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LUIZ ANTÔNIO MILLECCO

O CANTO DA VIDA DITADO PELO ESPÍRITO DELFOS UNIVERSALISMO


ÍNDICE

PREFÁCIO APRESENTAÇÃO 1.

ANTES QUE OS OLHOS...

2.

MATA A AMBIÇÃO...

3.

MATA O

4.

PROCURA NO CORAÇÃO

5.

MATA TODO SENTIMENTO

6.

MATA O SEPARATISMO...

7.

MATA O DESEJO DE SENSAÇÃO

8.

MATA ÂNSIA DE CRESCIMENTO

9.

DESEJA O QUE ESTÁ DENTRO DE

10.

DESEJA ARDENTEMENTE O PODER

11.

PROCURA A SENDA

12.

BUSCA A SENDA

13.

BUSCA A FLOR...

14.

O ABRIR DA FLOR...

15.

A MENTE PODE RECONHECER A VERDADE

16.

A MINHA PAZ VOS DOU...

17.

DO SEIO DO SILÊNCIO...

18.

BUSCA O GUERREIRO...

19.

ESCUTA O CANTO DA

20.

GUARDA A MELODIA...

21.

CONTEMPLA TODA A VIDA...

22.

NENHUM HOMEM É TEU INIMIGO...

23.

SÓ UMA COISA É DIFÍCIL...


24.

ESTUDA OS CORAÇÕES DOS

25.

A PALAVRA

26.

OBTIDO O USO DOS SENTIDO

27.

PEDE OS SEGREDO

28.

O CONHECIMENTO

29.

OLHA O INVISÍVEL

30.

ENSAIOS SOBRE O CARMA

31.

O PRIMEIRO PASSO...

32.

AQUELE QUE QUISER ESCAPAR

33.

AQUELE QUE DESEJA FAZER BOM CARMA

34.

UM ESCRAVO DE SI MESMO

35.

O EQUÍVOCO DE GENOVEVA

36.

UMA EXPERIÊNCIA INESQUECÍVEL

37.

REFLEXÕES E DESPEDIDA


PREFÁCIO

Há muito que estava em preparação, da parte do amigo Delfos, uma obra intitulada “O EVANGELHO DESCONHECIDO”. Houve, porém, um momento em que diversos fatores interferiram para que o ditado dessa obra fosse adiado, inclusive a necessidade, principalmente da parte do médium, de um maior preparo para ela, dado o caráter transcendente e delicado do assunto que ela expõe. Enquanto se espera uma oportunidade melhor, Delfos proporciona-nos a alegria de transmitir uma série de comentários sobre a obra “Luz no Caminho”, da autoria espiritual de Hilarião, através da mediunidade de Mabel Collins. Tal satisfação se justifica, já que “Luz no Caminho” foi um verdadeiro divisor de águas do médium. Obra mediúnica, embora oriunda do movimento teosófico, “Luz no Caminho” avança conceitos que, se levados a sério, aceleram a evolução espiritual de quem os absorva e de quem os viva. Os comentários do amigo Delfos trazem ao livro um colorido especial. Nosso amigo acrescenta-lhes, ainda, a narração do que chamou Fatos Complementares, a título de ilustração. O último desses fatos é uma experiência psicométrica vivida por Delfos em pleno Israel do tempo do Cristo. Com essa narrativa, Delfos ressalta a associação íntima entre os conceitos de “Luz no Caminho” e a figura do Cristo. Esperamos dividir essa alegria com os leitores. Que Delfos nos transmita ou nos aprofunde o espírito de “Luz no Caminho” para que alarguemos, dentro de nós, ainda mais, o entendimento do espírito do Evangelho!

LUIZ ANTONIO MILLECO FILHO


APRESENTAÇÃO

Existem certas obras em todos os tempos que bem podem ser consideradas como Escrituras, iguais às Bíblias de todas as religiões. Uma dessas, ainda não muito conhecida, é a obra “Luz no Caminho”; seus autores, em realidade, estão no Plano Espiritual, e o grande Instrutor, conhecido sob o nome de Hilarião através da mediunidade de Mabel Collins, é o seu principal divulgador. Autêntica obra de auto-iniciação ela pode ombrear com quantas obras se tenham escrito sobre o assunto em todos os tempos, até porque, segundo seus estudiosos, é ela quase tão antiga quanto o homem. Embora só a partir de 1885 tenha sido revelada ao público, era já conhecida desde tempos préhistóricos. Debruçar-nos-emos sobre ela a ver se conseguimos digerir, juntos, o saboroso fruto que nela se contém. Possa, ignoto amigo, essa obra chegar a ti qual mais uma clarinada, uma clarinada de cima para despertar-te, para tornar-te consciente do teu destino como ser eterno!

Delfos Por Luiz Antônio Millecco


1. ANTES QUE OS OLHOS ...

“Antes que os olhos possam ver, devem ser incapazes de lágrimas, antes que o ouvido possa ouvir, deve ter perdido a sensibilidade, antes que a voz possa falar na presença dos Mestres, deve ter perdido o poder de ferir, antes que a alma possa ficar de pé na presença dos Mestres, deve ter os pés lavados no coração”. “Luz no Caminho – Aforismos I a III”

“Antes que os olhos possam ver...” De que maneira vês tu o mundo? De que maneira vês tu a vida? Para alguns, a vida é um devaneio e o mundo um parque de diversões; para outros, a vida é um tormento e o mundo um vale de lágrimas; para outros, ainda, a vida é um curso cósmico e o mundo uma escola. Em que grupo te situas? Estarás dentre aqueles que se divertem, entre aqueles que matam o tempo, entre aqueles que se alienam voluntariamente, para não enlouquecerem compulsoriamente, ou te situarás entre aqueles cuja vida é um contínuo e eterno aprendizado, entre aqueles que buscam fazer do transitório o eterno ser? Se estiveres entre os que se divertem, sabe que, um dia, serás compelido a entrar em ti mesmo, serás como o filho pródigo ao menos pelo salário devido aos diaristas de teu pai; passarás, então, das diversões para a conversão. O homem que se diverte alheio a si mesmo, não consciente de sua unidade com o Cosmos, é como folha solta ao vento; o homem que se converte sabe que é uno com toda a vida e que a vida é parte dele; as diversões são as caricaturas da felicidade, a conversão é a felicidade sem caricaturas e sem ilusões.

“Antes que o ouvido possa ouvir...” Como funciona a acústica de tua alma? Como te situas entre os viajores do mundo? Como quem nada percebe, como quem tudo percebe à luz dos seus caprichos pessoais, ou como quem tem sede de Infinito e sabe aquietar-se para Lhe adivinhar os lampejos entre todas as coisas ? Se nada percebes, és como alguém que caminha às tontas, olhos e ouvidos vedados, todos os sentidos paralisados. Esse alguém pensa que vive mas, na realidade, apenas


existe; se percebes de acordo com os teus caprichos pessoais, então, é necessário que estabeleças uma diferença nítida entre conceber e perceber. Quem apenas concebe é alheio à realidade, porque a realidade para ele há de amoldar-se aos seus interesses; quem, sobretudo, percebe está enquadrado na realidade, porque para ele a realidade está acima do seu ego físico, mental e emocional. É evidente que tuas percepções não estarão de todo libertas de tuas concepções ENQUANTO FORES APENAS UM HOMEM; no entanto, quanto mais nitidamente perceberes, mais verdadeiramente conceberás, quer dizer, quanto mais a realidade te surgir tal qual é, e quanto mais se abrirem os teus canais de percepção, tanto mais as tuas concepções individuais serão, gradativamente, substituídas pelas concepções universais.

“Antes que a voz possa falar...” A palavra é um dos mais preciosos e perigosos dons; com a palavra podes ferir ou curar, com a palavra podes perturbar a evolução ou acelerá-la. De que maneira falas: como quem pontifica ou como quem edifica? Se falas como quem pontifica, prepara-te para as mais angustiosas decepções, porque todos os “pontífices”, com suas verdades definitivas, serão reduzidos a zero, mas, se falas como quem edifica, ajudas a ti mesmo e ao próximo, porque desenvolves a tua Natureza Divina e estimulas a Natureza Divina em quem te ouve.

“Antes que a alma possa ficar de pé...” Para onde te levam os pés, para as alturas ou para os abismos? Onde caminhas: na montanha ou na planície? Se teus pés te conduzem às alturas, bem aventurado és; se te levam aos abismos, quão difícil te será mais tarde reconquistar as alturas...

“Ter os pés lavados no sangue do coração”... Os pés são como material de escoamento de todas as tuas impurezas astrais; teus pés te fazem ficar ereto e também te ajudam a libertar-te das sujidades psíquicas que o caminho evolutivo ou os atritos com o mundo acumulam em tua aura. Lavar os pés no sangue do coração para poderes permanecer ereto na presença dos Mestres ou na presença do Mestre dos Mestres, que está em ti, é aceitar os desafios do dia-a-dia, é crescer a cada evento, a cada problema, ou a cada acontecimento alegre ou triste. Aprende a lavar os pés no sangue do coração e todo o teu ser ficará limpo.


2. MATA A AMBIÇÃO...

“A ambição é a primeira das maldições, a grande tentadora do homem que se eleva acima de seus semelhantes. É a forma mais simples de buscar a recompensa; homens de inteligência e poder são por ela, continuamente, desviados de suas possibilidades superiores, no entanto é uma instrutora necessária, seus resultados tornam-se pó e cinza na boca; como a morte e o retraimento, ela mostra, por fim, ao homem que trabalhar para o eu é trabalhar para o desapontamento.” Luz no Caminho – Item 1

O profano busca saciar nos finitos a sua sede de Infinito; o iniciado sabe que só o Infinito pode dessedentá-lo; o profano sobe inúmeras escadas no mundo externo para concluir que não caminhou sequer um milímetro; o iniciado ascende a todas as alturas do mundo interno, e quanto mais alto sobe, mais alto quer subir; o profano busca evidenciar coragem penetrando a profundeza de oceanos e abismos externos; o iniciado tem a coragem suprema e verdadeira, porque mergulha nas profundezas de seu próprio mundo interno a fim de buscar o tesouro oculto, a pérola escondida; o profano vai em busca de todos os ruídos do mundo a fim de aturdir-se; O iniciado segue em procura dos silêncios profundos de si mesmo a fim de iluminar-se. Mata a ambição! Adverte-nos o autor de que essa regra não deve ser abandonada de imediato, é que o ego físico, mental e emocional, quando se vê derrotado, assume características próprias, é como o camaleão que toma as cores e tonalidades do ambiente, é como líquido que assume a forma do vaso que o contém. O iniciado deve estar alerta contra essas armadilhas, porque não são raras as ocasiões em que pensamos estar à busca do Infinito quando, na realidade, o que desejamos é algum céu que nos felicite depois da morte. O Infinito, o Reino de Deus, é aqui e agora, dentro de cada ser, o resto é consequência.


