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apresenta


NUMA CIDADE ENTULHADA E OFENDIDA PODE, DE REPENTE, SURGIR UMA LASCA DE LUZ, UM SOPRO DE VENTO lina bo bardi

TIPOGRAFIAS DO BIXIGA relevo de tecidos urbanos รณrgรฃos: nervuras de calรงadas fissuras de portas de ferro texturas e tipos antigos de bueiros e ruas. calcogravuras em giz de cera


4 A BIGORNA camila mota 5 NA ORGYA DE VIVER nash laila

18 CADERNOS DE LUZ MACUMBA ANTROPÓFAGA

pedro felizes

A BIGORNA é uma produção do

19 CADERNOS DE LUZ BACANTES luana della crist e cibele forjaz

núcleo de comunicação e mídia tática da universidade antropófaga, 3ª dentição.

zé celso, zé miguel wisnik y uzyna uzona

20 MACUMBA ANTROPÓFAGA desenho gráfico de igor marotti

EDITORAS cafira zoé e camila mota

10 SIGNIFICAÇÃO DOS OBJETOS NA ENCENAÇÃO D BACANTES

28 ANHANGABAÚ DA FELIZ CIDADE marília gallmeister

PRODUÇÃO EDITORIAL, REVISÃO, DIAGRAMAÇÃO E PROJETO GRÁFICO

6 RASGA O CORAÇÃO, a rítmica religiosa de villa-lobos em ensaio

elisete jeremias e otto barros 12 CIEN-ZIA, TECNOLOGIA Y TRANSE camila mota 13 TRANSMÍDIA brenda amaral

33 FOLHETIM DAS AGAVES E CONTOS joana medeiros 34 O TEXTO QUE VIROU PEÇA QUE VIROU FILME QUE VIROU ETCETERA

paulo leminski

14 DIGITAL PALPÁVEL camila mota

35 A CENA MAIS ATUAL DE O REI DA VELA oswald de andrade

14 VER COM LOS OJOS LIBRES cafira zoé

36 O REI DA VELA zé celso martinez corrêa

16 MON+TAR pedro salim

38 A TRANSIÇÃO DA ENERGIA FÓSSIL

17 SABER QUE AS COISAS ESTÃO IMANTADAS fernanda taddei

TIRAGEM 1000 EXEMPLARES

ano 463 da deglutição do bispo sardinha

À ENERGIA RENOVÁVEL

cia teatro oficina uzyna uzona

COLABORADORES DESTA EDIÇÃO brenda amaral é programadora web e faz parte do núcleo de comunicação | mídia tática do teatro oficina y universidade antropófaga cafira zoé é poeta, artista visual, videoartista da companhia teatro oficina uzyna uzona e faz parte do núcleo de mídia tática da universidade antropófaga camila mota é atriz, estrategista da companhia teatro oficina, diretora, criadora de makumbas gráphykas cibele forjaz é iluminadora e diretora elisete jeremias é diretora de cena fernanda taddei é artista, atriz e tradutora igor marotti é kinoatuador e artista gráfico visual da companhia teatro oficina uzyna uzona jennifer glass é fotógrafa joana medeiros é atriz kael studart é ator, cozinheiro e colunista social luana della crist é iluminadora da companhia teatro oficina uzyna uzona marília gallmeister é arquiteto da companhia teatro oficina uzyna uzona e terreiro coreográfico nash laila é atriz otto barros é diretor de cena da companhia teatro oficina uzyna uzona pedro felizes é iluminador da companhia teatro oficina uzyna uzona pedro salim foi editor de vídeo ao vivo da companhia teatro oficina zé celso martinez corrêa é ator, autor e diretor da companhia zé miguel wisnik é músico, compositor, cantor, ensaísta, professor de literatura brasileira e colaborador da companhia

conteúdo digital + english version

cafira zoé e camila mota DIAGRAMAÇÃO E PROJETO GRÁFICO MACUMBA ANTROPÓFAGA

(páginas 20 a 27) igor marrotti ARTE GRÁFICA DA CAPA cafira zoé e camila mota TRADUÇÃO ana hartmann e maria bitarello EDITORIA E PROGRAMAÇÃO WEB brenda amaral PRODUÇÃO anderson puchetti COZINHEIRO E REVISÕES kael studart PATROCÍNIO PETROBRAS

CRÉDITO DAS IMAGENS capa – ócio sobre cartões de ponto – arte gráfica e colagem camila mota e cafira zoé poster rã abaporu - acrílica sobre tela igor marotti 2 e 39 calcogravura de relevos urbanos do bixiga camila mota e cafira zoé 4 jornal a bigorna, número zero

arquivo teatro oficina 5 flyer dos seminais, dezembro de 2016 igor marotti 6, 7, 12, 14, 33 makumbas gráficas camila mota 9 partitura choros nº 10 villa-lobos 10 bacantes, coroa de hera jennifer glass 13 sambaqui jennifer glass 15 cinema-olho dziga vertov 16 e 17 intervenções sobre pranchas de botânica cafira zoé 18 macumba antropófaga, desenho de luz

pedro felizes 19 bacantes, caderno de ensaio, desenho de luz cibele forjaz 20,21, 22, 23 criação gráfica igor marotti 24, 25, 26 e 27 – rã abaporu preparação kael studart, foto igor marotti 28 buraco norte acervo teatro oficina 30 e 31 cezalpina camila mota 32 acervo teatro oficina + buraco santo amaro, foto cafira zoé + acupuntura portal japurá, foto igor marotti 34 e 35 passaporte o rei da vela arquivo teatro oficina 36 caderno de ensaio Os Sertões de Euclides da Cunha sincrônico com O Rei da Vela de Oswald de Andrade - sylvia prado 37 desenhos de hélio eichbauer + fotos PB arquivo teatro oficina + abelardo 1º 2017, jennifer glass julho 2017 A

BIGORNA 3


a bigorna O texto de 1987 é matriz e incorpora em sua estrutura poética peças que serão encenadas pela companhia a partir da década de 90. E antes da primeira encenação do espetáculo, a dramaturgia se materializou na construção do terceiro Teat(r)o Oficina, de Lina Bo Bardi e Edson Elito, paradoxalmente inaugurado com Ham-Let, de Shakespeare, em 1993, mas com projeto arquitetônico inspirado diretamente nas necessidades dos elementos da arquitetura cênica de Bacantes: terreira eletrônica, extratoporto, chão de cimento com tira de terra crua, céu aberto em teto móvel para comunicação com os urânidas, jardim túmulo de Semele, fogo, fonte de Dirce – cachoeira. Esse espaço, dramaturgicamente arquitetado, em 2015 foi eleito o melhor teatro do mundo, segundo o The Guardian.

Em 2016, o projeto da Companhia Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona em parceria com a Petrobras foi a manutenção de sua sede e do núcleo transdisciplinar que atua neste espaço, num trabalho indissociável entre arquitetura e atuação. A terceira dentição da Universidade Antropófaga teve o objetivo de atuar nesse espaço e refinar técnicas de atuação, dança, canto, artes visuais, vídeo, figurino, direção, arquitetura e urbanismo cênico, cosmopolítica, comunicação, filosofia, com a antropofagia como uma das linhas condutoras de pensamento e sua atuação concreta nas catástrofes do antropoceno. Universidade Antropófaga é a prática de transmissão de conhecimento do Teat(r)o Oficina, companhia inaugurada em 1958, com sede na periferia central do bairro do Bixiga, no centro de Sampã. Dirigida por um antropófago - Zé Celso Martinez Corrêa, tem como arte matriz o teat(r)o, e seus espetáculos são uzynas de contracenação de muitas artes, muitas línguas, atuando na construção de peças que, com suas ações, situações e personagens, são canais de interpretação do tempo presente. Inspirada num antigo morador do Bixiga – o grande poeta moderno, pós-moderno e antropófago, Oswald de Andrade, a Universidade tem como superobjetivo a formação não somente de atores para o teatro, cinema ou TV, mas atuadores formados na experiência do estudo, prática e contato com os pontos tabus, que impedem nossa evolução para a liberdade, incorporando o ensino com crianças, adultos, através de experiências artísticas, filosóficas, científicas, e mergulhando nos temas tabus, evitados pela educação de péssimo padrão de hoje. A redescoberta da antropofagia, com a montagem de “O Rei da Vela”, em 1967, desaguou em um movimento artístico na música, na literatura, artes plásticas e no cinema: a tropicália – movimento de descolonização através da devoração. Após as duas primeiras dentições da Universidade, em que realizamos aber4 A BIGORNA julho 2017

tura de chamada pública, e dos núcleos de extensão do pensamento antropófago transdisciplinar – Convênio Exemplar, X Bienal de Arquitetura e Terreyro Coreográfico – na terceira não abrimos novas vagas. O corpo docente e discente foi composto com o time da companhia, formado por integrantes que há muito tempo atuam no grupo e pelos que vieram das chamadas públicas da primeira e segunda dentição. Esse projeto foi uma experiência para aprimorar nossa prática de transmissão de conhecimento, como um mestrado, onde os artistas, além de desenvolverem a linguagem da companhia, desenvolveram também a capacidade de transmitir esse conhecimento. O

espetáculo

escolhido

em

2016

como fio condutor das ações e interpretações da companhia foi Bacantes. A peça é a grande diretora da linguagem desenvolvida no Teatro Oficina: tragykomédyOrgyas, óperas de carnaval elektrocandomblaicas. Criada pela companhia desde a década de 80, Bacantes é a última tragédia escrita por Eurípedes, que em 25 cantos e cinco episódios reconstitui os ritos de origem do teatro. Nos anos 80, a companhia realizou diversos trabalhos de coro, composição de músicas e construiu uma dramaturgia antropófaga com a primeira versão do texto finalizada em 1987. São co-autores dytirambistas dos tyasos dionizíacos Eurípedes, Zé Celso, Catherine Hirsch, Denise Assunção e Marcelo Drummond.

Em dezembro de 2016, como parte da programação das ações da 3ª Dentição da Universidade Antropófaga, a companhia realizou os Seminais – semeaduras de conhecimento em seminários, 8 encontros que dissecaram o corpo vivo de Bacantes, cada um sob o ponto de vista e ações das artes que se cruzam nos espetáculos: direção de cena, audiovisual, luz, arquitetura e urbanismo cênico, comunicação, atuação, som, música. O conteúdo dessa nova edição da revista A BIGORNA foi gerado e procriado nessa máquina de desejos da Uzyna Uzona da Universidade Antropófaga – parte da criação de textos, fotos, makumbas graphykas tem relação direta com o processo de Bacantes e sua dissecação em seminais; parte tem ligação direta com atuação em escala urbana no Anhangabaú da Feliz Cidade; os capítulos dedicados à antropofagia e a montagem de Macumba Antropófaga, espetáculo que devora o Manifesto Antropófago de Oswald Andrade; e por fim, um bloco é dedicado à pesquisa e o desenvolvimento de uma nova economia para a cultura em uma era onde, através de PECS e decretos há um completo desmonte da vida humana, matéria prima do teatro; e por fim O banquete está servido! CAMILA MOTA


seminais

na orgya

de viver

silênCio sagrado. só podemos atender ao mundo orecular.

“Os excessos desempenham um papel preciso e salutar para economia do sagrado. Eles quebram as barreiras entre o homem, a sociedade, a natureza e os deuses. Eles fazem circular a força, a vida, os gérmenes, de um nível para outro, de uma zona de realidade para todas as outras. O que estava vazio de substância, ressarcia-se. O que estava isolado, funde-se na grande matriz universal. A Orgya faz circular a energia vital e sagrada. Os momentos de crise cósmica ou de opulência servem, em particular, como pretexto para o desencadeamento de uma Orgya.” - Tratado de História das Religiões” de Mircea Eliade

Tenho essa qualidade de orgia na cabeça desde os estudos pra Bacantes em agosto de 2016. Pra mim, não é o sexo vendido na novela e nas bancas de revista. Sexo é mais do estamos acostumados a ouvir que é. A orgya necessita do corpo inteiro disponível e entregue à ações e reações vitais.

É do ponto de vista do meu corpo-todo de atuadora e do corpo-todo de Bacantes, que falo sobre as atuações da Uzyna durante os Seminais da 3ª dentição da Universidade Antropófaga. Na feitura dos corpos, Toshi Tanaka, mestre das tecnologias da vida, veio ao oficina pela primeira vez e falou que aquele espaço era como um vale onde todos os bichos se encontram, os líquidos desaguam. Nós, uns mais macacos, outros mais peixes, mais feras, nos encontramos por 5 dias, ali naquele vale, atentos, ligados e desejosos pra desencadear uma orgya: o teat(r)o. O OSSO, A DIREÇÃO DE CENA O esqueleto da peça exposto na pista da rua Lina Bardi. Primeira direção: chegar no silêncio coletivo e fazer o roteiro da contraregragem - a partitura da peça pela ótica da direção de cena. A comunicação minuciosa e fina entre os que precisam encaixar um osso no outro pra que o corpo do teatro dance fluido e continue aceso e forte pelas seis horas de rito. Após toda preparação e contraregragem, atuamos nos três atos de Bacantes em silêncio, fazendo os objetos cumprirem seu roteiro de presentação: entra em cena, vive, sai de cena. Todos os corpos humanos ligados em função do Cordão de Ouro, do Fogo de Zeus, das Coroas de Hera, dos Vinhos, do coro de Uvas, de Pele de Viadinho, de Tyrsos, do Leite, dos Brinquedos de Dionisio... A estrutura óssea desse corpo de Bacantes se revela nessa arte da obsessão, do amor pelos objetos: cuidar, guardar, colocar em cena. Objetos virados personagens, corpo e vida. A CINTURA, O VÍDEO Haja bambolê pra treinar esse rebolado! A cobra grande de Bacantes precisa de vários olhos, na frente e atrás, ouvidos e poros abertos: pra ser do vídeo, tem que ter saber dançar com o ar, como no Seita-ho. E ter o Roteiros! Roteiros! Roteiros! de Oswald Andrade impregnado no corpo. Assim como atrizes e atores, atuadoras e os atuadores de vídeo respiram juntos a cena, olham pra ela, estão dentro dela. A PELE, A LUZ Sentir, mais do que ver. Receber. A luz tem pele, concretude. Dá pra tocar nela. Dá pra sentir ela tocar a gente. Tem temperatura, tem cheiro e muda quando muda de cor. Muda coisas em nós - sensa-

ções e sentimentos. Deixar-se ir pela luz é aprender um caminho novo. Fechamos os olhos e deixamos ela guiar pelos outros sentidos. Dançamos como cardume. OS OLHOS, A ARQUITETURA Primeiro, um mapa. Tive o peito ardendo enquanto pisava em Tebas, no Citerrão; quando fui até os Urânidas, lá longe!; pra que lado é Kitira? E Piería? E o Nilo! Tudo ali, no chão, abaixo da Bigorna, ao som dos tambores de Ogan. Depois entramos no teatro (em silêncio, cio sagrado) e vimos as sete portas de Tebas, o norte, o sul, o leste, o oeste; o Olympo, o Palácio de Penteu e Kadmos. Subimos pelos ferros e escadas da praça, pista do oficina, vale de Toshi, e chegamos em cima. Uma parede. O olho de AquiLina Bo Bardi direcionando nossos olhos, quem está por aqui? Quem?; Águia, certeira. A cada marretada, uma pontada de entusiasmo e depois de algumas, a nova vista: o lado leste, de dentro pra fora. Descemos pra pista, pra praça, com alegria de erês. Da fonte Dircinha, a Ethernidade, pegamos a água e regamos o jardim, a Cezalpina, onde as cabeças das bacantes descansam, nas folhas de mangueira. Viramos bichos de mangue. Enlameados, fomos até o terrenão-citerrão ao lusco-fusco, tomamos banho de mangueira. Anoiteceu. Voltamos à frente do palácio, no centro da praça, acendemos o fogo de Zeus, na porta do subterrâneo de Semele-Persefone; deitamos ao redor do fogo, abrimos o teto e vislumbramos novamente os Urânidas, não mais no mapa sob nossos pés, mas na escala do tudão: no céu, no cosmos. Ouvimos o que vimos numa roda de prosa ao redor do fogo. De Tebas, do rito das Bacantes, tudo lá: o teatro oficina de Lina Bardi e Edson Elito é a terra de Dionisio. O CORAÇÃO, A COMUNICAÇÃO O bombeamento do sangue é a função do coração. Apenas! Apesar da sua potência, ele é relativamente pequeno, mas sua função exige uma composição complexa de inúmeros vasos, cartilagens, nervos, músculos, artérias, veias e ligamentos. Bombear sangue é fazer a vida continuar. Sejamos nós, sangue, vasos, cartilagens, nervos, artérias, veias e ligamentos pro sangue zanzar. O SANGUE, A ATUAÇÃO Sangue pra contaminar. Artaud. O

sangue caminha por todo o corpo. Todo o corpo tem e precisa do sangue. Tudo no Oficina é Atuação. O OUVIDO, O SOM Fecha os olhos, fecha a boca, dá as mãos, abre os ouvidos. O espaço sonoro se apresenta com todas as sutilezas quando ouvimos. Buscar sutilezas da escuta. É das primeiras sabedorias: sem ouvido não há ator. Não existe o contracenar. Ele nos coloca no presente, nos prepara pra agir. Num espaço sonoro como o do Oficina, onde o fora entra no dentro, onde não existe coxias e truques de teatro, a atenção pelas orelhas é essencial, fundamental pra cena e pra fora dela. Somos muitos, uma multidão. Sem escuta o dia a dia fica insuportável. Ao contrário de como a carruagem de SamPã anda, nós desaceleramos na fala, no lugar de fala e nos dispomos a receber o outro. A BOCA, A MÚSICA A música de Bacantes é texto. E além de texto, é rito. E além de rito, é mito. Cerca de 2.500 anos de rito do mito vivido pra saudar Dionisio. Aquecemos o coro, aprendemos a letra de Rasga Coração com todos os presentes e as dinâmicas afetuosas de Zé Miguel Wisnik, quando Zé chegou e nos trouxe a direção: a boca que sabe o que fala. Pra cantar os cantos, precisamos estar preenchidos de sentido do rito. Cantar sem sentido, não tem sentido, porque ele não está no nosso corpo. Se está em nós, somos sangue contaminadores. Quando falo em sentido não me restrinjo ao sentido intelectual, mas o do corpo, presente, serEstando. Acreditamos na Presentação, na atuação da hora, na interpretação, no jogo, no phoder humano, da natureza. Quando rasgamos nossos corações pro sentido do rito, cantamos. Pra ter orgya, pra ter rito, conexão, carnaval, telepatia, astro, estrela, Eros - o bonito deus que circula entre humano e divino - pra ter teatro, é preciso ser corpo disponível, corpo inteiro aberto. Dar muito. Receber muito. Sensíveis abertos para o que não é Ego; deglutir o inimigo sacro; agir e ouvir. Desejo, tem. Paixão, tem. A invenção e a surpresa. Entusiasmo! NASH LAILA julho 2017 A

