Issuu on Google+


Frequência Z: A Série – Capítulo 1

Epidemia 1 Brasília O dia estava mais claro que o habitual, os raios solares pareciam não encontrar barreira e despejavam grande parte de seu poder sobre os habitantes do Centro-Oeste do Brasil. Nenhuma nuvem aparecia no céu e poucos pássaros voavam de suas úmidas copas de árvores. Realmente aquele sábado era um belo dia para se visitar a praia, se os goianos e brasilienses as tivessem. Então alguns se contentavam apenas a nadar nos inúmeros rios que aquela região apresentava, enquanto todos ainda possuíam enrustido em suas almas o medo dos últimos acontecimentos. Os mortos retornaram à vida havia um mês. O Governo mandou imediatamente o fechamento de todas as rotas que levavam à cidade de Santa Fé, interior de São Paulo. Era algo que não podia caber na mente daquelas pessoas que só ouviam coisas deste tipo em filmes de terror. As pessoas estavam assustadas. Uma tosse sequer já seria motivo de quarentena, comandada por policiais. Afinal, já não se ouvia mais nada sobre a região sudeste, aumentando assim a crença de que o fim do mundo estava próximo. As rondas ostensivas aumentaram de número. A Região Sul continuava em silêncio. Dias atrás, as TVs que tinham sua sede em São Paulo pararam de transmitir notícias. Simplesmente aparecia na tela uma mensagem de Stand By. Era por conta destas poucas notícias que a presidenta havia agendado uma coletiva de Imprensa em pleno Palácio do Planalto, com aquele sol de lascar sobre as cabeças dos cerca de vinte repórteres que sustentavam os telejornais e jornais impressos. E tudo aquilo girava em torno do acontecimento que devastou a cidade de Nossa Senhora de Santa Fé. Naquele exato momento, o discurso começava. A presidenta vestia uma roupa fina de seda, da cor branca e dois brincos de pérolas enfeitavam suas orelhas. Seu cabelo volumoso ruivo balançava quando um vento raro batia no palanque belamente montado. Ao seu lado, o ex-presidente prestava atenção à cada movimento de sua sucessora. Qualquer palavra que fosse mal interpretada iria causar o maior de todos os alvoroços, obrigando assim os policiais militares a abrirem fogo. Os vários repórteres estavam amontoados abaixo do palanque. O som conhecido pelas câmeras mostrava a quantidade de fotos que aquelas pessoas tiravam por minuto. Estavam todos ali buscando obter informações e passar para a redação poder dizer tudo aquilo em primeira mão aos leitores. A presidenta respirou fundo e, com a voz de uma líder, começou o seu discurso. - Senhoras e senhores presentes aqui. Sim, eu sei, está um sol do diabo aqui em Brasília... – ela tentava quebrar a tensão do momento com algumas piadinhas, mas todos ali estavam apenas interessados em suas palavras, nada mais. – Mas enfim. Como não é segredo para ninguém, a cidade interiorana Nossa Senhora de Santa Fé, ou apenas Santa Fé, falando resumidamente, foi “devastada” por um vírus de origem desconhecida.


- Ninguém faz ideia de onde esse vírus foi originado? – um repórter a interrompeu. Esta lhe lançou um olhar de desaprovação, mas respondeu com classe. - Na verdade, meu caro, ninguém faz ideia alguma. Mas voltando, espero que não tenha mais interrupções por parte de vocês jornalistas. Retomando. Este vírus DESCONHECIDO acabou por causar um dos maiores desastres nessa cidade. Muitas vidas foram perdidas, não só pelas reações da virose, como também pelas mãos dos polícias militares que receberam a ordem direta de matar QUALQUER um que ousasse ultrapassar as barreiras. Infelizmente, não temos nenhuma testemunha para nos dizer o que aconteceu, mas devemos supor que algo horrível se sucedeu a estes eventos. – Enquanto falava, ela gesticulava descontroladamente com as mãos, mostrando seu nervosismo. - E quanto à Região Sudeste? – perguntou um repórter. - Algo a dizer sobre a falta de informação sobre a Região Sudeste, presidenta? – perguntou outro. - Não. Infelizmente não há nada que possa ser dito sobre a região Sudeste ou Sul ou qualquer outra que vocês queiram me perguntar. Está tudo normal. A falta de notícias não é problema do Senado, mas podem ter certeza que a ameaça que destruiu Santa Fé foi de fato eliminada. – a presidenta disse por fim, olhando para todos os repórteres. – Mais alguma pergunta que esteja ao meu alcance de responder? - Por acaso isso pode ter ocorrido devido à uma Usina Nuclear? A presidenta olhou para o seu vice, que mantinha os olhos atentos a qualquer movimento daquela mulher. A primeira presidenta do Brasil. - Quais são os sintomas do vírus? A cada pergunta, os nervos daquela mulher subiam. Ela não tinha resposta para nenhuma daquelas perguntas. Para ela, o mistério era muito maior do que ela, e isso a aborrecia, aquela falta de informações. Logo atrás daquele palanque, a aeronave Santos Dumont, o avião presidencial do Brasil, esperava pacientemente ela e seus outros ministros. Tudo o que ela mais queria era correr para o interior daquela nave e partir para outro lugar, onde não precisasse dizer e nem contar nada para ninguém. Para ela, não saber de nada era mostrar os claros sinais de fraca liderança e isso era inadmissível para uma pessoa que carregava um enorme fardo nas costas. Ela respirou profundamente e decididamente falou: - A coletiva acabou. – logo em seguida saiu do palanque e desceu as escadas precárias que rangiam sob seu peso. Policiais federais andavam em volta dela, fazendo a segurança para uma das pessoas mais importantes do Brasil. O ex-presidente andava colado à ela e com sua voz rouca disse: - Falou muito bem lá, minha companheira. Agora você precisa descansar. – sua língua batia em seu dente quando falava, dando um som estranho ao “S”. Ela nada disse, apenas prestou atenção na multidão que rodeava o seu avião. Começou a andar depressa, obrigando os policiais a apertarem o passo. As pessoas batiam as mãos no avião violentamente, com certeza estavam protestando contra alguma coisa ligada ao governo. Um dentre a multidão bateu as suas mãos tão forte na lataria do avião que deixou um rastro de sangue nele. Tinha algo de muito errado ali. - Pedro? Oficial Pedro, responda. O que são essas pessoas ai na frente do Santos Dumont? – disse um policial pelo rádio.


