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GLOBALIZAÇÃO “O grande desafio que enfrentamos hoje é certificarmo-nos de que, em vez de deixar para trás milhares de milhões de pessoas que vivem na miséria, a globalização se torne uma força positiva para todos os povos do mundo. Uma globalização que favoreça a inclusão deve assentar na dinâmica do mercado, mas esta só por si não é suficiente. É preciso irmos mais longe e construirmos juntos um futuro melhor para a humanidade inteira, em toda a sua diversidade”. Kofi Annan, Relatório do Milénio

Estatísticas fundamentais Dos 6 mil milhões de habitantes do mundo, 1200 milhões vivem na extrema pobreza, ou com um rendimento de cerca de 1 dólar por dia. Pouco menos de 3 mil milhões de pessoas vivem com 2 dólares por dia ou menos. •

Os países industrializados, com 19% da população mundial, são responsáveis por 78% do comércio mundial de bens e serviços, 58% do investimento estrangeiro directo e 91% do total de utilizadores da Internet.

Mais de 1500 milhões de dólares são cambiados diariamente nos mercados mundiais de divisas.

O investimento estrangeiro ultrapassou os 400 mil milhões de dólares em 1997, um nível sete vezes superior, em termos reais, ao da década de 1970.

Entre 1983 e 1993, as vendas transfronteiriças de obrigações do Tesouro dos Estados Unidos aumentaram de 30 mil milhões para 500 mil milhões anuais.

Os empréstimos bancários internacionais aumentaram de 265 mil milhões, em 1975, para 4,2 biliões, em 1994.

As 200 pessoas mais ricas do mundo aumentaram para mais do dobro os seus activos líquidos nos quatro anos que antecederam 1998, tendo atingido mais de 1 bilião de dólares. Os bens dos três maiores bilionários são superiores ao conjunto do PNB de todos os países menos desenvolvidos, com os seus 600 milhões de habitantes.

Globalização – uma força imparável? Houve uma época em que a Coca-Cola era a marca distintiva da uma empresa mundial, que vendia o seu refrigerante praticamente em todos os países, praticamente em todas as línguas. Mas, hoje em dia, o mundo está habituado à McDonald’s a vender hambúrgueres em Moscovo, Beijing e Carachi, enquanto carrinhas de caixa aberta Toyota percorrem o Sahel africano e televisões Sony ocupam um lugar central em lares de todo o mundo. Esta é a idade de ouro para os negócios e o comércio. Nunca antes, na história do mundo, houve uma oportunidade semelhante de vender tantos bens a tantas pessoas, como agora. Não são apenas as grandes empresas que estão inseridas nesta explosão – embora possam dominar. As informações e comunicações instantâneas permitem que as populações indígenas da Guiana comprem camas de rede feitas à mão através da Internet e até as cerca de 50 pessoas que vivem na remota Ilha Pitcairn podem vender o seu artesanato em qualquer lado.


Graças à informação e comunicação instantâneas, praticamente tudo está ao alcance de toda a gente, em qualquer lugar. Agora, os mercados são mundiais e muitas empresas são, muitas vezes, mais ricas e mais poderosas do que muitos países. Sempre houve comércio entre países e sociedades, mas nunca a uma escala que se aproximasse dos níveis dos nossos dias. A combinação de barreiras comerciais reduzidas, liberalização financeira e revolução tecnológica alterou completamente a natureza da actividade económica em praticamente todos os países industrializados. •

Os países do mundo estão a exportar dez vezes mais do que em 1950, e mais dinheiro – mais de 1,5 biliões de dólares americanos por dia – cruza neste momento as fronteiras. Em 1973, esse valor era de apenas 15 mil milhões de dólares norteamericanos.

Há mais gente a viajar do que antigamente, em 1996, 590 milhões de pessoas deslocarem-se ao estrangeiro, em comparação com cerca de 260 milhões em 1980.