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seminais

O choros nº 10 de Villa-lobos é uma célula tronco embrionária da companhia. Pluripotente, essa rítmica religiosa criou novos tecidos na formação dos coros das óperas de carnaval. Em 2011, o aprendizado dessa obra marcou o início da criação da Macumba Antropófaga – uma revolução no trabalho de coro, até então pouco dedicado à composições sinfônicas com diferentes naipes sobrepondo-se e contracenando em diversas dinâmicas. Desde então, uma obra de Villa é sempre incorporada aos espetáculos. A entrada do choros nº 10 em Bacantes marcou uma grande diferença de interpretação na cena do estraçalhamento do touro. No seminal de música, o coro da companhia realizou um ensaio dedicado à essa música sob direção de Zé Celso e Zé Miguel Wisnik. 6 A BIGORNA julho 2017


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RASGA CORAÇÃO TRANSCRIÇÃO DO SEMINAL DE MÚSICA REALIZADO NO DIA 15 DE DEZ DE 2016 Cia + Zé Celso + Zé Miguel Wisnik

Zé Celso: eu fiquei muito emocionado ontem, ontem não, hoje é dia 15 né? anteontem! dia 13, dia da votação da PEC 55 (congelamento de gastos por 20 anos), coincidiu com o mesmo dia do AI-5, e é uma medida do plano econômico e social tão violenta quanto foi o AI-5, e vai fazer sofrer muito o povo brasileiro enquanto ela durar, e já tá fazendo né, já tá fazendo sofrer. e eu acho q essa peça... a música então! a música se tornou!.. a música não é de um sofrimento – é também de um sofrimento pessoal, mas é um sentimento pessoal ligado a um sofrimento de todo um povo, talvez, não só no Brasil mas no mundo inteiro, de um momento com uma pressão muito grande em cima…. bom, é melhor ler!

reiras, técnicos de som, faxineiras, no sentido de trazer mais sentidos de pulsações mesmo, das batidas de nossos corações nesses dias e noites trágicas que nós no Brasil estamos sofrendo, onde anteontem, no mesmo dia do AI-5, em 1968, apogeu da ditadura militar, dia 13 de dezembro de 2016, a escória do congresso brasileiro, impôs a PEC 55, na ilusão hitlerista de que os rentistas vão nos massacrar, povo brasileiro, por 20 anos. a dor a que se refere a letra da música do canto é a que o povo no Brasil sente desde ontem, mas é a mesma dor que nos faz rasgar o coração na praça pública que é o Teatro Oficina, pra podermos

com grande esforço... uma coisa é essa música ser cantada numa sinfônica, e são poucas as gravações que se ouve mesmo, que se entende alguma coisa… mas no teatro, é necessário que as pessoas que estão fazendo tentem por toda maneira não só cantar com clareza, saber o que tá cantando, mas sobretudo participar de um sentimento comum. eu tinha até uma certa implicância com esses versos, achava assim muito cafona, mas não é, são muito bonitos! e tem modulações, quando pede pra cantar: brandamente. tem uma série de coisas que ficaram só em uma superficialidade… a música é difícil, é linda, traz um

(leitura do texto trazido por Zé Celso) IÁ, amantes amados! nas últimas semanas, muitos tecno-artistas do Teatro Oficina Uzyna Uzona realizaram, cada dia e noite, estudos das várias áreas de nossa máquina dos rytos espetáculos que receberam o nome, ao invés de seminários, de seminais, abertos para o público. por meu estado de saúde não tenho ido, mas amanhã, vou Estar! Pelo que tenho ouvido, sentido, têm sido sensacionais, lindos, e sobretudo, tem rendido mais que se fossem meramente ensaios, trazendo uma grande solidariedade e amor entre os do elenco que tem praticado as seminais… amanhã, hoje, dia 15, 19h, o Zé Miguel Wisnik vai participar do seminal de música. eu, Zé, vou estar, e gostaria muito de trabalhar o rasga coração com o elenco total tecno-artístico, reforçado pela presença de você, Gui, que felizmente já deve tá em sampã! D Ito, o tambor do nosso coração, de Catherine, de toda a banda, incluindo Felipe Botelho que entra agora no baixo, e todo o elenco de bacantes e sátiros e cantores e iluminadores, contra-regras, vídeo astros e astras, figurinistas, cama-

ver, e revirar o que está acontecendo. TiZérias rasga coração e vamos ver e faremos ver

(volta a conversa)

IÓ Zé Celso: tem um determinado momento, que foi ensaiado inclusive com as sopranos, que nunca se entendeu nada, e além de não entender nada, é uma coisa cantada com muita brutalidade, não sei,

efeito muito grande, tem determinados momentos que ela ganhou com a banda uma sensação de música popular mesmo, de marcha-rancho, porque o Villa Lobos escreveu misturando tudo né, misturando cantos indígenas, africanos, ocidentais, misturando tudo! criou praticamente esse Brasil nada nacionalista, nada brasileirista, esse Brasil múltiplo… é uma coisa múltipla. então eu acho que essa música, pra mim, exprime a minha dor pessoal, não só a minha dor pessoal. eu posso começar nela, mas é a dor de nós todos… é o que o Oswald de Andrade sonhava, em abrir o

abscesso fechado dele na praça pública, porque essa dor, só você rasgando o coração. rasgando o coração, com grande alegria talvez, rasgando o coração você é capaz de ver alguma coisa, e de sentir as palpitações todas do momento agora. (…) tem um momento em que a música pede pra ser cantada brandamente e não é cantada brandamente, é cantada aos berros. e logo em seguida tem esse momento que as sopranos falam dessas dores, mas depois é outra ideia, que é os anjos a cantar… enfim, é um poema. a palavra prismatização, por ex… o poema é bonito, ele tem um lado brega, mas ele é muito bonito e ele expressa muita coisa sutil, como prismatização, e acho que nunca, quando fazem esses corais, eles trabalham assim, minuciosamente na interpretação, mas eu acho que num teatro é preciso trabalhar a interpretação, a modulação, essas coisas todas… e isso acho que nunca foi feito. eu queria saber: de que maneira a gente poderia chegar a uma interpretação nova dessa música, a uma interpretação teatral? Zé Miguel: então, essa letra, que parece tão… que não tem... quer dizer, propriamente parece que ela não tem grande sentido. e tudo isso que você falou é maravilhoso… eu também sempre conheci isso e achei que era muito datada, de um gosto beletrista… o Catulo da Paixão Cearense que fez essa letra, que é originalmente um xote do Anacleto de Medeiros, que se chamava Iara, mas era uma música instrumental, e o Catulo da Paixão Cearense, como muitas vezes ele fazia, letrava músicas instrumentais de Ernesto Nazaré… e no caso dessa, do Anacleto de Medeiros. e ele que fez grandes sucessos… na verdade, nos primeiros anos, assim, nos anos 20, Catulo da Paixão Cearense era uma figura, o primeiro que chegou do nordeste, acho eu, e trazia uma coisa do canto popular. (...) mas ele nos salões passou a fazer sucesso e trazia uma coisa beletrista assim, uma coisa um pouco parnasiana, romântico-parnasiana, combinando com essas músicas populares… e ele então dava a julho 2017 A

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seminais isso tudo esse caráter, que a gente sente – eu sentia, uma coisa assim dessa época… mas, acho que, realmente, o Zé Celso falando isso, e o que a gente estava cantando antes aqui... antes de você chegar, foi feito um ensaio em que se cantava cada estrofe, parando nela, retornando, e que foi fazendo com que fosse possível ir absorvendo, na verdade, essas palavras, a melodia, e eu acho que a coisa foi ganhando uma dimensão nova, e, assim, emocionante, nesse sentido que você está falando… de uma coisa aqui que é trazida pra agora assim. então, tem uma coisa muito curiosa que é o seguinte: Fernando Pessoa, o maior poeta da língua portuguesa no século XX, disse uma vez, em Portugal, que o prêmio Nobel, devia ser dado ao Catulo da Paixão Cearense. e essa é uma coisa que trouxe todos pruma discussão sobre Bob Dylan no prêmio Nobel. e se Fernando Pessoa disse isso, no fundo Fernando Pessoa tava, desde então, dizendo que tinha uma coisa na música brasileira que tinha uma força ali né, e naquele momento o que havia era justamente Catulo e ele viu isso. então, tudo isso acho que se junta, aqui, né? agora, a peça do Villa-lobos, que fez essa grande sinfonização coral, então tem orquestra, é todo o brasil junto com uma orquestração meio Stravinsky, de música erudita, sinfônica e coral, tem essa distribuição de naipes, então é soprano daqui, tenores dali, baixos etc e tal… agora, eu acho que no teatro, como o Zé tava dizendo – isso tornar teatro, eu acho interessante que a gente não se prenda a essa separação. então as sopranos estarão cantando na oitava delas essa altura, mas, os outros estarão adaptando a cada vez as suas oitavas… então, não fica só as sopranos lá no teto, no telhado, cantando essa parte, mas tem um negócio que tá encorpado por todo mundo e eu acho que isso deu pra sentir aqui, eu acho que prometeu surgir uma coisa assim… pelo que eu ouvi aqui, eu acho que é possível isso, que as pessoas cantem somando em várias oitavas, mas com o sentido do que se está cantando, com a expressividade, com tudo isso. e eu acredito que isso acaba formando uma coisa diferente e teatral, que 8 A BIGORNA julho 2017

eu acho que a gente podia experimentar com base no ensaio que foi feito, o que q você acha? Zé Celso: vamos entender o poema cantando? é a pulsação do coração. pena que a Catherine não tá aqui, que o coração dela tá pulando feito sapo, tá mesmo! eu cheguei perto do coração dela… é uma coisa que vem daqui (coração) não vem da cabeça, vem desse afago, do coração, tá se referindo a isso… e o Villa-lobos, sabiamente, pegou um pedaço da música, não é a música inteira, e a letra é extremamente bonita… vamo? (piano e coro) Se tu queres ver a imensidão do céu e mar Refletindo a prismatização da luz solar Rasga o coração, vem te debruçar Sobre a vastidão do meu penar Sorve todo o olor que anda a rescender Pelas espinhosas florações do meu sofrer Vê se podes ler nas suas pulsações As brancas ilusões e o que ele diz no seu gemer E que não pode a ti dizer nas palpitações Ouve-o brandamente, … docemente Zé Celso: aí, aí aí! … por exemplo… palpitar……. aí! já teve coisa antes, mas é: (direção) ouve-o branda… mente… tem que cantar brandamente pra deixar ele cantar brandamente, é uma modulação como qualquer música; tem uma modulação, não pode cantar tudo igual, entendeu? esse momento, por exemplo, ele fala: ouve-o brandamente... palpi…tar... é uma coisa que vem daqui (corpo/coração), eu não sei explicar isso, um canto que vem daqui, de baixo pra cima e um outro canto que é aqui (chapado – como o coro fazia), isso que vem aqui não é o canto… não leva em consideração… o início da música, vamos cantar de

novo? e eu vou interromper só em algumas partes. tentem sentir o que estão dizendo e trazer de dentro, fisiológico! é o coração… (coro) se tu queres ver a imensidão do céu e mar refletindo a prismatização da luz solar..... Zé Celso: olha aqui, refletindo a prismatização! a prismatização é uma coisa muito bonita! prisma é uma coisa sofisticada na vida, uma coisa bonita, uma coisa sutil, sabe? então, se cantar um pouquinho mais baixo, e se cantar como se tivesse ouvindo o que está cantando, como se tivesse o próprio retorno… vamos cantar um pouquinho mais baixo. menos da boca pra fora, vamos saber do que nós estamos falando... se você quer ver a imensidão do céu e do mar… isso é muito importante! eu quero ver a imensidão do céu e do mar…. rasga coração é uma coisa forte! Zé Miguel: acho que esse negócio da sílaba, a sílaba tá muito recortada igual… só que a frase tem um desenho, e a palavra... então, tem uma coisa... (cantando) se tu queres ver a imensidão do céu e mar… essa imensidão ela vai mais longe… a prismatização faz uma curva e quando ela se completa, porque o prisma é o tal arco-íris, é a prismatização da luz solar Zé Celso: é colorido! Zé Miguel: na prismatização algo se completou ali… vem te debruçar… isso é um convite né! rasga o coração! vem te debruçar…. e são dois convites fortes! Zé Celso: e tem que ter uma percepção da vastidão do seu penar, e tem que cantar com ele, com a vastidão do seu penar. é uma coisa da poesia, é lindo porque é poesia, e poesia não é prosa, não é papo-furado, não pode trocar uma palavra por outra e tal: é aquela!

vamos de novo? começar bem baixinho? Zé Miguel: no Villa-lobos inclusive isso é um sussurro, né, que tem tudo aquilo e é a coisa de um canto de sereia mesmo … (coro) Zé Celso: olha, outra coisa, outra coisa, (cantando) vem te debruçar sobre a vastidão do meu penar… não é chorosa a música! é o penar visto como uma coisa grandiosa, que se você rasga, abre na praça pública, você vê! e se você vê, você transmuta… é o choro nº10… o choro, aliás, é engraçado porque ele raramente é chorado… o chorinho é cantando feito passarinho, é uma coisa alegríssima… então não puxa o lado drama, é mais o lado tragédia, tragédia e humor e não tem drama, tem que eliminar o chorar desse choro, é até cair lágrima, mas é uma lágrima de rasgar pra se transformar, pra ver outra coisa… não é uma lamúria, não é um oprimido, é outra coisa, elimina o drama por favor, olha essa frase… (cantando) sorve todo o olor que anda a rescender… eu acho que é até um mau cheiro isso… é um cheiro insuportável, que você não aguenta, que você tem que por pra fora, não é um odor maravilhoso aí… é quase tapar o nariz… sorver e chupar… chupa o cheiro do momento pra você ver, tá podre! tá podre! olha aí, aí essa frase… quando você tá no olor, na coisa toda, é terrível, mas se você fica mais brando e ouve só o coração… não o meu, o de todos... ouve o coração, então você vai… é diferente, ele tem uma pureza, mais que uma vestal… nesse brandamente acho que tem que ter um chiu (sopro). a música é surpreendente, a poesia é surpreendente... se não descobre a surpresa a cada instante, não acontece! (...) (coro) Zé Celso: rrrrrrasga que há de ver! rasga! tem que rasgar o coração! que que você sugere, pra apreensão da percepção?


seminais principalmente os masculinos, não soam também como deveriam soar, então a gente tem que ficar controlando o nosso volume e é bem difícil cantar agudo muito baixo. tem que fazer soar mais esse coro masculino porque fica só uma massa sonora grave. Zé Celso: e no corpo na voz masculina o que é que está faltando? Carina Iglesias: tem como brilhar mais essa voz grave Vera Valdez: claro (sonoro) (risadas do público)

Zé Miguel: bom, eu acho que deu um grande salto! e acho que tem uma coisa da melodia na frase, mais ligada, que é, quando você canta as sílabas de uma palavra, elas tem uma intenção terna àquela palavra, e você liga uma sílaba a outra e em certos momentos especialmente, em vez de estar sempre com aquela decupagem… isso a gente viu lá na pris-ma-tização, mas é isso é todo tempo, todo o tempo está acontecendo isso Zé Celso: e diferente a cada dia! a poesia cada dia tem um significado. então se você tá ligado, você vai conseguir muita coisa, a poesia é maravilhosa por isso, ela é surpreendente. se você mecaniza: fudeu. vamo lá? Zé Miguel: por ex, rasga que hás de ver lá dentro a dor a soluçar … (cantando) … essa dor ela surge, ela tem profundidade, e isso é o fraseado, é a melodia das palavras na frase melódica, então isso é que difere… é parecido com a prismatização, mas em cada verso, em cada palavra, tem a sua pedida, o seu desejo Zé Celso: e você estuda o canto sabendo de cada coisa, procurando com tua imaginação cardíaca... e cantando cada vez mais… é marcha rancho, mas uma marcha rancho cantada sei lá, como cantava dalva de oliveira, como cantam as pessoas que realmente sentem o que tão cantando Nash Laila: rítmica religiosa libertá-

ria… Zé Celso: essa frase é muito engraçada, pode até ser… deus a ritmar seus pobres ais (cantando) eu acho essa frase genial! eu acho essa frase uma maravilha Zé Miguel: é porque são dois planos do ritmo, digamos, o que está embaixo tá vendo? ...tum tichtum tum tichtum... é o ritmo de base que tá aqui. só que a frase que tá por cima ela vai surfando em cima dessa onda, mas ela não é simplesmente aquilo, isso aqui é um nível mais elementar do ritmo pulsando aqui no qual a gente entra, mas sobre isso né… rasga que hás de ver lá dentro a dor a soluçar / sob o peso de uma cruz de lágrima a chorar / anjos a cantar / preces divinais / deus a ritmar seus pobres ais (cantando) Zé Celso: deus a ritmar seus pobres ais… tem humor nessa frase! tem humor nessa frase! Zé Miguel: vocês fazem muito igual esses anjos a cantar / preces divinais… acho muito aplainado. esse ouve o brandamente... a diferença é interna… houve o brandamente… eu acho, isso é super importante, porque todas sílabas na mesma dinâmica, na mesma intensidade fica reto, não vem a tal expressão, o coração não pulsa nem rasga na frase né… a suavidade é importante, mas a intenção e a coisa de ligações e acentu-

ações nos lugares que as palavras pedem ali naquele desenho, as palavras não são todas equivalentes. isso tá na melodia, na voz surfando na onda, no ritmo que tá comendo por baixo… quando tem as sopranos e o naipe é muito agudo, perde-se a expressividade da frase né, por causa do esforço e da região, da região onde se canta. eu acho que deveria haver uma redistribuição pra formar um grupo que cantasse uma oitava abaixo somando… Sylvia Prado: sim, eu acho, se tiver outras vozes somando vai ser mais interessante Zé Celso: mas eu acho o seguinte também, tudo é coração. (...) Zé Miguel: e eu acho que elas podem cantar uma oitava abaixo, se dividir pra cantar, que as sopranos fossem um timbre. (...) por ex, quando a Elizete Cardoso cantou nas Bachianas Brasileiras, era uma peça pra soprano justamente, Bidu Sayão cantava. e aí a Elizete cantou uma oitava abaixo, isso foi escandaloso à época, porque parecia que ela estava alterando a partitura, mas era uma maneira de apropriação… em certas partes, só soprano cantando, por ser uma região muito aguda, fatalmente vai se perder a expressão se não somar com outros cantando numa outra região. e que o timbre das sopranos esteja lá, isso incorpora…

Zé: vamo então? agora no brandamente, vamos abaixar, ouvir o coração, vamos ouvir a vestal, entendeu? (coro) Zé Celso: Zé Miguel, que que você achou? Zé Miguel: eu? ah, eu tava em transe, eu não sei… (risos) Sylvia Prado: agora o que precisa também é sair de toda euforia dos estraçalhamentos, da doidera, pra ganhar um respiro, pra conseguir ter essa suspensão de cantar essa música…se não a gente suja ela Rodrigo Andreolli: e achar isso dentro da ação também Sylvia Prado: tem uma coisa fundamental que é a presença do Touro, Dionísios que fica cercando e também cuidando do Touro, a gente precisa de uma presença espacial muito grande… a gente tem que ganhar essa visão aérea da peça.

