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Rudge Ramos JORNAL DA CIDADE

São Bernardo do Campo 4 6 de Junho de 2014 4 Ano 334 Nº 1.021

REPRODUÇÃO

Leia caderno sobre os 50 anos do regime militar

4FORA DO PRAZO SERGIO NETO/RRJ

4CÂMARA MUNICIPAL Dos 19 projetos votados até junho, 12 são do Executivo Pág. 2 CAIO DOS REIS/RRJ

Obras da rua Kara estão atrasadas; previsão de término era para abril. Pág. 3

3HANDEBOL Centro Nacional de Desenvolvimento da modalidade vai receber seleções durante preparação para Olimpíada Pág. 13

AOS LEITORES 4 O Rudge Ramos Jornal volta a circular a partir do mês de agosto


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POLÍTICA

- Rudge Ramos Jornal

Leia caderno especial sobre os 50 anos do golpe

6 de Junho de 2014

Circula encartado nesta edição do “Rudge Ramos Jornal” um caderno especial sobre os 50 anos do regime militar no Brasil, que durou de 1964 a1985. O caderno foi uma das atividades realizadas pelos estudantes do 5° semestre noturno do curso de Jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo. Além de ser um exercício na produção de um órgão laboratorial, o jornal especial sobre os 50 anos da dita-

dura, completados em 2014, serviu como uma reflexão dos alunos sobre aquele período e suas consequências no Brasil de hoje. “Os alunos entrevistaram políticos, cientistas sociais, cineastas e personalidades que, de alguma forma, vivenciaram aquele período”, declarou a professora doutora Margarete Vieira, editora do “Rudge Ramos Jornal”.

6DE OLHO NA CÂMARA

Projetos do Executivo são a maioria na Câmara Municipal LEONARDO VANTINI LUCAS ALENCAR

q Os vereadores da Câmara Municipal de São Bernardo aprovaram 14 de 19 projetos de lei que tramitaram nas 18 sessões ordinárias de quarta-feira e uma extraordinária, desde 1º de janeiro até 4 de junho deste ano. Os trabalhos na Casa vão até o dia 25 de junho. A maioria dos projetos é de autoria do Executivo. Dos aprovados, somente três são do próprio Legislativo, como a instituição do Dia Municipal do Folclore, proposto por José Luis Ferrarezi (PT), e a criação da Comissão de Proteção e Defesa dos Animais, de autoria de Antonio Cabrera (PSB). Outras duas propostas da própria Câmara que não foram aprovadas são a disposição de máquinas eletrônicas para contagem de público em estabelecimentos noturnos, de autoria de Tião Mateus (PT), e a obrigatoriedade dos estabelecimentos fornecerem ferramentas para o corte de sachês de molhos. O autor do projeto recusado por ser considerado inconsti-

tucional é o vereador Hiroyuki Minami (PSDB). Procurados para comentar os projetos, os vereadores não foram encontrados pela reportagem. Entre os 11 projetos do Executivo aprovados está a regulamentação de zonas para a construção de moradias populares. Não houve nenhum veto a propostas da prefeitura. O líder da bancada governista na Casa, vereador José Ferreira (PT), avaliou como positiva a produtividade do semestre. Disse que a pontualidade em aprovar os projetos do Executivo foi o destaque nos primeiros meses de trabalho. “Todas as propostas da prefeitura foram aprovadas dentro do prazo e o governo nos agradece por isso”, afirmou Ferreira. A bancada de apoio é composta por 20 dos 28 vereadores. O presidente da Câmara, Tião Mateus (PT), também avaliou o semestre positivamente. “Discutimos e aprovamos projetos importantes para a infraestrutura da cidade em muitas áreas, como mobilidade, educação e combate às enchentes.” Já o vereador Júlio Fuzari (PPS), líder da bancada de

4CONSELHO DIRETOR - Stanley da Silva Moraes Presidente, Nelson Custódio Fér – Vice - Presidente, Rev. Osvaldo Elias de Almeida - Secretário, Jonas Adolfo Sala, Aureo Lidio Moreira Ribeiro, Kátia de Mello Santos, Augusto Campos de Rezende, Marcos Vinicius Sptizer, Aires Ademir Leal Clavel, Oscar Francisco Alves Junior, Regina Magna Bonifácio de Araújo - Suplente, Valdecir Barreros - Suplente. 4REITORIA - Reitor - Marcio de Moraes, Pró-Reitora de Graduação - Vera Lúcia G. Stivaletti, Pró-Reitor de Pós-Grad. e Pesquisa - Fábio Botelho Josgrilberg

6 NÚMEROS DAS CIDADES TOTAL DE PROJETOS: 19

SÃO BERNARDO

Projetos do Legislativo: 7 3 aprovados, 2 não aprovados, 2 tramitando

TOTAL DE PROJETOS: 45 Projetos do Executivo: 31 30 aprovados e 1 não aprovado

SANTO ANDRÉ

Projetos do Legislativo: 14 14 aprovados

TOTAL DE PROJETOS: 43

DIADEMA

4DIRETORES - Sérgio Roschel (Diretor de Finanças e Controladoria), Daví Nelson Betts (Diretor de Tecnologia e Informação), Paulo Roberto Salles Garcia (Diretor de Comunicação e Marketing), Débora Castanha (Diretora do Ensino Básico), Carlos Eduardo Santi (Faculdade de Exatas e Tecnologia), Jung Mo Sung (Faculdade de Humanidades e Direito), Fulvio Cristofoli (Faculdade de Gestão e Serviços), Luiz Silvério Silva (Faculdade de Administração e Economia), Paulo Rogério Tarsitano (Faculdade de Comunicação), Rogério Gentil Bellot (Faculdade de Saúde) e Paulo Roberto Garcia (Faculdade de Teologia). 4COMUNICAÇÃO - Paulo Salles (Diretor).

Projetos do Executivo: 12 11 aprovados e 1 tramitando

Projetos do Executivo: 11 10 aprovados Projetos do Legislativo: 32 27 aprovados e 6 não aprovados

JORNAL

Rudge Ramos

editorial@metodista.br

oposição, composta por oito parlamentares, disse que as primeiras sessões do ano foram lentas e improdutivas, mas destacou que o principal empecilho dos vereadores é o governo da cidade. “Muitos projetos dos vereadores que são aprovados por nós são vetados pelo prefeito e, em vez de discutir o veto, os parlamentares acatam”, explicou. Fuzari ainda ressaltou que a falta de diálogo da prefeitura com a oposição impede maior produtividade na Câmara. OUTRAS CIDADES A Câmara Municipal de Diadema realizou 17 sessões ordinárias, que acontecem nas quintas-feiras, e cinco extraordinárias neste semestre. Nos primeiros seis meses deste ano, 27 dos 37 projetos aprovados na Casa foram de autoria dos vereadores. Dez, do Executivo. Em Santo André, a maioria dos projetos aprovados pela Câmara veio do Executivo. Os vereadores andreenses aprovaram 30 dos 31 projetos da prefeitura e os 14 propostos pelo Legislativo. As Câmaras Municipais de Diadema e Santo André são presididas pela oposição às atuais administrações das duas cidades. A reportagem solicitou o balanço de votação da Câmara Municipal de São Caetano, mas não obteve os números de sessões e de projetos aprovados e rejeitados. g

Rua do Sacramento, 230 Ed. Delta - Sala 141 Tel.: 4366-5871 - Rudge Ramos São Bernardo - CEP: 09640-000

RUDGE RAMOS JORNAL - PUBLICAÇÃO DO CURSO DE JORNALISMO DA FAC

DIRETOR - Paulo Rogério Tarsitano COORDENADOR DO CURSO DE JORNALISMO - Rodolfo Carlos Martino. REDAÇÃO MULTIMÍDIA - Editor-chefe - Júlio Veríssimo (MTb 16.706); EDITORA-EXECUTIVA E EDITORA DO RRJ - Margarete Vieira (MTb16.707); EDITOR DE ARTE - José Reis Filho (MTb 12.357); Assistente de Fotografia - Maristela Caretta (MTb 64.183)

4Equipe de Redação: Alysson Rodrigues, Amanda Goulart, Amanda Guilhen, Amanda Souza, Bruno Madrid, Bruno Yonezawa, Caio dos Reis, Fernanda Cordeiro, Gabrielli Salviano, Italo Campos, Leonardo Vantini, Letícia Gomes, Lucas Alencar, Oscar Brandtneris, Renan Muniz, Sergio Neto, Thaís Souza, Yago Delbuoni e alunos do 5º e 6º semestres de Jornalismo.

4Produção de Fotolito e Impressão: Diário do Grande ABC


Quatro vereadores são pré-candidatos ao cargo de deputado em outubro LEONARDO VANTINI LUCAS ALENCAR

q Quatro dos 28 vereadores da Câmara Municipal de São Bernardo declararam que são pré-candidatos nas eleições de outubro de 2014. Caso sejam referendados nas convenções de seus partidos, concorram e vençam, abrem espaço para que seus suplentes assumam o resto do mandato, que vai até 2016. Um dos pré-candidatos é o vereador Rafael Demarchi (PSD),

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CIDADE

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que deve se candidatar a deputado federal a convite do presidente do partido, Gilberto Kassab. “O partido me selecionou porque, em minha primeira eleição, fui o sexto mais votado da cidade e um dos que mais apresentaram projetos na Câmara, desde 2012”, disse Demarchi. Outro pré-candidato à Câmara dos Deputados, em Brasília, é o vereador Pery Cartola (SDD). Já os parlamentares Gilberto de França (PMDB) e José Alves (PR) declararam a intenção de concorrer ao cargo

de deputado estadual, na Assembleia Legislativa do Estado. Os três vereadores foram procurados pela reportagem para comentar a candidatura, mas não foram encontrados. Os partidos políticos têm o período entre 10 e 30 de junho para realizar suas convenções e formalizar as candidaturas de seus filiados. BOLÃO Se depender da vontade dos vereadores de São Bernardo, o zagueiro Thiago Silva, capitão

da seleção brasileira, irá erguer a taça da Copa do Mundo, em 13 de julho, na final do torneio. Na sessão da última quarta-feira (4), a reportagem perguntou para 24 dos 28 vereadores sobre as expectativas para a final da Copa. Dos entrevistados, o único que não aposta na vitória do Brasil é o vereador Osvaldo Camargo (PPS), que acredita que a Argentina conquistará o troféu. Já o vereador Estevão Camolesi (PPS) não opinou, pois afirmou que não companha o esporte. Para os outros 22 vereadores, o Brasil deve conquistar o hexacampeonato. Entre as seleções favoritas para enfrentar o Brasil na final, as mais votadas pelos vereadores foram Argentina e Alemanha. Espanha e Itália foram as mais votadas entre os vereadores que disseram que apoiam outras seleções, a maioria por conta de suas descendências. g

6 PALPITE Quem vai ganhar a Copa Brasil Argentina

22 1

Quem vai ser vice-campeão Argentina Alemanha Espanha Itália Chile

11 9 1 1 1

Segunda seleção dos vereadores Espanha Itália Portugal Alemanha

3 2 1 1

6DE OLHO NA CIDADE FOTOS: SERGIO NETO/RRJ

Ampliação da rua Kara atrasa e segue sem previsão de término SERGIO NETO

q A ampliação da rua Kara, no Jardim do Mar, em São Bernardo, iniciada em junho de 2013, com o objetivo de chegar até a avenida Aldino Pinotti, não tem prazo para acabar. Pelo menos é isso que mostra a placa da obra, que teve a previsão de conclusão apagada. Antes, estava escrito que o término dos trabalhos seria em abril deste ano. As reformas estão sendo feitas com o objetivo de ajudar a desafogar o trânsito da região do Paço Municipal, reduzindo o volume de carros em 30%. A via, após a ampliação, irá dobrar de tamanho, alcançando a avenida Aldino Pinotti. O prolongamento da rua está sendo realizado através

do terreno que um dia abrigou a indústria têxtil Tognato. O orçamento inicial era de R$ 1,6 milhão. Mas o valor pode sofrer mudanças de acordo com as necessidades. Em nota, a Prefeitura de São Bernardo informou que o atraso se deve às obras do piscinão na avenida Aldino Pinotti e confirmou que não há previsão de nova data para conclusão. A placa de informação do local foi pintada e nela não consta nova data. Enquanto isso, as obras na Aldino Pinotti têm conclusão prevista para meados de 2015. Outras vias podem ser utilizadas como alternativas na região do Paço, como as avenidas Aldino Pinotti e Lauro Gomes. Porém esses caminhos também apresentam tráfego intenso nos horários de pico. g