Há mais pessoas a fazerem chamadas internacionais do que antigamente, e estão a pagar menos por elas. Uma chamada de três minutos de Nova Iorque para Londres custava 245 dólares em 1930 – em 1990, custava apenas 3 dólares.

A globalização não termina aí. Com a Internet e as telecomunicações de última geração, vendedores e técnicos baseados na Índia podem responder a perguntas de clientes nos Estados Unidos. As funções de apoio à actividade seguradora podem localizar-se a milhares de quilómetros da sede da empresa, em diferentes partes do país, em diferentes países e em diferentes continentes. Mais comércio, mais mercados, mais negócios, mais informação, mais postos de trabalho, mais oportunidades. Esta é a promessa de um mundo globalizado. A maré da globalização já trouxe uma riqueza considerável a zonas do mundo há muito acostumadas apenas à pobreza, e ainda mais riqueza a zonas que já eram bastante prósperas. No Leste e Sudeste Asiático, os países optaram por economias orientadas para a exportação para progredirem na escala do desenvolvimento. Nas regiões costeiras da China, as empresas orientadas para o mercado global ajudaram a elevar o nível de vida de milhões de pessoas. Este turbilhão de actividade económica trouxe muitos benefícios, e riqueza, a muitas pessoas. Houve um crescimento económico mais rápido, níveis de vida mais elevados, inovação acelerada e novas oportunidades, tanto para os indivíduos como para os países. Como estas realidades foram acompanhadas de uma revolução na informação e na tecnologia, o mundo é um planeta muito menor e mais integrado do que alguma vez foi. Mas, se a globalização pode dar riqueza, também a pode tirar. •

Os milhares de milhão de dólares de investimento que chegaram às costas da Ásia, em meados da década de 1990, mudaram abruptamente de destino, em 1997, atirando de novo milhões de pessoas para a pobreza, naquilo que veio a ser conhecido pela crise financeira asiática, embora o seu impacte tenha sido tão vasto que afectou países em praticamente todos os continentes. A crise asiática, que dificilmente poderá ser considerada um acaso fortuito, marcou a quinta crise internacional grave, nos domínios monetário e financeiro, das duas últimas décadas, crises essas que deixaram um rasto de destruição financeira da Rússia à América Latina.

Os benefícios da globalização passaram muito ao lado de metade da população mundial, ou seja, dos cerca de 3 mil milhões de pessoas que vivem com menos de 2 dólares por dia. Trata-se de pessoas que não partilharam da nova riqueza, não estão ligadas à Internet e, na maior parte dos casos, carecem dos conhecimentos necessários para participar neste admirável mundo novo económico.

Na Ásia Central e na Europa de Leste, onde muitos países não se adaptaram à economia global, há mais pessoas a viverem, hoje em dia, na pobreza, do que há dez anos.


Apesar de se falar tanto em globalização, a maior parte do mundo não foi, em grande medida, afectada por ela. Calcula-se que metade da população mundial nunca tenha feito, ou recebido, um único telefonema, segundo o Secretário-Geral das Nações Unidas, Kofi Annan.

O Secretário-Geral sustenta que, apesar de todos os seus problemas, a globalização pode ser uma força positiva para todos os povos do mundo. “Continuo convencido de que a globalização pode beneficiar a humanidade como um todo. Mas é claro que, neste momento, milhões de pessoas – talvez até a maioria da raça humana – estão a ser privadas desses benefícios. São pobres, não porque, no seu caso, a globalização seja excessiva, mas sim porque é reduzida ou inexistente.” Mas o Secretário-Geral reconhece que a globalização acarreta muitos perigos. Pesados os prós e os contras, concluiu que a globalização “aproxima mais os povos, e proporciona, a muitos de nós, oportunidades com que os nossos avós nem sequer podiam sonhar. Permitenos produzir de uma forma mais eficiente e permite que pelo menos alguns de nós melhorem a sua qualidade de vida. Mas, infelizmente, estes benefícios estão longe de ser sentidos equitativamente por todos. As mudanças positivas que são de esperar a longo prazo são, para milhões de seres humanos nossos semelhantes, pura e simplesmente demasiado distantes para terem qualquer sentido. Milhões de pessoas continuam a viver à margem da economia mundial. Outros milhões estão a viver a globalização não como uma oportunidade, mas sim como uma força de ruptura e destruição: como uma agressão aos seus padrões materiais de vida, ou ao seu modo de vida tradicional. E aqueles que se sentem marginalizados desta forma são cada vez mais numerosos” – Discurso perante a Assembleia Geral, Nova Iorque, 21 de Setembro de 1998.

