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RECONHECIMENTO MEC DOC. 356 DE 31/01/2006 PUBLICADO EM 01/02/2006 NO DESPACHO 196/2006 SESU

GILSON JOSÉ DA SILVA, GIVALDO CÂNDIDO DA SILVA, JONNY FRANKLIN COSTA, LEONARDO GODINHO NUNES, MANOEL CHAVES MEDEIROS FILHO E MOISÉS MOACIR DA SILVA

O VERBO CRER EM JOÃO 14:11-12 EXEGESE

Cachoeira 2006


GILSON JOSÉ DA SILVA, GIVALDO CÂNDIDO DA SILVA, JONNY FRANKLIN COSTA, LEONARDO GODINHO NUNES, MANOEL CHAVES MEDEIROS FILHO E MOISÉS MOACIR DA SILVA

O VERBO CRER EM JOÃO 14:11-12 EXEGESE

Trabalho revisado, editorado e formatado no segundo semestre de 2006. Arquivo nº 06058

Cachoeira 2006


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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ............................................................................................................4 Exposição do Texto ..................................................................................................5 1.1 Análise das Palavras Mais importantes 5 1.2 Comentário do Texto 6 Análise do Contexto Literário ..................................................................................9 1.3 Contexto Imediato 9 1.4 Contexto Amplo 10 1.4.1 A Estrutura Quiástica de João 14:1 a 27 11 1.5 O Contexto Geral 12 Análise do Contexto Histórico ...............................................................................14 1.6 Ambiente Cultural do Quarto Evangelho 14 1.7 Autor e Data 14 1.8 Contexto Religioso 15 1.9 Tema Central 15 Interpretação da Passagem....................................................................................16 1.10 Significado Teológico no Escopo Imediato, Amplo e Geral 16 1.11 Sentido Original 17 1.12 Aplicação Contemporânea 18 Conclusão ................................................................................................................20 Apêndice 21 1.13 Primeira Janela 21 1.14 Segunda Janela 21 1.15 Terceira Janela 22 1.16 Quarta Janela 22 Bibliografia...............................................................................................................23


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INTRODUÇÃO

A presente pesquisa busca estabelecer um entendimento mais profundo das palavras do Senhor a seus discípulos momentos antes de Sua partida. Conforme vários estudiosos do quarto Evangelho, João 14:11-12, faz parte do último discurso de Cristo, geralmente denominado de Discurso da Despedida. Tal como para os discípulos e para a comunidade Joanina, esta passagem é de fundamental importância para a Igreja nos dias atuais, pois contém referências ao tema Cristológico relativo à divindade de Jesus Cristo, e ao tema Missiológico na expansão das obras da Igreja Cristã que só se tornariam possíveis através de uma comunhão semelhante àquela vivida pelo Messias em seu ministério terrestre. Para empreender esta tarefa será feita uma análise exegética do texto dando atenção aos termos gregos usados pelo escritor bíblico, visando uma interpretação coerente que auxilie o leitor em sua compreensão desta passagem.


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EXPOSIÇÃO DO TEXTO

As diferentes versões se assemelham na maneira de traduzir João 14:11-12, uma vez que o trecho não apresenta problemas de variantes. ARC João 14:11-12 “Crede-me que estou no Pai, e o Pai, em mim; credeme, ao menos, por causa das mesmas obras. Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim também fará as obras que eu faço e as fará maiores do que estas, porque eu vou para meu Pai.”1 ARA João 14:11-12 “Crede-me que estou no Pai, e o Pai, em mim; crede ao menos por causa das mesmas obras. Em verdade, em verdade vos digo que aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço e outras maiores fará, porque eu vou para junto do Pai.”2 KJV João 14:11-12 “Believe me that I am in the Father, and the Father in me: or else believe me for the very works' sake. Verily, verily, I say unto you, He that believeth on me, the works that I do shall he do also; and greater works than these shall he do; because I go unto my Father.”3 O texto original de João 14:11-12 diz: pisteu,ete, moi o[ti evgw. evn tw/| patri. kai. o` path.r evn evmoi,\ eiv de. mh,( dia. ta. e;rga auvta. pisteu,eteÅ avmh.n avmh.n le,gw u`mi/n( o` pisteu,wn eivj evme. ta. e;rga a] evgw. poiw/ kavkei/noj poih,sei kai. mei,zona tou,twn poih,sei( o[ti evgw. pro.j to.n pate,ra poreu,omai\4 1.1 ANÁLISE DAS PALAVRAS MAIS IMPORTANTES

pisteu,ete – verbo imperativo presente ativo 2ª pessoa plural de pisteu,w (1) como principal significado uma avaliação intelectual de Crer; (a) como uma convicção acrescentada como Crer em, estar convicto como tendo confiança no falado ou escrito usando o dativo crer, dar crédito, Deus ou Cristo como o objeto de fé e crença. Ter fé em, Crer (AC 16.34); (b) significando o exercício da Fé. O objeto expressado pelo uso de eivj or evpi,.. 5 evn – preposição dativo, a primeira idéia é dentro, em, interiormente, significando posição estática ou tempo time, mas muitos usos só podem ser determinados no contexto. O seu principal uso é o seguinte: (1) de lugar; (a) denotando a posição dentro do limite (JN 8.20); (b) denotando especificamente localização na, (2C 3.3); (c) denotando intimidade, proximidade (HE 1.3); (d) psicologicamente, descrevendo processos, qualidades, posses com Deus ou homem (MT 5.28); e;rga – substantivo acusativo neutro plural e;rgon( ou( to, (1) gênero obra; (a) ativo. Alguma coisa feita, feito uma obra, ação (JN 3.21); (b) passivo. Algo feito com o produto de uma ação ou processo como uma feitura, feito, consumido (1C 3.13); (2) em contraste repouso da atividade do trabalho (HE 4.3, 4); em contraste com o 1

João Ferreira de Almeida, Bíblia Sagrada, Edição Revista e Corrigida. João Ferreira de Almeida, Bíblia Sagrada, Edição Revista e Atualizada. 3 King James Version, Holy Bible, Blayney Edition, (Cambridge University Press, 1769). 4 Kurt Aland, Matthew Black, Carlo M. Martini, Bruce M. Metzger, and Allen Wikgren, ed. The Greek New Testament, (Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft (German Bible Society). 5 As análises das palavras mais importantes foram efetuadas utilizando a ferramenta Bible Works for Windows, v. 4.0, HERMENEUTIKA Computer Bible Research Software, 1998. 2


