todas as gracinhas que vieram da tão grande boca dele, ele sabia quando mantê-la fechada, também. Se ele não se certificasse também... Não. Ninguém iria morrer hoje. Não a minha mãe, nem o James, nem o Henry, ninguém. Depois de um último olhar para os mortos em torno do palácio, eu fechei os olhos. Uma brisa quente fez cócegas na minha garganta, e quando eu os abri, estávamos no meio de um campo cheio de flores. Nem dez metros de distância havia uma casa coberta de videiras, e apesar de estarmos no Submundo, o sol – ou pelo menos a versão do sol de Persephone – brilhava brilhantemente sobre nós. — Hey! — Gritou Persephone, e eu virei a tempo de ver seus cachos loiros pulando no vento. — Saia daí! — O que- — eu comecei, e então eu olhei para baixo. Estávamos bem no meio das tulipas da minha irmã. Oops. Minha mãe riu e deu um passo para longe de mim, e me mudei com ela, me recusando a sair do lado dela. — Sinto muito, querida. Kate é nova neste método particular de transporte. Persephone veio em nossa direção, com os pés evitando automaticamente as flores como se soubesse exatamente onde cada flor estava. Depois de passar mil anos nesta área, ela provavelmente sabia. — Isso não é desculpa para atropelar minhas tulipas, — ela resmungou. — Sinto muito. — Apesar da razão de estarmos aqui, a expressão em seu rosto me fez sorrir. Persephone não era a minha pessoa favorita, e não por um longo tempo, e ter a chance de aprontar para ela foi uma pequena vitória durante 158


um dia de outra maneira horrível. — Da próxima vez eu vou tentar apontar para o caminho. — É melhor. — Ela se ajoelhou ao lado da cama de flores e tocou as tulipas esmagadas. — Por que você está aqui? Eu tive séculos sem ter que lidar com convidados, e agora você decide me visitar duas vezes em um ano? Você está realmente desesperada para aconselhamento matrimonial? Eu pisquei. — O quê? Não, claro que não— Se ele está passando por uma de suas brigas, apenas o deixe sozinho e não o incomode até que esteja terminado, — disse Persephone. — Ele virá para você, então. — Esse não é o porque de estarmos aqui, — disse minha mãe, e ela se ajoelhou ao lado da minha irmã e tocou as tulipas. Eles brilhavam como ouro à luz do sol, e, lentamente, elas ajeitaram de volta em perfeitas condições. — Pronto. Todas consertadas. — Eu não preciso de sua ajuda, — murmurou Persephone, sentada sobre os calcanhares. — O que eu preciso é que vocês não pisem em minhas flores em primeiro lugar. Eu abri minha boca para dizer-lhe exatamente onde ela poderia enfiar suas flores, mas James chegou antes de mim. — Pelo amor de tudo o que você segura, Persephone, você poderia, por favor, calar-se por dois segundos e deixar-nos falar? Nós três olhamos para ele, e ele enquadrou os ombros, fazendo claramente o seu melhor olhar respeitoso e dos deuses. Mas, com sua cabeleira loira e orelhas que se projetavam como uma caricatura, ele parecia tão piedoso como Mickey Mouse. — Bem. O que está acontecendo? — Disse Persephone, e embora a raiva tenha permanecido em sua voz, sua expressão se suavizou. — Cronus está prestes a se libertar da ilha, — disse minha mãe. — A batalha vai começar dentro de uma hora, e eu esperava que você pudesse estar disposta a cuidar de Kate até que acabasse. Minha boca e de Persephone caíram abertas simultaneamente. — Você está me deixando aqui? — Eu chorei. — Você está me fazendo de babá? — disse Persephone com uma voz igualmente horrorizada. Minha mãe se concentrou em mim em primeiro lugar. — Kate, querida, eu sei que você quer ajudar, mas você vai ajudar mais permanecendo segura para que eu não precise me preocupar com o seu bem-estar. — Mas- — eu comecei, e embora ela tenha erguido a mão, eu continuei: — Mãe, por favor. Você não pode continuar me mimando assim. — Você sabe que você não tem a capacidade de combater de uma forma que vai ser útil para o resto de nós, — disse minha mãe sem rodeios. — Isso não é culpa minha, — eu disse. — Você é a única que prometeu me treinar. Eu poderia ter aprendido.

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— Não em menos de dois meses. Estávamos todos já no limite, e mesmo que tivéssemos, você não é um dos seis originais. Você simplesmente não é poderosa o suficiente para ajudar a mudar o curso da batalha lutando de frente assim. — Ela tocou meu rosto. — Por favor, deixe-nos ter a nossa maior chance de sucesso. Permaneça segura. Eu cavei minhas unhas nas palmas das minhas mãos. — Você não pode me fazer ficar aqui. — Eu sei, mas eu confio em você para tomar a decisão certa. Milo precisa de uma mãe, e ele não pode ter isso se você for embora. Quando chegar a hora, ele vai precisar de você. E você vai precisar dele. — Então você quer que eu simplesmente esconda a cabeça na areia até que esteja terminado? — Eu disse grossa. — Como você pode dizer isso? Você é a única que me mostrou como ser uma lutadora em primeiro lugar. Ela me apanhou, e eu derreti em seu abraço. — Às vezes lutar significa sobreviver em face de dificuldades insuperáveis. Isso é o que eu preciso que você faça. Seja a sobrevivente que eu sei que você é. Eu solucei em seu ombro, e os meus dedos se apertaram em torno de sua manga. — Por favor, fique comigo. — Se eu pudesse, eu o faria. Não há nenhum lugar que eu preferiria estar do que aqui com vocês duas. Segurando o braço Persephone, ela esperou, e, finalmente, a minha irmã aceitou o abraço. — A primeira vez que você vem me ver em centenas de anos, e você quer que eu seja babá, — ela murmurou, e minha mãe beijou sua testa. — Sinto muito, querida. Eu vou ter certeza de te visitar mais vezes. Isso não era uma promessa que ela poderia manter se ela estivesse morta, e Persephone se encolheu diretamente junto comigo. Esta seria a última vez que nós estaríamos juntas assim? Não podia ser. Eu não deixaria. Tinha que haver alguma coisa. — Eu prometo ficar aqui com Persephone se você prometer que não vai arriscar a sua vida, — eu disse. Não era muito, mas até que eu pudesse pensar em um plano sólido, teria que funcionar. — Oh, Kate. — Minha mãe beijou meu cabelo. — Você pode muito bem me pedir para não ir em tudo. Eu não deixei Cronus obter o melhor de mim ainda, e eu não pretendo começar agora, isso eu juro para você. Tenha um pouco de fé. Fácil para ela dizer. Ela era a única a correr para lutar. — Eu te amo, — eu murmurei. Quantas vezes mais diríamos estas despedidas intermináveis antes de realmente ser a última vez? — Eu também te amo. Lembre-se de Milo. — Ela se afastou e me olhou diretamente nos olhos. — Você pode fazer isso por mim? Eu balancei a cabeça, um entorpecimento pesado em cima de mim quando ela virou-se para dizer adeus a Persephone. Em vez de abraços e lágrimas, elas inclinaram suas cabeças juntas e começaram a sussurrar. — Deixe-me ir com você,

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— disse Persephone. — Cronus e Calliope não podem me machucar, e eu poderia ser útil. Minha mãe balançou a cabeça. — Eu preciso de você aqui com Kate, para se certificar de que ela não faça nada estúpido. Persephone revirou os olhos. — É claro que ela vai fazer algo estúpido. Ela é Kate. — Eu estou contando com você para não deixar isso acontecer. Depois de um rápido aperto de mão e repreensão da minha mãe para ser boa, suas despedidas tinham acabado. Os olhos de Persephone estavam secos. Como isso pode ser tão fácil para ela? James tocou meu ombro, e eu virei para abraçá-lo. — Se você morrer, eu vou ficar tão chateada com você, — eu disse. — Então vamos esperar que isso não aconteça. Se você for para a batalha, eu vou ficar chateado com você, — disse James. — Então vamos esperar que isso não aconteça — eu imitei. — Você precisa de um elevador para o Olimpo? Ele bufou. — Boa tentativa. Sua mãe tem passagem. — Sem hesitar, ele apertou os lábios para o canto da minha boca. Um quase-beijo cheio de perguntas que eu não podia responder e promessas que nenhum de nós poderia cumprir. — Não se esqueça, eu tenho que ser o seu primeiro caso, e eu estou te segurando a isso. — É melhor, — eu disse, e com isso, ele me deixou ir para um último abraço com a minha mãe. O nó na garganta cresceu insuportável, mas eu me recusei a chorar. Eu não queria que os últimos momentos que tivéssemos fossem cheios de choramingos e soluços. Nem ela nem James disseram nada. Eles sorriram, nenhum traço de medo ou ansiedade em qualquer um dos seus rostos sem idade, e James ofereceu à minha mãe o braço. Ela o pegou sem dizer nada, e juntos eles desapareceram até que não havia mais nada, só a brisa. — Vamos, vamos pegar um chá antes de você cair, — disse Persephone. Ela pegou meu cotovelo, e eu não discuti. Se Cronus abatesse todos que eu amava, Persephone seria a única família que me restava. Não era exatamente um prêmio de consolação gratificante, mas eu não queria dar-lhe alguma razão para me odiar. Por mais que eu quisesse me certificar de que não viria ao fato de ser apenas nós duas, eu não podia. Não cabia a mim, e eu não poderia mudar o resultado da batalha por pura força de vontade e pensamento. Eu poderia fazer algo para ajudar, porém, se eu pudesse pensar em algo que valeria a pena o risco. Algo que Persephone tinha dito cutucou o fundo da minha mente, mas antes que eu pudesse me concentrar totalmente, ela abriu a porta. — Adonis! O que eu disse sobre a alimentar o cão com manteiga de amendoim? Adonis, namorado – marido? – de Persephone levantou do chão, e eu fiquei boquiaberta com o cachorro aos seus pés.

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— Pogo? — Eu me ajoelhei, e o cão preto-e-branco que Henry tinha me dado soltou um latido abafado por um bocado de manteiga de amendoim caseiro. Tropeçando em cima dele, ele correu em toda a casa e pulou em meus braços. Uma lambida na bochecha, e eu não conseguia mais segurar as comportas. Persephone pisou em torno de mim quando eu me agarrei a Pogo e chorei. Ela poderia me dar todos os olhares desagradáveis que ela quisesse; ela abandonou sua família uma eternidade atrás. Eu mal tinha começado a conhecer a minha. No momento em que os meus soluços terminaram, ela tinha uma caneca de chá me esperando na mesa da cozinha minúscula. Ela se sentou na cadeira à minha frente, e Adonis permaneceu perto, encostado na parede e arrastando os pés. Enquanto bebia meu chá com Pogo no meu colo, nenhum deles disse nada. Vários minutos se passaram, e eu não conseguia aguentar o silêncio mais. — Você não está com medo do que vai acontecer? — Eu disse, minha voz rouca depois da minha crise de choro. Persephone deu de ombros. — Eles estiveram em guerra com os Titãs antes. — Mas é diferente desta vez. Eles não têm Calliope, e Henry— O que houve com Henry? O que há de errado com ele? Com um suspiro, eu contei tudo o que aconteceu desde que ela deixou o palácio após a primeira batalha. A trama de Calliope para me sequestrar, os nove meses que eu passei como sua prisioneira, Milo, minha conexão com Cronus, o que eu prometi a ele e o que ele tinha prometido em troca - os ataques a Atenas e Egito, a luta de Henry pela a sobrevivência, o seu sacrifício para manter Milo e eu seguros. Tudo. — E agora eles estão indo para a maior batalha da história sem dois de seus lutadores mais fortes, sem nenhuma esperança real de sucesso. — Eu abracei Pogo, e ele lambeu a dobra do meu braço. Persephone tamborilou os dedos contra a mesa de madeira, com uma expressão distante. — E você vai passar o tempo todo aqui, nem mesmo tentando ajudá-los? — A única coisa que eu poderia fazer seria distrair Cronus e Calliope, e você ouviu a mãe. Ela não quer isso. — Se eu fosse você, eu estaria lutando contra o inferno para manter cada coisa boa que eu tive na minha vida, — disse Persephone. — Nem todos nós tivemos essa oportunidade. O relacionamento que você tem com a mãe, com Henry - vocês dois me fizeram uma tia, e você está sentada aqui como um nódulo ao invés de fazer tudo o que pode para tê-los de volta. — Você acha que eu quero sentar aqui? Se houvesse algo que eu pudesse fazer para ajudar, eu estaria fazendo isso, mas eu não posso— Como diabos você não pode. — Ela estreitou os olhos. — Pense, Kate. Basta parar e pensar. Você é a garota que caminhou por metade do Submundo para me alcançar na esperança que eu poderia saber onde encontrar Cronus, e você está desistindo agora? Eu não penso assim. 162


Ela e James estavam conspirando para me fazer sentir como um fracasso total? Eu abri minha boca para protestar novamente, mas ela levantou a mão. — Há sempre uma maneira de contornar um problema, e você tem meia hora para descobrir isso antes da batalha começar. Então me diga, Kate, depois de tudo o que você passou e tudo o que você já viu, você vai se sentar aí, ou você vai lutar? Eu tomei uma respiração profunda. Persephone estava certa; havia sempre uma solução. Havia sempre uma maneira de corrigir alguma coisa, mesmo que fosse difícil. Mesmo que fosse quase impossível. Tudo é possível se você der uma chance. A voz de Henry. As palavras de Henry. Ele acreditava em mim, mesmo que eu tinha há muito tempo desistido de acreditar em mim mesma. Pense. Pense. As armas. Barganha de Cronus. O layout do palácio. Nicholas. Persephone. Meus olhos se abriram, e as peças do quebra-cabeça encaixaram no lugar. — Eu sei o que fazer. Ela sorriu. — Já era a maldita hora.

