Page 1

Amor Líquido: Sobre a fragilidade dos laços humanos O objetivo desse trabalho é analisar o pensamento de Bauman 1, levando em consideração as demandas apresentadas no Fórum realizado em sala de aula na Faculdade Teológica Batista com anuência da Professora Patrícia Pazinato. Zygmunt Bauman apresenta uma modernidade líquida, onde o conjunto de ações sociais, políticas, econômicas e culturais se derretiam diante da fragilidade pósmoderna. A tradição que outrora permeava o homem estava fadada ao desuso, aja visto que o relacionamento humano perdia seu valor. Esse processo foi deteriorando ao longo da história e ganha força nos últimos anos diante de uma nova ordem mundial, que não esta fundamentada nem enraizada. Tudo gira com rapidez e ganha forças diante da tecnologia e futilidade humana. A globalização tem seu papel fundamental nesse cenário. Em entrevista a Revista Isto É ele menciona que a modernidade líquida tem a tendência de mudança rapidamente sob menor pressão, sendo incapaz de manter-se por muito tempo. Esse estágio, segundo ele, é impedido de solidificar. Bauman ao relatar essa situação vem afirmar que todos nós estamos cientes, embora tenhamos consciência disso, não há um agente capaz de transformar esse conhecimento em ação. “O derretimento dos sólidos, traço permanente da modernidade, adquiriu, portanto, um novo sentido, e, mais que tudo, foi redirecionado a um novo alvo, e um dos principais efeitos desse redirecionamento foi a dissolução das forças que poderiam ter mantido a questão da ordem e do sistema na agenda política. O momento da modernidade fluida, são os elos que entrelaçam as escolhas individuais em projetos e ações coletivas – os padrões de comunicação e coordenação entre as políticas de vida conduzidas individualmente, de um lado, e as ações políticas de coletividade humanas, de outro”. (Bauman, 2001, p. 12).

A modernidade líquida tem nos apresentado pessoas avulsas, ou seja, não estão ligadas a outras. Apesar das Redes Sociais e todas as formas de conexão, elas não garantem relacionamentos duradouros, mas uma constante e frenética mudança. 1 Zygmunt Bauman, sociólogo nascido na Polônia em 1925, iniciou sua carreira na Universidade de Varsóvia. Em 1968 reconstruiu sua carreira no Canadá, Estados Unidos, Austrália e Grã-Bretanha, onde em 1971 tornou-se titular de sociologia na Universidade de Leeds.


Segundo Adriana Torquato Resende 2 o autor afirma que muitos buscam o que ele chama de “relacionamento de bolso”, onde se usa conforme a necessidade, logo existe conexão, mas não relacionamentos. Na entrevista a Revista Isto É o autor menciona que os contatos online são mais fáceis e menos arriscados, levando vantagem sobre os offline, pois a pessoa conecta e desconecta com facilidade, rapidez e sem explicações complexas. Talvez a perda maior seja que esses relacionamentos não sejam duradouros, e particularmente tenho percebido isso inclusive nas comunidades cristãs. Para o sociólogo essas interações sociais podem ser rompidas facilmente, embora não sejam totalmente irreais, elas agem fora da realidade. Vivemos em meio a uma sociedade consumista e a atual crise financeira vai gerar consequências futuras. Mesmo com intervenções governamentais em busca de uma solução plausível, o foco da atuação está em instituições financeiras com o intuito de vitalizar o crédito, esquecendo que se não hoje conosco, será com nossos filhos e netos o pagamento disso o que vai gerar gerações endividadas. Se antes as crises eram fruto de países pobres, hoje os países ricos estão vivendo o mesmo colapso financeiro. Independente disso, estamos cada vez mais dando preferência ao produto, ao ter, somos impulsionados a viver o aqui e agora. A geração da ostentação e isso exigem de todos nós, tempo, dinheiro e esforços. O objetivo é o lucro, logo nosso relacionamento se faz em busca de algo que nos trará retorno imediato e satisfatório. Na modernidade líquida não há padrões de referência ou códigos sociais e culturais, o que é perceptível é uma sociedade capitalista que sobrevive ao caos, na música “Mano na porta do bar” dos Racionais MC’s 3 a um trecho que se enquadra nesse cenário: “A lei da selva consumir é necessário, compre mais, supere o seu adversário, o seu status depende da tragédia de alguém, é isso, capitalismo selvagem”. Segundo as constantes mudanças do homem, podemos afirmar que somos uma geração globalizada onde somos cidadãos do mundo e não há barreiras que impeçam 2 Mestre em Teologia com concentração em Educação Cristã pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, Mestranda em Educação, Arte e História da Cultura pela UPM. 3 Grupo de rap brasileiro, fundado em 1988. Letras que falam da realidade da periferia das grandes cidades, discutindo crime, pobreza, preconceito racial e social, drogas e política.


