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Orfeu Bertolami O FÍSICO PRODIGIOSO

As emoções e fascínios explicam a vida de andarilho do físico Orfeu Bertolami. Nascido no Brasil em 1959, veio para Portugal no final dos anos 80, depois de um promissor início de carreira no Reino Unido e Alemanha. Enamorado por uma colega portuguesa, descobriu no nosso país uma cultura que o deixou

“absolutamente fascinado”. Começou por fazer um pós-doc no Instituto de Física e Matemática, até que, em 2010, ocupa uma vaga de catedrático na FCUP. Ultrapassado o choque inicial com o atavismo científico português, sente-se hoje plenamente realizado entre nós.

“Ó Portugal, se fosses só três sílabas,/ linda vista para o mar,/ Minho verde, Algarve de cal”. No início, foi um pouco deste Portugal visto pelo olhar sardónico de Alexandre O’Neill que Orfeu Bertolami experimentou na sua primeira visita ao nosso país, em 1985. O físico brasileiro era então estudante de doutoramento em Oxford, Reino Unido, e veio cá na companhia de uma colega portuguesa, por quem se havia apaixonado. O idílio leva-o às praias algarvias e a Lisboa, que o arrebataram. Mas o país não era apenas bonito. “Fiquei absolutamente fascinado com a cultura portuguesa. É estranho dizer isto mas até 1983 nunca tinha ouvido falar de Saramago, de Lobo Antunes… Embora o que mais me marcou tenha sido a arquitetura. Percebi que aqueles traços da arquitetura brasileira tinham razão de ser, tinham uma origem bem definida. Talvez os portugueses não se deem conta de que a marca mais notável que deixaram no mundo é a arquitetura. Uma cidade portuguesa é única e nós encontramos os mesmos traços em Salvador da Bahia, em Ouro Preto em Minas Gerais, na zona histórica do Rio de Janeiro”, observa Orfeu Bertolami. Tudo isto pesou na sua decisão de vir viver para Portugal, mas a circunstância de a sua esposa ter uma posição no Instituto Superior Técnico (IST) foi, naturalmente, o fator determinante. Orfeu Bertolami chega a Lisboa em 1989 para fazer um pósdoutoramento no Instituto de Física e Matemática, tornando-se dois anos depois professor auxiliar do Departamento de Física do IST. Diz, com graça, que foi “um dos primeiros [docentes] a entrar por concurso e dos primeiros estrangeiros” a fazê-lo no nosso país. “Em Portugal, de aluno passava-se a monitor, de monitor a assistente e,

depois do doutoramento, de assistente a professor auxiliar, automaticamente. Eu fiz um percurso diferente”. Para trás ficava uma carreira científica em alguns dos melhores centros de Física do mundo e oportunidades de investigação em institutos de grande projeção, recursos e prestígio. Depois da licenciatura em Física pela Universidade de São Paulo, em 1980, e do mestrado no Instituto de Física Teórica, na mesma cidade brasileira, em 1983, Orfeu Bertolami obteve o Grau Avançado em Matemática em 1984 e doutorou-se em Física Teórica em 1987, respetivamente nas universidades de Cambridge e Oxford, no Reino Unido. “O meu fascínio por algumas questões da Física, nomeadamente a Relatividade Geral e a sua ligação com a Física de Partículas, impeliu-me a fazer um doutoramento no estrangeiro. Um dos grupos mais fortes nesta área era o de Stephen Hawking, em Cambridge. Fui por isso para Cambridge, no primeiro ano. Mas depois surgiu a oportunidade de ir para um grupo de Oxford fazer uma Física extremamente específica: Física do Universo Primitivo no contexto das teorias de supergravidade e de cordas. Quando surgiu esta oportunidade, não a desperdicei e a experiência [em Oxford] foi de facto extraordinária”, garante o físico nascido em São Paulo. Depois de Oxford recebeu várias propostas de trabalho científico, vindas de Espanha, Israel, Alemanha e Portugal. Decidiu então ingressar no Institut für Theoretische Physik, em Heidelberg, na Alemanha, onde permaneceu de 1987 a 1989. “Quis continuar a Física que havia desenvolvido em Inglaterra, mas num outro nível”. Na

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Fotos Egídio Santos

Texto Ricardo Miguel Gomes

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Campus U.Porto, edição nº1. Uma revista dirigida já não especialmente aos antigos estudantes, mas a toda a comunidade académica (estudant...

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