TRANSCRIÇÃO DO SEMINAL DE MÚSICA REALIZADO NO DIA 15 DE DEZ DE 2016

Cia + Zé Celso + Zé Miguel Wisnik

Carina Iglesias: tem uma questão também que eu sinto que os outros naipes, julho 2017 A

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seminais

No seminal de direção de cena, sob a direção de Elisete Jeremias e Otto Barros, no dia 07 de dezembro de 2016, fizemos uma passagem de toda a peça, Bacantes, do ponto de vista dos objetos. Sem texto, o foco foi a percepção por todos do roteiro de contra-regragem e da descoberta da atuação a partir da relação com o objeto – gestos mágicos que trazem significados às coisas. Em Bacantes, os objetos, nada realistas, se transformam a partir dos significados. Uma coroa de Hera, por exemplo, erva fresca, tem um roteiro de transmutação ao longo da peça – é coroa do coro de bacantes, vira a buceta de Semele, e se transforma no feto de Dionísio.

ROTEIRO DE DIREÇÃO DE CENA, MAQUINÁRIA E CONTRA-REGRAGEM SINAIS: Silên............cio | Concentração MONTAGEM GERAL: – Fonte cheia com heras e verdes – Toda a volta do teatro dentro e fora limpo e desobstruído FONTE: vinhos – tinto; rose; branco + champangne + taça y sacarolhas + saco brinquedos, corneta, pião + tocha, isqueiro, panos secos e molhados + bacia com uvas verdes JARDIM: nichos das irmãs Hino, Autônoe e Agave BECO NORTE: camarim – água + lixo + araras + mesa contraregragem + espelhos + cadeiras RUA: carro naval + palácio + mastro vela FOGO: Braseiro Thumelê abastecido de carvão FOSSO: camarim prisão limpa + água + bancos + espelhos + penico + arara BANDA: água potável (copo ou garrafas) + taças para vinho MAQUINÁRIAS: cortinas Olimpos + Floresta Cyterron + Véus de Tyrésias OBJETOS: Tyrsos + heras + cogumelos + tirsão de Zeus + tirsão de Rheia 3º PISO: pétalas amarelas + tyrsos anelados HALL: porta da rua destravada + hall silêncio + banheiros abastecidos e limpos + área de fumantes fora do Teatro TODO TEATRO: todas as águas abastecidas e com sobras para abastecimento + lixeiras com sacos extras para reposições SINAIS: 1º sino Otto – passagem de banda e mic + concentração 2º sino Otto – aquecimento de voz 1º sino Elisete – entrada do público 2º sino Elisete – Fechar cortinas véus 3º sino Elisete – abrir porta da rua ÉVOÉEROSSSSSSSS 1º ATO RUA: carro naval entra com todos com tyrsos, coroas de heras e cogumelos; Marinheiros no carro; Otto no mastro vela; Md no volante; Marinheiras na rua param 10 A BIGORNA julho 2017

trânsito SUL: carro entrou parou, travou – fechar porta da rua (Clarissa y Elis) NORTE: tirsão Rhea e paramentos Zeus (Elis y Clarissa) FONTE: tocha + Pólvora IO (Otto y Carila) NORTE: Bandeira Paulista com Semelle ela joga no jardim – recolher, pegar tyrso rheia e por tyrsão de Zeus PISTA: vestido + colar Semelle (Elisete) FOSSO: cordão umbilical 2 + 2 fitas grudadas 0_0 douradas com Dionízios e no fim com Semelle PISTA: Coroa de hera com as 13 fitas douradas (Dani Rosa) MAQUINÁRIA: derrocada tules [vai ser o vedor] na pista recolhemos (todos direção de arte e cena) NORTE: capa bruxa + ifás + maçã (Otto) + espelhinho de pomba gira + baton Semelle (Elisete) FONTE: abrir a água [Jura por água] (Otto) FOGO: acender Thumelê [pari prematuro o menino dando a luz] (Otto y Carila + Marilia no gás) FONTE: * abrir [Zeus meteu a mão na brasa eterna, tirou o filho e mergulhou nas suas águas] * fechar [e cantou assim… ditiramboo] * abrir [2º ditirAmboo] * fechar [água doce (…) batizou filho de Zeus ditirambooo] NORTE: tesoura y fio das mouras + lençol de Zeus (Clarissa y Elis) + Recolher cogumelos + separar heras + preparar a troca dos titãs (Otto, Elis, Clarissa y Brenda) + Pele Nanã Márcio (Clarissa y Elis) FONTE: cornetinha Tirésias + pião lindo + saco de brinquedos (Otto) + brinquedos + saco esmalte + saco vazio para recolher os brinquedos (todos) SUL: bacia de farinha para HERA VERA + espelho (Elis y Clarissa) + pegar espelho de Dionizios TODO TEATRO: caça a Dionizios + 7 Fitas douradas e facão para estraçalhamento (Otto) + abrir vinho [beber o sangue, comer a carne crua que ele tem…] (Roderick y Otto] FONTE: bacia vinho + sacarolha + uvas vermelhas (Otto) FOSSO: pele inteira + videira de dionizios com Semelle PAULISTA: Bandeira Paulista com Kadmos + Bíblia irmã Letícia + Bandeira maquinada


seminais $$$$ para Penteu astear SUL: no carro naval – pandeiros + coroas de heras verdes TODO TEATRO: coroas de heras + verdes por todo público [Ió meu Tyaso, levantai vossos pandeiros] SUL: mamas de Tirésias + coroas de hera + pele de viadão Atenção, marinheiros! TRAVESSIA DO CARRO NAVAL COM PÚBLICO: apagar fogo para travessia + carro naval atravessa y vira palácio de penteu com cortina fechada + acender fogo depois da travessia MEZANINO SUL: videira com cacho de uvas verdes (Dionisios y Semelle) FONTE: [Garotinho…] taça vinho + sacarrolha + vinho [AGORA SOMA pra multiplicar BEBIDA…] abrir vinho e servir na taça de vidro (Otto e Roderick) [BRINDA…] servir mais vinho [VAMOS DANÇAR…] pegar taça – ATENÇÃO [EVOÉ!] entregar garrafa para Dionisios (Otto) PISTA: celular 4G d Penteu FONTE: vinho rosé + sacarolhas + taça para Semelle (Otto) NORTE: destrocar com Semelle taça pela garrafa no palácio [QUEM QUER MUITO CHEGAR LÁ…] mala d $$$ (empregados) + placa PEC 55/NA FOLIA COM AS BACAS (empregados) FONTE: [quaquaquá?? garçon…] taça d vinho tinto pra Dionisios (Otto) SUL: entrada da Entidade NORTE: paramentação da PAZ (Clarissa y Elis) SUL: [Mais uma! Kitira] champagne para Afrodita (Otto) FONTE: [desembucham…!] vinho branco + sacarolhas Semelle (Otto) ATENÇÃO, MARINHEIROS! no REI TESÃO: PORTA DA RUA: destravada (empregados) FONTE/FOGO: Elis apaga + Empregados invadem + apagam o thumele + interditam fonte e teatro. Rede + armas + algemas. FIM DO DUELO DE CORPO PENTEU Y DIONÍSIOS – AÇÃO SIMULTÂNEA FOSSO: fechar prisão (empregados) FONTE: abrir água (Otto) NORTE: recolher tyrsos, coroas e pandeiros (empregados) 3º ANDAR: PÉTALAS FONTE: fita zebrada (empregado) + fechar a água num decrescendo FORTE > FRACO > ZERO 3º ANDAR: últimas pétalas FORTE > FRACO > FRAQUINHO > ZERO SUL – PORTA DA RUA: empregados esperam o elenco entrar na caracol e fecham a porta + abrir e fechar das portas menores para entrada e saída do público no intervalo (porteiros) INTERVALO DE 2O MINUTOS (tela no video + anúncio microfone) AÇÕES DE INTERVALO: LIMPAR PISTA, RECOLHER OBJETOS + ALIMENTAR FOGUEIRA com álcool y TROCAR Bebidas + balde leite NORTE: arrumar tyrsos y coroas atrás do carro (empregados) FOSSO: dar atenção a Dionisios NORTE: sinos (Otto) PORTA DA RUA: ir fechando nos sinais 1. 2. e 3. 2º ATO NORTE: [Iá! Terremoto divino] balançar cortinas do palácio (empregados) FONTE/FOGO: [Brasa!] acender thumelê – braseiro e gás – tocha + isqueiro + pano molhado (Carila, Marília y Semele) FOSSO: abrir grade de ferro (Dionizios + Elis y Gui) NORTE: cordas + saco $$ + maleta diamantes + lança + couraça + armadura e ferro pequeno + extintor h2o água (boas por todo teatro molhando e secando + Penteu)

[Tudo… desmorona…! É o desMoro e vira pó…] máquina de fumaça (Elis) + caída de cortina (Carila e Marília] [o que traz a vinha… o vinho… (…) …a felicidade…] vinho na taça + batom vermelho (Ampelos) SUL: Berrante (Mensageiro) BATIDAS DE MOLIERESSSSSSS FONTE: [Jorra uma fonte de vinho] taça + vinho + sacarolha + tacinhas com banda; leiteira nova + balde leite + caneca com bico; Vaquinha d estraçalhar na mão (Vera y Fernanda) NORTE: boi mamão (Otto) obs.: cuidado no laço fácil… SUL: Touro Enfurecido – Boi Bumbá – cabeça + capa (Ciro e Semelle + Clarissa) FONTE: Capa de viadinho + toalha + pano de chão + tapetinho + vinho + água potável (Elis e Carila) Braseiro aceso, em brasa + álcool em cumbuca + pano molhado + extintor (Carila, Marília + Bombeiros + Elis) [Vestiu uma camisa listada e saiu por aí…] INTERVALO DE 2O MINUTOS (tela no video + anúncio microfone) AÇÕES: pista super limpa, SECA SEM UVAS, SEM ÁGUA SUL (FORA DO TEATRO): Ossada + Tina de uvas CAMARIM NORTE: maquiagem e troca Penteu e Dionísios – videira + tirso + pandeiro + máscara touro + chicote (Patricia, Cida y Sônia) – ATENÇÃO! os sinais dependem de Penteu e Dionísios JARDIM: preparar carne-coração cabeça no tyrso de Agave BECO: Mamas Tirésias cheias FOSSO: bacia de ágata com água pra Semelle lavar carne 3º ATO NORTE: Capa Apolo + Coroa (Otto y Ptonisa) Palácio Camuflado fechado + Cortina Olimpo fechada FOGO: Thumelê aceso braseiro SUL 3º ANDAR: pétalas d flor vermelha no Touro Dionísio NORTE: [Num laço d um abraço mortal!] Cai pálacio + fumaça TODO TEATRO: [Saímos de nossas casas, aqui em Tebas… Take Five] abrir maquinárias do citerrão NORTE: cadeira do público pra Penteu (Otto) [A primeira dama do teatro, a Yalorixá, abre a orgia…] saia d véus e véu da cabeça + Alguidar uvas + carnes d cabeça y coração d Penteu + capa Apolo + tyrso porta bandeira [Vitória…! vitória…!] sai maquinária d florestas (6 pessoas) SUL: [Esse troféu que eu acabei de caçar…] abrir porta da rua (Elis y Clarissa) NORTE: [Eu estou segurando a cabeça de Penteu!] descer a bandeira do dóllar + Cair o palácio FONTE: Funeral – entregar 4 bandeiras paulistas (Otto) + Cobrir ossada com dólar (empregados) FOSSO: abrir grade de ferro y enterrar ossada (empregados) NORTE: [Apolo pega a videira dourada e a capa y vai pro Olimpo] recolher pele tapete FOSSO: [Passo meu tyrso pra outra bacante] abrir grade de ferro pra saída d Semelle com fios dourados y carne (Otto) SUL: [mas pro inesperado os deuses, sempre abrem caminho] abrir porta da rua (Clarissa y Elis) + tina de uvas (Otto y Marília) FONTE: fogo com frigideira + espeto + machado + sal + tábua y pedra de carne + facas y garfos pra comer a carne de Penteu (Otto, Gabriela y Penteu) + copo grande de conhaque dreher com álcool no fim da música das rãs (Otto y Carila) ELISETE JEREMIAS

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seminais

Agora e para além, nestes quase 60 anos de Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona, a comunicação, além de trazer a feitura de conteúdos para chamar a peça em cartaz, constrói as linhas historiográficas da companhia que hoje se revelam com possibilidades multi mídias. O site, lançado em abril deste ano, é nosso sambaqui virtual: acumula camadas de estandartes históricos, de mensagens e dos viventes de muitos tyazos dessas seis décadas de atuação do Oficina. Com os antigos programas, os roteiros, o material audiovisual e a memória o trabalho, a uzyna da comunicação, se abre a esse processo de expor as camadas de eixos cênicos dos processos já passados e pelos projetos agrupados na trajetória da companhia, como o anhangabaú da feliz cidade, a kinoatuação, os movimentos com o bairro do Bixiga, os processos de coro e música, enfim, as abas desenhadas nessa história. Neste ponto, o terreiro eletrônico se estende aos cyberespaços para rasgar o coração de atletas afetivos pelo mundo, que não estão aqui e nem poderiam estar aqui e agora para assistir a peça ao vivo. É também isso que faz ser o teatro mais bonito e mais intenso

do mundo: a possibilidade do terreiro eletrônico vazar pelos algoRitmos. Para isso, temos a transmídia como linha diretora das ações de mídia do teatro não só dentro dos nossos canais, mas justamente para trans formar o espaço da nossa existência palpável. É o bairro, os moradores de Canudos abrindo as janelas das malocas pra berrar “Malóca da Jaceguay!”. O banner grande iluminado no minhocão, que pega motoristas que passam ali por cima do viaduto Julio de Mesquita Filho; o bixiga ainda marcado de iós e taças de bacantes; a macumba no metrô; as recém-atingidas 1milhão de visualizações no canal do Youtube. É o que se faz de trans criação comunicativa, para além dos serviços básicos, como por exemplo o da assessoria de imprensa, que liga ou tenta ligar as outras mídias, impressas, digitais, audiovisuais aos ritos-espetáculos em cartaz no Teat(r)o. Esse é o trabalho mais delicado de todos. Passar para outra cabeça, no caso, jornalistas, escritores, críticos, youtubers, o que se passa nas vísceras da cabeça do touro; as ações cênicas e a necessidade de encenar essa e não aquela peça, numa companhia

de repertório como o Oficina. E nesse campo entra o tabú das seis horas. Chamar a imprensa para o tempo pré-lógico, anunciar uma peça que gira 360 minutos e escapar dos releases rapidinhos é jogo duro, um desafio dos dados não-mercadorizados, mas distribuídos afetuosamente. É tentar conduzir as outras mídias a um lugar inquieto que quase não tem espaço nas agendas settings dos jornalões. Na Macumba Antropófaga, que é muitos ritos, isso aparece ainda mais com o tabú do termo macumba, arrastado por séculos como algo pejorativo. A peça é o cyber grito pela troca de terrenos, é o martírio secular da terra, a manifestação de desejo pelo Anhangabaú da feliz cidade, é a peça de teatro em cartaz aos sábados e domingos, 16h, até 24 de setembro de 2017. Nascido da mesa grande posta na oficina de florestas, o núcleo de comunicação atravessa novas práticas espaciais de trabalho em ritmo de alegria y com fogo do que pode vir das insurreições cosmopolíticas do aquiagora.

