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Detetive Siltra, O fato de você receber essa carta não significa que eu confio em você. O fato de você receber essa carta meramente indica que estou sem opções e fazendo o que talvez deveria ter feito antes: recorrer à polícia. De todas as pessoas com quem me encontrei naquela noite, você me pareceu a mais confiável. Não que isso seja um elogio. Sua reputação como detetive certamente não é das melhores, mas entre investigações fracassadas, uma família que não aceita sua carreira profissional e colegas conhecidos pela corrupção, você certamente pode ser chamado de sobrevivente. A minha introdução será breve. Identificação não é o meu objetivo, embora isso seja inevitável. Nós dois sabemos quem somos, e eu certamente sei mais a seu respeito do que você imagina. O motivo? Caução. Eu Negra Cicatriz | O Parto da Dor


preciso de alguma garantia de que você não vá se tornar meu inimigo. Esta é minha demanda. A minha oferta, no entanto, é a minha versão dos fatos. Algo que você pediu após me resgatar daquele armazém, e algo que eu claramente não estava em condições de oferecer. A verdade se manifesta de maneira bem mais clara agora e, por isso, decidi cooperar. Não pude fazer isso pessoalmente — por motivos que irei revelar —, mas ao menos você fica sabendo que não entregou seu cartão em vão. Antes de cogitar a possibilidade de que eu seja um suspeito, leia a verdade. Avalie os fatos e as circunstâncias. Somente assim você saberá o que realmente aconteceu naquela noite. Esta é a minha perspectiva. Arthur Protasio


Negra Cicatriz


A Iminência do Caos

Uma placa azul enferrujada, daquelas pregadas em prédios, dizia o nome da rua: Avenida Imperial. Conferi o nome com o endereço que eu havia escrito no guardanapo. Eu estava no lugar certo, apesar de não haver qualquer coisa de imperial nos arredores. A chuva descia do céu negro e abafava os ruídos de trovões ao fundo. A perfeita noite para estar em casa, e ali estava eu, em uma ruela com postes que mal iluminavam o chão, e um esgoto congestionado descendo com dificuldade pela canaleta ao lado do meio-fio. Contribuí para aquela sujeira e joguei o já molhado e despedaçado guardanapo no pequeno canal. Arthur Protasio


O toque de atraso era evidente. Era uma rua com prédios do início do século, divididos por uma faixa estreita de paralelepípedos. Eram amarelos ou azuis, mas independentemente da cor estavam todos descascando e revelando o vermelho dos tijolos em diferentes pontos. Traziam-me lembranças dos olhos de Sofia. (Mas essa é outra história.) Uns dois ou três postes se destacavam do resto e conseguiam iluminar, de maneira precária, o que ainda sobrava da rua. Entre o intervalo dos dois primeiros havia uma área vermelha, iluminada pelo piscar intermitente de um letreiro antigo que dizia Fun House. O que antes devia ser uma excelente estratégia de publicidade, agora só atraía o olhar hipnotizado de um mendigo que se abrigava debaixo de uma marquise na calçada oposta. Que raiva. Não bastasse um encontro frustrado, agora eu estava cogitando puxar papo com mendigos. Mas desde o início do dia, eu já havia notado a iminência do caos. Mais cedo, quando acordei, havia perdido a hora. Algo estava errado. Meu hábito de passar as madrugadas escrevendo nunca facilitou minha relação com os horários “humanos” de dormir. O sol que me acordou naquela tarde era de despedida: o sol das cinco, que, ao buscar se pôr, atingia meus olhos bem entre as pálpebras.

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Levantei do sofá no susto. Tudo que passava pela minha mente era Laura. Pensei que tivesse perdido o horário. Eu dizia estar esperando o momento ideal para ligar, mas isso claramente era um eufemismo para “eu tentava achar coragem pelos últimos dois dias”. Como ela costumava sair do trabalho por volta das seis, foi apenas no desespero inconsequente que consegui pegar o telefone e discar o número. — Alô? — a voz dela tinha quase o mesmo efeito da visão de uma medusa. — Oi Laura. Sou eu... Tudo bem? — aquilo era mais difícil do que eu imaginava. — Tudo — e ela não facilitava a situação. — Eu queria pedir desculpas. Faz algum tempo que a gente não se fala. — Um bom tempo — ela realmente não facilitava. — Eu sei. Lá no trabalho, eu... todos sentimos sua falta. Como vai a nova vida? — Vai bem. Só que eu não posso falar agora. — Ah, tá. Tudo bem — minha esperança gradualmente se esvaecia. — Olha, eu também sinto sua falta e eu sei por que você está ligando. A gente precisa conversar. Minhas artérias travaram e meu coração congelou. Minha esperança era uma: tentar remover a lâmina emocional para cicatrizar o quanto antes.

