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#03 REVISTA DA FACULDADE DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DA UNIRITTER # ANO 3 # 2O SEMESTRE 2016

O OUTRO LADO DAS GRADES HISTÓRIAS DE AMOR E SACRIFÍCIOS DE QUEM FICA DO LADO DE FORA DO PRESÍDIO

MENINAS DA FASE CONHEÇA A TRAJETÓRIA DE QUEM PASSOU PELA FUNDAÇÃO DE ATENDIMENTO SÓCIO-EDUCATIVO E ESCOLHEU MUDAR SEU DESTINO

SOBRE A LOUCURA CONSTRUÍDO EM 1884, O HOSPITAL SÃO PEDRO GUARDA SOB SEUS MUROS A HISTÓRIA DO SISTEMA DE SAÚDE MENTAL BRASILEIRO

O NOVO ENSINO

PROJETOS INOVADORES INCENTIVAM O APRENDIZADO POR MEIO DE PROJETOS TECNOLÓGICOS


REVISTA DOSSIÊ INVETIGATIVO Chegou a hora de conversar Sobre tabus, estigmas e outras séries de individualidades suprimidas pelo hábito de não discutir os assuntos polêmicos e importantes.

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sumário#3 4

HISTÓRIA_ENSAIO SOBRE A LOUCURA_

Por Gabriela Freitas, Gabriela Fritsch e Shalynski Zechlinski

12

TENDÊNCIA_A JUVENTUDE DAS GERAÇÕES_

Por Mariana Pacchioni, Leandro Osório e Paulo Nunes

16

SOCIAL_MENINAS DA FASE_

Por Fernanda La Cruz

26

POLÍTICA_CAMPANHAS ELEITORAIS NAS REDES SOCIAIS_

Por Daniela Fernandes, Graziella Santos e Melissa Renz

32

MODA_“QUE BREGA”_

Por carolina Ferreira, Débora Neto e Karine Munhoz

38

ESPIRITUALIDADE_PERMISSÃO PARA SE DESCOBRIR_

Por Rafael Bernardes e Gustavo Leal

46

SAÚDE_DISTÚRBIOS DO SONO_

Por Rudá Collin, Luiza Motta e Lauren Dourado

50

CAPA_DO OUTRO LADO DAS GRADES_

Por camila Emil, Évilin Matos e Gisele Barbosa

58

INOVAÇÃO_EDUCAÇÃO EMPREENDEDORA E TECNOLÓGICA_

Por Leonardo Ambrosio e Lucas Bubols

64

ECONOMIA_NA CRISE, CRIE_

Por Marcela Barbosa e Sharon Nunes

68

MISTÉRIO_HISTÓRIAS DE ARREPIAR_

Por Laís Vargas, Munique Freitas e Rafaela Amaral

74

COMPORTAMENTO_PORTO ALEGRE AO AR LIVRE_

Por Lucas Furtado, Mariana Catalane e Renan Castro

82

ARTE_DESCOBRINDO QUEM VOCÊ É_

Por Bruna Padilha e Isabelle Silva

86

DIVERSIDADE_TEM PRETA NO SUL_

Por Júlia Fernandes e Nando Donel

94

EDUCAÇÃO_MÃES UNIVERSITÁRIAS_

Por Bernardo Figueira, Cinthya Py e Juliana Pereira

98

ESPORTE_TRANSFORMANDO VIDAS ATRAVÉS DO TÊNIS_

Por Aleksander ee Araújo e Wesley Dias

102

ENSINO_ALÉM DA SALA DE AULA_

Por Jennifer Van Leeuven, Marcelo Rodrigues e Marco Oliveira

#Expediente A REVISTA UNIVERSUS é um projeto da Faculdades de Comunicação Social (FACS) do Centro Universitário Ritter dos Reis – UniRitter/Laureate International Universities. A iniciativa surgiu da necessidade de criar um espaço de divulgação do material produzido nos cursos de jornalismo. UniRitter / Laureate International Universities Campus Porto Alegre: Rua Orfanotrófio, 555• Alto Teresópolis • Porto Alegre/RS • CEP 90840-440 • Fones: (51) 3230.3333 | (51) 3027.7300 • Campus Canoas: Rua Santos Dumont, 888 • Niterói • Canoas/RS • CEP 92120-110 • Fones: (51) 3464.2000 | (51) 3032.6000 • Campus Fapa: Av. Manoel Elias, 2001 • Alto Petrópolis • Porto Alegre/RS • CEP 91240-261 • Fones: (51) 3230.3333 • Campus Exclusivo: Av. Wenceslau Escobar, 1040 • Cristal • Porto Alegre/RS • CEP 91900-000 Reitora: Laura Coradini Frantz • Pró-Reitora Acadêmica: Bárbara Costa • Diretor da Faculdade de Comunicação (FACS): Marc Antoni Deitos • Coordenação do curso de Jornalismo: Leandro Olegário dos Santos • UniVersus/Professores envolvidos: Robson Pandolfi e Rogério Grilho • Projeto Gráfico: Rogério Grilho • Diagramação: alunos do Projeto Experimental Revista e Rogério Grilho (MT 7465).


#4

ENSAIO SOBRE A

LOU CU RA

POR GABRIELA FREITAS, GABRIELA FRITSCH E SHALYNSKI ZECHLINSKI FOTO GABRIELA FREITAS


história#5

EM 1884, UMA ESPÉCIE DE CASA VERDE FOI CONSTRUÍDA EM PORTO ALEGRE, NA ENTÃO PROVÍNCIA DE SÃO PEDRO. NA CAPITAL DOS GAÚCHOS, A CASA DE ORATES FOI CHAMADA DE HOSPÍCIO SÃO PEDRO, UMA HOMENAGEM AO PADROEIRO LOCAL


HISTÓRIA

ENSAIO SOBRE A LOUCURA

Q

uarta-feira, 22 de setembro de 2016. O céu estava cinzento e um vento gélido sacudia as grandes palmeiras em frente ao imponente prédio na Avenida Bento Gonçalves. A construção é típica do final do século XIX, estilo eclético com seus grandes arcos, que se destacam no meio da paisagem melancólica. O Hospital Psiquiátrico São Pedro, referência na área do tratamento de doenças mentais, hoje sofre com a ação do tempo e o sucateamento do serviço público. Chegamos faltando cinco minutos para as 8h30 – horário marcado para a visita. Passamos direto. Ninguém anotou nosso nome, de onde éramos, com quem falaríamos ou o horário de ingresso. Uma dúvida: e se déssemos de cara com o Dr. Simão Bacamarte – personagem de Machado de Assis que se

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dedicou às pesquisas psiquiátricas e a internar àqueles que considerava como louco – e ele acreditasse que deveríamos ficar na Casa de Orates? Não havia nenhum registro de que estivemos ali. Tampouco sinal no celular. O destino era o museu da instituição. A referência, a imagem da santa. Depois de dez minutos de caminhada em busca de indicação, adentramos um pequeno portão de ferro marrom e, ao longe, avistamos a imagem sacra. Ao pisarmos no pátio do Hospital, fomos envolvidas pela melancolia do ambiente. Foi em 1884 que uma espécie de Casa Verde – nome dado à instituição do livro O Alienista, por alusão à cor de suas das janelas–, foi construída em Porto Alegre, na então Província de São Pedro. Na capital dos gaúchos, a Casa de Orates foi chamada de Hospício São Pedro, uma homenagem ao padroeiro local. A inauguração foi de imensa pompa, de


Ninguém anotou nosso nome, de onde éramos, com quem falaríamos ou o horário de ingresso. todas as vilas e povoações próximas, e até remotas, e da própria cidade de Porto Alegre, pessoas de toda parte e autoridades acompanharam a cerimônia. Em pouco tempo, muitos dementes já estavam recolhidos. Fomentado pelo forte movimento filantrópico da época, foi o maior estabelecimento de cunho social da Província, relembra Edson Medeiros Cheuiche, historiador do Serviço de Memória Cultural da instituição. Afastada do centro urbano da cidade, na Estrada do Mato Grosso, no Arraial do Parthenon, a casa hospedaria pacientes de todos os tipos: os que sabiam o motivo de estarem lá, os que relutavam para estarem lá e até mesmo os que tentavam entender quais eram os motivos para estarem lá.

A CASA VERDE DE PORTO ALEGRE Criado por meio de um decreto da província em 1879, o terreno distante do centro da cidade foi adquirido pelo estado. Na época, o então presidente da Província de São Pedro, Carlos Thompson Flores, designou fundos para que a obra da instituição prosseguisse e atentou sobre a importância e a necessidade de um estabelecimento desta ordem, declarando que o complexo serviria como um abrigo para que os infelizes, privados do uso da razão, pudessem encontrar consolo aos seus sofrimentos. A população de Porto Alegre crescia vertiginosamente. Em 1875, os registros mostravam uma população de 43.998 habitantes. Três anos depois, essa marca já havia ultrapassado os 50 mil, chegando a 73.274 em 1900. Imi-

grantes alemães e italianos passavam pela cidade rumo ao Vale dos Sinos e à Serra. Entretanto, muitos ali permaneciam pelas características da região. Em uma encruzilhada que ligava o litoral ao interior, o local se tornava propício para o crescimento e desenvolvimento de negócios diversificados, registra a professora, historiadora e escritora, Sandra Jatahy Pesavento. Em 29 de junho foi inaugurado. Naquela época, os alienados eram encaminhados para a Santa Casa de Misericórdia ou para as cadeias das cidades, onde, segundo o médico e pesquisador Juliano Moreira, que atuou em instituições de saúde mental de 1893 a 1933, como o Asylo São João de Deos, hoje Hospital Juliano Moreira e o Hospício Nacional de Alienados, “de decadência em decadência aguardavam a morte”. Neste período, 27 alienados internados no hospital, e mais alguns que estavam na cadeia da cidade, foram transferidos para o São Pedro.

SOBRE O DISTÚRBIO Loucura: substantivo feminino que pode ser compreendido como: 1. Distúrbio, alteração mental caracterizada

pelo afastamento mais ou menos prolongado do indivíduo de seus métodos habituais de pensar, sentir e agir; 2. Sentimento ou sensação que foge ao controle da razão. O termo louco no século XXI pode representar infinitos significados. Uma expressão utilizada quando alguém comete atitudes não convencionais. Ou então para descrever uma condição física ou orgânica. Usado levianamente para descrever aquele indivíduo que desponta, possuindo modos e trejeitos diferentes dos demais. Instituições que acolhiam essas pessoas carregam uma imagem de preconceitos e estigmas, justamente por oferecer tratamento e abrigo para pessoas com distúrbios psíquicos e toxicômanos. “O mesmo preconceito que ocorria no século passado é o que encontramos hoje. Por isso o São Pedro ainda existe. O Rio Grande do Sul é atrasado em relação ao resto do país no quesito de tratamento da saúde mental”, coloca a médica psiquiátrica e doutora em história, Nádia Maria Weber Santos. As doenças mentais eram chamadas de doenças de espírito e lunatismo, uma relação à Lua que é citada entre as causas, mesmo acessórias ou adjuntas, da loucura, como explica o filósofo Michel Foucalt. Os lunáticos ficavam sob os cuidados na maioria das vezes de religiosos. Com o surgimento da Psiquiatria e a Psicologia, no início do século XX, a ciência começou a falar em loucura e a tratá-la como doença do corpo e não mais como doença da alma. Nádia comenta que nesse período aqueles que

“Homem, 18 anos, solteiro. Vindo da Casa de Correção, foi internado pela primeira vez em 1909. Saiu para assistência no ano seguinte e seria internado por mais quatro vezes. Provavelmente a família não o queria mais e as autoridades entendiam que o melhor local para um epilético seria o hospício. A classificação dos alienados era rasa, feita somente baseada na procedência, sexo, idade, estado civil, cor, nacionalidade, profissão. O número de indivíduos de estado desconhecido era grande”.

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HISTÓRIA

ENSAIO SOBRE A LOUCURA

eram internados, por motivo de loucura, passaram a ser chamados de alienados e os responsáveis pelo tratamento eram identificados como alienistas. O Hospital Psiquiátrico São Pedro foi a primeira instituição no sul do País a tratar doenças psiquiátricas. O alienado deveria ser vigiado e trancado, fadado a sobreviver sob regras impostas, aguar-

dando a chegada de sua morte. Essa declaração era comum na época, onde médicos, padres, autoridades policiais e familiares impunham esta visão sobre quem fugia do modo convencional de agir. Além disso, alguns doentes eram rejeitados por seus entes próximos, muitas vezes pelo preconceito que sofriam da população. A sociedade, além

de discriminar o enfermo, condenava aqueles que convivem com ele, em especial, os pais que poderiam ser vistos também como portadores de males mentais. A Doutora em História Zelinda Rosa Scotti, explica que na tentativa de a família evitar ser estigmatizada pela sociedade, por ter um doente mental em seu meio, rejeitava o alienado. “Foi

Os alienados vindos do interior do estado eram trazidos para o Hospital São Pedro em trens. Na época, haviam poucas linhas e a estratégia para diminuir os gastos com o transporte era juntar o maior número de doentes possível no mesmo vagão. Assim, surgiu a expressão “O Trem dos Loucos”, afirma Nádia Maria Weber dos Santos.

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possível observar a ocorrência da prática do abandono de pacientes por seus familiares, principalmente quando informavam o endereço erroneamente, ou quando a família mudava de residência e não avisava o novo paradeiro”, aponta.

ATRÁS DO MURO Todas as semanas chegavam pacientes oriundos de diferentes cidades, estados e países. Por razões diversas, eram encaminhados para avaliação na instituição. Alguns retornavam para suas residências por não apresentarem doenças mentais, outros realizavam o tratamento e recebiam alta. Mas alguns permaneciam na instituição por tempo indeterminado. Cada paciente possuía uma papeleta de admissão, onde constava suas informações de entrada, idade e local de origem. A partir de 1928, os novos pacientes passaram a ter seus registros em um livro que continha informações como data de ingresso no São Pedro, cidade de origem, idade, classe, gênero, parecer médico, pertences com os quais chegou ao hospital, data de internação anterior (se houver), data de saída e motivo. Ainda, eram descritos os fatos do por que do recolhimento do paciente, normalmente realizado por alguém da família, padre ou pela polícia. Nele, constam os motivos que levavam os indivíduos a serem internados. Acostumados com a ideia de que os pacientes do São Pedro entravam no sistema por motivos como loucura, para-

“Mulher, 33 anos, casada. Internada pela primeira vez em 1909, na primeira classe. Sairia para assistência em domicílio, em 22 de abril de 1910, retornando em 26 de abril de 1910, e retirada alguns meses depois, em outubro de 1910. Ambas as vezes foi internada pelo marido. Em 1915, seria internada pelo genro, com o detalhe de que da 1ª classe passará consecutivamente para a 2ª classe, e, por fim, para a 3ª classe. Em 1940, passados vinte e cinco anos de internamento, Maria V. demonstrava em seus gestos ter incorporado a instituição: passa os dias andando de um lado para o outro, o corpo continuamente animado de um movimento de balanço. Internada com o diagnóstico de loucura histérica com delírio sistematizado religioso associado, seu comportamento inicial, possivelmente inconveniente para o marido, foi substituído por comportamento de apatia completa”.

“A loucura muitas vezes é um espelho das repressões.” Nádia Maria Weber dos Santos, psiquiatra e doutora em história

nóia ou esquizofrenia, verificou-se que esses nem sempre foram as principais evidências. Para Nádia, we uma construção da realidade cultural da sociedade”. A Mestre e Doutora em história da loucura retrata que assim como a cultura e os costumes, a ciência está em constante evolução, por isso os conceitos alteram conforme cada época. Assim, é

possível observar que as enfermidades mudam com os anos. Os sintomas permanecem os mesmos, o que se alteram é o diagnóstico do que é ou não patologia. Atualmente, para a ciência é correto falar em doença mental, mesmo assim o termo loucura resistiu aos últimos cem anos e permanece no vocabulário popular e até médico. São diversos adjetivos utilizados para caracterizá-los e nunca se chega a uma definição. A loucura vive em constante reconstrução. É importante esclarecer que as interpretações são amplas e variam conforme a visão de cada estudioso. Mas podemos constar que o lunático, o alienado e o louco na sua essência são os mesmos e acima de tudo são seres humanos, cada um dentro de suas próprias peculiaridades e que sofrem, ao longo do tempo, o preconceito nas mãos da sociedade e na maioria das vezes sofrem indefesos.

“Mulher, 24 anos, solteira. Ingressou no São Pedro em janeiro de 1924 com diagnóstico de "depressão melancólica". Saiu no mesmo ano para assistência domiciliar. Retorna ao hospital em 1932. Nos anos seguintes lhe foi prescrito o Eletrochoque, por apresentar crises de choro espaçadas, comportamento irritadiço, por gritar muito e não responder quando é questionada. Contudo, trabalha com proveito na cozinha. Após o tratamento, a paciente se encontra tranquila, demora a responder quando é interrogada e, quando o faz, é de maneira incompreensível emitindo sons inexpressivos, fita o interlocutor com ar estúpido. Sua saída ocorreu por falecimento 39 anos depois (em 1971)”.

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HISTÓRIA

ENSAIO SOBARE A LOUCURA

GLOSSÁRIO DE DIAGNÓSTICOS NO FINAL DO SÉCULO XIX E INÍCIO DO SÉCULO XX EXISTIAM DIVERSAS DEFINIÇÕES PARA OS DIAGNÓSTICOS DOS ALIENADOS, POIS DEPENDIA DA INTERPRETAÇÃO DE CADA PROFISSIONAL E LINHA DE PESQUISA. POR ISSO, EM 1952 FOI CRIADO O MANUAL DIAGNÓSTICO E ESTATÍSTICO DE TRANSTORNOS MENTAIS (DSM), UTILIZADO PARA IDENTIFICAR AS DOENÇAS MENTAIS DE ACORDO COM OS SINTOMAS DE CADA PACIENTE. ATÉ A CRIAÇÃO DO DSM OS ENFERMOS FICAVAM A DERIVA DA ANÁLISE DE CADA MÉDICO. Demência precoce: perda da afetividade; da iniciativa e associação de ideias (identificado posteriormente como esquizofrenia). Degeneração hereditária: transmissão de caráter adquirido, ou seja, não só por fatores biológicos mas também virtudes e vícios são passados para gerações futuras. Coprolalia: compulsão em proferir palavras obscenas. Logorréia: produção verbal anormal intensa e acelerada, frequentemente associada à fuga de ideias e distraibilidade. Diagnóstico maníaco-depressivo: perda do controle, euforia acompanhada de logorréia. Sordice: sórdido, imundície, possui sujeira na vestimenta ou no corpo. Idiotia: aquele que não consegue se expressar verbalmente, nem compreender a verbalização de pensamento de outros. Imbecil: articula mal as palavras, não conseguindo se comunicar por escrito, nem compreende o que lê. Debilidade mental: capaz de se comunicar verbalmente e por escrita, mas apresenta

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dificuldade de aprendizado. Gatismo: incontinência de urina ou de fezes. Coprofagia: prática de ingestão de fezes. Psicose alcoólica (alcoolismo) crônica: é aquela que pode ser observada em indivíduos que fazem uso de álcool há muito tempo. Segundo o médico psiquiatra Henrique Roxo, o indivíduo passa por modificações de caráter, perda de noção da ética e da estética, não exerce seu trabalho de forma satisfatória e as vezes falta o emprego. Ele perde a noção de honra e não zela pela esposa, que pode o abandonar e insinuar carinhos para outro homem. Irritabilidade permanente. Psicose alcoólica (alcoolismo) subaguda: mau humor, inquietação, insônia, irritabilidade, alucinações do ouvido além da vista, e em alguns casos ocorre delírio sistematizado de ciúmes. Psicose alcoólica (alcoolismo) aguda: o paciente tem fortes tremores, intensas alucinações da vista e é perceptível uma confusão mental alucinatória.

Melancolia: segundo Hipócrates, considerado o pai da medicina, a melancolia era um estado de tristeza e medo de longa duração, além de ser considerada doença. Já para Phillipe Pinel, considerado o pai da psiquiatria, melancolia é a parte dos quadros patológicos, descrita como uma doença cujas vítimas tinham fixação em um orgulho desmedido, podendo ser acometidas de abatimento, consternação e desespero. Histeria: a palavra tem origem do grego, histeros, que significa útero. O termo passou a ser utilizado para classificar um distúrbio relacionado diretamente à sexualidade feminina, podendo surgir entre a puberdade e a menopausa. Inclusive na Idade Média a Histeria era associada à possessão do demônio. Segundo o psiquiatra Charcot, a histeria se desenvolvia em quatro etapas: rigidez tônica, convulsões desajeitadas, manifestação física de estados emocionais e estado de delírio.


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#12

A JUVENTUDE


tendência#13

DAS GERAÇÕES O ANSEIO E A BUSCA POR LIBERDADE COM QUALIDADE DE VIDA, NORTEIA O DESEJO DE MUITOS JOVENS QUE ALMEJAM FELICIDADE, DINHEIRO E INDEPENDÊNCIA

POR MARIANA PACCHIONI, LEANDRO OSÓRIO E PAULO NUNES IMAGENS IMAGENSLIVRES.COM | DIVULGAÇÃO/ARQUIVO PESSOAL


TENDÊNCIA

A JUVENTUDE DAS GERAÇÕES

O

último censo desenvolvido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mostra que 11,07% dos 54,6 milhões de lares brasileiros são habitados apenas por um morador. A busca por conforto e praticidade modifica o conceito de vida adulta. Os casamentos tardios, a busca pelo sucesso profissional e financeiro e a vida em grandes centros urbanos delineia a nova geração de jovens. Esta busca pelo emprego e salários ideais é diretamente ligada pela satisfação no trabalho. A busca por significado no que fazer aliada a um bom salário começa cedo a inquietar a mente dos jovens. Muitas vezes, o anseio por sair de casa e conseguir a liberdade é o motor inicial para dar largada à busca do primeiro emprego. “Meu maior objetivo é terminar meu curso e depois começar a trabalhar logo, me estabilizar economicamente o quanto antes, até para começar uma vida, longe das asas do pai e da mãe.”, é o que conta Carlos Eduardo Netto Torres, de apenas 17 anos, preses a concluir o Ensino Médio. Aos 17 anos, Carolina Althoff ingressou na faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Quatro anos depois, viu a obtenção do diploma como porta de saída para a vida que levava na casa de sua mãe. Ela buscava a liberdade que nunca pôde experimentar enquanto dependia financeiramente de seus pais. “Eu procurei um emprego porque morando com a minha mãe tinha pouca liberdade para fazer o que eu queria. O dinheiro me trouxe essa liberdade, porque era algo só meu.”, enfatiza a jovem. No entanto, ao longo da busca pela liberdade financeira, muitos jovens acabam tropeçando nas dificuldades do mercado de trabalho, já muito concorrido, e terminam com a difícil tarefa de recomeçar do zero.

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Carol Moreira e seu marido André Nascimento, no literal australiano

Imaginava que antes dos 50 teria minha própria casa. Nada disso aconteceu. Fiz uma segunda faculdade e já estou mudando a profissão pela terceira vez.

A felicidade de quem superou desafios


Mãe e filha, Léa Aragón (73) e Caroline Burne (48) têm visões parecidas de mundo, apesar da diferença de idade. A busca pela qualidade de vida perfeita está presente em seus sonhos, embora a dificuldade exista em qualquer instância. “Imaginava que antes dos 50 teria minha própria casa. Nada disso aconteceu. Fiz uma segunda faculdade e já estou mudando a profissão pela terceira vez. Como nunca quis me casar ou ter filhos, não ter estabilidade acabou me assustando há algum tempo, mas continuo correndo pra realizar meus sonhos.”, conta Caroline. A mãe tem uma experiência parecida. Apesar de traçar os típicos paralelos entre a juventude de hoje e a de 40 anos trás, Léa comenta que os sonhos eram os mesmos. “Queria ter a minha profissão, que permitisse criar minhas filhas. Nunca fui muito ambiciosa, apenas o suficiente para viver em paz e tranquilidade.” Para a psicóloga Fernanda Cássia Landim, o processo da busca de satisfação pessoal aliada à liberdade não é exclusivo da geração Y. Estava imposta também a seus pais e avós, mas com diferentes prioridades. “O processo de jovens ganhando o mundo é dar-se conta

de que eles conseguiram ter uma diretriz que os fez refletir e entender quais eram as necessidades frente às demandas oriundas referente ao ponto inicial de uma trajetória”, explica. Quando as dificuldades atrapalham essa liberdade, a opção é permanecer na casa dos pais. É o que o artigo da psicóloga Liana Alves busca discutir. Publicado na Revista Vida Simples, em março de 2006, traz o seguinte questionamento: ficar em casa ou romper a casca? A discussão é feita com base na premissa de que em busca de confor­to e apoio, os filhos acabam prolon­gando sua estada na casa dos pais, desfrutando de suas benesses.

