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MUITO PRAZER


nenna 1970

/

2001

“o que faço é

filosofia...”


1970

ESTILINGUE praia do canto, es


“Nos idos dos anos 60, os movimentos culturais da cidade eram mais motivados pelo romantismo político. Aqui se desenvolveu poesia, cinema, artes plásticas, etc. Com a criação do Museu de Arte Moderna, chegou-se a três mostras de nível nacional com participação de delegações de nove estados. E de repente, não mais que de repente, a mão governamental tolhe tudo. Qualquer associação, agrupamento, tentativa era considerada uma tentativa de subversão. E aos olhos dos censores sempre vigilantes contra os perigos da democracia, a juventude, foi, após 1969, cada dia mais sendo colocada nas esquinas, sem voz, sem cor e nem mistérios. Iniciou-se a década sob um signo apenas: o do terror oficial. No ano de 1970, há a primeira tentativa de libertação. Um rapaz magro e pensante, saído da Universidade, mas não tocado pelos movimentos anteriores, faz, em uma bela manhã, a Praia do Canto, acordar um pouco assustada. Uma árvore foi trabalhada durante a noite e o artista registra então um enorme estilingue à beira-mar. Nenna se insurgia, talvez de uma maneira inconsciente ou talvez na mais ampla lucidez, contra o status-quo vigente e nesse primeiro protesto o primeiro gesto de que havia luz para vir, mesmo no fundo do corredor” Carlos Chenier - A Gazeta, 1979


“As pessoas que passaram pela Praia do Canto, na manhã e no começo da tarde do último domingo, foram surpreendidas pela visão do seguinte: uma das habituais castanheiras, que enfeitam aquela praia, e tem exatamente a forma do gancho de um estilingue de garoto, estava coberta por uma camada de gesso amarelo, com duas tiras de plástico preto amarradas na árvore, em substituição à borracha que as crianças usam em suas setas de verdade, (ou de brincadeira), e um plástico vermelho, onde normalmente está um pedaço de couro, para o lançamento das respectivas pedras ou bolinhas de gude (depende do gosto) que completava o que foi batizado como: “O ESTILINGUE GIGANTE” ou, a primeira manifestação pública de vanguarda nas artes plásticas do Espírito Santo. O autor: Nenna, 18 anos, Leão, natural da ilha, que começa a afirmar a emergência de artistas plásticos importantes - em escala nacional - nessa cidade, onde não existe ainda uma simples galeria de arte, e, onde as exposições mais importantes tem sido feitas em lugares improvisados. Para Nenna, o “Estilingue Gigante” foi uma experiência que ficou concretizada interiormente, e de um modo geral satisfez. Plasticamente, sua criação se baseia na libertação total da imaginação e a utilização de todos os elementos disponíveis ao artista realmente contemporâneo, e que já superou, portanto, os velhos esquemas de relacionamento entre o espectador passivo e o quadro todo-poderoso” Arlindo Castro

- A Tribuna, agosto 1970


fotos Sagrilo


“Pela primeira vez na história das artes plásticas no Espírito Santo, foi realizada uma manifestação pública de vanguarda.[...].O mais interessante de tudo foram as diversas reações que as pessoas tiveram diante do “Estilingue”. Muita gente riu, achando uma loucura; outros limitaram-se a olhar de lado, sem dar muita importância, enquanto outros paravam, curtiam e saiam sérios e com sintomas de quem não estava entendendo nada.” Luiz Tadeu Teixeira

- A Gazeta, agosto 1970


“a situação ARTE no estado / santo ou de espírito está tranquilamente pousada em mil novecentos & nada. arte é um sabor ou / qualquer coisa devidamente credenciada para tal. a criação / CRIAÇÃO se desenvolve, depois de já ter sido reprimida por todo um envolvimento ambiental - psíquico - & tudo o mais & ainda CULTURAL. (tudo dito anteriormente se relaciona com os arredores). você vive. sabe que a televisão é o que é. agora se você sabe que contra a televisão só mesmo VIDEOTAPE PORTÁTIL, parabéns. você é um bom menino. trinta linhas com setenta e duas batidas, igual a uma lauda. & você tem meia hora ou menos para completar todo o ciclo (imaginar-sentar-pegar papel-colocar na máquina e eXcrever.........). meia hora na idade PALEOCIBERNÉTICA, apesar de toda a velocidade adjacente, me deixa louco. fazer ARTE no espírito santo me interessa tanto como NADA. a ambiguidade da situação não é dadaismo nem suburbanismo. não confundir TUDO. a escola de belas artes / ou melhor, o centro de artes da universidade federal do espírito santo até que é um lugar saudável, apenas andy warhol & marcel duchamp & ..... são ilustres desconhecidos. a cantina do centro de artes é o lugar onde tomo um refrigerante antes do meio dia & me sinto feliz pelo prazer de quem se esforçou o bastante. explicação desnecessária: não se trata de um ARTIGO SOBRE ARTE, muito menos sobre qualquer outra coisa de tamanho / TAMANHO ABSURDO. trata-se apenas de uma MÁQUINA DE ESCREVER & trinta minutos de AÇÃO. é favor não confundir TUDO” Nenna -

jornal O Diário, vitória 1971


“Este trabalho foi produzido para o “I Salão de Alunos e Ex-Alunos do Centro de Artes da Ufes”. Radicalizei. Preenchi a ficha de inscrição do salão com todos os dados inclusive nome da obra: “Inscrição”, as medidas, técnica: xerox, etc... fiz uma cópia e apresentei. Surpresa: apesar do susto me deram o prêmio principal.” Nenna -

depoimento ao projeto TARU, abril 2002

1971

INSCRIÇÃO centro de artes - ufes, es


1970/72

BANDEIRAS e ESPELHOS vit贸ria / rio


“Esta série hoje eu enxergo como um momento muito importante... eram tempos difíceis. Só foi permitida a sua primeira exibição pública - numa mostra coletiva no Centro de Artes da Ufes - após autorização do Exército. Foi uma série grande, com muitos estudos e trabalhos diversos. Em sua forma mais interessante, ela era montada sobre um espelho, que refletia a imagem do ambiente nas áreas vazadas da bandeira criando uma espécie de movimento. Mas no fundo o jogo era mesmo provocativo, num ambiente pós copa do mundo, extremamente repressivo...” Nenna

- depoimento ao projeto TARU, abril 2002


Bandeira [ papel recortado s/ espelho, 22 x 17 cm] col. Hilal Sami Hilal


“A utilização do espelho como fundo para as variações das bandeiras me fizeram perceber que o próprio espelho - independente - poderia assumir a posição de um “quadro” com movimento. .. e assim foi com os espelhos que fizeram parte da mostra Triste Trópico” Nenna - depoimento ao projeto TARU, abril 2002


Bandeira - detalhe [ papel recortado s/ espelho, 44 x 34 cm] col. JosĂŠ Augusto Oliveira


“Nenna é uma das pessoas mais incríveis que transa artes plásticas no Brasil.” Luiz Carlos Maciel - O Pasquim, 1971 “Nenna é uma das poucas pessoas que eu conheço que tem engenho e arte.” Claudio Bueno Rocha - O Diário, 1972 “Nenna é um barato total.” Carmélia Maria de Souza

- O Diário, 1972

“- Você deu uma entrevista para O Diário dizendo que o povo não entendia sua obra. - Eu não dei entrevista. Eles que colocaram que o povo não entendia minha obra e vieram me perguntar e eu não me lembro o que respondi. Talvez as pessoas não sejam culpadas, é a barra da informação mesmo, que não existe aqui. As pessoas não conseguem me fixar numa coisa que elas possam dar crédito totalmente ou deixar de dar, porque é uma coisa nova, é uma coisa minha, não existem coisas diretamente para comparar, não existe uma coisa pré-determinada. Tudo o que eu faço é novo.” Nenna entrevista a Rubinho Gomes - O Diário, 1972 "Nenna é um menino que faz arte. E sempre assim o será” Milson Henriques - O Diário, 1972


meio, midium, MÍDIA / a televisão como MEIO é fantástica. por tudo ou simplesmente pela predisposição natural & curtível entre o olho & o vídeo. / ... / não é do aparelho que pinta o bode. é do seu uso. nenhuma dúvida. / trata-se de um TOQUE / videotape PORTÁTIL descentraliza a informação, diminui-acaba com os ENVOLVIMENTOS PESADOS, possibilitando, no MÍNIMO um trabalho mais livre. /

VT não é

TV / trata-se de um TOQUE / VENDE-SE ESTAÇÃO DE TV SEM CENSURA, é como a AKAI anunciou (dentro de seus esquemas como instituição) os primeiros aparelhos de videotape portáteis à venda no brasil. na américa foi no verão de 68, com a SONY que também já chegou aqui. / você pode gravar QUALQUER coisa, & depois reproduzir usando os receptores normais de televisão. pois é. / o que se pode transar com um vt em cima, não é fácil. & pelo que


me consta, ninguém nos arredores se tocou. AINDA. / ........... / o processo de gravação funciona através de câmera ou outro transmissor, que manda um impulso MAGNÉTICO para uma fita semelhante às de audiotape. por não haver nenhum processamento químico, IMEDIATAMENTE depois de gravar a imagem & som, é só voltar a fita & VER. / trata-se de um TOQUE. / ... / essa MÁQUINA DE ESCREVER me deixa louco. / rapaziada do cinema e vizinhança: procurem se LIGAR vocês que estão sabendo dos bodes de laboratórios, distribuição & máfias. transar um lugar e mostrar uns tapes deixa você mais dentro do seu trabalho. MESMO. / as fitas são reutilizáveis. você simplesmente grava por cima. dependendo dos cuidados no uso, o tape fisicamente pode ser reutilizado mais de cinquenta vezes. na américa variam de $12 à $18 dólares por trinta minutos. & os vts $1.500 mais ou menos. no rio, josias estúdio de ipanema me falou em 18 mil novos. em manaus, nove mil também novos. $$$... / ELES NÃO PODEM ROUBAR SUAS IDÉIAS, IMAGINAÇÃO & depoissssssss... / trata-se de qualquer coisa / responda com sua percepção da realidade, REALISMO FANTÁSTICO, fantasia, amor... Como você gostaria de VISUALIZAR . / é isso & muito mais: VIDEOCASSETE, CABLE TV (importantíssimos), duVIDEOdó, banana, fio da navalha, o cacete a quatro. um beijo ardente...

Nenna - jornal Rolling Stone, rio 1972.


weather report / FM

a party for the gods sane insane .................. the gods are sad tonight.


hot long distance call

new york, summer ’73.


voluptuous sq.

god bless your skin.


subway blues

i dreamed i was in an F train on the way to jamaica alone with 4.000 juke-boxes playing / the only living boy 172nd. street

END

stars are yellow poems in the mind - crossing the air.


insurance co.

the soft sinister (tiao roncador) with helio & joao learning karate

washigton square.


drifting

i can’t stand it 10 p.m. the sun over my head my mind my soul.


perceptible manhattan / VT

tropicana juice .............................. art is a flavor.


harlem sounds

hi honey ! my car is full of portuguese wine full of all pretty nice love ............................... streets streets like films films like miles of smiles milesmiles?


cafe verdi

warm saturday night capuccino / in time will it go round in circles ? (hit) warm saturday night bleecker st. warm saturday night.


subway blues number two - as performed by the soft sinister

what does pollution mean ?


historic delivery / museum of modern art

clack plack enjoy may i use your phone? yes, i know you’re showing duchamp i don’t wanna see yes, he is a big one. photo/graph have you been to brasil ? oh! we have good stuff there.


mingus - at old five spot, now two saints

beer/bass bass/drums drums/trumpet/bass/sax sex bass/piano good music and alcoholic satisfaction.


lonely cowboy

where is my television ? where is the monotonous monster ? where is the green door ? where are mine forgotten poems ?


neon gas

6th. avenue a knife is flying around.


good night


"New York nessa época estava muito interessante. Lá, é que, em longos papos com Helio Oiticica em seu loft na segunda avenida, fiquei realmente conhecendo como funciona o "métier" das artes. Meus sonhos adolescentes se diluíram na realidade mesquinha que o Helio me apresentava. Verdadeiro aprendizado de choque. E com muitas fofocas... e tinha Andy Warhol, reinando na cidade e Lou Reed com o sucesso "Walk On The Wild Side”. O livro foi editado em xerox, com a capa sendo impressa numa minúscula gráfica de rua, especializada em cartões de visita...” Nenna

- depoimento ao projeto TARU, abril 2002


1975

TRISTE TRÓPICO teatro carlos gomes, es

“A mais bem sucedida exposição realizada em Vitória este ano foi encerrada segunda-feira última no Salão Superior do Teatro Carlos Gomes - a única galeria de arte atualmente funcionando em Vitória, na realidade o foyer do TCG, mas que bem serviu aos propósitos do seu autor, Nenna. Houve realmente uma preocupação de fazer uma exposição bem acabada em todos os detalhes, como se pode ver desde o cartaz e o programa da exposição. As 32 gravuras mostravam uma única imagem: uma foto de árvores tropicais trabalhada graficamente num sentido mágico, com um triângulo contendo cinco estrelas, que acabou funcionando como uma espécie de marca da exposição. Impresso em off-set com predominância de um tom verde claro, a idéia global da exposição primou pela sua originalidade - um elemento constante nos melhores trabalhos do artista. Para Nenna, Triste Trópico representa “o resultado mais recente de uma tentativa de desenvolver um design original, representativo de valores estéticos da cultura brasileira.” Arlindo Castro

- A Gazeta, outubro 1975


“Nesta mostra eu tive que me adaptar aos brilhos do foyer do Teatro Carlos Gomes. Construí um ambiente composto de um grande espelho denominado “Paraíso Tropical Perdido / Lost Tropical Paradise”, um “embrulho transparente” de vidro, que posteriormente seria exibido em tamanho maior no MAM do Rio, criando uma introdução para as gravuras repetidas, “parece um supermercado” comentaram na época. Supermercado chic, os espelhos do teatro, os meus. Infelizmente as imagens da mostra estão sumidas...” Nenna

- depoimento ao projeto Taru, abril 2002


1976

MUITO PRAZER museu de arte moderna, rj


“Para alcançar e manter um mínimo de homogeneidade qualitativa no conjunto da mostra Arte Agora I / Brasil, 7075, as minhas indicações de artistas fora do Rio de Janeiro, na área que me coube relatar como membro da Comissão Coordenadora, (além do Rio, o Espírito Santo, Bahia, Sergipe e Alagoas), restringiram-se a três nomes: os do Mario Cravo Neto e Bené Fonteles, em Salvador, e o de Nenna, em Vitória. Todos os três desenvolvem já há algum tempo trabalho que se caracteriza basicamente pela absorção da atualidade, sem o abandono, no entanto, da investigação de particulares que definiram a sua circunstância local. Estão em dia com as linguagens de hoje, e as praticam sem provincianismo, de igual para igual com os seus colegas dos centros ditos hegemônicos da arte brasileira atual. Visitam e habitam com regularidade esses centros, ou até o exterior, mas, como vem acontecendo entre nós felizmente com maior frequência, retornam sempre às cidades-bases, onde tem raízes crescentes de origem ou opção. [...]” Roberto Pontual - Jornal do Brasil, 1976


“Encerrados os trabalhos de seleção dos artistas a serem convidados para participar da mostra Arte Agora I / Brasil 70-75, que será inaugurada no próximo dia 11 de março no Museu de Arte Moderna (MAM do Rio de Janeiro - surge o nome de Nenna como o único escolhido para representar o Espírito Santo nessa importante retrospectiva de âmbito nacional. [...] Nenna, que se repita, é o mais importante artista plástico do Espírito Santo. Nenhum outro conseguiu (até agora) assimilar tendências as mais variadas e apresentar um trabalho tão original e contemporâneo, que por si extrapola e transcende tais tendências. A arte contemporânea, tal como acontece nos grandes centros, não pode e não deve ser subestimada pelo artista da pequena cidade. Importa que ele se familiarize com tais tendências e realizações e saiba juntá-las ao que lhe é familiar e próximo geograficamente, resultando daí uma proposta / obra em condições de potencial universalidade. Nenna faz exatamente isso, consciente e deliberadamente. O que interessa a Nenna é o contemporâneo - aconteça em Conceição da Barra ou Nova Iorque. Não lhe cabe rótulos ou especificações técnicas definitivas. Nestes últimos anos, sua atividade na pequena comunidade da Grande Vitória tem sido de notável importância.