As consequências adversas da globalização É claro que nem todos estão contentes com a globalização. Muitas pessoas não gostam da globalização porque esta permite que os ricos e poderosos interesses comerciais estrangeiros se intrometam numa cultura local, atropelem as tradições locais e ameaçam um modo de vida. Houve muitos que aplaudiram um agricultor francês que vandalizou um McDonald’s. As lojas de café Starbucks têm sido alvos favoritos de pessoas que protestam contra a globalização. Em sociedades mais tradicionais, a globalização ameaça os fundamentos culturais e religiosos da sociedade. Tanto nos países industrializados como nos países em desenvolvimento, muitas pessoas sentem-se ameaçadas – e são ameaçadas – pelo processo de globalização. Uma economia globalizada apresenta uma miríade de desafios, desde a protecção das culturas locais à protecção do ambiente, passando pela protecção dos postos de trabalho locais. As consequências adversas são muito reais. Em Dezembro de 1999, durante as malogradas conversações da Organização Mundial do Comércio, em Seattle, que se destinavam a ampliar as oportunidades comerciais, milhares de manifestantes, que pouco mais têm em comum do que uma aversão à globalização, provocaram estragos importantes. Os sindicatos protestaram, temendo que um novo acordo de comércio constituísse um incentivo para as empresas transferirem os seus postos de trabalho para o estrangeiro. Os ambientalistas protestaram, temendo que acordos de comércio globais minassem as salvaguardas ambientalistas internas. E havia ainda os nacionalistas, que temiam que mais globalização reduzisse a soberania nacional e pudesse conduzir a uma perda de liberdade ou de direitos. Quer se considere um monstro sinistro que esmaga tudo à sua passagem, quer contenha a promessa de um futuro melhor, a globalização é um fenómeno incontornável. Tal como as condições meteorológicas, é, e será, uma fonte de discussões intermináveis, mas pouco se pode fazer quanto a isso. Mas também, e tal como as condições meteorológicas, é uma força a que as pessoas se podem adaptar.


