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valdĂ­via costa

cronicalmente popular Porta de um dos antigos cabarĂŠs da Feira


Direção e execução geral: Valdívia Costa técnica *Fotos da Feira Central de Campina Grande-PB: idem

agradecimentos

Aos incentivos diversos do Toninho Borbo; ao amor da família, em especial ao Marley Lucena; à cobrança e paciência de tod@s.

R. Manoel Pereira de Araújo - Feira de Troca

contatos

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Os textos podem ser vistos: www.deacordocom.blogspot.com


sumário 1. BLOGUEIRA NA ESSÊNCIA 2. LOURDES CHEIRA A ARTE 3. MULHERES E MINHOCAS 4. CENTENÁRIA NATHÉRCIA 5. BICICLETADAS

6. CAMPINA - GRANDE É A SUA FEIRA 7. BIU DA GELADA 8. EPISÓDIO DA COVA DA ONÇA 9. LUCIANE WINEHOUSE 10. NA FEIRA OCULTA, O ELDORADO 11. WANDO, O NÃO-CANTOR 12. BREJO DAS FREIRAS 13. LUA, VEM!

14. BIGODINHO AMEAÇADO 15. LIXO DE UM HOMEM 16. NORDESTINOFOBIA

17. O HOMEM AGROECOLÓGICO 18. QUADRINHOS NELES 19. SERTANEJOS NO AGRESTE 20. PEGA DE BOI DO CARIRI

R. Manoel Pereira de Araújo - a fundo, O Eldorado


Catador da Feira e uma invenção com latas

E

ste é o 2° ebook do blog De acordo com. Textos maiores, perfis, crônicas da Feira... Foram destaques por evidenciarem a cultura popular nordestina. Uma parte do Cronicalmente Popular é do universo encantado (ainda, até hoje) da Feira Central de Campina Grande. Morei anos numa das ruas mais badaladas do local, a Manoel Pereira e Araújo. Sede do Cassino Eldorado, esta rua me

mostrou um mundo de costumes. Está aqui também o nosso lado feminino de ser. Homenageio a seridoense Lourdes Ramalho pela inteligência. O processo de formatação deste trabalho foi mais demorado. Ao invés de elaborarmos quatro ebooks num ano, preferimos apurar melhor o conteúdo, corrigir, aprimorar todas as técnicas. Fizemos uma seleção de textos que trabalham o mesmo tema, o popular...

A reedição constante para este formato foi feita com mais critérios linguísticos, menos apelo visual. A escrita diária no blog me fez um tanto relapsa com as palavras. Alguns textos foram praticamente refeitos. A diagramação amadora foi atenta, deixou esta edição mais leve. Vamos ler o e-book. E esperar o 3° Cronicalmente. Qual será o tema? Valdívia Costa


valdívia costa

cronicalmente popular

O texto é (deveria ser) essa pessoa desenvolta que mostra o traseiro ao Pai Político.” Roland Barthes - O prazer do texto (1973)

R. Cristovam Colombo, na Feira Central, vista de cima


blogueira na essência

S

ubstitui a coleção de cartas pessoais por agendas. Vista por alguns como

um caderninho de (in)utilidades, a agenda sempre fica me cutucando pra escrever. Mesmo tendo agendas eletrônicas, quando acaba o ano, minha agenda física está cheia de opinião, poesia e anotações factuais. Fazendo essa pesquisa empoeirada descobri que tenho essência de blogueira desde 2000. Quando ainda nem se tinha acesso diário a internet, lá pelo meio do curso de Comunicação Social, eu estava, cada vez mais, interessada no estilo opinativo. A prova está nas agendas! Todas com textos de letra caprichada (no começo), bilhetes, desenhos e compromissos. Verdadeiros posts! Chego a comentar nesse texto abaixo sobre essa necessidade de escrever diariamente. Vale salientar que é uma reflexão beeem dramática da antiga foca do jornalismo. Sintam... Ainda guardo comigo aquela velha e tola vontade de contar o dia em páginas escritas de um diário. Agora por exemplo preciso perguntar: a que se deve tanta agonia e reviravolta na minha vida de jornalista? Será que fui marcada pra não completar o que pretendo ser? Por que temos tanto que mudar? Por que tudo que se escolhe fazer nessa profissão chega a ser sacrificante? Não quero parar no tempo e ficar me irritando tanto, mas gostaria de ouvir algumas explicações que justificassem tanto tumulto, tanta fofoca e tanto descaso. A profissão que resolvi seguir é realizada por pessoas, muitas vezes, maldosas, sádicas e pervertidas intelectualmente. Está certo que o jornalista tem que ter um pouco de malícia. Porém não é saudável que esse veneno contamine os membros de uma mesma equipe. Acho que sou muito romântica. Mas não gostaria de abrir mão das minhas virtudes pra praticar o meu trabalho. Não queria trocar o termo “falsidade” por “política da boa vizinhança”, como é a praxe. A relação que construímos num mercado globalizado tende a exigir de nós mais do que a vontade de ficarmos juntos. Algo concreto, como bens materiais, nos falta enquanto profissionais. Vivemos compensando essa lacuna com nossos sentimentos utilitaristas. Às vezes acho-os tão frágeis pra suportar a tormenta capitalista. Seria excelente se eu conseguisse notar que é possível viver em paz, sem sentir a pressão girando em torno da minha rotina, me cansando. É o medo que me faz pensar em desistir de tudo imediatamente. E é de mim mesma que eu tenho que me esconder. Para que eu consiga sobreviver mais um dia. Um de cada vez... LINK: http://deacordocom.blogspot.com/2010/04/blogueira-na-essencia.html


lourdes cheira a arte

V

isitar Lourdes Ramalho deixa a gente com cheiro de arte e de história. Se

ela convidar a ver o cantinho onde ainda produz as peças teatrais ou os livros de pesquisas judaicas (um quarto ao lado da sala de visitas), o perfume é essência de raiz. A professora, autora, dramaturga, pesquisadora e incentivadora das artes, mora no centro de Campina Grande-PB há décadas, mas é natural da minha terra natal, Jardim do Seridó-RN. Sinto-me na obrigação de fazer uma apresentação dessa personagem seridoense, com jeito de serrana, hábitos de sertaneja, olhar e pensamento afiados, de judeu. Lirismo e muita delicadeza poética na obra que já conta com mais de 100 textos teatrais. Nada segura a mente. Muito consciente disto, mas equilibrada na ponderação artística, Lourdes já foi homenageada na sua Jardim do Seridó pela sua arte. Lembro saudosamente da apresentação em frente ao antigo Centro Educacional Felinto Elísio (Cefe)... da peça dela, A Feira. Teatro no meio da rua, na década de 1990. Eu nunca tinha visto teatro na cidade. Acreditem, e eu já tinha 14 ou 15 anos de idade. Encenando A Feira estavam as guerreiras Maria da Luz (Neta), Aparecida e Patrícia, amigas inesquecíveis e artísticas. Mas havia um estudante que estava antenado e que já conhecia Lourdes Ramalho, Iran. Ele, se não me falha a memória, foi quem montou a peça. Foi Iran também um dos poucos desse pequeno grupo teatral do 3º ano científico do Cefe que seguiu a carreira no que seria o 1ª grupo teatral da cidade. Depois desta única apresentação, a trupe se enxugou mais e caiu na estrada, encenando esquetes de rua em algumas cidades. Em 2002 o entrevistei. Iran teve que desfazer o grupo pela falta de incentivo. Não sei como está a área teatral na cidade ultimamente, mas naquele ano, não havia mais nenhum grupo de teatro. Além desse texto, Lourdes produziu muitos outros teatrais. Mas ela mistura, em sua prosa, poesia e ainda contempla a área da genealogia. Tornou-se pesquisadora de fontes históricas. Interessada em descobrir as raízes judaicas da cultura nordestina e, por extensão, da sua própria família, ela estuda os judeus desde 2000. Lourdes ainda brincava de teatro quando as primeiras peças foram escritas, por volta dos 10 anos de idade. Incentivada, a menina Lourdes colocava no papel falas e ações das personagens e comandava os 'ensaios' para as apresentações. Depois vieram as primeiras versões de alguns textos teatrais infantis. Obras “Lourdeanas”- A arte da escritora pode ser conferida em: LOURDES. A Eleição, A Feira, Charivari e Fogo-Fátuo são algumas das suas obras. LINK: http://deacordocom.blogspot.com/2009/03/mulher-lourdes-cheira-arte-ehistoria.html