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BRENDA AMARAL julho 2017 A

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seminais a criação do novo site do oficina foi um dos temas do seminal de comunicação. as principais linhas de ação nasceram durante esta tarde de 14 de dezembro, quando o núcleo de comunicação e mídia tática + as convidadas ana maria maia, patrícia cornills e simone paz + a companhia + o público presente criaram o esboço do nascimento dessa ferramenta virtual. esse bebê digital nasceu num redemoinho que traz os gens do eterno retorno dos anos 7: os 100 anos da revolução soviética, os 50 anos da tropicália, os 80 de zé

mídia da companhia: fotos, documentos, textos, obras audiovisuais, músicas; ciência, tecnologia e transe. alimento virtual dos encontros ao vivo nos treinos da companhia na feitura das criações y nos encontros com o público: os espetáculos. viver em companhia de teatro é poder transmutar interpretações da vida nos espetáculos; as personagens nos revelam outros pontos de vista, outras visões de mundo que atingem diretamente nosso corpo. as sacações que surgem em cena a cada dia, quando estamos bem ligados, são o malho da bigorna desta oficina do corpo, que lina bo bardi colocou na fachada.

tem outra parte das coisas que precisam ser feitas que são atribuições de nossas comunidades mesmas, tais como: organizar o nosso povo, treinar as nossas comunidades para cuidar da nossa própria educação, cuidar da nossa saúde, fazer nosso desenvolvimento econômico, fortalecer a nossa vontade como povos tradicionais, como povos que tem culturas ricas, que têm uma memória muito forte da criação do mundo, ligando nossa gente antiga, nossa tradição, com o que é contemporâneo e mais moderno no nosso planeta.

a geração dos diretores italianos do tbc que chegou no brasil no pós-guerra, traçava o roteiro do repertório a partir do que se pretendia trabalhar com os atores. a interpretação dos artistas, em coro, ou protagonista, era o malho da vida arte que cada espetáculo dá.

esse trecho de ailton krenak sobre a auto coroação dos povos da floresta inspirou a criação do site, pois uma companhia de teatro, com um trabalho traçado e percorrido há quase 60 anos, assim como os povos da floresta, tem também uma cultura rica, e uma memória forte da criação de sua arte e do mundo, pois em cada espetáculo tomamos contato com a ancestralidade da vida.

pra nós, companhia, essa proposta de jogo é totalmente desconhecida. praticamos nos antigos sites o embrião desse espaço de alimento do fogo da imaginação de cada montagem, mas não foi praticada pelo time em comunicação de coro. talvez, por serem de outra era de programação, impraticáveis para não hackers então...

essa célula digital é um espaço de contracenação virtual da companhia com o tudão: nosso jornal, revista, com programação y horários; sítio das redes virtuais do teatro oficina + universidade antropófaga; o céu de estrelas a vagar – artistas da companhia; o terreiro eletrônico, o teatro; a encenação em escala urbana – o anhangabaú da feliz cidade; comida – imagiário dos espetáculos; difusor do acervo multi14 A BIGORNA julho 2017

nosso desejo é que esse sítio virtual seja concreto, sátiro y trágico cômico orgiástico: um canal que potencialize os encontros ao vivo e a atuação com o público, que ponha em cena as contradições – espaço antropófago de adoração de inimigos.

agora, com acessos mais abertos, sem o impedimento do algoritmo, agir pra dar vida a esse corpo elétrico sem órgãos, seminal da experiência digital transmídia. CAMILA MOTA

ver com los ojos libres olho: s.m. cada um dos dois órgãos da visão. constituído pelo globo ocular, situado na órbita e ligado ao cérebro pelo nervo óptico. expressão do olhar. perspicácia, sagacidade. abertura, furo. aro para o cabo de uma ferramenta. buraco ou cavidade no queijo e em outras substâncias esponjosas. orifício. buraco da fieira. saliência esférica. nascente de água. folhas que formam o centro de certos vegetais. ponto de que há de sair cada grelo do tubérculo e cada gomo do vegetal. vão ou abertura nos pilares das pontes entre arco e arco. fojo, sor-

vedouro. ânus. olho de peixe. espessura da letra (no tipo de imprensa). buraco na mó superior (pedra grande circular em moinhos). abertura por onde entra a água para a roda da azenha. vão da malha da rede. óculos. não pregar olho. olho da rua. olho de lince. olho mágico. tubo catódico utilizado nos receptores de radiodifusão para indicar a sintonização. pequeno dispositivo circular equipado com uma lente, que se coloca nas portas para permitir ver, sem ser visto, quem está do outro lado. ter olhos na ponta dos dedos. (verbete para olho compilado entre dicionários). em espinosa se diz corpo.


seminais o que pode o corpo? no ofício dos que tocam o mundo com os corpos da imagem, e atravessam, também se diz olho. o que pode o olho? na feitura de imagens que são pele, corpos sem órgãos traçando linhas de fuga na imaginação e potências de espaço para todos os lados, a imagem-movimento inflama o imaginário, queima o real na órbita do aqui, agora no fogo da vertigem. ter uma câmera nas mãos e o bailado de um corpo centauro, bárbaro tecnizado, no gingado da kinoatuação, essa presença no centro elíptico de todas as cenas. criar outras, reinventar os planos, projetar desejos no calibre afiado dos focos. olhar e ver. olhar e perder. olhar e não ver. olhar e esquecer. transver. alquimia. na alquimia existem 4 conceitos fundamentais: o vir a ser a reflexibilidade a coexistência de opostos e a inclusão do erro e da repetição como parte do aprofundamento no tema a videoartista juliana alvarenga correlaciona os 4 movimentos alquímicos na sua pesquisa sobre a poética das substâncias: procedimentos de alquimia em artistas contemporâneos, e pra continuarmos daqui pra diante interessa saber: o que o rito do cinema ao vivo traz cruza e se confunde com a potências destes 4 conceitos fundamentais. 1 a transformação da matéria: ao conduzir as operações alquímicas, o operador somente permite a transformação da matéria-prima ao transforma-se a si próprio concomitantemente, acessando o conhecimento adormecido e resgatando as potencialidades inertes em ambos. 2 a correspondência de macrocosmos, o universo natural, e microcosmos, o universo do filósofo alquimista: a correspondência vital de serem esses dois universos reflexos um do outro é análoga ao conceito de reflexibilidade entre pensamento e obra, matéria e obra, ação

e pensamento.

das do cinema: ver com os olhos livres.

3 solvet et coagula: ao dissolver o insolúvel e coagular o não coagulável, esse procedimento indica indica a conversão dos elementos opostos para obtenção da obra filosófica, o que é análogo ao conceito de coexistência e interdependência dinâmica dos opostos como geradores de criação

na pista da rua Lina Bo Bardi descobri o corpo do meu próprio olho, o nervo óptico da imagem invertida forjada na bigorna de ter todas as emoções no corpo e nenhuma. o olho e seu duplo. todas as fomes. o ouro das imagens caçadas no escuro. a humana aventura, a terrena finalidade: a análoga alquimia do processo de fermentação das imagens-corpo filmando, em cena, a vertigem das cenas do corpo em imagem. descobrir a poesia das substâncias: corpo, imagem, máquina, na tecnologia do cinema ao vivo há de ser um rito fundamental na constelação dos modos de captar, pensar, invocar, subverter, incorporar, destruir, desejar imagens. uma maneira de lançá-las ao cosmos, e traçar, pra elas, e a partir delas, uma nova cosmopolítica pra vida.

4 foetido purus: a busca do mais puro no mais impuro a palavra alquimia vem do árabe al kimiya e significa química. é conhecida também como arte alquímica ou ciência hermética. hermética, do deus grego hermes trismegisto, que equivale ao deus egípicio thot ou theut, inventor dos hieróglifos, uma forma de expressão que une palavra e imagem. thot é o deus da magia, dos saberes, da arte e da escritura. o cinema ao vivo, a kinoatuação, a poesia da cena vista pelos olhos da imagem, o corpo no rito vivo, quente, o ritmo cardíaco acelerado, a eletricidade passando dos corpos à lente, dos fios à terra, à tela. o terreiro eletrônico. a magia, a imagem e o corpo. filmar uma peça no teatro oficina é rito de transe, é transa, a eletricidade da dança centaura entrecorpos, arritmia lunar de dar à luz pequenos foguinhos, vaga-lumes sobrevoando a cena e criando outras. o olhar e o corpo da atuação das imagens-movimento no teatro oficina, assim como nos processos alquímicos, me parecem ser forjados no fogo das transmutações que percorrem esses estágios da substância: do chumbo saturniano, belo porque denso, ao quente dourado vertigem dos flamejantes delírios da matéria: ouro. transformação cardíaca das fórmulas ocultas. a kinoatuação no Oficina me aproximou dos espasmos do olhar para romper o que está dado, ou visto, e inventar a imagem nova, a subversão estética para invenção de outros mundos, modos de olhar e ver, desvendar imagens, criadas na presença do teatro em movimento, tatear os corpos na pele da imagem, dilatar o teatro para as transbor-

o filósofo da imagem georges didi-huberman escreve no livro belíssimo chamado

sobrevivência dos vaga-lumes: qualquer maneira de imaginar é uma maneira de fazer política. 1 milhão de visualizações atingidas no canal do youtube, múltiplas territorialidades conectadas no fogo dos olhares-corpos vivos em cena pra expandir o fogo da nossa arte total, viva, falha, imensa na potência política das imagens. desterritorialização das fronteiras, além-mar, tempo, espaço no tesão do cinema vivo, ao vivo, transmitido com a força de uma tecnologia dessa terra, terreira eletrocamdomblaica, Uzyna multimídia que pulsa e se movimenta na feitura das peças em estado de poesia concreta. existe uma revista chamada cineolho, 5º tempo, Te-Ato Oficina, forjada na eletricidade de Zé + Celso Lucas + Álvaro Nascimento + Noilton no fio de 1980 que diz assim:

por um cinema tesudo ligado à vida e à sua trans form AÇÃO ontem saindo na peça, domingo, 23 de julho de roderick, entrada da sol no fogo de leão, 2 anos do meu ardor irresistível total, perguntei a Zé se

ainda se lembrava da revista, e se continuava a dizer as coisas todas que disse antes. (...) a força das palavras escritas no fio de 1980 aqui, já. - sim. a versão que tenho dela, um livro já muito gasto e quase que por completo amarelado, encontrei num desses sebos-labrintos na sé. lina bo bardi phala na entrada do Oficina para abrir o rito da Macumba Antropófaga:

o tempo linear é uma invenção do Ocidente, o tempo não é linear, é um maravilhoso emaranhado onde, a qualquer instante, podem ser escolhidos pontos e inventadas soluções, sem começo nem fim. agora escrevo esse texto que já escapa e deriva para o espaço, para fóra, e vai encontrar outros abismos onde se espreguiçar, transar novas phalas, outros tempos, novas cabeças, apagar, esquecer, renascer. essa espécie de manifesto, forjado para o que se desejou como CINEMAÇÃO, é intuição total, beleza pura. é a projeção dos corpos, sacação dos tempos, atravessados: a mentalidade pré-lógica, o virtual, o atual, o antes, o agora, o vir a ser, o não ser, e de novo… espiral das inspirações antenadas na phoda dos estetas, na feitiçaria das imagens: acreditar nos sinais, instrumentos, estrelas.

cineolho é uma revista de cinema e adjacências que procura traçar seu CAMINHO APRENDENDO com o movimento das pessoas procurando sempre manter o OLHO ABERTO 1980-agora.

CAFIRA ZOÉ


seminais

mon + tar ao vivo

Montar ao vivo Desde que trabalho no oficina como montador venho aprendendo e praticando uma ação específica: concentração. Isso geralmente não é um pré-requisito para a prática dentro de uma ilha de edição, a atenção sim, mas a concentração nem tanto: pode-se discutir no meio das cenas ou parar para ver outra imagem, fazer outra operação – é só voltar onde estávamos e rever o take, o corte, com atenção. Ao vivo, como na vida, não existe controle do tempo. Tudo passa e é nosso dever acompanhar. Como montador, preciso manter o olho focado, preciso, e como diria Walter Murch, só piscar na hora do corte. A prática talvez deve ser rotineira para um editor de partidas de futebol, pois são muito mais câmeras e nunca se sabe para onde a bola vai. Entre as atividades humanas que se assemelham posso citar dirigir em estradas. Quem já viajou conduzindo um automóvel com outras pessoas dentro sabe o que estou querendo dizer: nossa concentração deve ser indefectível, não podemos tirar o olho da rota, todos os movimentos são controlados e um erro pode ser fatal para si e os outros. Outra prática a ser comparada poderia ser o tiro ao alvo móvel, ou a caça: um atirador precisa olhar atentamente, segurando sua mira, suspendendo suas ações até o momento de agir, apertar o gatilho - ou no meu caso, na ilha, a tecla enter. A dispersão é nosso principal inimigo, nos faz perder a noção de onde a bola foi parar entre um toque ou outro, ou simplesmente seguir pela tangente numa curva perigosa. Traduzo tais metáforas no teatro como o toque de bola sendo o diálogo entre os atores, e as curvas as mudanças espaciais. Já me ocorreu de perder dois segundos e me deparar com o telão mostrando um fundo vazio, pois o ator havia se retirado e por alguma distração interna (operações necessárias dentro da própria ilha ou projeção) ou externa (alguém me perguntando alguma coisa na cabine). É um erro grave. Para quem assiste a transmissão ao vivo, um espaço vazio é um corte na dramaturgia, uma desconstrução da catarse da pior forma possível – através do descuido e não pela escolha estética. Atualmente trabalhamos com duas câmeras no teatro, dois globos oculares por meio dos quais eu enxergo a peça. Preciso ter consciência de ambos, como um camaleão que pode mexer cada olho independentemente. Caso fossem mais câmeras, como já ocorreu no teatro de serem até oito, a operação se torna infinitamente mais complexa. Gosto de pensar que somos um polvo, um só organismo consciente de tudo que pre16 A BIGORNA julho 2017

cisa fazer para conseguir o que almeja. Em alguns momentos conseguimos atingir essa plenitude, são poucos, mas quando ocorrem não passam despercebidos, tanto por nós da equipe, que sentimos imediatamente uma reverberação transpessoal de sucesso (parecida com o jazz quando um momento único surge entre os músicos), quanto pelos outros presentes. Dessa forma, em contato com o devir da peça, criamos então nosso roteiro - quando percebemos que fizemos algo que se tornou um filme - consolidamos tais ações e buscamos reconstruí-las a cada espetáculo, dentro da limitação chamada realidade, pois como as águas de um rio, nossas rito-peças nunca são as mesmas.

Reconsiderando o paralelo ao jazz com respeito a todo o tyaso, precisamos estar sempre afinados. Existe uma partitura, porém essa é mutável, e todos precisam estar conscientes do caminho que cada mudança toma, para que individualmente possamos seguir unidos. Somos, ou precisamos ser, uma grande revoada de pássaros voando juntos, ou um imenso cardume de sardinhas: a cada instante algum integrante assume a liderança, e logo a cede para que outro ocupe a posição – o importante é estarmos conectados como um grande sistema, para que possamos, junto com os presentes que vieram estar conosco, voar juntos em uma intensa e profunda harmonia. PEDRO SALIM


seminais OS OBJETOS E OS GESTOS saber que as coisas estão imantadas. olho a precisão dos gestos do diretor de cena e lembro de um xamã que vi manusear pequenos cachimbos, flautas, penas: ele estava tocando os seus ancestrais, ele sabia que estava. poder saber e sentir o que se tem em mãos. a epifania de cada objeto. na primeira sala do museu de antropologia da cidade do méxico, que eles chamaram de introdução à antropologia, há uma reconstituição artificial da mais antiga tumba encontrada com sinais de algum rito, alguma oferenda ao corpo morto. cobriram o corpo de um homem de flores. o museu está cheio de esqueletos - em reconstituições artificiais ou mesmo transpostos como nos sítios arqueológicos - de tumbas de priscas eras, os corpos rodeados de objetos de cerâmica, pedras, conchas, imagens de deuses e guerreiros, a liturgia da passagem ao inframundo. mas nesse homem coberto de flores eu senti algo como um gesto inaugural. o que moveu os primeiros que ofertaram flores ao corpo de alguém morto? reviver os ímpetos e a espontaneidade da primeira vez que um desejo chegou na matéria. sem pompa, antes do hábito. ir na gênese das liturgias. LUZ estar e não estar sob a luz. receber e devolver a luz com o corpo. absorver luz, refletir luz, projetar sombras. entrei numa igreja austera no norte do méxico. achei que nunca tinha entrado numa igreja mais linda. o sol estava entrando exatamente por uma pequena janela retangular lá no alto da abóbada do altar, que era simples, com poucas imagens, decorado com flores de papel crepom colorido. os moradores tinham saqueado as peças em prata em algum momento crítico (roubar as igrejas de volta, deixar elas nuas). mas esse feixe de luz do sol que entrava tão definido, a luz do sol toda naquele feixe, se banhar de luz, entrar e sair da luz, olhar as poeiras dançando na luz, mirar os olhos na direção da fonte de luz. O ESPAÇO o toshi é um japonês que faz um trabalho

chamado seitai-ho, que eu descreveria, levianamente, como se dedicar a uma percepção mais sutil do mundo, do próprio corpo, da relação dos corpos com o espaço. ele entrou no teatro para trabalhar com a gente essa tarde e percebeu imediatamente que havia uma fonte de água, outra de fogo, uma pista de madeira, chão de concreto, chão de terra, uma relação com os quatro pontos cardeais, ou los cuatro rumbos, a entrada numa caverna subterrânea quando se entra no teatro pelo sul, uma relação com o alto. quando alguns de nós desceram pelas escadas das galerias para começar a prática, ele disse "parecem macacos numa floresta". tudo isso foi percebido com alegria, talvez de entender que aquele era um espaço de relação ao mesmo tempo sutil e direta com o milagre da matéria. estar atento ao espaço, ao que a matéria comunica. aí fizemos uma prática com leques japoneses de papel de seda, que eu já tinha feito alguns meses antes, quando estávamos começando os ensaios, numa sala da oswald de andrade, parte das atividades do terreyro coreográfico. na época eu tinha escrito: a aula do toshi hoje foi dedicada quase toda a movimentar o ar com pequenos leques de papel de seda. primeiro pra secar o chão, depois pra fazer chegar ar até os cantos mais recônditos da sala, para movimentar o ar ao redor do corpo. e aí pra mover o ar alto no céu – urânidas buru, nhanderu – e chegar a mover as

águas das nascentes no profundo da terra – ô vou, pro nilo. em algum momento o movimento era muito ditirâmbico, as bacantes chegaram a se olhar e fazer uma bacaneada discreta. e aí eu tive verdadeiramente a epifania desse movimento como algo que conecta a terra ao céu, como uma reverência, ou uma ressonância, ou uma insurreição até, mas sobretudo talvez um entregar-se, a essa oposição tão marcante e tão fundadora da humanidade desde os povos mais primevos – céu e terra. é bonito como tudo isso ecoa na arquitetura do teatro. pensei também em corpos guerreiros sutis, que movem o ar, e em como estamos–somos dispersos. SOM estou numa trilha para uma praia deserta. quase chegando na praia, o barulho do mar batendo nas pedras se faz notar. na volta, quase chegando de novo na cidade, começo a ouvir o barulho da cidade. penso que na ida, quando entrei na trilha para ir até a praia, eu não estava consciente de ouvir a cidade. e me dou conta que saindo da praia eu também já não notava o barulho do mar. ouvir como nas pontas de uma trilha, como quem chega. as cigarras cantam mais alto em resposta a nossa passagem. MÚSICA último parágrafo da terceira conferência

da visão dionisíaca do mundo, do frederico nietszche: ao espectador é feita, portanto, a exigência dionisíaca de que a ele tudo se represente sob encantamento, de que ele sempre veja mais do que o símbolo, de que o mundo inteiro visível da cena da orquestra seja o reino do milagre. onde, todavia, está o poder que o transporta à disposição de crer em milagre, através do qual ele vê tudo sob encantamento? quem vence o poder da aparência e a despotencializa até o símbolo? trata-se da música. PALAVRA foi vendo os sertões que eu me dei conta pela primeira vez que a exaltação "VIVA!" é imperativo de viver, é um convite a viver, um chamado. um dos trabalhos que eu percebo mais explícitos nesse teatro, de fazer as palavras imagem, fazer brilhar o sentido delas. CORPOS GUERREIROS aquela música no negro leo que diz: naquelas horas de fascínio e perseguição em que o corpo é vento leve voa por cima dos pés e o peito é infantaria pro espírito pro espírito e aquela epígrafe da auto-confiança do emerson (trecho traduzido por mim ): atira o infante às pedras, amamenta-o com a teta da loba, invernado com o gavião e a raposa, poder e velocidade sejam mãos e pés TRAGÉDIA cabe à representação trágica pensar, questionar a crueldade, encarregar-se dela para operar uma desgraça catártica, como se o problema tivesse que correr o risco de alterar o reino dos conceitos e perturbar a ordem das categorias filosóficas. (em nietzsche y artaud - por una ética de la crueldad, de camille dumoulié). FERNANDA TADDEI

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CADERNOS DE LUZ. O seminal de iluminação aconteceu no dia 08 de dezembro de 2016 e, além do coro de iluminadores de Bacantes 2016 – Cibele Forjaz, Luana Della Crist e Pedro Felizes, teve a participação de Alessandra Domingues e Ricardo Morañez – artistas que trabalharam em outras montagens desse espetáculo.