Procurando um equilíbrio entre as prioridades A nível internacional, os países em desenvolvimento e desenvolvidos têm preocupações muito diferentes. Nos países em desenvolvimento, onde a pobreza é acentuada, dá-se ênfase ao desenvolvimento, quase a qualquer preço. Referindo que os países desenvolvidos se industrializaram numa época em que não eram tomadas em conta as preocupações ambientais e em que as normas laborais eram abomináveis, os países em desenvolvimento defendem que, se não receberem auxílio, apenas lhes resta a alternativa de se desenvolverem recorrendo a todos os meios que estiverem ao seu alcance. Os países em desenvolvimento pediram também ajuda à comunidade internacional para adiarem ou cancelarem a sua esmagadora dívida externa. Esses países são obrigados a liquidar empréstimos assumidos por governos corruptos ou ditatoriais anteriores, ou que foram sugeridos por doadores para o financiamento de planos de desenvolvimento que não resultaram. Frequentemente, estes pagamentos da dívida excedem aquilo que os países podem gastar noutras necessidades, nomeadamente, na saúde ou na educação. A ajuda – tanto financeira como técnica – foi extremamente reduzida, afirmam os países em desenvolvimento. As estatísticas apoiam essa afirmação e mostram que a ajuda financeira prestada pelos países mais ricos aos mais pobres sofreu um decréscimo drástico na última década. Houve iniciativas, por parte das instituições financeiras internacionais e de alguns Governos doadores, de perdão da dívida, mas, até à data, muito poucos países preencheram os requisitos necessários para delas poderem beneficiar e a redução da dívida tem tardado a chegar. Por outro lado, os países desenvolvidos afirmam que o debate quanto à ajuda estrangeira não capta o essencial. O que é importante, dizem, são as fabulosas quantias de investimento directo estrangeiro realizado pelo sector privado e defendem que, se os países em desenvolvimento pretendem atrair o investimento, devem adaptar-se às necessidades da economia mundial, em termos de governação e infra-estruturas. Na verdade, o investimento estrangeiro, aliado a uma economia orientada para a exportação, já se revelou um importante motor do desenvolvimento, e alimentou o extraordinário crescimento dos chamados “Tigres Asiáticos”, durante as últimas décadas – tanto antes como depois da crise financeira asiática. Países como a República da Coreia, a Tailândia, as Filipinas e a China beneficiaram de grandes entradas de investimento estrangeiro e tiveram um crescimento rápido, permitindo que milhões de pessoas se libertassem da pobreza. No entanto, embora as verbas de investimento estrangeiro nos países em desenvolvimento tenham sofrido um acréscimo, a maior parte delas vai para um único país – a China – e muitos outros países recebem muito pouco. Então, o argumento apresentado é que a maior parte dos países em desenvolvimento tem de se esforçar por atrair o investimento estrangeiro. Isso significa, segundo foi dito a esses países, que têm de formar governos estáveis, democráticos, responsáveis e transparentes que proporcionem um ambiente onde as empresas possam trabalhar. • Embora cerca de um quarto do investimento directo estrangeiro se destine, presentemente, aos países em desenvolvimento, nem todos beneficiam dele. A Ásia recebe quase vinte vezes mais investimento estrangeiro do que a África a Sul do Sara, onde existe uma necessidade muito maior. Uma das razões pelas quais alguns países em desenvolvimento não conseguem atrair o investimento estrangeiro é a falta de informação sobre oportunidades de investimento nesses países. Prestar essas informações é o objectivo de uma nova iniciativa conjunta levada a cabo pela Conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e o Desenvolvimento (CNUCED) e pela Câmara de Comércio Internacional. Esta iniciativa inclui a publicação de guias de investimento, que descrevem as oportunidades e condições de investimento nos países menos desenvolvidos, e a promoção do diálogo entre Governos e potenciais investidores. Vinte e oito empresas, algumas delas muito grandes, estão a apoiar a parceria e a


contribuir para o projecto, o mesmo acontecendo com a China, a Finlândia, a França, a Índia e a Noruega.

O papel e responsabilidade das empresas Tendo conseguido maximizar os lucros com as suas operações em todo mundo, as empresas assumiram um poder extraordinário, que muitas vezes ultrapassa largamente o dos Governos. Dado que praticamente não existem normas ou regulamentos mundiais, as empresas conseguiram ter o pulso livre para operar no mercado internacional, mudando as fábricas para onde os custos de mão-de-obra são baixos e os recursos, baratos. Mas as próprias empresas estão a descobrir que existem limitações, inclusive neste teatro de operações sem lei. Em virtude de um rebate de consciência ou de se terem apercebido subitamente do essencial, muitas empresas aprenderam que existem, efectivamente, limitações àquilo que podem fazer e que existem responsabilidades que têm de assumir. •

Algumas empresas aprenderam isto da maneira mais dura. A Union Carbide aprendeu quando a sua fábrica em Bophal, na Índia, espalhou gases venenosos que mataram 6000 pessoas. E a Exxon aprendeu quando o seu petroleiro, o Exxon Valdez, derramou 11 barris de petróleo no Golfo do Alasca, o que fez com que as vendas da empresa descessem de 9,9 milhares de milhão de dólares anuais para 4,8 milhares de milhão, oito anos mais tarde, a que se juntaram mais mil milhões de dólares de custos de limpeza.