Um pequeno tempo se passou e o oficial não obteve resposta. Tudo aquilo estava se tornando preocupante demais. Quatro policiais se destacaram do grupo e foram à frente, armados com metralhadoras e granadas, além de uma pequena pistola imposta no coldre. - Vamos atirar pra dispersar a multidão, ai entramos no avião. Entendido? – perguntou aquele que parecia ser o capitão. - Sim senhor! – responderam em uníssono. Os policiais já levantaram suas metralhadoras. Não pretendiam machucar ninguém, apenas queriam garantir a passagem segura da presidenta até o avião. Logo o som de tiros quase estourou os ouvidos da mulher e de seus auxiliares. Ela se abaixou e tampou suas orelhas, tentando evitar que seus tímpanos estourassem. Logo o som cessou, e a multidão se virou para eles. Alguns tinham pedaços de carne faltando em suas faces, com rasgos que permitiam ver toda a arcada dentária. Outros não possuíam o maxilar, enquanto alguns andavam e arrastavam as suas tripas vermelhas, deixando o sangue cair no chão. - Ai caralho! Fogo nesses filhos da puta! – gritou o policial, que parecia estar apavorado, enquanto eles retrocediam até a presidenta, que parecia mais assustada ainda. O vice também parecia apavorado, sua face corou de uma hora para outra. Em pouco tempo o cheiro horrível de urina invadiu aquele espaço, alguém não havia suportado tanta pressão. Os tiros foram em direção certeira à multidão que se aproximava. Os não-mortos, os zumbis, os demônios andavam por Brasília. A infecção já havia chegado ao nível epidêmico. Estavam todos mortos. Aqueles que conseguissem escapar deveriam se considerar pessoas de sorte. Os zumbis caíam aos montes, enquanto mais e mais se aproximavam. A presidenta se afastava de volta para o palanque, dali eles prosseguiriam até o carro que os esperava do outro lado do Palácio do Planalto, uma distância que valeria a pena para sobreviver. O chão se tingia de vermelho e as balas se tornavam cada vez mais escassas, enquanto a multidão apenas perdia mais um ou outro de sua legião. - Porra, eles não morrem! Tô ficando sem munição! – disse um dos policiais. - Continuem atirando e recuando! Vamos levar a presidenta e os outros ministros para aquele carro que está do outro lado do Palácio! – disse o capitão Nogueira. Logo a distância foi diminuindo entre eles e os mortos vivos, que soltavam ruídos vindos das profundezas do Inferno. Um som impossível de se explicar. Era como uma comunicação e um meio deles dizerem que os humanos haviam perdido e que eles agora dominavam tudo. O grupo subiu no palanque e logo foram para aquele mesmo lugar onde estiveram uns minutos atrás. Mas tudo estava diferente. Ali, naquele mesmo lugar, as pessoas eram comidas vivas por uma horda de zumbis, alguns deles vestidos como políticos, outros policiais e alguns apenas cidadãos pegos de supetão. A presidenta já notava que ali seria impossível de se escapar. Os zumbis caminhavam até mesmo nas águas que banhavam a frente do palácio. Eles rodearam toda aquela extensão. O grupo não tinha mais escapatória. Um oficial da polícia federal avisou que estava sem munição, logo os outros mortos vivos se reuniam no palanque, tão próximos daquelas pessoas que elas podiam sentir até o bafo quente e fétido. A presidenta havia sofrido o seu impeachment. E da maneira mais dolorosa possível. Eles estavam cercados.


