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nº 38 | dezembro de 2012 |

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histórias sobre números


POR UM LADO, FIZEMOS HISTÓRIA.

facebook.com/comunicacao40anos


carta ao leitor

RODRIGO BLUM

Aprendendo a contar

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ornalistas normalmente dizem que não gostam de fazer contas. A maioria dos que escolhem a profissão prefere as letras. Mas não são só os que optam pela editoria de econo-

mia que passam a conviver com os números. Eles estão por toda a parte. Alguns são ruins de serem noticiados, como o de mortos, analfabetos, desnutridos, doentes. Outros são ótimos de serem divulgados: de sobreviventes, de vitórias, de reais acumulados na Mega-Sena. Os dígitos fazem parte da vida dos jornalistas porque fazem parte da vida dos seres humanos, todos os dias, desde o nascimento até a morte. Carteira de identidade, CPF, telefone, matrícula, título de eleitor, casa, apartamento, cartão-ponto, pé, camiseta, horas, calça, graus de óculos, registro profissional, mesada, salário, dia do aniversário, idade, senhas. É impossível viver sem eles. Por isso, os repórteres e fotógrafos da Primeira Impressão 38 elegeram os números como protagonistas de suas pautas. Como sempre, a escolha foi por votação. Ganhou o tema que recebeu o maior número de votos. No total, foram 21 reportagens, para as quais foram ouvidas 64 pessoas. Das 3.217 imagens captadas, foram publicadas 90. São 100 páginas produzidas em um semestre no qual futuros jornalistas aprenderam que é possível contar histórias a partir dos números. Queremos agora dividi-las com você.

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Thaís Furtado Editora de textos Flávio Dutra Editor de fotos


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Arte: Amanda Heredia

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LEONARDO SAVARIS

SOILA BORGES

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JULIANA SPITALIERE

(Filmes)


8 ½ – Federico Fellini, 1963

PEDRO BELO GARCIA

Um corpo que cai – Alfred Hitchcock, 1958

2001, uma odisséia no espaço – Stanley Kubrick, 1968 Os sete samurais – Akira Kurosawa, 1954 O sétimo selo – Ingmar Bergman, 1957 Branca de Neve e os sete anões – Walt Disney, 1937 Doze homens e uma sentença – Sidney Lumet, 1957 Milagre na Rua 34 – George Seaton, 1947 Quatro casamentos e um funeral – Mike Newell, 1994 A montanha dos sete abutres – Billy Wilder, 1951 O quatrilho – Fábio Barreto, 1994 1900 – Bernardo Bertolucci, 1976 O sexto sentido – M. Night Shyamalan, 1999 Os trinta e nove degraus – Alfred Hitchcock, 1935 Rua 42 – Lloyd Bacon, 1933 Os doze condenados – Robert Aldrich, 1967 007 contra o satânico Dr. No – Terence Young, 1962 Num ano de treze luas – Rainer Werner Fassbinder, 1978 Trinta anos esta noite – Louis Malle, 1963 De repente 30 – Gary Winick, 2003 Dona Flor e seus dois maridos – Bruno Barreto, 1976 Sete noivas para sete irmãos – Stanley Donen, 1954 360 – Fernando Meirelles, 2012 21 gramas – Alejandro González Iñárritu, 2003

Três solteirões e um bebê – Leonard Nimoy, 1987 Os três mosqueteiros – Richard Lester, 1973 Pi – Darren Aronofsky, 1998 Houve uma vez dois verões – Jorge Furtado, 2002

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Onze homes e um segredo – Steven Soderbergh, 2001


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A ONG Brasil Sem Grades é o caminho que Luiz Fernando Oderich escolheu para ajudar outras famílias a amenizar o sofrimento da perda de um parente para a violência Texto: Luciana Andreatta. Fotos: Bibiana Kranz e Giovane Cintra

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a desigualdade social, o jovem fez trabalho voluntário em algumas vilas de Porto Alegre ensinando informática. À medida que ia avançando no curso de Administração, percebeu que já possuía conhecimentos técnicos para ajudar pequenas empresas. Passou, então, também de forma voluntária, a prestar assessoria em empresas da incubadora empresarial da Restinga. Já próximo de se formar, voltou a residir em São Sebastião do Caí e a trabalhar com o pai. Max mal esperava para poder ter em suas mãos o diploma. Uma semana antes da formatura, no dia 26 de agosto de 2002, foi a Porto Alegre para comprar o terno com o qual provavelmente estaria vestido em um dos dias mais felizes de sua vida. De repente, em apenas um instante, talvez um descuido, os sonhos de

toda a família estavam interrompidos. Max saiu da loja onde comprou o terno da formatura, deixou a vestimenta no local para alguns ajustes e combinou de se encontrar com um amigo em frente à casa dele. Quando chegou, ficou aguardando no carro que o amigo chegasse. O que não esperava foi o que aconteceu. Houve uma tentativa de assalto, da qual ele provavelmente tentou fugir e foi alvejado. O amigo achou que Max tinha passado um trote, pois, quando desceu, ele não estava na frente do prédio, mas logo percebeu o que estava acontecendo. Ainda abalados por toda a tragédia familiar, os pais, Luiz Fernando e Mabel, buscaram o diploma do filho no dia da formatura. Houve um certo receio de que no fim a cerimônia fosse triste, comparada a um

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enos um, um número negativo, que pode ser associado a perda ou subtração. Para algumas pessoas, perder algo, ou alguém, não é só um número. É a perda de sonhos, de histórias, de planos. Mas também existem pessoas que transformam essa perda em uma soma na vida de muitas outras, através de ações que lhes orientem, lhes ajudem a não passar pelo mesmo sofrimento. É o caso da ONG Brasil Sem Grades. A história de Luiz Fernando Oderich poderia ser só mais um episódio da violência que assombra as cidades brasileiras e que lhe causou a maior perda de sua vida, o filho Max. Max era o orgulho do pai. Aos 26 anos tinha planos traçados, entre eles assumir a empresa da família e escrever um livro. Preocupado com a pobreza e com


gIOVANE CINTRA

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velório, mas não foi o que aconteceu. Iniciando setembro, quando todos falavam das homenagens que estavam prestes a acontecer, pela lembrança da tragédia de um ano do atentado ao World Trade Center, Luiz Fernando se questionava a respeito das tragédias que aconteciam diariamente nas ruas brasileiras. Então escreveu um artigo para o Jornal Zero Hora, intitulado Em nome da mãe. Em nome do filho. No texto, defendia a ideia de que todos estão presos a grades, enquanto os criminosos estão soltos, e que não é possível se acostumar com essa ideia. Em um trecho do artigo dizia: “O Brasil que precisamos é um Brasil Sem Grades (exceto as da cadeia)”. Nesse momento, foi criada a expressão que deu origem a ONG Brasil Sem Grades. No último dia 26 de agosto, completou-se dez anos da morte do filho de Luiz Fernando, bem como praticamente dez anos de criação da Brasil Sem Grades. Entre as ações da entidade para o enfrentamento da violência, estão a defesa do planejamento familiar, a paternidade responsável e a revisão da legislação penal. Algumas ações da ONG, juntamente com iniciativas do governo e outras entidades, já deram resultados, como a queda da taxa de natalidade. Luiz Fernando tece duras críticas ao ministro da justiça, Marcio Thomaz Bastos, responsável por medidas que abrandaram a lei. “O Ministro mexeu na lei de execuções penais. Antigamente, se o cara era muito perigoso, mesmo que tivesse passado o prazo, não era liberado automaticamente, justamente porque ele era muito perigoso. Marcio Thomaz disse: passou um terço da pena, tem que liberar e pronto, não interessa quem é. E no ano passado, os crimes de menor poder ofensivo também foram liberados. Por isso que está aumentando a criminalidade.” Luiz Fernando estudou muito nesses últimos anos sobre criminalidade e diversos assuntos afins, para que pudesse falar com propriedade. Algumas fórmulas que explicassem a criminalidade

Luiz Fernando perdeu o filho, Max, assassinado durante um assalto


mais, mas ele poderia. Chegaram a discutir o assunto e, em respeito à memória de Max e à esposa, decidiu que não queria, afinal, também se sente completamente realizado como pai. O Max será sempre o filho ideal. Por ele, Luiz Fernando luta para que tragédias como a que viveu não ocorram na vida de outras pessoas, fazendo tantos pais órfãos de filhos. Diferentes reações à perda inesperada Para a mestre em psicologia social e da personalidade Elisabete Maldaner, uma tragédia desse tipo, com a perda inesperada de um familiar, gera um choque muito grande em toda a família, além de sentimentos como tristeza, ansiedade, medo e raiva. Mas cada pessoa reage de um modo diferente. “Parece haver um rodízio entre os membros da família: o que chora, o que é rebelde, o que não quer falar sobre o assunto, o que se desespera, o que mantém a calma, o que decide. É impossível pensar em uma única reação. O relacionamento anterior com a pessoa falecida, as pendências, a existência de conflitos e os constantes questionamentos do que poderia ser feito para evitar a perda, vai influenciar na intensidade e na duração do luto.” Elisabete explica que, em casos como o de um homicídio, além do medo de outro acontecimento semelhante, o acompanhamento das investigações em busca de culpados em geral é muito difícil para a família. “Acaba sendo extremamente desgastante e sofrido o contato com a polícia em virtude do descaso de muitas autoridades, da ausência de providências imediatas e efetivas por parte da polícia, além de exaustivos processos criminais em busca dos responsáveis. Não encontrar os culpados é mais um fator que dificulta o processo do luto.” A criação de uma ONG, ou entidade que una pessoas que passaram pelo mesmo sofrimento, é uma das maneiras que alguns encontram de superar o luto e seguir a vida. “Envolver-se em projetos sociais e em trabalhos educativos no intuito da prevenção daquele tipo de perda ou com o objetivo de dar apoio a pessoas que passaram por uma situação semelhante é a saída que alguns familiares encontram para dar um novo sentido à vida”, destaca Elisabete.

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emorei algum tempo para conseguir definir um assunto que achasse relevante e interessante dentro do tema definido para a revista. Descobri então a Brasil Sem Grades. Marcamos um único encontro, pois Luiz Fernando não mora em Porto Alegre. A entrevista foi na sede da ONG. Uma sala pequena, com algumas fotos e banners de Max, seu filho. Fui muito bem recebida pelo presidente da entidade, que disse não ter pressa. Pediu para não ser fotografado de corpo todo, pois costuma ficar sem sapatos. Percebi o quanto o assunto sobre a morte de Max ainda mexe com ele ao perguntar, no final da entrevista, se havia pensado em ter outros filhos. Após um longo suspiro, ele me respondeu que não. O contato com a psicóloga Elizabete também foi importante para ter uma ideia de como as pessoas reagem, de modo geral, a situações de uma perda inesperada. Percebi a importância de se respeitar o tempo de luto de cada pessoa e deixá-la decidir o melhor momento para buscar tratamento e se adaptar a nova realidade.”

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foram desenvolvidas. A que ele defende diz que o crime é igual ao benefício menos a probabilidade de ser preso, que no Brasil está em quase zero. É por isso, na sua opinião, que as pessoas cometem crimes, pois ficarão impunes. Dois caminhos para se ter mais segurança são defendidos por Luiz Fernando. Um deles é dentro das famílias. Uma vez que a sociedade entender que o planejamento familiar é necessário, só irá colocar no mundo as crianças realmente desejadas e assim oferecer o carinho e a atenção necessários para que elas se tornem adultos de bem. Divórcios ocorrem, mas a responsabilidade do pai com um filho não pode ser deixada de lado. A criança não pode ser abandonada. “Se a pessoa ao teu lado, teu vizinho, faz isso, ela não é uma pessoa legal. Não pode ser considerada boa pela sociedade.” Na esfera do governo, para ele, o caminho seria efetivamente abrir mais vagas em penitenciárias, porque aumentando a probabilidade de a pessoa ser presa, diminui o benefício. Luiz Fernando defende que, no momento que as pessoas perceberem que se cometer algum crime serão presas, a violência para. E destaca o exemplo de Nova Iorque, onde o prefeito Rudolph Giuliani conseguiu diminuir drasticamente a criminalidade com uma medida chamada Broken Windows, ou tolerância zero. Entre os caminhos sugeridos, estão que a sociedade pressione os deputados, para que a revisão da legislação penal comece ao menos a ser discutida. Luiz Fernando diz que sempre que pode vai a Brasília pedir, mas diferente de outros grupos organizados, como os grevistas, sua ONG não tem um sindicato por trás, com financiamentos, para ajudar nos custos. Os parentes de vítimas não têm isso, precisam pagar o hotel, a comida, parcelar a passagem, são trabalhadores, são empregados e não podem ir sempre lá pressionar o governo. Depois de muita conversa e explicação, uma última pergunta causou um suspiro e a demonstração de como não é nada confortável o assunto da morte de Max, o que obviamente não deve mesmo ser a ninguém que perde um familiar assassinado brutalmente e que tem os seus sonhos devastados pela violência. Luiz Fernando não pensou em ter outro filho após a tragédia. A esposa não poderia


Os números de (1)berto Gessinger Em vez de aprisionar, a relação metódica do músico com as quantificações liberta seu processo criativo Texto: Ananda Franco Garcia. Fotos: Cristiane Abreu e Lisiane Machado

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nquanto, para uns, os números expressam exatidão e limitação, para outros, podem ser libertadores. A maneira de se relacionar com eles varia para cada pessoa. Uns podem fazer conta. Outros podem fazer música. A música é matemática pura, na rima, na métrica e até na afinação. O músico Humberto Gessinger, fundador da banda Engenheiros do Hawaii, vivencia os números em sua amplitude. Já fez conta, faz muita música, já fez livros com nome de números e até música com nome de Números. Para Gessinger, a matriz matemática da música, que pouco se modificou nos últimos séculos, tem o poder de acalmar ou excitar o cérebro. “Tem alguma coisa estrutural na música que eu não vejo nas artes plásticas, não vejo na literatura, no teatro”, explica. Nunca foi muito bom em matemática, porém, na hora de prestar vestibular, escolheu nas Ciências Exatas o curso de Arquitetura da Ufrgs, “Um curso que está na esquina entre a engenharia e as artes plásticas”, acrescenta. Essa escolha Gessinger vê como um complemento às suas competências para as áreas humanas. Ou então uma busca nada fácil na tentativa de alinhar e afinar as várias variáveis existentes dentro

dele. “Desde moleque todo mundo falava que eu ia ter a minha vida ligada à palavra escrita e todo mundo achava que eu ia fazer uma coisa assim, letras, jornalismo. E nunca passou pela minha cabeça, sempre fiquei a fim de fazer algo mais pro lado das exatas mesmo. Eu acho que tu busca fora coisas que te complementem.” O curso de Arquitetura Humberto Gessinger não concluiu, mas ainda preserva a mania de brincar com módulos. Ele monta e remonta músicas, como se fossem blocos, construindo novos sentidos e contextos para as canções. Depois de tantos anos de carreira, confessa um medo: virar cover de si mesmo. “É muito raro pintar uma música do início ao fim. Poucas aconteceram na minha carreira assim. A gravação da música é a fotografia de como ela estava naquele momento, mas tu não é a foto que tu bateu quando tu tinha 15 anos, tu é a foto que tu bateu hoje, então é uma constante evolução. Eu acho que as músicas são assim também.” O músico comenta no seu livro Pra Ser Sincero: 123 Variações Sobre Um Mesmo Tema a característica de recompor e remontar algumas composições. Trata-se de uma espécie de autobiografia dividida em três partes:


Cristiane Abreu

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Humberto Gessinger diz que não relaciona fatos e números, nem os utiliza de forma mística


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or mais que os números estejam impregnados no nosso dia a dia de diferentes formas, é extremamente difícil traduzir suas inúmeras combinações de forma palpável para o leitor. Quando a simples sequência de números deixa de ser algo abstrato e passa a ter outro significado? Durante a produção desta matéria, fui levada a exercitar o lado mais observador do ofício de reportar. Não saberia dizer se o fato de ser fã do trabalho de Gessinger ajudou ou atrapalhou nesse processo. Por um lado, eu e a fotógrafa Cristiane Abreu conhecemos profundamente a carreira daquele homem obcecado pelos números, e isso nos dava certa propriedade em abordálo na entrevista. Porém, por outro lado, não podíamos cair na armadilha de encará-lo com olhos de fãs, que tendem a achar que seu ídolo é uma espécie de gênio intocado. O desafio era desvendar a relação de Gessinger com os números e entender porque eles têm tanta influência no seu processo criativo. No táxi que nos levou até o prédio, Humberto Gessinger nos dava razão. Subimos cada degrau seguindo as leis da Infinita Highway, sem deixar de unir o otimismo da vontade com pessimismo da razão. Os olhos esquadrinhavam cada canto. Era impossível não se sentir honrada por estar ali, afinal, cada canto contava um pouco da história de uma das nossas bandas favoritas. Parecia inacreditável que aquele cara de timidez tipicamente germânica estivesse abrindo as portas de sua casa para nos receber para um bate-papo sobre números!”

a história do músico; 123 letras comentadas e uma parte final escrita pelo professor Luís Augusto Fischer, na qual escreve sobre a importância da banda Engenheiros do Hawaii na cena cultural do País. Em todas as situações numéricas que aparecem no livro, Gessinger utiliza o “123” para quantificar, como nos 123 anos da tia Rosina ou os 123% de teor alcoólico do licor que ela preparava. Ao escolher as 123 letras, se obrigou a ter um olhar mais analítico sobre sua carreira. “Se eu colocasse todas, eu nem ia olhar, ia colocar direto. Escolher foi uma armadilha que eu fiz contra mim mesmo. Aí eu arbitrei esse número, mais pela abobrinha dele mesmo 1, 2, 3. Poderia ser qualquer outro número. E depois eu fiz o livro Mapas do acaso: 45 variações sobre um mesmo tema, que vai seguindo essa escadinha. E é uma abobrinha formal, a arte é muito feita disso, muito feita de arbítrio.” A sequência 1, 2, 3 e o próprio número 3 tem um significado na história do músico, que ultrapassa o valor numérico das letras impressas no livro. Durante muito tempo, os Engenheiros do Hawaii foram um trio. Uma trilogia é formada pelos discos A Revolta dos Dandis, Ouça o que eu Digo, não Ouça Ninguém e Várias Variáveis. As cores de fundo da capa de cada álbum formam as três cores da bandeira do Rio Grande do Sul. “O três é início, meio e fim”, acredita Humberto, para quem os três lados do triângulo representam uma forma muito estável. “O um é unidade, o dois é simetria, no três que a coisa começa a ficar interessante, é aí que tu começa a poder fazer jogos internos”. Gessinger já usou o número três diversas vezes em sua discografia. O número está presente nos versos de Longe Demais das Capitais, que dá nome ao primeiro disco dos Engenheiros. “O 3º sexo, a 3ª guerra, o 3º mundo”. Os três patetas e os três poderes também viraram música em A Revolta dos Dândis II. Esse três não é por acaso. A canção Três minutos, do álbum Minuano, também exprime essa afeição pelo número. “Só acredito no que pode ser dito em 3 minutos; Eu grito e repito, só te peço 3 minutos” (3 Minutos , álbum Minuano, 1997). “Na época em que escrevi a música, estava bem obcecado por essa coisa do três. Eu tinha lista de coisas que eram três, os três astronautas, os três patetas. No rock’n roll o Power Trio (guitarra, baixo e bateria) é a uni-

dade mínima, a célula.” É na letra de Números, do álbum 10.000 Destinos, que o músico deixa mais explícito o seu pensamento em relação às quantificações. Quando compôs a letra, o artista transformou em melodia muito do que palpitava na mente, ou pelo menos na televisão de milhares de brasileiros. Era o início dos ibopes em tempo real na TV, que levavam diretores e produtores à loucura. Foi mais ou menos esse fenômeno que o músico quis expressar na letra de Números, acrescentando a frase de Santo Agostinho sobre a medida imensurável do amor. “Última edição do Guiness Book, corações a mais de mil, e eu com esses números? Traço de audiência, tração nas quatro rodas e eu, o que faço com esses números?” (Números, álbum 10.000 Destinos, 2000). “Eu achava supersurreal os caras ficarem histéricos nos programas e sem saber que o número precisa ser interpretado. Por si só ele é uma coisa fria. O número é um indício, mas ele não dá informação total sobre as coisas. Isso acontece na música também. E acho muito perigoso, é uma maneira errada de interpretá-los. Antes, era vender não sei quantos discos, agora, é não sei quantos clicks.” Gessinger diz que não relaciona fatos e números, nem os utiliza de uma forma mística. “Isso é forçação”, sustenta. Assim, a maneira como ele se relaciona com o relógio revela uma pontualidade quase neurótica. Quem acompanha o artista na web sabe que sempre no dia 11 de cada mês ele faz uma twitcam. No seu blog ele posta toda a semana pontualmente sempre que segunda vira terça. Gessinger garante que a escolha é arbitrária. Para ele, vale a máxima “disciplina é liberdade.” “Muita gente me pergunta por que eu faço sempre as twitcans no dia 11. Essa coisa da disciplina é muito importante pra mim. Quer dizer, eu arbitrei o número 11, podia ser dia 13. Pra mim é mais libertador do que restritivo. Muito mais prisioneiro eu seria se a minha atitude em relação à twitcam ou ao meu blog fosse ‘ah vou postar quando eu tô a fim’, aí eu seria escravo do quando eu tô afim, quem sabe quando tu tá a fim? Mas não é pelo viés do número que eu cheguei nisso, é pelo viés da regularidade, da disciplina. Isso me interessa muito.”


Lisiane Machado

Para Humberto Gessinger, os números acalmam, organizam e até iludem, como quando a gente olha algum anúncio com o preço com vírgula 99 centavos. Os números também podem dar à vida uma ilusão de simetria. A necessidade de se criar um padrão que se repete, fazendo pensar que a vida é simétrica, é abordada por ele no livro Nas Entrelinhas do Horizonte. “É difícil tu conviver com a ideia de que a história, a vida, não é uma coisa linear, que melhora ou piora de um dia pro outro. Eu também acho que os números acalmam um pouco a gente. Eles parecem coisas frias e objetivas, mas eles têm essa psicologia também.” “A gente faz as contas, projeta uma vida na outra, tenta se enxergar como se fosse outra pessoa... a gente busca espelhos porque viver é solitário, busca simetria porque a vida é torta. A simetria acalma (...). A gente idealiza simetrias que não existem. Buscamos fatos que se repitam, uma ordem, um sentido, um padrão, um padrão...um padrão que não há” (Livro Nas Entrelinhas do Horizonte, 2012). O tempo parou no alto da parede da casa de Humberto. O calendário em escala maximizada, cujas folhas deveriam ser trocadas todos os dias, estacionou no dia 31 de dezembro. “Como é difícil subir ali pra botar no dia certo, acabou ficando ali”, justifica. Para ele, o calendário é outra abstração que nos ajuda a entender e quantificar o tempo, mesmo que nenhum dia tenha a mesma duração do outro. “O tempo parou, feito fotografia, amarelou tudo que não se movia. O tempo passou, claro que passaria, como passam as vontades que voltam no outro dia” (Não Consigo Odiar Ninguém, álbum Novos Horizontes, 2007).

As quantificações estão presentes na obra literária e musical de Humberto

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“A gente quantifica coisas para tentar entende-las, é uma escada pra gente não ficar tão no ar. É uma abstração que faz nos relacionarmos com coisas não concretas, como a passagem do tempo. Para isso, os números são fundamentais”, conclui.


