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Todo o conteúdo desse número pode ser acessado na webpage: http://www.alpendre.arq.br ou no Facebook da Revista Alpendre. Alem disso, a versão também está disponível para Ipad

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QUALQUER, QUASE, QUANDO…


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EDITORIAL Por Maria Júlia Barbieri Emprestamos de Ana Helena Amarante e seu brilhante texto Qualquerquasequando, publicado no livro O abecedário da criação filosófica, a inspiração para construir esse número da revista. Tendo a invenção da linguagem como pretexto para a reflexão filosófica, a autora nos provoca a buscar novas formas de expressão. No entanto, entendemos que nossa revista não pautou a invenção, no seu caráter inovador e original, mas antes, uma busca inventiva que é criada por qualquer coisa que quando nos atravessa nos modifica a ponto de criar uma quase existência. 4% 3LMNOP@% 4QRLSTUL% V% WX% RLUNYTNZ[% TLOLSM[QMNT[% RLQ[% #\ZQL[% TL% /LO]WNO@% T[% ZWUO[% TL% 4U]WNPLPWU@% L% .U^@SNOX[% T@% .#!:,C_% Z[X[% ULOWQP@T[% TL% WX% RU[`LP[% TL% NSNZN@ab[% ZNLSPcdNZ@% ]WL% LSM[QML% T[ZLSPLO%L%TNOZLSPLO%T@%!SOPNPWNab[ZZ;%

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A exemplo disso: bolhas, nuvens e céus ilustram a Alpendre número 3. Por acaso, e porque o acaso é sempre um qualquerquasequando, as propriedades que caracterizam esses estados de existência (bolha, nuvem e céu) são dotadas do transitivo, do fugidio e do imensurável. A bolha nos instala no momento antes do estouro tanto quanto as paisagens desfolhadas nos convidam a ser outono; a nuvem nos provoca entre paisagens flutuantes e o céu nos incita a mensurar o infinito. E é assim que, embalados pela leveza de 1 miligrama, criamos esse número. Portanto, caro leitor, quando um drops qualquer cruzar seu caminho, saboreie-o devagar, e quando algo der errado nessa deriva, não se preocupe pois temos também um Tônico milagroso para males contemporâneos.

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SUMÁRIO editorial

02

Desenho. Eduardo Marins

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QUALQUER

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Drops . Expogram / Fotografias de Gavin Hammond

05

Entrevista. Fernando Fuão

06

Alpendre Arte. Totem. João Agrelli

13

Tônico Milagroso para Males Contemporâneos. João Agrelli

16

Drops . Klaus Pichler / Paris Vs. NY

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QUASE

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Drops . Sissy’s Magical Ponycorn / Vitra Telefonplan

22

O que é um Parque Fragilizado? Aline Raquel Livorati

23

Caixa de Luz: micro revista de fotografia. André Teruya

31

Drops . Pakayla Biehn / Demersal

34

QUANDO

35

Drops . Alice por Salvador Dali / Inside Outside

36

A Liberdade entre a Educação e a Arquitetura: Fuji Kindergarten. Lucas Kaique Dias

37

Cartografias Aéreas / Contos de Nada / Paisagens Des Folhadas. Jurandy Valença

41

Casa que me Fala. Mariana Biork

50

O Arquiteto da Utópica Civilização Verde. Ludimilia Cristina

52

Drops . Objetos que Choram / Última Refeição

55

Desenho. Eduardo Marins

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QUALQUER…

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Eduardo Marins, 2012

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EXPOGRAM por Mariana Biork

Encontrar poesia na rotina de São Paulo não é tarefa das mais fáceis. A cidade é cinza, arquitetonicamente fragmentada e marcada pelo trânsito intenso. Foi com essa premissa que o aplicativo para iPhone Instagram tornou-se imensamente popular desde o seu lançamento, em outubro de 2010. São milhares de pessoas fotografando com seus smartphones e encontrando belezas discretas, não só em São Paulo, mas pelo mundo afora. Observando esse fenômeno, as fotógrafas Érika Garrido e Renata Chebel se uniram à jornalista Luciana Obniski para organizar uma exposição com fotos feitas pelo Instagram. O projeto foi batizado de Expogram e, além de destacar os fotógrafos do dia a dia, a ideia é promover um encontro entre os usuários do aplicativo no Brasil. Nas palavras de Luciana Obniski, “o projeto surgiu da nossa vontade de tornar o Instagram mais relevante, de dar status de arte ao retrato cotidiano das pessoas. Achamos que as fotos do Instagram têm uma poética natural, sem esforço, e queríamos, com a exposição, premiar esse olhar especial que as pessoas têm e talvez não soubessem que tinham, porque não existia o exercício de fotografar o cotidiano”, explica a Jornalista.

UM DROPS QUALQUER… FOTOGRAFIAS DE GAVIN HAMMOND por Lucas Dias

Londres é conhecida internacionalmente pelo seu tempo úmido e chuvoso. As características climáticas da capital britânica agora viraram material para uma bela série de fotografias de Gavin Hammond. O fotógrafo é um desses caras que anda olhando para o chão e, desse jeito, descobriu essa maneira diferente de olhar para Londres e perceber, de um novo modo, suas belezas arquitetônicas. As fotos são tiradas com uma Lomo LCA+ e não são tratadas em nenhum programa de edição. A série London in Puddles é sobre isso: Londres vista através das poças d’água formadas em suas ruas. Hammond pretende, ainda, fazer cartões postais e livros a partir das imagens.

Site: http://gavinhammond.tumblr.com


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Por André Teruya Eichemberg 1 A partir de seu texto O sentido do Espaço, em que sentido, em que sentido… há ali, uma investigação singular para a questão do tempo. Gostaríamos que nos falasse um pouco sobre como compreende a questão do tempo na arquitetura? Esse texto curiosamente foi mais conhecido através da internet, publicado na Vitruvius. Infelizmente por motivos de tamanho ele foi dividido em três partes. O texto original foi publicado numa ARQtexto n.3-4 (PROPAR-UFRGS), era um texto único e terminava repetindo o inicio do texto, num processo cíclico, intencionalmente para que o leitor custasse a perceber que estava lendo o já lido. Assim o texto não haveria uma única entrada e não haveria uma saída final. Esse original pode ser encontrado ainda no site http://www. fernandofuao.arq.br. O texto, inicialmente, para esclarecer é uma investigação pelos diversos sentidos que a palavra sentido tem na arquitetura para o espaço. Ou seja o sentido de conceitos como orientação, como memória, história, esquecimento, desorientação, ordem.... Primeiramente, há uma longa tradição - e não vem da arquitetura - que espaço e tempo são uma coisa só. Fisicamente sabemos que estão entrelaçados, mas dentro da filosofia esse binômio necessariamente não ocorre, muito menos na psicologia e na psicanálise. Então como é na arquitetura? Há dois tipos de tempos, a grosso modo, o Kronos, inabalável, o tempo dos Deuses , e Kairós: o tempo dos homens, esse então, plástico e flexível, regido pelo corpo., e não necessariamente tem sincronia com o tempo contáibl. No ensaio, me referia ao tempo exatamente pela sua capacidade de organizar, orientar e ou desorientar. É sobre esse tempo da existência, e essa 'existência' do tempo que estou interessado co-relacionado com o tempo mundo uno. Um deve levar ao outro, assim desenvolvi em "as bordas do tempo". Tudo isso tem fortes implicações na concepção da arquitetura, os lugares de espera, o novo nomadismo, as errâncias urbanas, os entrecruzamentos, os lugares de acolhimento, os lugares do abandono, a desorientação, a familiaridade, o estranhamento, tudo está atado pelo tempo do kairós.

Entrevista . Fernando Fuão . docente UFRGS FILOSOFIA, ARQUITETURA, TEMPO E ESPAÇO: EM QUE SENTIDO...

A palavra desorientação, por exemplo, entendemos mais facilmente quando nos referimos ao espaço. Isso porque acreditamos que 'orientar é organizar' e vice-versa, dar um sentido às coisas. Daí a importância da geometria ocidental, que sempre privilegiou a visão e a regularidade dos espaços, os alinhamentos da cidade reticulada na formação do sentido moderno, regularidade das formas foi fundamental para a estrutura do pensamento moderno. A desorientação é também um deslize do espaço-tempo. Talvez o mais difícil de entender e articular é que o sentido do espaço é também o sentido do tempo. Alguns arquitetos sabem as teorias do espaço arquitetônico, mas em geral, desconhecemos tudo sobre a questão do tempo. Todo nosso sentido e compreensão do mundo é fruto desse casamento contratual entre espaço-tempo. Em geral , não tocamos a questão do tempo porque achamos, por um lado que é objeto da física, da astronomia, da matemática, mas por otro é também da filosofia; é uma questão atada a ontologia, ao ser. Veja por exemplo, o famoso livro do Gideon : espaço, tempo e arquitetura, trata basicamente sobre espaço e arquitetura, e tempo passa de raspão. Alí o tempo é só uma cronologia histórica, no qual os edifícios tem a propriedade de narrar essse tempo.