Placa previa fim da obra para abril; no destaque, mesma placa foi coberta na parte da data

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4 - Rudge Ramos Jornal

REGIÃO

6 de Junho de 2014 FOTOS: PAOLA CRUVINEL/RRJ

PAOLA CRUVINEL q A prática da venda de objetos usados tem se tornado frequente na internet. Agora, ao invés de roupas, móveis e outros itens irem parar no lixo ou simplesmente acumularem pó em um canto da casa, os objetos ganham novos lares com vendas promovidas por meio da web. Mais do que uma fonte de renda, o propósito desse mercado online é renovar e passar adiante objetos usados sem depreciá-los. A novidade é que não se usam mais apenas sites especializados em vendas. Blogs e páginas de redes sociais, como Tumblr e Facebook, também passaram a ser usados para se desfazer de tudo aquilo que não se quer mais. É o caso do lojista Flávio Colognesi, de São Carlos, que após manter por quatro anos a venda de CDs, DVDs e LPs na internet como hobby, decidiu transformar a brincadeira em negócio e, além de vender em sites como o Mercado Livre, montou o grupo “Hell Bonito Discos” no Facebook. Apenas no Mercado Livre, o lojista

Site de usados vende de LPs até mobiliário vendeu nos últimos três meses 112 produtos. Além disso, Colognesi inaugurou em 2010 uma loja física, que conta atualmente com a maior porcentagem de vendas desde o lançamento. “Não via muita vantagem em ter uma loja virtual e passei a vender em sites para poder comprar outros discos, mas só como hobby mesmo. Hoje também utilizo o grupo no Facebook, que rende até mais do que os sites de venda”, explicou. Quem utiliza os grupos de redes sociais para publicar

anúncios pode estipular regras aos usuários e oferecer seus serviços sem nenhum custo publicitário. Já os sites de venda cobram cerca de 10% do valor total do produto negociado. A motivação de alguém que compra objetos usados pela internet, na maioria dos casos, é economizar ou adquirir produtos que não são encontrados facilmente em lojas comuns. O jornalista Vladimir Ribeiro, 35, iniciou a compra pela internet há cerca de sete anos. O andreense conheceu Colognesi em uma feira de LPs e, desde en-

tão, é cliente assíduo do lojista. “Eu compro principalmente CDs e LPs antigos, ás vezes importados, coisas que só acho na internet mesmo, e que antes só havia visto por foto. Já peguei muitos livros também que não encontro comumente em sebos”. O casal de empresários Ana Luiza e Tie Lima, 30 e 32 anos, tiveram uma história parecida com Colognesi. Após manter por três anos um blog para a venda de produtos usados como hobby, resolveram criar um site de vendas. Desde

Apaixonado por LPs, Vladimir compra há mais de sete anos por meio de sites e grupos em redes sociais 2012, circula na web o enjoei. com, página que faz a intermediação de roupas, acessórios, móveis e eletrônicos usados. Qualquer produto pode ser anunciado no site, desde roupas, calçados até itens como óculos, relógios, entre outros. Para anunciar, é preciso se cadastrar, definir um preço e acrescentar a descrição do produto. g


Mercado de antiguidades ganha espaço na região MARIANA FONTAINHAS q Roupa dos anos 70 ou 80, tanto masculina quanto feminina, discos de vinil, carrinhos de bebê, brinquedos, brincos, colares, móveis, peças de decoração e até relógios. Todos usados e à venda. É o mercado de antiguidades que virou um negócio. A compra e venda de roupas usadas, por exemplo, já tem forte concorrência. Essa é a opinião de Paulo Veri, dono da loja Brechó da Marcia, em Santo André. “Quando abri minha loja, há 15 anos, eu era um dos primeiros no ABC. Agora tem muita concorrência, mas ainda há mercado”, afirmou o comerciante. Para Veri, o segredo de se manter no mercado de usados há tantos anos é ter peças de qualidade e

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REGIÃO

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comprar barato para vender barato. “Eu agendo horário com as pessoas que querem vender roupas e separo o que está em bom estado. Chego a atender 100 pessoas por semana”, declarou. Segundo o comerciante, a procura maior do brechó é por roupas masculinas. “Nós temos muita procura por roupas masculinas, mas poucas opções. Já roupa feminina é mais fácil de achar e de vender. As mulheres usam roupas até sair de moda, já os homens usam até furar”. Mas o comércio de coisas usadas não se restringe somente a roupas. No mercado há mais de 30 anos, a comerciante Lúcia Buzo, dona da loja Portal das Maravilhas, em São Caetano, conta que o mercado de antiguidades é muito variado. Na loja, há venda desde artigos de decoração, como quadros, abajures e vasos, até

MARIANA FONTAINHAS/RRJ

vitrolas e móveis. No entanto, existem algumas dificuldades para quem trabalha com antiguidades no ABC. “Por aqui, quem gosta de peças antigas geralmente não procura na região, vai direto para São Paulo procurar nos Antiquários ou nas lojas específicas, que trabalham só com peças antigas”, disse Lúcia.

Para compensar a pequena demanda do ABC, a internet se tornou uma aliada e ajuda nos negócios. “A procura de peças pela internet é bem maior do que o movimento da própria loja. Eu acabei de vender duas peças pela internet”, declarou. A passos pequenos o mercado de venda e compra de peças antigas ainda está cres-

Itens customizados escapam do lixo RAPHAEL ANDRADE q Quando um sofá sai de moda ou não é mais tão utilizado, a tendência é vendê-lo ou até mesmo jogá-lo fora. Porém não é só porque um objeto não atende mais as necessidades do dono que ele deve ser descartado. Uma ONG em Diadema resolveu reverter este cenário e criou o projeto “FeirArte Beija-flor”, que visa reaproveitar objetos e móveis usados. A ideia da iniciativa é pegar utensílios antigos que não são mais utilizados e dar uma cara nova a eles, prolongando assim a vida útil do produto. Para o coordenador da organização sem fins lucrativos Rede Cultural Beija-Flor, Djalma Santos, o conceito do projeto é bem simples. “Se um móvel já tem 50 anos, então com certeza ele pode durar mais outros 50, se ele tiver uma cara diferente, melhorada. A gente ao customizar acaba que-

brando esse ciclo de compra e venda, do produto que tem data para se deteriorar.” Santos explica como o projeto funciona: “Nós temos um grupo de jovens num projeto nosso chamado “Jovens Guerreiros”, e eles vão de porta em porta conversando com os moradores das comunidades próximas e dos condomínios, para ver se conseguem móveis antigos, equipamentos ou objetos de arte para nós.” Depois, os produtos são levados até a sede da entidade onde são higienizados e customizados, sem qualquer alteração na estrutura original dos objetos, por artistas plásticos que também atuam como educadores na ONG. Só então os objetos são colocados à venda com o objetivo de angariar recursos para a associação. O valor ainda não foi definido, mas os móveis devem ser vendidos por meio de rifas e sistema de leilão. No dia do evento, reforma-

Ventilador Veritys de 1939 e Máquina de Escrever Remington dos anos 70 estão sendo vendidos na loja

cendo. É possível que ele ainda não tenha atingido seu auge. Vladimir Oberling, comerciante, afirmou que acredita que a procura está aumentando, mesmo que o brasileiro não tenha uma cultura forte de resgatar coisas mais antigas. “O tipo de cultura de resgatar objetos dos pais ou dos avós ainda faz falta para o mercado. A maior parte das pessoas ainda vem simplesmente vender, mas há casos em que o dinheiro não paga o valor sentimental que uma peça, mesmo que pequena, tem”, declarou. g DIVULGAÇÃO

dores profissionais de objetos devem fazer recuperações de móveis ao vivo, explicando para os presentes o passo a passo da ação. O coordenador contou que espera uma grande adesão dos moradores da comunidade, assim como membros de classe média, tanto em relação às arrecadações, quanto para a venda dos objetos. Todo o processo é feito por voluntários da entidade, desde

Grupo da entidade Jovens Guerreiros é responsável pela captação do mobiliário a obtenção de objetos até a venda dos mesmos. O valor arrecadado é revertido para a abertura de novos cursos na entidade, assim como para a manutenção da sede. A ONG ainda está em pro-

cesso de arrecadação de objetos e não definiu a data do evento. “Ainda não temos o número de doações que esperamos, por isso nós preferimos não escolher uma data para o projeto”, disse Santos. Para doar objetos ou ficar atualizado com o andamento da iniciativa é só visitar a página da ONG no Facebook: www. facebook.com/rcbeijaflor ou entrar em contato pelo telefone 4049-4440. g


6 - Rudge Ramos Jornal

COMPORTAMENTO

OBJETIVIDADE

CERTO

DESCREVER EXPERIÊNCIAS ANTERIORES

MARINA CID q Fotos indevidas, informação em excesso, falta de objetividade. Estes são apenas alguns dos pecados capitais mais comuns cometidos na hora de montar um currículo. Ele é o cartão de visitas do candidato e deve ser um resumo das competências para se exercer uma atividade. De acordo com a consultora de gestão e transição de carreiras da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), Sirley Carvalho, a quantidade de currículos com erros é superior à daqueles feitos corretamente. “A falta de transparência textual é o maior erro que o candidato pode cometer porque o recrutador fica perdido ao analisar este currículo. Como ele não tem tempo a perder, um currículo não objetivo acaba sendo descartado facilmente”, falou. Sirley ainda explicou que é importante destacar a experiência profissional e explanar

TRANSPARÊNCIA

O que deve e o que não deve ter no

CURRÍCULO

CURRÍCULO CURTO (ATÉ DUAS PÁGINAS É O IDEAL)

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com clareza qual é o cargo almejado. “O candidato deve escrever sucintamente seu objetivo e nunca se alongar muito ao mostrar suas qualidades pessoais.” Ser objetivo também é indispensável para currículos em sites como vagas.com. Neles, os currículos são filtrados por um sistema que seleciona as palavras-chave. Segundo a ABRH, apenas 20% dos currículos recebidos foram aproveitados no ano passado. Esse baixo índice ocorre porque, na maioria das vezes, os currículos que chegam para certa vaga não condizem com o perfil an2unciado. Outros erros inaceitáveis são o uso de e-mails com nomes infantilizados ou pejorativos, citar idiomas que você na verdade não fala e, acima de tudo, mentir. A palavra-chave na hora de montar um currículo é transparência. “Esta é a regra de mercado hoje. Não importa quanta experiência profissional você teve, o que importa é sempre

dizer a verdade”, contou Sirley. Um outro erro comum é o gramatical. Sirley disse que, quando há um ou dois erros não tão graves e o cargo concorrido não é alto, os recrutadores costumam relevar. Mas quando há vários erros e o candidato concorre a uma vaga de gerên-

ERROS GRAMATICAIS

FOTOS DE BOOK, COM AMIGOS OU EM POSES INDEVIDAS

ERRADO E-MAIL INFANTILIZADO

FORMATAÇÃO IRREGULAR

MENTIR cia, por exemplo, isso vira um fator de exclusão. “Outro problema é o inglês. Geralmente, isso acontece quando a pessoa paga para aquelas empresas que fazem currículo e ele não conhece jargões da profissão, como ‘headhunter’ (caça talentos). Ele envia o currículo sem conferir e esses erros se tornam um grande problema”, apontou. Em relação às redes sociais, a gestora contou que os recrutadores geralmente não olham Facebook, Twitter ou similares. Contudo, o perfil do candidato no Linkedin, que é uma rede social específica para profissionais, é um importante meio de comunicação. Por isso a diretora explica que é importante manter seu perfil nessa rede atualizado. “Sinceramente, os recrutadores não têm tempo para isso. Eles vão direto para o Linkedin, principalmente quando são cargos mais altos. O selecionador já pergunta direto na entrevista ‘Você está

no Linkedin?’.” Um currículo organizado e esteticamente agradável de ler impressiona de cara o selecionador e isso reflete o que o próprio candidato é. Além disso, o currículo deve seguir uma ordem cronológica. “Não adianta colocar que você trabalhou em tal lugar há 10 anos no topo do currículo para chamar atenção do recrutador. Ele vai querer saber seu histórico mais recente de empregos”, afirmou. Mesmo para quem está entrando no mercado agora e não tem experiência anterior alguma, também é possível montar um bom currículo. Se o candidato ainda é estudante, ele pode citar atividades extraclasse feitas na escola e trabalhos voluntários, por exemplo. “Hoje, é completamente admissível alguém de até 22 anos não ter nenhuma experiência profissional. É importante que ele diga o que ele fez e o que ele quer fazer.” g