Incidentes catastróficos como estes são bem conhecidos e relativamente raros. No entanto, existem cada vez mais redes de organizações não governamentais que assumiram a tarefa de denunciar outras transgressões das multinacionais, tais como violações ambientais, laborais ou de direitos humanos. Para limitar a exposição a uma publicidade negativa que pode limitar gravemente os lucros ou, em alguns casos, apenas para fazer o que é correcto, muitas empresas adoptaram elas próprias diversos códigos de conduta, nas suas transacções mundiais. Para envolver as empresas e as multinacionais num diálogo sobre responsabilidade social empresarial, o Secretário-Geral das Nações Unidas propôs um código de conduta, de nove princípios, para as empresas – o Pacto Global – que foi retirado de acordos internacionais existentes nos domínios do ambiente, direitos humanos e direitos dos trabalhadores. Muitas empresas, algumas das quais foram muito criticadas pelas suas práticas no passado, comprometeram-se a aderir a esses princípios. Uma dessas empresas é a fabricante de calçado desportivo Nike, que foi alvo de fortes críticas relativamente às suas práticas laborais nos países em desenvolvimento. •

Philip Knight, fundador e Presidente do Conselho de Administração da Nike, afirmou, numa reunião recente, na Conferência das Nações Unidas sobre o Pacto Global, “Quando fundámos a empresa que viria a ser a Nike, nunca julguei que uma pequena empresa do Oregon que vendia sapatos desportivos transportados na bagageira de um velho Valiant se viria a tornar um símbolo da globalização. Mas foi o que aconteceu”.

Acrescentou, “Sob muitos aspectos, a Nike tornou-se um símbolo adequado daquilo que está bem – e do que precisa de ser corrigido – numa economia cada vez mais interdependente. Somos pequenos, em termos multinacionais, mas fabricamos em 50 países. Em cada um deles existem sistemas jurídicos, sociais, financeiros e económicos diferentes. Isso significa que a Nike, e milhares de outras empresas, enfrentam uma tarefa monumental: definir qual é a nossa responsabilidade mundial, e como devermos agir em face dela, em muitos países que nos recebem”.


Os países em desenvolvimento desconfiam No entanto, os países em desenvolvimento estão preocupados com a imposição de condições. Já têm de enfrentar uma enorme quantidade de condições para receberem fundos do Fundo Monetário Internacional ou do Banco Mundial – e muitas dessas condições foram mais danosas do que úteis. Consequentemente, desconfiam da defesa de uma maior responsabilidade empresarial. Embora apoiem as normas laborais, a protecção ambiental e os direitos humanos, muitos desses países receiam que esses aspectos sejam apenas uma cortina de fumo para um maior proteccionismo nos países mais ricos. Temem que, sem recursos, sejam irremediavelmente incapazes de impor esses princípios e, então, venham a ser alvo de sanções. Os seus receios não são infundados, dado que o então Presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, levantou o espectro das sanções, em Seattle, durante as conversações da OMC. Os países em desenvolvimento também têm sido lentos a demonstrar o seu apoio à iniciativa do Pacto Global, uma vez que muitos pensam que os princípios escolhidos reflectem um preconceito a favor do Norte. Os países em desenvolvimento preocupam-se mais com o comportamento dos monopólios, a necessidade de as empresas estrangeiras contribuírem para a base fiscal e a partilha de tecnologia.