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Gêmeos: iguais ou diferentes? A magia e os opostos de quem tem a vida conduzida pelo número dois Texto: Liliana Egewarth. Fotos: Viviane Bueno

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uando pensamos no número dois lembramos quase que instantaneamente de um par, de uma dupla, ou até de gêmeos. Ao falarmos de gêmeos, logo imaginamos duas pessoas iguais, na forma física, no jeito de se vestir e no gênio, mas nem sempre é assim. É, sim, muito possível que o desenvolvimento dos irmãos gêmeos seja parecido, já que desde a barriga da mãe recebem os mesmos estímulos. Eles dividem os mesmos espaços, a mesma data de aniversário, o mesmo cantinho para brincar. Mas a psicóloga Sabrina Rezende explica que respeitar a individualidade é um aspecto essencial para o desenvolvimento dos irmãos. E os pais são fundamentais para que isso ocorra. É importante que cada filho tenha seu “momento em separado”, sendo gê-

meos ou não. Brinquedos, amigos, saída com os pais e atividades diferentes são saudáveis. “Os gêmeos gostam de fazer tudo juntos? Inclusive se vestir de forma igual? Tudo bem! Não existe nada de errado nisso, afinal se as crianças lidam bem e conseguem manter sua individualidade dessa forma é excelente”, explica Sabrina. Mesmo que tenham objetos ou roupas iguais, é importante que se reconheça o particular de cada um: comida preferida, jogo que mais gosta, interesses. “O afeto, que chamamos de amor, é indispensável para que se desenvolvam de forma segura”, diz Sabrina. Sempre juntos Aos 17 anos, Francisco e Gabriel Moreira Ramires mostram que, além da


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aparência, são parecidos em muitas outras coisas. Os gêmeos idênticos se diferenciam fisicamente na altura e no gênio. Segundo Gabriel, uns centímetros mais alto que Francisco, ele é também o mais tranquilo da dupla. Calças extremamente parecidas, tênis pretos com cadarços brancos. Há diferença apenas na cor da camiseta e em um outro detalhe, Francisco gosta de usar boné, principalmente quando os dois irmãos mostram suas habilidades com o skate. A perfeição de uma mesma manobra feita pelos dois irmãos ao mesmo tempo é quase inacreditável. A sintonia entre os dois é exageradamente grande. Eles vivem grudados, gostam das mesmas coisas: comidas, músicas. Torcem para o mesmo time, tem o mesmo hobby, que é andar de skate, estudam no mesmo colégio, na mesma turma, enfim, várias são as afinidades. Sempre se ajudam, seja nas tarefas do colégio, em casa, ou em qualquer

outro lugar. Estão juntos sempre que podem, o que deixa cada vez maior a sintonia entre os dois. Às vezes pensam a mesma coisa e, quando vão falar um com o outro, acabam percebendo que falariam exatamente a mesma coisa que o outro falou. A maneira de falar e o jeito de sorrir são exatamente os mesmos. Um pouco tímidos, mas de sorriso fácil, os dois irmãos querem estar sempre um ao lado do outro, compartilhando tudo. “Nossa mãe diz que, quando entrar mulher na história, a gente vai se separar”, brinca Gabriel, mas Francisco acredita que, mesmo quando tiver uma namorada, sempre vai convidar o irmão para os seus programas. Um gremista, outro colorado Luan e Rasmim Manuela, de quatro anos, filhos de Carolina Raquel Rubim e Jairo Ferrão Corrêa, são exemplos

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Carolina e Luan têm personalidades bem diferentes. Gabriel e Francisco são muito parecidos. Já Ana Sílvia sente saudades de sua irmã gêmea, Ana Beatriz, que morreu

de irmãos gêmeos diferentes. As diferenças aqui começam no gênero, um menino e uma menina. Para os pais, saber que a gravidez era de gêmeos foi um susto, que se transformou em uma surpresa e uma alegria sem fim ao ver o casalzinho recém nascido. Sim, uma surpresa, pois os pais não quiseram saber o sexo dos bebês antes do nascimento. As diferenças entre os dois não acaba no gênero. Os pequenos são opostos. Manu, como a família gosta de chamar a menina, tem cabelos castanhos escuros e cheio de cachinhos, já Luan tem os cabelos mais claros e bem lisinhos. Luan é mais sorridente, mais tranquilo, brinca com seus brinquedos, mas gosta da presença da irmã. Manu é um pouco mais séria. Na hora da alimentação, gosta de comer comidas, como arroz, feijão e massa, e tomar um copo de refrigerante. Ao contrário dela, Luan prefere comer saladas, adora brócolis e um suco natu-


ral. Isso sem falar no time para o qual torcem que também é diferente. Ela prefere o Grêmio, já ele torce pelo Internacional. Os dois são extremamente ligados quando estão longe dos pais. “Na escolinha que frequentam, sempre brincam juntos e geralmente andam com outro casal de gêmeos”, conta a mãe. Gostam de andar de balanço e de bicicleta. Luan gosta também de jogar futebol e de andar de skate, enquanto Manu prefere brincar com suas bonecas. “Os dois, agora, estão numa fase de descobertas, percebendo que não são iguais e questionando bastante sobre as questões dos seus corpos”, conta Jairo. Bastante ativos, os dois adoram correr pela casa, assistir televisão, recortar, desenhar, estão sempre dando mais alegria e mais vida para os ambientes onde estão. “De uns tempos para cá, gostam mais de brincar juntos, mas antes gostavam mesmo de se beliscar e de se morder ao invés de sentarem juntos para

resolver o que os incomodava”, relata a avó Lueli. Com o passar dos dias, os dois, apesar de se mostrarem cada vez mais diferentes em todos os aspectos, estão cada vez mais unidos. Uma gêmea só Ana Beatriz e Ana Silvia, de 46 anos, eram totalmente diferentes. A maneira como se vestiam, o jeito, o cabelo, as amizades sempre foram opostas. Enquanto Silvia era mais quietinha, discreta e gostava mais de ficar em casa, Beatriz gostava de falar, de sair para fazer festa com seus amigos. Ana Silvia conta que, apesar das diferenças, as duas sempre foram bastante ligadas, principalmente na questão de sentimentos. Quando uma estava passando mal, ou sentia alguma coisa, a outra também sentia um mal estar, e isso fazia com que elas se visitassem, ou se falassem por telefone.

Ana Silvia fala que, mesmo com tantas diferenças e até com muitas brigas entre elas, a notícia do falecimento da irmã há pouco mais de um ano deixou-a muito abalada. Ela lembra com saudades da irmã, desde os tempos de infância. Não gostavam de usar o mesmo penteado, nem o mesmo estilo de roupa. Quando a mãe delas fazia uma roupa para Silvia, Beatriz logo dizia que não queria nada igual, nem a cor e muito menos o modelo. Agora, há mais de um ano sem a presença da irmã, Ana Silvia, sempre que olha para o espelho que está na entrada da casa, lembra com carinho de Ana Beatriz, pois ela havia achado o objeto muito bonito. Por mais de meio ano, Ana Silvia havia deixado o espelho guardado, pois achava muito emocionante olhar para ele e não poder ter mais a presença da irmã. “Mas ficaram as boas recordações e bons momentos que passamos juntas”, relembra.

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eu interesse surgiu a partir do momento em que o número dois foi relacionado a irmãos gêmeos. Uma grande curiosidade da minha parte sempre rondou esse assunto, que me parecia um tanto quanto acolhedor, mas ao mesmo tempo distante, pois não possuo nenhum caso na família e nem tenho amigos próximos que sejam gêmeos. Além de um aprendizado bonito e gratificante, pensar que duas pessoas podem ser iguais em tudo, ou então diferentes em tudo, despertou ainda mais meu interesse. Foram três casos muito diferentes entre si. Entrevistei irmãos iguais, no jeito, no comportamento, nos gostos; irmãs, que mesmo com muitas brigas, tinham uma ligação forte; e de um casal de gêmeos, em que as diferenças são visíveis. Desde gênero, aparência física, gênio. Com essa variedade de entrevistados foi possível perceber que cada um dos gêmeos busca pela individualidade, mesmo que muitas vezes um seja confundido com o outro.”


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Mais de

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A multiplicidade sexual e afetiva como um direito Texto: Renata Teixeira Gomes. Fotos: Juliana Spitaliere

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eu saber que não era aquilo que eu queria mesmo. Depois de dois anos com uma pessoa só, me separei e, logo em seguida, conheci o pessoal da rede e pude me encontrar comigo mesma. Passei a viver de acordo com aquilo que eu acreditava há bastante tempo.” Os membros da RLi tem algo em comum, eles entendem a multiplicidade amorosa como um direito humano. Mas para que isso aconteça é necessário que exista aceitação de todas as partes envolvidas no relacionamento. Maria Fernanda, por exemplo, se relaciona com Marcelo Soares, que também namora com Regina Faria. Todos eles são livres para se relacionarem com outras pessoas, desde que seja de conhecimento de todos e que respeitem as combinações estipuladas por eles. “Para entender a questão de dividir horários, basta pensar o seguinte: se um dia ele tem que ficar trabalhando e eu quero estar com ele, não vou ficar com ele e pronto. Então, da mesmíssima forma, se um dia ele quer ficar com Maria mas eu gostaria de estar com ele, paciência”, explica Regina. Para alguns, a ideia de relacionar-se com mais de uma pessoa implica em um sentimento comum em muitos relacionamentos, o ciúmes. Para os RLis, a relação de amor deve libertar. “Se amo alguém, desejo seu bem como desejaria o meu próprio. E, se me desejo livre, é claro que desejarei liberdade a quem amo. Costumamos asso-

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uitos dizem que a fórmula do amor é baseada na equação onde a soma de 1+1=2. Muitos aceitam essa “realidade” e vivem suas relações de forma monogâmica. Outros acreditam em um jeito livre, uma equação não monogâmica, na qual a soma pode resultar em outros números, em mais de dois. A Rede de Relações Livres (RLi) é definida pelos seus participantes como uma rede social real e prática. Concentrada na região metropolitana de Porto Alegre, tem como centro das discussões o fim da monogamia. Os componentes da RLi pensam, sentem e se relacionam, inclusive de forma pública, sob o que denominam “relações livres”, ou seja, eles podem ter quantos amores quiserem. Maria Fernanda Geruntho Salaberry, fundadora da RLi, começou a se relacionar de forma aberta ainda muito jovem. Com 13 anos teve sua primeira experiência não monogâmica. “Claro que era um relacionamento com pequenas aberturas. Quando fui ficando mais velha, os relacionamentos foram ficando mais sérios, e os acordos foram ficando mais livres, mais tranquilos.” Rosana de Miller é membro da RLi há quatro anos, mas, mesmo antes de fazer parte do grupo, também se relacionava de forma livre. “Já tive vários modelos de relação aberta, tive uma relação fechada também, provei daquilo que as pessoas chamam de casamento, foi até importante para


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ciar amor a apego. Dizemos: ‘sou tão apegada a fulano’. Mas acredito que uma das propriedades naturais do amor seja exatamente o desapego”, comenta Regina. Marcelo complementa esse pensamento falando de compersão, que é o lado oposto do ciúme. “Tu fica feliz por teu companheiro ter outra pessoa.” Para ele, quando uma companheira consegue sair com alguém legal, é um momento de felicidade. “Me sinto feliz quando ela está feliz, não só por estar comigo. Eu fico feliz por ela.” Mas não é só a questão do ciúmes que intriga quem está de fora, mas também o fato de assumir esse “novo” padrão de relacionamento, tanto para família, quanto no trabalho e para os amigos. Maria procura deixar clara sua opção de vida, tanto para sua família quando para sua filha, Pandora. Uma certa vez, Pandora fez um desenho na escola. A proposta era desenhar seu pai. A menina desenhou dois homens, namorados de Maria na época. Ao ser questionada pela professora, não hesitou em dizer: “São os namorados da minha mãe!”. A direção da escola entrou em contato com Maria para saber o que se passava. Ela confirmou que tinha dois namorados. Pandora estava presente no dia da entrevista. Ela aceita e respeita a opção da mãe. Maria diz que é mais fácil para as crianças entenderem a naturalidade da relação livre. “Se tu cria alguém comendo carne de cachorro, ela vai entender que comer cachorro é normal.” Já para outros, essa visão não é tão simples. “As pessoas se assustam com a franqueza que a gente tem. As pessoas fazem sexo, traem, têm amantes, só que os filhos não sabem”, diz. A RLi promove encontros com debates que proporcionam a troca de experiências. “A gente se encontra também para explicar para outras pessoas como funciona, para que mais pessoas saibam que existe uma tentativa real e válida. Nós nos encontramos para debater textos e conteúdos que sejam novos, como a legislação brasileira, que não comporta relações livres”, diz Marcelo. Para Maria, a liberdade do relacionamento é fundamental e questiona os padrões impostos pela sociedade. “As pessoas são muito fragilizadas emocionalmente, a relação monogâmica é uma relação que é baseada na carência. Tu estás só com uma pessoa, e essa pessoa está só contigo. Todas tuas possibilidades emocionais

são de responsabilidade dela.” Rosana comenta sobre os falsos relacionamentos abertos, onde a abertura é exclusiva ao homem. “As pessoas confundem pacto de silêncio com relação aberta, e não é a mesma coisa. Um fingir que não sabe foge do pacto proposto pela relação aberta.” Para eles, mesmo amando, um homem, ou uma mulher continuam a sentir atração e afeto por outras pessoas, a fantasiar relacionamentos com elas. Por isso há a alternativa de tentar um modelo que dê vazão a esses desejos variados. Muita gente percebe isso, porém mantém relações escondidas. E esse esconder traz um sofrimento grande ao outro. A ideia da RLi é adicionar alternativas a esse contrato padrão, que, em nome do amor, faz com que muita gente prometa anular tantos sentimentos. Regina, que em 2012 iniciou nessa forma de amor livre, comenta sua visão: “Tenho um relacionamento livre com uma pessoa que sabe de meus relacionamentos e eu dos dela.” Acostumada com o padrão anterior de relacionamentos exclusivistas, Regina nem sempre consegue abstrair o ciúme. “Fazemos um esforço mútuo para não deixar que o ciúme dite como agiremos, e acho isso algo bem bonito de vivenciar.” As relações livres continuam a ser relações, que, por natureza, são complexas tanto quando as relações exclusivas. “Às vezes me dizem, ‘ah Regina, mas se relacionar sem ter a exclusividade deve ser complicado’. E tendo exclusividade não é complicado, por acaso? Toda a ciumeira, as cobranças, desconfianças, culpas, crises, brigas horrorosas e amizades desfeitas. É engraçado, mas você perde o receio de dividir. É como se finalmente descansasse de um medo que desde sempre rondou suas relações. Isso traz uma grande leveza pra vida.” DESEJO ABERTO Longe de serem promíscuos ou configurarem um caso patológico de perversão sexual, Débora* e Henrique* fazem parte de um grupo, uma tribo, cujo hobby dos fins de semana é entregar-se completamente ao prazer físico, ao sexo sem muitos limites. A curiosidade somada às fantasias sexuais é a mistura mais comum que leva de-


Maria, Marcelo e Rosana encontraram com a RLi uma oportunidade de viverem quantos amores quiserem

xões e abordagens sobre a sociedade, sobretudo, casamento e traição. Assumir novas práticas e estilos de vida pode ser um antídoto forte na questão Rodriguiana que muitos casais admitem e mantém. Conhecer mais do assunto para emitir julgamentos próprios ainda é o melhor aliado na forma de lidar com fetiches particulares. (*) Os nomes foram trocados para preservar a identidade dos entrevistados.

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processo de produção e entrevistas nesta matéria me fez repensar sobre a forma imposta pela sociedade de como se relacionar. Ainda há muito que se falar sobre essas novas opções de relações livres, ou abertas, para que o julgamento sobre estilos de vida acabem. Afinal, cada um sabe o que é melhor para si. Vivemos em uma sociedade julgadora Se tu não te enquadras nos padrões que desejam para ti, acaba fazendo parte de um grupo de excluídos. Porém, não percebo essas pessoas dessa forma, vejo elas como organizadoras do estilo de vida que escolheram. Não enganam, não traem, pelo contrário, utilizam o diálogo constantemente na relação. Diálogo esse que, para muitos casais convencionais, não existe e acaba sendo o motivo principal para que muitos se separem. Acredito que estamos vivendo uma era de transformações, em que muitos querem excluir a hipocrisia e viver a vida da forma que lhes convém. Eu considero isso fundamental, e foi um dos motivos pelos quais escolhi debater essa pauta. Existem outras opções fora das convencionais, fora daquelas que nos foram impostas. Podemos escolhe-las, caso isso nos faça bem, mas também podemos buscar outras formas que possam encaixar nas nossas expectativas e no nosso perfil.”

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zenas de casais a pisarem pela primeira vez em uma casa de Swing. Foi o que aconteceu há cerca de oito meses com Débora e Henrique, através de um convite de um casal de amigos que passava por uma crise no casamento. Débora aceitou o convite logo de cara. “Talvez ele fosse achar que eu não iria gostar, sentiria ciúmes ou algo assim. Ou que eu achasse que não era interessante para nós. Mas resolvi que queria ir, e ele aceitou. Na verdade, ele queria, mas não teve a iniciativa de falar.” Débora conta que encarou a ida ao swing como ir a uma balada convencional. O fato de ter pessoas praticando sexo no mesmo local que ela não a assustava. “Eu não ficava pensando: ‘meu Deus vou ver pessoas transando’, Até porque, se tu ligar a TV hoje em dia, tu pode muito bem encontrar isso. Meu sentimento era de que eu ia sair para dançar, beber, me divertir.” O casal relata que nas casas de swing os espaços são divididos. A pista de dança é como de uma boate comum: pessoas dançando, se beijando, mas nada de sexo. Existem locais próprios para isso dentro do estabelecimento. “Nos demos por conta que estávamos em uma casa de swing quando percebemos uma mulher na pista de dança apenas de calcinha e sutiã, em uma atitude natural, como se ela vestisse uma roupa lindíssima”, diz Débora. No swing existem algumas regras e dias próprios para cada tipo de frequentador. Geralmente são divididos por noites de casal, solteiros e casais e solteiros. Henrique e Débora preferem os dias próprios para casais. “ É mais discreto e reservado”, comenta Henrique. Os dois têm uma relação aberta, que começou com uma forte amizade. Sempre tiveram liberdade um com o outro para falar de suas vontades e fantasias sexuais. Eles dizem que a oportunidade de ir no swing aproximou ainda mais o casal. Débora se sente feliz e considera a forma que se relacionam hoje ideal para que ambos frequentem o swing. “Não existem cobranças, não existe o ciúmes, a gente tem certeza do nosso sentimento. A gente sabe que gosta um do outro que aquilo é apenas uma forma de prazer”, diz Débora. “Se todos conhecessem a intimidade sexual uns dos outros, ninguém cumprimentaria ninguém”, já dizia Nelson Rodrigues, o escritor conhecido pela prosa ácida e altamente realista que mantinha em seus textos. Ele escrevia sobre irônicas verdades, fazia críticas, refle-


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percepções para As diferentes relações de fãs com a saga familiar O Poderoso Chefão Texto: Camila Kehl. Fotos: Cristiane Abreu e Rafael Voigt

Ato I

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sujeito não precisa ter sangue italiano correndo nas veias ou ser entendido de cinema, nem mesmo precisa ter assistido toda a trilogia. Bastam as primeiras notas do famoso tema de Nino Rota para identificar: “Essa não é a música de O Poderoso Chefão?”. A obra virou referência na cultura pop, inspirou games, resultou em diversas compilações de extras, álbuns de fotos e todo tipo de memorabilia, até foi citado em seriados de TV, como A Família Soprano e Os Simpsons. Sucesso de crítica e de público, a sequência entrou para a seleta lista de clássicos cinematográficos incorporados ao imaginário popular. Que pistas que O Poderoso Chefão pode nos dar para entender o alcance dessa obra ganhadora de três Oscars? A trilogia O Poderoso Chefão é uma adaptação do romance do escritor Mario Puzo e foi dirigida por Francis Ford Coppola. O diretor conta a saga da família siciliana (e mafiosa) Corleone, chefiada pelo patriarca Don Vito, que divide com outras “famiglias” o controle do crime organizado e de negócios ilegais em Nova York. No primeiro filme, Don Vito se vê às voltas com a sucessão do seu legado entre os filhos. O mais novo, Michael, acaba por herdar o seu império. Na segunda parte, Coppola conta duas histórias paralelas: a ascensão de Michael ao posto de Don, assumindo os negócios da família, e a chegada do jovem Vito Corleone à América. Por fim, no terceiro e último filme, um Michael Corleone amargurado pensa em sua sucessão, retorna à Sicília de seus pais e tem um final melancólico e trágico. Achou o roteiro meio dramático? Pois saiba que o caráter fatídico das trilogias não é receita nova e remonta à Grécia Antiga. Ato II Ésquilo, primeiro dramaturgo grego, conhecido como “o pai da tragédia”, foi pioneiro nesta jogada. Escreveu a trilogia chamada A Orestéia, conjunto das três tragédias Agamêmnon, As Coéforas e As Eumênides. “As trilogias eram poemas dramáticos compos-

tos por três tragédias, que apresentavam uma temática em comum, com temas interligados, em que as personagens evoluíam dramaticamente dentro das narrativas”, explica a professora do curso de Letras da Unisinos Maria Helena Campos de Bairros. De acordo com Maria Helena, as trilogias remetem à ideia de começo, meio e fim, mas essa dinâmica não impede que as histórias possam também ser lidas isoladamente. Ainda seguindo na tradição grega, talvez a mais conhecida tragédia tenha sido a trilogia tebana formada por Édipo Rei, Édipo em Colono e Antígona. Quem não ouviu falar pelo menos uma vez da clássica tragédia do filho Édipo que mata seu pai e casa com sua mãe? O pai da psicanálise Sigmund Freud foi um que bebeu da fonte da mitologia grega para construir o conceito de Complexo de Édipo. Dando um pulo gigante na linha do tempo, podemos encontrar na literatura brasileira algumas incursões no universo das trilogias. A referencial saga familiar O Tempo e o Vento é um bom exemplo deste tipo de obra. Dividido entre O Continente, O Retrato e O Arquipélago, o romance tem como pano de fundo a formação do Estado do Rio Grande do Sul através da trajetória das famílias Terra e Cambará. Pelo visto, saga familiar é um tema caro para trilogias em qualquer época e apaixona fãs através das gerações. Felipe, Lucas e Eduardo estão aí para provar isso. Ato III Felipe Nabinger é um exemplo de fã tardio de O Poderoso Chefão. No caso desse jornalista de 28 anos, o interesse pela história não foi precoce. Ao contrário de outros admiradores da sequência, a vontade de conhecer os Corleone não foi fruto de uma consciência que muitas vezes bate à porta de certos adolescentes que decidem que precisam assistir aos clássicos fundamentais do cinema antes de se tornarem adultos. Nessa época, Felipe não queria apreciar uma obra-prima. Ele estava jogando bola com a gurizada, formando uma banda de post-grunge para conquistar meninas, aprimorando a habilidade em lutas no game Street Figther. Depois que o “Lipe” chegou a 1,90m de altura e perdeu alguns cabelos, resolveu ler o ro-


uma (trilogia)

Cristiane Abreu

O jornalista Eduardo Nozari, fã de Al Pacino, viajou até a Broadway para assistir o ator em um espetáculo

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Cristiane Abreu


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ente perguntar para admiradores da

trilogia O Poderoso Chefão qual a primeira lembrança que lhes vêm à cabeça a respeito dos filmes. Esqueça a ideia de unanimidade. Você dificilmente receberá uma resposta minimamente parecida, vai sofrer para encontrar um fio condutor que una as histórias dos fãs e suas relações com a obra. Se acha que existe um senso comum entre essas pessoas, desista. Essa foi a minha primeira lição. Foi assim que abandonei essa abordagem e resolvi navegar por outro tipo de experiência: não me ater a um roteiro padrão de perguntas para os entrevistados. Entender que o desafio era justamente reconhecer os diferentes modos de se admirar uma obra foi a minha segunda lição. Por fim, o mais legal foi ter a oportunidade de escrever sobre filmes que eu gosto tanto, como a trilogia de O Poderoso Chefão. Ao contrário do que se possa imaginar, trabalhar com um tema que se tem afinidade não é nada fácil, e, no meu

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caso, foi necessário um exercício de desprendimento de um possível conhecimento prévio sobre o assunto. No final das contas, saí da experiência sabendo ainda mais sobre a trilogia. É o tipo de oferta que nem Don Vito Corleone poderia recusar.”

mance de Puzo e aí foi fisgado ao ponto de recorrer à filmografia. Felipe não é dado a discursos engajados, nunca gostou muito nem de diretório acadêmico, mas acredita que existe no O Poderoso Chefão I – o seu favorito da trilogia – certo teor ideológico. “Antes de ser uma história sobre máfia, temos ali uma história sobre família, responsabilidades, lealdade e, por que não, uma crítica ao sistema político vigente”, acredita. Felipe defende que a condição social da época retratada na obra obrigou os ítalo-americanos a criarem um poder paralelo que os amparasse da falta de oportunidades. Para o leitor que quer começar a assistir O Poderoso Chefão, indico Felipe Nabinger para um primeiro bate-papo sobre o assunto. No entanto, se você já é um fã da saga e está em um patamar de exigência maior para discussões, então recomendo que converse com Lucas Furtado. Aos 19 anos, esse estudante do curso de Realização Audiovisual da Unisinos curte analisar a trilogia pensando na complexidade das narrativas e nos planos parados de Coppola. Quando Lucas fala que O Poderoso Chefão II é o seu preferido entre os três, justifica a escolha apontando o roteiro como o grande destaque. Explica que a narrativa do longa-metragem foge do padrão mais convencional e estabelece uma quebra na ordem cronológica ao contar de forma paralela duas histórias, a de Michael no presente e a de Don Vito no passado. Essa atenção especial de Lucas com a estrutura das narrativas tem explicação. Ele gosta de escrever. “Sou mais ligado em roteiros”, foi uma das primeiras frases que ele disse quando o contatei por telefone. Talvez por isso que o cuidado com a linguagem cinematográfica chame tanto sua atenção. Lucas não é o tipo de fã espalhafatoso. Ele é um admirador da trilogia mais à moda Tom Hagen, o consigliere dos Corleone: discreto, mas preciso e eficiente nas observações. Com aquele jeito paciente para ouvir, tal qual o braço direito de Don Vito, Lucas atende com educação às perguntas curiosas sobre a tatuagem que tem no antebraço do clássico logotipo da mão manipulando uma estrutura de marionete que estampa os pôsteres dos filmes. E quando descubro que a paixão do Lucas pela sétima arte se manifesta em outros desenhos em seus braços, já não me surpreendo mais com tanto carinho que ele tem ao falar sobre produção cinematográfica: da mesma linhagem do seu

tio Jorge, Lucas Furtado começa a trilhar o caminho da sétima arte. Agora, se você é um fã apaixonado, que assistiu a trilogia várias vezes e leu o livro que deu origem ao filme outras tantas, se é do tipo que decorou e recita as falas dos personagens para os amigos, então eu sugiro que combine um café com o jornalista Eduardo Nozari. Uma dica: nesse dia reserve no mínimo uma hora e meia para o encontro. A impressão que dá é que Eduardo passou os seus 23 anos assistindo repetidamente O Poderoso Chefão. Ele é tão detalhista que cita erros técnicos em diferentes cenas, mas se apressa em dizer que tais problemas são insignificantes e que em nada prejudicam o andamento da trama. Eduardo considera O Poderoso Chefão II uma obra-prima, em função da trama mais complexa e do roteiro que se sustenta mesmo trabalhando com diferentes contextos históricos. Eduardo é cauteloso e lançou os atributos técnicos logo de cara para depois assumir a admiração deslavada por Al Pacino e sua interpretação inspiradíssima de Michael Corleone. Quando o questiono sobre o terceiro filme da saga, que é sempre tão criticado pelos cinéfilos, o jornalista me surpreende ao confessar que por um bom tempo esse foi o longa da trilogia que mais assistiu. “Rolava muito no horário do Corujão”, lembra. Entende que a expectativa gerada entre os fãs depois de um hiato de dezesseis anos entre o segundo e terceiro filme tenha prejudicado a compreensão da obra e considera o desfecho épico. No final da nossa conversa, brinco com a ascendência italiana do seu sobrenome e a relação com a saga. Eduardo de pronto rechaça o estereótipo, diz que na sua família não existe nenhum traço de personalidade mais expansiva e que não cultiva nenhum tipo de tradição do país.