O MUNDO FORA PODE SER UMA SAÍDA O sonho de uma qualidade de vida melhor aliado ao desejo de conquistar o mundo leva muitos jovens a procurarem a vida ideal fora do país. Seja por conta da crise econômica, seja pela falta de emprego. Este é o caso de Caroline Moreira (29), que há oito anos mora em Sidney, na Austrália, com seu marido. A busca por um diferencial no mercado de trabalho ajudou na escolha

Caroline Burne e sua mãe Lés Aragón compartilham dos mesmos desejos apesar da idade

pelo país. “Depois de entrar para faculdade de turismo, a vontade e necessidade de morar fora do país tornou-se maior. Em 2007 conheci meu futuro marido e ele tomou a iniciativa de sair do país. Em maio de 2008 ele foi para a Nova Zelândia e eu fui alguns meses depois”, lembra. Caroline ainda conta que aquele anseio por ter tudo, típico dos jovens, afetou sua decisão na hora da busca pela independência. Hoje em dia não pensa em voltar para o Brasil e vê-se morando no país pelo menos nos próximos 10 anos. Seus maiores objetivos nesse meio tempo é ter uma grande família e trazer alguns familiares para morar consigo. Ela ainda preza, acima de tudo, a qualidade de vida adquirida no país. “Sempre quis morar no litoral e hoje eu realizo este sonho, o que me tornou uma pessoa mais ativa e feliz. A violência aqui é muito menor em relação ao Brasil, podemos sair nas ruas sem ter medo e isso não há dinheiro no mundo que pague. Aqui vivem em paz.”, diz. A busca por uma vida melhor entre os jovens tem basicamente os mesmos motivos. A ideia de ganhar o mundo parte da necessidade de sentir-se livre. “A busca de um futuro melhor, diferente, embasado em um ideal de alcançar o pote de ouro é uma ilusão de liberdade que o adolescente ou o adulto jovem muitas vezes sofre já no núcleo familiar”, é o que pondera a psicóloga Dóris Adriana Pinto Soares. A pressa nestes casos pode se tornar um obstáculo para alcançar o que se deseja. “Percebo várias decepções, visto que na ansiedade, pressa e baixa tolerância à frustração da juventude na atualidade, não há muitas vezes uma avaliação rasa ou falha das oportunidades, riscos e consequências”, explica Dóris ao falar sobre a exacerbada busca da liberdade vista em muitos jovens. Isso leva ao retorno precoce ao núcleo familiar ou ao encontro a situações de risco.

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#16

MENINAS DA

FASE E AS OPORTUNIDADES DE RESSOCIALIZAÇÃO TEXTO E FOTO POR FERNANDA LA CRUZ


social#17


SOCIAL

MENINAS DA FASE

C

larissa fitou o muro pela última vez. Durante o último ano, observou a imponência da massa de tijolo, cimento e arame farpado sem jamais cruzá-la – atravessou uma única vez, na chegada, quando desconhecia o poder dos muros. Mas quem encarava o concreto já não era a mesma menina. Clarissa certamente mudou. Outra pessoa que se tornou, queria a liberdade. A nova vida. Um recomeço sem grades, vigia ou punição. Aos 17 anos, fora enviada à Fundação de Atendimento Sócio Educativo (Fase) depois de participar do assalto de um lotação, cometido em janeiro de 2015. A sentença e a reclusão vieram mais tarde, em setembro do mesmo ano, depois que Clarissa e seus comparas foram identificados através das câmeras de monitoramento do veículo. Quando saiu, em 2016, outras 45 meninas permaneceram na Casa de Bonecas – nome pelo qual o centro feminino é conhecido por quem passa por ali. No Rio Grande do Sul, o atendimento dessas adolescentes – responsáveis o suficiente para sofrerem sanção, mas ainda muito jovens para responderem pelo sistema penal –, concentra-se nessa unidade. Esse paradeiro – como o próprio nome sugere – temporário, guardado no alto do morro da Vila Cruzeiro, em Porto Alegre, recebe casos de todos os tipos: desde a internação provisória, equivalente à prisão preventiva, e medidas de semiliberdade até a privação total – caso de Clarissa. Ali todas, sem exceção por tipo de delito, têm contato entre si. Na Casa de Bonecas o tempo corre devagar. Galpões centrais cercados pelos muros separam, neste momento, as companheiras de Clarissa do contato com o mundo. De lá, acompanham tudo pela TV: nada mais que recortes policiais de seus mundos, algum entretenimento e outros mundos afortunados – próximos delas somente assim, pela TV. Há

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poucos anos, seria impensável que tivessem acesso aos meios de comunicação, às oficinas de aprendizagem profissional e ao apoio de assistentes sociais e psicólogos. É que 14 anos separam o modelo de punição da Fundação do Bem-Estar do Menor, conhecida como Febem, da política de socioeducação da Fase. Criada em janeiro de 1969, quando a ditadura militar exercia sua repressão, a instituição ficou conhecida por seus abusos policiais e pela violência, muita violência. A partir de uma visão centralizadora, que iniciava e encerrava o atendimento dos internos das grades para dentro da instituição, é que crianças e adolescentes não só infratores, mas também portadores de alguma deficiência, órfãos, abandonados pelos pais e miseráveis eram encaminhados para lá. ¬Em 1985, quando retomada a democracia, o sistema permaneceu intacto. As mudanças chegariam cinco anos mais tarde, em julho de 1990, com a criação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). A partir daí, um primeiro olhar de atenção foi lançado sobre as crianças e adolescentes no país. A Casa de Bonecas tem nome. Chama-se Centro de Atendimento Socioeducativo Feminino (Casef) e fora criado em 1962. Desde então, muita coisa mudou. É, por exemplo, a única casa brasileira em que os adolescentes podem comer com garfo e faca, pratos e copos de vidro. Ainda assim, o local reproduz a lógica dos presídios. Por mais que se tente dizer que não, a Casa de Bonecas é uma prisão. Para acabar com essa cultura serão necessários ainda muitos anos. O que de fato já está mudando é o tratamento dispensado para as adolescentes e a forma de encarar a ressocialização. Há um novo entendimento que, sob uma perspectiva mais sistêmica, percebem os jovens como responsabilidade da sociedade. Essa forma de organização compreende a missão da ressocialização como algo que deve ser feito em rede. Isso quer dizer que, em socie-

Na Casa de Bonecas o tempo corre devagar. Galpões centrais cercados pelos muros separam as companheiras de Clarissa do contato com o resto do mundo. De lá, acompanham tudo pela TV.


dade, todos são, direta ou indiretamente, responsáveis por todos. Assim, quando um adolescente erra é aquela gota que transborda o copo d’água. Antes falhou a família, a escola, a humanidade. Esse paradigma é totalmente avesso à Proposta de Redução da Maioridade Penal (PEC 171/93, que voltou a tramitar no Congresso em 2014) e enxerga o adolescente em condições de responder judicialmente como um adulto em casos de crimes de homicídio doloso, lesão corporal seguida de morte e reincidência de roubo qualificado. Elisabeth Machado, psiquiatra especialista nos temas violência e adolescentes infratores, vê a proposta com descrença. “Já se sabe que não há relação entre a menoridade penal e a diminuição da violência. Esse paradoxo atende um desejo de vingança, não quer solucionar o problema”. A psicóloga sustenta a ideia de que adolescentes e crianças vivem em um período de amadurecimento, de constante transformação. Seria possível, com isso, reverter quadros violentos, especialmente em casos de atos infracionais “cometidos por sobrevivência”. Já para os casos mais duros, a profissional adverte para a importância do contexto. A maioria dos jovens tem histórias de vida muito difíceis e nada garante que qualquer cidadão cometa o mesmo crime em um acidente ou por defesa, por exemplo. Os mais de 20 anos de experiência com o tema respaldam a afirmativa de Elisabeth: “Nada é definitivo, ou seja, eles podem ser recuperados”. Para estudar a questão com profundidade, Elisabeth freqüentou, durante três meses, por mais de oito horas diárias, duas unidades da Fase (uma casa de Porto Alegre e outra de Santo Ângelo). Mesmo descrevendo a situação da última como “idealizada”, em que o diretor da unidade jogava futebol com os meninos aos domingos, ela descreve a experiência como uma das piores que viveu. “Foi barra pesadíssima, até o diretor de uma das casas que era amigo adoeceu,

perdeu todos os pelos do corpo e teve de ser afastado. Eu vi situações muito duras, muito pesadas, tentativas de suicídios, jovens sendo colocados em celas especiais porque eram violentos, mas contra si mesmos não contra os outros”. O que a socioeducação faz é utilizar esse tempo em que o adolescente passa confinado para transformá-lo. Fora dessas soluções, o que se apresenta é uma realidade arbitrária. O discurso é que esses adolescentes estudem, mas na escola não encontram amparo. O método educacional é atrasado e a criança não entende. É humilhada pelos colegas. Se pensa na fuga. Como todos fazem: compras, roupas novas, passeios, viagens. Mas essas pessoas não podem, não tem acesso. Quem aparece é a droga – espécie de subterfúgio barato que, se fosse mesmo ruim, ninguém usava. Se tudo é ruim, procura-se o prazer que aparece, o prazer possível. No caso de Clarissa, a cocaína. Depois de algum tempo morando com o pai, em Santa Catarina, Clarissa conseguiu deixar a droga. Hoje, consome apenas cigarro. A luta para deixar o vício tomou de Clarissa um esforço enorme: nem a jovem tem dimensão de quanto lutou por isso. Apenas diz que fez porque sabia que era “ruim”. Hoje, a Fase descentraliza seus serviços. Além de Porto Alegre, há unidades em Caxias do Sul, Novo Hamburgo, Osório, Passo Fundo, Pelotas, Santa Cruz, Santa Maria, Santo Ângelo e Uruguaiana. Entretanto, os espaços são dedica-

dos exclusivamente a meninos. Nesses casos a demanda é realmente maior – a média é de 97,2% –, mas enquanto os adolescentes podem cumprir medida socioeducativa próximos de seus lares, dentro de suas realidades, as meninas têm de ser retiradas de sua cidade e do contato com a família (quando há). São colocadas, ainda, em um lugar que insiste lembrá-las quem são: maioria pobres, vivendo nos morros – livres ou não. Se a vida pós-Fase é implacável com os meninos, que têm dificuldade em conseguir colocação profissional, a situação se agrava para elas. Ali, nas oficinas de costura, bordado e lavanderia, ensaiam para a vida que as espera em breve. Embora a Lei 12.594 determine que estudem enquanto permanecem na unidade, há uma constatação cruel de que seus futuros se reduzirão a repetir a vida de suas mães e avós com o papel de servir, de nunca protagonizar.

DEDICAÇÃO À NOVA ETAPA Quando chega ao fim o tempo de reclusão das meninas, entra em ação o esforço de Alexandre Onzi, assistente social que se dedica ao cuidado de adolescentes através do Núcleo de Acompanhamento de Egressos da Fase. Atuante nas unidades desde a época da Febem, Onzi testemunhou a precariedade dos abrigos, presenciou rebeliões e viu a instituição ser humanizada. Alexandre fala de seu desejo de viver em um mundo mais igual. Em seus olhos,

São colocadas, ainda, em um lugar que insiste lembrá-las quem são: maioria pobres, vivendo nos morros – livres ou não.

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é possível perceber quanto tempo de sua vida foi dedicado a isso. Ele viu, ao longo dos 25 anos em que trabalha na instituição, casos de todos os tipos: adolescentes violentados sexualmente, vidas dilaceradas pela fome, crianças que não sabiam escrever. Defensor da educação como forma de prevenção de novos delitos, luta contra a ideia de que somente os presídios adultos trazem segurança. Trabalhando nas casas de piores perfis, por onde passaram jovens que praticaram homicídios, latrocínios e estupros, Onzi atribui à causa a falta. Em uma sociedade egoísta é natural que a necessidade motive a violência. Os jovens, isolados dos direitos garantidos pelo poder público e afastados da presença policial acabam por criar suas próprias diretrizes. A guerra, como defende o sociólogo Marcos Rolim, é a lógica em que os meninos associados ao tráfico entendem que estão. Na presença dos amigos e traficantes encontram valores e referenciais de sucesso. E Alexandre sabe que este é o caminho de acesso à bens, aos mesmos bens que todos querem, apresentado para eles. “Vamos restaurar o entendimento de que eles podem ter acesso a bens possíveis, desenvolver a compreensão de que não poderá ter aquele tênis, aquele relógio mas poderá ser feliz com outro tênis, com outro relógio”. As dezenas de histórias testemunhadas nas unidades se cruzam com a vida do próprio Alexandre. Se permeiam, entrecruzam, tornam-se uma só. Nessa vivência, Onzi viu adolescentes perderam para o crime, ganharem a morte. Entre tantos histórias, gosta de contar a de um sujeito que ingressou na Fase depois de cometer os crimes mais pesados. Onzi diz que nos olhos do rapaz só era possível “enxergar a morte”. Ressocializado, com curso profissionalizante, o rapaz saiu e abriu sua própria empresa. Pequena, parece* que conserta e instala aparelhos de ar condicionado. Mas é um mundo possível, com uma felicidade plausível e hoje

tá bem”. ‘é muito triste ver pessoas que não sobreviveram mas isso também me permite ver histórias incríveis de vida. Esse é o nosso trabalho: pegar uma vida despedaçada totalmente sem esperança e tentar fazer o possível com a família que tem se tem, porque a família morre, é assassinada. “Não podemos jogar a toalha por um trabalho que é de toda a sociedade. Isso não é tratar, é afastar da nossa vista”, diz. vamos consewguir reverter todos os quadros? acho q nao, mas as vezes a gente tem surpresas agradaveis, hje eu tenho um cara de 30, anos, com tres mortes nas maos, que abandonou o crime. era um suneito que tu so conseguia olhar e enxergar a morte. vai matar ou vai morrer. ele é meu amigo, assim como muitos que passaram na minha frente morreram. A frente da coordenação do Núcleo de Acompanhamento de Egressos, Onzi coordena uma equipe de x profissionais da área de x. Juntos, elaboram o Plano Individual de Atendimento de Egresso (PIA Egresso), uma espécie de roteiro para a saída do adolescente. A elaboração dos PIAs, o acompanhamento psicossocial e toda a assistência prestada aos egressos também têm origem no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). O Estatuto garantiu mais direitos aos menores de idade. Graças a esse plano, políticas públicas, Estado e sociedade se encontram para, juntos, trabalharem pela reinserção do jovem na escola, na família, no mercado de trabalho – pelo menos em tese. Com o PIA em mãos, a menina terá assistência garantida e uma previsão do futuro: postos de saúde onde deverá consultar com médicos, a escola em que será matriculada, oportunidades de emprego já sinalizadas com iniciativas locais, conselheiros tutelares e a família.

A PORTA DE SAÍDA O PIA começa a ser elaborado quando a jovem ingressa na casa. O motivo é simples: a Fase não é para a vinda in-

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Adolescentes associados ao tráfico pensam viver e, de fato, sobrevivem em um contexto de guerra. Na presença de amigos e traficantes encontram seus valores, além de referenciais de sucesso. É o caminho de acesso à bens possível.

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teira Isso porque se entende desde o primeiro dia que essa adolescente não é da Fase, ela é da sua família, não é pra sempre. É claro, esse é o plano ideal. Na prática, o PIA é estruturado uma semana antes de a jovem sair. “Acontece”, admite o coordenador. Quando sai, a menina tem a chance de ingressar no Programa de Oportunidades e Direitos (Pod), uma iniciativa organizada pela Secretaria de Justiça e Direitos Humanos, que, por meio de parceria com entidades conveniadas oferece cursos profissionalizantes voltados à inserção no mercado de trabalho. O programa é lei. Foi criado para as dez regionais do Estado, mas agonizou com a falta de investimento até morrer. Hoje, sobrevive apenas em Porto Alegre e Santa Maria. Na Capital, são 150 vagas para meninas e meninos divididas entre Fundação Pão dos Pobres e Rede Nacional de Aprendizagem, Promoção Social e Integração (Renapsi). Assim que as adolescentes ingressam no Pod, não há mais ligação com a Fase. Elas pagaram pelos erros e, desligadas da instituição, não devem carregar a marca do ato infracional. Na Renapsi, entidade criada há mais de 20 anos e presente em quase todo o território nacional, as jovens poderão optar pelas aulas de informática, um módulo básico de assistente administrativo, outro curso culinária. De volta à vida fora da Fase, às salas de aula sem trancas, o desafio é se manterem interessadas no trabalho Junto à outras garotas, que jamais passaram pela Casa de Bonecas, têm a oportunidade de aprenderem e se divertirem como o que são, adolescentes normais. A rede oferece atendimento interseccional com psicóloga, pedagogo e assistente social. Sob a prerrogativa de frequentar a escola e comparecer aos encontros diários, recebem meio salário mínimo como auxílio. Ao final de 12 meses, o programa é encerrado e a adolescente está pronta para ingressar em uma nova vida, com as obrigações e prazeres do mundo adulto. Clarissa vive,

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agora, entre esses dois mundos, esquecendo os antigos delitos enquanto começa a desenhar o novo. À frente da coordenação do Núcleo de Acompanhamento de Egressos, Onzi coordena uma equipe de x profissionais da área de x. Juntos, elaboram o Plano Individual de Atendimento de Egresso (PIA Egresso), uma espécie de roteiro para a saída do adolescente. A elaboração dos PIAs, o acompanhamento psicossocial e toda a assistência prestada aos egressos também têm origem no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). O Estatuto garantiu mais direitos aos menores de idade. Graças a esse plano, políticas públicas, Estado e sociedade se encontram para, juntos, trabalharem pela reinserção do jovem na escola, na família, no mercado de trabalho – pelo menos em tese. Com o PIA em mãos, a menina terá assistência garantida e uma previsão do futuro: postos de saúde onde deverá consultar com médicos, a escola em que será matriculada, oportunidades de emprego já sinalizadas com iniciativas locais, conselheiros tutelares e a família. O PIA começa a ser elaborado quando a jovem ingressa na casa. O motivo é simples: a Fase não é para a vida inteira. Isso porque se entende, desde o primeiro dia, que essa adolescente não é da Fase, ela é da sua família, não é pra sempre. É claro, esse é o plano ideal. Na prática, o PIA é estruturado uma semana antes de a jovem sair. “Acontece”, admite o coordenador. Quando sai, a menina tem a chance de ingressar no Programa de Oportunidades e Direitos (Pod), uma iniciativa organizada pela Secretaria de Justiça e Direitos Humanos, que, por meio de parceria com entidades conveniadas oferece cursos profissionalizantes voltados à inserção no mercado de trabalho. O programa é lei. Foi criado para as dez regionais do Estado, mas agonizou com a falta de investimento até morrer. Hoje, sobrevive apenas em Porto Alegre e Santa Maria. Na Capital, são 150 vagas para meninas

e meninos divididas entre Fundação Pão dos Pobres e Rede Nacional de Aprendizagem, Promoção Social e Integração (Renapsi). Assim que as adolescentes ingressam no Pod, não há mais ligação com a Fase. Elas pagaram pelos erros e, desligadas da instituição, não devem carregar a marca do ato infracional. Na Renapsi, entidade criada há mais de 20 anos e presente em quase todo o território nacional, as jovens poderão optar pelas aulas de informática, um módulo básico de assistente administrativo, outro curso culinária. De volta à vida fora da Fase, às salas de aula sem trancas, o desafio é se manterem interessadas no trabalho. Assim que as adolescentes ingressam no Pod, não há mais ligação com a Fase. Elas pagaram pelos erros e, desligadas da instituição, não devem carregar a marca do ato infracional. Na Renapsi, entidade criada há mais de 20 anos e presente em quase todo o território nacional, as jovens poderão optar pelas aulas de informática, um módulo básico de assistente administrativo, outro curso culinária. De volta à vida fora da Fase, às salas de aula sem trancas, o desafio é se manterem interessadas no trabalho. Assim que as adolescentes ingressam no Pod, não há mais ligação com a Fase.


O PIA começa a ser elaborado quando a jovem ingressa na casa. O motivo é simples: a Fase não é para a vida inteira. Entende-se, desde o primeiro dia, que essa adolescente não é da Fase, ela é da sua família, não vai ficar lá para sempre.

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política#27

CAMPANHAS ELEITORAIS

NAS REDES SOCIAIS POR DANIELA FERNANDES, GRAZIELLA SANTOS E MELISSA RENZ FOTOS MARIANA CATALANE E MELISSA RENZ DIAGRAMAÇÃO JENNIFER VAN LEEUVEN E MARIANA CATALANE

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POLÍTICA

CAMPANHAS ELEITORAIS NAS REDES SOCIAIS

EM TEMPOS DE CONTENÇÃO DE GASTOS, CAMPANHAS ELEITORAIS DIGITAIS É UMA ALTERNATIVA PARA OS PARTIDOS

A

s redes sociais deixaram de ser apenas uma rede de interação de amigos. Hoje em dia o Facebook e o Twitter prestam serviço aos mais diversos segmentos. Em época de eleições as redes sociais se tornaram um dos melhores lugares para fazer campanha eleitoral e divulgar os candidatos e seus respectivos partidos. Esse é o trabalho de centenas

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de pessoas nesta época, que fazem das redes uma ponte entre partidos políticos e seus possíveis eleitores. Há bem pouco tempo, as campanhas eleitorais eram feitas somente na TV, rádio e – com a militância nas ruas fazendo a distribuição de santinhos e bandeiraços. Mas com a proibição do financiamento de empresas em campanhas eleitorais, os custos foram reduzidos e a propaganda na internet se tornou

uma opção barata e que traz ao candidato uma ampla visibilidade e possibilita ainda uma interação imediata com seu eleitor. Um marketing eleitoral feito da maneira correta pode ser um trunfo contra outros candidatos. Mas quem são as pessoas por trás dessas campanhas? A revista Universus, conversou com o publicitário Bruno Silveira, 27 anos


da agência AMA, que trabalhou durante este ano com os partidos PP e o PTB em campanhas para prefeitura de várias cidades, e com o PMDB pra alguns vereadores. Desde quando você trabalha com campanhas eleitorais? Bruno: Os primeiros trabalhos foram em 2010. Desde lá fiz algumas campanhas em 2012,2014 e agora em 2016.

