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CIRCULANDO ANO 14 NÚMERO 402

JORNAL-LABORATÓRIO DO CURSO DE JORNALISMO DA UNIVALE - NOVEMBRO/DEZEMBRO DE 2012

DISTRIBUIÇÃO GRATUITA

HOMOSSEXUALIDADE

Quem respeita e sabe conviver com a diferença?

Google Imagens

HOMOSSEXUALIDADE

Em pleno século XXI, com todos os avanços tecnológicos, acesso ampliado à informação, novos espaços e opções de estar e se orientar no mundo, será mesmo que a sociedade respeita a escolha de cada pessoa de forma tranquila e verdadeira? Ou existe o que podemos chamar de preconceito velado, aquele em que da “boca pra fora” se diz que respeita, aceita e que não vê problemas em conviver com essa realidade até que ela esteja bem próxima, dentro de casa? Interessadas em compreender como os homossexuais, seus familiares e amigos sofrem e lidam com o preconceito, as alunas Aminy Anny Gusmão e Rinara Brasileiro Puppo, do 6º período de Jornalismo, se dedicaram a diversas leituras sobre o assunto e entrevistaram pessoas que enfrentam diariamente a incompreensão e intolerância da sociedade. As alunas-repórteres ouviram também especialistas da psicologia e da teologia para entender como essas áreas do conhecimento interpretam a questão. Confira a reportagem completa nas Páginas 6 e 7.

Mídia e infância, uma Interação com a comunidade combinação preocupante CURSO DE JORNALISMO

Para aplicar os conhecimentos teóricos apreendidos na disciplina de Jornalismo Comunitário, graduandos do 6º período de Jornalismo tiveram a oportunidade de vivenciar outras realidades e experimentar novos processos comunicativos. A atividade beneficiou as comunidades do Morro do Carapina, Associação Homens do Amanhã (AHAMAN), Associação Rio Limpo e Escola Estadual Dona Arabela de Almeida Costa. Cientes da contribuição e responsabilidade social do jornalismo comunitário para a transformação e fortalecimento dos processos democráticos, os universitários pensam em continuar a dar assistência técnica às comunidades beneficiadas. Página 8

Esporte para ficar longe das drogas

Página 8

OPINIÃO

Quando a tecnologia não pode substituir antigos hábitos

Página 2

Arquivo PMMG/GV

O esforço dos governos, da iniciativa privada e de organizações não-governamentais para que crianças e adolescentes não se envolvam com o mundo das drogas é intenso. A preocupação dessas instituições converge para uma realidade atestada no Mapa da Violência, publicado em 2010. No estudo, Minas Gerais ocupou o 20º lugar. No mesmo ano, Governador Valadares ficou em 67º lugar em todo o país. No intuito de modificar essa posição negativa conquistada pela cidade, a Polícia Militar de Governador Valadares investe em programas de prevenção voltados para crianças e adolescentes em idade escolar. Conheça quatro importantes projetos desenvolvidos na cidade que têm atingido bons resultados por meio da prática de esportes como futebol, vôlei, judô e basquete. Páginas 4 e 5 O projeto Judô Legal, da Polícia Militar, atende 40 crianças e adolescentes com idade entre 9 e 14 anos


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Arquivo pessoal

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OPINIÃO

CRÔNICA

Quando a tecnologia não pode substituir antigos hábitos JOSÉ ILTON DE ALMEIDA*

Há situações em que nem a mais avançada das tecnologias funciona ou pode substituir algumas pequenas coisas que ainda fazem parte de nosso cotidiano e das quais não abrimos mão como, por exemplo, ler o jornal logo pela manhã. Imagine a seguinte situação: alguém se levanta num domingo de manhã e se depara sozinho consigo mesmo, numa casa totalmente vazia (saiu todo mundo e não pergunte pra onde que eu não sei). Tudo na mais absoluta tranquilidade, um silêncio que dá para sentir os próprios batimentos cardíacos, do contrário ele já poderia estar morto. Enfim, uma paz que há muito não se percebia naquele tumultuado, movimentado lar. Nosso amigo (ou amiga) passa a mão no jornal e começa a ler (se for homem, começa pelo Caderno de Esportes ou Economia, mulher procura logo o Caderno de Beleza ou as colunas sociais/fofoca).

De repente, sem nenhum aviso e o mínimo de consideração bate uma tremenda, avassaladora dor de barriga, daquelas que o banheiro parece que não chega nunca e ele (ou ela) sai numa correria tão louca que nem o Rubinho Barrichello, nos seus melhores dias, conseguiria ultrapassar. Aliviado, nosso corredor maluco, digo personagem, para nos boxes, ou melhor, no trono e, sem interromper a leitura do jornal, começa a se aliviar a consciência, tão aliviado que até assobiava (antes que alguém me corrija, assoviava também está correto). De repente, no meio da diversão, digo, do cumprimento do dever, resolve olhar pros lados, à procura de papel higiênico e... Cadêêêê o papeeeeeel?! Não estava lá, no lugar de costume. Procura nos armários e nada... Terrível constatação: alguém tinha acabado com o papel e não havia colocado outro no lugar (isso acontece com muita frequência). Ele (ou ela)

parou, olhando pro jornal e pensando: e agora, o que fazer? Cinco segundos pra alguém adivinhar. Um, dois e... Usou o jornal, é claro! E logo na página em que o Cruzeiro goleava o Galo pelo final do Brasileirão. Até aí tudo bem. Muita gente pode até não confessar, mas já usou jornal pelo menos uma vez na vida. Se não usou ainda pode vir a usar. Mas já pensou se em vez de levar o jornal para o seu momento de lazer, ele tivesse resolvido levar um notebook (ou tablet) ou quaisquer dessas miniaturas tecnológicas para navegar na internet? Imaginando situações assim, como essa, é que eu penso que o computador ainda não pode substituir um jornal de papel. Pelo menos não tão cedo... Alguém aí pode me trazer o papeeeeel, por favor? * Graduado em Letras pela Univale