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Capítulo 17 Posição Final Chegamos de braços dados no meio da floresta de Persephone. No momento em que o chão debaixo dos nossos pés se moveu, ela me soltou, mas eu não me importei. Pela primeira vez em muito tempo, eu sabia exatamente o que estava fazendo. Agarrando sua mão, eu arrastei Persephone por entre as árvores, em direção a uma garota ruiva cercada pelos animais mais mansos que eu já vi. Um cervo bebê descansava ao lado dela, um cantante robin estabelecido em seu ombro, e em seu colo ela aninhava uma ninhada de coelhos não muito maiores do que o meu punho. Persephone piscou. — Quem é aquela? — Deixe-me falar com ela, — eu disse, e uma vez que me aproximei o suficiente, eu gritei, — Oi, Ingrid. 164


— Ingrid? Quer dizer a primeira garota estúpida demais para descobrir como viver? — Disse Persephone, e eu dei uma cotovelada no seu lado. — Kate! — O grito de Ingrid ecoou, fazendo a parede de pedra na borda de sua vida após a morte óbvia. — Você realmente veio! Eu pensei que você estava apenas tentando ser legal, mas você está realmente aqui! — Sim, eu estou aqui. — Quando eu me ajoelhei ao lado dela para acariciar o fulvo manso, a floresta de Persephone derreteu em campo de flores doces de Ingrid. — Infelizmente não é para recuperar o atraso. O rosto de Ingrid caiu, mas antes que ela pudesse ficar muito chateada, Persephone falou por trás de mim. — Você não saberia como lidar com uma faca, não é? Ela puxou nervosamente uma mecha de cabelo. — Por quê? — Porque Cronus está prestes a destruir o mundo, e o conselho não tem muita chance contra ele, — eu disse. — Eles precisam de ajuda. Os mortos são as únicas pessoas que Calliope e Cronus não podem machucar, e eles têm uma sala cheia de armas que poderiam levá-los a cair. — Ou, pelo menos, Calliope. Se isso não funcionar em Cronus... Valia a pena tentar. Era a nossa única chance. — E você quer que eu te ajude? — Disse Ingrid. — Queremos todas as meninas para nos ajudar, — disse eu. — Persephone não sabe quem elas são, mas nós estávamos esperando que você saiba. Ingrid abaixou os coelhinhos e se levantou, limpando a sujeira do vestido branco que deve ter sido o auge da moda casual em 1920. — Como acontece, não só eu sei quem são, mas enquanto Henry estava tentando descobrir quem estava por trás dos assassinatos, ele me deixou encontrar com elas. É uma caminhada, mas eu posso te levar lá. Por fim, um pouco de sorte. — Nós não temos tempo para ir a pé. A batalha está prestes a começar, — eu disse. — Eu tenho uma maneira mais rápida, apesar de tudo. Com a ajuda de Ingrid, reunimos oito das outras dez meninas. Duas delas não tinham estado nas seções do Submundo que Henry tinha alocado para elas, e nós estávamos correndo contra o tempo. Oito teriam que servir por agora. Eu estava diante delas, arrastando os pés nervosamente. Porque Ingrid permaneceu ao meu lado, eu vi o prado na minha frente, mas cada vez que uma das outras meninas se aproximavam, o fundo mudava em suas pósvidas. Florestas, uma praia de areia branca, um tema de parque vazio, era bizarro, mas eu me forcei a ignorá-los. Enquanto as outras meninas poderiam me ver e umas as outras, isso era tudo que importava. — Sou Kate, — eu disse. — A esposa de Henry. A palavra parecia estranha na minha língua, mas teve uma reação imediata das meninas. Um sussurro percorreu o grupo, e as do fundo empurraram para uma posição melhor.

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— Isso é impossível. Você realmente passou nos testes? — Disse uma menina com cabelo castanho encaracolado. — Como sobreviveu e tudo mais? Eu segurei minha língua. É claro que elas achavam que era loucura. Calliope tinha matado todas e de cada uma delas. Depois de um tempo, mesmo Henry tinha pensado que seria impossível para qualquer um fazer isso. — Mal, — eu disse. — Eu tive sorte. — Não posso acreditar que era Calliope, — disse a mesma garota. — A cadela me apunhalou pelas costas e me jogou no rio. Eu pensei que fosse James. — Sim, bem, acontece que você não é tão inteligente, afinal, Anna, — disse uma menina de cabelos escuros do outro lado do grupo. O topo de sua cabeça mal alcançava meu queixo. A primeira garota - Anna - bufou. — Como se você fosse melhor, Emmy, insistindo que Ava estava por trás disso. — Ela dormiu com todos os outros deuses, — disse Emmy. — Não vejo por que ela não iria atrás de Henry, também. — Isso é o suficiente, — disse Persephone. — Deixem Kate falar. Pela terceira vez em uma hora, eu expliquei tudo o que estava acontecendo. Ninguém me interrompeu. — A batalha está prestes a começar, e nossos números estão diminuindo, — acrescentei no final. — Eu não pediria isso a qualquer uma de vocês se não estivéssemos desesperados, mas estamos. Precisamos de lutadores. — Eu não sei como lutar, — disse Emmy, e as outras meninas murmuraram em concordância. Anna, porém, estalou os nós dos dedos e deu um passo adiante. O fundo mudou para um jardim que colocaria Versailles no chinelo. — Uma chance de dar uma facada em Calliope? Conte comigo. Uma a menos, sete para ir. — Eu posso levar-nos para o castelo sem sermos detectadas, — disse eu. — Calliope e Cronus não podem feri-las. — Você tem certeza? — Canalizou uma voz de trás. — Não seja uma idiota, Bethany, — disse Anna. — É claro que ela tem certeza. — Eu tenho, — eu disse rapidamente. — Eu juro, se você fizer isso, você não estará em perigo. — É verdade, — disse Persephone. — Eu enfrentei Cronus e Calliope um ano atrás. Eles tentaram o seu melhor, mas eu ainda estou aqui. Nem um arranhão em mim. Outro murmúrio percorreu o grupo. — Você tem certeza que as armas irão funcionar também? — Disse Emmy. Eu hesitei. Não, eu não tinha certeza. Mesmo se uma de nós conseguisse acertar Calliope, eu não tinha ideia se isso funcionaria em Cronus. E se eles não estavam na superfície corpórea? E se fossem fantasmas, como se estivessem em minhas visões? — Nós temos que tentar, — eu disse. — Se nada mais, nós precisamos distraí-los tempo suficiente para ter Henry fora de lá. Precisamos dele ao nosso 166


lado. O conselho está em desvantagem de armamento, e se não encontrarmos uma maneira de ajudar, eles vão cair. Talvez não hoje, talvez não amanhã, mas, eventualmente, Cronus vai tirar o melhor deles. De nós, — acrescentei. — E Henry vai morrer com eles. Silêncio. Eu mudei meu foco de um rosto para o outro, à procura de qualquer sinal de que elas concordariam, mas nenhuma delas encontrou meu olhar. Antes que eu pudesse convencê-las de dar uma última tentativa, no entanto, Bethany chamou da parte de trás, — Conte comigo. — Eu também, — disse Emmy, e uma por uma, as outras também se ofereceram. — Obrigada, — eu disse. — Eu não posso te dizer o que isso significa paraCrash. A terra tremeu em torno de nós, e várias das meninas gritaram. Ingrid agarrou meu braço, e todas nós olhamos para o céu acima de nós. A maioria das almas não tinha ideia de onde estavam e pensavam que sua vida após a morte era a coisa real, mas as meninas de Henry sabiam a diferença. Elas sabiam que o calor do sol era uma ilusão, e além das nuvens fofas era o teto de uma caverna enorme. E foi por isso que elas eram as únicas que poderiam nos ajudar. O tremor diminuiu, mas isso não importava. A batalha era travada acima de nós, e nós não tínhamos tempo a perder. — Eu preciso de um quadro branco e um marcador, — eu disse, e várias delas olharam para mim sem entender. — Um negro e um pedaço de giz, então. Nove deles apareceram em torno de mim. Ilusão ou não, estar morto tinha suas vantagens. Esbocei o layout do castelo de Calliope o melhor que pude, marcando cada local importante – cela de Nicholas, berçário, sala de Calliope - tão precisa quanto eu poderia. Em três minutos, nós tínhamos um plano. Se desse certo ou não, pelo menos daria aos outros uma chance. Trazê-las para a superfície seria complicado, mas o buraco na caverna onde Cronus havia escapado da primeira vez ainda estava lá. Ele estava preso na ilha, mas eu testei a saída duas vezes. Eu poderia entrar e sair sem nenhum problema. — Você primeiro, — eu disse a Persephone. Ela olhou para a minha mão estendida como se fosse feita de ácido. — Como eu posso possivelmente ter certeza que você sabe como controlar? Você pisoteou as minhas tulipas. Revirei os olhos e agarrei seu pulso. O Submundo dissolveu, substituído pelas paredes brancas do meu quarto no castelo de Calliope. — Feliz agora? Fique aqui. Persephone olhou feio para mim, mas eu desapareci antes que ela pudesse me insultar ainda mais. Tomei duas garotas ao mesmo tempo, e dentro de um minuto, todas nós nos agrupamos no quarto. As meninas se mexiam, e mais do que alguns pares de

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olhos se arregalaram de terror quando uma onda bateu contra as falésias que protegiam o castelo. — Só mantenham o plano, — disse eu. — E o que você fizer, não se esqueça que ninguém pode te machucar. Nem Calliope, nem Cronus, ninguém. — Eles podem te machucar? — Canalizou a voz de Emmy. — Se fizermos isso, eu vou ficar bem, — eu menti. Ninguém podia prometer nada a ninguém, mas elas precisavam ouvir, e não era o meu trabalho contar a verdade agora. — Nós não temos mais tempo. Confiem em mim. Confiem em vocês. Eu abri a porta e me escondi no corredor, seguida por vários pares de pegadas hesitantes. Eu não olhei para trás para garantir que todas estavam nos seguindo. Elas tinham vindo; o melhor que eu poderia esperar agora era que sua coragem não as deixasse. O corredor entre meu quarto e o de Nicholas estava desconfiadamente vazio. Será que Calliope acreditava que ninguém poderia entrar no castelo, ou ela tolamente não se importava? Arrastei-me para frente, preparada para qualquer tipo de armadilhas que ela ou Cronus poderiam ter feito, mas nós chegamos ao quarto do Nicholas, sem interrupção. A porta, contudo, estava trancada. — Eu tenho que ir lá e pegar as armas, — eu disse, mas Emmy deu uma cotovelada em seu caminho através do grupo de meninas. — Deixe-me. Puxando um pino de cabelo dela, ela se ajoelhou ao lado da maçaneta. Ouvi por qualquer sinal de que alguém estava vindo, mas cinco segundos depois, a trava se abriu. — Fácil demais, — disse Emmy com um sorriso, e eu atirei-lhe um sorriso agradecido. Abrindo a porta, eu irrompi no quarto, totalmente esperando Calliope estar esperando por mim. Em vez disso, Nicholas sentava acorrentado à cadeira, cercado por sua oficina de armas. — Kate? — Disse ele, olhando através de dois olhos negros. O sangue escorria do lado do rosto de um corte feio na testa. Calliope deve ter estado aqui recentemente. — Persephone? — Olá para você também, meu irmão, — disse Persephone. Atrás dela, as outras entraram na oficina, os seus olhos arregalaram com a visão de Nicholas e a variedade de armas. Ajoelhei-me ao lado de sua cadeira e inspecionei as correntes brilhantes. — Eu não posso tocá-las, — disse em tom de desculpa. — Eu sei, — disse ele. — Não se preocupe comigo. Vá em frente e pegue Cronus. — Eu não vou deixar você para trás. Emmy, você pode desfazer esse bloqueio? Emmy se separou das outras e se juntou a mim, Persephone logo em seus calcanhares. — Isso é mais complicado, — disse ela. — Mas eu acho que posso fazer. — Experimente. 168