A

mulheres e minhocas

família agroecológica é assim: dia de congresso ou encontro da área, todos vão se capacitar pra encher seu próprio negócio de novidade. Os próprios homens dessas famílias, ao contrário de toda casa rural, incentivam as mulheres a ir colher um novo conhecimento ali, uma nova técnica acolá... No final, tudo vira lucro. Porque o que uma mulher cata nesses eventos é muito mais precioso do que dinheiro. Os homens ficam lidando com a plantação. E muito satisfeitos! Menos um deles, que fez questão de ir pra um evento agroecológico. Manoel Messias é o cabra. Devido a ser o único homem de uma família de seis filhos já pegou o apelido de Rei. Todos são do Cariri paraibano, mas vieram para a Borborema fazer parte do 1º Encontro Estadual do Pais (Produção Agroecológica Integrada Sustentável), ou seja, tudo aquilo produzido por agricultores ecológicos. No Sítio Lucas, a mãe Helena de Oliveira saía encabeçando a fila indiana feminina, que seguia com Maria Verônica, presidente da Associação dos Produtores Agroecológicos de Monteiro (Apam) e suas irmãs, Maria José, Maria Aparecida, Maria Sueli e Eliane. Todas têm um Pais em casa. (E recebem rajadas de inveja de gente como eu, que entende o que é uma produção agroecológica, mas ainda não pode fazer uma por morar numa cidade.) Mas nesse grupo caririzeiro tinha umas dez pessoas. Todas agricultoras trocadoras de informações, traficantes de conhecimentos que são úteis à plantação ecológica. Algumas não queriam admitir, por exemplo, a utilidade da minhoca. Maria Verônica não. Ela sabe o valor de uma minhocona da boa. "Eu pego na minhoca mesmo! Nessa aqui (mostrando uma enterrada) e na outra", disse sussurrando e gargalhando. O que Verônica quis dizer somente foi que as minhocas têm muita riqueza e são importantes para nossas atividades humanas. Ah, essa conversa dúbia rolou na hora da oficina de minhoca. O palestrante entrou na onda, pois já tinha muita experiência com minhocas. Antes das propriedades das minhocas, voltemos algumas horas... Na hora do almoço, o palestrante do minhocário entrou na farra com as alunas... saiu brincando de obstáculos. De tão animadas que estavam, as mulheres, atraíram alguns homens, como seu Antônio, produtor do Cariri. Ele não resistiu e caiu na farra. A mulherada do Cariri também sabe produzir os orgânicos de melhor qualidade do Estado, atestado pelos órgãos federais de produtos agroecológicos. Um dos ensinamentos que tive neste dia foi como preparar uma minhoca suculenta, cozida ou frita. (receita no blog) A pacata Verônica discordou e disse que a minhoca que ela produzia era melhor por causa de uma dieta diferenciada. "Eu corto um mamão bem maduro no meio e distribuo as partes nas hortas. Em poucos dias não tem nem casca mais!", contou. "Não creio! É a primeira vez que ouço isso", retrucou o especialista, sorrindo. Verônica foi enfática e sarcástica: "Mas é. E a sua minhoca nem chega perto da minha". LINK: http://deacordocom.blogspot.com.br/2011/06/mulheres-e-minhocas.html


centenária nathércia

V

"Um bom professor, além de enérgico, tem que ser de muita utilidade para o aluno e fazer tudo o que pode e estiver ao seu alcance".

iver é resistir. Seja por que tempo for, a vida é repleta de vontades. A gente é quem escolhe qual seguir. Quando não se tem mais pressa, se caminha lento, mas vivendo... Lembro de Nathércia e seus cabelos, pele e roupas brancos. Sentada numa cadeira, fitando o chão, estranhando pessoas do novo século. Ela, que viu gente passando do final do século 19 ao início do 21, se sentia enfadada. Visitei Nathércia Cunha de Morais, "a professora que usou pela primeira vez a palmatória em Jardim do Seridó-RN", quando ela ia completar seus 106 anos, em 2004. Fui com meu amigo Nilson Meira, que fez imagens dela, antes de morrer em 2008, com 110 anos. Nasceu em 25 de julho de 1898. "Vivi em cima dos costumes da moral e do respeito do século XX. Eu mandava na sala. Quem não quisesse aprender e fugisse da alfabetização, apanhava!", relembrou, de fala rude e olhar marejado. Mesmo com ar dramático de severidade, Nathércia era encantadora. Aposentada desde 1967, ganhou o título de "professora do século" em 2001. Uma de seus 10 netos que seguiram a carreira de professor, Terezinha Morais Neri de Oliveira, 59, foi quem cedeu gentilmente as falas mais emocionadas da avó. Os 18 filhos de Nathércia não quiseram saber da vida de professor. Pelos relatos de Terezinha fiquei a imaginar a vida dessa que foi a primeira pessoa a alfabetizar meus antecedentes jardinenses. Nathércia e seus rompantes de autoritarismo nos sítios Sombrio, Cabaceiras e Três Irmãos, zona rural extrema e machista... Era tanto aluno que a professora separava-os pelos cômodos. Tinha a ajuda dos filhos. Na mesma sala, ela chegava a ensinar conteúdos da 1ª a 3ª séries. "Eu ensinei tanto nesse mundo... tanto menino na minha vida que ninguém acredita", dizia Nathércia, orgulhando-se da profissão. Casou-se com Rufino de Morais aos 19 anos, em 1917. "Considerava a maior façanha do mundo ter conseguido instruir os alunos... o saber a iluminá-los", poetizava. Na época (como ainda hoje) em que ela atuava, o "ganho" era pouco e ela associou essa profissão a de costureira. Alfabetizou adultos à luz de lamparina com querosene em 1947. Mas continuou trilhando os poucos caminhos existentes e conseguiu atuar pelo município, Estado e como professora particular. A missão de levar adiante o conhecimento foi árdua. "Certas vezes precisei ser valente, principalmente no que eu queria, porque eu ensinei mais de um ano pelos sítios sem ganhar um tostão”, desabafou Nathércia à sua neta. “Sessenta e seis anos ensinando Português, História, Geografia e Aritmética, "a ciência elementar dos números, dos algarismos", dizia. Nathércia morreu e deixou 80 netos, 137 bisnetos e 25 tataranetos. Sementes que se espalharam pelo mundo com pedaços dessa história de amor incondicional à educação atrelados aos DNAs. LINK: http://deacordocom.blogspot.com.br/2010/07/centenaria-nathercia.html