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Desenhar e montar luz no Teat(r)o Oficina é sempre um desafio e revisitar a peça As Bacantes vinte anos após a sua estreia provou ser um processo incontornável. Em 2016 junto com o coro de Dionísio forma-se um novo coro de iluminadores no teatro que se junta a Luana Della Crist e Pedro Felizes, contando com Nara Zocher, Lucia Ramos, Camile Laurent, Filipe Sampaio e Cibele Forjaz como coriféia. A partir deste coro foi revisitado e recriado o potente desenho de luz da primeira montagem de 1996. A peça compõem-se através do desenho de diferentes ambiências de iluminação: as luzes estruturais que iluminam a presença da multidão na cidade Tebas e revelam o esqueleto do Teatro Oficina, as luzes da Adoração que temperam a presença dos Deuses e Entidades, os focos luminosos que permitem o recorte das cenas, os focos móveis que seguem os atores em cena e finalmente a luz das lâmpadas de descarga que possibilita colorir o espaço do teatro em fundo dando origem ao que a iluminadora e diretora Cibele Forjaz chamou de “black out em cor”. No entanto, o processo desta montagem, assim como outros processos dentro do teatro, apresenta-se em permanente construção mesmo após a estreia da peça. O desenho de luz e a operação sofreram constantes alterações, reflexo da atuação do coro e suas dinâmicas. LUANA DELLA CRIST

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Em 2017 a MACUMBA ANTROPÓFAGA desperta o rito e evoca a cosmopolítica dos burús, numa encenação em escala urbana por Sampã, com um cortejo de acupuntura alquímica pelo bairro do Bixiga, ativando, no percurso pontos necrosados do bairro.

TABU EM TOTEM - ROTEIRO DAS ESTAÇÕES

1 - Teat(r)o Oficina

O trajeto se inicia no Terreiro Eletrônico. Os atuadores e o côro da multidão formam uma Cobra Grande e numa corrente elétrica saem para as ruas do BIXIGA.

2 - Maloca da Jaceguay

5 - Casa de Oswald de Andrade

3 - Casa de Dona Yayá

6 - Portal da Japurá

O baixio do viaduto Júlio de Mesquita Filho, na altura da rua Jaceguai, no Bixiga, está povoado de moradores adultos, velhos e crianças. O maior tabu do bairro revela um grande desafio urbano de toda a Sampã: como co-habitar o espaço público em contracenação com as diferenças? a casa onde foi enclausurada Sebastiana de Melo Freire, dona Yayá, hoje é o Centro de Preservação Cultural da USP. Nessa estação o coro de mulheres liberta Yayá da camisa de força.

4 - TBC

o Teatro Brasileiro de Comédia, hoje propriedade da Funarte, está com as obras paradas. Nessa estação, o coro invoca Cacilda Becker para desentumular o espaço e incorporar Tarsila do Amaral e buscar Oswald de Andrade em sua última residência. 22 A BIGORNA julho 2017

rua Ricardo Batista nº 18, nesse prédio o coro chama o mamífero Oswald para beber leite de cabra viver com Tarsila a grande noite da criação. O Côro segue em percurso invocando os miserávreis, os rotos, as flores dos esgotos e cortiços do BIXIGA. No SilenCIO Sagrado ouvindo o Bixiga o côro encontra a primeira grade.

7 - Portal da Santo Amaro

Olhar pela fresta a agonía da Oficina de Florestas criminalmente envenenada.

8 - Troca-Troca entre Terrenos

O Cortejo retorna à Rua Jaceguay e atravessa a Rua Lina Bardi, pista do Teat(r)o Oficina, para semear o Troca-Troca entre terrenos.

9 - Teat(r)o Oficina

A Alegria é a prova dos 9!


5

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ATI B O CARD I R DR RUA

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4

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6

3

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1

7

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macumba antropófaga

ABAPORU De volta ao Teatro Oficina, virado Restaurante Troca-Troca, Oswald de Andrade (Marcelo Drummond) e Tarsila do Amaral (Letícia Coura) são servidos pelo deus dos garçons, Ganimedes (Roderick Himeros). Ele os oferece absinto e as estrelas da noite: as rãs, que reconhecidas como corpos humanos, são deglutidas, restabelecendo o elo perdido com os deuses animais e nossos ancestrais antropófagos. Inspirados com a descoberta da Antropofagia, se amam e em um sonho criam em cena o livro-comida Manifesto Antropófago e o quadro Abaporu - o homem que come o homem.

O Coro antropófago Tupinambá caça Oswald, virado Hans Staaden, que se apaixona pela burú Pagu (Camila Mota). Deles nasce Macunaíma (Roderick Himeros) e, passados 16 anos, Oswald está pronto para ser comido pela tribo.

O espetáculo musical, teatro de revista, põe em cena personagens e situações da vida política do Brasil e do mundo – tabus para sua devoração e virada em totens. Donald Trump, Theresa May, Temer, a CPI da FUNAI, deputados de extrema direita, movimentos xenófobos contracenam com entidades invocadas por Oswald de Andrade no manifesto em 1928: Padre Vieira, Moisés, a Mãe dos Gracos, Dom João VI, Carlos Gomes e o ciclo revolucionário ocasionado com a descoberta da América e do homem natural.

Oswald de Andrade, em suas obras, inspirou-se nos Tupinambás e na Arte Pública da Revolução Russa, que vive em 2017 seu centenário, e evoca os Poetas das Artes Cênicas: Maiakovski, Eisenstein, Meyerhold, Tatlin, Rodchenko; e foi devorado desde 1967, com a Tropicália, na Música de Gil, Tom Zé, Caetano, no Cinema de Glauber, nas Artes Plásticas arrancadas das Paredes de Museus e trazidas pro Corpo de Hélio Oiticica, tudo em que “O Rei da Vela” do Oficina, em 1967, inspirou-se.

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macumba antropófaga

RETORNO AO PENSAMENTO SELVAGEM O coro de burús antropófagos vai em direção ao primitivo, num retorno ao pensamento em estado selvagem com percepção da cosmopolítica indígena, que hoje nos revela a urgência em cessar a predação e o trauma social do capitalismo, do patriarcado e do antropoceno que atravessam continentes e séculos carregando a mitologia do Progresso a qualquer custo. Praticamos neste início de século o ódio a tudo o que não sou eu — e a fina faca da intolerância tem de fato cortado cabeças. A encenação do Manifesto pela companhia em 2017 nasce a partir da necessidade da incorporação da Antropofagia como visão de mundo – Weltanschauung – para desvendar e interpretar o tempo presente no Teatro – um ritual de phoder humano, que pode, concretamente atuar e superar entraves das crises que procriam dia após dia.

Oswald de Andrade era muito pragmático, vivia sua arte e deixou escrito que toda sua obra era uma pauta de Ação para o seu agir na vida. Hoje, com o fascismo presente na direita e na esquerda — no desejo de aniquilação das diferenças, é justamente a perspectiva antropófaga que entra em cena como filosofia e ação política, experiência de contracenação, prática de remoção dos antolhos para ver o antagonista com olhos livres.

Na antropofagia, o ato de comer nunca é dissociado de sentido. Tribos antropófagas devoravam humanos principalmente em duas situações: os parentes mortos, para que não fossem devorados pela terra fria, sendo reservado aos entes queridos o calor da deglutição; e os inimigos sacros, para que fosse absorvida sua força. Um banquete antropófago é um rito de adoração da adversidade, a transformação permanente do Tabu em Totem. A Macumba Antropófaga é a peça que nos faz absorver a relação dos índios com a terra, a água, as estrelas, o pensamento mágico, a dilatação do tempo… para a descoberta de um novo alfabeto, novo corpo de atuação. Essa investigação nos ensaios e nos espetáculos, com o público, é uma das potências deste trabalho.

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macumba antropófaga

AH! ANHANGÁ! ANHANGABAÚ DA FELIZ CIDADE! A encenação é também um rito em direção ao Anhangabaú da Feliz Cidade, projeto de Lina Bo Bardi e da companhia, para a expansão do teatro em escala urbana. Nós, os burús da Associação Teatro Oficina Uzyna Uzona, desde 1958 cultivamos essa terra da rua Jaceguay, o Teatro Oficina. Nosso trabalho, nossa prática e o cultivo da arte teatro são a riqueza desse espaço que pede, como uma demarcação, a homologação do Bixiga como bairro cultural que precisa de preservação e instrumentos que impeçam sua verticalização. Nas temporadas de 2012, o Grupo Silvio Santos, em um contrato de comodato, permitiu o uso do terreno pela companhia, que com o público, iniciou o cultivo das terras com semeaduras. Nesta temporada estamos impedidos de passar pelo espaço em torno e o público não poderá ter acesso ao embrião da Oficina de Florestas - um pomar com muitas árvores. COSMOGONIA DA ENCENAÇÃO A Associação Teatro Oficina Uzyna Uzona realizou a primeira encenação dessa obra em 2008, no SESC Paulista, nas comemorações dos 80 anos do Manifesto Antropófago. Em 2010, durante as viagens das Dionizíacas pelo Brasil, o grupo criou nova encenação, com interpretações inéditas após uma semana de residência artística no Instituto Inhotim, em Minas Gerais, relacionando o trabalho com a natureza e o Magic Square #5, praça criada por Hélio Oiticica. Em 2011 e 2012, o manifesto foi transformado em Macumba Antropófaga Urbana e encenado no Teatro Oficina e em seu entorno, nas ruas do Bixiga. Essa experiência foi o marco zero da Universidade Antropófaga – a montagem foi realizada pelos atuadores da companhia com a primeira turma da universidade, formada através de chamada e seleção públicas; e teve enorme sucesso de público. A incorporação em escala urbana iniciou um movimento experimentação do Anhangabaú da Feliz Cidade – depois trinta anos de luta com o grupo Silvio Santos, um acordo comodato permitiu que a companhia encenasse parte espetáculo no terreno entorno ao teatro, pertencente Grupo SS.

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teatroficina.com.br/macumba-antropofaga


macumba antropófaga

FICHA TÉCNICA TEXTO JOSÉ CELSO MARTINEZ CORRÊA RODERICK HIMEROS CATHERINE HIRSCH Y CIA UZYNA UZONA DIREÇÃO JOSÉ CELSO MARTINEZ CORRÊA CONSELHEIRA POETA CATHERINE HIRSCH DIREÇÃO MUSICAL FELIPE BOTELHO TYAZO ZÉ CELSO, MARCELO DRUMMOND LETÍCIA COURA, CAMILA MOTA VERA BARRETO LEITE RODERICK HIMEROS, TULIO STARLING ANA HARTMANN, CLARISSE JOHANSSON CYRO MORAIS, DANIELLE ROSA FERNANDA TADDEI, GLAUBER AMARAL ISABELA MARIOTTO, JOANA MEDEIROS KAEL STUDART, LEON OLIVEIRA LUCAS ANDRADE, NASH LAILA SELMA PAIVA, TONY REIS BANDA ANTROPÓFAGA PEDRO GONGON (bateria) FELIPE BOTELHO (baixo elétrico) CARINA IGLESIAS (percussão) ITO ALVES (percussão) CHICÃO (piano e teclados) MOITA (guitarra elétrica) SONOPLASTIA ANDREIA REGENI DECO, PEDRO MACEDO PREPARAÇÃO VOCAL FELIPE BOTELHO DIREÇÃO DE CENA OTTO BARROS PREPARAÇÃO CORPORAL/DANÇA DANIEL KAIRÓS FIGURINO SONIA USHIYAMA SYLVIA PRADO CAMAREIRA CIDA MELO MAQUIAGEM PATRÍCIA BONÍSSIMA

ARQUITETURA CÊNICA CARILA MATZENBACHER MARÍLIA CAVALHEIRO GALLMEISTER

NÚCLEO DE COMUNICAÇÃO ANTROPÓFAGA | MÍDIA TÁTICA BRENDA AMARAL, CAFIRA ZOÉ, CAMILA MOTA

OBJETOS CÊNICOS CARILA MATZENBACHER MARÍLIA CAVALHEIRO GALLMEISTER

PROGRAMAÇÃO VISUAL IGOR MAROTTI

IBIRAPANEMA E MÁSCARA DO TOURO DE WALL STREET RICARDO COSTA CONTRAREGRAGEM | MAQUINARIA OTTO BARROS, KELLY CAMPELLO SOM FELIPE GATTI MICROFONISTAS RAFAEL TOM LUZ, ULYCES WELL-RYRYR DESENHO E OPERAÇÃO DE LUZ LUANA DELLA CRIST CONSULTORIA DE LUZ RENATO BANTI MONTAGEM DE LUZ LUANA DELLA CRIST, PEDRO FELIZES CYNTIA MONTEIRO, NARA ZOCHER OPERADOR DE MOVING LIGHTS PEDRO FELIZES PIN BEAMS PEDRO FELIZES, CYNTIA MONTEIRO, NARA ZOCHER CINEMA AO VIVO IGOR MAROTTI (kinoatuador, diretor de fotografia, câmera) CAFIRA ZOÉ (kinoatuadora, câmera, poesia visual) CECÍLIA LUCCHESI (edição ao vivo) GUILHERME PINKALSKY (live cinema) PRODUÇÃO EXECUTIVA | ADMINISTRAÇÃO ANDERSON PUCHETTI PRODUÇÃO EDERSON BARROSO, BRENDA AMARAL, SYLVIA PRADO DIREÇÃO DE PRODUÇÃO | ESTRATEGISTAS CAMILA MOTA, MARCELO DRUMMOND, SYLVIA PRADO, ZÉ CELSO EDITORIA WEB BRENDA AMARAL, CAFIRA ZOÉ, CAMILA MOTA, IGOR MAROTTI, KAEL STUDART

PROGRAMAÇÃO WEB BRENDA AMARAL TRADUÇÃO PARA O INGLÊS MARIA BITARELLO OPERAÇÃO DE LEGENDAS MARIA BITARELLO AUDIODESCRIÇÃO MARÍLIA DESSORDI MAKUMBAS GRÁPHICAS | IMAGIÁRIO CAFIRA ZOÉ, CAMILA MOTA, IGOR MAROTTI COLUNISTA DO SITE KAEL STUDART IMAGIÁRIO VISUAL E VIDEOARTE | UNIVERSIDADE ANTROPÓFAGA CAFIRA ZOÉ BAR DAS GATAS PRETAS EVELI DE OLIVEIRA SILVA CRISTINA OLIVEIRA WELINGTON SOARES LIMPEZA ROSE OLIVEIRA, GLÓRIA BRITO LUIS CARLOS PEREIRA DA SILVA CONTROLADORES DE ADULTOS PAGANTES JOSÉ CÍCERO ALVES BARROS JURACI VIEIRA DE MELO RAFAEL PEREIRA DA SILVA BOMBEIRA AMANDA AGUIAR APOIADORES CANTINA E PIZZARIA PIOLIN, RESTAURANTE PLANETA’S, BAR DO BIGODE CANTINA LUNA DI CAPRI, ACADEMIA PLANA, LEITOR RECORTES, TAMBORES ZÉ BENEDITO, APFEL RESTAURANTE, BAR ZÉ PRESIDENTE, CHURRASCARIA BOI NA BRASA, APACAME DANILO TOMIK, FAMIGLIA MANCINI, GABI CALÇADOS, GIOVANNA FLORES, SINGER HECTOR OTON, JULIA GUGGISBERG HANNUD, MERCADO DAS FLORES AVANHANDAVA, M FAISAL PAISAGISMO, MUNDANA COMPANIA OLINTHO MALAQUIAS, SACOLÃO BRIGADEIRO TICA BERTANI, VIVEIRO TREES, VILA ITORORÓ, CASA 1, JARDIM MIRIAM ARTE CLUB

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1968 – a companhia Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona, ainda Cia de Teatro Oficina monta a peça Na Selva das Cidades, de Brecht. A ‘arquiteto’ Lina Bo Bardi estreia no Oficina criando a arquitetura cênica da peça com a matéria-prima e o lixo das demolições dos sobrados do bairro do Bixiga que foram destruídos para dar passagem ao minhocão, durante a ditadura militar. Lina faz o gesto inaugural, abre o trabalho xamânico da troca, traz o Bixiga para dentro do teatro, leva o teatro pro Bixiga. Parodia o slogan da ‘Cidade que se humaniza’ da São Paulo em processo de urbanização colonial e higienista pondo em cena o bordão para fazer fundo para encenação da Selva nos palcos do Oficina. Comunica o interior do teatro com a matéria concreta e desumanizada da cidade de Sampã. Lina antecipa, intui a transparência e abertura radical que vai dar no teatro inaugurado em 1993. 28 A BIGORNA julho 2017