Tem sido definitiva no campo da realização artística, no sentido de ser o principal catalisador das diversas correntes e, acima de tudo, ter assumido (com todos os danos e perdas que aí venham implícitos) sua condição de artista. Ele questiona sempre. Aí reside grande parte da importância de seu trabalho quando considerado como obra-de-arte. [...]” Jairo de Britto

- A Gazeta, janeiro 1976


fotos Carlito Medeiros / jornal A Gazeta


1979

TARU galeria homero massena, es


“Tarde de quarta-feira. Enquanto testava o aparelho de vt, Nenna executava os últimos detalhes da exposição Taru, na Galeria Homero Massena. Essa mostra é uma continuidade das suas propostas anteriores, com uma tentativa de novos meios de comunicação. Uma retrospectiva com novos fins. Não é um trabalho formal de jeito nenhum. Está muito acessível ao crescimento da cidade em termos de artes plásticas. Com toda a sutileza que lhe é peculiar, marcava o áudio e arrumava, da melhor maneira, as peças em várias camadas de vidros, com desenhos vazados e colagens. Um dos aspectos abordados na exposição é o problema latente: Natureza/Desenvolvimento. Nenhum dos trabalhos está à venda porque compõem um sequência inteira que forma um todo ambiental. Um completa o outro. Objetivando meramente a sua amostragem, tudo é muito interessante de ser visto: o video-tape é passado em 4 minutos, com um fundo musical africano, com texto de Carmélia de Souza. Dentro de todo o clima que a atmosfera oferece, encontra-se a palavra ANISTIA em vermelho, numa parede de fundo, dando a sensação de toda uma condição gritante e necessitada. [...]” Glória Cristina

- A Tribuna, abril 1979


“O secretário de Cultura do Pará, Olavo Lira Maia, mandou retirar da exposição que se realiza no Teatro da Paz, em Belém, algumas gravuras do pintor capixaba Nenna, por considerá-las obscenas. A retirada dos quadros apressou o encerramento da mostra de arte, sob alguns protestos dos 22 artistas expositores e do público. [...]” O Globo

- 1979

1979

TROPICASSO “O Tropicasso foi realizado em 79 para implicar com a censura. Tinha sido convidado para uma mostra itinerante que começaria por Brasília e os desenhos eróticos de Picasso estavam proibidos de serem editados no Brasil. O Tropicasso é uma série de três gravuras impressas em off-set, mixando um trabalho meu - Triste Trópico - com desenhos eróticos de Picasso.” Nenna

- entrevista a Carlos Chenier / A Gazeta, novembro de 1981


“Mastro de São Benedito” [ pastel s/ celulose, 41,7 x 64 cm ] col. Museu de Arte do Espírito Santo


1981

NOTURNOS galeria homero massena, es


“Nesta mostra entram desenhos realizados entre setembro e novembro de 1981” diz Nenna, “levo cerca de 40 trabalhos, sendo que 36 desenhos são novos, duas telas são de 1976 e quatro trabalhos são antigos e compreendem o período 72/78” O seu atelier fica situado à rua Moacir Avidos e o apartamento está revirado. Por toda área que se possa andar quadros já emoldurados estão espalhados. No aparelho de som toca uma música em ritmo de bossa nova e o artista interrompe a cada minuto a conversa para atender o telefone. [...] O artista procura se exprimir dando uma importância muito grande às palavras e às sua implicações. Sempre foi assim. Como esteta, Nenna sabe o valor das palavras escritas. “Esta coisa de desenhar vem acontecendo comigo naturalmente. É uma coisa que evolui sem método, são estudos que desenvolvi à procura de uma identidade estética original. E a lua como tema tenho usado desde 1972.” Carlos Chenier -

A Gazeta, novembro 1981


“Nenna tem um jeito simples e refinado de ser. [...] é claro que ele descende de uma tendência que faz do artista o próprio objeto de sua obra, unindo performances à sua vivência. [...] A temática constante da exposição é a lua, em suas diversas fases e daí o tema central ser “Noturnos”. Quando fala sobre sua obra, se é ou não política, Nenna afirma que “ela é política porque é livre. No caso dos desenhos, o político não é de denúncia rasgante, mas sob determinado aspecto é um toque quanto à vida urbana, essa que a gente vive. Porque não tem muita gente olhando para a lua. Aí chega o infarte, a obsessão e tudo o mais. Essa coisa me preocupa. Mas para denúncias mais claras eu usaria outros meios.” Glória Cristina

- A Tribuna, novembro 1981


“Itaúnas” [ pastel s/ celulose, 41,7 x 64 cm ] col. Rosalca Alegro


“Van Gogh� [ pastel s/ celulose, 41,7 x 64 cm ] col. Hilal Sami Hilal


pigmento s/ pele, 1985


PINTURAS CARIOCAS 1982


“Todo este período carioca, do início dos anos 80, foi muito rico. Desde que cheguei a cidade, iniciei os estudos para a série de pinturas que desenvolvi. A bossa nova e o neoconcretismo foram influências diretas. E também os recortes do Matisse. Tenho que escrever sobre isso, registrar, sei lá... porque convivi com muita gente interessante. Tive encontros "mágicos" com, por exemplo, John Cage e Lygia Clark... e tinha a Geração 80, muito careta. Só as festas eram interessantes... Nessa época, eu andava aprontando mais do que o normal, o Paulo Herkenhoff foi de uma gentileza e paciência inacreditáveis... Minha exposição envolvia a Rio Arte e a Galeria Paulo Klabin. Foi uma tarde maravilhosa no Pavilhão Victor Brecheret, no Parque da Catacumba, com um duo de craques [ Luiz Alves, baixo e Zé Carlos, sax ] tocando exclusivamente Tom Jobim. Tendo como cenário a Lagoa Rodrigo de Freitas. Muito chic para um entardecer de primavera. Como eu andava filosofando, principalmente nas cervejas do Parque Laje, sobre a fragilidade da cena do “Geração 80” - principal movimento na época, influenciado pela transvanguarda e pós-modernismo - boa parte do métier esnobou. Mas o provincianismo, pseudo-cosmopolita não fez falta... a festa foi animada.” Nenna

- depoimento ao projeto TARU, abril 2002


Pintura [ acrĂ­lica s/ tela, 195 x 140 cm] col. Paulo Klabin


Pintura [ acrĂ­lica s/ madeira recortada, 160 x 95 cm ] col. Luisah Dantas


Pintura [ acrĂ­lica s/ madeira recortada, 145 x 80 cm ] col. JosĂŠ Augusto Loureiro


VEREDA


VEREDA argumento para um vĂ­deo tape 1985


vermelho. verde quase preto. urucum, jenipapo. rosa. azul. pernas bonitas. a malha, pintura neo-concreta. a dança. a criação do balé. o ensaio. pernas bonitas. bocas. cores. luzes. a dança dos botocudos. o som do fundo da mata recomposto na eletrônica.


a dança. primeira parte a floresta / tchohoon-uruhú onça pintada, maitacas e tucanos beija-flor verde dourado jacarandá, urucum e jenipapo águas claras e limpas caminhos banho de rio a vida.


a dança. segunda parte. a luta / jakiiam o branco invasor a resistência o catolicismo e suas roupas contaminadas de sarampo destruindo belos guerreiros.


a dança. terceira parte o tempo / tarú a lua a eternidade.


a dança. o ensaio. boca pernas e cabelos. a dança. a homenagem aos botocudos. bela nação indígena. trucidada.


amanhã é dia de são sebastião. são sebastião do rio de janeiro.

não vai ter ensaio.


não vai ter ensaio.

eu saio. vou para o espírito santo, percorrer as terras outrora sagradas em que viveram os botocudos. absorver energia no cenário da invasão do extermínio. a história e a dança. o som da floresta recomposto na eletrônica.


aeroporto do galeão. o brilho do sol na fuselagem. close das rodas. pássaro incrível. esse que parece mãe, cheia de gente por dentro. japonês, capixaba, alemão, bahiano... o pássaro desliza na pista. alcança as nuvens.


o rio de janeiro é muito muito bonito. a costa rica deste país búzios guarapari a enseada azul a areia e o mar.


o a a o a

pássaro sobrevoa pista do aeroporto. o aeroporto das goiabeiras. bagagem. aluguel do carro. estrada.

a estrada. paisagens bonitas, tentar descobrir em meio à destruição. a estrada. ainda é cedo. uma cerveja. o carro prefere álcool hidratado. o bar. a cerveja. os motoristas. menina.


a menina. a tentação da beleza, tomando coca-cola. comendo um sanduíche de queijo. linda, queimada de sol boca vermelha quase cor de rosa rosa shocking.

a menina e o seu carro, com o motor derretido. uma carona.


o paraná e suas meninas bonitas. a pele do sol da bahia. bela combinação das possibilidades nacionais. rádio ligado. vento e calor.


na estrada, conversar e conversar beirute, praia, nureyeve, televisão amor angra dos reys, frank sinatra samba e rock n’ roll martha graham caribe, ilhas do sul saturno, baton sexo, drogas e arte.


oásis escondido. longe do asfalto, à sombra das árvores um banho de cachoeira o beijo na boca. a vida acontece, naturalmente. vereda tropicália. depois o asfalto.


na paisagem, os eucaliptos. tão belos no canadá. no espírito santo, símbolo da destruição.


os eucaliptos. mais eucaliptos. tomando o espaço dos jequitibás, dos jacarandás, dos vinháticos, das perobas, do urucum, das pitangas, dos tucanos, das maitacas, dos maracanãs... o deserto nascendo da mata. mata dos botocudos, pojichás. bela nação indígena. trucidada, nos massacres covardes. nas roupas contaminadas de sarampo.


ainda resta uma jaqueira para nos dar sombra, eu e a menina aqui tal qual marlon brando.

o entardecer brinca com as cores.


vermelho. verde quase preto rosa. azul. crepĂşsculo. mais um show da natureza. seguir, dormir em regĂŞncia. da barra do rio doce que se vai por um . a estrada ĂĄfrica. rosa. azul. a estrada sem asfalto. a estrada da poeira.


chegando noturno na vila. luz de lamparina.


a vontade de tomar champagne é substituída por uma cerveja meio quente e uma pura. no botequim, alugar um abrigo. a lua nascendo das águas. iemanjá prateada. uma plataforma transformando a paisagem. petrobrás pranteada.


voltemos à lua. nascendo das águas ao som de joão gilberto. que esta é uma noite muito especial. corpo bonito. beijos na boca.


a lua cheia tarú gipakiú algumas margaridas luz de lamparina cama de esteiras vodka sem gelo, com água de côco carinho amor e luxúria. sexo drogas e arte.


essa menina anda a cada momento mais bonita.


beijos na boca. sorrisos macios, de quem tรก virando gato virando virando virando virando

flor rio mar tudo.


o stereo ligado e inaudível sex/bass sax/piano piano/drums guitar good music and alcoholic satisfaction a noite do amor, fechando o cerco. língua que passeia pelo corpo. línguas que se divertem. calor. quente cor da pele.


dedos deslizam vales e montanhas. a pele dourada. o calor. perfume do amor. as loucuras do prazer, a pele e seus longos caminhos. energia macia e selvagem. delicada e forte.


barulho das ondas do mar. a praia perto. o rio que desagua os anjos tomaram conta da lamparina, a lua rodou o cĂŠu. suor secando na brisa recente. zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz zz z

z

z

z

z


a cor do brilho do sol outra manhã. olho para o lado, fazer amor, com preguiça. impregnado de paixão.


depois... lavar o rosto. quase cair no poço, escovar os dentes, perder o sabonete, no banho gelado. tomar café, fumar um baseado, olhar em volta, passear na praia. depois do farol um foguete esquecido ali por júlio verne. areia e espuma pés descalços.


as pranchas deslizam nas ondas. surfare. as pranchas ficam para trĂĄs. as meninas e os meninos ficam para trĂĄs. paraĂ­so tropical.


que coisa é essa que quer pegar fogo toda hora? quase tara, delicada. seus olhos pedindo carinho. mostrando a alma a alma de bandeja sem derramar. ou derramando sobre a areia. o mar. o beijo molhado. a água. o mar. tesão. amor quase marítimo. netuno. os deuses celebram.


os astronautas se preparam para o carnaval.


voltar à vila. arrumar tudo, não esquecer o baton. tchau cerveja quase quente tchau regência, das tartarugas gigantes, difíceis de se ver. tupiniquim, de misterioso olhar... o carro. a estrada e o sol, esquentando o asfalto. rádio ligado. patrulha rodoviária, a quinhentos metros.