O Jornal-Laboratório Circulando é uma publicação bimestral do Curso de Comunicação Social - Jornalismo da Faculdade de Artes e Comunicação (FAC). Fundação Percival Farquhar Presidente Francisco Sérgio Silvestre   Universidade Vale do Rio Doce Reitora Profa. Mylene Quintela Lucca   Coordenador do Curso de Jornalismo Prof. Pedro Lucca Neto   Editora e Jornalista Responsável Prof a. Fernanda de Melo Felipe da Silva (MG11497/JP) Editoração Eletrônica Ana Carolina Carvalho e Victor Augusto Fernandes Pigoretti (Alunos do 4º Período de Design Gráfico/Univale)   Impressão / Tiragem Gráfica Unidos / 500 exemplares Redação Laboratório de Jornalismo Carlos Olavo da Cunha Pereira (LabJor) Rua Israel Pinheiro, 2.000, Bairro Universitário - Campus Antônio Rodrigues Coelho - Edifício Pioneiros, Sala 4 - Governador Valadares/ Minas Gerais - CEP: 35.020-220. Contatos: (33) 3279-5956 / labjor@univale.br e circulando@univale.br

RESENHA

Vestindo a missão de ensinar EDMARA LÚCIA PEREIRA DO NASCIMENTO* / 1O PERÍODO DE PEDAGOGIA Google Imagens

O espectador ao se deparar com o título da obra pressupõe algo que ultrapasse o espaço físico escolar. Porém, mais do que isso, a história do filme “Além da Sala de Aula” apresenta a professora Stacy Bess e seus alunos de um abrigo de sem-tetos, revelando uma ação educativa que consegue se aliar a uma atitude humana: é a visão solidária indo além do papel profissional. E, verdadeiramente, arriscar-se nos caminhos da educação exige dos profissionais uma postura altamente cuidadosa e preparada para observar os problemas que podem influenciar no desempenho de cada estudante. Sob um roteiro marcado por obstáculos, a história se inicia com a indicação da senhora Bess a uma escola desconhecida – a educadora já havia enfrentado uma dificuldade, pois enquanto estava na universidade engravidou, atrasando a conclusão do curso. Chegando ao cenário tão idealizado pela professora, fazendo alusão às expectativas que os novos educadores criam em si, ela é golpeada por um local nada propício para educar: um abrigo repleto de problemas éticos, estéticos, econômicos e penando o olhar do Estado. Se o espectador pensa que o trabalho da jovem termina ao ver tamanha discrepância com os sonhos ingênuos de

professora, se engana. Bess inicia uma emocionante batalha para o reconhecimento daquela “escola sem nome”. Começa navegando o contexto daquelas crianças da quarta série, traz alimento para matar a fome de conhecimento de olhares tão restritos em relação às possibilidades do mundo. Chega a catar os piolhos que impedem a entrega total daqueles seres ao aprendizado, talvez, metaforicamente, fazendo alusão aos problemas que cada um de seus alunos levava para dentro da sala de aula. Dessa forma, a mestra ganha a confiança dos pais dos alunos, e, principalmente, o carinho e admiração das crianças que eram acostumadas a gritos histéricos e descaso das autoridades. A jovem traz cor aos sonhos abafados de todos os membros do abrigo, pintando salas sujas regadas pela marginalidade. Disponibiliza a possibilidade da aprendizagem de música de diferentes gêneros. Ensina palavras bonitas a mentes acostumadas a ouvir palavras feias. E, acima de tudo, consegue evidenciar aquele espaço ao olhar do Estado, mostrando que aquelas crianças existiam e tinham direito à educação de qualidade. A história tem um desfecho emocionante que mostra o reconhecimento do verdadeiro trabalho de um professor que consegue ir além da sala de aula.

Cena do filme “Além da Sala de Aula”, lançado em 2011 e estrelado pela atriz canadense Emily VanCamp

A história tem um desfecho emocionante que mostra o reconhecimento do verdadeiro trabalho de um professor que consegue ir além da sala de aula.

* Resenha produzida para a disciplina Comunicação Oral e Escrita, ministrada pela professora Elisângela Rodrigues Andrade Vieira Helal.


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SAÚDE

Plantas que curam Lillian Caumo

Boldo, camomila, macaé, manjericão, arnica e erva cidreira são apenas alguns dos diversos medicamentos naturais existentes, também conhecidos como medicamentos caseiros

A aposentada Maria das Graças nem se lembra da última vez que precisou recorrer a uma farmácia

LILLIAN CAUMO E YURI MARCONES REPÓRTERES

Não trata-se de meras flores para enfeitar o ambiente, são plantas com poder de cura. É o que dizem as pessoas que recorrem à medicina alternativa. Em Governador Valadares é possível encontrar vários especialistas que se dedicam a estudos voltados para as plantas com capacidade de abrandar e até mesmo curar diversos tipos de doenças. Aos 68 anos, a aposentada Maria das Graças Andrade cultiva no quintal de casa uma verdadeira horta medicinal. “Faz muito tempo que eu recorro à medicina alternativa, é uma tradição familiar. Meus bisavôs utilizavam esse recurso, e até meu avô que foi homeopata”, comenta. Com tanta variedade no quintal de casa, é difícil ouvir de Dona Maria que ela precisou buscar na farmácia determinado medicamento. “Aqui em casa eu tenho um pouco de tudo. Boldo, macaé que são indicados para dores no estômago; camomila e manjericão utilizados como calmante; erva cidreira santa, também conhecida como capim cidreira, entre outros”, anima-se. O terapeuta naturalista José Rodrigues de Oliveira, conhecido popularmente por “Zé Raizeiro”, comercializa produtos naturais há, aproximadamente, 40 anos. Seu comércio, localizado no Centro de Governador Valadares, é uma verdadeira farmácia natural com espécies vindas de várias partes do Brasil e do mundo. Segundo ele, a vocação e o desejo de saber mais sobre as plantas curandeiras vêm de família; por isso, tamanha dedicação. “Recentemente, nós realizamos o 14º Seminário dos Terapeutas Naturalistas do Brasil, com a participação de diversas pessoas de vários estados e de cinco países. O objetivo foi discutir a cultura humana e

os recursos naturais,” salienta. Gonçalo Dantas da Cruz, também terapeuta naturalista, se dedica ao estudo da medicina alternativa. O tratamento oferecido em sua clínica visa combater, principalmente, o estresse que vem abatendo grande parte da população brasileira neste século. “A maioria das doenças vem do estresse e da ansiedade. O mundo está doente, os hospitais estão superlotados e a terapia natural é uma saída para os que buscam saúde”, revela.