Novos desafios Não existe um governo mundial que regule todas as facetas da globalização, e poucas pessoas desejem que exista. No entanto, para gerir a globalização de modo a garantir que todos colham os seus benefícios, é necessária uma governação mundial mais ampla – um sistema de direito internacional, baseado no princípio do multilateralismo, que defina as normas básicas para todos os participantes na economia mundial. Existem muitas áreas de interdependência que precisam de uma atenção mundial. Os benefícios de uma economia globalizada devem ser acompanhados de uma maior cooperação mundial para evitar e conter o alastramento dos “males globais”, tais como o alastramento das crises económicas, epidemias, degradação ambiental, crime e droga. A cooperação deverá abordar as políticas macro-económicas, bem como os domínios do comércio, da ajuda e da necessidade de um sistema justo e equitativo de protecção da propriedade intelectual. Actualmente, existem organizações que tratam de muitas destas questões mas, de um modo geral, o seu trabalho é descoordenado e recebe insuficiente apoio da comunidade internacional. Para se alcançar uma maior integração e coerência política, terão de ser colmatadas as lacunas e melhoradas as estruturas existentes. O papel essencial da governação mundial é definir objectivos, estabelecer normas e fiscalizar o seu cumprimento e não dominar os Governos nacionais e subjugar culturas e sociedades. As Nações Unidas, uma organização originada num tratado e que é formada por 189 países, são uma das vertentes da resposta. Mas, para fazerem alguma coisa relativamente às necessidades das pessoas, precisam do apoio não só dos Governos mas também da sociedade civil, do sector privado, dos deputados, das autoridades locais, da comunidade científica e de muitos outros. O Secretário-Geral pensa que, em consequência da globalização, o compromisso do mundo em relação aos pobres está a ser reconhecido não só como um imperativo moral, mas também como um interesse comum. No entanto, cada país deve assumir a responsabilidade primordial pelos seus próprios programas de crescimento económico e de redução da pobreza. Libertar o mundo do flagelo da pobreza extrema é um desafio para cada um de nós. Trata-se de um desafio que não podemos deixar de aceitar, como Kofi Annnan afirma no Relatório do Milénio. Para tal, o Secretário-Geral propõe medidas concretas, instando sobretudo os países desenvolvidos a:


Conceder o pleno acesso dos produtos produzidos em países pobres aos seus mercados;

Pôr em execução planos de redução da dívida, incluindo o cancelamento de todas a dívida pública dos países pobres muito endividados, em troca de esses países se empenharem visivelmente na redução da pobreza;

Conceder uma ajuda mais generosa ao desenvolvimento;

Trabalhar com os países que dispõem de indústria farmacêutica e com outros parceiros para desenvolver uma vacina eficaz e de baixo custo contra o VIH;

Proporcionar dotações especiais para as necessidades de África.

