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Exodus – Catherine Parthenie

Exodus SĂŠrie Filhos do Pecado Livro 2

Catherine Parthenie

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De que adiantam-me asas, se nĂŁo aprendi a voar?...

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A DOR DE UM ANJO. Por onde ela anda? Eu não saberia dizer, mas a falta que ela faz é imensa. Aceitei meu trabalho nessa Cidade porque a amo, queria estar perto dela, tocar-lhe a face, sentir o cheiro daquela pele suave. Eu aguentei o quanto pude, declarei todo o meu amor, e mesmo assim esse amor continua um segredo frio escondido em meu coração. Ela não faz idéia do quanto ansiei por tocar seus lábios com os meus, ela não faz idéia do quanto isso é fascinante. Minha vida era um nada, até que a encontrei. Como não se perder de amores ao ver aquele anjo de pele alva e cabelos vermelhos? Eu pequei, não posso amá-la... Por que eu te deixei, Lienne?

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SEM VOAR De que adianta-me o amor, Se ele não pertence a mim? De que adiantam-me os sonhos, Se a noite é clara como o dia? De que adianta-me a vitória, Se não tenho com quem comemorar? De que adianta-me salvar, Se quem precisa, ao perigo joga-se? Por que sonhar, se não posso realizar? Por que amar, se não posso sentir? De que adiantam-me asas, Se não aprendi a voar?

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Capítulo 1 - Odiando O tempo não passa longe dele, é como perder a importância de viver, é como não ter esperanças na vida... e ele disse que estaria ao meu lado quando eu perdesse minhas esperanças. Onde você está agora, Arel? Perdi você, perdi tudo. Deserto inóspito e sem vida, uma longa caminhada até o verdadeiro destino. Sem ele, nunca chegarei, o tempo não passa. Nunca importei-me com nada, jamais dei o devido valor aos sentimentos alheios, até que o conheci. Por que deixaste-me sozinha, Arel? Eu te amo. Um caminho sombrio... eu não o acharia tão triste se eu não amasse. Tudo era melhor antes, porque nada doía. A traição era só um ódio a mais, a falsidade era só um sentimento vil, as mentiras, os enganos, tudo era só uma fantasia. Amar é pior. Carrego comigo a prova de que um dia eu fui feliz, por um breve momento eu senti algo bom dentro de mim. E foi como um sonho. E agora, caminhando pela noite gelada do deserto, tentando encontrar o caminho de um lugar que pensei ser a minha casa, o coração partido pelas feridas deixadas para trás e o corpo deformado com asas grandes que eu nem sei como funcionam, eu vejo o quanto eu estava errada. Meu único e verdadeiro lar sempre foi o meu próprio coração. E 5


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esse lar está destruído agora. Sobrou apenas um turbilhão de destroços. A partida é sempre mais difícil. Ela traz lembranças. E meu rosto toma outra forma. A tristeza partiu. O ódio tomou conta. Avisto a cidade. Já estou nela. Escalo uma imensa construção gótica, com os górgonas, figuras que lembram-me Adramalech, por companhia. -O que te aguarda, novo mundo? Esqueceram que não morri? Esqueceram-se da minha volta? Sim, eles esqueceram. Transformaram-me num nada. Merecem sofrer. Não estou aqui para salvar, essa nunca foi minha intenção. Eu só queria vingança, e meu mundo era melhor assim, pois eu não sofria, só odiava. De volta ao mesmo mundo. De volta ao cruel lar dos humanos. E a raça mais desprezada vai mostrar o seu valor. Uma nefilin transformada em anjo volta para atormentar muito mais que seus demônios. Em seus sonhos mais cruéis, me encontrás. Foram vocês quem mostraram-me o caminho. Nenhum demônio mata seu irmão. Nenhum demônio jamais traiu-me. Falsidade, ganharam tudo o que queriam e, quando não precisaram mais de mim, descartaram a pior da prole dos anjos. -Vivam enquanto podem, nessa doce ilusão de que tudo está bem. Vivam seus sonhos, pois estão prestes a caírem. 6


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Por onde começar? Estranhamente eu conheço o caminho do inferno. Cumprir minha promessa. Vou seguir o intuito que leva-me o ódio. -Pare, Lienne. Viro-me. Um déja vu. -Não cansas de dizerdes sempre a mesma frase? – respondi. -O que pretendes fazer? -Não sei – dou de ombros. – Saltar daqui. Espatifar-me no concreto. Não morrerei mesmo. -Anjos sentem dor. -Fostes tu quem ensinaste-me que ferir um outro lugar desvia a atenção da dor principal. Meu coração lateja demais. É forte... e triste. -Achas que Arel não sente o mesmo? Acredite em mim, querida, sei tanto quanto você o tamanho da dor do amor. -A dor de perder um grande amor, pai. Tu a perdestes para a morte. Eu o perdi para a vida. Como conformar-me com o destino, sabendo que ele existe e jamais poderá pertencer-me? -O amas tanto assim, minha filha? -Mais que a minha vida, pai... Anjos choram. Eu chorei. -Se o amas, ainda há salvação para você. Olhe, – meu pai apontou para baixo, onde um humano estava sendo covardemente espancado por outros dois – é a sua chance. Salve-o. 7


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-Não – respondi firme. Os olhos de Caleb faiscavam indignados. -Como não? -Se tenho que curar minha dor com outra, que eu pule por vontade própria e não para salvá-lo. Ganhei asas, mas não aprendi a voar. -Salve-o, Lienne. -Não. -O deixarás morrer? -Não foi o que fizeram comigo? Não desejaram que eu morresse numa fogueira inquisitiva? Eu não importo-me com eles. São um monte de nada. Meu pai fitou-me incrédulo por alguns segundos, depois, num elegante vôo, rasando até o concreto, ele livrou o humano, o colocando num lugar seguro. E o arcanjo volta para sua cria. -Já mostrei-te como fazer. A decisão é sua. Mas prefiro ver-te morta do que ao lado de Apollyon. -Ver-me morta, papai? – levantei as sobrancelhas num fingido sobressalto. – Quem não é capaz de amar, os anjos ou os nefilins? -Morra, Lienne. Caleb empurrou-me contra a mureta, fazendo com que eu me desiquilibrasse e caísse de uma imensa altura. Olhos fechados. Sentindo a gravidade levar-me ao chão. Dois membros movimentam-se. 8


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Nada pode deter-me. Eu volto. Sorrindo. Posso voar. O rosto espantado de Caleb é como um prêmio. -Ainda irás surpreender-se muito comigo, meu pai. -Não pode ser – ele falava assustado, com a voz embargada. O sorriso da vitória é sempre o melhor. -Apenas aceite, pai, apenas aceite...

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SALVE-ME Vejo vultos. Seus olhos são belos. Eles contam histórias de heróis De um tempo disperso e extinto. Enxergo sua coragem, Sinto seu medo e seus desgostos, Entendo a sua saudade, Não aceito sua confusão. És perfeito, És belo, És simples E humilde. Um coração puro Num corpo deformado. Diferente de quem olha-te, De um corpo perfeito Com o coração dilacerado. Salve-me! Sou eu quem precisa de ajuda, Porque só tu és o que verdadeiramente me amas. Ajude-me! Porque a vida tomou-me as ilusões E despadaçou minhas esperanças. Fique comigo E proteja-me. Esteja ao meu lado E salve-me. Abençoada alma, Salve-me. 10


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Capítulo 2 – Visitando. Caminhando pela noite, lembrando de palavras ferozes, lembrando de todo o ódio... quanta dor, quanta amrgura. O que me resta? Seguir até o destino que eu mesma fiz. Sigo como uma criança, agarrada ao ursinho de Séfora, um presente que será devolvido em breve, porque eu acredito nela, eu acredito na mesma força que a move, o ódio. O inferno. Eu sei como chegar até lá. Uma dúvida: Persis ou Apollyon? Apollyon. É para lá que vou. -Irmã – escuto sua voz, como um rugido para outros, um som suave para mim. Sorrio. Corro para abraçá-lo. -Meu irmão, Adramalech, meu anjo. -Lienne sabe ser irmã Adramalech? -Sim, eu sei. Nosso pai ainda te ama, ele não sabia que ainda estavas vivo – não sei explicar o por quê, mas eu jamais conseguiria odiar Caleb. -Pai amar Adramalech? -Sim, meu querido, ele te ama. -Lienne ver novo pai? -É preciso. Eu fiz uma promessa, meu irmão, tenho que cumprí-la. -Irmão vai junto. 11


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-Não. Preciso que deixe-me sozinha dessa vez. Logo estarei de volta, meu anjo. -Adramalech anjo? -Você tem asas, não tem? – falei sorrindo. -Irmã tem asas. -Sou como você, meu querido. Agora eu preciso ir. Apenas proteja-me, irmão. -Adramalech proteger irmã. Despedi-me do meu irmão com um olhar orgulhoso. Ele era lindo, a sua maneira. Meu amado irmão, o único membro da minha família que eu faria questão de dar a minha vida. Segui até o castelo esquisito de Apollyon. Entrei como Persis, sem cerimônia, mas com respeito. -Eis que volto, conforme prometi, meu senhor – falei pomposamente, ajoelhando-me perante o grande Rei das Trevas. Ele analisou-me atentamente. -Levante-se – obedeci. – Vejo que estás diferente. Apollyon caminhou até mim, pegou meu braço e passou sua mão suavemente por ele, até meus ombros. Levantou minha blusa, deixando parte do meu abdômen exposto. Eu não entendia o que ele procurava, talvez cicatrizes ou marcas. Eu jamais saberia dizer ao certo o que intrigava Apollyon naquele momento. Ao fim de sua inspeção, ele sorriu.

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-Voltastes como prometeras. Estás diferente e continuas intacta. Entretanto, meu anjo, trouxestes meu presente? -Aquele deserto é todo igual, um grande nada para todos os lados. Porém, há um lugar que dá acesso à Cidade dos Nefilins, meu senhor. Apollyon sorriu torto. -Conhecestes o filho de Kandake? – ele perguntou-me. -Não só o filho como toda a porcaria a que ele sujeita-se. Custei a acreditar que Kandake fosse tão estúpido para acreditar em suas propostas. -E por que acreditas no que eu digo? -Eu não acredito, senhor. Apollyon riu. -E por que voltastes? -Por que tenho algo que queres e tu tens algo que eu quero. -Eu posso enganar-te como fiz com tantos outros. -A diferença, senhor, é que somente eu tenho o que tanto desejas. E só lhe entregarei seu presente depois que receber o meu. -És esperta, Lienne. Vejo que fiz uma boa escolha. Diga-me, qual seu preço pelo meu presente? – Apollyon perguntou-me ainda com seu sorriso irônico nos lábios. -Quero destruir Persis e todos que enganaramme. Quero tudo o que prometeste-me, quero poder, quero reinar ao seu lado e a liberdade de Adramalech – respondi com firmeza. 13


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-Então não descobristes somente as asneiras de Kandake, mas as do seu próprio pai também. -Adramalech não é uma asneira. Ele é seu trunfo. Todos eles são, inclusive Kali. O Rei das Trevas olhou-me de um jeito curioso, apertando o olhar e sorrindo torto. -Sim, és realmente muito esperta. Fizestes bem o seu trabalho entre os arcanjos. Saistes muito antes do que eu esperava. Quem foi o pobre coitado que matastes? -Iehuiah. O olhar de Apollyon demonstrava um sobressalto, uma curiosidade instigante, um medo controlado. -Como podes ver, meu senhor, não fiz um acordo com o intuito de uma brincadeira, mas para cumprir minha parte e receber o que prometeste-me – falei firme. -Vejo que enganei-me em certos pontos com você. Mas terás o que me pedes, e terei o que me ofertas. E reinaremos juntos, serás minha rainha e estarei sempre ao seu lado. Azazel entrou na sala do trono naquele instante. Permaneci de costas para ele, mas o reconheci pela voz. -Persis aproxima-se, senhor – ele disse. Apollyon não desviou seu olhar do meu, e foi dessa maneira que respondeu ao ex-nefilin que ali encontrava-se. -Permita que ele entre e não o avise da visita que recebo. 14


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Azazel deixou-nos a sós. -Acho melhor esconder-se. Não quero que Persis veja que estás aqui – disse-me Apollyon. -Concordo, meu senhor. Entretanto, gostaria muito de saber o que esse porcaria tem a dizer-lhe. -Fique atrás do trono. Ele não poderá ver-te dali. Obedeci. Eu estava mesmo curiosa para conhecer as intenções de Persis. E estava muito mais ansiosa para destruí-lo.

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MEDO Meu medo eu joguei longe, Despedacei, Quebrei, Dispensei. Tomei uma grande dose de coragem E enfrento o mundo. Seu desgosto é meu prazer, Destruir-te é minha sina. Nada do que fizestes será impune, Porque eu conheço suas intenções, Eu vi a maldade em seu olhar, E chegou a hora de estabelecer seu destino. Eu fiz o meu, E declaro o fim do seu.

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Capítulo 3 – Escondendo. Aquele demônio estava a cada dia mais lindo. Persis entrava naquela sala, majestoso como se fosse o próprio rei daquele lugar. -Salve o meu senhor! – ele falou respeitosamente. -Pare com isso, Persis, e diga-me por que viestes incomodar-me – rebateu Apollyon. -Senhor, soube que a nefilin saiu-se bem em sua missão. Ela já está entre nós. -Como podes saber? Por acaso já vistes a nefilin como um anjo, Persis? -Não, senhor. Mas tenho a certeza de que ela não demorará a procurar-me. “Babaca, infeliz” – eu pensava comigo mesma. -O que te faz pensar que Lienne o procurará? – perguntou-lhe Apollyon. -Porque temos um trato, meu senhor. Ela não seria tão estúpida por não cumprí-lo. -Assim como você também não seria por não cumprir o nosso acordo. -De maneira alguma, meu senhor. Por isso estou aqui, para firmá-lo. -Esse trato já foi firmado. Tudo o que espero agora é que o cumpras. Vá, Persis. Minha paciência com você esgotou-se na primeira frase. Deixe-me com meus pensamentos. E o anjo maldito logo desapareceu dali. Saí do meu esconderijo e fiquei ao lado de Apollyon. 17


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-O que farás? – ele perguntou-me. -O que ele espera. O mesmo que você, enganálo. -Sua audácia me fascina. Apollyon tomou-me em seus braços e beijoume os lábios. Apesar de estar apaixonada por Arel, não posso negar que esse ósculo acendeu uma brasa em meu corpo. -Conte-me seus planos, Lienne. -São os mesmos que os seus. Ele fez um acordo comigo, mas já fiz o mesmo com você. Enganarei Persis até o momento de destruí-lo. -E quando selaremos nossos votos? Porque a cada palavra de desgosto que sua boca desfere, sintome mais atraído por você – ele falou apertando-me contra seu corpo forte. Pude sentir o tamanho do seu desejo e estremeci com a idéia. -No momento certo, meu senhor. Primeiro quero realizar a minha vingança. Depois... depois, sim, lhe entregarei seu presente. E assim reinaremos juntos naquela Cidade. Então serei sua, apenas sua – sussurrei em seu ouvido, fazendo o grande Rei das Trevas estremecer de desejo. Suas mãos passearam pelas minhas asas e voltaram para o meu corpo. Lidar com ele era diferente. Persis era gentil e educado, mas era forte. Arel era quase incontrolável em nossos momentos mais íntimos. Apollyon era enigmático e poderoso. Seu toque era mágico e amedrontador. Eu jamais ousaria detê-lo. E eu não queria detê-lo, eu gostava de seu toque fascinante. 18


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-Sabes como manipular um macho, minha adorada. És bela e perfeita. E o fato de ser intocada provoca-me um desejo enlouquecedor. Mas eu sei esperar, jovem nefilin. Ele afastou-se subitamente. -O que aprendestes desde que saistes da Cidade? – ele perguntou-me. -Eu sei voar – respondi sorrindo e arrancando risadas de Apollyon. -Sim, minha cara. Vejo que ainda não tens plena noção do que se tornastes. Ele deu dois passos firmes em minha direção, firmando seu forte olhar nos meus. Num rápido movimento, ele atacou-me com o braço direito, mas eu o detive segurando seu punho. Essa nova vida dava-me uma percepção muito maior dos acontecimentos. Eu podia escutar o menor sussurro do mundo dos humanos, mesmo estando no meio do inferno. Eu enxergava a quilômetros de distância e sentia tudo o que passava na minha pele, até o mínimo soprar de uma brisa leve. Enquanto eu segurava o punho de Apollyon, nossos olhares continuavam conectados e nossos lábios exibiam sorrisos irônicos. -Bem, vejo que sabes voar e defender-se. E como ficarão suas asas? -Um grande mistério – respondi-lhe. – Não sei nem como sou capaz de fazer essas coisas, quanto mais camuflar os novos membros. -Posso cuidar disso. -Como? Transformando-me num demônio? 19


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-Não. Você é fascinante como um anjo. Apenas confie em mim. -Confiar? Isso não faz parte de mim. -Eu também não confiava em você. -Uma condição mútua, devo dizer. Apollyon riu com a minha resposta. -Tenho pena dos que sofrerão sua vingança, Lienne. Tome – ele estendeu-me um pequeno frasco de vidro, muito parecido com o que continha o veneno de Arel. – Beba isto e suas asas desaparecerão. -Vou regurgitar minhas tripas depois de beber essa porcaria? -Seu pai deu-lhe uma boa surra, pelo que vejo, pois tomastes do acelerador do arcanjo metido – comentou Apollyon. -Fiz por merecer – respondi dando de ombros. – Mas eu dispenso seu veneno. -Isso só camuflará suas asas aos olhos humanos. Elas sempre estarão com você e, não tenha dúvidas, não sentirás nada. Desconfiada, ingeri o líquido roxo. Virei a cabeça e olhei por sobre os ombros e pude ver meus novos membros enrolando-se e, como mágica, adentrando em meu corpo. Apollyon tinha razão. Nada senti. -Precisas confiar mais em mim, anjo. -Sua reputação precede a confiança, meu senhor. Mas agradeço-lhe pelo veneno. E ele disse as mesmas palavras de Arel: -Não é veneno! 20


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Eu ri. -Agora, diga-me o que desejas fazer. -Quero voltar ao mundo dos humanos, a mesma carreira, um novo nome, muito sucesso e muito dinheiro. Eu cuidarei do resto. -E como será seu novo nome? -Não sei – dei de ombros. – Algo parecido com o original. Eliane, talvez. Era o nome da minha mãe. -Que seja! Pegue – ele jogou-me um molho de chaves que alcancei ainda no ar. – São de uma residência que me pertence. Lá, encontrarás tudo o que precisas: carro, aparelhos eletrônicos e um estoque de sangue e vinho. Azazel será seu empregado. -E Adramalech? -Queres mesmo um demônio como bichinho de estimação rondando pelo mundo dos vivos? -Não fales assim do meu irmão – sibilei por entre os dentes. -Adramalech fica. Encontre a cura para ele voltar a ser o que era e eu o liberto. Aceitarás o desafio? -Jamais fugirei de uma briga, Apollyon – falei seu nome em sua presença pela primeira vez. -Então somos dois, minha querida. Virei-me e saí dali proferindo as palavras: -Sabes onde encontrar-me.

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REVOLTA DE UM ANJO TRAÍDO Rostos envelhecidos, Emoldurados por rugas, Lembranças que a idade não supera... Olho em seus olhos, Eles não reconhecem-me. Abutres mais fétidos que carniça, Almas apodrecidas No doce engano da ilusão. Esqueceram-se de quem mais traíram, Esqueceram-se da minha volta, Desconhecem minha imortalidade, E eles não reconhecem-me... Mate seus pecados Afogando-os no álcool, Porque nem isso os manterá intactos E eles não reconhecem-me? Lembrarão quando minhas mãos estiverem em seus pescoços...

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Capítulo 4 – Avisando. Saindo do submundo, chego logo numa mansão. Esse seria meu novo lar. Azazel aguardavame, disponível para atenter a qualquer pedido meu. Fui conhecer cada cantinho daquela residência. Uma construção bonita e bem decorada, uma grande besteira, agora que isso já não interessava-me mais. No escritório encontrei documentos falsos com a minha foto e o nome Eliane Mantus. Ironia? Sim, mais uma de tantas de Apollyon, já que Mantus era um de seus muitos nomes. Sorrir foi inevitável. Junto a esses documentos, havia uma papelada de uma grande empresa. Seja lá qual foi o milagre de Apollyon, a empresa pertencia a mim. Era como degustar uma refeição saborosa, porque era o mesmo lugar onde eles, meus inimigos, trabalhavam. Agora todos estavam em minhas mãos. Percorri o caminho de volta até a sala principal da mansão e encontrei Azazel por lá. -Sabes o que vim fazer? – perguntei-lhe. -Sei. -Por onde eles andam? -Num bar aqui perto. Mas aviso-te que já não são mais os mesmos. -Como assim, Azazel? Eles viraram anjos também? – zombei de suas palavras. -Não. Mas o tempo que passastes na Cidade dos Nefilins não tem a mesma cronologia dos 23


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humanos. Seus dois meses por lá foram como vinte anos para os seus amigos. -Eles não são meus amigos – respondi por entre os dentes. Caminhei para a porta de saída e Azazel ainda falava: -Precisas de companhia? -Não. Estarei bem. -Saberás onde encontrá-los? -O cheiro dessas antas jamais saiu das minhas narinas – respondi e segui pela noite afora. Você já tentou esquecer o passado e seus desgostos? Eu já. Eu tive uma segunda chance, vivi uma nova vida, aprendi a amar. E quando tudo acabou, quando a ilusão se dissipou, lá estava o passado: intacto! Nada mudou, tudo piorou, porque meus inimigos estão melhores e vivem na ilusão de serem mais fortes. E a única verdade é que seus mundos não passam mesmo de uma grande utopia. Eu não sigo regras que são impostas pela sociedade decadente e perdidamente cega por doutrinas que os induzem a uma falsa paz. Eu faço minhas próprias regras. Eu crio o meu destino. Eu manipulo o meu presente. Tudo deu errado? Sim. Porque eu errei. Solução? Não é possível rebobinar o passado, mas é fato que o futuro ainda está em minhas mãos. 24


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Eles envenenaram-me, acusaram-me, trairamme. Se os próprios soubessem o quanto isso me fortaleceu... Não serei como eles, porque eu simplesmente não importo-me com a opinião alheia. Eles criaram um monstro, fizeram-me invencível. Nunca tive pena de mim mesma, não dobrei-me ante ao destino. Mas já é hora de contar a verdadeira história. E quem não ama, afinal? A criatura tenebrosa da qual me tornei ou aqueles que matam os seus? Um anjo não mata sua cria, ele manda outro fazer. Um demônio não trai a mão que o alimenta. Onde está o amor da raça humana? Jogada nas lixeiras de suas almas podres e fétidas. Ódio? Eis tudo o que sou. Minha missão? Acabar com a escória que habita a terra e depois esperar pelo meu fim. Covardes inúteis. Passo por eles, olho em seus rostos enrugados com o passar dos anos e eles não me reconhecem... Saboreiam o doce sabor do engano enquanto esse alimento não alcança o amargor do fim. Dois meses numa cidade que existe no mundo de ninguém foi o mesmo que vinte anos. E eles jubilam nas suas fantasias de boa vida e de sucesso, com a flacidez de suas peles emoldurando corpos frágeis e velhos. E eles não me reconhecem... Raça pútrida! Infames criaturas! Tantos de nós foram destruídos pelos seus pecados. E eu cheguei a acreditar que tudo aconteceu por culpa minha. 25


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Aproveitem enquanto podem. Exatamente a dois metros de distância, mais que suficiente para sentir o odor intragável de seus poros dilatados exalando o suor provocado pelo exesso de álcool, os observo sentada na mesa do bar. Três almas que exultam por mais um grande feito. O olhar de cada um encontra o meu. E eles não me reconhecem... Como poderiam? Estou com minha face presa a estranha e falsa inocência dos dezessete anos, enquanto seus corpos reclamam a chegada dos cinquenta. E eles me reconhecem... -Perdeu alguma coisa? – resmunga Mariana ao perceber que estou fitando-a. Meu sorriso malicioso continua o mesmo. Isso a assusta. -Peraí, você é parente da Lienne? – perguntame Daniel com seu olhar cobiçoso, como um pedófilo ansiando por sua criança. Não respondo. -Você é surda, garota? – fala Mariana. Meu olhar recai para sua mão esquerda onde seus dedos exibem orgulhosos o mesmo aro dourado da mão de Daniel. Levanto-me acendendo um cigarro e caminhando até eles. Aquela porcaria já não faz efeito entorpecente algum em meu corpo, mas aparências precisam ser mantidas. Sorrio baforando a fumaça de nicotina. 26


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-Não sei quem é Lienne, mas um dia vocês ouvirão falar muito de mim. -És muito atrevida, garota – grita Mariana. -É a frase que mais escuto – falo com ironia. – Entretanto, afirmo-lhe que ainda hei de ver-te rastejando atrás de mim. -Mocinha, - falou Daniel sorrindo – quem você pensa que é para falar assim conosco? Uma pergunta estúpida que não merecia uma resposta. Sorri novamente e segui meu caminho.

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A BENÇÃO DOS LÁBIOS Por que seus olhos confundem-me? Por que sua imagem chama-me? Por que seus beijos aquecem-me? Por que eu te amo? Confunda-me com seus beijos, Depois liberte minha alma. Aqueça-me com sua imagem, Depois deixe-me morrer. Chame-me com seu olhar, Depois mate-me com sua partida. Porque eu te amo. Sua voz é como oração Quando sussurras meu nome. Seus beijos são bênçãos Estampadas em meus lábios. Ore meu nome, Abençôe minha boca. Depois mate-me com sua partida. E eu sempre te amarei.

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Capítulo 5 – Encontrando. Caminhando de volta para meu novo lar, com o ego e o orgulho inflados pelo ocorrido a pouco, meus pensamentos voltam para onde o coração chama. Começo a lembrar de beijos que incendiaram-me de desejos e anseio por ele. O fogo... meu fogo, o anjo do fogo! Toco no símbolo do nosso amor despedaçado, a pedra que carrega o peso de uma traição. Uma traição para salvar uma amizade... Nada valeu, eu o perdi e já não tenho mais meus dias felizes. E o poder de um pensamento apaixonado é tão forte, que meu anseio vai até onde ele está e o traz até mim. A imagem perfeita a minha frente. Um anjo ao meu alcance, sorrindo feliz. Se é uma realidade ou uma miragem, eu não sei. Mas o fato de vê-lo é tão agradável que o esforço para controlar as batidas rápidas do meu coração é enorme. -Anjo – falo sorrindo. -Por que deixei-te? – ele pergunta. -Porque era o certo a fazer. -Não é certo deixar o amor – sua voz perfeita sempre retruca minhas respostas. -Não, meu anjo, não é certo. Mas talvez eu não seja o amor que tanto procuras. Estás enganado ao meu respeito. A sua resposta veio com um beijo. Sentir sua língua procurando a minha ansiosamente, sua pele 29


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em contato com a minha, o calor do desejo, a vontade de entregar-me e desvendar seus mistérios... Afasto-me subitamente. -Vá embora, Arel. Meu mundo não te pertence, meu amor não é seu – declaro pesarosa e firme. -Não posso perder-te. -Ninguém perde o que não tem. Isso tudo é só uma ilusão, nosso amor é proibido. E depois, jamais acreditastes em mim, eu quis ajudar um amigo e vistes tal ato como uma traição dos meus sentimentos sinceros por você. -Quando fostes sincera? Sua vida é uma bola de mentiras e falsidades – sua voz proferindo essas palavras assolou-me o coração. Venci o ódio e a humilhação e sorri. -Vejo que aprendestes a lição. Agora saia do meu caminho e não procure-me mais. Segui sem olhar para trás, até que ele chamoume: -Lienne, onde estão suas asas? -Não queira saber essa resposta. De volta a mansão. Noite sem sono. De volta a eternidade em claro. Os sonhos acabaram. As esperanças se foram... A vida é um mistério. Os anjos são um mistério. Por que amamos se nossa função é viver na solidão eterna? Ouvi-lo chamar meu nome foi como 30


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mágica, foi sagrado. Anjos não sussurram, eles oram. Meu nome em sua boca foi um ato sagrado. Fui enaltecida e abençoada, para logo a seguir ser amaldiçoada por um beijo tão encantador quanto o milagre da vida que faz os nefilins existirem. Meu nome ressoando em sua voz... sensação tão boa quanto voar! -O que estou fazendo? – murmuro para meus pensamentos. – Não posso tê-lo. Já prometi meu corpo para outro. -Falando sozinha? – a voz do outro anjo perturba-me. Hora de sorrir novamente. -Encontraste-me afinal – respondo. -Tal beleza caminhando aos prantos pelas ruas desse mundo infectado de horror é motivo para destacar-se. -Acabei de chegar e já perturbas-me com futilidades, Persis. -Caistes de amores por aquele anjo? – ele acusa-me. -Amor? Desconheço tal sentimento – respondo dando de ombros. -Uma pena, porque eu te amo e ansiava entrar em seu coração. -Tenho uma palavra no lugar desse orgão. -Qual? -Vingança, Persis. Vingança. -Nosso acordo está de pé? -Por que não estaria? – rebato sua pergunta. -Porque habitas na casa do Rei das Trevas. 31


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-Azazel encontrou-me primeiro – menti. -Que seja. Como faremos? -Do meu jeito. Eu dou as cartas agora. -E por que pensas que aceitarei seu jogo, Lienne? -Porque tenho as respostas que tanto anseia, porque sem mim, nada terás para entregar ao nosso Rei. Persis sorri. -Sempre soube que você seria a melhor. Tão cruel... Uma peste com o rosto de um anjo emoldurado no corpo de uma criança. -Não sou mais criança, Persis. -Deflorastes teu corpo com aquele anjo? – perguntou-me Persis enciumado. -Tal preciosidade continua imaculada, meu querido. Ele deu a volta em torno da mesa enorme do escritório da mansão e curvou-se para deixar seu olhar no mesmo nível que o meu. Senti quando sua mão agarrou meus cabelos fortemente antes de sua boca murmurar as palavras: -Pertences a mim, somente a mim. Afastei sua mão com um safanão que ele não esperava. Levantei-me bruscamente, obrigando-o a dar dois passos para traz. O empurrei contra a parede e deixei meu corpo encostar no dele de maneira sensual. Fiquei nas pontas dos pés para alcançar seu ouvido e sussurrar:

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-Não sou de ninguém, porém, se pedires com carinho, posso pensar em dar-te algum prazer. Mas te garanto que quem dá as regras agora sou eu. Eu o beijei. Uma noite e três beijos. Uma noite e três ameaças. Uma noite e uma tentiva por parte do meu pai de matar-me. Uma noite e muitas mentiras proferidas. Eu afasto-me enquanto observo Persis de olhos fechados e arfando pelo beijo. Acendo um cigarro, mania irritante, mas que tranquiliza. -Entendestes? Ou preferes que eu desenhe em gráficos? – pergunto vitoriosa. -Continuas com vícios que nenhum prazer podem oferecer-te? -E o que tu tens a ver com isso? -Ficaremos nesse eterno bate e rebate de perguntas? -Apenas responda-me, Persis. -Que tal se os dois dividirem o poder? -Se gostas de viver na ilusão de que é assim que vai ser, pois que seja – dou de ombros. – Você é quem será iludido mesmo. -Veremos de quem será a ilusão no fim dessa história. -Vai embora, Persis. Tenho mais o que fazer.

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VINGANÇA Analisando os fatos, Correndo em pensamento, Discernindo as jogadas. Entranto com tudo. Matar ou morrer... Eu mato... E depois morro. Eu vingo, Eu venço. Eles não imaginam, Não fazem idéia. Apenas esperam... Anseiam por uma única chance De enganarem-me novamente. E o sorriso estampa-se no meu rosto. Matar ou morrer? Eu mato, eles morrem.

