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FITDANCE DAVI CARAMELO GRAFITE ENDERSON ARAÚJO MODA

TEXTÃO A expressão de sentimentos que invade as redes sociais REVISTA PÔVÉI | 1


Expressão no Paredão A estética das ruas na perspectiva da fotógrafa Nailan Brasil

EXPEDIENTE TEXTOS: Davi Fonseca, Elvis Cássio, Lilian Ventura, Luiza Fabiane e Nailan Brasil. EDIÇÃO: Tailane Muniz e Ury Silva DIAGRAMAÇÃO: Ury Silva PROFESSOR: Marcos Dias 2 | REVISTA PÔVÉI

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cardápio CARAMELARTE | 4 SUANDO A CAMISA | 7 PARA SER SINCERO | 9 GERAÇÃO TEXTÃO | 11 MENINX | 14 SOTEROJAPAS | 16 O CÉU É O LIMITE | 18 EXPRESSÃO NO PAREDÃO | 19

EDITORIAL

S

obre política ou diversidade – e dividindo opiniões – os textões rendem likes e desafetos. Tendência das redes sociais, nem todo mundo fica feliz ao ver um deles surgir na timeline. Seus autores, entretanto, defendem que eles têm um papel importante na discussão e disseminação de temas variados. A repórter Nailan Brasil deu volta nos perfis dos adeptos dos grandes textos. Também nesta primeira edição, as cores e as formas dos grafites que dão cor a Salvador em um ensaio fotográfico. Já a repórter Lilian Ventura traz o novo projeto do estudante Enderson Araújo, a produtora audiovisual Anu-Preto Filmes. Tailane Muniz e Ury Silva, editores-coordenadores

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FOTO: DAVI CARAMELO/ARQUIVO


primeira pessoa Autodidata. O artista soteropolitano Davi Caramelo começou a rabiscar aos sete anos de idade. Ele se formou em Publicidade e Propaganda pela Escola Superior de Administração, Marketing e Comunicação em 2009. Pouco antes, ingressou o curso de Artes Plásticas na Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia, mas não chegou a concluir. Caramelo foi lançado ao mercado de arte na exposição coletiva Arte Comestível em 2008. Desde então, participou de diversas exposições e feiras de artes no Brasil e no exterior. Quem passa pela cidade baixa se depara com seu trabalho mais recente, o painel Yemanjá, com seis metros de largura e 12 metros de altura, pintado na Avenida da França. O publicitário chama atenção novamente nessa retomada à arte urbana. *** Por volta de 2009 ou 2010, eu realizei duas intervenções/pinturas urbanas, uma na Ondina, próximo à Avenida Adhemar de Barros e, outra na Pituba, no muro lateral ao Colégio Estadual Raphael Serravale. Foram pequenos experimentos, ao meu ver, precários. Ainda feitos em tinta acrílica para tela, era uma espécie de pintura urbana mesmo, pois levava a tinta da tela para pintura direta sobre os muros ou tapumes. Não sei se via e ainda vejo o que fazia como grafite, pois possuía uma outra linguagem, técnica e outros materiais. *** A vontade surgiu de experimentar mesmo, de sair do estúdio e da galeria, e colocar a arte no caminho da padaria, do trabalho, do cigarro das pessoas. Forçar esse choque, provocar a pausa, e de certa forma uma re-