3. MATA O DESEJO...

“Mata o desejo de viver, mas respeita a vida como os que a desejam. Mata o desejo de conforto, mas sê feliz como os que vivem para a felicidade”. Luz no Caminho – Itens 2 e 3

Mata o desejo de viver na superfície para que possas viver nas profundezas de ti mesmo. Mata o desejo de conforto externo para que possas obter a paz interna. Se vives na superfície, não vives, apenas existe, do verbo existere (estar do lado de fora). Se vives nas profundezas, então tua vida é plena, porque deixaste a existência superficial e demandaste à Essência Universal. Se fazes do conforto superficial o teu Senhor, não és digno de ti mesmo, porque te deixas possuir pelas coisas externas. Se fazes da Paz Universal e Cósmica a tua meta, então, te apoderaste da tua herança, porque partiste em busca da realidade interna. Não procedas, porém, como os trânsfugas da evolução, eles presumem que, por se afastarem das coisas externas, garantem sua segurança interna; no entanto, não é essa a realidade. Quanto mais fogem do exterior, mais o exterior os persegue; quanto mais buscam o interior, fugindo do mundo, mais o interior foge deles. Busca a vertical do Espírito, mas não ignores a horizontal da matéria. É verdade que a matéria não causa o Espírito, mas também é certo que ela é condição para que o Espírito emerja em toda a sua pujança.


4. PROCURA NO CORAÇÃO...

“Procura no coração a raiz do mal e arranca-a. Ela vive e frutifica no coração do discípulo devotado, como no do homem de desejos. Só o forte pode matá-la; o fraco tem de esperar que ela cresça, frutifique e morra... Estimula as energias de tua alma para essa empresa, não vivas no presente nem no futuro, e sim no Eterno.” Luz no Caminho – Item 4

És um viajor do Infinito, a evolução não é uma chegada e sim uma jornada. Iniciou-se um dia e não sabes quando chegará seu fim, nem pode sabê-lo, porque seu fim jamais chegará. Quando aportaste ao reino dos homens, trouxeste contigo todas as indumentárias que adquiriste nos outros reinos. Algumas delas, porém, já não te são necessárias e te apegas a elas como se elas te garantissem a própria vida, e te fixas nelas como se nada mais houvesse além de seus limites. Procura detectá-las, vai aos porões de ti mesmo, busca essas ervas daninhas e faze delas algo de proveitoso; o veneno que traz a morte, em dozes adequadas, pode promover a vida. Não és produto do passado nem um bandeirante do futuro, mas um filho do Eterno. Fixa-te no Eterno e compreenderás a tua própria natureza íntima; fixa-te no Eterno e inúmeros mistérios dissipar-se-ão diante de ti e dentro de ti.


5. MATA TODO SENTIMENTO

“Mata todo sentimento de separatismo. A veste maculada, que hoje te repugna tocar, pode ter sido a tua de ontem, ou pode ser a de amanhã; e se dela te desviares com horror, quando lançada sobre os teus ombros, mais estreitamente aderirá a ti. O Homem que se tem por justo cria para si mesmo um leito de lama. Abstém-te, porque é reto abster-se, não para te conservares limpo.” Luz no Caminho – Item 05

Não és um ser à parte no esquema da vida. A história da humanidade em que vives teve e tem a tua contribuição. És partícipe de todas as grandezas e misérias do teu mundo. Não há evento, não há circunstância em ti ou à tua volta que não contenha algo dos teus pensamentos, das tuas emoções, da tua atitude. Lembra-te sempre: és co-criador da sociedade e do mundo; podes transformá-los ou deformá-los. Se os deformas, com eles te precipitas nos abismos de tuas próprias trevas e das trevas deles. Se os transformas, todos eles e toda a natureza caminham contigo para frente, para cima. Deformar é distorcer as formas; reformar seria remodelá-las e fortalecê-las; transformar é mudar de forma. Entre a deformação, a reforma e a transformação, opta pela transformação, porque se transformar é crescer e crescer é lei da vida.


6. MATA O SEPARATISMO...

“Mata todo o sentimento de separatismo, no entanto, conserva-te só e isolado, porque nada do que é corporificado, nada do que tem sentimento de separatismo, nada do que esteja fora do Eterno pode vir em teu auxílio.” Luz no Caminho – Item 5 e 8

É verdade que és uno com todos os seres. É verdade que não caminhas isolado das criaturas de Deus, mas também é certo que tua evolução é só tua. Quando caminhas, impeles outros a caminharem contigo e, por sua vez, outros, quando caminham, te impelem a caminhar com eles; no entanto, se é verdade que vos impelis uns aos outros a caminhar, também é certo que jamais podereis compelir uns aos outros a fazê-lo. Impelir é estimular, compelir é arrastar. As experiências, que vives, podem fazer-te produzir frutos sazonados que alimentarão os outros, todavia é impossível comunicar aos outros a tua própria experiência. Não dependas deles para crescer, não te apegues ao exterior, coisas ou pessoas para ser feliz. Sê feliz com a felicidade que possa ser construída por ti.


7. MATA O DESEJO DE SENSAÇÃO Luz no Caminho – Item 6

Nas periferias do seu ser, o homem gira em torno de duas forças igualmente catastróficas, se não for ele um senhor delas, e sim seu escravo; chamam-se complementares essas duas forças – sensação e sentimentalismo. A sensação o faz possuído pelas coisas externas, o faz girar em torno do que o estimule, o faz dependente como aqueles que precisam das drogas para alienar-se de si mesmos. O sentimentalismo fá-lo escravo das suas próprias emoções, obriga-o a viver ao sabor dos seus impulsos, sem discernimento entre o que é e o que não é, entre o real e o irreal. Para além da sensação, para além do sentimentalismo, existe o sentimento. A sensação leva para o exterior, o sentimentalismo, embora um tanto mais interior, é ainda complemento da sensação; o sentimento revela atitude interna. Não te esqueças: do sentimento para o sentimentalismo, do sentimentalismo para a emoção e da emoção para a sensação, a distância pode ser de um milímetro,(1) no entanto a sensação e a emoção podem também ser teus Mestres. Observa-as e elas próprias te ensinarão como superá-las. Porta-te como um espectador de ti mesmo e colocarás os teus pés no primeiro degrau do auto conhecimento, porém não te enganes: se não mantiveres o contato necessário com o teu Eu Superior, com o teu Emmanuel (Deus conosco), com o teu Cristo Interno, observar as emoções e as sensações será mergulhar num labirinto do qual dificilmente poderás sair. (1) Nota do médium: Ao falar de sentimentalismo, o autor espiritual não se refere, propriamente, ao romantismo piegas, mas ao impulso emocional ou à paixão descontrolada, seja pelo que for.

As sensações e as emoções são uma projeção do teu ego luciférico; se encaradas com virilidade e com vigor espiritual, elas serão “portadoras da luz”, porém, se te perderes em seu labirinto, então, o teu Lúcifer se transformará em Satanás, adversário, contrário ao Cristo, e promoverá a tua “perdição”.


8. MATA A ÂNSIA DE CRESCIMENTO Luz no Caminho – Item 07

Como é que vês, tu, o crescimento? Que entendes por essa palavra? Se cresces tendo em vista o teu tamanho, se cresces objetivando os espaços a conquistar fora de ti, sabe que não passas de um pigmeu. Se, porém, mergulhas na aventura do crescimento com sede do Infinito, se o crescimento por si próprio e não por ti é a tua meta, então és bem-aventurado.


9. DESEJA O QUE ESTÁ DENTRO DE TI

“Deseja somente o que está dentro de ti. Deseja somente o que está para além de ti. Deseja somente o que é inatingível, pois dentro de ti está a luz do mundo, a luz única que pode ser projetada sobre o caminho. Se fores incapaz de percebê-la dentro de ti mesmo, é inútil procurá-la em outra parte...” Luz no Caminho – Item 9 a 12

Que é o desejo? Alguns o consideram como uma maldição, outros o julgam indispensável ao crescimento espiritual. Em verdade, o desejo é a mola propulsora sem a qual não existiria vida. Que fazes, porém, dos teus desejos? São eles os teus senhores ou és tu o seu senhor? Para onde os encaminhas: para as baixadas e planícies, ou para as montanhas? Para as periferias e superfícies, ou para as profundezas? Disse o autor dos Mestres da Humanidade: – “Buscai primeiro o Reino de Deus e sua justiça, ou justeza, ou harmonia e todas as coisas vos serão acrescentadas”. Se queres fecundar os teus desejos, afasta-te deles e deseja o essencial e não o existencial; se queres fecundar os teus desejos, não faças deles a tua meta; transforma o Infinito na meta de todos os teus desejos finitos. Os finitos passam, o Infinito permanece, mas o Infinito pode fecundar todos os finitos. Quando não são fecundados pelo Infinito, os finitos não passam de vácuos, de zeros sem o indispensável um. Quando são fecundados pelo Infinito, todos os finitos se infinitizam, porque são valorizados pelo um que fecunda todos os zeros.


10. DESEJA ARDENTEMENTE O PODER

“Deseja ardentemente o poder. Deseja fervorosamente a paz. Deseja posses acima de tudo, porém essas posses devem pertencer à alma pura somente e, portanto, ser possuídas igualmente por todas as almas puras...” “A paz que deves desejar é a paz sagrada que nada pode perturbar e no seio da qual a alma cresce, como cresce a flor santa à superfície das águas tranquilas, e o poder que o discípulo deve cobiçar é aquele que o fará aparecer como nada aos olhos dos homens.” Luz no Caminho – Itens 13 a 16

Possuís ou és possuído? Alguns dizem que a propriedade é um roubo, outros afirmam que a propriedade é um direito, no entanto, à luz do Evangelho, a propriedade é um depósito. Se tens em mãos bens materiais, só terás direito a esses bens na medida em que os faça circular; se eles não circulam, se estão trancados em teus cofres fortes, se julgas que te pertencem e só a ti, então és um escravo deles; tu não os possuis, mas eles, sim, te possuem por inteiro. Ser possuído é perder e perder-se. Possuir é libertar e libertar-se. Que paz procuras? Podes procurar a paz dos lagos ou a paz das cachoeiras; a paz dos lagos, aparentemente silenciosa, traz em seu seio a lama e a corrupção; a paz das cachoeiras, aparentemente ruidosa, leva consigo a dinâmica da vida. Mergulha na paz dos lagos e todo o teu ser se transformará num arruinado campo de batalha; mergulha na paz das cachoeiras e todo o teu ser entrará na dinâmica silenciosa do próprio Universo.