Fotos de Rafael Voigt

Apesar disso, o jornalista tem cidadania italiana e em 2011 passou um mês em Florença fazendo um curso. Eduardo está feliz. Garantiu o ingresso para assistir Al Pacino em um espetáculo na Broadway chamado O Sucesso a Qualquer Preço. “Foi no dia 28 de novembro, às 20h, assento J 106, na última fileira”. O que Eduardo Nozari não sabe é que, enquanto ele conta isso, gesticula alegremente, agitando as mãos no ar, de um jeito característico que dá para imaginar de onde venha.

O jornalista Felipe Nabinger (à direita), antes de se encantar pelos filmes, leu o livro que deu origem à série. O estudante de Realização Audiovisual Lucas Furtado gravou sua paixão pela obra em seu braço com o símbolo clássico da trilogia

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ALINE SPASSINE

(Municípios gaúch Centenário – centenariense Dezesseis de Novembro – dezesseis-novembrense Dois Irmãos – dois-irmãosense Dois Irmãos das Missões – dois-irmãozense Dois Lajeados – dois-lajeense Lagoa dos Três Cantos – três-cantense Passa Sete – passasetense Quatro Irmãos – quatroirmanense

JULIANA SPITALIERE

Quinze de Novembro – quinze-novembrense Sete de Setembro – setembrense Três Arroios – três-arroiense Três Cachoeiras – três cachoeirense Três Coroas – três-coroense Três de Maio – três-maiense Três Forquilhas – forquilhense Três Palmeiras – três-palmeirense Três Passos – três-passense Fonte: IBGE

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JULIANA SPITALIERE


RODRIGO BLUM

hos e gentílicos)

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rodas aceleradas em segurança


Sardinelly’s

Todas as sextas-feiras, tem racha no Autódromo Internacional de Tarumã

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Texto: Jaqueline Loreto. Fotos: Casey C e Sardinelly’s (Stock.xchng)

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into colocado, capacete preso, concentração e pé firme nos pedais. Critérios fundamentais para ser um piloto de racha. Avançar por entre o medo e a adrenalina faz com que cada “pega” se torne único e memorável. A adrenalina, diga-se de passagem, é a combustão gerada pela tensão dos pneus do imbatível Chevette. Nesse clima está Joel Aita, 24 anos. O rapaz começou a se interessar por carros quando ainda era criança por influência de seu pai. Foi trabalhando junto com ele que virou mecânico e hoje dedica grande parte do seu tempo na manutenção de seu Chevette. Começou correndo na rua, admite, mas não esconde a satisfação de hoje poder fazer seus rachas em um local seguro, no Autódromo Internacional de Tarumã, em Viamão, e rodeado de pes-

soas com o mesmo gosto. Aita conta que, no começo, a família (de seis irmãos) se preocupava muito com os perigos que as corridas poderiam trazer para a vida dele, mas depois de um tempo todos também se envolveram com os rachas, seja nas conversas na hora do almoço, ou torcendo. Ele lembra ainda do primeiro carro com o qual participou de uma competição, o “Camaleão”, como foi batizado o Chevette que tinha várias cores. Nele, fez todo o processo de restauração, dando para o veículo até um novo motor. Vida de piloto de racha Além de dirigir na linha de risco, Joel Aita leva uma vida regular, como qualquer jovem da sua idade. A diferença fica por conta das economias e dos gastos. En-

quanto uns se preocupam em comprar coisas como roupas, sapatos, eletrônicos e afins, o rapaz se preocupa em reabastecer seu carro com novos incrementos automotivos. Ele conta que já deixou de adquirir algo que gostava para investir mais em algum dos carros. A família conta com seis veículos na garagem. Fora essa peculiaridade, um dos benefícios de realizar rachas em dias determinados e em um local fixo é poder fazer novos amigos. Ele gosta quando alguém pergunta sobre o tipo de motor, câmbio e o que mais for de interesse. Isso leva até a uma avaliação do seu próprio carro em relação ao do companheiro do lado. Sem ritual para entrar na pista, o piloto sente prazer em correr em alta velocidade. Para ele, é um processo que faz com que sua mente se alivie do estresse do dia a dia, um esporte que mescla emoção e tensão.

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fotos Casey C


Para gurias também Priscila Aita, 22 anos, também é fascinada por carros. A irmã de Joel não esconde sua felicidade ao comentar qualquer assunto relacionado a carros, principalmente quando fala de seu “Chevettinho”, de 76. Seu xodó, o velho carro amarelo, já chegou a 170 km/h, e ela não o dispensa por nada. No dia 12 de outubro de 2012, munida de seu Chevette, Priscila fez sua estreia no Racha Tarumã. O ambiente é formado principalmente por homens, e muitos não aceitam a ideia de que há mulheres correndo. Logo que chegou, ouviu piadinhas indiscretas e seu nervosismo só aumentou. Alguns se candidataram para competir contra ela, provavelmente achando que seria fácil. Mas Priscila mostrou que mulher está longe de ser o sexo frágil, pois, das três corridas que fez, ganhou duas. Mesmo sem receber um prêmio no final da disputa, a sensação de fazer algo que gosta foi recompensadora. A maior dificuldade, entretanto, é manter um diálogo com as amigas. Enquanto as garotas conversam sobre garotos, baladas e maquiagem, a jovem piloto diz que é estranho quando tenta falar sobre carros, porque infelizmente suas companheiras não compreendem muito o assunto. Ainda mais quando ela deixa de comprar produtos de beleza para adquirir peças de veículos. Para ela, o melhor de ter participado do racha foi sentir a emoção e adrenalina, independente do resultado final. Mas, afinal, o que é um racha? No conhecido “pega” das estradas, ou corrida de rua, os corredores aceleram com os carros parados e, após um sinal, correm até um ponto estipulado. Ganha aquele que chegar pri-

História do racha Tarumã O Chevette chegou ao Brasil em 1973, e era considerado ousado para sua época. Nasceu da ideia de se criar um veículo de porte pequeno. Tinha também a credencial de ser um investimento mundial da General Motors (GM). Naquele ano, totalizou mais de 1,6 milhões de unidades vendidas. O Autódromo Internacional de Tarumã promove um evento, todas as sextas-feiras, com a finalidade de oferecer um lugar seguro para os rachas. Sob a bandeira das campanhas educacionais de trânsito, o local é uma boa dica para quem procura diversão dentro do limite da pista. O público, em sua maioria, é formado por jovens, que ainda podem conferir a famosa Cadeira Elétrica. Através de um sorteio, um felizardo é escolhido para radicalizar na pista a mais de 160 km/h com um dos pilotos da casa, mesclando giros de 360° com manobras que deixam a plateia estonteante. Com 15 anos de história, o Racha Tarumã é uma escolha acertada para quem quer ter uma noite de surpresas e diversão.

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uebra de referências. Isso é o que se sente quando se acompanha um racha pela primeira vez. Ainda mais quando não se tem ideia do que está para acontecer. No primeiro momento, tudo parece uma brincadeira de gente grande. Depois, percebe-se que há uma dedicação surpreendente em cada corredor. Cada um conta uma história, mas todos carregam, sobretudo, a alegria de participar de um evento que reúne apenas Chevettes. Nota-se também a presença de mulheres no volante, com uma intimidade com os carros de dar orgulho. Além disso, o fato de ter famílias que não só assistem como participam dos rachas faz tudo parecer mais aconchegante. Claro, o barulho ensurdecedor dos escapamentos causa um estranhamento inicial, mas no final eu estava torcendo para ser sorteada para dar uma volta com o piloto.”

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O Chevette de Priscila já atingiu 170 km/h em um racha

meiro na linha demarcada. Esse tipo de competição é a chamada Arrancada. Existem várias modalidades de competição, uma delas é a Derrapada, ou Drift. Nela, os corredores posicionam os carros de lado e fazem manobras com o auxílio do freio de mão. Essa modalidade é mais comum em São Paulo, na região metropolitana. Comum em jogos de videogame de corrida, como o Need For Speed, da Eletronic Arts, e em filmes como Velozes e Furiosos, de Rob Cohen, outro nível de modalidade é o Ponto a Ponto, feito em ruas urbanas normalmente de forma clandestina. Com um ponto de chegada definido, os corredores podem usar caminhos alternativos dentro da cidade. Por causa disso, limites de velocidade são quebrados e aumenta o número de acidentes nas estradas. O Brasil é o quarto país onde há mais disputas de rachas, perdendo para Estados Unidos, Japão e Arábia Saudita.


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guitarras que mudaram a história do rock Os timbres e modelos que viraram objetos de desejo e peças de coleção

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Texto: Jonas Pilz. Fotos: Rodrigo Blum, Juliana Spitaliere e Thiago Simões

guitarra é um grande, senão o maior, símbolo do rock n’ roll. Ela representa ideais do rock, com riffs e solos que expressam a liberdade e a transgressão da juventude. Dentro da estrutura musical do rock n’ roll há quase sempre um solo de guitarra, diferente de outros instrumentos também bastante utilizados pelas bandas, como baixo e bateria. Entre tantos modelos usados pelos guitarristas desde 1930, cinco deles mudaram a história da música. As guitarras Fender, Gibson, Ibanez, Jackson e Mosrite inovaram em qualidade, design, resistência, alcance e efeitos. E, é claro, estiveram nas mãos dos principais nomes do rock. Um dos pioneiros na fabricação de guitarras, e que moldou a forma como

até hoje o instrumento é fabricado, foi o americano Leo Fender. As guitarras Fender ganharam notoriedade com Buddy Holly, na década de 1950, e na década seguinte com Jimi Hendrix. Mas foi Eric Clapton, o slowhand (apelido sarcástico que o músico recebeu pela precisão e velocidade em tocar as notas), que eternizou-se como grande nome da Fender. O inglês variou entre o rock e o blues, chegou ao reggae, e lançou um disco com pseudônimo. Clapton é conhecido pela variedade de guitarras em álbuns e shows. A mais famosa delas foi uma Fender Stratocaster batizada de Blackie. Única do tipo, foi montada a partir de outras três strato do inglês. Clapton queria fazer a “Fender perfeita”. Para Daniel Jeffman, 32 anos, guitar-

rista da banda Reação em Cadeia, os instrumentos da Fender são incomparáveis em qualidade e resistência. “A Fender tem um som muito puro, muito sólido. E a estrutura da guitarra é muito forte. Pode cair no chão e continuar a ser usada no show sem problemas. É difícil quebrar uma Fender!”. Fã de Hendrix desde a adolescência, Daniel dedilhava notas em seu quarto contemplando um pôster do guitarrista em ação. “Eu olhava aquela foto e sonhava em ter uma guitarra igual. Ainda é um sonho, mas um dia realizarei!”. Como músico profissional, a relação de Daniel com as seis cordas é muito intensa. O som cru das guitarras Fender passou a ser seu instrumento de trabalho. “É a minha voz na música. Só uso Fender. Uma Telecaster, uma Stratocas-


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Rodrigo Blum

Daniel Bagesteiro (à esquerda) é aficcionado pela marca Jackson. A paixão de Adriano Scherer pelas Mosrite começou com os Ramones

ter e uma Jaguar”. Esperançoso, ele reafirma que a quarta será, um dia, a de Hendrix. A Fender sempre esteve à frente entre os modelos de guitarra mais desejados pelos músicos. Mas nunca esteve sozinha. A Gibson, também americana, rivaliza com a concorrente na vanguarda dos instrumentos. Quando a Fender lançou a Telecaster, com muito sucesso, a Gibson e o virtuoso guitarrista Les Paul desenvolveram o modelo homônino ao músico, em resposta. A Gibson Les Paul passou pelas mãos de Zakk Wylde, Slash, Ace Frehley e o cultuado Jimmy Page. O guitarrista do Led Zeppelin elevou a Les Paul a tal nível que é difícil imaginar o músico sem ela, ou a guitarra sem ele. Com a Les Paul, Page fez alguns dos principais riffs e solos do rock n’ roll, e com uma Gibson de dois braços, imortalizou o hino Stairway to Heaven. “Jimmy Page usou a Gibson como uma arma do rock”. A frase é do publicitário Alessandro Lomando, 50 anos, um apaixonado colecionador de guitarras. Sobre a guerra não tão fria entre Gibson e Fender, que travaram processos por plágio e espionagem ao longo dos anos, Alessandro é enfático. “As duas são as maiores e as melhores, cada uma à sua maneira. As diferenças entre elas estão inclusive na estrutura do instrumento, na forma, no design e na fabricação”. Alessandro começou com o violão, nos anos 1970, e adquiriu a primeira Gibson já adulto. “Os grandes guitarristas usam e usaram Gibson. Além de Jimmy Page, Jeff Beck, Warren Haynes, do Gov’t Mule; Tony Iommi, do Black Sabbath e Angus Young, do AC/DC. Esses caras tornaram a Gibson o que ela é hoje. Um objeto de desejo para os fãs da música, às vezes inalcançável pelo seu custo muito alto”, diz Alessandro. Contudo, o publicitário faz uma ressalva. “Nenhum guitarrista usa apenas um instrumento ou um modelo. Em público utilizam as guitarras que os patrocinam, o chamado endorse. Em

casa, pode ter certeza, eles têm todas as outras”. Alessandro mesmo é dono de modelos da Gibson, Fender e Ibanez. A japonesa Ibanez começou quando um fabricante local comprou os direitos de uma marca espanhola. A Ibanez é conhecida pelo patrocínio a guitarristas virtuosos e de carreira solo e instrumental, como Steve Vai e Joe SatrianI. Os dois, inclusive, fazem turnês juntos no projeto chamado G3, sempre com um guitarrista convidado diferente. Embora tenham uma brilhante carreira individual, ambos tiveram passagens por bandas expressivas, como Deep Purple e Whitesnake. A música de Vai e Satriani costuma ser tachada de “música para músicos”, devido à sua técnica e pela falta de um vocalista. Ainda assim, as linhas melódicas de For the Love of God, do primeiro, e Always with me, Always with you, do segundo, são compreendidas por qualquer ouvido ou coração. Gilberto Lima, 46 anos, analista de sistemas, comprou a primeira Ibanez em 1989. “Naquela época, as Ibanez entraram nas lojas em Porto Alegre. Era uma opção e concorrência às guitarras Fender e Gibson”. Gilberto havia adquirido a primeira guitarra três anos antes, um modelo nacional. “A Ibanez fez parte do início de uma era de guitarristas virtuosos, como Joe Satriani; Paul Gilbert, do Mr. Big; Steve Vai; Vinnie Moore e Frank Gambale”, conta. Para Gilberto, o conjunto da marca é que faz a diferença. “Os itens da guitarra conciliam qualidade, visual, confortabilidade para tocar e até um preço acessível”. Utilizando os diversos recursos e efeitos da Ibanez, Gilberto finaliza. “Na música, ela é o meu maior meio de expressão”. A virtuose, destacada por Gilberto nos músicos da Ibanez, também é uma característica forte dos guitarristas que usam Jackson. A marca surgiu na década de 1980, quando Randy Rhoads, da banda de Ozzy Osbourne, procurou Grover Jackson, renomado fabricante de guitarras. Randy estava em busca de um visual agressivo e timbres pesados.


Juliana SpiTalierE

Thiago Simões

Independente da década em que for usada”, afirma. Seja moderna, retrô, original, customizada, réplica, com ou sem um grande valor de mercado, a guitarra é um objeto de desejo. É um instrumento de criação, uma válvula de escape e um tradutor de sentimentos para notas musicais. Quase todas as bandas de rock n’ roll têm um vocalista. Mas sem o som da guitarra, elas seriam mudas.

IMPRESSÕES DE REPÓRTER

“Q

uando surgiu o tema das guitarras, lembrei do meu primeiro contato com o instrumento, na adolescência. Também imaginava que um dia iria mudar o rock, ou até o mundo, com algumas palhetadas. Durante as entrevistas, percebi o entusiasmo, o cuidado, a paixão e a propriedade com que os entrevistados falavam sobre música. Um ponto que me tocou bastante foi quando observei que, alheio a patrocínios ou preferência por um instrumento, nenhum deles acha uma guitarra muito melhor ou pior do que a outra. Eles apreciam todas. Tem mais apreço por um determinado modelo, é claro, geralmente por alguma referência musical ou por finalidade de uso. Logo comparei a paixão pela guitarra com outras paixões, em que o amor é exclusivo e excludente, como no futebol. O rock tem essa característica transgressora e agregadora. A empatia e a disposição que os entrevistados demonstraram provou isso. Em palavras e em notas musicais.”

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O guitarrista Daniel Bagesteiro, 24 anos, confirma que a atração pelas Jackson vem do design e das particularidades dos modelos. “Acho o desenho das guitarras fantástico! Combina com a sonoridade e a tocabilidade, que me agradam mais do que qualquer outra”. Daniel é dono de três Jackson. O sucesso do modelo veio à medida que Randy tornava-se uma referência para jovens guitarristas – tanto anônimos quanto os das principais bandas de thrash metal e hard rock. A Jackson tornou-se um símbolo do heavy metal. Daniel começou a se interessar pela marca justamente por seu apreço pelas bandas de metal. “Quando descobri o Megadeth e o Metallica, junto com o Randy Rhoads, que usavam Jackson, comecei a pesquisar sobre a guitarra”. Para ele, o visual impactante e a performance da Jackson acabaram moldando variações dentro do rock. “Ela ajudou a mudar o heavy metal e o punk.” Mais do que à Jackson, o punk rock deve muito às guitarras Mosrite. A marca surgiu nos anos 1950 e encerrou as atividades na década de 1990, mas o culto às guitarras manufaturadas persistiu. “Ela foi pouco usada por bandas conhecidas, mas passou pelas mãos de Johnny Ramone, Kurt Cobain, Don Wilson e Nokie Edwards do The Ventures; Nicke Andersson, do The Hellacopters e Dave Alexander, do The Stooges”, conta Adriano Scherer, 38 anos, biólogo e empresário. A Mosrite foi a guitarra usada por Johnny Ramone durante toda a sua carreira. O guitarrista, e a banda, consolidaram o punk como estilo de música. Johnny ficou marcado pela energia com que tocava os três acordes das músicas dos Ramones. “Conheci a Mosrite através dos Ramones, na adolescência, quando começou a minha admiração pela banda”, lembra Adriano. Para Adriano, os Ramones reinventaram o rock, deixando-o interessante novamente. “Logo de cara, eu me interessei pela aparência, pela estética e pelos instrumentos que eles usavam. Com um design equilibrado, acho a Mosrite sempre moderna.


Gravidez além dos

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meses Carin e Mariana esperaram muito tempo para realizar o sonho de ter um filho Texto: Rita Rodrigues. Fotos: Luiza Steffen e Taís Laux

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sonho de ter um filho às vezes é fácil de realizar, porém muitas mulheres passam mais de nove meses ou até anos para conseguir. Para que isso aconteça, fazem exames, algumas vezes cirurgias e tratamentos. É uma luta diária. É o caso da grávida de 24 semanas Mariana Saueressig Cruz, de 29 anos. Aos 27 anos, ela começou a tentar o primeiro filho, mas não foi fácil. Precisou persistência e esperança. Após consultas médicas e muitos exames, não foi detectado nenhum problema. Assim, seguiu tentando a gravidez sem tratamentos. O bebê esperado para dezembro foi muito desejado, não só pelos pais, mas por toda a família. “Para quem espera muito tempo por isso, quando faz o teste de farmácia e dá positivo, é uma emoção inexplicável. A felicidade foi total nas duas famílias”, conta Mariana. Para ela, nesse momento, todos

os receios foram esquecidos. Os maiores cuidados que a futura mamãe tem são com a alimentação e com manter a calma no dia a dia, até mesmo para caminhar. Para ela, toda espera e dedicação vale a pena. “É susto, medo, ansiedade, felicidade, amor, sentimentos e emoções ao mesmo tempo. Sem explicação. É uma realidade fantástica saber que tem uma pessoa pequeninha dentro da barriga e que vai ficar por lá nove meses, precisando de muita atenção e amor”, descreve Mariana. O casal não vê a hora de poder segurar Felipe nos braços e sentir que esse sonho se realizou. Para os futuros pais, é o começo de uma nova caminhada, e, por mais que tente descrever esse sentimento, a gestante acredita ser indescritível. “Ser mãe é uma dádiva que nos foi dada para gerar uma pessoa que nos


Luiza Steffen

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Pedro Henrique nasceu no dia 18 de novembro de 2005, depois de um ano de tratamento de sua mãe e nove meses de uma gestação difícil


fará muito feliz”, completa. Outras mulheres passam por situações mais complicadas para realizar esse sonho, esperando bastante tempo por uma gravidez. Carin Cibéli Steffen Winter precisou fazer até cirurgias para ter seus dois filhos, Pedro Henrique e Bernardo José. Aos 24 anos, decidiu ter seu primeiro filho, porém, depois de muitas tentativas, não conseguiu. Não tinha vontade de adotar, foi então que fez exames e foi constatada sindrome dos ovários policísticos e endometriose. Carin precisou se submeter a uma cirurgia e, após, tomar injeções a cada mês. Foi cerca de um ano de tratamento. Numa consulta de rotina, para acompanhar o tratamento, a médica lhe disse: “Carin, posso estar muito enganada, mas acho que você está grávida!”. Esse momento é inesquecível para ela. No dia seguinte, fez um Luiza Steffen

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Pedro Henrique e Bernardo José foram muito desejados. Carin precisou fazer até cirurgias para engravidar

exame de laboratório que confirmou a gravidez. Mas as dificuldades não pararam por aí. Durante os nove meses de gestação, muitas complicações aconteceram e muitas vezes acabou internada em hospitais. O dia que seu sonho, definitivamente, se realizou foi 18 de novembro de 2005, quando nasceu Pedro Henrique. Cerca de quatro anos depois, Carin decidiu ter outro filho. E as dificuldades apareceram novamente. Se ela havia achado difícil a primeira gestação, essa foi ainda mais complicada. Precisou fazer outra cirurgia e, após, as injeções. Somente depois da sexta aplicação, ela engravidou. Mas, no terceiro mês de gestação, quase perdeu o bebê. Precisou ficar de repouso absoluto. No dia 16 de março de 2011, nasceu Bernardo José. Apesar de todas as dificuldades, ela nunca perdeu a esperança. Para não perder a força, ela conta que

rezava muito. Hoje agradece à Deus pelas duas conquistas. Infertilidade De acordo com a ginecologista e obstetra Ana Claudia Siqueira, de Montenegro, a infertilidade pode ocorrer por vários motivos, como disfunção na ovulação, síndrome do ovário policístico, alteração tubária, alteração na anatomia uterina, ou causas adquiridas, como infecções pélvicas, que causam obstrução das trompas. Trabalhando na área há 12 anos, ela afirma que a infertilidade mais comum é por endometriose. A menos comum é por causas genéticas. Normalmente suas pacientes apresentam distúrbios hormonais ou endometriose. Em sua maioria, quem tem dificuldade de engravidar prefere tratamentos medicamentosos e raramente parte para fertilização. Para ela, é necessário a grávida ter saúde física e mental. Para isso, é neces-


sário fazer um pré-natal completo para acompanhar e prevenir complicações. “O cuidado com a alimentação é imprescindível, além da prática de exercícios físicos, que também ajuda psicologicamente”, aconselha a ginecologista. A atividade física mais indicada é a hidroginástica, pois os exercícios na água trazem benefícios cardiovasculares, melhorando a circulação materno-fetal e prevenindo edemas (inchaços), tão comuns nesse período. A caminhada tem grandes benefícios e pode ser realizada também por gestantes sedentárias. Ana Claúdia alerta que exercícios devem ser indicados pelo médico. Mas, nesse período, as mulheres devem evitar frituras, gorduras, doces em exagero e, principalmente, devem evitar cigarros e álcool. É importante que os casais que têm dificuldade de engravidar procurem assistência médica especializada para investigar as causas, pois há possibilidades de ambos terem problemas de fertilidade.