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O estudo da desorientação do espaço, assim como o esquecimento, trazem a tona uma serie de mitos e mitologias, coisas que se arrastam sem nunca questionar, e cujas verdades são frageis e encobrem coisas sérias; por exemplo, em seu sentido pueril, temas que são exaustivamente tratados na arquitetura como a memória e o lugar, são vistos e interpretados sempre sobre o verso da identidade e orientação. Mas que identidade é essa se não tomamos em conta o tempo, que memória é essa e sua relação com o tempo? E com a desorientação espacial vem junto o aniquilamento do tempo. O tempo zero. O sentido de orientação e desorientação do espaço-tempo pode ser melhor compreendido com o auxílio dos conceitos de tempo cíclico e do tempo linear. Essa fundamentação vem toda do Levi-Stauss (Raça e História). No tempo circular, característico dos povos primitivos, a arquitetura e os espaços são quase imutáveis, a cultura de um modo geral permanece a mesma. O que aconteceu com meus avós está acontecendo comigo agora, e o que aconteceu comigo agora, acontecerá com meus sucessores. Na cultura ocidental, linear e acumulativa, os espaços e a arquitetura mudam freqüentemente, e se reserva à arquitetura o papel de monumento, de reservatório da história. O elemento que resiste à passagem do tempo. No tempo cíclico as orientações espaciais arquitetônicas permanecem as mesmas devido à permanência das formas; já no tempo linear elas estão constantemente mudando, provocando não só um estado de constante desorientação, conforme a sociedade vai mudando, mas essas desorientações são graduais, e na maioria das vezes permitem que só possamos compreendê-las através das gerações. Por isso, utilizamos flechas, placas, sinalizações para nos orientarmos no tempo e no espaço. A nadificação do tempo é esse período nem sempre agradável que experimentamos quando estamos desorientados e sentimos um forte impulso para retornar à casa, ao lar, como indicava Freud, e que não tem correspondente nem no tempo cíclico, nem no linear, ou tampouco no espetacular, constituindo uma outra categoria de tempo, muito próxima ao que poderíamos designar como ?tempo zero?, onde tudo se move mas o tempo não passa. Onde o próprio tempo se contradiz. Uma experimentação íntima, real, pessoal em todos os sentidos, mas que não existe para os outros. Na desorientação podemos experimentar, entre outras, dois tipos de sensações: uma, onde o tempo não passa, mas o espaço permanece em sua extensão; e outra, onde o tempo passa, mas o espaço parece condenado a um encarceramento definitivo. Tudo sugere que no estado da desorientação existe uma ruptura da sincronia do enlace tempo-espaço, uma outra compreensão do mundo, uma outra visão. O tempo da desorientação é o período no qual nos vemos enquanto representação. Deslocados de tudo, de todos, inclusive de nós mesmos, ocos. Passamos para o outro lado do espelho. Basicamente o texto tem muito de Heidegger em Ser e tempo. O ser que se vê se vendo, toma ciência de si, através desse mal estar, ou queda existencial. É como se fôssemos jogados ali sem saber porquê e nem quando. Para exemplificar a questão de estar perdido no tempo, e do papel da História e do monumento na ordenação do sentido na existência humana, recorrendo a um antigo seriado de TV, que ajuda a ilustrar essa sensação de desorientação espacial temporal, O Túnel do Tempo, cujos personagens são dois cientistas que viajam pelo tempo através de uma curiosa máquina em forma de túnel, onde eram literalmente jogados em diversos momentos e situações da história por essa máquina que havia fugido ao controle. Funcionava aleatoriamente, andando à deriva ao longo da história. Esses personagens, a cada vez que eram jogados nesses momentos da história, experimentavam rapidamente essa forte sensação de desorientação, sem saber o que estava acontecendo; para orientá-los, um ou outro sempre comentava que deveriam estar, provavelmente pelas roupas, ações, em determinado ano, em determinado lugar, cidade, ou determinado fato histórico. Na verdade quem acabava orientando-os era o conhecimento da história, a própria história universal, essa pseudociência que não tem outra função do que a pretensa orientação temporal do homem, que preferiu o tempo linear ao cíclico.


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2 Percebe-se que suas pesquisas adotam a filosofia enquanto campo para o entendimento de um pensar teórico. Como entende a relação entre filosofia e arquitetura? A filosofia é fundamental, é a fundação da arquitetura, assim como também é para quase todas as areas do conhecimento. Por exemplo: a arquitetura, enquanto ciência trata do espaço e das relações humanas que se dão nele, trata da moradia e do humano, trata também da representação, mas por momento algum associamos esse saber sobre o espaço à filosofia. Desde a grécia antiga os filosofos se dedicaram a estudar o espaço, se utilizaram fartamente da casa como metáfora para suas reflexões sobre o ser; mas a arquitetura continua a ignorar esse conhecimento, ou quando se estuda se faz de uma maneira muito, muito superficial. Isso de certa forma transforma a arquitetura num conhecimento basicamente técnico, arquitetos em técnicos, profissionais capazes de resolver problemas espaciais e de ordem arquitetônica construtiva, mas o humano está de fora. Infelizmente, junto com a ausencia da filosofia vem a ausencia da ética. ha uma falta total sobre a reflexão do mundo, e arquitetos interferem direta ou indiretamente sobre o mundo. Estar dentro ou fora, ou em nenhum simultaneamente é filosofia e arquitetura. Os arquitetos por exemplo quando projetam algo num dado terreno eles o fazem sempre de fora do terreno e da edificação. Veja por exemplo, as perspectivas de criação quase sempre de fora do terreno ou do objeto arquitetônico. Os estudantes nunca se colocam dentro para criar., o interior é um resultado do envelopamento da construção. Ficamos reduzidos a uma estética, uma estética esvaziada, copiada das midias que trespassam a arquitetura. E colhemos da história da arquitetura e da arte uma apanhado de formas esvaziadas de conteúdo, tudo par virar moda e cultuar arquitetos estrangeiros, ou mesmo nacionais. Talvez a arquitetura seja a matriz da filosofia, e o contrario também, ou seja talvez a arquitetônica seja matriz da filosofia, essa estrutura do pensar, e esse 'talvez' nos coloque a impossibilidade de separar uma da outra. Na filosofia a estrutura do pensar se chama de archétectonica - Derrida tentou desconstruir essa arquiitetonica criticando o logocentrismo. A arquitetura enquanto existência é inseparável do ser, o ser é representação e seu corpo é sua morada. Morada e ser são inseparáveis. A moradia tem um valor sagrado, mas desde que virou mercadoria as coisas mudaram. Mas, há quem digue, há arquitetos que dizem, que essas coisas são irrelevantes para o conhecimento da arquitetura. O que se perde com isso é a capacidade de reflexão sobre a arquiitetura, a cidade e a vida. A arquitetura da academia faz de tudo para incentivar o materialismo, o materialismo da obra, o materialismo do urbanismo, o materialismo dos materiais, o materialismo do corpo, ou seja coloca sempre a arquitetura num plano horizontal. O valor do lar esta diretamente associado aos lares (os deuses da antiguidade), o oculto e a morte, vide o ensaio a 'Interioridade da arquitetura'. Essa carencia de filosofia e poética vem desde o ensino básico, onde se prefere ensinar por exemplo sobre as adrozofilas melanogaster, as valências do chumbo, ou a avalanche de normas gramaticais, privilegiando a forma do dizer e não a descoberta do dizer. Nos enchem de coisas que não incentivam o livre pensar. Na arquitetura isso também ocorre de uma manreira cruel quando valorizamos a forma, a formatação do edifício e não sua essencia ou capacidade de abrigar as necessidades. Exemplo, os professores de projeto mandam apagar, deletar, reformatar o projeto quinhentas vezes ate chegar na forma desejada esteticamente aos olhos do profe., mas nesse processo tudo se perdeu e se evitou, nada da essencia, da interioridade foi conversado, contraposto, incorporado. Trato sempre de desconstruir a arquitetura e seus elementos, com a pergunta que se deve fazer para as


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paredes, portas, janelas, maçanetas, pias, etc...E é preciso?" "Por que?" Há também o mito que filosofia é coisa difícil, coisa para filosofo, eu contestaria com a pergunta e a matemática, a física também não são? No Brasil, sabemos que a filosofia foi banida dos curriculos, na época da ditadura, e nunca mais voltou. Curioso, porque os exilados voltaram, mas ela não. Entendo também que a filosofia não é, e nem deve ser um privilegio dos filosófos, assim como sabemos que a arquitetura não é um privilegio dos arquitetos. Arquitetos podem fazer filosofia, e filosofos pensam sobre arquitetura embora não se atrevam a projetar. Pode haver uma filosofia na música, pode haver uma filosofia na arte e na poesia, inclusive na propria medicina e ou na física. Entretando a filosofia da academia é também conservadora, cheia de taboos, mitologias, os filosofos são puro intelecto, razão, lógica, por exemplo: não admite o uso da imagem como conhecimento dentro de seu corpo, dentro dos livros, como bem expressou a filosofa Dirce Solis da UERJ. Em alguns ensaios meus há uma grande dívida com a filosofia de Derrida como: A representação de Matias, A universidade incondicional, A interioridade da arquitetura, assim como "O sentido do espaço" tem com Deleuze, ou ainda "Cidades fantasmas" que é uma homenagem a Vilém Flusser.

3 A fotografia e o vídeo são interfaces importantes em seu olhar sobre a cidade e a arquitetura. Fale-nos um pouco sobre essas investigação Meu interesse sobre a fotografia advem da minha prática de collage de recortar imagens de revistas, fotografias e reuní-las sob nova significação. A fotografia faz parte da mnha geração, principalmente a fotografia colorida e as máquinas fotográficas baratas. Minha primeira máquina foi uma pocket da kodak. Ao começar a teorizar sobre a collage, sobre esses fragmentos de fotografia acabei por estudar a propria historia da fotografia e de sua dependencia com a arquitetura. Para melhor explicar,:camaras escuras, espelhos, miras, vedutas, e todo tipo de instrumentos óticos foram empregados no meio artístico a partir do resnacimento. Ainda que a história da arte oculte esse fato na maioria das vezes, eles acabaram por articularam todo o espaço da representação desde o Renascimento, do mesmo modo que a fotografia constitui um modo de ver e de construir o mundo. A perspectiva foi o procedimento pelo qual os renascentistas e barrocos aprenderam a dominar o campo da visão, transformar a perspectiva numa forma de gramatica, e sobretudo um metodo quase automatico de registro tal como a imprensa. A história da câmara escura se entrecruza com a própria formação da perspectiva, sendo o seu próprio instrumento de investigação e de difusão. O que tentei demonstrar foi que a representação em perspectiva em colaboração com a camara escura acabaram por imaginar um mundo perspectivado e esse mundo perspectivado se construiu, principalmente aqui na America. A visão que temos hoje em perspectiva foi construida. Não podemos nos esquecer que a origem da máquina fotografica, a camera escura, o quarto escuro, é a propria arquitetura, em sua mais pura interioridade. Em "Folhas da arquitetura" um dos primeiros textos criticos sobre a fotografia de arquitetura que escrevi, apontava não só o problema do ensino imagético através da representação arquitetônica fotografica, mas criticava também firmemente o papel das revistas nessa formação, na época a Ruth verde Zein, quando estava na antiga revista Projeto me possibilitou publicar esse artigo, fazendo a critica a propria revista. Depois, essa mesma critica se prolonga no ensaio "Cidades fantamas", uma clara referencia a todo


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trabalho de Vilem Flusser, em especial "A filosofia da Caixa Preta". No Brasil temos grandes fotografos de arquitetura, investigadores sobre a fotografia de arquitetura entre eles o prof. Nelson kohn. O kohn tem uma visão muito critica e verdadeira sobre a fotografia exatamente por amar tanto a fotografia. Ademais é um excelente fotógrafo.