11. PROCURA A SENDA

“Sê avisado: A Senda deve ser buscada por amor dela própria e não tendo em conta os teus pés que hão de trilhar.” Luz no Caminho – Item 17

Para que buscas o caminho? Para que teus pés se regalem pisando o aveludado da grama, ou para que se fortaleçam pisando em espinhos? Para que procurar a senda? Queres chegar a algum lugar? Então, sabe que ainda não a procuras. Senda é igual à evolução e evolução não é chegada e, sim, jornada. Para que buscar a senda? Tendo em vista o futuro? Então, compreende que não a buscas. A senda não cogita do futuro nem do passado, nem do presente; a Senda é a busca do eterno. O eterno já está dentro de ti, aqui e agora; não espera de ti em algum além longínquo, está dentro de ti, no grande aquém propínquo de tua própria alma. O passado já se foi, o futuro nunca vem, o presente é uma ilusão; só o eterno é a realidade absoluta. Teu ego físico, mental e emocional sabe construir armadilhas, ciladas. Não raro, quando pensas que buscas a senda, o que buscas é, na realidade, o caminho das periferias, o caminho que satisfaz às tuas vacuidades externas, mas que não preenche a tua vacuidade interna.


12. BUSCA A SENDA...

“Busca a senda esvaziando-te, para que a Divindade te plenifique. Busca a senda indo ao encontro de ti mesmo, indo ao encontro do Deus do mundo, que está dentro de ti mesmo, e do mundo de Deus que está fora de ti. Busca a senda mergulhando nas gloriosas e misteriosas profundezas do teu próprio ser. Busca a senda avançando ousadamente para o exterior...” Luz no Caminho – Itens 18 a 20

Não podes caminhar fragmento a fragmento. Não podem as mil e uma partículas, em que a civilização te dividiu, caminhar cada uma por si. É necessário que tudo se reúna dentro de ti. É necessário que esse Universo multifacetado, que é teu próprio ser, emerja do caos da diversidade para o Cosmos da unidade. Já, há muitos milênios, emergiste da monotonia do indiferenciado para o caos do diferenciado; agora, deves continuar emergindo do caos da diferença para o Cosmos da unidade. A monotonia fazia de ti uma massa homogênea, a diversidade fez de ti um ser esquizofrênico, retalhado, fracionado. A unidade fará de ti um ser cósmico, univérsico; as facetas do teu Universo, não mais distanciadas umas das outras ou escondidas umas das outras, acabam por tornar-se o maravilhoso caleidoscópio de tuas faculdades superiores. A senda há que ser buscada, mas para encontrá-la é necessário que toda a natureza se lance à sua busca; aliás, é necessário que te faças achável pela Divindade, porque ela já está dentro de ti e precisa penetrar os compartimentos que ainda conservas fechados em teu próprio ser. Enquanto não os abrires por tuas próprias mãos, enquanto não partir de ti a iniciativa de encontrá-los, não penetrará neles o sol da Divindade; eles permanecerão obscurecidos, em trevas. Se queres a senda, aceita tudo que ela te propõe dentro e fora de ti. Se queres a senda, enfrenta todos os desafios que ela te lança fora e dentro de ti. Se queres a senda, não te julgues detentor apenas de uma faceta de ti mesmo; busca a senda conhecendo tudo o que existe dentro de ti; busca a senda administrando todos os compartimentos de teu próprio ser; busca a senda


transcendendo ao teu ego físico, mental e emocional, não para pisá-lo ou sufocá-lo, mas para redimi-lo. Diante dos desafios que te busquem, diante dos apelos que teu ego físico, mental e emocional faz aos teus sentidos, podes adotar a conduta do alienado que se esconde, a conduta do fraco que se entrega, ou a conduta do sábio que observa. O alienado, por esconder-se, não tem consciência de si mesmo e acaba devorado pelos próprios monstros que gerou; o fraco, por entregar-se, acaba triturado por suas próprias engrenagens; o sábio, ao compreender suas fraquezas, entende também a dos outros e se transcende.


13. BUSCA A FLOR...

“Busca a flor que desabrocha em meio do silêncio que se segue à tormenta, não antes; ela crescerá, lançará renovos, deitará ramos e folhas, formará botões, enquanto a tempestade prosseguir, enquanto perdurar a batalha...” Luz no Caminho – item 21

A flor está dentro de ti. Nas profundezas silenciosas de teu ser, ela se desenvolve, agita-se, cresce, para, mais tarde, empolgar com seu perfume, com as suas pétalas, com a sua presença, todas as periferias de tua personalidade, de teu ego físico, mental, emocional. A flor, lótus no Egito, rosa, lírio ou margarida no Ocidente, a flor da alma, és tu mesmo. É o teu Emmanuel, Deus conosco, é o Redentor que te redime de dentro, é a luz que te acompanha desde o início. Um dia, ela desabrochará por inteiro; só então conseguirás perceber os efeitos produzidos pela tempestade que desabou sobre ti durante o elaborar-se da flor. A tempestade pode ter sido terrível, milhares de castelos construídos por tuas fantasias podem ter ruído, implacavelmente, como castelos de cartas; teus sonhos mais caros podem ter sido frustrados, mas quando a flor, que és tu, emergir de ti, quando te perceberes uno com a fonte dos Universos, quando souberes quem és ou quando, ao menos, começares a ter vislumbres dos primeiros lampejos do grande sol que há de raiar dentro de ti, então, todas as tuas frustrações, todo o desmoronar-se de teus castelos mais queridos, tudo quanto te pareceu desgraça, desordem, desarmonia, será compensado pela única felicidade imperturbável, aquela que depende de ti e da divindade que se esconde em ti. Faze dentro de ti o silêncio da espera; aguarda que a flor, silenciosamente, se desenvolva no jardim de tua alma. Um dia, quando menos esperares, serás surpreendido por sua aparição miraculosa; então perceberás que valeu a pena haver sofrido e esperado.


14. O ABRIR DA FLOR...

“O abrir da flor é o glorioso momento em que a percepção desperta. A pausa da alma é o instante de admiração e o momento de satisfação que se lhe segue, eis o silêncio. Sabe, ó discípulo, que aqueles que passaram pelo silêncio sentiram sua paz e retiveram sua força, anseiam que tu também passe por ele”. Luz no Caminho – Nota ao item 21

O silêncio é, por excelência, a linguagem da Divindade. O ruído é dos homens, o silêncio é de Deus. O ruído confunde e aturde, o silêncio esclarece e liberta. Einstein, um dos maiores gênios da nossa Humanidade no século XX, costumava afirmar: – “Penso noventa e nove vezes e nada descubro; paro de pensar e mergulho em profundo silêncio, e eis que a verdade me é revelada”. Os trânsfugas da vida adoram os ruídos, aturdem-se com os ruídos, precipitam-se no barulho. Os que buscam a vida afastam-se dos ruídos; pode a trovoada roncar à sua volta, podem mil e um tufões abalar o mundo que os cerca, pode a terra tremer sob seus pés, mas eles sabem buscar o silêncio dentro de si. Nesse profundo silêncio eles percebem a essência e a natureza das coisas; nesse profundo silêncio, dá-se, dentro deles, o nascimento do Cristo, o encontro de Canaan, de Shambala, de Shangri-la, a descoberta da verdadeira felicidade que é o Reino de Deus, o Reino de Deus dentro de vós. A partir desse silêncio, todos os ruídos se harmonizam e adquirem linhas melódicas de beleza incomparável. O silêncio fecunda todas as periferias da alma, o silêncio arrebata a alma do tumulto em que ela própria mergulhou por sua vontade. Os barulhos atrofiam e matam, o silêncio eleva e ressuscita. Se já escutaste, alguma vez, a voz do silêncio, nunca mais serás o mesmo. Podem teus pés conduzir-te a caminhos distintos, podem os teus caprichos desviar-te da senda, podem as armadilhas do teu ego físico, mental e emocional enredar-te; um dia, o silêncio trovejará dentro de ti onipotente, ensurdecedor e, esmagado por ele, serás como que reabsorvido pelas grandes correntes do Infinito. Regressarás, filho pródigo, rebelde à Casa do Pai que te espera, não em algum céu longínquo e desconhecido, não em mansões ou estâncias para além de ti mesmo, mas dentro de ti, nos mais recônditos de tua alma, nos abismos mais profundos de teu ser, e Ele mandará matar para ti um novilho cevado, cevado por ti mesmo durante tua peregrinação pelas sombras,


e colocará no teu dedo o anel da reconciliação e do casamento cósmico, e colocará sobre teus pés novas sandálias, porque agora pisas novo caminho


15. A MENTE PODE CONHECER A VERDADE

“A mente pode reconhecer a verdade, porém o espírito não a pode receber. Desde que tenha passado pela tormenta e atingido a paz, então, é sempre possível aprender...” Luz no Caminho – Nota ao item 21

Que pensas da tempestade? Que é o que sentes quando ela se desencadeia à tua volta? Que é o que escutas quando ela ruge implacável? Será que a percebes por ela mesma, ou pelo que ela traz subjacente em si? Será que te deténs nas destruições eventuais ou na renovação total que vem depois? A tempestade é teu teste e é teu desafio; ela te prepara para a bonança, ela abre os canais de tua alma para compreenderes o que só depois dela pode ser apreendido. Milênios e milênios se escoaram sobre ti, centenas e centenas de séculos passaram sobre a tua rebeldia, milhares e milhares de anos transcorreram sobre a teimosia em que permanecias, até que a tempestade veio despertar-te. Agora, teus sentidos estão apurados, os olhos de alma estão abertos, as tenazes do ontem já não mais te prendem, e tuas asas estão aptas não aos vôos do futuro, mas ao singrar do Eterno. Apresta-te para essa grande aventura! Sê um ousado bandeirante de ti mesmo! Lança-te nos mares tempestuosos mais dinâmicos de tua própria alma e na profundeza desses mares cuja superfície é turbulenta e encontrarás a ti mesmo no Absoluto, em Deus.


16. A MINHA PAZ VOS DOU...

“A minha paz vos dou” pode ser apenas dito pelo Mestre aos discípulos que são Ele mesmo.”... Luz no Caminho – Nota ao item 21

Durante o período de permanência do Cristo entre nós, foi Ele envolvendo, aos poucos, seus discípulos. Foi-se estabelecendo uma imantação entre Ele e aqueles que O seguiram desde o início de sua jornada terrena. Por ocasião da partida do Mestre e de seu ressurgimento dentre os mortos, essa imantação se aprofundou, chegando ao seu clímax na radiosa manhã do Pentecostes. Só à hora da partida pôde Ele dizer aos discípulos: – “A paz vos deixo, a minha paz vos dou. Eu não vo-la dou como a dá o mundo”. No entanto, essa paz empolgou todo o coração daqueles homens simples na manhã inesquecível em que as línguas de fogo lhes pousaram sobre as frontes, em que o vento impetuoso soprou sobre o local em que estavam reunidos e que uma força estranha os levou a falar em outras línguas, estabeleceu misterioso elo telepático entre eles e a multidão que os cercava. A partir daí, a paz do Cristo, que não é semelhante à paz do mundo, de tal maneira habitou aqueles corações que, paradoxalmente, os capacitou para a luta, a luta pelo ideal que os irmanava, a luta pela proclamação daquele Evangelho que havia sido já regado pelo sangue do Cristo, a luta pela difusão da Sabedoria Cósmica, da qual o Divino Logos se fez a encarnação suprema.