CARAMELARTE Cores e formas que deram brilho às ruas da capital por NAILAN BRASIL

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flexão. *** Atualmente, possuo apenas duas obras nas ruas de Salvador, um lambe em frente a Biblioteca dos Barris e a Yemanjá. Em Belo Horizonte, possuo um mural em um apartamento. A obra mais importante que possuo nas ruas hoje é a própria Yemanjá, que integrou o Projeto Mural, da Trevo Produções. O painel foi responsável por despertar em mim novamente o gosto pela parede-muro como suporte, e principalmente por produzir nas ruas. *** A Yemanjá negra enorme olhando para a cidade e, ela, por si só, já carrega um simbolismo enorme. Poderia agregar elementos, caligrafar uma mensagem, mas não, apenas escolhi uma cor para passar esta mensagem, ela esta lá para quem se permite compreendê-la. *** Vejo meu trabalho com uma mensagem codificada, não tenho uma mensagem muito direta, facilmente identificável. Gosto de provocar e de gerar perguntas, discussões. *** O grafite, ou mais amplamente chamada de arte de rua, se popularizou na década de 70, na forma como hoje a conhecemos, com esse cunho de denúncia, protesto e bandeira para causas, sobretudo das minorias. Ela ainda cumpre muito bem este papel nos dias atuais, ao lado ou paralelamente as redes sociais e da internet. E por incrível que pareça, desde lá, o mundo pouco evoluiu em inúmeros aspectos sobretudo do ponto

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de vista social, ainda temos preconceito, ainda temos opressão, desigualdades e entre outros. Portanto, ela segue sendo uma arma, ainda em riste no punho de muitos artistas pelo mundo todo, sobretudo no Brasil. *** E vem sendo elevado cada vez mais ao status de arte. Lá atrás, já tinha o Basquiat, o Keith Hering, e tantos outros que tiraram o pixo e o grafite da água furtada e os levaram para as lustrosas galerias de Nova Iorque. Hoje, encabeçam a lista Banksy, Shepard Fairey, Os Gêmeos, dentre outros que contribuem e participam deste movimento de forma ativa. Este movimento para ascensão do grafite é algo bastante complexo e que integra inúmeros fatores, desde de aspectos econômicos, do próprio mercado de arte, midiáticos, sociais, da moda, tudo isto está envolvido neste panorama.

FOTO: DAVI CARAMELO/ARQUIVO

FOTO: NAILAN BRASIL

O lambe de Davi Caramelo depois de ser colado e atualmente.


FOTO: YOUTUBE/REPRODUÇÃO

PROJETO VERÃO

Suando a camisa Sensação da internet invade as academias de Salvador por Luiza Fabiane

Corpo sarado, bem estar e diversão. Modalidade que virou tendência, o fitdance promete unir estas e outras vertentes. Ao menos, é o que garante o grupo que inspirou o nome da nova sensação entre os jovens. Criado pelo empresário Fábio Duarte, o Fitdance reúne, em uma só atividade, movimentos aeróbicos, exercícios físicos e dança, muita dança. “É muito mais do que um programa de aulas de dança e aprendizado de coreografias, ele virou um estilo de vida, ideal para quem quer diversão, bem-estar, socialização e energia”, afirma Duarte. Com a correria do dia a dia, a funcionária pública Cristiana Pergola, 38, quase

não tinha tempo para se divertir. Frequentar os treinos na academia eram um sacrifício, já que faltava disposição. “Tenho aproveitado o tempo que estou na academia para me divertir, fico relaxada e a sensação é de bem estar”, salientou Pergola. Descoberta de um segredo. É assim que a vendedora Ianca Santos, 22, define a atividade. “Atividade física alinhada a uma alimentação saudável é o que há de melhor, praticando fitdance pude perceber”, relatou. Segundo Ianca, a dança possibilita que ela consiga se expressar melhor. “Vi que já tinha a dança dentro de mim e a partir dela consegui colocar emoções para fora”, finalizou ela, que pratica fitdance há cinco meses. O educador físico Albert Costa, 24, esclarece que a modalidade é eficaz, especialmente, para os que buscam perder aqueles quilinhos indesejados. “Uma hora de dança pode chegar à perda de 300 a 400 calorias. Isso envolve a frequência cardíaca, além do exercício do corpo e da mente,

