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Por Rafaela Carvalho Camilo

Amy esfregou as mãos que, mesmo enluvadas, estavam prestes a congelar. A neve caia rodopiando ao seu redor e a garota Moroi estava prestes a desistir e voltar para a festa “super badalada” da qual havia saído. Sem chance. Podia imaginar o quanto parecia patética plantada no jardim; reclamaria do ponto de encontro, se não tivesse sido ela a tê-lo escolhido. Tinha passado em seu dormitório para se agasalhar, mas mesmo o sobretudo pesado, as luvas, o cachecol e o gorro não eram o suficiente contra o frio invernal de Montana. Olhou seu celular para ver se havia uma mensagem e se decepcionou ao notar que Dylan não dera notícias e que já eram 23:14. Ele está atrasado, pensou. Decidiu ir embora, não voltaria à festa, porém seu dormitório parecia uma ótima ideia, bem mais confortável e aquecido. Assim que se virou para entrar na escola novamente, ouviu seu nome sendo chamado atrás de si. “Amy?” seria impossível não reconhecer aquela voz, sentiu-se cálida internamente, todo o frio esquecido. Antes que percebesse o que estava fazendo correu para ele, praticamente

jogando-se em seus braços fortes que a seguraram sem dificuldade alguma. “Você está atrasado.” Disse, com o rosto enfiado no pescoço dele, enquanto inalava o maravilhoso perfume de sabonete que ele exalava. Dylan a apertou delicadamente contra seu peito. “Culpe Zack, ele bebeu demais de novo e alguém – que obviamente fui eu – teve que leva-lo ao seu quarto.” “Lembre-me de dar um soco nele por isso amanhã.” Ela riu enquanto se afastava. “Que lindo espírito natalino o seu.” Respondeu, acompanhando-a na risada.


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“Seu também, porque alguém terá que segurá-lo.” Ela piscou “Vem, vamos sair daqui, achei que fosse um ótimo lugar para um encontro, mas se morrermos congelados não será lá muito romântico.” Ele concordou a pegou pela mão, conduzindo-a para o lado de dentro. Assim que as paredes de pedra do edifício os abrigaram do vento, Amy quase pode sentir a ponta de seu nariz e as orelhas novamente.

Não pode deixar de sorrir ao olhar para ele. Dylan era alto para um dhampir, tão alto quanto um Moroi, seus ombros eram largos pelo treinamento de guardião, tinha a pele ligeiramente bronzeada mesmo no inverno e olhos de um impressionante tom castanho que lembrava à garota chocolate derretido, seus cabelos eram apenas um matiz mais escuro. Seu tom de pele típico dos Moroi, combinado com cabelos louros e olhos verde-esmeralda a faziam se sentir tão frágil e pálida perto dele.

Ele a pegou encarando-o e sorriu, usando as suas mãos já unidas a puxou para si, para que pudesse beijá-la. Amy não sabia como era o paraíso, entretanto devia ser quase tão bom quanto ser beijada por Dylan. Os lábios dele eram macios contra os seus, o toque, abrasador. O coração da garota batia forte e ela gostaria de nunca mais se separar dele. Ela o amava, tinha certeza disso, se ele a chamasse para ir a Las Vegas se casar naquele segundo a menina sequer hesitaria antes de aceitar.

Mas ele não a pediria em casamento, nem naquele momento, nem nunca. Não se dependesse do mundo no qual viviam. Sentiu a bolha de excitação que crescia em seu peito murchar e quebrou o beijo. “O que foi?” Dylan perguntou, preocupação em sua voz. “Nada.” Ela sussurrou, amaldiçoando-se por ter estragado aquele momento tão perfeito. “Amy?” Insistiu, dessa vez mais suplicante, ela sabia que, se pudesse, Dylan resolveria

todos os problemas dela. Era assim desde que ela entrara na Academia, ele cuidava dela como se já fosse seu guardião.


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A família dele protegia a dela há três gerações, suas mães foram mortas no mesmo ataque Strigoi, quando Amy tinha quatro anos e ele, cinco. Deixando-a apenas com seu pai, Richard e Dylan sob a custódia da St. Vladimir. Só que nenhum deles planejava se apaixonar pelo outro. “Nada mesmo, só estou com frio, vamos para o quarto. Cassie está passando as festas com os pais.” Se qualquer outra garota tivesse dito aquilo, soraria como um convite bem mais íntimo, mas para Amy não. Sabia que o máximo que aconteceria seria alguns beijos em sua cama, Dylan a respeitava demais para tentar qualquer outra coisa. Não que ela fosse impedi-lo se ele tentasse. *** O dormitório da garota era simples, seu lado do quarto ainda mais limpo que o de Cassie. Não tinha muitos objetos pessoais além das roupas, apenas uma foto sua com três anos sendo abraçada pelo pai e pela mãe.

“Vamos lá Amy, você sabe que pode me falar qualquer coisa.” Falou Dylan, depois de alguns minutos de silêncio entre os dois, que estavam deitados muito próximos na cama de solteiro dela. “Você vai se formar daqui a seis meses,” Ela disse, respirou fundo antes de continuar “e vai provavelmente ser guardião do meu pai.” “Sim, Amy, eu vou me formar, mas você não ficará sozinha, tem muitas pessoas aqui que gostam de você quase tanto quanto eu.”