17. DO SEIO DO SILÊNCIO...

“Do seio do silêncio, que é a paz, uma voz ressonante surgirá, e essa voz dirá: – Não está bem; colheste, agora deves semear. E sabendo que essa voz é o próprio silêncio, obedecerás”. Luz no Caminho – II Parte – Introdução

Para além do ruído produzido pelo vento impetuoso, subjacente às línguas de fogo que pousaram sobre cada um dos Apóstolos, estava a grande voz do silêncio que eles ouviram naquela gloriosa manhã. Paradoxal que pareça, eles que clamavam em alta voz, eles que falavam em várias línguas, eles que estabeleciam o tumulto salutar que sacudiu a quantos os ouviram, eles, os Apóstolos, atônitos, ouvindo, em seu interior, a voz do silêncio. E, porque a ouviram, não mais puderam calar-se; e, porque a ouviram, tiveram que gritar alto e bom som o que lhes ia na alma, e porque a ouviram, ousadamente falaram da crucificação do Cristo, da Sua Ressurreição, da Sua Misericórdia e da imperiosa necessidade que todos temos de render-nos a Ele. Naquela gloriosa manhã do Pentecostes, tudo mudou no mundo. O profeta Joel viu coroado de êxito os seus vaticínios. Toda carne era bafejada pelo Espírito divino, os anciãos sonhavam, os jovens e as crianças profetizavam. Naquela gloriosa manhã, teve início a mais profunda, a mais solene, a mais extraordinária de todos as revoluções – a revolução do espírito. Tentaram os homens sufocá-la, desviar do seu rumo o caudaloso rio, mas os séculos transcorreram e Ei-lo que ressurge nos dias atuais impetuoso, irresistível, avassalador em sua marcha, mas nada destrói senão aquilo que está petrificado, estratificado. O rio caudaloso do Espírito Divino, a chuva potente, que se derrama do céu, visita a quantos se abram para ela e enche de poder a quantos se lhe entregam.


18. BUSCA O GUERREIRO...

“Busca o guerreiro e deixa-o combater em ti. Recebe suas ordens para a batalha e obedece-lhe. Obedece-lhe não como a um general, mas como se ele fora tu mesmo, e como se suas palavras fossem a expressão verbal de teus secretos desejos...” Luz no Caminho – II Parte, itens 02 e 03

Desde o início da trajetória que empreendes, desde sempre teu ser vem sofrendo um processo de esfacelamento e, ao mesmo tempo, vem-se transformando em pavoroso campo de batalha. Foi dessas guerras de dentro que surgiram todas as grandes guerras de fora. Agora, precisas lançar-te a uma guerra diferente, à guerra da paz dentro de ti. É necessário empreendê-la de modo corajoso, porque são grandes e solertes os inimigos a enfrentar e vencer. Quando pensas que os abateste, ei-los que ressurgem com vestimenta nova, com armamentos sofisticados, para enredar-te em suas malhas, para derrotarte, se possível, em definitivo. É, então, necessário, que alguém, infinitamente mais sábio que tu, assuma o comando. Algum estratego infalível, que conheça todas as artimanhas do adversário, algum general de fibra inquebrantável que possa comandar todas as tuas ações, algum guerreiro que não erre um só golpe, como nos sugere o texto. Esse guerreiro, porém, é diferente dos guerreiros da Terra. Estes trucidam, não raro torturam, recolhem os despojos e os espólios, aquele ilumina, transforma, transmuta, realiza a alquimia que sempre foi buscada pelos sábios. Este guerreiro está dentro de ti, é o teu próprio Ser Divino e, ao mesmo tempo, é transcendente ao teu ser. Está engastado nas profundezas de tua alma e dali penetra todas as periferias do teu ego físico, mental e emocional. É mister buscá-lo, deixar que Ele combata. Teu ego físico, mental e emocional não pode aliar-se a ti, há de ser comandado por ti. Ele é frágil, e o guerreiro é poderoso. Ele é indeciso e o guerreiro sabe o que quer.


Ele é dissociado, o guerreiro é uno. Se te unes ao guerreiro, tudo te irá bem. Se te unes ao guerreiro, todos os teus problemas encontrarão solução adequada. Se te unes ao guerreiro, não há porque te preocupares com o desgaste, com o esvair-se das forças, com as consequências funestas da guerra. Não te esqueça: Ele é o guerreiro da paz e só destruirá aquilo que precise ser destruído, mas a destruição será apenas para a forma, porque o essencial aproveitável continuará contigo por toda a Eternidade.


19. ESCUTA O CANTO DA VIDA

“Escuta o canto da vida. Procura-o, escuta-o primeiro em teu próprio coração... Existe uma melodia natural, uma fonte obscura em todo coração humano. Pode estar oculta e por completo escondida e silenciosa, porém ali está; na própria base de tua natureza encontrarás a fé, a esperança e o amor...” Luz no Caminho – II parte. Nota do item 05

Ao leres estas páginas, ignoto amigo, dirás que a vida é repleta de dissonâncias, que não é possível ouvir-lhe o canto porque este canto não existe, que por todos os lados espouca a violência, irrompe o ódio. Em primeiro lugar, não confundas a vida com aqueles que a enfeiam, que a deformam. Em segundo lugar, tenta perceber o sentido das dissonâncias. Sabes que os grandes gênios, como Beethoven, aproveitam as dissonâncias e as transformam em gloriosas consonâncias. Os acordes, em que a dissonância se faz presente, são mais ricos e mais profundos porque são acordes, estão em acordo, sabem aproveitar o que é aparentemente díspare e transformar esta disparidade em harmonia. Busca entender o sentido das dissonâncias e entenderás, também, o canto da vida. Busca, porém, esse entendimento dentro de ti mesmo e não fora. Busca-o não na erudição periférica ou do teu ego físico, mental e emocional, mas na sabedoria profunda do teu Eu Divino, e, então, tudo te virá por acréscimo natural, espontâneo.


20. GUARDA A MELODIA...

Guarda na memória, a melodia que ouvires. Aprende dela a lição da harmonia. Só fragmentos do grande canto te chegarão ao ouvidos enquanto fores apenas um homem. Se, porém, os escutares, recorda-os fielmente, a fim de que nada do que a ti chegou fique perdido... Luz no Caminho – parte II. Itens 06 e 07

Sabes por que te é tão difícil escutar o Canto da Vida? Sabes por que te é quase impossível perceberes o significado desse canto? É que ainda não te consideras parte dele. Ensinaram-te que és um réprobro, pecador, um culpado, que mereces a ira de Deus e que precisas de uma aloredenção, para que te libertes de um pecado que não foi teu. És, no entanto, um herdeiro do Infinito, és um cidadão do Cosmos. Sem ti o espetáculo do Universo não estaria completo. Sem ti, faltaria alguém no grande incomensurável panorama da vida Cósmica. Tu és alguém que faz falta, não uma peça na engrenagem, mas alguém no conjunto. As engrenagens são constituídas de matéria morta e tu és um espírito vivo. Não participas de uma engrenagem, um conjunto de peças, que por si só nada significam, mas compões um organismo onde cada elemento influi decisivamente sobre todos os outros elementos. Deixa o guerreiro combater em ti, mas, para isso, reconhece-te como parte da Harmonia Universal, como um instrumento através do qual já, agora, não o guerreiro, mas o músico. Executa sua grande sinfonia e o Maestro rege sua orquestra incomensurável.


21. CONTEMPLA TODA A VIDA...

“Contempla ardentemente toda a vida que te rodeia. Aprende a sondar inteligentemente os corações dos homens...” Luz no Caminho – Parte II. Itens 09 e 10

De que maneira aprende o profano? O profano acerca-se do conhecimento com a mente analítica. O profano disseca o objeto a ser conhecido e, portanto, separa-se dele. O profano considera-se à parte de tudo o que o rodeia, isola-se. O profano mede tudo, observa tudo, apenas com os sentidos físicos e com as informações que lhe transmite o seu ego físico, mental e emocional. Ora, o ego físico, mental e emocional está obstruído pelos seus próprios interesses, por aquilo que deseja e por aquilo que não deseja ver. O ego físico, mental e emocional só busca as verdades que lhe interessam, por isso não encontra a verdade que libertaria o homem. De que maneira aprende o Iniciado? O Iniciado não disseca, não analisa. O Iniciado apreende o todo, sintetiza. O Iniciado não se isola do objeto de seu aprendizado, identifica-se com ele. O Iniciado não renuncia ao intelecto, mas ilumina o intelecto com a razão. Razão, aqui, não se confunde com o intelecto. Razão, aqui, é logos, palavra, intuição. O profano reflete. O Iniciado não apenas reflete, mas intui.


22. NENHUM HOMEM É TEU INIMIGO...

“Nenhum homem é teu inimigo, nenhum homem é teu amigo, todos são teus instrutores. Teu inimigo torna-se um mistério, que deve ser resolvido, embora isso exija idades” Luz no Caminho – Parte II. Nota ao item 10

Como te instrui o teu amigo? Teu amigo ensina-te a valorizar o calor da lealdade fraterna. Teu amigo ensinate quão doce é uma presença afetuosa, mormente nos momentos decisivos de nossa evolução espiritual. Teu amigo é um prelúdio do momento evolutivo em que mergulharás na Consciência Cósmica. Tu estás identificado com ele como um dia estarás identificado com todo o Universo. Como te instrui o teu inimigo? Teu inimigo mostra-te o teu calcanhar de Aquiles, os teus pontos fracos, aquilo que, em ti, precisa de correção, de aparas. Teu inimigo é o buril que te ajuda a embelezar as fealdades do teu ego físico, mental e emocional. Teu inimigo diz a ti que nem tudo em ti são flores, que é preciso remover os espinhos. Louva ao teu amigo e agradece ao teu inimigo. Se queres, porém, apreender e crescer, quer com o teu amigo, quer com o teu inimigo, não te deixes enredar pelas artimanhas do teu ego físico, mental e emocional. Ele te dirá que teu amigo tem todas as virtudes, ele te dirá teu amigo só deve ser louvado a todo momento, ele te dirá que teu amigo é a melhor pessoa do mundo, justamente, por ser teu amigo. Dir-te-á, também, que teu inimigo é alguém que deve ser eliminado, afastado do teu convívio, reduzido a pó; dir-te-á, também, que teu inimigo possui todos os defeitos, é mau, enquanto teu amigo e tu sois bons.