O lado psicológico dos nove meses Ansiedade, estresse, estilo de vida agitado, esses podem ser alguns dos fatores emocionais que retardam a gravidez. Como no caso da grávida Mariana, muitas mulheres não têm nenhuma doença que adie a chegada do filho, mas, mesmo assim, a gravidez demora a acontecer. A psicóloga Dieime Castoldi, de Taquari, explica que a ansiedade, muitas vezes gerada pela expectativa ou pela cobrança, pode retardar a gravidez, além do estresse gerado por estilos de vida movimentados. “No momento que quer muito um bebê, o casal tem que encontrar tempo e espaço para ficarem juntos”, aconselha. Para a psicóloga, especialista em infertilidade, Luciana Leis, de São Paulo, o acompanhamento psicológico é importantíssimo nesse momento. São muitas as consequências quando é descoberta

a infertilidade, como o abalo na autoestima e na feminilidade da mulher, uma vez que a maternidade está bastante ligada à identidade feminina. Conflitos conjugais também podem surgir, assim como disfunções sexuais, caso o sexo esteja mais vinculado à procriação. Depressões e crises de angústia e ansiedade podem aparecer. O acompanhamento psicológico é importante não só para a mulher, mas para o casal. “A infertilidade costuma deixar a mulher mais insegura com relação à possibilidade de ser mãe, principalmente devido à dificuldade para se alcançar a gravidez, que muitas vezes pode ser percebida pela mulher como mais arriscada”, explica. Porém, a especialista acrescenta que é necessário o paciente reconhecer a importância para ser abrir. As mulheres que sofrem pela espera de um bebê precisam, além de dar atenção a saúde física, cuidar da saúde psicológica.

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Mariana aguarda com ansiedade pela chegada de Felipe

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EDUARDO SAUERESSIG

oi muito interessante fazer uma matéria sobre gravidez. Inclusive foi a primeira vez que escrevi sobre o assunto. Como não sou mãe e não pretendo ter filhos tão cedo, meu primeiro passo quando escolhi a pauta foi pesquisar. Olhei todos os sites existentes sobre gravidez, questionei mães das diversas dificuldades durante, antes e após ganhar o bebê. Só assim pautei as minhas perguntas. O mais espetacular foi entrevistar mulheres que queriam muito essa gravidez, que lutaram muito por esse sonho, como é o caso da Carin e da Mariana. Tentei expressar todos os sentimentos delas no texto. Nada pode ser mais prazeroso do que escrever sobre um assunto tão lindo, que é a vida, com pessoas que têm prazer de contar sua história. Muito ouvi falar de amor de mãe, mas confesso que ainda não entendo esse sentimento. Como elas mesmas dizem: “Só depois de ser que saberei.”


Borges 42Venise | Primeira Impress達o | Dezembro/2012

Fotos de Lisiane Machado


(12) passos para

uma nova vida

A porta de saída das drogas

Texto: Cândida Portolan. Fotos: Lisiane Machado e Venise Borges

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borarem na construção e reparos dos prédios, cujo material é oriundo de doações. A responsabilidade pela realização das tarefas é revezada entre eles, oportunizando que todos atuem nos 11 diferentes setores. O trabalho dedicado ao lugar caracteriza a laborterapia, que junto da disciplina e espiritualidade compõem o tripé que fundamenta a atuação da comunidade. Entre as responsabilidades diárias, estão os momentos reservados para refletirem sobre suas vidas, os caminhos por onde andaram até chegarem ali e os seus objetivos. Um dos sistemas pelos quais são conduzidos no decorrer dos nove meses de tratamento e da vivência na comunidade é o dos 12 passos do Alcoólicos Anônimos (A.A.). Os passos caracterizam o progresso dos residentes em três etapas: adaptação ao novo e desintoxicação, conscientização e resgate, e, por fim, a ressocialização. É na primeira etapa, que compreende os primeiros passos, que se registra o maior número de desistência. Admitir a impotência diante das drogas só não é um desafio, como também uma porta de entrada para a recuperação. O PRIMEIRO passo Moisés sai tranquilamente do carro e se despede dos familiares para dar início ao seu primeiro dia como residente. Aos 30 anos de idade, busca o tratamento pela primeira vez desde os 17 anos, quando teve o primeiro contato com as drogas, oferecidas por primos. A lembrança do motivo que o levou à dependência ainda é bastante lúcida: a ambição. Na ju-

ventude, a popularidade lhe parecia muito interessante, e o caminho mais rápido para alcançá-la foi a droga. O preço que pagou, porém, foi alto. “Meus primos estavam no auge. Sempre nas melhores festas, e eu achava aquilo legal. Comecei a sair com eles e experimentei. No início, usei cocaína, agora já estava no crack”, recorda Moisés. A lucidez foi se perdendo aos poucos, e o poder sobre a sua própria vida também. Moisés tentou parar sozinho diversas vezes, mas não conseguiu ficar muito tempo distante das drogas. “Não quero mais isso. A cabeça sempre girando, o cara não consegue dizer o que sente. Eu quero poder sair e encarar todo mundo, sem ninguém dizer ‘olha, lá vai um drogado!’”, desabafa. As expectativas no primeiro dia? “Nenhuma”, responde Moisés. O que ele quer se resume em poucas palavras: uma vida diferente, construída dia após dia. Moisés provavelmente não saiba, mas chegou à fazenda minutos depois de outros dois se despedirem do lugar antes de concluírem o tratamento. Um deles, com apenas dois dias de residência. O outro, com três meses de tratamento. Ambos não conseguiram dar o primeiro passo, mas dada a liberdade de decisão em ficar ou não, optaram pelo desligamento da comunidade. É possível que, adiante, busquem outras comunidades terapêuticas e clínicas, ou até mesmo que retornem para a Vale a Pena Viver. Dos 18 residentes, quatro já tiveram passagem por essa ou outra comunidade terapêutica. André, 33 anos, já conhece o funcionamento da casa. Logo chega com o

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os dez hectares arborizados e cobertos por um manto de grama bem verde e aparada, o canto dos pássaros é constante e a tranquilidade impera. Ao longe, se escuta o cacarejar das galinhas, que são tratadas no aviário localizado entre o chiqueiro e as gaiolas dos coelhos. As vacas, já ordenhadas, descansam com as ovelhas sob as araucárias, no ponto mais alto da fazenda. Mais abaixo, os açudes acomodam os cisnes negros, que passeiam pelas águas debaixo do céu azul e do sol brilhando. Para dentro da porteira se perderia a noção das horas, não fosse o sino da capela São Pio de Pietrelcina, que toca para lembrar que o tempo não para. Para quem está lá, cada badalo representa a oportunidade de um dia cruzar pela mesma porteira, que fica sempre aberta, com uma vida nova. Para chegar até a Comunidade Terapêutica Vale a Pena Viver, localizada na zona rural de Gramado, os caminhos dos 18 residentes foram mais difíceis do que a estrada de chão batido e pedras soltas do interior. Na bagagem, trazem memórias de famílias desestruturadas, de vida vazia e frustrações. Ingressos na Comunidade, têm a consciência de que a caminhada da recuperação também não é fácil, mas que dar o primeiro passo é fundamental: admitir a derrota para a droga. Na Vale a Pena Viver, a vida dos dependentes químicos residentes não é, nem de longe, pacata. Diariamente, cumprem um cronograma intenso de atividades, que inclui o trato dos animais da fazenda, e o cultivo de frutas, verduras e legumes. Eles aprendem técnicas de marcenaria, além de cola-


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dia em que estivemos na Comunidade Terapêutica Vale a Pena Viver foi realmente intenso. Amanheceu e logo pegamos a estrada para o interior de Gramado. Chegando à comunidade, a visão não poderia ser mais bela. Os portões nos esperavam abertos, e logo nos disseram que é assim que eles sempre ficam. Não se trata de uma casa de clausura, mas de decisão. No entanto, como destacou Luciano, ninguém entra porque quer, mas pela pressão da situação. Era o que precisávamos ouvir para começar a assimilar o que se passa naquele lugar, naquela “casa de problemas”. Entre essa dualidade, porém, tudo exalava vida. Não à toa, naquele lugar, tratar de “derrota” é só um passo para se falar de superação. Confesso, dias após as entrevistas, ainda me via arrepiada pelas histórias que partilharam conosco. Seja pelas palavras de Moisés, André, Roberto e Luciano, pelos cumprimentos tímidos dos demais residentes e monitores, ou mesmo pelo chimarrão preparado para a “visita”, que chegou carregada de câmeras, blocos e curiosidade, trouxemos da Vale a Pena Viver mais do que bons cases para uma reportagem. Na nossa bagagem, carregamos lições que transcendem o contexto profissional: são lições de humanidade.”

chimarrão e trova na ponta da língua. O sorriso no rosto, porém, se desfaz ao revelar que foi a terceira recaída que o levou de volta para a comunidade. André já passou pela casa em 2007, quando teve a segunda recaída. A história de André com as drogas tem muitas idas e vindas. Começou quase que ao acaso, quando tinha 12 anos, brincando de esconder. No esconderijo, um amigo lhe apresentou algo que tinha aprendido com o tio, traficante de drogas. “Ele me mostrou cocaína e me disse ‘vi meu tio fazer, ele faz assim. Faz também’. Foi assim, na brincadeira, na inocência. Cheguei em casa assustado, aquilo trancou a minha garganta, tive uma reação completamente esquisita”, lembra. Se foi quase sem querer que André teve o primeiro contato com as drogas, não foi ao acaso que essa relação de dependência escreveu novos capítulos. Embora não tenha dado continuidade ao uso a partir daquele momento, o círculo de amizade permaneceu o mesmo. Alguns amigos já eram usuários, o que ajudou a trazer à memória a primeira experiência. Aos 14 anos, André participava de encontros para beber e fumar maconha. A drogadição continuou até os 21 anos, em 2000, quando procurou tratamento. Ele era casado, e a esposa esperava um filho. Para André, era o momento certo para procurar ajuda e mudar de vida. Foram meses de tratamento e quatro anos limpo, ou seja, sem usar drogas. Até que, nas festas de final de ano, de 2004 para 2005, teve a primeira recaída. Em 2007, buscou novo tratamento. Dessa vez, na Comunidade Vale a Pena Viver. Na comunidade, André passou pelos 12 passos e partiu da internação para ajudar dependentes químicos residentes em outro centro de recuperação. Em março deste ano, ele soube que teria que recomeçar a caminhada novamente, desde o primeiro passo. Foi quando teve a última recaída. Segundo ele, isso aconteceu em função de vários acontecimentos que não soube administrar, como cobranças e frustrações no relacionamento. “São coisas que, às vezes, achamos que com as drogas conseguiremos amenizar. Na verdade, a gente cria outros problemas, e hoje eu estou aqui, resolvendo eles”. “Tu já sabias que virias para cá,

quando recaiu?”, pergunta Roberto Faleiro, coordenador interno do Processo Terapêutico da Comunidade para André. “Sim, mas no primeiro momento me convenci de que usaria ‘só hoje’. Precisamos nos enganar para usar tranquilo”, responde. Faleiro enfatiza que isso ocorre devido ao descontrole do dependente sobre a sua própria vida. A compulsividade, pontua, faz o primeiro passo ser o mais difícil, porque é o que mais dói. Roberto e André já se conhecem de longa data. Roberto trabalhava na primeira comunidade onde André se tratou e, anos mais tarde, chegaram a trabalhar juntos. Hoje, mais uma vez sendo assistido por Roberto, André recorda o caminho seguido até então e projeta o futuro. Antes, porém, Roberto questiona se André já passou pelo primeiro passo. O residente, cabisbaixo, assume que não, por ainda não ter assimilado que recaiu. É difícil para André, que já havia dado todos os passos, admitir que precisa começar de novo. Na sua ideia, e de muitos que passam pela comunidade, a recaída não representaria mais do uma única vez, que logo se dissolveria no esquecimento, assim como a substância no seu corpo. Hoje, o filho de André tem 12 anos e mora com os avós paternos. Não é a primeira vez que vive a ausência do pai, que se retira para recomeçar. André tem sonhos para depois do tratamento. Agora, busca se reerguer para que o filho viva os seus 12 anos diferente daqueles que ele mesmo viveu: que as brincadeiras sejam outras e a vida próspera. Pela caminhada do próximo Roberto Faleiro é o coordenador interno do Processo Terapêutico da comunidade há quase um ano. Antes disso passou por outras casas de recuperação, inclusive como dependente. Roberto viu sua família se desestruturar e seus valores serem trocados pelas drogas. Há 18 anos, no dia 29 de junho de 1995, ingressou na Fazenda Pacto, em Viamão, de onde saiu decidido a não cair mais. E assim fez. De lá pra cá, se dedica a iniciativas que visam o resgate e recuperação de dependentes químicos. A experiência lhe trouxe conhecimento, que partilha com o grupo de re-


sidentes, monitores e funcionários da instituição. Conversa sem tabus sobre os malefícios do uso de drogas para os dependentes e suas famílias. Trata os residentes com a seriedade que o tratamento exige, sem deixar de acolher. Para coordenar as tarefas, Roberto conta com o apoio de monitores, ex-residentes que já concluíram o tratamento. Um deles é Luciano, 38 anos, que esbanja energia. Luciano ingressou na comunidade quando tinha 34 anos. Ao falar da sua experiência como residente e do que a comunidade representa na sua vida, as palavras de Luciano, tal como suas memórias, são precisas: “Todos entram pela pressão da situação. Ninguém vende a vida pelas drogas. O dependente químico troca a sua vida pelo vício”. Diante da convidativa paisagem rural, ele é enfático: “É lindo, mas é uma casa de problemas. Quem está aqui chega sem valores e sem perspectiva. Esse é um lugar de resgate”. Luciano resgatou seus valores e se coloca ao serviço dos demais, que ainda trilham o caminho da recuperação. Os passos dele são rápidos. Agitado, passa o dia auxiliando os residentes nas atividades diárias. Visita todos os setores, sabe quem são os responsáveis pelas tarefas e chama a atenção dos residentes quando necessário. Colaborar com o trabalho da Comunidade, para ele, é uma forma de fortalecer diariamente a decisão de vida nova e de transmitir esta mensagem para quem chega e para quem retorna. Segundo o monitor, o primeiro passo deve ser reafirmado todos os dias, numa caminhada que nunca termina. Debaixo da sombra da árvore, Luciano, Moisés, André e Roberto parecem ter muito em comum. Todos acreditam que assumir a derrota para as drogas é o primeiro passo da caminhada rumo à vitória. Independente do momento em que se encontram, seja residente, monitor ou coordenador, têm a consciência de que cada dia traz consigo uma luta, composta de desafios, submissões e conquistas, que os levam para além da porteira. A mensagem de todos é a mesma: tudo é válido para quem acredita que vale a pena viver. Afinal, os 12 passos são trilhados no tratamento com duração de nove meses, mas a observância dos objetivos de cada uma das etapas deve se estender para a vida toda.

Os 12 passos

Três primeiros meses: adaptação ao novo e desintoxicação Passo 1: admitimos que éramos impotentes perante o

álcool – que tínhamos perdido o domínio sobre as nossas vidas. Passo 2: viemos a acreditar que um Poder superior a nós mesmos poderá devolver-nos à sanidade. Passo 3: decidimos entregar nova vontade e nossa vida aos cuidados de Deus, na forma em que O concebíamos.

Do 4º ao 6º mês: conscientização e resgate. Passos modificadores Passo 4: fizemos minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos.

Passo 5: admitimos perante Deus, perante nós mesmos e perante outro ser humano, a natureza exata de nossas falhas. Passo 6: prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus removesse todos esses defeitos de caráter.

Do 7º ao 9º mês: ressocialização. Passos reparadores Passo 7: humildemente rogamos a Ele que nos livrasse de nossas imperfeições.

Passo 8: fizemos uma relação de todas as pessoas que tínhamos prejudicado e nos dispusemos a reparar os danos a elas causados. Passo 9: fizemos reparações diretas dos danos causados a tais pessoas, sempre que possível, salvo quando fazê-lo significasse prejudica-las ou a outrem. Passo 10: continuamos fazendo o inventário pessoal e, quando estávamos errados, nós o admitíamos prontamente. Passo 11: procuramos, através da prece e da meditação, melhorar nosso contato consciente com Deus, na forma em que O concebíamos, rogando apenas o conhecimento de Sua vontade em relação a nós e forças para realizar essa vontade. Passo 12: tendo experimentado um despertar espiritual, graças a estes passos, procuramos transmitir esta mensagem aos alcoólatras e praticar estes princípios em todas as nossas atividades.


Marcelo Altenhofen

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Azar ou sorte? Para os devotos de Santo Antônio, 13 é o número da sorte Texto: Fernanda Mandicajú. Fotos: Bruna Santos, Fernanda Mandicajú e Marcelo Altenhofen

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ia 13 não é dia de azar, é dia de Santo Antônio! Essa frase é conhecida pelos devotos do padroeiro, mais conhecido como santo casamenteiro, protetor dos namorados, ou o santo dos objetos perdidos. Santo Antônio vem conquistando muitos fiéis. Santo Antônio nasceu em Lisboa. Não se sabe ao certo nem o ano do nascimento, nem o da morte. Mas foi no dia 13 de junho que ele morreu, data que foi intitulada de “Dia de Santo Antônio”. Todos os santos são lembrados no calendário da Igreja no dia de sua morte. Para Luiz Sebastião Turra, mais conhecido como o frei Turra na Paróquia Santo Antônio, em Porto Alegre, o dia 13 ganhou uma simbologia mágica. “Com isso, mudou um pouco o significado desse dia que é considerado perigoso e carregado de medos por muitos, passou a ser um dia que traz segurança, paz e alegria”,

diz o frei. Na paróquia, no dia 13 de cada mês, são celebradas missas em devoção a Santo Antônio e não são realizados casamentos nem batizados. “É um dia de benção em que aconteceu a passagem de Santo Antônio desta vida para a eternidade, e no dia 13 de junho mais de 100 mil pessoas passam na igreja”, conta. Mas por que Santo Antônio é considerado o santo casamenteiro ou protetor dos namorados? Muitos boatos existem, mas, segundo o frei Turra, Santo Antônio é considerado orientador de jovens namorados, defensor e padroeiro da família. “Santo Antônio realizou muitos milagres em vida. Um deles se refere a uma jovem que era muito pobre e não tinha condições de comprar o enxoval para o seu casamento. Ela vivia muito constrangida. Santo Antônio lhe tranquilizou dizendo que ela iria encontrar um enxoval muito bom para o seu casamento,


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Marcelo Altenhofen FOTOS Fernanda Mandicajú

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Frei Turra está há cinco anos na Paróquia Santo Antônio, em Porto Alegre, onde Nair Maria Sosnoski presta serviço voluntário na igreja. Também é lá que o casal Sidiane e Jonas comparece às missas para pedir proteção

e ela acreditou na palavra do santo”, conta o frei. Quando a moça retornou para casa, lá estava um enxoval que ela não sabia de onde tinha vindo, nem de quem tinha sido a doação. “Sem dúvida, ele é o grande mestre do evangelho, ensinava o caminho do amor para os jovens namorados, intercedendo também por pessoas indefesas, humilhadas, sofridas, pois procurava atender a todos”, diz frei Turra. Mas quem pensa que a paróquia recebe somente pessoas preocupadas com a vida amorosa engana-se. Muitos vão em busca de outras graças. Um desses fatos foi presenciado por frei Turra. Um pai com o filho nos braços chegou chorando e dizia: “Frei, eu distribuí currículos em várias empresas e não estou conseguindo emprego. Estou ficando apavorado, porque meus filhos precisam comer, e eu estou muito preocupado, eu vim aqui hoje e quero me ajoelhar diante de Santo Antônio para pedir a ele que me ajude”. Frei Turra ficou observando aquele homem. “Eu vi o pai de família se ajoelhando em frente da imagem. Quando ele estava ajoelhado, o celular dele tocou. Era uma empresa que estava lhe chamando para trabalhar. Quando percebi, ele saiu correndo com as mãos erguidas, feliz da vida, pois tinha alcançado a graça!”, declara frei Turra. Há também solicitações por parte dos devotos em relação às suas famílias. “Ajustes familiares ou para arrumar namorado ou namorada é uma constante nos pedidos escritos, e considero algo muito sagrado. Recolhemos os pedidos e deixamos num ambiente especial.” Às vezes são cartas longas com desabafos, ou pedidos para que Santo Antônio ajude a achar um companheiro que faça aquela pessoa feliz. Além de pedir por alguém, muitos se comprometem com Santo Antônio em fazer o outro feliz. “Eu considero isso muito bonito, acho que esse é o jeito certo de amar. Amar não é esperar um pelo outro, mas amar é, realmente, se dispor a fazer o outro feliz”, diz o frei.


Bruna Santos

Devotos e graças alcançadas

Invocação a Santo Antônio Santo Antônio grande pregador do evangelho (Rogai por nós) Santo Antônio orientador dos jovens namorados (Rogai por nós) Santo Antônio protetor e defensor da família (Rogai por nós) Santo Antônio multiplicador do pão e da solidariedade (Rogai por nós)

IMPRESSÕES DE REPÓRTER

“A

o pegar essa pauta, pensei como fazer. Imaginei que encontraria só pessoas que recorrem a Santo Antônio para arrumar um namorado ou namorada. Engano. Santo Antônio é considerado pelos devotos como o santo que pode atender vários pedidos. Para dar vida à matéria, assisti a duas missas, conversei com devotos e tive que entender um pouco da fé católica. Surpreendi-me ao perceber que não são somente adultos ou pessoas com mais idade que frequentam as missas. Vi muitos jovens sozinhos, casais e famílias inteiras que se dirigem até a paróquia com o único propósito: alcançar uma benção de Santo Antônio. Mas tem algo que me marcou. Foi um pronunciamento do frei Turra no início de uma missa que assisti. Ele mencionou: “O dia de hoje já foi, não volta mais, vamos agradecer por esse dia.” Isso é uma verdade, cada dia é único e não voltará, não terá outro igual. Com essas palavras, o frei deu continuidade ao sermão naquele dia, e eu fiquei refletindo por minutos durante a missa.“

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Com toda essa popularidade, Santo Antônio vem arrebatando devotos. Um exemplo é o casal Sidiane Braghini e Jonas Bertolo Biagini, ambos com 30 anos. A religiosidade do casal vem de Sidiane, pois sua devoção por Santo Antônio vem de berço. “Minha avó era devota, minha mãe é, e eu segui os passos da minha família.” Com toda essa crença, ela apresentou ao noivo a fé católica. Apesar de Jonas ter outra formação religiosa, isso não atrapalha a vida do casal. “Eu não venho na igreja de Santo Antônio em função de que muitos acreditam que é o santo casamenteiro. Eu nunca vim com esse pensamento. Santo Antônio é meu santo para tudo, na saúde, na profissão e não somente na parte sentimental ou afetiva. Não peço especialmente para o relacionamento, mas para a minha vida”, declara Sidiane. Para ela, a décima terceira casa numérica tem um significado. “O 13 para mim é o dia de Santo Antônio, não lembro desse número como azar, como muitas pessoas acreditam. Principalmente dia 13 de junho, que é sagrado, pois é dia de Santo Antônio.” Quando os horários do casal não combinam, Sidiane vai às missas sem o noivo, mas, quando dá certo, lá estão eles pedindo a proteção de Santo Antônio para suas vidas. Outra devota é Nair Maria Sosnoski, de 52 anos, que além da religiosidade, desenvolve trabalho voluntário na paróquia. Há mais de 20 anos, ela busca auxílio em Santo Antônio. “Em primeiro lugar peço para a saúde. Graças a Deus e a Santo Antônio, minha saúde está boa. Quando não estou bem ou tenho algum problema, vou na igreja e peço e vou embora tranquila.” Nair frequenta a paróquia aos domingos e terças como devota. Nas segundas-feiras é o dia de recepcionar as pessoas que chegam para visitar a igreja ou que necessitam de ajuda. “Dedico uma ou duas vezes na semana para trabalhar na igreja e isso é bom para o meu interior, me traz paz espiritual.” Sua devoção vai além da paróquia. Quando sabe que alguma pessoa está com

problemas, logo indica o padroeiro. “Se conheço alguém que não está bem, eu digo para irem procurar Santo Antônio que ele irá ajudar, digo para irem à igreja e colocarem o nome para oração, ou eu mesma coloco os nomes para receberem orações, pois orações nunca fazem mal, só fazem o bem e sempre são bem vindas.” Nair não costuma fazer pedidos específicos, mas em 2011 fez os 13 passos com Santo Antônio. São missas uma vez na semana que antecedem o final do ano. Os passos ela fez para a saúde, pois estava com depressão e considera que, se não tiver saúde, não tem mais nada. Quando perde algo, também recorre ao padroeiro que é seu guia. “O Santo Antônio para mim significa todos os lados da minha vida. Agora estava pedindo para ele guiar os meus passos. E, para mim, o dia 13 é dia de Santo Antônio, é também um dia de sorte, até no jogo.” Nos dias 13, ela sempre vai a igreja. “Venho mais para agradecer do que para pedir. Peço só quando estou aflita. Às vezes só pensamos em pedir, eu venho agradeço e rezo. E se acontecer de eu estar em outro lugar no dia 13, me lembro que é dia de Santo Antônio, volto para casa, porque tenho que ir na igreja agradecer pelas benções alcançadas”.