Cercados e fodidos. Muito fodidos. A infecção se espalha. Algumas semanas atrás Campinas, São Paulo. O dia estava chuvoso. Uma fina garoa caia sobre a viatura que abrigava quatro policiais militares, que deixaram o conforto de suas camas para rondar a vasta região de Campinas, apenas esperando que qualquer ocorrência quebrasse a monotonia a que foram impostos. O sargento Medeiros estava no banco do motorista, tomando uma generosa quantia de uma garrafa de café quente. A única coisa que os mantinham acordados. Seus cabelos brancos eram ralos e saíam pela boina cinzenta com o brasão da Policia Militar. Tinha a aparência de um homem de 30 anos de idade, embora fosse dez anos mais velho. No banco do passageiro, o cabo Silva, que comia um pedaço de pão fresco e quente que eles haviam pegado há alguns minutos na padaria ao lado. Este tinha o semblante mais extrovertido, que definia a personalidade daquele homem. Ele e Gabriel, o outro soldado que estava logo atrás, juntos era certeza de que boas risadas eram garantidas. Mas no momento em que eram chamados para ocorrências, pareciam mudar completamente. Eram homens centrados e focados em seus objetivos. Quem os visse em ação nunca imaginaria os tipos de comentários que aqueles dois podiam liberar em menos de um minuto. Logo ao lado de Gabriel estava Fernando. Outro bom soldado, mas que por passar maus bocados em casa, era o que menos falava. Tinha dois filhos, sendo uma adolescente rebelde que se envolvia com pessoas erradas e outra menina, tão carinhosa que o fazia repensar em sair de sua casa e enfrentar a criminalidade. Sua mulher era muito bonita também, esteve com ele em todas as dificuldades, o que talvez tenha diminuído o amor que ela sentia por ele naqueles vinte anos de casados. Felizmente os bandidos pareciam estar dormindo naquele dia. O silêncio sepulcral em cada viela, em cada esquina, era algo que aqueles homens não estavam acostumados. Eram experientes em batalhas contra os ladrões, estupradores agressivos (que apanhavam tanto que até os representantes dos Direitos Humanos iria vomitar ao ver o estado destes) e de pedófilos. Ah, estes eram os melhores. Eram os chamados sacos de pancada dos policiais. E Fernando era o mais violento com esse tipo de pessoa. Talvez pelo fato dele pensar que aquela criança que aquele verme abusava podia ser suas famílias e isso o tornava tão agressivo a ponto de deixar o meliante à beira da morte, facilitando assim o serviço para os outros presos. - Caramba. Esse rádio não vai tocar não? – perguntou Gabriel, quebrando o silêncio então. - Vai ver tá tendo uma suruba numa dessas biqueiras e a gente não foi convidado. – respondeu Silva, com um sorriso no rosto. - Ah, ah, ah! Como sempre ficamos fora das maiores diversões. - Pois é. - Aí sargento. Vamos fazer uma ronda, quem sabe a gente encontra alguma coisa. - Eita Gabriel, tá com um fogo que não aquieta né! Puta que pariu cara. Depois a gente entra numa fria mesmo, e eu quero ver você pedir reforços. Vou mandar você engolir o reforço goela abaixo! – disse o sargento, com um toque cômico a cada frase.


- Ah, ah, ah. Acelera essa potranca véia. Ah, ah, ah! – riu Gabriel, enquanto o carro avançava pela rua sem nenhum movimento. O ronco da viatura era o único som que quebrava o silêncio daquela rua. As janelas das casas estavam fechadas, os cães não ladravam loucamente, os gatos não corriam por cima dos muros. Era uma coisa completamente estranha aquilo que acontecia por ali. Os pássaros continuavam empoleirados nos galhos das árvores mais baixas, protegendo-se assim da chuva gélida que parecia aumentar de potência a cada instante. Talvez tudo aquilo fosse medo, afinal, Santa Fé ficava quase ao lado de Campinas. Era só percorrer o caminho da rodovia Anhanguera e eles chegariam até aquela metrópole. O carro virou em uma esquina, se deparando com uma avenida larga, cortada no meio por um córrego fétido e bem ao lado, um posto de saúde de estado deprimente. Ali a concentração de carros era maior, era exagerada. Havia carros da polícia também, algo de muito estranho estava acontecendo naquele pronto-socorro. - Ali ó, encosta ali e vamos averiguar. – disse Gabriel, apontando para uma vaga no meio dos vários carros. - Eu tô vendo Gabriel. Fica calmo cara. O pronto-socorro não vai sair dali não. – o tom irônico estava mais uma vez presente na voz de Medeiros. Eles estacionaram e desceram rapidamente da viatura. Desviaram-se de alguns carros que foram impostos de maneira desleixada e chegaram até a entrada do pronto-socorro. Ali, três policiais estavam conversando em um canto, ambos assustados com um acontecimento que os outros quatro iriam descobrir logo. - Tô falando sério, João. Não tô de brincadeira não! O cara mordeu o Leonardo, eu vi! – dizia um policial, gesticulando enquanto falava. Cada frase parecia sair com um toque de filme de terror. Os outros quatro policiais se aproximaram do trio, interessados no que havia acontecido. Medeiros apenas se aproximou e os três bateram continência, enquanto um silêncio tomava conta daquele canto. Do outro, muitas crianças doentes, deitadas sobre o colo de suas mães e pais, deixando assim algumas pessoas em pé, esperando para serem atendidos. Havia sangue na entrada e nos dois corredores que cortavam a sala de espera. - O que aconteceu, homens? – Medeiros perguntou, mantendo suas mãos para trás. - Estávamos numa ronda ali pela av. Ana Beatriz Bierrembach e vimos que tinha uma pequena aglomeração na frente de uma escola. – o soldado que falava tinha em seu peito o nome Nery. – Então o capitão Leonardo pediu para que parássemos e fomos averiguar o que estava acontecendo. Assim que ele tocou a mão num cara que parecia ser servente de pedreiro... – ele deu uma pausa, parecendo estar tentando processar aquilo que havia acontecido. – O cara o mordeu na altura do pescoço e os outros se viraram para ajuntar em cima do capitão. A gente puxou o capitão e olhou para o agressor... – Mais uma pausa de vinte segundos. – O cara não tinha metade do rosto, sargento. E os outros também não estavam melhores. Eram pessoas que a gente ficou se perguntando como estavam em pé. - E o que aconteceu depois, soldado Nery? – perguntou Medeiros. - Eu atirei no homem, bem na altura de seu peito. Eu vi a bala atravessar ele. Mas ele nem sequer caiu. Continuou a avançar sobre nós. Aí corremos até a viatura e viemos até aqui, já que o hospital Mario Gatti tá lotado. - Até mesmo na área de emergência? – Fernando entrou na conversa, de braços cruzados, sentindo que alguma coisa estava muito errada.