Teu ego físico, mental, e emocional só vê o que quer, só sente o que quer, só sabe o que quer, logo, não sabe, não vê, nem sente corretamente. Teu amigo torna-se um mistério. É um livro aberto diante de ti; quanto mais o lês, mais lês a ti mesmo e, ao mesmo tempo, mais percebes as características únicas que somente ele possui. Teu amigo torna-se um mistério porque é um ser em evolução, e todo ser em evolução contém os mistérios do próprio Infinito. Teu inimigo é, também ele, um mistério. É, também, um livro aberto diante de ti. Se te debruçares sobre suas páginas, verificarás que a inimizade que nasceu entre ti e ele não surgiu apenas por culpa dele, mas também em razão de tuas atitudes e de teus atos, sejam esses atos e essas atitudes corretos ou não aos teus olhos. Se, porém, ao tentares decifrar esse mistério, ao te aproximares de teu inimigo, não fores por ele acolhido, então sabe que fizeste a tua parte. Se te tornaste invulnerável, inofendível e envidaste todos os esforços para que teu inimigo te perdoasse e ele se conservou ofendível e vulnerável, cumpriste o teu dever. Deixa-o consigo mesmo e com Deus. Dia chegará em que, decifrando-se, ele se compreenderá e, reaproximando-se de ti, também te entenderá. A inimizade que vos separou adveio do fato de que tanto ele, quanto tu, vos haverdes tornado vulneráveis, ofendíveis. Se ambos tiverdes a coragem de reagir contra essa ilusão e vos reaproximardes, e vos reconciliardes, tanto melhor para ti e para ele. Se, porém, um de vós permanecer estratificado em sua teimosia e em seus caprichos, tanto pior para esse, porque terá que engolir o veneno que ele próprio forjou, e terá de voltar à Harmonia do Universo à custa de suor e lágrimas.


23. SÓ UMA COISA É DIFÍCIL...

“Só uma coisa é mais difícil ainda de conhecer: o teu próprio coração. Enquanto os liames da personalidade não começarem a se afrouxar, não pode esse profundo mistério do eu começar a ser visto. Enquanto não te mantiveres apartado dele, jamais se revelará ao teu entendimento; então, e somente então, poderás assenhorear-te dele e encaminhá-lo. Então, e somente então, poderás utilizar todos os teus poderes e consagrá-los a um serviço digno.” Luz no Caminho – Parte II. Nota ao item 10

Como te estudas? Se deves aprender com teu amigo, se deves aprender com teu inimigo, também deves aprender contigo mesmo. Mas de que modo? Ainda, aqui, é mister que te acauteles contra as ciladas do teu ego físico, mental e emocional. Por quê? porque de duas, uma: ou ele te dirá que nada deves a ti mesmo e ao Universo, que és alguém que tem direito a todos os prazeres, não importando se esse direito implica em ignorares os direitos idênticos daqueles que marcham contigo na mesma jornada de evolução, ou, ao contrário teu ego físico, mental e emocional te fará crer que és, eternamente, pecador e culpado, que nada mereces a não ser a dor, que nenhum direito te cabe a não ser o de enfrentar, com resignação, as consequências do teu passado culposo. Não creias em nenhuma dessas falácias. Repito-te, és um cidadão do Cosmos; tua jornada está repleta de espinhos que tu mesmo espalhaste pelo caminho, mas tuas mãos estão aptas a removê-los, ainda que com pequenos ferimentos. Tens todos os direitos de um cidadão do Cosmos, mas esses direitos são, igualmente, desfrutados pelos teus irmãos que jornadeiam contigo, na Terra e em todas as paragens do Universo. Se quiseres estudar-te, aprender contigo mesmo, faze-o a partir do centro de tua própria alma. Esse centro iluminará todas as periferias e, imparcialmente, ver-te-ás tal qual és, e poderás crescer para o Infinito.


24. ESTUDA OS CORAÇÕES DOS HOMENS

“... Estuda os corações dos homens, a fim de que possas conhecer o que é esse mundo em que vives e do qual queres fazer parte. Contempla a vida que te rodeia e que constantemente se movimenta e muda, pois ela é formada pelos corações dos homens e, à medida que compreenderes sua constituição e significado, gradualmente irás sendo capaz de ler a palavra maior da vida”. Luz no Caminho – Parte II. Item 12

Diz a tradição egípcia que o Creador gerou o homem através da palavra. A palavra é o conjunto de vibrações com que a mônada foi emitida; a palavra é o potencial, são os atributos com que o Creador impregnou a sua creatura. És detentor da palavra, ela te permeia desde que “saíste” da fonte central do Universo, ela vai contigo vida em fora; é como se constituísses um conjunto de acordes sonoros emitidos pelo Cantor Celeste. Tu és uma sinfonia única, mas teus irmãos também são outras tantas sinfonias, outros tantos acordes, outras tantas palavras proferidas pelo Creador. O verbo, que no princípio estava com Deus, que no princípio era Deus e que se fez carne através de Jesus de Nazareth, faz-se também carne através de toda a Creação Divina, inclusive através de ti. Aceita-te como uma emissão do Verbo Divino, aceita-te como alguém que faz falta no conjunto do Universo, aceita-te como uma nota sem a qual não estaria completa a sinfonia cósmica.


25. A PALAVRA

“A palavra só vem com o conhecimento. Atinge o conhecimento e atingirás a palavra”. Luz no Caminho – Parte II. Item 13

Certamente, conhecimento é o que não falta na atualidade do mundo. Os homens conhecem cada vez mais a estrutura atômica e sub-atômica; cada vez mais conhecem os segredos da Genética; mais e mais se afundam no conhecimento do espaço exterior. Todavia esses conhecimentos, reunidos todos, não passam de um amontoado de zeros aos quais faltam o indispensável um que lhes dará existência e valor reais. É ao conhecimento desse um que a obra nos remete, se mergulharmos nas profundezas de nós mesmos, se, diuturnamente, imergirmos nesse oceano infinito de sabedoria, então, o um imanente em nós fecundará todos os zeros exteriores a nós. O um subjacente em tudo dará sentido a todos os zeros remanentes em tudo.


26. OBTIDO O USO DOS SENTIDOS

“... Havendo obtido o uso dos sentidos internos, tendo vencido os desejos dos sentidos externos, tendo vencido os desejos da alma individual, e tendo obtido o conhecimento, prepara-te agora, ó discípulo, para trilhar, realmente, a Senda. O caminho foi encontrado. Apresta-te para trilhá-lo.” Luz no Caminho – Parte II. Item 14

Todos os feitos heróicos a que se referem as lendas, os poemas épicos, os mitos de todas as Nações, todas as lutas em que o ser humano se vê empenhado para realizar grandes conquistas não se realizam fora, mas dentro dele. Já ouviste falar de inúmeras histórias, das guerras e dos guerreiros, dos heróis e dos fatos heróicos, sabe, porém, com toda a certeza, que essas histórias, antes de mais nada, falam de ti mesmo e do que se passa dentro de ti. Tu hás de aprender os doze trabalhos de Hercules, tu hás de estar às portas de Canaã, e só entrarás nela se abandonares o teu cajado e confiares n’Aquele que havia impregnado de poder o teu cajado. Tu peregrinarás por todos os desertos de ti mesmo, enfrentando mil e uma peripécias, até chegares à terra que te foi prometida por Iavé, o Eu Sou, que está dentro de ti. De início, ve-lo-ás apenas como uma nuvem ou uma coluna de fogo; depois senti-lo-ás plenamente, e plenamente realizarás o teu Eu Crístico. Tua alma é o grande campo de batalha de Kurukshetra onde Arjuna havia de enfrentar os usurpadores do trono. Tua alma é o deserto onde serás tentado, onde teus princípios serão testados. Tua alma é o Getsêmani de todas as tuas solidões; é nela que experimentarás o vazio e a plenitude, é nela que descerás aos infernos de ti mesmo, e subirás aos céus de ti mesmo.


27. PEDE OS SEGREDOS

“Pede à terra, ao ar e à água os segredos que guardam para ti. O desenvolvimento dos teus sentidos internos capacita-te para fazê-lo. Pede aos santos da terra os segredos que guardam de ti. Indaga do mais íntimo, do Uno, o segredo final que, através das idades, Ele guarda para ti. A grande e difícil vitória, a conquista dos desejos, da alma individual é obra de idades, portanto, não esperes obter a recompensa enquanto idades de experiências não se acumularem. Quando chegar o tempo de aprender esta 17ª regra, acha-se o homem no limiar de se tornar mais do que um homem.” Luz no Caminho – Parte II. Itens 15 a 17

Quanto mais se aproxima de sua divindade intrínseca, mais o homem entra em comunhão com todos os seres, seus irmãos, sejam esses seres humanos, subhumanos, animais, vegetais ou minerais. Além da comunhão com as criaturas suas irmãs, do seu nível e abaixo dele, entra esse homem também em plena comunhão com todos os santos das mais diversas e estranhas religiões, aquilo que foi chamado a Grande Fraternidade Branca. Passa, então, esse homem a ser um membro reconhecido dessa família cósmica, dessa comunhão dos santos a que se refere o Apóstolo. Não há, então, segredos para o homem que chegou a essas alturas: sua irmã água, seu irmão ar, sua irmã terra se desnudam para ele como a esposa casta se desnuda perante seu esposo que a recebe. Esse é o momento da grande sinfonia cósmica, do grande banquete universal, do regresso do filho pródigo à casa de seu Pai.


28. O CONHECIMENTO

“O conhecimento que é agora o teu, só o é porque a tua alma se unificou com todas as almas puras e com o mais íntimo. É um depósito a ti confiado pelo altíssimo. Atraiçoa-o, usa mal o teu conhecimento ou negligencia-o, e ainda te é possível, mesmo agora, tombar do elevado estágio a que atingiste. Grandes seres recuam mesmo no limiar, incapazes de sustentar o peso da sua responsabilidade, incapazes de ir além; portanto, encara o futuro com temor e, tremendo à perspectiva desse momento, prepara-te para a batalha.” Luz no Caminho – Parte II. Item 18

Existem dois tipos de heróis: o herói do medo e o herói da fé. O herói do medo lança-se ao perigo por nada mais ter a perder; o herói da fé busca a aventura por saber que tem tudo a ganhar. O herói do medo é compelido à luta pelo desespero, o herói da fé é impelido à luta pela própria fé. O herói do medo atira-se isento de qualquer raciocínio ao perigo, e não sabe se dele sairá vivo ou morto; o herói da fé para além do raciocínio obedece a sua intuição, e lança-se à aventura do Infinito, na certeza absoluta de que nela encontrará a vida. Não se pode, porém, ignorar o perigo dos últimos passos da atual jornada evolutiva dos ser humano. É verdade que a esta altura estás próximo de Deus ou de uma concepção maior ou mais plena de Deus, mais ainda não estás plenamente realizado, ainda te é possível estacionar, marcar passo, se não fores suficientemente corajoso e fiel a ti mesmo; ainda te é possível confiar mais nos teus artificialismos do que na tua divindade interior. Se assim procederes, não verás a Canaã de teus sonhos, tua auto-realização será indefinidamente adiada, e sua conquista exigirá de ti mais esforços, mais trabalho, mais sofrimento. Nesse instante supremo de nosso trânsito, de nossa jornada rumo ao superhomem, mais do que nunca é necessário que confiemos e ousemos. Só os que confiam, ousam, só os que ousam, vencem.