— Ela vai conseguir, — disse Persephone. — Vá em frente sem nós. Nós vamos tirar Nicholas daqui. — Obrigada, — eu disse, e Persephone dispensou a minha gratidão. — Eles são minha família também. Agora vá. Um choque de metal contra metal agitou o ar à nossa volta, e as outras meninas acalmaram. Eu tomei uma respiração profunda. Hora de ser uma líder. — Todas vocês sabem o que o que fazer, — eu disse com tanta confiança que eu poderia reunir. — Peguem uma arma infundida com nevoeiro, e vão dar-lhes o inferno. Anna soltou um grito e, agarrando um bastão, ela riscou para fora do quarto e subiu a escada estreita que levava ao resto do castelo. Uma a uma, as outras meninas seguiram, segurando espadas e bastões e outras armas que não consegui identificar. Esperei na porta até que seus gritos diminuíram. As chances delas terem sucesso eram pequenas, mas desde que a sua distração me desse tempo suficiente para resgatar Milo e Henry, então, pelo menos, os nossos esforços não seriam desperdiçados. — Parece que elas estão se divertindo, — disse Nicholas pesadamente. Ele sorriu. Vários de seus dentes estavam faltando. — Tenha esse bloqueio desfeito. Eu quero me juntar a eles. — Sim, claro, — eu disse, e eu limpei a faca brilhando com dentes em forma do gancho perverso restante. — Você tem sorte de estar vivo. Persephone me deu uma olhada. — Ele tem o direito de lutar por sua família, assim como você tem. Agora, pare de falar e vá buscar o seu filho. Reprimindo uma resposta, eu balancei a cabeça, e um segundo depois o berçário de Milo substituiu a oficina em torno de mim. Trovão ecoou pelo ar. O conselho tinha de estar perto. — Milo, — gaguejei, correndo em direção ao berço. Ele estava vazio. É claro que Henry não iria deixá-lo fora de sua vista durante a batalha, mas algo dentro de mim secou. Eu esperava tirar Milo de lá e deixá-lo em segurança com Adonis antes de encontrar Henry, mas claramente não ia acontecer. Virei-me para sair a pé, mas ao invés disso eu bati de cara em um corpo quente e caí no chão. Meu coração quase parou. Calliope esperava isso? Ela estava deitada aqui em espera enquanto Cronus distraia todos os outros? Segurei a faca com dentes em forma de gancho, totalmente preparada para usá-la. — Kate? Não Calliope. Ava. — Onde ele está? — Eu disse, lutando com meus pés. Ela bloqueou o meu caminho para fora, as bochechas pálidas e os olhos arregalados. Claramente ela não tinha me esperado. Bom. Isso significava que Calliope provavelmente também não. — Milo? — Disse ela. — Ele está com Henry. — E onde é isso? Ava mordeu o lábio. — Eu não posso te dizer. Calliope vai te matar.

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— Não se eu levá-los para longe dela antes que ela saiba que eu estou lá, — eu disse. — A menos que você decida contar a ela. — O quê? É claro que eu não iria, — disse ela, atordoada. — Eu estou do seu lado. — Então me diga onde Henry e Milo estão. Ela engoliu em seco, os olhos vermelhos e brilhantes de lágrimas. — Ela vai matar todos nós. Eu, você, Henry, Milo, Nicholas— Persephone e Emmy estão soltando-o de lá enquanto falamos, — disse eu. — Ele vai ficar bem. — Emmy? Quer dizer a garota que Henry— É uma longa história. Ava hesitou, e finalmente sua expressão endureceu. — Venha. Vou levá-la lá. Sirenes de alarme dispararam no fundo da minha mente. — Por que eu deveria confiar em você? — Porque nós fomos amigas uma vez, — disse ela. — E porque eu iria querer alguém para me ajudar a proteger o meu filho, se as nossas posições fossem invertidas. Certo. Ela tinha mencionado seu filho antes, e enquanto eu acreditei nela, parecia terrivelmente conveniente que ela o trouxesse agora. — Você nunca me falou sobre ele. — A eternidade é muito tempo para cobrir entre as classes, — disse ela. — O nome dele é Eros - Eric agora, eu suponho. Você vem? Procurar quarto por quarto do castelo levaria muito tempo, e pelo que eu sabia Henry e Milo estavam em um lugar que eu nunca seria capaz de encontrar sozinha. Então, antes que eu me desse tempo para pensar nisso, eu assenti. Corremos pelos corredores, e eu tentei ignorar as nuvens negras rolando através das janelas e a colisão de tremer os ossos de água contra a rocha. O conselho estava se aproximando. Talvez tivéssemos uma chance, depois de tudo. — Onde eles estão? — Eu gritei por cima do barulho, e Ava correu até a escada, me puxando junto com ela. A faca de gancho quase escorregou da minha mão, mas eu abracei-a para o meu peito. Eu não podia perdê-la. — No telhado com Calliope e Cronus, — disse Ava. Meu coração se afundou. Persephone deveria cobrir essa área, mas ela estava, sem dúvida, ainda com Nicholas. Se nenhuma das outras meninas tinha chegado lá em cima ainda depois de limpar suas seções do castelo, tudo seria por nossa conta. Não importava. Milo e Henry estavam no telhado, e eu teria ido lá em cima tão nua e mortal, como o dia em que nasci, se isso significasse ter a chance de salvá-los. Segui Ava, sem dúvida. Ela poderia estar me levando direto para a minha morte, mas eu desesperadamente queria acreditar que a Ava que eu conhecia e amava estava ali em algum lugar, disposta a dar-lhe tudo e arriscar sua vida para 170


o bem maior. Ela não teria me desviado, e eu tive que acreditar que esta Ava não faria também. A porta para o telhado apareceu, e eu respirei. Iria descobrir em breve, de um jeito ou de outro.

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Capítulo 18 Derramamento de Sangue

Nós entramos ao ar livre, o céu da tarde mais negro que a noite. O ciclone que tinha sido Cronus se foi, espalhado por todo o céu e lutando contra pontos de luz que pareciam estrelas. O conselho. Eu abaixei minha cabeça. Se minha mãe me visse e ficasse distraídaIsso tinha que ser um risco que eu estava disposta a assumir. Minha mãe era forte. Ela não deixaria Cronus obter o melhor dela. Se eu tivesse qualquer chance de obter através disto, eu não podia duvidar dela. Eu não podia duvidar de mim mesma. Calliope estava à beira do telhado, seu cabelo chicoteando no vento e com a cabeça inclinada para cima em direção ao coração da batalha. Henry estava ao seu lado, com os braços protegendo um pacote de cobertores brancos dos grãos de 172


areia que cortavam o ar como balas. O que ele estava fazendo, trazendo Milo aqui em cima? Eu empurrei de lado meus protestos. Milo era imortal, e não havia lugar mais seguro para ele do que com Henry. Eu não podia me distrair. — Calliope, — eu gritei. Minha voz estava quase perdida para o vento, mas ela me encarou, as sobrancelhas erguidas em surpresa. — Então, você realmente é tão estúpida como eu pensei que você fosse, — disse ela enquanto ela caminhava em direção a mim, deixando Henry e Milo para trás. — Veio para morrer? — Não é bem assim. — Eu agarrei a faca com gancho. Tinha que ser tão boa quanto sua adaga. — Deixe Henry e Milo irem. Isso é entre você e eu. Os olhos de Calliope se arregalaram inocentemente. — Henry está livre para sair quando quiser. Não é minha culpa se ele me escolheu em vez de você. Meu sangue ferveu. — Qual é a sensação de saber que a sua realidade não é nada mais do que uma fantasia que você inventou e chantageou o seu caminho? Ninguém te ama. Nem o seu marido, nem seus filhos, nem seus irmãos ou suas irmãs, ninguém. O ar ao redor dela estalou com raiva. — Você acha que eu me importo? Eu ganho, Kate. Eu tenho tudo o que eu sempre quis, e logo todo mundo que você ama vai estar morto. Você vai passar a eternidade sozinha, e ninguém vai estar lá para salvá-la mais. — Não é sobre ganhar. — Eu dei um passo em sua direção. — Mesmo que você nunca deixe Henry ir, em algum lugar dentro dele, ele sempre vai me amar porque ele quer, porque somos bons juntos. Não porque Ava obrigou-o. E não importa quão sozinha eu estiver, eu sempre vou ter o conforto de saber que pelo menos alguém no mundo me ama, porque eles querem. Mas você – você não é nada, só uma vadia hedionda, solitária, mal amada, e isso é tudo o que você vai ser. Calliope gritou e voou em direção a mim. Nos poucos segundos que tínhamos, Ava tentou me empurrar para trás, mas eu esquivei dela e corri para Calliope, segurando a faca em gancho. Eu tinha uma chance, e eu estava muito bem em usá-la. Nós colidimos, imortal contra imortal, e a força quase me fez voar. Suas unhas arranharam meu rosto, seus gritos de raiva soaram em meus ouvidos, mas suas mãos estavam vazias. A minha não estava. — Eu vou bater o seu rosto bonito tanto, — rosnou Calliope. — Uma vez que eu terminar, eu irei fazer o seu filho ver como eu retiro seus olhos e retiro a pele do seu corpo. E talvez, uma vez que você não for nada mais do que um pedaço de carne trêmula, eu poderia deixar vocêEla arregalou os olhos, suas palavras cortaram curtas quando eu afundei a faca em gancho em seu lado. — Você pode o quê? — Disse. — Você pode me deixar morrer?

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Calliope caiu de cima de mim, com a sobrancelha franzida em confusão. Ela olhou para a faca saindo do lado dela. — Como você— As armas que Nicholas fez, — eu disse. — Você não é a única com cérebro, você sabe. Ela puxou a faca, fazendo uma careta quando o gancho rasgou sua pele à parte, fazendo mais dano para sair do que tinha feito ao entrar. Sangue encharcou através de seu vestido azul pálido, e ela soltou a lâmina no chão com um barulho. — Mas... Seus olhos ficaram em branco, e sem dizer uma palavra, ela entrou em colapso. Olhei para o seu corpo, e da forma como as minhas mãos tremiam e não tinha nada a ver com o vento cortante. Após dois anos e meio de luta para permanecer viva em seu rastro, era isso. Eu tinha feito isso. Parecia muito fácil. Eu chutei seu corpo para ter certeza, e quando ela caiu como um peixe morto, eu cambaleei para trás. Eu a tinha matado. Eu realmente, realmente a matei. Eu era uma assassina. Foi justificado, mas ela não tinha a adaga dela. Eu poderia ter-lhe dado uma escolha, e ao invés disso eu tinha a matado a sangue frio. Como isso me fazia melhor do que ela? Eu não era, não mais. Apertando meu queixo, eu me virei. Eu teria tempo para me odiar mais tarde. Calliope podia estar morta, mas a nuvem rodopiante de desgraça em cima não tinha parado. — Henry! — Eu gritei. Abandonando o corpo de Calliope, corri em direção a ele através das violentas rajadas. — Você precisa pegar Milo e sair daqui. Ele olhou para o céu, e no começo eu pensei que ele não tivesse me ouvido. Quando abri minha boca para me repetir, no entanto, ele se virou para mim, seus olhos brilhando ao luar. Por um momento eu pensei que eu vi um lampejo de algo atrás deles, mas ele desapareceu. — Vá embora, Kate, — ele disse, sua voz soando como mil deuses falando todos ao mesmo tempo. Eu fiquei boquiaberta para ele com horror. — Você - você está ajudando Cronus? — Você não deveria ter vindo. — Sim? Quando isso jamais me parou? — Estendi a mão para Milo. — Se você não vai levá-lo para a segurança, então eu vou. Ele levou o bebê longe de mim, e um nó se formou em minha garganta. Aquilo não podia estar acontecendo. Henry deveria ter estado em algum lugar, esperando por isso, à espera do momento em que ele poderia finalmente se libertar. Mas eu só vi o rosto branco de uma poderosa divindade. Não Henry. Não a minha família. — Ava! Tudo o que você está fazendo para Henry, pare com isso! — Eu gritei por cima do barulho ensurdecedor. Nenhuma resposta. Olhei por cima do ombro.