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Preparar um bom CV é essencial para os jovens RODRIGO MOZELLI q Ter um currículo bem montado, com informações essenciais é algo muito importante quando o jovem quer entrar no mercado de trabalho, principalmente após se formar. O problema é que muitos não sabem como elaborar um currículo e acabam fazendo de maneira errada. Para isso, algumas pessoas fazem esse serviço, como o dono da ABR Serviços Digitais, Antonio Baltazar Rodrigues, que está há quatro anos no mercado e conta que não precisou de curso para aprender a preparar um CV. “Já sabíamos fazer por experiência própria no trabalho”, disse. Ele cobra R$ 3 por serviço, e a maior parte de quem o procura são jovens. Rodrigues ainda afirmou que considera as agências de emprego tradicionais e os sites de criação de currículos online os principais concorrentes dele. sas especializadas em recolocar os jovens no mercado de trabalho como estagiários e ajudar os jovens com dúvidas que eles venham a ter, além de darem suporte para quem necessita criar o currículo, como conta Luciana Rosmaninho, 30, analista de treinamento e desenvolvimento do Nube (Núcleo Brasileiro de Estágios). Segundo ela, o jovem deve elaborar o CV indicando a área na qual deseja trabalhar, além de tudo o que ele já fez de mais relevante, como, por exemplo, um curso de idiomas. “É importante que o re-

crutador fique curioso em ler o currículo e tenha interesse em saber mais sobre o candidato”, afirmou. Heitor Cintra formou-se em Economia em 2013 e está tentando entrar no mercado de trabalho, mas até o momento, não conseguiu. Cintra diz que chegou a estagiar durante a graduação, e acha que as empresas do ramo dele são mais exigentes para selecionar este tipo de profissional. “Eu concorro não somente com pessoas de Economia, mas também de Administração e Engenharia”, completou. Ele ainda conta que não tem ideia de quantos currículos já enviou até agora. “Com certeza, mais de 10. Foram muitos.” Ele falou que a maioria dos contatos que ele fez com empresas foi via internet. “Mas prefiro entregar na mão, para ter um contato presencial.” A Vigel é uma agência de recrutamento tradicional. De acordo com Morgana Sarro advogada e administradora da área de Recursos Humanos da empresa, a internet é a principal ferramenta de seleção, pois ela facilita a triagem dos currículos. “Existem campos que ajudam o candidato a montar o dele”, disse. Morgana afirma que a média de idade de quem os procura é entre 20 e 40 anos, e que muitos jovens não têm experiência anterior, por isso não preenchem tais dados. Para estes, ela dá uma dica: “Ele tem que colocar o que está habilitado a fazer, o que conhece, idiomas etc.” g

Internet é nova ferramenta para procurar emprego YAGO DELBUONI q Mesmo que haja o método tradicional de procurar emprego com o currículo impresso e a distribuição nas empresas pessoalmente, há aqueles que apostam em cadastrar seus currículos em sites e fazer a distribuição eletronicamente. Um local onde os candidatos podem colocar os seus atributos para buscar um emprego é o site da Catho.

Em 2013, o canal de buscas de emprego conseguiu colocar 184 mil pessoas no mercado de trabalho. Para ter um emprego, o candidato deve tirar detalhes desnecessários no currículo, que pode resultar no descarte dele: “Um em cada quatro currículos é descartado por conter fotos inadequadas, erros de português e letras coloridas”, afirmou a assistente de marketing da Catho, Tatielle Bragante, por e-mail.

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COMPORTAMENTO

PORTFÓLIOS ONLINE E SITES GANHAM NOVOS ADEPTOS MARINA CID /RRJ

q Novos tipos de currículos vêm surgindo a cada dia. O que está em alta agora é ter um site pessoal ou um portfólio online. Eles são ótimas ferramentas para impressionar os recrutadores. Mas eles devem ser impecáveis e estar sempre atualizados. Currículos online são velhos conhecidos de quem trabalha com design, por exemplo. No ramo há 15 anos, a designer gráfica Amanda Vivan já mantém um portfólio desde os tempos da faculdade. No fim dos anos 90, quando ela se formou, não eram comuns portfólios online. Amanda levava então uma pasta com seus principais trabalhos de faculdade. Desde que montou seu primeiro portfólio online em 2008, a designer sente que há muita procura. “O site é para um primeiro contato com um possível cliente e com ele muita gente acaba me procurando por lá. Como atualmente eu sou

A representante do site de buscas de emprego aponta como um bom currículo aquele que está focado na área de interesse do profissional, destacando objetivamente seus pontos fortes, como principais conhecimentos, resultados obtidos nas empresas em que atuou e aptidões desenvolvidas no decorrer da carreira. No mercado, há outros sites que trabalham com o cadastro de currículos como o vagas. com. Neste local, os interessados colocam suas qualificações e as empresas já cadastradas procuram seus candidatos. A reportagem não conseguiu contatar a empresa.

autônoma e trabalho de casa, ele é meu principal meio de contato”, disse. Já Luan de Almeida (acima), designer virtual (quem cria a identidade virtual de uma empresa online), montou uma agência logo que saiu da faculdade, há um ano, e colocou na rede um portfólio online há cerca de um mês. Segundo ele, a facilidade na troca de informações ajuda a conquistar novos clientes por meio da indicação de quem já trabalha com ele. “Ter um portfólio traz bastante visibilidade. Depois que o inserimos, começamos a ter mais clientes. Estes acabam indicando para outros, o que faz o negócio prosperar”. No portfólio online, o importante são os seus trabalhos. “Selecione apenas os melhores, porque volume não quer dizer qualidade. Tente surpreender com uma identidade visual própria das suas criações”, finalizou o designer. (M.C.) g

Em relação às redes sociais, como Facebook e Twitter, Tatielle disse que elas são de uso pessoal, e deu dicas para quem está na procura de um emprego: “Evite comentários preconceituosos; não use a rede para falar mal da empresa em que trabalha ou reclamar de alguma atividade, isto deve ser feito no seu próprio ambiente corporativo”, disse. A gestora de Recursos Humanos da Inylbra, empresa especializada em produtos para carros de Diadema, Nelcy Silva, disse que utiliza os recursos eletrônicos para conferir os currículos. Depois disso, ela faz a entrevista com o candidato

pessoalmente. Ela cita que um dos fatores responsáveis para a classificação de uma pessoa é adequação na vaga. “Nós temos um perfil traçado, o concorrente deve se adequar a estas especificações para que ele consiga estar na empresa.” Nelcy afirma que, além da adaptação ao estilo da empresa, outros fatores são levados em consideração na análise do currículo. “É importante que o concorrente tenha uma boa formação e o tempo que ficou nas outras empresas, isto é, se ficou pouco tempo nos últimos dois empregos, não é bom, é mais provável que o funcionário possa ser um problema.” g


8 - Rudge Ramos Jornal THAÍS VALVERDE

q A DPM (Delegacia de Proteção à Mulher) de São Bernardo teve 140 registros feitos por mulheres em abril, 122 eram de violência doméstica. De acordo com a escrivã chefe de polícia Juliana Lopes Zanetti, 40% das vítimas perdem o interesse de continuar com o processo judicial. “Esta é uma realidade nas três Delegacias de Proteção a Mulher da região e em muitas outras pelo país”, disse Juliana. Na DPM de Santo André, segundo a delegada responsável, Adrianne Mayer Bontempi, dos 200 atendimentos feitos em média por mês, 40% das vítimas não costumam recorrer na Justiça. “Algumas vítimas não vão ao IML (Instituto Médico Legal), não comparecem na intimação e mudam até mesmo de endereço para não continuar o processo”. A Lei Maria da Penha foi criada há sete anos e oferece às mulheres vítimas de violência doméstica a possibilidade de fazer boletim de ocorrência para instaurar inquérito policial e ocasionar procedimentos jurídicos para penalizar o agressor. Medo de represália, dependência financeira e afetiva, falta de autoestima e o próprio machismo imposto às mulheres são alguns dos motivos que o psicólogo Antônio Carlos Gonçalves avalia que mantêm mulheres em situação de violência. “Existe também a fase de arrependimento do agressor, na qual ele busca compensar a mulher pelo que fez.

COMPORTAMENTO

Mulher denuncia

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6 LOCAIS NO ABC Delegacias de Proteção à Mulher: São Bernardo: Rua José Meza Mendonça, 40, Jardim do Mar Santo André: Praça Ministro Salgado Filho, 674, Vila Alpina Diadema: Av. Santa Maria, 27, Centro

mas desiste de processar o agressor THAÍS VALVERDE/RRJ

Boletim de Ocorrência instaura inquérito policial e ocasiona desdobramentos jurídicos para penalizar o agressor Nessa fase, a mulher tem um ganho real de carinho e bens materiais, mas também alimenta sua ilusão da família perfeita”, afirmou Gonçalves. Adrianne conta que “existem mulheres que, infelizmente, lidam com naturalidade em relação à agressão”. No início de maio, a DPM de San-

to André começou a oferecer atendimento multidisciplinar, que reúne psicólogo, assistente social e apoio judicial com advogado.

PROJETOS E IDEIAS O projeto “Vem Maria”, de Santo André, o Centro de Referência e Apoio à Mulher Márcia Dangremon, de São Bernardo, e a “Casa Beth Lobo”, de Diadema, são os locais dedicados ao acolhimento das vítimas de violência doméstica. No ano passado, o “Vem Maria” atendeu aproximadamente 870 mulheres e as outras casas recebem em média 30 casos por mês. A região ainda não possui um banco de dados dos atendimentos nas Delegacias da Mulher, nos Centros de Apoio à Mulher, nos CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social), e também dos serviços de saúde unificados que apontem um número exato sobre violência contra a mulher no ABC. A secretária de Políticas Públicas

Centros de Referência e Apoio à Mulher: Márcia Dangremon: Rua Doutor Flaquer, 208, 2º andar, Centro - SBC Vem Maria: Rua João Fernandes, 118, Bairro Jardim - Santo André Casa Beth Lobo: Rua Amélia Eugênia, 292, Centro - Diadema Ribeirão Pires: Serviço de Atenção à Pessoa em Situação de Violência Rio Grande da Serra: Coordenadoria da Mulher e o Cras (Centro de Referência da Assistência Social) Mauá e São Caetano: CREAS

para Mulheres de Santo André, a socióloga e professora da Faculdade de Medicina do ABC Silmara Conchão, afirma que o desafio é tirar a Lei Maria da Penha do papel. “Isto só acontece com um trabalho pautado em rede e na reeducação da nossa sociedade que naturaliza as desigualdades entre homens e mulheres”, disse Silmara. MUDANÇA NA LEI Um projeto de lei está em discussão no Congresso Nacional para modificar e acrescentar dispositivos à Lei Maria da Penha dando mais poderes para os policiais. Pelo texto, o delegado vai poder determinar de imediato que a mulher se afaste do agressor. Hoje, o afastamento é determinado por um juiz e pode levar até 48 horas. g


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São Bernardo do Campo DA CIDADE 6 de Junho de 2014

ANOS DO GOLPE MILITAR A adesão e a oposição da mídia ao movimento de 1964, o sindicalismo combativo do ABC que contestou os generais, a criação da Comissão da Verdade em 2012 e como o cinema retratou o período são alguns dos temas deste caderno.