- Até mesmo na área de emergência. – respondeu Nery. Os outros policiais mantinham a expressão séria e assustada pelos acontecimentos recentes. - E porque não informaram no rádio? Podíamos dar reforço! – disse Medeiros, não entendendo a ação daqueles policiais. - E quem disse que aquela porcaria funcionava, senhor? Tentamos, mas tava com uma interferência dos diabos! – respondeu o outro oficial, o cabo João. Medeiros olhou para os seus companheiros. Seus olhos transmitiam toda a desconfiança que ele tinha sobre aqueles três policiais. Eles estavam escondendo alguma coisa. Lançou seu olhar novamente para o trio e perguntou: - Há mais alguma coisa que eu deva saber? - Na verdade, há sim, sargento. O capitão Leonardo disse que há 48 horas que não se tem notícia da barreira policial de Santa Fé. Simplesmente tudo ficou mudo, senhor. – respondeu o cabo. Fernando de repente mudou completamente sua aparência. Se a barreira policial do Anhanguera houvesse realmente sido destruída, significaria então que o mesmo vírus que devastou a cidade de Santa Fé estava vindo calmamente parar em Campinas, algo que o deixou assombrado pelo fato de estar um pouco longe de suas filhas e esposa. Gabriel e Silva se entreolharam, temerosos pelo o que estava para acontecer. O silêncio se tornou sepulcral, exceto pelo choro interminável das crianças e as tosses que teimavam em continuar. - Onde ele está? – perguntou Medeiros, pondo fim ao silêncio entre os policiais. - Sala 12, corredor à direita. – respondeu o PM que estava parado em silêncio, Anderson. Medeiros olhou para Fernando e moveu a cabeça, dizendo sem usar palavras para que ele o acompanhasse. O soldado não esperou uma segunda ordem. Começou a caminhar rapidamente ao lado do sargento, que ainda matinha a expressão séria e desconfiada daqueles fatos. As crianças ainda choravam e tossiam sem parar. Alguma coisa estava acontecendo com Campinas. Eles só pediam a Deus que não fosse realmente aquilo que devastou Santa Fé. Porque se fosse, a cidade inteira estava perdida. Eles atravessaram o corredor sem rodeio. Chegou até a sala 12 e entraram rapidamente. Três médicos faziam algumas operações no capitão, deitado na maca totalmente suja de sangue e pus que saia de seu ferimento no pescoço. A cada tentativa dele respirar, mais sangue saia, estava praticamente impossível de suturar o ferimento. Os médicos olharam para os dois policiais parados à porta e voltaram aos seus afazeres. Eram verdadeiros profissionais. O cheiro daquele lugar já foi o suficiente para deixar Fernando com náuseas. O pus tinha um cheiro agridoce que se somava ao suor daquele oficial. Os batimentos cardíacos eram baixos. Se Leonardo sobrevivesse, seria por muita sorte. Logo a aceleração do coração do policial começou a diminuir. Os médicos gritavam uns aos outros para se apressarem e usarem o desfibrilador, antes que aquele homem na mesa de cirurgia se tornasse apenas um cadáver ao léu. O corpo tremeu com tamanha onda elétrica que invadiu o seu corpo, mas o ritmo cardíaco não aumentava. Em poucos minutos, apenas um traço verde era exibido no eco cardiograma. O capitão Leonardo estava morto. Os médicos abaixaram a cabeça lentamente. Nem sempre conseguiam salvar as pessoas. Medeiros e Fernando também retiraram suas boinas, prestando respeito ao homem morto em campo.