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Ava olhou para mim, com a boca pendurada de queixo caído e os olhos arregalados de medo, e me levou um momento para descobrir o porquê. O corpo de Calliope tinha ido embora. A risadinha feminina ecoou pela tempestade, misturando-se com o vento brusco e à queda de ondas subindo cada vez mais. Eu congelei. Como foi possível? Eu a assisti morrer. — A coisa engraçada sobre essas armas, — disse Calliope, e virou-se novamente. Ela estava ao lado de Henry, seu braço em volta dos ombros dela do jeito que ele sempre me segurou. Sua adaga flutuava no espaço entre nós. — Elas foram descartadas porque não funcionaram. Atrás de mim, alguém gritou, e a lâmina brilhante arremessada em direção a mim. Subi em giro para trás na esperança de que iria voar por mim, mas seguiu meus movimentos, sem perder uma batida. Minhas costas bateram em algo sólido. A aresta do telhado. A adaga pressionada contra a minha garganta, e eu me inclinei para trás o máximo que pude, sem cair. — Henry, — eu disse. — Por favor. — Não dê ouvidos a ela, Henry, — disse Calliope com uma voz enjoativamente doce. — Ela é o inimigo, lembra? Você é fiel a mim. — Só porque ela está usando seus poderes contra você. — Engoli em seco no ar corajoso. — Vamos, Henry, você é mais forte do que isso. — Sim, Henry, — gritou uma voz do outro lado do telhado. Persephone. Com o canto do meu olho, eu vi quando as outras meninas se juntaram a ela. — Eu pensei que você fosse melhor que isso. — Persephone? — Henry franziu a testa. — O que você— Não dê ouvidos a ela, — disse Calliope. — Você me tem agora. Henry a balançou fora, e ele deu um passo em direção a Persephone e sua turma de meninas. — O que vocês estão fazendo aqui? — Resgatando sua bunda, — disse Anna, balançando sua clava. — E, derrubando esta cadela. Ela soltou um grito de guerra, e as meninas decolaram em todo o telhado, indo direto para Calliope e Henry - e Milo. — Parem! — Eu gritei. Meus gritos não foram ouvidos, porém, e elas só aceleraram. — Henry, saia daqui! Pegue Milo e vá! Ele me ignorou e olhou para as meninas como se ele nunca tivesse visto nada tão estranho em sua vida. Ao lado dele, Calliope acenou com a mão, e a adaga voou do meu pescoço para diretamente acima do meu coração. A ponta da lâmina escavando na minha pele, e eu estremeci quando uma gota de sangue manchou minha camisa. — Por favor, — eu implorei. — Basta ir. O som de torção de metal abafou as minhas súplicas, e meia dúzia de vozes perplexas subiram acima do tumulto. Embora ele estava lutando uma batalha muito acima de nós, o nevoeiro que era Cronus criou uma barreira na frente de Calliope, protegendo-a. Persephone e as outras meninas empurraram contra ela, 175


morrendo de indignação. Suas armas atingiram o nevoeiro de novo e de novo sem sucesso. — Ao redor, — comandou Persephone, e as outras se dispersaram. Não importava para onde se movessem, porém, elas não poderiam estar mais próximas. Calliope sorriu. — Aqui está o negócio, Henry. — Ela colocou a mão em seu braço, e ele esquivou. Ele estava de volta agora? Ele veio para os seus sentidos? — Você vai enviar todos estes muito pequenos incômodos de volta de onde vieram, e talvez eu não vá matar Kate. A lâmina cavou em meu peito, ampliando a ferida, e eu engasguei com o fogo de um Titã espalhando através de mim. Henry ficou tenso, mas logo que tinha chegado, o medo foi substituído pela máscara de impassibilidade que ele usava quando ele estava sofrendo mais. Ele estava lá. Será que Calliope saberia? Teria ela o deixado ir de propósito? — O que vai ser, Henry? — Disse ela. — Eu não iria pensar muito tempo sobre as opções se fosse você. Mais fundo agora, através de cartilagem e osso, até que estava meio milímetro de distância de perfurar meu coração. Luz explodiu na minha frente, e o suor escorria pelo meu rosto quando o nevoeiro se espalhou por mim, garantindo um estrangulamento no que restava da minha vida. Sinto muito. Henry acenou com a mão, e Persephone e as outras desapareceram, as armas inúteis caindo no chão em um barulho. O sangue escorria pelo meu peito, e eu não conseguia desviar o olhar de Henry. Não importava que Calliope tinha cortado sua lealdade a mim; ela não tinha cortado a minha. — Faça isso, — rosnei, convocando o restante da minha força. Complexo mártir ou não, talvez isso fosse suficiente para Henry levar Milo para a segurança. — Atreva-se. Um grito rasgou o vento uivante. Nicholas entrou pela porta do telhado, e Ava se lançou sobre ele, beijando seu rosto roxo e capturando-o em um abraço. Mesmo que nenhuma outra parte do meu plano tivesse funcionado, pelo menos tínhamos libertado Nicholas. Pelo menos demos a Ava uma razão para lutar conosco. — Que bonito, — disse Calliope. — A reunião antes de Cronus enviar todos no esquecimento. Nicholas se endireitou e segurou Ava protetoramente. — Você nunca vai ganhar, — disse ele. — Cronus poderia matar todos nós, e você ainda só será a segunda. Calliope rosnou, e imediatamente vi o efeito que suas palavras tinham sobre ela. Seus punhos apertaram, sua mandíbula apertou, e a face corou. Em sua distração, o punhal escapou de meu peito. De olho na lâmina, eu mudei lentamente para o lado, na esperança de que ela não notasse. — Ser o meu filho só vai comprar certa clemência, — disse ela. — É assim que você quer gastá-la? 176


— Clemência? É isso que você chama o que você fez com ele? — Ava encolheu fora do braço de Nicholas e saiu em direção a Calliope. Sem ela, Nicholas cedeu e caiu contra a parede, com as pernas tremendo tanto que era uma maravilha que ele pudesse se levantar ainda. Calliope a encontrou no meio do telhado, nariz com nariz. — Você está nisto tão profunda como eu estou. Esqueça o que você fez para Kate - você esteve traindo o conselho desde o início. Você acha que eles vão estar dispostos a perdoá-la por isso? — Disse ela, com um brilho malicioso em seus olhos. — Você está morta de qualquer maneira. Ava sorriu. — Estou aqui porque o papai me pediu para vir. Ele sabia de tudo o tempo todo. E, o porque eu te ajudei com Kate- — Seu sorriso desapareceu, e ela olhou para mim. — É porque o papai sabia que não podia ganhar a guerra sem Henry. Mesmo o seu próprio marido está contra você. Calliope assobiou, a aura dourada ao seu redor quase cegando agora. — Você acha que eu me importo porque você fez isso? Foi o que aconteceu. Acabou. Por causa de você, eu ganho. Henry me ama, não ela. Não mais. — Essa é a melhor parte, — disse Ava. — Henry não te ama, você é tola. Ele nunca amou. Ele estava fingindo o tempo todo. Eu respirei fundo, e Calliope virou para encará-lo. — Isso é verdade? — Ela exigiu. Os lábios de Henry formaram uma linha fina, e ele deu uma olhada de repreensão em Ava. Isso era tudo o que eu precisava para confirmação. Calliope não tinha roubado ele de mim, depois de tudo. Ele ainda era o meu Henry. Vá. Eu empurrei o pensamento tão duro quanto eu poderia, em sua direção. Se você não for agora, ela vai matar Milo. Eu vou ficar bem. Ele hesitou. Calliope estava gritando com ele, mas suas palavras se tornaram nada mais que o ruído de fundo quando a sua voz me cercou. Você precisa vir com a gente. Eu não posso. Sim, você pode. No momento em que eu sair, Calliope vai tentar matá-la. Eu não vou sair até que eu saiba que você está segura. Olhei em volta do telhado. Ava ainda estava aqui. Nicholas ainda inclinado impotente contra a parede, quase inconsciente e espancado dentro de uma polegada de sua vida. Eu não podia deixá-los, mas Henry estava certo, não havia nada impedindo Calliope de me matar agora, não com Cronus em batalha. Ok. Henry exalou. Encontre-me no quarto no Olimpo. Eu vou. Uma pausa. Ava está dizendo a verdade. As palavras me envolveram, uma pomada contra toda a dor que Cronus e Calliope tinham me causado. Tinham causado a ambos. Eu sei. Temos que ir. Você em primeiro lugar. Fechei os olhos, e um segundo depois, a sensação familiar correu através de mim. Quando abri os olhos, eu estava no quarto do sol que eu tinha 177


compartilhado com Henry, e eu prendi a respiração. Ele tinha que vir. Ele não iria quebrar uma promessa como essa, não com a segurança de MiloUm grito feio ecoou pelos céus. Calliope. Pânico se apoderou de mim, mas antes que ele tivesse tempo, em conjunto, Henry e Milo apareceram. Eu joguei meus braços ao seu redor, quase chorando de alívio. — Você está seguro. — Assim como você está. — Henry apertou os lábios na minha testa, mas a nossa reunião não durou mais do que alguns segundos. — Eu tenho que voltar. — Você - o quê? Henry entregou Milo para mim, e eu congelei. Os olhos azuis do bebê estavam bem abertos, e ele acenou com os pequenos punhos, me observando. Esperando por mim para finalmente pegá-lo. Eu ansiava por abraçá-lo, mas no momento em que o tocasse, eu sabia que nunca seria capaz de deixá-lo novamente. E nós tínhamos uma guerra para ganhar. — Vá em frente, — disse Henry em voz baixa, e eu balancei a cabeça, apertando minhas mãos atrás das minhas costas. — Ele precisa de você. — De você também, — eu disse grossa. Recusar o meu filho foi a coisa mais difícil que eu já tinha feito, mas eu tinha que fazer. — Eu não vou pegá-lo, Henry. Nós sustentamos o olhar um do outro, e eu me recusei a recuar. Querendo ou não admitir, ele sabia como isso ia acabar. E nós não tivemos tempo para discutir. Finalmente Henry suspirou, e um berço apareceu entre nós. Sem olhar para longe de mim, ele colocou suavemente o bebê dentro, colocando o cobertor em torno dele. Uma vez que Henry ajeitou, peguei a mão dele, segurando-o com um aperto de esmagamento. — Eu vou com você. Henry fez uma careta. O confronto ensurdecedor da batalha se desenrolava abaixo de nós, e cada segundo que ele não estava lá era mais um segundo em que podíamos perder. — Kate, eu preciso. — Se você for, eu vou. — Eu não posso arriscar você. — E eu não posso arriscar você. Somos uma equipe. Nós trabalhamos juntos. De agora em diante, ninguém fica para trás, e ninguém faz algo estúpido, sem consultar o outro em primeiro lugar. Um músculo em sua mandíbula se contraiu. — Se você voltar, Calliope fará tudo em seu poder para matá-la. — Eu sei. — Eu inclinei meus ombros e convoquei todo último pingo de coragem que me restava. — Eu nasci mortal. Eu sempre soube que ia morrer, e eu não tenho medo. Mas eu tenho medo de te perder. Estou apavorada com da ideia da eternidade sem você. — E eu você, — ele disse calmamente. — Milo— Se algo acontecer comigo, então você vai voltar para cuidar dele, — eu disse com firmeza. — E se algo acontecer com você, eu vou fazer o mesmo. Eu prometo. Ele não estará sozinho.

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Henry hesitou, e os sons da batalha ficaram mais altos. Nós não tínhamos tempo para isso. — Henry, eu te amo. Eu não estou pedindo a sua permissão. Eu estou pedindo que você me diga o que eu posso fazer para ajudar. Ele abriu a boca, mas antes que pudesse dizer uma palavra, eu o interrompi novamente. — Além de ficar aqui. Ele conseguiu um leve sorriso para isso. — Somos uma equipe, você disse? — Uma equipe. — Toquei seu rosto. — A partir de agora até o fim. Se isso é hoje ou em um milhão de anos, estamos juntos nessa. Um longo momento passou. Seus olhos presos nos meus, e o ar parecia parado em torno de nós. Em seu berço, Milo fez outro som suave, e Henry esvaziou. — Há uma coisa que você poderia fazer para ajudar. — Qualquer coisa. Ele colocou sua mão sobre a minha, e eu soltei meu aperto em seu pulso antes de enfiar os dedos nos dele. — Você viu o jeito que Cronus vacilou quando as meninas o atacaram? Eu balancei minha cabeça. — Eu não posso dizer o que ele está fazendo naquele nevoeiro. — Ele estava distraído. O suficiente para nós chegarmos mais perto. — Ele apertou minha mão. — Eu preciso de você para buscar as meninas do berçário e fazer tudo o que puder para desviar a atenção dele para o telhado. Se você fizer isso, podemos ter uma chance. Um sorriso se espalhou pelo meu rosto. — Você não as enviou de volta para o Submundo? — Claro que não. Foi uma ideia brilhante. — Ele se inclinou para roçar os lábios contra os meus. — Agora vamos ganhar esta guerra. Eu o beijei de volta. — Juntos. — Juntos. *** Cheguei sozinha no corredor pavão e dourado fora do berçário. Henry supostamente apareceu no telhado, mas mesmo que eu tenha forçado meus ouvidos, eu não ouvi quaisquer sinais de que a maré da batalha havia mudado. — Já era a maldita hora, — disse Persephone quando abri a porta do berçário. As outras meninas moídas atrás dela. — Sinto muito, — eu disse. — Precisamos— Nós sabemos, — disse Ingrid, batendo em sua têmpora. — Henry já nos informou. Certo. — Então vamos jogar com um Titã.