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ós tivemos algum desenvolvimento em relação às comunicações, energia elétrica e no sistema bancário. 4 Walter Grecov, economista

anos de ditadura militar atrasaram o desenvolvimento do Brasil

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MURILO TORETTA/RRJ

MURILO TORETTA, PRISCILA HERMANN E THAIS ROMANO

q O golpe militar de 1964 trouxe atrasos para o desenvolvimento do Brasil. Logo após um período turbulento, a ditadura se concretizou e fez com que o Brasil agravasse até sua dívida externa.

ntes do golpe, João Goulart se aproximou de movimentos sindicais e tentou elaborar um programa chamado “reformas de base”, que consistia em mudanças para os setores agrário, tributário e administrativo do país. Mas, segundo o ex-sindicalista e sociólogo Dirceu Marcos, as reformas propostas pelo presidente nem chegaram a sair do papel. “Houve um descontentamento da oposição formada por ruralistas, militares e setores da classe média em relação às reformas. Esse seria um dos motivos que culminaram com o golpe de 64, que, a meu ver, acabou atrasando o Brasil em 50 anos”, contou. Marcos participou da greve conhecida como “Batalha de Piraporinha”, no ano de 1989, em que os metalúrgicos do ABC reivindicaram a recuperação das perdas salariais sofridas com a alta inflação do período pós ditatorial. Os trabalhadores saíram em passeata até a sede dos metalúrgicos em Diadema, mas foram confrontados pela polícia na metade do caminho. “Durante o confronto, cinco metalúrgicos foram baleados,

ECONOMIA No período da ditadura (1964-1985) havia dois partidos, Arena (Aliança Renovadora Nacional) e MDB (Movimento Democrático Brasileiro). Como candidato a deputado estadual pelo MDB, o atual senador Eduardo Suplicy (PT) lutou pela liberdades democráticas e contra a censura. No final dos anos 70, o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e de Diadema sofreu intervenções. “Isso fazia com que nós tivéssemos uma dificuldade muito grande para que os trabalhadores em geral pudessem ter voz, expressar seus sentimentos e reivindicar melhorias diversas, tanto quanto de trabalho como de cidadania”, contou Suplicy. O Brasil foi inteiramente atingido por atos do período da ditadura militar. Dentre as áreas afetadas, destaca-se a economia, que sofreu um atraso durante os anos 80, conhecido como “a década perdida”. Para o economista Walter Grecov, é difícil mensurar em anos o nível de atraso sofrido pelo Brasil. DIVULGAÇÃO

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eu fui um deles. No final, apenas parte das reivindicações dos trabalhadores foi atendida e ainda fui demitido por justa causa”, explicou.

Ex-sindicalista Dirceu Marcos mostra calça baleada durante a batalha de Piraporinha; no detalhe, Eduardo Suplicy (PT), senador e ex-integrante do MDB

“Apesar dos problemas políticos, nós tivemos algum desenvolvimento em relação às comunicações (Embratel), energia elétrica (Itaipu) e no sistema bancário (do Banco Central) ao longo dos anos 70”, explicou. Durante os anos de 1968 até 1974, houve um crescimento do PIB (Produto Interno Bruto), caracterizado por alta concentração de riqueza, de tal maneira que no final dos anos 80 o Brasil estava entre os três países mais desiguais do mundo. Para o desenvolvimento nessas áreas foi gerada uma grande dívida externa, que sufocou o país na época. A falta de desenvolvimento educacional e a péssima distribuição de renda são outros pontos negativos que atingiram o país nesse período, segundo especialistas. “Durante os anos 90, com o Plano Real, conseguimos estabilizar a economia, voltamos a investir e crescer, mas a ‘década perdida de 80’, em termos econômicos, ficou marcada”, declarou Grecov. O grau de democratização das instituições brasileiras eleitorais foi muito tardio devido ao regime militar, sendo desenvolvido gradativamente. Para Suplicy, hoje é possível ver que, com 12 anos de governo Lula e Dilma, do PT, o Brasil conseguiu combinar o crescimento da economia com a erradicação da pobreza extrema. Porém o país ainda sofre por ações ocorridas durante o período militar. “Não conseguimos nos recuperar inteiramente do que os 21 anos de ditadura trouxeram, tanto quanto de restrições e perseguições. Eu diria que o Brasil atrasou em pelo menos 30 anos”, afirmou o senador. g


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gente ouvia um ou outro barulho de máquinas e, no abafa, 100% pararam. 4 Gilson Menezes, sindicalista

Sindicalismo no ABC questiona RENAN ESTEVES, ROBERTO BUENO E TAYNARA MELO

q A greve por melhores condições salariais na fábrica de caminhões e ônibus da Scania, em São Bernardo, foi o anúncio para o Brasil de que a ditadura militar estava entrando na reta

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final. Ocorrida no dia 12 de maio de 1978, foi liderada pelo ferramenteiro Gilson Menezes, então com 27 anos. A greve naquela sexta-feira, organizada só três dias antes, pegou a diretoria da empresa e órgãos de repressão de surpresa. FOTOS: DIVULGAÇÃO/LAÉRCIO MORAES/CEDOC CUT

ós não tínhamos direito de falar a palavra greve. Nós fizemos a paralisação na Scania sem usar esse termo e conversando com os companheiros no banheiro”, contou Menezes. O sindicalista, e ex-prefeito de Diadema (1983 – 1988) pelo Partido dos Trabalhadores (PT), contou que a fábrica da Ford e outras indústrias da região também pararam. Esse fato não ocorreu apenas no ABC, mas por todo o Brasil. As mais diferentes categorias se uniram à ação, como a dos rodoviários e a dos professores. O ferramenteiro aposentado acredita que esta greve ajudou a iniciar uma sucessão de movimentos por todo o ABC, os quais acabaram levando à criação do PT e a encaminhar surgimento da Anistia no Brasil, que trouxe de volta para o país exilados políticos. “Eu não sou muito religioso, mas sou cristão. Eu acho que Deus me deu uma oportunidade muito grande, porque eu sei que essa greve da Scania foi o ato mais importante para a conquista da redemocratização. Não estou falando que outros não foram, mas este foi”, explicou Menezes.

Ele também lembra como agiu no dia da eclosão da greve: “Eu peguei um líder de cada seção. Eles deveriam ir até a ferramentaria verificar se ela tinha parado mesmo. Nós ficaríamos de braços cruzados antes da sete da manhã. Cada líder correria de volta, muitos de bicicleta, e avisaria: a ferramentaria parou. A gente ouvia um ou outro barulho de máquina e, no abafa, 100% pararam”. PONTAPÉ INICIAL A greve da Scania, que teve como reivindicação aumento salarial, pode ser considerada o pontapé inicial pela redemocratização do Brasil. O sociólogo e participante da greve Augusto Portugal explica que “se você considerar o argumento de que a entrada em cena da classe trabalhadora, do movimento sindical e da população pobre lutando por democracia significa uma qualidade nova, sem dúvida alguma isso é indiscu-

tível. O peso do ABC parado e com faixa pedido anistia ampla, geral e irrestrita e a liberdade sindical é a prova”. Portugal diz ainda que, a partir das greves ocorridas, o governo militar “entra numa espiral ascendente na repressão, mas descendente do ponto de vista do seu domínio sobre a sociedade e tenta fazer uma transição negociada”. E teria sido negociada por pressão da esquerda e do movimento operário. Segundo o livro “Brasil: De Castelo a Tancredo”, do historiador e brasilianista americano, Thomas Skidmore, as greves ocorridas em 1978 no ABC, por não terem ocorrido atos de violência, ficaram conhecidas como “Greves Brancas”. Ao contrário do aconteceu nas dos anos seguintes. Nas de 1979 e 1980, o governo militar interveio no Sindicato dos Metalúrgicos, afastando o seu presidente na época. Luiz Inácio Lula da Silva. Ele chegou a ser preso nas

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manifestações de 1980. Os metalúrgicos do ABC iniciaram o “novo sindicalismo”. Movimento que não se curvaria ao que os sindicatos patronais e as indústrias impunham, o que, no jargão do movimento sindical, é conhecido como peleguismo. Este “novo sindicalismo” acabou fortalecendo outras ideias e movimentos pelo Brasil. No próprio ABC, pouco depois das greves de 1978, mas ainda no mesmo ano, se começou a pensar na fundação de um partido político que desse voz à classe operária, mas não só a ela. Foi quando se começou a pensar na criação do Partido dos Trabalhadores (PT), que foi fundado em outubro de 1980. As primeiras reuniões para a fundação de uma central de trabalhadores sob a qual os mais diversos sindicatos e entidades sindicais se reunissem aconteceram nos mesmo periodo. Mas o primeiro Congresso Na-

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Manifestações no ABC deram origem ao “novo sindicalismo” e fortaleceram outras ideias e manifestações pelo Brasil

cional da Classe Trabalhadora (Conclat) ocorreeu só em 28 de agosto de 1983. Nele, a CUT (Central Única dos Trabalhadores) foi criada. A Lei de Anistia também é fruto desse período. Promulgada em 28 de agosto de 1979, livrou militares e militantes de acusações de crimes políticos ou praticados por motivos políticos relacionados ao período de 2 de setembro de 1961 a 15 de agosto de 1979. Atos fpopulares inspiraram o movimento Diretas Já, iniciado em 1983. O movimento consistiu na ida da população às ruas para retomar o voto para presidente. Mesmo sem sucesso, a a ação mostrou como uma população organizada pode movimentar o país. A emenda das diretas, do deputado Dante de Oliveira, foi rejeitada pelo Congresso Nacional em 25 de abril de 1984, por 22 votos. “O que as minhas experiências da juventude me fizeram compreender é que a democracia não existe sem as garantias que só o Estado de Direito Democrático dá às pessoas”, contou José Álvaro Moisés, cientista político. g


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censor chegava lá na redação [Estadão] colocava o poletó na cadeira, como se fosse um funcionário. 4 Milton Saldanha, jornalista

FOTOS: RE PR

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adere e depois se vira contra o golpe OSCAR BRANDTNERIS, RAFAEL SANDRÃO E THAÍS VALVERDE FARIA

q “Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos militares que os salvaram de seus inimigos”, publicou o jornal “O Globo” em seu editorial no dia 2 de abril de 1964, dois dias após o golpe militar.

governo de João Goulart não ia ao encontro dos interesses de grandes jornais do eixo Rio-São Paulo”, disse o jornalista e autor do livro “1964, Golpe Midiático-Civil-Militar”, Juremir Machado da Silva, se referindo aos jornais “Correio da Manhã”, “Folha de S. Paulo”, “Jornal do Brasil”, “O Estado de S. Paulo”, “O Globo”, “Tribuna da Imprensa”, e dos Diários Associados, de Assis Chateaubriand. O mundo vivia a chamada “Guerra Fria” – confronto sem armas entre Estados Unidos e União Soviética. O governo norte-americano cercava países da América Latina contra o seu “inimigo’”: o comunismo e suas supostas ameaças. Para o historiador Thiago Rocha de Paula, o Brasil passava por um período econômico e social instável. “Enquanto grande parte da população imaginou que os militares seriam nossa solução imediata e, logo depois, iriam embora.

O problema é que os militares ficaram”, comentou. O discurso de ameaça comunista estava presente nos jornais e ajudou a criar um clima favorável para a intervenção militar. Um dos jornais que estimularam o golpe militar foi o “Correio da Manhã”. Seus editoriais mais famosos são o “Basta” e “Fora”, publicados entre os dias 31 de março e 1º de abril. “Só há uma coisa a dizer ao Sr. João Goulart: Saia”, dizia um dos editoriais. No entanto, a fúria do “Correio da Manhã” se tornou arrependimento. Três dias após o golpe, o jornal reconheceu o erro e passou a criticar a ação militar. O apoio ao regime também ia além dos textos. O Grupo Folha, por meio da “Folha da Tarde”, emprestou suas caminhonetes para a Oban (Operação Bandeirantes), a fim de realizar o transporte de presos políticos, afirmou o jornalista Milton Saldanha. O Grupo Folha sempre negou que os carros da empresa foram usados para essa finalidade.

Em 2009, o jornal da família Frias publicou um editorial em que admitia o erro de ter apoiado o golpe na época. Segundo Saldanha, que trabalhou durante o regime militar em o “O Estado de S. Paulo”, Júlio de Mesquita Filho, dono do jornal, fez várias reuniões com militares e outros empresários para planejar o golpe, e se articulou também com o embaixador norte-americano no Brasil, Lincoln Gordon. Este lhe prometeu ajuda financeira, além do rápido reconhecimento pelos Estados Unidos de um novo governo. “Algum tempo depois, o censor chegava lá na redação [Estadão], colocava o paletó na cadeira, como se fosse um funcionário, ocupando uma mesa, e recebia as provas de página do jornal. Fazia um risco grande, com um bastão preto, sobre cada texto que deveria ser suprimido”, explicou. Em protesto, o Estadão trocava essas matérias por trechos dos poemas de Camões. E, o “Jornal da Tarde”, por receitas culinárias. A Rede Globo, criada em 1965, um ano após o golpe, foi beneficiada pelo governo desde o começo. Saldanha disse que “a Globo aderiu à ditadura, o que permitiu sua expansão como rede. Isso foi parte do projeto de propaganda do regime, no governo Garrastazu Médici (1969-1974)”.