N

bicicletadas

eta relembra nossa livre infância. “Val sempre gostou de uma bicicleta... A gente quando menos esperava, ela aparecia com uma”, comenta. Aí, surgem os contos das bicicletadas que sofri... É bom lembrar do meu esforço, primeiro, para aprender a andar de bicicleta. As primeiras bicicletas que andei foram uma Monark e aquela que tem um bagageiro na frente... Com oito anos de idade, eu e minha concunhada Derela - abreviatura de Cinderela - decidimos aprender, de qualquer jeito. O negócio era bruto mesmo. O pai de Derela ia almoçar em casa com a Monarkzona e o irmão mais velho dela, também. A do irmão dela era bicicleta de entregas, tinha um quadro mais baixinho, que dava para gente de perna pequena andar. Como nem tínhamos quem nos ensinasse, Derela inventou um jeito, com uma das pernas por dentro do quadro. Mas a Monark tinha um círculo no meio, não dava! Aí, nos restou a bike de entrega, com o quadro baixinho. Derela, logo nas primeiras tentativas e quedas, se feriu na perna, foi muito sangue... Mais duas amigas ganharam bicicletas. Mércia, filha da professora Maria Meira, tinha uma pequeninha. Ela sempre visitava a avó, que era do lado da minha mãe. Com essa bicicletinha, pude aprender a andar. Descia e subia uma pequena ladeirinha, na lateral da casa da avó de Mércia. Uma volta era minha e outra dela... E Marcileide. Essa ganhou uma bike que toda pré-adolescente queria, uma Monareta. A dela era novinha, toda linda, cor púrpura parece... Depois de estudarmos e eu “copiar” desenhos para ela pintar, ela chamava: “vamos brincar de bicicleta???” Aprendi a fazer curvas (sempre caindo) e a andar mais tempo sem tocar o chão. Estava tudo dando certo: andava de bike durante todos os dias da semana. Nesse meio tempo, meu irmão Júnior comprou a primeira bicicleta da família, que era, para ele, “um instrumento de trabalho”. Era um modelo moderno, daquelas bikes de corrida, com o guidão em formato de C, curvado para baixo... Eu tinha que andar subindo e descendo, escorregando o corpo para um lado e para outro, para poder conseguir pedalar. Vendo que eu adorava, meu irmão começou a me designar tarefas na bike. Eu caí horrores. Mas vou lembrar só de algumas quedas. A primeira, eu não fui castigada. Meu irmão me pediu para eu ir comprar uns três ou quatro galetos pequenos congelados... na bike! Ao descer pela pista da BR com o sacão de galetos pendurado no guidão direito, aparece um caminhão buzinando atrás. Desci do asfalto para o aterro lateral. Mas a bike tinha os pneus fininhos, quicavam no chão quando cheios. Os galetos puxando pro lado direito e eu raquítica, a bike caiu aterro abaixo. Fiquei toda escoriada! Sorte que foi o meu irmão quem me incumbiu da tarefa. Me livrei de um possível castigo. Com uns 14 anos, não pude fechar a curva completa para entrar na Avenida Dr. Fernandes. O pneu dianteiro foi barrado pela calçada. A bike me lançou por cima do guidão, eu “deslizei” uns 10 metros pela calçada... Essa foi grave. Ainda bem que foi do lado do Hospital! Contei a meu irmão e ele levou de vez a bicicleta... Se não “haveria mortes nela”! Era muito amor por duas rodas... LINK: http://deacordocom.blogspot.com.br/2012/06/bicicletadas.html


campina

F

grande é a sua feira

alar da Feira de Campina Grande nunca é demais. Até porque é obrigação falarmos dela. Primeiramente pela sua importância econômica. Depois pela sua abrangência territorial (é a segunda maior do Nordeste no modelo tradicional de comercializar, reunir feirantes e compradores). E pela sua história cultural, rica, transbordante de personagens, lugares e estéticas das mais loucas e diversas. BALAIEIRO - Figura em extinção na Feira Central, o balaieiro carregava a feira de verduras e frutas na cabeça. Num balaio gigante que ele desfilava a mostrar pelas ruas centrais da Feira. Hoje, o mototaxista ou até mesmo o taxista o substitui com mais precisão. Mas ele dava toda a característica original de livre comércio, onde todos escolhem, compram e negociam serviços, produtos etc. BUSINESS - O livre trânsito de produtos com os quais os feirantes lidam diariamente é intenso e cheio de surpresas. Um comerciante, por exemplo, mistura doces, rapaduras, com alho e alguns CDs (para quem não larga o vício da música). O importante para ele é negociar, vender, lucrar, essas coisas... CRIATIVO - O bom humor, presente na luta diária dos feirantes, também é peça primeira de marketing que eles usam. Muitas vezes uma "arrumação" como equilibrar um guarda-sol num carrinho de mão pendurando um saco de cebolas no cabo, chama a atenção. É um diferencial. A engenhoca que proporciona sombra só se sustenta pelo saco de cebolas. Talvez uma metáfora da vida do vendedor... SOUNDS - Não há quem não resista às news "musicais" das bancas de vinil da Feira. Um dos vendedores, literalmente, pendurou as chuteiras na sua barraca de música. Mas continua abrindo o ponto, vendendo discos pra quem curte brega, música latina e a fossa. É deprê e retrô demais! FLORES - Do Brejo, do Curimataú, da Borborema... as flores da Feira enchem de perfume e cor as passarelas onde elas estão expostas diariamente. Abelhas de todos os lugares vêm provar do nectar delas. A feira-enfeite da Feira é a de flores, lógico. Muitos são os usos das flores, ensinam as agricultoras vendedoras. Elas vendem sementes pra quem gosta do trato com a terra. MERCADO - Cercado por imensos armazéns do início do século passado, o mercado central é o coração da Feira, onde, a pouco tempo, acontecia o Dia do Rojão com forró pé-de-serra e viola pra todo mundo ouvir. É dentro dele que está o mercado de carnes. FRUTAS - As mais doces, coloridas e saborosas frutas estão por todo lugar na grande feira de Campina Grande. Ao redor do mercado central, pelas ruas principais, pela feira de troca... frutas passam em gigantescos balaios que entrecortam a cidade... Uma delícia ambulante!

Para concluir essa ode à Feira, leia poesia de Lourdes Ramalho,no link: http://deacordocom.blogspot.com/2010/08/campina-grande-e-sua-feira.html


A

biu da gelada

lguém já pensou, atualmente, em passar 50 anos trabalhando no mesmo lugar, produzindo a mesma coisa? E gostar desse ritmo de vida? Se a resposta foi sim, é bom ir visitar o empreendedor Biu da Gelada, na Feira Central de Campina GrandePB. Ele também é assim. Com 75 anos de idade, Biu, é Severino Pereira de Araújo e se orgulha em vender lanche no mesmo ponto há meio século. "Sou diferente", disse Biu. Ele não gosta de arte, detesta política e só dá um pouquinho de moral para o seu time de coração, o Campinense. Apesar de todo esse tempo trabalhando ali, Biu diz que o negócio "já foi bom". Em 2006, ele saiu com essa pra cima de mim, durante reportagem especial. "Meus rendimentos caíram 1000%. Antes, eu desmanchava 35 kg de açúcar/dia. Hoje eu desmancho 5 kg”. Essa semana ouvi a mesma conversa. Parece até que o calor desse Verão não motivou à gelada. Mas Biu é pessimista não só sobre o próprio negócio (que concorre injustamente com sorveterias, mercados descentralizados, falta de cliente), mas sobre a política também, que ele "tem nojo". Segundo ele, os políticos são péssimos nos relacionamentos com os eleitores, "só vivem mentindo, só visitam os pobres no tempo das eleições". Por causa desse discenso entre o discurso político e a prática politiqueira, Biu só votou duas vezes nas sete décadas e meia de existência. E nem lembra em quem votou. Informado, Biu aponta a crítica para o atual cenário político, assistido pela TV e debatido frequentemente entre os feirantes. "Veja o que o Arruda fez lá em Brasília", comprova, revoltado. Exemplo de administrador zeloso, como todo honesto, ele econselha os políticos: "depois de ser eleito, mantenham o contato com o povo". O pacífico e organizado Biu é um Buda da Feira. Todo mundo que quer ouvir suas recomendações dá um tempinho na Gelada. "O futebol está muito violento. Eu não sinto mais vontade de assistir a um jogo", justifica. Ele retirou os milhares de adesivos que enfeitavam o seu treiler pra evitar as pileras nos pós-derrotas do Campinense. E do igualmente querido Flamengo. Hoje, só dois adesivos e muito silêncio, pra evitar. Quanto à cidade onde nasceu, se criou e viveu esse tempo todo, Biu se enternece, dá até um sorriso (o que é difícil, de tão sério). "Tenho amor à cidade", confessa. Para ele, o clima é um dos melhores. Mas o feirante não é apático a sua história. Ou não se apercebeu dessa importância humana ou isso não o fascina. Mas Biu guarda com carinho na memória os tempos áureos da Feira Central, seu universo. "Comecei a vender lanche na antiga feira, no famoso Beco dos Bêbados. Lembro bem da alegria dos feirantes com a mudança (há 50 anos)", declara. Depois das perguntas sobre o gosto dele, confesso que fiquei sem ter o que questionar quando Biu disse que seus passatempos eram visitar os filhos e ir à igreja. "Meu xodó, a coisa que mais me dá prazer”, disse, mostrando a fotinha da neta de quatro meses de vida.