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JULIANA SPITALIERe

JULIANA SPITALIERe

Rodrigo Blum


Rodrigo Blum

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JULIANA SPITALIERe

Rodrigo Blum


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Metamorfose urbana Preconceito, estereótipo, mudanças. Essas palavras marcaram a vida de Joe Nicolay Texto: Natália Silveira. Fotos: Douglas Bonesso

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O

preconceito não está nos números, nem nos nomes, está na cabeça das pessoas. Vinte e quatro não é nada mais do que um número. Esses algarismos, contudo, foram utilizados para estigmatizar os homossexuais masculinos. Uma das explicações é a de que o vinte e quatro no jogo do bicho representa o número do veado, mais uma das tantas denominações para homens que sentem atração pelo mesmo sexo. Há quem acredite que a relação com os veados tenha sido estabelecida porque há espécies de veados em que os machos, em época de inverno rigoroso, dormem juntos para se manter aquecidos. Uma pesquisa realizada pelo biólogo canadense Bruce Bagemihl, autor do livro Biological exuberance: animal homosexuality and natural diversity (Exuberância biológica: homossexualidade animal e diversidade natural), comprovou que o casal formado por um macho e uma fêmea é só uma pequena parte da vida sexual dos animais. As relações entre animais do

mesmo sexo variam de um simples cortejo, chegando até na formação de casais. Segundo a pesquisa de Bagemihl, que analisou 450 espécies do mundo animal – com maior ou menor grau de hábitos homossexuais – mais de 70 espécies de aves mantém um relacionamento duradouro com companheiros do mesmo sexo, e essa união é adotada por mais de 30 mamíferos. Uma história que merece ser contada Esqueça a mesa posta, a família unida de comercial de margarina. Na infância de Joe Nicolay, hoje com 22 anos, esses elementos sempre pareciam pertencer a uma realidade distante. Filho de mãe solteira, de família humilde, cresceu na cidade de Canoas sem uma presença masculina. O pai, um tatuador vindo de uma família com melhores condições financeiras, foi lhe apresentado quando tinha cinco anos.


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IMPRESSÕES DE REPÓRTER

“L

ogo na primeira aula, já surgiu uma certa

ansiedade por saber que teríamos que escolher um tema para a revista deste semestre. A sugestão dos números foi bem aceita, pois possibilitava as mais diversas pautas. Procurei fugir dos assuntos mais tradicionais, além, é claro, de procurar um que me proporcionasse gosto ao escrever. Feita a escolha, fiquei em duvida para saber qual foco dar a matéria. Pensei em contextualizar diretamente com o jogo do bicho, com histórias de quem aposta no número 24. Outra ideia sugerida pela professora foi fazer a entrevista com 24 homossexuais masculinos. Após esse curto período de incerteza, resolvi apostar em um perfil, em alguém que tivesse uma historia forte e rendesse uma boa matéria. Não precisei procurar muito para encontrar o case ideal, pois já conhecia o Joe há alguns anos e sabia das experiências que ele viveu. Fazer a matéria foi tranquilo, a entrevista rendeu, e por mais que seja clichê dizer isso, o Joe realmente abriu a vida dele para mim. Enquanto ele falava e eu ouvia, pensava o quão incrível e cheia de detalhes é

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a trajetória dele e como tudo isso contribuiu para formar a pessoa que ele é hoje. Fiquei feliz com o resultado final e espero que a matéria abra a mente das pessoas, possibilite um novo olhar para quem ainda carrega consigo o preconceito.”

Com 10 anos, Joe ganhou a tal presença masculina, um padrasto. Sua vinda, porém, de acordo com ele, veio para bagunçar a vida da família. Aquela criança que, na escola, era comunicativa, tinha gosto por desenhar e fazer maquetes, mal sabia a tempestade que ainda estava por vir. “Andava sempre com as meninas. Algumas delas eram minhas amiguinhas no colégio, mas nunca me convidavam para fazer nada fora dali”, lembra. As crianças podem ser cruéis. O chamado bullying chegou cedo na vida de Joe, ainda na primeira série. “Eu falei ‘querida professora’ e um colega me chamou de boiola”, relembra. Com seis anos, ele não entendeu o significado da palavra. Foi questionar a mãe, que não quis responder. Aos poucos, foi juntando as peças e percebeu que as palavras do colega tinham um tom de ofensa. Aquela era apenas a primeira de inúmeras vezes que ele iria ouvir as palavras veado, marica, boiola. A psicóloga Magda Mello, explica que o bullying pode ser entendido como um trauma psíquico que coloca o sujeito em situação de humilhação e sufocamento, sendo esse causado por um excesso de angústia que acaba provocando situação de desamparo e desalento. Ao todo foram dez as escolas pelas quais passou durante a sua trajetória escolar. Foi na quinta série que outro fato lhe marcou profundamente. Ele lembra que estava conversando demais na sala de aula e a professora falou para alguém dar um soco nele. Em questão de segundos, praticamente a turma inteira estava em cima dele, principalmente os meninos, fazendo “montinho” com direito a pontapés. A professora foi afastada quinze dias depois. A sequência de fatos nem era mais comentada em casa, pois já tinha virado algo rotineiro. A mãe sofria com problemas no casamento e ainda tinha que dedicar boa parte do tempo à criação de duas filhas mais novas. As questões do filho mais velho pareciam não ter espaço no meio de tantos problemas. A casa do pai era seu refúgio, um verdadeiro parque de diversões, onde ouvia Madonna e Pink Floyd, jogava videogame e tamagoshi, um brinquedo da época. Com a chegada da adolescência, vie-

ram os conflitos que parecem ter muito mais ênfase nessa fase da vida. Na sexta série, ele reprovou e só foi saber no primeiro dia de aula do ano seguinte. “Minha mãe não foi buscar o boletim, logo, não fiquei sabendo de nada. Cheguei no primeiro dia de aula e fui informado que havia sido reprovado”, afirma. As ofensas vindas dos colegas continuavam, tanto que, na saída da escola, esperava todos os colegas saírem para ir embora, ou tinha de sair cinco minutos mais cedo, pois sabia que teria que enfrentá-los. Nessa época, as coisas desandaram, perdeu o interesse na escola, tornando-se um aluno isolado, que não falava com ninguém. Imagine um garoto usando meia soquete até o joelho, bermuda e camiseta polo, lendo Eu, Christiane F, 13 anos, drogada, prostituida... Não parece a imagem mais comum de um estudante da sexta série, mas era assim que Joe passava os intervalos, isolado, lendo seus livros. Ele conta que, logo que leu o primeiro capítulo do livro, teve uma identificação muito grande, principalmente no aspecto familiar. Foi também na adolescência que ele começou a descobrir sua sexualidade. “Antes eu tinha noção que era diferente, mas as coisas não tinham uma conotação sexual, eu não entendia muito bem a minha sexualidade”, declara. Relembra um beijo que deu em uma menina, sua vizinha, e diz que todo gay começa sendo bissexual. “No início, tem todo um conflito, ninguém se assume de primeira. Tem toda uma evolução pra depois tu perceberes o caminho que tu vai seguir”, afirma. Foi nessa época também que o seu estilo começou a se diferenciar dos demais. Juntando o dinheiro do lanche, comprou uma chapinha, fez mechas vermelhas no cabelo, começou a comprar acessórios. Tudo em um estilo meio emo, embalado ao som de bandas como My Chemical Romance, The Used, Evanescente. “Era um visual um pouco agressivo, mas de certa forma era minha revolta contra a sociedade.” A situação em casa se complicava a cada dia, o relacionamento com o padrasto estava cada vez mais pesado, até que dividir o mesmo teto tornou-se insuportável. Com 14 anos, ele saiu da casa de sua mãe e foi morar com uma tia. “Lá era mais tranquilo, mas aquele sentimento de solidão continuava, pois não existia aquele momento de diálogo,


de conversar sobre o que estava acontecendo, não existia uma troca de afeto.” De qualquer forma, havia mais espaço, e, no meio disso tudo, Joe assumiu para si mesmo que era homossexual e se conectou com o mundo gay. Aprendeu a se aceitar, percebeu que existem famílias que aceitam a homossexualidade de forma natural e fez novas amizades. Amizades que, aliás, tiveram um papel fundamental na sua trajetória. “Quando tu estás com os teus amigos, é como um escudo, tu não tem medo de sair do armário, porque existem pessoas para te proteger. Se não existe esse apoio, quando teus amigos são preconceituosos e têm a ideia de que homossexualismo é uma coisa ruim, tu acaba sendo um gay reprimido.” MUDANÇAS

Nas aulas de teatro, Joe explora sua criatividade em vários personagens

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Quatro anos morando com a tia foram o suficiente para ele desejar sua independência. Aos 18 anos, deu um passo importante e foi morar em Porto Alegre. “Foi uma das coisas mais incríveis da minha vida, aquela sensação de dar conta de ti, não ter ninguém te oprimindo. Inicialmente rola uma afobação, mas o que realmente conta nisso tudo é cobrar de si mesmo, conhecer teus limites, saber a hora de fazer cada coisa”, afirma. A liberdade que essa nova fase carrega consigo deu espaço ao entusiasmo que Joe sempre teve com a arte, que resultou em trabalhos com fotografia e moda e acabou trazendo a paixão do teatro para o seu dia a dia. No início deste ano, ele começou a frequentar as aulas na Casa de Teatro de Porto Alegre. “O teatro para mim é uma forma de expressão, de expor demônios, alter egos, além de ser um autodesafio.” Joe passa por um momento de autodescobrimento, aquelas palavras que soavam como uma monstruosidade na infância, hoje são praticamente um elogio. “Adoro ser chamado de bicha, veado. Se alguém grita para mim na rua, eu logo penso: me contem alguma novidade.” Essa transparência reflete em quem é o Joe hoje em dia, que sabe o valor de cada experiência na sua vida, acredita que tem uma opinião formada sobre muita coisa, tem uma curiosidade enorme e, principalmente, está em constante formação, em constante metamorfose.


56 | Primeira Impress達o | Dezembro/2012 Bibiana Kranz


(35)

CTG com tradição Há 64 anos protegendo a cultura gaúcha, o 35 CTG revolucionou quando a primeira patroa foi eleita, depois de mais de seis décadas de patronagem masculina Texto: Juliana Freitas. Fotos: Bibiana Kranz e Luiz Fernando Vieira

R

Tudo começou por volta de 1945, depois da Segunda Guerra Mundial. Paixão Côrtes notou uma grande valorização da cultura americana por parte dos jovens, que não cultivavam os hábitos gaúchos. Márcia garante que a presença dos jovens hoje no 35 é intensa. “A porta de entrada são as invernadas de dança, os bailes e os cursos de fandango. Nós favorecemos muito que os jovens estejam presentes. Temos uma participação bem intensa dos jovens nos bailes e nas domingueiras.” Mas nem sempre foi assim. Paixão Côrtes veio de Santana do Livramento, no interior do Rio Grande do Sul. Criou em Porto Alegre o Departamento de Tradições Gaúchas, no Colégio Julio de Castilhos, juntamente com um grupo de jovens que também praticavam a cultura gaúcha. O objetivo era o de não deixar que as tradições do estado se perdessem.

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oupas, gastronomia e música são características marcantes na cultura do Rio Grande do Sul. Os Centros de Tradições Gaúchas (CTGs) são lugares onde as pessoas que valorizam as tradições do estado se encontram para conversar, dançar e não deixar que a cultura seja esquecida. Eles se originaram há mais de 60 anos. Isso se confirma com a história do CTG mais antigo do Rio Grande do Sul: o 35 CTG. O 35, como é carinhosamente chamado, passou por muitas mudanças. A última foi a mais radical: depois de 63 anos de patronagem masculina, Márcia Borges assumiu como patroa. As mulheres não participaram da criação do 35 CTG, vindo a integrar o centro após sua construção. Isso aconteceu muito tempo depois de João Carlos D’Ávila Paixão Côrtes, conhecido no estado apenas como Paixão Côrtes, dar o pontapé inicial para a história do 35.


Luiz Fernando Vieira

Márcia Borges teve que enfrentar preconceitos para concorrer à patronagem do 35, mas venceu a eleição

Foi de Paixão Côrtes a ideia de conversar com o responsável pelos festejos da Semana da Pátria no Rio Grande do Sul para que uma centelha do fogo simbólico da pátria fosse retirada para se transformar em Chama Crioula. A chama ficaria acesa até o dia 20 de Setembro, data da Revolução Farroupilha. Essa iniciativa deu a Paixão Côrtes e ao grupo a oportunidade de participar da guarda dos restos mortais de David Canabarro, um dos heróis da Revolução Farroupilha. Essa guarda marcaria o início da Semana Farroupilha e a formação do Grupo dos Oito, formado pelos responsáveis pelo começo do movimento tradicionalista. Contando com apenas oito pessoas no início, atualmente o 35 CTG já têm cerca de oitocentos integrantes. Sócios fiéis, segundo a patroa. “O pessoal participa dos bailes e quem está em dia e tem mais de dois anos de sociedade pode participar da escolha do patrão do CTG”, conta Márcia. O patrão é o responsável por administrar o centro e manter a tradição perante os associados.

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HOMENAGEM À REVOLUÇÃO FARROUPILHA Depois da Ronda Crioula, como ficou conhecida a guarda aos restos mortais de David Canabarro, o Grupo dos Oito acabou agregando simpatizantes. A união se intensificou com os encontros e as conversas feitas inicialmente na casa de Paixão Côrtes, passando a serem realizadas, tempo depois, no lugar onde acabaria por ser a primeira sede oficial do 35 CTG. O prédio que abrigava a sede se localizava no centro de Porto Alegre, entre as ruas Borges de Medeiros e Riachuelo. No dia 24 de abril de 1948, o 35 CTG foi inaugurado, tendo o seu nome escolhido pelos integrantes como uma homenagem ao início da Revolução Farroupilha, em 1835. Depois da inauguração, a grande dificuldade era administrar a entidade. Devido à falta de experiência, os integrantes


Bibiana Kranz

pava de reuniões e encontros com as moças da sociedade. Sendo assim, foi criada a primeira Invernada das Prendas, que serviu como uma porta de entrada para as mulheres. As meninas integrantes do 35 CTG já foram quatro vezes segundo lugar na Primeira Prenda do Rio Grande do Sul, categoria adulta; três vezes primeiro lugar na categoria mirim; e na juvenil, se perde a conta das vezes que as integrantes do 35 CTG receberam o prêmio. Nos últimos tempos, Cyra estava muito doente, mas era uma das mulheres mais presentes no CTG. Márcia sentiu muito o falecimento de Cyra em fevereiro deste ano. “Ela era uma inspiração e uma pessoa com quem eu sempre me aconselhava.” Em 1949, aconteceu a primeira Invernada de Danças do 35 CTG, com apresentação de uma dança chamada meia-canha, trazida do Uruguai. Atualmente o 35 conta com quatro grupos de danças: mirim, juvenil, adulta e Xingu. Suas participações nas competições pelo estado renderam tantas premiações que fica impossível contabilizar. O último prêmio recebido foi o “Troféu Mulher”, concedido pela Câmara de Vereadores de Porto Alegre à patroa Márcia Borges. “Recebemos também, de Los Angeles, um convite para ser padrinho do CTG Bento Gonçalves, nos Estados Unidos.” O 35 CTG é um grande representante da cultura gaúcha e uma mostra de que podem as tradições de uma região ultrapassar o tempo sem perder a essência de sua origem.

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“F

ui criada em uma família que gosta das tradições gaúchas e tem orgulho do estado em que nasceu. Quando criança, ia de prenda para a escola durante a Semana Farroupilha e fiz aulas de fandango. Mas conhecer a fundo a história de como se deu o início da defesa pela nossa cultura foi incrível. Ler sobre a união do Grupo dos Oito e saber que obstáculos foram enfrentados para defender a cultura do estado onde nasci foi uma aventura fantástica pelos livros e pela imaginação. Talvez eu imagine coisas demais, mas fico pensando como deve ser o sentimento de quem iniciou o movimento tradicionalista há 64 anos. Muita coisa mudou, o universo da tecnologia chegou e várias gerações já se passaram, e a tradição gaúcha continua viva no coração da maioria dos gaúchos. Podem dizer que gaúcho é bairrista, mas eu tenho orgulho de ser gaúcha. E a tradição jamais morrerá no coração de quem a ama.”

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tiveram que pensar muito para que a elaboração do estatuto não fugisse da ideia inicial: defender a cultura gaúcha. O primeiro patrão oficial foi Antônio Cândido da Silva Neto. Pelos 63 anos seguintes, o 35 foi comandado por homens. Isso mudou em 2011, quando, depois de uma votação difícil e acirrada, Márcia Borges ganhou as eleições para a patronagem. Eleita com 248 votos, ela diz que sofreu muito com o preconceito por ser mulher. “Eu fazia parte da chapa anterior e, quando disse que eu ia concorrer, eles não quiseram me apoiar porque eu era mulher. Fizeram uma chapa contrária a mim”, diz a patroa, que acredita que as mulheres têm que ter coragem e trabalhar muito para mostrar que são capazes. Frequentadora do CTG há mais de 30 anos, Márcia já foi Primeira Prenda do Estado pelo 35 e já fez parte da diretoria de cultura (foi capataz de cultura, como se chama dentro do CTG). Uma das pessoas que mais ajudou Márcia na sua caminhada foi Cyra Dutra Ferreira, viúva de Cyro Dutra Ferreira, um dos fundadores do 35. “Quando pensei em montar uma chapa, fui na casa dela e perguntei o que ela achava da minha ideia. Ela me deu todo o apoio, disse que eu tinha que lutar pelo espaço da mulher. Elas, desde 1949, lutavam por isso”, conta Márcia. Cyra foi o principal nome do início do movimento feminino dentro do CTG. Como era noiva de Cyro Dutra Ferreira na época, tinha a responsabilidade de divulgar as vestimentas femininas. Ela partici-


A incógnita

(42)

Na série O guia do mochileiro das galáxias, esse número é cercado por vários mistérios Texto: Camila Capelão. Fotos: Marília Bíssigo

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É

um simples número para a maioria das pessoas, mas, para os fãs da série de livros do mochileiro das galáxias, o 42 é a “resposta para a vida, o universo e tudo mais”. A brincadeira começou quando o escritor britânico Douglas Adams criou os cinco livros da série Guia do Mochileiro das Galáxias e conquistou diversos países com sua bem humorada ficção científica nonsense. O autor ao mesmo tempo critica a sociedade e os valores humanos. A narração usa toda a galáxia para as críticas, porém é algo que pode servir e muito para nossa realidade. A estudante de Realização Audiovisual Natasha Ferla, 20 anos, é fã do primeiro livro, que, na opinião da leitora, é a mais bem elaborada história que já leu. Já o estudante de Comunicação Digital Pablo Aguiar, 23 anos, é fã do segundo livro, intitulado O restaurante no fim do universo. “Adoro os trechos engraçados da história.” Opinião parecida com a do professor e estudante de física Marcus Eduardo de

Mello, 27 anos, que também prefere o segundo livro. “O autor soube fazer humor e ao mesmo tempo não parecer exagero”, diz. Apesar de viajar na galáxia ainda ser irreal para a realidade atual, Adams soube escrever a história de maneira verossímil. A série de livros continuou mesmo após a morte do autor, em 2001. Mas os três leitores não leram o sexto livro, que foi escrito por Eion Colfer, pois acreditam que não deve ter a mesma magia. “Não há como saber o que o autor pensava exatamente como rumo para a história”, relata Marcus. Na narrativa criada por Adams, os personagens principais têm uma incógnita para descobrir: a resposta para vida, o universo e tudo mais. No livro, a única pista que é dada a eles é o número 42. Então, os personagens, que criaram uma máquina que supostamente responderia todas as perguntas sobre o universo e a vida nas galáxias, perguntam o que significa o número. A resposta é a seguinte: “Quando des-


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cobrirem qual é a pergunta certa, vão saber o que esse número representa”. Pablo diz que essa é justamente a graça, pois o que importa não é a resposta, e sim a pergunta. “Pensamos muito nas respostas, mas o que importa nesse caso é a pergunta, o caminho inverso.” Já Marcus acredita que tudo pode ter sido escolhido ao acaso, sem motivo aparente, apenas um número que o autor pensou. O sucesso que a ficção alcançou foi tanto que foi inventado pelos fãs o dia da toalha, um objeto importante na história. Segundo o livro, a toalha é um instrumento de múltiplas utilidades em inimagináveis situações. Com ela, é possível, além de se enxugar, se defender, bater ou atacar, entre outras coisas. Por isso, alguns fãs resolveram homenagear o inventor e, no dia 25 de maio de 2001, foi realiza-

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Pablo gosta do segundo livro, pois acha o mais engraçado

do pela primeira vez o dia da toalha. Para comemorar a data, a ideia é simples, basta usar o objeto e fazer alguma “arte” com a toalha. Pode ser algo banal, como levar uma ao trabalho, ou elaborado, como tirar fotos. Pablo conta que o dia também ficou conhecido como dia do orgulho nerd, pois o clássico é muito conhecido entre esse público. Há alguns anos, fãs espalhados pelo mundo tentaram trocar a data para 42 dias após a morte do autor, mas a mudança fracassou. Da literatura para o cinema O primeiro livro da série foi lançado em 1979, mas somente em 2003 virou filme, o que era um desejo do próprio Adams. Infelizmente devido a um ataque cardíaco, aos 49 anos, o autor

não pôde ver seu sonho realizado. O Guia, na verdade, surgiu como uma série de rádio, e só depois foi transformado em bestseller. Com a história, o britânico conseguiu um espaço na TV de seu país e chegou até a escrever duas versões do roteiro de um longa-metragem. Foram anos de negociações e indecisões sobre o projeto até que a produção ficou com a Walt Disney Pictures, após dois anos do falecimento do autor. O aguardado projeto chegou às telas finalmente em maio de 2005. Porém, lamentavelmente, o resultado foi considerado pela crítica mediano. Alguns fãs comentaram na internet que faltou ao filme o toque Adams de humor, mas que os personagens principais foram representados de maneira brilhante. Dentre tantos detalhes dessa ficção, há a famosa brincadeira de pedir carona


e a intrigante escala de inteligência proposta. Na história, os ratos, aqueles de laboratório, são mais inteligentes do que os humanos e são eles que fazem experimentos com os homens e não o contrário. Nessa brincadeira toda, o site de buscas Google não fica de fora. Quando se digita a pergunta: “Qual a resposta para a vida, o universo e tudo mais?”, o buscador responde 42. Porém, o número 42 não aparece só na criação de Douglas Adams. Ele está envolvido em diversas outras histórias. No seriado americano Lost, ele é um dos números repetidamente falado, e é tido com um número que compõe uma sequencia de azar e sorte. Em House, é o número preferido do médico mal humorado e inteligente Gregory House. No Arquivo X, é o número do apartamento de um dos principais personagens. Em Doctor Who, além

de aparecer diversas vezes no episódio oito da terceira temporada, o número sugere um cálculo, pois multiplicando oito por três — que correspondem ao episódio e a temporada —, o resultado é 24, que invertido é 42. Até mesmo no seriado mexicano Chaves há a seguinte citação: “O verso do cão arrependido deve ser respondido 42 vezes”. Há também outras coincidências que envolvem o 42. Steve Jobs, principal chefe executivo, ou CEO (Chief Executive Officer), de uma das maiores empresas de tecnologia, faleceu 42 dias após sua saída da Apple. Adolf Hitler sobreviveu a 42 atentados. Elvis faleceu com 42 anos, quando começou sua carreira automobilística, Ayrton Senna tinha um carro com o número 42 e, coincidentemente, quando ia obter a quadragésima segunda vitória de sua carreira, morreu.

IMPRESSÕES DE REPÓRTER

“M

“E a resposta para a vida, o Universo e tudo mais é...

42!”

Pensador Profundo sobre a resposta da vida

“Quarenta e dois!

É tudo que você tem a nos dizer depois de sete milhões e quinhentos mil anos de trabalho?”

Loonquawl sobre a resposta da vida, do universo e tudo o mais

“Eu verifiquei cuidadosamente, e não há dúvida de que a resposta é essa. Para ser franco, acho que o problema é que vocês jamais souberam a pergunta.” Pensador Profundo sobre 42

A saga do fim do universo

em ordem cronológica Os cinco foram lançados no Brasil pela Editora Sextante

O guia do mochileiro das galáxias Douglas Adams (2004) O restaurante no fim do Universo Douglas Adams (2004) A vida, o Universo e tudo mais Douglas Adams (2004) Até logo, e obrigado pelos peixes Douglas Adams (2005) Praticamente inofensiva Douglas Adams (2006) E tem outra coisa Eoin Colfer (2009)

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inha matéria foi divertida e gostosa de fazer. Tinha curiosidade sobre o número 42 e a história do Guia do Mochileiro. Foi um desafio e ao mesmo tempo um aprendizado. Escrever sem revelar muito a história e com pouco espaço foi difícil. Algumas vezes desanimei, outras me incentivei, mas no final acredito que tenha conseguido cumprir a pauta. Espero também ter agregado para os conhecedores da obra de Douglas Adams sobre o número 42. Procurar cases, ouvi-los, fotografar e transcrever histórias é maravilhoso. Encontrei pessoas distintas: um extremamente tímido, apenas respondia o que perguntava; outro já é mais comunicativo, gosta de contar histórias, explicar por que gosta das coisas; o último leu vários trechos do livro durante nossa conversa. São mundos opostos com gostos parecidos. Gosto disso no jornalismo, as possibilidades que ele proporciona. Além de conhecer um pouco de tudo, se conhece um pouco das pessoas e seus comportamentos. Estou ansiosa para saber o que eles vão achar da história que contei.”