Em época de eleições as redes sociais se tornaram um dos melhores lugares para fazer campanha eleitoral e divulgar os candidatos e seus respectivos partidos. #29 ISSUU.COM/UNIVERSUS


POLÍTICA

CAMPANHAS ELEITORAIS NAS REDES SOCIAIS

Chegou a trabalhar nesta área antes das redes sociais? Como era o trabalho realizado? Bruno: Sim, eu trabalhei duas vezes antes das eleições desse ano onde a utilização de redes sociais era muito limitada. A principal consideração é que em 2016 a lei de campanha eleitoral foi modificada, e essa mudança diminuiu o tempo de campanha pela metade, mudou as doações de pessoa jurídica e limitou o tamanho da verba de campanha de cada candidato. A partir dessa nova lei, as redes sociais começaram a ter cada vez um impacto maior no dia a dia da campanha. Antes da utilização das redes sociais, a campanha era muito mais boca a boca e todo candidato tinha um grupo muito maior de apoiadores pra

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sair na rua e ir atrás de novos eleitores. A militância dos partidos tinha que bater muito pé na rua e fazer muito divulgação de material impresso. Qual o impacto da era digital nas campanhas? Bruno: Alguns exemplos que foram bastante impactados como, por exemplo: as pessoas levam muito em consideração os candidatos que estão ativos nas redes sociais; redes como Facebook e Twitter e deixam a relação candidato com eleitor muito mais próximo. Quando um eleitor interage com o candidato nas redes sociais eles tem a sensação de estar falando com o candidato. E os posts, por lei, não podem ser pagos ou impulsionados, o que faz

a estratégia de divulgação, likes e compartilhamento seja essencial pra ter uma disseminação maior. Sabemos que o marketing digital é cheios de vantagens, gostaríamos de saber mais sobre isso em relação ao candidato nas redes sociais? Bruno: As desvantagens são que os posts não podem ser pagos e impulsionados, o que traz um desafio grande para os responsáveis. Redes sociais são utilizadas como “palavra do candidato”, então se alguém fala algo errado, ou faz alguma postagem errada ou algo do gênero tem uma influência muito negativa. Os números de compartilhamento, likes e comentários são abertos e algumas vezes isso pode ser utilizado pela concor-


rência. Uma estratégia mal feita e com poucos apoiadores, às vezes, pode nem valer o tempo e o investimento feito. As vantagens são que nós temos contato direto com os eleitores, se cria uma humanização do candidato, divulgação orgânica na timeline de outras pessoas que ainda não conhecem/curtiram o candidato, e o controle dos números de interações, de shares, de likes. Quais são as maiores dificuldades? Bruno: A maior dificuldade é conseguir, a partir das redes sociais, divulgar novos candidatos com pouco histórico político e com um número pequeno de militantes. Como enfrentar os comentários desagradáveis a respeito do candidato ou partido que está sendo feito o trabalho? Bruno: Depende muito de cada caso, alguns têm como gerar uma resposta positiva e construtiva, mas existem outros comentários que estão ali somente pra mostrar que a pessoa é contra o candidato e de um jeito muito negativo, muitas vezes nem é respondido. Porém, não acho certo tirar esses comentários dos posts, uma vez em que o pessoal pode tirar uma foto da tela e depois usar isso contra o candidato. E o retorno? Vocês tem algum percentual de eleitores que trazem seu voto por causa das redes? Bruno: Esse é um tópico delicado porque nunca temos como saber ao certo, podemos saber quem conheceu o candidato através das redes sociais, mas saber se isso foi convertido em voto é muito difícil. Em sua opinião, nas eleições de 2016 qual foi à campanha mais bem sucedida? Bruno: Uma campanha bem recente e que ainda pode ser acompanhada por todos é a de Marcelo Frexo, candidato à prefeitura do Rio de Janeiro. Ele é um candidato do PSOL, e seu partido tem pouco tempo de televisão, acredito que entre 10 e 15 segundos. Pela falta de

As vantagens são que nós temos contato direto com os eleitores, se cria uma humanização do candidato, divulgação orgânica na timeline de outras pessoas que ainda não conhecem/curtiram o candidato, e o controle dos números de interações, de shares, de likes. Bruno Silveira

tempo na televisão, a estratégia dele em redes sociais foi muito bem feita. A campanha dele teve uma utilização muito efetiva de vídeos ao vivo no Facebook e compartilhamento de trechos de debates. Ele juntou parcerias, apoiadores e figuras públicas do Rio de Janeiro para lançar clipe do jingle, o que teve um sucesso enorme de likes e shares. Outro ponto interessante é que a campanha mostra, nas redes sociais, alguns apoiadores e quanto eles pagaram pra apoiar o candidato. E quais foram às campanhas de sucesso na qual você trabalhou? Bruno: Em campanha desse ano que trabalhei tivemos algumas histórias de sucesso, como por exemplo, a prefeitura de Gramado. O candidato que fizemos campanha em Gramado era tido como vitória impossível, e ainda assim conseguimos reverter esse quadro fazendo ser eleito. Outra campanha foi a de Igrejinha, em que o candidato que fizemos campanha venceu com mais de 70% dos votos. Um quadro positivo também é a campanha do Maurício Dziedricki, em Porto Alegre. Apesar de não ter vencido, ele foi um candidato que saiu de 1,7% de intenção de votos e terminou a votação com quase 14% dos votos, passando a própria Luciana Genro (lembrando que no inicio das pesquisas ela era a candidata com maior intenção de votos da cidade). Quais as habilidades necessárias para quem quer se aventurar na área? Bruno: Acredito que essas sejam habilidades básicas e fundamentais é ter um ótimo português, conhecer bem a campanha pra poder ser um militante eficiente, conhecer o público e saber qual tipo de conteúdo postar; ser uma pessoa amigável pra responder todas as interações; e entender da rede social que está trabalhando (saber horários de posts, entender a divulgação, entender a mecânica da rede social).

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“Que brega!” ESSA TALVEZ TENHA SIDO A FRASE QUE SUA MÃE MAIS OUVIU DURANTE ALGUNS ANOS. HOJE, APOSTO QUE VOCÊ É O MAIOR SÓCIO DO ARMÁRIO DELA. POR CAROLINA FERREIRA, DÉBORA NETO E KARINE MUNHOZ FOTOS CAROLINA FERREIRA E DÉBORA NETO

D

e uns tempos pra cá a moda mundial tem resgatado inspirações e modelos antigos e aplicado nas passarelas. Se para alguns é nostalgia, para outros é novidade. Calças de cintura alta, boca de sino (agora chamada de flare), bandanas e chokers são febre entre os jovens. E não só isso. A câmera polaroide que parecia

ser coisa do passado com a chegada da câmera digital, voltou a ser fabricada com um visual repaginado, mas com a mesma proposta. O disco de vinil que nem mais era lembrado por uma geração de streaming, volta às prateleiras com gravações de artistas atuais. E até mesmo a geladeira, após dezenas de avanços tecnológicos é trocada pela tradicional vermelha retrô.

Não só as novas marcas, mas a volta de roupas, acessórios e objetos antigos tem movimentado setores já esquecidos como brechós e antiquários, com públicos de diversas idades e classes sociais. O que foi moda nos anos 80/90 e descartado nos anos 2000 é hoje considerado relíquia, e procurado por muitos admiradores do estilo “Vintage”. Em uma sociedade onde tudo que “fica ve-


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MODA

“QUE BREGA”

lho” é colocado no lixo, essa reciclagem de artigos pode ser vista como um grande avanço. E não se trata só de roupas não! Vai do jogo do Pokémon ao espelho na sala de casa. Do brinco na orelha à televisão da vovó. O que vale é não ser moderno, em uma era onde até o carro já dirige sozinho. Será que essa tendência tem algum tipo de explicação? Seria isso um ciclo? Ou a lei de Newton? “Tudo que vai, volta”.

NOS TEMPOS DA BRILHANTINA Parece que você entrou em uma máquina do tempo e voltou décadas atrás. Quando jeans largo era moda e calça skinny nem se cogitava. Quando a caneta era usada mais para rebobinar a fita cassete do que para escrever. Quando a moda era usar maiô nas praias e se fosse biquíni era acima do umbigo. Quando o CD tinha o triplo do seu tamanho e se chamava disco de vinil. Mas você não voltou. Essa é a Casa da Traça, um brechó e loja alternativa que fica na Avenida Independência, em Porto Alegre. Um lugar onde você pode encontrar tudo que já nem lembrava mais, com aquele gostinho de infância. A loja, fundada em 2008, surgiu em meio à necessidade de encontrar brechós de qualidade na Capital, é o que explica a proprietária Babi andrade. “Este segmento era bem escasso, havia pouquíssimos lugares aqui com uma proposta bacanas e boas peças, então conversando com amigos e conhecidos eu vi que vários buscavam um lugar com essas características, e resolvi unir o útil ao agradável”, diz a empresária. Segundo Babi Andrade, de uns tempos para cá a procura por alguns itens do brechó tem aumentado e mais pessoas estão aderindo ao estilo. Na Casa da Traça, as peças mais vendi-

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das são jeans dos anos 80 e 90, vestidos e bijuterias divertidas. O garimpo exige um trabalho minucioso. Existem quatro formas: na primeira as compras são feitas em lotes. “Geralmente visitamos casas de famílias nas quais mães e avós guardaram peças por muitos anos, nestes locais selecionamos as peças vintage que se encaixam em nosso perfil e montamos um lote de peças”, explica Babi. A segunda forma conta com a ajuda de garimpeiras, meninas que fazem o serviço de procura de peças específicas para a loja. “Quando algumas peças estão sendo muito procuradas e difíceis de encontrar colocamos as garimpeiras em ação à procura do que precisamos, aí elas visitam feiras, entidades, brechós parceiros, e trazem as peças com os critérios solicitados” explica. As instituições parceiras fazem parte da terceira forma, repassando lotes de peças vintage e

utilizando o valor arrecadado em suas obras sociais. A última forma é através de marcas alternativas. “Neste caso as peças novas de moda alternativa são adquiridas com um processo de compra em atacado tradicional, selecionando as peças de coleção que se adaptam ao nosso estilo” conta Babi.

Primeiramente, é algo bom do ponto de vista econômico, ou seja, faz bem pro bolso. Segundo, aproxima as pessoas, tornando o consumo mais humanizado, já que cada item conta uma história. Evelise Biviatello, criadora do movimento Trocaria


COM O BOLSO CHEIO Chico Buarque, Tim Maia, Beth Carvalho, Tom Jobim. Artistas consagrados e renomados da música brasileira que gravaram discos de vinil nas décadas passadas e logo pensaram que se tornariam obsoletos. Mas o futuro foi surpreendente. Em 2014 os LPs voltaram com tudo. Nos Estados Unidos, o comércio de vinil obteve um crescimento de 50% naquele ano. De acordo com o The Wall Street Journal, 8 milhões de discos foram vendidos. No Brasil 102 mil discos foram fabricados naquele mesmo período. Em 2015, foram 123 mil discos no país. A previsão é de que, até o final do ano, haja um aumento de 20% no aumento nas produções e 150 mil discos sejam fabricados. Hoje, entre os artistas que mais venderam discos de vinil estão Artic Monkeys, Lorde, Lana Del Rey e Lady Gaga, que atraem um público mais jovem no Brasil e no restante do mundo. A questão é que a volta das antiguidades tem sido muito rentável para diversos segmentos que trazem para os dias atuais a moda vintage. Um exemplo disso em Porto Alegre é a Dekorela. A loja tem 16 anos e é referência quando se trata de artigos vintage e retrô. ‘’Parte da nossa ideia é de que a loja tivesse todos os produtos e para todos os gostos’’ explica (nome do cara), proprietário da Dekorela. De acordo com ele, essa nova alternativa que vem surgindo, está sendo muito bem aceita pelo público e trazendo muitos lucros para ele e outros comerciantes que lidam com esse segmento. Quadros, pôsteres, espelhos com molduras retrô, aparadores de livros, artigos para cozinha e relógios são alguns dos objetos vendidos na Dekorela. Todos eles remetem à moda vintage e a sensação é de estar vivendo nos anos 60 e 70.

À medida que as pessoas visitam brechós, elas sentem como se estivessem numa caça ao tesouro. Evelise Biviatello, criadora do movimento Trocaria

DE BEM COM O PLANETA O momento é economicamente positivo para brechós e antiquários, e isso se deve não apenas à volta de antigas tendências ou ao crescimento do estilo vintage, mas principalmente pelo fortalecimento de uma mentalidade mais voltada ao consumo sustentável da moda. Evelise Biviatello, criadora do movimento Trocaria – que incentiva a diminuição do consumo – explica que, além de ecologicamente amigável, o consumo de itens usados traz outros benefícios ao consumidor. “Primeiramente, é algo bom do ponto de vista econômico, ou seja, faz bem pro bolso. Segun-

do, aproxima as pessoas, tornando o consumo mais humanizado, já que cada item conta uma história”, explica. De acordo com relatórios do World Economic Forum, a indústria têxtil é uma das maiores poluidoras do mundo. Em países de baixa e média renda a fabricação dessas peças resulta em 3,5 milhões de pessoas expostas a poluentes tóxicos. “São milhões de toneladas de rou-

pas desperdiçadas todos os anos. É matéria-prima e m u i t o trabalho envolvido que vai para o lixo, sendo que a maioria ainda está em perfeita condição de reuso. Nesse sentido, não existe nada mais sustentável do que prolongar o uso do que já existe, seja trocando entre amigos, doando, (re) costurando”, analisa Evelise. No entanto, as roupas de segunda mão ainda não são bem vistas, associadas a coisas velhas, fora de moda e com cheiro de naftalina, o que, segundo a ativista, acaba sendo uma barreira para as pessoas optarem por essas peças, mas o futuro é positivo. “Percebemos que pouco a pouco essa percepção está mudando. À medida em que as pessoas visitam brechós, elas sentem como se estivessem numa caça ao tesouro em busca de um achado exclusivo”, diz. As opções são diversas, seja comprando de pequenos produtores, costurando ou reformando as próprias roupas, alugando ou trocando com amigos e

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“QUE BREGA”

CONHEÇA OS ARTIGOS Chockers: ou gargantilhas, são colares bem ajustados no pescoço, feitos de veludo, cetim, renda, couro ou plástico. O acessório, que já apareceu inúmeras vezes desde a Revolução Francesa e a Era Vitoriana, em 1990, voltou à moda no ano de 2015. Patches: surgiram como forma de identificar patentes militares, mas que caiu no gosto dos adolescentes nos anos 50 e foi se transformando até chegar ao que é hoje: desenhos, emblemas, emojis, slogans e símbolos, que podem ser aplicados em roupas, bolsas e até sapatos. Bandanas: são feita com um lenço que é dobrado diversas vezes, formando uma tira que cobre o braço, pulso, pescoço, testa ou até mesmo o topo inteiro da cabeça. Eram usadas pelos pioneiros do Velho Oeste estadunidense e foram redescobertas nos anos 70. Calça Flare: São calças justas nas coxas e largas abaixo dos joelhos, que antigamente eram chamas de “boca de sino” e faziam parte do uniforme hippie. Hoje em uma versão mais discreta. Vinil: O disco de vinil, conhecido também como Long Play (LP) é uma mídia desenvolvida no final da década de 1940 para a reprodução musical. Passaram por uma adaptação ao CD, mp3, Ipod, streaming e hoje voltam à sua composição original. Polaroide: As câmeras fotográficas que revelam instantaneamente a imagem, chamadas hoje de Instax, surgiram em 1948 e anunciaram o fim da sua produção em 2008, devido à forte concorrência das câmeras digitais. Celular de Flip: Celulares com duas partes que juntas abrem e fecham o telefone. A tela fica de um lado e os dígitos do outro. Eram tão “idolatrados” que alguns carregavam-nos à mostra na cintura. Pokémon: Franquia de mídia centrada em criaturas ficcionais que os seres humanos capturam e os treinam para lutarem um contra o outro. Começou com dois jogos para Game Boy e depois se extendeu para jogos de carta, desenho de televisão, filmes, revistas, brinquedos e roupas.

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MODA

VINTAGE

RETRÔ

CONJUNTO DE OPINIÕES, GOSTOS, ASSIM COMO MODO DE AGIR, VIVER E SENTIR COLETIVOS.

PEÇAS PERTENCENTES A OUTRAS DÉCADAS, PERTENCEU A SEUS AVÓS OU BISAVÓS.

PEÇAS NOVAS PRODUZIDAS COM ESTILO ANTIGO, UM NOVO LANÇAMENTO.

familiares, e a ativista deixa uma dica. “O que precisamos ter em mente é a real necessidade de adquirir algo novo nos perguntando: Realmente preciso disso? Existe alguma alternativa com menor impacto ao meio ambiente? Essas perguntinhas parecem simples, mas quando usadas com frequência, dão um novo significado às nossas relações com a moda”.

do inspirações de anos atrás”, diz. Ygor Escobar faz o mesmo curso e compartilha da opinião da colega. “Hoje em dia não se cria moda, se reinventa o que existe, e o retrô já vem sendo inserido há algum tempo. Passamos pelos anos 80 com o color blocking e cintura alta, e a cada temporada se avançam alguns anos no passado”. Para o estudante, essa mudança no comportamento surgiu da vontade de desacelerar, já que hoje tudo acontece muito rapidamente e a moda espelha esse momento. A personalidade de cada pessoa constitui-se de diversas características marcantes, o que ajuda a determinar o padrão de individualidade pessoal e social de cada pessoa, no modo de ser, pensar, sentir e agir. Para Luna a moda possui total importância na formação da personalidade de cada um. “É através dela que muitas pessoas buscam exteriorizar seus gostos pessoais para se destacarem ou se integrarem a grupos de pessoas que compartilhem do mesmo”, afirma.

O QUE OS PRINCIPIANTES NO MERCADO ACHAM Para quem está começando uma vida na moda, o desejo de produzir, desenhar e montar novas peças é inevitável. Mas qual a opinião desses “debutantes” sobre um mercado que está em busca do antigo? O que acontece é que mesmo o novo, não é tão novo, e sim uma adaptação de referências passadas, é o que explica Luna, estudante de moda. “Ela se recicla com o passar do tempo. Não é fácil estar sempre criando novos modelos de roupas e utilitários, por isso acontece a reciclagem de padrões retrôs, buscan-

O designer de sapatos, Pedro Toigo, observa que existem muitos conteúdos de comportamento e tendências ainda para serem explorados e que nunca é demais reviver esses momentos tão marcantes. ‘’O público aclama pelo novo e boas releituras nunca são over”. Ele acredita que os brasileiros ainda não estão preparados para uma progressão no fator da moda, e declara que vê muito preconceito no mundo da moda, ao usar roupas vintage, já que as pessoas caracterizam estas peças como roupas “velhas e sujas”. E isso é mito. Os grandes brechós fazem seleções rigorosas nas peças e todas passam por um processo seletivo de higienização, para garantir a qualidade das peças. O designer conclui dando uma dica para um consumo mais consciente: ir direto ao fornecedor. “A melhor forma é recorrer à amigos, parentes e clientes, assim pode-se haver uma troca consciente de produtos, agradando a todos e contribuindo para que o mercado da moda não destrua cada vez mais”.

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PERMISSÃO PARA SE DESCOBRIR DIVERSAS FORMAS QUE POSSIBILITAM O AUTOCONHECIMENTO ATRAVÉS DE CURSOS E RITUAIS SÃO EXPLICADAS POR ENVOLVIDOS EM ORIENTAR E EXPERIMENTAR, CONTANDO HISTÓRIAS E EXPERIÊNCIAS QUE MUDARAM SUAS RESPECTIVAS VIDAS.

POR RAFAEL BERNARDES E GUSTAVO LEAL


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ESPIRITUALIDADE

PERMISSÃO PARA SE DESCOBRIR

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Arquivo pessoal

A

cordamos, nos vestimos, caminhamos, cumprimos o nosso horário e voltamos para casa. Essa rotina, comum à maioria das pessoas, é repetida dia após dia, ano após ano. Muitas vezes as pessoas não conseguem parar e olhar para elas mesmas. O autoconhecimento tem como objetivo fazer com que o indivíduo tenha pleno conhecimento sobre si, além de proporcionar mudanças drásticas em sua forma de ver o mundo. Também pode se tornar importante em situações de trabalho, conforme relata Sidnei Oliveira, escritor da revista Exame. Ele fala sobre o tema em sua matéria intitulada “Autoconhecimento: princípio da liderança”. As formas de obter o autoconhecimento são diversas, desde a vivências e rituais a experiências sexuais aprofundadas. No filme “Livre”, protagonizado por Reese Witherspoon, a forma que a personagem da atriz principal encontra para além de se conhecer interiormente, também voltar a tomar conhecimento por si mesma, é realizando uma trilha de 1100 milhas pela costa do oceano Pacífico. É um exemplo de uma forma que pode ser utilizada para buscar um conhecimento aprofundado sobre si. O psiquiatra Mauro Pozatti, professor universitário e professor do departamento de Medicina Social na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), foi o criador do movimento Guerreiros do Coração. Em 1992, passando por um divórcio, Mauro não sabia como ensinar seus dois filhos (10 e 7 anos) a amadurecer, o que causou uma dúvida em sua cabeça: O que é “ser homem”? A resposta era muito mais profunda do que imaginava. O médico recorreu a métodos existenciais, aprofundando-se na Respiração Holotrópica, método terapêutico-vivencial desenvolvido pelo psiquiatra tcheco Stanislav Grof. O método tem como objetivo realizar vivências internas para propor um aprofundamento de descobertas e

Ritual de compartilhamento nos movimentos

sentimentos. O psiquiatra também desenvolveu pesquisas sobre os estados alterados de consciência, através de experiências com o ácido lisérgico, LSD, como meio de atingir esses estados. Além disso, publicou sete livros sobre suas teorias. Em um desses trabalhos, conheceu o pesquisador e educador australiano, Craig Gibsone, que realizaria em São Paulo uma vivência chamada “Rumo à Nova Masculinidade”, dedicada para que homens pudessem alcançar um maior conhecimento sobre si mesmos. Craig e sua esposa, May East, realizavam palestras e vivências com o objetivo de possibilitar maior conhecimento a um gênero específico. Mauro mobilizou 20 homens e partiu para uma jornada de quatro dias de holotrópicas culminando em um ritual realizado em um lugar isolado, baseado em um mapa da consciência com os quatro elementos da na-

tureza e que trabalhava a passagem do menino para o homem, psiquicamente. A partir daquele momento de transformação, ele teve a certeza de que aquele método poderia mudar a vida de muitas outras pessoas. O psiquiatra então criou o movimento Guerreiros do Coração, dedicado para o autoconhecimento de homens adultos. Logo após a criação do movimento Guerreiros do coração, Lúcia Torres, que fora casada com Mauro Pozatti, participou de um workshop coordenado pela pesquisadora paulista, May East, intitulado “Em Busca da Identidade Feminina”. May era famosa por suas palestras profundas sobre o conhecimento apurado para mulheres. Lúcia trabalhava com astrologia médica e transpessoal e também era instrutora de yoga. Após participar do workshop, ficou profundamente tocada e animada, contagiando amigas e alunas. Foi quando tudo come-


çou. Em 1994, cada ponto do trabalho que ela nomeou de Círculo Feminino Tenda da Lua foi planejado. As mulheres se encontrariam uma vez por mês nas Luas Novas. No início do ano seguinte, o primeiro encontro aberto foi realizado, onde algumas mulheres levaram suas filhas e amigas para conhecer a proposta do trabalho. Nesse encontro foi criado o embrião do Tenda da Terra. As mulheres que cumpriam sua jornada no Tenda da Terra e vivenciavam o ritual final, poderiam, caso quisessem, passar para o Tenda da Lua. As mulheres do Tenda da Lua criaram um ritual de passagem e de acolhimento às novas integrantes e uma linhagem de madrinhas e afilhadas foi realizada, estabelecendo uma duração de quatro anos.

A DESCOBERTA A procura pelo movimento foi crescendo durante os anos. Após conhecer o Guerreiros do Coração por conta de seu irmão, que fazia parte na época, Joana Hennemann percebeu que ele estava mais aberto para coisas novas, que havia mudado o seu jeito de ser. Ela ficou curiosa para saber o porquê de uma mudança tão profunda, então descobriu que existia o Tenda da Terra. Com apenas 23 anos, não entendia o que aquilo significaria, o que representava de verdade. Arriscou-se e mergulhou de cabeça. Todo mês se encontrava com as outras mulheres do movimento e se reconectava com ela mesma, sentia algo que não conseguia descrever, não conseguia explicar para quem perguntasse. “Algumas atividades eram simples, outras vivenciadas junto de outras mulheres e isso nutria o meu interior. Passei a alimentar bem minha alma”. Conta Joana. Joana Hennemann passou pelo Tenda e nunca mais saiu de lá, apesar de facilitar em outros movimentos. “As atividades seguem acontecendo de forma mais branda, mas igualmente realizadoras.