Acima, O Globo exaltando a posse dos militares em sua capa do dia 2 de abril de 1964; à esquerda, capa do dia 26 de janeiro de 1984 mostrando as 300 mil pessoas que foram para as ruas pedir eleições diretas em São Paulo

“O ditador queria TV em cores no Brasil e liberou o contrabando dos equipamentos, sem nenhum imposto ou taxa, como contou Walter Clark em seu livro de memórias. Ele era o principal diretor da emissora na época”, afirmou o jornalista, que também trabalhou na emissora na década de 80. Na programação, tanto da Globo como também do SBT (Sistema Brasileiro de Televisão, fundado em 1981), existiam programas que exaltavam os feitos dos militares como “Amaral Netto, o repórter”, e a “Semana do Presidente”, no SBT. DIRETAS JÁ Saldanha foi diretor de reportagem na Rede Globo no período da eclosão do movimento “Diretas Já”. O comício da Candelária, que ocorreu no Rio de Janeiro em 1984, levou para as ruas mais de um milhão de pessoas, mas foi um fato praticamente ignorado pela emissora.

“Lá a campanha parecia não existir, era a alta direção do Rio de Janeiro (Roberto Marinho) insistindo em um alinhamento com a ditadura. Assistimos na televisão o comício da Candelária enquanto na nossa programação havia uma novela no ar”, disse. A mudança da cobertura começou quando a diretoria da emissora em São Paulo pressionou. “A cobertura era muito tímida, sem entrada ao vivo”, afirmou. No ano passado, as Organizações Globo emitiram uma retratação afirmando que o apoio editorial ao golpe de 1964 “foi um erro”. Mas um único jornal durante o golpe manteve-se contra a intervenção militar, o carioca “Última Hora”. “Ele era um jornal de centro esquerda, voltado para o trabalhador, o que hoje seria a “Carta Capital”, um publicação progressista”, afirmou Juremir Machado da Silva. g


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ssim que enviarmos os relatórios para a Comissão Nacional, pretendemos continuar com essa discussão e levaremos o debate para a comunidade. 4 Lilian Cabrera (PT), presidente da Comissão da Verdade de Diadema

Comissões da Verdade resgatam a história da

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NADIA MUNHOZ/RRJ

NADIA MUNHOZ, PRISCILLA SAMPAIO E RAQUEL GOURLART

q As Comissões da Verdade funcionam como uma ferramenta na luta pelo resgate da memória daqueles que sofreram repressão durante o período da ditadura militar.

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o ABC, os grupos atuam em âmbito municipal e têm como objetivo colaborar com as pesquisas dos 13 grupos que compõem a Comissão Nacional da Verdade (CNV), criada em maio de 2012 para apurar casos de desaparecidos políticos e coletar depoimentos de envolvidos nos sequestros, prisões, torturas e mortes que aconteceram entre 1964 e 1985. Das setes cidades, apenas quatro têm suas próprias comissões: Diadema, São Bernardo, Santo André e Mauá. Formadas por parlamentares, os grupos atuam na região desde o fim do ano passado. A primeira cidade a aderir foi Diadema e, desde novembro, a comissão investiga as violações aos direitos humanos cometidas pelo governo militar no município. Presidida pela vereadora Lilian Cabrera (PT), a comissão conta com o apoio da Amaa (Associação dos Metalúrgicos do ABC), da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Defensoria Pública e do Centro de Memória do ABC.

Hoje temos conhecimento de 400 nomes e desaparecidos durante o período militar, afirmou a professora Magali Cunha

As reuniões semanais são abertas ao público, e os integrantes já coletaram mais de 30 depoimentos, entres eles, de sindicalistas, como o ex-prefeito de Diadema Gilson Menezes, políticos, como o secretário de Educação da cidade, Marcos Michels, e grupos de mulheres, que discutiram o papel feminino na resistência. A presidente da comissão destacou a contribuição civil e afirmou que tem sido fundamental no processo de pesquisa. “Isso é muito importante, pois, assim que enviarmos os relatórios para a Comissão Nacional, pretendemos continuar com essa discussão e levaremos o debate para a comunidade.”

Já a comissão de Mauá explorou outro grupo em sua primeira audiência, realizada no dia 25 de abril. De acordo com o presidente da comissão, o vereador Wagner Rubinelli (PT), a audiência reuniu nomes importantes que militaram no movimento católico Ação Popular. O político Ricardo Zarattini, o padre José Mahon, a ex-ativista Maria Julia de Oliveira Lobo e o sociólogo Olivier Negri Filho estavam presentes no evento. Rubinelli afirmou que a regionalidade do assunto é fundamental, pois a questão da truculência ditatorial é muito centralizada nas capitais. “Aqui no ABC existem inúmeros casos da repressão militar.“

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Apesar de o foco de pesquisa ser mais preciso, por tratar de questões regionais, um dos problemas das comissões é o tempo determinado para o desenvolvimento dos trabalhos. A comissão de Diadema, por exemplo, foi planejada para durar apenas seis meses. “Solicitamos uma prorrogação de mais seis meses, porque vimos que o tempo dado era pouco. Nossa meta é a realização de uma publicação com a história da cidade de Diadema durante a ditadura”, disse Lilian. A crítica também é válida para a professora e integrante do grupo “Papel das igrejas durante a ditadura” da CNV, Magali do Nascimento Cunha. Ela explica que o tempo ocupado

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pela comissão com a coleta de depoimentos é grande, e agora, na reta final para entregar os relatórios ao governo federal, os integrantes estão sentindo o prazo, que acaba em dezembro deste ano. “Os grupos viram que o período estipulado era muito curto, e pediram a prorrogação, que foi aprovada”, contou Magali. Magali ressaltou outro ponto importante sobre a profundidade das pesquisas. Segundo a professora, a comissão não se limita a desenterrar histórias. “Hoje, temos conhecimento de 400 nomes de desaparecidos durante o período militar. Agora, o que realmente aconteceu promovido pelo Estado brasileiro não é claro e nós temos o direito de saber. É uma memória que estava apagada.” LUTAS PARALELAS Existem também grupos sociais que lutam para resgatar a memória do país. Entre eles está o “Levante Popular da Juventude”, presente em 25 Estados, que luta pela memória, verdade e justiça. A militante do grupo Lira Alli conta que o Levante acredita que “só conhecendo a história do país e acabando com a impunidade do passado é que teremos condições de acabar com a impunidade do presente e construir um futuro mais justo”. A metodologia do grupo é localizar acusados de torturar e denunciá-los. “Construímos com alguma frequência os “escrachos”: Vamos até a casa ou trabalho de um torturador da ditadura e o denunciamos com músicas, cartazes, panfletos e pichações. Hoje esses homens vivem como se fossem bons velhinhos, enquanto os que lutaram por um país mais democrático foram torturados, assassinados e muitos desapareceram e eles e suas famílias sofrem até hoje as consequências desse período de chumbo da nossa história”, contou Lira. g


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Lei de Segurança Nacional deu força para as práticas da polícia. Com o tempo, a LSN caiu em desuso, mas os agentes públicos ainda não se adaptaram à nova realidade 4Ariana Alves Rosa, diretora da OAB/SP em Santo André

Lei de Segurança Nacional

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resiste ao

GABRIELA BRITO/RRJ

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Existem setores responsáveis pelo cumprimento de punições e verificação de possíveis ocorrências de atitudes impróprias realizadas por representantes do poder público em manifestações. No Brasil, a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República possui um canal facilitador para a denúncia de possíveis abusos de representantes do poder públicos e civis que ajam de forma indevida: é o disque 100. As denúncias podem ser anônimas e é garantido o sigilo da fonte das informações.

Existem leis que investigam e punem atos irregulares cometidos pelos agentes públicos

RENATA DEL PORTO, ROBERTA ROSSI E THAMARA MARINHO

Definir os crimes contra a segurança nacional, a ordem política e social foi a justificativa para a promulgação do Decreto Lei n° 314, a LSN (Lei de Segurança Nacional), em 13 de março de 1967. O objetivo era proteger o Estado contra um inimigo interno: cidadãos com ideais políticos diferentes dos militares. Porém, apesar do fim da ditadura, a LSN ainda não foi revogada. q

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ara o advogado constitucionalista Gustavo Russignoli Bugalho, a lei está presente apenas no aspecto formal. “Ela continua em vigor, mas na prática a conjuntura atual é outra. Já não vivemos a ideia de Guerra Fria que permeava a aplicação desta lei”, contou. Já Ariana Alves Rosa, advogada e atual diretora do Conse-

lho da Comunidade e Direitos Humanos da OAB/SP em Santo André, afirma que a LSN é responsável por violações dos direitos humanos cometidos ao longo do tempo. “Infelizmente, a Lei de Segurança Nacional deu força para as práticas abusivas da polícia. Com o tempo, a LSN caiu em desuso, mas os agentes públicos ainda não se adaptaram à nova realidade”. Bugalho afirmou que existem normas que punem a prática atual de tortura, em várias tipificações. E lembrou que a Constituição Federal é

categórica na imprescritibilidade deste crime. O que não havia durante o período em que o Brasil foi governado pelos militares.“Muitas vezes se confunde o regime de punição militar, estabelecido em código penal e processual penal, com a aplicação desta lei”, explicou . A diretora do conselho também apontou que há punições para quem usa o poder de cargos militares para exercer ações brutais como a tortura. Entretanto, sinalizou que as violências cometidas pelos “agentes da lei” são uma consequência histórica da LSN dentro da instituição. “As torturas que eventualmente ocorrem têm um tratamento diferenciado pelo poder público. Tais práticas são investigadas e duramente punidas, e o agente público que praticá-las sabe das consequências. O problema é que a polícia ainda é militarizada. O passado é muito presente no dia a dia dentro dos quartéis”, disse Ariana. Segundo o Portal Consultor Jurídico, o Código Penal Brasi-

leiro não dispõe de instrumentos específicos para combater e punir mobilizações e protestos urbanos. Continua valendo então o que está disponível na Lei 7.170, de 14 de dezembro de 1983, posterior aos Decretos-Leis n° 314, de 13 de março de 1967, e n° 898, de 29 de setembro de 1969, e da Lei 6.620, de 17 de dezembro de 1978, que abordam o mesmo tema, promulgada pelo quinto e último presidente do regime militar, João Baptista Figueiredo, que tinha como objetivo real proteger a ditadura na redemocratização do país. “Tal lei deve ser substituída por outra ou, ainda, ser declarada sua inconstitucionalidade ou ineficiência. O Poder Legislativo deve ser provocado para que haja mudança legislativa”, declarou a advogada. RESQUÍCIOS DA LSN Com o passar dos anos surgiram dúvidas sobre a existência de resquícios da Lei de Segurança Nacional na sociedade brasileira, com a mesma

força que a lei possuía no período militar. Nas manifestações no ano passado, com base nesta antiga norma que define como crime depredar, provocar explosão ou incendiar para manifestar inconformismo político ou manter organizações subversivas, um casal de manifestantes envolvido em depredações em São Paulo foi autuado no artigo 15º da lei, que trata de sabotagem. Sobre os protestos, Bugalho acredita que, embora legítimos, foram utilizados também por pessoas mal intencionadas que se misturaram a uma multidão sem rosto para abusar do direito para cometer abusos. Já Ariana acredita que a postura da polícia, tanto nas manifestações de julho do ano passado, quanto no caso de operação de reintegração de posse realizada na comunidade de Pinheirinho, em São José dos Campos, em janeiro de 2012, apesar de estar pautada para o cumprimento da Justiça, da forma que foi realizada nos dois casos deveria ser revista. g


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e existe alguém que deve ir a luta por liberdade e conquista, é a juventude. 4 Frank Borges, professor MORGANA VOLPATI/RRJ

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Livros e filmes são usados como método de ensino nas escolas públicas e privadas do Brasil

é abordado em sala de aula MORGANA VOLPATI, NATÁLIA BRUMATI, NATHÁLIA ENCINA E PAULO MALAVOLTA

q Aprender, entender, discutir e enfrentar. Verbos que podem traduzir o entendimento de um golpe que mudou a história da educação no Brasil em 1964.

prender, entender, discutir e enfrentar. Verbos que podem traduzir o entendimento de um golpe que mudou a história da educação no Brasil em 1964.