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Albert e uma das suas turmas de fitdance

o que, naturalmente, ocasiona a perda de peso”, salientou ele, que faz parte do Fitdance há pouco mais de um ano e meio. Para Albert, a prática do fitdance possibilita aos praticantes uma experiência de conhecimento com o próprio corpo. De acordo com Fábio Duarte, a modalidade é procurada por muitos jovens, já que oferece exercícios ligados à pratica de uma didática moderna e de fácil assimilação. Onde encontrar Academia Alpha Fitness 7Stella Mares Rua Cap. Melo - Stella Maris, Salvador BA, 41600-610 Telefone: (71) 3374-1736 Valor anual: R$ 2558,00 – Mensal: R$215,00 Academia Well Rua Mello Moraes Filho, Fazenda Grande do Retiro, Salvador - BA, 40352-355 Telefone: (71) 3258-7326 Valor anual: R$598,90 – Mensal: R$ 79,90 Academia Prime Fit Rua Wenceslau Galo, Nº 10, -, Cosme De Farias, Salvador - BA. Valor anual: R$ 838,80- Mensal: R$ 69,90 Telefone: (71) 3011-3344

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Mais visualizados Na internet, o grupo FitDance conta com, aproximadamente, 2,5 milhões de inscritos e mais de 600 milhões de visualizações no seu canal no YouTube. Cerca de 483 mil pessoas seguem o seu perfil no Instagram e 200 mil curtem a fanpage no Facebook. Confira as coreografias mais assistidas no site de compartilhamentos de vídeos do Google:

https://youtu.be/vWBoLMl_cVw

https://youtu.be/FvvhFljE-4U

https://youtu.be/FvvhFljE-4U


papo reto

PARA SER

SINCERO

Transparência que auxilia na busca pelo emprego por davi fonseca

Tenho disponibilidade para mudar de cidade, tosar o cabelo e enfrentar o novo (tosar o cabelo vou ficar devendo) – ah, também não vou colocar meu CPF porque meu nome está no SPC. Contrariando todas as formalidades, é assim que a quase administradora Juliana Maria dos Santos, 34 anos, se identifica no seu currículo profissional. Quase bacharel em administração porque, por motivos de “questões técnicas no bolso”, ela não finalizou a vida acadêmica. A quase-formada, que saiu de Juazeiro em busca de uma vida melhor na capital baiana, parou a faculdade no sétimo período e encontra-se desempregada desde 2014. Mas garante: tem habilidade na área de vendas e recepção. Morando com a sogra no bairro da Caixa D’água, Juliana confessa sua necessidade em ajudar a pagar as contas. E na hora de fazer diferente, surgiu a ideia de criar um currículo no modelo que ela intitulou de super sincero. E transparência não parou por aí. “Meu nome está no SPC, mas não é por-

FOTO: JULIANA MARIA/ARQUIVO

que sou caloteira, é porque estou com um débito na faculdade e estou sem grana para pagar", completa, no documento. Quanto à última experiência profissional, ela comenta: "Foi em uma loja de informática, lá era tudo ótimo, chefe, colegas, só que, como nada é perfeito, o salário não era lá uma Brastemp”, lembrou ela, acrescentando que a empresa acabou fechando em decorrência da crise. A iniciativa de Juliana ainda não lhe rendeu um emprego, mas garantiu curtidas em redes sociais, convites para seleções e até uma aparição em um programa de TV. Pensando em ajudar outras pessoas que, como ela, encontram-se desempregadas, criou um grupo no Facebook divulgando vagas e dando dicas sobre como participar

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de entrevistas. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), metodologia iniciada em 2012 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a Bahia atingiu, no terceiro trimestre do ano (julho a setembro), a marca de 15,9% de desempregados. Segundo o levantamento, a Bahia possui 1,151 milhão de desempregados – 22 mil a mais do que valor registrado no trimestre anterior, entre os meses de abril a junho. Umas das beneficiadas pelo grupo de Juliana foi a administradora Kelly Patrícia, 22, que acabou de concluir o curso de nível superior e segue na busca pelo início da carreira. “Segui os passos dela nas redes sociais, quando percebi o número de curtidas e compartilhamentos. Hoje, acompanho diariamente as vagas que são postadas”, conta. Para a psicóloga e analista de RH, Mariana Queiroz, é importante atender a determinados quesitos na hora da entrevista. "Postura criativa nesta busca por emprego é muito positiva, principalmente em momentos de crise. Atitudes que chamam atenção dos selecionadores, como postagens na internet, faz com que os candidatos saiam na frente de muitos outros", afirma a especialista. A psicóloga alerta para a elaboração do currículo que, segundo ela, deve ser feito baseado no objetivo da vaga e direcionando sempre para a função desejada. A honestidade do currículo de Juliana foi bem avaliada por Mariana, que analisa que a verdade é essencial para o pleito de qualquer vaga e garante o sucesso do processo seletivo, tanto para a empresa, como para o candi-