Se forma uma comunidade de mulheres que se apoiam e se reconhecem. Estamos em constante serviço ao movimento que busca ser além de um espaço de cura pessoal e autoconhecimento, também um serviço planetário”. Ela se sente imensamente maior, mas menos importante do que antes. Joana percebeu o que é a escuta profunda, o que é falar com o coração e aprendeu a perceber a vida com um sentido maior, a partir de uma percepção diferente do que é o ser humano e do que é o ser feminino. Após passar por todas essas mudanças, Joana Hennemann iniciou um trabalho para meninas de 10 a 14 anos. A intenção é que meninas pré-adolescentes possam experimentar um espaço de acolhimento e resgate do feminino mais cedo. Logo depois surgiu o sonho coletivo de realizar um movimento com adolescentes mistos, que foi batizado de Travessia Jaguar. O novo movimento começou há sete anos e o número de pessoas foi crescendo conforme a notícia se espalhava. “Facilitar o Jaguar foi antes de tudo uma grande experiência de criar e trabalhar de forma coletiva. Éramos oito facilitadores e nos encontrávamos toda semana para criarmos um vínculo maior entre nós. Foi muito realizador por ver os jovens se engajando, se apropriando do espaço, se apropriando de

si e de suas vidas, pude testemunhar transformações lindas, onde cada um pode caminhar em direção a si mesmo, buscando formas mais autênticas de ser e estar no mundo”. Neste ano, foi criado o Clã Arco-Íris, dedicado a crianças. Ela teve a intenção de trazer a partilha da criação de seu filho, estimulando o cuidado ao meio ambiente, a si próprio e ao outro. Joana participa dos três como facilitadora, que seria uma professora, mas de uma forma diferente.

ABRINDO PORTAS PARA OS JOVENS Outro facilitador que iniciou a travessia Jaguar juntamente com Joana foi Breno de Freitas. Na época, estudante de psicologia, jovem adulto que frequentava o Movimento Guerreiros do Coração. A sua mãe havia participado do Tenda da Lua e dentro dos movimentos para adultos eram feitos encontros para jovens. Começou a participar desde os 13 anos e desde então não parou de frequentar. Crescendo em meio aos dois movimentos para adultos e frequentando as reuniões mistas para quem tinha a sua idade, mudanças foram ocorrendo em seu interior, todos os processos faziam sentido para Breno. “Quando eu cheguei lá pelos meus 17,18 anos, eu

Algumas atividades eram simples, outras vivenciadas junto de outras mulheres e isso nutria o meu interior. Passei a alimentar bem minha alma. Joana Hennemann

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ESPIRITUALIDADE

PERMISSÃO PARA SE DESCOBRIR

Arquivo pessoal

Dentro das minhas relações de colégio muitas vezes eu não podia partilhar por risco de ser ridicularizado. Breno de Freitas

Breno de Freitas, psicólogo e um dos fundadores da Travessia Jaguar

sempre ouvia nos grupos que os caras mais velhos participavam dos Guerreiros”. Conta. Foi assim que despertou seu interesse em continuar nos movimentos e em sua trajetória de autoconhecimento. Breno atualmente é formado em psicologia e terminou o mestrado. Tudo o que aprendeu nos encontros tem sido essencial para seu crescimento pessoal e profissional. Uma parte muito importante do que foi absorvido é o que pode ser chamado de educação emocional. Ele foi percebendo que sentia muitas coisas e foi aprendendo a nomeá-las. Foi entendo coisas que faziam parte da sua história que passavam despercebidas. A confusão estava acontecendo, as emoções fluíram dentro de si e as sensações eram múltiplas. Outro ponto importante foi o compartilhamento de todas essas coisas com as pessoas que participavam do movimento em um lugar seguro. “Dentro das minhas relações de colégio muitas vezes eu não podia partilhar por risco de ser ridicularizado”. Explica.

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Dentro dos movimentos Guerreiros e Tendas, existiam encontros mistos. Em uma dessas vezes, algumas pessoas começaram a pensar que seria possível trazer o que era vivenciado entre eles para os jovens. “Eu me lembrava dos meus encontros que eram espaçados, uma ou duas vezes ao ano e que fazia muito sentido aquilo ali”. Diz o facilitador. Então, formou-se um grupo, que era a Reunião do Guardanapo, porque todas as ideias dos integrantes eram anotadas em um guardanapo. “Tinha umas vinte pessoas empolgadas em fazer, mas foi se formatando, algumas pessoas foram ficando mais próximas. E de repente nós estávamos entre oito, nove pessoas com a intenção de se tornarem facilitadores desse grupo”. Completa Breno. Ali se deu início à Travessia Jaguar, baseada nas experiências dos membros do Guerreiros do Coração que estavam se tornando facilitadores e que estavam prontos para orientar os jovens, pensando em como seria bom um movimento para eles durante seus processos de formação.

Todos estavam fazendo uma construção coletiva, facilitadores e facilitados (os títulos de professor e aluno não eram utilizados, pois as vivências não eram consideradas como aulas), dando espaço para todos, sem trancar o fluxo de energia interna. A Travessia Jaguar fez com que Breno desenvolvesse o papel de cuidar e isso ajudou muito em sua profissão. Ele considera que a diferença de sua pessoa antes e depois do movimento é brutal. “Eu olho para os meus ex-colegas da faculdade e eu lembro que a minha experiência de grupo era maior que a dos meus professores”. Relata. Os encontros eram intensos, um final de semana por mês isolados realizando os trabalhos internos, muito conteúdo pessoal e profissional para Breno. Hoje em dia, Breno é além de membro e facilitador do Guerreiros do Coração e da Travessia Jaguar, formado em psicologia e atende em um consultório no bairro Menino Deus, em Porto Alegre. Como profissional graduado, ele afirma que os métodos utilizados nos movi-


Ser significa apenas abandonar o ego que fazia parte da sua mente, eliminar a separação muito sutil e delicada que existia no seu interior e derrubar todas as barreiras que interpunham entre si e o todo. Osho

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ESPIRITUALIDADE

PERMISSÃO PARA SE DESCOBRIR

Gustavo Leal

mentos podem e alguns são propostos em terapias. O movimento se caracteriza principalmente por promover a saúde. O formato de tratamento também pode ser importante quando os métodos são aplicados na psicologia. A terapia em grupo é o que se encaixa mais, por conta da intimidade e troca que os movimentos proporcionam. Os métodos utilizados tanto na Travessia Jaguar, quanto no Movimento Guerreiros do Coração, são os trabalhos mais ricos que Breno já presenciou e sentiu. Olhando para tudo o que já viu e estudou na psicologia, ele afirma que não há nada igual em relação ao autoconhecimento, promoção de saúde e o efeito terapêutico indireto de criação de grupos. Na sala de espera para uma consulta com seu homeopata na Unipaz, Mariah Martins, 22 anos, descobriu o Jaguar. Sobre antes de conhecer o grupo, a estudante descreve-se como alguém insegura, sem saber lidar com as emoções e com o mundo. Frustrada e sentindo-se deslocada do mundo, ela usa o termo extraterrestre como figura para como se via dentro do seu próprio contexto. E esse extraterrestre sentia demais. Amava demais. Com o grupo, descobriu que todo esse amor poderia ser recíproco, e que, em tempo, seria retribuída. “Depois das jornadas de autoconhecimento, comecei a me reconhecer em todos os sentidos. Respeitando as minhas fases, sentimentos e desejos. Comecei a ouvir a minha intuição e ela me levou para muitos lugares antes desconhecidos pela alma. Lugares e feridas que careciam de cuidado e um outro olhar, e que agora posso dizer que estão em um processo de cura profundo. Não é simples...não é fácil, e talvez eu sempre tenha as marcas das feridas, mas pelo menos agora sei qual remédio usar para não doer”, conta Mariah.

UMA OUTRA PERSPECTIVA Na Capital gaúcha não existe apenas um tipo de promoção do autoconhe-

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Salas fechadas e sessão em andamento no Namastê


cimento. Há um ano, a carioca Isabella Ximenes Lommez, 44 anos, trabalha como terapeuta do Namastê de Porto Alegre, localizado em uma casa com tijolos e colorida, na Rua da República. O espaço funciona como um centro de bioenergética e meditações. A atuação na cidade teve início em 1983. Anubhava (o nome de iniciação de Isabella no centro) participou da criação de uma sede no Rio de Janeiro há 13 anos. A grande inspiração para todos no centro vem dos ensinamentos de Osho. Mestre em meditação, nascido em 1931 na índia, sua visão baseia-se em acreditar no ser humano. Para Osho, a verdade não pode fazer concessões, pois assim deixa de ser verdade. E a verdade não é uma crença, mas uma experiência. Ele nunca pede às pessoas para acreditarem no que ele diz, mas, ao contrário, pede que experimentem e percebam por si mesmas se o que está sendo passado é verdadeiro ou não. Foi no fim da década de 1960 que começou a desenvolver suas técnicas de meditação. Acreditando que o ser humano está sobrecarregado com as tradições do passado e o ritmo acelerado da vida moderna, ele defende que é necessário para todo indivíduo passar por um processo de limpeza antes de encontrar o estado de meditação com a mente limpa e em total estado de relaxamento. Além do método de meditação, o Namastê trabalha também com um conceito chamado bioenergética. Consistindo em uma terapia corporal, o objetivo é ajudar a desbloquear as emoções das pessoas utilizando a respiração como medidor de tensão. Durante a entrevista, Isabella responde em meio a gritos em uma das salas de terapia. “Expressar as emoções reprimidas ajuda na autocompreensão e funciona como uma ferramenta de defesa, uma vez que usada no ambiente apropriado”. Conta. Acreditando que o ritmo dos dias atuais vem enraizando um sistema agressivo ao elemento humano, recen-

temente, foi criado o Namaskids. O movimento tem como foco conscientizar pessoas desde a infância a terem um modelo de vida baseado no direito de escolha. São crianças de 6 aos 11 anos de idade aprendendo desde cedo o valor dos preceitos de liberdade, escolha e compartilhamento de emoções. Além do Namaskids, há também o Namasteen, voltado aos adolescentes, partindo da faixa etária dos 13 anos até os 18.

CORPO, MENTE E ALMA EM SINTONIA O âmbito sexual também recebe atenção quando pensamos em autoconhecimento. Ao longo do tempo, o sexo foi tomado como algo sujeito a preconceitos. Um verdadeiro tabu. O terapeuta corporal Marlon Zotti Bittencourt, 28 anos, defende a importância do sexo além do prazer momentâneo na vida das pessoas: “O que eu percebo nesses anos trabalhando na terapia tântrica é que, todas as instâncias da nossa vida estão interligadas, a sexual, espiritual, mental, intelectual, afetiva e emocional.”, afirma. Adepto do Budismo, Marlon utiliza da terapia tântrica. O tantra, é uma filosofia Hindu, cristalizada no por volta do século XV, porém ainda mais antiga. Sua filosofia é matriarcal, sensorial e desrepressora. O termo é amplo, abarcando muitos ensinamentos e tratados. Sua propagação foi difundindo-se no Hinduísmo, Budismo, Yoga, entre outros, passando inclusive por processos de deturpação. Em meados da década de 1960, surge um movimento chamado Neotantra, com maior perfusão no ocidente. Seu grande expoente foi Osho. “Muito do método do meu trabalho é baseado no que Osho produziu. É uma releitura para o homem e mulher contemporâneos, respeitando o tantra original”, explica o terapeuta. Quanto a terapia, funciona através de vias como a reeducação sensorial, a ressignificação de experiências anterio-

res, expansão de consciência corporal, fortalecimento fisiológico das estruturas sexuais, dissolução de bloqueios emocionais e energéticos através das massagens, vivências e meditações dinâmicas. A procura maior é pelas massagens. Marlon explica que a visão na qual as pessoas aprendem e reproduzem sobre o sexo é algo maquinal, focado apenas no orgasmo e nas regiões íntimas, esquecendo da experiência plena, pois o corpo todo é orgástico. O corpo humano produz sua própria energia, a bioeletricidade. Os músculos recebem impulsos elétricos para realizar as contrações. Com o despertar desses grupos energéticos em todo o corpo, a sensação de intensidade no orgasmo é maior. A ideia da massagem é trazer a percepção da pessoa para si mesma. No aspecto das regiões íntimas, para os homens o método usado é a Lingam, enquanto para as mulheres é a Yoni massagem. Os termos são em sânscrito indiano e descrevem as áreas genitais masculina e feminina. Consistem em manobras específicas para potencializar tais locais. Há a questão do fortalecimento da musculatura para um maior sustento da energia sexual, além da sensibilização. O enfoque é em descondicionar a forma tradicional e mais mecânica do ato. As manobras, apesar de estimulantes, nada têm a ver com masturbação. Um exemplo prático de como conhecer a si mesmo. Diferentes para cada pessoa, os processos de autoconhecimento variam conforme são buscados e utilizados. Independente da forma em que são realizados, um determinado resultado é esperado pelas pessoas. Resultado que é caracterizado pela melhora pessoal de cada um perante um todo. Seja na forma de sexo tântrico, meditação, vivência, ritual, o processo de autoconhecimento é importante na vida de quem o utiliza e essencial para o crescimento de cada um.

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SON DISTÚRBIOS DO


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NO QUANDO OS PESADELOS SE TORNAM REAIS POR RUDÁ COLLIN, LUIZA MOTTA E LAUREN DOURADO FOTOS RUDÁ COLLIN


SAÚDE

DISTÚRBIOS DO SONO

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DORMIR FAZ PARTE DA ROTINA E DA SOBREVIVÊNCIA DE TODOS OS SERES VIVOS. PORÉM, PARA MUITAS PESSOAS, O ATO DE FECHAR OS OLHOS E CONSEGUIR ADORMECER NAO É TAO SIMPLES, ESSAS PESSOAS SOFREM COM DIVERSAS CARACTERISTICAS ENGLOBADAS EM DISTURBIOS DO SONO, E COMO QUALQUER OUTRA DESORDEM FISIOLOGICA, DEVE SER TRATADA

Arquivo pessoal

Bárbara, empresária

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m dos problemas mais conhecidos e que, segundo especialistas, acomete a pelo menos 1 em cada 10 pessoas é a chamada paralisia do sono. Algumas pessoas relatam que a primeira reação é de desespero e agonia e que a sensação é de estar sendo sufocado ou dominado por alguma energia sobrenatural. Imagine ser assombrado por figuras, vultos e monstros enquanto ainda está na cama, e não ter como fugir. Que sensação é essa que muitas pessoas relatam ter? Um distúrbio que pode afetar metade da população pelo menos uma vez na vida. A empresária Bárbara Bier de 24 anos, relata sua experiência com a “Paralisia do Sono”. Ela teve a paralisia do sono 3 vezes e em uma delas, conta que a sensação foi aterrorizante: “Parecia que estava sonhando, mas eu estava acordada, sentia que estava acordada, mas não conseguia me mexer, tentava gritar mas meu corpo não reagia aos comandos do meu cérebro, é horrível porque você acha que está acontecendo algo mais grave na sua cabeça”, destaca. Questionada do porquê de não ter procurado a ajuda de um profissional, ela considera a pouca incidência do fenômeno. “Não cheguei a procurar ajuda de psicólogo ou clínicas especializadas porque aconteceu em ocasiões bem espaçadas de tempo. A primeira vez foi a pior de todas sem dúvida, pois eu não sabia o que estava acontecendo. Depois da primeira vez, onde busquei o conhecimento a respeito das sensações que tive, eu pelo menos soube lidar melhor, mas é igualmente aterrorizante, pois você não tem a ideia de quando vai voltar ao normal”, considera. Várias circunstâncias foram associadas a um aumento do risco de paralisia do sono. Estas incluem insônia e privação do sono, uma agenda de sono irregular, stress, uso excessivo de estimulantes, fadiga física, bem como certos medicamentos. Dormir de barriga para cima deixa o

corpo mais suscetível a passar pela paralisia do sono. O Coordenador do SonoLab do Hospital Moinhos de Vento Geraldo Rizzo esclarece as principais dúvidas e curiosidades dos problemas causados pela falta de sono. É comprovado que para a nossa mente e corpo funcionarem bem, precisam de no mínimo 8 horas diárias de sono. “Dormir bem é muito importante para se manter a saúde, e jamais se deve encarar o sono como perda de tempo como muitas pessoas fazem. Há problemas a curto e a longo prazo. A curto prazo a sonolência diurna, a desatenção, a irritabilidade e o mau humor são frequentes. Também a desatenção e a sonolência, que podem causar acidentes no trabalho e no trânsito. A longo prazo, pode ocorrer um aumento no risco de doenças como as cardiovasculares, o diabete, a obesidade e o câncer”, explica o doutor. Uma vez que são tantas e tão importantes as funções do sono, fica fácil entender a existência de várias doenças relacionadas ao sono: ronco e apneia, insônia, bru-

Parecia que estava sonhando, mas eu estava acordada, sentia que estava acordada, mas não conseguia me mexer. Bárbara Bier, empresária


xismo do sono, narcolepsia, parassonias (sonambulismo, paralisia do sono, falar dormindo), movimentos periódicos dos membros durante o sono, síndrome das pernas inquietas, dentre muitas outras. Segundo Rizzo, a prevalência de Síndrome das Pernas Inquietas é a menos encontrada nos pacientes, ficando em torno de 7%, o que certamente haverá mais casos se diagnosticada. Como quase tudo na vida o bom senso deve predominar. Dormir demais ou de menos faz mal para a saúde e aumenta a mortalidade. Portanto, é importante que as pessoas passem a valorizar o sono como uma função fundamental para a qualidade de vida. Para Geraldo, um dos motivos dessa insônia está ligado a nossa falta de organização com os horários para se alimentar, mas, principalmente, com os eletrônicos . “Não imaginam o veneno que é quando vamos dormir e deixamos o celular ao nosso lado. Devemos procurar ler à noite ao invés de ficar até altas horas assistindo televisão, dormir e acordar em horários regulares, não praticar atividades físicas próximo da hora de deitar, evitar a ingestão de líquidos à noite e adquirindo o hábito de jantar mais cedo”, diz.

TIPOS DE TESTES TESTE DAS LATENCIAS MÚLTIPLAS O Teste das Latências Múltiplas do Sono mede a tendência para adormecer. TESTE DE MANUTENÇÃO DA VIGÍLIA O Teste de Manutenção da Vigília mede a capacidade de permanecer desperto/acordado.

noites, em geral iniciando por volta de 22 horas e se encerrando por volta de 7 horas da manhã. Como o nome indica muitas variáveis fisiológicas são monitorizadas: a atividade cerebral através do eletrencefalograma; a movimentação ocular, através do eletrooculograma, a atividade muscular da região mentoniana e das pernas, através da eletromiografia; a respiração nasal e bucal por termistores e cânulas, faixas torácicas e abdominais bem como o registro da saturação da oxihemoglobina através de um sensor de oximetria preso ao dedo indicador. Registram-se ainda o ronco e as mudanças de posição do corpo. Sempre se faz a monitorização por video a fim de detectar-se comportamentos anormais como os que ocorem com Terror Noturno, Sonambulismo e Transtorno Comportamental do Sono REM. Toda a monitoração é acoplada por fios a um aparelho denominado Polissonógrafo, conectado diretamente a um computador e software  instalados numa central de exames e, a partir daí, será avaliada por técnicos e médicos experientes. O técnico permanece trabalhando durante toda a noite e os resultados são interpretados pelo médico responsável.

UMA NOITE NA CLÍNICA DO SONO O SonoLab, localizado no Centro Clínico do Hospital Moinhos de Vento, é uma das clínicas especializadas na saúde do sono em Porto Alegre. O paciente deve estar no horário determinado e é liberado pela manhã. Ao chegar, é preparado pela  técnica com colocação de eletrodos e preenchimento de questionários, caso já não o tenha preenchido em casa. Os testes são realizados por um Técnico em Polissonografia e interpretado por um Médico especialista em Medicina do Sono. A Polissonografia é o padrão-ouro na investigação de distúrbios do sono. O exame é realizado durante uma ou mais

A polissonografia é o método mais eficaz entres os testes disponíveis

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DO OUTRO LADO DAS

G R ADE S HISTÓRIAS DE AMOR E SACRIFÍCIOS DE QUEM FICA DO LADO DE FORA DO PRESÍDIO

POR CAMILA EMIL, ÉVILIN MATOS E GISELE BARBOSA


CAPA

DO OUTRO LADO DAS GRADES

A

s quatro linhas de ônibus que Jéssica Corrêa Simões, 21 anos, precisa utilizar para chegar ao seu destino final, tornam o caminho de Guaíba a Santa Maria longo e cansativo. O trajeto não é o mesmo feito por ela anos antes – quando criança, acompanhava sua mãe nas visitas ao pai, no Presídio Central, na capital. A história hoje se repete. As lembranças são revividas na memória da jovem, que lamenta vivenciar a mesma situação da mãe. Diferentemente daquela época, Jessica não tem condições de levar seus filhos, Lauren, de 3 anos, e os gêmeos

de 1 ano e 6 meses para verem o pai, Anderson Dutra, 34 anos. Uma vez por mês, ela tem uma mudança na rotina e precisa deixar as crianças com a mãe para seguir viagem até o companheiro. A ansiedade começa no sábado à tarde. A preparação é pensada nos mínimos detalhes. Jéssica, que precisa cuidar dos três filhos pequenos, vê no tempo um inimigo. “A sensação é de que os dias não têm fim”, afirma ela. Uma calça legging florida e uma camiseta larga – emprestada pela avó. Essa foi a roupa escolhida para enfrentar 300 km de viagem até o destino final. Tempo suficiente para planejar e imaginar o que

Gisele Barbosa

Jéssica necessita da carteirinha de visitante para entrar dentro da Penitenciária

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fazer durante as 7 horas de visita. Além de roupas, ela carrega consigo, um pote com arroz, feijão, carne vermelha, e frango, além de produtos de higiene. Tudo para garantir que o companheiro, que ainda precisa cumprir cinco anos de pena, na Penitenciária Estadual de Santa Maria, no Distrito de Santo Antão, tenha conforto. A expectativa é de que as coisas durem uma semana. Anderson cometeu o crime em 2010 e ficou recluso por cinco meses na época. Este ano quando estava com os colegas de trabalho, foi parado por policiais que verificaram se tratar de um foragido no grupo. Anderson costumava comparecer ao INSS para confirmar que obtinha residência fixa e emprego, porém, segundo Jéssica: “quando ele foi lá em outubro deu que ele já tinha cumprido as penas dele e deram o papel para ele fazer o CPF, o RG, o título, tudo direitinho”. Ele parou de comparecer. Ele deveria cumprir pena em Porto Alegre, uma vez que fato e o processo ocorreram na Capital, mas há peculiaridades, como explica a mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC/RS) e professora adjunta na UniRitter Simone Schroeder. "Às vezes não há vagas onde ele quer ir. Por isso, as distribuições de presos dependem de onde está o processo, que deve estar onde o acusado está". Talvez o amor aconteça nos pequenos detalhes e nos pequenos gestos, ou então nos grandes sacrifícios. E, na pequena casa de cinco cômodos, alugada por Jéssica e seu marido, os desafios são diários. Sozinha, a jovem luta para manter, pelo menos, a comida e as fraldas para as crianças. “É bem difícil. Da minha família ninguém me ajuda. Às vezes minha mãe fica com as crianças para eu ir nas visitas, mas financeiramente eu sobrevivo com muito pouco”, lamenta. Sem o marido em casa, a renda familiar passou de mais de um salário mínimo para R$ 117, valor concedido pelo Programa do Governo, Bolsa Família.