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Capítulo 6 – Analisando. Passei a noite inteira analisando os documentos da minha nova empresa: Exodus Arquitetura S. A. Claro que ela não era só minha. Apollyon jamais faria algo que não lhe desse vantagem alguma. Eu era a sócia, ele estava naqueles papéis como meu marido, fato que tornava tudo muito mais engraçado. Bem, o quadro de funcionários era vasto. Uma empresa grande e com um faturamento absurdo! Quem Apollyon teve que matar para conseguir isso, eu jamais saberia. Mas o interessante era os “milagres” que esse ser fazia para conseguir o que tanto almejava. Enfim, passei a noite inteira lendo aquelas porcarias, planejando minha vingança, formulando as maiores falcatruas para destruir aqueles três imbecis que me trairam. De certa forma, apesar de tudo o que fiz contra eles, eu lhes dei uma chance e o modo como agiram comigo foi vil até mesmo para esse monte de lixo. O sol já reinava forte. Eu estava recostada na imensa cadeira daquele escritório com um sorriso estampado no rosto, contando os minutos para iniciar meu ataque contra as bestas humanas. Não senti quando minha visita entrou, devido a tamanha concentração que esse assunto me dava. -Sonhando acordada, nefilin? – perguntou-me o Rei das Trevas. 35


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-Não me chames assim. Sabes tão bem quanto eu que essa fase da minha vida já passou – retruquei. -Sempre serás a filha de um anjo. Podes estar alada agora, mas sempre serás uma nefilin. -Homens... humanos, demônios, anjos... sempre vão irritar-me. -E você sempre irá me fascinar – disse ele aproximando-se de mim, curvando-se para sua boca alcançar meus lábios, beijando-me de maneira intensa e deliciosa. Esse ósculo só perdia para o sabor doce da boca de Arel. Nem Persis despertava esse desejo em mim. – Não imaginas o quanto desejo-te. -Não és o único – provoquei-o com um sorriso maldoso. -Mas serei o primeiro! Certo, ninguém consegue rebater as palavras dos arcanjos e Apollyon, mesmo sendo um demônio das trevas, foi um arcanjo um dia. Eu deveria ter aprendido essa lição na Cidade dos Nefilins, mas a teimosia sempre inspirava-me a responder. Observei melhor Apollyon. Ele trajava um imponente e elegante terno escuro. Parecia o humano mais lindo do universo, perfeito em sua imagem de um nórdico simpático. Seus cabelos loiros, quase brancos, destacavam aqueles olhos que ficavam azuis nesse mundo. Lindo e perfeito! Mas meu coração fora doado a outro arcanjo e eu sempre amaria Arel. -Pronta para assumir o poder? – ele perguntou-me. 36


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-O que achas? É um momento notável de grande ansiedade da minha parte. Mas o clímax dessa vingança só chegará quando eu vê-los derrotados. -Não contarás seus planos nem ao seu rei? -Que valor terá se meu rei souber minha conspiração? Não lhe agradarás mais a minha atitude em relação aos fátuos humanos podres e desatinados pela confusão que irei proporcionar-lhes do que conhecer antecipadamente o fim desse jogo? -Perversamente matreira, criatura fascinante com planos exímios! – ele respondeu-me com um sorriso sedutoramente maléfico. – Vá, querida súcubo. -Não sou uma súcubo – falei de maneira casual. -Não és nefilin, não és súcubo. O que és, minha cara? -Simplesmente Lienne, a nubente do inferno – respondi com a voz sensual, aproximando-me dele. -Apenas uma neófita nessa arte, minha querida. -Penso que já provei meu valor, grande Rei. -A cada segundo torna-se mais atrevida, alada rainha. Agora vá, apronte-se para a nossa chegada na Exodus. -Nome propício para uma empresa, sendo que tirarei todos de lá. Apollyon riu alto. Deixei-o sozinho naquele escritório e subi para trocar-me, escolhendo uma das roupas que, como todos os milagres de Apollyon, 37


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empilhavam-se de maneira organizada num closet perfeitamente abastecido, como se esperassem sempre pela minha chegada. Assim que desci a longa escadaria, duas silhuetas assombram a porta de entrada. Com a nova visão, de longe percebi a presença dos dois nefilins. Caminhei altivamente até eles. -O que fazem aqui? – perguntei com a voz controlada e com o coração aflito. -Fugimos daquela cidade – respondeu o nefilin. -Ai, meu deus! Se eu soubesse que você se esconderia tão bem e nesse lugar belíssimo, eu nem teria hesitado em fugir! – exclamou Séfora adentrando na imensa residência da qual eu habitava e observando cada detalhe. -Séfora, como conseguistes caminhar a luz do sol? – perguntei sem entender. -Encontramos Persis durante a noite e ele forneceu-me uma bebida esquisita, mas que permiteme caminhar pela luz da estrela matutina. Olhei rudemente para Azazel. -Um pequeno experimento que deu certo, minha senhora – ele defendeu-se ao meu olhar inquisitivo. -Tendo esse experimento em mãos, privastesme dessa benção? – indaguei. -A jovem nefilin foi o teste de Persis. Caminhei até Azazel e o chutei no abdômen, lançando-o contra a parede. 38


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-A quem obedeces, estúpido transformado? A seu rei ou a outro de sua espécie? – gritei-lhe. Azazel levantou-se com dificuldade e, de cabeça baixa, respondeu: -Esse experimento foi dado antes de sua volta, senhora. -Na próxima que fizerdes sem meu consentimento terás a cabeça separada de seu corpo – respondi-lhe. Depois virei-me para Mikael e perguntei: - Por que fugiram da Cidade? Não sabiam que estariam mais seguros por lá? -Kandake nos orientou para que fugíssemos – desculpou-se Mikael. -Seu pai é uma anta! -Meu pai? Não, eu era a anta. Uma grande tola que fala demais. Felizmente Apollyon apareceu e salvou-me das indagações de Mikael. -O que temos aqui? – perguntou o Rei das Trevas. -Dois fujões querendo arrumar uma grande refrega para nós. Estúpidos! – falei por entre os dentes. – Hazanel mandará todos a procura dos dois. -Hazanel é só um tolo besta, Lienne. Deixe os jovens sob nossa proteção. Nenhum deles ousará enfrentar-me – respondeu Apollyon. -Então, o problema será todo seu. -Ora, essa doce garotinha passará facilmente como nossa filha – ele disse sorrindo enquanto colocava o braço em volta dos ombros de Séfora, que 39


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sorria como se tivesse ganhado na Loteria. Um pai, era a figura que ela mais almejava na vida. – Assim será, Lienne. -E eu tenho idade para ter uma filha desse tamanho? Séfora é mais velha que eu! -O presidente da Exodus já teve outras mulheres. Ela será sua enteada – Apollyon sorriu, divertindo-se com tudo. -E o que farás com Mikael? -O filho de Kandake será nosso funcionário. -Kandake é meu pai? – perguntou o nefilin. Revirei os olhos. Aquela situação cansava-me. A imputação malévola de Apolyon não tinha freios e colocar Mikael e Séfora nessa assacadilha não agradava-me nem um pouco. -Kandake é seu pai, aquele imprestável é seu irmão – apontei para Azazel – e eu não tenho paciência para lidar com isso. Você irá conosco e Séfora fica. Não sei até quando as porcarias que Persis lhe deu durarão – olhei para a nefilin. – Suba, Teddy está em cima da cama do quarto principal. -Não o lavastes, né? – ela perguntou-me inocente como uma criança. -Não, aquela porcaria continua fedido e encardido como sempre foi. Agora suba! -Você não manda em mim, Lienne – ela retrucou. -Ah, que lindo teatro! Sou sua madastra, lembra-se? Ou aceita isso ou volta para a Cidade dos Nefilins. Como será? 40


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-E enfrentar quinze chibatadas? Não sou tão louca quanto você. Bufando, Séfora fez o que lhe ordenei. Era hora de enfrentar a realidade e dar o primeiro passo para a minha doce e imensamente esperada vingança.

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O RETORNO DA FÊNIX Fui caçada, Enganada, Traída, Queimada, Destruída. Minhas cinzas eram Como odor agradável aos inimigos. Despedaçada, Ferida, Fugindo, Sem vida. Minha ausência era Como festa para os bandidos. Treinada, Concentrada, Vitoriosa, Alada. Meu retorno será Como fel para eles. Um doce sabor para mim. A fênix retorna Para completar o fim.

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Capítulo 7 – Conhecendo. Chegamos na Exodus e caminhamos rapidamente até a sala da presidência. Duas moças recepcionavam o local. Apollyon entrou direto na sala com Mikael ao lado. Eu parei na porta e olhei para as duas, analisei-as. Uma ruiva baixinha e simpática e uma morena alta e esguia. Duas humanas de belezas exóticas. -Sigam-me – falei quase rindo ao lembrar-me do modo como Arel tratava-me na Cidade dos nefilins. As duas acompanharam-me, adentrando no ambiente perfeitamente decorado. -Sentem-se – ordenei e as duas obedeceram. Agora eu entendia Arel, era bom mandar! -Já conhecem-me – Apollyon falou. – Esta é minha esposa, Eliane. -Eliane? – sibilou Mikael. Apenas assenti discretamente e ele entendeu o recado. -Ela será a nova presidente da Exodus. É a ela a quem responderão de agora em diante. Entendido? -Sim, senhor – as duas responderam em uníssono. -Eliane, - continuou Apollyon – essas são Fernanda e Priscila, suas novas ajudantes. Terminada as apresentações, ele fez um gesto para que eu falasse. Caminhei até ficar ao seu lado 43


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direito, mostrando minha verdadeira posição ao lado do Rei das Trevas, fato que elas desconheciam. -Não quero nenhum funcionário sem autorização entrando na minha sala, não quero fotos minhas em jornais ou revistas, não quero minha vida espalhada por aí. Mikael tem acesso livre a minha sala sem precisar ser anunciado. Me chamem de Lienne, um apelido usado pelos íntimos. Cumpram minhas ordens e terão uma grande amiga. Desobedeçam-me e corram, pois eu não serei piedosa – terminei meu discurso com a voz firme, disfarçando a ansiedade por ter tanto poder nas mãos. Ambas olhavam-me com uma mistura de medo e admiração. -Podem se retirar – Apollyon completou. -Estamos a sua disposição, senhora – falou Priscila. -Sem formalidades. Sou forte, mas não mordo. Realmente eu espero amizade e fidelidade. Portanto, chame-me apenas de Eliane. -Sim – ela deu-me um sorriso contido. -Podem ir – reforcei a ordem de Apollyon. Ficamos a sós na sala. Nos entreolhamos. Mikael expressava confusão, enquanto Apollyon sorria. -Lembra-se da história que contei para Arel? – perguntei ao nefilin. -Sim. -Isso tudo faz parte da minha vingança contra aqueles humanos que mencionei em tal conversa. Ou 44


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estás do meu lado ou este é o momento de partir. O que farei a partir de agora não será motivo de orgulho para um anjo fiel e quem estiver do meu lado terá o mesmo desagrado que acarretarei. -Entretanto, terás a minha proteção caso aceite ajudar Lienne – falou Apollyon oferecendo o pior convite para Mikael. -Vingastes a morte de Saron, Lienne. Provastes com aqueles castigos que és digna da minha confiança. Jamais te deixarei. Essas palavras de Mikael fizeram-me lembrar do meu amigo. Na verdade, lembrei-me de tudo que deixei para trás... Meu pai, meus amigos, meu grande amor. -Apenas ajude-me, Mikael. É só o que te peço. E a vingança tomava forma. O primeiro passo foi dado. E esse passo foi além do que eu planejara, pois acabei envolvendo dois amigos nessa tramóia. Percebi que eu agia tão erroneamente quanto aqueles que me trairam. Era como se todo o tempo passado voltasse de maneira grandiosa. Eu usaria aliados mais fortes, minha nova empresa era muito maior e meus inimigos estavam sob meus pés. Eu não senti o que esperava. Uma sensação estranha assolava-me o coração, mas o desejo de vingança era tão forte e entorpecente que fez-me ignorar tudo. -Qual o primeiro passo? – Mikael perguntou, tirando-me de devaneios insanos. -Contatos e projetos. Preciso saber de tudo o que está se passando na empresa. Preciso que 45


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comunique a todos os arquitetos a nova presidência, principalmente aos três babacas que eu tanto odeio. Torne-se amigo deles, aproxime-se, faça-os confiar em você. -Volto em uma hora – respondeu o nefilin, retirando-se dali determinado a cumprir tudo o que eu havia pedido, com um sorriso tão malígno quanto o meu. Observei Mikael. Ele seria um anjo forte se terminasse seu treinamento na Cidade dos Nefilins. -O filho de Kandake nasceu para servir-te. Ele te idolatra – comentou o Rei das Trevas. -Não é para menos, levei quinze chibatas para protegê-lo. Ele deve muito a mim. Apollyon soltou uma gargalhada sonora. -Acredito que a Cidade dos Nefilins conte seus dias agora em dois períodos: antes e depois da filha de Caleb. Quinze chibatadas! O que fizestes para merecer tal punição? -O que me pedistes, encontrei o caminho alternativo para entrar e sair de lá. -Quem foi o autor do seu castigo? -Meu pai. Mais uma gargalhada, que agora tornava-se irritante. -Caleb é digno de minha admiração. Jamais encostaria em meu filho. -Filho? – perguntei curiosa. -Um assunto que não lhe diz respeito, minha cara. 46


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-Vejo que modos rudes fazem parte da essência dos arcanjos – rebati lembrando de Arel no meu primeiro dia naquela Cidade. -Assim como sua curiosidade atormenta a todos. -Segredos não revelados e pertinentes aos meus planos atormentam-me – corrigi os pensamentos dele. -E que planos são esses? -De não criar filho de um demônio. -Você diverte-me, Lienne. Meu filho está criado e não faz idéia do que ele é. -Mantenha seu filho longe de mim, Apollyon. -Como? Ele está mais perto de você do que imaginas. -Desisto de tentar decifrar seus enígmas. Vou sair – falei caminhando para a grande porta de mogno. -Aonde estarás, nefilin? -Matando.

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O AMOR NOS MATA... O amor chega com um olhar. O amor consome a alma. Quando entenderás que te amo? O amor tira-nos de órbita. O amor comete loucuras. Não sabes que te amo? O amor faz perecer o ódio. O amor transforma demônios. Não acreditas que te amo? O amor nos vence, O amor nos engana, O amor enlouquece, O amor nos mata... Eu morreria por você. Eu morreria por esse amor.

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Capítulo 8 – Amando. O vinho batizado com sangue que Apollyon deixou na mansão supria-me a tal ponto de não precisar caçar. Eu tinha uma nova vida, e já não ansiava mais pelo sangue que corria nas veias humanas. Porém, em troca dessa transformação, ganhei sentimentos intensos que faziam-me arder de amor por um anjo. Caminhei até um lugar distante, chegando num local muito parecido com aquele onde Arel beijou-me pela primeira vez. Meu anjo... Por que os nefilins amam? Por que eu pensava assim, sendo que eu era um anjo? Ele não podia amar-me. Nossas vidas, nossos destinos, não foram entrelaçados. Eu desfiz todas as nossas esperanças com minhas escolhas. Permiti que o ódio tomasse o lugar do amor e segui pela estrada tortuosa da vingança. Porém, meu anseio por vê-lo era tão grande que chego a orar. Sim, eu orei. Pois seu nome era como prece sagrada. -Deus, como eu queria acreditar... como eu queria ele aqui! – sibilei. -Ainda não aprendestes que suas orações sempre serão atendidas? Impossível não sorrir. Ele estava ali, perfeito como sempre. 49


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-És um anjo, Ele escuta seus pedidos – Arel falava com satisfação, como se aquela prece fosse tudo o que ele mais desejasse de mim. -Como sabias onde encontrar-me? – perguntei disfarçando a felicidade de tê-lo a minha frente, a magia de revê-lo. -Adivinhar seus planos não é tão difícil assim. -Estás afirmando que sou previsível? -E não és? -Posso beijar-te ou bater-te, isso depende do meu humor – respondi. -Ainda assim seriam apenas duas opções. -Você me irrita, Arel. -Tanto que desejas-me ao teu lado. -Um anjo gabando-se? O pecado do amor não é o único que atingiu seu coração. -Lienne, sempre dramática! Éramos dois anjos estúpidos, um de frente ao outro, nos desejando. E tudo o que fazíamos era nos alfinetarmos. Eu só queria dizer que o amava, mas o orgulho construía barreiras diante das palavras. O caminho errado. A minha culpa. Atitudes insanas superavam a vontade de amá-lo. Um ódio crescente, o orgulho. A vingança valia mais que o amor? Mesmo fugindo dessa estranha verdade, lá estava eu, rendendo-me aos seus pés.

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-Por que empenha-se tanto em estragar a sua vida? – Arel perguntou-me enquanto sua mão alcançava minha face, acariciando-a delicadamente. -Fiz algumas escolhas erradas, Arel. Decisões estúpidas, confesso. Mas a vingança é como um vício, não posso livrar-me dela. -Não podes ou não queres? -Subestimas tal sentimento, anjo. -Nada é mais forte que o amor, Lienne. Sem que eu esperasse, ele tomou-me em seus braços, segurou-me de maneira que para desgrudarme dele, seria necessária uma luta. E eu não queria lutar, não dessa vez. Eu só queria sentir novamente o sabor dos seus lábios. E Arel não decepcionou-me quanto a isso. Sua boca percorria meu pescoço, trilhando o caminho que a levaria até meus lábios. Línguas movimentavam-se em sincronia, trazendo tudo o que palavras não conseguiriam explicar. Suas mãos soltaram meus pulsos para tocarem em meu quadril, puxando-me para si, apertando-me ao calor de seu corpo ardente de desejo. Pernas trêmulas. Vontades quase incontidas. Um amor revelando-se... Uma promessa havia sido feita e eu não poderia quebrá-la antes da minha vingança ser finda. Errado! Esse ósculo era um grande erro! Subestimar o Rei das Trevas era o único atrevimento que eu não ousaria fazer. 51


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Libertei-me de Arel com um grande empurrão. Seu olhar confuso era como o fio de uma adaga enferrujada cravada em minha carne. -Por que, Lienne? -Porque dissestes que eu era um erro. Porque essas palavras levaram-me até Apollyon e agora eu pertenço à ele. Eu posso dar-te inúmeras razões, Arel, porém nunca entenderás nenhuma delas. Num desvairado acesso, Arel partiu para cima de mim, arrancando minha blusa. Assustada, não reagi. Ele deu alguns passos para trás e avaliou-me com um olhar incrédulo. -Tens razão, eu não entendo. Continuas intocada. -Por que todos fazem isso comigo? Por que procurar por uma prova no lugar errado? – gritei com raiva. – Pior, uma prova invisível! -Não sabes o que acontecerá caso venhas a perder sua virtude? -Não! -Lienne, por trás dessa fúria ainda escondes a inocência de uma criança – e ele sorriu. -Não sou o que pensas, Arel. -Realmente. És somente uma tola. -Lindas palavras! Levantaram minha moral. Sou infantil e tola – respondi enquanto ajeitava os trapos que antes eram minha blusa. Nessas horas eu agradecia a existência de quem inventou a roupa íntima. Não que eu me sentisse à vontade trajando quase nada na parte superior do meu corpo. Na 52


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verdade, essa era uma situação bem patética, mas era melhor do que estar sem nada. -Desculpe-me por isso – falou Arel. -Por que ainda me segues? -Por culpa de três palavras: eu te amo. -Não foi o que dissestes quando eu beijei Liel. -Aproveitando o assunto, por que o beijastes? Essa era uma pergunta que eu não queria responder. Entretanto, eu já não tinha mais nada a perder mesmo... -Séfora e Liel estavam aos beijos naquele dia – respondi. -Qual o problema disso? -Alguém poderia vê-los. -Torno a perguntar: qual o problema disso? -Batestes a cabeça, anjo? Eles são filhos de Arktos, estariam quebrando uma das regras da Cidade dos Nefilins. Tente entender-me, Arel, eu só beijei meu amigo para salvá-lo de uma punição. -Calma, Lienne. Vamos por partes. De onde tirou a idéia de que os dois eram irmãos? -Nossos pais aparecem quando o perigo é eminente e nos conduzem para a Cidade dos Nefilins. Arktos salvou Liel. -Sim, mas isso não significa que Arktos é o pai dele. -Não? – esse era um segredo novo para mim. -Não. O pai de Liel pertence às trevas, por isso mandamos Arktos salvá-lo. Fofoca do ano até mesmo para os anjos! 53


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-Estás dizendo que todo o meu sacrifício foi em vão? -Ao lembrar-me da cena, vejo que não foi sacrifício algum para você. -Poupe-me de seus ciúmes, pois não sabes de nada, Arel – falei por entre os dentes. – És mais cego do que aqueles que vivem na escuridão. -Interessante ouví-la falar isso. Pois é você quem anda perdida em alcançar objetivos que irão destruir-te. -Ao menos eu luto pelo que quero. Mesmo que eu venha a perecer, terei sempre o orgulho de ter tentado – rebati. -Que orgulho é esse, Lienne? Orgulha-se da derrota? -Sou apenas fiel aos meus desejos. -Quando olho para você, tudo o que vejo é a infidelidade em forma de anjo. És, para mim, a mais perfeita infelicidade, a ânsia que tanto busco. Corri atrás desse sentimento e prostrei-me ante a sua determinação. Fui iludibriado pelos seus jogos sedutores. És uma mistura de inocência e maldade. -Jamais brinquei com o amor, Arel. Tudo o que sinto é verdadeiro. -Eis o mistério, Lienne... Com um simples e terno olhar, com o revelar de seu tórrido sorriso, com um único toque de sua suave pele, transformastes em humilde criança o mais poderoso dos infiéis. -Essa é uma tormenta que assola-me. -Pobre nefilin, perdida e sozinha. Mudastes o rumo de tantos e, mesmo assim, amo-te com a força 54


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do brilho de mil sóis. Porque um único beijo não foi suficiente para extrair a vontade lasciva de saborear seu amor. -Meu anjo... Eu não queria ser essa guerreira afoita. Eu não queria lutar contra esse sentimento. Mas, se eu morresse naquele instante, sabendo que ele amavame tanto, isso já era uma grande vitória. -Quem amas, Lienne? Quem realmente é o dono do seu coração? -Um mistério não revelado? Gravei seu nome em minha vida, Arel. -E no entanto insiste em perder-me. É disso que orgulha-se tanto? Eu vi a dor em seus olhos, eu vi o quanto ele amava-me, eu vi aquele anjo partir para poder sibilar: -Orgulho-me de amar-te muito, Arel. E durante toda essa conversa, não estávamos sós. Uma terceira figura observou tudo e agora fitava-me com seu olhar inquisidor. O ignorei e parti dali, na esperança de que esse assunto fosse deixado para trás...

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INIMIGO. O inimigo persegue-me, Ele me sonda como uma fera. Eu fujo em meu temor. O inimigo aproxima-se, Ele olha-me como um caçador. Eu o encaro por orgulho. O inimigo castiga-me, Ele profere duras palavras. Eu o escuto em minha dor. O inimigo acolhe-me, Ele me envolve em seus braços. Eu me rendo ao seu amor.

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Capítulo 9 – Respondendo. Ele seguia-me, queria respostas, buscava fatos, bem a sua maneira ortodoxa de ser. Eu não voltaria para a Exodus, mas ele saberia onde encontrar-me de qualquer forma. Voltei para a mansão onde agora eu habitava sempre com ele ao meu encalço. Assim que entrei no escritório, virei-me para encará-lo com um ingênuo sorriso eclipsado pelo meu olhar malígno. Eu estava mais contida, com a fúria reclusa, enclausurada pelo medo que eu sentia do meu genitor. -Essa sua paúra é, de certa forma, interessante. Lembra-me uma fera acuada que ruge para afastar seu caçador. Porém ainda vejo a coragem avançando em seu semblante. Uma forma eclética dessa sua nova vida – ele falou, analisando-me. Era perceptível a ebulição do meu amor contido, quase sendo revelado em forma de lágrimas. Eu estava ébria de paixão e a ponto de eclodir, de forma perspicaz e sucinta, o ódio pertinente que eu sentia por amar demais. Uma redundância estúpida do meu coração: amar e odiar. Eu amava Arel e me odiava por isso, mas não deixaria a presença daquele ser abater-me e eu lutaria pela minha verdade enquanto houvesse forças para isso. -Eis que a bela torna-se a fera. Num tempo longíquo você se renderia. -Eu lutaria – rebati. 57


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-Uma tentativa infrutífera, pois conheces a minha força. -Eu matei Iehuiah – falei com desdém. -E quem disse que ele era melhor que eu? Nem o olhar persuasivo que eu usara para derretê-lo enquanto eu era somente uma criança, foi suficiente para fazê-lo recuar. Eu o temia demais. Enquanto eu perdia-me na tentativa de condensar seus sentimentos, ele desferiu um forte golpe em minha face, fazendo o mundo girar diante de meus olhos. -Agistes como a áspide, pequena serpente cheia de mistérios e surtilégios. O que pretendes com tal atitude? Desvirtuar um arcanjo fazendo-o prostrar-se ante aos seus desejos? Mais um golpe inesperado, levando-me ao chão. Dali mesmo gritei: -O que esperavas de uma nefilin alada? -Bondade, amor, proteção! É disso que os humanos precisam, não de um arcanjo a menos para cuidar deles – urrou meu pai. -A bondade mata, o amor destrói e a proteção me expõe – respondi levantando-me. – Poupe-me de seu ciúme! -Anjos amam, Lienne. -Eu não tenho amor, pai! – exclamei. -Seus olhos só enxergam um caminho: vingança. -Vingança e amor assolam o coração de todos. Eu chorei. 58


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Estava perdida e desesperada, louca de terror, no meio de um labirinto de sonhos desfeitos, dentro de um emaranhado confuso e tosco. Vivendo a realidade tóxica do amor perdido. De frente ao arcanjo que deu-me a vida toda a minha coragem esvaiu-se. A leoa evanescente dava lugar a criança que um dia fui. E o amor que eu sentia por ele ainda residia em alguma parte do meu corpo angélico, pois eu ansiava por aqueles braços que um dia embalaram-me. -Ainda há tempo, Lienne, não destrua sua história. -O que restou para mim, pai? O era uma vez de ninguém? A criança cresceu, tornei-me um anjo. -Anjos e crianças não odeiam. -Então por que odeias-me? -De onde tiras essas idéias absurdas? -Diga-me, somente uma vez. -Eu sempre vou te amar, minha filha. -E mesmo amando-me não és capaz de entender o que sinto por Arel? Sabias dos meus sentimentos por ele, pai. -Sentir é uma coisa, agir é outra. -Agistes de maneira pecaminosa com minha mãe. Quem és tu para julgar-me? Ganhei uma lição que eu jamais aprenderia: meu pai não aguenta ser provocado. Uma série de golpes foram desferidos. Livrei-me da maioria, mas Caleb era muito mais forte e poderoso. E senti-me como se estivesse de volta a uma das arenas da 59


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Cidade dos Nefilins quando seu chute acertou-me o estômago. Caída, vi quando ele aproximou-se de mim. Eu esperei por mais um golpe, com a ridícula esperança de interceptá-lo ou revidá-lo. Entretanto, Caleb abaixou-se para olhar-me nos olhos e dizer: -Seu atrevimento não terá fim? -Esqueça-me. Eu sou a filha de um pecado que jamais deveria ter nascido. Dito isso, levantei-me e fui para os meus aposentos. Machucada e pensando nele. Um amor proibido e arrasador. Há momentos em que me perco na ilusão e, quando a realidade volta, já não sei se conseguirei viver sem ele ao meu lado. E o que eu não daria para conhecer o amor carnal de um anjo? Felizes foram as mulheres que deitaram-se com eles. Mesmo com suas vida rompidas para que monstros pudessem nascer, elas experimentaram o amor mais sublime de todos. Eu seria capaz de quebrar meu trato com as trevas só para ter o prazer que o corpo dele poderia me dar. Mas Arel é como uma estrela inalcansável para mim. Enquanto soluço pelas lágrimas pesadas, como criança sem consolo, sinto mãos fortes, que há muito não me tocavam daquele jeito. -Eu sei o quanto dói – ele sussurrava enquanto prendia-me em seu abraço. 60


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E o ódio se dissipa. Toda aquela luta foi esquecida e entrego-me como a nefilin desprotegida que adentrou na Cidade que transformou-me em anjo. -Pai, arranca isso de mim – peço com a voz embargada. -Ninguém arranca o amor, é uma tortura eterna. Lastimo por você, minha filha. És capaz de destruir grandes criaturas, no entanto não consegues vencer o amor. Caleb pega-me em seus braços e coloca-me na cama. Senta-se ao meu lado, velando meu pranto suas antigas palavras faziam-se reais ali. ele disse certa vez: “No momento de encarar a tempestade, estarei ao seu lado”. E meu pranto torturoso era a tempestade que descia em forma de lágrimas por um anjo proibido para mim. -Por que ainda me amas? – pergunto. -Porque tenho fé em você. -Não sou mais uma nefilin. -Mas sempre serás minha filha. -Pai, mataria-me se eu lhe pedisse? -Eu poderia ter matado-te há pouco. Mas quando olho para você, vejo muito mais que meu reflexo. Vejo a força de uma vida que insiste em negar sua essência. Você ama, Lienne, apenas aceite isso.

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-Eu só queria Arel ao meu lado, só uma única noite, uma única vez. Depois disso, poderias destruir-me. -Não diga essas coisas, ainda sou seu pai. Por que achas que tivemos essa briga? Podes chegar a ter mil anos e mesmo assim serás uma garotinha para mim. Morro de ciúmes de você. Eu sorri. -Preciso ir, Lienne. Fique em paz. -Adeus, pai.

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POR VOCÊ. Por você, eu alcançaria o mundo. Por você, eu desistiria de tudo. Por você, eu enfretaria meu maior inimigo. Por você, eu viveria sem abrigo. O único quem ama-me realmente, O único quem esteve ao meu lado sempre. O único quem salvou-me, O único quem amparou-me. Por você, faria loucuras. Por você, eu morro. Tomo minha decisão, Dou-me como experiência, Meu corpo será sua salvação.

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Capítulo 10 – Conhecendo. Eu não ficaria na cama chorando o dia todo como uma criança mimada. Aproveitaria todas as oportunidades, mas eu precisava recuperar-me das dores que os golpes do meu pai causara-me. Caminhei pela imensa mansão em busca de Azazel e o encontrei numa das salas. -Preciso daquela porcaria que Persis coloca no vinho – falei firme. -Mate um humano e beba o sangue dele – Azazel respondeu de maneira casual. -Os golpes que recesbestes não foram suficientes para mostrar-te quem é que manda aqui? -Falas do acelerador? -Do que mais seria? Ou acaso pensas que eu desejava um cacho de uvas? – respondi imitando o modo de Arel falar. Tudo era ele para mim, eu respirava Arel assim como um vampiro anseia por vida. Ele remexeu em seu bolso até encontrar o que procurava e logo ele lançava ao ar um pequeno frasco que veio parar certeiramente em minhas mãos. -Onde conseguistes tais lesões? – perguntoume Azazel. -Sabes o que aconteceu. Não se faças de besta – respondi sem paciência e virando aquela porcaria de uma vez. Eu esperava pela mesma reação que tive quando ingeri essa droga pela primeira vez. 64


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Entretanto, na pele de um anjo, a reação foi como sentir nada. Porém eu pude sentir quando as dores diminuiram e meus ossos voltavam para o lugar. Olhei para o pequeno frasco de vidro e percebi que ainda restava cerca de um terço do conteúdo. Preparei-me para beber o resto, quando Azazel chamou minha atenção: -Vá com calma, anjo. Acelerador em excesso pode provocar-te uma mutação indesejada. -Como assim? -Como o próprio nome diz, esse produto acelera suas células regenerativas. Tomado em excesso, seu corpo irá desgovernar seu sistema hormonal e essas células estarão totalmente fora de controle. -Anjos têm hormônios? -Inacreditável, mas têm. -E se eu tomar demais eu me transformarei em... – o instiguei a contar mais. -Conhecestes Kali? -A filha de Hazanel? – rebati sua pergunta. -Como sabes que ela é filha de Hazanel? -Não sei. Não sabia nem que ela ainda vivia. -Bem, Kali foi salva pelo nosso Rei. Ela um dia foi uma nefilin, assim como você. Porém, para os nefilins da antiguidade, o dilúvio era o fim. Exceto para alguns que foram resgatados por nosso Rei. E foi com essa droga que ele curou suas feridas, porém o resultado não foi o que ele esperava, transformando aqueles nefilins mórbidos em criaturas deformadas e abomináveis. E mesmo assim 65


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eles são gratos ao Rei por salvarem-lhe a vida, chamando-o de pai. -Grande explicação! – exclamei. – E se o acelerador fosse dado à eles novamente? -Eu tenho duas teorias quanto a isso: ou eles morreriam ou suas células se regerariam e eles voltariam a ser o que eram antes. -Peraí! Tem um ponto cego nessa história. Por que eles tranformaram-se naquelas criaturas? Porque eu entendo que estejas falando de Adramalech também – falei enquanto meu cérebro trabalha a mil pensamentos por minuto. -Não posso dizer-te ao certo, mas acredito que essa droga deveria estar com a concentração errada. Por esse motivo os nefilins sofreram mutação excessiva – respondeu Azazel como se o assunto “alquimia” fosse a sua vida. Meus pensamentos vagaram para uma idéia principal: na concentração certa, os nefilins voltariam a ser o que eram. Adramalech voltaria a ser o que era! Ele seria novamente o nefilin perfeito que um dia foi e eu não duvidava da beleza do meu irmão. -Qual o ingrediente principal desse veneno? – perguntei a Azazel. -Bem, eu não chamaria esse composto de veneno. -Que seja, é uma droga, muda nossas células, é veneno – rebati irritada. -Lembra-se da árvore com o fruto da vida?

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-Aquela que o livro sagrado descreve na passagem que conta sobre o Paraíso e os pais da humanidade? -Sim. Adão e Eva. O fruto oferecido pela serpente – explicou Azazel. Eu ri alto. -Ela foi muito burra, mas Apollyon não pode levar a culpa disso. Eva comeu aquela maçã porque quis – falei em meio as gargalhadas. -E quem disse que era uma maçã? Aquele fruto é sagrado e não existe em meio aos humanos. -Certo, essa frutinha está no Éden onde tem dois anjos gigantescos na porta e ninguém entra e ninguém sai – comentei como quem pede mais explicações. -As almas puras podem entrar lá. Por que achas que o nosso Rei mantém aqueles que um dia foram nefilins? Adramalech e Kali são dois desses que sempre invadem o Éden em busca do fruto proibido para a preparação de mais composto acelerador para a transformação de nefilins em seres noturnos. -Estás dizendo-me que Apollyon expõe Adramalech ao risco de ser morto por dois anjos brutamontes que defendem o Éden? -Não só ele, como a doce Kali também. Então eu percebi que Azazel sentia algo a mais pela filha de Hazanel. Percebi que ele era o único ser que realmente conhecia o amor, pois ele enxergava a alma e não a aparência. Kali deveria ser tão bela quanto Adramalech, mas sua beleza era 67


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interna e não física. E eu vi que eu era mesmo a pessoa mais mesquinha e egoísta do universo e jamais mudaria tal posição, porque vendera minha alma em troca de uma vingança boba. E após raciocinar bastante, uma nova vingança nascia em mim. Apollyon expusera Adramalech ao perigo, por isso o grande Rei não permitira que ele saísse daquele lugar asqueroso comigo. -Azazel, o que farias para livrar Kali dessa loucura? -Não entendo suas palavras, anjo. -Testaria esse experimento numa dose excessiva para que Kali tivesse uma única chance de voltar a ser como foi um dia? – perguntei com a intenção de usar a filha de Hazanel como cobaia. Se tudo desse certo com ela, Adramalech seria o próximo. -E colocar a vida dela em risco? Jamais faria isso! -E se fizéssemos ao contrário? -Eu realmente esforço-me para acompanhar seu raciocínio, mas sua mente trabalha mil vezes mais que a minha. Sinto muito, mas não entendo o que dizes – respondeu Azazel. E ele tinha razão, o que minha mente processara era uma grande loucura, mas o que eu teria a perder? Arel... e ele era tudo para mim. -Eu penso que, se eu ingerisse uma dose maior que a necessária desse acelerador e tranformasse-me em demônio, como Adramalech e Kali, depois 68


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tornasse a beber desse produto, eu voltaria a ser como estou agora? -Isso nunca foi testado por um anjo transformado, senhora Lienne. Com os nefilins, eu tenho a certeza de que esse processo daria certo, mas com os transformados, como eu ou a senhora, não tenho a mesma certeza. A não ser que... Azazel hesitou em responder e ficou pensativo. Logo vi seu olhar arregalando-se, como se alcançasse a ciência de um segredo sagrado. -Conte-me – ordenei. -Senhora, apenas permita-me refletir melhor no assunto para dar-te a resposta certa. -Tão sério assim? -Uma grande revelação, senhora. -Pois, que seja, Azazel. Assim que tiverdes algo concreto, procure-me. Virei-me para voltar ao escritório da mansão, entretanto, antes que eu pudesse retirar-me, o filho de Kandake chamou-me. -Senhora? -Sim. -Farias qualquer coisa para salvar seu irmão? -Então sabes que Adramalech é meu irmão? -Esse assunto só é segredo fora do reinado de Apollyon. Suspirei e fechei meus olhos, lembrando-me de que Adramalech foi o único que sempre estivera ao meu lado. E o carinho que eu sentia por ele era mesmo enorme. Meu grande irmão merecia uma chance, pois ele era o verdadeiro herdeiro do trono 69


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da Cidade dos nefilins. O filho varão de um arcanjo, uma alma pura e fiel, esquecida no submundo de um rei enganoso. -Eu morreria pelo meu irmão – respondi. -Era tudo o que eu precisava saber. -Por que importa-se tanto com ele? -Não é com Adramalech que importo-me, nem com o trono da Cidade dos nefilins, acredite. Tudo o que eu desejo é ver Kali feliz. -Prepare esse veneno, Azazel. Acerte na dose e eu darei a minha vida para salvar esses dois.