Nos primeiros croquis de Lina Bardi para o teatro ela já esboçava o Teatro de Estádio, imaginado por Oswald de Andrade, na direção de criar um teatro que superasse o psicologismo do teatro de câmera, do palco à italiana – um teatro para multidão, que provocasse a mesma ligação e catarse que o futebol de estádio cria nos torcedores. Lina Bardi e Edson Elito desenharam e fizeram maquete desta proposta no terreno dos fundos do teatro. O palco rua do teatro seguia como uma língua para fora do prédio, entrava no teatro a céu aberto e continuava para a rua Japurá, dali serpenteava para o Vale do Anhangabaú. Para o Vale, Lina fez um projeto chamado Anhangabaú Tobogã, que não venceu um concurso de 1981 – esse projeto trazia uma mudança de paradigma para o processo de urbanização que São Paulo vinha sofrendo. Lina e o Tyazo do Oficina tinham esta ambição de conectar estes equipamentos cultu-

rais e de criar um teatro escancarado para a cidade, trazendo um sentido inédito para teatro: a perspectiva urbana. Pra atingir esta perspectiva, uma polifonia de vozes, um coro de atuadores apaixonados e atraídos irresistivelmente por esta terra, trabalharam na abertura gradual do interior da Jaceguay 520 pra rua, pro bairro, pra Sampã, pro Cosmos, em um movimento de quase 60 anos até aqui. Neste ano de 2017, em que o capital do Show Bu$iness assume a direção de Sampã e quase toda terra pública vira moeda de troca com o novo programa de privatização, na onda do lucro com toda nova terra à vista, os Territórios em transe se entregam nas lutas com mais ligação e alerta. A proximidade do recém-eleito prefeito Dória com os especuladores imobiliários torna possível a transformação do Parque Augusta numa terra pública e faz do Parque a ponta de lança para a apoteose

da criação de todo o território Cultural no centro de Sampã ligando o Parque à Vila Itororó, através do corpo do Anhangabaú da Feliz Cidade. Esta situação traz novo fôlego para a troca de terrenos com o grupo Silvio Santos e acende o foco das discussões nestas terras, plantadas no olho do furacão da maior cidade da América Latina, que magnetiza uma confluência de discussões pelos processos históricos, míticos, geográficos, astrográficos, poéticos que as criaram. Processos que, no caso do Teat(r)o Oficina, nos dirige há anos para emancipar as terras do Bixiga com o movimento já presente aqui em tempos imemoriais e aberto em praça pública por Oswald de Andrade: a Antropofagia! MARÍLIA GALLMEISTER


anhangabaú da feliz cidade COSMOLOGIA ANHANGABAÚ DA FELIZ CIDADE 1969 Lina Bo Bardi recolhe entulhos dos sobrados demolidos para a construção do Minhocão e cria o cenário da peça Na Selva das Cidades, de Bertolt Brecht. Lina e o artista plástico baiano Ednysio criam os figurinos e estruturas cênicas com pêlos de bichos, ossos e lixo dos escombros do minhocão: pedras preciosas de cimento. Chegam operários de toda parte para a construção do viaduto, eles se tornariam os fregueses da Cantina Cabaré da Zuria – cozinha comunitária popular que funcionava no interior do Teat(r)o Oficina. Esse período inaugurou a comunicação simbólica, material e concreta do bairro com o interior do teatro. 1979 O teatro passa a ter múltiplas experimentações cênicas, espaciais. Vontade de romper os limites e a relação messiânica entre plateia e palco e de trabalhar num espaço mais anárquico que abrisse caminho para o desejo de atingir um público popular, para além dos teatros lotados com pequenos burgueses, e conquistar uma comunhão com o público. O prédio do teatro ganha outro programa – extrapola as peças, vira cantina, cabaré, sala de exibição de filmes, ágoras. A caixa fechada com a ‘pesada’ arquibancada de concreto enrijecia estas outras possibilidades. Nasce o desejo de abertura para entrada de luz natural. Para Ver a Luz do Sol. O Bixiga recebe um coro de imigrantes do norte, nordeste, que se afina com o ritmo deste chão. Criando a matéria do Pré Sertões: o Forró do Avanço, com o cirandeiro, pintor, Artista Popular Multi-Mídia Surubim Feliciano da Paixão, Edgard Ferreira parceiro de Jackson do Pandeiro, Sandy Celeste, a Billie Holliday do Sertão, inspiram a paixão pela Terra, que ganha protagonismo. A science deste novo coro coloca cirandas e cantos xamânicos de possessão da terra no repertório de luta do Teat(r)o Oficina. Os Artistas Nordestinos nos ensinam a lutar pela Terra, Ser Vivo, ao Vivo. 1980 o projeto de Lina e Edson Elito é concebido como rua para dar passagem à potência criativa das manifestações po-

pulares, das bacantes, dos sertanejos, do delírio dos bailes de rua, do carnaval, das manifestações políticas, dos cortejos, das procissões religiosas. A vacina antropofágica de 1967, com o Rei da Vela e as descobertas cênicas que ela trouxe não cabiam mais no palco italiano, nem numa arquitetura colonizada. Deu numa rua. Que trouxe para dentro do teatro as relações espaciais entre os foliões dos blocos de carnaval dançando no rés do chão e os moradores das janelas e dos prédios que acompanhavam a folia. Que numa escala maior deu no sambódromo, e assim se projetaram as galerias tubulares verticais do Teat(r)o Oficina, com um público em trânsito pelo espaço, assistindo as peças de perspectivas diferentes. Público vivo, presente, atuante como os das manifestações populares de rua. Lina e Edson mantiveram o vão da fachada Oeste aberto, que no canteiro de obras viria a ser o janelão, pano de vidro de 120m², que abria radicalmente o interior do edifício para entrada de luz, da chuva, da noite, da cidade, e que inspira permanentemente a relação com o terreno entorno. Musa das encenações, a Cesalpina – árvore totem sagrada, nascida no interior do teatro e lançada, projetada como flecha para fora, transbordando os limites físicos do prédio, aponta pro Anhangabaú da Feliz Cidade. Projeto nascido já nos primeiros croquis de Lina Bardi e Edson Elito pro único terreno vago no entorno do teatro, inspirados no Teatro de Estádio proposto por Oswald de Andrade no Teatro que é Bom, no livro Ponta de Lança. Um Teatro que continua a pista do Teat(r)o Oficina em passarelas, criando uma topografia de planos, rampas e uma marquise na saída da abertura Norte do teatro, até desembocar em nível na rua Japurá, possibilitando uma diversidade de relações entre o público atuador e os atores. Em uma arquitetura onde tudo era entendido como área de cena e público – tanto as passarelas do perímetro, como a área central de 600m² e a arquibancada coberta para 500 lugares. O projeto ainda previa um Barracão nos baixos do Viaduto e o reflorestamento do terreno voltado para fachada Oeste, em frente ao Janelão, batizado como Pulmão Verde do Bixiga,

ponta de lança do Oficina de Florestas, a Matriz Verde de um programa vital para brotar o Anhangabaú da Feliz Cidade. Caetano Veloso assiste Na Selva das Cidades, em 69, se inspira e batiza o pomar insistente nos fundos do teatro de Oficina de Florestas, cantada na música Sampa. A Oficina de Florestas nasce como um dos programas do Anhangabaú da Feliz Cidade, para devolver a Floresta, a Mata ao Bixiga, à cidade de Sampã, através do cultivo, conexão e disseminação das alamedas, bosquetes, de toda massa verde que reexistiu ao processo de urbanização da cidade e que nos mostra a fertilidade da Terra que nos envolve e nos revela que não são Terras improdutivas, são Terras sagradas por ocupações nascidas da dramaturgia inspirada no próprio Terreno – protagonista que vem nos dirigindo todos esses anos. O projeto de Lina e Edson, aqui, se voltava pro Parque do Anhangabaú. Lina via, com sua visão AchilLina, a clara conexão entre o Anhangabaú, já verdejado pelo projeto Anhangabaú Tobogã e o Teatro da rua Jaceguay, através do curso do Rio do Bixiga que serpenteia a rua Japurá. Anhangabaú Tobogã, projetado por Lina, em 1981, era alternativa à aridez que despovoava o vale público. Lina propõe uma estrutura delgada altíssima para via de carros e ônibus, apoiada em pilares-gameleiras, liberando o vale fértil para pedestres, plantas, bichos e crianças. Ainda em 1980 entra em cena o Grupo Silvio Santos comprando os lotes do entorno do teatro para levantar seu empreendimento totem do capitalismo, o Shopping Bela Vista Festival Center. No dia 6 de novembro de 1980, o grupo concede prazo de um mês para companhia comprar ou definitivamente perder sua sede. O Oficina mobiliza opinião pública, imprensa e Silvio Santos anuncia publicamente sua desistência. 1982 O Teat(r)o é tombado pelo CONDEPHAAT, tendo Aziz Ab’Saber como presidente e Flávio Império como conselheiro, que cria o laudo defendendo o movimento de expansão da linha de trabalho da companhia. 1983 O Teatro é desapropriado pelo estado e

seu prédio, até agora alugado pelo grupo, passa a integrar o domínio público e tornar-se um espaço inteiramente consagrado à ação cultural sob a direção do Oficina. 1991 Paulo Mendes da Rocha faz um novo estudo, extrapolando os limites do terreno e alcançando com seu projeto os baixios fronteiriços ao teatro e ao terreno, sendo o primeiro a apontar uma aproximação do projeto com o Bixiga. Indicando a complementação do projeto de Lina Bardi já em duas direções, Paulo Mendes propunha a travessia do viaduto, plantando numa sobra de terreno do outro lado da Jaceguay duas torres para abrigar a administração, informática, o centro de memória do Teatro e o Baco’s Bar. Mantêm o Teatro de Estádio nos fundos do lote do Oficina e também a oficina e estacionamento de Alegorias escavadas nos baixos do Viaduto e acessada por uma larga escadaria. 2000 É aprovada pela prefeitura a construção do Shopping Bela Vista Festival Center do Grupo Silvio Santos, projeto de Júlio Neves. A construtora se nega a seguir os parâmetros construtivos do município, e por medida cautelar, a obra é embargada. 2002 Canudos é o cosmos. Breve ponto de passagem, escala inicial da viagem. Decampamos da terra dos homens, jagunços errantes sob nuvens gigantes. Armamos tendas de Guerra pela vida desejada aqui, sob céus, do que chamam, Terra. Laroiê! Durante a montagem de Os Sertões, a criação do Movimento Bixigão incorpora crianças moradoras das ocupações e cortiços do Bairro para formar o coro de crianças sertanejas da peça – Pré-primária dentição da Universidade Antropófaga, que passa a ser parte do programa, junto com o Teatro de Estádio e a Oficina de Floresta. O Anhangabaú da Feliz Cidade se afirma como projeto urbano para além dos limites da revitalização ou qualificação de espaços, mas como portentosa oficina que só pode exisjulho 2017 A

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anhangabaú da feliz cidade tir pela ação do phoder humano, sobretudo pela vitalidade e delírio da verdade saída da boca das crianças, como falava Oswald. As primeiras vitórias do Teat(r)o Oficina sobre o martírio secular da terra, com o tombamento e a desapropriação do teatro, infelizmente não impediram a destruição e desertificação do seu entorno, onde todas as casas da vizinhança oeste foram compradas, destruídas e transformadas em estacionamento num processo cruel e recorrente da especulação imobiliária do empreiteiro predileto de todas as hecatombes – o Paulista desertifica a área e depois oferece revitalização do espaço tomado pela aridez, fruto de sua própria destruição. A rua da Abolição hoje é um deserto, não existem casas, nem o bar da esquina da Jaceguay, o predinho, nem a Sinagoga, todos destruídos e incorporados ao estacionamento. Então, depois da terra arrasada, Sir Lobby Locteador Estripador oferecia ao bairro, durante os ensaios da peça, no início do ano 2000, a grande oportunidade da revitalização! Um Shopping Center que traria segurança! Iluminação! Empregos! Lazer! E a cada palavra dessa, vendida com habilidade de camelô transmitida pelas antenas dos picos de São Paulo, ouvíamos o pliiim pliiim do pianinho de um show dos calouros que sonhavam ‘acontecer’ nesse novo carandiru de luxo e que não tinham, e ainda muitos não têm, a noção de que, com a consolidação da especulação financeira, iriam ser despejados para as periferias, bem longe do capital. Os Sertões nos mostrou que Canudos tem o substrato poético para emancipar as terras do Bixiga, e a dramaturgia da poesia concreta, geográfica de Euclides da Cunha vira diretora das ações precisas para conquistar o terreno do entorno pela Antropofagia. O transe religioso dos Sertanejos revira a posse contra a propriedade em Possessão contra a propriedade e este “irracionalismo libertador é a mais forte arma do revolucionário. A revolução como possessão do homem que lança sua vida rumo a uma ideia, é o mais alto astral do misticismo. As revoluções fracassam quando esta possessão não é total”, Glauber Rocha sobre o transe que fez vencer os conselheiristas nas sucessivas batalhas de Canudos. Os Sertões nasceram como transporte, metáfora diante da ameaça de um massacre pela construção de uma caixa preta de mil lugares, proposta naquela ocasião pelo grupo SS. Os Sertões se deram num campo de combate. O Teatro e seu Duplo que transmutou o terreyro Eletrônico em Máquina de Guerra, trincheira sertaneja – imensa máquina, um novo espaço, como estreito corredor ‘crista de gilete’, coluna vertebral kundalini, mais duas áreas: uma subterrânea – cave deslumbrante ainda sem os vinhos, trazendo as casas trincheiras da invencível Canudos; e o espaço aéreo dos mutãs, esconderijo que os índios usavam nas copas das árvores para a caça do jaguar e que os conselheiristas reinventaram. No Oficina agora há áreas aéreas de atuação também no Duplo dos Céus, para onde o Teto móvel se abre. Tudo virou área de atuação. A máquina de Luta cria esta máquina de Teatro entre os ferros de Ogum, o São Jorge Guerreiro, protetor do Brasil, que há anos nos protege com a Bigorna na testa da nossa fachada. O Grupo SS convida o escritório Brasil Arquitetura, coordenado por arquitetos que trabalharam próximos a Lina Bardi para elaborar um projeto híbrido que atenderia as necessidades de mercado do grupo, com a construção do Shopping e em contrapartida incluiria o projeto do Teatro de Estádio. Mas o projeto resulta num mega empreendimento de quase 60 mil m², alienado do entorno, trancando todos os fluxos do del30 A BIGORNA julho 2017

ta de ruas, adensando ao máximo o terreno, ignorando os recuos necessários e legais para uma área envoltória de bem tombado, e desprezando o respiro fundamental para manutenção da transparência do janelão da fachada Oeste. Por fim, ironicamente, confinando o Teatro de Estádio, desejado como teatro aberto à cidade e ao cosmos, numa caixa preta, fechada, monumental, de forma que o CONPRESP pede alteração no desenho e o grupo abandona o projeto. Numa visita do Silvio Santos ao Teat(r)o durante a montagem de Os Sertões, surge pela primeira vez a proposta de troca de terrenos de propriedade do grupo com um terreno da união. Em consequência da visita e da possibilidade da troca, a companhia inicia um trabalho mais profundo na elaboração do programa do Anhangabaú da Feliz Cidade. O arquiteto João Batista Martinez Corrêa, irmão de Zé Celso, projeta uma proposta de implantação do Teatro de Estádio, da Universidade Antropófaga e da continuação da Oficina de Florestas no terreno entorno. O projeto, partindo da topografia existente, cria uma diversidade de acessos, áreas de cena, sugere outra implantação do Teatro de Estádio, agora ocupando o terreno da fachada Oeste e simulando as curvas de nível da topografia de Canudos. A Universidade Antropófaga fica abrigada num prédio de cinco andares no terreno a Leste do Teatro e a Oficina de Floresta se dissemina em grandes áreas vegetadas e jardins. 2008 O grupo SISAN tenta aprovar torres nas três instâncias dos órgãos de preservação do patrimônio – CONPRESP, CONDEPHAAT e IPHAN – um condomínio residencial de três prédios de quase 100m de altura – dois na lateral oeste do teatro, do janelão de 120m² e da Cesalpina – árvore totem plantada por Lina Bardi - e um prédio na lateral leste do teatro, com o pomar, as alamedas e o mirante da rua Santo Amaro. 2010 Dionisíacas em Viagem – turnê nacional com apoio do Ministério da Cultura levou quatro espetáculos do repertório da Companhia – Taniko; Cacilda!! Estrela Brazyleira a Vagar; Bacantes; e O Banquete – à oito capitais brasileiras – Brasília, Salvador, Recife, Belém, Manaus, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Sampã, apresentados em Teatros de Estádio efêmeros, com no mínimo 2.000 espectadores, onde o público abraçava a cena em todas as suas dimensões. Depois de 28 apresentações para Multidões pelo Brasil, o Oficina estava sedento pelo público em São Paulo. Zé Celso liga para Silvio Santos e pede o terreno do entorno emprestado para montarmos a tenda do Teatro de Estádio. Silvio Santos aceita e é firmado um contrato de comodato entre o Grupo Silvio Santos e a Associação Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona. As Dionisíacas marcam o primeiro pisar no terreno do entorno, um rito teatral de descobrimento daquelas terras através da abertura dos arcos do beco ao Norte do Teatro e a concretização da Rua Lina Bardi que se transforma em acesso ao terreno e ao Teatro de Estádio. Com a abertura do beco, o chegar no terreno através da concretude da experiência corpo a corpo com o lugar: a descoberta do gérmen de Oficina de Floresta – o pomar frutífero preservado pelo Grupo SS; o sentir arqueológico de todos os sobrados, da sinagoga, dos edifícios que foram demolidos e que agora são matéria prima e formam o chão do terreno com seus 80cm de entulho; o


