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LITERATURA, PARA QUÊ? Lindinei Rocha Silva Vivemos na era do capitalismo global, em que a dominação das massas pelo poder da propaganda midiática é irreversível. A literatura como expressão cultural, íntima e social do ser humano não ficou alheia a estas transformações. Contestou o curso da história, mas também se tornou um produto de sua lógica. Não é nova a ideia de vinculação da arte como instrumento de contestação ou disseminação de uma ideologia. Entretanto, a ideia de tornar a literatura um instrumento de reivindicação e compromisso social nunca foi uma unanimidade. Como nos ensina o crítico literário Antônio Cândido, a literatura contribui para que se confirmem em cada um [...] aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, o semelhante. (CÂNDIDO, 1995, p.249.)

Sob esta perspectiva, a literatura exorta à reflexão e nos torna mais humanos, motivando a adquirir conhecimentos. Tal ponto de vista é uma consequência da interdisciplinaridade, que se observa nos estudos literários nos quais se leva em consideração outros campos do saber como a sociologia, a história, a antropologia, a psicologia que aprofundam e propõem novos olhares, uma nova visão de mundo. Entendemos que a literatura tem uma função social, ainda que essa seja apenas mais uma dentre suas inúmeras funções. Analisando historicamente, até o século XVIII a literatura foi vista como educativa ou pedagógica. A literatura eclesiástica tinha um objetivo definido: as escrituras sagradas de todas as religiões da civilização ocidental ou oriental fazem da estética literária uma aliada da pedagogia sacerdotal. Foi a partir da Renascença que a literatura perdeu o cunho comunitário e passou a ter caráter particular e íntimo. O Romantismo foi o responsável por essa mudança de paradigma. O poeta curitibano Paulo Leminski assinala que a desvinculação entre arte e utilidade é um conceito relativamente recente na história da humanidade. No que diz respeito ao papel do escritor frente à realidade social, Antônio Cândido defende a denúncia da injustiça e suas


consequências políticas. Assim, a literatura funciona como instrumento de conscientização para que a realidade seja transformada. A literatura, assim como defendia Antônio Cândido, deve dar ênfase à interlocução literatura e história, acentuando o desdobramento cultural advindo deste binômio. Desde a Grécia antiga, as tragédias serviam como um meio de ensino moral e social. Assim, a literatura tinha um papel crucial na vida da sociedade: educar culturalmente os indivíduos. Portanto, o ensino da literatura não se limitava apenas à ação pedagógica do Estado, era também uma forma de ampliar o conhecimento de mundo. No Renascimento, com todas as transformações advindas do conceito de um Novo Homem, a leitura passou a ser uma atividade mais particular. É também nesta época que os autores passam a assinar suas obras, já não se valorizava o anonimato. Neste contexto surge a escola nos moldes que conhecemos hoje. O fato de a literatura ser uma das poucas artes a fazer parte dos conteúdos escolares, demonstra a importância dada ao uso da Língua no âmbito escola. É deste privilégio dado à literatura que se busca nas obras literárias um modelo de linguagem com prestígio na sociedade letrada.

Regina Zilberman defende que a literatura é um excelente caminho para a aprendizagem autodidata porque, [...] a literatura provoca no leitor um efeito duplo: aciona sua fantasia, colocando frente a frente dois imaginários e dois tipos de vivência interior; mas suscita um posicionamento intelectual, uma vez que o mundo representado no texto, mesmo afastado no tempo ou diferenciado

enquanto

invenção

produz

uma

modalidade

de

reconhecimento em quem lê. (ZILBERMAN, 2008, p.56.)

É inquestionável que com a leitura de textos literários aprende-se a ler com mais propriedade, a interpretar o explícito e o implícito, aprende-se história, sociologia, gramática etc. Com a literatura, o leitor expande seu conhecimento de mundo.

Permitindo-me uma digressão, entre críticos e professores, de literatura ou não, estas categorizações sobre a literatura nunca foram unânimes. O que tem justificado essa prática de classificação de obras literárias em gêneros ou períodos determinados é o pretexto de tornar o ensino da literatura mais didático. A Literatura, vez por outra, tem sido esboçada como mero organograma, como Darwin ao classificar as espécies, em que se ensina sua periodização e classificação como fim e não como meio. Esse tipo de raciocínio relega a cultura humanística a um simples algoritmo, passível de elaboração de fórmulas, sem maiores preocupações com o teor literário.