A professora Ivana Cristina Ferreira Santos, bióloga, botânica e doutora em plantas e fisiologia vegetal da Universidade Vale do Rio Doce (Univale), revela que, atualmente, a academia busca reconstituir projetos e retomar estudos voltados para o campo da medicina alternativa. “No ano de 1998 criamos o primeiro grupo de projetos de pesquisa, o ‘Bio Planta’. Esse grupo começou a estudar questões voltadas para as plantas medicinais em toda a cidade e região. Fizemos levantamentos, entrevistas com moradores de cidades vizinhas, curandeiros e pessoas tradicionalmente conhecidas por populares que buscam tratamentos naturais”.

A maioria das doenças vem do estresse e da ansiedade. O mundo está doente, os hospitais estão superlotados e a terapia natural é uma saída para os que buscam saúde. Gonçalo Dantas da Cruz Terapeuta naturalista

Lillian Caumo

Entendimento dos alopatas A clínica geral Marines Rodrigues acredita que é possível obter a cura utilizando os recursos oferecidos pela medicina alternativa. Garante que já indicou a seus pacientes esse tipo de tratamento, porém, alerta sobre os riscos se mau utilizado. “É preciso tomar cuidado quanto a superdosagens e certificar-se de que a medicação foi prescrita por um médico da área, observar a origem e a qualidade dessas medicações. Todos os pacientes que necessitam de um tratamento com a medicina alternativa, ou que já fazem o uso, devem sempre seguir a orientação do seu médico e consultar-se periodicamente”.

Prática e ciência A Associação de Saúde Alternativa (ASA) atua em Governador Valadares há cerca de 20 anos e trabalha com variados tipos de tratamentos naturalistas. Entre os mais procurados estão a geoterapia e a fitoterapia. A geoterapia é um tratamento natural com argila. O produto é aplicado em todo o corpo que fica em repouso por cerca de duas horas com o auxílio de uma música apropriada. Já a fitoterapia é um tratamento a base de produtos naturais como a multimistura, xaropes, shakes, pomadas, ervas para banhos, entre outros.

Há 40 anos, o terapeuta naturalista Zé Raizeiro comercializa produtos naturais brasileiros e importados

Conheça algumas plantas medicinais e suas funções ARNICA – é uma planta utilizada NONI – é uma fruta que possui a como antiinflamatório no caso de xeronina, um alcalóide existente em contusões ou hematomas externos. todas as células dos seres vivos, estimula o sistema imunológico. Auxilia GENGIBRE – é um alimento que no controle da obesidade, impede o aumenta a temperatura do corpo, crescimento dos tecidos malignos, obrigando o organismo a gastar proporciona bem-estar e ajuda a dimais energia, acelerando o metabo- minuir o estresse. lismo e queimando a gordura. CHIA – é um grão com mais proGINSENG – é um dos fitoterápicos priedades do que a linhaça. Tem mais utilizados no mundo. Conheci- ômega-3, proteínas, fibras, substânda como estimulador imunológico, cias antioxidantes e minerais. Ela estimulante mental, protetor do co- é utilizada para inúmeras doenças ração aliviando o estresse. como a obesidade e tumores.


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CIDADANIA

Drogas se combatem com esporte O envolvimento de crianças e adolescentes com o mundo das drogas é uma procupação constante dos governos, da iniciativa privada e da sociedade civil. Ações como o projeto Turmalina, Bom de Bola, Bom de Escola, Segundo Tempo e Judô Legal são desenvolvidas há alguns anos em Governador Valadares no intuito de modificar essa triste realidade