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dato. Ainda de acordo com a especialista, dessa forma o trabalhador se destaca e aumenta as possibilidades de ser chamado para uma entrevista, como foi o caso de Juliana. Quem precisa de uma mãozinha extra na hora de colocar seus conhecimentos no papel pode contar com o suporte da agência de empregos Sinebahia. Às segundas, das 8h30 às 11h30, a instituição oferece um curso de orientação ao trabalhador, que auxilia a elaboração do currículo e também indica como o profissional deve se comportar durante uma seleção. O curso oferece uma média de 50 a 60 vagas. “A gente começa falando sobre a importância de ter um documento adequado, apontando o que deve ou não constar no arquivo”, explica a psicóloga do Sinebahia, Juliete Barreto. Outro momento do treinamento é a prática, quando os candidatos comparam um modelo coerente e outro inadequado, onde percebem erros e acertos.


capa

GERAÇÃO

Textão

Uma galera que abusa da liberdade de expressão nas redes sociais por NAILAN BRASIL

Lá vem textão. O comentário é feito por muitos internautas que abrem suas redes sociais e esperam ver fotos, pequenos comentários ou apenas títulos de matérias jornalísticas e, no entanto, acabam encontrando textos grandes de temáticas variadas. A inquietação diante de assuntos de grande repercussão no país é o principal motivo para que o empresário Gabriel Lima, 26 anos, dedique horas de sua vida a escrever textões no Facebook. "Escrevo sobre o que me causa algum tipo de indignação", relata. Segundo ele, que divide as horas do seu dia entre o trabalho em uma fábrica de livros e sua própria empresa de segurança, meia hora é suficiente para fazer uma boa postagem. Violência contra mulher. O assunto, tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2015, encabeçou o texto que rendeu a Gabriel quase 13 mil likes e

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mais de cinco mil compartilhamentos. À época, com 800 amigos, o empresário recebeu mais de mil novas solicitações de amizade. O motivo? Milhares de mulheres se identificaram com o texto e, pasmem, adicionaram para pedir dicas de como lidar com as situações de violência. "Resolvi escrever porque um amigo fez um texto afirmando que os homens morrem mais do que as mulheres, na época, me indignei porque ele fez parecer que elas se vitimam, aquilo me assustou", lembra Gabriel, que acabou recebendo ameaças de morte depois de se expressar na rede. "Costumo relatar acontecimentos do meu cotidiano. Coisas que normalmente acontecem comigo", revela o estudante de jornalismo Welber Santiago, 26. A razão dos textos grandes, garante ele, nada tem a ver com a busca por milhares de curtidas. "Eu não busco a atenção das pessoas que me seguem, apenas são posições que tomo, publico com intenção de informar", pontua Welber, que acredita que imagens acabam sendo mais repercutidas que os grandes textos.

to explica que a falta de acesso à informação com credibilidade prejudica o diálogo entre os grupos e ocasiona, inclusive, situações de ódio. "O desconhecimento cria um coletivo de ódio mútuo, o que impede que um diálogo produtivo prevaleça", garante. Ainda segundo Zeca, a falta de busca pelo conhecimento multilateral pela população, acerca de acontecimentos no país, não dá margens para conversas fluentes nas redes sociais. Para Gabriel, é preciso ter cautela na hora de se expressar. "Liberdade de expressão é uma coisa que as pessoas não têm muito o limite e algumas não entendem a delimitação disso", completa. Segundo o empresário, a geração dos grandes textos é, muitas vezes, um reflexo do desejo de ser popular na web. "Se antes a gente tinha as pessoas populares das escolas, hoje nós temos a busca pela popularidade na rede, tudo convertido nas curtidas. É aquela coisa da pessoa ser a estrela do filme da vida", finaliza.