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trabalho feito (1J 3.18); em contraste da fé com uma demonstração prática ou resultado do trabalho (JA 2.18); (3) como atividade de Deus no mundo do trabalho, feito(s), ato(s) (JN 5.20). (4) como dever humano e trabalho de ocupação, tarefa (At 14.26); (5) numa senso de fraqueza,comprometido com assunto (At 5.38). poiw/ – verbo indicativo presente ativo 1ª pessoa singular fazer. Processo diverso do contexto (1) da atividade humana envolvendo fazer coisas externas, construir, formar (MT 17.4); (2) da atividade criativa de Deus, adquirido ou feito (LU 19.18), do processo natural de uma grande produção. Ação para indicar o resultado da causa de alguém fazer ou forçar alguém para, fazer algo ou alguma coisa (MT 4.19; 21.13); usado um substantivo de forma perífrase para um verbo simples de fazer. mei,zona – adjunto pronominal comparativo ativo neutro plural – grande traduzido no contexto. (1) de extensão de longo, espaçoso, largo, longo (MK 4.32; 14.15); (2) de numero e grande quantidade, grande, abundante (HE 10.35); (3) de intensidade; (a) na relação fenômeno intenso natural (Ap.16.9); poih,sei – verbo indicativo futuro ativo 3ª pessoa singular significado básico . fazer,manufaturar, traduzido variando de acordo com o contexto (1) a atividade humana envolvendo fazer cousas externas,(MT 17.4); (2) A atividade criadora de Deus. (MT 19.4); (3) tarefa, estado ou condição de realizar, fazer (um trabalho) (JN 8.41), Fazer (EF 2.15), adquirir ou fazer (LU 19.18). 1.2 COMENTÁRIO DO TEXTO

“Pisteuete” (Crede) o termo grego aparece nove vezes no N.T. e dessas, cinco no evangelho de João. Lothan e Colin Brown observam que a raiz da palavra tem o significado básico de confiança6. A confiança pode se referir a uma declaração, de tal modo que tenha o significado de depositar fé em. Juan Mateos e Juan Barreto7 salientam que o verbo “pisteuo” é característico de João, não só por sua freqüência (96 vezes) mas também pela peculiar construção com a preposição “eis” (32 vezes); a construção com “eis” acrescenta uma sema direcional, que confere dinamismo à ação do sujeito. João concebe de modo dinâmico a relação sujeito-objeto e a expressa com esta preposição, exemplificando assim que o termo “pisteuo eis”, é sempre pessoal a Jesus exceto em (Jo 12:44). O termo no hebraico “aman” confiar, crer em; usado somente no hafel, o particípio passivo significa: confiável.8 Em contraste com o grego, o hebraico, não tem palavra correspondente apenas ocorre outros tempos, o perfeito de peitho e peithomai na LXX9 John L. Mackenzie10 mostra que o termo “pisteuein” em grego clássico significa 6

Lothan e Colin Brown. Dicionário Introdução de Teologia do N.T., (Vida Nova: São Paulo, 1984), p. 803. 7 Juan Mateos e Juan Barreto, Vocabulário Teologia do Ev. de João (Edições SALT pós-graducao- UNASP, 2003), p. 42. 8 R. Laird Harris e outros, Dicionário Int. de Teologia do N.T., (Vida Nova: São Paulo, 1998) p. 1667. 9

Lothan e Colin Brown, p.804

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John L. Mackenzie, Dicionário Bíblico, (Paulus: São Paulo, 1984) p. 342


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confiar, mostrar confiança, aceitar como verdadeiro. Os significados comuns aparecem no N.T. “Crede-me”, o plural do verbo indica Jesus se dirigindo não só a Filipe, que fez a pergunta, mas a todos os discípulos, que deveriam ter fé, resultado de crer, termo este que segundo o Dr. José Carlos Ramos11 não é empregada no evangelho de João. “Erga” (obra) o termo grego aparece 58 vezes no N.T. Mackenzie12 considera que João fala das obras do Pai (9:3) das obras que Jesus e o Pai realizam juntos (14:10,12; 9:4) e também a obra de Jesus, que é a obra que o pai lhe deu para cumprir (Jo 17:4). A obra que Deus dá aos homens para realizarem é a fé (6:29s), as obras do Pai e as obras de Jesus não são somente os milagres, pois João reflete a concepção Vétero-testamentária da obra salvífica e do Juízo de Deus. A obra é a realização do Pai, a redenção do homem, a vitória sobre o pecado. Obras no sentido de os atos de Jesus, a missão de Jesus; diferente das obras de João 3:20.13 base moral para a descrença. As obras dos discípulos são as mesmas que Jesus (9:4) realizava. A situação em que os homens se encontravam deve estimular os discípulos a realizarem com Jesus, obras que manifestam o amor de Deus para com o homem. Essas obras só se podem realizar enquanto Jesus está presente com eles. A adesão a Jesus permitirá ao discípulo fazer obras como as Suas e ainda maiores, isso prova que não se trata de “sinais portentosos” (4:48), segundo Juan Mateos e Juan Barreto14, mas do trabalho pela libertação e vida do homem. Barclay15 por sua vez afirma que Jesus falava da recriação moral e da vitória espiritual. Mário Veloso16 comenta que as obras de Cristo faziam parte da obra do Pai. Porque o Filho não faz nada por Si mesmo, mas o que vê fazer o pai (5:19) a obra do Filho e sua missão salvadora sobre a terra. Kurt Aland apresenta que a prova da divindade de Cristo, mediante as obras por ele realizadas, e um dos temas centrais deste evangelho.17 “Meidzona” (grande, maior) o termo grego aparece 07 vezes no N.T. Willian Barclay18 comenta Jesus falando que chegaria o dia quando seus discípulos fariam o que Ele havia feito e que inclusive fariam obras superiores, maiores. Maiores em quantidades e não em qualidade. É um fato que a igreja primitiva tinha o poder de curar os enfermos. Mas é evidente que esse não foi todo o sentido das palavras de Jesus quando disse que obras maiores “meidzona” fariam. Se bem que a igreja fez as mesmas obras que Jesus havia feito, não se pode dizer contudo, que fez cousas maiores, isso seria algo impossível. As grandes obras seriam a pregação do evangelho a um mundo pecador; um mundo dominado pela 11