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— Hoje à noite. Que tal? — a lógica era a mesma de um curativo. Arranque-o de uma vez. — Onde? — No Famiglia. Aquele restaurantezinho na — Eu lembro. Mas ainda estou no trabalho. Vou ter que ficar até mais tarde. Pode ser nove e meia? — Claro. Nove e meia, então. — Que bom ouvir sua voz. Eu estava com saudades. — Eu também, Laura. Beijo. E assim foi finalizada a minha tortura. Algo que eu mal saberia como comparar a eventos futuros. O tempo passou de maneira muito breve. Tentei evitar ao máximo pensar nela e no que eu deveria falar. Tentei trabalhar ao máximo e me concentrar nas minhas tarefas. Acabei não fazendo nada. Quando saí do chuveiro vi que a previsão havia sido solidária comigo: a transição se deu de um sol melancólico para um temporal de lágrimas. Antes de sair, peguei meu sobretudo atrás da porta para me proteger da imponente chuva. Uma coisa levou à outra e, não bastasse a minha situação emocional, fui recepcionado por uma pilha de cartas e contas a serem pagas, que crescia no chão. Apesar do meu apartamento nunca ter sido organizado, a pirâmide de cartas era um novo hábito; um mau hábito, Negra Cicatriz | O Parto da Dor


pois ao passar por cima daquele amontoado de papéis, eu resmunguei, sem perceber o caos que poderia ter sido poupado caso eu tivesse sido mais atento. Decidi visitar o mendigo em seu refúgio particular. Aproximei-me do infeliz e perguntei-lhe se tinha visto alguém entrar no local. Era difícil estabelecer contato visual naquele alternar entre a escuridão e o piscar da luz vermelha. Não coincidentemente, a minha resposta foi a hipnose do letreiro decadente. Uma hipnose tão forte que justificava o cigarro amassado que o mendigo mordia com a ponta dos dentes. Uma cena muito similar a corpos que, em rigor mortis, relutavam em largar determinados objetos ou sair de certas posições. Se eu não fizesse nada, aquela criatura iria morrer daquele jeito... mas corpos não fumam. Enfiei a mão no bolso e tirei meu isqueiro prateado. Tateei o inconfundível alto-relevo da cabeça de gárgula. Não tinha erro: desde que houvera conquistado o isqueiro naquela aposta, nunca fui decepcionado por ele. Lentamente estendi minha mão em direção à estátua humana. Deixei bem clara a minha intenção de dar vida ao seu vício, e apesar do seu olhar se manter fixo, o sorriso no canto da boca indicava que ele esperava pelo toque final. A pequena chama gladiava contra o vento, mas ainda conseguia Arthur Protasio


promover uma luz muito bem-vinda debaixo daquela marquise medonha. Acendi o cigarro. O homem, estupidamente, inalou e sugou com toda a força, como se aquilo fosse perfume. Enquanto ele tossia, o fedor da fumaça se espalhava, assim como o diálogo. — Que você quer? — Saber se você viu alguém. Uma garota de pele bem branca com cabelos longos. Cabelo totalmente preto, liso, com as pontas claras. O mendigo me olhava com dificuldade. Seus olhos tremiam e eu não conseguia distinguir a diferença entre ele tentar me ludibriar e a condição de ser mentalmente incapaz para responder. Continuei com a descrição. — Olhos claros, quase amarelados. Magra e nariz pontiagudo. — Pontiagudo? Fala logo que ela tinha narigão — ele parou para soltar uma mistura de tosse com risada. — Eu vi. Muita gente rica e arrumada. Daquelas de terno e vestidos que arrastavam no chão. Um velho baixinho e essa gostosa chegaram num carro preto cheio de segurança. Nada disso soava bem. Aquele certamente não era o lugar para pessoas bem arrumadas. Apesar de “gostosa” não ser a referência que eu procurava, LauNegra Cicatriz | O Parto da Dor


ra tinha esse efeito inebriante, e meses atrás ela havia mencionado que seu chefe era um sujeito mais velho. Daqueles que devem tirar a dentadura antes de dormir. Poderia ser um erro, mas eu não tinha nenhuma outra pista.