Embora repercuta apenas a própria vida, os grandes textos escritos por Welber já lhe renderam consequências indesejáveis e inesperadas. "Já perdi as contas de quantas vezes o meu perfil no Facebook já foi invadido. Isso, só esse ano", lamenta. Ainda segundo ele, foi uma surpresa ter de lidar com a reação das pessoas ao que ele escreve. "Eu realmente falo o que penso", reitera.

Rede de empoderamento Já a estudante de jornalismo e blogueira Rebeca Teresa, 23, aproveita o espaço em seus perfis virtuais para fazer manifestações de fé, além de postagens que reverenciam a cultura e beleza negra. ''Quando estou inspirada, gosto de escrever. Sei que as coisas que escrevo não vão mudar para sempre a vida de alguém, mas algumas coisas servem para reflexão. Todos nós precisamos de um momento desse'', diz.

O historiador e jornalista Zeca Peixo-

Em um post onde se assume enquan-

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A blogueira Rebeca Teresa usa as redes sociais para falar sobre fé, cultura e beleza afro

“Hoje nós temos a busca pela popularidade na rede” to mulher negra, a blogueira incentivou uma de suas seguidoras, uma adolescente, a assumir o cabelo natural – também por meio da rede social, a garota agradeceu a Rebeca.

redes sociais. É o que conta Zeca Peixoto. ''Desde a década de 90, quando a internet ainda era incipiente em boa parte do mundo, em países como os EUA, por exemplo, a web já começava a ser tomada por ativistas", explica. O mesmo se viu na cidade de Seatlle, segundo o historiador, quando uma grande mobilização de pessoas, não só de estadunidenses, foi registrada durante a reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC), que desenhava a intervenção neoliberal no restante do planeta'', esclarece.

O engajamento na web resultou em movimentos sociais de expressão, inclusive, antes de 2013 – ano que ficou marcado por grandes protestos organizados nas

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comportamento

Liniker é uma das personalidades que quebram os esteriótipos FOTO: RODRIGO MALTCHIQUE

MENINX

Moda para mexer com cabeça de todos os sexos por LILIAN VENTURA 14 | REVISTA PÔVÉI


Roupa de homem e roupa de mulher. Uma determinação que é possível encontrar, por exemplo, nas seções que dividem as lojas de vestuários. Há quem acredite, no entanto, que a moda livre de padrões, chamada agênero, possibilita todos a tudo. Neste universo, você não precisa, necessariamente, ser mulher para vestir uma saia. Ou homem, para optar por uma bermuda cuja estampa te chamou atenção. Sem estereótipos, defendem os mais entusiastas. É o caso da estudante de design de moda Daiane Santos, 26 anos. “São universais, vestem ambos os sexos e são livres de estereótipos. Muito se fala nas redes sociais sobre igualdade de gênero, no entanto, as pessoas ainda não aceitam ver um homem de saia”, relata. As modelagens não têm um gênero definido. O mais importante é sentir-se bem, segundo ela. O quão normal é, para você, ver um homem usando um vestido rosa, por exemplo? De acordo com o produtor de moda Luã Lima, 21, usar roupas sem segmento determinado não modifica a orientação sexual. “Trata-se de expressão política, autoconhecimento e desprenderse de pré-conceitos”, defende. O que define se uma roupa é masculina ou feminina? Considerando cortes, formatos e até as cores, todo mundo sabe, ainda que institivamente, o que, teoricamente, foi feito para determinado sexo. Para as crianças, é comum ver o azul representando os meninos e, o rosa, as meninas. A tendência, que vem se destacando entre os jovens, é uma das marcas do cantor e compositor Liniker. Em recente apresentação no Pelourinho, em setembro, defendeu o direito de usar e vestir o que quiser. “Por que não posso ser uma mulher de barba que usa batom?”, indagou ao pú-