José Carlos Ramos, Evangelho de João Introdução e Comentário, (Edições SALT pós-graduçao- UNASP, 2003) p. 42

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Mackenzie, p. 663 Ramos, p. 109

Juan Mateo e Juan Barreto, Vocabulário teológico do Evangelho de João, (Edições paulinas: São Paulo, 1989.) p. 219 15 Willian Barclay. El Nuevo Testamento Comentado Tomo I, (Editorial La Aurora: Buenos Aires, 1995) p. 184 16 Mário Veloso, Comentário do Evangelho de João, (Casa Publicadora Brasileira: Sto André – São Paulo, 1984) p. 288 17 Kurt Aland e outros. The Greek New Testament. (United Bible Societius: West Germany, 1983) p. 389 5 Barclay, p. 183


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homossexualidade, vícios e prostituição. Os primeiros cristãos conquistaram grandes números de almas e extensões territoriais. Quantitativamente falando, superaram as obras de Jesus durante os Seus dias na terra. Jesus insiste em sua união com o Pai, união esta que é assegurada pelas obras, pois tanto suas palavras como suas obras originaram do Pai. As suas obras deviam convencê-los da verdade das suas reivindicações. Fé em Jesus possibilitará obras ainda maiores do que as que Ele realizou, segundo enfatiza Davidson.19 “Poiesei” (fará) o termo grego aparece 18 vezes no N.T. O tema importante, neste contexto, segundo J. Ransey Michaels20 é a validação do testemunho legal mediante duas testemunhas, Jesus e o Pai. Trata-se do testemunho acessível a qualquer discípulo que ouvir as palavras de Jesus e crê, como sendo palavras do Pai, e entender as obras de Jesus como sendo obras do Pai, fazendo assim obras maiores realizaram. Para Ladd21 a obra de Cristo que seria feita pelos discípulos é a justificação e a reconciliação que Paulo emprega, usando muitos termos para demonstrar esta obra. Bruce comentando diz que Jesus falando aos seus discípulos afirma que eles também fariam as obras que ele fez. Isto deve ter causado admiração, pois já que Jesus estava indo para junto do Pai, eles fariam coisas “grandes” dos que O viram fazer22. Essas obras seriam a conversão de pessoas, o que aconteceu nos primeiros meses depois da Sua morte e ressurreição. Mais pessoas se converteram ao cristianismo através do testemunho dos discípulos. Ladd interpreta obra de Cristo como sendo a justificação e a reconciliação, justificando a teologia Paulina que emprega outros termos23 para demonstrar a obra de Cristo. A conversa continua aludindo a união perfeita de Jesus com o Pai, é inquestionavelmente o tema central do texto, pois as palavras e obras de Cristo são do Pai, voltando então a atenção aos discípulos Ele afirma categoricamente que eles também fariam as obras que Jesus tinha feito, porque ele responderia de acordo com as suas suplicas, para que Deus se manifestasse no Filho.24 Jesus afirma novamente que o Pai e o Filho estão um no outro (ver 10:38) e que o pai lhe mostrou o que falar e o que fazer25 19

F. Davidson. O Novo Comentário da Bíblia. (Edições Vida Nova: São Paulo, 1959) p. 1091. 20 J. Ramsey Michaels. Novo Comentário Bíblico Contemporâneo, (Editora Vida: Florida E.U.A, 1994), p.268, 269. 21 George E. Ladd. Teologia do Novo Testamento, (Editora Magnos: São Paulo, 2002) p. 409. 22

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F.F. Bruce, João Introdução e comentário, (Edições Vida Nova: São Paulo, 1987) p. 258

Ladd, p. 409. Dianne Bergant e Robert J. Karris, Comentário Bíblico, (Edições Loyola: São Paulo, 1999) p. 128. 25 Bruce, p. 257. 24


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ANÁLISE DO CONTEXTO LITERÁRIO

O conhecimento dos limites próprios do texto, bem como detectar o significado de João 14:11-12 à luz do contexto imediato, amplo e geral auxilia na elucidação do mesmo. Como será visto a seguir: 1.3 CONTEXTO IMEDIATO

As palavras de Jesus aqui são em decorrência da assertiva de Filipe no v. 8: “mostra-nos o Pai, e isto nos basta”. Esta declaração marca a terceira interrupção26 no discurso da despedida. A primeira em 13:36-38 por Pedro e a segunda em 14:5 por Tomé, expressaram dúvida quanto ao caminho para o qual o Senhor se dirigiria. Por outro lado, Filipe, através de suas palavras, revela um desconhecimento27 quanto à natureza da missão de Jesus e Sua ligação com o Pai. De acordo com Paulien, os versos de Jo. 14:1-4 representam uma declaração de despedida onde, propositalmente no intuito de “provocar perguntas que lhe permitissem esclarecer ainda mais as coisas para seus discípulos”28, Jesus utilizou as palavras do v. 4, que provocaram essa interpelação por parte de Filipe. Esse discípulo aparece “em todas as listas dos doze”29, mas se faz importante notar que os outros evangelistas não registraram nenhuma participação sua em qualquer narrativa, enquanto João, o faz por três vezes: 6:5-7; 12:21-22; 14:8-9. O que parece indicar que sua capacidade de apreensão dos ensinos ministrados pelo Mestre, não era mais que “mediana”.30 Todavia, esse desconhecimento ou ignorância, não é exclusivamente seu, mas do grupo reunido ali. A resposta de Jesus confirma essa informação quando em primeira instância Ele se dirige diretamente àquele que havia verbalizado a dúvida (v. 10), e logo em seguida é “endereçada aos discípulos coletivamente”.31 A própria construção gramatical do evangelista ao registrar as palavras de Jesus, confirmam o fato de que o grupo de discípulos ainda desconheciam muito a Seu respeito. No v. 11a, João utiliza a segunda pessoa do imperativo plural,32 pisteu,ete, moi,33 lit. “crede vós em mim”(discípulos), em contraste com o v. 10 onde foi usada a segunda pessoa do singular,34 pisteu,eij,35 lit. “crês tu” (Filipe). Witherington 26