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Corremos para o telhado, e eu subi as escadas de dois em dois, cada osso do meu corpo atraído por Henry como se fossem ímãs. À medida que estouramos através das portas, no entanto, derrapamos até parar. Ava e Calliope estavam no centro, a apenas alguns centímetros de distância. Ava brilhava magenta, Calliope ouro, e Cronus rodava atrás delas, um funil enorme de energia pura. Henry não estava lá. Ele tinha ficado no Olimpo? Não, eu não tinha tanta sorte. Olhei para cima. Os raios de luz eram mais escuros do que antes. O conselho estava perdendo. Mas um outro apareceu, mais brilhante do que os outros, e a neblina parecia se partir para dar lugar a ele. Henry se juntou à batalha. — Vão! — Eu gritei, e as meninas se lançaram para frente, pegando suas armas quando elas chegaram até elas. Elas não poderiam ter sido fatais, mas onde quer que se conectassem com o nevoeiro, brilhavam, e uma chuva de faíscas irrompia pela escuridão. — Eu vou matar você. — A voz de Calliope parecia ampliada, mais alta do que o trovão. — Uma vez que eu ganhei, vou te esfolar viva e vê-la sangrar. A risada de Ava arrastada pelo vento filtrou através do ar. — Você nunca vai ganhar. Você merece o pior do que desaparecer. Você merece ter seu nome apagado da história, e eu vou ter certeza de que isso aconteça. Você é patética agora, mas espere - uma vez que eu terminar, você vai ser nada. Com todo mundo distraído, eu contornei as deusas brilhantes, procurando a adaga. Não estava nas mãos de Calliope, o que significava que tinha que estar por aqui. Talvez ela estivesse escondendo-a no bolso, mas com a forma como ela e Ava estavam indo, ela teria dado uma facada nela agora se tivesse com ela nas proximidades. Vamos lá, vamos lá, tinha que estar por aqui em algum lugarLá. Avistei a adaga brilhando no chão, perto da borda do telhado, onde eu estava apenas alguns minutos antes. Pegando-a do chão, eu me virei em direção a Calliope. Era agora ou nunca. Corri em todo o telhado, segurando a adaga como um picador de gelo. Calliope estava tão envolvida em sua discussão com Ava que ela não me viu chegando, e eu bati nela. O brilho dourado desapareceu enquanto ela caiu debaixo de mim, batendo no chão duro. Eu a fixei no lugar com os meus joelhos. Por um momento eterno, nós olhamos uma para a outra, a minha satisfação cruel refletindo como horror em seus olhos. Eu levantei a adaga. Desta vez, eu não hesitaria. — Pai! — Ela gritou no instante em que enfiei a arma em direção a seu pescoço. Mesmo que a palavra ainda estava deixando os lábios, um punhado de nevoeiro apareceu, e o tempo pareceu parar ao nosso redor. Quanto mais eu chegava perto, mais difícil era para me mover, e a adaga parou completamente a meia polegada de sua garganta. Não importava o quanto eu tentasse, não se mexia. — Boa tentativa, Kate, — disse Calliope com um sorriso de escárnio. — Pena que é tudo o que você sempre será capaz de fazer. 180


Uma rajada de vento me atingiu, rasgando a lâmina da minha mão. Com um grito, eu voei através do ar e aterrissei com força nas minhas costas, quebrando o telhado de pedra abaixo de mim. O nevoeiro atravessou a ferida no meu peito, e eu gemi. — Então é assim que termina, — disse Calliope, e ela pegou a adaga. — Eu diria algo espirituoso, mas você apenas não vale a pena. Eu fechei os olhos e um grito enfurecido encheu o ar, misturando-se com a queda do oceano até que eu não conseguia mais distinguir um do outro. Era isso. Este era o fim. Um segundo. Dois segundos. A dor nunca veio. Um suspiro coletivo ecoou em todo o telhado e através do céu, como se todo o mundo tivesse perdido o fôlego ao mesmo tempo. Finalmente eu tive que olhar. Calliope estava perto de mim, mas sua mão estava vazia; a faca tinha sumido. E entre nós Ava se agachou, o cabo do punhal enterrado diretamente acima de seu coração.

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Capítulo 19 Luz

Atrás de mim, Nicholas gritou, e sua dor subiu acima do vento. Os pontos de luz no céu estranhamente negro ecoaram sua dor, e finalmente eu entendi. — Ava? — Quando ela caiu no chão, eu me arrastei para o lado dela. Minha mão pairou sobre a ferida. Era profunda demais para não ser fatal, a menos que eu tirasse a adaga antes da névoa pode penetrar o coração dela. Eu poderia, sem tornar pior? Não era muito uma escolha. Se não o fizesse, ela iria morrer com certeza. Eu agarrei o punhal. — Isso vai doer. Lentamente, eu puxei-o para fora, e os gritos dela quebraram o clamor da batalha. Assim que a lâmina estava livre de seu peito, eu pressionei a minha mão

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contra a ferida, desejando que o sangue parasse de fluir. Ela não podia morrer. Não depois de tudo isso. — Sinto muito, — ela ofegava, os olhos avermelhados. — Eu pensei - eu pensei que era o melhor, eu pensei— Você não fez nada errado. — Seu rosto nadou na minha frente, e eu pisquei rapidamente. — Obrigada. Eu sinto muito por ter duvidado de você. — Você - me perdoa? — Ela sussurrou. — É claro. — Eu pressionei meus lábios em sua testa. — Eu te amo. Um filete de sangue escapou do canto de sua boca. — Termine isto, — disse ela, quase inaudível. Por um momento horrível eu pensei que ela queria que eu a matasse, mas ela colocou os dedos frios sobre o meu punho, aquele que segurava a adaga, e eu entendi. Olhei por cima do meu ombro. Calliope olhava para Ava, e apesar de toda a sua postura, choque inegável espalhado por seu rosto. Por quê? Não era isto exatamente o que ela queria fazer? Não, isso foi um acidente. Ela não tinha apontado para Ava. Ela estava apontando para mim. De qualquer maneira, eu não podia me dar ao luxo de darlhe a oportunidade de construir suas defesas. Atacando, eu fui para o tornozelo, e sombria satisfação encheu-me quando a lâmina cortou a pele e osso. Desmoronando no chão, ela gritou, um som angustiante horrível que ressoou através de cada célula do meu corpo. Com força sobre-humana, ela agarrou a minha mão, lutando para desalojar o punhal. — Acabou, Kate. Deixe ir. Quando ela tentou tirar a lâmina de mim, cortou a palma das mãos dela, e seu sangue fluiu livremente pelo meu braço. Seus dedos cavaram por baixo da minha mão, e ela começou a erguer o punhal solto da minha mão. — Você realmente não sabe quando parar, não é? — Ela disse com aquela voz de menina. Só mais alguns segundos, e ela saberia. Gritei quando o punhal começou a escorregar de meu aperto sangrento, e as lágrimas de frustração riscando pelo meu rosto. — Eu vou ter Henry de volta, e Callum será meu. Ele é meu filho, não o seu, e não há nada que você possa fazer sobre isso. Eu vou ter certeza que quando ele ouvir seu nome, ele saberá que você o abandonou. Vou me certificar de que ele saiba que você nunca o amou. Eu vou ter certeza que ele te odeie mais do que ele odeia qualquer pessoa noEu rugi, meio cega de raiva. Minha mão deslizou por ela, e entre nós, algo fez um som molhado doentio. Ela dobrou e ficou rígida, os olhos arregalados com o choque. Respirando pesadamente, eu tentei empurrá-la de cima de mim, o meu punho ainda enrolado no cabo do punhal. Alguma coisa estava errada, embora, quando eu tentei puxar de volta, o punhal resistiu e Calliope dobrou seu corpo ao redor do meu braço. Seus gritos viraram gorgolejos, e ela rasgou meu cotovelo com o pouco de força que lhe restava. A arma escorregou da minha mão, e ela caiu, arranhando seu peito. 183


Subi de volta. O cabo de prata preso fora de seu peito em um ângulo de lado, por meio de seu esterno e apontando diretamente para o seu coração. O sangue jorrava da ferida, e ela convulsionou, a aura dourada ao seu redor desvaneceu, até não sobrar nada. — Você- — ela disse, mas o resto de suas palavras morreu junto com ela. Seu corpo ficou imóvel e seus olhos me encararam, vazios e sem ver. — Não, — eu sussurrei. — Você fez isso a si mesma. Tudo de uma vez, o céu explodiu, e luz branca explodiu em meio à escuridão. O barulho da guerra deu lugar a um coro das vozes mais bonitas que já ouvi, e debaixo de mim, o corpo de Calliope começou a brilhar novamente. Corri de volta para o lado de Ava e peguei sua mão. Nicholas se juntou a nós, e apesar das grossas lágrimas rolando pelo seu rosto, ele estava sorrindo. As nuvens negras reformaram em um funil, e ficaram menores e mais concentradas até que a escuridão formou um homem. Cronus. — Rhea! — ele gritou, sua voz em todos os lugares ao mesmo tempo. A luz branca tomou forma também, e Rhea desceu do céu. Ela ainda usava a forma da menina que tinha estado na África, mas, apesar de sua estatura, ela irradiava poder. Passando por Cronus como se ele nem estivesse lá, Rhea se ajoelhou ao lado do corpo vazio de Calliope. — Minha filha, — ela sussurrou. Ao seu toque, o sangue desapareceu, e a faca caiu no chão, sem graça e vazia de poder Titã. — O que aconteceu com você? Limpei meus olhos, manchas de sangue no meu rosto. O peso esmagador do que eu tinha feito me atingiu, e meu corpo cedeu sob a pressão. Eu tinha matado sua filha. Tudo o que eu temia que Calliope fizesse para Milo, eu tinha feito para Rhea. Eu realmente era uma assassina. Eu não tinha a intenção de fazê-lo embora - eu só fui me proteger. Calliope foi a única que não tinha desistido. Ela foi a única que tinha ido atrás de mim. Ela foi a única que tinha começado tudo isso. Se eu tivesse a chance de fazê-lo novamente, porém, eu teria. — Sinto muito, — eu disse grossa. — Eu não tive escolha. Uma lágrima de prata rolou pelo rosto de Rhea. — Não, eu suponho que você não teve. Um por um, os outros deuses se juntaram a nós no telhado, não impedidos por Cronus. Eles não foram para Calliope e Rhea, embora; em vez disso, apareceram em um círculo em torno de Ava, Nicholas e eu. Walter chegou primeiro, e ele sentou-se no telhado rachado ao meu lado, puxando a cabeça dela em seu colo. Ele acariciou o cabelo dela, sussurrando palavras que eu não conseguia ouvir, e Ava sorriu fracamente. Uma estranha luz emanava de suas mãos, e eu sabia sem perguntar que de alguma forma ele estava mantendo-a viva.

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— Por favor, mãe, — disse Walter, com a voz embargada. Eu nunca o tinha visto chorar antes. — Você não pode salvar a sua filha, mas você pode salvar a minha. Rhea cresceu ainda. — O que está feito está feito. Minha filha escolheu este caminho, e assim fez a sua. O mundo ao meu redor se estreitou até tudo o que eu podia sentir era a mão de Ava na minha, esfriando a cada segundo. Não. Não. Estava completamente dentro do poder de Rhea salvar Ava. Ela tinha que fazer. — Você não pode simplesmente deixá-la morrer. — Eu me esforcei para ficar de pé, mas alguém colocou as suas mãos sobre os meus ombros, me segurando. Henry. — Tudo o que ela estava tentando fazer era parar Cronus. Ela estava fazendo o que você não faria. Rhea não disse nada. Cronus ajoelhou-se ao lado dela, e apesar de sua expressão ser sem emoção, ele tocou o rosto de Calliope. — Por favor, Cronus, — eu implorei. — Ava não tem que morrer. Ele olhou para mim, e naquele momento, eu me permiti esperança. Talvez depois de todo esse tempo, ele tenha ganhado um pingo de humanidade. Sem dizer uma palavra, ele fez um gesto em direção a nós, e uma onda de torpor agradável passou pelo meu corpo. O fogo dentro de mim resfriou. Ele havia me curado. Ele entendeu, afinal. Eu apertei a mão de Ava e olhei para ela, mas ao invés de parar, o sangue fluiu de seu peito a cada batida de seu coração enfraquecido. — Mas... — Eu olhei para cima, e Walter baixou a cabeça. — Ela não tem que morrer, mas ela vai, — disse Cronus. — Considere-nos quites. As bordas da minha visão escureceram, e o céu do sol parecia girar até que tudo era um borrão. — Quites? — Eu sussurrei, e como se cada gota de tristeza e desespero e culpa corresse para fora de mim, ao mesmo tempo, eu gritei, — Você vai deixá-la morrer por isso vamos estar quites? Lutei contra o aperto de Henry, mas ele passou os braços em volta de mim com tanta força que eu mal conseguia me mover. — Kate, acalme-se, — disse ele, seu hálito quente em meu ouvido, mas foi inútil. — Ele está matando ela! — Eu gritei, e James se ajoelhou ao lado de Henry. Minha indignação sufocou o alívio que veio sabendo que ele estava bem. — Não é minha culpa - você não pode fazer isso minha culpa! Está tudo bem, sussurrou a voz de Ava, e seus dedos se apertaram em torno de mim. Você está certa. Não é sua culpa. Eu me agarrei a mão dela. Sinto muito. Eu sinto muito. Não deveria ser assim. Mas é. Estou pronta. Um alto, soluço escapou-me. Vamos encontrar uma maneira de contornar isso, eu prometo. Eu vou encontrar uma maneira de reparar.