/GV FOTOS - Arquivo PMMG

DENISE FERRARI E PRISCILLA PEREIRA 6º PERÍODO DE JORNALISMO

O número de crianças e adolescentes inseridos na violência e nas drogas tem preocupado a população brasileira. Em 2010, Minas Gerais ocupou o 20º lugar no Mapa da Violência, estudos feitos pela Unesco, juntamente com a Rede de Informação Tecnológica Latino-Americana (RITLA), com o Instituto Sangari, e com apoio do Ministério da Saúde e Ministério da Justiça. No mesmo ano, Governador Valadares ficou em 67º lugar em todo o país. Para prevenir que este número cresça, inúmeros projetos sociais são realizados no Brasil, e aqui na cidade não é diferente. O esporte faz parte de alguns projetos sociais mais praticados por crianças e adolescentes que vivem em áreas vulneráveis à violência e drogas. O Bom de Bola, Bom de Escola, Segundo Tempo, Judô Legal e Turmalina são alguns dos projetos realizados em Governador Valadares que têm obtido resultados. Há 10 anos, a Polícia Militar de Governador Valadares investe em programas de prevenção voltados para crianças em idade escolar. O Bom de Bola, Bom de Escola, criado há 8 anos, é um deles. Segundo o tenente da 44ª Cia da Polícia Militar, Tiago Emanuel de Freitas, o icipantes com idade entre 9 e 14 anos part 40 de aten GV, de ar projeto foi criado por causa da inserção, cada vez mais cedo de crianMilit ia Políc O projeto Judô Legal, da ças na criminalidade e no uso de drogas. É realizado em parceria com as escolas públicas e tem como público crianças que residem em locais vulneráveis à criminalidade, às drogas e apresentam um histórico familiar com alto índice de violência. “O programa tem o intuito de prevenir que crianças sejam aliciadas pela criminalidade. Existem até casos que conseguimos tirar adolescentes das drogas através deste projeto. São crianças e adolescentes entre 4 e 15 anos. Após essa idade tentamos encaminhá-los para cursos profissionalizantes no SENAC E SESC/SENAT”, explica. O conceito Bom de Bola, Bom de Escola conjuga bom rendimento escolar e bom comportamento com a prática desportiva, principalmente o futebol. “Já alcançamos resultados positivos como a redução da evasão escolar e a melhora do desempenho escolar dos alunos. Eram registrados normalmente dois homicídios por ano, e até agora (novembro), não foi registrado nenhum homicídio no bairro São Tarcísio. O tráfico de drogas com participação de crianças e adolescentes também diminuiu consideravelmente” comemora. Segundo Freitas, o projeto se estendeu em municípios vizinhos de Governador Valadares, como Central de Minas, Conselheiro Pena, Engenheiro Caldas, Itanhomi, São João do Manteninha, São Félix de Minas, Mathias Lobato, Mantena, Santa Rita do Itueto e Tumiritinga, Além das atividades esportivas, culturais e de lazer, crianças e adolescentes recebem ensinamentos para a vida beneficiando mais de 750 crianças. Já os desafios para implantar o Bom de Bola, Bom de Escola, de acordo com o tenente, foram principalmente, a dificuldade em encontrar parceiros (iniciativa privada) para apoio às atividades desenvolvidas e também de selecionar os alunos, dando prioridade àqueles inseridos em situação de risco, já que a demanda inicial foi bem maior que a capacidade de atendimento. “Manter o projeto não é tarefa fácil. Temos que fazer a manutenção dos uniformes. Os equipamentos utilizados nos treinamentos que dependem sempre de apoio da iniciativa privada, já que não são destinadas verbas públicas específicas para os projetos. E é claro, a conscientização dos pais sobre a importância e a responsabilidade da participação deles em conjunto com as atividades desenvolvidas pelo projeto”, afirma. O office boy Erickson Raydan, 16 anos, é ex-aluno do programa Bom de Bola, Bom de Escola. Ele lamenta que saiu do projeto para trabalhar. “Meus pais se separaram e não gosto dos companheiros deles, por isso, preferi trabalhar e ter meu próprio dinheiro e morar com a minha avó. Mas todos os dias passo aqui para rever meus amigos”, frisa. Erickson conta que ficava muito à toa e não aguentava ver os colegas oferecer drogas pra ele. “O tempo todo eles ficam oferecendo drogas aqui no bairro São Tarcísio. Sempre tive minha cabeça no lugar e não deixei me levar por eles”, assegura. O office boy acha engraçado ao lembrar que não gostava de policiais. ões de judô tiç pe m co as rs ve Depois que passou a conviver com eles na época que participava do programa, s di dos, são realizada olescentes motiva ad e s ça ian cr viu que estava enganado. “Gosto da maneira como a polícia ministra as aulas, as r Para mante e sei que ela se preocupa com a gente. Mesmo não estando mais no programa, tento trazer amigos para cá. Tenho até um que tem 15 anos e está afundado nas drogas. Mas não depende só de mim, depende dele também em querer mudar de vida”, avalia.


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CIDADANIA

A secretária Jacimanda Rodrigues de Barros faz questão de trazer o filho de 7 anos, e esperar até o final do treino para levá-lo pra casa. Ela vê o projeto como um futuro para a criança. “Não quero vê-lo nas drogas como acontece com muitos adolescentes. Vejo no programa um suporte para fazer com que meu filho entenda a importância de ser um homem sério e honesto”. A secretária explica que sempre conversa com o filho sobre o que é certo e errado. “Ele tem pouca idade, mas a cabecinha dele é muito evoluída. Entende tudo o que falo e ainda me questiona. Aqui no projeto ele preenche o horário vago com coisas boas e aprende a ser, quem sabe, um futuro jogador de futebol”.

Dumont II. A equipe é formada por 23 pessoas, incluindo educadores físicos, um técnico administrativo e uma coordenadora pedagógica,” explica. “Graças a essas parcerias é possível colocar em prática esse projeto tão importante”, enfatiza a coordenadora. Ela esclarece que quem financia o projeto é o Ministério do Esporte que repassou uma verba de R$ 595 mil para funcionar durante um ano. “Em contrapartida, o município arca com materiais necessários para a execução das atividades como bolas, traves, entre outros”. Para Lugão, “o maior desafio do projeto é mostrar para os participantes e seus familiares que o esporte vai além do simples exercitar, está ligado ao meio ambiente, à cultura, à arte, entre outros”, salienta. O Bom de Bola, Bom de Escola vem dando resultados e já se estendeu a municípios vizinhos de GV

O tempo todo eles ficam oferecendo drogas aqui no bairro São Tarcísio. Sempre tive minha cabeça no lugar e não deixei me levar por eles.