Eu não contava com o luxo da dúvida.

Enfrentei o temporal mais uma vez para atravessar a rua e cheguei debaixo da marquise da casa de diversões, onde um gigante engravatado me esperava. Não havia fila para a tal Fun House, o que era de se esperar. Já era tarde e o lugar parecia ser dos piores possíveis: um cabaré barato, sujo, de pouco movimento e do pior público. Das duas, uma: caminhavam em direção à falência ou lavavam dinheiro. Nada similar ao Famiglia, onde supostamente as coisas deveriam ter dado certo. Lembro que quando cheguei ao restaurante, já estava encharcado. O toldo verde com detalhes dourados mal conseguia anunciar o título Famiglia debaixo de tanta água. O fato de não estar com meus óculos também não ajudava. Apesar da miopia não ser das piores, tentar enxergar algo por aquelas lentes naquele temporal seria tão inútil quanto. Achei a mesa que eu havia reservado e sentei. Pendurei o casaco na cadeira e fui ao banheiro secar Arthur Protasio


o que era possível com papel-toalha. Um dos garçons, conhecido meu de longa data, já me vira e preparava a mesa enquanto isso. Ao retornar para a mesa, perguntei: — Alguém apareceu por aí? — Não. Por quê, chefe? — Enrico indagava com um leve sotaque italiano arrastado. — Já são 21h50, e geralmente eu é que chego atrasado. — Mas com essa chuva tudo demora para acontecer. Se é mulher, ainda mais. Qual o nome dela? — Laura. — Laura? Que coincidência. — Não. É a Laura. — A Laura? — É. A Laura.

Assim, o tempo começou a engatinhar. A água do

copo descia gelada, travando a cada centímetro da garganta, e o relógio marcava 22h00 havia mais de vinte minutos. O barulho do temporal na rua mal me deixava pensar, e o vento frio que soprava da calçada tornava aquela noite ainda mais inconveniente. Talvez ela tivesse desistido. Minhas unhas arranhavam o celular no bolso, e eu constantemente o retirava de lá achando que alguém estaria ligando. Eram 22h15, e a única ligaNegra Cicatriz | O Parto da Dor


ção que eu recebera havia sido da minha paranoia e ansiedade. Eventualmente abri o celular e disquei o número de Laura. O intermitente toque se repetia no meu ouvido, mas sem qualquer voz para cessá-lo. Ela devia ter desistido. Pedi mais água e tentei evitar olhar para o relógio. Fiz um pacto mental de que se ela não chegasse até as 22h30 eu iria embora. Contudo, como se as minhas preces tivessem sido atendidas, o telefone tocou: — Oi, Laura. — o identificador de chamadas me permitiu um mínimo de naturalidade. — Socorro!!! — a voz dela soava tudo, menos calma e natural. Mas o som no fundo era ensurdecedor. Uma pesada batida eletrônica parecia propositadamente atrapalhar a comunicação. — Laura! Eu não consigo te escutar. Fala mais alto. — E-Eu não sei o que eles vão fazer comigo. — O quê? — o garçom certamente viu minha pálida face nesse momento. — Eles me trouxeram pra Fun House. Eu consegui ver que fica na Avenida Imperial. Me ajuda! — a voz dela havia despencado de cautelosa para desesperada e soluçante. Enquanto isso eu anotava a informação num guardanapo da mesa. — Eu vou chamar a políc Arthur Protasio


— Não! Polícia não! Não sei quanto tempo eu tenho! Vem logo!