blico, completando que, para ele, tanto faz ser chamado no feminino ou masculino. Embora tenha representatividade até no mundo artístico, a moda “vale tudo” ainda não incorporou totalmente na capital baiana. Ao menos, é no que acredita o olheiro e fotógrafo da agência One Moldels, Ítalo Soares, 25. “É bem mais fácil vermos trabalhos em que mulheres vistam peças masculinas, do que homens vestindo peças femininas”. Ítalo acredita que uma espécie de doutrina masculina, exemplificada na obrigatoriedade do alistamento no Exército Brasileiro, por exemplo, dificulta a aderência por parte dos homens. O fotógrafo, que tem mais de cinco anos no ramo e também já trabalhou na agência Scouting Model, diz que a moda sem rótulos é uma expressão política. “Vestir-se de forma agênero é expor a própria identidade. Diferentemente de sexualidade, como muitos ainda confundem”, reitera. Exagerado. É assim que o estudante de jornalismo André Pavel, 26, define o estilo livre. “Acho que acaba até afastando algumas pessoas, não é o meu caso, mas acho feio e exagerado um homem se vestir com roupas femininas ou usar maquiagem. O mesmo penso das mulheres que optam por roupas mais masculinas, não curto muito”, comenta. Já para o modelo que representou Salvador no Mister Bahia Tour 2016, Caio Chagas, 23, algumas pessoas se apropriam de determinadas tendências apenas para pertencer a um grupo, por ocasião. “Um ou outro se arrisca numa tendência mais ousada, como é o caso da moda livre. A moda pode servir para expressar uma maneira, talvez, mais irreverente e, às vezes, um pouco mais rebelde”, pontua. REVISTA PÔVÉI | 15


bora

SOTEROJAPAS

Quando a cidade da boa música e a terra do sol nascente se misturam por Elvis cássio

Quem for a uma banca de jornal ou livraria vai encontrar histórias em quadrinhos japonesas sendo comercializadas. A cultura da terra do sol nascente pode aparecer, também, em forma de desenho animado. É possível encontrar, inclusive, alguém travestido de um personagem nipônico, a caminho de um evento de cultura pop japonesa. Entusiasta da cultura, o administrador Frederico Dias, 32 anos, se veste de personagens ficcionais relacionados a desenhos animados, histórias em quadrinhos e jogos eletrônicos japoneses há dez anos. O que caracteriza o cosplay, originado da abreviação em inglês que se traduz por “representação de personagem a caráter”. Conhecido como Fred Stan pelos assíduos desta cultura, ele explica o motivo do interesse em se caracterizar com estas figuras. “Eu gostava de games, animes, HQs e quadrinhos, então, quando estive em um evento geek, conheci melhor o mundo cosplay e comecei a gostar desta atividade. Até hoje faço vários personagens”, conta Fred. Em Salvador, os eventos pop nipônicos vêm se destacando há pelo menos 13 anos. Neles, é possível viajar neste mundo por meio dos cosplays, além das exposi-

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ções de jogos, revistas em quadrinhos e apresentações temáticas. No universo geek, o design e gestor de eventos Ricardo Silva, 34, é Rikun – ou Ricardinho, já que a palavra "kun" significa um termo no diminutivo - Ele, que é o pioneiro da cultura pop japonesa em Salvador, é o criador do Anipólitan, evento que teve sua primeira edição em 2003 e, de lá pra cá, fez crescer este público na cidade. “Desde pequeno eu fui apaixonado pela cultura pop japonesa, mas foi na minha época de universitário que eu queria encontrar mais pessoas que gostassem dessa atividade", lembra. De acordo com ele, a motivação para dar início ao movimento na capital baiana veio depois de ter participado de um grande evento em São Paulo. Além do Anipólitan, que acontece nos próximos dias 18 e 19, em Salvador, Rikun é responsável também pelo ExpoGeek, Gamepólitan, AniBahia e Bon Odori – todos direcionados ao público que admira o Japão e sua cultura. Diversidade cultural. É assim que a estudante de contabilidade Raisa Bacelar, 24, define esse tipo de evento. Ela, que é fã de games e adepta dos cosplays, acredita que trazer este tipo de iniciativa a Salvador aumenta o leque de conhecimento dos so-