“Tudo que vivemos hoje é uma consequência daquilo que vimos no passado, mas, mesmo que eu queira, não consigo passar todos os detalhes da ditadura militar. A cultura dos alunos é outra e, para fazer com que eles prestem pelo menos um pouco de atenção, ensino o movimento daquela época dentro de assuntos que acontecem nos dias de hoje”, afirmou a pro-

fessora Vera Camargo, da EE Profº Evandro Caiafa Esquivel, de Diadema. Allan Siqueira, Professor da escola estadual Nancy de Oliveira Fidalgo, conta que apostilas são disponibilizadas pelo estado, mas são usadas apenas como base de quais conteúdos devem ser abordados em sala e fica por conta de cada professor montar uma aula que melhor possa abordar o tema. “Eu levo os alunos pra sala de vídeo e passo vídeos que eu mesmo seleciono, com conteúdos que eu priorizo como mais relevantes.” Os estudantes do ensino médio sabem que a ditadura existiu. Mas quando são confrontados com as questões mais aprofundadas do assun-

to, a maioria se mostra confusa e, muitas vezes, não sabe o que o golpe militar foi e qual é o seu significado para o país. “Eu sei que teve muita morte e as pessoas sofreram muito, mas hoje em dia também não existem manifestações e morte?”, questionou a estudante Dara Rodrigues da Silva, 16, E.E Clóvis De Lucca, Santo André. Mesmo com as dúvidas, o professor Frank Borges, do Colégio Singular, de São Bernardo, afirma que o assunto “empolga os alunos em sala de aula, pois permite ver também as origens do nosso Brasil atual, o que gera debate e muita indignação entre os estudantes”. Borges afirma que usa fil-

mes do período como material didático e aborda diversos temas. “Casos de jornalistas que foram raptados e acabaram mortos. Repressão, liberdade de expressão, importância da mídia no momento em que a ditadura começa a ceder e há cobertura da mídia para a redemocratização.” Segundo o professor, ainda existe uma minoria que sustenta uma defesa daquele regime. “Nós temos uma onda conservadora, na qual alguns alunos começam a se manifestar favoravelmente à ditadura. Alguns indicam até retorno. Isso é preocupante, pois quem deve ir à luta por liberdade e conquista é a juventude. Quando você vê jovens vivendo saudosismo de um período sombrio, é terrível”. Alguns pais e até mesmo avós que vivenciaram os anos de repressão não falam sobre o assunto. O aluno do terceiro ano Erick Masaki, 18, da E..E. Senador João Galeão Carvalhal, disse que em nenhum momento desconfiou que seus avós presenciaram aquela época: “É muito estranho saber só agora que meus avós assistiram à ditadura de perto. Em casa, eles nunca tinham comentado sobre isso. Depois que vocês me perguntaram, fui questioná-los e eles me disseram que tinham receio de sair de casa e, mesmo assim, hoje eles acham que o Brasil está muito bagunçado e que a ditadura poderia ser bem-vinda novamente”. g


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filme “Fim do Esquecimento” mostra que ainda existem indícios da ditadura 4 Renato Tapajós, cineasta

e documentários mostram período de exceção ÍTALO CAMPOS/RRJ

NICOLE SAVICIUS, RÉGIS SOARES E THAÍS SANTOS

NA TELONA

q Apesar de ter sido um dos meios artísticos mais atingidos pela censura, o cinema brasileiro conseguiu, ao longo dos últimos 50 anos, enfrentar as dificuldades e retratar a época de violência e tortura iniciada no ano de 1964.

REPRODUÇÕES CONTA os caminhos traçados por Afonso Lana, arquétipo de nossa luta, mestre em literatura e ex-líder de uma das facções de resistência armada à ditadura militar.

 MOSTRA a questão da Lei de Segurança Nacional, investiga os vestígios que permanecem no país até hoje, e conta histórias de opositores á ditadura que foram presos e torturados.

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tualmente, existem cerca de 100 filmes sobre a ditadura militar, além de uma série de documentários. Alguns dos mais recentes são “Zuzu Angel”, lançado em 2006, dirigido por Sérgio Rezende; “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”, lançado em 2006 por Cao Hamburger, “Diário de Uma Busca”, lançado em 2010 pela cineasta Flávia Castro; “Hoje”, lançado em 2011 por Tata Amaral, e “Tatuagem”, lançado em 2013 pelo cineasta Hilton Lacerda. Em 2014, foram realizados cerca de 50 documentários sobre o tema.

Cineasta Renato Tajajós produziu filmes sobre o período O cineasta Renato Tapajós, autor de dezenas de filmes e documentários, lançou sua última obra, “O Fim do Esquecimento”, em maio deste ano. O documentário fala das torturas cometidas contra os opositores da ditadura e as sequelas que o regime militar deixou no país.

Assim como seus pais, o cineasta vivenciou a época da ditadura, se opondo e lutando contra ela desde o início, quando ainda era estudante. Em 69, foi torturado e preso, condenado a 10 anos de prisão. Segundo Tapajós, no fim dos anos 70, ele teve a oportu-

 Confira no rronline.com.br

nidade de se profissionalizar na área de documentários. “Após dar aulas de cinema no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, fui convidado para fazer uma série sobre os temas de interesse dos trabalhadores metalúrgicos. Essa foi uma escolha que definiu uma boa parte do meu trabalho”, disse.

O FILME foi produzido em Olinda, da década de 1978, onde um grupo de artistas provoca a moral e os bons costumes pregados pela ditadura militar, realizando peças de teatros.

O cineasta afirma ainda que a profissão foi resultado das lutas políticas e da oposição à ditadura. “O meu último filme, “O Fim do Esquecimento’”, mostra que ainda existem indícios da ditadura, pois a Lei de Segurança Nacional ainda está em vigor, e ainda lutamos contra ela”, contou. g

Assista às entrevistas exclusivas sobre a ditadura militar no quadro Diálogo ABC, com: padre Rubens Chasseraux (http://migre.me/jEkbd), o sindicalista Derly de Carvalho (http://migre.me/jEmv1) e a professora Dagmar Aparecida da Silveira (http://migre.me/jEk9b).


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COMPORTAMENTO

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Assédio sexual no trabalho é algo frequente

THAÍS VALVERDE/RRJ

Violência prejudica psicológico

OSCAR BRANDTNERIS

RAFAEL SANDRÃO

q O assédio sexual no ambiente de trabalho é muito mais comum do que se imagina. Segundo dados da OIT (Organização Internacional do Trabalho), mais de 50% das mulheres que trabalham, em todo o mundo, já sofreram assédio, seja verbal ou fisicamente. Esse tipo de atitude, muitas vezes, parte de um homem que possui um cargo superior e oferece promoções e benefícios para mulheres que trabalham há pouco tempo na empresa e desejam conquistar novas funções e salários melhores. Maira Mioto, que trabalha no setor de Recursos Humanos da empresa Brasil Pharma, afirma que não aceitar esse tipo de situação e ter coragem para fazer a denúncia são os primeiros passos para resolver o problema. “Em hipótese alguma, a vítima deve deixar de informar o setor de recursos humanos da empresa, e, caso o assediador possua um cargo de chefia em um setor específico, a vítima pode ser transferida para outra área”, disse.

q Estima-se que 700 mil brasileiras ainda continuam sendo alvo de agressões, conforme a pesquisa “Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher”, divulgada pelo DataSenado, do Senado Federal, em março de 2013. De acordo com a psicóloga Luciana Katrip, 41, a mulher não pode aceitar um relacionamento que ultrapasse a barreira do respeito e deve sinalizar qualquer situação que saia do seu real controle. “É essencial que a mulher se imponha e exija respeito do companheiro desde o início da relação. Se tiver algum problema, o primeiro passo é ir até uma delegacia da mulher e prestar queixa sobre o agressor. Além disso, mantê-lo longe de seus domínios. A partir daí, é importante o acompa-

Maioria das mulheres evita denunciar assédio por medo de perder seu posto na empresa A lei n° 10.224 sobre assédio sexual no trabalho define que “constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente da sua condição de superior hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício de emprego, cargo ou função”, é considerado um crime e está no Código Penal, e pode levar à detenção de um a dois anos. Segundo Wilson Gianulo, advogado há mais de 30 anos, esse

tipo de conduta merece um tratamento não apenas de punição, mas também de educação. “O mais importante é que a pessoa não cometa outras vezes nenhum ato semelhante ou se veja coibido de fazê-lo”, afirmou. O advogado reforça que assédio sexual não é apenas considerado quando há o uso de força física, mas que qualquer tipo de constrangimento já pode ser considerado como tal crime. “É importante que a vítima reúna provas, como presentes, bilhetes, mensagens na internet e dizer aos seus colegas de trabalho o que está acontecendo, pois eles servirão de testemunha”, disse Gianulo. g

nhamento psicológico da mulher para que possa compreender os motivos de uma relação conturbada que chegou a esse ponto”, afirmou Luciana. Quem viveu isso na pele foi Marlene Monteiro, 57, que é vendedora de produtos cosméticos e foi casada por 25 anos com um homem que a agredia frequentemente, de maneira física e verbal. “Com aproximadamente dois meses de casamento ele mostrou quem realmente era. Chegava em casa e me agredia fisicamente sem motivo algum. A gente perde a dignidade, pois começa a acreditar e se ver de maneira inferior”, contou Marlene. As atitudes do ex-marido de Marlene acabaram afetando também os dois filhos do casal. Passados 12 anos do acontecimento, Marlene criou um blog onde conta algumas histórias do seu passado. Ela pretende ajudar outras mulheres que passam por situações semelhantes a que ela viveu. Acesse: marlenemon.blogspot.com g


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REGIÃO

6 de Junho de 2014 FOTOS: JOYCE SILVA/RRJ

FITE A R G JOYCE SILVA

q O grafite ainda é algo que causa controvérsia. Por alguns é considerado uma forma de arte urbana Outros acreditam que, como a pichação, o grafite também é apenas vandalismo ou poluição urbana. O grafite, surgiu nas décadas de 70 e 80 e foi trazido ao Brasil pouco tempo depois. Tem como influência o estilo musical Hip Hop, e ainda é visto como uma forma de expressar a revolta de uma classe menos favorecida. Boa parte dos grafiteiros são ex-pichadores que procuraram se especializar e fazer trabalhos mais complexos. A pichação é uma forma mais livre e fácil de começar, pois não requer muitas habilidades, apenas uma lata de spray e a criatividade do pichador. Um exemplo de ex-pichador é Rodrigo Prado, o Smul, 34, que é grafiteiro há mais de 20 anos. Ele explica o porquê procurou o grafite: “Eu sabia desenhar e tinha o dom de mexer com spray, só que estava cansa-

é visto como arte urbana

Muro grafitado com a imagem do pedagogo Paulo Freire e acima pichação feita por Kães De Igreja - gdn

do de apenas “pichar” e resolvi fazer algo mais elaborado.” Hoje, Smul é formado em artes plásticas. Desde 2005, trabalha como educador em projetos sociais voltados a jovens. Ele é também um dos fundadores do Coletivo NASA (Núcleo de Ações Sociocultural Ativista), um espaço que tem a “intenção de fomentar a cultura”, no ABC, através de arte, incentivos culturais e discussões políticas. Smul aponta que o grafite foi a porta de entrada para a arte, e que trabalha com os jovens incluindo a modalidade e “sempre usando o grafite como ferramenta transformadora”. O pichador “Kães De Igreja - gdn”, que pediu para não ser identificado, disse qual a diferença entre as duas modalidades: “Há uma enorme diferença entre os dois. A pichação é o vandalismo, é a destruição. Já o grafite é a construção, uma forma de arte. Existe uma linha tênue que separa essas duas classes”. Ele completa: “O grafite é arte e deveria ser tão respeitadas quanto uma

pintura em tela”. Já Smul define o grafite “original” com uma “arte transgressora, que jamais será presa ou terá rótulos, essa sim sofre preconceito. Mas grafite é sempre o que estiver na rua, e toda arte que estiver na rua pode ser contestada. Arte em galeria usando técnicas de grafite é arte contemporânea, grafite é rua, sempre foi, sempre será. Liberto e sem rótulos e padrões.” As motivações que regem os dois também são diferentes para o grafiteiro, em grande parte, a ideia é fazer uma arte que possa ser apreciada. Alguns sonham em ter seus trabalhos reconhecidos em galerias. Já o pichador tem como contexto a revolta social, “Kães De Igreja – gdn” explica as suas principais motivações ao fazer uma pichação. “A adrenalina faz com que os pichadores sintam-se livres de tudo que os cerca, e um passo à frente do sistema, o medo de escalar uma janela, subir no pico nome usado para coberturas e parapeitos de prédios. Somos todos inconformados com o governo, também julgamos a pichação como um ato político. Faz com que nossa voz seja ouvida, ou melhor, com que nossa mensagem seja lida”. Para a coordenadora do curso de arquitetura e urbanismo da Universidade Anhanguera do ABC, Maria Cristina Domingues Lopez, 55, o grafite “é uma manifestação de arte, feita onde há autorização, renova e revitaliza o ambiente urbano que já está degradado, porém é necessário que tenha controle e uma autorização específica”. Maria Cristina ainda aponta que para a arquitetura moderna a pichação “é uma expressão irreverente sem conteúdo artístico”. LEGISLAÇÃO Apesar de as duas modalidades serem consideradas como uma expressão artística das ruas há algumas diferenças entre grafite e pichação. Pichar é considerado ilegal desde 1998. A pena pode ser de três meses a um ano de cadeia. Ele tende a não ter desenhos bem elaborados em sua maioria são considerados “rabiscos”. Já o grafite só é considerado ilegal quando não há autorização do proprietário do local grafitados. Produz desenhos bem elaborados e com o objetivo de “colorir” a cidade. g