LINK: www.deacordocom.blogspot.com/2010/03/biu-50-anos-de-gelada-nafeira.html


episódio

A

da cova da onça (baseado em fatos reais)

Cova da Onça parece calma à noite. Tem madrugadas que o lugar mostra cenas bucólicas da pobreza material e de espírito que acometem seus habitantes, meio urbanos e suburbanos. Qualquer “tiração de onda” e o problema se resolve rapidamente. A líder em brigas da área que o diga, uma das putas que trabalha no beco estreito, que dá pra ser visto de boa parte do apartamento onde moro. Ela está grávida e em breve nascerá o seu herdeiro, aquele que crescerá distante da mãe, mas provavelmente numa realidade não muito distinta. Mesmo com sete meses de barriga, a mulher não pára em casa. Ela tem que seduzir, envolver, atrair e aplicar pequenos golpes até conseguir um parceiro pra dividir um quartinho imundo, alugado por dois reais a hora. Ela satisfará um desejo carregado de ódio de um macho. Calcula o lucro. Os três reais do ato em si vai se juntar aos outros seis que começou a levantar desde cedo do dia pra comprar uma pedra de crack e passar a noite. Revigorada na "instiga" que a pedra dá, ela cria coragem pra vencer a concorrência, que é diversa na Feira Central. Afinal, a puta de hoje luta pelo mesmo espaço do travesti, do garoto de aluguel... Acirrado é o competitivo mundo da prostituição. Mas ela é da Cova da Onça. Tem a lábia certa. Precisa comer pra dar de comer ao bebê. Por incrível que pareça, ela tem conseguido manter uma clientela. Homens que têm fetiche por grávidas estão aparecendo mais no pedaço. Os idosos da zona rural, que as visitam no sábado, sempre chegam com sacolas de verduras e legumes. Vejo esperanças penduradas em suas cabecinhas solitárias... Lá pelo quinto homem daquele dia puxado (e depois do cansaço de encontrá-los, trazê-los ao quartinho), a pobrezinha passou por um calote. O cliente se fartou e a deixou na mão com a desculpa: o liseu. Naturalmente, ela se aborreceu. Deu pra ouvir, até o fim da Rua Manoel Pereira de Araújo, os gritos: "comeu, pagou, meu irmão! Não tem essa de liso não. Liso um caralho, tá ligado?!" A mulher teve que entrar numa luta corporal com o cliente! O cara saiu correndo e sorrindo da peça que pregou na Cova. E ela já corria em seu encalço quando a dona do quartinho, sempre alerta, a brecou gritando: "Tá pensando que vai pra onde sem pagar o quarto?!". Bastou. As duas putas se engalfinharam verbalmente. A confusão reiniciou, veio até o início da Cova e voltou pra dentro do beco. Uma soltava palavrões agressivos e a outra revidava com mais meia dúzia de insultos, dos mais baixos calões. Deu pra ver a grávida se aproveitando dum momento em que a dona do quartinho disse que ia entrar pra pegar uma faca. Correu e mergulhou na escuridão noturna, Cova adentro. Ainda ouviu-se ela resmungar na fuga: "oxe, o caba me come de graça e eu ainda vou pagar o aluguel do quarto! É ruim!". LINK: http://deacordocom.blogspot.com/2010/03/episodio-da-cova-da-onca.html


luciAne

A

winehouse (baseado em fatos reais)

feira do sábado começa na sexta à noite para Luciane “Winehouse”, uma das tantas estrelas da night da Feira Central de Campina Grande. Ela sabe ser popular e faz de seus dias palcos itinerantes por quase todas as feiras da Borborema. Odeia quem diz que ela é "sobrinha" do homem que paga pelo sexo. Na real, “Luci”, a sedutora, tem que dançar muito, cantar bem e ainda se embriagar moderadamente para se safar nessa vida de literal “filha da puta”. Só a vemos aos retalhos, pelas janelas. Uma noite, ela começou atrasado o “show” no Bar Tropicana (central de desejos da Feira). "Por dez contos, eu dou uma com você, mas se quiser um 'bola gato', é dois... bora?!", se derrete para quem dá uma paradinha na moto. Os chamados dela na Cova da Onça são estrondosos. Bem como as negociações sexuais que ouvimos embaixo da janela. Tem hora que Luci xinga, depois "cativa" o cliente com alguma migalha de crack... A vida artística dessas estrelas cortesãs não tem seguro. Não vejo diferença dessa moça trabalhadora da Feira para a Winehouse verdadeira! Só o dinheirão que a internacional ganha pra fazer o que a mulher da Feira faz: se exibir. E cair. Para que falsomoralizar ou entristecer a vida dela, se é assim, alegremente, que ela se sente uma pop star? Em milhares de palcos e ruas vende-se diuturnamente. Seus "ganchos marketeiros" são inspirados em Zefa Tributino, que reinou como dona do Eldorado nos anos 1940, dizem. Luciane sensualiza o dia quando aborda os agricultores que bebem no Bar da Cova. "Aqui é minhas áreas, tá ligado, gatão?", atiça a expertise máxima do plaisir féminin. Inventa uma dança erótica (com um pano entre as pernas)... Com 25 anos e sem alguns dentes, Luci equilibra pobreza e bom humor, perseguindo os adolescentes da rua, levantando o pedaço de tecido que cobre a genitália em plena tarde morna... O lado ”perverso” dela é o teatro que tenta vender, junto com outras prostitutas da mesma idade, pra afugentar os agressivos. "Não venha não!", grita a perigosa Luci, com a faca-peixeira na mão. Na primeira carreira que um homem dá, ela risca a faca no chão e sai em disparada... "Chama o camburão! Maria da Penha nele!", gritam erroneamente as colegas e inimigas. Outra rivalidade é dividir o palco, tarefa necessária e tensa para quem está em início de carreira. Por isso, Luci deixa que a experiente “Carlas Perez” (no plural mesmo) dance antes dela se apresentar nas nights. Também não é muito tempo. As duas não se falam, mas uma sucede a outra nos shows nos 10 barracos que vendem cachaça nas ruas adjacentes ao Mercado Público. Outra noite, Luciane subiu, de novo, no tablado. Entrou na rua puxando um cacho de cabelo pra cima, empinando a bunda magra, se equilibrando em finas pernas e desenhando o ar sinuosamente com a fumaça do cigarrinho que nunca sai da mão... LINK: http://deacordocom.blogspot.com/2011/02/luciane-winehouse.html


na feira

R

oculta, o eldorado (baseado em fatos reais)

espiro um ar puro, mistura de neblina com cheiro de manga. Já tá em época. Passo pela Rua Cristovão Colombo no começo da noite. Ainda tem feirante arrumando a bagunça. Hoje tem dança até de madrugada, melhor comprar umas mixiricas... Tomara que Zefa queira dançar comigo. Tem jeito não, daquela mulher me querer, meu Deus do céu! Antes do Eldorado vou passar aqui na Casa da Loira. Tem umas meninas novas que gostam de ouvir minhas histórias de luta com os caboclos pernambucanos... Vira e mexe, eles vêm pra cá cantar no Cassino e querem pegar as mulheres. Elas são da vida, mas a gente respeita. Dão amor para quem tem carinho com elas. Entrei nesse cabaré cantando, elogiosamente, a música que Jackson tava começando a tirar no pandeiro, que homenageava as meninas “Me lembro de Maria Pororoca, de Josefa Tributino e de Carminha Vilar... Bodocongó, Alto Branco, Zé Pinheiro, aprendi tocar paneiro nos forrós de lá..." Todas gostaram. Depois de uns afagos e tragos, chego ao garboso Eldorado. Dizem que hoje tem um grupo de dançarinas de Paris, que vieram fazer uma dança chamada Can can. Essa entrada do Cassino, sempre tão bem segura, com "leões de chácara" que Zefa traz Deus sabe de onde. Hum... que perfume! Hoje as meninas capricharam! Vou deixar pra passar pelo paraíso dos 30 quartos no fim da madrugada... A feira hoje foi boa no armazém de estivas, mas “painho” só me deu o merecido. As meninas cobram caro. Só posso visitar uma por semana. Prefiro me deleitar com as moças do salão, ouvindo e dançando uma boa gafieira. E o luxuoso salão ainda está praticamente vazio. Ai, ai... vou tomar umas cachaças no primeiro andar. Será que Carminha está com Zefa? Meu primo Valfredo vem exclusivamente hoje pra encontrar com Carminha, que já foi avisada. Tomara que ela bote o vestido de organdi que ele mandou fazer na medida. O poeta Ronaldo já está no carteado?! Ele não perde uma novidade. Como Zefa traz, nem que seja, uma dançarina nova por sábado, os filhos dos coronéis e dos políticos sempre estão aqui, como ele, que só faz beber e escrever, a noite toda. Nossa, como está abafado! Esses ventiladores não estão dando conta. Cadê Zefa e Carminha? Deu pra ver uns carrões chegando... Vou esperar Valfredo tomando minha dose lá no salão. Ao menos está mais ventilado... Finalmente, Zefa... Tão afetuosa, recebendo no salão de festas. Não sei como podem falar mal dela, que só trouxe alegrias. Sem esse Cassino concordo que seria uma nau à deriva. Na Serra da Borborema a gente vê arte, conversa poemas e sente um frio na barriga ao vê-la... A Zefa Tributino do Eldorado.