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DOCE VINGANÇA Observando, Analisando, Esperando, Planejando. Ansiando, Aproximando, Enganando, Saboreando. Torturando, Sorrindo, Vencendo, Exterminando. E minha doce vingança toma forma...

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Capítulo 11 – Planejando. Eu volto para a Exodus e encontro Apollyon sentado na cadeira da presidência. -Esquentando meu lugar? – perguntei ironicamente. -Esperando-te, minha cara – ele respondeu levantando-se e cedendo o lugar para que eu pudesse sentar. -Mikael? -Já esteve aqui procurando por você umas duas vezes. -Vou chamá-lo – fiz meção de levantar-me, mas fui detida por um forte empurrão do rei das trevas. -Onde esteves? -Sabes de todos os meus passos, seus demônios me perseguem. Por que perguntas? -Porque quero saber até onde vais tua fidelidade comigo. -Achas mesmo que morro de amores por ti? Nunca enganei-te, grande rei. Entretanto, meu acordo foi firmado contigo e um único beijo não mudará minha palavra – respondi de maneira firme. -Não gosto de saber que a nubente do inferno anda distribuindo seus ósculos aos indignos por aí. -Matarás à todos? Nunca parastes para pensar que Arel pode ser um bom informante? Apollyon afastou-se sorrindo torto. 72


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-A cada palavra sua tenho a certeza de que fiz a escolha certa. -Até porque sou a única filha de um arcanjo. -Fato que seu pai poderia mudar. -Fato que meu pai não seria capaz de mudar – rebati. -Caleb ainda morre de ciúmes da filhinha? E o que dirá a sua pequenina quando souber que seu papaizinho não é o santo que aparenta ser? -Não tenho paciência para seus jogos, Apollyon. E a vida sexual do meu pai pouco importa-me. Você só tem duas opções: ou aceita meus beijos com Arel e Persis ou destrua os dois. Assim todos saberão que o grande rei das trevas realmente se rende de amores por alguém. -Eu não te amo, Lienne. -Estamos quites, eu também não te amo – caminhei até ele e deixei meus braços enroscarem-se em seu pescoço. – Mas morro de desejo por você, meu rei. Apollyon estremeceu, depois envolveu-me em seus braços e beijou-me calorosamente. Um ósculo entorpecente, exasperado, enfeitiçado. -Ah, imenso e odioso sentimento – ele sussurrou. -Sim, caro rei, o pior dos castigos. -Eu a cerquei, encurralei, dominei e a vítima sou eu – Apollyon sorri. – Quis fazer doer e essa dor instalou-se em mim. O que és, linda Lienne, uma criança hiperativa ou um cão antisocial? -Faça sua escolha. 73


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-Não posso. Estou completa e insanamente perdido nessa fantasia ilusória. Olho para ele sem entender. -Sim, minha pequena leoa, és apenas uma ilusão. -O tempo e o imprevisto sobrevêm para todos – respondo. -Palavras de um sábio rei... mas até mesmo Salomão rendeu-se à mim. Mas você... você é como o sol depois da tempestade. Não, você é a tempestade. Água de chuva torrencial. Vem forte, bagunça, destrói, deixa sua marca, acaba, vai embora, evapora. -Isso tudo é besteira, Apollyon. -Devaneios de um sádico, minha querida. -A verdade é que teme minha traição. Nunca temestes nada, mas temes a mim e isso tortura-te – respondi vitoriosa. -A verdade é que precisamos um do outro, Lienne. Que venha o tempo, que o imprevisto desça sobre nós, sempre teremos nossa esperança de vingança estampada um no outro. -Meu destino já tem endereço fixo. -Sim, o inferno. Eu ri. -A Cidade dos Nefilins, Apollyon. -Que eu transformarei no novo inferno. Vejote em breve, linda nefilin. E Apollyon deixou-me a sós com meus pensamentos. Eu não podia preocupar-me com ele, eu tinha uma vingança para preparar. 74


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Saí daquela sala e encontrei uma das minhas novas ajudantes. -Priscila, encontre Mikael para mim, por favor - pedi para a humana. -Claro, Lienne, sem problemas. -Depois venha até minha sala. Não esperei sua resposta, mas aguardei sua presença. Em menos de dois minutos ela adentrava no imponente escritório. -Encontrastes Mikael? – perguntei. -Não, mas deleguei a tarefa à Nataly, uma das subordinada. -Inteligente. -Preciso estar a altura do cargo. -Ganhastes um ponto comigo. Agora preciso que digas-me tudo o que sabes sobre um dos funcionários da Exodus. -Conheço todos, Lienne. É só perguntar. -Daniel Medeiros. -Arquiteto, quarenta e oito anos, casado com Mariana Medeiros, Mariana Souza com nome de solteira. Não é um bom profissional, mas a esposa o ajuda, mantendo seu emprego aqui. -Boa, Priscila. Preciso falar com esse imprestável em particular ainda hoje. Tente contatálo para mim e marque uma reunião para às seis e meia. -Certo. Isso é só? -Por enquanto. Priscila levantou-se e Mikael já entrava em minha sala. 75


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-O que conseguistes? – perguntei. -Bem, depois de muito tempo, conseguir te achar, né? -Não estou com paciência para suas gracinhas, Mikael. -Certo. A melhor projetista daqui é Mariana. Ela quase nunca erra e é a arquiteta mais solicitada da empresa. -Seus projetos? Mikael estendeu-me uma pasta que trazia nas mãos. -Cinco deles prontos para entrega. Agora me conte seus planos – pediu Mikael. -São simples – respondi analisando os projetos de Mariana. – Ela não é perfeita e há pequenos erros aqui, nada que comprometa a estrutura de uma construção, mas... com minha ajuda, isso ficará perfeito. -Pensei que quisesse destruí-la e não ajudá-la – falou o nefilin sem entender meu plano. -Mariana acusou-me de roubar seus projetos, destruiu-me quando eu estava no topo. Farei o mesmo com ela, a colocarei no topo e depois a farei cair. Olho por olho e dente por dente, meu amigo. -Isso tudo diverte-me. Claro que, como todo nefilin, Mikael tinha a melhor parte de seu pai, a beleza, e a pior parte de sua mãe, a ruindade humana. -Conte-me sobre os outros – pediu-me o nefilin. 76


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-Daniel traiu-me por estar apaixonado. Ele levou-me a um ritual de adoração ao nosso rei e usou fotos onde eu mesma conduzia o ritual para denunciar-me. O seduzirei e o levarei para uma macumbinha básica. -E Valéria? -Ela adora seu Deus. Lhe mostrarei o meu deus. -A entregará para Apollyon? – perguntou-me Mikael. -Meu querido noivo precisa saciar-se – rebati sorrindo. -És mesmo virgem, Lienne? -Sou. Mikael sorriu maliciosamente. -Feliz de quem for seu primeiro. -Perdestes o amor à sua vida, nefilin? -Não, minha amiga, mas sexo é bom demais e com uma nefilin é muito melhor. -Quando eu experimentar isso, eu te conto o que eu acho. Mikael riu e afastou-se. -Onde vais? – perguntei. -Fazer sexo com Nataly. -Você não presta – respondi rindo. -Nenhum de nós prestamos.

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SEDUÇÃO? Ele aproxima-se. Não é amor. Não é paixão. Não é prazer, Nem sedução. A vingança caminha. Ele deseja-me. Ele me quer. Ele beija-me. Sedução? A vingança acredita. Eu planejo. Eu o beijo. Ele me deseja. Sem noção. Ele não faz idéia. Sua vida em minhas mãos. Seu fim está próximo. Como chamaríamos isso? Sedução?

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Capítulo 12 – Seduzindo. Seis e meia. Primeiro passo da vingança. O telefone toca. -Sim? – atendo prontamente. -Lienne, Daniel Medeiros está aqui. -Dê-me dois minutos e depois mande-o entrar. -Certo – responde Priscila. Retiro meu casaco. Peça inútil, não sinto frio, não sinto calor. Uma blusa sensual, revelando curvas do meu colo, estava por baixo. Sem o casaco, minha calça mostrava outras curvas, muito desejadas por Arel. Solto meu cabelo e fico de costas para a porta, olhando a paisagem da imensa janela há mais de vinte andares de altura. Escuto a porta abrir-se. Sorrio. Hora da vingança. -Chamaste-me, senhora? -Não sente. Nossa conversa será rápida – respondo ainda de costas para ele. A porta fecha-se e ele aproxima-se. Escuto cada passo. Sinto sua respiração. Apenas uma mesa grande nos separa. Caminho na semi-penumbra da sala, iluminada apenas pela luz do fim de tarde. Tudo ou nada. Perder ou ganhar. 79


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Eu ganharia. Fico cara a cara com o inimigo. Sinto seu coração acelerar e seu corpo arfar. -Algum problema? – pergunto. -Não, é que... você lembra-me uma pessoa que morreu há muito tempo – responde o tapado. Seus poros dilatam-se, posso enxergar cada um deles abrindo-se e o suor brotando em sua pele imperfeita. -Conte-me sobre isso – ordeno. -Ela era exatamente como você. A cor da pele, os olhos verdes, cabelos como fogo. A semelhança é incrível. -Os lábios? – diminuo a distância entre nós. -Os seus são mais perfeitos. -O corpo? – o instigo a olhar-me da cabeça aos pés e é exatamente o que ele faz. -Você é perfeita. -A voz? – sussurro em seu ouvido e ele estremece. -Doce como mel. -Os beijos? – encosto meus lábios naquela pele nogenta e fétida de seu pescoço transpirante. -Nunca experimentei os dela. -E os meus? -Quantos anos tem? -O suficiente para fazer loucuras. Ele toma-me pela cintura e deixo-me ser colocada sobre a mesa. Abro minhas pernas e permito que seu corpo encoste no meu. Sentir aquele membro rígido deu-me asco. Eu o odiava, mas sabia 80


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mentir melhor que Apollyon. Gemi enquanto seus labios beijavam minha face em busca da minha boca. O puxei pelo paletó e o apertei junto a mim. Ele encontrou meus lábios e sua língua buscava furiosamente a minha. Nogento. Pervertido. Podre. Me contive e deixei que ele fizesse o que queria. Quando sua mão começou a percorrer meu corpo, eu o detive. -Não sou assim tão fácil, querido. És um homem casado e eu tenho um dono. -Provocas-me e depois dispensa-me? -Um jogo de sedução. Desejas um corpo novo como o de uma criança e eu anseio por carinhos de um homem maduro – rebati. -Seu dono não dá conta do recado? -Ninguém dá. -O que queres de mim? -Você. -Sou seu escravo. -Morrerias por mim? -Não antes de possuir seu corpo. -O procurarei novamente – murmurei quente em seu ouvido, deixando-o louco de desejo. -Quando? -Amanhã, Daniel. -Aguardo seu chamado, minha deusa.

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-Cuidado com suas palavras, o tribunal eclesiástico pode lançar-te na fogueira – brinco com uma verdade. -Não os temo. -Que seja. Espere meu chamado amanhã. Daniel saiu pouco satisfeito da minha sala. Eu preferia regurgitar minhas tripas a ter que beijá-lo novamente. Mas sacrifícios eram precisos e eu faria o que fosse possível para ter Daniel em minhas mãos. Assim que fiquei só, peguei o telefone e disquei o número que eu havia anotado quando cheguei naquele escritório. -Alô? – atende uma voz feminina do outro lado da linha, uma beata carquética. -Monsenhor Josiah, por favor. -Quem deseja? -Eliane Manthus, presidente da Exodus. -Sobre qual assunto desejas falar com o Monsenhor? -Doação. -Um minuto, por favor. A igreja de Cristo... sempre vendendo-se por dinheiro. Fácil de conquistar, fácil de comprar. Um monte de pervertidos infiéis às próprias leis. Lacraias podres e repulsivas, vivendo em despropósitos às suas doutrinas. -Senhora Manthus? – era a voz do Monsenhor. -Agrada-lhe a quantia de dez mil dólares como uma pequena doação? – sucinta e direta. -Doações sempre serão bem vindas, senhora – responde o pervertido. 82


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-Passe-me o número da conta para que eu possa realizar a transferência, monsenhor. -Em nome de quem devo agradecer tal generosidade? -Não reza a palavra que o que deres a mão direita, a esquerda jamais fique sabendo? Doação anônima, meu senhor. Apenas nós saberemos disso. -Que seja... Ele passou-me o número de uma conta particular. Eu ganhei sua confiança. O som da vitória era bom. Viver isso era um preço sem igual. A vingança é fria, mas é doce...

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TOMANDO O QUE É MEU. O amor de um anjo é quente, Abrasa, aquece. O amor do anjo me pertence, É meu, esquece. Eu disfarço, Tento fingir indiferença. Meu coração rompe-se, Sem ele não tenho esperança. Ela o toma de mim. E eu nada importo. Eu era dele, ele era meu. Duas almas, Dois amores, Dois teimosos, Dois atores. Eu digo que o odeio. Ele diz que não me ama. Eu digo que não o quero, Mas da distância o coração reclama. E ela chega de mansinho, Ela toma o que é meu. Ele apaixona-se. A humana ganhou, A nefilin perdeu.

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Capítulo 13 – Escutando. Quase fim do expediente. Estar na Exodus era um sentimento exultante, o sabor da vitória, o gosto da vingança, vê-la tomando forma, saber que eles seriam destruídos, era tão fascinante quanto estar com Arel. E um aviso assombrou minha mente, eu precisaria vingar-me de mais alguém. Os humanos eram só o começo. Essa luta estava em seu início, os adversários que eu enfrentaria eram apenas um treinamento. Persis seria o próximo e Apollyon o grande chefe que teria o meu “cheque-mate”. Eu destruiria e depois seria destruída. Arel tornava-se um sonho cada vez mais impossível, uma estrela inalcansável. Meus pensamentos são interrompidos pela entrada de Fernanda. -Lienne, uma moça insiste em falar com você – chamou-me minha assistente com a intimidade que eu mesma havia lhe dado. -O que ela quer? – pergunto para minha subordinada. -Ela apenas disse que é um assunto referente ao seu pai. -Meu pai? A curiosidade invade a todos, inclusive aos anjos. Foi pela curiosidade de um arcanjo em conhecer o corpo de uma humana, em experimentar o amor, que eu nasci. 85


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-Mande-a entrar – respondi casualmente. Esse era mesmo um dia interminável. Fernanda assentiu e logo uma moça de pele morena e cabelos negros entrava no meu escritório. Beleza humana é algo raro de se encontrar aos olhos de um anjo, entretanto, naquele momento, eu agradecia aos céus por Arel não estar diante daquela beldade. -Olá – ela disse de maneira tímida. -Sente-se – praticamente ordenei e ela obedeceu. Senti seu medo pelas batidas de seu coração. – Estás aqui para falar-me de meu pai. O que ele pode ter com você? -Eu o conheço. -E daí? -Eu o amo. A encarei furiosa. Percebi quando cada um dos seus membros estremeceram diante da minha reação. -Não sabes nada sobre meu pai – rebati. -Não? Então por que estou diante de uma mulher com mais de vinte e poucos anos e com a aparência de uma adolescente mal resolvida? Sorri com o canto da boca. O medo dela durou pouco. Audaciosa, uma mulher forte e decidida, um tipo que realmente levaria meu genitor à loucura. -Sabes o que eu sou? – perguntei-lhe. -A filha de um arcanjo. -O fruto de um pecado. Minha mãe morreu porque eu a matei para poder viver. Enfim, o 86


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problema é seu, não durarás mais que nove meses mesmo. -Engana-se se pensas que vim cobrar alguma coisa ou a paternidade de um filho. Pelo contrário, vim fazer-lhe um convite. Claro que fiquei atormentada por um tempo, tentando entender toda essa situação. Mas é impossível não encantar-me por Caleb e... -Por favor, a vida sexual do meu pai não me diz respeito. Eu quero que ele se dane. O ódio dele por mim é recíproco – a interrompi. -É onde você se engana. Seu pai a ama e olhos dele chegam a brilhar quando falamos sobre você. -Sim, claro. A surra que levei hoje mostrou o quanto ele importa-se comigo. Acredito que ele nunca chegou a comentar sobre quantos dos meus ossos foram quebrados pelas suas mãos. É o que desejas para seu filho? -Essa conversa não está tomando o rumo certo. Vamos recomeçar. Olá, Lienne, me chamo Patricia, não estou grávida e sou amante do seu pai. -E o que eu tenho a ver com isso? -Quero uma vida normal. -Envolva-se com um humano então. -Eu amo seu pai. -Problema seu, aguente as consequências. Mas peço-te um favor. -Que favor, Lienne? -Avise meu pai de que o trono na Cidade dos Nefilins será tomado pelo seu verdadeiro primogênito e não pelo filho que ele terá com você. 87


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Adramalech existe e eu farei de tudo para que meu irmão tome o que é ele por direito. -Já disse que não estou grávida e desconheço a existência de seu irmão. -É o que os anjos fazem, eles geram filhos e os largam no mundo para que os demônios tomem conta. -E quem esteve ao seu lado todo esse tempo? Uma bofetada mais forte que um soco do meu pai. Patricia não era uma mulher fácil de vencer. Determinada, jamais desistiria de lutar pelos seus objetivos. -O que viestes fazer aqui, afinal? – perguntei retomando meu ar superior. -Um convite. Gostaria de conhecer-te melhor, gostaria de unir minha nova família. Um jantar na minha casa essa noite, como pessoas normais. Não devo ser mais velha que você... -Tenho quase cinquenta anos para o mundo humano. Vejo que não passas dos vinte e cinco – mais uma vez eu a interrompia. -Minha idade é de vinte e três anos. Novamente sorri irônicamente. Meu pai era mesmo um velhote impossível. -E o que pretendes, Patricia? Abrir um asilo de anjos? – brinquei com a situação. Percebi sua indignação com minhas palavras ao ver seu rosto corar. -Estou curiosa com essa situação – continuei. – Meu pai sabe que viestes aqui? -Não, Lienne. Isso seria uma surpresa. 88


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-Como me encontrastes? -Caleb sabe de todos os seus passos, ele contame tudo sobre você. -Nem tudo, Patricia. Pergunto-me se já vistes o diabo em pessoa. Ela estremeceu com esse comentário. -Não acredito que sejas tão má a esse ponto – respondeu Patricia, obviamente equivocada com meu comentário. -Não falo de mim, mas do anjo com quem mantenho um acordo. Sou a noiva do rei das trevas, a nubente de Satanás, como os humanos o chamam. Vou destruir a Cidade dos Nefilins. Minha fúria é desmedida. Matarei meu pai, se for preciso. -Não farias isso. És apenas uma criança birrenta que insistes em não admitir que ama o próprio genitor – Patricia respondeu firme. -E você seria minha nova mamãe? – perguntei debochadamente. -Encare-me como quiser, ficarei feliz se assim aceitar-me. Pegue – ela estendeu-me um cartão. – Aí está meu endereço. Estarei esperando-te. -Estou ansiosa, isso será muito divertido. Ver a cara nogenta do meu pai surpreendido com minha presença será um ótimo entretenimento para essa noite. -Um dia entenderás o quanto Caleb a ama. -Ele não hesitaria em matar-me. -Ele não hesita em amar-te, Lienne. Essas foram as últimas palavras de Patricia em meu escritório. Ela levantou-se e saiu. 89


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SURPRESA. Eu não o quero, E ele vem. Não o desejo, Mas ele tenta. Eu o odeio, E ele ama. Me refreio, Ele insiste. O provoco, Ele chama. Brincamos com fogo, Nos queimamos. Arde, Gostamos. O provoco novamente, Ele ri. O deixo tonto, Ele sorri. Digo que morrerei, Ele entristece-se. Ele diz que é meu, E surpreende-me.

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Capítulo 14 – Sentindo. Um jantar com papai e mamãe. Essa cena eu pagava para ver. Permaneci mais uma hora na Exodus consertando os erros nos projetos de Mariana. Eu deixaria tudo perfeito, eu a levaria ao topo. Assim que terminei, trancafiei tudo num cofre e saí determinada para viver a palhaçada de um jantar com a meretriz do meu pai. O que ela serviria-me? Sangue? Ri sozinha da situação. Saí do meu escritório e vi Priscila e Fernanda conversando. -O que ainda fazem aqui? – perguntei. -Só vamos embora quando você for – respondeu Priscila. -Por quê? -Porque gostamos de você. -Mal me conhecem. -Mesmo assim, uma jovem forte e linda é impossível de não ser admirada. -Não precisam fazer isso por mim – rebati. -Não precisamos, mas queremos – respondeu Fernanda. Dei de ombros. -Que seja. Façam como quiserem – respondi e continuei meu caminho. A última coisa de que eu precisava agora era apegar-me em uma amizade com humanos. 91


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Já no saguão do imenso prédio da Exodus dou de cara com Persis. O mundo humano era mais cansativo e cheio de surpresas que a Cidade dos Nefilins. -O que fazes aqui? – perguntei. -O mesmo que você, trabalhando para Apollyon. -Ótimo, olhar a sua cara feia era tudo o que eu precisava para encerrar meu dia – respondi com um sorriso malicioso. -Não achava-me feio quando derretia-se em meus carinhos. -É verdade, porém culpo seu vinho envenenado, era aquilo que iludia-me, Persis. -Quando quiserdes mais, terei imenso prazer em servir-te grandes doses de sangue numa taça de ouro. Atitude digna para uma rainha. -Estou sentindo-me enlouquecida de desejo por você. Aliás, o desejo é tanto que seria capaz de dar tudo de mim aqui mesmo – respondi com deboche. -Não hesitarei em saciar-te. Persis agarrou-me furiosamente e beijou-me. Minha boca já era a poluição ambulante. Dei mais beijos num só dia do que em toda a minha vida. Empurrei Persis com força e sorri. -Já disse que agora eu dou as cartas. Não tens domínio algum sobre mim, demônio. Ele riu. -Falastes como uma fanática religiosa – brincou Persis. 92


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-Sou mesmo uma fanática, mas pela minha vingança. -E é sua maldade que me seduz. -Não sou má, apenas retribuo na mesma medida. -Ora, minha criança, perdoe-me pelo erro. Sua inocência é tão sedutora quanto sua maldade. Eu podia odiar Persis, mas jamais negaria o quanto ele podia divertir-me. -Conte-me, Lienne, sonhastes comigo enquanto esteves enclausurada? Sentistes saudades? -Ah, sim, meu caro. Morri de saudades, sonhei com todas as suas traições e palavras mentirosas, com nossos beijos. Cheguei a saciar-me pensando em ti. -Imagino a cena, deve ter sido algo delicioso. -Vai procurar tua turma, aquela cambada de nefilins fátuos, um séquito de perdedores. -Ao menos tenho meu exército. E você, começastes a formar o seu? A ignorância de Persis chegara num ponto inacreditável. Eu não precisaria de exército algum para detê-lo, eu era mais audaciosa que isso. Mesmo assim, eu tinha os mais fortes ao meu lado, ou seja, os mais inteligentes. Azazel, Mikael, Séfora. Até mesmo o próprio Persis dava-me as informações necessárias para que fosse destruído pelas minhas próprias mãos. Entretanto, eu jamais revelaria meu trunfo.

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-Para que preciso de um exército se serei sua? Tudo o que é seu me pertencerá em breve – joguei essas frases com duplo sentido. -É bom saber que ainda tenho-te sob meu domínio. -Sim, Persis, sonhar é bom. Faz bem até mesmo para os anjos e os demônios. Diga-me, como conseguistes suas asas exóticas? -Por que perguntas? -Coisas de mulher, quero combinar – brinquei. Persis gargalhou. -És ainda uma garotinha. Minha transformação deu-se pelo mesmo extrato que um dia transformou-te num ser noturno. Burro. Totalmente ignorante. Dei um passo a mais para salvar meu irmão. -Ótimo, farei o mesmo – respondi. Persis olhou-me sério. Sua mão tocou meu rosto com delicadeza, um gesto raro daquele demônio. -Tome cuidado com isso, Lienne. -Por quê? -Eu jamais aguentaria ver o fim de sua existência. Apenas mantive meu olhar fixo no dele e, inacreditavelmente, eu vi sinceridade em suas palavras. -Nunca entenderás – ele falou docemente. -O quê? -O quanto eu te amo. 94


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-Já disse-te que não sou capaz de exercer tal sentimento. -Meu amor por você supre todo o ódio que sentes por mim. Não errei, Lienne. Em momento algum joguei contra você. Há um segredo que ainda não pode ser revelado, mas sei que um dia entenderás o que digo. Apenas dê uma trégua em sua luta, dê-me uma chance de mostrar que nunca menti quando prometi um trono para a minha rainha. Amei-te desde o primeiro instante em que te vi. Abaixei meu olhar. Não havia uma resposta para suas palavras. Não havia nada a ser dito. -Preciso ir, Persis. Caminhei controlando lágrimas, lembrando dos nossos primeiros momentos juntos, do quanto ele ensinou-me, de que ele fora o único a mostrar-me a verdade que anjo algum pode revelar. Persis era especial... e eu o destruiria.

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PURO AMOR Amor de mãe, Jamais experimentei. Amor de irmão, Sempre lutarei. Amor eterno, Ainda não o conheci. Amor carnal, Prazer que não vivi. Amor de um pai, Deturpado por enganos. Amor de um arcanjo, Sempre causando-me danos. Amor de quem me ama, Que eu recuso veemente. Amor de quem esteve comigo, E que eu precisarei eternamente.

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Capítulo 15 – Enfrentando. (Caleb) O amor batera novamente à porta do meu coração. E esse novo sentimento só não era mais forte do que meu carinho pela pequenina que um dia embalei. Minha proteção era dividida em manter viva a mulher que dominou meus sentindos e cuidar de Lienne. Minha filha era um caso sério. Lienne é a criatura mais difícil de enfrentar. Eu mantive-me controlado enquanto ela teve seu caso com aquele demônio imundo. Entretanto, com Arel, as coisas eram diferentes. Saber que minha pequenina estaria nos braços daquele anjo imprestável causava-me um furor desmedido. Braços delicados envolveram-me enquanto eu fitava o mundo através da vidraça da sua janela. Acaricio a pequena mão que alcança meu peito. -Darei um beijo em troca de seus pensamentos – ela fala docemente. A voz de Patricia é como bálsamo nos meus tímpanos. -Por um único beijo seu, eu daria a minha vida – respondo sorrindo e ainda olhando pela janela. -Então diga-me o motivo de sua aflição. -Apenas imaginando em como vou arrebentar a cara de Arel. Ela riu, um som delicioso. -Sua filha já está bem grandinha, meu arcanjo. 97


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-Lienne não sabe nada da vida, é apenas uma criança caprichosa. Ela nunca experimentou o amor carnal e Arel está louco para colocar suas mãos pagajosas na minha filha. -Tenho certeza de que ela sabe se cuidar, Caleb. -Lienne é uma criatura impulsiva e destemida, e esses são seus maiores defeitos. O medo traz a ponderação. Estive a um ponto de perdê-la quando a vi lutando contra um anjo que tinha o dobro de seu tamanho, temi pela sua vida. Os braços de Patricia apertaram-me carinhosamente e sua cabeça encostou-se em meus ombros. -Tudo ficará bem, Caleb. Nem tudo ficaria bem. Eu a perderia um dia, esse era o infortúnio que atingia os imortais. Nossos amados humanos morriam enquanto seguíamos em nossa existência sem fim. O que eu não daria por uma certeza de que Patricia seria eternamente minha... esse não era o momento de torturar-me, ela não merecia isso. Minha amada era dona do meu coração e eu a desejava. A puxei para junto de mim e a encostei na parede, meus braços apoiaram-se na mesma estrutura, bloqueando uma fuga que ela jamais faria. Deslizei minha mão direita pelo seu pescoço até alcançar o alvo do meu desejo, fazendo-a arfar. Aproximei meus lábios dos dela e sussurrei: -Eu te amo. 98


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A beijei intensamente. Minha ânsia em possuir seu corpo era tanta que a envolvi com força entre meus braços, na tentativa de sentir aquele corpo quente junto ao meu. -Eca, isso é nogento – uma voz fininha e conhecida atrapalhou meu momento. Virei-me bruscamente e quase sem jeito diante daquela criatura. -O que fazes aqui? – perguntei irritado. -Fui convidada e a porta estava aberta. -Vejo que falhei em sua educação. -Pois é, papai, deverias ter matado-me quando teve a chance. Infelizmente tornei-me a pedra em seu caminho, sempre te farei tropeçar. -E eu sempre me levantarei para dar-te uma surra. -Não dessa vez. Estamos quites. Atrapalhastes meu momento com Arel – ela deu de ombros. -Já ordenei para que deixes aquele arcanjo em sua paz. -Arel, Persis, Apollyon... a lista é grande. Qual deles matarás primeiro? Eu não aguentava ouví-la falando assim. Jamais a enxergaria como uma nefilin crescida, eu olhava em seus olhos e via uma garotinha petulante. Suas palavras irritaram-me e, num golpe, eu esbofeteei seu rosto delicado. Lienne fechou os olhos e mordeu os lábios, segurando a dor dentro de si. Ela era orgulhosa demais para demonstrar fraqueza. 99


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-Caleb, por favor! – exclamou Patricia assustada com minha atitude. – Eu a convidei, queria fazer-te uma surpresa. Vamos tentar nos entendermos, por mim. Sim, por ela eu faria qualquer coisa. Diante das duas mulheres que eu mais amava, eu renderiame até para meu pior inimigo...

(Lienne) Eu passaria o resto da eternidade levando surras do meu pai. Era preferível morrer do que ser odiada pelo único ser que tinha a obrigação de amarme. -Venha, Lienne, sente-se conosco – falou Patricia. -Vejo que essa foi a maior sandice que fiz neste dia. Jamais deveria ter vindo – respondi por entre os dentes, sempre encarando meu genitor. -Mas eu estou contente por você ter vindo. -Não é o mesmo sentimento do seu arcanjo, Patricia. Minha presença é indesejável para ele. -Saistes cedo demais da Cidade dos nefilins, esquecestes a principal lição, a humildade – Caleb falou firme. -Não preciso de humildade para os meus planos. -Perecerás ao final de tudo. -Então estarás feliz, já que desejas a minha morte. -Não sabes o que desejo, nefilin. 100


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Aproximei-me dele, mesmo o temendo, e o encarei. -Desejas tomar o trono que um dia pertenceute, desejas um novo nefilin que possas treinar e darte o orgulho que jamais te dei. Desejas meu fim assim como anseio pelo seu. Caleb levantou a mão para surrar-me. Era hora de mostrar ao meu pai o quanto eu poderia ser forte. Interceptei seu golpe segurando com força em seu pulso firme. Vários outros golpes foram desferidos e todos defendidos pelos meus rápidos reflexos. Entretanto, eu jamais venceria a força de um arcanjo. Um forte soco no meu rosto fez-me tombar no chão da sala. Minha decepção comigo mesma foi tanta que não levantei. Mantive-me prostrada. Outra surra do meu pai. Novas mágoas acomulando-se em meu peito. Eu só queria ser amada por ele. Eu só queria deixá-lo orgulhoso. E eu perdia a única pessoa que um dia importou-se comigo para o seu novo amor. As lágrimas já não poderiam mais ser contidas. -Dói? – ele perguntou-me. Sim, meu coração doía demais. Assenti. -Doeu em mim também, Lienne. Cada castigo que te dei, cada parte de seu corpo que machuquei. Doeu todas as vezes que vi seu rosto vermelho pelos meus golpes, doeu todas as vezes que negaste-me. -Não doerá mais. Levantei-me e dirigi-me para a saída. 101


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-Lienne, fique, por favor – pedia-me Patricia. Olhei para meu pai com meus olhos marejados. -Jamais neguei-te, eu te odeio. E minha coragem é maior que a sua, porque ao menos eu consigo dizer essas palavras – falei sem desviar meu olhar.

(Caleb) Ouví-la dizer que odiava-me era como um pesadelo. Vê-la partir sem dizer o quanto eu a amava foi como uma tortura. -Eu te amo, minha pequenina – sibilei para mim mesmo. Patricia abraçou-me. -Perdoe-me por isso, minha amada. -Tive pena dela, Caleb. Lienne está perdida. -Ainda tenho fé na minha filha. -E ela entenderá isso? -Um dia, minha amada. Não importe-se com isso agora. Vamos aproveitar nossa noite. -Dê-me o Paraíso, meu arcanjo. Nossos beijos recomeçaram e eu a amei ali mesmo, tranformando sua sala num paraíso de êxtase e paixão...

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AMOR QUE NĂƒO AMA. O amor nos atrai, O amor nos chama. O amor convence, O amor nos vence. Ele foi meu. Eu cheguei a acreditar, Eu pensei que eu era o que ele precisava, E nunca imaginei o odiar. O amor me atraiu, O amor chamou-me. O amor convenceu, O amor venceu. Eu me rendi, E acreditei... E quando o revi, Eu morri. O amor me traiu, O amor me destruiu. O amor machucou, O amor me matou.