nossa locomoção. Sendo assim, tornamos uma sociedade seletiva, se antes vivíamos com base nos ensinos de Henry Ford 4, as mutações frequentes nos elevaram a uma sociedade de serviços, onde poucos países dão atenção agricultura e industrialização. Com o tempo estamos vendo o que Bauman chama de amor líquido, ou seja, um amor “até segundo aviso” conforme ele mesmo diz o amor baseado nos bens de consumo, enquanto satisfazer e podendo ser substituído por outro. Essa parece ser nossa cultura consumista dando preferência ao imediatismo. Se pensarmos nos relacionamentos atuais veremos duas vertentes: a estável e a duradoura. Há sem dúvida vantagens e desvantagens, se tudo muda rapidamente, o comprometimento de outrora quase é nulo, logo as promessas de amar até o fim ganha outro significado. Mas é preciso perceber que embora tenhamos muitas pessoas morando sozinhas, o que parece ser uma tendência, a falta de companhia pode gerar males maiores. Afinal ninguém é uma ilha. Todos nós precisamos manter algum tipo de contato e relacionamento. O que se vê é um retrocesso dos relacionamentos, as pessoas se amam e deixam de amar como se trocam de roupa. Um relacionamento sadio é aquele onde as pessoas se respeitam de se valorizam. Os tempos modernos trouxeram consigo um significado diferente sobre o amor, separando o sexo (prazer) da reprodução (filhos), para se ter prazer não necessariamente precisa ter um parceiro fixo, podendo até pagar pelos serviços, enquanto os filhos podem ser atendidos pela ciência. Para Zygmunt Bauman o sofrimento e a crescente intolerância tem gerado um mercado onde os lucros são enormes, afinal para diminuir a ansiedade e a dor pode-se buscar ajuda nos antidepressivos (entrevista Revista Isto É). É possível que essa liberdade que estamos vivendo não tenha sido avaliada com por todos, pois estamos sempre criticando os gestos de afeto que ainda restam pela sociedade, pois parecem ser insanos, falsos ou irreais. Nisso a sociedade esta cada vez mais longe da felicidade, pois a pergunta que se faz é porque aquela pessoa é “feliz” e eu não. Pois o conceito de felicidade está inserido no amor líquido.

4 Engenheiro Americano que produziu um veículo em 1892. Nasceu em 30 de Julho de 1863 em Springwells, faleceu em 7 de abril de 1947 em Dearborn.