- Não havia muito a se fazer. Sua jugular estava dilacerada, como se tivesse sido mordida por um leão. – disse o médico, tentando explicar o que havia acontecido ali. Mas não havia explicação. O policial estava morto. Naquele dia, uma família choraria pela perda. Ele se afastou e foi analisar a lista de pacientes daquele dia corrido. Assim que Medeiros e Fernando se viraram para sair, um grunhido se fez ouvir. Eles se voltaram quase ao mesmo tempo onde até então estava o corpo inerte de Leonardo, que agora caminhava pela sala, em direção ao médico que estava desatento apenas olhando numa prancheta, de costas para a mesa de cirurgia. Eles não podiam acreditar no que estavam vendo, era praticamente impossível de se acontecer algo como aquilo. Leonardo estava morto e deveria continuar assim, não se levantar e partir para cima do homem de jaleco branco sujo com sangue. Os passos do policial eram errantes e pareciam de um bêbado. Sua boca emitia o mesmo grunhido que os dois companheiros de trabalho ouviram há pouco. O sangue não saia mais da ferida, afinal, o coração havia parado de bater minutos atrás. Ele esticou seus braços e agarrou fortemente o médico, que não teve chance de se defender. Leonardo cravou seus dentes no ombro do homem que agora gritava de dor, enquanto os outros médicos e os dois policiais vinham para socorrê-lo do suposto morto. O sangue jorrava no chão em uma generosa quantidade, enquanto os homens tentavam tirar o policial que há pouco fora dado como morto e prendia em seus dentes um pedaço de carne e nervos. Medeiros fazia seu máximo de força, enquanto a criatura partia para cima de outro médico, que havia perdido o equilíbrio ao tentar puxá-lo. Mais sangue se espalhou pela sala antes completamente branca. Os médicos suplicavam incessantemente por ajuda. Fernando estava perplexo com o que estava acontecendo, imóvel em um canto afastado, enquanto lágrimas se fundiam em seus olhos. Ele estava à beira da loucura. - Porra, Fernando, vem ajudar! – gritou Medeiros, despertando seu amigo dos próprios pensamentos. Com muito esforço, partindo dos dois policiais, Leonardo, ou a criatura na qual ele se transformara, saiu de cima de suas vítimas. Ficou um tempo no chão, mas logo se levantou e retomou sua marcha, agora à procura da garganta de Medeiros, que tentava ajudar as vítimas do ataque. No momento em que ele se virou para contemplar o agressor, já havia percebido que era definitivamente tarde demais. A bocarra já se estendia diante de sua face. O bafo era de algo morto e que já expelia pus como se fosse saliva. De repente, um tiro que fez o ouvido de Medeiros retumbar e o caos se espalhar no hospital. Os miolos de Leonardo foram parar na pia. Agora o corpo jazia imóvel, já exalando um mau-odor de quem havia morrido há dias. O sargento olhou para o seu salvador, que continuava com a pistola apontada, com a ponta ainda fumegante. O tiro certeiro que viera da arma de Fernando. - Obrigado. – disse Medeiros, se levantando e olhando para o médico que tentava ajudar seus outros dois pacientes. A gritaria lá fora era incessante. - Eles morreram. Estão mortos! – gritou o homem de jaleco branco. – Oh, meu Deus. Eles estão mortos! – ele parecia à beira de um colapso. - Senhor... – Medeiros olhou para o jaleco do rapaz, sujo de sangue e com pedaços de miolos, pequenos e nojentos, e descobriu o nome dele. – Renan. Saia de perto dos corpos, por favor!


Renan se levantou e começou a andar em direção aos policiais. De repente, um grunhido estranho, porém familiar inundou a sala de medo. E a mordida veio logo em seguida. Ah, a dor incrível que aquela ferida iria lhe proporcionar. Ele já sabia que estava morto e que iria se levantar mais uma vez. *** Os oficiais lutavam para conter o ódio daquelas pessoas que tentavam de qualquer maneira conseguirem ser atendidos primeiros do que os outros. O valor do mais forte já começava a pesar na consciência daquelas pessoas. Poucos minutos atrás, dois homens começaram a brigar feitos cães enraivecidos por conta de um querer que o filho do outro desse lugar ao seu, que mal conseguia ficar de pé. Gabriel gritava para que todos se acalmassem, sendo seguido em coro por João e Nery, que eram obrigados a empurrar hora ou outra uma pessoa que os agredia. É óbvio que o bom senso agia naquele momento. Desacato à autoridade daria caso de cadeia no mínimo, mas os policiais sabiam que se dessem voz de prisão, o caos se tornaria ainda maior. De repente, um grito se fez ouvir. Era de dor e pavor. Um homem estava sendo mordido por uma criança, que naquele momento arrancava um pedaço de carne de seu corpo. Sangue se espalhou pela sala. Logo todos recomeçaram a gritar e a fazer o caminho inverso. Queriam naquele momento sair daquele hospital maluco. Silva apontou sua arma pronto para atirar, mas o som veio antes que a ação. Todos se olharam e perceberam que o estouro vinha da sala onde Medeiros e Fernando estava. Pensaram em correr, mas antes deveriam ajudar aquele homem. - Puta que pariu! A menininha tá arrancando a mão do sujeito fora como se fosse um bife! – disse Nery, assustado com a cena. No momento em que ele ia apertar o gatilho, um grito estridente chegou aos seus ouvidos. Neste momento ele se virou para verificar o corredor e viu Medeiros e Fernando saírem correndo da sala 12. Estavam brancos de fato. Pálidos como se houvessem visto um fantasma. João atirou antes que Nery pudesse perguntar o que estava acontecendo. A criança que teve sua cabeça partida pela bala estava sendo segurada por Gabriel, que fazia uma estupenda força para que ela não o mordesse. Medeiros chegou e olhou para a cena. Pegou sua pistola e a engatilhou, dando um tiro que estourou os miolos do homem caído no chão. Gabriel recebeu uma quantidade generosa daquele vermelho escarlate que se desprendeu do corpo que agora jazia inerte. Saindo do quarto 12, três figuras cambaleantes. Dentre elas, Renan. Todas manchadas com sangue em seus jalecos. Fernando não esperou ordens. Apertou o gatilho três vezes, acertando as criaturas no peito, enquanto estas se aproximavam cada vez mais. Gabriel engatilhou e abriu fogo também, acertando apenas um na cabeça. João e Anderson terminaram o serviço. - Mas que porra tá acontecendo aqui?! – perguntou João, nervoso com todo o acontecido. - Os mortos estão se levantando de novo! – disse Medeiros, que parecia mais abalado emocionalmente. Fernando continuava em um canto da sala, de braços cruzados, acompanhando a história de longe. Não saia de sua cabeça a cena de Leonardo se alimentando daqueles médicos. Seria uma coisa que dificilmente seria esquecida. - Onde tá o nosso capitão? – perguntou Nery.