29. OLHA O INVISÍVEL

“Está escrito que, para aquele que se acha no limiar da divindade, não pode ser traçada lei alguma, nem tão pouco pode existir guia. No entanto, para esclarecer o discípulo, a luta final pode ser assim expressa: – Aferrate ao que não tem substância nem existência. Escuta somente a voz que não tem som. Olha somente para o que é invisível, tanto no sentido interno como no externo”. Luz no Caminho – Parte II. Itens 19 a 21

“Prepara-te, ó viandante do Infinito, ó bandeirante de ti mesmo, para mergulhar no grande vazio. Esse é o momento em que nada e ninguém pode vir em teu auxílio; esse é o instante da grande solidão; essa é a hora da decisão, da definição. Se não fores capaz de experimentar o vácuo, não encontrarás a terra firme. Prepara-te, ó bandeirante de ti mesmo, ó peregrino do Infinito, para o grande, o Nirvana de Buda, o nada aparente que conduzirá ao Tudo, porque é a Consciência Cósmica.”


2ª PARTE


30. ENSAIOS SOBRE O CARMA

A partir desta gravação, Delfos passa a comentar o ensaio sobre o Carma contido no fim da obra “Luz no Caminho” de autoria do mesmo instrutor que ditou a obra a Mabel Collins. “Considerai comigo que a existência individual é uma corda que se estende do finito ao infinito e não tem fim nem começo, nem tão pouco é capaz de ser quebrada. Esta corda é formada de inumeráveis e tênues fios que, estreitamente unidos, forma a sua espessura. Estes fios são incolores, são perfeitos em suas qualidades de retidão, e de força e lisura. Esta corda, passando, como faz, através de todos os lugares, sofre estranhos acidentes”.

Por que te compara o autor a uma corda que se estende do finito ao Infinito? Que não tem começo nem fim? Antes que emergisses para o campo do existir, já estavas no campo do ser. Eras, mas não tinhas conhecimento de ti mesmo. Eras universalmente, embora não existisses individualmente. Eras indiferenciado no todo, submerso no oceano da Divindade, sem a consciência do eu. Nesse sentido não tiveste começo nem fim, porque participavas da própria Divindade, sem que tivesses consciência disto. Tua vida então começou. Um dia, emergiste da Divindade, simples e ignorante, atravessaste todos os reinos da Natureza e chegaste ao reino hominal. No início, eras apenas o Adão, adi-aham, primeiro ego; era a criança inocente que se amamentava no seio da mãe Natureza, que não tinha plena consciência de suas possibilidades. Essa criança, porém, fez-se adulta; Lúcifer, a serpente, o intelecto, o porta-luz, veio a ti, ou melhor, emergiu de ti para fazer-te comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, ou seja, para trazer-te discernimento sobre as coisas que te cercavam. Foste, então, expulso do paraíso de tua ignorância, era o “pecatum necessarium”, a “felix culpa” do exulta-te, do canto pascal. Lúcifer tornou-se, então, Satanás; aquele que era o porta-luz tornou-se o adversário, quer dizer, a tua inteligência rebelada contra o Cristo, a essência de Deus em ti, fez com que te desarmonizasses, com que te dissociasses da Natureza e do Universo.


Foi, então, que alguns dos fios dessa corda, que és tu, sofreram estranhos desvios e se mancharam, e a mancha transferiu-se à corda toda. Com a inteligência, surgiu a responsabilidade, com a inteligência veio o livre-arbítrio, com o livre-arbítrio veio a lei de consequência. Passaste a ser um responsável direto e imediato por todas as tuas obras e elas voltaram a ti; se eram boas, colheste-lhes o fruto sazonado e doce; se eram más, os frutos foram amargos, tanto na tua língua quanto no teu ventre. Não foste, porém, criado para as sombras do Karma; teu destino é a leveza da luz. Aos poucos, os fios que se desviaram retornam à sua espessura inicial e eles, que eram no princípio incolores, porque incolor eras tu, simples e ignorante, agora adquirem uma cor dourada, símbolo da sabedoria. Após atravessar todos os reinos da Natureza, após te tornares um homem, encaminhaste para aquele nível de consciência em que serás mais que um homem. Lúcifer iluminado pelo Cristo voltará a ser um porta-luz, aquele que traz o conhecimento, mas o intelecto não mais reinará sozinho, será conduzido pela intuição, e a intuição te levará ao Reino de Deus que está dentro de ti.


31. O PRIMEIRO PASSO...

“... O primeiro passo conduz o estudante à árvore do conhecimento. Ele tem de tomar e comer, tem de escolher, não mais é capaz de ignorância, prossegue avante, seja pelo bom, seja pelo mau caminho”.

Até o momento em que foste expulso do Paraíso de tua inocência, até a hora em que abandonaste o Éden de tua ignorância e “foste lançado na Terra”, até o instante em que te foi dito “comerás o teu pão com o suor do teu rosto”, não eras responsável por ti. A partir, porém, desse momento, comeste da árvore do conhecimento do Bem e do Mal, tua responsabilidade nasceu, começou a crescer, a desenvolver-se. A criança de ontem, adulto de hoje, tinha agora que se bastar, viver por si mesma, cavar o solo do seu próprio coração, a fim de buscar-se, e não te foi possível voltar ao teu Éden tão querido de outrora, arcanjos cercavam o jardim com espadas de fogo. É que uma vez que te tornaste adulto não te era mais possível voltar a ser criança. Bem que o tentaste, bem que te entregaste a cultos estranhos, adorando árvores e animais ou sacrificando-os, mas a tua volta ao Éden primitivo é tão impossível, como impossível é ao fruto voltar a ser semente, como impossível é a flor voltar a ser botão. Era preciso que assim fosse. Deus fez-te ao mínimo para que te fizesses ao máximo; teu Paraíso não mais pode ser o Éden da ignorância, há de ser o céu do amor e da sabedoria. Deus quer-te livre, contanto que teu livre-arbítrio não comprometa a harmonia do Universo. Deus quer-te livre, não obstante ser bem limitada a tua liberdade e, um dia, o paradoxo: perceberás que ser livre consiste exatamente em livremente abrir mão da liberdade, porque chegará o momento em que de tal maneira te submeterás à Divindade que está em ti, de tal maneira te integrarás na harmonia do Universo, que não mais necessitarás da tua liberdade individual, porque compreenderás que a liberdade individual só tem sentido quando opera em favor do Todo, quando se integra na Consciência Cósmica.


32. AQUELE QUE QUISER ESCAPAR

“Aquele que quiser escapar dos liames do Carma deve conduzir sua individualidade da sombra para a claridade. Deve de tal modo elevar sua existência que os citados fios não entrem em contato com as substâncias que nodoam, não se tornem apagados de forma a sofrerem distorção”.

Os homens esclarecidos que já perceberam o plano de Deus em relação a si mesmos podem ainda equivocar-se quanto a determinados detalhes desse plano. É comum, ante as desgraças que ocorrem, a célebre frase: – Foi a vontade de Deus, ou aquela outra – Deus quis assim. Deus, então, transformou-se na mente desses homens em tirano caprichoso que lhes maneja o destino a seu bel-prazer, e que parece agradar-se com a infelicidade de seus filhos. Nada mais funestamente equivocado. Não é da vontade de Deus que sofras, não é da vontade de Deus que esgotes o cálice de teu Carma até o fim. Foste criado para o crescimento e para a felicidade, foste criado para a autorealização e para a paz, no entanto, a auto-realização, a paz devem ser conquistas tuas; deves criar condições para elas, mediante o teu próprio esforço e, se nesse esforço te equivocas e te desarmonizas, é necessário que te rearmonizes; essa é a vontade de Deus, e não o sofrimento. Se queres colocar-te acima do Carma, busca antes compreendê-lo, e supera-o mediante tua elevação de frequência vibratória. Se queres colocar-te acima do Carma, sê tu o grande acontecimento de dentro, porque quanto mais aconteceres de dentro de ti, tanto menos precisarás de acontecimentos fora de ti. Quanto mais fores autodeterminante, mais longe estarás do determinismo estabelecido por teu Carma. Quanto mais fores cosmo-pensado, tanto menos serás ego-pensante, e quanto menos fores ego-pensante, tanto menos te equivocarás. É possível sofrer sem dever? Ainda quando te coloques acima daquilo a que, convencionalmente, chamamos o Carma, ainda quando transcendas a Lei de Causa e Efeito, é possível, todavia, que sofras. O sofrimento não é, em si mesmo, uma expiação, mas


pode ser uma prova. O sofrimento não é, em si mesmo, um débito, mas pode ser um crédito. Se é necessário que desenvolvas tuas faculdades interiores, se é necessário que cresças, é também necessário te recordes de que todo o crescimento exige esforço, e todo esforço é sinal de que enfrentas alguma resistência ao teu crescimento. Ora, esforço é igual a sofrimento, esforço é igual a luta e luta supõe uma certa dose de dor. Não te creias, porém, premido por Forças do Universal só porque sofres. Mesmo no caso em que sejas premido, se-lo-ás por ti mesmo, mas, repito-te, o sofrimento por si só não indica punição, mas indica esforço de redenção.


33. AQUELE QUE DESEJA FAZER BOM CARMA

“Aquele que deseja fazer bom Carma deparará múltiplas confusões, e, no esforço para semear a rica semente para a sua própria colheita, poderá semear mil sementes daninhas, e entre elas a árvore gigantesca.”

Que esperas da outra vida? Em primeiro lugar, se algo esperas da outra vida, nada obterás, porque não existe uma outra vida, existe uma só vida e inúmeras existências. Em segundo lugar, se pretendes apenas fazer bom Carma, se desejas, tão somente, uma existência melhor na Terra ou alhures, sabe que ainda não amas, teus atos estão veiculados a um secreto egoísmo, a uma secreta intenção de barganha com a Divindade. Tu te portas bem, tu espalhas o bem a mão-cheia, tu beneficias o teu próximo e ela, uma Divindade de fora, te recompensa, premiando-te com uma mansão Celeste ou com uma reencarnação venturosa, em que serás rico ou desfrutarás de uma boa situação social. Tem cuidado, porque esta é uma das armadilhas do teu ego físico, mental e emocional; esta é uma das ciladas do Lúcifer, que se tornou Satanás, ou seja, de tua inteligência divorciada de tua essência. É claro que, se te dedicares ao serviço dos outros, serás automaticamente beneficiado por esse serviço, mas, ainda aqui, há uma intenção secreta de recompensa. O melhor é que te entregues à Divindade, é que não te apegues à ação nem ao resultado da ação, como nos aconselha o Bhagavad-Gita, a Canção do Senhor. O melhor é que não esperes o teu céu depois da morte, mas que comeces a vivê-lo aqui e agora. O melhor é perceberes que o Reino de Deus não é uma recompensa que te será dada mais tarde, quando fores bonzinho. O Reino de Deus já está dentro de ti e, na medida em que produzas dentro de ti as condições necessárias à sua emersão, Ele virá para fora de ti, empolgando todo o teu ser, e será seu instrumento e seu arauto no mundo.


É claro que, para criar essas condições, necessitas, antes de tudo, de uma estética compulsória, sacrificial, de uma autodisciplina que mais tarde produzirá frutos na ética jubilosa, espontânea, natural. É claro que, para criares essas condições, mister se faz que percorras as terras de tua própria alma como um bandeirante corajoso, capaz de enfrentar todos os obstáculos para recolher todos os tesouros.