Esta ideia de dominação dos mais fortes, poderosos financeiramente, também se reflete na ideia de literatura que se observa na política de educação desenvolvida por alguns governos, como o brasileiro, por exemplo, que tornaram a literatura uma disciplina curricular coadjuvante, quase opcional, no Ensino Fundamental e Médio, visto que figura apenas como complemento no ensino da língua materna. Lê-se literatura para “aprender” português e não para ser brasileiro. A literatura de cordel, uma das expressões máximas da cultura popular brasileira, está praticamente esquecida nas escolas. Acreditamos que a visão elitista sobre o conceito de cultura erudita versus cultura de massa contribuiu para que diminuísse o interesse na literatura, culminando na falta de familiaridade com os textos literários nas camadas mais pobres da sociedade, incluídos inexoravelmente estudantes e, lamentavelmente, muitos professores que sem refletir sobre a natureza ficcional, poética e artística da literatura, acabam reproduzindo quase osmoticamente a ideologia da cultura dominante. “Para a elite, a cultura é distância e distinção, demarcação e disciplina, exatamente o contrário de um povo que se definiria por suas necessidades imediatas. ” (MARTÍN-BARBERO, 2006, p. 273). Conforme assinala o autor espanhol, essa visão é preconceituosa, pois associa “ter cultura” como uma forma de poder e manutenção de um distanciamento entre a elite e as classes subalternas. E não são poucos os que se encastelam em suas torres de marfim e identificam seus pares entre os que dominam línguas estrangeiras, escutam música clássica, frequentam exposições de arte etc. Obviamente, o desejável seria que a cultura erudita pudesse fazer parte do cotidiano das classes populares, o que em nenhuma hipótese se confunde com o repúdio à cultura popular ou a cultura de massa, com toda a ambiguidade que o termo massa sugere. A palavra literatura muitas vezes soa em nosso país como um bem cultural elitista. Não é exagero afirmar que uma parcela de nossa sociedade crê que o letramento a faz diferente dos demais, uma classe superior, detentora de um conhecimento além do entendimento das massas. Talvez daí advenha o preconceito em relação aos meios de comunicação de massa. Entretanto, essa visão é míope, pois discriminam a vítima do sistema criado por essa mesma elite. Designar a população em geral como massa encerra uma semântica que a considera como manipulável, ou seja, moldada ao bel-prazer do oleiro. Se metaforicamente somos todos feitos do barro, de uma forma ou de outra todas as classes foram moldadas, apenas as fôrmas utilizadas foram diferentes. Entretanto, como categorizá-las sem juízo de valor? Parafraseando Hamlet, “that‘s the question.” Uma das prescrições a que todos fomos expostos, independente da classe social, da localização geopolítica e de outros pré-conceitos que nos fizeram crer que somos diferentes, é o próprio conceito de cultura do qual emana a literatura. No sentido antropológico da palavra, não há cultura melhor ou pior, trata-se de um conjunto de realizações individuais e coletivas que determinam e identificam um povo. Portanto, não podemos pensar em cultura, mas em culturas.


Esta valorização da cultura popular com fins ideológicos, entretanto, não é nova. Conforme assinala Peter Burke, “a ideia de cultura popular está assinalada às primeiras formas de consciência nacional no final do século XVIII, que consistiu em uma tentativa dos intelectuais em erigir a cultura popular em cultura nacional. ” (DOMINIC, 1999, p. 20). Para o escritor uruguaio Eduardo Galeano, a literatura precisa ser encarada como fenômeno artístico, considerada em sua natureza educativa por excelência, porque cultiva valores, crenças, ideais, pontos de vista, que podem enriquecer a vida daqueles que a leem. Não deve prender-se a modelos pedagógicos, mas considerada como uma atividade prazerosa de conhecimento do ser humano e das diversas funções da linguagem, pois retrata e recria as questões universais, numa linguagem esteticamente trabalhada, transgressora da rotina cotidiana. Observa-se claramente que, nas obras de Galeano, política e literatura estão sempre em tensão e interlocução, formam um amálgama, são um instrumento que tem a intenção de conscientizar e provocar a reflexão de seus leitores sobre a realidade que os cerca. SILVA, Lindinei Rocha. Caminhando Pelas Veias Abertas da América Latina. Novas Edições Acadêmicas, 2014.

Literatura, para quê?  

Lindinei Rocha Silva

Literatura, para quê?  

Lindinei Rocha Silva

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