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Capítulo 16 – Traindo. Perdida em meus próprios erros. Derrotada pelo meu fracasso. Eu pereci um dia. E o fiz pela inocência de confiar em quem menos devia. Quem era Lienne agora? O que eu me tornei? Uma máquina vingativa, o amor perdido de um arcanjo, a decepção do meu pai. Eu jamais venceria? Em certos momentos isso tudo parecia uma luta sem sentido. Vendi minha alma ao rei do inferno. Eu jamais teria Arel comigo. Tudo ilusão. Apollyon estava certo, eu era só uma ilusão. Num só dia eu perdi tudo o que ainda restava em mim: meu orgulho, o amor do meu pai, minha sede de vingança e meu desejo de vencer. Caminhando pela noite, triste e solitária, escuto uma voz conhecida. Dois vultos numa praça deserta. Aproximei-me devagar, seguindo o som de duas risadas. Uma delas era a que fazia meu coração tremer. Cerrei meus olhos e permaneci nas sombras, escondida de tudo, invisível até mesmo para os anjos. -Você é um anjo e eu sou uma humana. Como pode amar-me? – ela perguntou. -O maior tesouro está nas coisas mais simples da vida – ele respondeu. 104


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Meu coração despedaçou-se ao ouví-lo falar as minhas palavras para ela. Abri os olhos e vi os lábios que naquele mesmo dia me pertenceram, tocarem os dela. Foi como morrer. Suas mãos perfeitas tocaram o rosto frágil da humana. Eram as mesmas mãos que tocaram-me com brutalidade. Ele sorriu. Um sorriso que era meu. Retirei o cordão que ainda carregava em meu pescoço, sempre escondido por uma echarpe, com a pedra do nosso amor. O pedido de amá-lo eternamente. Caminhei até eles. Eu queria conter as lágrimas, mas elas teimavam em escorrer pela minha face. -Isso não me pertence – falei entregando-lhe o presente que me fora dado como prova de amor. -Lienne? Ele olhou-me confuso. Seus olhos fitaram a humana e voltaram para mim. -Agora eu entendo – falei entre minhas teimosas lágrimas - Havia um motivo para não cumprir sua promessa. Pedistes-me para que eu vivesse, dissestes-me que estaria comigo se assim eu o fizesse. Findei minha parte e, no entanto, jamais cumpriestes a sua. Agora eu entendo... -Lienne, deixe-me explicar... nem eu entendo nada disso. Eu... 105


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-Que palavras poderiam mudar o que viram meus olhos? Tinhas razão, todos têm razão. Sou apenas uma criança. Não sei identificar meus verdadeiros inimigos. Adeus, Arel. Dessa vez é para sempre. É... eu realmente não sabia nada. Acho que, no fundo, eu sempre esperei por uma traição daqueles humanos podres. Mas eu senti a verdadeira dor da infidelidade. Jamais imaginei que isso seria possível. Difícil era aguentar noites sem sono. Mudei meus conceitos. Os nefilins amam. Os demônios amam. Os anjos odeiam. Os humanos enganam. A dor transforma as pessoas. A dor trouxe-me de volta. A dor fez-me enxergar. Segui direto para a mansão, minha nova morada. Ignorei a presença de Séfora e Mikael. Segui para falar com o único anjo que poderia raciocinar comigo, o único que entenderia minha ânsia e meus segredos.

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MISTÉRIOS. Segredos sagrados, Há muito escondidos. Segredos de anjos, Mistérios vividos. Mistérios enterrados, Por filhos do pecado descobertos. Segredos trancados, Agora libertos. Raciocínios dispersos, Fatos aglomerados, Peças encaixadas, Segredo descoberto. Profecias de morte, Promessas de vida, Compromissos sinceros, Com futuros de despedida. Luto para desvendá-los, Perguntas profundas. Dúvida respondida, Resposta da questão muda. O mundo é um mistério. O amor é um mistério. A vida é um mistério. Ele me ama, E a fúria em mim abranda.

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Capítulo 17 – Desvendando. Segui direto para o quarto daquele que seria meu cúmplice. -Azazel, com quem Persis andou enquanto estive na Cidade dos Nefilins? – perguntei sem rodeios. -Como assim, Lienne? -Persis é seu melhor amigo, te conta tudo. Você o conhece há muito tempo. Ele teve alguma amante durante minha ausência? -Persis jamais esteve com uma fêmea desde que encontrou-te pela primeira vez. Ele só conheceu os prazeres da carne com uma nefilin, Camila. E você matou o pai dela. -Filha de Iehuiah? -Sim, ela mesma. -Ele tomou o acelerador e nada aconteceu, apenas suas asas assumiram uma aparência exótica. Nossa teoria é infundada – falei tentando refletir em tudo, recomeçando do zero. Eu tentei desistir, mas eu não poderia. Havia uma criatura que ainda esperava em mim e eu jamais decepcionaria meu irmão. -Confias em mim? -Sim, Azazel, eu confio. -Persis é herdeiro do trono. -Eu sei disso. -Como sabes? 108


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-Suas tatuagens. Somente meu pai e Hazanel têm essas marcas. Somente um herdeiro teria o mesmo. Só não entendo o por quê. -Certo. Preste atenção. Conheces a citação “um dia como mil anos”? -Sim. Segunda carta de Pedro, capítulo três, verso oito. Azazel sorriu. -Caleb é mesmo o melhor instrutor. Sim, ele tinha razão. Eu tive o melhor de todos os arcanjos para treinar-me durante toda a minha vida. E jamais dei o exato valor para isso. -Lienne, a cada mil anos humanos, quatro arcanjos assumem a Nova Ordem. As quatro criaturas divinas do Apocalipse: o leão, o novilho, o homem e a águia. A coragem, o sacrifício, a fidelidade e a sabedoria, respectivamente. Nesses mil anos, dois morrem e dois permanecem. A coragem e o sacrifício são extintos, permanecendo a fidelidade e a sabedoria. Seu pai é a sabedoria e Hazanel é a fidelidade. -E o que Persis tem a ver com isso? – perguntei-lhe. -Ele é um dos quatro. Quando ele tomou o acelerador, ele já tinha suas marcas de herdeiro. Por esse motivo sua transformação não o mudou como fez com seu irmão e com Kali. -Se ele é um dos herdeiros, por que fez tamanha besteira? -Vida eterna, Lienne. Persis é o sacrifício da Nova Ordem. 109


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-Ele morreria – concluí. -O livro sagrado conta-nos sobre vinte e quatro anciãos em torno do Trono de Deus. Esses são os vinte e quatro arcanjos criados diretamente pelas Suas mãos. Treze deles estão na Cidade dos Nefilins. Os outros são Apollyon, seu pai, Arel, Miguel, Rafael, Gabriel e Daniel. -Falastes-me de vinte e quatro e citastes-me apenas vinte. -Dois mil anos se passaram desde a morte do Cordeiro, o Filho de Deus. A cada mil anos, dois arcanjos morrem. Dois mil anos, quatro arcanjos a menos. -Conquistanto a imortalidade, Persis não deveria preocupar-se com nada. Por que ele quer destruir a Cidade dos Nefilins e os arcanjos? -Ele é o único herdeiro varão. -Persis quer impedir o nascimento dos outros três – completei o raciocínio de Azazel. -Exatamente. Assim ele evita o Apocalipse e, consequentemente, o nosso fim. Persis faz parte da última geração da Nova Ordem. Os quatro últimos herdeiros são os quatro cavaleiros apocalípticos. -Como podes ter certeza de que Persis faz parte da última geração? Todos os outros eram arcanjos e Persis foi um nefilin. -Porque essa é a verdadeira Nova Ordem, formada pelos filhos do pecado. Já que estes serão destruídos ao fim de tudo. -E a data? Isso poderia acontecer daqui a milhares de anos. Não tem sentido. 110


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-Mas Nostradamus nunca falhou em sua profecia, como pensam os humanos. -Claro, agora eu entendo. “A dois mil chegarás e de dois mil não passarás” – relatei a profecia. – Nostradamus nunca referiu-se ao ano dois mil e sim ao milênio. -Dois mil novecentos e noventa e nove será o último ano da humanidade, Lienne. -Essa seria mesmo a última geração de filhos do pecado. -O anti Cristo já nasceu, o fim não tarda. Mil anos como um dia. Apollyon tem um filho. Tudo isso é um jogo de interesses, Lienne. O rei das Trevas nos engana e nós o enganamos. -Então Persis é o mocinho e não o vilão – falei rindo. Irônico, mas era a verdade. Ele sacrificou-se para salvar a todos os nefilins. Persis salvaria a humanidade. E Kandake foi erroneamente julgado por mim. E mais uma verdade invadiu-me. Adramalech poderia ser um dos herdeiros. E se um anjo sacrificou-se por todos nós, eu faria o mesmo pelo meu irmão. -Nossa teoria tem sentido, Azazel. Eu posso testar o acelerador, eu serei a cobaia. Não tenho as marcas, não faço parte da Nova Ordem. Eu havia entendido tudo errado – um novo raciocínio assoloume. - Droga! – exclamei percebendo uma verdade que me levou a socar a porta do quarto de Azazel e quebrando-a ao meio. 111


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-Qual o motivo de sua revolta, Lienne? -Os arcanjos estão buscando o nascimento dos outros herdeiros. Eu vi Arel com uma humana há poucos minutos. -Arel? -O próprio. -E o que pretendes fazer? -Juntar-me a Persis. Podemos deter os arcanjos que estão na Cidade dos Nefilins, mas os que ainda estão na morada original descerão à terra e cumprirão a profecia de qualquer forma. Não há saída, Azazel. -Os outros arcanjos nada farão. São príncipes e líderes da milícia celeste, nunca descerão aqui. São soberbos demais para isso. -Tens certeza? -Absoluta. Eles só virão à terra para lutar. -E nós lutaremos também. Prepare o acelerador o mais rápido possível, Azazel. Eu o testarei. -É perigoso, Lienne. -Que seja, minha morte não será em vão. Não tenho nada a perder. Porém, resta-me uma dúvida. -Qual? -Azazel, o que aconteceria se um humano bebesse esse veneno? -Esse humano morreria... e renasceria minutos depois. Porém, seu coração não bateria mais e ele teria ânsia de vida. -Sangue? -Sim, Lienne. 112


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-Esse humano seria um... -Vampiro original – Azazel respondeu minha incompleta pergunta. -Alguém sabe disso? -Só Persis, eu e você. E esse segredo só seria revelado se meu pai tomasse a decisão certa. Ainda restava-me uma última pergunta que eu hesitava em fazer. A pergunta que eu tanto temia encarar, pois sua resposta poderia ser intensa demais. Eu cheguei a chorar por ele, eu chorei por lembrar-me dos bons momentos que passamos juntos. E essa pergunta não precisou ser feita, Azazel entendeu o meu silêncio e respondeu a uma questão muda: -Sim, Lienne, ele te ama de verdade.

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O SABER. Lhe contei segredos, Que ele já sabia. Lhe contei histórias, Que ele já vivia. Lhe pedi conselhos, Que ele sempre me dera. Lhe pedi apoio, Que ele sempre cedera. Lhe pedi permissão, Ele não concedera. Lhe pedir o saber, Que eu já sabia...

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Capítulo 18 – Intimando. Eu precisava falar com Caleb, o arcanjo que deu-me a vida. E só havia um lugar onde ele poderia estar naquele momento: a casa da Patricia. Passei pela sala da mansão e Séfora chamoume: -Lienne? Revirei os olhos, eu não tinha tempo a perder com as besteiras daquela nefilin. -O que queres, Séfora? – perguntei irritada. -Quando poderei sair dessa casa? Não que eu não goste dela, eu gosto muito. Mas eu quero visitar o túmulo da minha mãe. Olhei para Séfora e vi um futuro impressionante. Ela era como eu, pequena e magra, mas com uma força desmedida. Transformada, ela teria uma utilidade maior nos meus planos. O mesmo seria com Mikael. -Esse é um problema que resolverei em breve – respondi à ela. – Assim que encontrar o imprestável do Kandake. -Isso vai demorar muito? -Estás na minha casa, bebendo do meu vinho, abusando da minha hospitalidade e ainda reclamas? Vai demorar o tempo que for necessário, portanto sente-se e aguarde. Tenho problemas mais importantes para resolver.

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Passei dos limites com a fúria, pois Séfora jamais iria aturar tamanho desaforo calada. Entretanto, ela apenas obedeceu e eu me retirei. Peguei um dos carros que Apollyon disponibilizou, muitos dos seus “milagres” eram bem vindos em certos momentos, e segui direto para a casa de Patricia. Passavam das duas da madrugada. Horário nunca foi problema para os anjos e nefilins, mas era o tormento dos humanos. Essa atitude, minha madrasta teria que perdoar. Toquei a campainha de sua casa insistentemente. -Lienne? O que fazes aqui? – Patricia atendeu com cara de sono. -Preciso falar com o meu pai. -Claro, querida, entre, por favor. Não hesitei e fiz o que ela pediu. Encontro meu pai de pé, como um guarda costas de sua amada. Enfrentei meu ciúme e disse: -Precisamos conversar. -Não precisamos continuar uma briga sem sentido e... -Esquece essa briga! – gritei. Fechei meus olhos na tentativa de acalmar-me, suspirei e voltei a falar calmamente: - Pai, preciso contar-te sobre mistérios que Azazel ajudou-me a desvendar, preciso que saibas das descobertas que fiz, do sacrifício que pretendo fazer e preciso saber qual caminho escolherás. -Do que estás falando, Lienne? 116


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-Três assuntos: Nova Ordem, Adramalech e Patricia. -O que Patricia tem a ver com suas maquinações? -Vamos por ordem, por favor? -Fale logo, Lienne. -Certo. Eu e Azazel conversamos e... Contei para meu pai toda a conversa que tive com Azazel. Falei sobre a Nova Ordem e sobre Persis. No final, perguntei: -Sabias disso? Caleb ficou pensativo por alguns instantes, depois respondeu: -Sim, eu sabia. Por que achas que eu aturava aquele demônio com suas mãos grandes em você? -Pai, os arcanjos estão planejando acabar logo com tudo. Eu vi Arel com uma humana quando saí daqui. Eles querem dar vida aos outros três herdeiros. Arel me traiu. -Arel com uma humana? -Sim. -Ele não só traiu você, como traiu a Nova Ordem. Se meu filho realmente está vivo, os quatro herdeiros já existem. Ouvir Caleb chamar Adramalech de “meu filho” enterneceu meu coração. Entretanto, prendime mais a sua outra revelação. -Como já existem? Quem são os outros filhos de arcanjos? -Esse é um mistério que terás que descobrir sozinha, Lienne – respondeu meu pai. 117


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-Se sabias de tudo, por que nunca contaste-me nada? -Porque eu não podia. Porque te conheço muito bem e sei que esse seu jeito impulsivo acabaria com tudo. Kandake é nosso informante, ele sempre nos avisou dos planos dos arcanjos. Fechei meus olhos com raiva ao perceber a besteira que eu havia feito. -Qual o problema, Lienne? – perguntou Caleb. -Eu entendi tudo errado e contei sobre a traição de Kandake para Hazanel quando eu ainda estava na Cidade dos Nefilins. -Eu sei. -Como sabes se falei em segredo com o arcanjo? -Hazanel está do nosso lado. Ele contou-me a conversa que tiveram. -Nosso lado? Então lutarás conosco? -Sim. -Amas Patricia de verdade? Não faz parte dessa conspiração dos arcanjos? -Sim, eu a amo. E como já disse, essa atitude deles não tem sentido, já que os quatro herdeiros já foram gerados. -Como não sabias da existência de Adramalech, se tinhas contato com Persis e Kandake? – o intimei. -Nunca perguntei sobre ele, porque eu realmente acreditava que Adramalech estivesse morto. Até o dia em que revelou-me tal fato naquela arena. 118


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Revelação que custou-me uma surra que doía só de lembrar. -Por que entraram nessa conspiração com Persis? Vocês não sabiam da existência de Adramalech, o círculo não estava completo. O fim não aconteceria – comentei. -Acreditávamos que os outros arcanjos escondiam filhos quando Apollyon gerou o anti Cristo. -Quem é o filho de Apollyon? -Admiro-me que ainda não saibas, ele era seu melhor amigo. O filho de Apollyon é Liel. Claro, o próprio rei das trevas disse que seu filho estava mais perto de mim do que eu poderia imaginar. Liel, o filho de um mentiroso, fingiu todo o tempo na Cidade dos Nefilins, mostrando-se esquecido de uma vida que era impossível esquecer. Ele entrou naquela cidade para vigiar-me, para transformar-se e voltar para o seu pai. Da mesma forma, Hazanel e Caleb o aceitaram por perto para manterem seus planos em segredo. -De qualquer forma – continuou Caleb – temos que detê-los, pois Adramalech jamais conseguirá assumir sua posição, mesmo que junte-se a nós. E um novo herdeiro pode vir a existir. Meu filho deve ser excluído dessa lista. -E se eu disser que existe uma maneira de trazê-lo de volta a sua forma original? Meu pai olhou-me assustado. Ele jamais imaginara tal possibilidade. Porém, sua sabedoria ia além de tudo o que eu poderia prever. 119


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-O acelerador – concluiu Caleb. – Isso poderá matá-lo, Lienne. -Por esse motivo eu testarei primeiro em mim. Só quero que prometas-me que, caso tudo dê errado e eu seja destruída nessa experiência, o senhor continuará tentando salvar meu irmão. Caleb transformou seu rosto numa fúria incontrolável. Eu jamais o vira tão possesso. -Não permitirei que faças tamanha besteira, nem que para isso eu te dê uma nova surra – urrou meu pai. -Não poderás impedir-me – rebati. -Não duvides de mim, Lienne. Sua ousadia fugiu do controle. Não permitirei isso. -Nem para salvar a existência da Patricia? -O que queres dizer com tal sandice? -Na dose certa, o acelerador a mataria, depois a traria de volta à vida. O único problema seria o sangue, mas teremos humanos suficientes para satisfazê-la e ela pode pegar os mortos fresquinhos e saciar-se... Um tapa ressoou forte em minha face. -Perdestes sua sanidade, criança. Não concordarei com tamanha loucura – vociferou Caleb. -Preferes que ela envelheça e morra? Que amor é esse, senhor arcanjo? – gritei de volta. -Ela seria uma assassina! -Há outras formas de fazer isso, eu mesma testei essas porcarias na minha outra vida. -Não usarás o acelerador em Patricia – Caleb falou firme. 120


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-A decisão é dela e não sua. Nossa discussão tomou um rumo tão forte que nos esquecemos da presença de minha nova madrasta naquele lugar. Até que ela colocou-se entre nós e disse: -Hora da verdade. Caleb, você me ama? -Mais que a minha vida, Patricia. -Lienne, confias nesse troço que tanto falam? -Confio em Azazel. Tanto que darei meu corpo para testar o acelerador – respondi. -Não. Não dará – gritou meu pai. -Farei o que eu quero e não o que mandas. -Parem os dois, nesse instante! – Patricia falou mais alto que ambos. – Mais uma briga e eu mesma darei um jeito de esbofetear os dois. Olhei para meu pai e não aguentamos. Começamos a rir. -Duvidam de mim? – perguntou Patricia brava com nossa atitude. -Não, que isso, Paty – respondi segurando o riso. -De maneira alguma, querida – Caleb fez o mesmo. -Certo. Vamos aos fatos. Caleb me ama e Lienne confia no trocinho doido que me transformará em uma maluca assassina. -Vampira – consertei. -Cale-se – ela falou com o dedo indicador levantado.

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Apertei os lábios para não rir. Se ela era assim enquanto humana, imaginei o estrago que ela faria quando se tornasse uma vampira. -Caleb, eu te amo e daria tudo para viver ao seu lado eternamente. Falastes-me mais cedo que tinha fé em Lienne, então eu também acredito nela. A decisão é minha, como sua própria filha disse. E eu aceitarei a oferta que ela me faz. -Patricia, eu não aguentarei perder-te. -Me perderás de qualquer maneira, meu arcanjo. A vida me cobrará, o tempo irá desgastar minha pele e meus orgãos. Aceite minha morte ou arrisque-se por ter-me ao seu lado por toda a eternidade. Meu pai a olhou com ternura, ele a amava e eu odiava essa situação. Não suportava ter que dividí-lo com ela. E eu fui a autora da pior ideia, o motivo que me faria ter que conviver nesse pesadelo por toda minha existência. Abominei minha boca grande por não manter-se fechada. -E Adramalech? – perguntou meu pai. -Eu já disse que serei a cobaia desse experimento – retruquei. -Não vou perder uma filha para salvar outro. -Então deixe Arel e sua gangue fazendo filhos por aí e que venha o Apocalipse! Dane-se, cansei disso tudo – gritei. -Ainda temos um trunfo, Lienne. Arel e os arcanjos não sabem que Kandake é o informante de Persis. 122


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Estremeci. Eu fiz outra besteira, e das grandes. Minha reação não passou desapercebida por Caleb. -O que aconteceu? -Certa vez, na Cidade dos Nefilins, eu contei para Arel sobre Kandake. -Claro, você faria qualquer coisa para entregar-se para aquele arcanjo imundo. -Eu estava apaixonada! – rebati. -Apaixonada e assanhada. -Quem sai aos seus não degenera. Caleb só não me bateu porque Patricia ainda estava entre nós. Aproveitei-me da situação e continuei: -Não perdestes tempo, logo colocou, literalmente, suas asinhas de fora e se acasalou com a primeira que viu. -Já perdi minha paciência com você! -Nunca tivestes. Sempre tratastes-me com surras, seus carinhos estavam guardados para ela. -Assim como os seus para aquele arcanjo imprestável. -Não ouvirei seus desaforos. Fique com sua amada, nada tenho para fazer aqui. -Se eu pegar-te com Arel, não precisarás testar nenhum acelerador, porque eu mesmo te mato. -Grite sozinho, arcanjo. Virei-me e saí dali batendo a porta.

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(Caleb) Patricia chorava em silêncio. Só então percebi o tamanho do desastre que aquela conversa fizera com minha amada. -Sinto muito pelas atitudes de Lienne – falei carinhosamente. -Ela me odeia, Caleb. -Lienne é só uma criança enciumada. Apesar de sua força, eu sou tudo o que ela tem. Arel a traiu, ela odeia Persis, seu melhor amigo quer matá-la. Minha filha precisa de nós, Patricia. -Eu nunca vi tanta violência num só dia. Eu não a entendo. Primeiro Lienne mostrou-me uma forma de estar sempre ao seu lado, depois ela ofende-me com palavras insanas. Eu sou um nada para vocês. Sou uma raça inferior. -Não, minha amada. És a mais perfeita das criaturas. -Pare, Caleb! – ela gritou. – Vocês odeiam os humanos, você não quer que eu me transforme e viva eternamente ao seu lado. -Patricia, eu a amo e não quero que sofras. -Chega! Cansei dessas mentiras. -Eu sou um arcanjo, não posso mentir – gritei por entre os dentes. -Conveniente falar tal coisa – respondeu-me como um deboche. Ela não acreditava em nada do que eu dizia, e isso pouco importava. Eu queria Patricia ao meu lado, tamanho era o fascínio que ela causava-me. 124


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-Deixe-me, Caleb. Cansei de suas brigas, cansei de sua filha ofendendo-me. Ela virou-se para sair da minha presença, mas eu a detive, segurando-a pelo pulso. A encostei na parede com força, prendendo suas mãos entre as minhas, deixando-a com os braços abertos e levemente levantados. Patricia olhava-me nos olhos, era uma mulher corajosa e isso era o que eu mais admirava nessa criatura. -Cansou-se disso? – perguntei beijando-a logo a seguir. O prazer de sentir nossas línguas encontrando-se era imenso. Aquela mulher era meu segundo ponto fraco, o pecado dos anjos, perfeita em sua beleza. Eu a amava e Lienne que entendesse isso. Arfando após nosso beijo, ela disse: -Como vou cansar-me de ser seduzida por você? A tomei em meus braços e o quarto foi nosso refúgio...

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ANJO DAS TREVAS Caminhando como um deus Ele conquista. Segue sua jornada, Destruindo, caçando, matando. O anjo negro, A perfeita criatura das trevas, O deus do submundo, O dono de toda entrega. Dissipando, queimando, quebrando. Ele atormenta com sua beleza. O anjo negro rende-se pelo pecado. Ele está em minhas mãos, A um passo da destruição. Lutando pela única chance de ser enganado, Vencido, destruído. Pelo próprio erro, Pelo próprio desejo, Eu o destruo. E ele nem faz idéia...

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Capítulo 19 – Enganando. -Arcanjo idiota – eu murmurava enquanto dirigia de volta para a mansão, sempre socando o volante. De volta ao meu novo lar, pensamentos em fúria. De volta aos meus planos. Meus adversários agora eram outros. Os humanos ainda estavam em minha lista negra. Persis saira dela. Arel tomou seu lugar junto com os doze arcanjos da Cidade dos Nefilins. Após um banho, já no meu quarto, vestindome para voltar à Exodus e dar continuação aos meus planos, recebo uma visita desagradável. -Seu corpo leva meus pensamentos para o lado mais pervertido que existe – ele falou dirigindome um olhar cobiçoso. -Um dia ele será seu – respondo casualmente e continuo a me vestir. -Quando será esse dia? -Paciência, Apollyon. Achei que ao menos essa virtude existia em seu ser – rebati ainda de maneira casual. -Sim, Lienne, sei esperar o momento certo de tomar o que me pertence. -Estás como um louco – falei sorrindo. Aproximei-me dele trajando apenas lingeries negras. – Precisas saciar teu corpo pecaminoso, amado rei – sussurrei em seu ouvido. -Podemos resolver isso agora mesmo. 127


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-Farias um favor para ambos? -Tudo o que me pedires, nefilin. -Uma saciedade para seus desejos e uma vingança para os meus. -Diga-me logo o que queres, Lienne. -Seduzas Valéria, a possua. Somente tu tens esse poder, somente a tua beleza a levaria a cometer tamanha loucura. -Não a desejo. Quero você. -Mesmo sabendo que aquela freirinha ainda é tão virgem quanto eu? O olhar de Apollyon iluminou-se. -Desvirtuar é o que agrada-me. Nada terá o mesmo prazer que possuir sua carne firme e sem mácula. Mas farei o que me pedes, será um prazer fazê-la quebrar seu voto de castidade. -Sabes quem é a tal imperfeição? -A cretina que usa o broche em cruz. Sei quem ela é. -Faça isso por mim, Apollyon. É só o que te peço por enquanto. -Não consigo negar um pedido seu, linda nefilin. Entretanto, algo intriga-me. -O quê, caro rei? -O dia alcança sua quarta hora, o mundo humano ainda dorme. Onde vais tão cedo? -Minnha vingança já esperou demais. Estarei na Exodus. -Faça como quiserdes. Assenti e Apollyon retirou-se. Terminei de vestir-me e, enquanto eu saía para voltar à Exodus, 128


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escutei a voz de Kandake vinda do quarto de Azazel. Dirigi-me para lá e percebi que meus sentidos não traíram-me. -Bom ver-te por aqui – falei para Kandake. -Como estás, Lienne? -Preciso de um favor. Vamos parar de rodeios e falsos cumprimentos. -Do que precisas? -Mikael e Séfora precisam voltar para a arena e alcançarem a transformação. -Retirei meu filho de lá para que não morresse e estás querendo que eu o leve de volta? -Mikael não morrerá – afirmei. -Como podes ter certeza disso? -Eu e o meu pai o treinaremos. Uma grande guerra está por vir, sabes que é um fato consumado. -Os céus não conspirarão contra nós enquanto os quatro herdeiros não se reunirem. -Mas Apollyon sim. Liel é forte e sairá vivo daquela cidade. Tudo ou nada, Kandake. O anjo ficou pensativo. Ele realmente amava seus filhos e tive inveja deles. Gostaria de receber o mesmo amor do meu pai. -Eu confio em Mikael – falei firme. -Conheço a força de meu filho, Lienne. Mas precisamos de Arktos nesse time e colocar Séfora em risco pode fazer com que ele desista de estar conosco. -Arktos sabe de tudo? – perguntei percebendo que meu pai escondera muitas coisas além da identidade dos herdeiros. -Sim, ele está conosco. 129


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-Séfora é forte, ela conseguirá vencer. Entretanto, uma ajuda de Hazanel nesse sentido seria muito bem vinda, e só você pode conseguir isso. -Quem os acompanhará? -Eu. O olhar de Kandake não demonstrou surpresa. -Hazanel está certo em confiar que você é quem salvará todos nós – ele falou. -Ou serei o motivo de destruição de todos – rebati. -Eu acredito em você, Lienne – disse Azazel. -Az, agradeço sua confiança. E, acredite, ela é recíproca. Mas tudo o que preciso agora é que use seus conhecimentos e prepare logo o acelerador. O nosso tempo é escasso. -Já estou trabalhando nele. -Quando será a luta de Mikael e Séfora? – perguntou-me Kandake. -Diga-me você, anjo. -Uma das nefilins terá seu teste final em uma semana. Falarei com Hazanel e ele cuidará para que dois guerreiros estejam na arena nesse dia. Darei um jeito de sair sorrateiramente e guiá-los pela entrada principal. De lá, é com você. -Confie em mim, saberei como domar a situação. Converse com Séfora e seu filho, não conte sobre a Nova Ordem e não exponha Persis, ele é a peça chave de toda essa conspiração e não sei até onde Séfora pode ser confiável, ela está encantada por Apollyon – alertei. 130


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-Assim farei – respondeu Kandake. Ele já estava retirando-se quando o chamei. -Anjo? Perdoe-me. Eu não fazia idéia que... -Acredite, Lienne, isso tudo nos ajudou muito. Não tenho ressentimento algum contra você. Sorri e o vi partir de encontro aos dois nefilins que estavam hospedados na mansão. -Meu pai acredita muito na sua força, Lienne. -Espero não decepcioná-lo. Deixei Az sozinho com suas teorias e segui para dar andamento em minha vingança. Os humanos ainda precisavam pagar por toda a asneira que fizeram comigo. O primeiro passo para impedir uma grande guerra foi tomado. Apollyon caíra na minha armadilha, ele sentia-se tão confiante em enganar e mentir que nunca passou-lhe pela cabeça que eu poderia fazer o mesmo com ele. Sem saber, o Rei das Trevas cavava sua própria cova.

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UM CORAÇÃO HUMANO. Humanidade? Jamais a conheci, Jamais a vi. O coração humano é cheio de poeira, A podridão de seus atos Os deprime, Os afasta da santidade. Que santidade? Nem anjos a têm... Generalizar, Foi tudo o que sempre fiz. No entanto, Um coração humano me faz feliz.

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Capítulo 20 – Trabalhando. Cheguei na Exodus às cinco da manhã e não desperdicei meu tempo. Fui direto para a sala da presidência e voltei a trabalhar em cima dos projetos de Mariana. Aprimorei seus cálculos, transformei seus gráficos e tudo aquilo não parecia em nada com o original entregue a mim por Mikael. Eu tinha agora dez projetos, cinco originais feitos pelas mãos da própria Mariana e cinco feitos por mim. Vingança... eu a teria em breve. Cada um deles pagaria com a mesma moeda, o mesmo preço... com juros, com muitos juros! Entretida com toda aquela papelada, não senti o tempo passar. Realmente, o tempo dos anjos não é o mesmo dos humanos. Fernanda entrava em minha sala com um copo fumegante e um pacote estranho. -O que é isso? – perguntei. -Café da manhã. A senhorita está aqui desde cedo e, sim, eu sei de tudo. Portanto, trate de se alimentar – ela falou com um sorriso simpático no rosto. Fernanda entregou-me o copo fumegante e o pacote que trazia consigo. O abri para conferir o conteúdo e encontro uma porção de bolinhas estranhas. Olho para ela de maneira interrogativa. 133


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-Pães de queijo e chocolate quente. Vamos, coma tudo – Fernanda respondeu. Eu ri alto. -Não consumo esse tipo de alimento, mas agradeço sua atenção – falei enternecida com sua atitude. -Claro que não, linda desse jeito, deve comer só uma folha de alface por dia. Mas você está pálida demais. Aliás, todos vocês são pálidos demais. -Fernanda, por que importa-se tanto comigo? -Eu consigo enxergar no fundo dos seus olhos e sei que és uma pessoa maravilhosa e uma jovem notável. No entanto, vejo uma dor contida, enxergo seu esforço para sorrir e fingir que tudo está bem. Lienne, não precisas ser forte todo o tempo, basta ser o que és. Era a primeira vez que eu demonstrava fraqueza diante de uma humana. Era a primeira vez que eu recebia um carinho inocente. Era a primeira vez que alguém fazia-me um favor sem esperar nada em troca. As palvras dela fizeram lágrimas escorrerem. Entendi, naquele momento, que alguns humanos mereciam o sacrifício que todos nós estávamos prestes a fazer. Sequei as lágrimas rapidamente e abaixei minha cabeça. -Um choro demonstra que a melhor pessoa do mundo mora aí dentro, mas que a mágoa a atingiu. Nos conhecemos ontem, entretanto já consigo 134


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distinguir cada sorriso fingido que dás. Vejo toda essa sua devoção para conseguir o que tanto almeja, ignorando a dor, vencendo os obstáculos. Por que isso, Lienne? Por que simplesmente não permites que o futuro tome conta do seu destino? Refleti em suas palavras. Fernanda tinha mais sabedoria que muitos anjos. Ela era pura e sincera, mas eu jamais abaixaria a guarda. -Porque eu não dou a ninguém o prazer de manipular o meu futuro. Meu destino está em minhas mãos, Fernanda – respondi as suas perguntas. -Não seria melhor encontrar a luz e seguí-la? -Acredito que um caminho de luz esconda mais segredos que as sombras, pois a luz se intensifica e cega seus olhos. A penumbra é minha amiga. Fernanda suspirou pesadamente. Seu rítimo cardíaco provava sua sincera preocupação. -Muitos problemas? – ela perguntou-me. Sorri. -Os problemas são as minhas soluções, eles fizeram-me sábia. E nem isso é suficiente, Fernanda. Se os problemas existem, eu descanso em paz. Um conselho que dou-te agora: se sua vida está bem, cuidado. A ilusão sempre nos afronta. -Sim, você está certa. Só quero que saibas que sempre poderá contar comigo. -É bom saber disso, Fernanda. Mas engana-se em relação a pessoa que sou. Tenho meus erros, e eles são muitos. 135


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-O que eu perdi? – perguntou Priscila entrando sorridente em minha sala. -Reunião de mulheres – Fernanda respondeu. -Do tipo “falar mal dos homens” e tudo mais? -Do tipo “Lienne, pare de trabalhar e coma um pouco” – respondeu Fernanda fazendo-me rir. -Posso falar mal dos homens, se quiserem – brinquei. -Ótimo! – exclamou Priscila sentando-se a minha frente. – Pode começar. Eu ri. Elas me divertiam, eram boas companheiras. -Bem, teve um cara... ele era lindo, perfeito. O tipo alto, loiro, olhos cinzentos. Eu pensei que ele era o grande amor da minha vida. Lutei por ele, derramei muitas lágrimas por... – hesitei, não valeria a pena falar o nome dele. – Enfim, juramos amor eterno e ele me traiu. -Que canalha! – Priscila falou revoltada. -Um sem vergonha mesmo – completou Fernanda. Em meio a muitas risadas e muito falatório contra os homens, dei-me conta de que eu vivia o que eu tanto evitara, uma amizade com as humanas.

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DÚVIDAS. Devo crer? O que ele procura? Fui enganada certa vez, Largada em amargura. Devo confiar? O que ele quer dizer? Seus atos mudaram, Amar-me é o seu querer. Ele foi um inimigo, Ele foi um adversário, Eu estava errada. Ele foi o conforto, Ele foi o amparo, E não percebi nada. Novamente juntos, Novas palavras, Novas promessas E muitas dúvidas.