4 Gostaríamos que nos apresentasse, mesmo que resumidamente, seu trabalho sobre a collage e como esse se desdobra na era contemporânea. Desde 1978 que trabalho com collage, comecei fazendo collage, muito ingenuamente, para apresentar as ideias num projeto arquitetonico, muito inspirado numa exposição do artista João Manta. Não parei mais. Alguns anos depois comecei a estudar e elaborar uma teorização sobre a collage. E, quando fui fazer meu doutorado sobre arquitetura e collage (1987-92), ja tinha muita coisa pronta. Desde então nunca cansei de relacionar a modernidade a esse fenomeno da collage, essa coisa de separar e unir, assim acabei percebendo que também alguns filosofos como Derrida e Deleuze se utilizaram muito desse processo em seu pensar criativo, isso que estou investigando. Somente agora, 20 anos depois da tese Arquitectura como collage consegui publicar os principios basicos na qual concebi a collage , estão no pequeno livro "A collage como trajetória amorosa" pela Editora da ufrgs. Ele não tem a intenção de ensinar a técnica, a arte de fazer collage, ou muito menos traçar uma história da collage, expondo os nomes de seus expoentes e seus respectivos trabalhos, ainda que contenha uma breve história da collage ao final. Na verdade, nunca pensei que se pudesse realmente ensinar a alguém uma maneira de recortar, ou colar. Todo trabalho foi concebido em cima das fotografias como fragmentos para fazer collage. Quando concebi uma teoria da criação da collage, talvez no fundo o livro trate disso: da criação; pensei-a desde o ponto de vista mais primário, ou seja, desde seus instrumentos e materiais. A collage como qualquer outra forma de representação pressupõe a utilização de determinados materiais e instrumentos, e também de certas etapas que devem ser cumpridas ao longo do procedimento. A primeira etapa da collage consiste na escolha dos elementos, das figuras que se pensa utilizar e recortá-los conforme a maneira que lhe interessa. A esta etapa denominei, obviamente, RECORTE. O material resultante desta operação constitui-se no que se denomina por FRAGMENTOS ou Figuras. A fase seguinte consiste em montar, articular, justapor, casar as figuras recortadas. A este movimento ou momento costumo utilizar a expressão ENCONTROS, que serve para designar toda sorte de aproximações que as figuras liberadas de seu contexto anterior costumam realizar. As maiorias dos estudos da collage ingenuamente, sempre tratam de colocar a collage num jogo de oposição, de um binarismo, entre um recortar-colar, rasgar-costurar, desmontar-montar, separar-unir, extrair-embutir, dispersar-organizar, quebrar-colar, cortar-costurar, ignorando o intervalo significativo que se dá entre essas etapas. Basta olhar no programa de seu computador o cut and paste, e a infinidade de programas de collage, como o photo "shopping". Até mesmo os lingüistas trataram de colocar como uma linguagem de oposição, e não explicando como se dá a articulação das figuras. Nesse sentido a idéia de Encontro, hospitalidade e acolhimento parecem bastante oportuna para explicar este espaço de atuação do encontro das figuras e mesmo das pessoas, localizando o ato mágico amoroso exatamente no meio dos dois extremos, entre o cortar e o colar, entre a separação e o acolhimento. Finalmente a última etapa, a que dá nome ao procedimento, é a utilização da COLA, e tem por objetivo fixar uma figura à outra, ou a um suporte. Em cada etapa, em cada ação procurei revelar o significado que


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se esconde por trás de cada ato, evidenciando que a utilização destes instrumentos e materiais não são neutros e possuem em sua essência um profundo significado simbólico, muitas vezes desconhecido. Desde 2004 tenho escrito varios ensaios que são dependentes dessas reflexões sobre o mundo collage, como: "As bordas o tempo, a ideia de collage em Antonio Negri", esta publicado na revista Agulha de meu amigo poeta Floriano Martins, "Viagem ao fim do mundo" . Tenho uma pesquisa financiada pelo cnpq sobre os artistas brasileiros que trabalharam com collage, e de algumas arquiteturas que apresentam o principio da collage, a pesquisa se chama "A collage no Brasil arquitetura e artes plásticas", ali se apresentam Tereza d'Amico, Jorge de Lima, Sergio Lima, Floriano Martins, Athos Bulcão, Lina Bo Bardi, Pietro Maria Bardi entre outros. Essas investigações me permitiram orientar varias dissertações sobre o tema da collage como o trabalho da Gladis Neves da Silva sobre os arquitetos que se utilizaram da collage no século XX, a dissertação de Achylles Costa Neto sobre os desenhos e as collagens da Lina Bo Bardi, ou mesmo "A collage na vila chocolatão" de Giovana Santini.

Para quem se interessar sobre collage tenho um blog http://mundocollage.blogspot.com e um outro sobre meu trabalho com recicladores http://inscritosnolixo.blogspot.com

5 Como você percebe o atual ensino nas escolas de arquitetura e urbanismo? Você só percebe o anacronismo que sempre acompanhou a academia quando se afasta dos tema comuns que são estudados dentro dela, dentro de seu eixo curricular. Me lembro que no meu tempo de faculdade -na década de 70- já estavam desatualizados, quarenta anos depois não houve uma mudança substancial. A academia continua a formar técnicos e mais técnicos em arquitetura, obrigam os alunos ainda hoje a estudar calculo diferencial. Integral, física, a fazer cálculos de resistência de materiais e ou calcular estruturas metálicas, o urbanismo é uma desgraça, somente coisas quantitativas. As teorias da arquitetura também são anacrônicas por seus conteúdos, e aí varia muito de escola para escola, cada vez mais perdemos contato com as disciplinas atreladas a questão da arte, do homem, e sobretudo da realidade. Não se estuda disciplinas irmas da arquitetura como, psicologia ambiental, psicologia do espaço, antropologia cultural, estética, filosofia do espaço, videografia, poderia passar listando inúmeras e inúmeras disciplinas. Ética nem pensar. Penso que é um período muito crítico para a Universidade e seus saberes tão distantes dos problemas da realidade, do mundo lá fora.


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“Sapo é um pedaço de chão que pula” Manoel de Barros


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TOTEM Em nosso cotidiano utilizamos o sentido visual para realizar desde as tarefas mais banais até as mais importantes. Isto fez com que, durante a história da humanidade, a visão e o que ela nos proporciona ganhasse mais espaço em nosso dia a dia. Assim, também, a construção da informação visual vem se tornando cada vez mais complexa. Antigamente uma das maiores preocupações era aprender a ler e a escrever, e o acesso à informação era entendido quase como uma consequência deste aprendizado. Porém, agora, com as tecnologias de construção e reprodução de conteúdo imagético se tornando sofisticados e presentes em nosso tempo acelerado, somos cercados. Quase sempre, somos raptados em nossa ânsia por informações visuais, criadas, em sua maioria, por motivos mercadológicos, sem objetivo de nos ajudar. Ao contrário, saturam nossa paisagem de armadilhas por meio de símbolos e valores.

#ALPENDRE ARTE Prof. M.Sc. João Henrique Lodi Agrelli Professor na área de mídias contemporâneas do curso de Artes Visuais da Universidade Federal de Uberlândia - UFU, onde coordena o Núcleo de Estudo em Arte e Tecnologia – NEART.

É possível dizer que, hoje, vivemos em uma época de ambiguidade de informações, rodeados por outdoors, cartazes, panfletos, intervalos comerciais e popups. O que se mostra, esconde, o que esconde, mostra. Quem está a salvo disso? Segundo Bernard Stiegler (2007, P.54), fazer de forma que uma experiência do sensível seja possível para aqueles que o marketing condiciona esteticamente torna-se uma prioridade e uma responsabilidade. A partir desta condição, pensei na obra de arte “Totem”.