Trechos do livro


Visto acima do manequim (44) e sou feliz Mulheres plus size não seguem padrões, elas criam os seus

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A

Texto: Rita Trindade. Fotos: Lisiane Machado

revista Forbes divulgou em junho deste ano a lista anual com as dez modelos mais bem pagas do mundo. No top dez, três modelos são brasileiras. No topo da lista, pelo oitavo ano seguido, está Gisele Bündchen, com ganhos de 45 milhões de dólares em 2011. Adriana Lima, com 7,3 milhões de dólares, e Alessandra Ambrósio, com 6,6 milhões de dólares, ocupam a terceira e quinta posições no ranking, respectivamente. As modelos brasileiras são ícones de beleza e sucesso no mundo inteiro. Na passarela, deslizando sobre pernas esguias, elas seguem todas o mesmo padrão: altíssimas, magérrimas, lindas e vestindo o manequim 38. Essas modelos ditam um alto padrão de beleza e são inspiração para muitas mulheres, afinal, o sonho de toda a mulher é vestir o manequim 38. Será? Mas e quem não se encaixa nesse padrão de beleza, como faz para se ajustar aos moldes? Embora a moda venda a imagem da magreza absoluta como a apropriada, a maioria das mulheres brasileiras não se encaixa nesse modelo. Muitas vestem roupas com números maiores e outras bem maiores. Esse novo segmento da moda para as mais gordinhas é conhecido como plus size. O termo surgiu nos Estados Unidos para classificar tamanhos de roupas maiores que o convencional, isto é, acima do manequim 44. A população obesa brasileira cresceu muito nos últimos anos. Segundo uma pesquisa realizada pelo Ministério da Saúde em 2010, cerca de 48,1% da população está acima do peso e 15% são obesos. Essa pesquisa aponta também que 42,3% das mulheres brasileiras têm sobrepeso. Conforme uma análise realizada pelo Institu-

to de Estudos e Marketing Industrial (IEMI), esse aumento de peso se deve há vários fatores, como, por exemplo, a melhora dos salários, a distribuição de renda com maior concentração da população nos grandes centros urbanos, a mudança dos hábitos alimentares. Com a rotina intensa que cada vez mais a sociedade vive, as pessoas se alimentam muito fora de casa. O estudo apontou também como razão do desenvolvimento da obesidade o crescimento dos fast-foods e o fato de crianças ficarem sozinhas em casa se alimentando sem a adequada orientação dos pais. Percebendo, então, o aumento da obesidade no país e depois das cobranças e reclamações das “mulheres grandes”, o mercado abriu os olhos para essa imensa necessidade. A moda aprendeu a ser plus size. As peças feias e sem cortes deram lugar a modelagens e materiais modernos, que harmonizam um caimento perfeito e valorizam as curvas, além de proporcionar conforto para as mulheres plus. As grifes especializadas em tamanhos maiores passaram a desenvolver coleções dentro das tendências de cada estação. “Esse segmento está ganhando destaque crescente na mídia e conquistando um público cada vez mais informado e interessado em consumir moda”, comemora a jornalista e modelo plus Renata Poskus Vaz, idealizadora do Fashion Weekend Plus Size (FWPS). O estilo plus size está tão em alta que em janeiro de 2010 entrou para o Calendário da Moda Brasileira, com a realização da primeira edição do Fashion Weekend Plus Size. Para Renata, a moda grande demorou a ter espaço nas passarelas, mas aos poucos começa a ganhar o seu lugar. “Faz tempo que nós lutamos por isso, eu via


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Produção: Roupas: loja Mulher Bonita Make: Josi Hellem Vernetti Modelo: Johanne Richter

as modelos magras e lindas e não me sentia representada por elas, também não queria vestir uma calça preta e uma blusa sem corte, sem graça. Não é porque a mulher é gorda que ela tem que se vestir mal, ser infeliz. Visto acima do manequim 44 e sou muito feliz”, desabafa. Em Porto Alegre, a loja Mulher Bonita, é dirigida às mulheres grandes. Segundo a gerente de marketing da loja, Thayná Candido, a proprietária da marca Gisele de Candido, também plus size, reclamava que nunca encontrava uma loja legal onde pudesse achar roupas que gostasse. “Sempre houve a ditadura do saco de batatas para gordinhas, moda sem estilo e sem personalidade. Por isso, em 1997, a Gisele resolveu criar a loja Mulher Bonita”, conta. Thayná também percebe o desenvolvimento desse novo mercado. “É um campo que está crescendo, e ficamos muito felizes com isso. É a democratização da moda, um padrão de beleza que está sendo extinto e dando lugar aos outros manequins”, comemora. Além do FWPS, hoje em dia também existem agências de modelos especializadas no segmento plus size e uma grande área do universo plus ainda a ser explorada. “As marcas de tamanhos padrões ainda têm receios com este mercado, temos muito a evoluir. A moda precisa entender que as gordinhas não têm um estilo único. Plus Size não é um estilo de moda, é apenas uma diferenciação de numeração no manequim”, explica Thayná.


IMPRESSÕES DE REPÓRTER

“C

onversando com uma amiga, dividi com ela a minha vontade de fazer uma matéria sobre essa nova tendência da moda. Ela, como uma linda mulher plus size, me apoiou na ideia, disse que adora ver matérias sobre a moda para as gordinhas, mas que se sente triste, pois, embora esse mercado seja crescente, segundo ela, ainda não tem o espaço que realmente merece. Então fui pesquisar sobre o assunto e, sinceramente, me surpreendi, pois descobri duas coisas importantes: um mercado em franco desenvolvimento que eu desconhecia e um grupo de ‘mulheres grandes’, lindas, cheias de charme e personalidade. Mulheres que são belas mesmo não vestindo o manequim 38 e que não ditam a sua vida por uma louca busca pela magreza e o corpo perfeito. Para elas, ser bela não é ser um ‘saco de ossos’, mas também não é ser um ‘saco de batatas’. Elas são grandes, sim, e vivem felizes dessa maneira. Fiquei muito feliz em escrever essa matéria, pois este é o papel do jornalismo: dar voz a todos os grupos da sociedade, sem preconceitos e exclusões.”

A cantora e atriz Global plus size Renata Celidônio, 34 anos, fala um pouco sobre o seu dia a dia e sobre como é ser uma mulher plus. Confira:

Primeira Impressão — Como é ser uma mulher plus size? Que desafios você enfrenta no dia a dia? Existe muito preconceito? RENATA — Ser plus size é ser uma mulher comum, ou seja, igual a maior parte da população feminina brasileira. Os desafios no dia a dia são muitos, mas o principal é o da acessibilidade. Transportes públicos, cadeiras de avião, cinema, teatro e restaurantes podem ser um problema pra quem extrapola os limites do que é considerado “padrão”. Preconceito da sociedade? Bom, acredito que sim, talvez velado, como todos os outros preconceitos com tudo o que difere do “normal”. PI — Como se deu a sua entrada para a Globo? Foi difícil? Você sofreu preconceito das outras atrizes da emissora? RENATA — Eu fui convidada pelo autor da novela, Miguel Falabella, para interpretar a Marieta de Aquele Beijo e não sofri nada lá dentro, ou seja, só tenho a agradecer! PI — Esse movimento plus size é relativamente recente e vem crescendo cada vez mais. Na sua opinião, como se deu este processo, levando em conta que vivemos em uma sociedade que vende o 38 como o manequim ideal? RENATA — Acho que, gradativamente, estamos conquistando espaço na moda. Principalmente porque as pessoas começaram a querer ver na mídia uma semelhança com o mundo real, algo em que elas consigam se espelhar.

PI — Quem você considera hoje a modelo top brasileira plus size? RENATA — Fora a já conhecida Fluvia Lacerda (que reside em Nova Iorque), existem duas modelos hoje no Brasil que arrasam muito, tanto nas fotos como nas passarelas: Cléo Fernandes, de Goiás, e Sílvia Neves, de Minas Gerais. PI — Você pratica exercícios? Busca ter uma alimentação saudável? RENATA — Sempre! Ser plus size não significa não cuidar da saúde. Adoro praticar exercícios e esportes radicais. Amo também a culinária natural, alimentos integrais e orgânicos.

ARQUIVO PESSOAL

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A gerente de marketing da Mulher Bonita conta que o mercado plus size é tão rentável quanto o mercado padrão. “Hoje em dia a população de obesos no Brasil é de 20%, mas nós temos um diferencial do mercado convencional. Quando uma gordinha encontra uma loja que gosta e se sente à vontade com roupas que lhe agradam, ela se torna muito mais fiel do que uma cliente P/M, que tem muito mais opções de compra em qualquer loja.” Sobre as clientes, Thayná conta que elas são mais difíceis de contentar. “São bem mais exigentes, visto que há uma variedade muito grande de tipo de corpos e modelagens. Algumas vezes precisamos fazer vários ajustes para que a peça fique legal.” Como esse mercado está cada vez ganhando mais espaço, hoje existem muitos blogs de moda destinados exclusivamente a este público. Revistas também têm seções específicas, e nas redes sociais as mulheres trocam dicas de looks e conselhos. Entre as it girls plus mais famosas estão Juliana Romano, blogueira e colunista da revista Gloss, Renata Poskus Vaz, jornalista e blogueira, e Carla Manso, também jornalista e blogueira do IG. As revistas internacionais não ficam de fora desse movimento. A Vogue Italiana constantemente coloca modelos plus em suas capas, como também a Elle francesa, e as americanas V Magazine e Glamour.

Renata Celidônio conta como é ser GG


Um sorriso de

(100) anos

Irma já viveu uma centena de anos e mostra que o bom humor pode ser uma arma contra o envelhecimento Texto: André Fröhlich Seewald. Fotos: Rodrigo Blum e Venise Borges

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O

s cabelos estão brancos, as rugas já tomam conta do rosto e das mãos, o ouvido, por vezes, exige que se repita a pergunta e o corpo perdeu a força da juventude. Mas o espírito continua o mesmo e encontra novos caminhos, em meio às lembranças, para buscar energia para dançar, cantar e sorrir, da mesma forma que fazia aos vinte e poucos anos. Hoje, aos cem, Irma Paz de Oliveira, vive em um mundo bem diferente daquele em que passou sua infância no início do século vinte, quando a expectativa de vida, no Brasil, não passava dos 50 anos. Em 2010, segundo dados do Banco Mundial, esse número saltou para 73,1. Irma já superou essa marca há bastante tempo. Em 29 de agosto deste ano, entrou para o grupo de pouco mais de 22 mil centenários que vivem hoje no Brasil, de acordo com pesquisa realizada pelo IBGE, em 2010. Segundo o médico geriatra João Senger, membro da Diretoria da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia no Rio Grande do Sul, a faixa da população acima dos 85 anos é a que mais cresce no mundo, devido ao au-

mento mundial da longevidade. Entretanto, em muitos casos, quem chega nessa idade sofre com as mudanças no corpo, que fica mais debilitado. “Pessoas muito idosas, geralmente, são frágeis, com dificuldade em níveis simples de habilidades, como deitar-se e levantar da cama, tomar banho, vestir-se e caminhar. Essa fragilidade geralmente tem como causa a perda de massa muscular e óssea, anemia, dor, depressão, uso inadequado de medicações, dificuldade de equilíbrio e quedas”, explica. No caso de Irma, isso não aconteceu. Nascida em Taquara, no Rio Grande do Sul, em 1912, ela é um exemplo de que a idade nem sempre é um fardo pesado a ser carregado. Nem por ela própria, nem pelos familiares, como é comum se ver em asilos e hospitais. Evidentemente, a boa saúde a ajuda a levar uma vida tranquila no bairro Rio Branco, na cidade de São Leopoldo, onde mora com um de seus cinco netos, Sandro José Hannecker, 42 anos, na casa onde ele cresceu. Quando era mais novo, ele conta que a avó ajudava a cuidá-lo e, agora, os papéis se inverteram. “Hoje nós é que cuidamos da vó


Rodrigo Blum

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IMPRESSÕES DE REPÓRTER

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“A

princípio achei que seria mais fácil encontrar o perfil ideal para esta reportagem, mas, para minha surpresa, o IBGE revelou que no Vale do Sinos não existem tantos centenários como eu imaginava. No início, a ideia era entrar em contato com asilos ou hospitais, o que também não estava funcionando muito bem. Foi aí que entrou o fator sorte, que, em minha opinião, também acompanha o trabalho do jornalista de vez em quando: uma notícia em um jornal da região falava justamente sobre o tema e sobre uma moradora de São Leopoldo, que recém havia completado cem anos. Após alguns telefonemas, entrei em contato com a família e agendei uma visita. A conversa com dona Irma e parte da família durou pouco mais de uma hora, mas foi tempo suficiente para entender como ela chegou aos cem anos tão bem de saúde: vive sorrindo, conversa, leva uma vida tranquila e está cercada pela família. Espero ter transmitido no texto todas as coisas boas que vi naquela manhã de sábado, pois este é um dos prazeres de uma profissão, por vezes, tão sofrida: conhecer pessoas e contar histórias. Aproveito também para parabenizar meus colegas de foto, que me ajudaram a construir esta reportagem.”

e quem nos ajuda durante o dia são nossos filhos, bisnetos dela”, diz o neto. Além de Hannecker e da esposa, Irma tem a companhia dos quatro filhos do casal, para quem gosta de contar histórias da sua época. A memória, desde o ano passado, tem levado mais tempo para resgatar algumas lembranças. Mas, ainda assim, existem aquelas que não são apagadas tão facilmente. “Eu nasci nos bailes, meus pais tinham um armazém, que vendia muitas coisas e, à noite, também servia de salão. Gostava muito de dançar com meu irmão, lembro que as pessoas ficavam olhando pela janela”, lembra Irma. Irma é avó de cinco netos, bisavó de sete, tataravó de dois e mãe de seis filhos, cinco mulheres e apenas um homem: Clécio Paz de Oliveira, hoje com 72 anos, que é o único ainda vivo. Das irmãs, duas faleceram no parto e uma antes de completar três meses de vida. Oliveira já é avô, com direito a bigode, mas Irma ainda tem lembranças de quando ele era bem novinho. “Esse aqui era muito manhoso, gostava muito de ficar no colo”, relembra Irma, sorrindo e apontado para o filho. Casada durante 47 anos com Olímpio Paz de Oliveira, Irma é viúva desde 1979. Ela conta que seu marido era um homem muito bonito. “Havia duas garotas que o disputavam comigo, mas minhas amigas diziam que eu era mais bonita. Começamos a namorar escondidos, nos bailes. Eu tinha quinze anos, e aos vinte nos casamos”, revela Irma. O marido, as filhas e os irmãos já não estão mais com ela, e quando pensa no que mais lhe dá saudade, a resposta não demora muito para vir: a família. Isto talvez tenha um peso muito maior do que a preocupação com a saúde do corpo, por exemplo. Viver tanto tempo, no caso de Irma, a fez passar por muitas perdas, mas ela não se deixa abalar. “Meus parentes estão esperando lá em cima e, quando chegar minha hora, estarei pronta”, diz Irma. Não se trata de conformismo com a morte, mas sim de saber que a vida tem um fim e que isso não é motivo para desespero. “Um aspecto que afeta a todos, invariavelmente, é a dificuldade de negar a finitude humana. Saber-se mais próximo da morte pode despertar ansiedade e depressão. Por outro lado, pessoas mais otimistas e que estão informadas sobre o processo de envelhecimento, estão mais bem preparadas para enfrentá-lo. Habitualmente são ido-

sos mais abertos às mudanças, têm prazer e sentido em viver”, explica a psicóloga Jacqueline Schneider, de Novo Hamburgo. A fé também é uma grande aliada de Irma. Católica, ela carrega no pescoço uma correntinha de São Jorge – que pertencia a uma de suas filhas, mãe de Sandro – e recebe, uma vez por mês, a visita de um membro da igreja, que conversa e canta alguns hinos com ela. Além dessa visita, faz parte da rotina de Irma caminhar pelo pátio, sentar-se ao sol à tarde, tomar chimarrão e aproveitar o tempo que tem com a família. “Sou muito feliz por poder morar com minha família, meus bisnetos e com o Sandro, que, para mim, é um filho-neto”, diz Irma, com um sorriso no rosto. O bom humor e a relação próxima com a família são fatores fundamentais para quem espera viver mais. Para Jacqueline, a relação com os familiares tem papel fundamental no desejo e na motivação para continuar vivendo e, se a re-


lação é boa para todos, os benefícios também serão refletidos na saúde do idoso. “Hoje sabemos que a postura otimista frente à vida tem uma importância muito grande em atingir a longevidade, pois, ansiedade e desânimo complicam as funções do organismo, propiciando o aparecimento de doenças, o que vem contra a longevidade”, complementa o geriatra Senger. A saúde de Irma, apesar de alguns problemas naturais da idade avançada, é excelente, e ela demonstra energia e bom humor constante. “Não achava que iria viver tanto, mas sou novinha ainda”, diz rindo. Para ela, não existe nenhum segredo. “Não cuido muito da alimentação, como de tudo, apenas procuro comer menos à noite, mas, durante o dia, como normal. Gosto muito de churrasco, mas, há algum tempo, tenho comido menos carne vermelha.” Entretanto, Irma tem um segredo, sim, mas que, certamente, não é indicado por nenhum médico. Quem revela é o filho: “Ela

não bebe água, água pura. Só toma chimarrão, chá, café e suco, mas água não”. É claro que isso não é saudável, mas, no caso de Irma, o corpo parece ter se adaptado. Chegar aos cem anos não é o objetivo de todos, mas aqueles que pretendem, geralmente esperam estar bem de saúde. Para isso, o geriatra Senger dá algumas dicas. “Viver mais depende quase exclusivamente do estilo de vida, depende de escolhas que faz. Se fosse para escolher um fator determinante em retardar o envelhecimento, escolheria o exercício, com ele iremos diminuir o impacto da má alimentação, o excesso de estresse ou álcool”. Com ou sem segredo, uma coisa é certa: Irma tem um prazer enorme de viver e grande parte disso vem do amor pela família. Para ela, durante sua vida, uma característica foi muito importante: “Sempre tratei bem todas as pessoas”. E com cem anos completados neste ano, ela brinca com a idade. “Passou ligeiro.”

CENTENÁRIOS

NO BRASIL

Brasil: 22.676 centenários

(6.987 homens e 15.689 mulheres)

Rio Grande do Sul: 854

(227 homens e 627 mulheres)

Porto Alegre: 156

(44 homens e 112 mulheres)

São Leopoldo: 26

(13 homens e 13 mulheres)

Novo Hamburgo: 10 (10 homens)

(Fonte: IBGE, 2010)

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Venise Borges


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(Livros)


JULIANA SPITALIERE

LEONARDO SAVARIS

1984 – George Orwell, 1949 Cem anos de solidão – Gabriel García Márquez, 1967 2666 – Roberto Bolaño, 2010 10 dias que abalaram o mundo – John Reed, 1917 Rota 66 – Caco Barcellos, 1992 Os três mosqueteiros – Alexandre Dumas, 1844 Duas iguais – Cíntia Moscovich, 1998 A volta ao mundo em 80 dias – Júlio Verne, 1872 Vinte mil léguas submarinas – Júlio Verne, 1870

Um quarto de légua em quadro – Luiz Antonio de Assis Brasil, 1976

LEONARDO SAVARIS

Um capitão de 15 anos – Júlio Verne, 1878

1968: o ano que não terminou – Zuenir Ventura, 1989 Paralelo 42 – John dos Passos, 1930 1808 – Laurentino Gomes, 2006 A milésima segunda noite da Avenida Paulista – Joel Silveira, 2003 Dona Flor e seus dois maridos – Jorge Amado, 1966 Os sete pilares da sabedoria – Thomas Edward Lawrence, 1935

2001: uma odisséia no espaço, 1968 A casa das sete mulheres – Letícia Wierzchowski, 2002

JULIANA SPITALIERE

Cinco dias em Londres – John Lukacs, 1999

Dez (quase) amores – Cláudia Tajes, 2002

Eu, Christiane F., 13 anos, drogada, prostituída – Kai Hermann e Horst Rieck, 1981

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Hora zero – Ágatha Christie, 1944


(171)

O número do estelionatário O crime de estelionato é cada vez mais comum Texto: Priscila da Silva. Fotos: Marcelo Ferreira

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N

ão há como pensar no número 171 sem rapidamente imaginar a figura de um cidadão que, ao abusar da boa fé de determinados indivíduos, acabou ganhando algum tipo de benefício. Embora seja um delito cada vez mais incidente, o estelionato diferencia-se dos demais pela maneira “inteligente” com que é cometido. De acordo com o Código Penal Brasileiro, o estelionato é capitulado como crime econômico, sendo definido como “obter para si ou para outrem vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento”. O crime tem pena de reclusão de um a cinco anos. Em algumas situações, o criminoso ainda necessita pagar uma multa. Casos como o do bilhete premiado são exemplos do crime de estelionato. De acordo com a Divisão de Planejamento e Coordenação - Serviço de Estatística da Secretaria de Segurança Pública foram registrados em Porto Alegre este ano, até o mês de setembro, 3.228 casos. Enquanto que, no Es-

tado, esse número sobe para 11.107 ocorrências registradas. Paulo Jardim, delegado da 1ª DP de Porto Alegre, explica que o golpe do bilhete premiado é muito comum na Capital, e que, embora não pareça, a vítima nem sempre acaba sendo enganada pelo fato de ser ingênua. Segundo ele, só cai quem pensa em ganhar dinheiro fácil. Nesse caso, o estelionatário age da seguinte forma: ele fica circulando na rua com um bilhete de loteria que correu naquele mesmo dia e que, em tese, estaria premiado. Ao abordar pessoas aparentemente honestas, que possuam boa índole (ou que transpareçam isso), o sujeito demostra estar visivelmente abalado e solicita a ajuda da vítima. Depois de contar que comprou o bilhete, e que o mesmo está premiado, o criminoso inventa uma estória, falando que perdeu um ente querido naquela madrugada, na maioria das vezes a própria mãe, e que precisa viajar, pois a mesma mora longe. Ele diz que não possui qualquer dinheiro e que está em desespero. Argumentando

que não tem condição de viajar para resolver as questões do enterro, por exemplo, o estelionatário pede dinheiro emprestado. Como garantia, apresenta o bilhete, afirmando que, quando voltar e após ter solucionado todos esses problemas – e em retribuição à ajuda –, irá dividir parte do prêmio com aquela pessoa. Porém, como o bilhete foi adulterado, ao tentar trocá-lo, a vítima acaba se dando conta de que caiu em um grande golpe, ficando sem o seu dinheiro e sem a parte no prêmio do suposto bilhete premiado. “Geralmente, as pessoas que aplicam esse golpe são mais idosas, fazem cara de humildes e são mais simples”, conta o delegado. Não há como determinar o perfil das vítimas. Jardim, com mais de 30 anos de experiência, garante que o intelecto é indiferente numa situação como essa. O que ele constata é que o ludibriado nem sempre é tão ingênuo, muito pelo contrário, as pessoas acabam fazendo o cálculo do valor que irão receber quando o dono do bilhete voltar, muito maior do que a


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JosĂŠ Eduardo teve seus documentos roubados e sofreu diversos golpes de estelionato


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O golpe do bilhete premiado é um dos preferidos entre os estelionatários

ajuda financeira concedida. Ou seja, a vítima acaba se deixando enganar porque, de certa forma, irá obter alguma vantagem na situação. “Tu tens um misto de pena, com solidariedade, mas, ao mesmo tempo, teu olho arregalou.” Existem inúmeros golpes que configuram o 171, basta uma simples olhada nos jornais para perceber que dezenas de pessoas são vítimas diárias. O golpe do bilhete é apenas mais um deles. É possível identificar alguns aspectos que ajudam o reconhecimento do perfil desse tipo de criminoso. O estelionatário apresenta inteligência acima do nível das pessoas comuns, pois é um sujeito muito bem articulado, com considerável poder de persuasão, além de ser extremamente envolvente, enganando a vítima não apenas por causa do seu inte-

resse, mas, principalmente, pelo seu poder de sedução. Em todos os casos relatados por Jardim, não ocorreu qualquer tipo de arrependimento do falsário. A situação é exatamente oposta. Quando interrogados, eles contam sobre o verdadeiro prazer que é enganar o outro, sempre com uma estória diferente e com um exibicionismo acentuado sobre as artimanhas usadas para iludir o próximo. São pessoas que apresentam desvio de comportamento. Assumem uma determinada personalidade e vivem nesse mundo à parte. Em golpes como o do bilhete premiado, no entanto, não é apenas o estelionatário que tem o objetivo de tirar alguma vantagem, a própria vítima também. O excesso de confiança em si mesmas e a certeza de que serão beneficiadas pela sua notável generosidade, faz com que essas pessoas caiam facilmente nesse tipo de golpe. Todas elas têm a certeza de que são espertas, apenas porque o malfeitor ofereceu algo e fez o papel de “trouxa”, aparentemente desinformado e desesperado. A vontade de ser as-

tucioso e de levar algum tipo de vantagem, perfil de muitos cidadãos, faz com que a possibilidade de cair em “contos do vigário” seja cada vez mais comum. “Todos assumem, mais cedo ou mais tarde, que foram solidários apenas porque receberiam algo superior aquilo que foi oferecido”, conta o delegado. Em episódios como esse, Jardim não tem a menor dúvida ao mencionar: “Só é enganado quem se deixa enganar”. Se realmente existe interesse em ajudar o próximo, não há porque esse cidadão ter qualquer tipo de garantia ou de recompensa, por exemplo. Eterna dor de cabeça Para José Eduardo Meira, 37 anos, a situação foi completamente diferente do exemplo do bilhete, embora também seja caracterizada como estelionato. Em 1992, ele foi vítima de assalto e teve seus documentos roubados. Somente 15 anos depois, ao tentar abrir uma conta bancária para receber o salário do seu novo empre-