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REGIÃO

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Cresce o número de mulheres na arte ISADORA DE CAMPOS

q O grafite como é conhecido hoje popularizou-se a partir do movimento contracultural de maio de 1968, quando os muros de Paris, na França, foram utilizados para inscrições poéticas e políticas, segundo o professor de grafite stencil, arte urbana e criação da Faculdade Belas Artes, Ricardo Tatoo. Tatoo acredita que a sensibilidade feminina abriu espaço para a inserção da mulher neste meio. “A maioria é formada por homens, mas como grafite é arte, as mulheres ganharam espaço com estilos e linguagens que só a sensibilidade da mulher consegue traduzir.” O professor acredita “que as mulheres ganharam mais espaço depois que o grafite deixou de ser tão marginalizado e de trazer menos riscos para os artistas.” A designer Talita Velasque, 28, moradora de Santo André, faz grafite há cinco anos. A grafiteira contou como começou na arte. “Eu admirava desde

pequena os muros grafitados e tinha muita vontade de aprender, mas não tinha ninguém que pudesse me colocar nesse meio. Até que comecei a namorar um designer, artista e grafiteiro que me ensinou o básico e com o tempo desenvolvi meu próprio estilo. O namoro chegou ao fim, mas o grafite não parou mais.” Talita acredita que o número de mulheres que vão às ruas em busca de muros vazios para grafitar aumentou. “Isso tem acontecido no mundo todo. Podemos acompanhar pelas matérias que têm saído com frequência na mídia sobre mulheres no Afeganistão que usam grafite para apagar as marcas da guerra, por exemplo”. Para ela, é necessário ter autorização do dono do muro para fazer a sua arte. “Sempre peço autorização por respeito ao proprietário e pela minha própria segurança. Eventualmente aparece algum vizinho perguntando se o dono sabe que você está pintando ali.”

ABC promove oficinas de grafite gratuitas

LETÍCIA JUSTINO

q Organizações públicas e privadas oferecem oficinas e cursos de grafite direcionadas para jovens. No ABC há oficinas gratuitas na Casa do Hip Hop, em Diadema, no Ateliê Livre de Arte Urbana, em São Bernardo, e na Casa do Hip Hop e Juventude, em Ribeirão Pires. A Casa do Hip Hop é um espaço público, também conhecido como Centro Cultural Canhema, mantido pela Prefeitura de Diadema, que, dentro de uma política de acesso à difusão e formação cultural, oferece oficinas de grafite, cursos de iniciação em Hip Hop e outras linguagens artísticas, além de eventos que promovam a inserção da população aos bens culturais. Geraldo de Deus, funcionário da Casa, afirma que

oferecer oficinas de grafite vai além de um contexto social e cultural. Elas se tornam opção de um jovem ou adolescente que só tem a rua para ir e se divertir, podendo ser desviado para caminhos errados. O Ateliê de Arte Urbana é promovido pelo CAJUV (Coordenadoria de Ações Para a Juventude) da Prefeitura de São Bernardo. Em Ribeirão Pires, a Casa do Hip Hop e Juventude foi inaugurada em 2012 pela Coordenação de Programas para Juventude, da Secretaria de Política Comunitária do município. A Casa destina-se à realização de atividades, projetos e encontros culturais, oficinas, cursos, palestras e reuniões, com o objetivo de promover a cidadania e inclusão social dos jovens. g

FOTO

S: AR

Desenho colorido já virou marca registrada da grafiteira Talita Velasques

Já a estudante Gabriela Paiva, 19, moradora de São Bernardo, disse que faz grafite em locais públicos, geralmente sem autorização. “Comecei há pouco mais de um ano pela

influência de amigos, eventos de grafite e rap que me incentivaram muito”, disse Gabriela. A estudante afirma que “essa ideia de que o grafite é para homens não existe mais, sempre

QUIV

O PE

SSOA

acabo conhecendo mulheres que estão há um tempo ou começando no movimento.” Tatoo acredita que há espaço para todos. “A arte está na rua para todos apreciarem como uma grande galeria a céu aberto. A liberdade de expressão da arte de rua atrai mulheres, homens e crianças”. O professor também contou que o público de seus cursos e oficinas é bastante variado. “Geralmente são 20 alunos nos cursos da Belas Artes, 11 ou 12 mulheres e o restante de homens. Todos das mais variadas faixas etárias e níveis culturais e profissionais.” g

6 OFICINAS 4 SÃO BERNARDO Casa do Hip Hop Av. Redenção, 271 Bairro:Jardim do Mar Telefone: 4126-3717

4 DIADEMA Ateliê Livre de Arte Urbana Rua 24 de Maio, 38 Bairro: Jardim Canhema Telefone: 4075-3792

4 RIBEIRÃO PIRES Casa do Hip Hop e Juventude

Jovens e crianças aprendem a desenhar em aulas de grafite

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L

Av. Santo André, 1013, Bairro: Centro Alto Telefone: 4825-5310

Fanfiction mistura personagens de contos em novos enredos http://goo.gl/IQ3qB2


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CULTURA

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6 ROTEIRO FOTOS: DIVULGAÇÃO

MÚSICA Alma Caipira – Viola Boguá Alma Caipira é o nome do novo show do grupo Viola Boguá. A estreia é no Teatro Elis Regina. O grupo do ABC formado em 1986 é composto por sete músicos que cantam a música regional brasileira. Sábado (7), às 20h. Livre. Teatro Elis Regina – Avenida João Firmino, 900 – Bairro Assunção. Ingressos: R$ 15 (inteira), R$ 7,50 (meia entrada para estudantes e idosos com mais de 60 anos)

q EXPOSIÇÃO Arte com azulejos A exposição “Casa da Vez: Pinacoteca”, realizada na Pinacoteca de São Bernardo, utiliza pedaços de madeira, bilhetes de apostas e azulejos e é de autoria do Grupo Meios de artistas visuais, composto por moradores do ABC. A mostra fica em exposição até o dia 5 de julho. A Pinacoteca funciona de terça a sábado, das 9h às 17h. Nas quintas-feiras, a visitação é das 9h às 20h30. INFANTIL Peppa Pig e o Porquinho Mau Adaptação do programa de TV Peppa Pig. No espetáculo, Peppa, seu irmão, George Pig, e Mamãe e Papai Pig decidem fazer um piquenique com a amiga de Peppa, a ovelha Susy. Na peça, há a presença do Porquinho Mau, que não faz parte do desenho, e é o vilão da história que quer destruir o piquenique da Peppa e sua família. Livre. No Teatro Lauro Gomes – Rua Helena Jacquey, 171 – Rudge Ramos, no dia 14 (sábado), às 15h. Em São Caetano, a apresentação acontece no dia 22 (domingo), às 15h.Teatro Paulo Machado - Alameda Conde de Porto Alegre, 840

TEATRO Bernard Foster

A Rainha Procura

A peça conta a trajetória de um cantor de ópera que não sabia cantar e que sofreu uma crise artística na década de 80. Recomendado para maiores de 12 anos. Sexta-feira (13), às 20h. Teatro Paulo Machado - Alameda Conde de Porto Alegre, 840 - Santa Maria – São Caetano. Ingressos: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia entrada para estudantes e idosos com mais de 60 anos).

A nova peça teatral do grupo Jogando no Teatro traz uma turma de palhaços que improvisa brincadeiras enquanto joga xadrez em um tabuleiro gigante. Sábado (14), às 16h. Livre. Teatro Santos Dumont - Av. Goiás, 1.111, Bairro Santa Paula – São Caetano. Ingressos: R$ 10 (inteira), R$ 5 (meia entrada para estudantes, professores da rede pública, usuários do Sesc e seus dependentes).

Começar Outra Vez

- Santa Maria – São Caetano. Ingressos: R$ 40 (inteira), R$ 20 (meia entrada para estudantes e pessoas com mais de 60 anos) e R$ 30 (com a apresentação da filipeta promocional e para funcionários públicos). O Rato e o Gato

A adaptação mostra a história de dois inimigos naturais, o gato e o rato, que, cansados da rixa, se mudam um longe do outro. Mas, por um acaso, os dois acabam sendo vizinhos na nova moradia. Domingo (29), às 16h. Livre. Teatro Santos Dumont - Av. Goiás, 1.111, Bairro Santa Paula – São Caetano. Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia entrada para estudantes e pessoas com mais de 60 anos).

A peça “Começar Outra Vez” conta a história de Adão e Eva. Na história, o casal passa por uma crise no casamento e, quando acha que está tudo resolvido, as coisas se complicam novamente, pois os dois se esquecem dos princípios básicos de um relacionamento. Sexta-feira (13), às 21h. Recomendado para maiores de 12 anos. Teatro Lauro Gomes – Rua Helena Jacquey, 171 – Rudge Ramos. Ingressos: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia entrada para estudantes e pessoas com mais de 60 anos).

Razões Para Ser Bonita A peça estrelada por Marcelo Faria e Ingrid Guimarães mostra a obsessão da sociedade com a aparência física. Recomendado para maiores de 10 anos. Sábado (7), às 21h e domingo (8), às 19h. Teatro Paulo Machado - Alameda Conde de Porto Alegre, 840 Santa Maria – São Caetano. Ingressos: R$ 100 (inteira) e R$ 50 (meia entrada para estudantes, clientes Porto Seguro e pessoas com mais de 60 anos). Divórcio Neste espetáculo, Suzy Rego e José Rubens Crachá interpretam um ex-casal de advogados que se reencontram profissionalmente quando estão trabalhando no divórcio de outro casal. Domingo (15), às 19h30. Recomendado para maiores de 14 anos. Teatro Santos Dumont - Av. Goiás, 1111, Bairro Santa Paula – São Caetano. Ingressos: R$ 70 (inteira), R$ 25 (meia entrada para estudantes e pessoas com mais de 60 anos). (FERNANDA CORDEIRO). g


ESPORTES

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Centro Nacional de Handebol deve ser entregue no 2º semestre

ÃO

CAIO DOS REIS/RRJ

CAIO DOS REIS

q O Centro Nacional de Desenvolvimento do Handebol Brasileiro entrou em fase de finalização das obras e pode ser entregue nas primeiras semanas de julho. Localizado em São Bernardo, o local servirá como sede para todas as categorias da seleção nacional da modalidade. O centro é um projeto em parceria da Confederação Brasileira de Handebol com o Ministério do Esporte e a Prefeitura de São Bernardo. O centro também abrigará a sede da CBHb (Confederação Brasileira de Handebol). A antiga sede ficava na cidade de Aracaju, em Sergipe. Após o título mundial da equipe feminina, em 2013, o ABC ganha o primeiro espaço do país exclusivamente dedicado a modalidade. “São Bernardo é uma referência no handebol nacional. Nossas equipes são tradicionais e, após recebermos o convite da Confederação Brasileira de Handebol, não medimos esforços para esse projeto se tornar realidade”, disse o secretário de Esportes de São Bernardo, José Alexandre Pena Devesa. O município possui equipes de base, e as duas categorias adultas disputam o campeonato nacional. Nas últimas nove