Porque hoje ele era um pai de família, ele era trabalhador, tinha largado as drogas, tudo. E isso é o que me dói mais. Jéssica Corrêa Simões

Nas eleições, a jovem aproveitou para trabalhar nas campanhas, o pouco dinheiro que recebeu serviu para pagar os R$ 1.200 do aluguel atrasado dos últimos dois meses. Agora, ela tenta gerar uma renda vendendo produtos de revistas e roupas íntimas. No pouco que a jovem consegue faturar, ela tem o desafio de dividir entre seus filhos, a casa e as despesas de seu marido. A quase 300 km de distância da família, Anderson lamenta para a mulher a situação enfrentada por ela e os filhos. De acordo com a jovem, os momentos de dificuldades são diversos. "Às vezes não tem fralda, não tem leite, não tem comida e ele fica assim sem chão, porque quando ele tava aqui ele corria atrás e sem ele, não tem o que fazer." O pouco que podemos encontrar nos armários da cozinha da humilde casa no bairro Colina, vem da Assistência Social do Município, que de tempos em tempos realiza visitas à Jessica e as crianças. O acompanhamento faz parte do processo de assistência prestado pelo Município de Guaíba. Desde o nascimento dos gêmeos a jovem não consegue trabalhar em função das doenças dos filhos. Luis Gustavo e Douglas Raphael nasceram com Estenose da Junção Uretero-Piélica, estreitamento congênito no local onde ocorre a junção entre a pelve renal e o ureter. Porém, o caso de Douglas se desenvolveu de forma mais rápida. “Não tem remédio e a médica já disse para mim que o caso dele só vai melhorar quando ele fizer a cirurgia, que é a correção que eles tiram o vasinho que tá entupido”, explica. Os casos de Estenose de JUP podem se agravar com o tempo, e em Porto Alegre apenas dois médicos cirurgiões podem operar as crianças nessas condições pelo Sistema Único de Saúde (SUS), Jéssica aguarda na fila. Em meio a tantos problemas, preocupa-se ainda mais com Luis que sofre de Sopro no coração. A prioridade da jovem, que ainda não completou o Ensino Médio, são os fi-

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DO OUTRO LADO DAS GRADES

lhos pequenos. Em virtude dos problemas de saúde das crianças ela não consegue trabalho, pois não tem condições de pagar uma creche para eles e no momento aguarda vagas em creches públicas. Anderson não é pai biológico da filha de Jéssica, Lauren Corrêa Simões, mas a menina o tem como pai, uma vez que não mantém contato afetivo com genitor que não costuma pagar pensão. Mesmo com todas as dificuldades, Jéssica tem esperança de que as coisas melhorem e faz planos. “Quero terminar meus estudos e assim que sair nosso auxílio reclusão eu quero dar entrada numa casa com financiamento e depois ir pagando que nem aluguel, dou uma entrada e depois sigo pagando”, planeja. Nas visitas, o companheiro prefere

O que eu sinto por ele é um amor incondicional, a gente já viveu muitas coisas juntos aqui fora, ele é tudo para mim. Quelen Garcia Gamboa

não conversar sobre o futuro fora do cárcere, pois considera algo distante. A jovem o incentiva para dias melhores e acredita que se ele pudesse trabalhar dentro do presídio o tempo de pena seria reduzido, mas a penitênciaria não permite por não considerar uma pena longa. "O trabalho nos presídios é possível no regime fechado e semiaberto. E dá direito à remição. A cada três dias trabalhados, um dia de pena é reduzido. O problema é que o Estado não tem como oferecer trabalhos a todos, em função da superlotação carcerária", esclarece Simone. As dificuldades enfrentadas por Jéssica não são motivos para baixar a cabeça, inclusive, faz questão de ter força de vontade para que possa ter a família

Gisele Barbosa

Quelen trabalha diariamente no mercado de sua família

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completa em casa novamente. O sorriso constante da jovem traz esperanças para as crianças e motivação para enfrentar esses dias de uma forma mais leve. Pelas paredes de sua casa encontramos fotos que representam o companheirismo e o carinho do casal e de seus filhos.

MESMO DESTINO: REALIDADES DIFERENTES Duas vezes na semana, a comerciante Quelen Garcia, 32 anos, deixa a zona sul de Porto Alegre para ir ao encontro de seu marido, Diego Culpes, 28 anos, que também está encarcerado na PESM. Entre um atendimento e outro aos clientes do supermercado onde trabalha, Quelen pensa em qual roupa vestir, como deixar o cabelo e qual maquiagem fazer. “Deus que me livre meu marido me ver feia”, brinca a jovem. Nos últimos quatro meses, a rotina das quintas-feiras e domingos está agitada. À meia-noite, o carro deve estar com gasolina e as bagagens no porta malas para seguir viagem. Atualmente, a madrugada tem sido parceira da comerciante, que encontra nos 300km entre a capital Gaúcha e Santa Maria seu refúgio. A preocupação com o marido é grande. De acordo com o Regulamento Geral de Visitas e Materiais (http://www. susepe.rs.gov.br/upload/1461590367_ Portaria%20de%20Visitas%20SUSEPE%20 2014%20V13.pdf), disponibilizado pela Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe), cada preso tem direito a receber cinco itens. Quelen carrega em suas sacolas um pote com carne vermelha, coração, frango, quatro pacotes de bolacha maria e quatro pacotes de bolos prontos. Os alimentos são uma forma de garantir que o companheiro se alimente bem até a próxima visita. “São sete homens em uma cela, muitos não recebem visitas, vou fazer o que? Dei-

xar ele passar fome?”, lembra a esposa. Além dos itens levados, Diego recebe da esposa cerca de R$ 100 caso algum imprevisto aconteça - Na penitenciária há uma cantina administrada pelos detentos, na qual lanches podem ser comprados. Diego ainda não foi julgado, mas a previsão é de que até novembro esteja em liberdade. Para enfrentar os meses com maior suporte, ela e a filha deixaram a casa própria do casal, para viver com os sogros, assim o peso em deixar a filha de sete anos dois dias na semana, se torna mais leve com a ajuda dos pais de seu companheiro. Outro desafio enfrentado a cada visita, é encarar a fila para entrar na penitenciária. Quelen chega às 5 horas da madrugada, fica no carro até ás 8 e entra às 9. Na retirada das fichas ela diz se sentir intimidada por outras, pois os visitantes de outras cidades recebem preferência o que gera muitas discussões por parte dos que são moradores de Santa Maria. Além disso, Quelen ouve que “caso alguém não goste de ti podem colocar produtos proibidos dentro da bolsa para incriminar na hora da vistoria”, conta.

SITUAÇÃO PRISIONAL NO PAÍS De acordo com o último relatório do Departamento Penitenciário Nacional do Ministério da Justiça (Depen) estima-se que a população prisional brasileira ultrapassa 600 mil presos. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 11 anos a população brasileira cresceu 15% enquanto a carcerária 140% no mesmo período. Mesmo com o investimento de R$1,1 bilhão em infraestrutura e vagas, o sistema prisional sofre com a superlotação. No Rio Grande do Sul, o número de pessoas cumprindo penas em regime fechado, semiaberto e aberto chegou a 34.190. Segundo o Departamento de

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Segurança e Execução Penal da Superintendência de Serviços Penitenciários (Susepe), são 32.276 homens e 1.914 mulheres. A Penitenciária Estadual de Santa Maria fica retirada do restante da cidade. Entre seus muros altos, estão 755 apenados que passam seus dias de reclusão ansiosos pela liberdade. Destes detentos, 246 têm suas parceiras aqui fora, muitas segurando as pontas com as responsabilidades deixadas pelos presidiários antes das grades da penitenciária, além de outras tantas que não conseguem suportar a situação tão facilmente. Mesmo com os investimentos, as 96 unidades prisionais do Estado, não auxiliam os presos com todos os materiais necessários. Fica a cargo das famílias levar alimentos, além de produtos de higiene, como, sabão, prestobarba, desodorante. Apenas os que não recebem visitas recebem produtos. Em todas as visitas que Jéssica consegue ir, ela leva o essencial para o marido que muitas vezes diz à companheira que não precisa para que não gaste a mais. Em cada viagem são gastos cerca de R$ 200 com ônibus. Como precisa suprir as necessidades do marido, ela desembolsa de R$ 100 a R$ 200. A família tem direito ao Auxílio-reclusão - destinado aos dependentes de presos que tenham contribuído regularmente ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e estejam respondendo em regime fechado ou semiaberto. Porém, os filhos do casal não são beneficiados, mesmo Anderson tendo contribuído com o INSS desde 2010.

EDICAÇÃO FORA DAS GRADES Na fila do presídio de Santa Maria, entre as centenas de pessoas que ali aguardam, Jéssica e Quelen compartilham da mesma angústia: rever os companheiros e ter de retornarem sozinhas para os filhos. Mesmo com os sacrifícios

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realizados, não pensam em desistir. E em cada nova visita sentem-se confortadas pelos parceiros. O gesto de amor são todas as barreiras que é preciso enfrentar para levar ao outro o carinho, o bem estar e a esperança de momentos melhores. Enquanto uns estão em cárcere privado, outros se mantêm do lado de fora com


Arquivo Pixebay

A vida do outro lado das grades é ardua, mas cheia de esperança

sua autonomia limitada. Para as famílias, os presidiários são mais que dados, são preocupação, amor e conforto. “Os guris ficaram um mês sem falar, antes eles falavam: papai, mamãe e algumas frases. Agora eles estão reaprendendo. A psicóloga explicou que a gente sente a falta entrando em depressão, brigando e xingando. Eles sentiram a falta fican-

do mudos, foi o jeito deles reagir. Eles tiveram doentes também, levei em vários médicos e ninguém sabia o que era, e era falta dele”, lembra Jéssica com os três filhos ao colo.

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inovação#59

EDUCAÇÃO EMPREENDEDORA E TECNOLÓGICA UM CENTRO ACADÊMICO DENTRO DE UM COLÉGIO, ONDE ALUNOS E PROFESSORES APRIMORAM SUAS HABILIDADES NA DISCIPLINA DE FÍSICA DESENVOLVENDO PROJETOS POR LEONARDO AMBROSIO E LUCAS BUBOLS FOTOS LUCAS BUBOLS


INOVAÇÃO

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EDUCAÇÃO EMPREENDEDORA E TECNOLÓGICA

m 2015 o sinal sonoro do Colégio de Aplicação (CAp) da UFRGS havia queimado, e não funcionou por pelo menos seis meses. O orçamento realizado pela escola junto à empresa responsável pelos sinais sonoros exibia valores assustadores. Mas foi aí que os alunos do Centro de Tecnologia Acadêmico (CTA) entraram em ação. Com o problema, ninguém sabia a hora em que acabavam as aulas, nem quando iniciavam. “Foi uma bagunça total. Eu não sabia a hora que acabava minha aula nem quando eu devia ir pra sala. Sem contar que o problema persistiu até junho ou julho”, conta Rafael Brandão, professor de Física do colégio. A direção do CAp prontamente tentou solucionar o problema, só que essa solução custava R$ 8 mil. Brandão conta que num certo dia, o vice-diretor Luiz Mazzei entrou na sala do CTA e brincou: “Pô, bem que vocês podiam arrumar o nosso

sinal né”. Todos riram, houveram brincadeiras. Mas Rafael ficou pensativo, e por um instante, achou que seria possível. Segundos depois esqueceu da ideia, só que os seus alunos não. Todos integrantes do CTA foram estudar sobre o sistema que havia queimado, aprenderam como consertar e pediram autorização para a diretoria da escola. Resultado? Um novo sistema de alarme criado por estudantes, que custou apenas R$ 70. Desde o começo da década de 80 discute-se a possibilidade de empregar computadores na educação. Inicialmente, as máquinas estavam disponíveis apenas para as grandes empresas e as melhores universidades do país, longe, portanto, de ser uma tecnologia acessível para todos. Na década de 70, ocorreram as primeiras experiências envolvendo o uso dos computadores nas universidades federais do Rio Grande do Sul (UFRGS) e do Rio de Janeiro (UFRJ). Em 1981, seminários nacionais já discu-

A impressora 3D projetada e criada pelos alunos do CTA e um dos objetos impressos

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Integrantes do CTA estudaram sobre o sistema de alarme queimado e aprenderam como consertá-lo. Resultado? Uma nova estrutura criada por estudantes, que custou apenas R$ 70.


tiam qual caminho seguiria a sociedade brasileira no sentido da inclusão digital. Quando os primeiros computadores chegaram às escolas, houve uma imensa preocupação apenas em ensinar aos alunos como lidar com as máquinas e o que elas podiam oferecer de desafios no mercado de trabalho. Com o passar do tempo, a própria tecnologia começou a se tornar uma ferramenta importante para a educação, oferecendo novas abordagens didáticas e saindo do “monótono” estilo de ensinar na sala de aula. Mas não apenas por meio de laboratórios de informática e computadores se dá o ensino através da tecnologia. O professor Brandão foi quem criou o CTA, onde são abordados princípios da disciplina de Física ao mesmo passo em que os alunos desenvolvem uma série de projetos que vão desde monitoramento do clima até modulagens e impressões em 3D. O Centro surge de uma parceria entre Brandão e um antigo colega, Rafael Pezzi, criador do Centro de Tecnologia Acadêmica da UFRGS e dono de um pro-

No CTA não existe a figura do professor e do aluno. Lá todos temos o mesmo status. Trabalhamos em uma horizontalidade. Rafael Brandão, professor de física do Colégio de Aplicação

jeto de uma estação meteorológica. O projeto tornou-se bem-sucedido e recebeu 10 mil reais em recursos para sair do papel. A estação foi recebida com bons olhos também pelos meteorologistas da UFRGS, que se impressionaram com o projeto e contribuíram com a doação de computadores. Depois disso, Brandão estendeu o projeto de Pezzi com a criação do CTA – cujo intuito era abranger os alunos mais jovens. “Hoje, envolvendo os dois centros de tecnologia, mais toda a comunidade externa que participa do nosso projeto e compartilha da nossa ideia, nós contamos com mais de uma centena de pessoas”, exalta Rafael.

ESTUDAR, DESENVOLVER E COMPARTILHAR Brandão é enfático ao ressaltar uma das filosofias principais que regem o projeto realizado com os alunos: as tecnologias abertas e livres. Ou seja, todas as tecnologias trabalhadas no dia a dia do projeto são “open-source”, ou abertas para que qualquer um possa estudá-las e trabalhar em cima do conhecimento existente sem a necessidade de autorizações e licenças. “Nós procuramos desenvolver somente tecnologias baseadas em hardware e software livres. Nada de softwares que tenham proprietário. Além disso, outra ideia que queremos implementar é a de recursos educacionais abertos. Essas são as ideias que estão por trás do CTA”, explica. Para Rafael, isso é importante para que os alunos possam continuar utilizando os conhecimentos adquiridos no projeto em suas vidas particulares. Para o professor, muito do que se aprende nas universidades de física, por exemplo, não se pode aplicar fora dela por limitações financeiras e falta de equipamentos e softwares. No entanto, por conta da filosofia open-source do CTA, os alunos podem sair do projeto com capacidade intelectual e logística para desenvolver inclusive projetos de empreendedorismo.

O CTA fica localizado no prédio do CAP

Essa filosofia que permeia o projeto, de acordo com o professor, explica também a motivação por parte dos alunos em participar do CTA. “Um dos aspectos que servem como motivação para os alunos fazerem parte do projeto é filosofia muito forte em relação ao open-source, em que você pode construir, estudar, modificar e distribuir sem pedir licença para ninguém. Essa questão do compartilhamento, da colaboração, aliada à tecnologia, é que causa a sensação de pertencimento que motiva os alunos”, analisa o professor. Rafael salienta que dentro do CTA, não existem alunos e professores, mas colegas que trabalham juntos, trocando conhecimentos e aprendendo mutuamente. Ou seja, não há uma verticalidade na organização do trabalho, mas sim horizontalidade. “No CTA não existe a figura do professor e do aluno. Lá todos temos o mesmo status. Trabalhamos em uma horizontalidade, pois existem muitas coisas que eles (alunos) dominam mais que eu. En-

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INOVAÇÃO

EDUCAÇÃO EMPREENDEDORA E TECNOLÓGICA

tão eu aprendo com eles, e eles aprendem comigo, mas não existe a figura do professor. Todos estamos no mesmo pé de igualdade”, enaltece Rafael.

INOVAÇÃO TECNOLÓGICA NO OLHAR DOS ALUNOS Inovações tecnológicas no campo da educação demandam interesse por parte dos educadores, mas no caso da educação pública dependem de verba, e, por isso, precisam também de apoio dos governantes. Mesmo passando por todos obstáculos burocráticos e práticos, uma ideia que inove a forma como o conhecimento é transmitido precisa ser aprovada também pelos alunos – público principal de toda ideia que busque melhorias na área da aprendizagem. Então, será que essas inovações, exemplificadas pela ideia de Rafael, são bem vistas pelos alunos em geral e, de fato, são relevantes para a educação? Patrícia Helena Almeida Miorim tem 56 anos, é pedagoga especialista em Psicopedagogia Institucional e Clínica, e acredita que sim. Para a psicopedagoga, a educação brasileira passa por proble-

A educação brasileira está em uma situação bem complicada. Especialmente a educação pública. A privada também não é lá essas coisas, mas a educação básica é muito problemática no Brasil. Rafael Brandão, professor de física do Colégio de Aplicação

mas sérios, que comprometem a vida e o dia a dia da população, e poucos parecem se importar com isso. “A educação brasileira, bem como em Porto Alegre, está um caos. E apenas por meio da educação o povo vai conseguir reivindicar, conhecer seus direitos e deveres e alcançar a democracia nesse país”, defende Patrícia. A especialista afirma que muitos professores não enxergam o ofício dessa

Alunos e professores do CTA se reunem todas terças-feiras à tarde

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forma. Além disso, a educação, sofre descaso por parte dos governantes particularmente importantes para colocar em prática qualquer ideia inovadora nesse campo. De acordo com Patrícia, a educação não é vista como deveria pelos políticos. “Eles percebem que com a educação, o povo conseguiria muito. Também vejo profissionais da educação sem nenhuma vontade, enxergando o ofício apenas como uma forma de ganhar dinheiro”, critica a pedagoga. Em entrevista, quando ficou sabendo do trabalho do professor Brandão, ela abriu um sorriso, com um brilho nos olhos, e disse: “Ele deve estar muito satisfeito com o que fez e está fazendo. E os alunos estão interagindo e cada vez mais isso está sendo divulgado. Então eu parabenizo esse professor, de forma com que isso tenha repercussão, para que os próprios professores prestem atenção no que está sendo feito, para que a educação possa vir a ser de qualidade”. Segundo a educadora, todos os projetos que professores e escolas pensam e produzem possuem um papel importantíssimo para o aprendizado. Para ela, o professor precisa atuar como um mediador, provocando os alunos com experimentos em que possam perceber os conteúdos de forma concreta. Do alto de seus 30 anos de magistério, Patrícia diz que procura sempre dizer aos seus


Alunos reunidos para discutir e dar andamento para os artigos científicos produzidos dentro do CTA

colegas professores que, este modelo de parceria entre educadores e alunos, enraizada na troca de conhecimentos, é o que mais surte resultados práticos. Aos olhos da especialista, o educador possui o dever de despertar o desejo da aprendizagem no aluno, pois só assim a educação pode fazer sentido. “Então, para que consiga despertar este desejo, o professor precisa ter muitas facetas: não apenas um giz, um quadro e uma apostila. Não é isso que vai fazer com que o aluno sinta desejo em aprender”, destaca Patrícia. Recentemente, a Macroplan, empresa brasileira de consultoria, realizou uma pesquisa intitulada Desafios da Gestão Estadual 2016: uma análise dos indicadores dos estados brasileiros. Na área da educação, o estudo tomou como base três fatores, sendo dois do IBGE (Escolaridade Média e Taxa de Analfabetismo) e um do INEP (Índice de desenvolvimento da Educação Básica – IDEB). De acordo com o ranking do Indicador Sintético, o Brasil, na área da educação, melhorou. Todos os estados cresceram, porém, nem todos melhoraram tanto assim. Em 2004, o estado do Rio Grande do Sul ocupava a 4a colocação entre os 27 estados e tinha um número de 0,614.

Já em 2014, está na 9a posição com um índice de 0,752. Apesar dos avanços no sentido de inovações, exemplificados pelo CTA, Brandão acredita que a educação nacional não vive um momento do qual o brasileiro pode se orgulhar. “A educação brasileira está em uma situação bem complicada. Especialmente a educação pública. A privada também não é lá essas coisas, mas a educação básica é muito problemática no Brasil”, opina o professor, que foi o primeiro a receber o título de Doutor de Ensino em Física no Brasil. Na visão de Brandão, a educação básica atualmente não prepara seus alunos para que possam atingir seus objetivos, independentemente de quais sejam. “Ela (educação básica) não prepara os estudantes para a vida. Dentro da vida cabe tudo. Não te prepara para entrar na universidade, se esse é o teu objetivo, e não te prepara também se você não pensa na universidade. Muitos dizem que o ensino básico prepara os alunos para entrarem na faculdade, mas cada vez mais nossos alunos estão chegando despreparados na universidade”, explica Brandão. O professor destaca que há uma crise

de identidade no ensino básico, que não é observado, por exemplo, no ensino superior. As universidades são, de acordo com ele, as responsáveis por criar estratégias que minimizem as limitações e defasagens proporcionadas pela fragilidade do ensino básico. Recentemente, o governo brasileiro propôs alterações na estrutura da educação brasileira, visando melhorar as condições de ensino a que são submetidas os jovens do país. Entretanto, para Brandão, as coisas não parecem estar andando no caminho certo. “O que eu queria entender com um pouco mais de calma, é se não há uma cerca incoerência com o que o governo está propondo. Por exemplo, o governo quer que o Ensino Médio se torne também profissionalizante, técnico. Mas o que dizer então de todos os Institutos Federais, que são muitos, construídos pelo Governo Federal, para formar profissionais técnico-científicos? Ou seja, já não existem essas instituições?”, indaga Brandão. Ele afirma que os Institutos Federais possuem qualidade suficiente para dar conta do Ensino Técnico Profissionalizante, sem precisar mexer no Ensino Médio das escolas estaduais.

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economia#65

NA CRISE, CRIE DESEMPREGO, FECHAMENTO DE FÁBRICAS, AUMENTO DO PREÇO DE ALIMENTOS, SALDO NEGATIVO NAS CONTAS DO ESTADO. O RIO GRANDE DO SUL PASSA UM MOMENTO DELICADO E OS GAUCHOS USAM O CENARIO ECONOMICO EM COLAPSO A SEU FAVOR

POR MARCELA BARBOSA E SHARON NUNES FOTOS MARCELA BARBOSA


ECONOMIA

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NA CRISE, CRIE

om o número de demissões crescendo, chegando a registrar 530 mil desempregados no estado, segundo o IBGE, muitas pessoas buscaram outras alternativas para conseguir complementar sua renda. Em sinal de alerta e enfrentando problemas para sair do vermelho, diversos gaúchos resolveram criar seus próprios negócios, ainda que informalmente, para conseguir fechar o mês sem dívidas. Em meio a dificuldade foram criadas oportunidades criativas, e muitos que embar-

caram na onda do empreendedorismo esperam suas ideias criarem raízes para não voltar mais a velha rotina de bater o ponto. Além do desemprego, outras consequências da depressão financeira afetam o cotidiano dos gaúchos. A redução de gastos com serviços básicos como saúde, educação e segurança é um exemplo. Com os cortes nas verbas esses setores veem seus rendimentos caírem e quem sofre com isso é a população. Só na saúde, os atrasos de repasses já causaram a redução do número de

COMO O CENÁRIO ECONÔMICO COMEÇOU A DECAIR Depois que o plano real foi implantado, a União e o Governo do Rio Grande do Sul fizeram um acordo: o país “abraçaria” as dívidas externas do estado e este ficaria encarregado de devolver aos cofres federais 7,9 bilhões em um prazo de 30 anos. Tempo se passou e os juros aumentaram. Agora, em 2016, a dívida pública já chega na casa dos 61 bilhões de reais, de acordo com dados da Fundação de Economia e Estatística (FEE). Mas como começou todo esse descontrole nas finanças do estado? Endividamentos foram registrados desde o começo do governo de Ernesto Dorneles, onde títulos públicos eram vendidos e usados como moedas paralelas. A prática se perpetuou nos governos seguintes, se tornando comum assim como o pedido de empréstimos no exterior para financiar obras que estavam dentro do plano desenvolvimentista, ainda no regime militar. O espírito do milagre econômico caiu sobre todos e em meio a tanta euforia, ninguém esperava que uma crise estava por chegar. O processo de venda de títulos se deterior e o setor petrolífero passava por um momento difícil. Só no começo de 1980 os encargos externos do estado já tinham crescido 1,736% e a hiperinflação da época cooperou para o aumento do problema econômico. Com o processo de redemocratização, a bola de neve das contas públicas crescia cada dia mais. Títulos começaram a se vencer e outros foram emitidos no lugar com juros ainda mais altos. Sem dinheiro nem para pagar a folha do funcionalismo outros empréstimos e operações de créditos foram feitas. Todas as operações sujeiras a juros e correções; Desde então no Piratini, mandato após mandato, governadores tentam colocar fim, ou, pelo menos, encontrar a luz no fim do Túnel da recessão econômica do estado.