Quando o barato sai caro Enquanto eu aguardava pelo delegado Paulo Jardim, na sala de entrada do plantão da 1ª DP de Porto Alegre, presenciei uma moça – que não quis se identificar – prestando queixa sobre um dano causado ao seu veículo. Achei particularmente estranho alguém que teve o carro arrombado no outro lado da cidade ir até aquela delegacia registrar ocorrência. Ela me explicou que, por já ter sido vítima de estelionatários, sempre procura a polícia, até mesmo para não haver mal entendido. Conversa vai, conversa vem, me senti mais à vontade para perguntar qual o tipo de estelionato que a mesma havia sofrido. Tendo a certeza de que seu nome não seria publicado, ela contou que havia encontrado nos classificados de um renomado jornal um anúncio de venda de um veículo ano 2011 por menos da metade do preço original, e que acabou se interessando pela compra do automóvel. Visivelmente constrangida quando sugeri que deveria haver algo errado, ela apenas sorriu e continuou a falar. O dinheiro foi depositado na conta bancária que estava no anúncio, e o veículo foi entregue. Porém, quando o automóvel foi ser vistoriado para a transferência dos documentos, a família descobriu que se tratava de um veículo que havia sido roubado na semana anterior. O mesmo acabou sendo apreendido pela polícia, e a compradora teve um prejuízo superior a R$ 30 mil. “Jamais imaginei que se tratava de um carro roubado, ainda mais porque o anúncio era de um jornal conhecido. Só comprei porque estava muito mais barato do que na loja”, contou. O fato de pagar um valor consideravelmente mais baixo, diferentemente do que ocorre com a maioria das pessoas, fez com que ela perdesse todo o seu dinheiro e ficasse sem o tão almejado veículo. A estudante acabou sendo mais uma vítima. Uma pessoa obteve vantagem em função do prejuízo financeiro dela.

os cartões que haviam sido feitos e solicitar um novo, desta vez com suas informações corretas. Em outro estabelecimento, foram necessários cerca de 60 dias até que ele conseguisse atualizar o cadastro que havia sido criado pelos estelionatários. Embora a pena para os crimes de estelionato seja de um a cinco anos, sujeita à multa, o delegado Paulo Jardim conta que dificilmente um estelionatário permanece na cadeia. Ele explica que inúmeros desses criminosos conseguem ter suas penas flexibilizadas através do pagamento de multas ou cumprimento de penas alternativas, pois eles não são considerados criminosos que oferecem risco iminente à população. Segundo o delegado, a superlotação dos presídios e a precária condição do sistema carcerário acabam influenciando a decisão dos juízes e interferindo negativamente nesse tipo de condenação. Além disso, várias vítimas do famoso 171 não chegam a prestar queixa por vergonha da situação em que acabaram se envolvendo.

“N

o dia em que houve a escolha do tema da revista eu não estava na aula. Havia acontecido um imprevisto e acabei sabendo através de uma colega sobre o que deveríamos escrever. Mesmo sendo apaixonada por números, não tinha a menor ideia de como iria construir minha matéria, até porque meu número preferido já havia sido escolhido e não restavam muitas alternativas. Entre diversas sugestões de amigos e colegas de trabalho, resolvi que “meu” número seria o 171, mais conhecido como número do estelionatário. Entrevista agendada, fui ao encontro da minha fonte. Ao encontrar o delegado Paulo, percebi que ele estava ansioso para falar, tanto é que nosso papo rendeu quase três horas. Depois de nossa conversa, e ao contrário do que eu pensava, descobri que o crime de estelionato não é algo tão simples assim, não se trata unicamente de pequenos golpes. Existem situações que o prejuízo vai além da questão financeira, como foi o caso de José Eduardo, um dos entrevistados, que até hoje ainda acaba se incomodando com o golpe que sofreu. O que mais me chocou é que, segundo o delegado, as vítimas do caso mais comum de estelionato – o golpe do bilhete – sequer prestam queixas à polícia, seja por vergonha, ou por qualquer outro motivo. Além disso, muitos criminosos têm suas penas flexibilizadas através do cumprimento de penas alternativas, ou pagamento de multas, pois não oferecem risco iminente à população. Ora, fico pensando que tipo de justiça nós temos? Que tipos de critérios são definidos para que tenhamos o mínimo de segurança? Pra mim, ser vítima de estelionato é tão perigoso quanto ser vítima de qualquer outro tipo de crime. Sendo assim, porque a justiça parece ser tão relapsa?”

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go, José descobriu que seus documentos haviam sido utilizados em compras e financiamentos realizados em São Paulo no ano de 2006. Ao ser informado que possuía diversas restrições de crédito em seu nome, iniciou uma peregrinação que durou cerca de três meses, desde buscar na polícia o registro do assalto, descobrir em quais empresas e que transações haviam sido feitas e enviar declarações e documentos atestando o roubo e as fraudes de seus dados, além de solicitar o cancelamento dos respectivos débitos. Ainda hoje, mesmo cinco anos após ter comprovado que foi vítima de estelionato, José Eduardo passa por situações embaraçosas por causa do ocorrido. “Recentemente, ao procurar uma loja para fazer um cartão, fui informado de que já constava no sistema um cadastro em meu nome, e que eu estava bloqueado por registro de fraude”, conta. Só depois de muitas horas no atendimento eletrônico, disponibilizado pela própria empresa, ele finalmente conseguiu suspender

IMPRESSÕES DE REPÓRTER


O renascimento E

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Texto: Anelize Sampaio. Fotos: Douglas Machado

Animais abandonados ganham uma nova vida e o amor incondicional de somente um dono

les chegaram desamparados, doentes e muitos à beira da morte. São 183 cães que passaram por histórias tristes e de muito sofrimento. Agora, eles não possuem mais donos vira-latas e sim um de raça. E agradecem, com muito carinho e obediência, pela oportunidade de renascer. Paulo Roberto Silvello Giglio, mais conhecido como “Paulinho da Filler”, há 30 anos se dedica em salvar animais de rua e tem orgulho desse trabalho, que será cumprido até o fim de sua vida. “Eu sou puxa-saco de Deus, pois foi ele que me deu essa missão. Eles são minha vida, energia e razão de viver. Não


de

(183) coração não permite doar nenhum. Muitas pessoas falam que é um pensamento egoísta, mas é como se fosse arrancar um pedaço de mim”, conta. O amor pelos animais surgiu quando viu uma menina carente com um cachorrinho de pelagem comprometida, na Praça Central de Osório. Pagou um lanche e uma caixa de bombom em troca dele. O primeiro cachorro foi o Tob, que durou 19 anos. Paulinho foi morador da área urbana de Osório por 22 anos. Durante esse período, tinha 28 cachorros. “Chegaram com um mandato de busca para recolher e sacrificar meus animais. Daí mexeu com

a minha estrutura. Fui para Justiça, ganhei a causa, mas me incomodava com os vizinhos. Ou comprava uma área rural ou eu os perderia. Deram-me o prazo de oito meses, e hoje estou no sítio São Francisco de Assis, há 11 anos”, relata Paulinho. Casado com Rose da Silva, ele é pai de Ana Paula, que mora em Capão da Canoa. O trabalho para cuidar da matilha dura 12 horas por dia. A rotina começa às 6h30min da manhã, quando Paulinho se dedica à limpeza e medicação. O pátio é muito limpo, organizado e sem nenhum odor. As casinhas são pintadas e possuem água fresca e ração. No final de tarde, é

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tenho nada a reclamar, sou muito agradecido. Só peço saúde e vida longa para continuar cuidando dos meus bichinhos”, destaca Paulinho. Ao chegar ao sítio São Francisco de Assis, localizado na RS 407, km 4, estrada que liga o Morro Alto a Capão da Canoa, Litoral Norte do Estado, já se pode avistar uma multidão de casinhas verdes, com cachorros de diferentes raças e tamanhos. Sentado em uma cadeira no pátio, Paulinho, 59 anos, lê um livro espiritual. O latido dos cachorros não o incomoda. “Para mim, esse barulho é uma sinfonia, não me importo. Eles nunca me morderam e meu

filhos


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O trabalho para cuidar da matilha ocupa 12 horas do dia de Paulinho

o escolher a pauta para a Primeira Impressão sobre a história de Paulinho e seus 183 cães, me senti desafiada. Como contar essa história, que é um exemplo para todos aqueles que amam os animais? Pensei que seria difícil encontrar o sítio, que é na divisa de Capão da Canoa, no litoral gaúcho, com Morro Alto. Mas ao perguntar, em alguns pontos da estrada, sobre o ‘Paulinho dos Cachorros’, vi que todos o conheciam e abriam um belo sorriso de simpatia quando eu falava o seu nome. Explicaram que eu ia avistar um ‘mar de casinhas’, e que não tinha como me perder. Ao chegar lá, fui muito bem recebida e realmente fiquei impressionada com o número de cachorros de todos os tamanhos e raças, sendo todos extremamente fiéis e obedientes ao dono. É uma demonstração de carinho recíproca, que vai me servir de exemplo para o resto da vida. Paulinho é um anjo que enfrenta todas as dificuldades para fazer o bem. O amor dos animais é um sentimento puro, sem cobranças, que Paulinho conseguiu conquistar. Infeliz é aquele que abandona e tem a coragem de maltratar esses bichinhos. Com certeza, as pessoas que abandonam animais refletem no seu comportamento covardia e falta de caráter.”


so abraçar o mundo.” Entre as histórias tristes, a que mais marcou foi a da cadelinha Brisa. Ela sofreu agressões sexuais e teve que fazer cinco sessões de quimioterapia para recompor a genitália. Hoje, ela está saudável e mora há quatro anos no sítio. Quem olha a brincalhona Rottweiler Zaíra não acredita que ela foi encontrada debilitada e deitada na frente do sítio. Suas patas estavam comprometidas e fervilhando de bichos. Ela se curou, é mansa e adora dar afagos e lambidas no dono. Outra história de superação é a da cadelinha Tamanda. Com porte pequeno e focinho que lembra um tamanduá, ela foi abandonada na estrada. Paulinho levou 15 dias para resgatá-la, porque ela sempre fugia com medo. Hoje, ela mora dentro do carro e está bem faceira. “Ela é a minha companheira de bordo quando salvo os animais. É uma enfermeira, pois cuida, lambe e recebe muito bem os cachorros que estão doentes”, conta o dono. Ele chama carinhosamente de filhos e filhas os animais que são abandonados. Também há o grupo de amputados, cegos e velhinhos. “Se você me der um ano de ração em troca de um cachorro, eu não quero. Ninguém leva um filho meu por nada deste mundo. Só sai daqui quando Deus levar. 90% é o amor que você dedica e 10% é o medicamento. O amor nos faz viver”, destaca.

viço é ele”, confessa Rosi. Segundo ela, um fator que gostaria que mudasse seria separar o espaço dela dos cachorros. A meta é construir outra casa. Ouvindo a conversa de longe, ele completa. “Ela tem toda a razão. Na questão do nosso espaço, eu errei”. Devoto de São Francisco de Assis, ele completa: “Estou segurando o que posso, levando uma vida mais tranquila sem muito estresse. Aprendi a viver o hoje e não o amanhã. Porque, quando eu não estiver mais aqui, o que será deles?”.

Vida pessoal e família Além de se dedicar ao cuidado dos cães, Paulinho possui um programa à noite na Rádio Horizonte, há 15 anos, em Capão da Canoa. Sua esposa, Rosi, é mais durona, pois é ela que filtra as ligações de pessoas querendo doar os cachorros. “Se Deus me deu um presente na minha vida foi a Rosi, porque não é qualquer mulher que aguenta essa cachorrada”, conta Paulinho. Ele sofreu um enfarto há quatro meses e foi a esposa que assumiu as responsabilidades durante o período de recuperação. Casados há 34 anos, ela aprova, mas possui algumas restrições sobre os afazeres do marido. “Eu acho bem legal este trabalho. Só que eu, particularmente, não teria tantos. Eu ajudo, mas quem faz a maior parte do ser-

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chegada a hora da comida. Os cães são obedientes, respeitam as ordens do dono e não brigam entre si. São gastos 100 kg de ração por dia, sendo três toneladas por mês. “Vejo-me estreito para sustentar essa galerinha. Se eu disser pra você que eu não tenho ajuda, eu seria injusto com aqueles que esporadicamente me deixam uma ração. Eu tenho crédito na pecuária, mas gasto bastante. Nunca deixo faltar. Às vezes chega alguém que paga parte da minha conta e eu não sei quem é. São anjos no caminho da gente”, diz. Paulinho não possui ajuda da prefeitura municipal nem de empresas privadas. O médico veterinário Rafael Machado Simoni, de Capão da Canoa, realiza as cirurgias e trata os animais. Segundo o especialista, ele realiza atendimento para os animais de Paulinho desde que se formou, há 12 anos. Entre os procedimentos que já realizou, estão desde castrações até casos de atropelamento. Alguns não caminhavam e voltaram a andar. Outros tiveram que ter membros amputados por fraturas múltiplas. “Paulinho é uma pessoa que abdicou de tudo para se dedicar quase que exclusivamente a isso. Ele trata os animais com ajuda e colaborações de algumas pessoas. Como ele próprio fala, fazendo o bem e ajudando esses cães com amor e carinho, o retorno é certo. Então, procuro fazer o meu trabalho da melhor maneira possível, com dedicação e seriedade, sabendo que o retorno virá”, conta o veterinário. O local é separado em duas partes. Na parte da frente, ficam os cães em fase de tratamento e os mais temperamentais. Nos fundos, os outros cães, que convivem em harmonia. Zaira (Rottweiler), Quiara (São Bernardo), Mailine (Chau), Luzi (Samoeido), Dick (Cocker), Pingo (Dog alemão) Max (Pitbull), Brisa (vira-lata) Tamanda (vira-lata) fazem parte do grupo de 183 cães. Todos foram abandonados. “Aqui no Litoral Norte, no início de temporada, as pessoas abandonam o cachorro para alugar a casa. No final do verão, as que adotam os filhotes, quando vão embora, deixam os bichinhos na praia. Muitos tratam como se fosse um brinquedo.’’ Paulinho não aceita doações de animais em função do grande número que já possui. Somente ajuda aqueles com situações críticas. “Consegui salvar muitos animais que não tinham mais volta. Mas não pos-


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(261) animais ameaçados de extinção Como o Zoo de Sapucaia do Sul trabalha para manter vivas espécies em perigo de desaparecer Texto: Natália Mussi. Fotos: Douglas Bonesso e Lucas Reis Primeira Impressão | Dezembro/2012 | 83


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ma pauta que levei medo de não conseguir concretizar. Mesmo assim, me esforcei ao máximo para transmitir o conhecimento que adquiri e a preocupação que sempre tive à respeito dos animais em extinção. Quando criança, colecionei os zaps do chiclete Ping Pong sobre esses animais que corriam perigo de desaparecer e aprendi a fazer minha parte para preservar a natureza. Não havia outro lugar para realizar essa matéria que não fosse o Zoológico de Sapucaia, um local presente no imaginário infantil e na vida das crianças do Rio Grande do Sul. Lá estando, não pude deixar de perguntar ao biólogo responsável, Marcelo Linck: “E as girafas, não vão voltar para o zoo?”. Sorrindo ele disse: “Não é impossível!”. Assim plantou a esperança no coração de repórter e fotógrafos, que ainda sonham em rever os pescoços compridos e amarelos que há tempo faleceram no parque. Acho que todos que estudam para serem jornalistas têm o sonho de escrever sobre algo que dê prazer. Para mim, essa pauta não podia ter sido melhor. Se não fosse a ajuda do Daniel Hammes da Fundação Zoobotânica, e dos fotógrafos que toparam essa “pauta de índio”, a matéria não tinha saído. Um muito obrigado a todos.”

H

á dez anos, o estado do Rio Grande do Sul tornou-se um dos pioneiros na pesquisa e levantamento de dados a respeito de animais em perigo de extinção. Uma lista de 261 animais foi publicada no Livro vermelho da fauna ameaçada de extinção no Rio Grande do Sul. Uma reavaliação dessa lista está sendo conduzida sob a coordenação da Fundação Zoobotânica do Estado. Desta vez, com a presença de mais especialistas e mais dados sobre a fauna do Rio Grande do Sul. É provável que apareça um número superior ao de 261 espécies ameaçadas. Essa confirmação, porém, só será possível após a divulgação oficial dos dados, no início de 2013. De acordo com o diretor do Parque Zoológico de Sapucaia do Sul, Sérgio Viero, essa lista, além de um termômetro sobre a situação de degradação dos ambientes, é um instrumento de gestão da biodiversidade do Estado. Biodiversidade esta que é mantida no próprio zoológico. No zoo, vivem mais de 20 espécies de animais pertencentes à fauna gaúcha em perigo de extinção. Bichos como a onça, o lobo-guará e a anta, criados em cativeiro, de acordo com orientações do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), têm direito à alimentação especial, hospital veterinário 24h e tratadores especializados à sua disposição. Os espaços pequenos, tão diferentes das matas nativas em que deveriam ser encontrados, e a exposição a tantos visitantes “indesejados” ao seu habitat podem parecer cruéis. Mas, para a preservação da fauna, o valor desses espaços destinados aos animais é inestimável. A maioria dos visitantes do zoológico não tem ideia do quanto é necessário para a manutenção do plantel de animais. Todo mês são consumidas mais de 4,5 toneladas de carne e 30 de pasto verde. Um trabalho diário, complexo e volumoso, que envolve uma estrutura de mais de 100 funcionários para manter o parque, atender cerca de mil animais e ainda recepcionar mais de 500 mil visitantes por ano em uma área de 50 hectares destinada à visitação. São tantos números referentes a esses animais em perigo que devíamos nos perguntar por que nem todos trabalham em prol da preservação da fauna e da flora. É preciso ter a consciência de que a alteração das condições natu-

rais e a destruição dos campos, dos rios e das florestas é um dos principais motivos da ameaça à manutenção das espécies em liberdade. O comércio e o abate ilegal também são grandes colaboradores da extinção de animais e devem ser denunciados ao Ibama. Muitos acreditam que os animais são retirados de seus habitats de origem para serem criados em zoológicos. O biólogo da seção de zoologia do parque, Marcelo Linck, explica que a maioria dos que vivem no zoo é oriunda de apreensão. O recebimento desses animais permite que exemplares que não tiveram condições de retornar à natureza, como tamanduá-mirim e bugio, sobrevivam. Animais menos conhecidos, como o cateto e o queixada, de maior reprodução, possibilitam a permuta com outros parques. “Nenhum animal é retirado do seu habitat pelo zoológico, mas são retirados ilegalmente, por outras pessoas. Acabam aqui após as apreensões ou através de permutas com outros parques”, afirma Linck. Os trabalhos mais importantes desempenhados pelo zoo são a reprodução dos animais em perigo de extinção e a manutenção de um banco genético das espécies da fauna silvestre. Em condições adequadas de alimentação e acomodação, a reprodução da maioria das espécies ocorre no cativeiro. O nascimento de um filhote de anta, cuja gestação é de aproximadamente 13 meses, é o último caso de sucesso registrado. De acordo com o diretor do parque, Sérgio Viero, nos últimos cinco anos nasceram dois exemplares do animal. “O declínio das populações dessa espécie está associada à longa gestação, à caça e à destruição de seus habitats”, afirma. A consciência ambiental, tão presente no pensamento coletivo da sociedade, é concretizada no zoológico, considerado o mais visitado do Brasil. Estariam os gaúchos preocupados em conhecer os animais que estão sumindo pouco a pouco de seu território? Independentemente da resposta, é preciso reconhecer que, com 50 anos de funcionamento, o Parque Zoológico de Sapucaia do Sul realiza um trabalho excepcional para manter espécies em perigo de extinção vivas, não somente em seus cativeiros, mas no pensamento de quem aprendeu a se importar com a natureza.


Lucas Reis fotos de Douglas Bonesso

No parque Zoológico de Sapucaia do Sul vivem mais de 20 espécies ameaçadas de extinção

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Exorcizando o

(666) A verdadeira relação do número com o demônio Texto: Marcus von Groll. Fotos: Luiza Steffen

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njos e Demônios. Deus e o Diabo. Essas coisas existem ou não? Estamos completamente sozinhos nessa vida? Ou não estamos sozinhos? Qualquer uma destas opções é chocante!” As frases retiradas do filme O Exorcismo de Emily Rose, quando a advogada Erin Bruner, interpretada pela atriz Laura Linney, fala em defesa do Padre Richard Moore, interpretado pelo ator Tom Wilkinson, representa as mesmas dúvidas de muitos. O diabo existe? E o número 666, tem ligação com a Besta? O que é um ritual de exorcismo? Encontre as respostas logo abaixo.

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O número 666 na visão da Igreja Católica Muitos acreditam que o 666 é o número do diabo, mas, será que isso realmente é verdade? Para entender sobre esse tema, é preciso fazer um resgate na história. E ninguém melhor que um especialista no assunto para fazer isso. Inácio Schuster, 42 anos, padre desde 1994, trabalha na Paróquia da Piedade, na cidade de Novo Hamburgo, desde 2002. Atualmente cursa o doutorado em Direito Canônico, na Pontifícia Universidade Católica da Argentina, em Buenos Aires. Foi lá que ele se apaixonou pelos ritos da Igreja Católica, entre eles


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o exorcismo. “Este curso canônico dá o direito de você entrar no chamado direito litúrgico da Igreja Católica, no qual se estudam os ritos. E dentro desses ritos me apaixonei pelo exorcismo. Primeiro foi pela curiosidade, depois foi por se tratar de um assunto sério e que envolve uma história de séculos.” Além do exorcismo, Padre Inácio estuda outros temas relacionados com o demônio, entre eles a relação da Besta com o número 666. “Este tema ganhou força no ano de 1999, quando diziam que o número 999 era o 666 invertido, e que o mundo iria acabar, pois representava o ano do diabo. Não foi diferente em 2006, quando diziam que no dia 06/06/06 também seria o fim do mundo.” As perguntas e interpretações sobre o 666 vêm do Apocalipse, de São João, que é o último livro da Bíblia e faz referência a esse número. Porém, Padre Inácio diz que é preciso analisar o que realmente pode ser relacionado com esses dígitos. “Para os antigos povos judeus, os

Padre Inácio Schuster cursa o doutorado em Direito Canônico para se aprofundar em ritos como o exorcismo

números tinham significados. O número 7, por exemplo, significava a perfeição e o contato com Deus, de modo que o 6 era sinal de imperfeição e erro.” Dentro da crença dos judeus, por se tratar de um número imperfeito, o 6 repetido por três vezes significava a perfeição da maldade. “O autor do Apocalipse, São João, identifica o número 666 com a Besta. Naquela época, esse número era usado para identificar vários personagens que perseguiam os cristãos, não necessariamente o demônio”, conta o padre. Escrito todo em grego por volta do ano de 95 d.C., no final do século I, o livro tinha como destinatárias as comunidades cristãs da Ásia Menor que falavam grego e estavam tomadas pelo regime do Império Romano do terrível imperador Domiciano, que se considerava um deus e exigia que todos o adorassem. Logo, os cristãos eram perseguidos e mortos, já que se negavam a adorá-lo. “Os po-

vos antigos não usavam o sistema arábico, que é o sistema que usamos para expressar os nomes, mas sim letras de seu próprio alfabeto. Com isso, São João, inteligente que era, escreveu o Apocalipse com termos e expressões gregas, usando o alfabeto hebraico, chegando assim ao número 666, que na verdade representava o nome de um imperador romano chamado Cesar Nero.” Nero foi o primeiro grande perseguidor dos cristãos do qual São João faz menção no livro. O Imperador Domiciano veio alguns anos mais tarde e foi considerado um novo Nero. Sendo assim, o número 666 foi relacionado ao demônio indevidamente, como diz o padre Inácio: “De modo figurado, o 666 pode ser símbolo de toda a força, cultura ou pessoa que combata contra Deus ou contra a Igreja. Hoje se toma o livro do Apocalipse para dizer que ele trata do fim do mundo e que é o número do diabo, mas na verdade isso não tem nada a ver.”