“É uma característica dos discursos Joaninos, que Jesus seja interrompido por questões ou objeções dos ouvintes”. Bruce M. Metzeger, The New Testament, its Background, Growth, and Content, (Nashville: Abingdon Press, 1983), p. 94. 27 F. F. Bruce, João - Introdução e Comentário (São Paulo: Edições Vida Nova, 1987), p. 257. ver também, Mário Veloso, Comentário do Evangelho de João, (São Paulo: Casa Publicadora Brasileira), p. 288. 28 Jon Paulien, Juan (Buenos Aires: Asociación Casa Editora Sudamericana, 2001), p. 252. 29 Raymond E. Brown, The Anchor Bible – The Gospel According to John (New York: Doubleday & Company, Inc.), vol. 29 A, pp. 617-636. 30 José Carlos Ramos, Evangelho de João, (São Paulo: UNASP – Edições), p. 78. 31 Marvin R. Vincent, Word Studies in the New Testament, (Virgínia: Macdonald Publishing Company), vol. 2, p. 242. 32 Timothy and Barbara Friberg, Analytical Greek New Testament, (Baker Book House, 1981). 33 Kurt Aland, Matthew Black, Carlo M. Martini, Bruce M. Metzger, and Allen Wikgren, ed. The Greek New Testament, (Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft (German Bible Society). 34 Friberg. 35 Kurt Aland.


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comenta este fato da seguinte maneira: A esta altura na narrativa os discípulos até agora conheciam Jesus somente em parte, mas ainda não haviam despertado para o fato de que conhecer Jesus é conhecer o Pai. O pedido em 4:8 parece espantoso, mas provê igualmente uma maravilhosa resposta – aquele que tem visto Jesus, tem visto o Pai. Aqui o ponto não é que Jesus seja o Pai, mas que ele é a perfeita semelhança e exegesis do Pai como seu único Filho.36 É nesse aspecto que o contexto imediato dos versos 11-12 se desenvolve, de forma que encontramos nos versos anteriores e imediatamente posteriores o eco das palavras “... estou no Pai, e o Pai, em mim”. 1.4 CONTEXTO AMPLO

Os estudiosos têm proposto vários modelos de estrutura para o evangelho de João, neste trabalho adotamos a estrutura apresentada em classe pelo Dr. Ramos com base em Brown37; Prólogo; Corpo, livro dos Sinais, livro da glória; e apêndice. No livro dos sinais (1:19 – 12:50), as palavras de Jesus registradas nesta seção do evangelho são dirigidas aos judeus e incrédulos, marcadas especialmente por milagres. Estes foram anos de conflitos e oposição. No livro da glória (13:1 – 20:50). Percebemos que o autor do evangelho está voltado para a comunidade dos discípulos. Os capítulos 13 a 17 registram uma serie de três discursos de Jesus dirigidos aos crentes, pois foram verdades benditas que o Senhor pronunciou para seus discípulos e a respeito deles. Jo. 13:31 a 14:31 começa o discurso final de Jesus aos seus discípulos antes de deixar o cenáculo e enfrentar o caminho da cruz. Direcionados aos discípulos, a nova comunidade que nasce a partir de seu sacrifício na cruz, nas palavras de Mateo e Barreto: “Jesus que acaba de fundar sua comunidade dando-lhe por estatuto o mandamento do amor, explicará qual seja sua relação com o pai e com ela, que ficará estabelecida com sua ida para o pai. Em primeiro lugar, os seus serão membros da família do pai, que os acolherá no seu lar. Jesus vai preparar-lhes o lugar. O Pai estará, portanto, com eles como entre os seus filhos. Sua presença, porém, não será estática, imobilizada no templo, mas dinâmica, caminhando na tenda do novo êxodo. O caminho que a comunidade percorre identifica-se com o próprio Jesus, pois a assimilação de sua vida e morte é o itinerário de cada um. A meta é o pai, pois no termo do caminho, no dom de si como o de Jesus, manifesta-se plenamente sua presença. Descreve-se em termos de caminho a relação progressiva de semelhança entre o discípulo e Deus, que o vai transformando em dom de Deus à humanidade, dom cada vez mais pleno”38

O Discurso de Jesus no cenáculo parece adotar um estilo literário muito comum nos tempos bíblicos, o estilo testamentário. Preocupado com a situação dos discípulos e como eles permaneceriam sem a presença corpórea, Jesus a véspera 36

Ben Witherington, John’s Wisdom, (Kentucky: Westminster John Knox Press, 1951), p. 250. José Carlos Ramos, Evangelho de João, Introdução e Comentário, 19. 38 Mateos e Barreto, 597. 37


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de sua morte na cruz pronuncia este discurso inicia em Jo. 13;31 e termina em 14:31. Este estilo literário39 pode ser encontrado em vários momentos no texto bíblico com comenta Paulien: “uma quantidade de personagens importantes da bíblia pronunciaram discursos de despedidas justamente antes de sua morte. Entre eles Jacó (Gn. 47:27-49:33), Moisés (todo o livro de deuteronômio), Josué (Js. 22-24), David (I Cr. 28, 29) e Paulo (At.20:17-38 e II Tm. 3:1 a 4:8) podemos encontrar discursos similares em na literatura intertestamentária ... Estes discursos parecem seguir patrões comuns e bastante definidos, o que sugere que o discurso de despedida era um gênero literário bem estabelecido no mundo antigo”40

Em sua introdução a ênfase gira entorna de duas palavras fundamentais no evangelho de João; glória (13:31-32) e amor 913:34-(35), a primeira palavra que aparece 05 vezes logo no inicio do discurso e a segunda 04 vezes, O Senhor Jesus faz um uso intercalado destas palavras em sua introdução, e esta é a maneira de João introduzir os parâmetros da missão da igreja que é visto como uma continuidade da obra do mestre como bem analisa Paulien: “A gloria de Jesus (13:31-32) e sua morte, ressurreição e ascensão (12:27-32, 3840;17:15). A missão de sua vida (glória) é revelar o caráter amoroso de Deus a seus discípulos (14:8-9). A missão dos discípulos ao mundo, por outro lado não é descrita em termos de glória, se não em termos de amor (13:34-35). Assim como Jesus os amou ao lavarlhes os pés a ao morrer na cruz eles devem amar-se uns aos outros. Os discípulos daquele que deu sua vida pelo mundo seriem reconhecidos como os que se comportam como o seu mestre”.41