O direito a escolha e autoafirmação contrapõem ao relacionamento e seus pares, uma reflexão profunda da liberdade geraria uma motivação pelo supérfluo, e logo a satisfação total poderia ficar ofuscada. Com isso surge a crença pelas oportunidades a serem perseguidas e pelo caminho que cada indivíduo queira trilhar sem seguir normativas governamentais. Tenho a impressão que o individualismo tem gerado a falta de segurança tanto nas pessoas como também em si mesmo. Em sua entrevista (Isto É, Revista) Bauman falou da obsessão pela segurança a qualquer preço, com isso a indústria bélica está cada vez mais equipada. Há um medo no ar. Ele, ao mencionar o Brasil, disse que nossos governantes estão tratando a população mais carente e que vive em comunidades como lixo. Com isso a porta fica escancarada para as drogas, onde traficantes dominam as favelas e impõe suas próprias leis, mas segundo ele, são pequenos gestos, como o Viva Rio, que dão suporte para ações mais dinâmicas e eficazes na luta pela cidadania. Ana Fátima de Brito5 conceituando Bauman “sobre a liberdade tolhida e controlada por uma força maior simbolizada na figura do grande irmão, que tudo vê, tudo ouve e tudo sabe”. Em outras palavras, um grupo pensa e intervém sobre os demais, os outros movidos pela emoção, sofre por serem manipulados ao não atingir os objetivos. Se estivermos vivendo um tempo onde as relações são rasas e nossa performance é muito aquém do que se pode esperar, é tempo de fazer introspecções e saber lidar com essa demanda “líquida” que afeta todos nós. Hoje vivemos conectados ao mundo virtual, mas muito pouco deixamos transparecer nossa emoção em relacionamentos duradouros. É preciso fazer um caminho inverso até para garantir nossa existência futura. Amar e deixar ser amado. Finalizo com um pensamento de Bauman: “Afinal de contas, hoje se decretou que todos nós temos uma chance de “encontrar o Destino”, de ter um golpe ou rodada de sorte que nos levará ao sucesso e a uma vida de felicidade. Se tornar nossas vidas significativas, bem sucedidas e, de modo geral, felizes depende do “encontro com o Destino”, estamos certos em ter a esperança e até a expectativa de que a boa 5 Mestre em Administração de Empresas na PUC/SP. Formada em Ciências Contábeis (UFMG), pós graduada em Auditoria (UFMG) e Administração Industrial (USP).


sorte venha em nossa direção, e devemos ajudá-la nesse sentido – estendendo ao máximo nossa imaginação individual e empregando com habilidade todos os recursos que possamos reunir. Em outras palavras, aproveitando todas as chances” [...] (BAUMAN, 2009, p. 94).

E fazendo a palavra do Apóstolo Paulo 6 “Portanto, vede prudentemente como andais não como néscios, mas como sábios, remindo o tempo; porquanto os dias são maus”. É tempo de olhar para o próximo e enxergar nele amor, respeito, amizade, carinho, compreensão, etc...

6 Efésios 5: 15 - 16


Referências Bibliográficas: BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2001. RESENDE, Adriana Torquato. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos.

>

Disponível

em:

http://editorarevistas.mackenzie.br/index.php/tint/article/download/.../4543.

>

Acesso

05/03/2014. BRITO, Ana Fátima de. Resenha do livro: Modernidade Líquida. > Disponível em: http://www.ambito-juriuridico.com.br/site/index.php/index.php? n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=9917&revista_caderno=23

>

Acesso

em

05/03/2014. FRAGOSO, Tiago pensamento

de

Oliveira.

crítico

de

Modernidade Zygmunt

e

liberdade

Bauman.

>

consumidora: Disponível

http://periodicos.ufpel.edu.br/ojs2/index.php/percsoc/article/viewFile/2344/2197

o

em: >

Acesso em 05/03/2014. BÍBLIA. A Bíblia na Linguagem de Hoje. Revista

Isto

é.

>

Disponível

em:

http://www.istoe.com.br/assuntos/entrevista/detalhe/102755_VIVEMOS+TEMPOS+LIQ UIDOS+NADA+E+PARA+DURAR. > Acesso em 05/03/2014. FORD,

Henry.

>

Disponível

http://www.suapesquisa.com/biografias/henry_ford.htm PRIBERAN. Disponível em: http://www.priberam.pt/dlpo/ > Acesso em 05/03/14.

em:

Amor Liquido  

Trabalho apresentado no curso de pós graduação em Aconselhamento na Faculdade Teológica Batista com base nos estudos de Bauman

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you