FOTO: ELVIS CÁSSIO

teropolitanos. “Acho bacana por conta da diversidade cultural e, também, dos momentos de lazer. A gente vive momentos totalmente diferentes das tradicionais", salienta. Origem De acordo com o artigo “O poder dos quadrinhos japoneses”, publicado na revista SuperMag, os animes, desenhos animados japoneses, chegaram no Brasil na década de 1960. Mas apenas nos anos 1990 que eles vieram a se tornar amplamente conhecidos pelas crianças e adolescentes, com a exibição de séries como os Cavaleiros do Zodíaco, Pokemon e Dragon Ball Z, que devido a sua audiência, se expandiu no país. Já os mangás, que são revistas de

histórias em quadrinhos, foram reconhecidos nacionalmente nos anos 2000, após a expansão dos animes. Atualmente, muitas edições inspiram empresas do ramo a criarem novas edições animadas. O Anipólitan 2016, último evento da categoria neste ano, está previsto para ser realizado nos dias 17 e 18 de dezembro, no campus I da Faculdade Unime. Os ingressos custam de R$20 e R$25. Com extensa programação, que promete salas temáticas, mesas redondas com dubladores, jogos eletrônicos, apresentações culturais e atividades de lazer, o evento deve receber cerca de 10 mil pessoas nos dois dias, de acordo com os organizadores. Para mais informações, acesse o www.anipolitan.com.br

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O CÉU É

O LIMITE

Contrariando as expectativas, Enderson Araújo voa alto e não pretende parar por Lilian Ventura

FOTO: REPRODUÇÃO/INSTAGRAM

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O pássaro Anum-preto, encontrado em todo território brasileiro, é considerado uma ave sociável. Seu voo alcança, no máximo, 50 metros de altura. Essa representação do Anum faz o estudante de publicidade Enderson Araújo, 24 anos, lembrar de sua infância na periferia - da época em que jogava bola, andava descalço e, por ser um menino pobre de Sussuarana, não sonhava voar alto. Hoje, o garoto da comunidade de Salvador, é também o mais jovem conselheiro curador da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), em Brasília, e um dos fundadores do veículo independente Mídia Periférica, responsável pelo voo que o tornou conhecido em todo país. Depois dos alcances inimagináveis, a nova aposta do estudante de publicidade é o projeto Anu-Preto Filmes, uma produtora audiovisual. O projeto oferece oportunidades para jovens de comunidades periféricas do Brasil e, com isso, contribui para a formação intelectual desses meninos e meninas. A ideia é que eles, assim como Enderson, tenham a possibilidade de construir suas próprias narrativas. “Quero que os jovens da periferia possam ter e ser tudo. Atores, roteiristas e até diretores. Quero ver os meninos ganhando prêmio em Cannes. O céu é o limite”, relata. Para o soteropolitano, seu papel é possibilitar novos caminhos às pessoas que, assim como ele, vivem em lugares estigmatizados pela pobreza e violência. “Não quero ser conhecido como alguém que muda vidas e as tira do mundo do crime, ninguém muda ninguém. Quero ser conhecido como um cara que deu aos jovens da periferia o direito de escolha”, finaliza. Aos 22, Enderson ganhou o prêmio de empreendedorismo Laureate Brasil. “Para mim, foi um reconhecimento que simbolizou muito pelo que eu já passei na vida. Eu não tinha perspectiva de futuro. Depois da oficina do Instituto Mídia Étnica, pude visualizar algo não só para mim, como também para minha comunidade”, diz. Para contar os desafios de sua vida, ele, que não pretende para de voar, pensa em lançar um livro em breve.


vizu

Expressão no Paredão Paredes, muros, tapumes. Divisão e união. Indo e voltando nas ruas multiformes de Salvador, as inscrições feitas em paredes, que antes inspiravam preconceito, passaram a atrair olhares admirados. As imponentes construções se casam com as ondas, curvas e cores do grafite. A fotógrafa Nailan Brasil capturou imagens nas diversas paredes e muros que contornam a capital baiana.

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