Projeto Turmalina

paixão pelo projeto, pois através dele O presidente da Associação do muitas crianças e adolescentes são salBairro Turmalina, Levi Vieira, tomou vas. “Moro perto de locais perigosos e a iniciativa de criar um projeto, ainda fico muito preocupada com os meus sem nome, que propõe atividades es- filhos, mas quando estão no projeto portivas para crianças e adolescentes me sinto aliviada, porque sei que lá que moram no bairro e que estão vul- eles estão seguros e são bem cuidaneráveis à criminalidade. O projeto foi dos”. Ela faz questão de frisar, que decriado há 6 anos e funciona no espaço pois que o filho começou a frequentar comunitário Centro Poliesportivo Tur- o projeto, está mais calmo e tem tirado ótimas notas no colégio. “A própria malina (CPT). Erickson Raydan, 16 anos Levi explica que a iniciativa par- diretora do colégio só tem elogios. Ela Oficce boy tiu da preocupação com as crianças diz que ele está bem melhor e que tem que moram no bairro, considerado surpreendido muito com suas notas e um dos mais perigosos em relação ao seu comportamento.” enfatiza. alto índice de violência. “Vivi durante Judô Legal 7 anos envolvido no mundo das dro- Projeto Segundo Tempo O programa Judô Legal foi cria- gas. Depois de muito sofrer, ser preO Projeto Segundo Tempo é um do em julho de 2012 e objetiva tirar so duas vezes, tive a oportunidade de programa nacional de iniciativa do crianças e adolescentes da ociosidade me recuperar com a ajuda de amigos e Ministério do Esporte em parceria por meio de atividades esportivas, cul- da minha mãe. Percebi que as drogas com as prefeituras. Em Governador turais e de lazer. Também acompanha não eram para mim, por isso não que- Valadares, foi implantado em 2009 e a frequência e o rendimento escolar. ro que aconteça o mesmo com essas seu funcionamento efetivo foi iniciaParticipam 40 crianças, com idade en- crianças”, relata. do em julho deste ano. Participam certre 9 e 14 anos, moradoras dos bairCerca de 150 de crianças estão inse- ca de 1.000 crianças com idade entre ros Santa Paula e Santa Terezinha. ridas no projeto e praticam vôlei, bas- 6 e 17 anos. Tem como parceiros a Polícia Militar quete e futebol. O programa acontece A coordenadora geral do Segundo de Governador Valadares e o Conselho de segunda a sexta-feira das 15h às Tempo no município, Renata Lugão, Comunitário de Segurança Preventiva (CONSEP/GV). As atividades acontecem toda quinO maior desafio do projeto é mostrar para os ta e sexta-feira, com duração de uma participantes e seus familiares que o esporte hora e meia. “As crianças vão para a 44ª Cia no bairro São Paulo e de lá vai além do simples exercitar, está ligado ao são direcionadas ao quartel da PM, no meio ambiente, à cultura, à arte, entre outros. bairro de Lourdes, onde o tatame foi Renata Lugão instalado”, explica o cabo da 44ª Cia Coordenadora do Segundo Tempo da Polícia Militar, Antuniere Vilela, que também é faixa preta em judô. Segundo Vilela, são realizados treinos e palestras para mostrar o que o 19h, onde a criançada troca o horário explica que o projeto funciona três veenvolvimento com o mundo do crime livre por práticas esportivas. zes por semana, é dividido em grupos O adolescente L.S.S., 14 anos, par- e conta com três horas de pleno treipode causar. Assim, as crianças e adolescentes aprendem como enfrentar a ticipa do projeto há 3 anos e diz que namento físico e esporte. “São 10 núvida e sair das possíveis situações de foi uma oportunidade para não se en- cleos divididos nos seguintes locais: risco. “Levamos as crianças periodi- volver com o mundo das drogas. “Te- SESC, Praça de Esportes, Praça da camente a passeios; elas participam nho vários amigos que usam drogas, Paz, no bairro São Paulo, Lar Fabiano também de campeonato de judô. Tudo alguns já até morreram. Semana pas- de Cristo, no São Cristóvão, Instituto para se sentirem cada vez mais moti- sada, por exemplo, um amigo meu, de Educacional Fraternidade Cristã, no vadas no projeto e na vida educacional 16 anos, foi morto a tiros porque esta- Altinópolis, Associação Samuel Doe pessoal”, assegura. Para o cabo, o en- va devendo dinheiro a um traficante. mingues Gomes (ASDOG), no Nosvolvimento precoce de crianças e ado- Conversei com ele várias vezes para sa Senhora das Graças, Grupo Gente lescentes no crime é muito comum. participar junto comigo do projeto. Nova (GGN), no Santa Helena, Escola “Muitas famílias são desestruturadas Ele até foi uma vez, mas não voltou Municipal Professora Laura Fabri, no e isso afeta as crianças, fazendo com mais”, lamenta. Jardim Ipê, Escola Municipal Silas A dona de casa Maria Sousa da Crespo, no Vila dos Montes, e Escola que se envolvam com o mundo da criSilva, 47 anos, disse que tem a maior Municipal Chico Mendes, no Santos minalidade”, salienta.

Vivi durante 7 anos envolvido no mundo das drogas. Percebi que as drogas não eram para mim, por isso não quero que aconteça o mesmo com essas crianças. Levi Vieira Idealizador do Projeto Turmalina

Apoio psicológico Para a psicóloga Tandrécia Cristina de Oliveira, os projetos sociais que envolvem o esporte são muito importantes, principalmente no âmbito preventivo. “A violência já é uma realidade na vida desses adolescentes. Muitos estão vulneráveis e já com dependência química além dos conflitos com a lei, por isso, estes projetos tem uma influência significativa”, acredita. Segundo Tandrécia, observa-se também um desinteresse deles pela escola. Certa agressividade e intolerância às normas, quando moram em locais vulneráveis a drogas e violência. ”Por isso, quanto maior a vulnerabilidade é possível ter maior resistência ao envolvimento nestes projetos. Contudo, várias estratégias podem ser elaboradas pelos profissionais para melhorar a adesão ao projeto. Estratégias que devem levar em conta o contexto desses adolescentes, as dificuldades sociais que enfrentam e procurar fortalecer os laços afetivos entre suas famílias favorecendo um convívio familiar e social mais sadio”, assegura. Tandrécia acrescenta que parcerias entre o projeto e os diversos atores do sistema de garantia de direitos das crianças e adolescentes também são bem vindas. Ela diz ainda que a contribuição do psicólogo é fundamental para esses tipos de projetos e seus participantes. “O profissional atuará junto não só dos participantes, mas também buscando fortalecer os vínculos familiares e sociais, construindo parcerias entre as escolas e os demais profissionais envolvidos nos projetos direta ou indiretamente”, finaliza.


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SOCIEDADE

HOMOSSEXUALIDADE

preconceito velado persiste

Arquivo pessoal

a pessoa sentirá prazer com homens ou mulheres, independente do seu próprio sexo. “Hoje em dia já se reconhece que a orientação sexual não se trata de uma simples escolha; o sujeito não opta em ser homossexual. A orientação sexual é constitutiva da subjetividade de cada um/a e esta não muda. E também que não há um ‘estilo de vida gay‘ , da mesma maneira que não há um ‘estilo de vida hétero’. É o corpo que diz onde sua libido sente prazer, e ele não tem esse controle”, afirma a psicóloga.