LINK: http://deacordocom.blogspot.com/2010/04/na-feira-oculta-o-eldorado.html


wando,

W

o não-cantor (baseado em fatos reais)

ando é um adolescente de 13 anos, mas aparenta ter cinco ou seis. Dizem que foi um trauma que atrofiou seu crescimento. É um menino negro que não fala, mas escuta, e é popularíssimo. Todos o conhecem na Feira Central de Campina GrandePB. Ele vive a andar, chupando o polegar, com uma camisa pendurada no ombro (que às vezes ele perde) e uma barriga grande, exibicionista. Quando retornava pra casa, lá estava ele na loja de ferragens do vizinho. Ouvi quando um dos ajudantes do dono da loja, disse: "olha o que Wando fez", mostrando o traquina com uma tarja prateada que ele mesmo tinha pintado no peito. De tinta óleo, vale salientar. E haja gestos desordenados, de uma linguagem que não é a Libras, mas algo parecido, pra explicar o que o artista pensou ter pintado em seu corpo-tela. Neste mesmo dia teve um blecaute lá em casa, por volta das 16h. Achei estranho porque as serralharias continuaram funcionando. Pensei que o levado do Wando teria sido astuto pra estar envolvido naquele apagão sem sentido. Toni ainda duvidou. Mas resolveu perguntar, do alto do segundo andar, ao tio dele, o Buldogue, se a chave de energia geral, lá embaixo, em frente a casa deles, estava desligada. Estava! Quem desligou a chave? Wando, que se entregou sorrindo e sem jeito. Mas Buldogue não quis saber e jogou a ameaça: "se você mexer aí de novo eu toro sua munheca, tá ouvindo Wando?!" O menino balançou a cabeça imediatamente e ficou por ali, desconfiado. Não ficamos zangados. Pelo contrário, rimos muito. Descobri que tinha sido ele porque de outra vez o pegamos, Toni reclamou... foi uma onda. Antes desses episódios, o garoto ganhou uma pipa toda rasgada de Toni. Ela ficou presa no terceiro andar e, quando foi removida, rasgou. A partir desse dia, nasceu um ídolo para Wando. Toda vida que Toni sai, quando ele está na rua, corre sorrindo, imitando uma guitarra com as mãos na roupa, tocando a ilusão da infância. Às vezes rola um abraço. Ele, abraça todo mundo, melando todos com graxa de bicicleta. Embaixo do prédio onde moro, o proprietário do imóvel, Seu João, conserta bicicletas. Quando não está comendo, pedindo comida aos feirantes ou sendo procurado pelo tio aos berros, Wando é ajudante de Seu João. Sem que o bicicleteiro saiba. Por que, quando ele está por perto mexendo nos milhões de parafusos, é o jeito entregá-lo. Ele, o tio e um primo de 15 anos moram num vão único, que é também a loja de Buldogue consertar portões de ferro. Acredito que não tenham saneamento, pois quando eles tomam banho, a água ultrapassa os portões fechados pra rua. O lugar é na Cova da Onça, uma rua de pessoas carentes, bêbados, prostitutas. O garoto passa alguns minutos se auto-embalando numa cantiga... "A-a-a-a-a..." A música mais conhecida da Feira balança também meus pensamentos noturnos de desapego. Como se pode ser feliz sem nada do que pensamos ser essencial? Ou o sorriso de Wando não é de alegria e sim de ator, já que ele é um artista? LINK: http://deacordocom.blogspot.com/2010/01/wando-o-nao-cantor.html


brejo das freiras

U

Charretes, cavalos e muito verde compõem telas maravilhosas, distribuídas num local onde a arquitetura antiga não é bem cuidada nem oferece um histórico que se possa acessar facilmente.

m lugar lindo, com muito verde ao redor. Águas termais curativas, fonte mineral e uma comidinha tipicamente sertaneja. Esta é a Estância Termal Brejo das Freiras, na cidade de São João do Rio do Peixe, no Sertão da Paraíba. Construções ancestrais também estão lá, mas menosprezadas. Os oito chalés estão abandonados. O imóvel mais importante do local, o convento onde sua história se inicia, está em ruínas. E nada, nada escrito sobre o Brejo. A área é enorme, com 400 hectares, segundo os trabalhadores do local. Composta por uma arquitetura que eu não sei ainda qual é, mas muito comum nos conventos do início do século passado. Segundo o portal SNN Notícias, o Brejo foi construído em 1944, com 45 apartamentos, para 150 pessoas, com duas fontes termais, área de lazer com duas piscinas, quadra de vôlei, mini-campo de futebol, pista de cooper etc. Um lugar tão rico e bonito e não tem um material informativo sobre o Brejo! Outro sinal de menosprezo. Para não dizer que não encontrei nada sobre o Brejo das Freiras, achei poucas ocorrências pelo pai Google. "Certa vez, lá nas lonjuras do tempo, José Américo de Almeida (Ele mesmo!) esteve no Brejo das Freiras, a aprazível estância termal do município de São João do Rio do Peixe", escreveu o blogueiro Dirceu Galvão, do Sete Candeeiros Cajá. O jornal A União publicou, em maio de 2008, que "a história da Estância Termal de Brejo das Freiras, um verdadeiro oásis turístico localizado na região montanhosa de São João do Rio do Peixe, a 482 quilômetros da Capital, se confunde com a própria história do Sertão da Paraíba". Mas não expôs o motivo. Apenas completou, publicitariamente: "isto porque, além da sua beleza panorâmica, as águas que fluem do subsolo rochoso, saem com uma temperatura de 40ºC, distribuída por toda estância, serve como revigorante para a pele, graças a sua riqueza medicinal". No portal SNN foi onde encontrei mais informações, só que sobre o poder de suas águas milagrosas. "Devido à qualidade terapêutica das águas termominerais presentes nas duas fontes do hotel, uma delas termal e outra magnesiana, as duas são indicadas à cura de artrite, artrose, escrófula, reumatismo, dispepsia, anemia e todas as fraturas e luxações", diz o portal, mas sem citar a fonte. Mais fotos do lugar estão no Flickr Zangarelhas. LINK: http://deacordocom.blogspot.com/2010/06/brejo-das-freiras-menosprezado.html


LUA,

P

VEM!