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Um leve sorriso apareceu nos lábios manchados de sangue de Ava. Desta vez não, Kate. Eu te amo. Todos nós amamos, mesmo que alguns de nós não sejam muito bons em mostrar às vezes. Seus olhos azuis, drenaram rápido a vida, virouse para Henry. Não se esqueça disso. Ou eu, ok? Eu nunca vou desaparecer completamente, enquanto alguém estiver aqui para me lembrar. Eu não conseguia respirar. Soluço após soluço rasgou através de mim, e isso era tudo que eu poderia fazer a falar. — Eu não vou. Um por um, os membros do conselho se juntou Ava silenciosamente se despedindo. Todo mundo, mesmo Dylan, chorou em silêncio. Tão destruída como eu estava, tinha que ser nada comparado ao que todos eles estavam passando, e eu me forcei ao silêncio. Mas apesar de ter sido egoísta, eu não poderia soltar a sua mão. Walter não parou de acariciar seus cabelos também, seus dedos brilhando com a única coisa que a mantinha viva. Naqueles poucos e preciosos minutos, ele envelheceu mil anos. Por fim, quando o sol mergulhou no horizonte, a luz nas mãos de Walter morreu. E assim, Ava tinha ido embora. O mundo ficou em silêncio. Mesmo o oceano parou, e os tons de violeta do crepúsculo pairavam no céu por muito mais tempo do que deveriam. Ninguém falou. Ninguém se mexeu. Ninguém deu esse passo antes de partir para depois, e todos nós permanecemos juntos nesse momento eterno. Nunca deveria ter terminado, mas o Conselho não podia negar para sempre. Eventualmente Henry colocou a mão nas minhas costas, e apesar dele ser gentil, ele arrancou meus dedos frios de Ava. A separação cortando através de mim, mas não havia nada que eu pudesse fazer. Ela estava morta. Walter pigarreou e colocou a cabeça dela para baixo no telhado. De pé sobre as pernas trêmulas, ele lutou para se levantar em toda sua altura, enfraquecido claramente. — Olho por olho, — disse ele. — Que não volte a acontecer. Você vai em paz, Pai? — Não, — disse Cronus, e antes que a fúria pudesse ultrapassar o pouco senso de autopreservação que eu tinha, Henry esfregou minhas costas, seu toque acalmando o fogo fora de mim. — Você vai, — disse Rhea. — Acabou. Eu não vou permitir que você continue esse ciclo de destruição. Eles tomaram um dos nossos, e tomamos um dos deles. Isto é o fim. A forma de Cronus começou a se confundir em névoa negra, mas assim que começou, luz branca o envolveu, e ele rosnou. — Deixe-me ir, Rhea. — Eu não vou, — disse ela com determinação tranquila. — Nem pode o Conselho. Este é o mundo deles agora, e você provou que você não tem lugar nele. Eu só vou repetir uma vez, você vai em paz? Silêncio. — Então você me deixou sem escolha, — disse Rhea, e a luz ao redor de Cronus cresceu tremendamente brilhante. Eu desviei o olhar, e Cronus gritou, o primeiro som real de dor que eu já tinha ouvido dele. 186


Boa. Ele mereceu. — Pare! Eu vou - de forma pacífica, — ele conseguiu dizer, e a luz diminuiu. — Muito bem. Meu filho? — Disse Rhea, e Henry me liberou. — Eu voltarei em breve, — disse ele, beijando meu cabelo. — James, cuide dela. Quando ele estava de pé, os braços de James substituíram os de Henry, e pela primeira vez, eu dei uma boa olhada no conselho. Todo mundo estava lá, mesmo Ella e Theo. Todos exceto— Onde está minha mãe? — Todo o sangue foi drenado do meu rosto quando o mundo mais uma vez começou a girar. — James, onde ela está? — Ela está bem, — ele disse rapidamente. — Eu prometo. Ela está com Milo. — Eu quero vê-la, — eu disse, e ele assentiu com a cabeça, correndo os dedos pelo meu cabelo como Walter tinha feito por Ava. Talvez ele tenha pensado que iria ajudar, mas o vazio dentro de mim não diminuiu. Eu não tinha certeza de que algum dia iria. Rhea tocou o cotovelo de Cronus, e Henry pegou a mão dela. Meus olhos encontraram os dele, e ele acenou com a cabeça uma vez antes dos três desaparecerem, sem dúvida, de volta ao Tártaro. A última coisa que eu queria era deixá-lo fora da minha vista, e pavor familiar reuniu em meu estômago. E se alguma coisa desse errado e eu nunca mais o visse? Antes que o meu medo pudesse trabalhar-se em nada de substancial, James me pegou e me ajudou a levantar. Seu rosto brilhava, e eu escovei meu polegar contra a sua pele molhada. — Sinto muito. — Eu não poderia dizer o suficiente. James balançou a cabeça, seus lábios se movendo enquanto ele lutava para encontrar sua voz. Abracei-o, e ele se agarrou a mim, precisando de mim tanto quanto eu precisava dele. — Vamos lá, — eu disse. — Vamos para casa. *** Minha mãe estava esperando por nós no Olimpo, balançando o berço de Milo, enquanto ele dormia. Aliviada, eu cambaleei em direção a ela, mal conseguindo enxergar direito. — Oh, minha querida, você está bem, — ela gritou, jogando os braços em volta de mim. Por um momento, eu não conseguia respirar, mas eu não me importei. Ela estava bem, Milo estava bem, Henry estava bemMas Ava não estava. Tudo de uma vez, o que restou da minha força interior ruiu. — Ava está morta, — eu sussurrei, engasgando com as palavras. Minha mãe ficou tensa, e da porta, James pigarreou. — Calliope, também, — disse ele asperamente. — Rhea e Henry estão escoltando Cronus de volta para o Tártaro agora. 187


— Uma pequena vitória, — disse minha mãe, enquanto seus olhos se encheram de lágrimas. — Pelo menos... pelo menos... Ela não terminou. Pela primeira vez na minha vida, a minha mãe quebrou. Seus joelhos cederam, e ela deslizou para baixo na beira da cama. Embora eu desesperadamente quisesse ir até Milo, eu me enrolei com ela, lutando para mantê-la unida enquanto ela chorava. Ela passou anos derramando sua força dentro de mim e escondeu sua mágoa por que a minha não iria piorar. Agora era a minha vez. — A maneira como a tratamos no ano passado... — Minha mãe criou um lenço e enxugou os olhos. — Ela não deveria ter estado lá. Deveríamos ter deixado ela voltar quando ela pediu. — Não é culpa sua, — eu disse. Walter tinha sido o único a tomar essa decisão. — Ela tentou me dizer por que ela estava fazendo isso tantas vezes, e eu nunca escutei. Cronus- — Minha voz se quebrou. — Ele não iria salvá-la. Ele me curou, e ele poderia ter curado ela também, mas por minha causa - por minha causa, ele recusou. Minha mãe apoiou a cabeça contra a minha e me atraiu para seus braços. — Não é culpa sua também, — ela resmungou, mas não havia convicção em sua voz. — Cronus nunca teria a salvado, mesmo se você estivesse ao seu lado e cumprisse suas promessas a ele. Honra não significa nada para ele. Ele é definido pelo poder que ele tem, e tudo que você fez foi ferir o seu ego. Você não mudou quem ele é ou quem ele escolhe ser. Eu solucei. — Eu a odiei tanto. Eu pensei - eu a culpei por tudo, e tudo o que ela estava tentando fazer era me ajudar ou cuidar de Milo ou - ou salvar a vida de Nicholas. E Walter— Walter fez o que tinha que fazer, a fim de ganhar a guerra. — Minha mãe colocou uma mecha de cabelo atrás da minha orelha. — Ele tem seus próprios demônios para enfrentar agora. Meu queixo tremia. — Eu deveria ter feito alguma coisa. Eu devia ter escutado ou - ou lutado por ela ou perdoado ou – qualquer coisa. — Você fez, — disse James. — Você fez todas essas coisas. Sua mãe está certa. Não é culpa sua, não é culpa dela, não é - não é culpa de Ava. É de Calliope. E ela se foi agora. Não há nada mais que possamos fazer, mas lembre-se de Ava e continue a amá-la. Eu balancei a cabeça com força. Eu poderia lhe dar isso, e eu faria. Todos nós faríamos. No berço, Milo soltou um grito suave. — Parece que alguém está ansioso para vê-la novamente, — disse minha mãe. Apesar de seus olhos avermelhados, ela conseguiu esboçar um sorriso quando ela pegou-o. — Você quer segurá-lo? Mais do que qualquer coisa no mundo. Quando cheguei a ele, no entanto, eu hesitei. Alguns centímetros a mais, e eu iria senti-lo. Ele estava realmente lá. Uma barreira invisível cheia de perguntas e dúvidas me abraçou de volta, e eu

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abaixei minhas mãos no meu colo. — E se eu não puder fazer isso? E se eu não puder ser sua mãe? — Você já é, — disse ela, e eu balancei a cabeça. — Eu não sou tão boa nisso ou - ou tão forte quanto você. Ela descansou a cabeça contra a minha vez, e seu cabelo fez cócegas na minha garganta. — Sim, você é. De muitas maneiras, você é mais forte do que eu já fui. Tristeza não é igual a fraqueza, meu amor. Se qualquer coisa, mostra o amor que você tem dentro de você, e nada mais forte neste mundo existe. Ava sabia disso melhor do que todos nós. Uma sombra se moveu na porta. — Sua mãe está certa, você sabe, — disse Henry. — A melhor maneira de honrar Ava é amar as pessoas em nossas vidas, tanto quanto pudermos. Isso é tudo o que ela queria. — Sentado no colchão ao meu lado, ele deu à minha mãe um sorriso. — Eu vejo que você conheceu meu filho. — Ele é lindo, — disse minha mãe, e Milo soltou outro gemido suave. — Ele quer você, Kate. Limpando meu rosto com as mangas de sangue, eu assenti. Minha mãe colocou Milo em meus braços, e ele se aconchegou contra mim, um ajuste perfeito. Ele era mais quente do que eu esperava, e mais pesado, também. Virando a cabeça para mim, ele acariciou meu peito, e meu coração quase explodiu. — Exatamente assim, — murmurou minha mãe, ajustando meu cotovelo, então eu estava apoiando a cabeça dele. — Aqui está. — Olhe para isso, — disse James. — Você é natural. Quando Milo se acalmou, ele olhou para mim com seus grandes olhos azuis. Seja qual for a ligação que tínhamos conseguido forjar antes se intensificou, e naquele momento, meu mundo mudou. Ele era tão bonito e inocente, e eu gostaria de passar a eternidade tendo a certeza de que ele teria a chance de ficar desse jeito. Ele nunca conheceria guerra, ódio ou a agonia da perda. Ele nunca iria passar seus dias em contagem regressiva para o seu amor durar. Ele nunca se sentiria sozinho ou indigno ou não amado. Ele conheceria a felicidade. Ele conheceria a paz. Ele conheceria a família. E ele sempre teria a mim e Henry. Uma lágrima escorreu do meu queixo, caindo e batendo Milo no nariz. Ele fez uma careta, e Henry riu. Minha mãe levantou. — Eu vou deixar vocês três, — disse ela, e apesar dela estar sorrindo, a dor não tinha deixado sua voz. Eu não tinha certeza de que iria completamente. Juntos, ela e James saíram do quarto, fechando a porta atrás deles. — Ele se parece muito com você, — murmurou Henry. — Toda vez que eu segurei ele, tudo o que eu podia ver era seu rosto. Eu senti sua falta, Kate. Eu escovei meus dedos suavemente contra o rosto de Milo. Ele pode ter tido os meus olhos, mas ele tinha o cabelo escuro de Henry. E as suas orelhas. — O que aconteceu na ilha entre você e Calliope... Ele ficou tenso. — Kate, eu189


— Isso não importa. — Eu olhei para ele. — Você fez o que tinha que fazer para proteger Milo. Eu sei disso. Sua mão deslizou pelas minhas costas, e ele apertou meu ombro. — Nada aconteceu. Ava nunca usou seus poderes em mim. Eu estava fingindo o tempo todo. Eu me inclinei para frente e beijei-o. Seus lábios eram doces contra os meus, e eu não queria deixá-lo ir até que Milo gemeu entre nós. Nós dois sabíamos que fingir significava que ele teve de alguma forma que convencê-la de que a amava. Parte de mim queimou com a necessidade de ouvir tudo, mas nada disso importava, e eu não ia deixar Calliope nos ferir da sepultura. O que quer que Henry tinha sofrido, iríamos passar por isso juntos. Um dia, se ele quisesse falar sobre isso, eu queria ouvir. Mas até lá, eu fingiria que acreditava nele. Para proteger e amá-lo do jeito que ele me protegia e me amava. Éramos uma família, e ninguém, nem Calliope, nem Cronus, nem mesmo a própria morte, podia tirar isso de nós.