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Capítulo 21 – Acreditando. -O papo está muito bom, mas precisamos trabalhar – falei interrompendo a “festinha” que fazíamos em meu escritório. -Qual a ordem de hoje? – perguntou Priscila. -Esses projetos foram esquecidos aqui por Mikael – entreguei-lhe as maquinações que eu havia tramado contra Mariana nas mãos de Priscila. – Acredito que devam ser levados ao cliente dela. Priscila avaliou a papelada, conferiu a assinatura falsa, feita de maneira exímia pelas minhas mãos, acreditando mesmo que tal rabisco pertencia à Mariana. -Sim, claro. Seu amigo deve ter esquecido isso ontem. Mas eu mesma o farei chegar ao seu destino. -Obrigada – agradeci. Elas sairam e comecei a planejar uma outra vingança. Eu precisava surpreender Apollyon, só restava-me entender como eu faria isso. -Lienne, um rapaz dizendo-se seu advogado quer falar com você. Ele é bem insistente... e bonito! – falou Priscila com um sorriso malicioso. Persis, só podia ser a figura irritante. Sorri feliz. Não estranhei minha própria reação, era ele quem eu queria por perto naquele momento. -Mande-o entrar – respondi. -Já estou dentro – falou Persis fazendo-me rir. -Nunca se cansarás de vir perturbar-me? – perguntei assim que ele fechou a porta. 138


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-Como deixaria, se essa é minha atividade preferida? -Audacioso e teimoso como uma mula – rebati. -Ao menos sou fiel à você. -Azazel precisa aprender a guardar a língua na boca. -O arcanjo de merda machucou seu coração, nefilin? -Cuidado, Persis. Ofensas são como bumerangues, elas sempre voltam para você. -E beijos? -Dispenso. Já tive minha cota de beijos encerrada pelo resto da minha existência. Mas aceito seus favores como advogado. -O que posso fazer por você, nefilin? Contei a ele sobre meu plano para destruir Mariana. Persis riu quando terminei meu relato. -Isso será divertido, Lienne. -Então, divirta-se comigo. -Seu beijos me divertem. -Já disse que passarei o resto da vida sem beijos. Persis contornou a mesa e veio até mim. Ele apoiou-se nos braços da grande cadeira giratória e deixou seu rosto próximo do meu. Seu sorriso debochado iluminava seu rosto. -Te ofereço uma vida eterna, ficarás eternamente sem beijos? – ele perguntou-me. -Sem os seus. Não gosto dos mocinhos. -E Arel? 139


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-Quem disse que ele é um bom garoto? -Posso ser mal, posso te arrebentar, posso te trair. Serei o que você quiser, Lienne. Nossos olhos fitavam-se intensamente. Nenhum dos dois estava disposto a ceder. Eu via Persis com outros olhos. Eu comecei a sentir algo mais forte por ele. Aquele demônio me venerava, sua beleza entorpecia meus sentidos. Nossas lembranças faziam-me... desejá-lo. Recordei da imagem de seu peito nu, seu tórax perfeito... sim, eu o desejei. Permiti que sua mão tocasse meu rosto. Seus dedos passearam pela minha face, contornando meus lábios, meus olhos, deslizando pelo meu pescoço, alcançando meu ombro, descendo pelo meu braço, segurando a minha mão. -Nunca entenderás? – ele perguntou baixinho, era quase um sussurro. -Não. -Ainda o amas? -Não, Persis. -Eu te amo. Minha mão assumiu vontade própria e tocou seu cabelo. Resisiti ao máximo que pude. Porém, ver aqueles lábios próximos dos meus enfraqueceu-me. Eu o beijei como nunca fizera antes. Persis ajoelhou-se diante de mim, sem interromper nosso ósculo. Num único movimento, ele colocou-me sobre suas pernas. Nossos corpos colados, um de frente para o outro. Suas mãos emaranhavam-se em meus cabelos. 140


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-Desejo-te, Lienne. -Entre na fila, mas aviso-te que ela é imensa. -Eu os mato e chego na frente. -E serias o primeiro... -E o único. -Metido – sorri. -Um apaixonado faz loucuras por sua amada. Suas palavras eram verdadeiras. Eu acreditei nele. Mesmo sofrendo com o trauma da traição de Arel, eu acreditava em Persis. -Eu morreria por você, Lienne. O abracei forte e deitei minha cabeça em seu ombro. Ele apertou-me em seus braços quentes e ficamos assim por um longo tempo. -Só serás minha se assim desejardes. Tudo o que vivi foi uma grande ilusão, até que conheci você. Tudo, Lienne, todas as minhas palavras, tudo o que minha boca proferiu foram mentiras e falsidades, exceto nas vezes em que eu declarei meu amor por você. Jamais te entregaria para Apollyon. -Não? -Não. Eu te mataria antes. Rimos juntos. -Posso matar Arel? – Persis brincou. -Por que quer matá-lo? -Porque ele te magoou. -E isso é motivo para destruir um arcanjo? -Eu faria um favor para a humanidade, ele é muito feio. Persis me divertia. 141


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-Eu quero matá-lo porque é o arcanjo mais burro que já conheci. Ele perdeu o que tanto almejo e nunca conseguirei ter. -E o que seria, Persis? -Seu amor. -Sinto decepcioná-lo, mas o prazer de matar Arel será meu. Ele disse que amava-me... e mentiu. -Anjos e arcanjos criados não podem mentir, Lienne. -Devo acreditar no amor de Arel? -Ora, quando ele disser “eu te amo”, apenas acredite. Ele pode amar te destruir ou te amar de verdade. De qualquer forma, será amor, não será? Eu ri. Persis tinha a melhor percepção de amor que todos nós.

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MAL ENTENDIDO. Um pedido, Um favor E uma briga. Um desejo, Um clamor De toda uma vida. Um desentendimento, Troca de palavras, Ofendida. Um medo, Um tormento, Muitas feridas.

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Capítulo 22 – Pedindo. Novamente sozinha em meu escritório, fiquei pensando em Persis e em tudo que vivemos. Se eu tomasse a decisão certa, poderia ter evitado todos os sofrimentos que vivia naquele instante. Lembrei-me de palavras que meu pai falava quando eu tinha apenas quinze anos, dos treinamentos que ele me dava, mesmo sem que eu entendesse o por quê daquilo tudo. “Uma escolha errada pode destruir seu destino, Lienne. Siga sempre certa do que faz. Na dúvida, escolha a mente, pois o coração engana e deturpa” – eram as sábias palavras do meu pai. E ele estava certo, como sempre. Meu coração mostrou-me a raiva, fazendo-me odiar Persis. Meu coração mostrou-me a beleza, fazendome amar Arel. Caminhos errados. Escolhas erradas. Agi com o coração e deixei a razão de lado. Erros e mais erros. Hora de deixar os sentimentos para trás e buscar a verdade que a mente insistia em mostrar. Era o momento de deixar o orgulho de lado e pedir ajuda para o melhor arcanjo instrutor que a Cidade dos Nefilins já teve: Caleb, meu pai. Levantei-me e fui fazer o que minha razão ordenava. 144


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Na recepção da sala da presidência, vejo Priscila perdida em montanhas de trabalhos. -Pode fazer-me um favor? – perguntei à ela. -Até dois. -Marque uma reunião com Daniel para mais tarde. -Em qual horário? -O mesmo de ontem. -Tudo bem. Mais alguma coisa? -O que estás fazendo? – pergunto apontando para a montanha de papéis em sua mesa. -Perdendo-me em cálculos – responde Priscila com uma careta de desespero. -O contador não deveria ser o encarregado disso? -Almejo uma promoção, esse é o preço que devo pagar. Sorri. Tudo na vida tem um preço, mesmo quando ele não é cobrado. E eu faria questão de pagar a amizade sincera que Priscila me rendia. Tomei um dos papéis e o analisei. Erros esdrúluxos foram encontrados logo nas primeiras linhas. Tomei uma caneta da mão de Priscila e comecei a verter erros em acertos precisos. Com a mente trabalhando em uma velocidade muito maior que a de um humano, consegui, em poucos minutos, realizar metade do trabalho de Priscila. -Aqui está. Posso terminar o resto para você quando eu voltar – entreguei a nova pilha de papéis corrigidos. 145


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Embasbacada, Priscila perguntou-me: -Como consegues fazer isso? -Fazendo – dei de ombros. Ela olhou-me desconfiada. -Você não é normal, Lienne. -Depende de sua definição para “normal”. -Uma mulher bonita, nunca é inteligente. Não a esse ponto. -Então não sou normal, pois faço isso desde que nasci. -Não duvido. -Preciso ir, te vejo mais tarde – cortei o assunto que estendia-se para um lado que não agradava-me. Voltei ao rumo de uma nova missão e, ainda no prédio da Exodus, num dos corredores daquele edifício, encontro Mikael enroscado em beijos com a Nataly. -Não a engula, nefilin – brinquei chamando a atenção do meu amigo. -Nefilin? O que é um nefilin? – perguntou Nataly. -O filho de um anjo. O pai de Mikael é lindo como um anjo – consertei meu deslize. -Então agora eu compreendo sua beleza – ela sorriu encantada por Mikael. -Por que atrapalhastes-me, dona Eliane? – perguntou-me o nefilin por entre os dentes. -Conversastes com Kandake hoje. E eu odeio essa formalidade – respondi. 146


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-Como devo chamá-la? Eliane? Eli? Senhora? Patroa? -Linda, gostosa, amor, sonho, ilusão. Faça sua escolha – dei de ombros. – Só não me chame de dona. -Lienne é um bom apelido para o seu nome – Mikael entrou na brincadeira. -Tanto faz. Preciso que venhas comigo. -Fazer o quê? -Falar com Caleb. -Sobre a conversa que tive com Kandake? -Exatamente – sorri de maneira debochada. -Isso não agrada-me. -Tens apenas duas opções: Caleb ou eu. No entanto, seu lindo rosto será atingido pelas minhas mãos ou pelas dele. A decisão de quem fará isso será só uma formalidade. -Enlouqueceu? Um soco de Caleb me destruiria. Deixa que ele fique com Séfora, escolho você. -Juro que estou tentando acompanhar a conversa, mas não entendo uma só palavra do que dizem – comentou Nataly. -Eu explico: Mikael tem uma namorada, o nome dela é Halina, ela mora numa cidade longe daqui e ele só está brincando com seus sentimentos. -Ah, muito obrigado por isso, Lienne – falou Mikael de maneira irônica. -Por nada. Não sente-se mais aliviado agora que a verdade veio à tona? – ironizei como ele havia feito. 147


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-Isso é mesmo verdade? – perguntou a humana. -Sim – respondeu Mikael. – É verdade, eu tenho uma namorada. Nataly estapeou o rosto do nefilin e correu para longe de nós. -Doeu? – perguntei divertindo-me com a situação. Mikael riu. -Nem senti. Deixamos a Exodus e seguimos de carro pela cidade. -Como aprendestes a dirigir? – perguntou o nefilin ao meu lado. -Persis ensinou-me. -O que esse cara não te ensinou? -Fazer sexo. -Isso eu mesmo posso ensinar-te. -Ótimo! Convidaremos Halina e faremos uma orgia – brinquei. -Você tem o dom de acabar com meus sonhos, Lienne. -O que dói mais, um soco de Caleb ou um tapa de Halina? -Uma nefilin com ciúme é a arma mais mortal que já conheci. Prefiro apanhar do seu pai. Falando nele, onde o encontraremos? -Caleb só pode estar em dois lugares: na Cidade dos Nefilins ou na casa da sua amante. Como não podemos voltar ao nosso parque de diversões, vamos visitar minha nova mamãe. 148


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-Você é má – rebateu Mikael. -Sou um anjo. Em meio a uma conversa divertida, chegamos na casa de Patricia. Ela não demorou para nos atender. -Lienne? – Minha madrasta pareceu surpresa ao ver-me ali. – Esse que te acompanha é Arel? -Pirou? Arel é lindo. Essa porcaria é um nefilin, Mikael. -Obrigado por gostar tanto de mim – protestou meu amigo. Ignorei Mikael e falei com Patricia. -Podemos entrar? -Claro, entre – ela respondeu dando-nos passagem. Já no interior da casa de Patricia, eu pergunto: -Onde está meu pai? -Ele não se encontra aqui. -Então o chame, por favor. -Para uma nova briga? -De certa forma – dei de ombros. – Apenas conte-me como o encontra, como consegue chamá-lo, entrar em contato, sei lá. -Caleb aparece de repente, quando ele sente saudades ou quando estou em perigo. -Então fique em perigo. -Como farei isso, Lienne? -Eu te ajudo. Te dou umas porradas com muito prazer, não te suporto mesmo. Patricia olhou-me incrédula enquanto caminhava em sua direção com os punhos fechados. 149


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-Não faça isso, Lienne – Mikael deteve-me. -Preciso falar com Caleb e ela tem que estar em perigo para que ele resolva aparecer. Tens uma solução melhor? Mikael soltou-me. Tornei a atacar Patricia e meu plano deu certo. Antes mesmo que eu pudesse socá-la, meu pai entrou sem cerimônias na casa de sua amada. -Sempre ultrapassando limites – vociferou Caleb. -Oi, papai – falei debochadamente. -Seu masoquismo impressiona-me. -Claro, receber seus golpes é um grande prazer. -És minha filha, gosto de te mimar – ele socoume. – Estás feliz, filhinha? -Agora estou – respondi tonta e cambaleante com o golpe desferido em minha cabeça. Fui amparada por Mikael. Jamais senti-me daquela maneira. Era preciso muito mais que um soco leve de Caleb para derrubar-me. E ele percebeu meu mal estar. -O que houve, Lienne? – perguntou meu pai parecendo preocupado. -Não sei – respondi vendo a sala de Patricia girar diante de mim. Sentei-me no chão e levei as mãos a cabeça. Eu não alimentava-me há mais de dois dias. Transformara-me num anjo, mas meu corpo ainda cobrava um desejo que jamais sairia dele, a ânsia por sangue. Não cheguei a consumir nem 150


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mesmo do vinho que Apollyon disponibilizara, o vinho batizado com sangue e veneno. Meu pai abaixou-se diante de mim e segurou meu queixo, fazendo-me olhar diretamente para ele. -Sem sangue? – ele perguntou e eu assenti. – Por quê? Eu jamais diria, não daria esse prazer à ele novamente. Não voltaria a implorar por algo que meu pai não era capaz de dar-me. Eu desisti de sangue, desisti de matar os humanos por alimentar-me de suas vidas. Tudo para conquistar o orgulho do arcanjo que eu mais admirava e temia, meu pai. Com um safanão, afastei o braço de Caleb e levantei-me, sempre controlando meus sentidos e mantendo-me firme. -Vim fazer-te um pedido – falei assim que recobrei minhas forças. -Atacando Patricia? -Aparecestes, não? -Diga-me o que queres. -Preciso que ajude-me a treinar Mikael e Séfora. Eu os levarei, com a ajuda de Kandake, até a Cidade dos Nefilins e eles terminarão seus testes. -Já conversei com Hazanel sobre isso e ele concorda com seus planos. Kandake era mesmo eficiente em sua luta por salvar sua prole. Ele fez exatamente o que lhe pedi. -Temos pouco tempo e precisamos começar logo – meu pai olhou para sua amada e disse: Podemos usar sua casa para isso? A nova morada de 151


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Lienne é perigosa, Apollyon poderia aparecer por lá e nos flagrar. -Claro, arcanjo. Contanto que não destruam o pouco que eu tenho – respondeu Patricia. -Os treinamentos serão feitos durante a noite. Séfora ainda sofre com os efeitos do sol em sua pele – expliquei. -Por mim, tudo bem, Lienne – Patricia concordou. A fitei e encontrei um sorriso acolhedor em seu rosto. Mesmo com minhas inconsequências, ela aceitava-me e tentava de tudo para agradar-me. -Desculpe por tudo – falei sem graça. -Posso falar com você em particular? Assenti e a acompanhei até seu quarto.

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SEM MEDO DE AMAR. Os braços que me embalaram Foram os mesmos que me agrediram. A voz que ensinou-me, Foi a mesmo que marcou-me. Nos afastamos. Medo e trauma restaram. Medo de não ser amada. Trauma de ser deixada. Eu o amo, mas não sei como dizer. Ele sente o mesmo, e não sabe o que fazer. A coragem o invade, Sua boca pronuncia verdade. Um arcanjo não mente, Ele diz o que sente. Resisto, temo o dano. Acabo rendendo-me Quando ele diz: eu te amo.

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Capítulo 23 – Declarando. -Lienne, por que tentas esconder o que é visível até para os cegos? -Não entendi sua pergunta, humana. -Amas seu pai e mesmo assim esforça-se tanto para afastá-lo de ti. -O fruto de um pecado não nasceu para amar. O ódio é um dos meus eternos companheiros, Patricia. E meu pai só enxerga um erro quando olha para mim. Sou um pecado que ele jamais conseguirá apagar. -Seu pai a ama, Lienne. Pediste-me um favor, cedi minha casa para que realizes seus planos. Porém, quero algo em troca. -O quê? -Que vá até seu pai e diga o quanto o ama, o abrace e deixe que ele enxergue seus sentimentos. -Procuro outro lugar para treinar meus amigos – respondi quase saindo do quarto. -Dois teimosos! – ela gritou. – Como podem duas criaturas serem tão parecidas? Parei e voltei a encará-la. -Caleb teve a mesma reação quando lhe fiz igual pedido – ela levantou-se, pegou-me pelo braço e conduziu-me até uma poltrona florida. – Agora sente-se – Patricia falou firme. Eu ri e disse: -Estou de castigo, mamãe? -Lienne, obedeça-me. 154


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Tive medo pelos humanos. Essa mulher seria uma vampira muito sádica. Diante da rispidez de suas palavras, fiz o que ela ordenou. Minha madrasta saiu do quarto e voltou minutos depois acompanhada do arcanjo e do nefilin. -Caleb e Lienne, – Patricia recomeçou seu discurso – há assuntos mal resolvidos entre os dois. Eu e Mikael seremos testemunha dessa conversa, porque se os dois não se entenderem, juro que termino tudo com Caleb e não permitirei treinamento algum para os planos de Lienne. Portanto, criaturas teimosas, comecem a falar o que sentem. Silêncio. Ninguém cederia. Virei meu rosto para o lado oposto de onde eles estavam. Minhas feições mostravam meu desagrado diante daquela situação. -Caleb, por favor – sussurrou Patricia. Escutei os passos do arcanjo aproximando-se de mim. Ele sentou-se no leito de descanso de sua amada e ficou frente a frente comigo. Meu olhar ainda fugia do dele. -Enfrentaremos uma grande batalha, lutaremos juntos. Uma trégua em nossas divergências seria bem vinda, Lienne. -Talvez isso seria possível se seu vício não fosse arrebentar meus ossos – rebati com raiva. -Achas que divirto-me com isso? -Tenho certeza. 155


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-Lienne, certa vez eu vi-me diante de uma pequena criatura, belíssima e com um olhar intenso. Ela era indefesa e frágil. Cuidei dela, segurei em sua mão, ensinei a caminhar, mostrei os perigos da vida, a fiz forte. Essa criatura cresceu e tornou-se mais bela. Pelos motivos errados, ela escolheu o caminho certo. Impulsiva, forte, segura, linda... ela acreditou que não precisava mais de mim. Precisei domá-la, consertar seu caráter, podar sua fúria, mostrar o caminho certo. Ela foi treinada, testada, surrada, vencida. E ela venceu. Mas a névoa do orgulho, as ilusões de um falso amor, cegou seus olhos. Um golpe evita dar de cara com uma parede de chumbo. Não arrependo-me de nenhum dos meus atos com essa criatura. -Estamos quites, também o odeio. -Não arrependo-me de nada porque eu fiz dela o anjo que eu mais admiro e amo. Olhei para Caleb. Meus olhos marejaram. Ele finalmente falava o que eu tanto ansiei escutar. -És minha criança, és parte de mim. Jamais considerei o seu nascimento como um erro. Pelo, contrário, fostes meu orgulho e minha alegria durante todos esses anos. Podes odiar-me, eu não me importo. Meu amor por você é tão forte que estou cego e não vejo seus desaforos. Eu te amo, Lienne. Essa é a minha verdade. Chorei. Eu precisava disso, eu precisava dele. -Pai, fica comigo, não me abandona porque eu te amo muito – falei entre soluços e lágrimas. 156


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Sua mão forte acariciou meu rosto. -Minha pequenina, essas palavras fazem-me feliz. Nunca abandonei-te, filhinha. Como deixar para trás meu maior tesouro? Como esquecer parte do meu coração? Pela primeira vez na minha vida eu acreditei nas palavras do meu pai. Pela primeira vez eu o abracei com ternura, com amor, sem ressentimentos, sem competições. E o conforto que senti com esse gesto foi tão forte que eu não queria mais largá-lo. -Eu te amo, pequenina. Eu te amo demais.

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ACREDITANDO. Fortes, Seguros, Precisos, Maduros. Preciso fazê-los vencer. Treinados, Entendidos, Aperfeiçoados, Decididos. Ele podem vencer. Obedientes, Atenciosos, Firmes, Formosos. É... eles vão vencer.

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Capítulo 24 – Treinando. Os treinamentos começariam naquele mesmo dia, ou melhor, naquela noite. Eu voltei para a Exodus e seduzi Daniel, fazendo-o ficar doido por mim, conquistando sua confiança, mexendo com seus sentidos, entorpecendo sua mente com promessas de amor que jamais seriam cumpridas. -Que tal uma festinha particular e bem seleta? – sugeri a Daniel. -Do que se trata, minha flor? Sorri maliciosamente, mais um passo em minha vingança. -Inflingir a lei, quebrar algumas regras, viver perigosamente – aproximei-me dele e sentei em seu colo de maneira imprópria. Encostei meus lábios em seu ouvido e disse: - O perigo não te seduz? O medo não te excita? Ele arfou. -Você me deixa louco. Amo a sua audácia. Conte-me o que pretendes, Eliane. -Um ritual de magia negra em honra ao sexo. Imagine corpos nus. Imagine um altar com uma virgem em sacrifício, entregando seu corpo intacto... – eu falava de maneira sensual. Era nogento, eu prefiria levar outro soco de Caleb, mas isso não aconteceria por culpa de nossa trégua. -Quando faremos isso, linda flor? -Amanhã. Hoje eu tenho um encontro – falei acabando com aquela podridão e saindo de seu colo. 159


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-Um encontro com quem? – Daniel perguntou enciumado. -Ora, meu querido, o dono dessa empresa é meu senhor. -E acredito que seu encontro não será com o senhor Manthus. -Não. -Com quem será, Eliane? – ele perguntou enfurecido pelo ciúme desmedido e segurando meu braço. -Com um anjo – respondi debochadamente. -Diga-me o nome dele – Daniel gritou. -Nossa, essa agressividade me excita. -Estás bricando com fogo. Quero saber o nome do canalha que te encontrará. O aperto de Daniel não chegava nem a fazer cócegas em meu braço, mesmo assim, ele acreditava estar no comando. -Conte-me ou sofra minha ira. Ameaçada. Isso era bom, eu amava ser chamada para a briga. Calculei o tamanho da força que eu usaria para não matá-lo num só golpe. Sorri e empurrei Daniel usando a mesma força que os humanos usam para esmagar um formiga. Ele caiu a dois metros de mim. Fui até ele e abri alguns botões de sua camisa. Um hematoma arroxeado formava-se em seu peito. Ótimo, ele teria que preocupar-se em esconder isso de sua querida esposa. -Podes dizer que foi minha boca que deixou essa marca em seu corpo – falei tranquilamente. – 160


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Como eu estou morrendo de medo da sua ira, eu conto quem é o homem que terá um encontro comigo essa noite. Ele é meu pai. Agora eu preciso ir. Até amanhã, Daniel. E, já sabe, orgia marcada. Vamos nos divertir muito por lá. Ah, o doce sabor da vitória... eu já experimentava o néctar da vingança, o prazer de pagar com a mesma moeda. Mais alguns dias e Daniel estaria na mesma situação que um dia colocou-me... Mikael levou Séfora até a casa de Patricia e meu pai já estava por lá. Após nossa conversa melosa e nossas declarações, ele recebeu-me com um abraço carinhoso e um beijo na minha cabeça. -Preparada? – Caleb perguntou-me. Assenti e todos nos dirigimos para um cômodo completamente vazio. -Cadê os móveis dessa casa? – perguntei. -E acha que meu escritório seria mesmo o alvo de seus golpes? Seu pai retirou tudo para mim, assim nada será quebrado. Eu amo meu computador – falou Patricia de um jeito divertido. -Pensei que amasses o meu pai – rebati no mesmo tom. -O computador não tem uma filha bipolar. Todos riram com as palavras de Patricia. Nos posicionamos e Caleb iniciou o treinamento com Mikael. -Isso vai doer – falei baixinho para Séfora. 161


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-Por esse motivo que trouxe comigo duas grandes squeezes cheias de vinho com acelerador. Um presente do Az, que previu muitos golpes e ossos quebrados – respondeu a nefilin com seu sorriso maroto. Meu pai começou com Mikael, ensinando golpes de defesa. Mas o nefilin distraía-se com facilidade e um soco leve de Caleb o acertou no rosto. -Que merda! – murmurou Mikael. -Palavras são um presente, não as disperdice com tolices e insultos. Use-as para o seu próprio bem – meu pai chamou a atenção do nefilin. -Sinto muito, senhor. -Recomecemos. Mais uma série de golpes e defesas e, quando a mão de Caleb estava prestes a acertar o nariz de Mikael, ele deteve-se. -Concentração, nefilin. Precisas aprender a esquecer o que está ao seu redor e focar seu alvo – falou meu pai com firmeza. -Hei, isso não vale! – protestei. -Do que estás falando, Lienne? -Se fosse o meu nariz, o senhor o teria quebrado. Meu pai gargalhou. -És a única filha do pecado que aguenta meus golpes mais fortes. -E por isso eu precisava sentir o gosto do meu próprio sangue? Estava sendo divertido ver Mikael apanhar. 162


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-Concordo com a Lienne – comentou Séfora. -Senhor arcanjo, poderia, por favor, quebrar todos os ossos de Séfora? – brincou Mikael. Nesse clima de descontração, meu pai ensinava os dois, e eu os observava com orgulho. Após duas horas de treinamento, nenhum osso foi quebrado por Caleb ter auto-controle suficiente para deter-se no momento certo. E os dois avançaram bastante, sempre escutando com atenção os conselhos do arcanjo. -Dois contra um. Faremos uma demonstração de defesa e ataque – falou meu pai. – Lienne, venha aqui. Tirei meus sapatos e caminhei até eles. -Uma luta entre três. Mikael e Séfora atacarão e você defenderá. Quando encontrar a oportunidade certa, Lienne, ataque-os. Assenti e começamos. Séfora tinha um defeito, ela era afoita demais numa luta. Mikael era mais contido e sabia avaliar a situação. Defendi-me de golpes vindos de todos os lados e percebi Séfora baixar a guarda por um momento. Um chute em seu estômago a fez cair. Enfrentar Mikael era mais fácil para mim, apesar da vantagem que ele tinha, eu era mais baixa e isso ajudava-me a furar seu bloqueio e encontrar o alvo livre. Um soco em seu queixo, vindo de baixo para cima, o tirou de combate. Caleb aproximou-se de nós e disse: -Séfora, és boa na defesa, mas preocupa-se demais em atacar, baixando a guarda. Por isso fostes derrotada. Mikael, não podes contar sempre com seu 163


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tamanho para amedrontar seu oponente. Lienne usou o ponto fraco dela em seu próprio favor. Tente fazer o mesmo da próxima vez. -Quero ver Lienne fazer o mesmo com o senhor – protestou Séfora. -Meu treinamento já foi encerrado – rebati. -Mas seria ótimo assistir a um combate dos dois – comentou Mikael. -Demos uma trégua em nossas brigas – respondi firme. Eu realmente não gostava da idéia de enfrentar meu pai mais uma vez. -Observar seus movimentos seria uma ótima lição para nós – retrucou Séfora. E com essas palavras, ela convenceu Caleb. Olhei para Patricia como um pedido de “socorro”. Mas minha amada nova mamãe, entrou no jogo e respondeu: -Se for só um treinamento, acho que não haverá problemas. Caleb ficou de frente para mim e colocou suas mãos em meus ombros. -Dê o seu melhor. É um treinamento, mas preciso saber se ficarás bem caso venha a enfrentar um oponente forte. Portanto, faremos um treinamento tão avançado quanto os que tínhamos na Cidade dos Nefilins. Tudo bem? Assenti. Mikael e Séfora afastaram-se. Dei alguns passos para trás, aumentando a distância entre Caleb e eu. -Pronta? – perguntou meu pai. 164


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-Sempre – respondi. Ele começou o ataque e percebi que em nada ele facilitava para mim. Porém, minha força, minha percepção, minha visão, tudo em mim era muito diferente desde o nosso último treinamento. Eu já não era mais uma nefilin, eu ganhara minhas asas e meu corpo aperfeiçoou-se. Por alguns momentos, apenas defendi-me. Até que Caleb deixou, por milésimos de segundos, o campo livre para que eu pudesse agir. Sem que ele esperasse, eu consegui socá-lo na fronte. -Oh, meu Deus! – exclamou Séfora. – Agora ela morre. -Não acredito no que acabei de ver – disse Mikael. -Ela fez mesmo o que eu vi? – Patricia perguntou. Caleb sorriu e disse: -Não és mais a mesma criança que um dia treinei. -Não. Mas ainda sou sua filha. Revanche? -O primeiro a acertar um golpe vencerá. -Prepare-se para perder, papai. -Serei derrotado com orgulho. Reiniciamos a luta e nenhum dos dois assumia uma vantagem. Estávamo em igualdade enquanto eu raciocianava, lembrando de todos os seus ensinamentos, colocando-os em prática. E minha ascenção terminou quando vi o sorriso de Caleb. Ele achara uma brecha e, sem que eu tivesse tempo para 165


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defender-me, ele golpeou minha nuca, fazendo com que eu caísse com a força do impacto. Ele queria saber como eu me sairia com um oponente forte? Eu demonstraria isso. -Como está o chão? – meu pai perguntou debochando da situação. -Por que não o experimenta e sinta o senhor mesmo? – respondi dando-lhe uma rasteira e fazendo-o tombar ao meu lado. – Agora sabes como é beijar um piso de porcelanato. Levantei-me para concluir minha vitória, mas ele agarrou meu tornozelo, fazendo-me voltar ao negro piso brilhante do recinto. Seu braço golpeou minhas costas e senti três das minhas costelas partindo-se. Arfei com a dor que esse golpe causoume. A dor vem acompanhada da raiva. Ainda no chão, soquei seu olho e ele levantou-me a cabeça para depois fazê-la ir de encontro ao piso frio e duro. Senti uma fissura abrir-se no supercílio e o sangue escorrer. Fraca, desisti da luta. Arfando e chorando de dor. Caleb levantou-se, foi até Séfora e logo voltou. Ele virou-me e nem o gelo daquele porcelanato era capaz de aliviar a dor nas minhas costelas. -Beba – Caleb entregou-me a squeeze com o preparado de Az. Não recusei e saciei a sede que atormentavame há dias. O sabor entorpecente do sangue. O sangue que trazia vida. 166


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O sangue que transformava. O sangue inebriante que um dia pertenceu a alguém. O acelerador tinha a função de curar, mas naquele preparado ele fazia algo a mais, ele mantinha o sangue sempre fresco, sem coagulações, quente, como se ainda pulsasse em uma véia humana. Meus ossos voltaram para o lugar ao qual pertenciam. A fissura fechou-se. As dores cessaram. Eu agora arfava, mas de prazer. E, em segredo, desejei Persis e seus beijos. Tomada nos braços do meu pai que sentou-se ao meu lado e colocou-me em seu colo, escuto ele dizer: -Deixastes-me orgulhoso. -Perdi a luta – reclamei manhosa. -Porque estavas fraca. De outra forma, eu estaria derrotado pela minha própria filha. Foi a primeira vez que um adversário derrubou-me. -É bom saber disso – falei sorrindo. -Por que essa abstinência de sangue? -Dissestes-me que era errado. Eu quis dar-te orgulho. -Orgulhei-me de ser seu pai desde que nascestes, pequenina. Não faças mais isso, afinal terei que acostumar-me com a idéia, já que Patricia em breve será uma bebedora de sangue. Quero que fiques bem, criança. -Obrigada, pai. -Como ela está? – Patricia juntava-se a nós. 167


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-Para quem já levou quinze chibatadas, o que ganhei há pouco foi só um carinho – respondi rindo. -Quinze chibatadas, todos os ossos do corpo quebrado, humilhação pública, e mais uma dúzia de muitas torturas. Sim, Lienne é minha diva – brincou Séfora. -Espero um dia entender sua força – completou Mikael. Caleb olhou para Patricia e depois para mim com o rosto de moleque atrevido. -O que o senhor está aprontando, arcanjo? – perguntou Séfora, sempre agarrada ao encardido Teddy. Meu pai lançou uma piscadela cúmplice para a nefilin e levantou-se. Eu e Patricia permanecemos sentadas no chão. -Vocês duas têm problemas mal resolvidos – Caleb brincava com as palavras de Patricia. – Resolvam-se ou terminarei tudo com minha amada e darei uma grande surra em minha filha. Olhei para minha madrasta e ela sorria, encantada pelo seu arcanjo. -Terei recompensa depois disso? – ela perguntou. Eu e os nefilins dissemos em uníssono: -Eca! -Parem com isso, vocês me dão náuseas – comentou Séfora. -Nogento – protestei. -Saudade da Halina – rebateu Mikael. Caleb e Patricia riam da nossa reação. 168


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-Lienne, - minha madrasta começou a resolver os “problemas” – eu amo seu pai e, consequentemente, amo-te também. Mesmo que não entendas o que sinto, quero que encontre em mim a mãe que a morte te roubou. -Fala sério, sou mais velha que você – rebati. -Infelizmente estás presa a essa aparência de uma eterna criança. Olho para ti e vejo uma adolescente mimada e ciumenta. Claro que não tenho idade para ser sua mãe. Nem Caleb parece ser seu pai. E, sei que abdiquei da maternidade ao aceitar sua oferta, então, permita-me realizar meu sonho impossível cuidando de você. -Enlouqueceu? – Séfora intrometia-se na conversa. – Ela deixa o arcanjo de cabelo em pé. Aposto que ele parecia ter uns vinte anos, no máximo, antes dela nascer. Tá vendo esse rostinho aqui, meu bem? – a nefilin repuxava as bochechas do meu pai. – Foi deformado pelas preocupações que dona Lili causou-lhe. Vais mesmo criar um anjo do inferno? Patricia gargalhava com a atitude da nefilin. -Sim, minha querida. Aliás, cuidarei de você também, caso queiras – respondeu minha madrasta. -Não, obrigada. Sou muito feliz assim. Prefiro a falta de Arktos do que Caleb como pai adotivo. -Quantos anos tem, Séfora? -Para as contas dos humanos, uns cinquenta e poucos, para os anjos, vinte e oito. -Não pareces ter mais que catorze ou quinze. 169


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-Maldições dos nefilins, ficamos presos nessa aparência adolescente para o resto de nossas vidas. -Na aparência e no cérebro – murmurou Caleb. -Pareço mais velha – gabei-me. -Não te daria mais que dezessete, Lienne – rebateu Patricia. – E Mikael passaria por, no máximo, dezenove ou vinte. -Ganhei, sou o mais velho, mando em todas – brincou Mikael. – Agora temos que ir. Eu e Séfora assentimos e eu levantei-me para partir, mas Patricia falou: -Lienne, estamos bem? Daremos uma trégua em nossas divergências? Olhei do meu pai para ela e analisei os fatos. Como eu sempre digo, é muito bom o sabor da vitória. Eu tinha um trunfo. -Vou pedir algo em troca – respondi. -O que você quiser. -Mantenha Caleb ocupado. -Tudo bem, isso é fácil – falou Patricia entendendo meu raciocínio. Fêmeas... humanas, anjos ou nefilins, sempre seríamos cúmplices em certos assuntos. -Por que esse pedido, pequenina? – perguntou Caleb com os braços cruzados sobre o peito. Olhei para os meus amigos e sibilei um “preparem-se para correr”. Eles assentiram e, disfarçadamente, deram passos de ré em direção à porta do quarto. -Responda-me, Lienne – insistia o arcanjo. 170


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Joguei as chaves do meu carro para Mikael. -Patricia, já vistes anjos e nefilins correndo? – perguntei. -Não, por quê? -Nem verás, é impossível para os olhos humanos acompanhá-los. Eles simplesmente parecem sumir. -Lienne? A resposta – meu pai falou mais firme dessa vez. Eu ri e falei: -Eu quero que ela o mantenha ocupado para que eu possa ficar na “pegação” com Persis. Mal terminei de proferir essas palavras e parti com meus amigos numa fuga desenfreada. Como se estivéssemos em um labirinto, desviamos de paredes, pulamos os móveis e alcançamos a saída. Mikael destravou o carro e entramos rapidamente nele. -Rápido, dá logo a partida nisso – gritei. O nefilin era o melhor no volante e logo estávamos livres da perseguição de Caleb e ríamos sem parar. -Lienne, você é completamente insana! – exclamou Séfora. -Ora, encare essa fuga como parte do treinamento. Se não pode vencê-los, corra. Ao menos temos a certeza de que arcanjo algum nos alcançará.