óculos escuros. atravessar o rio doce. território dos botocudos. o rio que está acabando. perdendo as belas florestas de suas margens. perdendo a vida. triste civilização que não cuida de sua terra.


atravessar o rio. chegar a linhares lembrar de joão da santa. joão da santa, quando criança, sabia imitar o canto dos pássaros. joão da santa, quando criança, foi roubado de sua tribo. único sobrevivente, de um massacre.

joão da santa, com nome português, distante das matas, do banho de rio. criado como branco como branco bobo.


o império decretou guerra aos botocudos. aos pais aos avós aos amigos de jo ão da santa. hoje, ele canta e reza pedindo chuva. palhaço de um circo sem lona. das avenidas do cacau enigma da vida. fico triste, vendo o que restou.


vamos diluir a tristeza em duas puras e uma cerveja. quase lĂĄgrimas. joĂŁo da santa. o fim.


de volta à estrada. à lagoa juparanã. beber e comer peixe. filosofar sobre a imbecilidade humana. bombas A joão da santa. o fim.


a lagoa juparanã com suas margens distantes. as meninas nativas assanhadas e sensuais, dançam um samba maroto, no bar. chega uma tchurma, ligada. começa a nevar nos trópicos.


de volta à estrada. o som do fundo da mata recomposto na eletrônica.


o velocímetro marca três dígitos por hora. desacelerar, que a menina quer ir pro sul da bahia, encontrar uma francesa, e fazerem amor entre as palmeiras. muito belo fazer amor entre as palmeiras poderíamos namorar, os três. vive la france.


após a curva, conhecer o porto de são mateus. do rio cricaré. perigos e mistérios, em águas mansas. belo cenário para uma despedida.


apaixonado, o corpo reclamando a distância futura. o céu vai ficando azul e rosa. amor no carro. cerveja suor e lágrimas. a liberdade do vôo. a beleza partindo, naturalmente. não reclamo. apenas, um pouco sufocado, já com saudade. isso é amor. energia misteriosa.


a lua jรก estรก de novo lรก em cima.


a dança continua. a vida continua. brilho e papo. ficar esperto. alugar uma lancha. mandar o carro para conceição da barra. da barra do cricaré. descer o rio. a dança continua. nas águas. descer o rio. de madrugada.


alguns bancos de areia no silĂŞncio, motor deslig . ado pensar na vida. no leito do rio. ainda impregnado do perfume do amor.


pr贸ximo daqui, o chefe pojich谩, guerreiro vakman, botocudo, acreditando na paz descansava em paz. acreditando na paz, foi trucidado. ele e toda a sua tribo.


as terras sagradas, vida de vakman e sua tribo, hoje estão cobertas de eucaliptos. tão belos no canadá. símbolo da destruição capixaba.


periquitos e garças, sobreviventes, anunciam o amanhecer. chegar ao porto da barra. terra firme. pescadores e os frutos do mar. dar um mergulho na praia, andar pelos bares, ver as meninas, café da manhã: cerveja, peixe e cocaína.


conceição da barra é bonita. lenta e suburbana. o farol. a magia do ticumbi. salve são benedito.


ver as dunas de itaúnas. antes de voltar aos ensaios. à dança. homenagem aos botocudos. rio de janeiro. e sentir saudade maior da morena loura do paraná. calor. água de côco.


a vila de itaúnas é simpática. sinuca peixe frito muqueca de lagosta rio de águas vermelhas uma igrejinha poucas casas.


do outro lado do rio, as dunas. debaixo das dunas, uma vila soterrada. o vento nordeste, invadindo o espaรงo, da รกrvores derrubadas, enche tudo de areia.


atravessar o rio. canoa.canoeiro. o caminho no meio do brejo. o sapo. as dunas são bonitas. um pouco de vegetação na areia. o mastro da igreja, aparecendo. periscópio lunar. o pôr-do-sol, a areia ainda quente.


do alto das dunas dá para ver o mar. só não dá para ver os tubarões. à esquerda, lá embaixo, uma casa pequena metade coberta de areia metade coberta de prata do luar. estrelas, areia. vento e vida.


a casa / o ímã. caminhar. a casa / o imã. metade coberta de areia, a prata do luar. entrar observar sentir. deslizar num buraco, como alice. cair num cenário, além de 2001. tenho certeza de não estar alucinando.


tenho quase certeza de não estar alucinando. muita luz neon neon neon telões de vídeo. enormes. terminais de computação. o excesso de luz leva a uma sensação de dimensões infinitas. no meio da luz, vultos,


me assusto com um toque de mão em meu ombro. viro. a lógica termina por se desintegrar. frente a frente, bang bang italiano dirigio por brigite bardot, eu e joão da santa. num dos telões, a dança. rosa. azul. o som do fundo da mata, recomposto na eletrônica.


num outro telão de vídeo, godard e glauber assistem ao passeio de mc candless. o mistério da multiplicação joão da santa em linhares... eu ensaiando... andróides à solta. o som do fundo da mata recomposto na eletrônica.


sônia braga passa por perto. olhares de cumplicidade. vou descansar minha cabeça no corpo dessa morena. vereda tropicålia.

leblon, fevereiro 84


"O texto de Vereda Tropicália, extremamente poético, é também uma séria denúncia social. Densa, porém numa linguagem leve e acessível. Elegante e às vezes reticente, mas na medida exata. E é um argumento para vídeo - nem por isto menos literatura - o primeiro título de Ímã, que pretende continuar assim: buscando as manifestações criativas, talentosas e novas, no sentido lato." Sandra Medeiros

- na orelha do livro

"Este é o segundo livro editado por Nenna, e o primeiro do Estado com tal nível gráfico, deixando de lado o aspecto artesanal comumente empregado.” Amylton de Almeida

- A Gazeta, 1985


incandescente anotações de viagem à amazônia


foto Frans Krajcberg


incandescente

linhares, es - junho 94 (calendário gregoriano) krajcberg pediu para eu refletir sobre a possibilidade de acompanhálo numa viagem ao pantanal e amazônia logo após a copa do mundo. é época das queimadas e ele vai aproveitar para documentar em vídeo e fotos e ainda recolher madeira calcinada para a exposição que irá realizar em paris, no musée de la villete, no final de 96. durante o almoço ( uma ótima moqueca de robalo) ele comenta sobre os problemas da fundação e sua insatisfação com idivarci. conversamos sobre religião e proliferação de igrejas e seitas. julho, 7 - barra do jucu, es - ontem falei com K, que está no rio de janeiro. marcamos encontro na próxima segunda em vitória. acabei de sair de uma pequena e intensa temporada no inferno que quase me coloca fora dessa viagem. julho, 12 - b. jucu. - hoje estive em linhares para levar K. ele disse que mandou fechar a fundação. disse que idivarci está enraivecido comigo e que é para eu ficar de fora e preparar a viagem. ele gostou da idéia deste diário .


agosto, 2 - s. paulo - faço 43 anos. a bea me ligou, vai filmar dia 24. ontem falei com K que chega aqui no fim de semana. instituto cultural itaú. estive com ademir assunpção que vai para belém manaus fazer matéria para a marie claire. bebemos muita cerveja ontem. tenho que comprar as botas de borracha e fitas para gravar alguns cds da bela coleção da regina em seu muito belo apartamento. ferveção outra vez. az70 e massivo foi na sexta-feira. pra que servem as artes plásticas? agosto, 14 domingo - posto da mata - ba - um belo tumulto foram os últimos dias. estou esperando K no trevo, pois perdi o ônibus anteontem e já estaremos na estrada. chato não ter ajudado na arrumação da caminhonete, como tinha sido combinado. ontem passei um belíssimo dia com bea em linhares, com direito a banho de riacho e sauna. rewind: em sampa a festa continuou. rodin e regina. no domingo fomos ao spot, restaurante interessante. eu, re, edu e joão pedrosa. falamos de K, que o joão conheceu, falamos de h.o., as lygias, leonilson, etc... bom papo e ótima comida. antes, no sábado dia 6 de agosto encontrei com K na sede do itaú. sede imponente. as esculturas do K vão ficar num espaço que tem uma cachoeira artificial. é um conjunto de “mangue”. começou a chuviscar. está meio frio. joel barcelos em foto bonita no jornal da tarde de sp. anunciando retrospectiva de gianni amico,


com presença de bertolucci. muito eucalipto. bahia sul aracruz celulose cheiro horrível na viagem ontem. máscaras de proteção seriam necessárias. K acabou de chegar. as dívidas ficam para trás e a estrada continua. agosto, ainda 14 - são gonçalo do rio abaixo - montanhas entre nanuque e teófilo otoni, que K diz que parecem vindas de outros planetas. belíssimas. tivemos nosso batismo de fogo com o aparecimento das primeiras queimadas. valadares é um horror arquitetônico. poluição, cenibra, eucalipto, ipatinga, cel. fabriciano. belo rio doce. primeiro toque de k: “cuidado com nós e o carro. vamos para uma área violenta. se tentarem parar, eu passo por cima”. K diz que deixou carta com zé do mato oficializando o seu desejo de fechar a fundação. agosto 15, - nova serrana - mg. - estou escrevendo com a caneta de K. além de duro, esqueci a caneta. dormimos em pará de minas, bem frio. a carroceria da caminhonete é muito confortável. rock x música caipira. os ipês amarelos fazem a festa na paisagem. vamos em direção a araxá.


acabaram-se as curvas. a paisagem vai mudando e os ipês-amarelos continuam a exibir seu esplendor em meio as montanhas de cupins da terra. o som na caminhonete está sempre muito alto coloco uma fita com as bachianas do villa lobos. a estrada, a paisagem e o som do villa. a trilha ideal. k conheceu villa em paris na década de 50. “adoro essa música. se integra a paisagem” tudo muito bem cuidado nesta região de araxá. depois de uberlândia o asfalto piora. na lanchonete, a cozinheira pegou o copo, bebeu água, jogou o resto fora e guardou como limpo! a estrada é uma reta só, até uberlândia. é muita extensão de terra e uma estrada em direção ao sol poente. vermelho púrpura e amarelo e ouvimos yves montand gritando contra a guerra. crepúsculo e a estrada que continua onde existiu uma floresta. K esteve com montand umas três vezes, e achou uma simpatia. um dia filmando perto de seu atelier, em paris, ele apareceu e almoçaram juntos. crepúsculo em goiás. agosto, 16 - são simão - go. - o dia amanhece. outra vez colorindo de


vermelho púrpura e amarelo. rosa. “ o brasil devia mudar nome. não tem nem mais pau-brasil. o mesmo com mato-grosso, não tem mais nem fino nem grosso.” ao entrar em goiás os espaços parecem mais amplos, as distâncias se prolongam e o asfalto é péssimo e impede que o motorista curta a paisagem. mas a destruição consegue ser visualmente bela, com as árvores dispersas no pasto como uma grande exposição. montand volta ao tape. sem caneta, sem dinheiro e gravador sem pilha. que fracasso... ondulação transversal é como chamam quebra molas em naveslândia. K sente a todo momento necessidade espiritual de demonstrar com veemência sua revolta. emas na estrada. fotos do vale entre alto das garças e galiléia. serra da petrovina. impressionante a serra da petrovina. algo de arrepiar com sua beleza monumental e silenciosa. reclamar das montanhas que estão cercadas. a soja escoando. próximo a cuiabá, serra de são vicente, a estrada é bonita e retornam as montanhas. belíssimo entardecer chegando em cuiabá. pássaros compõem com um sol vermelho de fumaça. sol em degradée vermelho/amarelo. efeito


colateral, belíssimo, da queimada. me diverti pilotando a d20 hoje à tarde. cuiabá/cáceres, 17 agosto quarta. - aqui começa o nosso brasil. fomos parados três vezes por policiais. preocupação maior com roubo de carros, armas e drogas. até então ninguém tinha nos parado, apesar do 38 bem escondido do K. acordei na diagonal. cortei a cabeça com um parafuso assassino na caminhonete, sangrou legal, mas K já tinha sofrido o mesmo acidente. mandou eu colocar álcool e esquecer. ok. o policial, na última parada nos alertou dos perigos, principalmente à noite... em seguida, errei pela primeira vez o caminho e fomos parar em jangada à 67kmx2=124km. finalmente fiz um zazen cibernético + café e acordei ou melhor reacordei ótimo. gravamos alguns depoimentos. agora ouvimos hermeto e vemos belas montanhas com raios de sol ao fundo. estamos no final do pantanal. rio paraguai. muita vida, muitos pássaros. gostaria de ter conhecido cuiabá, cáceres, etc... mas sempre passamos pela periferia. a onda de K é exclusivamente mato, floresta. nos banheiros do posto de gasolina “ele” é adão “ela” é eva. cheiro de fumaça impregnando o ar. quando se vê um pouco de mata é só uma faixa para enganar quem passa por perto nas estradas. vilhena, ro. 18 ago 95 - o dia hoje amanheceu em alto astral. estávamos na estrada e gravamos bons depoimentos. ontem a chegada em vilhena foi tranqüila. cada vez mais fico indignado quando comparo a vegetação original e a desgraça que estão


montando aqui. é muita burrice. os discursos de k são extremamente reais. e se ampliam quando você está por aqui. estão jogando fora, por ganância, um universo espetacular. na vida urbana, rede globo, de novelas, você não consegue perceber a dimensão do desastre, fica tudo camuflado. o sol nasceu lindo, envolto em fumaça. na segunda saída para fotografar, k é impedido mais uma vez de se aproximar devido às cercas. é cerca pra todo lado. a floresta está aprisionada. é revoltante. ele fala e o rosto fica vermelho de tanta indignação. ele próprio não entende como volta para ver o massacre “já jurei que não volto”. em pimenta bueno muitas serrarias vindas do es. e sul da bahia. rio poluído. lixo. hospitais para doenças respiratórias. policiais. como saber que são mesmo? e se forem bandidos? no posto não tem ninguém. cacoal tem um comércio grande. na entrada de vilhena a vacina contra febre amarela não é mais obrigatória. K não perde a deixa: “com tanta queimada os mosquitos devem ter sumido.” febre amarela não tem cura. vilhena x jiparaná não tem graça, nenhuma floresta. parece sul da bahia. tudo destruído. passamos ji-paraná e as toras são bem grossas. caminhões para carregar apenas uma tora. o excesso de calor. as vistas ardem com a fumaça. chegando em porto velho vemos uma grande queimada,


nuvens de fumaça enormes no céu. divertida picada de abelhas comendo tucunaré. gente defumada... pôr- do-sol com villa lobos. abunã, 19 ago - ontem dormimos num posto em mutum parací. cerveja (2), cachaça + garota linda com macaquinho. lua. ambiente meio mágico. atravessamos o rio madeira e ficamos a poucos metros da bolívia. e o fogo continua. as cidades parecem do farwest. rio branco, acre, 20 agosto - acordei numa chácara próxima à cidade, com o barulho das motosserras antes do amanhecer. somos hóspedes, de um agenciador de madeiras. adventista. desde ontem ao pôr-do-sol ele se dedica a deus. quando chegamos ontem, eu pensava que ainda era quinta feira, não sei em qual momento eu me confundi. acabei não ligando para os meus dois amores que aniversariavam, conforme o prometido. só à noite liguei pra bea que ficou feliz. não consegui falar com juju... K anda muito feliz e indignado. o kleber, nosso anfitrião com os filhos bruno e marília e a esposa prepararam uma queimada para que possamos documentar todo o ciclo. sucos de cajú e maracujá, pão e bolos caseiros. K saiu para fotos sozinho pela primeira vez. me mandou dormir. kleber me disse que nessa época, quando chove (muito raro), a água vem com cinzas.