No desenvolvimento do discurso Jesus é interrompido por intervenções de Pedro (13:37), Tomé (v.5), Filipe (v.8), e Judas (v.22). No Evangelho de João, estas intervenções oferecem oportunidades para uma maior explicação. E mostram a incapacidade humana para compreender a totalidade da mensagem. Os versos de 14:1 a 14:27 formam um quiásmo, onde as bases do quiásmo são o convite a não ter medo, pretende ajudar os discípulos a reconhecer motivos de fé e coragem. Este e o pano de fundo do texto, e a sua mensagem central é muito clara: a situação dos discípulos na ausência do Senhor Jesus entre a sua partida e a parousia bem como a atuação do ministério do Espírito Santo como Consolador. O terceiro membro da Trindade42 – Deus em nós – possibilitando a união mística do crente com Jesus. 1.4.1 A Estrutura Quiástica de João 14:1 a 27

A1 – vv. 1, 2 – Jesus consola os discípulos. Não se turbe vosso coração. 39

Paulien cita Brown e Talbert ao desenvolver a idéia do estilo testamentário em seu livro, p. 251. Paulien, 251. 41 Idem. 42 Trindade: Deus Pai – Deus por nós, o grande articulador, planejador e doador do plano da redenção; Deus Filho – Deus conosco, Deus em forma humana vivendo entre os homens e revelando Deus o Pai a humanidade; Deus – Espírito Santo, Deus em nós santificação a vida do crente, mortificando a vida na carne, concedendo dons e vivendo na e entre a igreja aplicando o sacrifício de Jesus. 40


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B1 – v. 3 – Vou prepara-vos lugar. C1 – vv. 4, 7 – Quem conhece a Jesus, tem o Pai. D1 - vv. 8, 9 – A união e unidade do Pai com o Filho. E1 – v. 10 – A relação dinâmica Pai e Filho. F1 – vv. 11, 12 – Intima união do Pai com o Filho manifesta em obras. G1 – vv.13,15 – Certeza da presença de Jesus com os crentes. Ele responde a nossas orações.

H – vv. 16,17 – A certeza do ministério do Espírito Santo na igreja G2 – vv. 18, 20 – Certeza da presença de Jesus com os crentes. Ele vive. F2 – v. 21 – Intima união do Pai e Filho manifestada na vida do crente.

E2 – v. 21 – A relação dinâmica Pai e Filho manifestada no crente. D2 – v. 22 e 23 – A união e unidade do pai com o filho manifestada na vida do crente. C2 – v. 24 – Somente Quem ama Jesus é que recebe as palavras o Pai. B2 – v. 25-26 – Vou enviar o Consolador. A2 – v 27 – Jesus consola os discípulos. Não se turbe o vosso coração. Nesta estrutura quiástica pode-se perceber um movimento de A1 Î G1 para G2 Î A2 no sentido de aplicar na vida do crente, a intimidade, unidade e espiritualidade da relação Pai/Filho, sendo esta um modelo da relação entre o crente e Jesus. A partir da presença do Espírito Santo na vida discípulos. O tema central do discurso não e a partida, mas a situação dos discípulos entre a partida e a parousia. 1.5 O CONTEXTO GERAL

Ao ler estes dois versículos facilmente se identifica os dois principais assuntos expostos: • Uma declaração Cristológica da Divindade de Cristo; •

Uma declaração Missiológica para a Igreja de Cristo.

Estes dois temas são extensamente abordados em todo o N.T. Em relação ao primeiro, pode-se ver tênues vislumbres nos sinóticos, mas uma abordagem com profundidade teológica inigualável nos escritos paulinos.43 Já o assunto da missão pode ser acompanhado de 43

Ver por exemplo: Mt. 1:23; 3:17; 9:6; 11:27; 17:1-8; Mc. 12:35-37; 16:19; Lc. 1:32-33; Fp. 2:6; Cl. 1:15-20; 2:9; Tito 2:13;


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perto, até mesmo como cumprimento das palavras de Jesus, no livro de Atos, bem como nas Espístolas e demais Evangelhos.44 Vale ressaltar que o elemento “crer” é destacado nos versos em estudo, e está associado aos dois temas supracitados. Esse “crer” agrega conceitos peculiares em João, uma vez que seu uso do verbo pisteu,w (pisteuo) é mais freqüente quando comparado aos sinóticos, com construções variadas e singulares conforme destaca Ladd: Pisteuo ocorre dez vezes em Marcos, onze vezes em Mateus, nove vezes em Lucas. Pisteuo ocorre diretamente nesta forma trinta vezes em João, dezoito vezes com o dativo, treze vezes com hotí, trinta e seis vezes com eis, uma vez com em (3:15), e uma vez com o acusativo neutro (11:26b). Fica bem claro que no quarto Evangelho a fé desempenha um papel na salvação que nos sinóticos encontra-se completamente ausente.[...] [...] Na expressão, pisteuo eis, distintamente joanina, pode-se perceber que tal tipo de fé envolve mais do que uma teologia correta. Esta frase é típica da fé cristã e não encontra paralelos, quer no grego secular, quer na LXX, e pode ter sido padronizada de acordo com a frase semita heemin be. Entretanto, desde que a LXX não traduz a preposição hebraica por eis, mas usa o dativo simples, é mais provável que a expressão pisteuo eis seja uma criação cristã distintiva designada para expressar a relação do compromisso pessoal entre o crente e Jesus.45 44

Atos: 2:42-47; 4:29-31; 8:4; 9:31; 13:44; 18:9-10; 28:31; Rm. 15:18-21; Cl. 1:28-29; II Tm. 4:2; Tito 3:8; Mt. 9:35; 28:20; Mc. 16:15; 45 Ladd, p. 256.