Logo em seguida, vozes masculinas infiltraram

a linha, juntamente com a música eletrônica, e a ligação foi encerrada. Tentar ligar de volta seria uma estupidez que poderia colocá-la em mais perigo. Portanto, fiz a escolha mais óbvia e perigosa que qualquer um faria na minha situação: Neguei minha inexperiência e fui resgatar a minha donzela. Mas apenas os tolos ainda acreditam em cavalheirismo. O provável ex-lutador de luta-livre falou alguma coisa indicando que queria me revistar. Como não queria causar confusão ou sair com a cara amassada, obedeci. Afinal, qualquer ameaça da minha parte me faria perder alguns dentes em meros segundos. Meu sobretudo foi examinado de maneira cuidadosa, sendo avaliado cada bolso. No último bolso foi encontrado um resto de rosa. Sem caule e amassada, mas ainda assim, uma rosa… Ou o que restava do presente de Laura. O homem segurava algumas das pétalas na mão e me olhava fixamente. Pode jogar fora. — respondi. Agora já perdeu o sentido.

Negra Cicatriz | O Parto da Dor


A rosa podia ter perdido o seu propósito, mas cada vez mais eu me perguntava se a minha aventura ainda tinha algum. Em vez de chamar a polícia, eu prossegui. Em vez de repensar a situação, eu corri. Minhas ações não passavam pelo filtro da sã consciência. Filtro esse que pensaria muitas vezes antes de investigar um sequestro em um cabaré daqueles, mas não era a primeira vez que eu passava por isso. Não era novidade: as emoções negam qualquer lógica.

Arthur Protasio


A noite mal tinha começado e as pistas eram escassas, mas um bom detetive já deveria ter deduzido o esboço desse quebra-cabeça. Você, no entanto, permanece com esse olhar vazio. Tenha calma, Siltra, ainda nem cheguei na melhor parte.

... Negra Cicatriz é um universo de mistério, investigação e vingança concebido por Arthur Protasio. “O Parto da Dor” é seu primeiro episódio e narra a experiência traumática — ou melhor, a cicatriz — de um não-tão-experiente protagonista que recebe um irrecusável pedido de socorro. Inspirado por obras de varias mídias como as séries Sin City, Jogos Mortais e Hitman; e por autores como Raymond Chandler e Charles Bukowski; este é um mundo contemporâneo em que a sociedade permanece asquerosa — como sempre foi e há de ser. Sejam pequenas, feias, motivo de orgulho, acidentais, físicas ou psicológicas; cada cicatriz é uma história. As únicas pessoas que não as exibem são aquelas que conseguem escondê-las ou as que em breve as terão.


Editora Oito e Meio convida para o lanรงamento do livro

Negra Cicatriz O parto da dor de Arthur Protasio

Compareรงa ao evento!

12/12/2013 | 19:00 h Travessa dos Tamoios, 32 - C. Flamengo, Rio de Janeiro


Arthur Protasio é um amante de narrativas: um ávido ouvinte, contador e criador de histórias. Um bardo (noir) determinado em criar experiências que instiguem a reflexão e deixem marcantes cicatrizes no âmago de seus leitores – mas estas, agradáveis. Conhecido por sua excêntrica persona, o LudoBardo, esse roteirista, designer de narrativas e pesquisador acredita que qualquer mídia pode contar histórias engajantes. Inclusive, você pode encontrar boa parte das suas publicações e criações, como artigos acadêmicos, vídeos, contos e jogos, disponíveis na internet – mas essa, é outra história...


Zózimo Neto

é apaixonado por games, animação e histórias em quadrinhos desde criança. Formou-se em Design e seguiu carreira no mercado de jogos, atuando desde 2006 nessa área. Participou da produção de vários jogos para diferentes plataformas, além de ter palestrado em universidades e publicado artigos sobre a área. Está sempre disposto a realizar trabalhos paralelos relacionados a design gráfico, animação e ilustração. Ao ser convidado pelo Arthur Protasio para dar “cara” ao Negra Cicatriz, o designer aceitou com prazer o desafio de participar da produção desta intrigante narrativa gráfica.


— Deixa ela relaxar, Fred. Por minha conta — interferi na conversa, mas por muito pouco minha voz não fraquejou. Por fora eu sorria, por dentro eu suava que nem um porco pouco antes do abate.”

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Negra Cicatriz: O Parto da Dor [PRÉVIA]  

Disponível nas livrarias! Adquira sua versão impressa diretamente com o autor em: http://www.facebook.com/negracicatriz

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