3ª PARTE


34. UM ESCRAVO DE SI MESMO

Ignoto amigo, há, no mundo extrafísico para quem se pretenda colocar a serviço do Cristo, uma hierarquia espiritual que, até certo ponto, te pareceria rígida. Nada fazemos sem atentar para o alvitre daqueles que avançaram mais do que nós, daqueles que estão à nossa frente na jornada evolutiva. Por este motivo, submeti estas páginas ao seu legítimo autor, o Mestre Hilarião. Consultou-as, após esboçar na fisionomia um ar de satisfação, me disse: – Exceção feita a alguns problemas de linguagem por parte quer do médium que recebeu as instruções (refere-se aqui ao “Luz no Caminho”), quer das traduções em várias línguas, a obra é, exatamente essa, a tua interpretação está correta. Agradeço-te em nome daqueles de quem, por minha vez, fui intérprete, e gostaria que percorresses, comigo, algumas estâncias de nosso Plano, a fim de transmitires a teus leitores experiências que poderás confrontar com o enunciado da obra, e que serão muito úteis quer a ti, quer a eles. Assim, o que passo a narrar-te é resultado dessa ligeira excursão que fiz em companhia de Hilarião; excursão ligeira, porém intensa, e de consequências profundas para mim e, segundo creio, para ti. Nossa primeira visita foi a uma furna do Plano Inferior. Lá estava um homem de aspecto sombrio, diria quase depressivo; sua fisionomia era dura, fechada, sua atitude variava entre a depressão franca e profunda e a mais absoluta agressividade. Evidenciando um grande esforço, Hilarião aproximou-se dele e conseguiu fazer-se visível. O estranho personagem não ousava fitá-lo, mas lhe percebia a presença e perguntou: – Tu aqui, de novo? – Sim, respondeu o Instrutor. – Que queres? Inquiriu frio e seco aquele a quem visitávamos. – Sabes o que quero. Quero convocar-te ao caminho, quero chamar-te de volta a ti mesmo. – Estou satisfeito no meu inferno, respondeu o outro.


– O inferno que tu mesmo criaste, disse Hilarião. – Não creio possa, um dia, sair dele e, também, não o desejo, respondeu o outro. Hilarião prosseguiu: – Que fizeste dos benefícios que espalhaste? – Eram benefícios a mim mesmo. – Que fim deste às obras de benemerência que empreendeste a favor do próximo? – Não eram em benefício do próximo; eu queria apenas dar vazão ao meu instinto ambicioso. – Então te consideras como um escravo deste instinto? – Sim, eu o assumo e quero vivê-lo até às últimas consequências. – Até quando prosseguirás fugindo de ti mesmo? – Não fujo de mim mesmo; encarei-me tal qual sou, e estou satisfeito. – Até quando te suportarás a ti mesmo? – Não desejo mais ser importunado; por favor, retira-te. Percebendo minhas inquirições, Hilarião falou: – Delfos, nosso irmão aparecia aos homens como alguém cheio de virtudes, como uma pessoa diferente de todas, um santo; no entanto, no fundo de seu coração, escondia-se um desejo mórbido: o poder. Queria dominar os outros, queria submetê-los a seus caprichos, gostava de sentir-se requestado, amado, gostava que lhe obedecessem, que lhe agradecessem a benemerência. – Mas fazia-o conscientemente? perguntei. – Aí é que está a tragédia, respondeu Hilarião. Ele, quando praticava tais obras, julgava-se fazê-las em benefício dos outros; tinha-se, ele próprio, como um santo; pensava amar, julgava-se amparador de seus irmãos, todos, naturalmente, inferiores a ele. Um dia, ele abandonou o corpo físico e sobreveio a visão panorâmica; essa visão o pôs diante de si mesmo, com toda a nudez. Percebeu, então, que nunca nutria qualquer compaixão pelo próximo, que nunca se inclinara diante de ninguém com amor, que sempre buscara a recompensa de si mesmo. Então, desanimado e tragicamente surpreendido pelas suas próprias inferioridades, rebelou-se e transformou-se naquilo que estás vendo.


– Como tocá-lo? perguntei. – Breve ele estará entregue à sua própria loucura, breve os pesadelos emergirão dele e superarão aquela máscara de dureza que ele ostenta com tanto orgulho. Poderemos, então, reaproximar-nos, visitá-lo de novo, encaminhá-lo a uma nova encarnação. ...“Pode parecer que faz grandes progressos, porém algum dia virá defrontar face a face a própria alma, e reconhecerá que, ao aproximar-se da árvore do conhecimento, escolheu o fruto amargo em vez do doce e, então, o véu cairá completamente, e ele abandonará sua liberdade para tornar-se escravo do desejo”.


35. O EQUÍVOCO DE GENOVEVA

Após a instrutiva palestra com Hilarião, entrei com profundas reflexões sobre o pobre ser que acabávamos de visitar. De fato, ele fora vítima dos seus próprios equívocos; em outras palavras, tentou enganar-se a si mesmo e não o conseguiu. Algo me intrigava, pois nosso irmão não tinha plena consciência da própria fragilidade emocional, da própria vaidade. Quando pensava amar, acreditava realmente amar, era sincero. Por que então, ser tratado daquela forma? Por que não logrou ele recursos para se colocar acima daquela situação? Se era sincero, se julgava amar, estava realmente equivocado; não podemos ser responsáveis pelas atitudes que não sabemos que temos. O encontro seguinte com o mesmo Instrutor Hilarião desfez-me todas as dúvidas. Antes mesmo que eu falasse, olhando-me com muita compreensão, ele respondeu: – Gostaria, Delfos, que visitasses comigo outro pouso de nossa esfera; depois, conversamos sobre o assunto. Visitamos, então, uma estância feliz – tudo transpirava paz nesse local – solidão era palavra que não existia nos dicionários dessa localidade venturosa, porque todos se amparavam, se compreendiam, se completavam. Se tivesse que descrever as paisagens do ambiente, falaria apenas em flores e música. Hilarião foi comigo ao encontro de uma companheira que, segundo ele, teria muito a nos contar: a irmã Genoveva, em pleno preparo de futura reencarnação na Terra. A irmã acolheu-nos com bondade. Hilarião pediu-lhe que me falasse do seu problema e, imediatamente, ela se pôs a discorrer sobre sua situação: – Fui, na Terra, componente e, por que não dizer, coordenadora de um grupo de assistência social. Todas as semanas, em caravana visitávamos doentes de várias procedências; além disso, prestávamos socorro aos pobres, na rua, e não tratava de um socorro caritativo que se limitasse apenas à esmola ou à alimentação. Íamos ao encontro deles, cooperávamos com eles, para que crescessem em todas as áreas e para que caminhassem com os próprios pés. Ao desencarnar, fui imediatamente atraída para essa estância de luz. Senti-me imensamente feliz. Aqui eu não padecia males – as canseiras, os sofrimentos do mundo físico. Aqui, eu não era assediada pela incompreensão de uns e a inveja de outros. Aqui, todos vibrávamos no mesmo diapasão de fraternidade, de paz, de solidariedade.


Que mais poderia eu querer? Transcorreram os anos – dez, vinte, quem sabe, trinta? Uma sensação singular passou a habitar minha alma, apesar de todo o ambiente feliz, apesar de quanto tudo me alegrava nessa região. Passei a experimentar uma angústia surda, silenciosa, que foi, pouco a pouco, empolgando-me o ser todo. Recorri a um dos Instrutores de nossa Colônia que me recebeu generoso, fraterno, e submeteu-me a um tratamento magnético, fazendo-me retomar a visão panorâmica que eu já havia tido. Passei, então, a perceber facetas de meu ser que me haviam escapado nos primeiros tempos. Sim, eu trabalhara em benefício do próximo, eu amara o próximo, no entanto, havia uma secreta aspiração por recompensa no outro Plano. Julgava, escudada no Evangelho, que o trabalhador é digno do seu salário, e eu era uma trabalhadora. Tão logo desencarnei, senti-me recompensada pelos benefícios que havia espalhado. Percebi, então, graças a esse auxílio generoso do meu Instrutor, que havia ainda certa dose de egoísmo em tudo o que eu fazia. Era verdade, sim, que minhas intenções eram boas; era verdade, sim, que minhas mãos estavam a serviço do Cristo; mas, secretamente, eu esperava aquela recompensa que me havia sido dada; secretamente, eu ansiava por um lugar melhor após minha desencarnação. Foi aí que compreendi a razão de minhas angústias. A estância que habitamos está para além de meus méritos, porque me apegara de mais aos meus méritos; percebi que era preciso dar todo o empenho no amor ao próximo, no bem pelo bem. Chorei, chorei, profundamente, chorei amargamente. Minhas lágrimas continham muito de frustração e decepção; eu procurava fora de mim aquilo que estava dentro de mim. O Instrutor, porém, não me deixou entregue aos meus remorsos. Colocando sua destra sobre a minha cabeça em sinal de benção, falou-me: – Genoveva, filha querida, teu equívoco é o de milhares de criaturas que esperam o céu só para depois de haverem peregrinado pela Terra. Não cogitaram de construção do céu dentro delas mesmas – amaram, é verdade, mas foram vulneráveis a decepções, a ingratidões; deixaram-se vencer pelos sentimentos humanos, e seu trabalho não foi completo. É o que acontece contigo, mas não te desanimes – agora, através de tuas lágrimas, te voltas para o Cristo; estou sendo testemunha da prece muda que Lhe diriges, pedindo-lhe que te ampare, que te faça viver por amor a Ele e ao próximo. Voltarás, sim, para completar tua obra. Sê firme, não desanimes, coloca tuas mãos nas mãos dele e tudo te será mais fácil! Ao nos retirarmos, Hilarião quase nada precisou dizer. Olhou-me fixamente e perguntou: – Entendeste?


– Sim, eu havia entendido. Há uma diferença total entre irmã Genoveva e o pobre irmão que havíamos visitado. Ele, ao perceber os equívocos em que incorrera, permaneceu nesses equívocos, deixou-se engolir pelos monstros por ele próprio criado. Ela, ao contrário, ao defrontar-se com os seus enganos, desfez-se em lágrimas, mas em lágrimas de súplica, para que o Cristo a amparasse e lhe permitisse reformular sua atitude, a fim de fecundar seus atos. Ambos buscaram no crescimento pensando no próprio tamanho; buscaram a senda visando ao conforto dos próprios pés, mas ele permaneceu cristalizado em seu egoísmo, ao passo que ela enfrentou a si mesma e prepara uma nova etapa de sua evolução, em que o equívoco será retificado. ...“Sê avisado – a senda deve ser buscada por amor dela própria e não tendo em conta os teus pés, que hão de trilhá-la”.