DIVULGAÇ

Estrutura conta com duas quadras e alojamentos para atletas de seleções adultas e de base

edições da Liga Nacional Feminina, a equipe da Metodista/ São Bernardo ficou com sete títulos e dois vice-campeonatos. O centro conta com duas quadras com tamanhos oficiais e 69 dormitórios que abrigarão 184 atletas. Academia, áreas para tratamento de contusões, salas para palestras e reuniões, além de espaços exclusivos para comissão técnica completam a estrutura do local. Além do trabalho na categoria adulta, o secretário ainda DIVULGAÇÃO/GUGA MENDONÇA/SM PRESS

Chiarotti (à dir.) e o secretário de esportes José Alexandre

gurado. O local também fica dentro do complexo esportivo de handebol e atletismo. O Centro Nacional de Handebol fica na avenida Tiradentes, 1.863, no bairro Vila do Tanque, em São Bernardo.

destaca a importância do local para as categorias de base. “O centro fica próximo a uma escola. Basta as crianças andarem uma distância de cinco metros e já estão no local. Então é importante para as categorias de base essas crianças treinarem com estrutura e material de qualidade”, contou Devesa. O handebol não é o único esporte que tem um centro exclusivo na cidade. No mesmo local do Centro Nacional de Handebol, está o Complexo de

Excelência em Atletismo Professor Osvaldo Terra da Silva, que, assim como o centro de handebol, está selecionado como locais de treinamento pré-jogos olímpicos do Rio, em 2016. O próximo esporte que pode ganhar um centro de alto rendimento é a ginástica artística. Segundo Devesa, a confederação da modalidade deu um prazo de 45 dias para a entrega dos materiais necessários para o centro ser inau-

CAMPEONATO PAULISTA A equipe masculina de handebol da Metodista/São Bernardo volta a jogar pelo Estadual no dia 14 de junho, contra a Hortolândia. Apesar de a equipe do interior ter o mando da partida, o jogo está marcado para o Ginásio do Baetão. Na última rodada do primeiro turno, as equipes se enfrentaram e o time do ABC venceu por 38 a 13. A Metodista/SBC ocupa a quarta colocação do Campeonato Paulista, com oito pontos ganhos e campanha de quatro vitórias e três derrotas. Já a equipe da Hortolândia perdeu as oito partidas e está na última colocação. O artilheiro da competição é o ponta Fábio Chiuffa, com 42 gols. g

q O São Bernardo Vôlei continua na temporada 2014/2015. Após confirmar a participação dos times feminino e masculino na Superliga, o técnico Douglas Chiarotti, ex-treinador do Moda/ Maringá, e uma nova comissão técnica foram anunciados para comandar o time masculino. O novo comandante é natural de Santo André. Chiarotti acertou com a equipe do ABC após conversar com Joel Monteiro, ex-atleta e novo gerente do time. “Joguei com o Joel na seleção brasileira”, disse Chiarotti. Segundo ele, a vontade de voltar para a região facilitou o acerto.

Atualmente, o elenco do time masculino tem 10 atletas. “A princípio vamos trabalhar com esses atletas mais novos, temos um time muito jovem e é ótimo trabalhar com eles porque todos têm muito para a aprender com atletas mais experientes e nossa comissão técnica”, contou Chiarotti. Porém o técnico pretende trazer atletas experientes para mesclar a equipe. “Só quero atletas mais velhos que tragam a bagagem que eles possuem e passem para os meninos mais novos. Assim podemos ter um time mais competitivo e prepa-

rar esses jovens para o futuro profissional deles”, disse. Além de Chiarotti, o assistente técnico Orlando Araújo, o auxiliar técnico Ricardo Murbach, o preparador físico Marcelo Romão e o fisioterapeuta Hernani chegaram à equipe do ABC. Os trabalhos do técnico já começaram e a Superliga tem início marcado para o segundo semestre de 2014. Atual elenco do time: Felipe Grah, Igor e Vinicius (centrais); Baiano, Edy Ney e Lucas Deus (ponteiros); Vitinho e Mendel (liberos); Ricardo e Fernando (levantadores). (C.R.) g

São Bernardo Vôlei confirma duas equipes para a próxima temporada


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ESPORTES

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Torcedoras são grande mercado para o FUTEBOL

FOTOS: RAFAEL PEZZO/RRJ

FUTEBOL

RAFAEL PEZZO

q Quem visitar a casa da Viviane Marques, 39, e da filha Pietra, 5, terá de comer nos pratos com o símbolo do Palmeiras. Além das louças, o símbolo do time verde paulistano estará impresso em almofadas, toalhas e enfeites dos móveis da moradia da psicóloga. Viviane faz parte de um grupo de mulheres que passou a adquirir peças relacionadas ao time do coração. A psicóloga, que mora em São Caetano, afirmou que há algum tempo está mais fácil achar itens com o escudo dos times. “Em qualquer loja já é possível encontrar objetos licenciados. Eu compro do Palmeiras, mas sempre vejo do São Paulo, Corinthians e Santos.” Outra palmeirense, a estudante de cursinho pré-vestibular Clara Paiva, 18, decorou seu

quarto com papel de parede com o símbolo do Palmeiras. Segundo Clara, as lojas online, dos clubes ou autorizadas, também são um ótimo meio para achar as peças que deseja. Há também os lançamentos de produtos originalmente femininos pelos clubes, como tops, lingeries, pijamas e linhas exclusivamente femininas de camisas do clube. Também torcedora do Verdão, Mayara Munhós, 19, ficou surpresa com um vestido que viu em uma loja do clube em São Bernardo. “Nunca tinha visto. Achei bem feminino, gostei bastante”, contou a estagiária de Rádio e TV. Se quiser ficar com a roupa, a palmeirense terá que desembolsar R$ 89,00. Os lojistas das franquias oficiais dos principais times de São Paulo (Poderoso Timão, do Corinthians, Academia Store,

do Palmeiras, e São Paulo Mania), apontam que a principal diferença entre homens e mulheres na hora da compra está nos itens que procuram ao entrarem na loja. Na maioria das vezes, segundo eles, o comprador do

sexo masculino começa pelas peças de vestuário, como camisas de jogo e agasalho. Depois, se gostar de alguma coisa, acaba levando uma caneca, por exemplo. Já as torcedoras olham tudo. Elas não são atraídas somente pelas camisetas, mas também por itens que servirão de detalhe na decoração da casa ou do quarto. “Compro bastante enfeite para o meu quarto, como cortina, edredom. Tenho também copos, canecas do Corinthians. Além é claro das camisas do clube. Mas, às vezes, justamente a que quero comprar só tem no modelo masculino. Então, compro em tamanho menor“, afirmou a estudante de direito Tatiana Tozatti, 19. Os lojistas dessas franquias também dizem que a clientela masculina continua sendo maior. Entretanto, de acordo com eles, o número de mulheres buscando peças para elas mesmas tem crescido. Segundo os gerentes, em média, 45% das vendas são

Copos, pratos, potes e garrafas estão entre os itens que Viviane coleciona com seu marido

Viviane, 39, e Pietra, 5, possuem diversos artigos relacionados ao clube do coração, o Palmeiras feitas para mulheres. Estima-se que o público feminino dobrou nos últimos dois anos e meio. Tanto que há cerca de dois anos os catálogos com os novos lançamentos já mostram o corte e estampas apenas para o público feminino. Por se tratar de um fenômeno relativamente recente, ainda não há pesquisas para mensurar a real influência das mulheres na receita dos clubes de futebol. Mesmo assim, as torcedoras podem ser consideradas um público promissor. Segundo dados da Pluri Consultoria de 2012, cerca de 67,6 milhões de brasileiras, ou 68,9% da população feminina do país, torcem por algum time. Outra pesquisa, da mesma consultoria, constatou que, caso alguns problemas básicos dos estádios brasileiros fossem resolvidos, 41% das mulheres frequentariam os estádios pelo menos uma vez ao ano. Entre os problemas citados estão o mal estado de conservação dos banheiros e a falta de segurança. g


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ESPORTES

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Produtos não oficiais ganham espaço no armário feminino VINÍCIUS REQUENA

q Não é só de produtos oficiais que o público feminino corre atrás quando se trata de futebol. Cada vez mais as camisas não licenciadas tomam o espaço no guarda-roupa feminino. Camisas antigas e até mesmo as que elas idealizam. A estudante do ensino médio Tamires Campos, 15, possui uma camisa de seu time e já planeja a segunda. “Em todas as competições entre as salas do meu colégio a gente corre atrás para fazer o uniforme do nosso time. E agora não precisamos mais fazer no modelo masculino, as lojas já trazem o modelo feminino”, contou. De acordo com André Azevedo, vendedor da loja Reply, em São Bernardo, muitas mulheres procuram a loja para confeccionar suas camisas personalizadas. “Há uns três anos, poucas vinham até a loja. Elas faziam no modelo masculino. Com a demanda, começamos a

projetar um corte feito para elas. Claro que o mercado é muito mais voltado para os homens, mas hoje, a procura das mulheres é grande”, disse. Jaqueline Duarte, 20, já passou da fase de fazer seus uniformes para o colégio. Hoje, na faculdade de engenharia, ela recorda os momentos de correria em busca da confecção. “Quando mandei fazer um uniforme pela primeira vez, não tinha modelo feminino em nenhuma loja. Tivemos que fazer por dois anos com o corte do masculino, só que no menor tamanho. Quando me formei, tive a chance de fazer um uniforme exclusivo para mulheres, e foi muito melhor jogar”, afirmou. Mas não são apenas os uniformes de times amadores que as mulheres procuram. As camisas de times antigos também têm espaço no armário ou na gaveta. A loja Liga Retrô possui um catálogo só para o público feminino. “Desde 2007, poucos meses após a fundação da marca, sentimos

FOTOS: RAFAEL PEZZO/RRJ

que havia uma boa demanda por modelos femininos. Há maior procura por modelos femininos do que infantis. Isso mostra que as mulheres real-

mente estão, cada vez mais, utilizando camisas relacionadas ao futebol”, contou o sócio da loja, Marcelo Roisman. g

Camisas com estilo retrô e de times amadores ganham cada vez mais espaço dentro do guarda roupa de mulheres

Até biquini tem emblema de time SERGIO NETO

q Em razão da procura, os clubes e fabricantes de material esportivo passaram a diversificar seus produtos para atender ao público feminino. Além de uniformes de jogo, camisas polo, artigos de torcida e agasalhos, agora também há no mercado artigos femininos com o emblema do time. Joias, bijuterias, artigos de praia, biquíni, pijamas, roupas para academia, saias e até roupas íntimas são produtos que já podem ser encontrados nas lojas dos grandes times do Estado de São Paulo. Drielly Fernandes, 26, é

Carteiras, colares e outros produtos femininos ganham destaque

professora de inglês e torcedora do Palmeiras. Para demonstrar essa paixão pelo clube dentro e fora de campo, Drielly coleciona e usa diversos artigos que contêm o emblema do time. “Tenho diversos artigos entre roupas, blusas, touca, mochila, copo e bijuterias. E sempre os usos, mesmo em dia que não tem jogo.” A professora ainda contou o porquê de comprar os itens relacionados ao time. “Procuro fazer uma ligação, unindo o útil ao agradável. Sempre que preciso de algo, e se possível, compro relacionado ao Palmeiras. Mas já aconteceu também de eu comprar algo que não precisava, mas que, por ser do meu time, chamou a minha atenção”, explicou Drielly. Mas qual a razão de se fazer produtos femininos com o emblema de times? O pro-

fessor e coordenador do curso de Marketing da Universidade Metodista de São Paulo, Marcelo Alves Cruz, explicou o motivo. “O objetivo é atrair as mulheres para as atividades esportivas. O público feminino precisa ter coisas próprias para poder fazer essa expansão para os times”, declarou o Cruz. O professor de Marketing ainda comentou sobre a participação das mulheres na produção de materiais esportivos. “É uma maneira de fazer uma política de inclusão, deixando o esporte mais moderno. Aquilo que era até pouco tempo de exclusividade de homens, eles estão fazendo uma estratégia de inclusão, trazendo as mulheres para a modalidade. Para isso, é necessário que se adapte os produtos para o público feminino”, explicou o professor. g


16 - Rudge Ramos Jornal

6 de junho de 2014

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