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FALSIDADE. Eles andam cercados de leis, E quebram suas próprias regras. Ele criam suas doutrinas, E nunca prendem-se à elas. Vendem-se facilmente. Escondem-se atrás de máscaras de falsidades. Mostram-se como santos. E a ganância os domina. Melhor para meus planos, Ele se vendem e eu os compro.

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Capítulo 25 – Comprando. Os treinamentos dos nefilins continuaram e tive que enfrentar a fúria de Caleb no dia seguinte. Felizmente, nossa trégua poupou-me de uma surra. Em certos momentos eu simplesmente queria viver tudo o que deixei para trás. Minha vida foi rápida, tudo passou como num piscar de olhos e perdi toda diversão. Mikael e Séfora sentiam o mesmo, por isso Teddy seria sempre a melhor companhia daquela nefilin. E eram nos treinamentos que nos deixávamos levar e sermos as crianças que não tivemos a chance de ser. Ríamos e brincávamos uns com os outros, acompanhados de Caleb e Patricia, como uma grande família feliz. Porém, nem tudo são flores e alegrias. Haviam momentos em que a mente cobrava a minha verdadeira idade. Eram nesses momentos que o desejo de vingança rondava-me e eu assumia a personalidade sombria. Entro, pela primeira vez em toda a minha existência, numa imponente construção gospel com um ar gótico. -A igreja de Cristo. Um novo reinado numa nova ordem – li as inscrições numa plaqueta dourada aos pés da cruz. Olhei para o teto altíssimo da construção. Vitrais de todas as cores impediam a luz direta do sol, dando uma iluminação estranha e arrepiante. Era como fogo... 173


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Parada, sem mover um só músculo, observo a sala da purificação. Eu estive a um ponto de morrer ali. Um recinto circular com as paredes revestidas de tijolos reflatários, o teto era guarnecido por uma abóbada retrátil, que permitiria a saída das fumaças nas fogueiras santas. Um outro círculo menor, exatamente ao centro do primeiro. O tom escurecido de maneira nada uniforme mostrava que vidas foram incineradas ali. -Senhora Manthus? – pergunta uma voz masculina. Viro-me para encará-lo e percebo seu susto com minha aparência. -Perdoe-me, senhorita. Pensei estar falando com uma senhora a quem eu esperava a visita – falou Monsenhor Josiah. -Sou Eliane Manthus – respondi firme. -Uma adolescente? -Agradeço o elogio, entretanto afirmo-te que tenho idade suficiente para assumir meu cargo e estar legalmente casada com Apollyon Manthus, não infligindo nenhuma das leis que reza a igreja de Cristo. -Claro, senhora, não quis insinuar tal desaforo. -Trago-te uma quantia para a doação. -Qual o valor? -O triplo da última. O rosto do Monsenhor Josiah iluminou-se com um sorriso ganancioso. -Uma grande quantia, senhora. 174


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-Isso renderia-me um grande favor? – rebati. Eu não estava doando nada, mas comprando algo. -Não sendo nada que vá contra nossas leis. -Essa doação anônima e em suas mãos é contra as leis, no entanto, faremos vistas grossas diante desse pequeno pecado. -Jogas bem, senhora Manthus. Qual o seu pedido? -Farei uma denúncia, um herege numa reunião secreta envolvendo magia negra e um ritual de orgia. Estive lá, escondida, constatei a heresia e registrei tal crime. Quero imunidade diante da minha acusação, pois minha presença nesse ritual foi de extrema importância para que tal onfensa à igreja fosse registrada. -Sem problemas, entendo sua posição. Seu nome não será citado diante do tribunal eclesiástico, deixaremos isso como uma denúncia anônima. -Ótimo. Tenho a sua palavra, no entanto, antes de entregar-te a quantia, peço-te uma outra gratificação pela minha generosidade. -Doação significa dar sem receber nada em troca – rebateu o Monsenhor. -Uma pena, pois essa não seria a última. -Diga-me o que queres, senhora. -Jamais vi o ritual de purificação da alma, gostaria de estar presente nesse e de acender as chamas que irão purificar o herege. -Por que terias esse direito, é um parente seu? -Não, mas é funcionário da minha empresa, ele sujou o bom nome da Exodus. 175


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-Bem, diante desse termo, acho que posso conseguir esse favor sem problema algum. -Então, aqui está – entreguei-lhe a maleta que eu carregava. Mosenhor Josiah abriu a valise ali mesmo e conferiu as notas verdes, tocando-as com carinho, cheirando-as. -Tem muito mais de onde essas vieram. Meu esposo é um homem rico. Atenda meus pedidos e atenderemos os seus. A Exodus é parceira da igreja de Cristo. “E as portas do inferno jamais prevalecerão contra ela? Não é isso que vejo” – pensei. -Uma parceria excelente – exclamou o cretino. -Cumpra sua parte, monsenhor. Retornarei em breve. Deixando aquele lugar pútrido, sibilo palavras de afronta: -E as portas do inferno estarão sempre prontas para recebê-la... Mikael junta-se a mim quase na saída. -Filmou tudo? -Cada mínimo movimento – ele responde. – O que farás agora? -Vou para o inferno. Desço ao submundo, o reino de Apollyon. Aquele lugar tornava-se tão familiar e normal quanto a Cidade dos Nefilins. Procuro por Adramalech, mas não encontro meu irmão. 176


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Sigo direto ao castelo exótico onde reside o rei das trevas. Ao seu lado estão Adramalech e Kali, sob eterna vigilância do próprio interessado neles. -Minha querida nefilin, não esperava sua visita. Meus olhos encontram os de Adramalech. Atrás daquela carcaça estranha residia uma alma inteligente, que entendera meu olhar, assentindo de maneira discreta. -Fizestes o que eu pedi, grande rei? -Seduzir a virgem cinquentona? – ele gargalhou – Ela deve estar suspirando de prazer até agora. -Isso dá uma idéia de como ficarei quando entregar-me a ti – provoquei. -Não, meu bem, ficarás ainda mais arfante, pois com você farei com toda a minha ânsia. -Falando em perversidades, poderia emprestar-me algumas sucubos, demoninhos, um pessoalzinho barra pesada para realizar minha vingança? -Suas vinganças são um tanto excêntricas, Lienne. O que farás com essas criaturas? -Uma orgia – dei de ombros. Apollyon riu alto. -Não empolgue-se, querido noivo. Vou apenas dar uma festinha em sua homenagem e colocarei um humano no meio. Depois o denunciarei no tribunal eclesiástico que, devo confessar, comprei com seu dinheiro. -A troco de quê? 177


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-Acender as chamas da fogueira. -Nem eu teria uma imaginação tão fértil e malígna. -Vais permitir que suas criaturas saiam comigo? – insisti. -Por que eu perderia essa homenagem? Estarei ao seu lado quando aquelas chamas o consumirem. -Adramalech e Kali? -Eles ficam. -Não podem sair nem para assombrarem um pouquinho só? -Preciso dos meus filhos, querida nefilin. -Que seja. Mande seus súditos na mansão hoje a noite. Minha vingança precisa ser feita e, quanto mais rápido tudo acontecer, mais rápida será nossa união. Não decepcione-me, grande rei. -Sou um santo ao seu lado, Lienne. -Sim, um santo, Apollyon. Não discuti com aquela anta infernal, não poderia chamar a atenção para todo o meu plano. Eu precisava me concentrar numa vingança por vez. E essa era a hora de Daniel... -Uau! Essa é a sua casa? – perguntou Daniel assim que estacionei na porta da frente da mansão. -Sim – desci do carro e caminhei imponente. O som de música alta e muita gente já podia ser escutado do lado de fora até mesmo para os humanos. Mikael e Séfora estavam treinando com Caleb. Pedi à eles para que dessem a desculpa de que eu 178


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estaria trabalhando com Az na mistura que mudaria meu irmão. Eu não colocaria nenhum dos meus amigos em risco de envolvimento com os humanos, as criaturas mais falsas que os demônios. Assim que entramos, vi casais de demônios e sucubos – que pareciam humanos aos olhos de quem visse - dançando de maneira sensual, enquanto uma pequena garota, vestida numa túnica branca, estava amarrada em cima do altar envolto em panos negros. A garota era uma nefilin. Fiquei imaginando o que ela teria feito de tão ruim para merecer esse castigo de ser possuída pelo pior dos humanos. Enfim, era problema dela. Meu problema era outro. A sala da mansão estava irreconhecível. Apollyon teve o cuidado de preparar tudo de maneira perfeita, sem deixar provas ou rastros que pudessem nos revelar. -Fique à vontade, Daniel. Tomarei algumas providências e logo voltarei, mas saiba que és o convidado de honra e aquela virgem espera-te. O cretino arfou só de pensar em possuir a pequena nefilin. Ela parecia ter menos de treze anos, mas eu sabia que era dona de quase quarenta. O deixei no meio daquela maluquice e fui até a cozinha pegar do meu vinho preferido e um pequeno equipamento já preparado para registrar cada momento. Dançando no rítmo do rock que tocava alto, eu exultava com a vingança. Posicionei-me num lugar estratégico, onde eu conseguiria ficar escondida e filmar toda a maluquice. 179


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Esperei eles começarem. Aliás, eu nem sabia como fariam isso, mas eu confiava nas maldades de Apollyon e no seu desejo por mim. E a música parou de repente. -Adoradores – falou uma voz conhecida, chamando a atenção de todos. Sorri e entornei mais uma grande dose do vinho entorpecente. Persis era mesmo um safado! Ele trajava um manto negro e encapuzado, jamais seria reconhecido por Daniel. – Nosso rei anseia por sangue. Persis beijou a pequena nefilin e seu olhar encontrava o meu, sempre com seu sorriso torto e debochado. Eu lhe devolvia o olhar com indignação e ciúme, sorrindo para ele da mesma forma. -O sangue da vida, o sangue do nascimento, o sangue do rompimento – continuou Persis. – Oferecemos essa virgem ao prazer do nosso convidado – ele apontou para Daniel que aproximou-se prontamente. – Tome-a para si, deixe o sangue do rompimento brotar por entre as pernas dela e honre o nosso rei. Tome nosso sacrifício, irmão. Persis rasgou a roupa da nefilin e Daniel a cobiçou. Logo ele estava com suas mãos pervertidas tocando a beldade de pele branca. Ele a possuiu e a pequena safada pareceu gostar. -Que nogenta – murmurei para mim mesma. Daniel satisfez seu corpo e permaneceu alguns minutos ainda por cima da nefilin. Arfante, levantou-se com dificuldade. 180


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-Não tenha um ataque cardíaco, seu pervetido. Eu quero ter o prazer de te matar – novamente falei sozinha. Persis voltou ao altar e entregou um punhal para Daniel. -O que faço com isso? – perguntou o humano. -Mate-a. -Por quê? -Ela é nosso sacrifício. -Como farei isso? Não sou assassino. “Claro que não, sua anta. Você não mata, manda matar” – pensei. -Termine o que começou ou sofra a ira do nosso rei. E, num efeito cinematográfico, – que acredito ter custado milhões – um monstro fumegante surge no meio de uma névoa escura. Durou menos que trinta segundos e foi melhor que cinema. Eu segurei a gargalhada para não ser vista ali. Daniel estremeceu diante daquilo e olhou para Persis. -Corte os pulsos dela – ordenou Persis. “Inteligente, a garota não morrerá. Basta se entupir de vinho batizado mais tarde”. Temeroso, Daniel pegou um dos braços da nefilin e cortou-lhe o pulso rapidamente. A garota fingiu dor, uma ótima atriz. Apollyon tinha mesmo os melhores. “Uma cena dessas e nem posso gargalhar”. Ao ver o sangue da garota escorrendo, Daniel sentiu ânsia e começou a suar feito um porco. Quase 181


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sem forças, ele fez o mesmo com o outro braço dela e, em poucos segundos de fingimento, a nefilin encenou sua própria morte. Daniel regurgitou no chão. “Nogento”. -Está feito! – exclamou Persis. –Agora divirtam-se, meus irmãos. Persis era o melhor numa festa. Guardei o equipamento num lugar seguro e secreto. Quando voltei para a sala, Daniel chorava em cima do corpo falsamente morto da garota no altar. -Vá para casa, Daniel. Já fizestes seu trabalho – falei firme. -Como? -Com suas pernas, voando, rastejando. Achas mesmo que importo-me? Saia da minha casa. -Nos veremos amanhã? -Claro. O que achou? Que eu ficaria chorando por essa garota? Nossos irmãos encontrarão um lugar para jogar esse corpo e logo teremos um dia normal. Agora vá, Daniel. Recupere-se no caminho e finja que nada aconteceu. -Sim. Mandei dois demônios escoltarem o imbecil até uma quadra antes da casa dele. Daniel se foi e a festa recomeçou. -Oi, Letty – falei para a nefilin do sacrifício. -Oi. Te odeio, Lienne. Eu ri e me entupi mais e mais de vinho batizado. O som alto da festa, o sabor entorpecente 182


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do vinho, a alegria de uma vingança... eu merecia comemorar. Estava dançando com a garrafa na mão, quando Persis abraçou-me. -Te quero – ele sussurrou em meu ouvido. -Você não vale nada. Ele tomou-me nos braços. Minhas pernas prenderam-se em sua cintura e subimos aos beijos até meu quarto. Ele jogou-me na cama e depois retirou sua camiseta. Seu peito nu, suas tatuagens... as tatuagens! Aquilo acendeu-me um sinal de alerta. Levantei-me decidida e disse: -Não farei nada. Nem hoje, nem amanhã e nem depois. Muito menos com você. -Como queira, Lienne – Persis respondeu sem parecer importar-se com isso. -Não estás furioso? -Não. Eu te amo. -Tens certeza? -Tenho. E entendo seu medo de fazer sexo. -Eu não tenho medo de sexo – rebati. -Tens medo do que? -Vai se catar, Persis. Voltei para a festa e o deixei sozinho em meu quarto. Toda a sujeira do falso ritual fora limpa. Agora aquela mansão parecia apenas um abrigo de muitos jovens numa festa louca. Deixei minha morada e parti para a casa da Patricia. Eu preferia ajudar no treinamento dos nefilins. E carreguei comigo a prova que findaria minha primeira vingança. 183


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PREDADORA. Eu cerco, sondo, Caço as oportunidades, Aguardo, espero. Ataco no momento certo. A vítma cai, Precisa do meu amparo. Eu finjo, torno-me seu socorro. Como uma amiga eu a questiono. Ela confessa, amansa. Compro sua confiança, Mais um passo na vingança.

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Capítulo 26 – Confessando. O tempo no mundo dos humanos é diferente da Cidade dos Nefilins e do inferno. Misturar os dois na cabeça e fazer um tremenda confusão é compreensível. Foi o que Kandake fez, ele confundiu-se e falou-nos a data errada para os testes dos nefilins. Felizmente Caleb consertou a situação. Enfim, dez dias haviam passado desde o primeiro dia de treinamento com Mikael e Séfora. E a hora de levá-los até a Cidade dos Nefilins não tardava a chegar. Por onde eu ia, eu carregava comigo a prova original de um crime que nunca aconteceu. Mais um último passo e minha primeira vingança seria finalizada. Eu já dava os passos para as outras duas vinganças dentro da Exodus. Eu sondava, analisava, sempre sem deixar-me ser vista. Foi numa dessas sondagens que uma oportunidade apareceu. Valéria estava no banheiro feminino regurgitando tudo o que ingerira. Seu corpo tremia, ela estava suando frio, a pressão cardíaca estava baixa demais. Valéria cambaleou e precisou do meu amparo para não cair. -Desculpe-me – ela falou com a voz amolecida. -Tudo bem, deixe-me ajudá-la – respondi. Ao escutar minhas palavras, Valéria arregalou seus olhos e fitou meu rosto. Vê-la estremecer de 185


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medo em meus braços foi ótimo e um sorriso em minha face foi aberto. -Santo Deus, não pode ser! – ela exclamou. -Não, realmente não pode ser. Eu não sou Santo Deus – brinquei. -Digo... você me lembra uma pessoa, mas... é estranho. -Você está muito pior do que eu imaginara, já está até delirando. -Não, é verdade o que digo. A semelhança é impressionante e se eu não a tivesse conhecido há mais de vinte e poucos anos atrás, eu diria que são a mesma pessoa. -Então eu estaria bem velhinha, certo? Ela riu com dificuldade. -Você tem razão, isso é apenas uma coincidência. -Venha, moça, eu vou ajudar-te a recuperar-se – falei colocando o braço de Valéria em meu pescoço e fingindo que arrastá-la era um esforço enorme. – Mulher pesada – murmurei por entre os dentes assim que cheguei na recepção da presidência. -O que aconteceu? – perguntou Priscila correndo para nos ajudar, mas sem largar aquela rosquinha que os humanos chamam de donuts. -Ela estava passando mal no banheiro feminino e, como eu não sei quem ela é – menti – a trouxe para o meu escritório. -Você é doida, Lienne. Deveria ter pedido ajuda. -Seu nome é Lienne? – perguntou Valéria. 186


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-Não. Sou Eliane, mas elas insistem em chamar-me de Lienne. Quem sou eu para discutir com minhas amigas? – pisquei para Priscila. Entramos na minha sala e colocamos a Valéria sentada. Arfantes, - eu estava falsamente arfante – eu e Priscila nos olhamos e rimos. -Que cheiro doce é esse? – reclamou Valéria. -Donuts de chocolate. A senhora quer um pedacinho? – Priscila quase esfregou a rosquinha na cara da Valéria. Sentindo o aroma do doce, Valéria voltou a sentir náuseas e a passar muito mal. Corri e peguei a lata de lixo. -Faça as porcarias aqui, minha sala não merece ser batizada logo na sua primeira visita – falei estendendo o depósito cilíndrico no exato momento em que ela expelia alguma coisa de dentro de si. – Eca! -Isso é muito nogento – reclamou Priscila desistindo do donuts. Valéria recuperava-se arfante, enquanto eu e minha amiga passávamos uma toalha úmida em seu rosto. -Estás melhor? – perguntei. -Sim, acho que sim. Realmente, a cor voltara ao seu rosto, seu sangue já corria pelas suas veias na pressão certa. Só então ela analisou o local onde encontrava-se e exclamou: -Essa é a sala da presidência! -Sim. 187


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-Então você é... -Eliane Manthus – completei. -Santo Deus! -Eu sou Eliane e não o Santo Deus – não resisti a brincadeira. -Desculpe-me – Valéria riu. – Que situação. Estou completamente envergonhada. -Não fique, essas coisas acontecem. Diga-me seu nome – falei como se eu não soubesse. -Valéria Oliveira. Sou arquiteta, sua funcionária. -Ótimo. E há quanto tempo estás grávida? – perguntei de maneira direta, sem rodeios. -Lienne, com todo o respeito: você pirou? – perguntou-me Priscila. -Por quê? -Dona Valéria faz parte das esposas de Cristo. -Eu nem sabia que ele poderia casar. Quantas esposas ele tem? -Ai, odeio quando você fica engraçadinha. Não devemos brincar com coisas sérias. Dona Valéria é um dos membros honorários da Igreja de Cristo. -Por que falar “Igreja de Cristo” se é a única que existe no mundo? Priscila revirou os olhos em sinal de impaciência. -Lienne, acorda a cambada de neurônios seus que tiraram o dia de folga hoje. Acontece que essa senhora fez um voto de castidade diante da Igreja. Ela seria como as freiras de antigamente, só que leva uma vida normal e casta. 188


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-Isso mesmo – afirmou Valéria. -A vida inteira sem sexo? – perguntei. -A vida inteira. -Legal, vou ficar a vida inteira sem beijos. -Verdade? -Não, mentira. Eu beijei ontem mesmo. Priscila riu alto. -Também, com um marido daqueles, é impossível não beijar! -Eu devo ter comido algo que não me fez bem – reclamou a dona falsa freira. Certo, essa palhaçada e falsidade de Valéria estava irritando-me. Pedi para que Priscila saísse e fiquei a sós com Valéria. Contornei a enorme mesa e sentei-me em meu lugar, ficando de frente para ela. -Desculpe-me novamente por todo esse vexame, senhora Manthus. -Por favor, sou mais nova que você. Me chame de Eliane ou Lienne, como fazem as meninas. -Prefiro Eliane. O nome Lienne provoca-me arrepios. -Que seja. O fato aqui, Valéria, é que tudo na vida é difícil. Certos sacrifícios e promessas são difíceis demais de cumprirmos até o fim das nossas tristes vidas. -Não entendo o que queres dizer-me. -Afirmo que estás grávida. -Não estou. Apenas ingeri algo que não fezme bem. -Ótimo. Tenho que zelar pelos meus funcionários. Vamos ao médico – levantei-me 189


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disposta a cumprir minha ameaça, mas valéria não mexeu-se. – Ainda passando mal? -Não, Eliane. Sente-se por favor, preciso contar-te algo. Assenti e tornei a sentar-me. -Eu conheci um homem – ela começou a confessar – e ele era maravilhoso. Estou com quase cinquenta anos e ter um homem mais jovem cortejando-me foi como viver um sonho. Acabei rendendo-me aos seus encantos e conheci o sexo pela primeira vez. -Isso é algo interessante. -O fato é, se a Igreja descobre minha traição aos meus votos, eu serei purificada na fogueira santa da nova inquisição. Eu tenho medo, Eliane – ela chorava feito uma criança desamparada. – Não sei como isso pode acontecer na minha idade, mas eu estou grávida sim, e não quero morrer naquela fogueira consumindo a mim e meu filho. Refleti por alguns minutos. Eu decidia a melhor maneira de vingar-me dela. -Agora sentes o desespero daqueles que foram denunciados por você e todo o tribunal eclesiástico. Eles tinham uma vida, cometeram um erro, e vocês os acusaram por um único erro. Destruíram vidas inocentes pelo simples prazer de fazer uma fogueira de carne humana. Por que eu esconderia tal fato da sua Igreja? Como esconderás uma gestação complicada pela idade, Valéria? -Eu não sei... eu não sei – ela levou as mãos á cabeça e recomeçou a chorar. 190


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-Procurastes ajuda do pai dessa criança? – essa palhaçada tava ficando muito melhor do que eu imaginara. -Não, ele sumiu e... Apollyon é um homem comprometido. -Apollyon? – fingi-me de desentidada. O idiota não usou nem outro nome qualquer. – Alto, loiro, olhos azuis intensos... -Você o conhece? -Apollyon Manthus, meu marido. -Ah, que lindo! – Valéria escondeu o rosto entre as mãos. – Acabei de assinar minha sentença de morte. -Engana-se, Valéria. Não irei te denunciar, não irei te recriminar, não irei te demitir. Pelo contrário, vou ajudar-te. -Como? -Não podes ficar aqui. Farás uma viagem e direi que fostes convocada para analisar a possibilidade de uma nova filial em outra cidade bem longe daqui. Cuidarei do que precisardes, inclusive de documentos falsos, assim não saberão que você quebrou um voto importante da Igreja. Nenhum médico ou enfermeira poderá denunciar-te. Terás, todo o mês, seu salário depositado numa conta nova. -O que vais querer de mim em troca desse imenso favor? – ela perguntou-me desconfiada. -Analise tudo. Não podes viajar e voltar quase um ano depois trazendo consigo uma criança. As 191


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pessoas não são tão burras assim, Valéria. Se ficardes com seu filho, todo nosso plano vai por água abaixo. -E o que farei com ele? -O pai dessa criança poderá criá-la. Eu ficarei com seu filho. -Por quê? -Sou estéril, meu marido fez um filho em ti. Estás com medo da fogueira inquisitiva e eu quero ser mãe. Te ofereço minha ajuda para manter sua moral intacta e, em troca, você me dará seu filho. E se a sua única preocupação é a culpa de não estar perto dele, podemos fingir sermos as melhores amigas do mundo. Ficarás mais perto do seu filho do que imaginas. O sorriso que invadiu o rosto de Valéria dava um sabor muito melhor à minha vingança. -Aceito seu acordo, Eliane. -Prepararei tudo e em breve estarás longe disso tudo e tranquila num lugar seguro e confortável. -Nem sei como agradecer. -Sabe sim, entregando-me seu filho. Agora deixe-me. Preciso providenciar certas coisas para que tudo dê certo. Valéria assentiu e saiu do meu escritório. -Imbecil – sibilei sozinha. – Vais morrer dando a luz à um nefilin.

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PURIFICANDO COM FOGO O fogo tem poder, É com ele que eu jogo. O fogo destrói, É com ele que eu vingo. O fogo comanda, É com ele que vivo. O fogo abrasa, É com ele que eu comando. O fogo é intenso, É com ele que eu luto. O fogo purifica, É com fogo que te castigo.

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Capítulo 27 – Queimando. Liguei para Persis e consegui com que ele arranjasse tudo o que eu precisava, documentos falsos, um lugar para Valéria ficar e, o mais importante, sua cumplicidade nesse assunto. Persis aceitou ser o “papai” dessa criança. -Hora de terminar a primeira vingança – falei sorrindo ao pegar a cópia do meu tesouro e uma maleta com mais de cinquenta mil dólares. Voltei a falar com Monsenhor Josiah, dessa vez o encontrei numa praça. -Aqui está – estendi um pendrive ao padre imbecil. – Minha denúncia. -Fotos? -Vídeo. Nítido como uma produção cinematográfica. -Ótimo. -Quero que tudo aconteça hoje. -Não seu se conseguirei ser tão rápido assim. -Nem por cinquenta e sete mil dólares? Ah, a ganância... ela assola até os santos. O sorriso de Josiah por dinheiro era como o de uma criança pelo Papai Noel. -Prepare-se para brincar com fogo, senhora Manthus. -Mais um favor, não quero que a esposa dele fique sabendo. Avisem-na após o término da execução. -Sim, creio que é melhor desse jeito. 194


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-Nos veremos mais tarde. Meu marido estará comigo na inquisição. -Até mais tarde. Mosenhor Josiah deixou-me sentada no banco daquela praça e foi fazer a sua parte na minha vingança. -Nunca se cansa de enganar esse cara? – pergunta Mikael sentando-se ao meu lado e entregando a câmera minúscula nas minhas mãos. -Por que me cansaria? É tão divertido. Exatamente às três da tarde, a Exodus é invadida pela guarda eclesiástica e todos seguem direto até a sala de Daniel. Observando de longe, vejo ele negar as acusações, até ser confrontado com o vídeo onde ele aparecia tendo relações sexuais num altar negro com o símbolo de Baphmont – um dos muitos nomes de Apollyon – e logo depois assassinando sua parceira sexual. Sem ter como negar tal acusação, Daniel é levado pelos guardas. Escutar seus gritos, ver seu desespero, foi a melhor das sensações. Eu sorri. -É bom? – pergunta-me Apollyon. -É ótimo. Mas ainda não terminei. -Vamos, minha querida, terminaremos o que começastes. Daniel foi preso e falsamente julgado pelo tribunal eclesiástico, sendo que ele já estava condenado a partir do momento em que entreguei o pendrive ao Monsenhor Josiah. 195


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Mariana não ficou sabendo de nada, eu mesma planejei para que um de seus clientes solicitasse sua presença na construção de uma arquitetura contratada. Tudo pronto. Seis da tarde. Hora da execução. -Envergonhastes o nome de Cristo, envergonhastes sua família e seus amigos, envergonhastes seus patrões, grandes colaboradores da nossa obra. Fostes abençoado por ter a oportunidade de purificar sua alma na busca do perdão de Deus e da sua eterna salvação – falava um dos padres. -Meu pai já o perdoou, isso é só a parte legal da diversão toda – brincou Apollyon. Daniel foi amarrado num madeiro e seus olhos derramavam lágrimas de medo e arrependimento. E eu sorria. Foi-me entregue um instrumento que eu usaria para atear o fogo que consumiria o herege. Aproximei-me dele. Fiquei tão próximo, até ter a certeza de que mais ninguém, além de Apollyon com sua audição de anjo, nos escutaria. Ainda sorrindo, falei: -Daniel, olhe para mim. Ele fez conforme pedi. -Lembra-se de mim? Fomos amigos, eu achei que poderia confiar em você. Eu acreditei que seria fiel a mim. Lembra-se de uma reunião secreta? Lembra-se de sua traição? Eu não morri. -Lienne? Não pode ser. 196


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-Pode. Tudo pode ser quando não somos humanos. -O que você é? Fiz a mágica que Persis ensinou-me, abri minhas asas de uma maneira que somente Daniel e as criaturas sobrenaturais pudessem enxergar. -Um anjo? -Não, Daniel. Se eu fosse um anjo eu não me vingaria. Eu sou um demônio. Agora sofra, não foi o que desejastes para mim? Te desejo de volta cem vezes mais. Afastei-me e, com o instrumento em minhas mãos, dei vida às chamas que o consumiam. Vireime de costas para Daniel e encarei Apollyon. Frente a frente com o rei das Trevas. Nossos olhares cruzaram-se em sincronia, nossos sorrisos de vitória eram iguais. Os gritos de Daniel, o fogo o consumindo, o cheiro de carne queimada, escutar cada mínimo detalhe de sua destruição, o coração acelerando-se com a adrenalina da morte, o farfalhar de pele ressecando-se e derretendo... doce melodia, uma ópera escrita para a realeza. Fechei meus olhos e aproveitei o som daqueles berros. -Isso... – murmurei. – Morra. -Te excita? – perguntou Apollyon abraçandome e beijando meu rosto. -Demais, tanto quanto a você. -Amo suas vinganças. Se eu tive remorso? Nem um pouco. Daniel teve o que merecia, eu não o obriguei a participar 197


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daquele ritual. Se Letty fosse mesmo uma criança, aquele pedófilo teria aproveitado-se dela e depois a teria matado. Sim, eu livrei o mundo de uma besta desalmada. Ele fez isso comigo, só retribuí o favor...

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UMA VEZ MAIS. Não temo nada, Não temo você, Não temo ninguém. Noites sozinha, Noites vazias. Era melhor não existir, Não ter, Não ser. Sim, não existir... Mas há uma fúria que não posso negar. Sem você, meu instinto é lutar, É vencer, Nunca amar. Mas se eu pudesse, Eu queria te ver, Eu queria te ter. Novamente... Uma vez mais. E, depois seria Para sempre, Um amargo adeus!