or volta das 16h40, Dudu chegou com Gamela fazendo o chamado. Alê e Toninho toparam e eu fui a reboque. O fenômeno da maior lua dos últimos tempos apontava um caminho pra sua observação. Era a famosa Pedra de Santo Antônio, na cidade de Fagundes, na Serra da Borborema. Aquela pedra que é gigante. Tem uma fenda que encoraja quem passa pela pequena fenda essa imensa rocha. Com fé em arrumar um casamento, quem passar, já pode se considerar comprometido! Histórias da Serra de Bodopitá. Planejamos sair pra ver ela nascer lá, mas saímos atrasados. O momento era especial porque, primeiro, era o dia 19 de março, Dia de São José, um santo que dita ao sertanejo se o ano vai ser bom de chuva. Como diz a música Ciência Nordestina, do nosso amigo Alê Maia. Não demorou, relembraram histórias... Segundo: um evento lunar que não veremos mais em tantos anos tinha que ser bem aproveitado... não podia ser vivido da sacada de casa, do meio da rua... não para quem ama a lua como nós. Aí, juntando tantos motivos para se viajar um pequeno trecho e ver a lua grandona, saímos de casa... Dudu e Gamela foram num carro e eu, Toninho e Alê noutro. Durante todo o caminho, sons muito bons. "Ô viagem ruim", pensei. Mas aguentei. (rss) Um caminho totalmente iluminado. A BR 230 parecia um tapete negro com pequenos gliters aqui e acolá... Fomos até do outro lado da pedra de Santo Antônio. Procurei uma luz natural... (luz branca, mais forte e acentuada somente esta noite, em todo canto... fiquei doidinha!) Enquanto isso, lá embaixo, Campina Grande derretia de amores pela lua... hihi... A Pedra de Santo Antônio é encantada. Não sei se era a noite, o momento... mas senti uma energia revigorante. Os meninos são visitantes assíduos. Foi aquela ginástica noturna... descemos lagedos, entramos em trilhas de matos dos mais diversos, ouvimos conversas sigilosas entre cigarras, no meio do coachar de sapos... As três descidas de trilhas de barro e pedra nos alertaram para a subida, que seria maior. Naquele clima Lost... voltamos. Paramos numa jaqueira enorme. Lembraram de uma lente de uma máquina fotográfica que deixaram naquele mesmo lugar noutra visita... continuamos. Olhei pra lua... pensei: "Lua, vem!". E lá estava ela, como uma amiga que me visita uma vez a cada dez anos. Em casa, chegamos com os dentes à mostra. E o papo foi alongado. Até o momento em que Gamela lembrou de uma "visão" que ele teve lá na pedra, noutra ida ao local. "Eu tava cortando lenha pra fogueira, aí uma mulher toda de branco com um véu no rosto veio saindo de dentro dos matos em minha direção". "E aí?!", em coro. "Dei um grito alto, disse 'não venha não', com a foice na mão... e cai pra trás, de cima da pedra. Me acharam no chão, todo escoriado... foi horrível!” Gama é muito legal. Deixou a gente curtir a maior noite do ano sem implantar noia de malassombros na cabeça... LINK: www.deacordocom.blogspot.com/2011/03/lua-vem.html


bigodinho ameaçado Aves alegres e diversificadas são esperadas pelos traficantes de animais. Eles são flagrados caçando indefesos como o Bigodinho. Um pássaro que se pega em armadilhas, como os outros, atraídos pelo canto das fêmeas... geralmente já engaioladas.

U

m habitat que os animais procuram para se reproduzir, na intuição natural de desenvolver a espécie, é o Brasil. Mas nesta terra farta, tanta beleza e liberdade são liquidadas pelo homem! A começar pelas aves, com a caça predatória. Desde a colonização, muitas araras foram caçadas. Na Paraíba, por causa desse hábito egocêntrico de prender passarinho, espécies migratórias somem, como o Bigodinho. Quem constata o fato é o ambientalista Aramy Fablício, da cidade de Fagundes, no Agreste. Sem pesquisa formal, mas com conhecimento do território onde mora desde criança, ele notou que correm risco de extinção aves migratórias como o Caboclinho Lindo, o Papa-capim, a Chorona, entre outras. Elas vêm se reproduzir na Paraíba no inverno. Desde 1970, ele percebe que as migratórias sumiram devido às caças. Os capturadores de aves estão cada vez mais sofisticados, com gaiolas de oito alçapões e redes que capturam de Beija-flor a Gavião. Para esses negociantes, o que importa é a quantidade e a biodiversidade de aves capturadas. O mais preocupante é que as caças ocorrem no período da reprodução. "O alvo dos predadores é o Bigodinho. Com um canto alto e belo, de uma plumagem destacável, o pássaro habita campos abertos e se alimenta de sementes de capim. Geralmente, ele sai para se alimentar e se reproduzir na Paraíba. Demarca seu território onde faz o ninho, por isso é alvo fácil. É vendido e exportado", diz. Para conseguir capturar as aves, os predadores aliciam moradores da zona rural com dinheiro. Alguns jovens deixam de estudar para capturar animais e vender. Alguns caçadores também vêm de Pernambuco. Muitos moradores já têm consciência e expulsaram os traficantes. O alvo dos caçadores não é apenas ave migratória, mas as nativas, como o quase extinto Azulão e outras. Os protetores da natureza dizem que pouco adianta a

fiscalização de crimes ambientais se não houver conscientização da sociedade civil para não comprar animais selvagens. Biqueira Velha – Como forma de conscientizar os moradores de Fagundes, Aramy criou projetos ambientais como o Biqueira Velha. Placas de zinco reaproveitado de biqueiras (calhas), escritas "PROIBIDO CAÇAR E CAPTURAR ANIMAIS" e colocadas nas propriedades rurais. O Bigodinho (Sporophilalineola) é conhecido como Estrelinha ou Cigarrinha. É uma ave passeriforme da família Emberizidae e mede 11 centímetros. LINK: www.deacordocom.blogspot.com.br/2010/05/bigodinho-ameacado.html


Lixo

B

de um homem

ega foi nosso vizinho durante alguns anos. Morava num quartinho na estimada Cova da Onça, Feira Central de Campina Grande-PB. Uns dizem que ele morreu na rua. Outros comentam que a irmã o levou para casa. Real mesmo foi o que ele deixou para trás: dois caminhões de lixo. Bem que eu achava estranho... Como alguém entra num único andar como se estivesse subindo uma escada? Desconfiávamos que ele colecionava materiais reciclados, porque alguns catadores são acumuladores... Mas daí a achar que o que Bega subia era uma montanha de lixo, ao entrar no quartinho, seria impensável! Não eram sacos gigantes de plásticos dos mais diversos. Nem caixas e mais caixas de tecidos de todo tipo. Muito menos algo que parecesse um mini depósito de materiais reutilizáveis. Era lixo do mais autêntico. Molhado. Lixo com chorume, amontanhado em coisas de tempos remotos, talvez até de antes dos anos 1960. Buldogue, o vizinho, se prontificou a "limpar" o quartinho em troca de um dinheirinho. Ele subestimou a capacidade humana de criar e reter lixo. Em meio às pazadas que todos deram ao longo de uma semana de retirada desse material, Buldogue era o mais empenhado a dissolver aquele acúmulo bestial. A população de roedores migrou pra o seu quartinho (ao lado de Bega). O homem é surpreendente com suas criações e ausências delas. O lixo que tanto nos incomoda (ao ponto de colocarmos para fora de nossas casas quase diariamente), era posto para dentro daquele quartinho. Por que Bega se misturava ao lixo? Era um solitário. Um sujeito cabisbaixo, que andava roto, como se tivesse tomado um banho de ferrugem. Catador no sentido menos profissional da palavra. Cabelos grudados, como num rasta de sujeiras mil... (parece que não tinha dentes, pela fala...). Talvez tivesse motivos para o isolamento. Às vezes, gente se mostra esfinge. Viver como a maioria vive, ter hábitos de higiene e organização é ultraje! Gente que vive catando reflete num silêncio esquartejado pela chegada do próximo caminhão de lixo. Buldogue e mais oito homens dispostos terminaram de encher o segundo caminhão de lixo depois de dois dias. Bega era um catador simples, que saia de noite com um espaço oco no lugar da barriga, tossindo rouco... Talvez fosse sujo por ser contrário a uma forma higienizada de ser, algo que ele rejeitasse, sem saber bem porquê. Não se sabe para onde, de fato, ele foi. Mas ficou o seu legado, o lixo. Da maneira mais distribuída, esquematizada, a gente também farica a mesma quantidade de resíduos sólidos ao longo da vida. Bega apenas inverteu o descarte. LINK: http://deacordocom.blogspot.com.br/2011/07/lixo-de-um-homem-so.html?q=feira