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O trabalho intitulado “Totem” utiliza a conformação simbólica de imagens e de códigos visuais, que podem ser percebidos com facilidade, necessitando apenas de uma mediação com aparatos tecnológicos, como o celular. O nome “Totem”, nesse trabalho, representa tanto a ideia shamã e indígena do uso da figura de animais de proteção, pertencentes à fauna do cerrado, dispostos um sobre o outro, formando um poste, quanto o totem de comunicação visual publicitário, que é o uso da tipografia e dos códigos tecnológicos para se instalar no cenário urbano contemporâneo. O conceito ou questionamento principal da proposta é a oposição entre o totem de comunicação visual – que parte de um direcionamento funcional e objetivo de mostrar, indicar e atrair as pessoas a entrarem e utilizarem os serviços da instituição -, com o totem como proteção – da carranca na proa do barco que protege os navegadores, que repele os espíritos ruins, o mal olhado e assusta os invasores quando colocado nos limites da casa. “Totem” esteve exposto até agora na galeria da Passagem Literária da Consolação em São Paulo-SP, entre 7 de maio e 29 de junho de 2012, e na galeria Ido Finnoti, em Uberlândia-MG, no período de 2 a 25 de maio de 2012. Em São Paulo foi uma exposição individual simultânea à exposição da artista e pesquisadora Luciana Arslan. Em Uberlândia participou de uma exposição coletiva intitulada “Espaços Outros”, com artistas do Núcleo de Estudos em Arte e Tecnologia (NEART) e do Núcleo de Música e Tecnologia (NUMUT), ambos da Universidade Federal de Uberlândia, em conjunto com o grupo de pesquisa francês Fiction&Interaction, da Universidade de Paris I. A “Espaços Outros” faz parte de um intercâmbio entre pesquisadores de ambas as universidades, o que implica em uma exposição coletiva, que inclui a “Totem”, em Paris, previsto para o mês de novembro de 2012. No caso de São Paulo, por ser uma exposição individual e a galeria fazer parte de uma passagem subterrânea que liga o bairro da Consolação com a Avenida Paulista, tendo um espaço amplo e contínuo de parede horizontal, foram realizadas cinco composições (totens), cada uma com medidas aproximadas de 1,4 m de largura por 2,2 m de altura, intercaladas com 1 m de respiro entre uma composição e outra. Justapostas, lado a lado, resultam em um mural de aproximadamente 11 m de largura por 2,2 m de altura. Em Uberlândia, por ser uma exposição coletiva e com espaço mais restrito, foram realizadas três composições, cada uma com 1,4 m de largura por 2,2 m de altura, intercaladas com 0,7 m de respiro, resultando em um mural de 5,6 m de largura por 2,2 m de altura. A organização na galeria Ido Finotti em Uberlândia, realizada pelo professor e artista Douglas de Paula, colocou os totens na parede da entrada da exposição. Neste local, os totens convidavam os passantes a entrarem para visitar a “Espaços Outros” e, como os totens indígenas e as carrancas, estavam ali para proteger aqueles que realizaram e visitaram a exposição. Essa posição dos totens, como frente da exposição, potencializou os conceitos pretendidos pela obra, da relação entre totem de comunicação, ligados à publicidade e propaganda e o totem de proteção, ligado à cultura espiritual indígena. A concepção e o processo de construção do desenho e de sua materialização foram muito próximos a trabalhos como “Tônico milagroso para males contemporâneos”, exposto no Museu Universitário de Arte da UFU, em junho de 2011. Iniciando o desenho pelo rascunho a lápis até a finalização em um software vetorial, para ser recortado em uma plotter. Sendo o material, adesivo vinílico na cor preta, aplicado sobre parede branca.


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A escolha das imagens foi baseada na ideia dos totens indígenas, de uma composição vertical, onde as figuras de animais, geralmente representadas de forma abstrata, ficam organizadas uma sobre a outra. Esses animais eram escolhidos conforme suas características marcantes, como a força do urso, a agilidade do jaguar ou a visão ampla da águia, o que torna o totem uma representação simbólica desses valores e que, por causa disso, eram utilizados para representar uma tribo, marcando seu território ou protegendo a tribo de forma mística, contra os maus agouros. Para as composições da proposta “Totem” foram escolhidos animais da fauna brasileira, preferencialmente os ligados à região do cerrado, por se tratar da região onde o artista mora. Para isso, foi necessária uma pesquisa na internet, tanto para averiguar as incidências dos animais na região do cerrado, assim como para adquirir várias imagens desses animais, para auxiliar na melhor forma da representação deles dentro da composição do totem. A tríade inicial montada para Uberlândia foi formada pelo primeiro totem que, na sequência de baixo para cima, continha: o peixe jaú, a anta e as nadadeiras do peixe dourado; o segundo totem era formado pela tartaruga jabuti, pelo lobo guará, e pelo gavião carcará, representado pelas asas; o terceiro contemplava o tatu canastra, o tamanduá mirim e as asas da libélula. Para a exposição em São Paulo foi adicionado o quarto totem com o sapo cururu, o macaco bugio e as asas da coruja suindara; e o quinto, com o jacaré, a preguiça e as asas do morcego.

Paulo.

Os totens não eram formados apenas pelas representações dos animais, mas pelo uso de um QRCode no topo de cada totem e, acima do código, o desenho de uma coroa. A intenção era embaralhar uma simbologia indígena e shamanística com o uso da representação de animais, símbolos e códigos tecnológicos do QRCode, representações de poder com a coroa e objetos religiosos, que estão contidos na mensagem codificada nos QRCodes, um trecho do “Cântico das Criaturas” ou “Cântico do Irmão Sol”, de São Francisco de Assis. A frase escolhida era: Louvado sejas, Senhor meu, pela irmã, nossa mãe, a terra, que nos sustenta e nos governa, e dá tantos frutos e coloridas flores, e também as ervas. Esta mensagem foi particionada em três QRCodes na exposição em Uberlândia e em cinco QRCodes na exposição em São

A multiplicidade de discursos é uma característica presente na contemporaneidade, a influência da história em quadrinhos nos desenhos dos animais, a utilização de materiais plásticos próprios à indústria gráfica, como o adesivo vinílico, misturados a símbolos culturais, religiosos e da tecnologia, como o QRCode, estão de acordo como o tipo de linguagem midiática presente.


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TÔNICO MILAGROSO PARA MALES CONTEMPORÂNEOS Por João Agrelli


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No mínimo ousado, o fotógrafo austríaco @Klaus Pichler criou algumas obras de arte com matériasprima inusitadas, onde muitos acreditariam que seu lugar seria o lixo. Porém, aos olhos de um artista, o mofo se transforma em belas fotografias. http://www.kpic.at/

KLAUS PICHLER por Lucas Dias

UM DROPS QUALQUER… PARIS VERSUS NY por Mariana Biork

Depois de passar um tempo em Nova York o Designer Gráfico francês Vahram Muratyan teve uma ideia criativa: criar parâmetros entre Paris, sua cidade natal – pela qual é apaixonado – e Nova York. A ideia virou uma série online de ilustrações comparando as nuances de cada metrópole, mostrando suas semelhanças e diferenças. O projeto minimalista demonstra semelhanças, diferenças, contradições e clichês das metrópoles internacionais. As comparações vão desde o café e personagens de filmes até ícones da moda e situações cotidianas. O conceito divertido funcionou tão bem, que um livro com as ilustrações da série de Muratyan foi criado e já é referência entre os apaixonados por essas duas belas cidades. Com inteligência afiada, o artista criou um estilo simples e muito simbólico de correlações, que é apreciado tanto pelo design como por sua narrativa irreverente. Site : http://parisvsnyc.blogspot.com.br/


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QUASE


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O game Sissy’s Magical Ponycorn Adventure pode ser visto como o melhor presente de um pai para uma filha. A ideia é simples: transformar os singulares desenhos de uma criança de 5 anos de idade em personagens, cenários e objetos de um game no estilo point and click. Realizado em apenas um fim de semana, o game narra as aventuras de Sissy – a personagem central da aventura – para encontrar seus afetuosos Ponycorns (híbridos de pôneis com unicórnios). O jogo, premiado no prestigiado Festival de Games Independentes (IGF), foi criado em Flash e promove um outro olhar sobre as possibilidades criativas e reais de desenvolver games com qualidade na atualidade, sem depender dos gráficos hiper-realistas e ambientes tridimensionais, tão recorrentes na indústria dos jogos digitais.

SISSY´S MAGICAL PONYCORN ADVENTURE

http://ponycorns.com/

por Aleph Teruya Eichemberg

QUASE UM DROPS …

VITTRA TELEFONPLAN por Mariana Biork

Situada na cidade de Estocolmo, na Suécia, a escola Vittra Telefonplan vem se tornando referência educacional ao redor do mundo. Criada pelo estúdio dinamarquês Rosan Bosch – o mesmo idealizador do escritório da Lego – a escola, com design diferenciado, não tem paredes e é dividida basicamente em cinco ambientes: A caverna – espaço destinado aos estudos; O laboratório – onde são desenvolvidos os trabalhos práticos e as experiências; A fogueira – para aulas em grupo; O furo – um lugar para desenvolver os impulsos; e O teatro – espaço para se mostrar e para descobrir e desenvolver novas percepções. Segundo os idealizadores do projeto, o ambiente escolar é a maior forma de aprendizagem – sendo mais importante, inclusive, do que o conteúdo das aulas. O espaço criado é propício para um aprendizado descontraído e visa estimular a criatividade dos alunos, sendo muito diferente do modelo escolar tradicional. O modelo despertou tanto interesse que o escritório já implantou este projeto de sucesso em pelo menos mais duas instituições de ensino, também na Suécia. Será um caminho para o futuro da educação? A ideia de livre organização escolar com construções mais coloridas e lúdicas favorece a aprendizagem? http://vittra.se/english/Schools/StockholmSouth/Telefonplan.aspx


Issue #: [Date] O Princípio !"#$% &'(&% $)*+,% -)./,0")+1.,)% 2% 3',0% $)0)$% .,(,4% &% 56)./&7,% 7,% ")7,+8%-).-,9/)%7,%:9,/;$-<,4!"#$%#====% %%%%%%%%%%%%%>% O que fazer com ele??? O que pensei: O que quero com o CORPO??? Quero: Reações do corpo; Causar reações, provocar, cansar, incomodar o corpo Certezas e incertezas Colocar o corpo em diversas situações para ver como ele reage. Cada um reage de um modo diferente do outro, devido ao meio que está, a personalidade, o ambiente... Causar reações: Vento nas árvores, som da natureza podem causar medo, alegria, tristeza. Provocar reações no corpo: Medo, alegria, liberdade, claustrofobia, e saber como lidar com tudo isso, com cada situação. ?&.$&+% )% -)+")% @9$9-&0,./,4% 0,./&(0,./,4% 69$'&(0,./,4% 9.-)0)7&+4% &$$&'($%)'%&",.&$%)*+)&,&-&.($!!! %%%>% % Experiências com o corpo Colocar o corpo no alto, envolvido por uma bola, a ponto que consiga ver tudo: a cidade, as árvores, toda a vegetação, enfim, ao ver tudo isso, se sente sensibilizado, maravilhado com a vista, a suavidade das coisas, como algo inatingível ou, sendo apenas um observador que pode ficar ali horas e horas. Mas ao mesmo tempo pode sentir medo, devido a altura, medo de cair, de que a bola se rompa ou então, que o vento a leve embora.