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ANÁLISE DO CONTEXTO HISTÓRICO

1.6 AMBIENTE CULTURAL DO QUARTO EVANGELHO

Percebemos diante de uma leitura detida do quarto evangelho em consonância com o ambiente da época que ora o mundo para o qual João escreve é o helenismo, ora influenciado diretamente pelos gnósticos e ecoa também um certo platonismo. Todavia o ambiente era puramente judaico com influência do mundo grego e certas praticas trazidos de babilônia. “O evangelho de João é sem dúvida um escrito que sugere diversas possibilidades quanto a sua ambientação”.46 Esse ambiente esta localizado na Síria e na Ásia Menor pelo fim da última década do primeiro século. Diante deste sincretismo religioso o propósito principal de João era que os verdadeiros filho de Deus cresse, todavia o evangelho não foi dirigido em especial para incrédulos. 1.7 AUTOR E DATA

De acordo com o testemunho bíblico que declara “Este é o discípulo que dá testemunho destas coisas, e que as escreveu; e sabemos que o seu testemunho é verdadeiro”21:24 concluímos que o discípulo mencionado é o discípulo amado. Deveria ser um dos doze a quem Jesus havia escolhido para que levasse avante seu trabalho, pois estava presente na última ceia. Seria provável que Pedro, Thiago e João é apresentado pela bíblia como o círculo mais íntimo logo concluímos que poderia ser um deles. “Uma nota conclusiva identifica de modo explicito o discípulo amado como sendo o autor do evangelho”.47 Visto que o nome de João sempre esteve ligado ao quarto evangelho vamos examinar alguns testemunhos da igreja primitiva e das tradições. “Irineu, perto do fim do primeiro século, escreveu a respeito daqueles que tinham grande familiaridade com João, o discípulo do Senhor [afirmando] que João lhes transmitia aquela informação[i.e., a respeito da idade de Jesus e a extensão 48 de seu ministério]. E permaneceu entre eles até a época de Trajano.

Irineu acrescenta explicitamente que a igreja de Éfeso, fundada por Paulo, e tendo João permanecido entre eles de forma perene, até os tempos de Trajano.” Tradições antigas sempre associou João à redação de um evangelho. Temos até o testemunho de um gnóstico “Certo Ptolomeu(130-140 d.c) um gnóstico atribuiu a João, o discípulo do Senhor as palavras: no princípio era o verbo , e o verbo estava com Deus, e o verbo era Deus”.49 Temos ainda a confirmação de “Clemente de Alexandria que dá autoridade 46

47

Rinaldo Fabris, Os Evangelhos, Vol. 2, (São Paulo: Edições Loyola, 1992).

Mário Veloso, Comentário do Evangelho de João, (São Paulo: Casa Publicadora Brasileira, 1984). J. Ransey Michaels, Novo Comentário Bíblico Contemporâneo, (São Paulo: Editora Vida, 1994), p. 14. 49 Russell P. Shedd, O Novo Comentário da Bíblia, vol. 3 (São Paulo: Vida Nova, 1963), p. 15. 48


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do livro de João e diz que ele escreveu na última década do primeiro século”.50 Policrates bispo da cidade de Éfeso também atesta a autoria do quarto evangelho a pessoa de João. Diante dessas declarações e testemunhos dos pais da igreja, concluímos que o discípulo amado que escreveu o livro é a próprio autor. 1.8 CONTEXTO RELIGIOSO

Mais ou menos na época em que o cristianismo veio à existência, já havia no mundo helenista uma mistura de conceitos religiosos do judaísmo com a filosofia grega, especialmente como o neo-platonismo. O gnosticismo era bastante forte e estava penetrando na igreja e influenciando o pensamento de muitos cristãos da época. “O gnosticismo negava a encarnação verdadeira de Jesus Cristo, e, em seu docetismo afirmava que a sua natureza humana era tão somente uma ilusão. E alguns gnósticos negavam a verdadeira encarnação de Jesus Cristo”.51 Esse era o contexto religioso que girava em torno de João e que de forma bastante teológica e profunda ele procura combater. 1.9 TEMA CENTRAL

O tema central do evangelho de João indubitavelmente, desde o seu prólogo, pode-se perceber que é a revelação de Deus em Cristo Jesus. “As palavras de abertura são um categórico enunciado da divindade de Jesus, de Seu eterno companheirismo com o Pai, e de Seu status de Criador”.52 João coloca isto como tema central, pois esta na verdade é a teologia que ele discorre até o fim do seu livro. Partindo deste princípio entendemos porque João procura com tanto interesse apresentar um testemunho digno de crédito sobre a vida terrena de Jesus. Ele vai além do milagre, Ele procura mostrar o significado teológico de tudo que acontece no dia a dia do Senhor. A grande freqüência de termos para “ouvir” e “ver” num sentido espiritual evidencia a convicção do evangelho de que a revelação de Deus foi dada e pode ser recebida por todos aqueles que crerem de fato. 50

R. V. G. Tasker, editor, The Gospel According to St. John, (Michigan: Eerdmans Publishing). Fabris. 52 José Carlos Ramos, Evangelho de João, (São Paulo: UNASP, 2003), p. 62. 51


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INTERPRETAÇÃO DA PASSAGEM

Depois de se ter visto a passagem sob o ângulo da língua original, seu respectivo contexto literário e histórico, faz-se necessário, à luz do que já foi pesquisado, que estes versos sejam agora analisados no seu sentido teológico, dentro do evangelho de João, em relação ao Novo Testamento e no escopo da Bíblia. É imprescindível, também, ver o sentido que o texto em estudo significava para os primeiros leitores do Quarto Evangelho. Por último, para que a Palavra de Deus continue tendo o seu efeito eficaz, torna-se imperioso fazer-se uma aplicação contemporânea, que seja coerente em relação a tudo o que já foi pesquisado. 1.10

SIGNIFICADO TEOLÓGICO NO ESCOPO IMEDIATO, AMPLO E GERAL

Os discípulos se encontravam no cenáculo, participando da Ceia Pascoal. Já haviam lavado os pés, comido o pão (13:30), Judas acabara de se ausentar do local, causando um certo constrangimento, quando Jesus começa a falar de Sua glorificação e partida solitária. Esse era um tema que causava profunda tristeza à mente dos discípulos. O Mestre estava a ir-se embora, e sozinho. Para consolá-los Cristo começa, no capítulo 14, a falar do propósito de Sua partida e Seu retorno certo53, com a finalidade de buscá-los a fim de estarem para sempre com Ele. Dentro desse contexto de consolo, propósito de partida e retorno é que os versos 11 e 12 estão inseridos. De acordo com alguns comentaristas54, o verso 11 é o último verso pertencente à perícope que se inicia no sétimo verso do capítulo, e o verso 12 principia a perícope que vai até o verso 14. O início do verso 11, “crede-me que estou no Pai, e o Pai, em mim”, tem um tom de súplica, conforme A. T. Robertson: “Crede-me (pisteu,ete, moi), é a repetição de súplica, assim como em 14:1”55 (“credes em Deus, crede também em mim”). Esta súplica é feita devido ao pedido de Filipe no verso 8: “Mostra-nos o Pai”. Fica claro que três anos e meio não bastaram para que os discípulos enxergassem Deus em Sua revelação plena. Cristo, então, depois de tentar fazê-los ver, roga que cressem, “pelo menos por causa das mesmas obras” (v. 11). Para se ver o Pai é necessário primeiramente estar com o Filho (v. 9), ver o Filho (v. 9) e ouvir Suas palavras (v. 10). Por último, precisa-se crer no Filho e em Suas obras (v. 11)56. O ponto culminante para se ver o Pai, e assim achar consolo durante a ausência do Filho, está em crer nas obras (missão salvífica) que o Filho opera57. Crer nas obras, em João, além de significar crer na missão salvífica, também, representa crer que os milagres são sinais demonstrativos de que Jesus é 53