Preconceito no cotidiano Em pleno século XXI, com todos os avanços tecnológicos, acesso a informação, aceitação de espaços e opções, as pessoas respeitam a escolha de cada indivíduo de forma tranquila e verdadeira? Ou existe um preconceito velado, em que da “boca pra fora” se diz que respeita aceita e não há problemas em conviver com essa realidade, até que essa realidade esteja bem próxima, até mesmo dentro de casa? “Na minha casa, é claro que não se fala: ‘Ah! Que bacana!’. Não tem isso, mas respeitam!”, garante a analista de monitoria Marina Campos, 32 anos. Ela mora com sua namorada, a opePaula (à esquerda) e Marina moram juntas há seis meses. Para elas, revelar aos pais foi complicado, mas garantem que contam com o respeito dos familiares radora de telemarketing Paula Ramos, de 22, há seis meses. Relata que o desAMINY ANNY GUSMÃO E RINARA PUPPO Existe dentro de cada pessoa uma vimento da libido que passa pelas pertar do interesse pelo mesmo sexo é 6º PERÍODO DE JORNALISMO energia chamada libidinal, caracte- fases oral, anal, fálica e genital. Na complicado, porque primeiro a pessoa rizada pela psicanálise, como a ener- fase oral a criança sente todo seu tem que se aceitar e ver que isso não Brincar de boneca é coisa de meni- gia que impulsiona a vida. Apesar de prazer pela boca, tanto na amamen- é uma coisa estranha. “Eu comecei a na. Jogar bola é coisa de menino. Cer- ser psíquica, sua fonte é corporal. Ela tação quanto no ato de levar os ob- me perceber homossexual, por volta to? E quando os papéis se invertem? circula o corpo humano durante o jetos que tem acesso à boca. Depois, dos 16 anos, mas eu só fui me assuÉ cada vez mais comum ver crianças seu desenvolvimento, e nem mesmo essa energia circula pelo corpo pas- mir aos 24. Eu tive medo da reação da que não se encaixam no padrão deter- pessoas que vivem a castidade podem sando para a região anal, quando ela minha família e de estar trilhando um minado pela sociedade. Seria um si- escapar dela. As consideradas asse- descobre que pode reter ou expul- caminho errado, só assumi quando já nal de homossexualidade ou a criança xuadas, entretanto, canalizam essa sar fezes. Há também a fase fálica e, estava tendo um relacionamento séé apenas diferente das demais? Muito energia em outro foco, como o traba- por fim, a pessoa descobre o prazer rio”, conclui. Esse medo de assumir para as fase fala em autenticidade, mas até que lho ou estudos, por exemplo. A libido através dos órgãos genitais. Durante ponto é possível ser você mesmo, sem segundo Freud, não está relaciona- muitos anos, acreditava-se ser neste mílias é comum entre os homossexuser julgado pelos outros? da somente com a sexualidade, mas momento que se fazia a escolha ob- ais. Mas como contar à família? Há A relação homoafetiva existe há também está presente em outras áre- jetal, quando ela direciona o prazer momento ideal? É melhor guardar semuito tempo, embora só agora as pes- as da vida, como nas atividades cul- no objeto de afeto - sexo masculino gredo? De acordo com a psicóloga, exissoas estejam mais abertas a falar so- turais, caracterizadas pela sublimação ou feminino - e o elege como objeto tem várias vertentes para se descobre o assunto. Por diversas influências da energia libidinosa. de amor. religiosas, morais e sociais, as pessoas No processo de desenvolvimento De acordo com a psicóloga Sâmara brir a questão da homossexualidade. que se relacionavam com alguém do infantil é onde acontece o desenvol- Nick, essa escolha que se faz define se Por um tempo acreditava-se no fator “imitação”, por exemplo, meninos mesmo sexo eram tidas como possuíque eram criados em ambientes fedas por demônios, isso era totalmente mininos, repetiam os modos e gesavesso aos costumes da época. Com o tos das mulheres, por isso as escolas passar do tempo e a evolução da ciidentificavam essas crianças com a ência, iniciaram-se os estudos sobre o Em 1985, a Associação Brasileira de Psicologia (ABP) foi seguida pelo linguagem de “tendência homossexucomportamento humano e pesquisaConselho Federal de Psicologia, que deixou de considerar a homossexual”. “No começo da minha profissão, dores passaram a investigar qual era alidade um desvio sexual e, em 1999, estabeleceu regras para a atuação via mais histórias de pais que levavam a “causa” da homossexualidade e se dos psicólogos em relação às questões de orientação sexual, declaranseus filhos com ‘tendência homossetinha “cura”, ou seja, era visto como do que “a homossexualidade não constitui doença, nem distúrbio e nem xual’ aos consultórios. Hoje, eu já esuma doença. Durante muito tempo o perversão” e que os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços cuto, frequentemente, os pais dizentermo “homossexualismo” era enconque proponham tratamento e/ou cura da homossexualidade. No dia 17 do: ‘Se for, eu vou amar do mesmo trado no Catálogo Internacional das de maio de 1990, a Assembleia-geral da Organização Mundial de Saúde jeito’”, explica Sâmara. Doenças, o CID, portanto era taxado (OMS) retirou a homossexualidade da sua lista de doenças mentais, a Diferente de Marina que foi aceita de doente aquele que se interessasse Classificação Internacional de Doenças (CID). e respeitada pela família, sua namopor pessoas do mesmo sexo.

Homossexualidade fora do CID


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rada Paula teve outra experiência. “Eu me assumi por volta dos 17 anos. Chegou num ponto que eu me questionei ‘como vou falar? ’ Foi um bom tempo agonizando essa dúvida. Primeiro contei para o meu irmão, com quem eu conversava de tudo, e numa discussão ele acabou contando para os meus pais. Foi aí que conversamos sobre isso, pouco a pouco. Eles até já vieram aqui em casa. Então, de certa forma, eles respeitam, mas não aceitam, porque na verdade nenhum pai aceita”, opina. “Lá em casa foi o meu pai quem demorou a aceitar, porque ele é extremamente apegado a mim. Ele me disse que o sonho dele era que eu lhe desse netos, entrasse na igreja com vestido de noiva, foi aí que eu expliquei para ele e esse momento me marcou”. Paula conta ainda que, nesta época, ela e a mãe fizeram terapia. “Foi um desgaste tanto para ela quanto para mim, porque eu não daria conta de ser o que ela e meu pai planejaram”.