à pouco, antes do almoço o kleber e família estavam na igreja. K dormia e eu escutava músicas na caminhonete vigiando a casa pelo retrovisor. chegaram duas meninas vestidas modelito maranata e bateram palmas acordando K que ficou na janela conversando com elas. demorou uns 30 minutos. K ficava na janela com um sol inconveniente para a sua pele, enquanto a menina lia trechos da bíblia e tentava convencê-lo com suas crenças. tive muita vontade de fotografar - era uma bela cena - mas não quis perturbar pois minha leica estava dentro da casa. esperei elas saírem e fui estar com K. O folheto que deixaram tinha o título de “A Vida num Pacífico MUNDO NOVO” copyright: watch tower bible and tract society of pennsylvania e sociedade torre de vigia de bíblias e tratados. onde tem o melhor e a maior quantidade de mogno no mundo é o acre. de coloração vermelha. diz o kleber . rio branco, ac - 21 agosto - domingo. - acordamos e fomos até a derrubada que vai ser incendiada na terça-feira. K sugeriu um andaime pra gente gravar e fotografar de cima. bolamos algumas saídas de emergência pois o incêndio é extremamente perigoso. foram poucas as peças escolhidas por K. na volta delicioso suco de carambola. é bastante difícil andar numa derrubada. parece um campo de guerra esperando a solução final. é inacreditável como K já está querendo, com muito bom humor é claro, mandar nas idéias do anfitrião. já quer mudar a casa, a filosofia, tudo... é hilário e positivo.


lembramos que os problemas de nova viçosa e da fundação não resistiram nem 50 km. foi tudo esquecido. K diz que quer fazer o livro comigo. hoje ao entardecer, enquanto tomava banho, escutei o kleber e família cantando músicas do “cantai ao senhor” da igreja adventista do sétimo dia. demorei o mais que pude e quando me dirigia ao quarto, passei pela sala e o kleber falou que eles, inclusive K, me esperariam colocar uma camisa para participar dos agradecimento por mais um dia. demorei mais um pouco e voltei para a sala. K estava tranqüilo e meio sorridente. no início da 2a. música , a míriam, que mora com eles - meio empregada, meio filha - me passou o livro, eu fiquei lendo mais não cantei. na terceira o K - não sei se de sacanagem - falou pra eu cantar. só no final balbuciei algumas palavras. ao final foi feita uma oração pelo kleber, que nos convidou a ajoelhar. K primeiro e eu em seguida, muito a contragosto, ajoelhamos. quase ri com a cena, mas me segurei em respeito. uma grande queimada próxima ameaça incendiar a derrubada que iremos documentar. e ainda K está puto pois é a primeira lua cheia que ele vê em sua vida:

“vermelha, da cor de sangue”. no fantástico que estamos assistindo, um índio lança um livro em s.paulo. elogiamos os textos e o índio txucarramãe. vamos tentar documentar com imagens noturnas o que poderá acontecer com o incêndio que está próximo. mas meu radar - meio paranóico - identifica um clima estranho no ar. lua cheia?...


rio branco, ac 22 ago - mais uma vez acordo com som de moto-serra. K saiu de madrugada e voltou agora. também reclama do barulho da moto-serra. é a trilha sonora da região. fui até rio branco, pela primeira vez sozinho. passei pela praça central, comprei postais (rebecca, juju, bea, regina... ). na campanha eleitoral do candidato a governador oleir tinha um barbeiro e um enfermeiro tirando pressão na rua, grátis, e quase em frente ao palácio do governo. também festa de crianças na praça com índios estilizados tipo americanos!!! e pernas-de-pau. no café do ponto, tomei expresso e fumei umas cigarrilhas palomitas. chegando K + 2 palmas sacupema = catana. estão ficando com formas incríveis, numa ele vai colocar pedrinhas de minas na frente e pintar de preto atrás. o operador da moto-serra - chico - é esperto. rio branco, ac 23 ago - mais uma vez acordado pelo barulho da motoserra. hoje acabei ligando uma. fizemos um andaime. terçado = facão. foi o primeiro contato real com uma queimada. fiz boas fotos, espero que tenha acertado a luz, pois estou fazendo no olho, sem fotômetro. nos jornais da semana passada, a gazeta fala de possibilidades de violência em xapurí. o popular empate entre posseiros e seringueiros. iremos visitar a terra de chico mendes que não é bem falado por aqui. as imagens em vídeo de K estão boas. penso em realizar 3 trabalhos em s.paulo, idéias apenas, mis, avenida paulista, memorial. ontem a tv globo, no jornal, numa matéria grande, falou sobre o fogo no brasil: são 32.000 focos de incêndio detectados por satélites!!!


estamos no meio deste parayzoynferno. resolvi aproveitar as cinzas para trabalhos. K está reclamando que o xixi está vermelho. a globo diz que desde 91 os incêndios têm diminuído. é noite. estou só. K + família do kleber foram a rio branco consultar um médico. espero não ser nada sério. escuto arrested, guru, mc solaar. rio branco, 24 ago - K não achou médico ontem, vai hoje à tarde. está fotografando e eu recolhi as primeiras cinzas. vou fazer um objeto em vidro contendo as cinzas. amazônicas. o tema único de K, a natureza, começa a me encher o saco, um pouco. mas é a obsessão do K. estamos aí. morro de rir, chapado, com esses insetos helicópteros. que param no ar e ficam me encarando. tomamos muito líquido. ruanda na tv direto. a desgraça longeperto. K não parece bem. voltou da queimada e deitou na rede. começo a me preocupar de verdade. enfim só. again. isto parece uma armadilha de tanta fumaça, o sol já está vermelho, parece que a qualquer momento o fogo vai chegar e torrar a gente. fazer carvão. é o máximo até agora. ontem o aeroporto de rio branco fechou. K vai ter que ir a são paulo. espero que não, mas estou preocupado... ficar só, alguns momentos, é muito importante, longe dos adventistas e mesmo de K. pena a situação. K foi ao médico que ontem eles não encontraram. o boiadeiro gledson passa para organizar o curral. rio branco, 25 ago - milagre. hoje não teve moto-serra. de madrugada. acordei e iniciei um poema “quarta feira de cinzas”, continuação de vereda tropicália. acordei, dei bom dia ao K que já


estava acordado. não me respondeu. talvez não tenha escutado, mas logo após lavar o rosto perguntei se iria precisar de mim. resmungou que eu não estou me interessando por nada - tudo dito com calma - e que só penso no meu trabalho. não entendi! então prefiro ir a rio branco. preciso pensar numa solução de emergência se o relacionamento deteriorar. enfim, meus interesses vão além da natureza. mas prefiro não arrumar encrenca. je suis comme je suis. o som da moto-serra começou. purosauro é jacaré gigante daqui de rio branco no jornal nacional por marcos losekan. hoje foi um dia maravilhoso. acabei indo a rio branco. foi a melhor decisão. quando voltei, K estava atencioso. percebeu que eu não gostei do papo. tomei um belo café ( hoje o kleber extrapolou. ele acha que café contém cocaína) no café do ponto. tem uma funcionária bonita. li os jornais e descobri que a primeira dama do estado se chama toinha magalhães, que em xapuri a barra está pesada com um capitão da pm troglodita. chegaram três playboys (um japa) com celular em exibição. inauguraram ontem o serviço. no jornal notícia de um lavrador massacrado por uma tora de madeira numa derrubada. os hospitais estão lotados de crianças com problemas respiratórios: é o inferno. tudo fumaça e o aeroporto fechado. saí a passear fumando uma palomitas. tomei uma cerpa. a primeira cerveja da semana e fui para o porto. tem uma embarcação que é meio surrealista, pois está bem acima do nível do rio, numa espécie de morro nas margens. eles amarram na cheia para consertar na seca. passei num mercado chocante, comércio louco, bêbados, putas, barbearia, bilhar,


restaurantes... um belo lugar para ensaio fotográfico. estou me sentindo mais livre e perto do porto onde passei por uma madeira quase quebrando num precipício próximo ao rio. é a parte mais interessante da cidade com seus negócios e bêbados caídos no chão. hippies persistentes estão na praça principal vendendo suas bugigangas. foi emocionante o passeio pelo porto. K dificilmente iria lá. o calor é infernal, as pernas das estudantes são lindas e meu projeto emergencial já inclui uma ida a porto velho e 1 semana com piscina em brasília. creio que começou a caravana holliday 2 o termômetro do relógio da praça principal marca 93 graus. deve estar certo! 26 ago rio branco - o comércio está fechado. as meninas estudantes estão na praça plácido. fico na dúvida se o uniforme do batalhão de floresta, do exército, é eficiente. o modelito é simpático. principalmente o chapéu! marquei para 16:30 com o renato da nieta. estou de saco cheio, esperando o café do ponto abrir. são 12:58 no relógio da praça. as ruas da praça tem nome. a do relógio é rua do relógio! manchete do jornal: “osmarino amâncio quer empate em xapuri “. 28 agosto - estou no ônibus e já pulei a roleta pois falta troco e quase falta ônibus. estou feliz. a linha é sta. maria via vila acre, os personagens são demais. uma bela índia, linda sob uma bermuda jeans e um top de rendas pretas e ainda um velho negro bêbado que deixa cair o isqueiro , a carteira, e a sandália havaina do pé esquerdo. falta gasolina há três dias em rio branco.


K negocia com kleber$$$. muita conversa. K me cobrou que amanhã devo recolher as formas de barro. temor a deus! ouvi agora. é incrível como K tem paciência de explicar todo o óbvio sobre crianças, contra a limitação da educação adventista. “você deve dar outras leituras além da religião, etc... outra vez a frase repetida me assusta: temor a deus. ufa! rio branco ac, 26 ago - saí cedo com K para gravar, fotografar. estou de saco cheio de queimadas. 50% das fotos que bato são por insistência de K. ele acha que o entendimento com kleber$$$ vai ser difícil. o kleber está pedindo quase o dobro do que foi combinado em nova viçosa. quero ir para rio branco tomar cerveja. e café. ainda não comemos um bom peixe. tambaquí ou tucunaré. tento trabalhar no poema. estou de saco cheio. não é nem tédio. rio branco, ac 27 ago. - o dia vai amanhecer. K saiu e eu não consigo dormir. ontem foi demais. falei com juju e depois com rebecca, que não me deu muita bola, pois estava ligada numa festa de aniversário e só reclamou que eu estava viajando ainda. o encontro com o renato, da nieta, me levantou muito o astral. primeiro na CPI. os índios do acre estão sem graves problemas, terras ok, educação, etc.. tem $ da noruega. conheci a vera, que coordena alguma coisa, talvez educação. vi algumas fotos e depois tomamos cervejas num lugar simples, com estilo e bem simpático. conversamos sobre K, bea,


possibilidades de produções. me falou muito sobre ayhuasca. que os hinários são em português até mesmo na bolivia, frança e japão. das “fardas que parecem escolas de samba” o cipó como religião da natureza. tenho que tomar! vou dar um jeito de saber das tais mirações. se K topar, voltamos a nos encontrar hoje e iremos a um sítio da CPI. caso contrário na segunda volto lá. esperando o ônibus na plácido de castro, reparei que a cidade é alegre e sensual com meninas bonitas e meio assanhadas. acordar e ouvir o arrested é programar um dia feliz. só que não foi. já dancei um pouco no campo sozinho. mas estou me sentindo num campo de concentração. só não vou embora porque é muita sacanagem com K. pode lhe criar problemas e deteriorar nossa amizade. tô num estado em que um bom dia soa atravessado. rio branco, 28 ago - domingo. ufa. finalmente dormi profundamente. ótimo. ontem foi o seguinte: resolvi ir a cidade aproveitando uma carona para ligar e conversar com amigos e o K reclamou que eu tava telefonando muito, etc... E mandou eu pegar um ônibus e “ir até lá”. tentou consertar dizendo para eu ir e voltar. foi o suficiente. não mais falei com ele. telefonei para juju e ivan que me deram a maior força, etc. estou no extremo oeste do brasil. quase 5.000 km, sem um tostão no bolso. e feliz. espero o kleber, para conversar e esclarecer algumas coisas. depois vou a cidade para tentar descolar uma passagem aérea até brasília. ao mesmo tempo gostaria de iniciar a caravana hollyday 2. mas vou precisar de dinheiro. vamos ver. vila acre, ac 29 ago - ontem deu pra ferver legal. não dá nem pra


entender as últimas anotações da agenda. foram cinco cachaças com jucá + cerveja. comi um ótimo pirarucu, feito como bacalhau, cebola batatas. de qualquer maneira tenho que me mandar amanhã. não está confortável dormir no mesmo quarto do K, sem falar com ele. soube agora que o K piorou um pouco ontem a noite. chegaram a procurar um médico mas não acharam. estou preocupado mas posso fazer muito pouco. insisto que ele deveria ir para são paulo, para ser cuidado com melhores recursos. Estive na cidade, café. juju me mandou uma graninha de sua poupança. K vai me emprestar U$ 100 intermediados pelo kleber. quase conversamos durante o almoço. eu o respeito e a admiração continua intacta. foi o que disse para o kleber, que tem sido superficialmente legal comigo. vou jantar com renato no queimadão. comecei a alucinar a pouco. penso em descer o rio madeira até o amazonas e subir para manaus!!!!!!!! saindo de porto velho. vou saber do renato se dá para ir à bolívia tomar uma paceña. 29 ago agenda - a bandeira do acre é bonita. à tarde, sorvete no café do ponto. dei um passeio pela beira do rio. balsa/restaurante meio elegante. um mecânico conserta lancha e canta a música do candidato a governador flaviano, pmdb, mudando para flaviado. o mercado é muito interessante. falei por telefone com pacheco e ele me pega na rodoviária em porto velho. acho que vou mesmo para manaus. 30 terça - hospital. K viaja amanhã. estou na rodoviária. cansei de me preocupar com o mundo. agora o mundo que se preocupe comigo. dance sound. putas. gente barriguda sem camisa. caninha 61 , a mais popular, segundo o dono do boteco. o hotel porto alegre é imundo. a roupa de cama é limpa e não tem janela. porteiro cheirando a cachaça


braba. s/ chave e banheiro que era melhor não ter. sempre, ou quase, no meio da imundície tem uma princesa. marvin gaye “ohh i’m listening you, the way you make me feel inside”. gente batalhando. pela vida. a rádio líder fm, de são paulo fala que é 11:04 via satélite. aqui 9:04 da noite. tô ficando doidão, chega de escrever. costume de refrigerante no plástico é hilário. um saco plástico substitui o copo para colocar o líquido e depois... o canudo resolve o resto. música “te amo, te adoro, te detesto”. na lama do faroeste polícia civil prende alguém e solta em seguida. as pessoas comentam que é um traficante conhecido. eles estavam num jeep engesa, os civis. paquero uma puta, que ri. 31 agosto, cobija, bolívia. lembranças do dia 30: ontem K passou mal à noite e tive que acabar com as ceninhas. levamos ele ao hospital. muita dor e uma pequena cirurgia. fizemos as pazes e almoçamos num japa matsuo. playboys barulhentos com celulares ostensivos, hashi. comida boa. K vai para o rio amanhã. talvez tenham roubado dinheiro (100 R + ou -) do K durante a cirurgia. tomei tacacá: goma e caldo de aipim, folha verde, camarão seco. no começo não gostei, fui me acostumando, os lábios e boca ficam um pouco dormentes, e tomei tudo. enorme. legal. aqui em cobija os veículos são todos japoneses: nissan, mitsubishi, toyota,... “paceña éz cerveza”, tem ventilador no meu quarto. No comércio muitos eletrônicos e perfumes franceses baratos, zona franca. o câmbio varia em cada esquina. média 1 x 4. estou misturando o texto lembrança com o de agora... 31 agosto, miércoles, cobija, capital do distrito de pando brasiléia. catraeiros atravessam o rio. curei o porre no ônibus. cobija é simpática. é hora de almoço e a cidade está vazia. curo a ressaca com


uma paceña. vou ter que economizar para comprar um filme e pelo menos vou diminuir a barriga, sem os banquetes adventistas. buenas tardes. quase perdi o ônibus na saída de rio branco. na espelunca ninguém me acordou conforme o combinado com o porteiro que tomava cerveja na hora que saí. 6:05, porque dei sorte de ser acordado por alguém que falava alto no corredor e disse as horas. la siesta, mui lerda. ontem vi com o renato uma foto de uma bela índia. comentei que breve teremos uma delas nas passarelas de paris. já que a indústria da moda, cosméticos (uruku) e moda (eco mercado), já estão com raízes aqui. a vera tinha recebido visita da sócia do eco mercado, que trabalha com couro vegetal. os táxis de cobija são em motos. tomei um suco de cupuaçú ótimo (1 boliviano) en lo “refrescos de frutas naturales”. experimentei açaí com os adventistas mas estava meio passado. tem que ser feito na hora. suco de tamarindo no mercado. bonito o balé dos panos abanando as moscas. en el crepúsculo yo tomo una paceña pilsener tropical extra! sinais brasilenõs: quatro garotos voltando do futebol com bola, meião, chuteiras etc... um deles usa um boné do flamengo. e agora no bar da esquina na praça principal a música é “ai que calor ô, ô, ô, ai que calor ô, ô, ô...” me recuerdo que K no gustó que yo critiquei lo manifiesto do restany. já li duas vezes e o acho confuso. vou desenvolver este tema. finalmente vejo uma estrela no céu. menos fumaça? muy caliente la noche. és la selva, no el altiplano. los periódicos noticiam “la marcha de cocaleros” contra proibição do cultivo de coca. encrenca grande que envolve governo e igreja. K deve estar chegando ao rio. espero que tenha feito uma viagem tranqüila. vejo la TVB - television boliviana. cochabamba e la repression policial.