Projeto de Arquitetura V . 2012 . Aline Raquel Livorati 7º Período de Arquitetura e Urbanismo

Unifev – Centro Universitário de Votuporanga, Votuporanga,SP

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O QUE É UM PARQUE FRAGILIZADO?


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Mas o que tudo isso significa??? Significa que acontece todo um envolvimento entre o corpo e o que está ao seu redor, a natureza. Há um relacionamento amoroso, podemos dizer assim, pois eles se envolvem, se abraçam, se sensibilizam, assim como todo relacionamento tem suas diferenças, suas inseguranças .

Mas o que realmente interessa é esse envolvimento, esse abraço, como um abraça o outro e como o outro recebe esse abraço. Abraçar: Apertar ou rodear com os braços. Adotar, seguir. Abraçar-se-a, com, ou em alguém ou algo. Dicionário Aurélio

Abraçar não é só isso, é envolver, juntar, se tornar em UM.

Não é um abraço humano entre duas pessoas, mas sim entre dois corpos distintos entre si. É como o beijo que une dois seres se tornando um, em uma explosão de sentimentos bons ou ruins, passivos ou impassivos.


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Mas quem se abraça? Quem está abraçando quem? Neste caso, é a natureza e o corpo, onde a natureza envolve, abraça, beija o corpo de diversas maneiras, provocando diversas reações como alegria, tristeza, medo, segurança, insegurança, conforto, desconforto, provocando o corpo a reações inesperadas. É uma verdadeira relação de amor e ódio.

Voltando o pensamento na bola e relacionando ela com o abraço, o conceito de abraçar e toda essa sensibilidade e fragilidade que os envolvem, faz relação com a bolha de sabão que é uma película tão fina e sensível, frágil que apenas com o vento pode estourar. E é esta sensibilidade e fragilidade que acontece no abraço. É como se essa película fosse o útero materno que envolve o bebê, o protegendo, dando todo o amor e carinho, mas que a qualquer momento pode romper e todo esse abraço se modifica, não mais dentro da mãe, mas sim fora dela. Todo esse processo de abraçar acontece com as bolhas, aonde uma vai se abraçando com a outra, vão se juntando, transformando em uma só. Bolha na Bolha.

Bolhas de sabão Película muito fina; sensível, delicada, se destrói facilmente, pura, encantadora, fascinantes. Dentro dela: - sente segurança, proteção, inatingível;

- medo, insegurança, desconforto, agonia, desespero.

Feita por um líquido puro que não a estabiliza por completo, necessitando de tensoatvo para prorrogar sua duração. Se congelam a uma temperatura abaixo de 25º C e o ar interno é perdido gradualmente de dentro para fora. !%-)+%7&%*)(<&%A%'0%,@,9/)%7&%9./,+@,+B.-9&%,./+,%&$%).7&$%7,%(';=% %%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%!%%%%%%%%%%%%%%%% %%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%C';%3',%/)-&4%"&$$&%&%",(D-'(&4%+,@(,/,%% %%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%6E+9&$%6,;,$%.&%$'",+@D-9,=%%%%% %%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%!%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%% %%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%!%(';%&/+&6,$$&%&%",(D-'(&4%"+)7';9.7)%'0&%)'/+&%% %%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%@&$,%"+)")+-9).&(%&%,$",$$'+&%7&%",(D-'(&=% %%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%% A luz branca entra, toca na película fazendo com que seja refletida com uma tonalidade que vai se modificando com a espessura. Uma cor entra na outra, vão se juntando,misturando-se abraçando. Quando a parede da bolha é mais fina que a longitude de onda a luz,não há reflexão, pois sua espessura é tão fina (mais fina que 25 nanômetro) que fica a ponto de explodir. Faixas de cores são que se movem de cima para baixo.


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Corpo sem Órgãos Um ou Vários. Não é dado por inteiro, nós que o fazemos. “(... )que penetramos e somos penetrados, que amamos.” – Como o beijo, o abraço, a ligação onde não são mais dois, e sim um, se tornam UM. Artaud declara guerra aos órgãos, dizendo que são imutáveis, que não passam de experimentações biológicas, políticas, sendo censurado e reprimido, não deixa ser livre para fazer novas descobertas, é a mesmice de sempre como se fosse uma máquina. São através do corpo sem órgãos que fazemos descobertas, novas experiências. Corpo sem órgãos é fechar os olhos para sentir o calor, a temperatura, ouvir diversos sons, sentir as variações de cores, texturas de tudo que está em volta, mas de forma diferenciada, não ouvir o som de um carro e saber que é ele, e sim ouvir os seus vestígios,... Ele não é o espaço e nem está nele, mas ocupa em forma e proporção, digamos assim. ?)+")%0&$)3'9$/&F%)%-&6&()%7)0&7)4%)%<)0,0%3',%90"G,%$'&%@)+H&4%7)09.&I)=% !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Relação igual, onde a natureza é o homem, e o corpo, homem o cavalo que obedece a seu dominador. %%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%!!! Quadro O Beijo de Gustav Klimt % /0!1*.!%#$!"*+'#!2!3*+'&$(! J&.',(%7,%K&++)$% % % L&M&*'.7)%"+)@9$$9).&(% % N),$9&%A%6)&+%@)+&%7&%&$&% % O0&M,.$%$P)%"&(&6+&$%3',%.)$%@&(/&6&0% % Q(<)%(96+,% % !$%-)9$&$%&)%+,7)+%",7,0%")+%$,+,0%(9*,+/&$F% % N)+%@&6)+4%0,%(9*,+/,0RRR% % S9",+*#(9-&% % C,6&./&%&%",7+&%,%6B%)%3',%/,0%,0*&9T)% % 7,(&4%&%-)+4%&%/,T/'+&4%)%,.-&./)%7&$%",3',.&$% % -)9$&$%3',%@)+&0%U)M&7&$%@)+&=% % V',%0'7&%&%69$P)%7&$%-)9$&$% % WXY%A%9.6,.HP)%,%% % ZXY%A%0,./9+&% % [#%$&*,%@&;,+%"),$9&% % :P)%$&*,%@&;,+%.&7&I%L&M&*'.7)%"+)@9$$9).&(% % O.)-B.-9&4%.&/'+&(4%"'+)I%!09M)%,%% % ,0"+,M&7)%7&%@&;,.7&% % ?<&+(,$%?<&"(9.I%0).'0,./)'%)$%6&M&*'.7)$% % N,+-,"HP)%$,.$D6,(% % V',+)%7&+%,.-&./&0,./)% % N),$9&%A%"&+&%7,$-)*+9+% % N),$9&%A%"'+&=%%

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se submete,


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Devir

Mudança constante; Desejo de tornar-se; “ tornar-te quem tu és” – acepção nietzscheriana; Hoje não é o mesmo de ontem; As coisas não são as mesmas, mudam dia-a-dia; Devir- unidade do ser e do nada- Hegel; Inquietação em si; Mudança de qualidades; Unidade do ser e do nada " Mudança que vai do Nada ao Ser ou do Ser ao Nada

Ser: o acontecer, ir sendo, mover-se, transformar-se, passar; Tudo volta ao mesmo para surgir de novo – processo circular de nascimento e destruição;

Devir Humano O homem se transforma no mundo que ele mesmo constrói. ! Mundo humano Mudanças do humano; 5Q%<)0,0%A%&%\.9-&%-+9&/'+&%3',%"+,-9$&%$,+%*14"(1(8%%%% !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Vista como um cuidado da infância (Re) surge a cada momento como Novo; “O mesmo homem não pode atravessar o mesmo rio, porque o homem de ontem não é o mesmo homem, nem o rio de ontem é o mesmo do hoje”. Heráclito

Homem da bolha

Natureza da bolha

K)(<&%7)%<)0,0%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%K)(<&%7&%.&/'+,;&% !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! O homem é a bolha? A natureza é a bolha? O homem é a bolha, assim como a natureza, onde ambos vão se juntando, abraçando, se tornando em um único corpo. É o corpo adentrando na natureza, se rendendo a ela, ou seja, o corpo se deixando envolver, ser abraçado.


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Fragilidade Dicionário Aurélio: - Frágil: pouco sólido ou resistente; fraco. Pouco vigoroso. Pouco durável. - Fragilizar: Tornar(se) frágil; debilitar(se). Abater(se) emocionalmente; sensibilizar(se).

O que é um parque fragilizado? É um parque sensível, delicado, que faz com que o corpo tenha diversas reações, como se sentir sensibilizado, emocionado, irritado, com medo, inquietação, enfim, tudo é frágil, o corpo, a folha, a luz, a textura, e que pode ser tudo destruído a qualquer momento, até mesmo por um simples toque. Uma coisa vai mudando a outra, vão se transformando continuamente, mas essa transformação não é feita sozinha, mas com outros elementos, ou seja, são todos se abraçando, se envolvendo, transformando todo o lugar, o espaço, e até mesmo o corpo virando em UM. Tudo vai se englobando, se abraçando e se transformando, é a folha no tronco, o tronco na folha, a luz na folha, a folha na luz, o tronco na terra, a terra no tronco, o vento no corpo, o corpo no vento, o calor na textura, a textura no calor. Todos vão se abraçando, se unindo como que se tivessem imas para ligá-los. São dois seres diferentes, distintos entre si, que se unem, se abraçam e se transformam, tornando-se em Um. E toda essa ligação é frágil, delicada, pois um abraço mais forte pode quebrar tudo isso, doer, machucar. Mas às vezes, são essas sensações que o corpo precisa ter para saber qual será sua reação. Não basta ser apenas um abraço amoroso, não, mas sim um abraço único, como se fosse à última vez que estivesse abraçando a pessoa amada. O parque tem que ser assim. O corpo tem que sentir esses sentimentos, essa explosão de contentamento, alegria, conforto e o medo da perda, de nunca mais sentir esse abraço.