Dialogar é a saída Quando a sociedade passa a falar abertamente sobre o assunto, as pessoas têm mais liberdade de se posicionar. Não há dúvidas que ainda há muito o que se discutir, como a questão do preconceito contra a homossexualidade, por exemplo. Thais Tavares, 23 anos, supervisora de operações, que tem opção sexual diferente de Paula e Marina, divide um apartamento com o casal e acredita que o maior preconceito começa dentro de casa. “Quando as pessoas são aceitas pelos seus familiares, fica mais fácil lidar com o preconceito na rua”, acredita. “Há um ano em meio atrás sai com umas amigas para um bar conhecido na cidade. Estávamos na pista de

Arquivo pessoal

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SOCIEDADE

Entendimento religioso

O teólogo Thalles Contão explica que as religiões têm visões muito diferentes sobre a homossexualidade. Algumas celebram tal condição como uma característica necessária a devoção religiosa, como no caso dos shamans e algumas manifestações de religiões tribais e primitivas. Outras condenam totalmente, alegando ser esta uma manifestação espiritual negativa, associada à figura do mal. Por isto, “é muito difícil colocar qual seria a visão geral da religião sobre a homossexualidade, mas o fato é que, desde o início, a homossexualidade e a religião convivem, já que a condição homossexual faz parte da humanidade e a religião é talvez a prática mais humana dentre todos as outras”. A Bíblia, em suas duas partes (Novo e Antigo Testamento), tem como obPsicóloga Sâmara Nick - Cada vez mais os pais dizem: “Se for homossexual, vou amar do mesmo jeito” jetivo apresentar o que o cristianismo entende como “ideal de Deus” para o dança e o segurança, sem explicar o la. “Hoje eu percebo que já mudou homem. Esse ideal perpassa por todos porquê, veio grosseiramente dizendo muito, mas ainda há o que melhorar. os aspectos da vida humana, inclusive que não poderia dançar mulher com Tem que melhorar!”, intervém Mari- nos relacionamentos e fundamentalmulher e homem com homem. Sem na na conversa. “Existem pessoas que mente, certas práticas são justificadas entender e desconhecendo a norma pagam com a vida, simplesmente por como existentes desde o início da huda casa, fui agredida. Nunca pensei uma opção sexual, que cabe a cada manidade criada por Deus. que fosse passar por isso”, relata Pau- um defender a sua”, conclui. A religião cristã não nega a evolução cultural, mas evidentemente acredita numa origem criacionista. Logo, Lá em casa foi o meu pai quem demorou a Bíblia tem como o ideal para os relacionamentos humanos o casal heteaceitar, porque ele é extremamente apegado rossexual. “A Bíblia é um livro de prea mim. Ele me disse que o sonho dele era que tensões éticas. Então, ‘certo e errado’ está presente desde o início de seu coneu lhe desse netos, entrasse na igreja com teúdo. Contudo, deveríamos tomar cuivestido de noiva, foi aí que eu expliquei para dado, tanto os a favor, como os contra o texto bíblico, e levar em consideração o ele, e esse momento me marcou sentido maior do texto e compreendêPaula Ramos Operadora de telemarketing -lo como o todo que pretende.

“Eu me aceito e me respeito como sou!” POR AMANDA SILVA DOS SANTOS*

eu pensava ‘Nossa, não foi assim comigo! Será que é comigo ou o ‘Fulano’ que é ruim demais?’. Depois elas foram casando e tinham a vida sexual ativa, outras não eram casadas ainda, mas viviam da mesma forma e contavam. Mas comigo não era bacana. Eu me recordo que eu tive um namorado que era muito bacana, o Gustavo* (nome fictício). As meninas contavam dos namorados e eu tinha que contar dele, e pensava: ‘o Gustavo* tem algum problema’. Aí ele mesmo começou a perceber algumas coisas em mim, e ele me disse ‘É... você é um pouquinho diferente, mas é você quem tem que descobrir isso em você’. Uma vez fui pra Curitiba na casa de uma amiga, há 6 anos atrás, cheguei na casa dela que é lésbica e tem amigas lésbicas e eu conversava muito disso com ela, fiquei uma semana lá, e em um churrasco uma menina perguntou: ‘Você gosta de mulher? Você tem interesse ou já ficou com mulher?’, e eu respondi: ‘não, mas eu queria ficar’. Então ela me beijou e eu senti tudo aquilo que as minhas amigas falavam antes e que eu nunca tinha sentido. Aí eu fiquei em choque e senti que era isso mesmo que eu queria. Era muito longe, mas a gente namorou por 2 anos e, desde então, eu me respeito muito. Já namorei outras pessoas depois disso, outros homens e meninas também, mas hoje em dia me dou o respeito. Não tenho mais desejo de ficar com homens. Eu tenho certeza daquilo que eu quero, do que eu sou, e não acho que ainda é o momento de partilhar com a minha família, porque acredito que a minha família ainda não está preparada para essa certeza que eu tenho. Eu acho, também, que eles não vão me respeitar”.

“Eu já tive problema em falar da minha opção e muitas pessoas nunca mais falaram comigo. No trabalho, na igreja, algumas pessoas perceberam pelas minhas companhias, pelas festas que eu vou, pelas fotos que eu tiro, e se afastaram. Uma vez, comecei a conversar lá em casa, mas não quis levar adiante a conversa porque minha irmã já disse que se eu aparecer lá com alguém ela não conversa mais comigo. Então eu cheguei à conclusão que eu me respeito, me gosto dessa forma, mas não posso obrigá-las a me respeitar e me aceitar. Por mais que eu já tenha me relacionado com algumas pessoas, eu ainda não tive um relacionamento tão sólido a ponto de falar para minha família e sair de casa para morar com alguém. Minha família é toda evangélica como sempre fui. Percebi que me interessava por mulheres, quando me pegava olhando as meninas enquanto minhas amiguinhas olhavam os meninos. Eu achava estranho porque eu não conseguia olhar para os meninos. Enquanto uma falava ‘Fulano é bonito’, eu pensava ‘Nó! Que menino estranho!’. Aí eu olhava as meninas e pensava: ‘Ah! Essa é bonita’. Eu não pensava como um menino, mas não achava graça nos meninos. E pela religião a gente tinha que andar só de saia, e eu não gostava de usar saia. Aí eu ficava olhando as meninas de calça e ‘viajava’ mesmo. Chegou num certo momento, quando a gente cresceu, que as minhas amigas ficavam com meninos e depois elas contavam ‘nossa que legal’, aí eu acabava ficando também pra ver como é que era e as meninas contavam que foi bom e * Para preservar a identidade da fonte foi utilizado nesse depoimento um nome fictício.