central obrera. movimiento contra lo gobierno. enfrentamientos. region de chapare, evo morales, enquanto o ira declara suspensão de atividades terroristas. chegaram dois bolivianos e mudaram para a tv globo. são paulo x velez. final da libertadores. no intervalo dou um pulo até a praça e o banco sur está aberto. não entendi. são 22:20 hora local. tem cheiro de queimada no ar, mas ainda dá para ver estrelas... sp perde nos pênaltis. fogos na bolívia. vou dormir. 1 setembro, juéves, cobija. - acordei ótimo. o dono da residential elogiou o meu espanhol medíocre. tomo café mais ovos (ofereceram carne). resolvi dar um tempo na bebida para evitar encrencas econômicas e emocionais. são três horas de diferença de vitória. vou telefonar. estou agora em brasiléia e me confundo com os fusos horários. tenho que esperar + 2 horas para ligar pra juju. cobija, apesar do grande aparato de fronteira da armada boliviana, é mais tranqüila. senti uma sensação estranha de duelo faroestiano quando, com minha imunda camiseta do mosteiro zen, no meio da poeira veio em minha direção um homem com um revólver na cintura, ostensivo, sem mesmo cartucheira. tremi quando li em sua camiseta as palavras guerreiros de cristo para ele decidir que eu e minha humilde camiseta zen, que já tinha criado alguma intolerância com os adventistas, era coisa do demo


faltou pouco. foi o que senti. também a camiseta do ticumbí de são benedito, incomodou. em brasiléia continuam os vendedores de fitas piratas em suas caixas de madeira. c/ cerca de 100 fitas cada, capas impressas por tipografia com apenas o nome da fita e do cantor/conjunto, sem ilustrações. não esquecem do “disco é cultura”. la guapa hija del dono de la residencial hablou comigo para me entregar a leica que eu tinha guardado na portaria. demais. muy guapa. comprei uma película kodak. cobija. como e converso com o índio boliviano 2 saltenas e suco pocochicho, pelo menos foi o que eu entendi. tem cor de coca cola e sabor de cravo, no fundo um coquinho que se come a polpa. cor marrom. a residencial frontera, vejo o jornal hoje. com ricúpero abrindo importações. juju não tinha chegado até 10:40 h local. quando atravessei o rio, os policiais da armada tomavam banho de rio. sabedoria nos telhados: zinco por baixo, palha por cima. o cine “9 de febrero” está fechado, e em seu lugar está o banco sur. o meu companheiro de quarto, um senhor simpático que chegou de la paz de ônibus, três dias de viagem tem um raciocínio político muito bom. fala de tecnologia de ponta, arquitetura, parece-me um K boliviano. atravessar o rio de noite foi genial, com o barulho da floresta por perto. o catraeiro pediu para eu voltar antes das nove que ele está cansado. o normal é dez. na lanchonete/hotel do orelhão, além do retrato de che (o célebre endurecer) tem um pensamento de gandhi “ a verdade


deve manifestar-se/em nossos pensamentos/em nossas palavras/ e em nossas ações”. 2 setiembro, rio acre. - estou na catraca “perla del acre” atravessando o rio acre. calor infernal, como única vantagem as pernas das meninas de shortinho. tomo um suco de maracujá enquanto espero as horas passarem para pegar o ônibus. minha saída de cobija poderia ter sido complicada se eu, apesar de deficiente fisicamente, não estivesse tranqüilo. sumiu o equivalente a 320 dólares do meu companheiro de quarto. ele já tinha deixado um vistoso relógio de ouro sobre suas bagagens, e deixado a porta aberta. tinha me preocupado, mas ele parecia um habitué da residencial. enfim fiquei meia hora dando atenção à procura do dinheiro (ele duvidava dos funcionários e camareira), e fui embora sem me questionarem. o horário de cobija é o mesmo de rondônia para onde estou indo. uma hora + tarde que no acre. vejo tv colosso e ouço jazzmatazz, pois a grana deu para comprar alcalinas. uns velhinhos tomam uma antárctica e eu morro de inveja. são dez horas e a rua está insuportável de calor. e falta de vento. tudo muito abafado. volto para o bar da amizade e fico na varanda vendo o rio. ontem lavei a camiseta e as meias para melhorar o astral. na prateleira vodka bakunin e vinho dom bosco. que combinação... tem uma maneira gozada de uns caras bêbados entrarem no bar e cumprimentarem todo mundo, um a um, apertando a mão. fica difícil se alimentar direito por aqui. é tudo só carne imunda, etc... da minha cadeira consigo enxergar as horas em três relógios diferentes: 10:30 /


11:15 / 10:45 ??? o mais confiável é o do dono do bar que diz ser 11:10 lerdando no banco na beira do rio, canoas passando, arrested developement, duas meninas bonitas de epitaciolândia, puxam conversa e se mandam. 12:40 tenho que ir. bye bye cobija, brasiléia... é inacreditável: chove na saída do ônibus. trovoadas, espero não atolar na estrada de barro! meu vizinho de cadeira informa que ontem simplesmente não teve ônibus. estava quebrado. ele é do ceará... e talvez volte. é pedreiro e tem um rádio com luzes piscantes bem psicodélicobrega. tem um amigo de cachoeiro que canta igual roberto carlos. o ônibus está virando um enlatado de caboclos, mulheres, crianças, sacos... mais gente que na vinda. venta muito. é bonito a ventania. nosso ônibus é o 820, encontramos o 830 quebrado. entram todos, mas já tinham saído muitos. volta a encher. ainda bem que não faz calor: vento e chuva. espero chegar em rio branco a tempo. o pessoal da “princezinha” (xapurí) é macho!! armaram um empate no entroncamento, com cumplicidade do fiscal e obrigaram o ônibus de rio branco a entrar em xapurí. a estrada está uma lama só. as casas são muito bonitas e coloridas, algumas bem pintadas. senta um senhor de olhos verdes e muito chato ao meu lado. ignoro-o. o ônibus virou uma encrenca com discussões leves e reclamações. viva xico mendes. a discussão continua sem o pessoal de xapuri. no asfalto o mesmo balé perigoso da lama. agora são os buracos. fuma mustang, passamos no município de capixaba. relâmpagos. fomos parados na barrreira a + ou - 20 km de rio branco. correria danada para não perder o ônibus. Vou no escuro, abusando da sorte. não tem outro jeito. 3 setembro, porto velho, ro. - sábado. ninguém me espera em


porto velho. tenho 4,40 reais e o tel do ivan só dá ocupado. são 6:30. tem uma coisa engraçada (?) que é quando eu saio de uma crise física e/ou emocional, quase sempre juntas, fico fervendo de idéias e dívidas. à pouco dei uma relaxada, pois o alto madeira é um jornal diário, o que significa que pacheco trabalha hoje. se ele não aparecer, ligarei às 9 para o jornal. o ímpeto da raiva está muito presente neste povo sofrido, sempre discutindo entre eles, e agressivos. algumas vezes com muito humor... não sei. agora tenho apenas 2 reais e já fui abordado por duas pessoas com fome. um bem vestido, uns 18 anos, que chegou ontem e se desencontrou de amigos. outro mais pobre. falei com pacheco, estou indo de táxi. a sorte (toc,toc,toc) está do meu lado. ia pegar um ônibus e pedi informações aos motoristas de táxi. um que estava ouvindo disse que estava indo para casa e que me levaria pois era o mesmo bairro. falei que só tinha 2 reais. tudo bem. no carro descobrimos que ele era vizinho do pacheco e que eu só tinha na verdade 1,50 reais!! sou otimamente recebido pela esposa do pacheco, e agora rola um jazz trio (bill evans?) muito bom no som. converso amenidades, tomo um super café. banho e durmo, acordo, durmo, até 14:30. me esperaram para servir o almoço. a recepção é ótima. o papo é daqueles que eu já estava sentindo falta. falamos do cipó que provavelmente eu tomarei logo que estiver fisicamente bem. saímos para devolver umas fitas de vídeo e eu conhecer a cidade. passeamos de carro e fomos até a estrada de ferro madeira mamoré, iniciada pelos americanos e concluída pelos ingleses no início do século, dentro de um tratado com a bolívia, que deu o acre para o brasil, etc...


hoje é um bonito local de turismo. perto podemos ver o porto do rio madeira “o maior afluente do lado direito do amazonas” com as barcaças e o mercado do “cai n’agua”. voltamos e estou lendo um relato de viagem de pacheco publicado em livro e no alto madeira em 1992, onde fico sabendo que os peruanos, sabiamente, não deixam transitar por suas estradas de terra quando ficam molhadas de chuva. sabedoria inca é outra coisa. a estrada para manaus acabou por causa disso. liguei outra vez para K e está na secretária eletrônica. estou preocupado e sem condições de ter notícias, pois estou sem o telefone do zé do mato e do darcy, seu vizinho. rodrigo e jussara foram para a reunião da união do vegetal. hoje começo a transcrever os depoimentos de K. as crianças assistem imensidão azul. lembro de regina. big blue. porto velho, domingo. 4 set - pó de mesocarpo de côco de babaçú selecionado cura quase tudo. dá energia. dormi bem. tenho sido tratado com muito carinho. porto velho 5 set - no sábado tive uma recepção maravilhosa, após ficar meio temeroso com a demora em falar com rodrigo. no domingo tivemos um tranqüilo dia de trabalho, vi um pedaço de big blue, o filme. à noite experimentei o cipó da união do vegetal. o pacheco colocou um pouco mais da metade do que ele tomou para mim. tomei quase tudo e deixei um pouco para a seqüência. foi uma experiência legal, tranqüila, que me levou a uma série de reflexões sobre a vida. o ambiente era muito tranqüilo e mesmo a conexão com o cristianismo não me incomodou. o pacheco fez dois cânticos chamando a borracheira, o segundo muito bonito que eu espero transcrever,


gravar. algumas músicas me incomodaram um pouco, tipo roberto carlos. a segunda golada continuou tranqüila, a terceira já bem tarde (22+ - ) é que chegou meio violenta, me deixando um pouco temeroso, tendo que lavar o rosto e passear mais um pouco pelo quintal. é um efeito forte e meio misterioso. não tive miragens no sentido de ver coisas, mas sim visões intelectuais/emocionais gratificantes. pretendo gravar um papo mais esclarecedor com o pacheco. hoje estou na redação do alto madeira, a secretária eletrônica continua no ar e tento falar com kleber. hoje tenho que resolver que caminho tomar e viabilizar grana para isto. Escuto razão de viver do quarteto jb, tomando chá refrescante em pleno calor amazônico. o som está bom. porto velho 6 set - acordei e o rodrigo me mostrou a edição do “nosso livro” com crônicas do espírito santo por rubem braga + um texto de seu pai renato pacheco que também apresenta a edição do projeto da rede gazeta. saudades do rubem braga que ao pegar um exemplar do meu livro vereda tropicália, me deu um esporro dizendo que nenna era nome de mulher e que meu nome de batismo era ótimo. enfim, antes de tomar um whisky, roubei um araçá do seu quintal em plena cobertura de ipanema. acredito que o meu próximo livro tem que ser principalmente filosofia. não importa o formato. ao mesmo tempo que penso em cair de cabeça em atividades filosóficas, com ação política, penso em desenvolver um projeto empresarial limpo. gostaria de engarrafar água mineral gasosa de qualidade. ontem consegui falar com zé do mato. K foi operado no sábado e está na casa de ana letícia. foi uma cirurgia séria, mas está tudo bem. contei ao zé os meus


desencontros com k, e ele me disse para ter calma. pediu para eu esperar até o dia 11 e voltaríamos juntos na caminhonete que ele vem pegar. acho muito tempo para os recursos que tenho. hoje pretendo falar com ele e k. venho de um longo passeio de bicicleta quando suei bastante, limpando mais o corpo. volto a ter vontade de descer o rio madeira até manaus. estou ficando fã da guaraná tuchaua, fabricada por aqui. ontem brincando falei que porto velho é a nossa los angeles , com casas baixas e longos horizontes e ruas largas e planejadas, etc.. e o pacheco lembrou que tiveram também um terremoto com cadeiras se mexendo e tudo. no almoço do dia que cheguei tinha um tambaquí delicioso grelhado. porto velho, 8 set - estou acordando e o mapa mundi na parede surge como um incentivo em minha mente. tenho que colocar em dia meus documentos ... passaporte principalmente. ontem dia da pátria e as crianças foram ao desfile. eu, rodrigo e o mestre da udv, altenísio fomos ao mercado e supermercados. a dieta deles me parece equivocada. é baseada num princípio de biotipo de um médico coreano de campinas são paulo. sr. cang ou algo parecido. tem coisas que considero absurdas do tipo comer uma galinha por dia, ou só 12 sardinhas com batata, para equilibrar órgãos do corpo que já nasceriam com problemas. são quatro biotipos etc e tal. à tarde íamos gravar um papo, mas ao chegar na sede da udv tinha muita gente e todos caíram no mariri, e achei inconveniente ligar o gravador. eu não tomei, apesar da pequena insistência do pessoal. tinha pensado em detonar a udv como mais uma seita idiota tipo maranata, etc... mas foi uma tarde tão agradável. crianças brincando, nenhum cerimonial ou


volto à cerveja uma semana depois!! a barriga tinha sumido. são 16 horas e farda... conversas de para quintal, considerei umIVcongraçamento uma puta vem fazer pose mim.que o flutuante baré e o barco baré V positivo. conheci o sr.no joão, 69 anos, que tomou cipó com mestre estão ficando animados crepúsculo. chegam maisoputas atrásode turistas. gabriel durante uns seis anos, até a desencarnação do gabriel em 71. eles ariquemes não dizem morte. também um velho cabocloàssimpático, lino, que 9 set. ro. - tinha saímos de porto 11 horas.otemperatura tomousem uma e vai a borracheira pegou brabo. a flor do mariri amena, solsuperdose e a viagem bem. começaram as serrarias. tinham só 6 nasce rosa,ônibus fica amarela, depois branca me jussara, ganhei enquanto passageiros, limpinho. itapemirim. somdiz noagravador. uma escrevo estas lembranças. rodrigo ficou feliz com a minha relação com terra para terapia , presente da jussara. seus companheiros, mas não disse nada. pela primeira vez ele riu quando a expressão dos participantes, 10bastante set, quase goiáschegamos. - encontro um amigo de escola em vilhena, traços levamos faciais tendem ao caboclo gabriel, vão desde aeentrada uma geral em rondonópolis, ônibuscujas cheiohistórias e muitas histórias estórias. num avião com 5negócios, litros de medicina. mariri, que foi permitido. então ele o crimes, separações, emnão vilhena “o cigarro adverte: também com sua parou força espiritual que o avião levantasse governo faznão malpermitiu a saúde”., o ônibus por falta de combustível!!!! vôo para brasília e os motores não ligaram. e só funcionaram quando ele foi admitido a bordo !!! até com histórias mais simplespenso que misturam tomamos um banho num riacho piscina natural. na floresta caminhonetes e touros bravos. no templocanções da udvde choveu e ode incandescente o tempo todo. alto araguaia. jesus,muito histórias altenísio contou histórias engraçadas de sua viagem com um padre suas vidas, imundícies... pela europa. banha de porco. dogmas, dogmas,... ontem de madrugada, hoje, construí a idéia de multiplepoetry, um poema com overdubs. amanhã sigo para vitória. estou no porto, num flutuante com música alta na sede da mamoré. de manhã pedalei 14 km, indo ao parque ecológico natural da prefeitura, uma reserva. foi bom estar solitário pelas trilhas da floresta. belas árvores, troncos fantásticos, insetos surreais, sons de floresta, caminhar. e pensar !!! tô indo embora na hora certa.. mas a viagem não acaba em vitória, barra do jucu. ela continua! peixes enormes tipo boto pulam e fazem a festa na água, bem próximos.