- Morto. – disse Fernando, por fim. - Ai caralho! Ele tá morto?! A filha dele tinha acabado de nascer, oh meu Deus! – Nery não podia acreditar no que estava acontecendo. Infelizmente, a infecção havia se transferido para Campinas. Isso não era surpresa para ninguém. O único problema era que a cada pessoa perdida em combate, era mais um que se juntava à multidão. - O que vamos fazer, afinal? – perguntou Gabriel, Silva estava ao seu lado, com o olhar assustado. - Vamos pegar o nosso carro e vamos para o 8º batalhão, talvez os policiais ainda estejam ali. Podemos buscar abrigo e ordens também. – Medeiros disse. - Não. Preciso encontrar minha família! – disse Fernando, como se aquele fato não podia ser mudado, como se eles não tivessem chance de recusar o pedido. - Ei, Fernando! Todos aqui têm família! Mas primeiro vamos tentar nos safar e buscar nossas famílias quando tivermos um plano já estabelecido! – Medeiros dizia com autoridade na voz. - Não interessa o plano! Minha esposa e minhas filhas precisam de mim! E vocês não têm alguém que amam não? – Fernando pôs uma questão na mente daqueles homens. - Minha namorada estava me traindo. Eu ia acabar com o cara hoje de noite, naquele motel que tem na pista. Eles sempre vão ali. Mas agora que isso aconteceu, eu quero que eles se fodam. – Gabriel disse, abrindo seu coração. - Eu sou solteiro. – Silva disse. - Minha família está em Natal. Não pude tirar férias, então eles foram visitar os pais de minha esposa. – disse Nery, agora pensando se eles estavam seguros. Queria poder estar ao lado de sua amada esposa e de seu pequeno filho. - Sou divorciado. – disse Anderson. – Minha mulher achou que eu não ia conseguir sustentá-la com o dinheiro que eu recebo como PM. - Minha namorada me forçou a pedi-la em casamento para chegar o grande dia e ela me deixar plantado feito besta na igreja. Maldita vaca. Fugiu para outro Estado com algum filho duma puta. – disse João. - E você Medeiros? Medeiros ficou em silêncio por um tempo e disse em voz baixa, obrigando os outros a forçarem os ouvidos para ouvi-lo. - Mortos. Aquela revelação deixou a todos desconcertados. O silêncio se abateu naquele hospital. Ninguém ousava falar nada. De repente um grunhido vindo do outro corredor começou a se tornar cada vez mais alto. Medeiros conhecia aquele som. Pegou sua pistola e disse para os seus homens: - Tudo bem! Vamos para a casa de Fernando e dar um jeito de levá-los para um lugar seguro! Todos acenaram positivamente com a cabeça, saindo do hospital logo em seguida. Fernando mantinha atenção redobrada, embora sua mente vagasse pela região de sua casa. Queria que sua família estivesse bem como sempre. De repente, uma vibração se abateu em sua coxa. Tateou buscando a origem de tal vibração. Era o celular! Atendeu o mais depressa possível e disse com a voz quase falha. O som dos grunhidos se tornava cada vez maior. - Filha! Filhinha, tá me ouvindo?! – perguntou ele, não contendo a emoção.


- Papai! Onde o senhor tá?! A mãe e a mana tão brigando de novo! – disse a menina, com a voz doce, mas mecânica por conta do som do celular. Os grunhidos se aproximavam cada vez mais, agora o som de passos, vários deles, também se faziam ouvir. - Por que meu bebê? Por que a mamãe e a Jéssica estão brigando?! Conta pro papai. – Fernando tinha lágrimas nos olhos. - A mana tentou me morder depois que o namorado dela mordeu ela lá no shopping. Ai a mamãe tá trancada com ela na cozinha agora. Ela mordeu a mamãe também, papai! – a menina dizia, deixando que a situação fosse dramatizada pelo tom de sua voz. Fernando pôde escutar um grito no fundo, que reconheceu ser de sua mulher. – Papai! A mamãe tá gritando! – disse a pequena Júlia. Um potente murro na porta se fez ouvir e então o grito desesperado da menina, enquanto o celular era largado no chão. - Filha! Filha! – dizia Fernando, em vão. Júlia não estava mais na linha. – Temos que ir pra casa agora! - O que aconteceu?! – perguntou Nery, perplexo. - Minha família corre perigo. – disse Fernando, correndo em direção à viatura. Entrou no banco do motorista e esperou até que o carro estivesse lotado. Os outros foram na outra viatura, que neste momento ativava sua sirene e era dirigida por João. Gabriel estava ao seu lado e logo atrás vinha Anderson. Os dois carros policiais arrancaram pela rua, no momento em que uma enorme multidão de mortos vivos invadia o hospital. Era a cena mais tenebrosa da qual eles já presenciaram. Pessoas sem braços, sem metade da face, todas andando enquanto deveriam estar sendo decompostas pela ação do tempo embaixo da terra. João dirigia logo ao lado da viatura de Fernando, que mantinha sua atenção redobrada no volante, pisando fortemente no acelerador. Em breve estaria em sua casa e com sua família de seu lado. Seus pés quase atravessaram o pedal para que a velocidade aumentasse. Uma colisão qualquer poderia facilmente causar um acidente. Medeiros estava com seu braço direito para fora da viatura como eles costumavam andar, quando avistou mais à frente mais um amontoado de pessoas. Talvez estivessem mortas e andando como aquelas que eles viram uns minutos atrás no hospital, mas talvez apenas necessitassem de ajuda. Ele viu uma delas se desgrudar do bando e acenar para eles, sacudindo seus braços para o ar. Medeiros sorriu pela primeira vez desde que tudo começara, aquelas pessoas ainda estavam vivas. - Para aí! Vamos pegá-los e partir. – disse ele. Fernando pareceu não escutar. Em sua mente, tudo o que ele queria era estar na presença de sua família. Portanto acelerou a viatura e por pouco não acertou a pessoa que apenas queria ser salva. Medeiros olhou para o amigo e viu a loucura em seus olhos. Fernando não estava bem. Suava frio e muito mais que o normal. Na verdade, a ligação de sua filha apenas ajudou-o a estourar o pouco de sanidade que ainda lhe restava. - Por que você fez isso, porra! – disse Medeiros, gritando enlouquecido. - Primeiro a minha família. Nery olhou para os colegas de profissão e ficou pálido naquele momento. Um grupo de não mortos se reunia à frente da viatura. O carro era forte e resistente, mas não suportaria uma pancada tão potente como oitenta quilos se chocando contra o pára-choque. Silva gritou:


- Desvia Fernando! Desvia porra! – sua voz se tornava esganiçada. O medo em sua face era aparente. - Meu Deus eu vou morrer! – dizia Nery. Logo atrás a outra viatura seguia quase que colada à Fernando. João também estava focado no caminho. Gabriel falava com ele sobre as ruas, acenando com a mão livre, enquanto a outra se segurava em um dos apoios do carro. Anderson também parecia estar entorpecido pelos acontecimentos do momento. A distância entre a viatura e o não morto logo se tornou muito curta. Com muita habilidade, o piloto policial desviou-se nos últimos segundos. O carro subiu na guia e voltou para a estrada. Os pneus começaram a cantarolar, enquanto a borracha começava a se aquecer demais. Na viatura logo atrás, os policiais também conseguiram se safar por pouco. Seus corpos foram sacudidos com tamanho solavanco. Voltaram para pista, sentindo antes uma batida na traseira do carro. Uma mão demoníaca que tentava pará-los, sem sucesso. Fernando pensou em ligar sua sirene, mas lembrou-se que nada era como antes. Se ele fizesse aquilo, a legião que os seguiria seria muito maior do que eles poderiam aguentar. Eles estavam finalmente se aproximando da casa. A rua permanecia deserta, exceto por alguns mortos andantes que apareciam entre as casas. Nenhuma pessoa, nenhum animal, nada podia ser visto naquela cena desoladora. O coração de Medeiros começava a se tornar pesado. Mas agora, tudo isso deveria ser deixado de lado. Eles estavam à frente da casa de Fernando. E gritos vinham dali. Os policiais desceram de suas viaturas com as armas engatilhadas. João portava uma espingarda calibre .12. Nery portava uma submetralhadora. Eram as únicas armas disponíveis nos carros. Fernando não esperou seus companheiros. Estava ansioso por ver sua família. E ao ouvir os gritos, sabia que ela corria perigo. Medeiros entrou rapidamente, ao lado dele. Os outros foram mais cautelosos, olhando pelo bairro cheio de casas grandes, vendo criaturas se amontoarem nos dois extremos. As duas únicas saídas. Fernando vasculhou a sala e a cozinha. Os gritos haviam cessado. O silêncio era o pior de tudo. Significava que ninguém estava vivo para chamá-lo. Decidiu correr até o quarto, mas quando virou o corredor, viu a cena que o marcaria para sempre. Caída ao chão estava sua filha mais nova. Sangrava e soluçava, como se a vida se agarrasse à ela. Sobre seu corpo, mãe e filha mais velha se alimentavam de sua carne. As tripas da jovem criança estavam todas espalhadas e o sangue nas paredes começava a escorrer. O cheiro pútrido fez com que Medeiros tivesse leve náusea. Fernando não teve reação. Via tudo aquilo petrificado. Não conseguia expressar nenhuma reação. Seus braços não obedeciam ao seu comando. Ele viu sua filha se virar vagarosamente, jogando seu olhar sobre os dele. Como se doesse demais para falar (e realmente doía), ela sussurrou: - Papai. Ajuda eu. – e fechou os olhos. E Fernando sabia que ela nunca mais os abriria novamente. - Júlia. – ele disse. Medeiros e os outros viam à cena, horrorizados. Eles viram também as duas criaturas olharem diretamente para eles e começarem a se levantar para atacá-los. - Fernando. Temos que sair daqui. Não podemos mais fazer nada. – disse ele.