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Caixa de Luz: micro revista de fotografia Uma imagem de bolso, ou melhor, na palma da mão...

Pensar em uma revista fotográfica que se instala dentro de uma caixa de fósforo e que se abre na palma da mão, é compreender a importância do signo visual enquanto algo intimista, pessoal. Diante da proliferação astronômica de imagens sintéticas inseridas nas redes de comunicação e do desenvolvimento cada vez mais hiperrealista da imagem, a proposta não vai contra tais premissas – uma vez que todas as imagens foram criadas a partir de interfaces fotográficas digitais – mas sim, a de propor uma outra perspectiva sobre a própria visualidade fotográfica. Perspectiva essa que se apresente como um dispositivo que possa gerir relações entre a ação fotográfica e o processo de pensar o mundo a nossa volta, gerando, dessa forma, outros encontros para a educação. Tem-se, dessa forma, a construção de um aparato que pode tanto nos auxiliar a navegar nas diversas representações da realidade, quanto um objeto pessoal com afetos singulares. A proposta da Caixa de Luz intenciona promover em cada discente-fotógrafo esse desdobramento entre o orientar-se e o afetar-se. Tem-se, nesse entendimento da fotografia como algo íntimo, uma ação de cartografar e outra de criar. Se, por um lado, serve como mapa que permite navegar no espaço e tempo no cotidiano, por outro, ilumina um pouco de nós em cada registro. De acordo com Flusser (1983, p. 7) “O homem se esquece do motivo pelo qual imagens são produzidas: servirem de instrumentos para Joyce Karla Ferreira Caris Elvis Renato dos Santos André Teruya Eichemberg Maria Júlia Barbieri http://www.facebook.com/alpendre.revista


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orientá-lo no mundo”. A ação de fotografar é o próprio movimentar-se sobre um tempo, criando toda uma geografia que não cessa de apresentar-se ao fotógrafo. O desenvolvimento, como a ação de caçar, dá-se entre olho, máquina e espaço, sendo, portanto, mediado pelo tempo. Como desenvolve Flusser: Trata-se de espaço-tempo nitidamente dividido em regiões, que são, todas elas, pontos de vista sobre a caça. Espaço-tempo cujo centro é o “objeto fotografável”, cercado de regiões de pontos de vista. Por exemplo: há região espacial para visões muito próximas, outra para visões intermediárias, outra ainda para visões amplas e distanciadas. Há regiões espaciais para perspectiva de pássaro, outras para perspectiva de sapo, outras para perspectiva de criança. Há regiões espaciais para visões diretas com olhos arcaicamente abertos, e regiões para visões laterais com olhos ironicamente semifechados. Há regiões temporais para um olhar-relâmpago, outras para um olhar sorrateiro, outras para um olhar contemplativo. (FLUSSER, 1983, p. 18)

A fotografia possibilita esta livre fruição entre regiões espaciais que promovem infinitos olhares, sentimentos e sensações. Ao mesmo tempo, tais vislumbres representam uma ação criativa, a saber: de fazer emergir um pouco de nós. Como bem coloca Arthur Omar:

Não se trata de captar a realidade. É apenas o ato que está circulando em suas veias. A fotografia não é a arte de captar, ao contrário, é uma arte de soltar. Fotografia: o esvair-se. O fotógrafo nada recebe, ao contrário, é como se, através do obturador aberto, ele se permitisse um vôo cego, um mergulho de se expor. Clic! (SANTAELLA apud OMAR, 1988, p.116)

Desse modo, a pesquisa elaborada e apresentada por meio de uma publicação fotográfica, num primeiro momento intenciona gerar o interesse do discente pelo universo fotográfico. Mas, trata-se, principalmente, de criar um processo afetivo que cada discente doa na própria ação e posterior reflexão fotográfica. Doar-se no sentido de se expor ao encontro de outras temporalidades que o cotidiano nos permite fluir. Observa-se, a partir dessas premissas, o interesse na relação da fotografia como interface que promove novos encontros e pensamentos entre o discente e o universo sígnico que os rodeiam. Estimular o pensar como encontro, desenvolvendo a possibilidade de agenciar uma multiplicidade de ideias. “Pensar é encontrar. Pensar com outro é encontrar-se com outra ideia, outro acontecimento do pensamento.” (KOHAN, 2003, p. 209). A fotografia traz à tona a própria construção da realidade de cada discente, visto que a necessidade do registro imagético é algo prazeroso e de valor intimista. Portanto, desenvolver uma publicação fotográfica acadêmica, é promover esses encontros possíveis entre o discente, a realidade e a educação. Além disso, uma vez que a revista se instaura em diversos cursos da Instituição de ensino, visa criar um ambiente fluido sobre a fotografia, bem como promover o aproveitamento interdisciplinar dos discentes, com diversidade de conhecimento e abrangência cultural.

CAIXA DE LUZ

A Caixa de Luz – microrrevista de fotografia – tem seu conteúdo expresso dentro de uma caixa de fósforo. Ao abrir a caixa, as imagens aparecem por meio de 5 colunas que se desdobram entre os dedos. A imagem dentro de


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uma caixa é uma alusão à câmara escura, que remete à invenção da fotografia, no início do século XIX, e também à sua função, a de agenciar a luz. A proposta de dar à luz uma revista de fotografia, cujo formato visual é tão diminuto, abrange o exercício de um outro olhar sobre a imagem, a saber: de compreender o registro fotográfico enquanto dispositivo visual intimista. Por meio de sua escala, tais representações se assemelham a pequenos objetos pessoais que ora nos fazem companhia, ora se perdem, ora nos dão alegria, ora se vão. As imagens aqui apresentadas se propõem a instigar nossa percepção sobre todo o processo de pensar a realidade por meio de seus personagens e formas, suas gradações e cores, suas delicadezas e paisagens, seus afetos e luzes. Para o número inaugural foram escolhidos 55 registros fotográficos – de um total de, aproximadamente, 500 fotografias pré-selecionadas – produzidos nas disciplinas de Meios de Expressão e Fotografia, pelos discentes dos cursos de Comunicação Social, Arquitetura e Produção Multimídia. De certa forma, o que se revela à retina são 55 afetos que atravessam com intenções visuais distintas. Cada registro nos permite ficar imersos em uma temporalidade singular, que sempre nos foge, que sempre nos tenta dizer algo, brincando com nosso olhar acostumado às grandes proporções ou detalhes hiper-realistas. Cada fotografia é apenas um recorte, um fragmento, um ponto da realidade, e não a realidade como um todo; a isso, cabe à própria experiência de fotografar de cada um. A proposta da revista vem ao encontro desse exercício livre de pensar o mundo, dizendo, portanto, menos sobre a fotografia em si e mais acerca de nós mesmos. Todo o conteúdo da revista foi planejado para ser inserido em uma folha A3 e esta, então, recortada em colunas e dobrada no formato a ser colocado dentro de uma caixa de fósforo. A revista foi lançada em 2012, com tiragem de 200 exemplares.

REFERÊNCIAS FLUSSER, Vilém. Filosofia da Caixa Preta. Ensaios para uma futura filosofia da fotografia. São Paulo: Ed. Hucitec, 1983. ______________. O Mundo Codificado. São Paulo: Cosac Naify, 2007. KOHAN. Walter O. Infância. Entre Educação e Filosofia. Belo Horizonte: Autêntica, 2003. SANTAELLA, Lucia; NOTH, Winfried. Imagem. Cognição, semiótica, mídia. São Paulo: Iluminuras, 1998.


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A fotografia de Pakayla Biehn vai além do exercício de apresentar o registro da imagem, ela mescla realidade e percepção. Pakayla Biehn se aprofundou nas conexões que existem entre a natureza e o ser humano, criando ensaios visuais simples, porém, singulares. http://www.youshouldtakecare.com/

PAKAYLA BIEHN por Ludimila Cristina

QUASE UM DROPS …

DEMERSAL por Lucas Dias

!"Demersal" é uma série de fotografias experimentais do fotógrafo Luka Klikovac, de Belgrado, que mostra a interessante aleatoriedade das formações de fluidos coloridos. Por meio de uma técnica de captura de imagens, submerso em água, ele conseguiu captar as formas liquidas abstratas suspensas em um copo d'água, com movimentos imprevisíveis e surreais, criando efeitos psicodélicos. O artista usou apenas sua câmera e um sistema especial de iluminação. http://www.behance.net/lukaklikovac


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QUANDO


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Lewis Carrol criou o País das Maravilhas em 1865, conquistando a admiração de seus leitores, não apenas pela história, mas pelas ilustrações de John Tenniel. O mundo de Alice sempre encantou crianças, jovens e adultos. O que muitos não sabem é que, em 1969, Salvador Dalí criou 13 gravuras baseadas no livro, e estas se tornaram uma das coletâneas mais procuradas pelos seus admiradores. Imagens encantadoras, inusitadas e deleitosas.