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Capítulo 20 Eterno Durante a noite, eu me desembaracei de Henry e saí da cama. Ele dormia profundamente, visivelmente exausto após a batalha, mas não importa o quanto eu tentasse, eu não conseguia dormir. Alcançando o berço, eu toquei a testa de Milo para me certificar de que ele ainda estava lá. Tranquilizada pela ascensão e queda de seu peito, eu andei para fora do quarto, fechando a porta atrás de mim. Mesmo no meio da noite, o teto brilhava azul brilhante, e o magnífico pôr do sol girava debaixo de mim. Eu não decidi conscientemente para onde ir. Em um minuto eu estava no corredor, e os próximos meus pés me levaram para a sala do trono, em busca de alguém. Depois da noite que nós todos tivemos, as chances eram mínimas de que alguém mais estaria acordado, mas valia a pena a tentativa.

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Na entrada, eu congelei. O céu não estava azul aqui; em vez disso o teto estava escuro como a noite, e as estrelas brilhavam acima de nós. Os tronos foram embora, e em seu lugar um caixão de vidro repousava sobre uma plataforma elevada. No interior, vestida com um vestido branco com rosas em seu cabelo, estava Ava. Sem pensar, atravessei a sala e apertei minha mão contra o vidro. Seus lábios eram da cor das cerejas, e sob a luz fraca, eu quase podia ver o sorriso dela. Um nó se formou na minha garganta. Eu abri minha boca para dizer alguma coisa, para me desculpar, para prometer que eu nunca poderia esquecêla, perdoá-la uma e outra vez até que o universo não teria escolha a não ser acreditar em mim, mas eu não podia forçar as palavras. Ela não podia ouvi-las de qualquer maneira, e eu disse tudo em seus últimos momentos. Ela já sabia. — Ela não está realmente ali. Eu fiz uma carranca. — Me deixe em paz. Um farfalhar de tecido, passos suaves e Walter estava ao meu lado, parecendo tão velho quanto ele tinha no telhado. — É um reflexo do tipo, mas mais realista do que uma simples foto. Eu puxei minha mão do vidro e dei metade de um passo para longe dele. — Onde está o corpo? — Se foi, — disse ele. — De volta para o universo. — Então porque é que este - este holograma está aqui? — O trono vazio, o quarto vazio, o buraco vazio em nossas vidas onde ela tinha estado uma vez, como se tudo isso não fosse o suficiente para nos lembrar de que ela tinha ido embora. Walter respirou fundo, e quando ele exalou, um fraco trovão ressoou pela sala do trono. — Ela viveu um tempo muito longo, e sua vida tocou muitas outras. Aqueles que desejam se despedir terão a oportunidade de fazer. — No entanto, você não está fazendo o mesmo para Calliope. Ele fez uma careta. — Minha esposa escolheu seu caminho. Ela optou por separar-se do conselho. Ava não o fez. — Não, ela não fez, — eu disse. — Você escolheu para ela. Você é a razão dela morrer. Walter olhou para o caixão. — Eu cometi muitos erros— Erros? — Meu grunhido ecoou de uma extremidade da sala para a outra. — Ava está morta, e tudo o que você pode dizer é que você cometeu alguns erros? Walter vacilou. Embora ele tentasse desenhar a si mesmo em toda sua altura, as lágrimas derramaram pelo seu rosto, derrotando qualquer intenção que ele tinha de me intimidar. —Você não pode me julgar - você não poderia conhecer a circunstâncias, ou— Eu sei que Ava está morta. Eu sei que ela só se juntou a Calliope porque você disse para ela. — Por Nicholas, — disse ele. — Para o bem maior.

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— É isso que vale o bem maior? — Fiz um gesto para o caixão. — É importante saber que, se não fosse por você, Ava ainda estaria viva? — Ela não estaria viva, — disse ele com voz rouca. — Nenhum de nós estaria. Henry nunca se juntaria à luta, e Cronus teria vencido. É tão simples como isso. — Rhea ganhou a guerra, não Henry. Ele nem estava lutando ao nosso lado durante a maior parte da batalha. — Sim, ele estava, — disse Walter. — No último andar, ele estava combatendo as habilidades de Calliope. Uma coisa difícil para qualquer um de nós fazer, ainda mais difícil sem ser descoberto, mas ele conseguiu. Quando ele veio até nós com os seus planos de se render a Cronus, nós sabíamos o que ele pretendia fazer, e com Ava ciente de que Calliope queria levar Henry também, montamos o ardil. Tudo junto, ele estava alimentando-nos de informações sobre ela e as táticas de Cronus. Nós nunca teríamos uma chance de lutar sem a sua ajuda. Ou sem a ajuda de Ava. Ela é a razão – você é a razão do porque ele concordou em lutar. — Tinha que haver outra maneira de manter Ava fora. Há sempre outra maneira. — Se havia, você acha que eu teria a arriscado? — Disse Walter. — Você realmente acredita que se não tivesse havido qualquer alternativa viável para arrastar Henry para a guerra sem ela— Você poderia ter pedido. Você poderia ter-lhe dado tempo. Você não tinha que jogar os jogos de Calliope e arriscar as vidas de todos. — Finalmente eu o enfrentei. — Nós não somos peças em um tabuleiro de xadrez, mas é assim que você nos trata, e agora está pagando por isso. Nós todos estamos. Então eu espero que tudo o que for que você disse a si mesmo o mantenha aquecido durante a noite, porque ninguém em sã consciência vai se preocupar com você uma vez que toda a gente souber o que você fez. Ele tocou o caixão, e toda a luta foi drenada para fora dele, deixando uma casca de um homem, onde o rei dos deuses estivera momentos antes. — Eu sei o que eu mereço. Eu não preciso de ninguém, você ou o Fates ou o próprio universo, para detalhar os erros que cometi. Eu estou pagando por isso agora, e eu vou pagar por isso todo o resto da minha existência eterna. Se esse não é o inferno que você deseja para mim, então eu não sei o quanto mais eu poderia me machucar para satisfazer o seu desejo de vingança, filha. — Eu não sou sua filha. Walter baixou a cabeça. Cada instinto que eu tinha gritando para eu sair antes que ele revidasse de alguma forma, emocionalmente, fisicamente, isso não importava, mas meus pés se recusaram a sair. Esta foi a conversa mais longa que eu já tive com o homem que supostamente era o meu pai, e isso era o que tinha vindo fazer. — Você é minha filha, tão certo como Ava era, — disse ele calmamente. — Ela era a única dos meus filhos que nunca se preocupou em me ver por quem eu 193


realmente sou. Os outros só viam o poder. Calliope só via um namorador. Mas Ava entendeu o amor que tenho por todos vocês. Ela entendeu que um homem pode sentir coisas que não expressa, e que a falta de expressão não esgota o amor. — Eu sei disso. — Ela tinha sido a única a insistir que Henry me amava, não importa o quê. — Você percebe que se você nunca tivesse a traído, nada disso teria acontecido? — Se eu não tivesse a traído, você nunca teria nascido. — Ele olhou para mim com relâmpagos em seus olhos, e eu segurei seu olhar. — James nunca teria nascido. Ella e Theo, Irene, Persephone - Eu amava minha esposa. Meus erros não são culpa dela. Mas eu não vou pedir desculpas, a ela ou a qualquer outro, por trazer meus filhos ao mundo. Inclusive você. — Então você não é melhor do que ela. O amor não te dá um passe livre para prejudicar a sua família. Você se lembra o que é família, né? Ele inclinou a cabeça. — E o que você quer dizer com isso? — Você nunca veio me ver. — Eu cavei minhas unhas em minhas palmas. Se eu pudesse tirar sangue, então talvez a fúria tentaria agarrar seu caminho para fora de mim. — Você sabia o que eu estava passando depois que a mãe foi diagnosticada, mas você não se importou. — Eu tenho muitos filhos mortais, — disse ele lentamente. — Não havia nenhuma garantia de que você iria passar no teste, e eu não queria correr o risco de forjar uma conexão com você, caso você não o fizesse. — Por que, porque você estava preocupado com o seu precioso segredo ser revelado? — Porque depois de tudo o que sua mãe me contou sobre você, eu sabia que se eu fosse ver você, eu te amaria instantaneamente. A dor de perder filhos que eu nunca conheci é bastante difícil. Mas perder quem eu amo... — Ele acariciou a borda do caixão de vidro. Meus ombros tremeram com soluços silenciosos. — Eu precisava de você. Eu precisava de alguém para me dizer que estaria tudo bem. Eu precisava saber que não estava sozinha, e você não pôde se preocupar comigo, porque você estava com muito medo de me amar? — O conselho tinha vigiado você desde o início, jogando pequenos papéis em sua vida. Amando e protegendo-a como fizemos no Éden. Você nunca esteve sozinha, Kate, mesmo nos seus mais escuros dias. — Mas eu não sabia, — eu explodi. — Não faz nenhuma diferença se eu nunca soubesse. — Eu sinto muito. — Sua voz quebrou. — Eu sinto muito por não ser o pai que precisava. Sinto muito por não ser o rei que meu povo merece. E eu sinto muito por ter deixado a minha filha fazer o sacrifício final. Eu não espero que você ou qualquer outra pessoa neste mundo me perdoe agora que ela se foi, mas eu espero que um dia, pelo amor de Ava, você me permita ser sua família. Ser seu pai, como eu deveria ter sido quando você estava crescendo. É o que Ava teria querido para nós dois. 194


Eu queria cuspir na cara dele, dizer-lhe para ir se ferrar e encontrar uma outra filha que estava disposta a amar um canalha manipulador, mas a verdade do que ele estava dizendo me congelou no lugar. Ele estava certo. Isso era o que Ava teria desejado. Não só porque eu precisava de um pai, mas porque Walter precisava de uma filha que o amasse, apesar de suas falhas, que o compreendesse e lhe desse uma chance. Eu tinha feito o meu melhor para mostrar a todos, mesmo Calliope e Cronus, a compaixão e compreensão. Ava iria querer que eu fizesse o mesmo por ele. Para não falhar com Walter como eu tinha falhado com ela. — Você está pedindo mais do que eu sei dar, — eu disse em voz baixa, e toda a luta foi drenanda para fora de mim. Concentrei-me na imagem do rosto de Ava novamente. — Você me machucou. Você machucou a minha mãe, e você feriu a nossa família. Ele colocou uma mão hesitante no meu ombro. — Eu sei. E eu vou passar a eternidade fazendo o que posso para compensar por você. Eu não posso prometer muito, mas eu prometo que você sempre me terá - você sempre terá todos nós. Como deveria ter sido desde o início. Apertando os lábios inchados juntos, eu assenti. Depois de toda a dor que ele causou, eu não poderia perdoá-lo enquanto estávamos lá, lado a lado, mas um dia eu iria tentar. Por Ava. *** O caixão de vidro permaneceu na sala do trono, durante três dias, e a imagem de Ava nunca estava sozinha. A princípio, apenas os membros do conselho vieram vê-la, cada um de nós querendo ficar sozinho com ela. Depois que nós todos tivemos a nossa vez, Walter abriu o portal para o Olimpo, permitindo que os outros pudessem vê-la sem assistência. À medida que as horas passavam e a notícia de sua morte se espalhou, os deuses que eu nunca tinha visto antes apareceram no Olimpo para prestar suas homenagens. Alguns dos nomes eram familiares, mas nada me preparou para o grande número que Ava havia tocado em sua vida. A sala do trono estava sempre cheia nos três dias de luto, e o véu de tristeza só foi ficando mais pesado a cada nova face. Um menino com cachos loiros manteve vigília no caixão, nunca falando uma palavra. Nicholas e Dylan se juntaram a ele em momentos diferentes, e enquanto ele sentou-se rigidamente ao lado de Dylan, o garoto pareceu relaxar na presença de Nicholas. — Eros - Eric agora, — disse Henry quando nós permanecemos perto do corredor e viu. — filho mais velho dela. Minha visão ficou turva, e eu tinha que me desculpar. Eu sabia quão profundamente Ava tinha tocado o resto do conselho, mas vendo os caminhos que sua longa vida tinha forjado, a família que ela tinha formado nos milênios que ela

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viveu – apenas abria feridas que eu tinha certeza de que nunca vão se curar totalmente. No terceiro dia, o amanhecer rastejou através do teto estrelado. Walter chamou-nos todos juntos, e ficamos em um círculo com os outros deuses, observando enquanto o caixão de vidro se enchia de luz. Por fim, como o nascer do sol misturado fora os últimos vestígios da noite, o caixão desapareceu. Enquanto o resto dos deuses terrestres foi embora um por um, Eros permaneceu. Os tronos voltaram, circundando o local onde o reflexo de Ava estivera momentos antes, e cada um de nós se estabeleceu em nosso lugar. Eu embalava Milo, que dormia profundamente, e tentei ignorar os assentos vazios em cada lado de Walter. Nicholas, o mais desgastado, colocou a sua mão sobre o braço do trono concha que tinha sido de Ava. Quando ele escovou as lágrimas de seu rosto, eu desviei o olhar. — Irmãos e irmãs, filhos e filhas, — disse Walter no silêncio. — Enquanto nós para sempre lamentaremos a perda dos nossos, é chegado o momento de reconhecer que as suas posições entre nós devem ser preenchidas. Olhei para minha mãe. Substituir Calliope fazia sentido - como Henry não poderia governar o Submundo sozinho, sem dúvida, o mesmo era verdade para Walter e seu reino. Mas Ava? Ela acariciou minha mão. Tudo em seu devido tempo. — Eu vou lidar com a substituição de minha rainha, — disse Walter. — Enquanto isso, peço que Diana assuma o papel temporariamente e me ajude quando necessário. — É claro, — disse minha mãe. — O que eu puder fazer para ajudar. Walter inclinou a cabeça. — Obrigado. Para o lugar de Ava, devemos mais uma vez vasculhar o mundo para encontrar aquele que é digno. Não será uma tarefa fácil. Ava era... — Ele fez uma pausa. — Ela era insubstituível. Não podemos fingir o contrário, mas temos de continuar. Kate. — Sim? — Eu disse, e a mão de minha mãe apertou a minha. — Eu acho apropriado você tomar o lugar de Ava. Temporariamente, — acrescentou. — Enquanto não encontrarmos alguém capaz de preencher o seu papel. — E seus deveres no Submundo? — Disse Henry, antes que eu pudesse protestar. — Eu preciso dela ao meu lado, principalmente agora, com o reino deixado sozinho por muito tempo. — Eu não estou pedindo por um grande empenho da parte dela, — disse Walter. — Apenas o suficiente para nos amarrar até que tenhamos encontrado uma nova deusa. Ela pode lidar com isso durante os meses de verão que está longe. Eu balancei minha cabeça. — Eu vou ficar no Submundo durante o verão agora. Eu não quero deixar Milo. — Ou Henry, mas isso não era o tipo de desculpa que Walter entenderia.