volto à cerveja uma semana depois!! a barriga tinha sumido. são 16 horas e uma puta vem fazer pose para mim. o flutuante baré IV e o barco baré V estão ficando animados no crepúsculo. chegam mais putas atrás de turistas. 9 set. ariquemes ro. - saímos de porto velho às 11 horas. temperatura amena, sem sol e a viagem vai bem. começaram as serrarias. tinham só 6 passageiros, ônibus limpinho. itapemirim. som no gravador. ganhei uma terra para terapia , presente da jussara. 10 set, quase goiás - encontro um amigo de escola em vilhena, levamos uma geral em rondonópolis, ônibus cheio e muitas histórias e estórias. crimes, separações, negócios, medicina. em vilhena “o cigarro adverte: o governo faz mal a saúde”. o ônibus parou por falta de combustível!!!! tomamos um banho num riacho com piscina natural. penso na floresta incandescente o tempo todo. alto araguaia. canções de jesus, histórias de suas vidas, imundícies...

parte das anotações do texto original


foto Nenna


com FRANS KRAJCBERG JOEL BARCELOS SÁSKIA SÁ produzido por RÔMULO MUSIELLO JUJU ALEGRO


“próximo daqui vakaman - botocudo pojijá acreditando na paz descansava em paz acreditando na paz foi trucidado ele e toda a sua tribo”


paciĂŞncia selvagem


violĂŞncia zen


“não se fala mais de arte. só se fala quanto custa, quantas galerias tem... mas de arte mesmo, ninguém fala”


jakiiam


il.lusió i art una cosa mentale

1998 - junho, 1 (calendário gregoriano) mosteiro zen morro da vargem, es bonjour. yemanjah zen ... cheguei ontem ao entardecer, caroneado pelo meu irmão cacá. objetivo: escrever alguns esclarecimentos que possibilitem a compreensão do “incandescente” sem a necessidade de interferir nas anotações da viagem. mantendo a coreografia do texto original. e não dormi direito, viajando nas possibilidades. estou de volta do almoço com o monge daiju e o pessoal do mosteiro. fui convidado para fazer o projeto gráfico de um livro sobre os 25 anos do mosteiro que será comemorado em 99. será um prazer. daiju é amigo antigo e eu acompanhei - com grandes intervalos de sumiço total - o desenvolvimento deste centro de vivência budista. estou hospedado na estação cultural inaugurada com uma temporada da tomie ohtake. arquitetura de estética oriental com um surpreendente mar de montanhas vistas através de muito vidro e um deck...


e vamos ao trabalho. no início do incandescente eu me refiro a uma fundação que o krajcberg estava querendo fechar. como não estou com saco para voltar ao assunto, transcrevo um texto meu publicado no jornal a gazeta, de vitória, espírito santo e uma entrevista do krajcberg para a revista Y, colocando um “ponto final” na existência da fundação. sem qualquer reação dos artistas capixabas... O CASO KRAJCBERG (texto publicado no jornal “a gazeta”. vitória, 27.06.95) Em 1988, quando escrevi alguns textos críticos sobre artes plásticas para este jornal, tive o privilégio de anunciar o desejo do escultor Frans Krajcberg em doar todo o seu acervo artístico - estando aí incluídos, além de suas obras, trabalhos de artistas amigos como Chagall, Braque, Picasso... - ao Estado do Espírito Santo. Também o seu atelier de Nova Viçosa, com a famosa casa sobre uma árvore. Esta ampla doação e mais a participação direta do artista, cujo círculo de amizades passa por Al Gore, Chirac, Gorbachev, para citar apenas alguns, permitiria a criação de uma entidade planetária que seria “um polo de manifestações artísticas e culturais que possibilitariam a geração, fixação e transmissão de informações sobre ecologia, preservação do meio ambiente, defesa da natureza e melhoria da qualidade


de vida”. Fui um pouco cruel no título, já imaginando que a profecia/maldição de Saint-Hilaire, - viajante e naturalista francês que passou pelo Espírito Santo no início do século passado - poderia fazer mais um estrago em boas intenções. Saint-Hilaire disse que “talento e instrução só chegarão à província do Espírito Santo com extrema vagareza”. O título da matéria foi: “As Pérolas Estão Lançadas”, referência ao texto bíblico que manda não se dar pérolas aos porcos. Acho até que porcos mereçam pérolas, mas aí já é outro assunto. Estive em Curitiba, no início do mês, para a abertura da megaexposição “Revolta” de Krajcberg que ocupa praticamente toda a cidade, desde o belíssimo Jardim Botânico até o Museu Metropolitano, passando por toda a cidade, e envolvendo desde diretores de criação publicitária até estudantes numa bela festa cuja trilha sonora é a sinfonia, também batizada de Revolta, composta por Egberto Gismonti, em homenagem à obra do escultor, e apresentada pelo músico com a Orquestra de Câmera de Curitiba. Enfim, uma grande festa cultural em defesa da natureza. A minha amizade com Krajcberg me fez acompanhar todo o processo em que ele se envolveu na criação da Fundação. Sem entrar em detalhes desnecessários nesta análise, eu diria que ele foi ludibriado em suas intenções e sofreu pelo idealismo de tentar implantar uma idéia planetária num ambiente de pensamento provinciano que, desde que eu me entendo, assola o Espírito Santo. A


obra de Krajcberg é respeitada e festejada em todo o mundo, pelo seu vigor estético e poder político, como um grande alerta em defesa da natureza universal e, principalmente, brasileira. É um artista que conviveu e trabalhou com os maiores artistas deste século, principalmente os grandes da École de Paris. Um artista capaz de colocar mais de 100 mil pessoas pagando ingresso para ver sua exposição na Eco-92, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. E o que acontece aqui? Em Vitória, Krajcberg tem sido tratado como um vigarista que embolsou 50 mil dólares do Governo do Estado, e nenhuma entidade ou intelectual saiu em sua defesa. Não tiveram nem a delicadeza de comunicá-lo antes de uma ação jurídica, conversar em respeito aos seus 73 anos, de vida digna lutando na 2a. Guerra contra o nazismo ou defendendo a cultura brasileira de forma radical... É fundamental que se chegue aos responsáveis pelos problemas que talvez existam na prestação de contas, e punir os responsáveis. Krajcberg não é milionário, mas pagará até o último centavo, caso os administradores da Fundação, leia-se Idivarcy Martins, tiverem montado uma falcatrua em nome dele, pois independentemente da sua honestidade, os bens da Fundação - garantia real - são os que foram doados por Krajcberg, pois esse Governo alucinado que passou não entrou com nada, a não ser a cessão de salas e móveis por um pequeno período. Ou seja, o Estado teve


participação ridícula no processo, apesar do grande estardalhaço montado para o lançamento, que colocou o Estado em destaque positivo junto à mídia nacional e internacional. Dedicando-se integralmente aos diversos eventos paralelos que ainda envolvem a mostra de Curitiba, Krajcberg vai começar a se envolver com essa baixaria daqui a pouco. Então teremos uma versão definitiva desse processo, e talvez o sonho da Fundação no Espírito Santo. Jaime Lerner que não é bobo, está de olho, e numa roda em que estava o prefeito de Curitiba, Rafael Greca - exagerando nos elogios ao evento - aproveitei para sugerir, em tom de brincadeira séria, que ele levasse a Fundação para lá. Ele não perdeu tempo e falou que já tinha o local, um canion natural não sei onde, e pediu que eu lhe enviasse algumas informações. Mas eu percebo que o grande desejo do escultor seria, antes de toda essa balbúrdia de quinta categoria, que a entidade permanecesse no Espírito Santo. Uma vez eu lhe perguntei o porquê dessa insistência, e ele me respondeu com simplicidade: “Não me interessa ser apenas famoso, isso é sonho de criança, eu quero ser útil. E Vitória merece ser bonita”. Será que a profecia/maldição de Saint-Hilaire triunfará mais uma vez?

“FRANS KRAJCBERG - o escultor fala sobre o fim da


Fundação Krajcberg no Espírito Santo”. (entrevista publicada na revista “Y” - outubro 95) - Como é esta história de fechar a Fundação? - Na verdade vou colocar um ponto final. Eu estou me aborrecendo muito. Eu não sabia que alguém que se oferece para fazer um movimento cultural, oferece todos os seus trabalhos, vira criminoso, vira fugitivo. Eu tenho em cima de mim, processos de coisas absurdas. Quatro processos, e acho que vão aumentar ainda mais. Mas não tem um processo do ponto de vista cultural, que se preocupe em continuar com a fundação. Não tem nenhum. Primeiro se interessam pelo dinheiro, que eu nem sei o que foi feito. Mas agora eu vou saber. O diretor é o responsável, ele cuidava de tudo. Que eu nem sabia o que estava sendo feito e agora quero que se esclareça tudo. Que não é possível eu ver tanta coisa que está acontecendo aqui em Vitória. E no momento que eu estou num grande movimento. Só na minha exposição em Curitiba já passou mais de 215 mil pessoas. Foi o maior sucesso de público conquistado por um artista brasileiro aqui neste país. Fui convidado para ir a Jericó no mês de dezembro, num grande encontro da paz. Quem está organizando é o Fórum Global, que organizou também a grande manifestação de Moscou, a Eco-92, a manifestação do Japão... de todas as manifestações eu participo. Me interessa muito a preservação do planeta. Eu participo de tudo, sou membro. Os participantes são


nomes deste planeta. Criamos a Cruz Verde, o presidente é Gorbachev. E tem também a grande exposição do La Villete, em dezembro de 96, com apoio da Cruz Verde, do Fórum Global e do Governo Francês. Vai ser a grande exposição arte-ciência, arte-ecologia. Eu vou levar de 250 a 300 trabalhos, e terão grandes manifestações em defesa do planeta. Me diga, com tudo isso acontecendo, eu vou ter cabeça para me preocupar com pequenos detalhes, sendo que eu ofereci tudo para Vitória? É o maior absurdo essa situação. Nunca pensei que ia chegar a esse ponto. Mas me avisaram antes. Só que não seria um pequeno aviso que poderia me fazer parar. Até que chegou num ponto que eu vi o que estava acontecendo com essa fundação. Todo mundo fugia dela, claro que parei. O que eu devia fazer? Entregar também toda a minha obra para Idivarcy? Não é possível continuar com uma fundação só no papel. Como é possível, hoje em dia quando eu vejo, estou vendo os maiores absurdos. Numa época que há democracia neste país, há uma injustiça, meu Deus. Vitória parece que é um vazio completo neste sentido. Um homem que oferece tudo que ele tem, é criminoso? Em Vitória? Quando no mundo inteiro eu participo dando apoio, tudo isso, aqui nem apoio cultural se pode dar. Eu ofereci meus bens e estou bastante machucado com isso. A única pessoa com quem estive ultimamente foi o governador. Eu tenho uma grande admiração por esse governador. Ele pediu desculpas por esse


acontecimento, disse que não sabia sobre este acontecimento. Eu acredito, mas outro em meu lugar teria largado tudo faz tempo. Esquecia Vitória, esquecia esse negócio de fundação. O que eu fiz para ter quatro processos em cima de mim? Já estou preparando a minha malinha para descansar na cadeia. Então eu estou vendo que não dá mais jeito. É a última entrevista que estou dando em Vitória, porque toda vez que dou uma entrevista, transformam completamente minha fala. E vira polêmica. Então não dá mais nem para abrir a boca. Eu me pergunto: o que você faria no meu lugar? Eu não tenho tempo nem para pensar mais sobre esse assunto. E isso me aborrece, me machuca. Eu tenho centenas de exposições para poder realizar. Estou anulando tudo porque não tenho mais forças para isso. E por outro lado, vejo uma cidade que quero ajudar culturalmente, e sou um criminoso. Não sou homem desejado, porque falo demais sobre as últimas reservas, sobre essa floresta do Espírito Santo, que foi a mais rica do planeta, e que foi destruída em quarenta anos. Eu estou vendo que sou homem para afastarem, para falar menos sobre este assunto. E a fundação também deveria estar em outro lugar. Eu percebi isso. É lamentável, eu não tenho mais palavras para falar sobre esse assunto. É lamentável isso que está acontecendo. Agora eu estou


esperando mais uns vinte processos, que podem vir. Eu estou preparado, pela promotora que não me acha nesse Brasil. Parece que estou morando na lua. Mas as terras de Nova Viçosa, minha moradia que é a mesma procurada pela promotora, ela acha. O mundo inteiro me acha. Recebo mais de vinte telefonemas todos os dias. Então como estou podendo fugir? Eu até hoje não recebi qualquer comunicação da promotora. E agora o meu advogado vai cuidar desse assunto, porque é o maior absurdo o que está acontecendo. E vai ser difícil eu voltar atrás. Isso é o ponto final que eu ia lhe falar. - Porque chegou a este ponto? Vitória também não compreendeu a importância dessa fundação e não vai compreender tão cedo. E por isto estou te falando: é a última entrevista que estou dando aqui em Vitória. Eu tenho mil coisas mais importantes para fazer, do que me chatear aqui em Vitória. É injusto. A palavra fundação não quero nem mais ouvir. E ponto final !!! ponto final, mesmo. o fato de não querer mexer nas anotações pode me criar alguns problemas, mas vou correr o risco. cheguei a pensar e inclusive propor, numa conversa recente, que ele lesse o texto antes da publicação. mas acho injusto comigo. K tem uma personalidade extremamente forte e