A visão da numerologia Segundo padre Inácio, então, o número 666 é relacionado de maneira equivocada com o demônio. E para a numerologia, qual seria esta relação? A administradora de empresas e consultora em numerologia Anna Marya Schneider, 62 anos, explica o significado do 666 pelo número 6, de forma isolada. “O número 6 representa harmonia e justiça. A pessoa 6 é considerada o chefe da família, da comunidade, porém, esse mesmo número pode ser vivenciado no lado negativo como a pessoa que invade o terreno e a vida dos outros sem ser consultada.” Sendo assim, Anna conta que, segundo a numerologia, o número 666, se somados os três dígitos individualmente, levam a outro número e significado. “Eles têm o total de 18, porque 6 + 6 + 6 = 18 e 1 + 8 = 9. Esse número representa a abnegação, compaixão, universalidade. É um sábio que aponta um caminho certo. Porém, no aspecto negativo, ele representa os falsos profetas e o fim, já que o 9 é o último número da progressão 1 a 9”, explica Anna. Quanto a relação do número 666 com o demônio, a numeróloga não faz afirmações, porém, deixa no ar algumas perguntas. “Podemos concluir que o lado negativo do número 6 é anticristo? Ou o falso profeta que representa o lado escuro do número 9? O que não podemos negar é que a soma de 666 dá 18 que é igual a 9 que significa o fim. Portanto, nada mais apropriado do que ser citado no Apocalipse, o livro do fim dos tempos... fica o questionamento”, conclui Anna. O que é o exorcismo?

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“C

onfesso que quando aceitei fazer esta matéria, num primeiro momento pela curiosidade e num segundo momento pela expectativa de talvez conseguir uma história inédita, a tensão e a ansiedade andaram lado a lado comigo. empre tive a informação de que o número 666 tinha relação com o demônio, ou, a Besta, como preferirem. Mas após ir até a Diocese de Novo Hamburgo para entrevistar o padre Inácio Schuster, um estudioso em exorcismos, fiquei encantando com as histórias que ele me contou, não sendo diferente com a numeróloga Anna Marya, que falou sobre este número segundo a numerologia. No começo, a intensão era apenas abordar a relação do 666 com o demônio, mas depois vi que a pauta proporcionava abordar outro assunto, neste caso, o exorcismo. É muito comum termos fantasias sobre certos assuntos, ainda mais quando não temos o conhecimento deles. Penso que esta reportagem traz, de um modo bem didático, uma explicação sobre a verdadeira relação do número com o demônio, assim como com o exorcismo. A maioria das pessoas, inclusive eu, imagina que os rituais são iguais aos que estamos acostumados a ver nos filmes do cinema. Por fim, entre as diversas conclusões que pude tirar ao longo desta reportagem, a principal delas é a de que devemos, antes de tudo, pesquisar e procurar saber mais sobre um determinado assunto, se não o 666 poderá representar muito bem o seu número e o meu também. E de bestas, o mundo já está cheio, não acham?”

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“O demônio existe. É um anjo caído. Era o mais belo dos anjos que Deus havia criado, tanto que seu nome é Lúcifer, que significa Anjo de Luz. Pelo pecado da desobediência e do orgulho, se tornou o anjo das trevas”, diz padre Inácio. Dois mil anos: esse é o tempo histórico que se tem datado sobre rituais de exorcismos. Conta a história que desde sempre houve a crença em diabos e exorcismos em todos os povos, até mesmo antes dos hebreus e egípcios. O ritual de exorcismo, segundo padre Inácio, visa expulsar os demônios ou livrar uma pessoa ou um objeto da influ-

ência demoníaca por intermédio de um ministro ordenado. Mas quem pensa que o ritual é realizado por qualquer motivo, está enganado, pois é preciso obedecer algumas regras, sendo a principal delas a prudência. “Não sabemos de fato se uma pessoa que se apresenta como possuída pelo demônio está de verdade possuída ou se ela tem alguma patologia que possa ser explicada pela medicina, pela psiquiatria ou até mesmo pela parapsicologia. Um exorcismo só é realmente realizado, após a ciência não encontrar qualquer tipo de explicação”, diz o padre. Dentro do exorcismo, há diversas formas de rituais, que podem ser praticadas tanto por sacerdotes quanto por leigos. “Não é apenas um único exorcismo que se faz. São várias modalidades. Aquelas que se fazem oficialmente e que precisam da autorização de um bispo, pois sem esta nem um padre pode fazer, e aquelas que são previstas, que podem ser feitas de forma privada ou então como súplica. Isso é o que se faz muitas vezes no batismo, ou até mesmo na missa quando é realizada alguma oração que vai nesta linha”, diz padre Inácio. Nos casos de missas e batizados, as orações não são chamadas de exorcismo para não haver interpretações erradas por parte das pessoas. Diversos filmes, como, por exemplo, O Exorcismo de Emily Rose, citado no começo desta reportagem, mostram imagens e contam histórias de exorcismos baseados em fatos reais. Contudo, segundo padre Inácio, muitos pontos são abordados de uma maneira fantasiosa. “O diabo existe, o mal existe, e o exorcismo busca o efeito positivo na pessoa que está possuída pelo demônio, quando a ciência diz que não há resposta, medicação ou tratamento. No caso do filme, a personagem simplesmente começou a ter o que teve do nada, e aquilo não pode ser realmente diagnosticado como um caso de exorcismo.” Procurado por pessoas que se diziam estar possuídas, padre Inácio diz que, até hoje, nunca esteve de fato, de frente com o demônio. “Todos que me procuraram para fazer exorcismo, sejam crianças, jovens ou adultos, tinham alguma patologia e tiveram um desfecho através da medicina.” Se o demônio existe de fato, ou não, isso está dentro da cada um em querer acreditar. Mas, afinal, você pagaria para ver? Eu não!

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FERNANDA KERN

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Mesmo depois de ter desenvolvido uma úlcera por conta do cigarro, Edison não consegue se livrar do vício


Quero me livrar desses

(números) Ter algum hábito é normal. O problema é quando ele se transforma em dependência

Texto: Fernanda Schmidt. Fotos: André Seewald, Fernanda Kern e Guilherme Endler

V

niada”, explica. É importante diferenciar hábito e vício. Hábito é aquilo que se faz com disciplina e que não provoca nenhum dano na nossa rotina. Já o vício é caracterizado pelo excesso de alguma coisa, que pode provocar problemas de saúde e afetar nossa vida social. São diversas atitudes que podem caracterizar o vício: horas a mais na internet, compras em excesso, amor que ultrapassa os limites da razão, uso de drogas ou álcool. Em geral, as pessoas viciadas são dominadas por um impulso que não conseguem controlar. O vício em drogas, cigarro e álcool é o que mais gera problemas. Por ano, o Brasil gasta, em média, R$ 82 milhões com tratamento de saúde devido a essas substâncias. Mas outros dois são bem comuns no nosso dia a dia. O cafezinho e o chocolate fazem parte da rotina de muitas pessoas, mas, para algumas delas, a falta do consumo pode acarretar em uma forte síndrome de abstinência. Edison, Anne e a Luciana ilustram bem a batalha de quem quer se livrar de um vício. O que eles têm em comum? A vontade imensa de reduzir um número que faz parte da rotina deles.

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ocê já parou para pensar que os números podem ser vistos como uma espécie de fardo? Por exemplo, os números da balança, os de pontos durante um jogo, os da conta bancária e até o número de vezes que se consome ou se faz alguma coisa. Esse último pode afetar diretamente na qualidade de vida de muita gente. O consumo ou hábito exagerado pode caracterizar um vício, frequentemente associado à ansiedade. Ver aquela caixa de chocolate desaparecer rapidinho, ter uma necessidade louca de tomar um cafezinho ou sentir uma reviravolta no organismo ao ficar sem cigarro. Esses vícios são comuns e muitas pessoas tentam, de todas as maneiras, extinguir essas “manias”. Mas será que é tão fácil assim? Segundo a psicóloga e coordenadora do curso de Psicologia da Unisinos, Rosana de Castro, a falta da substância que caracteriza o vício pode acarretar em uma Síndrome de Abstinência. “A falta da substância deixa a pessoa ansiosa, irritada, braba, ago-


15 cigarros por dia A figura magra, na estatura pequena, logo chama a atenção. O editor de imagens Edison da Silva, de 50 anos, fuma há 25 e tem no cigarro uma válvula de escape. Conta que quando tinha 18 anos começou a fumar por brincadeira, por causa da moda da época: “O cigarro era um charminho que a gente fazia nas festas, até para mostrar pras meninas que a gente era um pouco mais crescido”. Consumiu o cigarro “por brincadeira” durante um ano. Voltou a fumar quando tinha 25, devido à convivência com outros fumantes. Com o tempo, o costume se transformou em vício: “Depois, acho que o vício foi pegando, e hoje percebo que eu fumo muito quando fico um pouco nervoso, um pouco apreensivo”, conta Edison. Edison faz parte dos 24,6 milhões de fumantes brasileiros, conforme dados do IBGE. Um terço desse número fuma entre 15 e 24 cigarros por dia, índice que Edson se enquadra. Segundo o médico psiquiatra e professor do mestrado em Saúde Coletiva da Unisinos Rogério Horta, o alto índice de dependentes do cigarro está associado à ação da nicotina no organismo: “O padrão que algumas substâncias promovem só é atingido por sua ação sobre o cérebro, e entramos num ciclo de necessidade de acessar a substância e repetição do consumo, que, aos poucos, viabiliza o estabelecimento da dependência.” Há três anos, Edison teve uma úlcera por causa do cigarro. Nesse período, conseguiu ficar seis meses sem fumar. “Foi um período excelente, não fez nenhuma falta. Mas, no momento em que retornei ao trabalho, voltei a fumar”, conta. Quando está em casa e com a visita do neto, o número de cigarros diminui: “Meu neto me cobra cada cigarro que acendo”. Porém, as consequências do fumo podem ser muito mais graves, como doenças respiratórias (bronquite e enfisema), doenças cardiocirculatórias (isquemias e derrames cerebrais, infarto do miocárdio, entre outras) e vários cânceres (pulmão, bexiga, boca, entre outros). Edison já buscou ajuda psicológica e conseguiu reduzir o número de cigarros de 30 para 15 cigarros por dia. De acordo com Horta, deve-se planejar a extinção do vício: “É preciso reconhecer riscos e danos, estabelecer claramente a motivação para cessar o hábito, mapear as dificuldades prováveis, estabelecer plano e data para a retirada do tabaco e acionar mecanismos de suporte nas semanas inicias de abstinência tabágica”. Mas para quem está acostumado com o cigarro, a tarefa parece muito mais difícil. “Aquela coisa de tu acordar, a nicotina faltando, teu organismo te dá o sinal e tu simplesmente pega o cigarro que tá por perto”, revela Edison.

Guilherme Endler

ANDRÉ SEEWALD

Luciana (acima) consome 24 quilos de chocolate por ano, enquanto a média nacional é de 2,2. Anne carrega café solúvel na bolsa, para não correr o risco de ficar sem a bebida

42 litros de café por mês Para começar bem o dia, duas xícaras de café. Das grandes. A estudante de Design de Interiores Anne Schmidt tem 21 anos e toma café preto desde os oito anos de idade. O hábito de tomar uma xícara da bebida depois do almoço quando criança logo se transformou em vício e, hoje, ela consome, em média, oito xícaras de café por dia.


Segundo uma pesquisa realizada em 2010 pela Bristol University, pessoas viciadas em café precisam tomar a bebida para ficar em um estado regular, diferente das que consomem eventualmente, que ficam em estado de alerta. Apesar do vício em café não poder ser comparado ao do cigarro, a abstinência da cafeína é tão incômoda quanto a da nicotina. Evidência clara na rotina da Anne: quando fica sem tomar café, a dor de cabeça é certa. “Me sinto muito mal, tenho que tomar remédio. Me dá enxaqueca. O remédio que tomo é a base de cafeína, fica sempre na bolsa.” O vício da Anne em café é tão grande que, quando vai dormir fora de casa, leva um vidro com café solúvel dentro da bolsa. Essa necessidade de ter a substância sempre por perto é outra característica do vício, segundo a psicóloga Rosane de Castro. “A pessoa precisa daquilo. Então, ela vai estar sempre vigiando se tem cigarro, café, chocolate, porque chega a um ponto que isso tem que estar presente na vida dela, se não, fica preocupada se não tem”, explica. Apesar de ser saudável em doses normais, os perigos do excesso de café para a saúde não são poucos. Além da incômoda insônia, que já fez parte da rotina da Anne, o excesso de café pode aumentar a frequência cardíaca e causar problemas no intestino, como gastrites e azia. Alguns estudos indicam ainda que a probabilidade de um ataque cardíaco é maior em quem consome mais café. Porém, se consumido com moderação, o café pode fazer muito bem. Segundo uma pesquisa divulgada pelo Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos, três xícaras de café por dia reduzem em 10% o risco de morte. Mas, em excesso, o efeito pode ser anulado e acabar prejudicando a saúde. No caso de Anne, ela ainda sofreu com um problema estético. Quando criança foi aconselhada pela dentista a diminuir a quantidade de café por causa dos dentes amarelados. Não deu certo. A solução foi acrescentar leite na bebida e, hoje, o famoso Cappuccino (café, chocolate em pó e leite) é o preferido da estudante. 24 quilos de Chocolate por ano

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uando decidimos o tema, logo veio à cabeça os números que interferem diretamente na nossa qualidade de vida. Lembrei do meu vício em chicletes e da minha luta interna em tentar diminuir a quantidade que consumo por dia e achei que poderia render uma boa pauta. O tema estava então definido: os números dos vícios. Para decidir sobre quais iria falar, tentei buscar os mais “populares”, o que não foi uma escolha difícil. O café e o chocolate são consumidos por muitas pessoas, e achei interessante mostrar que algumas delas realmente não vivem sem essas substâncias. Pensando também em vícios que prejudicam, cheguei ao cigarro, que ainda é o vilão de muitas histórias de vida. Achar os cases foi fácil, com ajuda das redes sociais e no “boca à boca”, logo conheci a história da Anne, do Ed e da Luciana. Surpreendi-me com o que eles contaram e me dei conta de como, de fato, esses números os “perseguem” e de como vícios podem se tornar verdadeiros vilões da qualidade de vida. Por me identificar com o tema, foi gratificante contar essa história e apresentar a problemática do assunto que ainda é pouco discutido.”

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Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Cacau, Amendoim, Balas e Derivados, o brasileiro consome, em média, 2,2 quilos de chocolate por ano. Esse número passa para 24 quilos quando a brasileira em questão é a estudante de jornalismo Luciana Marques, de 25 anos. Por dia, ela consome, em média, 60 gramas de chocolate. O vício vem desde cedo. “Eu gostava muito de comer chocolate quando era criança. Nunca gostei de comer comida com sal, fruta e verdura. Sempre gostei muito de doce, principalmente chocolate”, conta. O hábito ganhou força quando começou a trabalhar em uma livraria em 2008, onde tinha o alimento ao alcance durante o expediente. “Quando eu ia receber meu salário, ele vinha muito reduzido por causa do chocolate.” O consumo do chocolate é prazeroso não apenas para Luciana. O cacau, principal ingrediente do chocolate, já esteve até associado a forças malignas. No século 16, a bebida de cacau era considerada demoníaca. O motivo: as pessoas não con-

seguiam parar de consumi-la, era algo, de fato, viciante. Luciana também já sofreu por não parar de consumir o alimento. Certa vez, chegou a comer dois pacotes grandes de bolacha com cobertura de chocolate, o que lhe rendeu uma forte dor de estômago. Hoje, Luciana tenta reduzir o consumo. Além do alto gasto, das espinhas e do receio de engordar, a estudante tenta controlar o colesterol, que está alto. Mas a missão é mais difícil do que parece. “Quando não como chocolate, parece que minha energia fica baixa”, conta Luciana. Apesar disso, ela sente que muitas vezes o organismo rejeita o alimento: “Eu fico com dor de cabeça, um pouco de enjoo. Porque é um exagero”. A ansiedade mais uma vez aparece como motivo do vício. A psicóloga Rosane Castro explica que o consumo da substância é uma maneira de se acalmar e se tranquilizar. “É uma busca de uma conduta mais tranquila. A ansiedade está sempre presente com o vício.” Para Luciana, o motivo para consumir tanto chocolate é claro: “É ansiedade, é um transtorno que eu tenho. Algumas pessoas tomam café, outras fumam, tomam chimarrão, outras bebem, e eu como chocolate”, diz. Ter uma vida saudável, regrada com bons hábitos é sinônimo de qualidade de vida. Por isso, é bom ficar atento aos pequenos costumes “ruins”. Com o tempo, eles podem se tornar viciantes.


(numerologia)

Há duas coisas infinitas Para Pitágoras, pai da matemática e inspiração da numerologia, somente Deus e os números não podem ser medidos Texto: Nádia Strate. Fotos: Rafael Voigt

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E

u sempre achei a numerologia intrigante. O envolvimento místico que há em torno do assunto, a soma dos números presentes na nossa vida para se chegar a um único digito, são questões que me encantam. Foi por esse motivo que fomos para a Serra Gaúcha, em Gramado, para conhecer o numerólogo Vyctor BenHur. No cenário inspirador da cidade conhecida por sua beleza natural, arquitetônica, fica o Espaço Violeta, local onde, entre outras atividades, realiza-se o estudo da numerologia. Logo que chegamos para fazer a entrevista, me chamou a atenção à predominância da cor violeta, presente não só nas


Vyctor considera a numerologia uma ciĂŞncia sagrada e antiga

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paredes da casa, mas também nos móveis e objetos que decoram o ambiente. O violeta, segundo Vyctor, representa a espiritualidade, sendo que a cor seria capaz de neutralizar ou elevar as energias do ambiente, promovendo uma limpeza e a meditação. Há mais de vinte anos na profissão, Vyctor considera a numerologia uma ciência sagrada e antiga, uma filosofia de vida com base em Pitágoras. A numerologia é a vibração dos números, uma tradição usada desde as antigas civilizações e que a cada dia tem se tornado mais conhecida e acessível. Seu objetivo é melhorar a vida das pessoas, fazendo com que elas se tornem mais felizes e prósperas. E, para Pitágoras, considerado o pai da matemática, somente Deus e os números não podem ser medidos, o poder e a força de ambos são considerados infinitos.

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Os números e seus ciclos

O numerólogo Vyctor leva, em média, três horas para fazer a análise da numerologia de uma pessoa

Segundo o numerólogo, somos representados pela vibração dos números e, para entender a influência deles, é necessário compreender que os ciclos para a numerologia vão de um a nove. Isso porque, para os numerólogos, a vida se dá por meio dos nove meses de gestação humana. Ainda assim, se entende que, depois do nove, a numeração apenas se repete. Exceto quando os números possuem dois algarismos iguais, como por exemplo, 11, 22 e 33, que são compreendidos como números mestres. Com todas essas explicações, fiquei curiosa para saber o que os números diriam ao meu respeito. Assim, Vyctor fez um breve cálculo da data do meu nascimento. Para isso, utilizou um numeroscópio, instrumento semelhante a um gráfico, que tem como objetivo somar de forma manual os números. Vyctor me pediu, então, qual o dia, o mês e o ano do meu nascimento. Disse a ele que foi em 11/03/1988. E, como a numerologia se dá através da soma dos números, logo ele começou a somar da seguinte forma: 1+1+0+3+1+9+8+8 = 3+1 = resultando em um único digito, o 4. Conforme o numerólogo, se analisarmos a data de nosso nascimento, descobriremos qual a lição da nossa vida, ou

seja, o que viemos aprender. Para os nascidos com soma 4, assim como eu, tudo está interligado as coisas da terra. “São os quatro pontos cardeais, as quatro estações do ano, estando relacionado diretamente com o mundo da matéria. Sendo assim, é o aprendizado que viestes a ter”, explicou Vyctor. Cada pessoa pode fazer a soma do dia, mês e ano que nasceu. O cálculo vai resultar em um único dígito ou em um número mestre (os que se repetem). Conforme o livro Vivendo melhor através da Numerologia, de Aparecida Liberato, Beto Junqueira e Irene Bryg, é possível interpretar cada um dos dígitos. (Veja o quadro) Existe também o estudo do nome, porém, a soma é feita de forma diferente. Cada letra representa um número. Por isso, segundo Vyctor, é comum, principalmente para artistas, trocar ou dobrar uma letra do nome para criar uma nova soma. Dessa forma, para os numerólogos, a pessoa passa a ser influenciada por outro número, e pode ter mais sucesso na vida. O próprio nome do numerólogo é fruto dos números. O nome original de Vyctor é Victor. Entretanto, com a ajuda da numerologia, ele percebeu que deveria modificar o nome para ter mais realizações na vida. Desde que nascemos, somos identificados por números através do registro de nascimento, da carteira de identidade, e assim por toda a nossa vida. Para a numerologia, estamos sempre sendo influenciados por esses números sem nos darmos conta. O mesmo acontece na matemática. Conforme o coordenador do curso de Matemática da Unisinos, Rogério Steffenon, os estudiosos não são aficionados por essa ideia da numerologia. Entretanto, acreditam nos cálculos, na ciência exata dos números. “Mesmo que ela procure descrever fenômenos sem nenhum propósito, muitos cálculos são feitos para uma utilidade futura. O que hoje pode não ter tanta importância, amanhã pode ser uma descoberta”, explica Rogério. A numerologia é compreendida por muitos como um caminho para descobrimento pessoal, uma forma de encontrar e abrir portas para melhor direção da vida. Um autoaprendizado que, para os numerólogos, pode ser fundamental para existência.


O que os números revelam sobre a sua personalidade Some os números do dia, mês e ano de seu nascimento e chegue a um único digito ou número mestre, repetido. Veja a seguir a interpretação dos números

1

Líder, independente e original. Sua lição de vida é desenvolver a individualidade e a liderança, sendo o seu próprio chefe, tomando a iniciativa sem esperar para que outro lhe diga o que fazer. Você deve aproveitar sua coragem e sua determinação.

7

Intuitivo, espiritual e analítico. Sua lição de vida é conhecer a si próprio e confiar na sua intuição para então encontrar o seu caminho. Através de um trabalho de autoconhecimento você buscará respostas para os mistérios da vida.

8

3

9

4

11

5

22

6

33

Otimista, sociável e criativo. Sua lição de vida é desenvolver a comunicação e a criatividade, aproveitando a imaginação e o dom artístico. Você deve expressar as próprias ideias e a alegria de viver. Disciplinado, metódico e confiável. Sua lição de vida é aprender a agir com organização, assumindo apenas riscos que ofereçam uma boa margem de segurança. Você deve ser abnegado, paciente, honesto e racional.

Versátil, curioso e aventureiro. Sua lição de vida é aprender a usar adequadamente a sua liberdade. Somente agindo com responsabilidade, valorizando-se e usando a liberdade de forma construtiva é que conseguirás o que desejas. Responsável, dedicado e justo. Sua lição de vida é desenvolver o senso da responsabilidade para com a família e a comunidade. Deve aprender a ter um bom senso de justiça, não podendo deixar o espírito fraternal de lado.

Perseverante, energético e determinado. Sua lição de vida é aprender a lidar de maneira positiva e ponderada, com o mundo material e também com o poder. Poderá construir um império comercial, e o seu sucesso será motivo de inspiração.

Humanitário, generoso e tolerante. Sua lição de vida é desenvolver a compaixão e a capacidade de doar-se sem esperar nada em troca, pelo simples prazer de ser útil para alguém. Idealista, vulnerável e inspirado. Sua lição de vida é aprender a tomar consciência do mundo espiritual e a relacionar-se com o mundo material. Para viver a altura de seu ideal, precisará ter talento e coragem. Construtor, prático e realizador. Sua lição de vida é desenvolver sua capacidade de transformar sonhos em grandes obras que beneficiem muitas pessoas. Você é mestre-construtor e será bem sucedido em qualquer área. Doador incondicional. Sua lição de vida é doar-se em prol dos semelhantes. Número de importância espiritual sujeito a ansiedade e instabilidade emocional. Você deve procurar servir aos outros e sua recompensa será destinada à continuidade de sua obra.

“O

que mais me impressionou nesta reportagem é que as características apontadas pelo numerólogo Vyctor realmente se encaixam com o que eu costumo ser e com a maneira como realizo as coisas do cotidiano. No caminho de volta a Porto Alegre, os fotógrafos Thaís e Rafael e eu discutimos a questão de crer ou não crer na numerologia. É confuso pensar que apenas números somados a partir da data do nosso nascimento, ou das vogais e consoantes do nosso nome teriam o poder de nos descrever, de apontar quem somos, o que viemos cumprir nessa vida e para onde vamos, pois a numerologia acredita no reencarnacionismo. Entretanto, muitas pessoas não acreditam na ciência sagrada e antiga dos numerólogos e nem mesmo querem saber o que ela representa. Cada um é livre para acreditar ou não na numerologia, no poder dos números. O que importa é que, segundo Pitágoras, os números são infinitos e a matemática está em tudo, desde o tamanho da sala onde estamos, até no computador onde foram escritas estas linhas.”

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2

Compreensivo, receptivo e diplomático. Sua lição de vida é desenvolver a cooperação com as outras pessoas, estabelecendo a harmonia onde houver conflitos. Você deve aproveitar sua grande paciência e perseverança.

IMPRESSÕES DE REPÓRTER


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