anhangabaú da feliz cidade sambaqui, montanha totem desses entulhos. O terreno do entorno é lugar para respirar o cosmo através da amplitude do Vazio. Pisar lá revelou necessário um novo projeto e programa para o Anhangabaú da Feliz Cidade, que através da experiência real com o lugar, concreta, imante e estimule todas essas descobertas e preserve o Vazio. Aliado a isso, em 2010, o Teatro e a Associação Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona foram tombados pelo Iphan com belíssimo parecer da Arquiteta Jurema Machado que o transforma em manifesto para a complementação do projeto de Lina Bo Bardi e Edson Elito com corporificação do Anhangabaú da Feliz Cidade. 2011 Abertura da 1ª dentição da Universidade Antropófaga incorpora Oswald no século XXI com o Manifesto Antropófago. O prólogo da peça Macumba Antropófaga se abria para a rua Jaceguay, em uma imensa cobra-grande com atores e público atuador, num cortejo que abraçava o terreno entorno ao teatro e as ruas do Bixiga, em estações onde cada entidade estava assentada: na Major Diogo, incorporando Cacilda Becker em frente ao TBC e Dona Yayá em frente à sua casa amarela; na rua Dr. Ricardo Batista, última casa de Oswald de Andrade; na travessia pela rua dos cortiços, a São Domingos, a multidão de crianças que seguiam a cobra-grande; na Japurá contracenávamos com o morador poeta que atuava de sua janela e fazíamos o gesto mágico no Portal da Japurá: totem da arquitetura urbana e cênica de AchilLina Bo Bardi; e no retorno ao terreno pelo portal da Santo Amaro, atravessando a Oficina de Florestas, desembocando no miolo do terreno imenso onde a epifania se deu: a descoberta da potência do Vazio. Despertamos para atender ao Mundo Orecular e amar o silêncio sagrado produzido pelo vazio entorno ao teatro; Com o prólogo da peça no terreno, naturalmente seus elementos, sua topografia, seus muros são incorporados como área de cena: o Sambaquí, montanha de entulho, totem do tabu especulação imobiliária, semeado junto com público em várias peças, florescendo em girassóis e outros verdes; os Portais: da Abolição, fundado nos escombros da 1ª sinagoga de Sampã; da Japurá, entrada para conexão Teat(r)o Oficina – Parque Anhangabaú; da Santo Amaro, que conclui a abertura total do terreno pros quatro pontos cardeais completando o Delta de ruas, que desemboca na Praça da Paixão; a descoberta dos vários foyers entre a fachada Norte do Teatro e a Oficina de Floresta para receber o público atuador e encenar atos das peças: Oca Troca-Troca e os vários Nick-Bar. 2012 A segunda temporada da Macumba Antropófaga foi encenada no terreno em frente ao Janelão. Armamos ali a tenda de Circo e experimentamos a encenação em arena circular, atravessada pela pista longitudinal, projeto que quando desmontado deixou tatuada a Terra do entorno com o xamado báquico – IÓ! As sucessivas implantações temporárias experimentadas - a tenda de dois mil lugares; a lona de Circo; as tendas menores pros Foyers - nos revelaram a importância de manter e adorar o vazio entorno ao teatro, e na contramão de uma solução emergencial de um projeto monumental, nos levaram a ensaiar e experimentar o programa em criação permanente do Anhangabaú da Feliz Cidade em tendas nômades, transumantes, projetos nascidos da necessidade de cada encenação, sem uma solução totalitária, anterior à experiência concreta do lugar. Para cada peça um teatro. Saímos da dimensão abstrata da implantação, programa e gestão do Anhangabaú da Feliz Cidade e experimentamos, com o Convênio

Exemplar Irresistível, este projeto no corpo, em maquete viva 1:1, já menos no caminho da ocupação adensada e mais na dimensão do corpo. No projeto, o corpo do ator como protagonista desta arquitetura como alternativa à criação abstrata e mental de um espaço, o corpo do atleta afetivo, ligado! concreto! libidinoso, uma arquitetura dirigida pela experiência, pelos desejos, pelos desafios do corpo. Inspirados na força do movimento presente nos Metaesquemas de Hélio Oiticica, traçamos o programa da maquete na sua menor dimensão: um lugar para o trabalho do corpo do ator, cozinha, administração, estação para os equipamentos do Bárbaro Tecnizado (som, luz, vídeo), chuveirões abertos, bicicletário. Todo o programa nascido e percebido pela matéria concreta das diversas superfícies: OSB, britas de granulações diversas, seixo rolado, grama, seixo branco, madeira e dois tanques de água, os Bólides Mergulho do Corpo, programa do crelazer de Hélio Oiticica. Todo desenho da implantação a partir das linhas diretrizes presentes no próprio terreno, traduzindo em menor escala os movimentos de suas diagonais e a diversidade da sua topografia. 2013 A Acupuntura Urbana no Corpo de Sampã, uma expedição de artistas do Oficina, percorre, com o ‘Ônibus chamado AchilLina Bardi’, a cidade de Sampã, realizando uma “Acupuntura no Corpo da Metrópole Infartada”, em todas as Obras de Lina Bo Bardi. Em cada estação-obra de Lina aplicamos pelo Teato uma acupuntura nos pontos obstruídos. A escala urbana deste Teato fez experimentar em ato a perspectiva urbana trazida por Lina Bardi e a clara conexão entre o Teat(r)o Oficina, sua última obra e o Vale do Anhangabaú. Gestos mágicos, precisos como a plantação das árvores nativas evocadas por Lina no projeto do Palácio das Indústrias e no terreno entorno ao Teatro; o Furo no Portal da Japurá; a sagração de uma árvore no Vale do Anhangabaú; a invocação do Rio do Bixiga, desviado do seu leito natural; do Córrego das Águas Pretas, confinado no canal de concreto e o rio Anhangabaú aterrado no fundo do vale, reafirmaram a importância e a atualidade das obras de Lina a serem completadas e a urgência de pôr ao Vivo os Rios Vivos de Sampã. Guilherme Wisnik assume a curadoria da X Bienal de Arquitetura de São Paulo e convida o Teat(r)o Oficina para uma residência, com arquitetos de outros países, para elaborar um projeto para o terreno entorno ao teatro e trabalhar o programa do Anhangabaú da Feliz Cidade. O projeto criado é a incorporação múltipla da proposta rabiscada por Lina Bo Bardi, Edson Elito e Paulo Mendes da Rocha para o Anhangabaú. Seguindo a direção conquistada durante a Macumba Antropófaga – a descoberta do Vazio – o novo projeto explode os limites físicos do terreno do entorno, dissemina e multiplica a maquete criada no Convênio Exemplar Irresistível, para os outros, muitos, vazios do Bixiga, para libertar estas terras da ideia fixa do adensamento e loteamento, costurando o vazio do entorno aos terrenos dos baixios do viaduto, reconectando o bairro, através de um Corredor Cultural que liga o Teat(r)o Oficina ao TBC, à Casa da Dona Yayá, desembocando na apoteose da Praça Roosevelt, com o programa do Anhangabaú da Feliz Cidade, seu Teatro de Estádio, sua Universidade Antropófaga e a Oficina de Florestas, espalhando a Selva na cidade de Sampã. A residência envolveu a criação de um laboratório armado na tenda do restaurante/Foyer Nick Bar, onde uma confluência de arquitetos julho 2017 A

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anhangabaú da feliz cidade da Universidade de KULeuven, Bélgica, o coordenador do estúdio mineiro Vazios/SA, Carlos Teixeira, integrantes do coletivo sul americano Supersudacas e o Teat(r)o Oficina, trabalharam para redescobrir diretrizes para o projeto do Anhangabaú a partir das novas experiências. A explosão do programa do Anhangabaú da Feliz Cidade para outros terrenos, coloca a Oficina de Florestas como primeira camada de projeto, conectando toda a massa verde que reexiste no bairro do Bixiga, em Sampã; radicaliza a parte mais pública do programa, a Universidade Antropófaga, que transborda para outros terrenos adjacentes ao teatro; transpõe o muro criado pelo viaduto com vias de pedestres e ciclovias, que costuram a via de carros por baixo e por cima do tabuleiro. Também durante a X Bienal plantamos uma maquete 1:10 do terreno com grama para ser pisada no Delta de Ruas – Jaceguay, Abolição, Santo Amaro e Japurá, trazendo a Praça da Paixão e criando uma maquete Vodu para transmutar todo terreno entorno em Floresta. 2014 Início do Terreyro Coreográfico – encruzilhada aberta para confluir coreografia, arquitetura, urbanismo, dança, músicos, filósofos, poetas em coro na direção de se pensar, em ato, o público em suas várias dimensões – abrir ao público o que é público. O viaduto construído na ditadura, rasgou, dividiu e criou um deserto no miolo do Bixiga, no coração de Sampã. O Terreyro Coreográfico trabalhou na transmutação deste terreno, em Terreyro, para que as confluências históricas, míticas, se tornassem manifestas ali. Naquela terra árida e esterilizada pela capa de

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cimento do viaduto, cultivamos durante um ano celebrações, ágoras, cinemas, o ócio, leituras coletivas abertas ao público popular do Bixiga, um embrião do Anhangabaú, no seu novo tempo, vindo da X Bienal de Arquitetura. Reafirmamos a potência do Rito para cultivar um lugar público e abrir caminho para a mistura. Uma Terra não tem que ser arrastada para a monocultura da maioria dos espaços públicos plantados nas cidades. 2015 Forma-se a 2ª dentição da Universidade Antropófaga que reuniu, mais uma vez, jovens vindos dos sertões de todo Brasil e teve A Poesia Pau Brasil de Oswald Andrade como matéria para a criação e experimentos do teatro total – atuação, arquitetura cênica e urbanismo, dança, música, cinema, Teato, som, figurino, comunicação. Uma uzynagem quase diária que teve sua apoteose na criação do Teat(r)o Bloco Pau-Brasil, com a encenação em escala urbana, percorrendo o bairro do Bixiga no carnaval de 2016 e em outras datas festivas, descobrindo uma qualidade de atuação que só é possível radicalizando a ligação, a contracenação macrocósmica, a abertura total para o jogo e improviso a que estão sujeitas as atuações na rua. No começo deste ano a Sub-prefeitura da Sé e a Prefeitura de São Paulo lançam um edital de concorrência pública para entregar os baixos do viaduto Júlio de Mesquita Filho, em frente ao Teatro, a uma única empresa, para que, pelo monopólio, pudesse capitalizar esta terra pública de 11 mil m², dando margem a um processo de gentrificação arrasador no bairro. Diante da ameaça, o Teat(r)o Ofici-

na, o Terreyro Coreográfico, atuadores do bairro Bixiga e moradores dos baixos trabalham para desmontar o edital bandeirante e iniciam uma série de publicações críticas, movimentações públicas e audiências que derrubaram a iniciativa de privatização, conquistando mais uma vitória na batalha contra a especulação imobiliária. 2016 Atuadores Uzyna Uzona e Universidade Antropófaga se juntam aos atuadores do bairro, da Escola SP de Teatro, d’Os Fofos, dos baixios do viaduto, para um Teato na cidade, inaugurando uma nova categoria política do direito originário à Terra: a Demarcação de Terras Urbanas, na Terra Sagrada – TEKOHA do Bixiga. Criamos em um dia uma cobra grande com nossos corpos unidos por um fio, para ações concretas, ligação de Teato, música, comunicação e troca de presentes entre a praça Pérola Byington e a Praça Roosevelt, seguindo os pontos do Corredor Cultural do Anhangabaú da Feliz Cidade: Praça Pérola Byington – Fofos Encenam – Teat(r)o Oficina – Sacolão – Bar do Bigode – Casa da Dona Yayá – TBC – Terreyro Coreográfico – praça Ítalo Bagnoli – Praça Roosevelt Segunda-feira, 26 de outubro de 2016, o Teatro Oficina goza mais uma Vitória na Luta contra o martírio secular da especulação imobiliária. Em maioria, conselheiros do CONDEPHAAT, o órgão de preservação do patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do estado de São Paulo, votaram contra a construção das torres que assombrariam o Teat(r)o Oficina e todo o entorno do bairro tombado do Bixiga. A votação que poderia passar desperce-

bida foi colocada em cena por atuadores y pelo cordão de amigos dourados do Teat(r)o – Edson Elito, Guilherme Wisnik, Tales Ab’Saber. Contagiados pela direção de Dionísio e diante de uma votação quente e histórica, o poder da nossa presença desmontou a presença do poder. A decisão do Condephaat no dia 26 de setembro é histórica e corajosa, transbordando as interpretações, deixa de considerar isoladamente os bens tombados e abre a perspectiva da decisão para um conjunto arquitetônico protegido pelo próprio órgão, uma ponta de lança na inversão da trajetória catastrófica pra onde caminham nossas cidades. Durante os Seminais da 3ª dentição da Universidade Antropófaga, abrimos um buraco com o mesmo gesto mágico dos anteriores que deram abertura concreta poética para fazer transbordar o phoder dos Ritos Teat(r)ais para além do edifício teatral. O buraco recém nascido da fachada leste dá passagem à luz da Sol, aos cantos e coros báquicos das terras da Ásia para dentro do Terreyro Eletrônico, que agora conquista bocas pro Norte, Sul, para Nascente, pro Poente, pro Céu do teto destampado e para Terra. O terreno que nos envolve aos poucos aterra, na travessia de quase 60 anos, o Teat(r)o de Estádio, riscado por Lina Bardi. Chão cultivado na Feliz Cidade Guerreira, para ser ponto de encontro do corpo a corpo da humanidade e dos viventes.

COSMOLOGIA COM IMAGENS

http://teatroficina.com.br/ anhangabau-da-feliz-cidade/cosmologia/


seminais guntou: mas quem pode fazer a agave? ahahah são momentos d ator com diretor, momentos como o tal fogo fátuo, momentos como nesse processo aconteceu, coisa d filme, pra mim, onde o diretor do meu amor, zé, me pede: – sabe ser carinhosa, sabe? … assim, ser leve… você é carinhosa com alguém? e mais ele me perguntava, mais meu ogum d frente cerrava os punhos, um nó na garganta... – não zé… acho q não… até com meus filhos… não namoro há anos… (agora já namoro d novo!!! ufa milagre verdadeiro d bacantes, nessa temporada…)

folhetim das agaves

e contos

os olhos furando tantas camadas d personagens e d gente mesmo q vive, qual a diferença? d um caráter (personagem) vivido por 3 ou 4 atrizes, bem opostas entre elas, bem irmãs porque mesmo caráter, o q nas mulheres ainda é luta d ego, ainda sim, e tanto, nas personagens tem um unguento d ponto d partida a grande maravilha da diferença. aos 15 anos, dizem q foi 16, mas meu centro comprova 15 anos, eu peguei o tyrso da mão de alguém, e subindo e descendo a pista feroz como a leoa mesmo, fui agave por alguns minutos. tinha jardim. não tinha teto. tinha marcelo divo jovem q eu já era apaixonada (acho q essa paixão é de se saber tão inteiro e íntegro, no que se comprovaria pra mim ser esse reencontro, exatamente 30 anos depois). tinha zé jovem ariano como eu, agitado impetuoso gênio e d fogo fátuo, tinha denise assunção, mas com os pés cravados no chão buceta pra frente, semele desafiando walney costa, parando o teatro nesses ensaios, quando a mulher para e choca e desvenda e envolve d teias multicoloridas esses héteros hilários, (mesmo sendo o mais hétero d todos, zeus, com seus amores homens também) mas ele parava no alto da pista, pasmo com aquela eva, aquela fêmea, aquela linda louca sedenta pantera do baixio da pista.

minhas mãos rodaram na oxum, ainda nesse ano d 86 – cantávamos longamente a musica dela: oxummmm hummmm hummmm oxum hummmm mariana d moraes minha amiga namorada irmã fazia nesse dia o ÍÍÍÍÍÍÍÍ ÓÓÓÓÓÓÓ, no ponto d rhéia. eu não podia cantar assim ainda da xoxota… mas mari canta e minhas mãos rodaram, formigaram nesse meu primeiro transe alerta, transe d cavalo pra atuar diante do corpo do zé na frente, o jardim atrás, sem janelão. andei d agave aos 15, (tá bom Marcelo foi 86, talvez antes d março, então 15 anos...), andei como se possuída pela força misteriosa da ayuhuasca, cada passo foi mantido vivo como memória insight, até nesse ano passado, quando na porta vermelha do oficina com o porteiro gato cícero, o bebedouro d mamãe oxum, os parceiros em volta entrando e saindo, e eu chamei zé q estava ali ao meu lado, e disse: ah disse mesmo...! – nunca esqueci, zé, durante meus secretos segredos em 30 anos, esses minutos q ela matou o filho, e andou pela cidade, vitoriosa mesmo, mulher q lambe a cria e caça a caça. eu quero fazer agave… se a majestosa atriz denise assunção, por qualquer motivo estranho, não venha a fazer. … numa reunião no Paraíso (bairro da casa d zé marcelo roderick igor) não tive essa coragem sagrada, e o zé per-

mas, então pra completar, ele – e um carinho assim d mãe, mãe… (xííiííííí!! ai q merda!! aí dentes cerraram…) ou d pai, quando a gente fala pai!!! oi

disse: a tua meus assim pai!!!

não, eu não tinha essa referência e como em filme d diretor com ator, ví o zé me propor: – canta uma cantiga d menina… e aí, cantei, e aí chorei, e aí minha menina era tão sozinha, e aí esse carinho q não teve, veio assim sem ter tido e aí uma benção dessas q o terreiro xamânico candonblaiko me faz, ví a sylvia prado sentada no chão desenhando cores vivas do cerne da atriz dela, q é agave também, só nos olhamos uma dentro da alma da outra, graves… minha agave é chamada d agrave e sylvia é barbara, a bárbara. e também bati cabeça com cellia nascimento, porque quando botei a roupa dela, da agave dela d fitas coloridas, pedi: – amor, falei q quero fazer a agave pro zé… minha boca abriu e eu falei… mas é teu personagem... e ela me disse: – não quero mais fazer, é muito pesado. fui na umbanda, sabe? falei q tenho dois filhos q amo mais q tudo e q quero proteger das encarnações perfurantes da cena-vida-mágica-comida d santo e d gente, eu também cavalo d espíritos, como a médium na minha frente, numa gira d ciganas... a entidade falou: – se eu disser pra você não fazer, você vai fazer não é??