“Não é aí que eu quero chegar.” Ela estava ficando irritada, não sabia como tinha invertido suas emoções tão rapidamente. “Depois que o ano letivo acabar, não poderemos mais ficar juntos, eu odeio isso. Odeio essa sociedade maldita que tem regras sobre quem devemos ou não amar.” Ela o sentiu enrijecer ao seu lado, sabia que ele odiava o assunto e que aquela conversa tinha uma enorme chance de não leva-la a lugar algum, Dylan era tão comprometido com sua futura função de guardião quanto sua falecida mãe fora.


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“Você sabe que não podemos mudar isso, Amy. Achei que tínhamos concordado que só poderíamos ficar juntos até a minha formatura.” Ela teria ficado brava com suas palavras, se não houvesse tanta dor nelas. “Eu te amo e sei que você me ama também, isso tinha que ser simples, poderíamos apenas ficar juntos.” Ela teimou, sabia que estava soando como uma garotinha mimada, mas sequer se importava. Quando ele não respondeu ela falou algo que estava em sua mente há muito tempo. “Nós poderíamos fugir.” “Amy, não é tão fácil assim, nós não duraríamos uma semana lá fora.” Ele respondeu pacientemente, acariciando os cabelos claros da garota com ternura. “Por que não?” Quis saber, estava obstinada demais para mudar de assunto. “Porque” ele suspirou “há strigoi lá fora e eu não suportaria que nada acontecesse com você. E não é fácil conseguir alimentadores.” “Eu sei que você poderia me proteger e eu tenho vários amigos que poderiam me ajudar

a conseguir sangue. Ou poderíamos nos juntar aos Keepers” Amy sabia que ele acharia a ideia absurda, ela também não queria viver longe da civilização. Involuntariamente fez um biquinho. “Seu pai nos caçaria até o fim do mundo, Amy. Uma Ivashkov não pode simplesmente sumir assim. Acredite eu queria, mas não posso te colocar em risco.” Ele a abraçou. “Eu odeio ser uma Ivashkov.” Agora ela estava chorando, ela apenas queria que ele concordasse em ficar com ela, sem ligar para as circunstâncias, precisava saber se seu amor era grande a ponto de sobreviver à hostilidade de praticamente todo o mundo vampiro. “Ei, shh, eu ainda estou aqui, nada de chorar, nós podemos fazer dos próximos seis meses os melhores das nossas vidas.” “Mas eu não quero seis meses, eu quero você para sempre.” Ela choramingou. Deus, devo estar parecendo patética, pensou. “Se houvesse uma maneira, você sabe que eu faria tudo para ficarmos juntos.” Ele disse, abraçando-a mais forte. “Tudo?” perguntou esperançosa.


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“Tudo, Amy, tudo.” Ele confirmou acariciando as costas dela, para confortá-la. “Então se eu falasse com meu pai e ele permitisse, você não ligaria para o que qualquer outra pessoa dissesse?” Amy estava montando a estratégia de convencimento em sua cabeça. “Ele não vai deixar.” Ele suspirou. “Pare de ser pessimista!” Ela falou, desvencilhando-se dele e sentando-se na cama. “Meu

pai me ama e quer me ver feliz, sem contar que eu nem seria a pior, afinal, um Ivashkov está noivo de uma bruxa humana que derrubou a organização de alquimistas. Eu sou praticamente um exemplo.” “Acho que prefiro a ideia dos Keepers.” Ele fez uma careta. “Mas quem sou eu para te impedir? Se seu pai não se opuser, em todo o resto daremos um jeito.” Ele se levantou também para beijá-la. Amy não se afastou, deixou-se levar pelo beijo que fez arrepios correrem por todo o seu

corpo enquanto a boca dele explorava a dela. Passou os braços em volta dele trazendo-o para si, ele era dela e ela era dele. Era só isso que devia importar. Falara com seu pai da véspera e dissera a ele que amava alguém que ele provavelmente não aprovaria. Richard Ivashkov lhe respondera que se fosse um cara decente e ela de fato o amasse (e o sentimento fosse recíproco), ele não se oporia, afinal, fora privado da companhia do amor de sua vida, não faria o mesmo com a filha. O que ela considerou uma permissão, já que seu pai conhecia Dylan desde que ele nascera; filho de uma de suas mais estimadas guardiãs, sabia que ele era uma ótima pessoa e que a faria feliz. Ela só precisava convencer o próprio Dylan a arriscar seu próprio futuro como guardião para que pudessem ficar juntos. Parecia que tinha dado certo. Enquanto se beijavam, Amy ouviu o sino da igreja localizada no campus dar a primeira badalada da meia-noite. Finalmente era natal e a garota moroi não achava que pudesse estar mais feliz, ela teria Dylan, não seria fácil, ambos sabiam disso, mas quem se importava? O amor deles conseguiria superar isso.


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Separou-se dele e sorriu, sabendo que havia esperanรงa para eles. Certamente aquele era o melhor natal de todos os tempos. O beijou novamente.


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