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Capítulo 28 – Transformando. Todos na Exodus ficaram sabendo da execução de Daniel, mas nenhum deles soube da minha participação. Mariana gritava e lamentava a morte do marido e eu divertia-me com sua dor. Mas a vingança dela estava guardada. Mariana ainda teria sua chance de sofrer. Avisei Priscila e Fernanda que eu faria uma longa viagem. Meses para os humanos, algumas horas para mim. Apollyon não perceberia minha ausência, o tempo no inferno passa tão rápido quanto na Cidade dos Nefilins. Com tudo acertado na Exodus, segui até Persis. -Tenho algo para lhe contar – falei assim que entrei em sua casa. -Diga que me ama. -Estou do seu lado. Lutarei a seu favor. Planejo minha vingança contra Apollyon. Persis sorriu com satisfação. -O que farás, Lienne? -Estou indo com Mikael e Séfora até a Cidade dos Nefilins. Eles lutarão e ganharão suas asas. Teremos dois anjos fortes a mais do nosso lado. -Esse é um segredo que Az escondeu-me. -Um pedido meu. Eu precisava de uma certeza. -Que certeza? 200


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-Um dia saberás, esse não é o momento. Cuide da minha vingança com Mariana, confio em você, Persis. -Como é que é? Fala de novo, preciso gravar esse som eternamente na minha cabeça. -Eu confio em você. -Diz que me ama, agora. -Cresce, anjo. -Eu não era um demônio? -Eu sou um demônio. Você é bonzinho demais. Sem que eu esperasse, Persis jogou-me no chão e deitou-se por cima de mim, segurando fortemente meus braços. -Posso ser malvado quando eu quero. Ele beijou-me do jeito que eu mais gostava, com a fúria de uma paixão que só Persis sentia. -Quando serás minha? -Nunca. Eu não pertenço a ninguém, Persis. O golpeei com as minhas pernas e livrei-me dele. Levantei-me rapidamente. -O medo do amor... – murmurou Persis. -Nunca tive medo de amar. Amo meu pai, amei Arel... -Nunca amastes Arel. Fostes iludida por ele. Onde está seu arcanjo agora? O encontrarás naquela cidade e entenderás o que eu digo. -Do que estás falando, seu imprestável? -Segredos, Lienne. Segredos que os arcanjos escondem. A verdade é que me amas e engana-se a si mesma por medo. Agora vá. Cuidarei de Mariana e 201


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de Valéria. Elas estarão nas suas mãos quando voltardes. Balancei a cabeça negativamente e parti. Meia noite. Caminhando mais uma vez pelo deserto que um dia enfrentei. Lembranças. Dores. Eu o veria. Já não o amava mais. Ou amava? Logo teria essa certeza... Dois nefilins acompanham-me. Eu não temia por eles, confiava nos ensinamentos do meu pai. Kandake encontra-nos na metade do caminho. -Os guiarei daqui em diante – fala o anjo. -Até porque esse deserto é um monte de nada sempre igual. Eu jamais encontraria a Cidade sozinha. -Eles estão mesmo preparados? -Tiveram o melhor instrutor. -Caleb – afirmou o anjo. -E eu. Kandake riu. Chegamos na Cidade que um dia foi meu lar. -Eu entro primeiro. Daqui a alguns minutos vocês entram, o resto é com Lienne. Assenti. -Tenham cuidado. -Teremos, anjo. 202


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-Não precisamos morrer de novo para entrar na Cidade dos Nefilins? – perguntou Séfora. -Já morreram uma vez. Kandake entrou e esperamos o tempo necessário. -Chegou a hora – falei firme para os nefilins. Caminhamos sem hesitação até a arena dos testes finais. Uma garota pequena, com a pele estremamente branca e cabelos negros, enganava com sua falsa fragilidade, matando Ayel, pai de Saron, no exato momento em que chegávamos. Assistimos a transformação de uma nefilin num anjo. Olhando do outro lado, era a visão mais linda que eu jamais vira. Lembrando do que senti, foram as piores dores e a maior confusão que eu já vivera. -Isso dói? – perguntou Séfora. -Lembra-se das chibatadas que levei? -Sim, jamais esquecerei – ela falou envergonhada. -Foram como suaves carinhos. Séfora estremeceu. -Fica tranquila, nefilin, morrer dói mais. Aproximei-me da arena e Ilke foi o primeiro a manifestar-se ao me ver. -Como ousas... -Ousando – o interrompi. – E não vim para falar com você. Mas seu filho está muito bem, caso seja do seu interesse. Ele continua bagunçando o mundo... e continua lindo – sorri torto para Arel que entendeu a minha provocação. 203


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-O que queres aqui, Lienne? Esse já não é mais o seu lar – bradou Hazanel. -Se eu quisesse sofrimento, viveria no inferno. Lá é mais agradável. No entanto, tive que ter esse desprazer e, acredite, minha ânsia por deixar esse lugar é enorme. -Audaciosa – murmurou Ilke. O ignorei e continuei meu teatro com Hazanel. -Meus amigos não completaram suas passagens nesse lugar. Os trouxe de volta e solicito um teste final para ambos. -Eles não podem... -Eu ainda tomo as decisões por aqui, meu irmão – Hazanel falou firme com Ilke. – E se nossa melhor ex-aluna deseja tanto ver a morte de seus companheiros, que assim seja. Os nefilins estão preparados? -Melhor do que se aqui estivessem. -És realmente audaciosa, Lienne. -Eu diria corajosa e confiante. Só quero provar que essa Cidade não tem utilidade alguma para os filhos do pecado. Enfim, se insistem em manterem-se escondidos da fúria divina com a falsa preocupação que sentem em cuidar de filhos que nunca deveriam ter nascido, problema de vocês. Quero o teste final deles e que seja agora – rebati com firmeza, provocando a todos ali presentes. -Quem será o primeiro? -Mikael. -Que Arel seja seu oponente. 204


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Gelei. Eu não queria que Mikael morresse, mas Caleb garantiu-me que ele estava pronto. E, ele estando pronto, significava que venceria. E eu não queria que Arel morresse. Dei meu único argumento para evitar que ambos se matassem numa luta sem fim. -Estás mesmo disposto a sacrificar um dos seus arcanjos, senhor Hazanel? -Temes pela vida de seu amigo? -Confio no nefilin. Porém, os senhores insitem em punir os infratores das regras ridículas que criaram. Um nefilin é proibido de lutar com um arcanjo fora da arena de treinamento. -Assim sendo, quem devo punir, você ou seu pai? -Nunca lutamos. -Não foi o que eu soube, Lienne. -Papai insiste em demonstrar seus carinhos com força extrema. Só poderia nos acusar com uma denúncia formal de um dos dois. Pelo que vejo, Caleb não fez nenhuma queixa contra mim e também não faço nenhuma contra ele. Arrume um adversário a altura ou arrisque-se a perder um dos arcanjo, eu não importo-me – blefei. Hazanel sorriu. Ele, estranhamente, amava minha audácia. Dois outros anjos – enormes – foram convocados e apresentados como opositores dos nefilins. Hazanel iniciou as formalidades que prescendiam a luta. -Conhecestes a identidade de seu pai, Mikael? 205


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-Tive o desprazer – o nefilin fingia tão bem quanto eu. Ele amava e admirava Kandake tanto que desejava muito deixá-lo orgulhoso. -Sem mais, que a luta comece – bradou Hazanel. Mikael retirou sua camiseta e seu físico era perfeito. Com músculos bem definidos, tive a certeza de que ele seria um belo anjo. O oponente do nefilin o sondou por alguns instantes e senti-me aliviada quando ele tentou o primeiro golpe. Aprendendo com o melhor, Mikael tornou-se melhor. Ele defendeu-se, seguiu os conselhos de Caleb, concentrou-se na luta, esqueceu tudo o que estava a sua volta. Irritado com a desvantagem que o humilhava, o anjo atentou contra o nefilin com um golpe mortal. Toda a platéia levantou-se acreditando que Mikael morreria. Pude perceber o sorriso de satisfação de Arel. Sorriso esse que foi retribuído por outro saído dos meus lábios. Mikael aprendeu a lição. Assim como fiz com ele no primeiro dia de treinamento, ele interceptou o golpe do anjo e aproveitou-se da desvantagem de altura e o socou no queixo com força máxima. Um golpe vindo de baixo para cima, quebrando o maxilar do anjo. Desnorteado, o oponente caiu de bruços. Mikael deu término a sua vida com uma pisada forte na coluna do anjo. Escutei seus ossos quebrarem-se e sua vida esvair-se aos poucos até seu último suspiro.

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No mesmo instante o nefilin prostrou-se com a dor que o assolava. Dois cortes surgiram do nada em suas costas e ele gritou. Eu sorria e Séfora chorava agarrada ao Teddy. Como uma criança nascendo, a ponta de duas asas saíam dos cortes de Mikael. Seus novos membros eram maiores que as fissuras. Uma dor insuportável. O nefilin urrava enquanto recebia a vida de um anjo que ele mesmo matou. Porque era assim mesmo que acontecia. Quem mata um anjo tem o direito a sua força, seus membros, suas habilidades. E tudo cessou. E Mikael já não era mais um nefilin. Kandake sorriu orgulhoso e pouco importouse com o irmão que jazia ao lado de outro morto pelas mãos da ex-nefilin. Pai e filho retiraram-se da arena e compartilharam momentos de ternura que jamais tiveram. Séfora ainda chorava. -Tenho medo – ela dizia. -Certa vez destes-me o Teddy e pediu para que eu tomasse conta dele. Falastes que logo o pegaria de volta e sua confiança fez-me crer que assim seria. Agora eu peço-te, entregue-me o seu melhor amigo. Eu cuidarei dele e ao fim de tudo lhe devolverei, porque acredito em você. -Também acredito em você – Arktos falou já do nosso lado. – E estarei aqui para receber-te orgulhoso e de braços abertos. 207


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Séfora assentiu, secou suas lágrimas e foi para o centro da arena. -Ela vencerá? – perguntou-me Arktos assim que ficamos a sós. -Caleb a treinou. -Então ela vencerá. Olhei para o Teddy, acariciando o fucinho do urso encardido. Lembrei-me dos treinamentos e entreguei o ursinho para Arktos sem nada dizer e correndo até minha amiga. Coloquei as minhas mãos em seus ombros, como fazia meu pai. Olhei em seus olhos e disse: -Eu confio em você. Não anseie pelo ataque, concentre-se na defesa e espere o momento certo. Promete? Séfora assentiu e voltei para o lado de seu pai. Tomei Teddy de suas mãos e o abracei com força, desejando muito poder devolvê-lo à ela. -Foi o primeiro presente que dei para minha filha logo que ela nasceu. Passei cinco anos ao seu lado e antes de partir lhe disse que, num dos idiomas humanos, Arktos significa urso. Afirmei-lhe que mesmo de longe, eu jamais a abandonaria. Se eu perceber que ela pode morrer, eu entrarei na arena e matarei seu opositor – falou o pai de Séfora com firmeza. E eu chorei. Felizmente, a pequena nefilin não nos decepcionou. Séfora não afoitou-se para atacar. Ela defendia-se com precisão, mesmo sentindo as dores que a intercepção de um golpe forte causava. Jamais 208


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a vi tão concentrada. Porém, um golpe forte a derrubou. Arktos fez menção de correr até ela, mas eu o detive. -Espere, anjo. Ainda não é o momento. -Ele vai matá-la – bradou Arktos. -Confie – gritei de volta. Coloquei-me na frente de Arktos na tentativa de passar-lhe confiança com meu olhar. Funcionou e ele acalmou-se. Virei-me para ver o restante da luta e, no exato momento em que o anjo daria o golpe final em Séfora, ela fez o mesmo que eu no meu teste com Iehuiah, acertou-lhe nas genitálias. Rápida, ela levantou-se e aproveitou o momento de dor de seu oponente, desferindo-lhe diversos golpes na cabeça. Com uma voadora, ela o lançou ao chão. A morte daquele anjo foi a mais sangrenta, pois Séfora arrancou-lhe o coração e ficou a observar o orgão ainda pulsante em sua mão pequena. O mesmo golpe que atinge os nefilins quando matam um anjo, aflingiu Séfora. Em poucos minutos ela era um pequeno anjo perfeito. Ela correu para os meus braços e disse: -Eu venci! A apertei com força e deixei as lágrimas escaparem. Eu quase a perdi. Eu temi pela sua vida. -Sim, você venceu. Devolvi-lhe o Teddy e a deixei com seu pai. Fui para o centro da arena e falei olhando para os arcanjos: 209


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-Senhores, agradeço-lhes a hospitalidade. Nada mais tenho com essa Cidade. Até um dia. Hazanel sorriu e acenou, despedindo-se. Virei-me para ir de encontro aos meus, quando Arel chamou-me. -De volta a arena. -De volta às mentiras. -Não posso mentir – ele rebateu. -Dissestes que amavas-me. Fostes o crítico do meu beijo com Liel. Fizestes o mesmo. Ao menos eu tinha um motivo. Diga-me o seu. -Não posso, Lienne. Porém, afirmo-te que jamais menti ao dizer que te amava. Retirei meu casaco e depois minha camiseta. Trajando apenas um top e uma calça jeans, disse-lhe: -Olhe para o meu corpo. Não sei por quê, mas minha pele totalmente lisa é uma prova de que jamais pertenci a nenhum macho. E não pertencerei. Não a você. Mas volto agora para os braços do anjo fiel que espera-me. Persis está louco para ver-me. Arel atacou-me, mas eu o deti desferindo-lhe golpes odiosos. Todo o rancor que eu guardara desde que o vi com uma humana, desde que escutei ele proferindo minhas palavras para ela, foi exposto com aquele ataque. O derrubei e o prendi no chão com meu pé em seu peito, colocando toda a minha força para machucar o arcanjo imprestável. -O ciúme é a força que move um coração machucado. Não sou mais uma nefilin, não és mais forte que eu. -Preciso que entendas... 210


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-Não há o que entender – gritei interrompendo seu falatório. -Parem com isso – ordenou Hazanel. – Cumpristes sua missão aqui, agora deixe-nos, Lienne. Obedeci e fui até meus amigos, recolocando minha camiseta e amarrando o casaco na cintura. -Falastes com Halina? – perguntei a Mikael. -Ela morreu na semana passada. Minha luta foi, ao mesmo tempo, uma vingança. Aquele maldito matou minha namorada. -Nataly sempre estará esperando-te – rebati com frieza. – Vamos antes que eu mate um certo arcanjo. Assim que virei-me para pegar o caminho da saída, um pequeno anjo de pele branca e cabelos negros colocou-se a minha frente. -Lienne, o grande amor de Persis. -Camila, a amante de Persis – rebati. -Matastes meu pai. -Não vou dizer que sinto por isso. Era eu ou ele. -Admiro sua honestidade e digo-te mais, fizestes-me um imenso favor. -Disponha sempre – sorri com deboche. -Posso seguí-la? Não tenho para onde ir. -Vai jogar meu namorado na cama e seduzílo? -Não interesso-me mais por Persis. Não sou burra e sei o que vieram fazer aqui. Ofereço-me para estar ao seu lado. 211


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-Que seja, se morrer, a culpa será somente sua. Kandake e Arktos nos acompanharam até a saída da Cidade dos Nefilins. Séfora estava encantada pelo carinho que Arktos lhe dava, jamais a vira tão feliz. Nos despedimos de todos e voltamos para o mundo dos humanos. A missão dos anjos transformados era salvar e, de certa forma, era o que faríamos...

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COBRANÇAS. Eu menti, enganei. Ela mentiu, enganou. Eu fugi, me aperfeiçoei. Ela venceu, aproveitou. Eu voltei, a encontrei. Ela fugiu, me ignorou. Eu avisei, informei. Ela riu, não acreditou. Eu dei a oportunidade, Ela pegou. Eu cobro, pressiono. Ela nega, mente. Eu insisto, acuo. Ela confessa, perde.

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Capítulo 29 – Vingando. Cinco horas na Cidade dos Nefilins foi o mesmo que pouco mais de cinco meses no mundo humano. Deixei os novos anjos escondidos na casa da Patricia e voltei correndo para a mansão. Eu precisava manter meu disfarce com Apollyon. Felizmente ele não deu conta da minha ausência e pude continuar com minha farsa... e com minha vingança. Coloquei uma roupa adequada ao ambiente da Exodus. Minha intenção de correr para a empresa foi interrompida por Azazel. -Acredito que consegui a fórmula certa, mas só teremos certeza disso se a testarmos – ele disse. Suspirei. Lutei pela minha vida e agora eu estava prestes a perdê-la. Mas eu faria tudo para salvar meu irmão. -Vou resgatar Adramalech e Kali e experimentaremos esse veneno – respondi sem demonstrar o medo que eu sentia. -Vais mesmo fazer tal sacrifício? -Não há outra solução, Az. Alguém precisa fazê-lo. Ainda hoje acharemos a cura para destransfromar meu irmão e Kali, ou o mundo ficará feliz com a minha morte. E se eu tivesse mesmo que morrer, que ao menos duas das minhas vinganças fossem executadas. Segui direto para a casa de Persis. -Já lestes o jornal do dia? – ele perguntou-me. 214


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Peguei o caderno de notícias em sua mesa e sorri ao ler a primeira página. Mariana era reconhecida como uma grande arquiteta com o melhor projeto já realizado. Na foto ela recebia um troféu das mãos do novo reitor da faculdade onde nos formamos. Eu exultei com a notícia. -Conseguir isso não foi fácil, mas ainda tenho minha lábia – Persis entregou-me o que eu havia lhe pedido. Eu não poderia usar o meu verdadeiro diploma, pois, para o mundo, Lienne estava morta. Pedi a Persis um falso, mas com todos os registros da faculdade. E ele conseguiu. -Quanto te devo por isso? – perguntei-lhe. -Uma noite de amor. -Conheci sua querida Camila – rebati. -E ela vive? -É um anjo agora, ela matou o pai de Saron. Camila aderiu a nossa causa e está escondida com os outros na casa de uma amiga minha. Quer vê-la? -Não. Eu quero você, já disse. -Um dia eu te pagarei, Persis. Mas não com sexo. Peguei o jornal e o falso diploma e caminhei para a saída, quando ele disse: -Não vai nem ao menos cumprimentar minhas visitas? -Que visita? E vejo duas criaturas na sala de Persis. Corri para abraçar um deles e chorei. -Adramalech fugir. Irmã pedir isso. 215


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-Sim, eu pedi. E você é o anjo mais inteligente que eu já conheci – falei apertando-o em meus braços e senti suas mãos retribuindo meu gesto. -Adramalech roubar Kali. -Fez bem, meu querido. -Persis demônio. Persis dizer que irmã morrer. E o panaca do Persis gargalhou. -Eu não disse isso. Falei que você queria morrer, não que estava morta. -Eu não quero morrer, demônio cretino – rebati. -Anjo, demônio, mocinho, bandido. Decida-se, Lienne. -Leve-os a noite para a mansão. Conhecerás meu plano e veremos se ainda vais desejar-me em sua cama. -Por quê? Virarás um monstrinho? Não respondi. Mas ele entendeu. -Não farás isso, Lienne. -Farei. Eu morro pelo meu irmão. -Adramalech ficar assim. Lienne não morrer. -Não vou morrer, Adramalech. Por favor, acredite em mim. -Te proíbo disso – gritou Persis. -Pare com essa bobeira, já aturei o mesmo discurso de Caleb e, no final, até ele acabou cedendo. -Persis certo. -Persis errado, ele sempre está errado. Não vou discutir com vocês. Apareçam na mansão e 216


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vejam o teste. O farei mesmo sem a presença de convidados. Peguei meus pertences e fui para a Exodus. Não sei como, mas Persis chegou primeiro que eu. -Não permitirei tal ousadia – ele protestava. -Você não manda em mim – gritei sem parar de caminhar. Passamos por Priscila e Fernanda ainda discutindo. -Você está aqui como meu advogado, então cale a sua boca nogenta e trabalhe – falei firme. -Poderosa – brincou Priscila. -Adoro! – comentou Fernanda. Entramos na minha sala e eu falei: -Não toco mais nesse assunto com você. Vamos resolver o problema da Exodus e seguir nossas vidas. -Que problema? – perguntou Priscila. Eu não percebi que ela e Fernanda nos acompanharam, mas aproveitei a situação. -Um roubo de projetos – expliquei. – Mariana cometeu um erro. -Que erro? Ela é a melhor. -Um erro que iremos investigar, senhorita – respondeu Persis. Felizmente Mikael fez tudo o que eu lhe ordenara antes de tornar-se um anjo. Ele recolocou os projetos verdadeiros e cheios de erros de volta em sua sala, junto com outros perfeitos feitos pelas minhas mãos. Os que entreguei para Priscila era uma mistura dos dois, com uma assinatura falsa que a 217


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minha própria secretária reconhecera como pertencendo a Mariana. Plano perfeito. -Fernanda e Priscila, preciso que contatem o último cliente da Exodus com um projeto de Mariana aprovado. Chamem a polícia – que era comandada pela Igreja – e reúnam todos aqui na minha sala o mais rápido possível. Eficientes, as duas saíram sem questionar minhas ordens. -Amo te ver no poder – brincou Persis. -Não foi o que dissestes assim que retornei. -Amo te ver no poder, mas aprecio muito mais quando eu posso dar as ordens e ver minha nefilin querida obedecendo. Quando entenderás que és minha, Lienne? -Nunca. -Como foi na Cidade dos Nefilins? -Normal. Mikael e Séfora lutaram, ganharam suas asas, dei uma surra no Arel... Minha explicação foi interrompida pelas gargalhadas de Persis. -Não creio que perdi tamanha diversão. Conte-me, Lienne, o que o arcanjo fez para merecer tal surra? -Nada. Eu o irritei e ele quis agredir-me. -O que dissestes à ele? -Tirei minha camiseta e o deixei observando o que jamais teria. -Claro, todo esse corpo me pertence. -Deixa de ser convencido. Eu pertenço a mim mesma, você não é o meu dono. 218


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Após meia hora de uma discussão ridícula com Persis, Fernanda entrou em minha sala acompanhada do nosso melhor cliente e de alguns policiais. -Senhora Manthus, – falou Fernanda com formalidade – estes são o empresário Arthur Gomes, sócio majoritário do grupo Gomes limitada; e o delegado Pedro Navarro, acompanhado dos policiais Mendes e Silva. -Agradeço por atenderam prontamente ao meu chamado – falei. Eu e Persis cumprimentamos todos e, após sentarem-se, explicamos a situação. -O projeto que chegou em minhas mãos tinha a assinatura de Mariana Souza Medeiros – falou Arthur após nossa acusação. -Sim, um projeto que eu mesma criei e que não era para ser repassado a cliente algum. Foi apenas para não perder a prática. Uma brincadeira – respondi. -Se brincas daquele jeito, és a melhor projetista que já conheci. -Temos que averiguar a denúncia – disse o delegado Pedro. – A senhora Mariana é muito bem conceituada e acredito que tudo isso não passa de um engano. -Ela é minha melhor funcionária, achas mesmo que quero perdê-la? Será muito melhor para mim que tudo seja um engano – rebati firme. -Necessitas de um mandato para investigar a sala de Mariana Medeiros? – Persis perguntou. 219


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-A senhora Eliane é sócia e presidente da Exodus. Tudo isso pertence à ela e ao marido. Se ambos concordarem com a investigação, iniciaremos uma busca agora mesmo – respondeu Pedro. -Podem começar. Eu assino em baixo tudo o que a minha esposa diz – Apollyon entrava imponente e sedutor na sala. Eu sorri e recebi seu cumprimento com um beijo “apaixonado”. -Obrigada, querido – falei representando. -És a melhor, minha amada. Acredito em tudo o que dizes. Persis revirava os olhos diante da cena. -Que seja, iniciaremos a busca – rebateu o delegado. -Fernanda, acompanhe os senhores até a sala da impostora – ordenou Apollyon. Os policiais saíram com Fernanda e ficamos eu, o rei das trevas, Persis e Arthur no escritório. -Com estás, Gomes? – perguntou meu falso marido. -Encantado com o talento e a beleza de sua jovem esposa, Manthus. Os dois iniciaram uma conversa particular e Persis aproximou-se de mim para sibilar: -Cretina. -Ciumento. -Só tem ciúme quem ama. -E como sou cretina, eu me divirto com tudo. Não demorou muito e os policiais voltavam à minha sala com vários papéis em mãos. 220


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-Infelizmente, tinhas razão, senhora. Encontramos provas de fraude – falou o delegado. Persis fingiu avaliar a papelada como um bom advogado. Apollyon fez sua melhor cara de patrão indignado e eu sorria. -O que faremos agora? – perguntei. -Precisamos interrogar a senhora Medeiros. -Ela está em horário de almoço, mas não tarda a chegar – respondeu Fernanda. -Nossos funcionários almoçam no refeitório da empresa. Mariana encontra-se dentro da Exodus. Toda essa movimentação não passou desapercebida. Não seria melhor evitar sua fuga? – perguntou Apollyon. -Claro, senhor. Mendes, Silva, acompanhem a senhorita Fernanda até o refeitório e tragam Mariana Medeiros aqui – ordenou Pedro. Quinze minutos de espera e escutei os gritos da minha rival no corredor que antecedia a recepção da minha sala. Levantei-me e fiquei de costas para todos, observando a janela imensa do escritório. -O que querem comigo? – perguntou a sempre revoltada Mariana. Percebi que Persis manteve-se afastado para que não fosse reconhecido pela maluca. -Encontramos esses papéis em sua sala – falou Pedro. Olhei de esguelha e ele entregava todos os projetos para a funcionária que em breve seria demitida e presa. 221


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Alguns segundos esperando Mariana avaliar a papelada. -Eu... não sei do que se trata – ela falou com a voz tremida. -Trata-se de três projetos semelhantes – explicou Pedro. – Um deles é de sua autoria. Podes mostrar-me qual deles reconhece como seu? -Sim, claro. Este é o meu. -Ótimo. Outro pertence à senhora Manthus, sua patroa. Podes distinguí-lo pela assinatura legível da presidente da Exodus. -Sim. -Entretanto, o projeto entregue ao senhor Gomes é uma mistura dos dois e tem a sua assinatura como autora de tal trabalho. Pedro estendeu à Mariana o rolo que Arthur carregava consigo. Ela avaliou o trabalho e disse: -Isso não é meu. -Mas a assinatura é sua, sem sombras de dúvida, senhora – rebateu o delegado. -Isso é armação. Eu jamais toquei nesse projeto. -Como explicas sua assinatura? – Apollyon perguntou com a voz inocente. Quase gargalhei com isso tudo. -Eu não sei – respondeu Mariana. -Senhora Manthus? – chamou-me o delegado Pedro e virei-me para falar com todos. Assim que Mariana olhou-me, ela estremeceu e, assustada, falou: 222


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-Lienne? Você armou tudo isso, sua cretina. Eu te odeio, vagabunda! -Tenha respeito, senhora – bradou o delegado. – Sua exaltação será considerada como declaração de culpa. -Ela nem é quem diz ser – gritou Mariana. -Afirmo-te que sou Eliane Manthus. Entretanto, sou chamada de Lienne, um apelido carinhoso dado pelas minhas funcionárias mais próximas. Se ainda duvidas, mostro-te meus documentos. -Impostora! Você é Lienne, a mesma Lienne que se formou comigo. Nascestes em mil novecentos e noventa e um e... -E mantém-se jovem? Conte-me seu segredo, por favor – Arthur interrompeu a acusação de Mariana. -Ela está abalada com a execução recente de seu esposo. É natural essa reação – falei calmamente. -Tente controlar-se, senhora – falou o delegado. – O fato é que temos três projetos, duas autoras e uma acusação séria. -Tudo pode ser resolvido com uma só pergunta – Persis pronunciara-se na conversa pela primeira vez. -Seu namorado! Claro. Isso prova que tudo é armação. Esses dois estão juntos desde a faculdade, sempre tramando as piores mentiras – bradou Mariana. -Você também, Persis? – brincou Arthur. – Dême o endereço da fonte da juventude. 223


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-Bem, delegado, faço agora uma denúncia formal de calúnia e defamação. Essa senhora acabou de acusar-me de ser o namorado de uma mulher casada. Se ela não apresentar prova alguma do que diz, eu a processarei – rebateu Persis. -Tens provas do que dissestes? – perguntou Pedro para Mariana. -Não, mas... – ela gaguejou e não encontrou palavras para sua resposta. -Sendo assim, formalizo a denúncia. Os policiais Mendes e Silva anotavam tudo. -Quanto ao roubo do projeto... – continuou Pedro, mas Mariana o interrompeu: -Eu não roubei nada. Entreguei meu trabalho para o funcionário novo, Mikael. Pedi para que ele o levasse até seu destino. -E onde está esse funcionário? -Viajando com outra funcionária. Ambos estão avaliando a possibilidade de uma filial da Exodus em outra cidade – respondi. -Alguém pode confirmar o que dizes, senhora Medeiros? -Priscila estava em minha sala quando entreguei o meu projeto para Mikael. Antes mesmo de ser interrogada, Priscila respondeu: -Sim, eu vi quando o entregastes a Mikael. E também vi quando ele atendeu o chamado da senhora Manthus assim que saiu de sua sala. Ele o esqueceu nesse mesmo escritório. Sei disso porque a 224


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senhora Manthus o devolveu para mim. Eu o despachei para o escritório do senhor Gomes. -Poderia dizer-me qual desses projetos foi entregue pela senhora Manthus? – perguntou Pedro estendendo os três trabalhos para Priscila. Minha secretária não precisou avaliar muito, logo ela apontou para um deles. -Este aqui. Fernanda estava ao meu lado e pode confirmar o que digo – respondeu Priscila e Fernanda assentiu ao que ela falava. -Isso é armação. Essa letra nem é minha! – rebateu Mariana. -Estás entregando-se, senhora. A letra não é sua, mas a assinatura é – falou Persis. – Ou negarás esse fato também? -Não, essa assinatura realmente é minha, mas eu não sei como ela foi parar aí. E ela não pode provar que o projeto é dela. Como teremos certeza de que ela é capaz de fazer algo tão perfeitamente? -Eu posso – respondeu Priscila. Ela olhou para o delegado e disse: - Eu estava atolada de trabalhos da contabilidade. Era como um estágio para conseguir uma vaga nesse departamento. A senhora Manthus viu meu desespero e fez cálculos precisos sem usar calculadora alguma. E isso em menos de meia hora. Certo, faça o bem, não importa a quem. -E esse diploma comprova que a senhora Manthus é qualificada como arquiteta – Persis entregou o diploma falso para Pedro. – Agora chamo a atenção de todos para um fato que está passando 225


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desapercebido. A senhora Medeiros percebeu que o projeto aprovado não era o seu, e mesmo assim ela aceitou os créditos sem alertar o cliente do equívoco. Isso não basta para incriminá-la? Naquele momento eu poderia gritar ao Persis que o amava, mas contive-me. -Sim, o senhor tem razão. A senhora Medeiros não recusou a autoria do projeto. Ela mesma acompanhou a construção da obra com a papelada em mãos – falou Arthur Gomes. Todos erram. Mesmo que uma grande armação seja feita, a ambição, a ganância por sucesso, sobe à mente da pessoa e ela acaba cedendo ao prazer que tudo isso nos traz. Mariana errou. Ela poderia ter negado a autoria do projeto, mas não o fez. Ela almejou o sucesso e agarrou-se a primeira oportunidade que teve. Mariana pagaria pelo seu erro. -Sinto muito, senhora Mariana Medeiros, mas reconhecestes o projeto como seu e afirmastes agora há pouco que ele não lhe pertencia. Sendo assim, nada poderei fazer senão prendê-la. Eu já disse que o sabor da vingança é doce como mel? Então retiro o que eu disse, porque é muito melhor que isso. Registramos a denúncia formalmente. Mariana, sem ter outra opção, confessou tudo e foi detida. Os telejornais noticiaram todo o ocorrido. Ela foi demitida da Exodus e, como era membro honorário da Igraja de Cristo, passaria pelo tribunal eclesiástico. 226


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Persis conseguiu com que eu falasse em particular com ela por cinco minutos. Não disperdicei meu tempo e disse: -Lembrastes de mim? Tirastes tudo de mim. Como se sente? Dói, não é? Doeu em mim também. E tudo por quê? Por causa de Daniel? Pois saibas que ele morreu desejando meu corpo, ele morreu porque deflorou uma criança. Você não tinha serventia alguma para ele, era só uma velha carquética e enrugada. Eu mesma fiz questão de acender a fogueira que o consumiu. E, antes que pergunte-me como faço para manter a minha juventude, respondo-te que seu erro foi nunca ter percebido que não sou como você, uma humana podre. Certa vez, levei quinze chibatadas para não denunciar a culpa dos meus amigos. É o que os amigos fazem, eles morrem pelos outros. Você e sua fé falam mal dos demônios, pois afirmo-te que jamais vi um demônio agir de maneira tão vil quanto os humanos, eles seriam como santos se comparados à vocês. Olho por olho e dente por dente, Mariana. Denunciastes-me e, no entanto, fizestes o mesmo que eu. Se um dia tiverdes a oportunidade de uma nova vida, lembrese: não julgue, pois da mesma maneira que julgardes, sereis julgada. Deves conhecer essas palavras, é o sermão do monte que o seu Cristo proferiu um dia. Tenha uma boa morte, porque estarei apreciando cada segundo do esvair de sua vida.

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FANTASIA Me vejo perdida... Que mundo é esse? Aqui tudo é fácil, E tudo pode acontecer. Me perdi na fantasia do teu olhar, Na insanidade que o desejo me leva. E agora não sei mais voltar. Me encontro louca e quente de ansiedade, Preciso urgentemente te encontrar. Saciar minha vontade de te curar, Fazer essa magia florescer. Sentir o calor dos teus braços, E novamente em outro mundo estar. Virar uma desvairada, Me encontrar fora da realidade. Viver numa fantasia insana, De possuir um corpo como o seu. Preciso entender o que sentes, Prendendo-me Nessa loucura de me envolver. E, se por acaso, O caminho de volta eu não encontrar, Minha vontade de viver com você Me fará à fantasia secreta voltar.