ALICE POR SALVADOR DALI por Ludimila Cristina

QUANDO UM DROPS …

INSIDE OUTSIDE por Maria Julia Barbieri

Inside Outside é um projeto inusitado. Criado pelos estudantes Luke Evans e Josh Lake, consistiu de comer e excrementar uma película fotográfica de 35mm. Cada pedaço de filme foi inserido dentro de uma pequena cápsula e, depois de capturado e, obviamente limpo, colocado num microscópio para visualização. O que se vê são belíssimas e instigantes imagens.

http://www.popfry.co.uk/


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FUJI KINDERGARTEN TEZUKA ARCHITECTS

Por Lucas Kaique Dias 01 A liberdade entre a educação e a arquitetura: Fuji Kindergarten

Localizada em Tokio, Fuji Kindergarten é uma escola infantil projetada pelo casal Takaharu e Yui Tezuka que consegue transmitir a liberdade, seja na proposta espacial ou educacional. O singular e inovador projeto apresenta esse intercâmbio fluido entre a educação e o espaço, num ambiente onde, habitualmente, tem-se a

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sensação de estar confinado, ocasionada pela obrigatoriedade de permanecer no local. Esta liberdade, inicialmente, pode parecer um mero capricho dos arquitetos, mas, mostra-se fundamental em toda a conceitualização do espaço. Pode-se compreender a contextualização da proposta arquitetural pelo jardim de infância, que se assemelha a um grande jogo aberto, em que as peças fundamentais para o desenvolvimento do mesmo são as próprias crianças e a potência

Fotografias . Commons License

criativa que o espaço lhes dá. A

Naoya Fuji 02, 03, 04, 05 Scarlet Green 01, 06

única barreira deste jogo são as limitações 03

indivíduo.

pessoais

de

cada


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Esta proposta de criar uma escola livre dos preceitos padronizados e empregados pela sociedade causa um grande impacto. Desde a base do projeto, que privilegia a fluidez, a integração e a inovação, até o modo como os métodos de ensino são propostos – fugindo do convencional e partindo para um outro parâmetro na relação escolar. A construção tem formato arredondado e a escola não possui paredes divisórias entre uma sala e outra, alcançando a sensação de estar continuamente integrado ao espaço como um todo. A proposta também influencia no modo como as aulas são ministradas. Diferente de uma escola tradicional, onde o professor torna-se o centro das atenções, neste modelo a liberdade e a mobilidade são os meios que os

arquitetos

encontraram

para

alcançar

uma

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educação focada na disciplina da mente e que cultiva o altruísmo junto aos estudantes.

Tanto a integração quanto a interação com a natureza ficam evidentes na leitura do projeto. Cada sala de aula é equipada com uma clarabóia que permite a penetração da luz solar ao longo do dia, e a abertura total de seus painéis corrediços de vidro, além de criarem a integração e continuidade do interior com o exterior, proporciona uma

ventilação

natural,

sem

a

necessidade de utilizar aparelhos de 05

ar-condicionado. As árvores que existiam no terreno


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foram

delicadamente

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mantidas

com

a

construção do edifício, pois, além de remeter ao respeito à natureza, segue a mesma linha de raciocínio de não se fazer prender em um único ambiente, podendo estar dentro e fora ao mesmo tempo. A ausência de limitação no local cria uma relação mais dinâmica entre os alunos. O intuito é priorizar a convivência entre 500 crianças, fazendo com que tenham percepções

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próprias do espaço, analisando os limites de cada um e gerando um processo de respeito e integração. A proposta é desenvolver a atenção, uma das diretrizes empregadas na ausência de divisórias entre as salas de aula. A atenção é, portanto, selecionada pela criança no processo de desenvolvimento cognitivo: ela escolhe o que lhe atrai a atenção e a maneira como pode interagir com essa informação. O projeto, por meio de seu desenho oval, apresenta um grande pátio interno-externo que funciona como palco extremamente criativo para as atividades. Essa liberdade é visualizada pelas infinitas demarcações que podem ser criadas no piso de terra batida. De acordo com a proposta, pode-se tanto desenhar um círculo para roda de conversa ou contação de histórias quanto criar linhas paralelas para uma atividade física de corrida, entre outras possibilidades. A duplicação do espaço de lazer obtida pelo teto-pátio torna-se tão necessária quanto a ausência de divisórias no local. Essas atividades ao ar livre tornam-se tão expressivas e coerentes para o processo educacional quanto aquelas exercidas internamente, aprende-se, portanto, por meio do espaço da escola como um todo. O pensamento é baseado no seguinte: se o projeto é feito para as crianças, então, por que não pensar como uma? Não trata-se de pensar de modo infantilizado, mas sim de compreender a infância como um jogo aberto de possibilidades criativas. O pé-direito mais baixo no anel onde ficam as atividades internas, trabalha bem essa escala infantil, fazendo com que a criança pense, observe e comece a tirar suas próprias conclusões. Estes detalhes foram pensados e fielmente executados no local, onde não é necessário entender de arquitetura para sentir o que o edifício quer falar.


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O fotógrafo Bob Carey colocou sua dignidade em jogo por uma boa causa: o combate ao câncer de mama. Desde 2003 ele faz autorretratos em locais inusitados vestindo somente um tutu rosa (tipo de saia utilizada por bailarinas). O projeto, que começou como uma brincadeira, atualmente tem o objetivo de arrecadar 75 mil dólares para ajudar mulheres que lutam contra a doença. A ideia de beneficiar organizações como a Cancercare surgiu depois que sua esposa, Linda, foi diagnosticada com esse tipo de câncer. Acesse e conheça: http://www.thetutuproject.com/

THE TUTU PROJECT por Mariana Biork

QUANDO UM DROPS …

LIVE I SEE DEAD PEOPLE por Mariana Biork

Mórbido e poético. É assim que podemos descrever a ideia de Hatim el Hihi e Jean-Marie Delbes, que criaram um site onde capas famosas de discos são reconstruídas sem os músicos que já foram embora desta vida - como se aos poucos eles também fossem se apagando da nossa memória. http://liveiseedeadpeoples.tumblr.com/


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CARTOGRAFIAS AÉREAS CONTOS DE NADA PAISAGENS DES FOLHADAS

por Jurandy Valença

O que me incomoda: {Inércia}

O que me faz chorar? O desejo.

O que me faz pensar: [O humor]

O que intimamente curto? Sexo.

Gosto de palavras incomuns como calmâncias e maravilhâncias; e de palavras bonitas como brandura e desatino. [Nasci em Maceió, Alagoas, mas sou de qualquer lugar. Tento caber no meu metro, mas algumas vezes vou além. O mar nem sempre tá pra peixe, mas ainda assim há água. O meu nome e sobrenome tem sete letras Como sete são as letras de ARREBOL DESAGUE e SAUDADE]. .j.v.


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CARTOGRAFIAS AÉREAS. fotografia 2012.


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CARTOGRAFIAS AÉREAS. fotografia 2012.


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CARTOGRAFIAS AÉREAS. fotografia 2012.


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CARTOGRAFIAS AÉREAS. fotografia 2012.


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CARTOGRAFIAS AÉREAS. fotografia 2012.


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CONTOS DE NADA. fotografia 2010.

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PAISAGENS DES FOLHADAS. fotografia 2010.


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PAISAGENS DES FOLHADAS. fotografia 2010.


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CASA QUE ME FALA Por Mariana Biork É um lar. Uma casa pode ser descrita por sua arquitetura moderna, por suas instalações de alto nível, pela quantidade de banheiros ou de quartos, mas, um lar, não. Lar é onde você se sente seguro, onde suas aventuras mais loucas de criança se tornaram realidade. É onde você divide as tristezas e multiplica as alegrias. Acredito que quem faz o lar são as pessoas, o carinho, o afeto, o amor. Eu sempre tive um lar, onde quer que eu estivesse, sempre me sentia segura, cuidada, feliz, pois eu sempre tive aqueles que amo perto de mim. Mas há sempre aquele lugar especial, que marca a vida de todos aqueles que um dia estiveram lá. A história desse meu lugar especial começa há muitos anos atrás, quando meu pai ainda era uma criança brincalhona que vivia sob os cuidados do meu bisavô, o simpático pipoqueiro da praça. Viajo nas memórias de meu pai, sorrindo a cada descoberta de suas estripulias infantis, de suas aventuras pelo pé de jabuticaba, o castelo onde era rei soberano, aclamado pelo povo, que dizia ser o rei mais bondoso que já tiveram. Esse rei cresceu, passou o trono para a filha mais velha, que também sonhava governar. O castelo se manteve forte por anos e anos, batalhas contra reinados inimigos foram travadas, grandes confrontos de espada entre os mais bravos guerreiros levavam os súditos à loucura e fervor. Mas, em um dia frio de agosto, o castelo foi destruído, levando consigo toda a maga que havia em um simples pé de jabuticaba. Choveu aquela semana toda, lágrimas silenciosas de todos aqueles que assistiam, em silêncio, a grande brincadeira. Volto ao presente com lágrimas de saudade nos olhos. Ao voltar a remexer no passado, me dou conta de quantas histórias eu e toda a minha família já vivemos dentro destas paredes simples de uma casa de bairro residencial. O jardim nunca foi apenas um jardim, era a cozinha experimental das irmãs Biork, onde preparávamos os melhores bolos de chocolate, com cobertura de pétalas de rosa, uma iguaria difícil de se encontrar hoje em dia. A horta do vovô era uma floresta inexplorada, cheia de coisas interessantes que instigavam os sentidos das pequenas irmãs, “ah, se elas pudessem entrar lá para pegar novos ingredientes para os seus bolos..”. As brincadeiras na rua eram frequentes. Dar voltas de bicicleta pelo bairro era coisa a se fazer todos os dias, com grande empolgação e entusiasmo. São palcos de brincadeiras como essas que fazem um lugar ser especial, que ficam nas memórias mais profundas, que nunca nos esquecemos. O