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CURSO DE JORNALISMO

Alunos partilham saberes com a comunidade DA REDAÇÃO

Limpo Associação Rio

social Facebook tidade na rede en da ge pa n ) ■ Produto: Fa om/rio.limpo.9 ww.facebook.c w em el ív on Ferreira, n po de (Dis Carioca, E rs a si ás C : is ve sponsá ■ Alunos(as) re e Ronalt Lessa ciana Ferreira Lu li, el ab ar Sc Jéssica

Comunidade do Morro do Carapina

■ Produto: Blog “Carapin a em foco” (Disponível em www.carapinaemfoco.b logspot.com.br) ■ Alunos(as) responsáve is: Aminy Gusmão, Jai ro Taborda, Mari Fialho, Rin ara Puppo, Sônia Miran da e Thais Böhm

Responsabilidade social e cidadania. Essas são as palavras que definem a experiência vivida pelos alunos do 6º período de Jornalismo da Universidade Vale do Rio Doce ao experimentarem novos processos comunicativos junto a comunidades de Governador Valadares. Como proposta de trabalho avaliativo da disciplina Jornalismo Comunitário, ministrada pela Professora Fernanda de Melo Felipe da Silva, os universitários elaboraram para e com os grupos comunitários beneficiados novas ferramentas midiáticas para que os membros das comunidades possam se comunicar melhor com seus respectivos públicos. Envoltos pelo entusiasmo e a oportunidade de “dar voz e vez” a quem precisa, os graduandos promoveram a valorização da comunidade através de blogs, boletim informativo e uma página na rede social Facebook. Todas as etapas do trabalho foram desenvolvidas com a participação efetiva dos membros das respectivas comunidades. Confira ao lado as comunidades escolhidas pelos universitários bem como os produtos desenvolvidos como atividade de extensão do curso de Jornalismo.

Associaç ão Home ns do Am ■ Prod anhã (AH uto: Bo AMAN) letim in “AHAM forma AN e

tivo ele m Ação” trônico ■ Aluno intitulad s(as) res o p onsáveis Crityane : A d riano Fe Andrade lix, Alek , Paula M s Andra agali e S de, ônia Ma ria Mira nda

Dona Arabela scola Estadual

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de Almeida Co

isponível em ão Arabela” (D ex on “C g lo B ■ Produto: ot.com.br) arabela.blogsp ao na, ex on .c w w w ndrina Santa sáveis: Alexa on es, sp lv re ça s) on (a G os George ■ Alun a, m Li on ds i, E Denise Ferrar Priscilla Alves e Patrícia Brasil

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Mídia e infância, uma combinação preocupante RINARA PUPPO 6º PERÍODO DE JORNALISMO Cada vez mais a mídia dita moda e cria conceitos preestabelecidos e aceitos como padrão a ser seguido pela sociedade. Para lançar um produto, em muitos casos, basta fazer uso de estratégias midiáticas e, em um espaço curto de tempo, tudo toma conta das lojas e dos guarda-roupas dos adultos e também dos pequenos. O apelo sexual na publicidade, nas novelas, programas de auditório, jornais e em outras tantas produções midiáticas é uma constante e exibido de forma cada vez mais explícita. Nesse contexto, as influências são massivas e, muitas vezes, os maiores atingidos são as crianças que, para alguns especialistas, apresentam sinais preocupantes em relação ao desenvolvimento humano. Como resultado desse processo, as crianças estão cada vez mais mergulhadas no mundo dos adultos. Georgete Moufarreg Drumond, pedagoga da área de Educação Infantil, chama a atenção dos pais para algumas situações cotidianas. “Coreografias são reproduzidas por crianças com a aprovação dos pais ou responsáveis sendo consideradas ‘engraçadinhas e aceitá-

Coreografias são reproduzidas por crianças com a aprovação dos pais ou responsáveis sendo consideradas ‘engraçadinhas e aceitáveis’ onde a sexualidade é aguçada e a criança exposta a pedófilos atentos. Georgete Moufarreg Drummond Pedagoga

veis’ onde a sexualidade é aguçada e a criança exposta a pedófilos atentos. É preciso tomar cuidado, pois as crianças estão como sujeito de um mundo globalizado com modelo de adulto a elas imposto e permitido, sem que tenham a maturidade suficiente para entendê-lo”, conclui.

As emissoras de televisão, por exemplo, já há algum tempo dedicam boa parte da programação ao público infantil. Pesquisas realizadas atestam que crianças passam mais de quatro horas por dia diante da TV e que não limitam sua curiosidade aos programas infantis, assistem desde desenhos a reality shows. Vestir crianças como adultos é outra prática errada dos pais. Isso porque, como explica alguns especialistas, se acelera o processo de desenvolvimento infantil e “queima-se etapas”. A mãe de A. C. O, de sete anos conta que a filha já chegou a pedir sutians

de bojo, pois quer “valorizar os seios”. Para a mãe da menina, “no primeiro momento é engraçado, porém preocupante, já que, ela é uma criança que se porta como jovem”. Segundo a pedagoga da Secretaria Municipal de Educação de Governador Valadares, Rosany Brasileiro Vieira, “é preciso que os pais e profissionais atentem para as verdadeiras necessidades das crianças para que tenham um desenvolvimento pleno e sadio, oportunizando a elas o direito de viverem a infância de forma lúdica, prazerosa e que o brincar seja a sua principal preocupação”.


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