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atendimentos no SUS, além da deterioração dos atendimentos. A aprovação do imposto sobre produtos e serviços, o famoso ICMS, prejudicou muito o poder de compra dos gaúchos, que viram o valor de produtos básicos e também utilitários aumentaram da noite para o dia. Comparando o segundo trimestre de 2015 ao de agora, percebe-se um aumento de 8,7% no número de desempregados. O setor mais afetado foi o da indústria e do comércio, que antes empregava mais de um milhão de pessoas, e hoje emprega em torno de 900 mil. Para quem conseguiu se manter ativo no mercado, segundo o IBGE, a renda mensal de um funcionário do setor privado decaiu 3,2%, o que diminuiu o poder aquisitivo.

CRESCE NÚMERO DE EMPREENDEDORES INDIVIDUAIS Com tantos números negativos, muitos trabalhadores optaram por investir em suas ideias e abrir o próprio negócio. De acordo com uma pesquisa realizada pelo SEBRAE em parceria com o Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBQP) o número de empreendedores cresceu muito de 2014 a 2016, chegando a registrar 62 mil novas empresas. O empreendedorismo movido pela necessidade também marca presença na vida de muitos gaúchos que conciliam seus pequenos negócios com o emprego formal. De bazares a docerias, o importante é a criatividade e o tato de identificar nichos e oportunidades no mercado.

DO ESCRITÓRIO PARA SALA DE CASA “Bom dia, eu sou Sazi”. Com um sorriso cativante e caloroso a advogada e empreendedora no tempo livre, Sazi Menger, nos recebeu em seu aparta-


mento localizado no Centro Histórico de Porto Alegre. Gaúcha, Sazi tem no escritório de advocacia, onde trabalha, sua principal fonte de renda. No entanto, ao procurar uma opção diferenciada de presente para seu sogro surgiu a ideia de montar um e-commerce que proporcionasse ao seu cliente sugestões de mimos diferenciados. Assim surgiu a loja virtual Compre Dicas. Sazi relata como iniciou seu negócio.

“Meu namorado perguntou o que eu achava que eu conseguiria vender. E eu pensei: quinquilharias, coisas. E aí a gente foi atrás disso, pesquisamos, eu fiz um CNPJ, abri conta no banco e começamos a vender”, explica. A empreendedora explica que divide a administração do negócio com a filha, Thalita Menger, que se encarrega de atender aos clientes e fazer entregas durante o dia. À noite, Sazy toma a fren-

A vantagem é não ter chefe e você cuida diferente de uma coisa que é tua. O carinho é diferente, o atendimento é diferente. Sazy Menger, Criadora do Compre Dicas

te das vendas e realiza compras para a loja virtual. Ela, que já havia trabalhado com vendas anteriormente, explica que ainda não tinha experiência na compra de produtos. “A gente começou pegando um produto de cada para ver como que funcionava. Conforme foi dando certo, a gente começou a fazer mais pedidos. Se eu vender dez itens pequenos eu peço mais vinte e assim eu vou indo e aprendendo (a administrar o negócio)” afirma animada. Além de manter as contas em dia, Sazy utiliza a renda extra para custear viagens e o lazer da família. “É pouquinho, a gente está começando, mas já da uma grande diferença no orçamento”, diz. Prestes a completar um ano de loja virtual em novembro, Sazi ressalta a vantagem de ter seu próprio negócio e o cuidado que dedica a ele. “ A vantagem é não ter chefe e você cuida diferente de uma coisa que é tua. O carinho é diferente, o atendimento é diferente”, afirma.

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HISTÓRIAS DE

ARREPIAR LUGARES ASSOMBRADOS DE PORTO ALEGRE POR LAÍS VARGAS, MUNIQUE FREITAS E RAFAELA AMARAL FOTOS RAFAELA AMARAL


mistĂŠrio#69


MISTÉRIO

HISTÓRIAS DE ARREPIAR

J A origem dos fantasmas é o sofrimento humano. Antônio Augusto Fagundes Filho

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á pensou em sair para comprar verduras, peixes ou até mesmo artigos de religião em um dos maiores centros comerciais de Porto Alegre e, do nada, ver um escravo arrastando corrente ou passar pelo local e sentir calafrios? E se este local fosse o Mercado Público da capital gaúcha? Quem nunca teve curiosidade e até uma vontadezinha de descobrir o que há por trás da história de um lugar supostamente mal assombrado? Porto Alegre é uma cidade com grandes edificações coloniais portuguesas do século XVIII que se mantêm bem conservadas até hoje. Seus mais de dois séculos de vida trazem consigo um grande histórico de assombrações. É o caso de locais como o Mercado Público, a Usina do Gasômetro e o Theatro São Pedro, que até hoje carregam lendas de um passado distante – mas que ainda habita o imaginário popular. Péricles Gomide Filho, historiador formado e pós-graduado pela FAPA conta que, em geral, as lendas sempre têm componentes da realidade, e que geralmente são construídas a partir de fatos históricos que são modificados através do imaginário coletivo e transformados através dos anos de acordo com a religiosidade e as crenças locais da comunidade. De acordo com ele, o oculto e a imagem da transfiguração sobrenatural dos fatos, inicialmente constitui-se como forma de explicar fenômenos que não podiam ser justificados através do conhecimento de determinada época, como forma de manter e enviar, através das décadas e a partir da tradição oral, conhecimentos que seriam importantes para as novas gerações. “A lenda sempre tem um componente moral inserido dentro de si, como uma espécie de lição construída na forma de uma parábola ou alegoria”, observa. Em nosso cotidiano, passamos diversas vezes por vários lugares que guardam curiosos – e assustadores – mitos

acerca de fantasmas, vozes do além, espíritos que nunca deixaram o local de sua morte e vários outros casos que talvez nunca tenhamos ouvido falar. Péricles explica que o imaginário das pessoas usa esses fatos e lendas como uma forma de proximidade com o lugar em que vivem. Segundo ele, a lenda tem um forte componente local, algumas se transformam em histórias tradicionais de uma região inteira, como por exemplo O Negrinho do Pastoreio, mas sempre tem um ponto focal de origem no tempo e no espaço. A origem dos fantasmas é o sofrimento humano”, é a primeira frase de Antônio Augusto Fagundes Filho, formado em direito, jornalista e autor de três livros, entre eles “O Livro dos Demônios”, na entrevista onde conta que seguiu os passos do pai, que era antropólogo e folclorista. Ele relembra que iniciou seus estudos através das experiências que teve desde criança, época na qual já via coisas que as outras pessoas não viam. “Eu sou só uma pessoa que não aceita as respostas que me oferecem, eu busco minhas próprias respostas”, entrega ele, explicando a origem de toda sua pesquisa. Para o bruxo, como Antônio é conhecido, nosso conceito de realidade não nos foi explicado corretamente, pois só existe vida e planos dimensionais diferentes, não morte. Quando saímos deste, vamos para um outro plano, pois somos corpos dentro de almas, e não almas dentro de corpos. “Isto explica os fantasmas que vagam pelo mesmo local que nós”, ressalta. Ele explica que ‘almas penadas’ aparecem apenas quando têm uma boa razão, pois eram pessoas como nós, com vontades, desejos, saudade, inteligência, e muitas vezes voltam ao lugar onde morrem – ou foram mortos – pelo fato de terem assuntos inacabados. Fagundes revela que não sente medo facilmente, mas que vê fantasmas e coisas estranhas acontecendo, e sempre busca estudar para encontrar


GASÔMETRO

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m lugar que muitas pessoas vão para passar os finais de semana, tirar fotos e admirar o pôr do sol é o Gasômetro. Local onde ninguém imagina que, antigamente, havia um presídio onde ocorreram rebeliões e massacres. O local era chamado de ponta da cadeia ou cadeião. Bruxo conta que até hoje o Gasômetro é macabro, o que explica o motivo de tantas pessoas serem encontradas mortas nas proximidades. Segundo o historiador Péricles, a lenda dos fantasmas do Gasômetro pode ter duas origens que justificam as histórias que contam do local: os acidentes de trabalho que ocorriam na termoelétrica (que operou até o início da década de 70) ou as muitas ossadas encontradas na demolição da cadeia.

a explicação de cada fenômeno que presencia. “Não sou normal, mas sou feliz”, brinca ele, ao contar diversas histórias sobre assombrações, mitos e lendas ao redor do mundo e em lugares de Porto Alegre, que talvez nunca tenham passado em nossas mentes. Péricles ainda acrescenta que algu-

mas outras lendas podem ser destacadas por serem famosas na capital, como os fantasmas da Cúria, que foi construída em cima do primeiro cemitério da cidade e em alguns casos com a derrubada das lápides. A lenda da Maria Degolada, que conta a história de uma moça que foi brutalmente assassinada

no morro do Partenon e que dá origem a vila do mesmo nome. Além da lenda dos crimes da Rua do Arvoredo, que segundo ele foi um fato amplamente documentado, pois foi um dos maiores crimes do Brasil do século XIX, mas vários detalhes da história foram modificados e se transformaram em lenda.

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MISTÉRIO

HISTÓRIAS DE ARREPIAR

MERCADO PÚBLICO

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or trás de tantas bancas de alimentos, artigos de religião e produtos de beleza, o Mercado Público de Porto Alegre também é cenário de uma lenda. Conta-se que, há 150 anos, na Praça Paraíso onde foi construído o centro comercial, o Mercado foi entregue à guarda de Exu. Dizem que no local, alguém teria colocado um objeto chamado Bará, que consiste em um tipo de divindade religiosa. O que é relatado é que esse objeto foi

TIPOS DE FANTASMAS

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colocado no Mercado por Custódio Joaquim de Almeida, um príncipe africano que veio do Reino de Daomé, atual Benim, domiciliado em Porto Alegre no início do século XX. “No Mercado Público os fantasmas começaram a aparecer na década de 40 quando a questão africana começou a ser afrouxada o que tange a tolerância religiosa, eram os fantasmas dos cativos que se manifestavam por conta do bará”, explica Péricles.

Os automáticos, que repetem sempre o mesmo gesto como se fosse uma fita. Eles não nos enxergam, mas de qualquer jeito assustam, pois a presença de um fantasma equivale a presenciar a própria morte.


THEATRO SÃO PEDRO

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or trás de tantas bancas de alimentos, artigos de religião e produtos de beleza, o Mercado Público de Porto Alegre também é cenário de uma lenda. Conta-se que, há 150 anos, na Praça Paraíso onde foi construído o centro comercial, o Mercado foi entregue à guarda de Exu. Dizem que no local, alguém teria colocado um objeto chamado Bará, que consiste em um tipo de divindade religiosa. O que é relatado é que esse objeto foi colocado no Mercado por Custódio Joaquim de Almeida, um príncipe africano que veio do Reino de Daomé, atual Benim, domiciliado em Porto Alegre no início do século XX. “No Mercado Público os fantasmas começaram a aparecer na década de 40 quando a questão africana começou a ser afrouxada o que tange a tolerância religiosa, eram os fantasmas dos cativos que se manifestavam por conta do bará”, explica Péricles.

Os que falam com pessoas, eles te olham, gritam, choram, interagem com os vivos.

Os piores são os que te chamam pelo nome. Eles têm diferentes razões para agirem assim, foram assassinados, tiveram uma morte trágica, estavam em um momento importante da vida e são tirados abruptamente dali, isto os faz ficarem habitando o mesmo plano que nós.

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PORTO

ALEGRE AO AR

LIVRE POR LUCAS FURTADO, MARIANA CATALANE E RENAN CASTRO FOTOS MARIANA CATALANE E RENAN CASTRO


COMPORTAMENTO

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E

scuta-se uma buzina de carro vindo de longe. O som do trânsito intenso parece estar distante. É como um grito de alguém se esforçando para ser ouvido. Contudo, a parede de árvores abafa todos os sons da cidade grande e passa a impressão de que o indivíduo não está mais na selva de concreto. No chão, ao invés de cimento, encontra-se terra, areia ou grama. No horizonte, ao invés de prédios, apenas árvores. Os animais, no entanto, são poucos: pássaros, peixes e tartarugas. Estes que ainda dividem o local com os cidadãos que lá estão dia após dia, independentemente da estação do ano. Nos dias mais quentes de verão, ou no inverno de vento minuano, o gaúcho, munido de sua cuia, desfruta de gole em gole o sabor do mate amargo enquanto disfarça, pelo menos por alguns instantes, a rotina da cidade grande. O deleito, infelizmente, tem hora para terminar. Matheus Rocha, 23 anos, estudante de medicina veterinária na UniRitter, recolhe a sua cuia e caminha rumo à Avenida Osvaldo Aranha, uma das mais movimentadas de Porto Alegre, para pegar o ônibus e ir para casa. Para Matheus, passar as tardes de domingo na Redenção, um dos principais parques em Porto Alegre, virou costume. “Desde criança meu pai me trazia aqui para caminhar com ele. Hoje, mesmo quando ele não pode, venho com minha namorada ou me encontro com os colegas”, revela o estudante. Essa rotina não é exclusividade do Matheus, afinal, a Redenção, assim como os diversos parques na capital gaúcha, compõe uma lista de diferentes locais para desfrutar da natureza e, ao mesmo tempo, servir para descansar, praticar esportes ou apenas bater papo com os amigos. Apesar disso, a sensação de insegurança na cidade tem feito com que alguns ex frequentadores dos parques optem por transferir os momentos de lazer para locais fechados, como os sho-

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Recuperar o movimento nestes locais não limitase apenas a esses eventos, e sim a mais pessoas desfrutando de momentos de lazer, passeando com a família e praticando esportes.

ppings da cidade. Para evitar que estas áreas verdes tornem-se abandonadas, alguns fiéis visitantes têm se esforçado para atrair eventos para estes locais e, ao mesmo tempo, chamar a atenção da prefeitura de Porto Alegre para que ela tome providências fazendo com que as pessoas voltem a sentir confiança e frequentem novamente esses locais. Segundo Paulo Delgado, de 47 anos, antigo frequentador do Parque da Redenção, os principais problemas são a falta de segurança e a iluminação precária. “Nem tudo está perfeito. Apesar disso, percebi que houve melhora na questão de limpeza dos parques e que mais eventos estão acontecendo, fazendo com que estes locais ganhem mais vida”, conta Paulo. De fato, são eventos como estes que estão trazendo mais pessoas aos parques novamente. Em 2014 surgiu a “Serenata Iluminada”, cuja proposta é incentivar a ocupação cultural de espaços públicos na capital e uso noturno dos parques. O projeto contou com a presença de músicos e artistas que conceberam um espetáculo ao luar. A cada ano o evento vem se tornando mais popular e chamando a atenção da população. A proposta, aliás, é fazer com que surjam mais festivais desse estilo nos parques e praças públicas de Porto Alegre. É evidente, no entanto, que recuperar o movimento nestes locais não limita-se apenas a esses eventos, e sim a mais pessoas desfrutando de momentos de lazer, passeando com a família e praticando esportes.

MAIS VIDA PARA OS PARQUES DE PORTO ALEGRE Mais uma tarde na capital gaúcha. O sol radiante atinge a planície de grama verde no Parque Marinha do Brasil, localizado no Bairro Praia de Belas. Ariel Lima, estudante de geografia e ciências biológicas, procura duas árvores que estejam afastadas por cerca de 30 metros para estender uma fita elástica e prati-


SLACKLINE Praticado sobre uma fita elástica ou corda esticada entre dois pontos fixos, o que permite ao praticante andar e fazer manobras por cima. O esporte é dividido em quatro modalidades:

LONGLINE Trabalha com maiores distâncias e instabilidade, exigindo maior força corporal para se manter em equilíbrio.

HIGHLINE Requer experiência e conhecimento de alpinismo, pois é praticado em grandes alturas.

WATERLINE Praticado sobre as águas, permitindo a realização de manobras mais complexas.

TRICKLINE Permite a realização de manobras com saltos mortais com acrobacias e giros. Cainã Castro

“O lugar na cidade sem a presença humana, é um lugar sem energia, sem vida.” Bárbara Machado, Psicóloga

car Slackline. A preferência é por árvores que sejam fortes suficientes para não se moverem com a tensão exercida pelo peso do indivíduo em cima da fita. Feito a seleção, é hora de praticar o esporte. O estudante diz que não se trata apenas de benefícios físicos, mas também de algo interno. “A fita e os desequilíbrios dela são como o reflexo do nosso eu interior. Por isso nos aproxima de um estado de espírito pleno, porque ela nos faz buscar o equilíbrio entre o material e o imaterial”, revela o estudante. Os praticantes desse esporte até apelidaram carinhosamente essa parte do Marinha do Brasil como SlackPoint, afinal virou o ponto de encontro dos praticantes. No final da manhã, mais praticantes de Slackline chegaram acompanhados de instrumentos musicais, lanches, malabares e outra fita de Longline. Um deles, Cainã Castro, 22 anos, praticante de Highline e malabarista, é uma das promessas brasileiras para o ciclo profissional da modalidade. O outro, uruguaio Vinícius Heuser, 24 anos, que trabalha em Montevidéu com o comércio de equipamentos para Slackline, veio à capital para visitar velhos amigos e

vivenciar os parques gaúchos. Viagens que se tornaram frequente para quem tem esse esporte como estilo de vida. Apesar disso, o uruguaio diz se sentir inseguro na capital gaúcha. “A diferença é que em Montevidéu eu posso sair a hora que eu quiser e nunca acontece nada”, conta Vinícius. Mesmo preocupados com a segurança dos locais abertos, os praticantes do Slackline continuam investindo no esporte. Ao entardecer, enquanto os praticantes de Slackline preparavam uma roda de música, para apreciar o pôr do sol na orla do Rio Guaíba, diversos curiosos se aproximavam do local para entender como funciona esse esporte tão diferente e partilhar o momento. Conforme a psicóloga Bárbara Machado, de 48 anos, especialista em comportamento humano, o processo para revigorar estes espaços passa justamente pela presença de mais pessoas. “O lugar na cidade sem a presença humana, é um lugar sem energia. Sem vida”, diz a psicóloga. A partir disso, o crescente aumento do movimento nos parques se deve muito aos esportes lá praticados. Além do Slackline e dos esportes já con-

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solidados como o futebol, outra modalidade que vem ganhando notoriedade na capital gaúcha é o futebol americano. No entanto, para de fato haver mais pessoas nestes locais é necessário que diminua o receio quanto à insegurança. Para Gabriel Câmara, doutorando em Ciências Sociais pela UFRGS e especialista em segurança pública, o aumento da violência, principalmente no período 2015-2016, foi o estopim para que o governo municipal tomasse alguma atitude. Embora arriscado, a população decidiu fazer manifestações para pressionar a prefeitura e fazer com que ela busque soluções. “O porto-alegrense desistiu de viver em cárcere dentro de duas casas e foram às ruas em busca de sua liberdade”, comenta Câmara.

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Não podemos, mais uma vez, perder o controle destes centros arborizados para quem visa exclusivamente o crime. Vicente Nunes, Tenente da Brigada Militar


QUESTÃO DA INSEGURANÇA Uma das primeiras providências tomadas pela prefeitura foi anunciar a instalação do cercamento eletrônico nos parques da Redenção e Marinha do Brasil. O objetivo é instalar trinta câmeras de vídeo-monitoramento nestes locais com o funcionamento já em dezembro de 2016. Segundo Juarez Fraga, Secretário Municipal de Segurança de Porto Alegre, os equipamentos irão cercar toda a área da Redenção (37,51 hectares), além de toda extensão do Marinha do Brasil (70,70 hectares). Conforme Juarez, os pontos de colocação dos equipamentos foram elaborados em conjunto pela Guarda Municipal de Porto Alegre e pela brigada Militar. “Nos pontos mapeados

pela área da segurança, acontece o furto de descuido em que o cidadão circula em locais com pouca presença de frequentadores”, explicou. Quando questionado sobre a criação de eventos noturnos em meio a tanta insegurança, principalmente antes da tomada de algumas medidas pela Prefeitura, Câmara disse que esta é uma atitude natural. “Vejo esse movimento da população com naturalidade, pois reunidos em centenas os cidadãos sentem-se seguros e lógicamente os criminosos não vão atuar contra todos”, comenta o especialista em segurança-pública. Opinião que diverge da de Vicente Nunes,tenente da Brigada Militar. Para ele, ir aos parques de noite em dez ou em cem pessoas não pode ser con-

siderada uma atitude segura. Apesar da população estar em massa, o criminoso tem várias maneiras de agir e em algum momento essas pessoas vão acabar se dispersando e o bandido poderá agir”, alerta o tenente. Embora a população manifeste indignação contra a prefeitura e a brigada militar, Vicente Nunes garante que não faltou vontade por parte da instituição em proteger o lazer das pessoas. Porém, determinados problemas, como a pouco efetivo e sem o plano de contingência para violência nestes locais, inviabilizaram a tomada de ações mais eficientes. Referente a instalação de câmeras, melhor iluminação e maior policiamento por parte da Brigada Militar e também

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da Guarda Municipal, Nunes é enfático quanto à importância da manutenção desse trabalho e que esse investimento na segurança dentro e ao redor dos parques precisam continuar. “Não podemos, mais uma vez, perder o controle destes centros arborizados para quem visa exclusivamente o crime. Os jovens porto-alegrenses precisam conhecer e ter o prazer de frequentar nossos parques, assim como nós, mais velhos, temos”, afirma Nunes. No ponto de vista de Gabriel Câmara, este passo referente à segurança pública deve ser muito valorizada e servir de exemplo para outras áreas da cidade. Apesar de ter sido iniciado através de

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pressão popular, o aumento da segurança nos parques de Porto Alegre tem que servir como degrau para outras áreas, como o centro e as regiões tidas como rurais da capital.

PARQUE SUSTENTÁVEL Enquanto hoje o objetivo é melhorar a infraestrutura dos parques, justamente para receber mais eventos e pessoas, o amanhã deve ter o foco voltado à sustentabilidade. E a iniciativa, a propósito, está vindo de diversas startups que estão transformando a cidade de Porto Alegre. Destaca-se, entre elas, o Paralelo Vivo, casa colaborativa que visa conectar

pessoas, empresas e idealizadores com qualquer tipo de conhecimento, tecnologia, produto e serviço voltado à sustentabilidade. Foi a partir dela que surgiu a iniciativa de revitalizar o 4º Distrito de Porto Alegre, que engloba os bairros Floresta e Independência, criando a Zona de Inovação e Sustentabilidade (ZISPOA), em parceria com a Global Urban Development e a Pulsar. Além de diversos projetos propostos para a zona com foco em sustentabilidade, como internet gratuita e livre, controle de coleta de resíduos de lixo e uma árvore solar, o maior desejo é construir um parque sustentável entre as ruas Pi-


Auditório Araújo Viana

nheiro Machado e Gonçalo de Carvalho, conhecida como a rua “mais bonita do mundo”. O terreno, que até então está abandonado, foi cedido pelo Shopping Total após diversas reuniões que serviram para mostrar o quão melhor aproveitado aquele local poderia ser. “O superintendente do shopping ficou tão empolgado com as ideias que deu aquela área para nós fazermos um projeto”, revelou Juliano Forster, um dos idealizadores do Paralelo Vivo. Para tornar este projeto concreto, o objetivo é arrecadar dinheiro por meio de financiamento coletivo (crowdfunding) com doações vindas de pessoas do mundo inteiro. Segundo Juliano, a

intenção é fazer a economia circular na cidade. Por menor que seja a colaboração do doador, este vai ter o orgulho de dizer que fez parte disso e, sem dúvidas, vai querer vir para cá e ver com os seus próprios olhos a construção que ajudou a tornar possível. “A gente tem a expectativa que é para transformar a cidade”, diz o empreendedor. Trata-se de um empreendimento que trará diversos benefícios para a cidade e, principalmente, para o 4º Distrito. Segundo Clara Freund, arquiteta responsável pela SendaViva e integrante do grupo de gestão da casa colaborativa na parte de infraestrutura, o legado que o parque trará para a cidade, especial-

mente para os bairro Independência e Floresta, que são carentes de praças e parques, é a integração com a natureza em espaços de lazer e, principalmente, autonomia através de hortas comunitárias, estação de bicicletas, central de compostagem e viveiro de mudas. A meta, conforme Clara Freud, é lançar o anteprojeto do parque no fim de 2016, mas ainda sem uma data para começar as obras do parque. Até lá, entretanto, a população de Porto Alegre segue traçando ideias para renovar os parques que já existem para que de fato tornem-se seguros e perfeitos e ideais para passear com a família.