nordestino

S

fobia

erá que enfiamos o pé na jaca ao levantarmos Brasília? A maior parte da construção da cidade foi feita por nós nordestinos, como sabemos. Será que estamos sendo castigados? Nós nos equivocamos ao nos firmarmos no Sudeste. Ao darmos nossos esforços em solo "alheio", desenvolvendo grandes centros como São Paulo, premeditamos nossa maldição? "O nordestino sofre hoje maus tratos por causa dessa mania feia de menosprezar suas riquezas ao realizarem um êxodo inacabável", pode-se dizer. Mas a explicação desse "menosprezo" pela própria região é medida pela lógica de expulsão da seca. Só que, enquanto parte de nós dá quase de graça mão de obra na engenharia civil brasileira, o Nordeste continua construindo, dando poder e dinheiro a outros nordestinos. Os que ficam. Por que não ficar, desenvolver o que é nosso por herança? O Sertão nordestino possui um dos mais ricos e diversos ecossistemas, a chamada Caatinga. Claro que a gente só nota mais quando chove, evento raro na região. Desamparados, aguentamos pouco nesse castigante clima semiárido. A baixa umidade é nossa conterrânea, praticamente. O clima deita-se numa faixa que sobe do Sudeste (torrando os Sertões mineiros de Guimarães Rosa) ao Nordeste, onde o vento sopra seco. Mas, o resto da região é rica e próspera. Só precisa auto motivar-se. É mais pelas agressividades que fugimos. A seca chegou, fugimos. A falta de assistência governamental enraizou, nós fugimos. Seria por essa "covardia" que uma onda de xenofobia aos nordestinos paira pesada sobre nós? Essa aversão exagerada (como se nota em qualquer fobia), se desencadeou em fins de eleições de 2010. Uma estudante deslumbrada saiu tuitando besteira, para ascender midiaticamente. Esse povo índio, negro e branco, o brasileiro carregador de todos os defeitos e virtudes dessa miscigenação, é surpreendente em seu sadismo mais do que na sua responsabilidade social. Com a publicização dessa sujeitinha, os psicopatas tentaram ganhar espaços midiáticos maiores, principalmente no Twitter. Nem pensamos em afirmar que isso é assim e pronto. Mas acreditamos que qualquer aversão excessiva ou pânico de algo ou alguém é uma psicopatologia. Precisa de uma cura ou paliativo para que não tenhamos mais protótipos da eugenia nazista ameaçando a paz entre a mesma raça aqui no Brasil. Ninguém precisa ser psiquiatra para deduzir isso. Nordestinofóbico – Carecas do Subúrbio e do ABC e White Power. Procurem o significado dessas facções. Todas são perigosas para os nordestinos. Cada grupo tem tipos para “massacrar”. Gays, judeus, negros e drogados também fujam! LINK: www.deacordocom.blogspot.com.br/2011/01/nordestinofobia.html?q=SERT%C3%83O


o homem

S

aroecológico

omos bem pequenos diante da grandeza de um produtor rural. É ele o responsável por nosso alimento. Das matas, dos bichos e da vida, ele tira tudo o que precisa para vivermos. Sem sentimentos ruins, até. Era isso que pensava, fotografando um evento agroecológico. Quando entrei no salão do Seminário, que ocorria num convento na cidade de Lagoa Seca, ouvi-o dizendo "repolho é um pacote de veneno". Lacei a frase no ar e sentei na frente dele, um “velhinho” com uma barba longa e branquinha. Combatendo o uso de agrotóxicos, ele continuou. Quem era aquele pequeno ser, frágil até, acuado ali por mais de 300 pares de olhos, observando sua fala, que abriu meu ouvido com alegria? João Guimarães. Cearense, mas habitante da Paraíba desde 1951. Vive de folhas, legumes, frutas e carne de porco "bem cuidada". Ele produz a agroecologia brejeira há 14 anos. para 150 famílias de Campina Grande, que fica a cinco minutinhos de distância da sua propriedade. A família trabalha com a mesma atividade, plantando verduras, frutas e legumes. João disse, orgulhoso, que consegue pagar 20 salários mínimos semanais para todos os parentes ecológicos. Com o humor típico dos cearenses, ele fez todo mundo rir nas comparações simples, de homem do campo. E com sua visão naturalista de ser. Agradeceu ao Convento Ipuarana por ter-lhe dado abrigo e saberes, pelos estudos, às pessoas que deram roupa, "barbeador, que quebrou um dia desses e eu nunca mais...", brincou, acariciando a barba, emendada com os cabelos da mesma cor. Mas João é lindo e sábio! Ficou com uma mata à sua porta, para ele “criar” os bichos silvestres. "Já criei gato do mato, paca, veado... é uma mata que tem 35 hectares, que é fechada, que tem uma trilha por dentro, que um dia vou transformar numa alameda de flores, mas o resto é tudo cipoal. No inverno, a mata fica folhada, é uma festa de flores. Aí, no Verão, as folhas amadurecem e caem e o solo fica coberto. Aí, o solo coberto é abrigo para cupins, microorganismos, algas... tudo pra decompor folhas e virar matéria orgânica. A mata é o roçado de Deus. Tem Bem-te-vi, Canário da Terra..." Essa fala era de uma primeira tentativa de vídeo-reportagem. Infelizmente, na hora que ele ia descrever mais as espécies de pássaros e depois de árvores dessa mata, a bateria a máquina pifou. Depois saímos conversando em direção ao refeitório, onde eu tinha comido uma deliciosa salada, com arroz, bolinhos de soja... Mas ele esnobou a maravilhosa comida! Disse que só comia frutas, o dia todo. "Eu só almoço de noite, quando chego em casa. Mas como muita fruta durante o dia, bebo muita água. Me sinto bem assim", disse. João é contrário ao hábito de comer carne. Reflete sobre o dilema: "Se você ama uns (cachorro), porque come outros (boi)?". Embora adore criar uns porquinhos, vender e comer a carne... mas garante que é tudo bem limpinho. O problema, para ele, é o excesso. LINK: www.deacordocom.blogspot.com.br/2010/12/o-homem-agroecologico.html


quadrinhos neles A personagem que criei tinha um pouco de mim, tinha um pouco dos heróis bonachões que admirava nos HQs raros, que só encontrava em cidades maiores. Ela aparecia super feminina, mas sempre com o cabelo eletrizado.

S

osso até estar enganada, mas me apaixonei por arte na adolescência, através, principalmente, da comunicação e da arte. Tive sorte de poder ir a uma lanchonete me refrescar com um picolé e ler as revistas e gibis que quisesse. Na cidade onde nasci nunca houve muito incentivo às artes e eu achava que era privilegiada de ser colega dos vendedores de revistas em quadrinhos. Via o quadrinho Chiclete com Banana e acompanhava os roteiros inacabáveis de Conan, o Bárbaro. E assim, colando pedaços de memórias com tantinhos de histórias criei minha primeira e única revista em quadrinhos. A HQ era sobre uma menina irreverente, mas antenada com a realidade, chamada Lobona (em homenagem a quem???). Bastava esse pequeno incentivo diário de leitura, antes e depois da aula, para viver em companhia dessa personagem. Corria pra casa para rabiscar a heroína em situações surreais vencedoras de opressão e de desdém humanos. Parte dessa criatividade ganhava ao ler os quadrinhos na lanchonete. Ando pelas ruas e esbarro, às vezes, em adolescentes ocos de inspiração, vazios de conteúdos artísticos e crentes em correntes eletrônicas, como seguidores do vácuo da ignorância. Eles não tiveram a chance de saber que a arte é o fio condutor da catarse. Sem as percebermos, sem deixarmo-nos tocar por elas, sem as entendermos, seremos adultos estúpidos sem o prazer da contemplação. Cegos dessa parte quase abstrata da vida, os insensíveis se questionam o que é arte. Confundem-na com um produto descartável, até imitável, mas jamais igualável. Independente de sermos jovens ou velhos, a arte pode se apresentar na vida. Mas não são todas as pessoas que entendem uma obra ou um artista. De tão exclusiva, a arte é elitizada. Por isso encontramos imbecis. Porque eles não tiveram uma cultura intelecual que os completasse. E muitos não tiveram por opção. Sim, pois se eu, que nasci pobre, sem muitos estímulos, consegui alcançar num gibi uma educação, um letramento artístico, qualquer um pode. Tanto que vimos isso ocorrer diversas vezes ao nosso redor. O indivíduo se encontrar na realidade virtual da arte, mesmo fazendo parte de uma dura realidade. Aí eu reformulo a ideia da minha personagem Lobona, de que "tudo é um tédio". Principalmente por causa da minha intolerância à ignorância pleiteada. LINK http://deacordocom.blogspot.com.br/2010/03/quadrinhos-neles.html