de qualquer maneira vai querer interferir, pois nessa mesma conversa já queria mudar o título do livro para “um grito incandescente”... expliquei que praticamente todo o discurso sobre ecologia se restringiam a seus depoimentos transcritos na íntegra. ou quase. e que o incandescente se referia não só à floresta mas à minha cabeça também. seja o que os deuses quiserem. a amizade com krajcberg é um privilégio. conviver com alguém que respira arte e que, além de ter uma visão especial do universo, fez trabalhos com braque, morou com chagall, viveu a école de paris, etc, etc e possui uma obra pessoal extremamente original, é, no mínimo, história da arte ao vivo! mesmo não sendo - pelo menos estou me esforçando - um texto de memórias, me vem à cabeça dois outros privilégios de convívio que muito acrescentaram ao meu desejo intelectual. primeiro o cláudio bueno rocha, jornalista e crítico de arte chegado do rio para vitória, elogiado por glauber rocha, texto impecável e um cosmopolitismo que faziam babar o pós-adolescente tirado a conversar sobre marcel duchamp, oswald de andrade, john cage, cinema e adjacências. numa cidade provinciana onde estudar na “escola de belas artes” era coisa de viado, ou de meninas esperando casamento. na mesma época o rogério medeiros, fotógrafo com sensibilidade e textos objetivos sobre assuntos regionais inéditos, política, ecologia e defesa das minorias indígena e negra. estes textos, imagens, e viagens freqüentes, acrescentavam a realidade imediata aos meus, até hoje insistentes, delírios universais. saravá. e, tempos depois, longos papos sobre arte com helio oiticica, algumas vezes regados a cocaína outras a um delicioso arroz com camarão em seu inesquecível loft da segunda avenida em nova iorque. aos vinte e um anos vi minha inocência e


romantismo em relação ao universo das artes ser demolido impiedosamente, com bom humor e algumas fofocas. 2 junho - bom dia. ontem passei o resto da tarde e início da noite relendo o incandescente e trabalhando na estrutura gráfica do texto. cheguei a conclusão que não vale a pena ficar esclarecendo o texto... me pareceu pura babaquice. durante a leitura, parei na imagem em que acordo, na casa do pacheco em porto velho, com um mapa mundi se insinuando na parede em minha frente. realmente atualizei o passaporte. após perambular com a bea pelo litoral entre vitória e rio, descobrindo paraísos como o pontal do atalaia em arraial do cabo, ou visitando o joel barcelos em rio das ostras, perdi o broto e ganhei uma bela e injusta frase alimentada por ciúme e álcool, numa madrugada, em vitória: “eu sou chic sem grana, você é grana sem chic”. depois, resolvi priorizar minhas atividades profissionais e colocar as relações afetivo sexuais em segundo plano. cansado do provincianismo local me mandei para o provincianismo europeu. tinha que inventar um motivo para a viagem e o encontrei no programa corel draw para projetos gráficos, desenvolvido por uma empresa canadense. passeando entre os milhares de medonhos cliparts disponíveis no cd-room que acompanha o programa, constatei que entre centenas de aeronaves disponíveis, não estavam as criações de santos-dumont. e pior, tinham duas ilustrações sobre a engenhoca dos irmãos wright. decidi realizar um curta metragem. curta só para


facilitar a produção, pois eu utilizaria as imagens num longa. liguei pro meu único ator preferido, joel barcelos, e peguei o telefone do ricardo aronovich em paris. já tinha decidido, anteriormente, que só trabalharia com fotógrafos que atuaram no cinema novo. e o ricardo tinha realizado dois clássicos: “são paulo s/a”, do luiz carlos person e “os fuzís” do ruy guerra. arrumei uma graninha, as malas e dois dias antes de viajar, quando comia uma moqueca maravilhosa com o amigo joelson fernandes, reclamei que ainda não conhecia berlin, nem ninguém que lá morasse. o amigo, em cena maravilhosa, levantou da cadeira - quase escândalo no restaurante - e me perguntou em voz alta: “e o ciro cappellari ?”. respondi que tinha estado apenas uma vez com ele, numa festa animadíssima, e isto não me dava o direito de encher o saco de ninguém. ele disse que o ciro tinha comentado o nosso encontro, e imediatamente pegou o celular e ligou para a casa do já nesta altura, “nosso” amigo cineasta. a anka, que naquele momento estava se separando do ciro atendeu, se lembrou de mim, pediu para que eu ligasse de bruxelas que ela me pegaria na gare. graças aos carinhos e gentilezas que naturalmente o joelson espalha junto aos amigos, fui recebido pela anka - bela suíça - praticamente com um tapete vermelho na zoo station. o ciro tinha recebido o prêmio do sundance festival como o melhor roteiro europeu, no mesmo ano (95) que o waltinho salles recebia como melhor roteiro das américas para o seu hoje premiado central do brasil. ele estava muito feliz apesar dos transtornos da separação. o filme do ciro, “sin querer” é o título em castelhano, ainda não estreou no brasil, mas vi o


copião e é muito bom - música boa também - e com angela molina como uma das protagonistas. foram dias de muita onda vivendo o ambiente cinematográfico e mundano de berlin. me hospedou num apartamento super sofisticado e enorme, de um amigo que estava em outra cidade dirigindo uma ópera. de quebra na primeira noite teria a companhia de uma bela atriz de teatro. depois de duas garrafas de um bom rouge francês, tentativas de sedução e assanhamentos o broto me negou um beijo na boca, pois além de iniciando um namoro, tinha acabado de escovar os dentes !!! pode ??? enfim berlin foi o tempo todo uma festa/trabalho inacreditável. acompanhar o ciro foi mergulhar de cabeça num ambiente impregnado do fazer cinematográfico. de uma gentileza over, ele e a nancy, bela espanhola, vinham me pegar logo de manhã para tomar café em locais que nenhum turista babaca conseguiria descobrir. depois laboratórios de cinema, salas de montagem, visita ao seu produtor (tinha um oscar no ambiente), mais um pessoal maluco ligado ao fassbinder, etc etc. e mais, um jantar como convidados de uma meio burrinha e linda atriz num restaurante português, que se eu tivesse pago a minha parte da conta teria que voltar dali mesmo. conversamos muito, e ele se apaixonou sobre a idéia de fazer o filme sobre santos-dumont. pediu para fotografar. eu falei que estava na europa para convidar o ricardo aronovich. ele ficou embasbacado, pois o ricardo é seu ídolo. os dois são argentinos de nascimento. propus então fazermos uma produção conjunta sobre maximiliano de weid-neweide, um príncipe da baviera, parente do ludwig, que esteve no espírito santo no início do século xix (1915/16) e levou um


índio botocudo para a europa. este índio, o jovem qüack, teria virado alcoólatra e se suicidado após alguns anos na corte. rapidamente batizei o projeto de botokuden prinz . o cloves mendes, outro amigo comum, foi quem assumiu o desenvolvimento do projeto. em colaboração com o roteirista capixaba rominho mussielo. na véspera de viajar, depois de uma noitada de fim de semana na ex berlin oriental fechamos a noite numa boate que, acreditem, tinha uma imagem de iemanjá na prateleira do bar. era a benção total: yemanjah in berlin. na noite seguinte, após muita cerveja com amigos cineastas num bar sobre um barco (ankor haus), me deixaram bêbado, dentro do trem com destino a alguns dias de marijuana e skank em amsterdam. saí de berlin aos prantos com tanto carinho e felicidade... inesquecível. em paris começou a novela do filme sobre le petit santos. tinha idéia de fazer um trabalho radical. sem roteiro muito definido e filmada em dois dias envolvendo apenas o joel barcelos, o ricardo aronovich e equipe técnica mínima. seria um discurso feroz contra a mania dos americanos de serem donos de tudo, no caso a eterna discussão de quem vôou primeiro. (parênteses: recentemente o clinton, se tornou a primeira autoridade americana a reconhecer os feitos do meu genial herói de infância). ricardo, demonstrando grande satisfação em ter notícias do joel, marcou um encontro num café (le select) em montparnasse. tudo funcionou às maravilhas. o ambiente, o papo, o convite, o peixe, o vinho e saímos do café como dois eternos amigos...


a sorte estava do meu lado. a nancy, em berlin, pediu que eu ligasse para uma colega da escola de cinema, que poderia me ajudar muito no que fosse necessário. mesmo com tudo encaminhado da melhor maneira, liguei para a catherine bernstein. a jovem, competente e bela cineasta francesa de origem germânica ao ver as fotos do aeronauta contornando a tour eiffel num dirigível, ou mesmo descendo de outro dirigível em plena champs elisées para tomar um café em seu apartamento na esquina com a rue washington, se apaixonou pela idéia. por coincidência ela mora na rue du captain ferber, também um pioneiro da aviação e quase antagonista de santos-dumont. com a catherine, por sua formação européia e acadêmica, o projeto tomou outra direção. resolvemos partir para um roteiro estruturado. alguns meses depois voltei a paris e trabalhamos arduamente durante dois meses no projeto que interessou a um bom produtor parisiense, jacques debs, da adr. um ano depois, tínhamos um roteiro “europeu”, extremamente profissional, finalizado com a ajuda de um dramaturgo respeitado por lá. o louis jacopin, que eu não cheguei a conhecer, pois ele entrou apenas no último tratamento. sobraram menos de trinta por cento de minhas idéias e estética. neste ponto eu já não teria currículo, ao contrário da catherine, para dirigir o filme de quase um milhão de dólares, mais precisamente 450.000 francos... ficaria apenas como o dono da idéia e um parceiro no roteiro. fiquei satisfeito com a experiência e a grana prometida. no final do ano me ligaram pedindo para indicar um co-produtor brasileiro para facilitar as coisas. ainda não respondi, por estar envolvidíssimo com meus projetos autorais. já apresentei o vydeo, espero terminar o lyvro, ainda esta semana e ainda este ano pretendo lançar o cd muzyka.


enfim, espero que dans l’air não se junte ao filme da tizuka, mais antigo e que não consegue sair do hangar. hoje tenho um conhecimento muito estruturado sobre este período da história da aviação. pesquisei muito, bisbilhotei os arquivos de filmes da gaumont e pathé, o musée de le borget, a coleção do museu do ipiranga em são paulo, além de ter freqüentado o aeroclub de paris, o primeiro a ser criado e que teve entre seus fundadores o próprio s-d. mas não creio ser assunto para o momento. em tempo: o nome do filme “dans l’air”, é homônimo do primeiro livro de memórias do inventor brasileiro. mais chic, só o próprio. figura popularíssima na belle époque parisiense. já com a vida arrumada, me mandei para dias de prazer e satisfação em companhia dos amigos jean-pierre e angela, mais laurent e as crianças em montpellier no mediterrâneo francês. quanto carinho... jean-pierre é o meu filósofo francês favorito. mas aí já é outro papo. fui continuar a despedida em barcelona. terra de gaudí. hospedei-me numa espelunca próxima à ramblas e fiquei fascinado pelas pessoas e pela cultura catalã. mulheres tão belas e sofisticadas como as alemãs e francesas, porém com mais tesão no olhar... na noite seguinte apertei a campainha de uma amiga capixaba, wandinha, moradora há alguns anos de barcelona e que se preparava para ir a um show de joão bosco. me recusei terminantemente a acompanhá-la. não dá para agüentar a música dele. até que surgiu uma muito bela amiga, tamanho g, com uma bolsa em formato de coração vermelho. pensei na hora: “não vai dar certo”. deu e não deu.


fiz charme de cineasta filmando em paris e acabei indo ao chatérrimo concerto. nessa época estava gravando com uns músicos geniais - marco antonio grijó, afonso abreu, mário ruy e depois colibri - umas coisas que considero muito interessantes e que qualquer dia, espero que ainda este ano, vão estar disponíveis nas melhores casas do ramo. como a moça é uma cantante e como tinha comigo algumas bases gravadas e alguns dólares restando, gravei, no studi 84, sua bela voz cantando meus poemas em catalão. il.lusió i art és la música que encén el meu cor. em seguida, numa produção urgente, gravamos um vídeo no parc güell, obra de gaudí, para a possibilidade de um clip. bem, uma aventura é uma aventura. mas quando você em vez de apenas passar pelo lugar começa a frequentá-lo, como foi o caso de barcelona, a coisa fica diferente. no final de 96 viajei com juju para ver a exposição do K no la villete, em paris. com muita gente. alguns dias depois os cartazes estavam nas estações de metrô. nessa viagem encontrei pela segunda e última vez com o carybé. uma exposiçãozinha fuleira, na galeria debret, da embaixada brasileira e cheia de brasucas chatos. poucas exceções. lembrei do livro, sobre uma viagem ao espírito santo, dele com o rubem braga do qual participei na elaboração da edição e ele se emocionou. mudei de assunto rápido pois senti sua fragilidade física.


depois fui tomar cerveja com a amiga franco capixaba de origem italiana, annie cicatelli, que muito me ajudou em paris, apesar de ter o estranho prazer em gostar de alcione e wando... a annie leu o incandescente, gostou mas me alertou, como jornalista que é, que seria interessante eu terminar o diário com a exposição do la villete. cheguei a escrever algumas linhas. depois achei sem sentido. alguns dias depois o K inaugurou a parte fotográfica da exposição e lá encontrei a thérese vian, fotógrafa francesa, amiga de K, que com ele fez diversas viagens à minas gerais para fotografarem as terras coloridas. me reclamou da mania do K em querer “ser dono” de seus amigos... após os dois meses de trabalho no roteiro de dans l’air, passei mais uma genial temporada com o jean pierre + angela e etc em montpellier. eles moram na parte mais nova da cidade. um conjunto arquitetônico fascinante pelo contraste e ousadia. projeto do catalão ricardo bofil. daí outra vez para barcelona onde virei figurinha meio fácil, já cumprimentando pessoas nos carrers e ramblas. a wanda me facilitou muito a descoberta de tão forte cultura. passamos uma festa (revetlla) de san juan na intimidade do grupo comediantes, que fez a abertura da olimpíada e que são seus amigos. a festa de são joão - no solstício de verão - é incrível. muitos fogos de artifício (uma das especialidades dos comediantes), bombas fortes e imensas fogueiras sempre construídas com mobílias, num simbolismo de renovação. numa outra vez assistimos à inauguração da restauração da casa milá, la pedrera, construção que junto com a catedral que não acaba nunca são as mais


conhecidas obras do gaudí. jamais assisti a um espetáculo de rua com tanta beleza e tecnologia em doses próximas da perfeição. estava muito animado com a cidade e pensando em participar de uma montagem teatral baseada na história dos cátaros (grupo religioso perseguido pela igreja católica no século XII) que estava sendo planejada pelo pepe, marido da wanda, quando aconteceu o imprevisto... e tem um papo hilário, pelo menos para quem conhece o personagem. em paris tinha conhecido, por insistência de wandinha, uma francesa que vivera uma temporada em vitória. durante nosso encontro, um jantar em sua casa com sobremesa na cama, ela me perguntou se eu conhecia o pedro maia. fiz uma cena hilária - já tinha detonado um rouge - dizendo que iria embora, porque, em plena praça adolph cherioux, ouvir alguém perguntando se eu conhecia o pedro era demais... pedro maia, jornalista, cronista policial, misto de ótimo literato e marginal incompetente é dessas figuras que ficam no âmbito regional mas que.... aí ela, dominique, me contou uma história hilária. impublicável no momento. encalhado no “aprazível balneário” como gosta de chamar a barra do jucu, pedro, pensando em enrolar os otários ou, eu diria, leitores... aproveita o noticiário dos jornais e faz novas variações de sua antigas crônicas para uma coluna diária que continua escrevendo. mas é tão incompetente nas malandragens que os textos só melhoram...