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DESCOBRINDO

QUEM VOCÊ É POR BRUNA PADILHA E ISABELLE SILVA


ARTE

DESCOBRINDO QUEM VOCÊ É

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o subir ao palco, com as luzes apagadas e uma plateia aguardando ansiosamente pelo espetáculo, Thallya Rodrigues, 19 anos, sentiu que ali seria o local ideal para mostrar o seu verdadeiro “eu”. Há muito tempo lutando contra o hábito das pessoas de julgarem sem conhecer algo ou alguém, sentiu que aquele seria o momento em que passaria a tocar as pessoas – e que isso transformaria a si mesma. Homossexual assumida, sentia medo do julgamento após se aceitar. Decidiu fazer aulas de teatro para que aos poucos pudesse se conhecer melhor e exibir um universo de feridas que poderiam ser curadas. A atriz conta que desde pequena tinha sentimentos pelo mesmo sexo, porém pelo fato de crescer em uma família religiosa tinha medo da rejeição, pois havia aprendido na igreja que frequentava que homossexualismo não era ˜certo”. “Achei que minha família não iria me amar mais, que Deus iria me matar ou que eu iria para o inferno”. Quando completou 14 anos, Thallya decidiu que iria se assumir quando se apaixonou pela primeira menina. ˜O que a gente sentia uma pela outra era muito bonito, não tinha porque matar esse sentimento˜ , a menina conta. No ano de 2015 Thallya decidiu que iria participar de uma oficina de teatro, na cidade de Guaíba, denominado “Teatro do Oprimido”, projeto que busca ajudar o ser humano a criar, imaginar e transformar em forma de arte os maiores anseios da sociedade, promovendo o fortalecimento da cidadania, atuando para que as camadas da sociedade oprimida se afirmem como as próprias protagonistas de sua arte e vidas. Representar seus sentimentos através da expressão, é uma característica do homem desde que os tempos são tempos. Seja para cultuar deuses e logo após, exibir atividades culturais, o teatro tornou-se um grande transformador

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de personalidades. Nos festivais religiosos gregos, no século 6 a.C., em homenagem ao deus Dionísio, nasceu o primeiro esboço do que viria a ser o teatro. Na Grécia, surge o primeiro ator, após regente do coro alegar estar representando Dionísio, dando assim o primeiro passo para a consolidação do teatro como o conhecemos hoje. Iniciar uma atividade no âmbito das artes na infância ou na adolescência pode auxiliar nas mais variadas formas de entender o mundo, segundo a psicopedagoga e professora de Educação Infantil, Fabiana do Nascimento Beeta de Mello. “Todo tipo de manifestação que venha a trabalhar com o cérebro e ações corporais desencadeia comportamentos sociais e morais”, afirma Fabiana. Algumas das Escolas Municipais de Porto Alegre já aderem no currículo da Educação Infantil as múltiplas linguagens – e, dentro delas, o teatro está incluso. O jogo simbólico de recriar a realidade é característica da arte e também integra diariamente as maneiras de expressão dos alunos. “De uma forma espontânea e com o tempo, as crianças vão desenvolvendo a maturidade emocional”, explica a psicopedagoga.

FUGINDO DAS REGRAS Logo que começou as aulas de teatro, Thallya se decepcionou. O papel de menino, que seria dela, foi dado a um menino “de verdade”. Deixar a parte su-

Achei que minha família não iria me amar mais, que deus iria me matar ou que eu iria para o inferno.


perior do corpo à mostra e ter cabelos compridos foram os principais motivos pelo qual foi impedida de fazer o personagem desejado. “A partir daí, senti que minha vida seria melhor se eu realmente fosse um menino”, afirma a atriz. Na avaliação de Fabiana, normalmente os jovens projetam em um personagem momentos que estão vivenciando. Em casos de problemas pessoais, segundo Fabiana, o jovem não sabe de que maneira reagir. “Vivenciar o drama no teatro faz com que ela possa depositar no personagem o sentimento e possibilita maior facilidade em contar aquilo que está perturbando”, ressalta. Em sua experiência profissional, a psicopedagoga e professora já presenciou a escolha dos alunos em quererem fazer o papel de Lobo Mau. “Eles buscam maneiras de fugir das regras, deixar o personagem bonzinho de lado, para que eles possam mostrar que também ficam bravos e se sentem chateados”. Quanto a Thallya, ela decidiu que seria melhor contar sua história para seus colegas de cena. A que além deles lhe apoiarem totalmente, decidiram que sua história deveria fazer parte da peça. A atriz acredita que tenha sido uma experiência única, poder ver de perto tudo aquilo que havia afligido ela durante muito tempo. “ Eu queria entrar na cena

e mudar a situação para que não acontecesse de novo com outras pessoas. ”, explica ela. Para a jovem, “o teatro mexeu bastante com seu psicológico”. Hoje, ela acredita ter mudado o modo de pensar em relação as às injustiças que acontecem no dia a dia. Seu objetivo é ajudar as pessoas a enxergarem o quanto uma opressão pode prejudicar.

TRABALHANDO A IMAGINAÇÃO Além de incentivar a maturidade emocional, o teatro também abre um leque de possibilidades quando uma criança lida com cores, formas, tinturas e diferentes culturas. “Esses materiais favorecem as expressões artísticas e as habilidades como seres humanos em si”, destaca Fabiana. Os jovens têm uma capacidade de simbolizar tudo o que aguce os cinco sentidos: visão, audição, paladar, tato e olfato. Os parâmetros curriculares nacionais, elaborados pelo Ministério da Educação para difundir os princípios da reforma curricular e orientar os professores na busca de novas abordagens e metodologias, afirmam que o trabalho cenográfico permite o desenvolvimento do pensamento e reflexivo sobre a sua obra ao criar o cenário que representa o

lugar onde acontece a cena, por exemplo, com: lugar geográfico, lugar social, lugar geográfico e social ao mesmo tempo. O cenário também , também pode significar o tempo: época histórica, estações do ano, certa hora do dia. Assim, a função do cenário é a de determinar a ação no espaço e no tempo para que o espectador possa entender os acontecimentos. Ao interpretar, o personagem utiliza a palavra, que possui funções variadas de acordo com o gênero dramático, o modo literário ou teatral. Em momentos de recreação, Fabiana, em seu turno como professora, observa seus alunos trabalhando a imaginação. “Pegam um objeto e o nomeiam pensando em outro. Uma caneta pode ser um avião e uma boneca pode sim responder o que você fala”, relata. Essas ações, conforme a psicopedagoga, mostram a compreensão da realidade que cada criança exibe. “Essas atitudes vão favorecendo para que ele se torne um sujeito melhor de fala de sentimentos, de dizer como é que se sente e tem toda uma questão de desinibição”. Para Fabiana, do mesmo jeito que é importante o relacionamento entre crianças, pois nessa convivência “são colocadas à prova frustrações, tolerâncias, limite e cooperação”. Segundo dados IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) 95% das pessoas jamais entraram em um museu, 78% nunca assistiu a um espetáculo de dança e cerca de 90% dos municípios do país não possuem cinemas, teatros, museus ou centros culturais. Outra informação vinda do site Plano Nacional de Cultura é que 14% dos cidadãos frequentaram teatro em 2010, 18% em 2013. A meta é que até 2020 o publico do teatro aumente para 22% de pessoas indo ao teatro prestigiar os artistas e diretores. Conforme a Revista do Instituto Filantropia 43% das pessoas vão aos teatros assistir as peças, 38% a peças nas ruas e 28% não sabem ou nunca foram ao teatro.

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TEM

PRETA

NO SUL

POR QUE A BELEZA DA MULHER NEGRA CONTINUA SENDO ESCONDIDA NO SUL DO PAÍS?

POR JÚLIA FERNANDES E NANDO DONEL FOTOS SOFIA FERREIRA


DIVERSIDADE

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TEM PRETA NO SUL

avia alegria no Sul. Rosada como um perfume – como uma oração. Os homens estavam tremendo. Magras, as raparigas negras, selvagens e lindas com cabelos encaracolados, chorando silenciosamente; mulheres jovens, negras, trigueiras, brancas e douradas, levantando as mãos a tremer, e velhas e quebradas mães, negras e cinzentas, ergueram maravilhosas vozes e cantaram a deus pelos campos dentro em direção às rochas e às montanhas. “ Triste ilusão das mulheres e homens que achavam que com a sua emancipação com o final da escravidão poderiam dar início a algo que poderiam chamar de vida. A falsa ilusão de liberdade rondeou o povo negro que depois da tal liberdade ao invés de viver tentava sobreviver. Entre as centenas de consequência deixado pelo regime escravocrata a ridicularização das características físicas do povo negro é apenas uma gota no oceano de consequências que a escravidão deixou. O Rio Grande do Sul vive ainda sobre as sombras do mito de ser um estado branco. Segundo dados de 2014 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) existe 1,3 milhões de negros, destes, 631,6 mil são mulheres. O percentual é de um pouco mais de 13% de negros gaúchos e desses 6%são mulheres. “O fenótipo de uma pessoa não pode ser considerado como um simples conjunto de elementos biológicos, porque são eles que expressam racismo e desigualdade racial”, declara Nilma Gomes em sua pesquisa públicada no livro Corpo e Cabelo Como Símbolos da Identidade Negra. Mesmo o Brasil tendo como a maior parte da população pretos, o padrão de beleza é branco, uma prova disso são as capas da maior revista de moda do país, a Vogue Brasil, que em 12 edições teve como capa modelos

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negras em apenas três edições. Aos olhos curiosos de andarilhosos que passavam pelo Centro Histórico de Porto Alegre, duas modelos negras eram clicadas por uma fotógrafa amante da diversidade. Num domingo de sol resplandecente – que simbolizava a beleza negra que é inópia em capas de revistas de moda. A falta de diversidade e os mesmos rostos estampando capas foi algo determinante para que a fotógrafa Sofia Ferreira, idealizadora da página “Fotomanifesto”, desse início a ensaios que coloca como protagonitas mulheres, que na visão dela, são esquecidas pelo mercado da moda. Durante as horas em que o ensaio percorreu o Centro Histórico, a pluralidade parecia se casar com o objetivo dos cliques. Na praça da Alfândega, enquanto as fotos eram produzidas, a trilha sonora ficava por conta de um morador de rua que batucava uma lixeira enquanto ecoava de sua voz o som da esperança em forma de letras de samba. Na Praça da Matriz o barulho dos skates simbolizavam um outro tipo de diversidade. Em outro momento um casal homoafetivo trocava carícias enquanto uma senhora se orgulhava em ter adotado um cachorro de rua que brincava na grama, ao lado da escadaria em que as fotos eram feitas. Durante os primeiros cliques, o contraste entre o ensaio independente, com as duas modelos negras, Fernanda Barbosa e Bruna do Erre, e um ensaio para alguma revista, com uma mulher branca, era feito a cinquenta metros. Esse padrão estabelecido pela mídia é o que a fotógrafa Sofia Ferreira, 19 anos tenta quebrar em seu projeto independente. Ela conta que a ideia da página se deu por essa indignação pulsante em seu ser. Durante aula do curso de moda, refletiu sobre o espaço das mulheres negras nas revistas, que em quase sua totalidade utilizam a imagem de mulheres brancas, altas, loiras, de olhos claros.

“Em vez de esperar as mudanças virem das grandes mídias, eu resolvi começar a fazer a mudança. ” Representatividade é uma das palavras mais usadas entre o público que ainda não tem espaço igualitário em todos os meios da sociedade. Para Sofia a diminuição desse preconceito vem de atitudes concretas como o seu trabalho que visa dar esse espaço através da fotografia, que para ela é um jeito de se sentir representada. “Tu ti ver no outro é uma das principais formas de representatividade. ”, concluiu a fotógrafa.

A HISTÓRIA QUE SE REPETE Para Nilma Gomes “a cor da pele, a textura do cabelo e os traços físicos são características fundamentais para determinar se um indivíduo pode sofrer mais ou menos racismo”. Quando se utiliza a palavra escravidão, muitas pessoas remetem a um tempo distante que já foi superado. Contudo, os reflexos desse longo período de uma relação de trabalho marcado por uma imposição apenas pela cor da pele, revelou o preconceito racial e social que ainda vemos em nossa sociedade. O trabalho escravo foi uma opção economicamente viável para a colônia portuguesa, o tráfico de escravos era um grande negócio para a Coroa Portuguesa. No mundo do trabalho, sempre que se falava em força braçal, era destinado ao negro. Na época, a escravidão era vista como algo normal pela maioria da sociedade, contudo, tiveram várias formas de resistência contra a escravidão. O conflito direto, as fugas e a formação de quilombos eram as mais significativas formas de resistência. Além disso, a preservação de manifestações religiosas, certos traços da culinária africana, a capoeira, o suicídio e o aborto eram outras vias de luta contra a escravidão. Logo após ser decretada a abolição da


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TEM PRETA NO SUL

escravidão, nenhuma ação para integrar o negro na sociedade foi realizada. A discriminação racial e a exclusão são vistas ainda hoje. Mesmo com várias ações governamentais que tentam atenuar o peso dessa “dívida histórica”, falta muito para que essa dívida seja paga. E toda essa história de terror imposta naquela época sofre reflexos em vários setores da sociedade. Um desses setores é o padrão de beleza branca imposta pelas revistas de moda. A cor da pele e o cabelo afro ganham um significado muito maior do que o indivíduo em si, mas sim para o grupo étnico em que ele pertence, se tornando ainda mais gritante quando o preconceito racial é casado com o preconceito de gênero, onde as mulheres historicamente são limitadas a fazer o que desejam. E para acabar com esse preconceito, muitas mulheres seguem na valorização da estética negra.

NEGRAS MILITANTES NO SUL Para Bruna do Erre, estudante de Relações Internacionais e militante do movimento negro, a falta de representatividade no sul do país é o resultado da grande colonização europeia no estado. “Vejo a representatividade da mulher negra como algo que está crescendo, talvez em um futuro a médio prazo podemos estar como uma das regiões com maior representatividade”, comentou.

Sobre a militância eu costumo dizer que eu sou militante desde que eu nasci. Nascer negra aqui no Rio Grande do Sul já te faz uma militante. Fernanda Barbosa

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Desde sua infância, Bruna sempre se viu como uma mulher negra. A questão de autoestima sempre foi muito bem tratada dentro de sua família, “eles sempre me ensinaram a valorizar a cultura negra, os meus antepassados, a minha descendência”, disse. A militância foi algo que sempre esteve presente na vida da estudante, “eu sou militante desde que eu nasci. Nascer negra aqui no Rio Grande do Sul já te faz uma militante”. A falta de representação atinge diretamente a autoestima da população negra no país, principalmente as crianças que desde cedo são descriminadas. Acho que o brasileiro tem muito o que aprender com a sua população. Esse padrão de beleza que estabelecemos aqui é um padrão de negação.” Bruna relata uma experiência pessoal que ela e várias amigas passaram no mercado de trabalho, a falta de autoestima por se sentir inferiorizada e o preconceito do empregador no processo seletivo. “Isso é um fato e ocorre frequentemente, mulheres negras que são supercompetentes acabam perdendo no processo seletivo para pessoas com competência um pouco inferior e a única diferença é a questão da característica física”, relata. A associação do corpo da mulher negra com a vulgaridade, com a prostituição, com a sedução também é relatado por Bruna. Parece que a fragilidade aumenta, que é mais suscetível ao assédio”. “Mulata”, “moreninha”. é É dessa maneira que Fernanda Barbosa, 20 anos, foi retratada em sua infância e adolescência. Por ser uma mulher negra de pele mais clara ela sempre se mostrou consciente dos privilégios que tem, mas também como inúmeras mulheres sofreu e sofre até hoje com o racismo impregnando na sociedade. “Carrego alguns privilégios por não ter a pele retinta, mas a luta tem sido a mesma. Eu não me descobri negra eu sempre soube que não era branca até porque em


inúmeras situações alguém me lembrava disso. Mas a diferença é que ninguém queria me ver como negra então eu era a morena, a mulata a branca suja”, afirmou Fernanda. Em uma material públicada no site Geledes, foi abordado um assunto que vem ganhando espaço, o Colorismo, consequência do racismo. O colorismo, também chamado de pigmentocracia trata - se do preconceito conforme a quantidade de pgmentação da pele do indivíduo. Dessa discussão podemos entender como o termo “pardo” devia estar fora do vocabulário. É preciso entender que nem todos os negros tem a pele preta, nem todos os negros tem o nariz largo, nem todos os negro tem os lábios grossos. Existem sim negros de traços finos, cabelos mais alisados, essas características não são exclusivas das pessoas brancas, ainda mais em um país como o Brasil onde a miscigenação é muito forte. Mas é preciso deixar claro que não é por esse motivo que negros

de pele mais clara não sofrem com o racismo. A palavra parda é um termo extremamente racista, pois prova que a sociedade tenta até o último não ver alguém como negro ao ponto de precisar criar essa quantidade de rótulos para não aceitar um sujeito como negro. Fernanda acredita que nos últimos tempos a representatividade aqui no sul do país vem aumentando. Um dos elementos que pode estar influenciando isso é o aumento desta pauta nas mídias. Outro fator que colabora é o crescimento de representatividade em espaços como a música. Artistas negros e negras vem trazendo por meio de suas músicas questões como empoderamento, genocídio do povo negro, o racismo inconstitucional entre outros assuntos dentro do movimento. Consequentemente também é preciso lembrar que os negros nos últimos tempos passaram a ocupar espaços como as universidades, altos cargos em empresas fazendo com que o assunto “racismo” seja pau-

tado dentro desses lugares dando força ao movimento negro. “A internet tem ajudado bastante, faz com que pessoas negras de todo os cantos do país se conectem e troquem informações úteis sobre a militância”, relatou Fernanda. A situação aqui no Rio Grande do Sul se torna mais crítica, por ser um estado onde os negros são a minora e por ter uma história que sempre deixou como protagonista os imigrantes alemães e italianos, a figura do negro sempre foi mal retratada. Além de marginalizar a população negra, o estado desde sempre inferioriza toda a população afrodescendente de todas as formas. “O Rio Grande do Sul é um estado racista, resultado de toda essa cultura e tradicionalismo. Até o nosso hino é racista.”, afirma Fernanda se referindo a estrofe do hino “Povo que não tem virtude acaba por ser escravo”. A insegurança, falta de auto estima foi algo que durante muito tempo rondou a vida de Fernanda. Ela, como

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O Rio Grande do Sul é um estado racista, resultado de toda essa cultura e tradicionalismo. Até o nosso hino é racista. Fernanda Barbosa

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muitas outras mulheres sempre se comparou com a mulher que estampava a capa de revista ou com a que ganhava todos os anos o Garota Verão: a mulher branca, de cabelos loiros e olhos claros. “Além de lidar com a minha própria falta de aceitação tive que lidar com a falta de aceitação de quem estava perto de mim”, lembrou Fernanda. “Durante um ano fiquei sem tomar sol, pois sabia que minha pele ia ficar mais escura. Eu tive essa atitude logo depois de eu saber que meu ex-namorado tinha me traído com uma mulher branca”, falou ela. Essa é apenas uma parte de todo o processo de “embranquecimento” que a sociedade sujeita a todas mulheres negras a passarem. Sujeita, pois mesmo que de forma inconsciente nenhuma mulher negra quer ou já quis esconder sua raiz e negritude. “Nesse período de um ano eu passei a usar maquiagens mais claras que o meu tom de pele, eu já alisava os cabelos desde os 13 anos, eu só tirava foto no sol e usava todos os filtros possíveis para deixar a minha pele mais clara o possível”, relatou Fernanda. A falta de representatividade não é sentida somente a partir da adolescência. Desde criança a exclusão da parte negra da sociedade é sentida. Crianças negras nunca vão ser os presentes em outdoors ou na propaganda da Johnson & Johnson. “Eu me lembro que quando eu era criança eu estava brincando de boneca com uma amiga. A minha boneca, que eu dizia ser minha filha era branca de olhos azuis. Minha amiga disse que ela não podia ser minha filha porque eu não era branca. No mesmo dia pedi para o meu pai comprar uma boneca preta para mim. Eu sei que foi muito difícil achar, ele me deu de natal e eu recordo de ter ficada encantada com o presente. Representação é tudo para uma criança.”. Toda a questão da militância dentro do movimento negro na vida da Fernanda começou após ela ter lido um texto na rede social Tumblr, sobre negras de pele clara. Depois de ter lido a publica-

ção ela conseguiu entrar em contato com a autora do texto para conversar mais sobre o assunto. “E me identificava com tudo que estava escrito no texto. Foi quando eu tive a certeza que sim eu era uma mulher negra. Foi quando minha sede por saber mais sobre minha identidade aumentou. Comecei a pesquisar, a ler a ouvir e contar histórias”, comentou ela. Fernanda entendeu que não estava sozinha nesse barco, e aos poucos foi percebendo tudo que já tinha passado e ainda passa por ser negra e compreendeu que na maioria das vezes o racismo aparece de forma velada. Depois de algumas pesquisas feitas por sites independentes, como o Geledés, mostrou que homens (tanto negros quanto brancos) preferem mulheres brancas. Em resposta a maioria dos homens colocaram que isso se tratava de “gosto”. Assim percebemos que até o “gostar” é construído na sociedade. Desde que nascemos fomos ensinados e pautados não só dentro de casa, fora dela, e também muito influenciado pelas grandes mídias o que é bonito e o que não é. “Desde criança tu és ensinado que o preto de terno o segurança e o branco de terno chefe de empresa. Mulher negra a empregada e a branca a patroa”, comentou Fernanda. O empoderamento através da estética é disseminado dentro da militancia do movimento negro em todo o mundo, e para essas pessoas, isso é algo essencial se o mundo quer caminhar para uma igualdade, livre de todo preconceito que já foi motivo para a escravidao, e hoje é senso comum a crueldade daquela época. A pergunta é: quando lembraremos de 2016 como um tempo de luta para acabar com algo que deveria já estar impregnado na existencia do ser humano, o preconceito.


#93 ISSUU.COM/UNIVERSUS


#94

MÃES

UNIVERSITÁRIAS COMO A ROTINA DE ESTUDAR E CRIAR OS FILHOS AFETA O DIA A DIA DAS ESTUDANTES. ESPECIALISTAS EXPLICAM AINDA O PORQUÊ DAS INSTITUIÇÕES NÃO OLHAREM A FUNDO PARA O PROBLEMA

POR BERNARDO FIGUEIRA, CINTHYA PY E JULIANA PEREIRA


educação#95


EDUCAÇÃO

E

MÃES UNIVERSITÁRIAS

m meio a tantos desafios na vida existe um em especifico que mexe com o coração de toda a mulher: o de ser mãe! Desejo de muitas mulheres, elas fazem uma série de planos para chegar a este momento da forma mais tranquila possível. No entanto, devido aos contratempos da vida, nem tudo acaba saindo como o esperado e algumas surpresas aparecem pelo caminho. Lutando diariamente para dar conta das demandas da faculdade, cuidando, educando seus filhos constantemente e ainda trabalhando, estas levam no peito o sonho de mesmo com todos os percalços chegarem a tão sonhada formatura. Obstáculos estes que em algumas situações excedem os limites do bom senso. Foi o que aconteceu em abril deste ano, onde uma aluna da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) precisou sair da sala com sua filha, pois a professora não gostou da presença da criança e criticou a postura da mãe. O episódio repercutiu nos veículos de comunicação e nas redes so-

ciais gerando polêmica e abrindo mais espaço para o diálogo. O questionamento que fica é: será que as instituições de ensino permitem que a mãe leve seu filho para aula? Existem políticas claras sobre isso? Qual o comportamento do professor? A lei federal de número 6.202-17 de abril de 1975 estabelece o direito de a mãe estudante ter licença no período de três meses a partir do 8° mês de gestação (o que significa estudar a distancia ou

ter períodos diferentes para entregar atividades, previamente combinado com a instituição). Na prática, as escolas e universidades não têm políticas claras nesta situação, deixando aos professores montarem o acordo com as alunas para a realização de atividades. Segundo a pedagoga e orientadora educacional, Gessica Barcellos, forma­ da pela PUCRS, episódios como o ocorrido na UFRGS são comuns, pois estamos em um momento onde

É muito importante a nossa presença na vida dos filhos. Mariela Moraes, estudante de jornalismo na UniRitter

Divulgação/Arquivo Pessoal

Mariela e a filha, Manu, de 5 anos

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EXPERIÊNCIA DENTRO DA FACULDADE A estudante de Jornalismo do sétimo semestre da UniRitter, Mariela Moraes, é uma destas mães que concilia as responsabilidades da maternidade com seus sonhos profissionais. De acordo com Mariela, todas às vezes em que ela teve de levar a sua filha Manu para a faculdade ocorreu tudo de forma muito tranquila. “Sempre que não tive com quem deixar a Manu a levei na faculdade junto e deu tudo certo. Os professores foram muito solícitos e eu achava maneiras de mantê-la bem entretida enquanto eu me concentrava na aula. Porém, creio que se tivesse um espaço nas faculdades, como uma espécie de playground para as crianças enquanto as mães estudam seria bem

FTEC/Divulgação

valores culturalmente aprovados estão sendo questionados e muitos tabus quebrados. Em consequência de hoje, a mulher ser atuante no mercado de trabalho, nas universidades, na política, e por dividir as contas e participar ativamente do planejamento financeiro da casa, nos faz enxergar nos dias atuais uma nova construção de sociedade. Falando especificamente da mulher, hoje ela assume o controle da sua vida e planeja uma carreira, um futuro e almeja o sucesso. Ela sempre corre atrás, porém, carrega por motivos orgânicos a possibilidade de gerar um ser. “Pela imposição social, vinda de uma visão completamente patriarcal da nossa sociedade, essa possibilidade vira uma obrigação. A mulher sente-se obrigada a ser mãe, mas não quer deixar seus sonhos profissionais de lado, então assume a responsabilidade total das duas situações. Por este motivo, o episódio da UFRGS será cada vez mais comum em nossas universidades e cursos”, diz Gessica Barcellos.