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tempo passou, e as brincadeiras fantasiosas ficaram nas minhas lembranças e também nas de minha irmã. Hoje, olhamos com saudade para as fotos da infância, penduradas uma a uma nas paredes de casa. A foto preferida é aquela que fica no cantinho, escondida, que é para ninguém ficar olhando muito. Sentada no colo do vovô, com jeitinho de quem está prestes a aprontar, um registro do que era comum acontecer naqueles tempos. Hoje, posso dizer que tive uma infância completa. Repleta de brincadeiras, de alegrias e de molecagens naturais da idade. Posso dizer, com orgulho, que brinquei de boneca até os doze anos, que subia em árvores que se transformavam em castelos e andava pelas ruas de bicicleta. Posso dizer, também, que aventuras como aquelas eu nunca mais tive e nunca mais terei, pois são especiais, são únicas. Cada criança tem suas próprias aventuras que, mais tarde, tornam-se saudade. Meu pai se lembra até hoje do cavalo de madeira, aquele feito com cabo de vassoura, que era mais forte do que muito touro bravo por ai. O que falar das bolinhas de gude, então? São relíquias valiosas, troféus destinados apenas ao melhor jogador da rua. E tudo isso aconteceu no mesmo lugar, o nosso lugar, o lar da família Biork. Talvez, em alguns anos, esse lugar tão especial para mim não passe de uma lembrança boa. Não sei o que a vida prepara para o meu futuro, mas sei que as memórias do passado ninguém pode me tirar, e são elas que me guiam e fazem de mim o que sou hoje. Foi a presença forte de meu bisavô que, com seus cabelos brancos como algodão, era chamado carinhosamente de “vôzinho”, foi o exemplo de meu pai, um homem sonhador que me ensinou, acima de tudo, a sonhar, mas, com os pés no chão, que é para não me perder pelas ventanias. E foi minha mãe, a grande rainha dos castelos de jabuticaba. Pode ser que nada disso tenha a ver com minha casa, que ela tenha sido apenas um imóvel qualquer, uma casa que foi escolhida entre tantas outras por seu preço e boa localização. Mas, me perdoem, minha alma sonhadora de quem já foi uma princesa de mentira não consegue acreditar nisso. Assim como um dia acreditei em seres mágicos que nos encantam na infância, acredito que tudo acontece por um propósito, que tudo e todos têm um propósito. Talvez, se tivessem escolhido a casa da rua debaixo, minhas histórias e as de minha irmã não seriam tão cheias de magia. Não teríamos nossa árvore encantada e nada disso que contei a vocês teria acontecido. Talvez essa casa, repleta de memórias, seja mais importante para a minha história do que um dia eu imaginei. Talvez haja mais magia nesse mundo do que nos fizeram acreditar.


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A palavra, porém, não é o símbolo ou reflexo do que significa, função servil, e sim o seu espírito, o sopro na argila. Osmar Lins

“Como no universo da arte contemporânea, um jovem arquiteto deve seguir hoje em dia táticas transversais. Ele deve ser muito flexível, como um elétron livre reformar-se em cada novo projeto de acordo com uma estrutura diferente.”! Vincent Callebaut é um arquiteto belga que chamou atenção desde sua época acadêmica, não só pela sua notável aptidão criativa, como pelos seus conceitos coerentes e futuristas acerca de um mundo em transformação.

O Arquiteto da Utópica Civilização Verde Por Ludimila Cristina Suas obras não foram construídas, mas o simples fato de ver seus desenhos e projetos causa grande impacto visual e emocional. De repente, você se imagina dentro destes ambientes, em realidades completamente singulares, caminhando por entre refúgios da natureza que se inserem hibridamente no mundo contemporâneo e, pouco a pouco, percebe-se quão forte poderia ser a expressão “desenvolvimento sustentável”. Sendo um dos mais instigantes pensadores sobre interconexão da arquitetura e questão ecológica, Callebaut coloca em debate, por meio de uma grande diversidade de projetos e ideias arquiteturais, a existência do homem no futuro, como devemos morar e nos relacionar no que ele chama de Ecopolis. Com a ideia de que as cidades devem se tornar autossuficientes, peritas em reciclagem e agricultura biológica, seu pensamento crítico, dinâmico e com força de expressão, criou projetos como Dragonfly, cujo espaço ganha uma forma livre que se conecta com as questões ecológicas e as funções do edifício. Em suma, Callebaut cria projetos para um mundo que ainda não se articulou e, por isso mesmo, não tem uma assinatura definida ou autoral de sua arquitetura, mas seus ideais podem servir como importante exemplo para o que virá a ser a expressão de uma arquitetura contemporânea que ainda está


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para nascer. Na proximidade, no afeto e no conhecimento vemos um desejo nem sempre admitido, mas que Callebaut transcreve em formas nos projetos que faz, buscando tirar a venda dos olhos e mostrar que há mais a sentir, viver e fazer daqui pra frente.

The Red Baobab!: A Biblioteca do Sentir

Surge um ponto, e este se desloca movido por uma força criativa. Ele cresce e diminui, sobe e desce, ascende e transcende limites, cria caminhos e espaços, dá forma sem ter de se impor. O que surge é a Biblioteca Baobab. Vincent Callebaut faz o lápis dançar à sua maneira e o que antes era só vazio, torna-se matéria. O espaço surge da necessidade de ser utilizado, sendo que esse desejo só transparece depois que já foi saciado, experienciado. As linhas sinuosas não dividem, elas vão se estendendo além do limite, desenvolvendo lugares e formas que ora se unem, ora se aproximam, que falam ao corpo e se calam perto dele, nos dando sensações de humanidade e a percepção sobre um desejo que não se sabia existir. O espaço todo fala, faz perceber novas configurações cognitivas, entre o próprio espaço e o ambiente que nos rodeia. O Projeto da biblioteca The Red Baobab foi dividido em dois volumes principais, Hub e Belvedere. O Hub é um volume horizontal, uma caixa que se abre para os que por ali queiram passar. Seu plano é aberto, criam-se ruas interiores que fazem a continuação dos fluxos exteriores e quem passa tem a oportunidade de conhecer a livraria, as salas de exposições e o café literário, sem perder seu precioso tempo. Já o Belvedere distingue-se no skyline da cidade, pois se estica, sobrepõe e cresce na verticalidade. Além da distinção da forma, seus volumes são livres, criam panoramas e abraçam o entorno, criando conexões entre dentro e fora. De toda essa união surge uma arquitetura orgânica que, inspirada na Baobab, pode ser dividida e classificada de acordo com os elementos de uma árvore.


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O tronco é o principal elemento estrutural de suporte e transporte, ele possibilita a circulação. Partindo dele, surgem os ramos, que abrigam as áreas de trabalho, encontro e exposições, atravessando toda a edificação, abrem-se em terraços, criam vistas e lugares de relaxamento e meditação. As folhas preenchem o espaço, sendo mutáveis, interpõem-se entre os ramos em áreas de armazenamento, na forma de amplas varandas e interfaces de controle. E, para quem tem veículo, há, juntamente com as salas técnicas, um estacionamento em quatro níveis subterrâneos, que, como porta de entrada, assemelha-se às raízes. Ao se basear na natureza, o projeto prevê o uso de tecnologias modernas para minimizar os impactos ambientais da construção. Os jardins da cobertura absorveriam parte da poluição atmosférica e sonora circundante, enquanto a camada dupla externa do edifício – uma espécie de invólucro – faria a função de isolamento térmico e aproveitamento da luz solar. No período noturno ou quando a biblioteca encontrar-se fechada, suas fachadas apresentariam iluminação com cores relacionadas ao fluxo da principal avenida próxima. O principal desejo do projeto é o bem estar dos usuários com a paisagem, pois, para Vincent Callebaut “a biblioteca não tem que ser intrusiva, mas onipresente!”.

! DIGITAL, Efervescência. Vincent Callebaut. Paris, França. 2007. Site: http://vincent.callebaut.org/page_texte-img-digitaleffervescence.html (acessado em 16/04/2012). " MARTIN, Agnès apud CALLEBAUT, Vincent. Paris, França. 2007. Site: http://vincent.callebaut.org/page_texte-img-digitaleffervescence.html (acessado em 16/04/2012). # O Baobab (Adansonia) é uma árvore que chega a alcançar alturas de 5 a 25 m, e até 7 m de diâmetro do tronco. Destaca-se pela capacidade de armazenamento de água dentro do tronco, que pode alcançar 120 mil litros, e pode apresentar o interior do mesmo oco, muitas vezes utilizado para a moradia de algumas famílias. Desenvolve-se em áreas áridas, como, por exemplo, algumas regiões da África, e tem folhas caducas, que caem durante a estação seca. Algumas têm a fama de ter milhares de anos, mas como sua madeira não produz aneis de crescimento, isso é impossível de ser verificado. Existe o mito de que ela foi virada ao contrário, ficando com as raízes para cima, porque reclamava muito aos deuses o fato de não ser tão bela como as outras árvores.


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Dolor Sit Amet Sayaka Gans passou sua infância no Japão e, lá, conheceu a crença Shinto de que objetos descartados prematuramente choram à noite no caixote de lixo. Ela desenvolveu uma paixão por reagrupar e dar vida a coisas que antes seriam consideradas

inúteis,

transformando-as

em

esculturas de animais, feitas com objetos de plástico, que demonstram movimento, diversidade e colaboração. Seu trabalho é ecológico e passa a lição de que nem tudo que descartamos é realmente inútil.

OBJETOS QUE CHORAM por Ludimila Cristina

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ÚLTIMA REFEIÇÃO por Mariana Biork

Se você soubesse que sua próxima refeição seria a última, o que pediria para comer? Pensando nisso, o fotógrafo inglês James Raynolds documentou diversas ultimas refeições de condenados à morte nos EUA. De gigantescos pedaços de frango, com direito a batata frita e milk shake, a uma única azeitona, o trabalho do fotografo faz uma reflexão da natureza idiossincrática humana. Site:

http://www.jwgreynolds.co.uk/index.php?%2Flast-suppers%2F


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Eduardo Marins, 2012

Revista Alpendre #3  

Qualquer, quase, quando...

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