este papo do pedro me faz pensar nas maldades e falta de perspectivas culturais que ainda predominam sobre cidades provincianas como vitória. apesar das mudanças atuais, incrementadas pelas possibilidades da informática e telecomunicações, ainda falta muito para que pessoas sensíveis e modernas, como aprigio lyrio, não sejam derrotadas pelas mesquinharias nem destruídas pelas drogas e incompreensão provincianas, comuns também nos grandes centros. aproveitando, e fechando, este papo de província... existem duas meninas/senhoras extremamente competentes que ainda não são suficientemente conhecidas fora do espírito santo, mas que vocês ainda vão ouvir falar. uma, ester mazzi, que o joão gilberto considera “a voz mais caliente do brasil”. repertório de bossa nova com... bem é melhor vocês ouvirem. a outra é natércia lopes, uma diva do canto lírico, e como convém às divas, uma grande encrenca ambulante. cheguei a fazer um projeto de produção de um cd exclusivamente com canções do villa-lobos, mas o temperamento da moça, e ainda o meu envolvimento em seus lençóis, me fizeram recuar. seria encrenca das grandes. quando vivia com a bea, ela achou o projeto e perguntou porque não tinha levado à frente. respondi que com ela eu toparia, seria mais fácil suportar as tormentas que certamente viriam. hoje o cd, que, apesar de todas as tempestades já está gravado há dois anos, precisa apenas de uma boa remixagem e masterização. e teremos o prazer de ouvir


uma grande intérprete do villa... no 31 de dezembro desembarquei em vitória decidido a reorganizar tudo. sentia que o filme de paris já não me pertencia e o cd em barcelona tinha dançado totalmente. me dediquei a terminar o vydeo e ganhar alguns trocados com assessoria a projetos para a internet. falar nisso eis o endereço de minha página pessoal: www.nenna.com o vydeo, que eu já vinha produzindo há mais de dez anos estreou no vitória cine vídeo. no festival, fiz um discurso - talvez o único com conteúdo questionativo, que não foi gravado porque só eram gravados os discursos feitos durante a apresentação dos filmes !!!???. comecei comentando o fato de estar presente numa mostra competitiva, ao mesmo tempo que era contrário ao julgamento de obras de arte, por considerar isto uma possibilidade subjetiva. expliquei que estava ali por obrigação, pois tinha recebido recursos públicos para a finalização do trabalho, com o compromisso de estar presente na mostra. e já que estava ali, gostaria de entender alguns fatos que me pareciam provincianos e totalmente obsoletos. questionei o fato de serem 12 prêmios para a “área” de cinema e apenas 2 para os vídeos. como o meu vídeo tem música original, e mesmo sem ter interesse em disputar porra nenhuma não entendia como o prêmio era exclusivo do cinema. o mesmo para a direção de fotografia. antes já tinha perguntado a uma amiga da produção do festival, qual o motivo deste prêmio ser restrito apenas ao


cinema. ela me respondeu que era porque “direção de fotografia” existia apenas em cinema, que em vídeo é “câmera”. quase desmaiei. depois de falar muito, propus que o festival tivesse um diferencial dessas mostras que de importância só tem as relações pessoais (profissionais e sexuais) quase sempre embaladas por um turismo promovido às custas do dinheiro público, e favores e interesses entre os organizadores. propus - sem ser original pois já tinha notícia que acontecia algo semelhante em alguma pequena cidade da alemanha - que o festival nos próximos anos, pelo menos unificasse a premiação (repito: continuo não gostando de competições em arte) pois muitos vídeos, além de terem uma imagem de projeção maior e melhor do que os filmes de 16mm devido às novas tecnologias de projeção eram, no meu ponto de vista, superiores à algumas produções cinematográficas, etc... ainda no campo da tecnologia, cheguei a citar o meu trabalho como exemplo. como as minhas imagens e sons são digitalizados eu poderia fazer cópias em película, em dvd, em tape ou qualquer outro meio de registro de imagens e sons. o principal é o conteúdo e não um processo industrial que, no caso do cinema, limita pelos custos. fui bem didático. na semana passada li em um jornal que o ruy guerra estava fazendo o mesmo discurso no festival do ceará... talvez alguém preste atenção... o meu vydeo é uma obra aberta, “a working in progress” como dizem os americanos, e para a exibição no festival preparei uma versão


específica. durante uma falação do joel utilizando fragmentos do texto que o tarcísio meira interpreta em idade da terra, inseri o filme di de glauber na íntegra. o filme é proibido de ser exibido pela família do pintor, mas é uma obra tão genial (ganhou o festival de cannes, como melhor documentário em 19??) que é uma proibição que tem necessariamente que ser desrespeitada. já o tinha exibido anteriormente na universidade federal do espirito santo, com cumplicidade do marcos valério, num dia de yemanjah, (2 de fevereiro) com presença de dona lúcia rocha. no vydeo, a janela que eu abri para inserir o di ficou interessante porque o joel é ator nos dois trabalhos. a coisa faz sentido para mim, pois a minha estética é influenciada por liberdade e invenção, coisas que na minha adolescência já tinha sacado em godard e glauber. tive o imenso prazer de não ter conhecido glauber pessoalmente. dona lúcia, a mãe, entendeu. meu primeiro contato com originais de glauber, no museu da imagem e do som, onde funcionou o embrião do tempo glauber (ou templo?) me fez cair em lágrimas ao descobrir frases inteiras iguais às que eu tinha escrito... aconteceu também um fato interessante. já na exibição do di em vitória, dona lúcia me ofereceu um roteiro do glauber para filmar. mesmo sem eu ter uma obra minha pronta, que servisse de referência para tão apetitosa oferta. fingi que não entendi. tempos depois, em companhia da bea, estive com dona lúcia no casarão de botafogo, sede do tempo glauber, que ela mantém com uma garra e


determinação inacreditáveis. voltou a me oferecer o roteiro, agora com o testemunho da bea. nem me lembro o nome do roteiro, pois eu estava de olho no texto teatral jango, para uma montagem filmada. fingi que não entendi, outra vez. no dia seguinte a oferta foi repetida. quando cheguei em casa liguei de volta e falei que estava interessado em filmar o texto de jango. o texto tinha sido prometido ao luis carlos maciel pelo próprio glauber, e dona lúcia pediu para ver se ele liberava. liguei pro nosso querido guru do udigrudi, que anos antes já tinha me convidado para fazer a parte em vídeo na montagem que ele estava ensaiando no parque laje. ficou animado, pois além da peça tem também um livro enorme sobre o mesmo tema. faríamos um pacote janglauber, que era como eu pretendia batizar o filme. mas aí a coisa com o espólio do glauber é muito muito complicada e não deu pé. ainda bem... durante este tempo, motivado pela oferta e pela exibição do di, fui sondar o mario carneiro, que tinha feito a fotografia do filme sobre a possibilidade de ele trabalhar comigo caso o roteiro fosse liberado. marcamos um encontro e me mandei para o rio. no dia, a notícia da morte do tom jobim, deixou tudo esquisito. fui um dos primeiros a chegar ao jardim botânico para o velório (coisa que detestava), e como tinha uma câmera fotográfica comigo acabei registrando, certamente influenciado pelo di. o maestro/anjo estava lá em meio às lágrimas dos familiares e a pequena maria luiza sem entender nada. o mario estava no velório, mas como ele não me conhecia pessoalmente, preferi não me aproximar. à noite, como tínhamos combinado, fui para a sua casa e começamos a tomar uísque. muitos. o mario bebe uísque com água e eu resolvi acompanhá-lo no costume.


depois de muita conversa ele virou-se para mim e disse: “já sei, veio me convidar para fazer a fotografia. eu aceito”. é incrível como as pessoas acreditam nos meus delírios... com a desistência da filmagem estou devendo uma visita ao nosso grande fotógrafo. de qualquer maneira creio que algum dia filmarei com o mario tendo brasília e a arquitetura de niemeyer como cenário, e a atriz capixaba branca santos neves... 3 junho - hoje o dia amanheceu menos tropical. a névoa nas montanhas deixa o cenário mais bonito... o trabalho não me permite curtir o mosteiro como gostaria, mas talvez hoje à tarde eu possa fazer um zazen ... ao trabalho. tenho tido um pouco de dificuldade para dormir, devido à excitação com estes escritos... volta e meia levanto para anotar alguma coisa. ontem uma delas foi a constatação que a filmagem do di já seria um tema para outro filme. tive o prazer de escutar algumas versões. apesar da memória pouco confiável vale a pena tentar contar uns poucos fatos. a primeira versão que tenho é a da dona lúcia, a mãe. falou que o glauber acordou e foi à padaria tomar um café e comprar jornais. voltou alucinado. que o di tinha morrido e tal e tal, e que ele tinha que filmar o velório e enterro. dona lúcia fez alguns questionamentos... não se faz, ou acreditava-se que não se fazia uma filmagem assim do nada. e glauber pegou os jornais e se mandou... num encontro, por acaso, com nelson pereira dos santos - em vitória - ele me contou que montava um de seus filmes numa dessas espeluncas de onde saem obras geniais, quando o glauber chegou, pedindo pontas de negativo e que tinha de filmar de qualquer


maneira. aquele vendaval. nelson descolou os negativos. numa outra moviola no mesmo local estava o mario carneiro montando seu filme, gordos e magros, para um festival europeu e com o prazo de entrega já estourando. pra variar. o glauber chegou e praticamente o arrastou a força da sala. joel barcelos me contou que perambulava pelo local, e também foi arrastado. não tinham nem carro. quando saíram do local, no estacionamento, sei lá... “sequestraram” a kombi de um produtor e se mandaram. e no caminho para o velório no museu de arte moderna, o mario, já consciente que a aventura não tinha retorno, pediu que o glauber pelo menos passasse em sua casa para pegarem o fotômetro. Resposta do baiano: “o fotômetro são seus olhos...” o resultado foi um dos mais criativos e originais filmes da história do cinema mundial. a paisagem das montanhas a minha frente está ainda mais bonita com umas nuvens baixas e o som do villa-lobos... 5 junho - bom dia. depois do zazen/meditação dei um tempo pois estava sendo muito estressante esta viagem ao passado recente. chega de papo. o computador serviu nestes dois dias apenas para ouvir o villa a maior parte do tempo, e colher frutas, fazer tarefas - a vida aqui não é moleza, tá por perto, os monges colocam para trabalhar... - e muita caminhada pelas trilhas das montanhas. estou muito saudável... realmente ainda tenho algumas coisas para escrever... mas se bobear o


que é um prazer vira aluguel... e o conceito do lyvro é semelhante ao do vydeo, da muzyka, etc... obra aberta. que irá se metamorfoseando com o tempo. e também a jana chega amanhã, com seu um metro e oitenta de sabedoria, elegância e erudição. acompanhada de uma garrafa de rouge dos bons, espero, e muita libido. jana sabe muito do que existe de melhor na música produzida no mundo hoje. filhote da eletrônica e da criatividade, se dá ao luxo de algumas vezes distribuir sua sonoridade para as pistas de dança. além da inseparável caixa de cds com o villa regendo suas composições, me acompanham apenas três da coleção do broto: o último do goldie (que assistimos no mam - rio) com passagens villa-lobianas na faixa mother !!!, acreditem!!! chemical brothers e slab. estamos falando de som, não dessas baboseiras do lulu santos, barão, memê, e etc que ouviram cantar o galo não sabem onde e tentam recauchutar suas carreiras medíocres dentro da merda pop que se escuta por aí... e viva cage, varèse, stockhausen, as vovós do assunto. mas, além do agradecimento ao mosteiro, aos monges, e todo o pessoal, tem mais uma historinha: logo que cheguei fui ajudar o daiju a resolver alguns problemas no computador do mosteiro. tarefa cumprida, dei uma geral na biblioteca e um livro me chamou a atenção: odete lara, minha jornada interior. tirei da estante, abri e teve início uma série de coincidências. comecei a ler a página que tinha aberto e identifiquei um personagem. meu amigo antigo, euclides marinho. guardei o livro sem continuar a leitura. no dia seguinte o monge me avisou que a odete viria ao mosteiro com a ana maria


magalhães e equipe para ver locações para o filme lara que a ana maria deve começar a rodar em setembro. no dia da visita, a produtora tania chegou antes e perguntei quem seria o fotógrafo do filme, e fiquei feliz com a reposta. finalmente poderei oferecer uma boa muqueca de robalo, orgulho capixaba, ao ricardo aronovich !!! e me lembrei que no sample que fiz do idade da terra do glauber (autorizado mediunicamente pelo próprio), para o vydeo, quem aparece em rápidos segundos num contraponto à cena de joel em itaúnas é o tarcísio meira e... ana maria. fiquei me sentindo em casa. e chega a odete, e os monges já tinham me raptado para trabalhar... quando voltei fiquei meio perdido. a sensação de conhecer um mito de infância é sempre esquisita e me embaraçou por mais que tenha disfarçado... mas, rápido engatamos um papo à partir do meu conhecimento do euclides... e falamos de krajcberg que odete, admira profundamente e deseja conhecer. e mais conversas sobre bossa nova e joão gilberto que foi quem deu coragem à ela para gravar, e helio oiticica... e no final descobrimos que a nossa aproximação com o zen, vem da literatura e vida dos beats. salve ginsberg, kerouac, burroughs... e eu ali, de frente para dois olhos maravilhosos, suas mãos na minha cintura e a lembrança de que aquela tinha sido a inspiração dos primeiros orgasmos. um dia odete, no outro la bardot... il.lusió i art é isso...


parte das anotaçþes do texto original


A edição deste livro é a primeira realização do projeto TARU que tem como objetivo organizar, documentar e tornar acessível a obra desenvolvida por Nenna entre 1970 e 2001.

TARU - significa “lua, sol, tempo, existência ... a vida”. Na língua dos índios botocudos que habitavam / circulavam no norte do ES. Foi anotado pelo príncipe Maximiliano de Weid-Neweid, no início do século XIX.


projeto

Coordenado por Juranda Alegro e Gomes recursos: Lei Rubem Braga - Prefeitura Municipal de Vitรณria Secretaria de Estado da Cultura do ES apoio: Centro Educacional Charles Darwin design grรกfico: Herbert Pablo e Nenna [aprovado por Ivan Alves] impressรฃo: Grรกfica Santonio vitรณria, ES / maio 2003



Bíblia