Inauguração do Espaco Kids na FTEC

interessante e facilitador”, destacou Mariela. Este ambiente especial para as crianças na faculdade poderia viabilizar uma solução revolucionária para as mães universitárias. Assim, iria solucionar o problema de foco nos estudos durante a aula, permitindo a estudante dedicar todas as energias para assimilar o conteúdo. Afinal, a preocupação com o filho pode ser um fator de prejuízo maior, onde o acadêmico se obriga a estar presente, tendo, porém, seus pensamentos voltados para a criança. O que ocasiona como diria a pedagoga, Gessica, um corpo sem aprendizado. “Não sei se a forma seria a mais adequada e nem qual seria o custo para as instituições, mas eu montaria um espaço pedagógico de 0 a 6 anos. Desenvolveria uma parceria com a faculdade de educação, solicitando apoio direto do curso de Pedagogia, mas incluindo os demais cursos de licenciatura, para que a criação e manutenção desse espaço fosse possível e completo. Disponibilizaria para as mães e pais deixarem seus filhos, garantido aprendizado e segurança para as crianças durante a aula”, afirma a

pedagoga com o objetivo de solucionar o problema.

UMA NOVA SOLUÇÃO Neste ano, um projeto semelhante a este surgiu na Faculdade de Tecnologia de Porto Alegre (FTEC) em parceria com o Studio Pensando Bem e tem tudo para se estender as outras universidades. Foi criado um Espaço Kids para atender alunos que precisam conciliar estudos e família. O serviço está sendo oferecido no campus da Zona Norte e enquanto os pais estão em aula, as crianças ficam no local acompanhadas de profissionais. O espaço começou em agosto deste ano e podem ficar crianças de 3 a 13 anos. “Com este trabalho toda a família sai ganhando. A mãe alcança seu diploma e a criança evolui através de oficinas”, enfatizou a responsável pelo espaço e professora da instituição, Danielle Nunes. Que cada vez mais possamos ver novas ações que venham a facilitar a vida destas mães universitárias, afinal, com tantas lutas e passando por cima de todos os obstáculos, terem suas vidas repletas de realizações é de extremo merecimento.

#97 ISSUU.COM/UNIVERSUS


#98 TRANSFORMANDO VIDAS ATRAVÉS DO TÊNIS

POR ALEKSANDER DE ARAÚJO E WESLEY DIAS IMAGENS ARQUIVO WIMBELEMDON


esporte#99 O WIMBELEMDON AJUDA CRIANÇAS EM SITUAÇÃO DE VULNERABILIDADE SOCIAL DESDE 2008, AS POSSIBILITANDO UMA COLOCAÇÃO MAIS JUSTA NA SOCIEDADE. ASSIM FORMANDO MELHORES CIDADÃOS PARA O MUNDO

A

virada para século XXI trouxe mudanças na vida de Marcelo Ruschel e Luciane Barcelos. Em outubro de 2000, o fotógrafo alugou uma quadra de tênis abandonada em Belém Novo, na zona sul de Porto Alegre. O objetivo era criar um projeto social para as crianças do bairro. E tudo isso começou a partir do momento em que o fotógrafo reencontrou Suzana Bertoni dos Santos, amiga de longa data, em um torneio de tênis nos Estados Unidos. Juntos, em 20 de março de 2003, criaram o projeto Wimbelemdon. Na época, a iniciativa atendia a 40 crianças com atividades de tênis e oficinas de leitura. Cinco meses depois o projeto dobrou a sua capacidade de atendimento e passou a contar com 80 alunos. O projeto iniciou com dois professores - um de tênis e uma voluntária de português - auxiliando nas atividades. Até o ano de 2005, tudo era custeado pelo próprio dinheiro de Marcelo e Suzana. Luciane sempre atuou na parte mais interna, administrando o projeto. Mas após a ida de Suzana para os Estados Unidos, seriam necessárias parcerias para levar o projeto em diante. E neste mesmo ano surgiu as primeiras empresas parceiras. Uma construtora se prontificou a doar todo o material da obra para a execução da sala pedagógica para as crianças, com computadores e livros e do chamado “paredão” onde as crianças batem bola. Na mesma época uma escola de idiomas em parceria com o Wimbelemdon deu início a outras oficinas para o projeto. Assim o WimBelemDon foi seguindo. Com uma ajuda ou outra de determinados apoiadores e simpatizantes. Como todo projeto social, o Wimbelemdon também passa por sucessivas dificuldades para manter as suas ativida-

des. A primeira grande crise que afetou o projeto, ocorreu em 2008. Segundo Luciane, esta foi a época mais difícil de manter o projeto vivo. “Em 2008 nós quase fechamos, porque até então a gente pagava tudo com o nosso dinheiro e chegou um momento que não deu mais, as contas de casa estavam atrasadas”, lamenta. A solução foi criar uma exposição com o acervo de fotos de Marcelo Ruschel, já que o mesmo era fotógrafo há muitos anos e já havia fotografado inúmeros grandes eventos de tênis. A doação do acervo angariou o valor suficiente para quitar os débitos do projeto. Hoje com 15 funcionários contratados e 12 voluntários, o tênis acontece todos os dias, de segunda à sexta as crianças participam das aulas de tênis e também de algumas oficinas de psicologia, alfabetização, cinema, artes, psicologita do esporte, além de matemática e português.

CRIANDO CIDADÃOS PARA O MUNDO Historicamente a introdução de projetos sociais sempre se fez necessária devido a desigualdade social e violência presente no Brasil. Com a meta de buscar a reorganização social, cultural e pedagógica. A intenção dos projetos sociais se materializa no instante em que a qualidade de vida da minoria necessitada melhora. Possibilitando o crescimento social e uma condição digna de vida. O projeto WimBelemDon é uma boa exemplificação deste conceito. Pois busca através do ensino do tênis integrado à leitura e à complementação escolar, facilitar o desenvolvimento de habilidades e atitudes em crianças em situação de risco social que lhes permitam participar ativamente da sociedade brasileira. Desde os oito anos no projeto, atu-


ESPORTE

TRANSFORMANDO VIDAS ATRAVÉS DO TÊNIS

almente Jaleska faz estágio no WimBelemDon. Ela cursa Educação Física na Sogipa devido a ajuda do projeto na busca por uma bolsa de estudos para ela. Luciane Barcelos se orgulha ao falar da Jaleska, pois ela é um desses casos de alunos que tiveram suas histórias edificadas pelo projeto. E isso se traduz nas palavras da própria estudante: “Desde pequena sempre gostei de participar, a cada dia construía um pouco da minha história lá dentro, foi difícil deixar de ser aluna. Porém sempre soube que o WimBelemDon estaria presente na minha vida, por isso estou trabalhando lá”, conta Jaleska. Antes de ingressar no ensino superior, a atual estagiária do WimBelemDon pôde ter diversas aventuras guiadas pelo projeto. Devido ao seu amplo destaque sempre representando a instituição em alguns torneios, teve visibilidade e inclusive chegou a ganhar uma bolsa para estudar nos Estados Unidos. No entanto, com problemas no visto, foi vetada a sua viagem. Mas com uma porta fechada, ela abriu outra. Seguiu sempre próxima ao tênis. “Ela fez o curso de árbitro de linha, da Confederação Brasileira de Tênis, curso que nós sediamos aqui em Porto Alegre, por conta disso a CBT deu o curso gratuitamente para 5 alunos aqui do projeto, e a Jaleska foi uma delas”, completa. Após isso ela iniciou nos torneios como juiz de linha o que culminou em um convite para atuar nas Olimpíadas”, acrescenta Luciane. O sentimento de gratidão por quem passou e teve uma boa estadia no projeto, nota-se que não é demonstrando apenas em palavras. Ajudar alguma nova criança é como se estivesse ajudando alguém de sua família. Até porque todos se consideram uma grande família. “Relação de família mesmo, sempre fomos muito unidos. Fiz amigos para a vida toda. Estou muito feliz de fazer parte. Poder ajudar e passar tudo aquilo que aprendi para os pequenos”, enfatiza Jaleska. Utilizar o esporte como uma ferramen-

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Jaleska foi um dos casos de sucesso do Projeto WimBelemDon

ta instrutiva para crianças e adolescentes sempre foi aplicada de forma que pudesse contribuir para o progresso desses jovens. O esporte possui a capacidade de auxiliar no desenvolvimento intelectual da pessoa quando na sua essência estimula a se desenvolver de forma individual. Assim conseguindo conhecer melhor a si mesmo. Através disso as melhoras em cada um é significativa, auxiliando num melhor rendimento

para esse jovem em todas as esferas. “Eu era um pouco agressivo, ia mal no colégio e o wimbelemdon começou a exigir notas para participar dos torneios. A partir disso comecei a me esforçar. A me comportar. Passei a me relacionar melhor com as pessoas. Eu acho que o wimbelemdon participou 100% da formação do meu caráter ”, diz Gustavo Baltazar, ex-aluno do projeto WimBelemDon e atualmente instrutor de tênis.


Gustavo Baltazar é um dos destaques que participou do projeto

Se não fosse o projeto, eu não sei o que faria da vida. Gustavo Baltazar

Gustavo é mais um exemplo dos alunos citados por Luciane que fez parte do projeto por muito tempo e teve reflexos positivos de tudo que viveu em sua vida. Ele que teve muitas amizades, mas que sempre foi uma pessoa extremamente explosiva em seu período de projeto. Não gostava de ser contrariado e isso o irritava profundamente. Era uma criança que se cobrava muito e chegava até discutir com seus professores. Luciane e

Marcelo tiveram trabalho, contudo com muita paciência tudo foi resolvido. “É um trabalho feito que a gente vai percebendo certas coisas, vai melhorando e vai se desenvolvendo como pessoa. Hoje eu sou uma pessoa muito tranquila”, conta Gustavo. Nem sempre houve uma estrutura adequada para que as coisas dessem certo. A falta de grande apoios impossibilita de ter a certeza de que a cada troca de ano tudo seguirá em frente no WimBelemDon. Muitas vezes precisava tirar do seu próprio bolso o custeio para a manutenção de tudo. Fato que é enaltecido por Gustavo: “Ainda hoje é difícil para o projeto se manter aqui no brasil é difícil este tipo de instituição se manter com qualidade porque antigamente era tirado muito dinheiro do próprio bolso do Marcelo, professores que passavam lá ficavam meses sem receber salário e mesmo assim não saiam, nunca nos abandonaram”. Ele também lembra que teve uma determinada época da qual os alunos praticavam entre eles mesmos, por não ter a presença de um professor. Um tempo difícil onde não havia lanche para ninguém e aulas eram em menor quantidade pela baixa demanda de instrutores. “Na vida do projeto foram colocados desafios que sempre foram superados com muita luta. As pessoas que estão lá dentro colocam o coração na frente de tudo pelas crianças, esse é o amor que segura projeto”, diz o ex-aluno. O tênis por ser um esporte individual faz com que a pessoa tenha que tomar decisões rápidas. Exige concentração e foco, como qualquer outro esporte. Porém por ser um esporte individual a pessoa não tem como se omitir. Pois todos lhe observam. Com isso a criança reprimida ao entrar na quadra, sofre uma transformação. Ela começa a sentir mais livre. A se lançar para outras coisas. O objetivo do Wimbelemdon não é formar grandes tenistas. Mas sim bons cidadãos.

#101 ISSUU.COM/UNIVERSUS


#102


ensino#103

ALÉM DA SALA DE AULA

A ANUNCIADA REFORMA DO ENSINO MÉDIO AGITOU AS DISCUSSÕES SOBRE A QUALIDADE E O SISTEMA DE EDUCAÇÃO BRASILEIRO, E APESAR DA RECEPÇÃO NEGATIVA POR BOA PARTE DA POPULAÇÃO, A VERDADE É QUE TUDO INDICA QUE UMA REFORMA NÃO É MAIS NECESSÁRIA, E SIM TARDIA POR JENNIFER VAN LEEUVEN, MARCELO RODRIGUES E MARCO OLIVEIRA


ENSINO

ALÉM DA SALA DE AULA

S

abe aquela velha pergunta, que a grande maioria dos jovens se faz em determinado momento do ensino médio, “por que estou aprendendo isso? ”. É comum que com o amadurecimento das ideias e conforme vá se conhecendo o mundo esse tipo de dúvida se torne mais frequente. Se antigamente tudo que se sabia vinha diretamente da escola e de casa, hoje a internet deixa todo o conteúdo disponível a qualquer um que se aventure a procura-lo, o que torna alguns conceitos obsoletos. Essa discussão se agitou no Brasil após o governo de Michel Temer anunciar a “primeira versão” da reforma nacional do ensino médio, que visaria tornar o currículo mais curto e personalizado, para atender as principais áreas do interesse de cada aluno. A recepção inicial foi negativa por boa parte da população, e também poderia, uma das propostas iniciais era a de tornar matérias como filosofia, sociologia, artes e educação física opcionais, algo que o governo rapidamente voltou atrás. O modelo apresentado ainda é rudimentar e precisa ser analisado e trabalhado da melhor forma antes de ser implantado a nível nacional, mas a reforma é algo que se vê necessário desde o século passado. Preferências governamentais a parte, o Brasil está no contraponto mundial quando o assunto é educação. Apesar de não ser um processo rápido, sistemas parecidos tiveram sucesso em outros países. A Polônia, que sofria por conta de um sistema escolar falho, deu mais autonomia as escolas e hoje figura entre os melhores ensinos do mundo. Austrália e Inglaterra podaram suas grades curriculares e experimentaram avanços extraordinários. O Japão diminuiu em 30% o currículo de seu ensino médio, e é uma das potências mundiais na área. Os Estados Unidos se apoiam fortemente no seu sistema, que além de personalizado, não se baseia testes nacionais como o ENEM e o Vestibular, e sim nos méritos de cada aluno para ingresso nas universi-

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dades. É uma ideia de que menos é mais, uma filosofia que acredita que ao focar as atenções em uma área específica do conhecimento os resultados nessa área podem ser excepcionais. O próprio brasileiro precisa entender que essas mudanças se fazem necessárias diante aos números. De acordo com Sergio Wollman, diretor do curso de Relações Internacionais da ESPM, as mudanças se fazem necessárias, mas a forma como estão para ser aplicadas ainda precisa ser estudada. Em entrevista realizada por e-mail, o também professor de filosofia comentou sobre o panorama atual da educação brasileira e o que a reforma pode trazer de bom e ruim. “Os tempos são outros, o mercado mudou, então reformar é preciso. Mas é perigosa uma mudança centrada em interesses políticos e pessoais. A primeira reforma deveria ser levar a sério o ensino, com um estudo aprofundado e pesquisa. Qual o papel do ensino médio atual, preparar para o curso superior, para o mercado, ou formar cidadãos que tenham autonomia para decidir o que fazer da vida? ” Com relação ao atual estado da educação brasileira, Sergio comentou “A educação brasileira está um caos, sou professor na rede pública estadual a 22 anos, e mesmo tendo entrado já sabendo da dificuldade de melhorias, o que vejo é um retrocesso maior a cada ano. As escolas não preparam nem para o vestibular e nem para a vida. É necessário assumir a educação como prioritário, elevar o ensino ao valor máximo de uma nação”. A vice diretora da escola Ildo Menegheti, Rosangela Rodrigues comentou “Ainda não começamos o planejamento no colégio, pois as mudanças são apenas para 2018, e ainda precisamos ver como serão essas reformas, é tudo muito inicial ainda˜. Essa falta de preparo pode ser vista por um outro ponto de vista. Alguns anos no passado era muito comum, quase rotineiro que testes vocacionais fossem realizados para auxiliar os alunos na escolha de uma carreira. Hoje, existem

Os tempos são outros, o mercado mudou, então reformar é preciso. Mas é perigosa uma mudança centrada em interesses políticos e pessoais. A primeira reforma deveria ser levar a sério o ensino, com um estudo aprofundado e pesquisa.


Marcelo Rodrigues

Alunos do ensino médio da escola Ildo Menegheti

muitos simulados, mas poucwos testes. A psicóloga Claudine Saltiel é especialista em aplicar estes testes em jovens e comenta sobre o processo. “Normalmente a família ou o jovem busca o profissional para realizar a bateria de testes. As dúvidas começam a surgir pelos 14 anos e duram toda a adolescência. Com certeza falta nas escolas um espaço para que esses alunos possam esclarecer suas dúvidas”. Há ainda um aspecto da educação brasileira que torna ainda mais complicada a reforma. Diferentemente de muitos países, a cultura educacional do Brasil possui dois tipos distintos de educação, a privada e a pública, e as diferenças de estrutura e preparo de ambas pode ser um empecilho para um

sistema linear. Em Porto Alegre, existem 67 escolas particulares, sendo 342 em todo o estado, e apesar de não ser unânime o modo de trabalhar o futuro de um aluno, essas escolas oferecem muito mais oportunidades. A professora de Português, Literatura e Redação Janice Espina Cabral, que atualmente ensina no Instituto São Francisco Santa Família comentou “As escolas, em sua maioria, tentam preparar os alunos para a vida profissional. A preparação já vem desde o Ensino Fundamental. Na escola que trabalho ainda não falamos sobre a possível reforma. Mas sabemos que a orientação pedagógica está preparando reuniões para abordarmos o assunto”. No colégio Bom Conselho os alunos

têm a disposição diversas atividades extracurriculares, que permitem ao aluno se integrar mais a escola. O mesmo que ocorre em outros colégios tradicionais como João XXIII, a rede Marista, Anchieta entre outros. Todos os problemas das escolas privadas se multiplicam quando chegamos a rede pública. Além da falta de motivação de professores e alunos, se criou um grande pessimismo inicial quanto a falta de recursos para aplicar algumas das novas propostas. O mestre em educação, e professor aposentado de matemática Ênio Leal, comenta que não há condições da criação de turno integral na rede pública. “Não temos verba para isso, no Raul Pilla, colégio onde ainda dou aula e fui

#105 ISSUU.COM/UNIVERSUS


ENSINO

ALÉM DA SALA DE AULA

Jennifer Van Leeuven

diretor durante anos, temos alguns cursos técnicos que podem ser realizados junto ao médio, e apesar do colégio auxiliar os alunos durante todo o seu período de ensino médio, não são muitos que conseguem seguir para o ensino superior. A reforma é interessante, mas ela ainda tem que ser melhor pensada, do ponto de vista dos professores, alunos e também econômico”. Os próprios alunos se veem despreparados para a bateria de testes de fim de ano. “É péssimo, sinceramente os professores até incentivam, só que no ano letivo todo eles não conseguem dar conta dos conteúdos e isso vai passando de ano em ano e não temos base pra fazer Enem. Eu acho que vou precisar de um cursinho por que não vai dar” diz a aluna da Escola Estadual Villa-Lobos, Isabellwe Cicória. Para a professora de Filosofia Marisa Almeida, o problema vai além do sistema. “Esses dias me encontrei com uma exaluna que virou professora. A primeira coisa que falei para ela foi, “por favor, não encha o quadro de matéria, o aluno não aprende e não presta atenção, converse com o seu aluno”. É isso que, na minha opinião, falta nas escolas, essa interação, o aluno de hoje não quer mais copiar matéria, ele já tem acesso a isso com a internet, o trabalho do professor é discutir e integrá-lo aquele conteúdo” completou. Mediante a uma recepção tão mista, o novo governo parece resiliente em manter a proposta inicial. Reformar o ensino é preciso, resta saber se será feita a análise necessária para que as mudanças atinjam os principais problemas e atrasos que o atual sistema apresenta. Até lá, ainda vão haver muitas discussões e opiniões divergentes, cabe ao governo ouvir todas as esferas do nosso afetado ensino para encontrar a melhor solução.

Alunas da escola Heitor Villa-Lobos Isabelle Cicória e Natália Kimberlin

Esses dias me encontrei com uma ex-aluna que virou professora. A primeira coisa que falei para ela foi, ‘por favor, não encha o quadro de matéria, o aluno não aprende e não presta atenção’. É isso que falta nas escolas, essa interação, o aluno de hoje não quer mais copiar matéria, ele já tem acesso a isso com a internet, o trabalho do professor é discutir e integrá-lo aquele conteúdo. Marisa Almeida, professora de Filosofia

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REVISTA

DOSSIÊ INVETIGATIVO

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ENSAIO SOBRE A LOUCURA

Por Gabriela Freitas, Gabriela Fritsch e Shalynski Zechlinski

A JUVENTUDE DAS GERAÇÕES

Por Mariana Pacchioni, Leandro Osório e Paulo Nunes

MENINAS DA FASE Por Fernanda La Cruz

CAMPANHAS ELEITORAIS NAS REDES SOCIAIS Por Daniela Fernandes, Graziella Santos e Melissa Renz

“QUE BREGA”

Por carolina Ferreira, Débora Neto e Karine Munhoz

PERMISSÃO PARA SE DESCOBRIR Por Rafael Bernardes e Gustavo Leal

DISTÚRBIOS DO SONO

Por Rudá Collin, Luiza Motta e Lauren Dourado

DO OUTRO LADO DAS GRADES

Por camila Emil, Évilin Matos e Gisele Barbosa

EDUCAÇÃO EMPREENDEDORA E TECNOLÓGICA Por Leonardo Ambrosio e Lucas Bubols

NA CRISE, CRIE

Por Marcela Barbosa e Sharon Nunes

HISTÓRIAS DE ARREPIAR

Por Laís Vargas, Munique Freitas e Rafaela Amaral

PORTO ALEGRE AO AR LIVRE

Por Lucas Furtado, Mariana Catalane e Renan Castro

DESCOBRINDO QUEM VOCÊ É Por Bruna Padilha e Isabelle Silva

TEM PRETA NO SUL

Por Júlia Fernandes e Nando Donel

MÃES UNIVERSITÁRIAS

Por Bernardo Figueira, Cinthya Py e Juliana Pereira

TRANSFORMANDO VIDAS ATRAVÉS DO TÊNIS Por Aleksander ee Araújo e Wesley Dias

ALÉM DA SALA DE AULA

Por Jennifer Van Leeuven, Marcelo Rodrigues e Marco Oliveira

UNIVERSUS nº 03 (2016/2)  

Matérias produzidas pelos alunos do do curso de Jornalismo da Uniritter.

UNIVERSUS nº 03 (2016/2)  

Matérias produzidas pelos alunos do do curso de Jornalismo da Uniritter.

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