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Capítulo 30 – Sacrificando. Satisfeita com a destruição de Mariana, fui cuidar da minha nova missão. Mas, antes disso, passei na casa de Patricia. Eu era péssima com despedidas, então tentei tornar tudo bem natural. -Oi, Lienne, minha querida – ela abraçou-me e, pela primeira vez, eu retribui o abraço dela com mais intensidade. Mesmo da porta, eu fiquei agarrada ao seu corpo, chorando feito criança. Ela era tudo o que eu tinha como exemplo de mãe. Foi por ela que eu aproximei-me do meu pai. -O que foi, querida? – ela perguntava acariciando minhas costas. Eu nunca havia percebido que Patricia era mais alta que eu. E eu não conseguia responder a sua pergunta, só chorei... e decidi que era melhor não enfrentar Mikael, Séfora, Caleb e até mesmo Camila, uma nova amiga. -Adeus, mãe – foi só o que eu disse. Soltei-me do abraço dela e corri de volta para o carro. Dirigi direto para a mansão com o olhar embaçado pelas lágrimas e a saudade já invadindo meu ser. O que aconteceria após a minha morte? Eu teria uma alma como os humanos? Essa alma viveria? Eu descobriria isso em breve. Estacionei na porta de casa e fiquei ali parada por alguns minutos, recobrando minha coragem e 229


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secando as lágrimas. Adramalech merecia todo o sacrifício. Saí do carro decidida e entrei na mansão em busca de Azazel. Ele já esperava-me na sala. -Pronta? – ele perguntou-me. -Acho que sim. -Se você não tem certeza, então não concordo em testar o acelerador. -Estou mais que pronta, Az. Vamos logo com isso e não me irrite – falei firme, disfarçando o medo. -Que seja. Se algo der errado, quero que saibas que te estimo muito e que admiro sua coragem. Jamais me perdoarei pela sua morte e te prometo que serei o próximo a testar, em mim mesmo, o acelerador. -Valeu, Az – falei o abraçando forte. -Pronta mesmo? – ele perguntou assim que o soltei. -Sim – respondi decidida. -Tome, aqui está o acelerador – ele entregoume um copo com um líquido incolor. – Esse é o primeiro passo. Se der certo, logo a seguir te entregarei o outro. -Tudo bem. Eu preparava-me para entornar a bebida, quando a porta da frente foi praticamente arrombada. -Não faça isso, Lienne, eu te imploro – Persis corria ao meu encontro. Adramalech e Kali o seguiam. -Eu preciso, anjo. 230


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-Não precisa. -Por favor, Persis, não torne tudo mais difícil. -Eu te amo, Lienne. -Um dia eu entenderei – falei sorrindo e com a voz doce. -Como entenderás se estiveres morta? -De alguma forma eu entenderei. -Volte para mim. -Eu sempre volto, Persis. -Eu não concordo com isso. Mais pessoas chegavam ali. Revirei os olhos. Eu só queria acabar logo com tudo. -Nunca pensei que diria isso, mas Persis tem razão. Eu também não concordo com isso, Lienne – bradou Caleb. -Vocês não precisam concordar, eu o farei e pronto. Olhei para Mikael, Séfora, Patricia, Camila, Az, Persis, Adramalech e Kali. Todos com rostos pesarosos. E eu me senti amada. Ao menos alguém choraria minha morte. -Adramalech amar irmã. Só quando meu irmão proferiu essas palavras foi que meu pai deu por sua presença ali. Ele foi até o estranho demônio e, sem falar nada, o abraçou forte. -Pai conhecer filho. Adramalech lembrar pai. -Meu filho amado. Eu te amo, mas não posso perder sua irmã – respondeu Caleb sem soltar o demônio. -Eu não vou morrer – falei firme. – Eu confio em Azazel e não quero despedidas. 231


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-É bom mesmo que confie, porque se você morrer, ele logo se juntará a ti no túmulo – murmurou Persis. Evitei brigas, despedidas, lágrimas. Levei o copo que continha o veneno acelerador e bebi todo o seu conteúdo. No mesmo instante uma dor forte invadiu-me. Larguei o copo e escutei o vidro espatifando-se, pude ouvir cada pedacinho quicando no chão de mármore. Minha pele enrugou-se e foi tomando um tom acinzentado. Minhas unhas cresceram, encurvandose como garras. Senti minha coluna entortar e minhas asas doíam. Meu maxilar avançava como se quisesse saltar do meu rosto. Meus pés doeram até romperem os sapatos, crescendo de maneira desproporcional. Prostrei-me arfando de dor. Escutei cada sussurro de susto, distingui as lágrimas do meu pai, meu coração doeu. Alguém aproximou-se de mim e vi um anjo chorar. Ele acariciou meu rosto e disse: -Tão linda. Sempre serás linda. Mesmo que fique presa nessa forma, ainda assim te acharei o anjo mais belo de todos. -Persis – tentei falar, mas minha voz tinha o mesmo rugido que Adramalech fazia. -Deu certo! – exclamou Azazel. Precisamos testar o outro líquido. -Irmã bonita. Persis certo. Adramalech era puro e eu o amava. Valeu cada dor, valeu ver minha beleza se romper para dar lugar ao novo monstro. 232


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-Lienne, pegue, tome isso – Azazel estendeume outro copo com um líquido púrpura, mas eu não conseguia controlar meus novos e pesados membros. Persis tomou o copo das mãos de Az e disse: -Deixe que eu faço isso. Ele encostou o copo em meus lábios e ajudoume a tomar o novo veneno. -Isso, meu anjo. Vai dar certo. Volte para mim. Uma nova dor. Dessa vez eu urrei sem poder mais aguentar. Aconteceu tudo ao contrário e eu achei que estava morrendo. Minha pele esticava-se, meus membros encolhiam-se. Minha coluna endireitava-se e tudo doía. Minha cabeça parecia uma bomba prestes a explodir. Gritei na ânsia de fazer a dor passar e percebi que minha voz voltava ao normal. Deitei-me e fiquei em posição fetal. Tudo escureceu e perdi meus sentidos. Eu morri?... Vozes ao longe... -Lienne, não! Eu te amo. Viva, volte para mim, você prometeu, anjo – um demônio gritava. Alguém pegou-me em seus braços. As vozes estavam mais próximas. -Ela está viva, acalmem-se. Abri meus olhos e a luz cegava-me. Eu nasci uma vez. Eu vi um rosto quando eu nasci. Os filhos de anjos lembram-se de tudo. Eu renascia... e vi o mesmo rosto tomando-me em seus braços. 233


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-Você conseguiu – ele sorria em meio as lágrimas. Até os arcanjos choram. Sorri. Eu venci mais uma. -Claro que eu consegui. Sou sua filha – brinquei ainda com a voz fraca. -Fostes corajosa, pequenina. -Herdei isso do meu pai. Precisa conhecê-lo, arcanjo, ele bate que é uma beleza. Ele riu. Doce som. Ele abraçou-me. Maravilhosa sensação. -Eu te amo, pequenina. -Beba, Lienne – Az estendia-me uma squeeze. O cheiro do sangue misturado ao vinho atiçou meus sentidos e não hesitei. Bebi tudo e, como mágica, senti-me renovada. -Estou bem – falei levantando-me do colo do meu pai. Eu estava mesmo bem, ou queria que assim todos pensassem. Mas minhas pernas me traíram e eu cambaleei. Um anjo de asas exóticas amparou-me. -Eu disse que voltaria para você, Persis – falei em seus braços. -Sim, você disse. Agora eu vou te matar por essa experiência e você terá que dar um jeito de voltar novamente. Soltei-me dele e caminhei com dificuldade até a criatura que observava-me com olhos brilhantes. -Foi por você. Eu morreria por você, meu irmão. Se não quiseres experimentar o acelerador, eu entenderei. 234


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-Adramalech amar Lienne. Eu querer ser nefilin. -Você será, meu anjo. Az estava ao meu lado e segurava o copo com o líquido púrpura. Ele o entregou a mim e foi de encontro a Kali. Nada falaram, apenas vieram para junto de nós. Um outro copo como o mesmo líquido foi entregue das mãos de Persis para Azazel. Olhei para Az e perguntei: -Pronto? -Se não funcionar perderemos nossos dois amores. -E estaremos juntos. Mas eu confio em você e sei que vai funcionar. -Obrigada, Lienne. Assenti. Eu e ele ajudamos Adramalech e Kali a ingerirem o acelerador. Assim que terminaram, Az tomou o copo da minha mão e afastou-se, mas eu fiquei com eles. Segurei na mão de Kali e na do meu irmão. Jamais os deixaria. Os dois gritavam de dor. Suas asas encolhiamse. Eles não eram anjos transformados em demônios, eram nefilins. Nós esquecemos esse detalhe. Adramalech gritava cada vez mais alto. Soltei a mão de Kali e o envolvi em meus braços. -Não morra, por favor – eu chorava o apertando forte. – Eu te amo, não morra! Senti sua pele esticar-se e fechei meus olhos. O corpo que parecia frágil e encolhido em meus braços, tomava a forma de um homem forte, mas eu não o larguei. Eu pedia para quem pudesse escutar, para quem pudesse ajudar, para que o mantivesse vivo. 235


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Eu temia pela sua vida, eu o amava. Seus gritos aumentaram. Sua voz mudou. E eu não o soltei. Os urros cessaram. Adramalech arfava, sua dor era tão forte que o impedia de gritar. Silêncio. A forte criatura que eu envolvi em meus braços soltou-se de mim e não abri meus olhos. Eu não ousava ver a morte do meu irmão. Prostrei-me e chorei. Eu o perdi. Alguém tocou meu rosto, secou minhas lágrimas. Outro alguém segurou minha mão e a beijou com cuidado. -Não chores, você me salvou. Doce voz. Era como bálsamo, era deliciosa, linda e perfeita. Temi abrir os olhos e perder meu sonho que trazia o mais belo som. -Lienne, olhe para mim, você me salvou! – ele falou com mais firmeza. Realizei seu desejo e eis que vejo a criatura mais linda que um anjo. Seus cabelos loiros, seus olhos verdes, seu sorriso igual ao de Caleb. -Adramalech? – perguntei sem acreditar. -Quem mais seria, minha amada irmãzinha? -Você é tão lindo e se parece com o papai. -Então sou feio. Eu poderia ser lindo como você – ele sorriu. Mal nascera numa nova vida e já brincava com a situação. Olhei para a dona da mão que segurava a minha e vi uma nefilin com a pele cor de chocolate, 236


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olhos caramelos, cabelos negros, uma beleza exótica e perfeita. Ela era linda. Os dois eram lindos! -Deste-me uma nova oportunidade. Serei eternamente grata à você. Se um dia eu precisar pagar com a vida, eu pagarei – a voz de Kali era doce, suave, fina. E eu encantei-me por ela. Não pude conversar muito com Kali, pois Azazel logo a tirou dali para abraçá-la e jurar amor eterno. Fiquei enciumada com o olhar do meu irmão para Séfora. Bichinho safado, era mais santinho quando era um demônio. Caleb abraçou o filho, lhe pediu perdão por têlo abandonado, apresentou-lhe para Patricia e todos os nossos amigos. E eu perdi meu irmão para a simpatia que todos eram capazes de exercer. Mas como perder o que não nos pertence? Ele nunca foi só meu, eu o amei demais e arrisquei-me por ele. E faria tudo novamente se fosse preciso. Mas doeu ver o sorriso de Adramalech dividido com eles. Afastei-me e fui sentar no pé da escadaria. Abaixei minha cabeça e ali fiquei, firme e sem permitir que as lágrimas descessem. -Como você está? – perguntou Persis. -Eu virei um monstrinho, voltei a ser anjo – dei de ombros. – Acho que estou bem. -Fostes corajosa. Eu jamais faria isso. -Nem por mim? -Por que eu te mudaria? Achas mesmo que me apaixonei pela sua beleza? 237


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Eu nem tive tempo de responder. Persis deixou-me sozinha. Sozinha para pensar. Sozinha para refletir. Sozinha para sentir falta. Sozinha para entender... entender algo que eu não queria aceitar e nem acreditar. E eu era mais teimosa que uma mula. Porque eu jamais contaria à Persis o que eu sentia. Uma cabeça loira encosta-se na minha. Ficamos cara a cara, olhos nos olhos. -Eu te amo, Lienne. E não pense que vou desgrudar de você. Abracei forte meu irmão, a verdadeira imagem do meu irmão.

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VOCÊ O que sinto? Não sei dizer... Tudo chegou de repente E eu odiei você. Devastando, mudando os planos. O que seria descanso virou fantasia. E agora te quero perto de mim. O que posso dizer? Tomaste-me tudo, Meu rei, meu mundo, meu amor, meu poder. Tens o que todos anseiam, Amor proibido, bandido, cruel, dolorido É possível? É... e existe! E agora te quero cuidando de mim. Mudarei seu amargo destino, Te dar a eternidade é minha missão Salvarei seu desejo, Desvendarás segredos, Conhecerás mistérios, Ganharás teu amor, Assim como o meu perdão. Encontre-me no meio da noite, Te mostrarei um prazer escondido, Conhecerás a delícia do sangue, Saborearás o líquido proibido. Como um anjo sem asas, Mostrarás seu sorriso 239


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Com presas, uma nova lei. Esse ĂŠ seu novo destino, Ao teu lado sempre ficarei...

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Capítulo 31 – Revivendo. A missão dessa noite ainda não estava completa. Se algo tinha que ser feito, que fosse logo de uma vez, sem enrolação. Fui até Patricia e perguntei: -Despediu-se da vida? Despediu-se do sol? -Isso não acontecerá hoje, Lienne – gritou meu pai. -E será quando? Quando ela estiver a beira da morte? Quando fizerdes um filho nela e a deixar morrer no parto de um nefilin? -Lienne, eu... – meu pai começou a falar, mas foi interrompido por Patricia. -Quando esteves mais cedo na minha casa, eu não entendi a sua reação, mas percebi que despediase. Seu pai e seus amigos correram até você assim que lhes contei o ocorrido, e eu não poderia deixar de ver aquela que me chamou de mãe. Chego aqui e vejo a maior prova de amor de todo o mundo. E mais que isso, eu vi sua coragem e te admirei. E se é para viver para todo o sempre ao seu lado, que assim seja, Lienne. Eu despeço-me do sol, despeço-me da vida, despeço-me do meu sonho. Eu queria embalar uma criança, mas eu desisto de tudo para ser a sua mãe. Fiquei sem palavras. Só a fitei séria. Eu ganhei meu irmão de volta e uma mãe no mesmo dia. E eu tinha que dividir todos com todos. Não podiam ser todos meus? Só meus? 241


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-Como faremos isso, Az? – perguntei sem desviar meu olhar de Patricia. -Tenho que explicar uma coisa. -O quê? -Ela vai tomar o acelerador e... -E o quê, Azazel? -Ela tem que morrer. -Pois que morra. -Alguém terá que matá-la. O acelerador não mata o humano, ele só fica guardado, como um veneno, em seu corpo. E quando a pessoa morre, ele age. -Eu mato – falei friamente. -Perdeu o juízo, Lienne? – vociferou Caleb. -Nunca tive nenhum. -A trégua acabou – ele levantou a mão para me bater, mas Patricia o deteve. -Eu decidi isso. Lienne fará um favor que nem você seria capaz. Eu te amo, Caleb. E vou morrer por você. E só vou permitir que duas pessoas me matem, você ou Lienne. -Jamais farei isso com você, Patricia – respondeu meu pai. -Então deixe que sua filha faça – ela falou decidida. Caleb virou-se para mim e disse: -A idéia foi sua, se ela morrer e não voltar, eu vou cometer o maior pecado dos anjos, matarei minha própria filha. -Vai dar certo – falei sem dar importância ao que ele dizia. 242


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-Se não der, eu te protejo – Adramalech sussurrou em meu ouvido. Persis pegou-me pelo braço e tentou levar-me para um canto e falar comigo em particular, mas meu irmão protestou: -Tira suas mãos de cima dela, seu cretino. -Fica na tua, monstrinho – rebateu Persis. -Já faz tempo que observo teus olhares para minha irmã. -Ciuminho de família? Quem disse que eu me importo? Lienne faz o que eu mando. -Desde quando? – perguntei. -Desde sempre. Adramlech desferiu um soco no rosto perfeito de Persis. Caleb riu. -Não se pode negar que tu és filho dele – falei com Adramalech e apontando para Caleb. -Ele não é seu dono, Lienne. -Nem você. -Se tem alguém a quem você deve obediência, esse alguém sou eu. -Por quê? -Porque eu sou seu irmão e sou o mais velho. -É ruim, heim? Não obedeço nem o nosso pai. -As coisas vão mudar. -Não vão não. -Você não vai ficar de agarração com esse demônio cretino. -Eu faço o que eu quero e você não manda em mim! 243


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-Crianças, parem de briga porque a mamãe precisa morrer – ironizou Patricia. Percebi que meu pai só ria. Me infezei e fui logo acabar com aquela baboseira. Andei até Azazel para pegar o maldito veneno e, quando passei por Caleb, ele falou: -Agora posso ficar tranquilo nos braços de Patricia, você tem um novo cão de guarda. E sabe o que é melhor nisso tudo? Foi você mesma quem causou essa situação. Olhei para Caleb e sorri com deboche. -Nada que Séfora não resolva. Nem esperei sua resposta, saí de perto dele o mais rápido possível. -Pega – entreguei o veneno para Patricia. – Bebe logo isso que eu preciso te matar. Ela, tão decidida e corajosa quanto eu fui, não hesitou e bebeu tudo. -Estou pronta – Patricia falou. A olhei e tomei uma decisão naquele instante. Eu tive minhas vinganças. E uma outra ainda estava inacabada, mas eu poderia consertar o estrago de um ódio. -Não morrerás, Patricia, mas estarás para sempre numa nova família. Ganhastes um companheiro, o arcanjo que eu tanto admiro, mesmo com nossas brigas. E agora tens dois filhos que, pelo visto, viverão se esbofeteando – rimos juntas. – Mas seus sonhos serão realizados. Te prometo isso, terás a criança que sonhas embalar em seus braços. E sei que ele será melhor que eu, porque além do melhor 244


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instrutor da Cidade dos nefilins, ele terá você e o amor que nenhum filho do pecado jamais teve, o amor de uma mãe carinhosa. Sorri e nos abraçamos. E, ainda em seus braços, falei: -Não sei como te matar, não pensei nisso. Não sei como fazer sem destruir uma parte do seu corpo. -Vou precisar do meu coração? -Não, ele não funcionará mais mesmo. -Uma facada no coração pode ser uma boa. -Que seja. Soltei-me dela e fui pegar a arma que tiraria a vida da minha madrasta. Voltando da cozinha com a faca em punho, sibilo para Persis: -Assim que tudo acabar, vou precisar de você. Continuei firme na minha missão. Eu matei Patricia. Eu a vi cair sem vida aos meus pés. Eu vi seu sangue escorrer pelas minhas mãos. Depois eu não vi mais nada. Fechei meus olhos e esperei... Nada. Continuei esperando... Depois de um tempo, eu só esperava mesmo pela fúria do meu pai e pelo adeus que eu daria a minha vida. Mas tudo mudou quando escutei um rosnado fino. Sorri. Minha nova mamãe era uma vampira. -Eu disse que ia dar certo. 245


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DOR Fiz castelos de sonhos, Mas sonhos são como areias, O vento sopra, Tudo é leve, se vai, se perde... Novas chances são dadas. Cabe a mim encontrar o caminho, Cabe a você mostrar o destino. E agora que tudo acabou, tua ausência dói. Porque era do mesmo lado que deveríamos estar. Sonharás nessa noite, Frios serão seus lábios, Sem vida encontrarás teu corpo... Ah, venha até mim e arranque essa dor! Mata o desejo do coração, Me faça tudo entender, por favor. Escutarei seu nome, Pensarei em você. Como sua criança doce Desejará te ver. Uma amiga, um perdão. Uma voz que findou-se, partiu. Marcaste-me o coração, E essa dor te destruiu.

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Capítulo 32 – Perdoando. Alguns meses passaram-se. Adramlech e Séfora estavam namorando e mesmo assim ele não largava do meu pé. Tive saudade do ciume de Caleb, era mais fácil de enfrentar. Patricia tentou não matar ninguém, mas uma vez vampira, danou-se. Ela matou e eu ajudei, dividimos nossa refeição entre mãe e filha, segredo de mulheres. Caleb nunca ficou sabendo disso. Mas, na maioria das vezes, ela tomava um vinho que Azazel preparava. Apollyon anda tão perdido fazendo planos para conquistar o mundo que esqueceu-se de Adramalech e Kali, mas nunca parou de me perturbar e me desejar. Azazel estava feliz com Kali e Mikael com a humana Nataly. E eu... eu sempre sozinha. E ainda em busca de vingança. Persis me acompanhou até a cidade onde Valéria morava para esconder sua gestação. Eu a visitava diariamente, sempre fingindo ser sua melhor amiga. Até que o grande dia chegou. Liguei para Persis e pedi a sua ajuda. Tudo estava preparado para nossa fuga. Era minha última vingança com os humanos e eu não poderia falhar. -Eliane, me ajude – ela murmurava em meio as dores. 247


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-Logo vai passar – eu falava friamente passando minha mão em seus cabelos. -Leve-me para o hospital, por favor. -Para quê? Nunca entenderão mesmo. -Eliane, me ajude, por favor, a dor é imensa! – Valéria arfava. -Cometestes um pecado, pague por ele – respondi por entre os dentes. -Estás odiando-me porque eu deitei-me com seu marido? Soquei a cômoda de seu quarto e a quebrei no meio. -Não tô nem aí por ter feito sexo com Apollyon! – gritei. – Fui eu quem pediu para que ele te seduzisse. E sabe por que eu fiz isso, Valéria? Para que você provasse do próprio veneno. Pregastes sua fé, falastes do teu Cristo, denunciastes pessoas inocentes que apenas amaram demais, e tudo isso por quê? Pelo simples prazer de dizer que era santa? Onde está sua santidade agora, freirinha? -Eliane, podemos resolver nossas divergências depois. Mas agora, por favor, salve minha vida e a do meu filho – ela chorava. -Não há salvação para você, Valéria – falei calmamente. -O que eu te fiz, Eliane? Por favor, eu peço perdão por ter dormido com seu marido, mas por que o mandastes seduzir-me? -Pobre imbecil, nunca entenderás? – abaixeime ao lado de sua cama e acariciei seu rosto. – Sabe, Valéria, eu tinha grande carinho por você, acreditei 248


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que fosse minha amiga de verdade. Mas preferistes acreditar no que outros falavam. É uma pena. -Não entendo – ela suava frio, seu corpo tremia, ela gritava. Eu já podia ver o contorno das mãos do pequeno monstrinho forçando a barriga dela, tentando arrebentar todos os obstáculos para nascer. -Não, você não entende. Mas não se preocupe, eu te explico. Sentei-me ao seu lado e peguei a sua mão. Sua pele era mais gelada que a de um defunto. -Eu lembro de tudo o que fizestes contra mim. Lembra-se da noite em que esteve no meu escritório e me contou sobre os rituais dos quais eu participava? Eu lembro. Daniel te convenceu que tudo era mentira. Mas ele era o mentiroso, porque ele me enganou. Ele queria meu corpo e, como eu não cedi, ele mostrou umas fotos de um ritual que ele mesmo preparou em sua casa. Eu me lembro disso tudo, Valéria. E você? Ela olhou-me assustada, seus olhos pareciam querer saltar de seu rosto. -Lienne? Como... como pode? Você... -Sim, querida amiga, sim... eu deveria ser uma velha carquética como você e seus falecidos amigos. Ah, esqueci de te contar. Daniel participou de um ritual de magia negra, onde eu mesma registrei sua participação e denunciei o ocorrido. Ah, amiga, você não imagina como foi bom acender aquela fogueira – falei sorrindo como uma criança com um presente nas mãos. 249


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-Nós merecemos. -Sim, merecem. Mas, calma, querida, tem mais. Mariana roubou meu projeto e confessou tudinho. Ela foi presa e condenada a morte pelo tribunal eclesiástico por mentir e aproveitar-se de uma oportunidade para alcançar o sucesso. Uma pena, não é? Não, não é. -Lienne, me perdoe, eu... -Tarde demais para isso, Valéria. Não posso mais te ajudar. -Por que não? Leve-me para um hospital, por favor – ela falou quase gritando com as dores que sentia. -Porque nem os médicos podem te ajudar. Daqui a pouco esse monstrinho vai arrebentar seu corpo para ganhar a vida. -Não fale assim do meu filho – Valéria falou por entre os dentes. -Por que não? Vocês chamaram-me de monstro. Não respondi sua pergunta anterior. Eu não sou humana, sou a filha de um arcanjo. Eu sou um anjo também, quer ver? Abri minhas enormes asas brancas para ela. -Oh, meu Deus! Eu atentei contra uma criatura divina! -Eu diria uma criatura infernal, mas me chame como quiser, eu não me importo. O fato é que seu amado filhinho não é humano. Apollyon não é humano. Diga-me, Valéria, o que achas de Satanás? Ela gritou de dor, arfou. Eu esperei. Valéria recuperou a força e respondeu: 250


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-Eu o temo e o odeio. Amo ao meu Deus. -E, no entanto, terás um filho do Diabo. Seus olhos arregalaram-se. -Apollyon é o Rei das Trevas. Seu filho é o príncipe do inferno. Como se sente diante disso? Mais um grito de dor. -Você está morrendo, Valéria. Mas eu também morri. Morri quando vocês me trairam. Vocês trairam um anjo. -Lienne, perdoe-me. Eu aceito minha punição porque eu mereço. Mas não permita que eu morra sem o seu perdão. Essas palavras pegaram-me de surpresa. Daniel e Mariana mantiveram suas poses até o fim. Mostraram indignação, surpresa, mas não pediram perdão. Lembrei do meu pai, do meu irmão, de Patricia. Eu fiz o que era certo. -Valéria, é tarde demais para a sua vida, e mesmo assim eu te perdôo. -Meu filho é um monstro do inferno, mas eu o amo. Arrume um lar para ele. -Ele já tem um lar esperando para recebê-lo de braços abertos. -Jura? -Pela minha vida. -Obrigada, Lienne. Ela segurou forte a minha mão e eu chorei. -Vá em paz, Valéria. Seu filho terá minha proteção. -É bom morrer com a visão de um anjo. 251


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Essas foram suas últimas palavras. O pequeno nefilin a rasgou inteira e Valéria entrou em choque. Seu coração parou de bater exatamente às seis e seis da tarde do dia seis de junho do ano de dois mil e trinta e seis. Eu segurei o pequeno nefilin nu e sujo de sangue. O primeiro rosto que ele viu na vida foi o meu. E será o único que ele jamais esquecerá. O aproximei de Valéria de uma maneira que ficassem cara a cara. -Eu sei que você me entende, garotinho. Esse rosto adormecido pertence a sua verdadeira mãe. Ela morreu para que você pudesse nascer, foi uma escolha dela e não sua. Você não a matou, jamais pense isso. Ela morreu porque te amou demais. Voltei a criança para mim, olhei em seus olhos e disse: -Seu irmão, Liel, é um panaca. Mas eu vou te ensinar a arrebentar a cara dele, prometo. Persis ajudou-me a limpar o pequeno nefilin. O vestimos, pegamos todo o enxoval que Valéria montou com carinho para seu filho e fomos embora dali. -Para onde? – Persis perguntou-me já em seu carro. -Para a casa da vampira. Patricia abre a porta de sua casa. O relógio marcava oito da noite. -Lienne, que bela visita! -Meu pai está com você? 252


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-Sim. -Chame-o, por favor. Ela fez o que lhe pedi e assim que os dois estavam na porta, eu disse: -Tenho um assunto sério para falar com vocês. -O que o panaca do seu namorado aprontou? – perguntou Caleb olhando para o carro de Persis. -É sério, pai. Não estou brincando. Escutando o tom da minha voz, meu pai assentiu, demonstrando que estava disposto a ouvir o que eu diria. -Patricia, quando eu te matei, eu te prometi que um dia terias uma criança para embalar como se fosse seu filho. -Sim, eu me lembro. Não entendi e não entendo ainda, mas eu lembro. -Pai, Apollyon teve outro filho. -Como sabes disso? -Eu vi essa criança nascer e eu prometi para sua mãe que eu cuidaria dele. Apollyon não sabe da existência desse filho. Eu não sei cuidar de uma criança. Mas vocês sabem. Caleb fez um bom trabalho comigo, eu acho... – sem saber quais palavras se encaixariam ao momento, falei: - esperem aqui. Fui até o carro e peguei, cuidadosamente, o pequeno nefilin do colo de Persis. Depois voltamos juntos até Caleb e Patricia. -Eu confio ele à vocês. Eu fiz uma promessa que não posso cumprir sozinha. Então, Patricia, esse é o filho que te prometi. 253


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Ela o tomou de meus braços e, se vampiros chorassem, ela o faria. O carinho com que Patricia o embalou, fez-me sorrir, sabendo que tomei a decisão certa. -Obrigada, Lienne. Além da minha vida, do meu amor eterno pelo seu pai, devo-te o meu sonho realizado. -Só te peço um favor, Patricia. Sempre diga à ele que sua mãe o amou demais. -Sempre direi isso, querida. -Pai, tudo bem cuidar dele como fez comigo? -Sim, sem problemas. Mesmo não sendo meu filho, o ensinarei como fiz com você e Adramalech, meus filhos legítimos. -Então vê se faça certo dessa vez. Já basta uma doida na família – eu sorri em meio a brincadeira. – Hei, eu tenho uma família! -Sempre tivestes, pequenina. -Sim, pai. Éramos uma pequena família. Agora somos completos. Caleb, Patricia, Adramalech, Séfora, Mikael, Camila, Azazel, Kali, Kandake, Hazanel, Arktos... e até mesmo Persis... sim, minha família era enorme. -Preciso ir. Cuidem do Apollyonzinho. -Não tem outro nome para essa criatura? – perguntou Caleb. -Pelo amor que sente a sua esposa, dê-lhe um nome descente. Porque, fala sério, Adramalech é meio tenso. Todos riram. 254


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Eu entreguei os pertences do nefilin, meu novo irmãozinho, para Patricia. Indo para o carro de Persis, escuto meu pai chamando-me: -Lienne, preciso falar com você. -Persis, espere no carro, por favor. Ele assentiu e fui de encontro ao meu pai. -Diga – falei esperando um grande sermão. E tudo o que ganhei foi um forte abraço. -Nunca errei com você. Criei um anjo perfeito. Eu te amo, pequenina. -Eu te amo, papai. Ele riu ainda abraçando-me. -O mundo está mesmo no fim, você está chamando-me de papai. -Não estraga o momento – retruquei brincando. -Não vou estragar, porque é muito bom ouvir isso. Fala de novo? Eu ri. -Deixa de ser bobo. -Há anos espero para escutar novamente essa frase de sua boca. Lembro-me de quando eras uma garotinha e corria para os meus braços. Ficávamos assim, como estamos agora. Eu de joelhos, claro. E você dizia que me amava. Eu era o único na sua vida. Faça-me feliz, pequenina. Como recusar? -Eu te amo, papai.

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ANJO NEGRO Medo, insanidade. Há algo mais terrível que as sombras? Há um temor que nos faz gelar, Um olhar que amedronta. Escuridão, trevas. Assim ficamos sem entender, Viciada nesse desejo, Vejo minha vida se perder. Suas asas são negras. Meu anjo, te desejo! Seu sorriso queima. Meu anjo, te anseio! Teu amor destrói. Te tocar eu preciso! Sim, sou tua, me entrego, Anjo negro das trevas. Rei do meu submundo, E o medo que me destrói. É o que agora enfrento, Não tenho medo de você, Nem medo da sua alma, Medo do que sinto, Medo do amor... Amor que me acalma.

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Capítulo 33 – Renascendo. -Fiquei triste, eu já estava até acostumandome a idéia de ser papai e você mamãe – brincou Persis. -Vai se catar. Melhor, pare o carro, faça sexo com uma humana e terás seu amado Persinho. -Tenho uma idéia melhor. E você fica linda enciumada. Nem respondi. Encostei minha cabeça no banco macio do carro e fechei meus olhos. Em certos momentos eu desejava poder dormir. -Parece feliz – comentou Persis. -Aham – respondi ainda de olhos fechados. E eu estava mesmo. Eu tinha feito a coisa certa. E, após conseguir minha vingança, pergunteime o que ganhei com tudo isso. Nada. A satisfação passou e eles simplesmente não existiam mais. Senti o carro de Persis parando e abri os olhos, acreditando estar de volta a mansão. Enganei-me. Ele levou-me até sua casa. -És um demônio muito abusado mesmo – protestei. -Tudo o que aconteceu merece uma comemoração. Tem muito vinho e gostaria de compartilhá-lo com você. -Tá – dei de ombros. Eu não ia dispensar vinho e sangue. Ele serviu-me uma grande dose em taça de ouro. 257


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-Para uma rainha, como eu prometi. -Só falta a rainha – brinquei. Após muitas doses, muita conversa, muitas risadas, ele ficou perto de mim. Muito perto mesmo. -Que droga colocastes nesse vinho, Persis? – falei baixinho. -Nenhuma, minha rainha. Não preciso de drogas, é você quem me entorpece. Persis beijou-me e o desejo de ser dele invadiu-me. -Eu te quero, Lienne. Deixei que ele me conduzisse, aos beijos, até seu quarto. Retirei sua camisa e minhas mãos passearam em seu peito nu, contornando suas marcas de herdeiro de um trono sagrado dos arcanjos. Meus dedos subiram até seu pescoço, trazendo sua boca de volta para mim. Persis, me colocou em sua cama e sentir seu corpo sobre o meu fez a ânsia de amá-lo subir pelo meu corpo. Permiti que ele rasgasse minhas roupas. Eu queria ser dele, eu precisava dele. Dois anjos nus. Um quarto na penumbra. O amor revelando-se. Nos envolvemos e já não éramos mais dois anjos, mas apenas um. Nos fundimos num amor, no desejo que estava há muito guardado. Eu amei cada segundo, cada movimento, cada carícia. O sexo dos anjos é divino. 258


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Chegamos ao êxtase desse ato juntos, em sincronia, como almas gêmeas que encontravam-se em forma de anjos. Nossas mãos entrelaçadas. Nossos lábios rendendo-se em beijos. Corpos angelicais arfantes. -Um dia entenderás – ele disse saindo de cima de mim e deitando-se ao meu lado. -O quê? – perguntei. -Que eu te amo. Eu sorri. Era hora de revelar um segredo que eu havia descoberto e escondido desde quando meu irmão conseguiu sua verdadeira forma. -Eu entendo – falei sorrindo. -Entende? -Entendo. Eu te amo, Persis. Tinhas razão, enganei-me com Arel. Talvez eu o ame, mas de uma outra forma. Meu amor por você é diferente, é como o de uma mulher pelo seu homem. Ele riu, levou as mãos à cabeça. -Que foi? – perguntei. -Nada, Lienne. Eu tô feliz. Eu não imaginava isso, achei que nunca fosses amar-me. Se não fosse uma cena tão ridícula, eu estaria pulando. Encostei minha cabeça em seu peito e disse: -Mas eu te amo mesmo. Ele abraçou-me. -Sempre te amei, Lienne. Será que alguma coisa poderia estragar a perfeição desse momento? Sim, podia. 259


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Uma dor percorreu meu abdômem e meus braços. Arfei e tentei levantar-me, mas Persis prendeu-me junto à ele. -Calma, anjinha, já vai passar. -O que é isso, Persis? Está doendo. -Você mesma verá. Só acalme-se, juro que vai passar. Ele tinha razão. A dor foi cessando aos poucos até sumir. -O que aconteceu comigo? – perguntei ainda envolvida em seus braços. -Você virou um anjo, querida – ele sussurrou carinhoso. -Eu já era um anjo. Persis levantou-me com cuidado, deixandome de joelhos ao lado dele. Sua mão passeou pela minha barriga e depois pelos meus braços, acendendo novamente a brasa do desejo. -Olhe, Lienne. Veja o que aconteceu. Meus braços estavam marcados, assim como meu abdômem. Eu tinha as tatuagens sagradas de um herdeiro. Confusa, perguntei: -Não são apenas os filhos varões que podem assumir a Nova Ordem? -Filhos de quatro arcanjos. Ninguém falou nada sobre homem ou mulher. -Quatro filhos de arcanjos? -Sim. Entendi as palavras do meu pai, os quatro herdeiros já existiam: Persis, Adramalech, Kali e eu. 260


Exodus – Catherine Parthenie

Persis chamava-me de rainha, porque eu também tinha o direito a um trono. -Entendestes? Eu te prometi que serias minha rainha. Eu não menti. Ele ficou de joelhos a minha frente e segurou meu rosto com suas mãos, beijando-me ansiosamente, preparando-me para amá-lo novamente. Uma vez eu amei um anjo. Eu despedi-me dele em meio às lágrimas. Uma vez eu odiei um demônio. O anjo perdeu-me. O demônio ficou ao meu lado e amou-me. E eu chorei... dessa vez, de alegria.

(Persis) Mesmo que ela nunca confie em mim, mesmo que ela me odeie, ainda assim a amarei. E tal sentimento nunca mudará, não importa o que diga. Pois o amor é algo eterno e transcedental. Eu trocaria minhas asas pelo seu sorriso, Lienne...

*Últimas frases de Persis, escritas por Krayon C. Goldsmith e gentilmente cedidas para Exodus.

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AGRADECIMENTOS: Ao meu herói, por sempre acompanhar cada frase escrita: Papai, eu te amo! Para minha rainha amada, porque minha força vem de você: Mamãe, eu te amo! Para Sam, Brianna, Fernanda, Priscila, Marcinha, Carolis, Gabriel, Joicy, Patricia, Nataly, Rafael, Laena, Camila e Manu – vocês sempre me acompanham e me apoiam. Nada mais justo do que agradecer aos leitores mais do que especiais, amigos que sempre dão o incentivo especial. Para um anjo... por me amar demais. Para os leitores da comunidade, porque sem vocês eu nunca teria coragem de terminar. Amo todos vocês! Catherine Parthenie.

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Fpecado2  
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