Sugestões de actividades para alunos 1. Faça um inventário rápido dos objectos existentes na sua casa de modo a determinar onde foram fabricados. Veja onde foi fabricado cada objecto. Ou faça uma lista de todos os componentes de uma refeição. Donde provém cada um dos componentes? Ou percorra o corredor dos produtos alimentares de um supermercado local. Consulte os rótulos e descubra a origem geográfica de cada artigo que se encontra nas prateleiras. Partilhe os resultados com os seus colegas. Que conclusões pode tirar? 2. Escolha um grupo a que pertença. Peça aos membros que comuniquem as suas raízes: as origens étnicas dos membros das suas famílias. Identifique os caminhos seguidos nas movimentações desses membros/antepassados da família num mapa-múndi, usando punaises ou outros marcadores para mostrar os caminhos complexos. Partilhe os resultados com os seus colegas. Quais os comentários cabíveis? Que tipo de bens económicos costuma acompanhar a deslocação de um grupo de pessoas para uma nova zona? Porquê? Refira exemplos locais. 3. Faça uma investigação sobre os acontecimentos da reunião da Organização Mundial do Comércio, em Seattle (Novembro-Dezembro de 1999). Que é a Organização Mundial do Comércio? Que países são membros? Qual é a sua função? Como foram tomadas as decisões? Quem eram os grupos que protestaram em Seattle e por que estavam lá? Quais foram algumas das razões e questões subjacentes aos protestos? Escolha alguns países que enviaram representantes. Pesquise as posições que os países tomaram quanto às diversas questões. 4. Escolha uma empresa que tenha sido alvo de protestos. Pesquise para saber mais sobre a empresa, a natureza e localização das suas operações, o seu desempenho em termos de capital, a natureza dos argumentos utilizados nas manifestações de protesto, a resposta da empresa, os efeitos dos protestos no funcionamento da empresa e no valor das acções. Consulte a página Web do Pacto Global para ver se a empresa assinou o pacto. 5. Utilizando recursos como a Forbes Magazine ou The Economist ou os seus Websites, organize uma lista das cem maiores empresas mundiais e uma lista das suas vendas totais. Usando os recursos do Banco Mundial, procure uma lista ordenada do produto bruto dos países do mundo. Compare as duas listas e organize uma lista das 100 entidades mais ricas do mundo. Dessas 100, quantas são países e quantas são empresas? Partilhe os resultados com os seus colegas. Da lista de 100 nomes que organizou, quais os nomes mais conhecidos para si e para os seus colegas? Faça uma pesquisa suplementar acerca das fusões recentes de grandes empresas. Que consequências tiveram essas fusões na riqueza das novas entidades empresariais? 6. Escolha uma empresa que fabrique um produto que tenha em casa. Descubra mais coisas sobre a empresa, o local da sua sede e outros locais importantes, o(s) produto(s) que fabrica, a sua história e crescimento. Visite o seu Website para verificar se tem um código de conduta empresarial. Protege explicitamente o ambiente, os direitos dos trabalhadores e os direitos


humanos? Escreva à empresa, expondo os seus pontos de vista sobre as suas operações, ou a sua opinião sobre o produto que tem. 7. Visite o Website de uma organização não governamental, como a Corporate Watch ou o Institute of Policy Studies. Que tipo de questões estudam? Que empresas vigiam? Porquê? As suas críticas são justas? 8. Planeie um fórum sobre globalização, na sua escola. Convide membros de organizações empresariais, comerciais, de direitos humanos, ambientais e laborais para participarem e exporem os seus pontos de vista sobre o tema. Poderia pedir-se aos oradores que sugerissem actividades a serem realizadas pelos alunos. Oiça todos os pontos de vista e descubra quais o que fazem mais sentido para si. Os alunos interessados poderão querer planear actividades subsequentes baseadas em sugestões avançadas pelos oradores. 9. Analise os relatórios da bolsa, na página financeira de um grande jornal, durante algumas semanas. Veja como o progresso numa bolsa do mundo afecta as outras. Partilhe os resultados com os seus colegas. Que conclusões pode tirar?

Alguns recursos Na World Wide Web http://www.undp.org/

Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD)

http://www.un.org/esa

Departamento de Assuntos Económicos e Sociais das Nações Unidas. Ver também

http://www.un.org/socialsummit

O Website da Cimeira Mundial sobre o Desenvolvimento Social e a sua análise cinco anos depois

http://www.unglobalcompact.org/

Pacto Global, do Secretário-Geral das Nações Unidas, Kofi Annan

http://www.wto.org/

A Organização Mundial do Comércio

http://www.worldbank.org/

O Banco Mundial

http://www.go.com/

Corporate Watch

http://www.bsr.org/

Business for Social Responsibility

http://www.icftu.org/

International Federation of Free Trade Unions

http://www.ips-dc.org/

Institute for Policy Studies

http://www.transparency.de/index.html/ Transparency International http://www.fes.de/

Friedrich Ebert Stiftung

http://www.fordfound.org/

The Ford Foundation

Publicações An Agenda for Development, Nações Unidas, 1997. Change: Threat or Opportunity for Human Progress, PNUD, 1991. Overcoming Human Poverty 2000, PNUD, 2000 Relatório do Desenvolvimento Humano Humano,1997, PNUD

Final glob  

https://www.unric.org/html/portuguese/uninfo/material_pedagogico/FINAL-glob.pdf

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