– é! – então, toma esse banho na entrada e na saída… denise assunção vestida d africana mais bela do q nunca falou das composições da vida palco texto letra gritos salves desses anos todos. ela minha musa inspiradora fêmea alfa magistral, ela pantera, ela agave me disse: – sim você é a nova agave e você canta sim, canta!! sylvia com os olhos verdes dentro dos meus. camila mota, sempre irmã, minha paixão d irmã por essa irmã semele, deusa, é coisa séria... letícia coura minha outra irmã (todas filhas d kadmos) d agudos sublimes q propôs (só ela pra fazer isso mesmo... !!!): – q tal a gente ir junto nos agudos?? assim, de repente, no auge da frase musical agudíssima (feita na voz de denise), eu entro junto… pense numa salvação… aquela q salva numa queda em precipício aberto… o xamã Chicão (rafael montorfano) homem mais doce do teatro atualmente, pra mim, com carina iglesias voz d ouro parceira mão na mão, nash laila, (ainda irmã filha d kadmos), também ariana, atriz decidida e poderosa… sim… fomos todos parir o primeiro canto d agave joana juntos, com roderick himeros, d mão dada comigo: – você vai, tua voz vai...!!! (ele dizia como num mantra...) todos no piano do chicão, com o moita mattos, ouvindo tudo super cúmplice, vibrando pro alto e além… camila valones minha amor d cigana, q me deu todos os ouros pros dedos e pra alma... ví os cadmos pascoal da conceição, ricardo bittencourt. ensaiei com pai cadmos sergio siviero. ví meu dionizios d 20 e poucos, ao vivo nesse ano d 86, ví no vídeo um deus d 30 e poucos e agora vejo esse 50tão deliciado. um tiresias absurdo deslumbrante zé e a hera (vera valdez) deusa absoluta do terreiro d 2017 JOANA MEDEIROS

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antropofagia

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Comerão no céu... HELOISA DE LESBOS E os outros? ABELARDO I Os outros não precisam nem acreditar. Podem até adotar o cepticismo ioiô. A vida é um eterno ir e vir... ioiô... HELOISA DE LESBOS E quando enrosca? ABELARDO 1º Y HELOISA DE LESBOS NA PRAIA DA ILHA DO REI SEU NOIVO HELOISA DE LESBOS (em Traje d Maiô futurista, Óculos Escuros Tôca y Capa Longuíssima) Você não vai ao Banho? Estão Todos Prontos. ABELARDO 1º Não vou! Estou com um pouco de dor de cabeça. Prefiro repousar. Leve esse Americano duma figa... Minha cara, eu estou vendo que peguei no duro, no batente, durante dez anos, para fazer uma porção de piratas jogarem ioiô! HELOISA DE LESBOS Estás arrependido? Não te trago vantagens sociais? Físicas? Políticas... Bancárias... ABELARDO 1º Mas que às vezes, de repente, perco a confiança. É como se o chão me faltasse. Sei que as tuas relações são boas. Amanhã teremos um jantar de congraçamento sob as estrelas do pavilhão yankee. Até o mais degenerado dos teus irmãos me será útil. HELOISA DE LESBOS O Frutinha? ABELARDO 1º Não. Por enquanto o outro. O Ébrio. Vai fundar a primeira milícia fascista rural de São Paulo. Quem vai se regalar é o tal Cristiano de Bensaúde... o escritor... você sabe. Ele vem amanhã... HELOISA DE LESBOS O tal que você chamava de sociólogo angélico, ia mandar fazer um samba para ele: O Pirata Jejuador? ABELARDO I É. A gente nos momentos difíceis é obrigado a fazer concessões. Depois o Americano quer união, das confissões religiosas, dos partidos... É preciso justificar, perante o olhar desconfiado do povo, os ócios de uma classe. Para isso nada como a doutrina cristã... HELOISA DE LESBOS Hein? Você já está assim? ABELARDO I O cristianismo declara que esta vida é um simples trânsito. De modo que os que passaram mal, trabalhando para os outros, devem se resignar.

ABELARDO 1º Aí apela-se para Schopenhauer. E imediatamente adota-se a Filosofia do Tíro no Ouvido... Deve doer, não? O mundo então é uma miséria. Como Deus, não existe mais. Só há um remédio. O salto no Nirvana. HELOISA DE LESBOS Por isso é que você se aniquilou em mim ABELARDO 1º De fato, a minha vida enroscou na sua, Heloísa. Num momento grave, em que é preciso lutar e vencer. Sem piedade. De uma maneira Fascista mesmo. Vou me aliar ao Perdigoto e ao Bensaúde. Eles têm utilidade. HELOISA DE LESBOS Você disse que aqui isso não seria possível. ABELARDO 1º Somos parte de um Todo Ameaçado o Mundo Capitalista. Se os Banqueiros Imperialistas quiserem... Você sabe, Há um momento em que a Burguesia Liberal Declara-se cansada de carregar nos ombros os Ideiais de Justiça, Humanidade, as Conquistas da Civilização e outras besteiras! Organiza-se como classe. Policialmente. Este momento já soou no Mundo, Implanta-se pouco a pouco nos países onde o proletariado é dividido. HELOISA DE LESBOS Então ...eu vou brincar de jacaré com americâno. ABELARDO 1º Vai, meu amor, ele é o Deus Nosso $enhor do Arame.... brinca, meu bem, brinca... (Heloisa sai pra pegar Jacaré com o Americano) julho 2017 A

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antropofagia Oswald y Lina Bardi são os Poetas Práticos mais contemporâneos na atual Cosmo Política q o mundo inteiro redescobre nas Lutas dos Burús Xamãs chamados pelo erro de Português de Índios. Tupy or not To Be. O Golpe de Estado d 2016, Midiático, Parlamentar, a serviço de muitos $ y d $ervos dos Renti$ta$ como o Banqueiro Abelardo I, parece q foi dado pra que re-encenássemos este Épico do Capitalismo Global. Esta Peça d Oswald d Andrade é uma Moéda de valor incomensurável no q flagra com Grande Arte, a Farsa da repetição dos Ciclo$ Martirizadores do Organismo Vivo q é a Terra y da Tortura em cima d nós, Seres Vivos Enjaulados q nela habitamos. A Classe Rica, os Políticos Sem Talento y a Grande Mydia Sedenta por Anunciante$$$ desde a derrota de Aécio, por Dilma, revidaram aos anos d Liberdade y ascenção social q o Brasil Viveu, y deram aquele Golpe revelador do Congresso, Senado – Mais escroto, burro de toda a História do Brasíl q votou o Impeachment.

A Paródia TragíCômicaOrgiástica do Brasil Colônia q agora Retorna: “O Rei da Vela y sua Encenação Cinquentenária, valem pelo seu Poder PoéTico Catártico d Desenfeitiçamento, Desvoduzação d Libertação do Regime das Múmias entidades do Clube do Bolinha dos 3 Phoderes q estão estraçalhando o q ainda resta do Brasíl. Sua 1ª Encenação sincronizada na explosão da Tropicália da Terra em Transe, do movimento de descolonização do Brasil na Primavera Cultural d 1967, em plena ditadura civil, militar, teve o poder de nos despedirmos do Palco Italiano revendo toda dramaturgia da história mundial através da devoração Poética de Oswald de Andrade. Abelardo 1º, o Renti$ta – Renato Borghi, o Artista Cenógrafo – Hélio Eichbauer, o atual intérprete do Více sempre Golpista Abelardo II – Marcelo Drummond y eu sentimos q a Peça q inaugurou o Palco Italiano, Brechtiano do 2º Teatro Oficina, depois encenada em Grandes Teatros do Brasíl y da Europa, deve nos seus 50 anos de Vida, estrear também, num Palco Italiano, no Caso o Teatro do SESC Pinheiros em SamPã. E daí pros Grandes Teatros do Brasíl, mesmo no q chamam hoje d Cri$e. Encenada hoje, esta Obra de Arte Plástica ao Vivo no Palco Italiano vista de Frente, tem o poder de acender a vela da percepção nas entranhas das Vísceras cerebrais y dos nossos Intestinos, sexos, corpos do Todo a q estamos submetidos y desperta o apetite de Devorarmos este estado de espera. Oswald y o Brasíl Nação Mestiça são pós-modernos. Desde 1928, retornou ao Pensamento Selvagem dos Burús Antropófagos = Bárbaros Tecnizados. O maravilhoso antropólogo y filósofo Viveiros de Castro inspirou-se, como jovem Jean Tible autor do “Marx Selvagem”, no MARX CILLAR Oswaldiano y revivem hoje a “CosmoPolítica”. Oswald como Nelson Rodrigues fala “língua de gente”, como ele, Oswald declara: ”Não sei o q Houve

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mas o q se Ouve.” O FILME Filmado no Rio de Janeiro no ano de 1971 durante a temporada da peça de Oswald de Andrade no Teatro João Caetano, com Externas na Páscoa deste ano, em pontos Totêmicos da Cidade. O Teatro Oficina foi o produtor inicial. Mas o Filme teve uma história labiríntica internacional pra ser montado. Atravessou o Exílio do Teatro Oficina em 1974, e teve suas latas levadas clandestinamente pra Europa, pela Embaixada Francesa em SamPã por iniciativa de uma das Atrizes do Filme: a Genial Maria Alice Vergueiro. A história deste filme atravessa a revolução Portuguesa dos Cravos, as fronteiras perigosas da Espanha ainda de Franco, chega a Paris, quase engolida numa inundação pelo Rio Sena. Mas nos anos 80, na abertura lenta gradual restrita, começa a renascer como fruto de um GRANDE ENCONTRO de dois Artistas: do então jovem Cineasta Noilton Nunes e este q escreve esta nota: José Celso Martinez Correa. O Embaixador Celso Amorim, então na Direção da EmbraFilme, faz retornar ao Brasil as Latas do Material do Filme q estava na França. E o Rei da Vela é apaixonadamente Montado, incorporando além das Cenas da Peça, sua história, e nossa história de realizadores, com filmes em PB de nossos pais, mas proibido em todo Brasil pela Censura. Liberado depois de uma Invasão na Comissão de Censura da Abertura, teve sua estreia num Cinema de Copacabana encrencada. Um jovem ofice boy do Teatro Oficina, entusiasmado demais depois da Estreia do filme, solta um Rojão em frente ao Cinema, q faz sua trajetória até explodir um Fusca, lá estacionado. Noilton e eu fomos acabar a noite de glória na Delegacia de Copacabana e os Jornais noticiaram em manchetes como acontecimento Policial. Mas a EmbraFilme garantiu várias

cópias, em francês, inglês y espanhol, apresentadas em vários lugares do mundo. Adquiridas pelas Cinematecas de Berlin y Paris.] Em 2016 o Produtor de Cinema, Paulo Sacramento, gerou uma MASTER DIGITAL 2K do negativo da película. Os Figurinos, Cenários e a Maquiagem do Gênio Eisensteiniano Helio Eichbauer, concebida com o Elenco q criou a peça, são arrebatadores. As Interpretações, a começar de Renato Borghi fazendo Abelardo1º, são incrivelmente deslumbrantes. A Montagem de Noilton Nunes, a trilha Sonora q criei, ganharam o Kikito no Festival de Gramado. O filme como bom vinho foi ficando cada vez mais forte e infelizmente mais atual do q nunca no Retorno da Onda conservadora.

ZÉ CELSO

EXIBIÇÕES Exibido no CineSesc, no dia 30/11/2016, na Mostra Cinema de Invenção Filmes Prediletos do Crítico Jairo Ferreira; Festival de Teatro de Curitiba, 4 de abril de 2017, no Paço da Liberdade; Centro Cultural São Paulo – 31 de maio de 2017. Exibição de trecho do filme, seguido de debate com Zé Celso e Renato Borghi; Exposição Tropicália, com curadoria de heloisa Buarque de Holanda y Hollanda e Batman ZavarezeFestival SESC de Inverno 2017 – SESC Quitandinha (Petrópolis), Sesc Nova Friburgo y Sesc Teresópolis, de 28/07 à 01/10; 12 de novembro – Exibição do filme e peças gráficas na Tate Modern Gallery, em Londres;


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crowdfunding

a transição da ENERGIA FÓSSIL

à energia

RENOVÁVEL

Fundada no ano de 1958, a Companhia Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona mistura em seus ritos teat(r)ais música, artes plásticas, vídeo, cinema, arquitetura, urbanismo, dança, em processos de co-criação entre artistas. A BIGORNA, lugar onde se forja o ferro e o corpo, onde se transforma e interpreta a vida, é símbolo da companhia desde sua fundação: uma bigorna de ferro foi colocada por Lina Bo Bardi na fachada do edifício, na cabeça. Desde 1967, com a montagem de O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, a companhia tem como linguagem a antropofagia, incorporada na criação de seus espetáculos, ritos e filmes. O Teat(r)o Oficina, nas muitas décadas de existência, consolidou-se como um lugar de produção de arte e conhecimento. Em 2005, o Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona iniciou uma parceria permanente com a Petrobras, responsável pelo patrocínio de manutenção da sede e do núcleo artístico da Companhia. Com o patrocínio a companhia pôde, além de investir em equipamentos, cenários e figurinos para as montagens, investir também no equipamento principal do teatro: o ator, dando condições mínimas para se dedicar ao teatro numa companhia permanente. As seguintes obras e projetos foram realizadas com a chancela Petrobras apresenta: 2005 – OS SERTÕES – A Luta I; da obra de Euclides da Cunha 2006 – OS SERTÕES – A Luta II; da obra de Euclides da Cunha 2007 – OS SERTÕES – temporada popular das 5 peças em São Paulo, Salvador, Recife, Rio de Janeiro e Canudos: A Terra, O Homem I – do pré-homem à 38 A BIGORNA julho 2017

revolta, O Homem II – da revolta ao trans-homem, A Luta I, A Luta II; gravação das 5 peças e lançamento em DVD; 2008 – Os Bandidos, de Schiller; 2009 – Cacilda!! – Estrela Brazyleira a Vagar, de Zé Celso 2010 – DVDs da caixa comemorativa dos 50 anos da Companhia: Os Bandidos, Cypriano y Chantalan, Vento Forte para um Papagaio Subir, Taniko 2011 – Macumba Antropófaga de Zé Celso (baseado no Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade) 2012 – Acordes; de Bertolt Brecht 2013 – Cacilda!!! – Glória no TBC e 68 AquiAgora; de Zé Celso 2014 – Cacilda!!!!! – A Rainha Decapitada, de Zé Celso 2015 – Oswaldianas – Teato na Cidade Seca sobre Rios Com a parceria da Petrobras essas obras foram criadas pelo processo ininterrupto da Cia. em sua sede na rua Jaceguai, e puderam percorrer alguns lugares do Brasil e do Mundo. Na maioria deles carregando além da Obra de Arte Teat(r)al, uma aproximação da Arquitetura Cênica da Obra de Arte Arquitetônica Urbanística criada por Lina Bardi – o 3º Teatro Oficina: Terreiro Elektrônico, sempre recriado para os mais diferentes espaços pelos Arquitetos cênicos Osvaldo Gabrieli, Cristiane Cortílio, Marília Gallmeister e Carila Matzenbacher; além das Oficinas Uzynas Uzonas de difusão de práticas e métodos de Criação da Companhia, junto aos artistas das cidades. A parceria Petrobras – Teat(r)o Oficina possibilitou à companhia: Estruturação artística; Profissionalização; Criação de repertório nacional antropófago; Formação de espetáculos corais musicais – Óperas de Carnaval reconhecidas nacional e internacionalmente, por sua especificidade e originalidade. Somos muito gratos à relação de completa liberdade de criação com a Petrobras, que nunca fez nenhuma objeção aos projetos apresentados pela companhia. Taís Reis, Regina Studart, Sérgio França e nos últimos anos, Mil-

ton Bittencourt, sempre conduziram com muita delicadeza nossos projetos. FIM DE UMA ERA No dia 19 de junho recebemos a notícia do cancelamento desse patrocínio, que por 11 anos contínuos permitiu a prática e pesquisa constantes e a manutenção do espaço, o Teat(r)o Oficina. Este ano mais de 40 projetos foram cortados dos incentivos da Petrobras. O orçamento da secretaria de cultura da cidade de São Paulo foi reduzido à metade. No Rio de Janeiro as verbas de fomento ao teatro foram cortadas. Essas ações, em curso desde o ano passado, fazem parte de um desmonte que não atinge somente a cultura. Os cortes atingem áreas sociais como reconhecimento de áreas quilombolas; fiscalização e proteção dos povos indígenas isolados; e também a Agência Nacional das Águas; universidades e institutos de educação federais; a saúde… E com aprovação dos 20 anos de teto de gastos, das Reformas da Previdência e Trabalhista, existe uma tentativa de desmonte do estado e mais que isso, da vida humana. O golpe atinge diretamente os corpos. O patrocínio da Petrobras foi fundamental para a continuidade da companhia, da estrutura do trabalho e do núcleo diretor que desenvolve a estética desse teatro de multidão – formado por aproximadamente 60 artistas entre atrizes, atores, diretores, diretoras, iluminadores, diretores de cena, arquitetos, videoartistas, produtores, núcleo de comunicação e mídia, figurinistas e músicos. A linguagem da companhia atinge máxima expressão nas óperas de carnaval – espetáculos com banda, longa duração em atuação direta com o público. São produções caras principalmente pela quantidade de pessoas envolvidas diretamente na produção. Toda companhia permanente é necessariamente uma célula de formação artística, pois ao longo das décadas de trabalho, a renovação é constante. Muitas gerações de artistas se formaram aqui

na companhia, que desde o início, trabalha com humanos de todas as idades. Interromper este trabalho é fazer um corte na formação de novas gerações de artistas dessa arte viva: o teatro. CORDÃO DOURADO DE AMANTROCÍNIO Em 2016, nós lançamos uma plataforma de financiamento coletivo, apta a receber doações mensais ou unitárias para a complementação do orçamento da companhia, que chega a R$2.700.000,00 anuais. Essa é uma ação da companhia em direção a uma relação mais direta com o público, para que se torne co-produtor do trabalho criando fundos como os grandes museus do mundo onde já é constante o mecenato por pessoa física. Com o fim do financiamento da Petrobras, a valoração econômica, através do financiamento direto na plataforma se torna essencial para a montagem dos espetáculos, continuidade da pesquisa e para a manutenção de nosso acervo e do edifício, obra de arte tombada pelo COMPRESP, CONDEPHAAT e IPHAN , e considerado pelo crítico de arquitetura do The Guardian o melhor e mais intenso teatro do mundo, seguido pelo Epidaurus, na Grécia e pelo Grosses Schauspielhaus, em Berlim. Nós chamamos todos os humanos possuídos de libido, com fome de vida, para formar esse cordão de amantes que co-produtor dessa arte viva que em 2018 completará 60 anos de atividades, sempre se transformando a partir do eterno aqui e agora. seja um co-produtor! www.teatroficina.org


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