sertanejos

O

no agreste

Agreste está recebendo visitantes nesta época do ano. Seres voadores, cantadores e bem levinhos. Saíram do Alto Sertão paraibano, lugar que é quente e está cada vez mais desmatado. Vieram viver no Agreste. Procuram a simples sobrevivência. Acharam água e comida perto da cidade de Fagundes, onde estão convivendo em paz com outros pássaros. Por que esse êxodo aéreo no Estado? Pássaros são como nós, humanos. Porque são vivos, procuram um lugar adequado para viver. Quando o lugar onde nasceram não proporciona comida e habitação, eles se mudam. E parece que foi isso o que aconteceu no caso das Graúnas Nordestinas, Casacas de Couro Grande, Lavadeiras de Caras Brancas, Noivinhas e Guriatãs, entre outras que chegaram ao Agreste. O desequilíbrio ecológico as fez migrarem. Essa é a tese do ambientalista Aramy Fablício, que nasceu (e conhece bem) na fauna e flora da região. Isso é legal para nós, admiradores da natureza, apreciadores de aves. "Mas significa que algo está errado. Ou seja, o habitat natural destas criaturas certamente está sendo desmatado. Algumas das espécies, eu conheço desde criança em gaiola, como a Guriatã, ave que se alimenta de frutas, nativa da zona da mata nordestina. Começou a aparecer por aqui com o desmatamento da mata atlântica”, diz. “A Noivinha, uma Lavadeira toda branca, é um pouco maior que a Lavadeira Mascarada, nativa da região", descreve. Ele apresenta a sertaneja, vista cada vez mais na região, principalmente no Sítio Várzea do Arroz. Ela tem o mesmo comportamento que a nativa daqui, gosta de ficar nos arbustos, alimenta-se de mosquitos e vive nas margens das águas. “Tem a Lavadeira de Cara Branca, outra sertaneja. Antes não existiam esses pássaros por aqui”, diz. O ambientalista observa que outra ave também está habitando em Fagundes, a Casaca de Couro Gigante, ave nordestina e sertaneja. "Ela é parecida com a nossa Casaca de Couro Pequena. A Gigante tem um canto muito alto e faz ninho parecido com o da Casaca daqui, porém arredondado, de gravetos e espinhos”, explica. Até um cantor cobiçado foi visto em Fagundes. A Graúna Nordestina, uma das aves mais caçadas pelos criadores e traficantes (pelo seu canto alto e bonito). "Desde criança eu observava quando esta ave passava voando alto e cantando ao migrar de um habitat para outro", relembra Aramy. Ele a viu somente aprisionada em gaiolas trazidas por traficantes. Hoje, eles estão protegidos na Fazenda Matias, onde tem os projetos Biqueira Velha e Natureza Livre. O Azulão Nordestino é hoje a ave símbolo da extinção no Nordeste. Aramy já alertou as autoridades, através da imprensa, sobre o sumiço do pássaro. A região perdeu também a Engraxadeira e o Sabiá Branco. O lado bom da migração à Fagundes é que elas estão se reproduzindo. Como a maioria das propriedades não permite caça e captura de animais, devido aos projetos ambientais, a tendência é preservação. Link: http://deacordocom.blogspot.com.br/2011/01/sertanejos-noagreste.html?q=SERT%C3%83O


pega de boi

A

do cariri

s imagens de um boi correndo por entre os matos secos e o solo barroso, perseguido pelo vaqueiro fortemente alaranjado, vestido com gibão e esporas, podem retratar a violência humana dominando a natureza. Mas retratam também o verdadeiro esporte nordestino, a Pega de Boi. Criado há muito tempo na Caatinga sertaneja, a Pega ainda resiste como cultura popular da cidade de Zabelê, no Cariri paraibano. Imagens desse esporte rústico foram feitas pelo fotojornalista de Campina Grande, Antônio Ronaldo. Ele teria ido fazer umas fotos das paisagens locais e descobriu o esporte. “Ao contrário da vaquejada, na qual o boi acaba sendo pego porque não tem chance de defesa, a Pega do Boi é feita em mato aberto, local onde o animal consegue, muitas vezes, driblar o vaqueiro”, disse. Percebendo que se tratava de uma ritualística tradicional e notando a quantidade de signos que o esporte revela, o fotojornalista fez o ensaio que já foi exposto no Museu de Artes Assis Chateaubriand e em outros pontos da cidade. Essa linguagem visual, abordada pelo olhar sensível do profissional, é de fácil assimilação para qualquer pessoa devido ao apelo. Cercados pelas vegetações espinhosas ou banhados pelo sol escaldante do Cariri, os vaqueiros ganham força, resistência e são personagens que despertam a curiosidade. Devido a essa indicação, a mensagem nas fotos, de que o Cariri possui características da cultura popular como uma tradicional competição, pode atrair olhares até de pesquisadores. A linguagem visual vem ganhando cada vez mais espaço principalmente com o advento das novas tecnologias de produção de textos. Hoje, mais do que antes, a imagem precisa casar bem com um texto, que já é de formatação eletrônica. E para que saber disso? Porque somos seres humanos exploradores e descobridores de novas formas de comunicação. Como bem observou Francisco Edmar Cialdine Arruda: “Estudar a linguagem, o signo e os sentidos é muito mais do que entender 'significante e significado' de Saussure. É estar atento às várias maneiras e modos com os quais nos comunicamos. A fala aliada aos gestos e ao tom de voz, as roupas que usamos, tudo pode dizer muito mais do que parece porque a linguagem faz usos de várias modalidades semióticas em maior ou menor grau. Esta é a Teoria da Multimodalidade, base da Semiótica Social. É o campo de estudo que vem chamando a atenção de muitos pesquisadores, a ponto de hoje discutirmos a importância do 'letramento visual' para a educação.”

Antônio Ronaldo é formado em Tecnologia Gráfica pelas Escolas Theobaldo de Nigris e Felício Lanzarra-SP e em Jornalismo pela UEPB. Além de atuar no jornalismo diário na Paraíba, onde trabalha as temáticas sociais, desenvolve projetos documentais na área de cultura de tradição oral e ainda produz imagens para publicações voltadas ao turismo. BASEADO NO TEXTO: http://deacordocom.blogspot.com.br/2009/07/fotografia-pegasde-boi-e-semiotica-do.html?q=popular


Cassino Eldorado, um dos antigos cabarés da Feira

Valdívia Costa é autora de e-book desde 2012, quando lançou o primeiro de uma série e livros de crônicas inicialmente publicadas no blog De acordo com. O primeiro e-book, Cronicalmente Humana, possui textos de uma década, com perfis de pessoas obsessivamente “negativas”. Publicou a biografia do empreendedor que trouxe o gás natural para a Paraíba, José Maciel (2011) com a jornalista Ana Cláudia Papes. O De acordo com foi premiado no Top Blog (2009/10/11) como um dos 100 melhores do Brasil. LEIA O “CRONICALMENTE HUMANA”: www.issu.com/valdacosta/docs/cronicalmente

CronicalMente POPULAR  

Segundo e-book do blog "De acordo com". Vinte textos sobre lugares e pessoas. "Próprio do povo, relativo ao povo, conhecido, rotineiro, comu...

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