George R. Beasley-Murray, ed., Word Biblical Commentary, Volume 36: John, (Dallas, Texas: Word Books, Publisher) 1998 (ed. electronic). 54 William Barclay, Juan II, 180; F. F. Bruce, João, Introdução e Comentário, 257, George R. BeasleyMurray, ed., Word Biblical Commentary, Volume 36: John, (Dallas, Texas: Word Books, Publisher) 1998 (ed. electronic). 55 A. T. Robertson, Word Pictures in the New Testament, vol. V., 251. 56 Mário Veloso, Comentário do Evangelho de João, 288. 57 Idem, 288.


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o Filho de Deus58. Quem vê o Filho em ação também vê a Deus. Jesus queria que através da contemplação dos Seus sinais os discípulos pudessem crer nEle, por conseguinte ver o Pai e assim estar consolados.59 Se o verso 11 inicia em tom de súplica, a conotação do verso 12 é de ação e força. “E também fará” (kavkei/noj poih,sei) exprime a idéia de certeza absoluta de que aquele que crê fará as obras que Jesus fez e ainda em maior quantidade (não em maior qualidade)60. O discurso de Pedro no Pentecostes (Atos 2) e as viagens missionárias de Paulo, demonstram a veracidade dessa afirmação61. O verso 12 mostra o resultado da súplica atendida: a expansão da missão salvífica e a proliferação dos sinais que apontam a Cristo como o Filho de Deus. Habacuque 3:4 diz que “o justo viverá pela fé”. Mateus 17:20, Marcos 9:23, Marcos 11:20-24 e Lucas 17:6 apresentam a fé como preponderante na vida do cristão. Através dela o impossível acontece, o monte é transportado, Satanás é expulso, a salvação e a vida eterna tornam-se reais (João 11:24). E em João 14:12 novamente o crer é ponto imprescindível para o fazer. É importante notar, também, que mais uma vez o crer e o fazer estão unidos, como causa e efeito. Sem nos esquecermos, que o assunto principal de toda a conversa entre Jesus e os discípulos era o consolo e o propósito da Sua partida e retorno, é importante ressaltarmos, então, que uma outra forma de ver o Pai e receber consolação durante a ausência do Filho, é o trabalho ativo na missão de Cristo, fazendo Suas obras e reproduzindo Seus sinais. Com esse propósito é que Jesus declara: “fará também as obras que faço e outras maiores fará, porque eu vou para junto do Pai” (ênfase suprida). Ou seja, já que Cristo estava indo para o Pai, os discípulos deveriam continuar fazendo as obras de Deus e não esperar em ociosidade. Outra inferência que podemos tirar da frase “porque eu vou para o Pai” (o[ti evgw. pro.j to.n pate,ra poreu,omai\) é que os discípulos só poderiam fazer obras e sinais grandiosos se o Filho subisse para o Pai, porque assim a promessa do Consolador (João 16:7) se tornaria em realidade62. Tanto o estar como o ver e ouvir, tanto o crer como o fazer se concretizariam, através da habitação do Espírito Santo, na vida dos discípulos. 1.11

SENTIDO ORIGINAL

O evangelista João tinha em mente fortalecer a fé de uma comunidade espiritual atacada por conceitos filosóficos e gnósticos. Pensamentos que pregavam a completa separação da do mundo material, que é mau, com o mundo espiritual, que é bom e inacessível. Esse dualismo refletia no conceito de que jamais haveria um encontro entre dois mundos. E que a salvação dependia de um remidor celestial que viria à humanidade para outorgar-lhes conhecimento de sua verdadeira natureza. Portanto, o que o autor do quarto evangelho fez foi “transferir o referencial 58

George R. Beasley-Murray, ed., 1998 (ed. electronic). Tiago em sua epístola no capítulo 2 verso 14-26 mostra a relação que existe entre o crer e as obras. Ele diz que fé sem obras é morta (v. 17), e no verso seguinte afirma: “com as obras, te mostrarei a minha fé” (v. 18). 60 Francis D. Nichol, ed., Seventh - day Adventist Bible Comentary, vol. 5, 1036. 61 Robertson, 251. 62 Conferir com Lucas 24:49; Nichol, ed., 1036.; Bruce, 258. 59


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da época de Jesus para a sua própria época”63. Bruce escreveu que os primeiros leitores ou destinatários do quarto evangelho tinham um contexto diferente do momento em que Jesus proferiu suas palavras. Ele comenta que “para as pessoas desse novo mundo, Jerusalém e Palestina estavam geograficamente distantes e, mais do que isto, o estilo de vida que ali fora seguido sessenta anos antes...pertencia a um mundo que para eles, fazia parte do passado”64. A frase inicial do verso em análise “Crede em mim” é a mensagem Joanina contra um gnosticismo que invadira a mente dos homens seculares e de líderes da Igreja em seus dias. Como o próprio João aborda em sua I epístola no capítulo 4, existia a crença de que Jesus não viera em carne e que pregavam que Jesus não era o Messias. O propósito de João era que os homens cressem que Jesus era o filho de Deus encarnado. E que Ele e o pai eram um e possuíam a mesma essência divina. No verso 12 Jesus diz que aqueles que cressem nEle fariam as obras que Ele fazia e ainda maiores. Ladd afirma que existem “Duas palavras características,em João, relacionadas ao ato de crer, “sinais” e “obras”65. Para o autor citado (Ladd) os milagres e sinais que o Messias realizou não eram uma forma de pretensão, mas apresentava a verdade que pelo estabelecimento do reino de Deus na terra, satanás e seu reino foram derrotados. Isso mostra que os leitores de João,na virada do primeiro para o segundo século da era cristã,entenderam que as obras que Jesus fez e que Ele estava prometendo que seus seguidores fariam se estivessem nEle, eram as próprias obras de Deus. Portanto, “tais obras testemunham do fato de que Jesus é Aquele que foi enviado por Deus(5:36 e 10:25)”66. As obras do pai realizadas pelo filho resultariam em fé nEle, “e na realidade muitas pessoas simples vêem as obras(6:14), ouvem as palavras(7:40,41) e crêem (11:45)’67. Após a ressurreição de Cristo muitas pessoas aceitaram a salvação em Jesus. As obras que seus seguidores fariam em nome dEle seriam em maior dimensão. Essas “maiores obras” que os crentes fariam eram “não necessariamente ...na qualidade, mas seriam maiores na quantidade, conforme Pedro e o pentecoste e a missão de Paulo”68. 1.12