36. UMA EXPERIÊNCIA INESQUECÍVEL

O instrutor Hilarião convidou-me para uma experiência que, segundo ele eu jamais esqueceria durante toda a Eternidade da minha vida. Conduziu-me até as plagas de Israel; fomos a Jerusalém. A certa altura, pedindo-me que conectasse ao máximo com sua mente, ele utilizou todo o potencial de sua vontade para arregimentar o material do meio ambiente, a memória da Natureza, aquilo a que os ocultistas chamam registros akáshicos. Manipulando aquele material, ele nos fez viajar no tempo. Fomos até o dia da Crucificação, ou por outra, até a hora do Getsêmani. Assistimos à prisão do Cristo, ao beijo de Judas, à chegada dos soldados romanos, aos arroubos de Pedro, que feriu a orelha de Maucus. Tudo isso, já por si só, constituiria para mim motivo de profundas emoções, no entanto, o que se deu está acima de minha compreensão intelectual, está para além das palavras com que possamos descrever o fenômeno. A medida que o Cristo orava, mesmo antes de ser preso, parecia que se estabelecia um certo laço de conexão entre Ele e toda a Humanidade. Era como se forças obscuras, emergindo do próprio ser humano, arremetessem contra Ele com toda a fúria. As bofetadas, os açoites, todas as torturas a que Ele seria submetido mais tarde tiveram, como introdução, esse momento solene. O Cristo orava, suava sangue e, ao mesmo tempo, parecia lutar contra forças sutis que O assediavam, que O vergastavam, de todos os lados, sem que olhos humanos as pudessem detectar. Explicou-me o Instrutor; Era o “inconsciente coletivo” do próprio homem, eram as forças retrógradas subjacentes na própria alma dos encarnados que reagiam contra o incômodo da presença do Cristo. Ele atraia para si todas essas forças, a fim de transmutá-las, a fim de dar-lhes uma nova direção. Não terminou aí, porém, o espanto. À medida que os fatos se desenrolavam, parecia que a luta era mais cruel entre Ele e nós todos, entre Ele e os homens a quem viera salvar, entre Ele e a Humanidade, tanto encarnada quanto desencarnada. Já na cruz, a cada vez que Ele proferia a oração: “Perdoa-lhe, Pai, porque não sabem o que fazem”, jatos de luz emanavam de seu peito e obrigavam ao recuo todas aquelas forças que contra Ele arremetiam.


Houve um momento em que o Instrutor tocou, de modo mais significativo, a minha fronte, e minhas percepções se alargaram; pude, então, ver a configuração daquelas energias adversas e terríveis: eram formas monstruosas, diante das quais tudo o que se imaginou sobre o “demônio” poderia ser comparado à estátua de Vênus. Os fatos aproximaram-se do seu clímax. A certa altura, após ingerir o vinagre que lhe foi dado, através de uma esponja, disse o Mestre: – Tudo está consumado; em tuas mãos entrego o meu espírito, e abandonou o corpo. Neste instante, um como incêndio de luz pareceu consumir todo o Planeta. Aquelas formas monstruosas recuaram, umas voltando àqueles que as emitiam, desintegrando-se outras. O véu do tempo rasgou-se de alto a baixo. Hilarião, usando ainda sua vontade, fez-nos avançar no tempo, e fomos até o sepulcro, onde o corpo do Cristo fora depositado. A certa altura, presenciamos algo que poderia ser comparado a uma explosão de luz, que lançou por terra os guardas que vigiavam. O Cristo desmaterializou seu corpo e foi tão grande a efusão de vida a espalhar-se pela aura da Terra, que antigos ancestrais de Israel, desencarnados ao lado de outras veneráveis Entidades que mais recentemente haviam abandonado o corpo físico materializavam-se e apareceram a muitos. Ignoto amigo, acabo de tentar descrever-te o indescritível. O que venho de narrar-te está acima de qualquer tentativa de narração. Solicitei ao Instrutor que me desse tempo ao repouso. Em realidade, tentei repousar. Após uma incontida e profunda explosão de lágrimas, pude parar e digerir tudo aquilo... Depois me encontrei de novo, com Hilarião, e conversamos. – Delfos, disse-me ele, a Humanidade ainda não se percebeu do profundo significado do Gólgota. O sacrifício do Cristo desintegrou formas mentais e emocionais que, condensadas, retardariam por tempo indeterminado a evolução humana. Era o próprio inconsciente do homem que reagia contra o Mestre, como já te foi dito, mas a partir daí o ser humano obteve a capacidade de um contacto mais profundo e imediato com sua própria Divindade intrínseca. Fica sabendo, caro amigo, que os milhares de mártires, que durante os primeiros séculos serviram de alimento às feras, robusteceram ainda mais essa força purificadora que emanou da Vida e do Corpo do próprio Cristo. Foram, na realidade, participantes do Seu Sacrifício, regaram com seu sofrimento e seu sangue as sementes do Evangelho, adicionaram a vitalidade desse sangue, ou seja, a força do Seu amor aos influxos amorosos e vitais do próprio Cristo. E todos aqueles que, ainda hoje, renunciam, sofrem em benefício de seus irmãos, e todos aqueles que se dedicam a obras meritórias em favor dos que sofrem, mormente os que se sacrificam no anonimato, adicionam seu amor, sua vida, à vida e ao amor de Seu Mestre e, assim, repito-te, participam do Seu Sacrifício e de Sua “Ressureição”, como tu próprio disseste, não existe uma


alo-redenção e sim uma auto-redenção, no entanto a vida que emana do Cristo facilita esta auto-redenção. Todos aqueles que entram na esfera dele, até certo ponto, são sim “purificados”, terão de devolver ao Universo a harmonia que lhe hajam roubado, mas não precisarão passar pela pena de Talião ou queimar material inútil nas zonas tenebrosas.


37. REFLEXÕES E DESPEDIDA

Há momentos em que nossa vida parece sofrer um transtorno salutar, uma verdadeira revolução. O que acabo de narrar-te, ignoto amigo, foi um desses momentos. Até hoje, quando a ele me reporto, dificilmente consigo manter-me sereno, dadas as profundas significações de tudo quanto vi e vivi. Senti que, de certa forma, eram resgatados alguns conceitos das igrejas tradicionais sobre a Salvação. Reafirmo: não existe alo-redenção, e sim auto-redenção, no entanto, reafirmo, também, que há momentos em que é necessário que uma potência cósmica de fora rompa o casulo que envolve a latência cósmica de dentro – o Gólgota foi uma dessas horas. O Cristo, com Seu sacrifício, com o eclodir de Sua vida, de Sua luz, e sobretudo, de Seu amor, rompeu o casulo constituído pela própria Humanidade. Evidentemente, essa Humanidade rebelde, estratificada em seus conceitos e preconceitos reagiu contra Ele a nível consciente e inconsciente. É verdade que Suas palavras, naquele tempo, não ultrapassaram os estreitos limites da Palestina; mas elas repercutiram nas áreas inconscientes de todo ser humano, e provocaram inusitadas reações nessas áreas. Eu te disse, transmitindo conceitos de Hilarião, que os que entram na esfera do Cristo não precisarão passar pela pena de Talião ou queimar material inútil nas zonas tenebrosas. Esclareço, agora, minhas palavras: o fato de entrar alguém na esfera, ou antes, na psicosfera do Cristo não o exime da tarefa inadiável do crescimento interior, não lhe garante uma passagem miraculosa dos abismos mais profundos da Terra para as culminâncias do céu, no entanto, mudam as perspectivas e muda o destino. Quem entra na vida do Cristo, na psicosfera do Cristo, não pode deixar de, por isso mesmo, entrar num processo de aprofundamento de Seu amor por toda a Humanidade. Ora, diz o apóstolo Pedro “que o amor cobre multidão de pecados”. O homem venturoso que passa a respirar o hálito do Cristo começa, por si mesmo, a elevar-se acima do círculo vicioso de suas próprias emoções e de sua própria mente. Começa a neutralizar o domínio que exercia sobre ele o seu ego físico, mental e emocional. O “satanás” que permanecia nele vai para a sua retaguarda e começa a readquirir a sua condição de Lúcifer, de portador da luz; por isso mesmo esse homem não mais tem necessidade de mergulhar nos labirintos da culpa que o manteriam, indefinidamente, nas zonas tenebrosas, ou que o fariam voltar à Terra para expiar, para resgatar através da ação automática da implacável lei de Causa e Efeito, que retribui exatamente o que se dá.


Passa esse homem a superar a pena de Talião que diz: “o que mata à espada deve morrer pela espada”, e, daí por diante, sua espada é a do amor. Se tiver de chorar, chorará por amor; se tiver de resgatar, resgatará por amor. Os processos automáticos e implacáveis da expiação serão substituídos pela ação da reparação. Por exemplo: ao invés de perecer pela espada, esse homem receberá, como filhos, aqueles contra quem utilizou a espada; ao invés de resgatar, mediante a moléstia, os crimes cometidos, esse homem se lançará à tarefa, sublime e quase sempre ingrata, da salvação de vidas. Não creias, portanto, que basta uma profissão de fé nesta ou naquela escola cristã para que te vejas livre de teus compromissos com o Universo; ao contrário, teu senso de responsabilidade aumenta por participares do sacrifício do Cristo. Teu desejo de queimar etapas, de caminhar rumo a ti mesmo ou rumo à tua própria Divindade interior, será tão ardente que não mais poderás resistir a ele, que não mais estacionarás. Chegou o momento em que devia despedir-me do grande Instrutor com quem tão profundamente havia vivenciado aqueles dias. Submeti-lhe essas últimas apreciações e, ele, bondosamente, nos disse, a mim e a ti que me lês, essas últimas palavras: – Delfos, por certo, não fosse a ação purificadora do Cristo e, talvez, a Humanidade terrena já se tivesse destruído. Sua evolução ficaria seriamente comprometida por milênios e milênios, no entanto, nem todos se aproveitam das benesses que o Grande Mestre derramou sobre o mundo. Vivem os homens um momento crucial de sua evolução... Ai daqueles que se fizerem surdos à voz do Mestre! Ai daqueles que voltaram as costas ao amor! Ai daqueles que se fecharam! Cumprem-se as profecias e a Lei incidirá sobre eles com todo o rigor de sua força. Por outro lado, bem-aventurados aqueles que entenderam ou buscaram entender a mensagem do Cristo, bemaventurados aqueles que, se abeberando do Evangelho, se esforçam por incorporá-lo à sua vida. Não serão santificados, é certo, de um dia para o outro; não se transferirão, de imediato, à esferas cuja luz não poderiam suportar, mas, sob a tutela mais direta de seu Mestre, caminharão com mais segurança, ainda que vivam noites escuras, ainda que determinados trechos do caminho sejam íngremes, difíceis, ainda que haja montanhas e montanhas a escalar, os braços do Cristo permanecerão abertos e de seu Coração surgirão, ainda, as memoráveis palavras: – “Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei”.


“Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim que sou manso e humilde de coração e achareis descanso para as vossas almas, porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve”. –...“Tenta solevar um pouco o pesado carma do mundo. Presta teu auxílio às poucas mãos fortes que impedem os poderes das trevas de obterem uma vitória completa”.


Luiz Antônio Millecco - O Canto da Vida