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— Não seria uma grande coisa para você se concentrar em ajudar-nos com os deveres de Ava enquanto isso, — disse Walter. — De todos nós, você é a mais adequada para o papel, pelo menos por um curto período de tempo. Um curto período de tempo para Walter poderia ter sido facilmente uma centena de anos. — Eu não posso, — eu disse. — Me desculpe, mas eu não posso substituí-la, e eu não posso deixar minha família. — Eu vou fazer isso, — disse Eros - Eric. Mesmo que sua voz fosse alta e infantil, ele tinha destaque em alguns dos mitos que eu aprendi, o que significava que ele não poderia ser tão jovem, depois de tudo. — É o que minha mãe teria querido. — Mesmo com essa oferta generosa, — disse Walter, — Você não é um membro do conselho. Você não tem a capacidade. O rosto de Eric caiu, e ver sua decepção em cima de sua tristeza era um soco no estômago. — Eu vou ajudá-lo, — eu soltei. — Ele pode informar-me, e eu vou ter certeza que tudo corra conforme o planejado. Contanto que eu não tenha que deixar o Submundo por longos períodos de tempo. Walter se virou para Henry, que assentiu com a cabeça uma vez. — Isso é aceitável para mim, desde que Kate não seja forçada em qualquer posição que não sinta que está pronta. — Muito bem, — disse Walter. — Além disso, eu peço que Kate e Eric se encarreguem de encontrar um candidato adequado para um papel mais permanente. Uma deusa. Ele queria encontrar outra deusa. Ou uma mortal para fazer o teste e ganhar a imortalidade do jeito que eu tinha. — Como? Ele deu de ombros. — Eu particularmente não me importo como você irá lidar com isso, só que seja feito. Henry está familiarizado com o processo. Ele pode ajudá-la. Henry murmurou em acordo, e só assim, cabia a mim e ao filho de Ava encontrar alguém que pudesse assumir o seu papel no conselho, alguém que não poderia existir. Então, novamente, Henry deve ter pensado o mesmo quando começou sua busca por uma nova rainha. Se conseguiu superar seus medos e hesitações, eu poderia fazer o mesmo. — Ok, — eu disse suavemente. — Vou tentar. — Eu sei que você vai, — disse Walter. — E você vai fazer maravilhosamente. Isso podia demorar, mas eu gostaria de fazer justiça a Ava. Ela merecia muito. Do outro lado do círculo, James sorriu para mim, e eu consegui um pequeno em troca. Mesmo que eu não estivesse à altura da tarefa, ele estaria lá a cada passo do caminho. Eles estariam todos. O conselho não era perfeito, não por um longo tempo. Dylan provavelmente nunca gostaria de mim. Eles sempre trocariam olhares, sabendo que eu nunca iria entender. Walter e eu provavelmente passaríamos a maior parte do tempo batendo cabeça para sempre, e seria um longo tempo antes que ele me visse como uma igual. Mas, apesar das brigas, apesar das mentiras, apesar da frustração e 197


segredos e eras de história que eu nunca iria apanhar, eles eram minha família agora. E eu não estava os deixando ir para qualquer lugar. *** Henry, Milo e eu voltamos para o Submundo na manhã seguinte. Apesar da escuridão das cavernas, não havia outro lugar que eu preferia estar. Estávamos em casa. Quando entramos em nosso quarto vermelho e dourado, parei na porta e olhei ao redor, engolindo o nó na minha garganta. Ava tinha decorado antes de eu chegar no ano anterior. Quanto tempo demoraria antes que tudo parasse de me lembrar dela? Nunca, eu esperava. Eu manteria minha promessa de recordá-la sempre, mesmo que a culpa e a dor me matassem. Henry inclinou sua cabeça até que seu rosto estava a centímetros do meu. — Vai ficar mais fácil. — Promete? — Disse. — Sim. — Ele pressionou seus lábios na minha testa. — Eu não posso dizerlhe que nunca vai embora, mas essa dor é parte de você agora. É parte de todos nós. E porque sabemos disso, porque nós tivemos que sobreviver a isso, nós vamos fazer o que temos para ter certeza que nunca tenhamos que experimentar de novo. Eu exalei. — Eu sinto falta dela. Eu não sei como Walter espera apenas substituí-la assim. — Eu nunca pensei que eu iria encontrar uma substituta para Persephone também, — disse ele calmamente. — E como aconteceu, eu não encontrei. Eu encontrei algo ainda melhor. Eu encontrei você. Minha mão repousava sobre seu coração, e eu não disse nada. Palavras não poderiam ter descrito o quanto eu o amava naquele momento. Enterrando o nariz no meu cabelo, Henry me segurou enquanto balançávamos para frente e para trás num ritmo silencioso. — Você nunca vai encontrar alguém para substituir Ava porque essa pessoa não existe, — ele murmurou. — Mas você vai encontrar alguém que entende o amor como Ava entendia. Quem encarna isso. Quem tem, sem dúvida, herdado a paixão e devoção que ela tinha. E um dia, talvez daqui a alguns anos, talvez séculos a partir de agora, você vai parar no meio de tudo o que você está fazendo e olhar ao redor, e você vai perceber que as coisas estão bem novamente. Talvez nunca completamente completas, porque nada pode preencher essa lacuna de perda. Mas as partes em torno dela vão crescer. Você vai amar. Você vai ser feliz. Você vai rir de novo. E esse dia será melhor do que hoje. Eu prometo. Com o bebê entre nós, eu o abracei, enterrando meu nariz na curva do pescoço dele. — Eu te amo, — eu sussurrei. — Obrigada por ter me escolhido. Obrigada por me deixar entrar.

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— Eu sou aquele que deveria te agradecer. — Seus lábios roçaram meu cabelo, e seus dedos se enredaram nas extremidades quando ele espalhou a mão nas minhas costas. — E eu vou, para o resto da eternidade. Você salvou a minha vida, Kate. Você me deu tudo. Não há nada que eu prefira fazer do que estar com você para sempre. — Você vai estar, — eu murmurei em seu peito. — Eu nunca vou deixar você ir de novo. Ele se afastou o suficiente para tocar seus lábios nos meus. — Bom. Eu o capturei em outro beijo, desta vez mais profundo e completo de tudo o que eu não poderia dizer. O quanto eu o amava, quão agradecida eu era, não apenas por ele, mas pela família que tivemos juntos - tudo. Eu poderia ter salvo sua vida, mas ele salvou a minha também. Nenhum de nós jamais teria que passar por essa solidão escura novamente. Entre nós, Milo fez um pequeno som, e eu quebrei o beijo para olhar para ele. Ele borbulhou e acenou com os pequenos punhos. — Sim, tudo bem, um beijo para você, também, — eu disse, sorrindo, e eu deixei cair um na testa. — Um menininho tão exigente. — A equipe montou um berçário para Milo no quarto próximo ao nosso, — disse Henry. — Ele tem tudo o que precisa. — Sim, ele tem. — Olhei para Henry mais uma vez. — Você pode me fazer um favor? — É claro, — disse ele. Eu hesitei, e um momento depois eu lancei a questão mais difícil que eu já perguntei a ele. Para crédito de Henry, ele não discutiu. Ele não gostou, mas nem eu. Isso não mudava nada. E era a coisa certa a fazer. Ele pegou minha mão e, lentamente, o quarto em torno de nós desapareceu, substituído por pedra preta e uma caverna monstruosa. A entrada para o Tártaro. — Eu isolei a via na parede, — disse Henry. — Só nós podemos alcançá-lo agora. Eu balancei a cabeça. Sem necessidade de correr riscos. Sem dizer nada eu beijei Milo novamente e entreguei-lhe a Henry. Meus braços se sentiam vazios sem ele, mas ele esteve em perigo o suficiente para durar uma vida eterna. Ele estaria seguro com Henry, não importa o que acontecesse. Lentamente, eu fiz meu caminho até o portão. As barras, uma vez esculpidas na própria rocha negra, agora brilhavam com luz branca. Rhea. Levantei-me tão simples quanto eu poderia. — Cronus, eu quero falar com você. Durante vários segundos, nada aconteceu. Não que eu esperasse que ele viesse correndo no momento que eu chamei, mas ele não tinha que fazer isso difícil. — Por favor, — eu disse, a palavra amarga na minha língua. — Eu não vou esperar para sempre.

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No fim, um nevoeiro opaco deslizou pelo chão, mas não chegou a uma das barras. Ao contrário de antes, quando ele tinha o suficiente de um alcance para causar estragos no Submundo, Cronus estava completamente preso agora. A névoa se solidificou na silhueta de um homem, e Cronus saiu em direção ao portão, tão alto e orgulhoso como sempre. — Kate, minha querida, eu sabia que você ia voltar para mim. — Eu não estou aqui para libertá-lo, — eu disse. — Eu estou aqui para estar com você. — Oh? — Disse Cronus, sobrancelha levantada. Ele se concentrou em algo atrás de mim, e eu fiz uma carranca. Ele não tinha o direito de olhar para Henry e Milo depois de tudo o que tinha feito. — De que maneira? —Como sua amiga. E se não for isso, então para lhe fazer companhia. — Mesmo que eu preferisse queimar em um lago de fogo. — Ninguém deve ficar sozinho assim por toda a eternidade. A expressão de Cronus ficou pensativa. — Eu não sabia que você se importava. — Não me importo, — eu disse friamente. — Eu te odeio pelo que fez à minha família. Eu te odeio por não curar a Ava. Eu te odeio por ser um megalomaníaco que não pode ver o passado em seus próprios desejos. Mas você salvou a vida do meu filho no dia em que ele nasceu, e eu nunca vou esquecer isso. — Fiz uma pausa. — Eu sei o que se sente ao olhar para um futuro negro com mais ninguém em sua vida, e ninguém merece isso. Então, eu vou vir te ver. Não todos os dias, mas o suficiente para ter certeza de que alguém está te observando. O suficiente para me certificar de que você não está sozinho. Ele estreitou os olhos. — E se eu não quiser que você venha? — Muito malditamente ruim. É assim que vai ser, quer você goste ou não, então você pode muito bem se acostumar com isso. Um longo momento se passou, e finalmente Cronus acenou com a cabeça. — Muito bem. Até lá. Ele desapareceu na neblina, e os tentáculos afastaram para trás até que a escuridão engoliu-o completamente. Eu tomei uma respiração trêmula, tentando acalmar meu coração acelerado, e Henry colocou a mão nas minhas costas. — Eu te amo, — ele murmurou. Essas três palavras nunca perdem sua magia. — Mesmo quando você é frustrantemente boa às vezes. Eu escovei meus dedos contra o rosto de Milo, me tranquilizando pela centésima vez que ele ainda estava lá. — Alguém no conselho precisa ser, — eu disse, e Henry riu. — Sim, acho que você está certa. Agora venha. — Ele pegou minha mão, seu toque um lembrete de tudo sobre este mundo que eu amava. — Vamos para casa. A rocha negra em torno de nós desapareceu, deixando apenas remanescentes restos da guerra e o sofrimento que tínhamos lutado. Henry estava

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certo - iria ficar melhor com o tempo, como todas as coisas faziam. Por mais que a perda nos tinha definido, assim fez a nossa capacidade de esperança. E de agora em diante, não importa o que o futuro nos reserva, iriamos enfrentá-lo juntos. Sempre.

Fim... E assim a série de testes DEUSA conclui - por enquanto.

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Aimee carter goddess 03  

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