O policial parecia estar em um transe. Não conseguia mais dizer nada, nem se movimentar. Finalmente, sua mão se levantou, com a arma à postos. As criaturas estavam cada vez mais perto. O bafo de carniça já podia ser sentido. Trêmulo, Fernando mirou primeiramente em sua mulher. Medeiros não se intrometeu. Sabia que o próprio amigo deveria resolver isso. Mas ele estava ali para protegê-lo, caso algo desse errado. Um tiro ecoou por todo o corredor. Os ouvidos dos policiais começaram a zunir. Não ouviam mais nada, nem mesmo os zumbis entrando pela porta da casa. Eles os tinham visto. Outro tiro e a situação se agravou. Medeiros e Nery começaram a ficar zonzos, assim como os outros. Em pouco tempo, mãe e filha mais velha estava mortas, assim como Amanda também estava. Lágrimas saíam dos olhos de Fernando e de Medeiros, que não gostou nem um pouco de presenciar aquela cena horrível. Perguntou-se porque Deus havia deixado com que aquilo acontecesse justo com Fernando, um homem trabalhador e justo. Eles foram acordados deste momento quando Gabriel soltou um grito de dor. Um zumbi neste momento mordia seu pescoço, enquanto o sangue esguichava para fora de seu corpo. Silva gritou: - NÃO! GABRIEL! PORRA! PORRA! – disse ele ao ver o amigo e que a criatura trouxera mais amigos. Nery e João atiravam sem parar, auxiliados por Anderson. O som era perturbador. Tiros, grunhidos, morte. O inferno, enfim. Silva atirou contra a criatura que se alimentava de Gabriel e ajudou-o a se levantar, estancando o sangue com as mãos. Gabriel não conseguia mais nem andar, seus passos começavam a vacilar. - Vamos para o quarto! Depois pensamos no que fazer! – disse Medeiros, atirando também. Fernando não se mexeu. - Vamos Fernando! – disse o amigo. - Eu não vou. Vou matá-los. Todos eles. – disse Fernando, enquanto os zumbis se aproximavam cada vez mais. Seus braços já estavam estendidos para agarrar suas presas. - O que?! Está maluco? - Vá! Eu ganho tempo aqui! - Não, soldado! Você vai fazer o que eu mandar. - Vai logo porra! – disse Fernando, virando-se para atirar nas criaturas sedentas por sangue que já podiam tocá-lo. Medeiros olhou para o amigo e começou a atirar também. As balas perfuravam os crânios, enquanto os miolos se grudavam à parede. Ambos formavam uma bela linha de frente, mas as balas não eram infinitas. Eles eram praticamente irmãos. E morreriam como irmãos. As armas falharam, e quando pensaram que estavam perdidos, a metralhadora de Nery e a espingarda de João fizeram um estrago bem maior. - Ninguém vai deixar ninguém! - Vamos abrir caminho para sair daqui! Silva! Traga Gabriel! Anderson! Ajude-os. Mais tiros foram sendo disparados e mais corpos foram tombando. Nery ia atrás, atirando rapidamente contra as criaturas mal-cheirosas. João atirava naquelas que se aproximavam demais.


Aqueles eram os últimos pentes, de todas as armas. Em breve não teriam mais munição para enfrentar o tanto de criaturas que entravam pela porta da sala. De repente, vozes estranhas começaram a vir de fora da casa. Elas diziam coisas incompreensíveis, mas que aos poucos começavam a ter sentido. - Permissão concedida homens! Atirem para matar! O som de metralhadoras super-potentes começaram a retumbar em seus ouvidos. - VAI! VAI! VAI! – disse uma outra voz, agora na sala! - Há algum sobrevivente aqui?! – perguntou outra, e mais tiros foram ouvidos! - Sim! – respondeu Medeiros, agora mais animado do que nunca. Os poucos zumbis que agora restavam foram massacrados pelas metralhadoras. Então dois soldados do exército cruzaram o corredor e acenaram para que os policiais fossem rápidos. Finalmente eles haviam saído daquela casa maldita. Fernando parecia ainda estar sofrendo pelo choque. Gabriel começava a tomar uma tonalidade branca. Um caminhão do exército estava estacionado próximo às viaturas. Cerca de dez soldados estavam dispostos no meio da rua, cobrindo o perímetro. - Ouvimos tiros bem no momento em que estávamos passando por aqui e decidimos ajudar. Qualquer pessoa armada é bem vinda. – disse um homem com várias insígnias no peito. Um capitão. – Menos este daí. Precisamos eliminá-lo rapidamente. – disse ele apontando para Gabriel. - O que? – Silva pareceu espantado, e realmente estava. – Ninguém vai matar o Gabriel não! - Senhor, não-mortos se reunindo no final da rua. Estarão encima de nós em menos de 5 minutos. – disse um soldado. - Tudo bem soldado. Estamos de partida. Escute, oficial. Não podemos transportar este rapaz. Ele foi mordido. Está infectado! - Ei! Ei! – disse Medeiros! – Tem de haver outra maneira! - Não, não há! Você viu o que aconteceu com o médico Medeiros! Você viu! Ele foi mordido e se transformou. – disse Fernando. - Gente! Porra! A decisão é minha. Capitão. – disse Gabriel. – Só faz isso rápido. - Não! Que isso Gabriel! Ninguém vai te matar! – disse Silva. - SENHOR! NÃO-MORTOS SE APROXIMANDO! - Silva. Fica tranquilo. Eu não estou bem. Eu não quero machucar ninguém aqui. Agora me larga. Silva relutou, mas acabou soltando o amigo, que com muita dificuldade conseguiu ficar de pé. - Cara, tu é o meu melhor amigo! Te amo! – disse Silva, chorando, ao ver que o velho amigo ia embora. - Eu também cara! Eu também. Vai logo com isso capitão. – e essas foram as últimas palavras de Gabriel. Medeiros não quis olhar. Fernando viu tudo com indiferença. Aquele não era mais ele. Era um ser frio e calculista, amargurado pela perca da família. - Vamos, todos para dentro do caminhão! – disse o capitão, guardando a pistola no coldre. Os policiais entraram e logo em seguida os soldados também. E assim partiram pela rua, deixando uma multidão estranha e enfurecida logo atrás.


Eles estavam vivos. Podiam sobreviver para lutar mais um dia.


Frequência Z: A série Capítulo 1