APLICAÇÃO CONTEMPORÂNEA

No mundo em que vivemos hoje, a solidão e a tristeza assaltam a felicidade da alma. A necessidade de companhia, esteio e refúgio são facilmente percebidas por todos os lados. Pessoas tentam de várias formas encontrar um sentido para suas vidas. A crise de existência ronda o planeta, e parece estar invadindo a Igreja. A pergunta de Filipe, “mostra-nos o Pai”, ainda é a carência tanto dos crentes quanto dos incrédulos. 63

D. A. Carson, Introdução ao Novo Testamento, 193. F. F. Bruce, João, Introdução e Comentário, 24. 65 G. E. Ladd, Teologia do Novo Testamento, 257. 66 Ladd, 258. 67 John Stott, Homens com Uma Mensagem, 77 68 Robertson, Word Pictures in the New Testament, 251. 64


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É dentro desse contexto que as palavras de Cristo, ditas a dois mil anos atrás, continuam impressionando as mentes e corações hoje. Para se ver o Pai precisa-se estar em comunhão com o Filho, ouvir Suas palavras, contemplar Sua face, investir tempo em estar à sós com Ele. Esse conceito é reforçado nas palavras de Ellen White: “Far-nos-ia bem passar diariamente uma hora a refletir sobre a vida de Jesus. Deveremos tomá-la ponto por ponto, e deixar que a imaginação se apodere de cada cena, especialmente as finais”69. Cristo não apenas ensinava que a comunhão é imprescindível para se contemplar a glória de Deus, Cristo também vivia o que pregava, pois Sua comunhão era tão intensa com Pai, que podia afirmar, em resposta a Filipe: “Eu e o Pai Somos Um” (v. 11). Isso nos assegura que através de nosso relacionamento espiritual podemos nos tornar um com o Filho, capacitando-nos a vencer os momentos de ansiedade, solidão e tristeza. A comunhão ininterrupta do crente com a divindade gera fé, não apenas uma simples disposição interna, mas um compromisso ativo, pisteu,wn eivj (crer em), ou seja uma fé dinâmica, um compromisso direto com objeto de nossa comunhão e confiança, que leva à ação. O crer não é emocional, mas envolve a vontade e o empenho70. Todos perguntam: “como podemos ver o Pai?”. A resposta de Cristo no verso 12 é que através do crer que resulta em obras, tanto o crente quanto o mundo, poderiam ver o Pai e assim estar consolados. Atendendo aos necessitados, amando os rejeitados, trazendo luz e vida aos que estão mortos nas trevas do pecado, a promessa de que faremos obras maiores que Cristo, se cumpre. O céu, então, se descortina, nossos olhos se abrem para contemplarmos Deus em Sua plenitude, através de Cristo. A solidão se acaba, a tristeza se transforma em alegria, as trevas se dissipam e a esperança de ver nosso Senhor voltando em glória é reavivada. 69 70

Ellen G. White, Desejado de Todas as Nações, 83. José Carlos Ramos, Evangelho de João: Introdução e Comentário, 42.


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CONCLUSÃO

Através do estudo exegético, análise do contexto imediato, amplo e geral, bem como a observação dos fatos históricos concernentes à época de Jesus e João “o evangelista”, pudemos ver que tônica nas palavras de Jesus refletia a necessidade por parte dos discípulos de estar, ver, ouvir e crer em Cristo como o Filho de Deus e Sua comunhão ininterrupta com o Pai, a fim de que pudessem realizar as mesmas obras e de forma mais abundante. Cumprindo, assim, a Missão salvífica, confiada inicialmente a Cristo e outorgada à Igreja. Da mesma forma, os cristãos hoje precisam ter uma comunhão ininterrupta com o Filho e crer na Obra por Ele realizada, para que se tornem manifestas as obras de Deus ao mundo, através de suas vidas.


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APÊNDICE

Será apresentado em seguida algumas janelas homiléticas extraídas do trabalho exegético, baseado em João 14:11-12. 1.13

PRIMEIRA JANELA

Missão em João I. Comunhão (v. 8-10) A. Estar B. Ouvir C. Ver II. Crer (v. 11) A. Relação entre Crer e fazer B. Nas obras de Jesus (Sinais) III. Fazer (v.12) A. Comprometimento na Missão B. Maior dimensão

1.14

SEGUNDA JANELA

Questões Sinceras e Respostas Profundas I. Senhor, para onde vais? (13:36) – Saber o rumo determina o sucesso na vida cristã. II. Senhor, como saber o caminho? (14:5) – Saber o Caminho é garantia de chegada. III. Senhor, mostra-nos o Pai! (14:8) – (conquistar o objetivo é a nossa meta) crença, permanência e atuação: fundamentos na vida daqueles que sabem o rumo e conhecem o Caminho para a glória.


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1.15

TERCEIRA JANELA

“O Discípulo é Maior que Seu Mestre” I. Duplo Amém – duas pessoas testemunhando garantiam a veracidade. Garantia divina. O que vai ser dito é garantido por Jesus. II. Aquele que crê – “Aquele” na Bíblia é a oportunidade de colocar o meu nome. III. Fará maiores obras – A qualidade divina capacita a quantidade no cristão.

1.16

QUARTA JANELA

Crer em Jesus (João 14:11) I. Crer em Jesus exige confiança. a) Uma fé testada b) Uma fé sem dúvidas II.

Crer em Jesus exige entrega. a) Uma fé aperfeiçoada por obras b) Uma fé sem reservas

III. Crer em Jesus exige esperança. a) Uma fé viva b) Uma fé partilhada


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